Para Zuleika dos Reis
- O que é isto? Desejais nos dar morte?
Era isso precisamente o que queriam que lhes acontecesse,
que morressem imediatamente e ali mesmo, no jogo de pelota
Popol Vuh - Livro de Origem dos Quichés
Chovia gatos e cachorros nos arredores de Londres. O clássico de futebol havia sido cancelado porque o sistema de drenagem do campo não funcionava a contento. Na sala de fumantes da sede falava-se das quantias bilionárias gastas pelo clube na contratação de jogadores e dos salários pornográficos destes, em detrimento da manutenção do campo, tabuleiro de nossas esperanças semanais. Devo dizer que nem sempre concordo com tal maneira de considerar estes assuntos. De fato, culpar a diretoria de gastos excessivos na equipe, razão de ser do clube é, no mínimo, injusto. Parece que os dramas da natureza predispõem à desforra, modo primário de afastar a sensação de impotência. Falou-se de craques do passado. Naturalmente, neste item houve discordâncias. Como compensação, talvez, surgiram nomes de atacantes e defensores sobre os quais coincidiam as opiniões adversas, porém, também se falou do “Magrão” Domínguez, do “Russo” Goldbaum, do Sublime Amadeo e do Grande Rugilo, cognominado “O Leão de Wembley” pelos próprios inventores do esporte em pauta; todos eles goleiros internacionais que defenderam nosso time. O Doutor Jotas, que em sua juventude foi declarado rei dos artilheiros por ter marcado seus tantos gols, lembrou goleiros de atuações irregulares. Obviamente, o mau tempo azedara seu humor.
Para restabelecer a justiça das opiniões, L., modesto Conselheiro da Comissão de Frente, pediu licença para intervir. Concedida a vênia, inspirado como um repentista antigo, falou:
Nunca fui inconstante nem falso, Excelência, apenas velei pelo rigoroso cumprimento das escrituras. Não me escapa que deve parecer excessivo. A Lei existe para ser violada, reza célebre aforismo de um prócer nacional. Se Vossa Excelência não leva a mal, deixe-me dizer-lhe que ainda vivemos na idade da obediência, falta-nos muito para chegar à do Respeito, à do Direito. Sobrevive-se da ilegalidade: o tal jeitinho. Porém, eu sempre usufruí a Lei de acordo com a minha consciência e o meu conhecimento estrito do regulamento, o que já diz muito ao meu favor, reconheço. Nunca permiti que a apatia, a preguiça, o cansaço, a conveniência, encampassem a minha fé no estudo da Lei e na sua aplicação rigorosa. Essa é a verdade, Excelência. Palavra de goleiro!
Vossas Excelências, que apreciam a boa literatura, devem saber que dois grandes romancistas do século vinte, um judeu-russo e o outro franco-argelino, este, filósofo, de lambuja, foram goleiros amadores na sua juventude. O primeiro, do Esporte Clube Russo, em Berlim, o outro em sua África natal. E o filósofo, Prêmio Nobel também, porém não de goleiro, esclarece a resenha, declarou que de suas experiências da vida, a que mais lhe ensinou foi o futebol. Notem Vossas Excelências a importância maiúscula da prática do esporte mais popular do mundo na vida intelectual!
Hoje sou um reles espectador, não torcedor teleguiado, pois pretendo levar para o túmulo meu senso de eqüidade. Defronte ao vídeo analiso cada jogada sem paixão alguma, como o crítico acadêmico vê um filme sem graça, e a julgo segundo o regulamento. Assim concluí que o cartão amarelo é pouco usado, do vermelho nem falar! Se eu fosse o árbitro, outro galo cantaria, podem crer!
