1968, A SEXTA-FEIRA SANGRENTA – por manoel de andrade

esta é a 1ª das 4 partes da matéria onde o poeta manoel de andrade relata, 40 anos depois, os fatos mais relevantes de 1968, no Brasil e no mundo. na época, estudante de história, e com sua poesia sendo reconhecida nacionalmente, ele foi um observador atento dos graves acontecimentos que marcaram todo aquele ano, e que terminou, em 13 de dezembro, com a edição do sinistro AI-5, oficializando o pânico e a brutal repressão política, lotando as prisões do regime  e obrigando milhares de brasileiros a entrar na clandestinidade ou a fugir do país, como ele mesmo teve que fazer, em conseqüência da panfletagem dos seus poemas contra a ditadura.

 

o editor.

 

1968- Uma revisão

 

1ª/4ª parte: A sexta-feira sangrenta

 

          O ano chegava ao seu último quartel respirando o pressentimento de uma surda e sinistra ameaça por trás dos biombos do poder. O País, desde o golpe militar de 64, seguia sua trajetória nebulosa e imprevisível. Sentiam-se os  agudos sintomas sociais de uma crise potencial que, dia a dia, ia cavando suas imperceptíveis  trincheiras e radicalizando suas posições para o enfrentamento. As palavras, no plano político, haviam perdido a sua opção pelo diálogo e os atos e os fatos iam desfigurando sempre mais a face institucional da Nação. Sob o pano de fundo deste cenário inquietante, um fenômeno social surge desafiante na ribalta nacional. O movimento estudantil que a partir de 1964 fora sistematicamente reprimido, com a própria sede da União Nacional dos Estudantes saqueada e incendiada no mesmo dia do golpe, retoma gradativamente o seu espaço político.

          A UNE, a partir de 1966, desafiando proibições e ameaças, passa a realizar clandestinamente seus congressos e, a partir de 1968,  integrando-se a uma onda mundial de protestos estudantis, ocupa no Brasil o principal papel no palco das grandes manifestações populares contra a Ditadura Militar.

     O ano de 1968 foi um marco indelével em minha vida e creio que na vida de qualquer cidadão consciente, no Brasil e no Mundo. Eu terminara o curso de Direito em 66 e cursava o segundo ano de História na Universidade Federal do Paraná. Nosso calendário estudantil iniciara o ano letivo marcado pelo luto nacional. Ele tinha apenas 17 anos e seu sangue de infante tingiu, indelevelmente, nossas vidas. Edson Luis de Lima Souto foi morto em março, no Rio de Janeiro, marcando o início de uma movimentação estudantil que envolveria, ao longo do ano, toda a vida nacional e que culminaria com a invasão e ocupação militar da Universidade de Brasília, em setembro e, em outubro, com a prisão de 920 estudantes no Congresso da UNE, em Ibiúna.

          Na sexta-feira, 29 de março a cerimônia do seu sepultamento  partiu da Cinelândia  com um acompanhamento calculado em 50 mil pessoas. A vanguarda do cortejo ostentava uma faixa onde se lia: “Os velhos no poder, os jovens no caixão”.O país estava perplexo. Como que acordava de um longo pesadelo. Parecia que aquela revolta, por tudo o que estava acontecendo no Brasil desde 64, fora preguiçosamente protelada, que cochilara por quatro anos e que agora finalmente despertava.                                                

          No dia 4 de abril, muitos de nós, estudantes e intelectuais, aqui em Curitiba, aguardávamos, apreensivos, o desfecho do que seria a tão anunciada missa de sétimo dia pela alma de Edson Luiz, na Igreja da Candelária.. Às 18 horas, a Praça  Pio X estava totalmente tomada pelos cavalarianos  da P.M. e por fuzileiros navais, somando cerca de 2.000 soldados e mais os agentes do DOPS, todos em volta da Igreja sitiada.

          A celebração começou tranqüila com um estudante lendo o segundo versículo do capítulo 12, da Carta de Paulo de Tarso aos Romanos:

 

E não vos conformeis com este tempo, mas transformai-vos moralmente, renovando     vosso espírito para compreender a vontade de Deus, que é boa, agradável e perfeita.

