MARIA e JOSÉ de marilda confortin
Março 27, 2008 de Equipe Palavreiros da Hora
- Oi. Você é São Caetano?
- Não. Sou Santa Maria e você?
- Atlético. Não vai me dizer que é Coxa?
- Sou. Bem branquinha.
- Ah! Que merda. Então porque está com essa blusa azul-são-caetano?
- Não é azul-são-caetano. É verde-coxa.
- É… sou míope. Teus olhos são lindos…. verdes e profundos como o mar.
- Não são verdes! São azuis, seu daltônico.
- Não sou Daltônico. Sou José. E você é?
- Já falei: Maria
- Maria e José. Que romântico… To afim de fazer uma arte hoje Maria. Você faz arte?
- Faço poesia, serve?
- Não era bem isso que eu tava pensando… sou engenheiro, não entendo nada de abstrato. Só de concreto.
- E eu sou poeta e não entendo nada de cantadas.
- É…já vi. Pra quem você torce na primeira divisão?
- Torço pro resultado ser exato. De preferência igual a zero. Tenho pena do resto da divisão. Ninguém liga pro resto da divisão. Ninguém compreende uma dízima periódica… Não gosto de divisão nem subtração. Só de soma e multiplicação.
- Eu to falando de futebol, sua loira burra! To falando de primeira divisão. Do campeonato paranaense. To falando de bola desenhando uma parábola no ar e procurando um par de pernas pra entrar e fazer um gol.
- Ah… Eu não entendo nada de futebol e a única parábola que conheço é a do filho pródigo. Porque raios você me abordou?
- Pra me livrar do cara sentado aí do lado. Ele é um saco.
- Humm… precisava ser salvo pelo gongo.
- Isso! Por um lindo gongo azul.
- Tinha um gongo no meio do caminho. No meio do caminho tinha um gongo. Conhece esse poema?
- Era um gongo? Nunca entendi esse poema. Você já publicou alguma poesia?
- Sim. Várias.
- Sério? Você tem um poema publicado?
- Um não. Três livros cheios de poesia. Quer um?
- Agora fiquei nervoso. E quando fico nervoso preciso mijar. Não saia daqui! Nunca conheci uma poetisa… péra aí tá? Deve ser bem interessante… poetisa… essa é nova prá mim.
E ele foi mijar. Bar da Brahma cheio. Minhas amigas na mesa, de mini-saia, pernas bronzeadas, lindas, solteiras e nenhum cristo para dar uma cantada nelas. Eu, recém apartada, cansada, de porre, com uma blusa ridiculamente verde e um cara pedindo para eu esperar enquanto ele mijava. Pode? Só quero ir pra minha caminha. Sozinha. Esse cara tem barulho de trem na cabeça, disse Cinthia. Tem mesmo, confirmou Celita, a dona da blusa verde-ridícula que eu usava. Barulho de carroça vazia… Pedi uma Skol pro garçom. Não tem, ele disse. Então me dá uma coca-cola para curar o porre, falei. E o garçom ficou me olhando com aquela cara de ponto de interrogação. Qualé? Apontou a placa com o nome do bar. Não entendi. Ele falou bem baixinho no meu ouvido “a senhora está no bar da Brahma”. É? E daí? É proibido beber neste bar? Indignado ele disse que só tinha Pepsi. Não quero Pepsi. Então me dá um guaraná Antártica.Preciso repor glicose. Ficou mais brabo ainda, me xingou de burra e não me trouxe nada. Garçom bobo e mal criado. E o tal engenheiro voltou.
- Fez xixi?
- Homem não faz xixi. Homem mija, mulé. Nossa senhora, que pernas!
- Pare de olhar pras pernas das minhas amigas, seu tarado!
- Tira os teus peitos do caminho que eu quero passar com a minha dor… lembra dessa música?
- Lembro. Mas não é peito. É sorriso. Vamos falar de engenharia. Eu gosto de teodolito e papel vegetal. E você?
- Teodolito?
- É divino. Nunca comeu? Um enorme Deus pirulito embrulhado numa folha de papel vegetal transparente. Papel vegetal não é a salada preferida dos engenheiros?
- Você é louca!
- E você é engraçado.
- Tá me chamando de palhaço? Sou engenheiro. E dos bons. Acha que não entendo nada de arte, é? Pois na última palestra, abri a apresentação com uma imagem da Pedra da Gávea para mostrar o que é uma obra prima divina. Sempre passo um pouco de poesia para essa garotada que sai da faculdade.
- Isso é bom. Desculpe. E também uso essas metáforas. Falei das Cidades Invisíveis, do Calvino e citei Leminski na última apresentação de Tecnologias.
- Eu já ouvi falar desse tal Calvino. E li o Catatau, mas, não entendi nada.
- Eu gosto dele. Até tomei umas vodcas com ele.
- Porra… Quem é você? Tomou vodca com o Leminski?
- Tomei, e daí.
- Mas ele está morto! Você é fantasma?
- Calma. Ele estava vivo ainda. E eu estou viva. Amanhã posso morrer. Se eu morrer você vai dizer que eu era boa?
- Não sei. Ainda não comi. Amanhã te digo. Tenho cara de tio?
- Tem. Porquê?
- Porque não sou mais tio. Hoje eu fiquei avô..
- Sério? Parabéns, vovô!
- Nasceu hoje de tarde. É uma coisinha tão feinha, uma bolinha enroladinha…
- Que linda! Você deve estar feliz com a netinha.
- To… to muito feliz… vou ter que sustentar mais um. Eu quero é pegar aquela bolinha de meia, enroladinha em cueiros e fazer embaixadinha com ela no corredor da maternidade e chutar pro gol. Gooooool! Já pensou? Uma bolinha viva saindo pela janela procurando o gol? Uma bola de gente, inteligente. Atlético, Atlético! Conhecemos seu valor.
- Fanático. Pare com isso. É tua neta.
- É neto. Macho! Duas bolas. Eu tenho três filhas, uma mulher e uma sogra. Estou cheio de mulher. Elas não me deixaram chutar a bolinha de gente. Disseram que vou quebrar os vidros do berçário.
- Três filhas, mulher, mora com a sogra e agora tem um neto… era só que me faltava. Você disse que era separado.
- E sou. Durmo na sala. Desde ontem.
- Briguinha a toa, Dói, mas passa.
- A única dor que sinto é nas costas. Tem uma mola quebrada no sofá.
- E você, tem um parafuso solto…. Por falar nisso, to com sono.
- Eu também. Vamos dormir?
- Vamos.
E fomos dormir. Literalmente. Cada um no seu sofá.
Você esperava o quê de uma história de Maria e José que se passou num bar, com dois cinqüentões torrados e frustrados, as quatro da madrugada em pleno século XXI? Que desse cruzamento nascesse um jesuscristinho que perdoasse todos os nossos pecados, curasse nosso porre e nos devolvesse o paraíso? Cai na real, Zé!
E foram infelizes para sempre. Amém.