Eu por mim tenho que na primeira jogada brusca deve-se aplicar o cartãozinho amarelo ou o vermelho, se couber. O jogo começa com o primeiro apito do juiz e acaba com o último, o tempo entre esses dois momentos são a partida propriamente dita, nesse tempo se aplicam todas as regras do jogo. Aquele que cometeu a falta conhece, ou deveria conhecer, as leis que regem seu rico ganha pão. Cometeu falta?, seja advertido: da próxima vez será expulso. É a regra, clara, precisa, publicada em letra de forma. A punição faz parte do jogo. Quem entra em campo deve estar ciente disto.
Tenho a honra de informar Vossas Excelências que fui goleiro do União de Floresta, time do meu bairro, e isto não por muito tempo. Conseqüência do meu conceito ético, da minha pirraça, na interpretação dos meus detratores.
Diziam que as minhas atuações eram irregulares porque desconheciam o que ora revelo com exclusividade a Vossas Excelências (e ao nosso respeitável público, de ricochete): minha ética profissional e meu profundo respeito aos direitos do adversário. Opino que se abusa das exceções. Recursos, como direi?, paliativos?, atenuantes? Falo do escanteio, lateral, bola recuada, impedimento forjado, proteção de bola com o corpo, intenção de falta, sic, retenção de bola, assim se chamava à cera na minha terra; a desobediência cívica, especialmente na marcação de faltas graves e as intervenções dos assistentes, o gandula não menos que os técnicos, sempre vistos como autoridades laterais, para não dizer secundárias, porém, autoridades.
(Voltemos ao relato como o goleiro ao tiro de meta)
Os que julgavam minha atuação segundo padrões físicos, táticos, estratégicos, avaliavam meu comportamento por estreitos conceitos esportivos. Outro era o meu ponto de vista. Para aperfeiçoá-lo, habituei-me a ver os jogos de trás do gol, assim ficava mais perto de suas peripécias. Eu era a sombra do goleiro de turno, seu duplo. Aliás, acho que o filósofo supracitado deve ter aprendido muito de dramaturgia e direção teatral por jogar nessa posição privilegiada.
Houve uma idade em que o esporte era exercício de cidadania, ainda mais, um dever sagrado. O que entendo por isto? O exercício dos direitos, Excelência! Eu vivi essa idade de ouro, como todo mundo. Explico-me, as circunstâncias excepcionais: escanteio, lateral e outros que tais, são subterfúgios do jogo quando provocados propositadamente. Eu nunca cedia escanteio se podia evitar. Devolvia a bola para o campo, com o risco de um atacante colocá-la lá dentro. É o meu jeito de ser: tudo pela justiça! Parecia-me desonesto colocar a bola fora de jogo quando a expectativa era a de continuar. Não apenas o público esperava tal comportamento, também o time adversário. Era questão de honra cumprir este requisito. Sentia que fugia à natureza do jogo apelando para um recurso escuso, se posso dizer assim. A grande defesa que evitava a bola balançar a rede, era a minha alegria íntima, se bem que fogo pálido para minha torcida. Que nem sempre conseguia meu filantrópico objetivo e a bola brilhava lá dentro, é verdade, é da natureza deste esporte viril; mas eu sabia que me havia esforçado tanto quanto possível para que isto não acontecesse, e que mais uma vez tinha contribuído para a beleza do espetáculo, mesmo a custo da derrota momentânea ou definitiva. Agir de outro modo seria deslealdade para com o adversário e o espectador, que havia deixado sua oferenda para ver a gorduchinha rolar na grama. A bola ia bater no travessão? Deixa ela! O deus da esfera, deus minúsculo, porém anárquico e rigoroso como qualquer outro, exigia que eu me expusesse ao perigo. O obstáculo definia o limite físico da legalidade. No altar estava eu, vítima e sacerdote, último guerreiro defensor da pátria exorcizando a conquista da cidadela.