 

          Se estas recomendações evangélicas  tiveram alguma importância para um ateu como Otto Maria Carpeaux, para um trotskista como  Mário Pedrosa, para um comunista como Oscar Niemeyer ou para os incrédulos, agnósticos, e esquerdistas de tantas dissidências ali presentes, é apenas uma singela ilação e, por isso mesmo, sem nenhuma relevância. Contudo é relevante afirmar que todos estavam ali reunidos num gesto grandioso de solidariedade, acima de qualquer confissão religiosa ou ideologia política. Ali entraram, arriscando a própria pele, para prestar a última homenagem ao primeiro jovem mártir da Ditadura que, uma semana atrás,  lutando contra o fechamento do restaurante Calabouço, tombara com o peito perfurado pela bala de um PM.

          Dentro da igreja se comprimiam 600 pessoas amedrontadas, divididas entre as que confiavam no amparo divino, no bom senso da polícia ou magnetizadas por maus pressentimentos. Quando a missa chegava ao fim, os ruídos dos cascos dos cavalos e o ronco de um avião se ouviam entre as altas naves do templo, como  se ouvia também um surdo murmúrio  prenunciando o angustiante calvário da saída. Na cabeça de muitos ali presentes, pairava a lembrança da missa daquela mesma manhã, encomendada pela Assembléia Legislativa em memória de Edson Luis, e cuja saída, calmamente iniciada, foi subitamente cercada pela Cavalaria, numa sinistra e calculada operação de encurralamento ante as portas já fechadas da Igreja. Foi uma pancadaria ou um massacre, segundo os jornais da época.

          Agora, ao anoitecer, se redesenhava uma nova via crucis. Os portões da igreja são novamente bloqueados pela Cavalaria da Polícia Militar. Na saída o bispo auxiliar da cidade pede calma e os quinze padres  de mãos dadas, formam dois cordões  por onde a multidão começa a sair espremida.  As pessoas deixam a igreja com os olhares fixos nos cavalos e nos cavaleiros. Há em toda praça uma tensão insuportável, alimentada pelo  pânico das “vítimas” e a impaciência dos “algozes”. E eis que surge o impasse, uma fronteira intransponível. Um limite para todos os passos. Ouve-se a ordem:

          Desembainhar! 

          Em seguida os gritos ordenam:

          Recuem, recuem…! Aqui ninguém passa…!

          Diante da massa humana acuada, os padres, num gesto de imensa coragem, levantaram os braços e, em nome de Deus, se dirigem ao major dizendo que aquela manifestação não era uma passeata, que todos queriam apenas voltar para suas casas. Foram minutos intermináveis entre virtuais ofensores e ofendidos. Ninguém mais ousou intermediar o diálogo. Havia ali dezenas de intelectuais ilustres, políticos, líderes estudantis, professores universitários. Todos estavam paralisados. Finalmente, ante a iminência de um massacre, ouviu-se uma frase que soou como uma graça recebida, como uma resposta a tantas preces, explícitas ou inconfessáveis, mas que por certo foram  ali silenciosamente pronunciadas, no imperscrutável sacrário da alma:

          Dispersar, dispersar… A ordem é dispersar.

          Os sacerdotes, como que assistidos por uma força invisível, coordenaram a saída disciplinada e silenciosa pela calçada. Postados num cruzamento da Avenida Rio Branco,  todos paramentados, ali permaneceram até que passassem, sãos e salvos, todos os “sobreviventes” do ato religioso. Por certo, em suas orações, daquela esquina pra frente entregavam a sorte daqueles rapazes e moças, nas próprias mãos de Deus, sem imaginar que mais adiante muitos deles seriam brutalmente espancados e presos.

            

          A classe estudantil em 68, simbolizava o mais belo estandarte de luta que se empunhava contra a Ditadura Militar. No embalo dos acontecimentos de maio, em Paris, que acendeu o pavio da revolta estudantil no mundo inteiro, aqui também tivemos, em junho daquele ano, no Rio de Janeiro, as nossas barricadas de Nanterre, levantadas na  Avenida Rio Branco e nas ruas México e Graça Aranha.

           Os protestos contra a repressão começaram no dia 19, e chegaram ao auge do enfretamento no dia 21, que ficou conhecido como a “sexta-feira sangrenta”.

