COXA de MÃE PROTEGE FILHO – conto de jb vidal

  baseado em fato real e os personagens existem e estão vivos.

o dia não lembro, ou melhor, a noite, mas o vento nordeste soprava forte, aliás, como sempre o faz  naquela época do ano, a época fora agosto de 1996.
                  acompanhava o nordeste uma chuva fina, daquelas que insistem em molhar os ossos. a região que recebia esta visita da natureza, era a Pinheira no município de Palhoça,  Sta. Catarina.
                  desde o início, a noite insistia em anunciar algo mais. tornava-se a cada instante mais encarrancada, ameaçadora, tipo mau-presságio.

                                                                     -.-
                 
                   sol, calor, chuva, frio, noites mal ou nem dormidas, o homem, determinado a chegar àquela casa no alto do morro da Pinheira, balbuciava pequenas palavras com grandes exclamações ao caminhar no acostamento da BR-101; pensava “ que porra! ninguém dá carona para alguém com mochila nas costas! o Cazuza tinha razão, a burguesia fede! filhos da puta!” mas, com o olhar fixo nos pés, como a temer que os perdesse, o homem seguia, e seguiu por uma semana, à pé, caronas de caminhoneiros, poucas, à pé. 
                   avançava. pés inchados, trôpego, o suor arregaçando os poros dava-lhe a sensação de que se desmanchava. o forte cheiro, de trilhões e trilhões de bactérias mortas, apodrecendo nos sovacos, na bunda, no saco, alcançava os pássaros em pleno vôo.
                  “comer! ah! comer! quando verei comida? deus existe? se existe para quê criou esta merda? se não existe, porque tanta gente mentindo que sim? as religiões são  mentiras organizadas? para que fim? ah! poder e dinheiro! Igreja e Estado! que dupla! sempre andaram juntos! objetivos comuns, dinheiro e domínio! esperança é mercadoria com prazo vencido! puta que  pariu! o quê que eu tenho com isso?  preciso é chegar antes que  morra de fome; eh! eh, eh, eh e se eu morresse e encontrasse com deus? ficaria com aquela cara de bunda olhando prá ele? sei lá!… mas, ele me perdoaria, afinal, é o que manda a gente fazer!” pensara, olhando a imensidão da estrada que desaparecia na garganta do horizonte.
                  nos restaurantes e bares encontrados no caminho – nada – quando o viam todos lhe davam as costas, os seguranças, pelo braço, o jogavam de volta à rua, os homens seguravam firmemente seus pertences de mão – chave da BMW, celular – as mulheres apertavam seus filhotes contra suas coxas.
                  que tipo de ameaça inspirava aquele homem com o olhar vencido pelos sofrimentos? vergado por um metro e oitenta de fome e solidão? quê poderia fazer com as chaves da BMW? dar uma voltinha no Batel? e o celular? ligar para quem? ah, sim, para Deus, poderia perguntar se no céu tem biguemeque!? jamais revelariam.
  

                                                                   -.-                  

                  da casa no alto da Pinheira, um outro homem, mais baixo mais forte, olhava o infinito por entre as nuvens que se tornavam ameaçadoras.
                  sempre foi dono de um olhar investigativo, desconfiado, atento.
                  no final daquela tarde balançava-se na rede da varanda. os olhos a buscar algo que não saberia identificar. lançou, por três vezes, o olhar sobre o mar esforçando-se para ouvi-lo além de vê-lo, não conseguiu, virando o rosto para o lado apanhou, de uma só vez, todo o vale, ficou nesta posição até olhar, de chofre, para o interior da casa. os pêlos do corpo levantaram-se.
                  teso, entrou e procurou alguém ou alguma coisa.
                  estava só a mais de um mês, mesmo assim, não poderia estar enganado, a sensação de presença era fortíssima. Fuzico, o cãozinho sem origem, que se autoproclamara guardião da área, passou a rosnar e latir em todas as direções; a respiração tornou-se ofegante, a musculatura contraiu-se e os pés mal tocavam o chão; procurou em todas  dependências, atrás das portas, embaixo da cama, saiu do interior e foi ao socovão –  sempre são surpreendentes – vasculhou tudo, nada.