          Logo depois das 13 horas os fatos se precipitaram num desesperante torvelinho de violência. Os ânimos, sobrecarregados pela repressão oficial de três dias, uniram populares e estudantes que avançaram contra os batalhões da polícia. O centro do Rio se transformou num original cenário de batalha, com gente correndo em todas as direções. Em dado momento surge a Cavalaria e depois os batalhões de choque que, que pari passo, vão ocupando a Avenida Rio Branco até encontrar as barricadas.  A polícia, sob a chuva dos mais variados objetos atirados do alto dos edifícios, avança abrindo fogo e ultrapassa a primeira barricada. Os agentes do DOPS chegam atirando contra os manifestantes, em disparada pela rua, e contra os que se postam nas janelas dos prédios. Zuenir Ventura, numa das mais dramáticas referências que se escreveu sobre aquele ano, ao registrar a memória daquele dia, no seu livro “1968 – O ANO QUE NÃO TERMINOU”, relata que:

 

Ao contrário do movimento francês, não se lutava no Brasil contra abstrações como    a

“sociedade de opulência ou a “unidimensionalidade da sociedade burguesa”, mas contra uma ditadura de carne, osso e muita disposição para reagir. As barricadas de Paris talvez não tenham causado  tantos feridos quanto a “sexta-feira sangrenta” do Rio, para citar apenas um dia de uma semana que ainda teve uma quinta e uma quarta quase tão violentas.(…)  Durante quase dez horas, o povo lutou contra a polícia nas ruas, com paus e pedras, e do alto dos edifícios, jogando garrafas, cinzeiros, cadeiras, vasos de flores e até uma maquina de escrever.

 

          O saldo doloroso dos fatos ocorridos na “sexta-feira sangrenta” deixou uma declarada indignação entre estudantes,  intelectuais e  em muitas categorias profissionais da população carioca. Como conter tanta revolta? Aquilo não poderia ficar por isso mesmo. Artistas, jornalistas, escritores, professores começaram a articular alguma forma de manifestação que lavasse a alma de tantos ofendidos. Naquela mesma noite algumas reuniões paralelas foram feitas e nelas protagonizaram as idéias de Ferreira Gullar, Gláuber Rocha, Arnaldo Jabor, Hélio Pellegrino, Cacá Diegues, Luís Carlos Barreto, Ziraldo  e outros.

          Na manhã seguinte, no Salão Nobre do Palácio Guanabara, o psicanalista e escritor Hélio Pellegrino, a frente de 300 intelectuais, entre os quais Oscar  Niemeyer, Clarice Lispector, Paulo Autran, Tônia Carrero, Milton Nascimento, Nara Leão, etc., solicitava ao Governador Negrão de Lima a autorização oficial para realizar uma passeata pacífica, no centro do Rio, sem a presença dos policiais na rua. Depois de uma longa e difícil negociação, em que foi exigida, também, a libertação de presos políticos  – numa referência ao diretor de teatro Flávio Rangel e ao arquiteto Bernardo Figueiredo – o Governador, esmagado pela argumentação  de Pellegrino, concordou em liberar a passeata. Na quarta-feira, 26 de junho de 1968, depois de três dias de tensas negociações com  autoridades municipais e federais pela segurança do trajeto, o Rio de Janeiro iria assistir  uma das maiores, senão a maior, manifestação popular de sua história: A Passeata dos Cem Mil.  ( Segue na segunda parte a ser publicada).

 

estudantes velam o corpo de EDSON LUIS SOUTO. foto sem crédito. ilustração do site.

 

2ª/4ª parte: A Passeata dos Cem Mil – publicada aqui:  

http://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2008/05/05/1968-a-passeata-dos-cem-mil-por-manoel-de-andrade/

 

3ª/4ª parte:  Partidão versus Foquismo

http://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2008/05/12/1968-partidao-versus-foquismo-por-manoel-de-andrade/

 

1968: Uma Revisão  – 4ª Parte:

 

 

 

 http://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2008/05/29/as-barricadas-que-abalaram-o-mundo-por-manoel-de-andrade/

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6 Respostas

  1. Olá estou produzindo um documentário sobre a semana sangrenta e gostaria do contato de ambos autores.
    Grata.
    Paula

  2. Caro Luciano,

    você fez dois comentários em dois sites onde meu artigo foi publicado. Esta resposta vai para ambos. Quanto a sua pergunta sobre a localização de edições antigas da revista Manchete, no Blog MINHAS HISTÒRIAS, do Rio, siga a orientação no comentário de seu editor, o historiador Alberto Moby.
    O fato de seu pai ter sido preso, embora caracterize uma violação circunstancial da liberdade, não pressupõe, isoladamente, o caso de uma indenização política. Ele teria que provar, como consequência dessa prisão, que foi torturado, como você afirma, se perdeu o emprego ou teve que deixar o pais por uma posterior perseguição política. Para entrar com um pedido de reparação junto a Comissão de Anistia junto ao Ministério de Justiça, em Brasília, é necessário juntar dados testemunhais, bem como registros de suas atividades políticas, na época, que podem ser pesquisados no Arquivo do DOPS, no Arquivo Nacional e no Arquivo Estadual, todos do Rio. Para maiores exclarecimentos você pode entrar em contato com o Forum de Reparação do Rio
    (email: ‘forumreparação.rj.08@gmail.com’).

    Complementando e informando quero acrescentar que a questão dos ex-presos e perseguidos políticos no Brasil, na ditadura militar, começa a ser organizada em alguns estados com instituições preocupadas em fazer o levantamento dessa memória. Em São Paulo já se criou o MEMORIAL DA RESISTÊNCIA e o Núcleo de Preservação da Memória Política, ligado ao FORUM DE EX-PRESOS E PERSEGUIDOS POLÍTICOS DO ESTADO DE SÃO PAULO cujo site é: http://www.forumpermanentedeexpresos.com.br, com uma atividade permanente e dirigido por Maurici Politi, ex-preso político e que acaba de lançar o livro “RESISTÊNCIA ATRÁS DAS GRADES”, descrevendo a famosa greve de fome de um grupo de presos políticos de São Paulo, em 1972, entre eles Frei Beto, e condições carcerárias dos presos políticos na Penitenciária de Presidente Venceslau.

    Aqui no Paraná, o GRUPO TORTURA NUNCA MAIS, desenvolve também uma atividade permanente com reuniões semanais e a realização de programas culturais em sua sede e nos meios universitários, com filmes, documentários, palestras,música e poesia visando reavivar a memória de mortos e desaparecidos e denunciar os crimes da ditadura no Estado. A instituição, que atualmente desenvolve também um projeto de depoimentos pessoais entrevistando as vítimas da ditadura, no Paraná, com vistas a divulgação pela internet e ao acervo de um futuro MEMORIAL DALIBERDADE , em Curitiba, é muito bem dirigida pelo companheiro Narciso Pires, ex-preso político, com grande conhecimento nacional sobre a questão de ex-presos políticos e cujo espírito de solidariedade e despojamento me autorizou deixar aqui seu email para que você possa lhe fazer diretamente uma consulta: email: narcisopires@gmail.com
    Um fraterno abraço…, Manoel de Andrade

  3. Meu pai ainda esta vivo e gostaria de saber se cabe algum tipo de indenização quando ele foi preso na época da sexta feira sangrenta.Ele saiu em uma foto na revista manchete de julho de 1968 algemado por um soldado e foi torturado.Gostariamos de informações.Luciano tel (21)78222791

  4. sem duvida foi uma mais covardia da epoca sem comentario

  5. Prezada Silvana…, perdão pelo mes de espera. Duas viagens, muito trabalho e matérias agendadas para publicação. Parabéns pelo romance — cujo cenário é um tema tão relevante e é imprescindível denunciar ao mundo. Se puder te ajudar será com alegria. De pronto, a primeira ajuda que te posso dar é dizer o que já deves saber: que há uma imensa bibliografia a ser compulsada. Mas vamos lá: A mais completa sobre esse assunto é a obra ILUSÕES ARMADAS do escritor e jornalista ítalo-brasileiro ELIO GASPARI. Outro livro importante é o de ZUENIR VENTURA: 1968 – O ANO QUE NÃO TERMINOU. Segue-se um livro muito agradável e descontraido de FERNANDO GABEIRA: O QUE É ISSO COMPANHEIRO. Leia também o relato dramático sobre o que foi a ditadura militar no livro BATISMO DE SANGUE de FREI BETO, e segue-se o COMBATE DAS TREVAS de JACOB GORENDER, etc. Nos volumes da obra de Elio Gaspari você encontrará a melhor e mais rica bibliografia sobre o assunto para o pano de fundo do teu romance.
    Continuo à tua disposição e espero um dia ler esse teu livro.
    Se você achar interressante continuaremos a interagir por email.
    Um fraterno abraço…

  6. Um relato muito interessante. Para nos vermos como é ruim viver sobre um regime totalitario e censuravel.
    Estou escrevendo um romance, cujo um dos panos de fundo é a ditadura militar!
    Se você Manuel puder me ajudar com alguma coisa ou algum fato dessa época por favor escreva para o meu e-mail!

    Grata Silvana Telles

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