                  voltou à rede, agora todo molhado pela chuva fina que começara a cair. estremeceu-se “ será de frio ou de medo”? perguntou-se em voz alta; lembrou da garrafa de pinga amarelinha que havia trazido de Morretes  e andou lentamente até a cozinha, notou que não havia mais que um gole. sorveu-o.
                  “ é preciso coragem para enfrentar o medo” gaguejou o pensamento, “ não há ninguém aqui, que merda é esta? o que está acontecendo comigo? será o fato de estar tanto tempo sozinho? não, um mês é muito pouco para alterar os sentidos; vou esquentar a janta e tratar de dormir, quero começar aquele trabalho bem cedinho”
                  foi o que fez, jantou e deu de comer a Fuzico. trancou as portas e janelas com cuidados além do costume. no banheiro, olhou-se no pequeno espelho mas seu rosto não cabia nele, afastou-se um pouco – “ agora sim” –  estava crispado, tenso, pálido, o que fazia a barba aparecer ainda mais. fitou-se por alguns segundos  “o que está havendo? que merda é esta?”com estes pensamentos encaminhou-se para a cama.

                                                                    -.-
                                                                  
                  noite alta. o homem, que saíra de Curitiba, há uma semana, subia o morro da Pinheira.
                  vento, chuva, raios. o corpo em pedaços.
                  a alma a ponto de abandonar aquilo.
                  roupa encharcada, mochila de arrasto, descrente de tudo, faminto, pés sangrando, enlameado, auto-estima perdida não sabe quando, fedendo no limite, prestes a crer em Deus como última saída.
                  buscava, durante os relâmpagos, avistar a casa; em uma fração de segundo, viu-a, uma sensação entre o prazer e a dor, tomou conta do seu frágil corpo ou do que dele restava.
                  a casa, às escuras. “ele está dormindo! ou será que saiu? foda-se, cheguei!” bateu na porta com as mãos, cabeça, joelho, nada! três, quatro, seis vezes, nada.                                                                                                                                                                             decidiu atirar-se contra a porta ao mesmo tempo em que, aos prantos , gritava  “ abre porra! porta! porra! porta! porta!” deixou-se escorregar até o chão.
                                                                      -.-                                                                 
                 

                    mesmo depois de estar deitado, o homem tremia, rolou-se na cama por muito tempo; os sons produzidos pelo vento e a chuva, já não eram aqueles ruídos que induzem ao descanso e ao prazer, naquela noite, eram acordes de marcha-fúnebre. olhos fixos no teto, adormeceu.
                 
                    o mundo parecia desabar, batidas na porta, gritos e batidas.  a insistência fez com que acordasse, ao mesmo tempo em que dava um pulo e se colocava em pé, transpirando aos cântaros indagou-se “ quem será? a voz é conhecida, será aquele cara com quem briguei ontem no Bar do Gaúcho? o que ele quer? o cara é louco, pode querer me matar! mas não foi pra tanto; se o prenúncio da morte é isto é uma merda! porra! reaja cara! és um homem ou um rato? puta que  pariu, sou um bosta mesmo! lembrar-me de ratos numa hora destas!”
                  jamais soube se era suor ou urina o que lhe escorria pelas pernas.
                 
                  respirou fundo, deu um urro, em razão do ar quente que aspirara lhe queimando os pulmões. a asma tem lá suas razões.
                 
                   pensou no pai, na mãe, nos filhos, nas mulheres que amou, nos amigos, arrependeu-se dos vinhos que não tomara, lembrou-se de uma garrafa que deixara pela metade no Bife Sujo – “vou acabar logo com isto!” – avançou decidido em direção à cozinha, abrindo a gaveta de talheres encontrou a melhor arma que havia na casa, um garfo com dois dentes de mexer em frituras. dirigiu-se para a porta. a meio caminho parou, como para montar uma tática de ataque “ ou seria melhor de defesa?” ainda voltou o olhar para Fuzico, que entrincheirado entre o fogão e a geladeira emitia uivos esganiçados.

                    engoliu nada e abriu.
          
                  a chuva fina, do inicio da noite, transformara-se em tempestade, não tinha noção de quanto tempo se passara desde a decisão de dormir. contra a luz dos relâmpagos, agora muitos, viu aquela figura alta, esquelética, assustadora que,  em pé, gritava:

- Kambé filho da puta, abre a porta Kambé!
                                          
                  Cláudio Kambé – que ali estava com o objetivo de recolher-se afim de operar seu ofício de artista plástico, usufruindo da paisagem e tranqüilidade do lugar,  lembrou-se dos filmes de vampiro e dando um salto para trás formou uma cruz com o indicador direito e o garfo sentenciando:
– vade retro Satanás! e soluçando entre lágrimas dizia “vade retro, vade retro, vade…” – baixa esse garfo Kambé que vou entrar! já com um pé dentro. Kambé recuando lentamente com o corpo todo a tremer pergunta:
– Batista é você? não, não é  possível que seja! você deve ter morrido,  isto é a alma penada!
– vai a merda Kambé, deixa eu sentar que estou quase morto, tu não sabes o que passei prá chegar até aqui.
– claro entra, entra, senta aí, não não aí não, senta naquela cadeira de praia você é puro barro, e que fedor! meu Deus! não é possível! isto só acontece comigo! fala Batista! começa a dizer o que veio fazer aqui seu porra! fala! porra! – sentando no sofá
– é o seguinte, meu amigo, mas antes de tudo, tu não tem algum rango por aí? tô mortinho”
– claro! mas vai falando enquanto eu preparo. Cláudio Kambé começa a mexer em pratos e panelas; “a fera já está domada” pensou Batista de Pilar com um leve sorriso no que parecia ser uma boca. 
– então…, é o seguinte, encontrei outro dia com o Rio Apa lá no Bife, ele tratava de um livro com aquele pessoal dele, e falei que estava querendo parar de beber, parar mesmo, mas que em Curitiba eu não conseguiria, tinha que me afastar de lá, sabe como é não é Kambé!? a mesma rotina, não deixa…, aí ele disse que se fosse essa a minha intenção realmente, que eu poderia vir para cá, aí pensei, pensei, e vim, é isso.
– é isso! é isso!? não é? seu demônio dos infernos! e eu? você não sabia que eu estava aqui? trabalhando! que precisava estar só!? concentrar-me, deixar fluir a inspiração, criar!
– justamente! pensei que seria bom para você uma companhia como eu, você pintando   e eu fazendo poesia…vai ser bom!
– vai ser bom porra nenhuma! maldição! rugiu Kambé servindo a comida.
– eu preciso parar de beber mermão, eu tinha que sair de lá, pelo menos por uns tempos.
– e eu que se fôda não é assim?  nisto não pensou! quer curar o teu alcoolismo me atirando na miséria? se eu não faço meus quadros eu não ganho cara! a tua presença só atrapalha! escuta aqui Batista! você descansa e amanhã se manda tá entendido?  estamos conversados!
                   as lágrimas do Batista salgavam mais a gororoba que comia de colher      
cheia, mastigando  com a boca aberta derrubava excessos de comida no colo, ainda encontrou forças para dizer:

- vai ser bom! e tu não vais ficar com a consciência pesada por não permitir que eu me trate.
– seu filho duma puta! quem é você para falar de consciência!? qual é a tua com relação ao meu trabalho? na verdade… não estás nem aí para o que possa acontecer comigo, se vou produzir ou não, o que te interessa é fazer o que queres, como queres, no momento que queres, egoísticamente, os outros, para você, são inimigos, responsáveis pela tua miséria e loucura! eu não tenho nada a ver com isso cara, é problema teu! essa é a tua opção de vida, ou o que de melhor ela te deu! assuma! ou te repense e vá a merda!
    
        fitou durante alguns segundos aquele homem curvado sobre o prato vazio,
pois  não havia mais o que oferecer, sentiu náuseas e foi para o quarto de onde gritou:

- toma banho, durma no sofá e amanhã te manda!” 
                  
  “ quê dia! quê dia! agora estou entendendo, estou entendendo toda aquela      
 aflição do fim da tarde!” os pensamentos em desordem se atropelavam “ filho da puta! consciência! que atrevido! não tenho nada a ver com isso! e o meu trabalho? aquela aflição já era a energia dessa carga pesada chegando! consciência! como se ele tivesse uma!” apagou a luz e adormeceu.
                  
                   porque dormia, não ouviu o ronco das tripas, nem viu um brilho estranho nos olhos daquela figura, em pé, olhando para a cama. ah se tivesse visto!
                  
                                                                    
                  passava  pouco das quatorze horas, quando Claudio Kambé terminou de arrumar suas malas. a chuva parara desde cedo. antes de sair cutucou o braço do Batista duas vezes, que roncava como se fosse uma moto-serra,  e fulminou:
estou indo Batista! espero que te  recuperes bem! abriu a porta e iniciou a penosa decida do morro ensaboado pela chuva forte.          
                  após percorrer algo mais que cinqüenta metros ouviu:

 – Kambé! Kambéééé!

- é lá embaixo, à direita, e o dono é conhecido por Gaúcho!
            um leve sorriso amenizou a descida de Cláudio Kambé.

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