Atrevo-me a dizer que historicamente o goleiro é signo de civilização. Chutar a bola para frente qualquer cachorrinho vira-lata faz, estamos cansados de ver isto no circo. Atacar é o ofício do bárbaro. Defender pressupõe um paradigma da urbe. Exige uma legislação adequada ao mesmo e inclui funções especializadas para os cidadãos, dentre as quais, certamente, a defesa não será de somenos. Vossas Excelências conhecem melhor do que eu as cidades muradas e os condomínios fechados. Mesmo nestes, Ele é necessário. Precursor de Clark Kent, herói de pacotilha, e do messiânico Conselheiro euclidiano! Sempre haverá Tróias e Eróstratos, sitiadores e incendiários internos e externos que tornem imprescindível a existência atribulada do porteiro e seus guardas suíços, ditos zagueiros. Todavia, a injustiça acompanha a existência do goleiro desde o seu nascimento, hoje não menos que outrora. Vede que não é ele quem escolhe o gol de início de partida, oh, não! É a Autoridade, o Capitão do time. E ao catador de frangos, soldado obediente, cabe acatar a imposição sem questionamentos, feito menor de idade! Quão poucas vezes suas funções de goleiro coincidem com as de Capitão nem é preciso mencionar. Houve alguma vez um goleiro com o título de Melhor Jogador do Mundo? Desculpem a minha ignorância magna. Esclareçam-me, Excelências, se isto por acaso já foi cogitado nas instâncias pertinentes e eu ser-lhes-ei grato per saeculo seculorum! Vossas Excelências tenham a fineza de dispensar este parágrafo inflamado e erudito!
Se pela camisa diferente e minhas prerrogativas funcionais lembrava um Mestre-Sala, sabia que era o último arqueiro da linha de defesa. Posto grave e ingrato. Quando o goleiro defende a bola envenenada disparada a queima roupa pelo fuzileiro do outro lado, ainda que a bola pese setenta quilos, nada mais fez do que cumprir seu dever, mas se a danada entra, não há outro Cristo para partilhar a culpa. Nada o libera da crítica, sequer a sua colaboração para a beleza do drama. Vossas Excelências sabem melhor do que eu que está assim de jornalistas querendo fazer a gente de besta! O gol pode ser resultado de uma jogada belamente arquitetada, porém a atitude do goleiro contribui em muito para a realização eficiente do ritual. Veja-se como vibra o estádio quando este soldado se estica para alcançar o dardo certeiramente dirigido sem alcançá-lo. Poucas vezes o aplauso consagra seu feito, essa é que é a verdade. Este comportamento é completamente diverso no caso do gol-acaso, quando nosso protagonista, surpreendido em sua boa fé, seja pela retaguarda, por acreditar na imperícia alheia ou qualquer outra circunstância atenuante, semelha um terceiro poste encravado no vazio de mais de quatorze metros quadrados, alvo de qualquer franco atirador. Ei-lo, estático, de gelo, pétreo, a bem dizer! Neste caso o gol nem tem graça, é ou não é?
Eu estava devotado à pureza do espetáculo. A preservação dos meios legítimos do jogo sempre foi a minha justificativa para atuações julgadas apressadamente de irregulares. Nada havia de irregular se era justa, e se era justa era bela. Tudo fora pensado à luz do regulamento, da regra, da lei, em suma. Como Vossas Excelências podem notar, o jurista habitava em mim tanto quanto o guerreiro, travestidos de árbitro e goleiro, com uma pitada de artista. Minha conduta era a magra compensação pela frustração de não exercer o Direito Internacional. A total ausência de recursos não me permitiu seguir estudos superiores em tempo regulamentar, sempre vivi restringido pelos meus parcos meios financeiros; assim, advoguei em causa própria segundo meu bom senso, dentro de minha jurisdição. Vede quantos impedimentos fazem uma carreira!
Como juiz eu seria excessivamente rigoroso, especulava a crônica oral do meu bairro. Ignorava-se que há muito eu já me julgara no exercício de minha humilde posição.
Desconhecem espírito estóico do goleiro aqueles que o acusam de exibicionista. Nada sabem da solidão do rei! A torre está exposta a ventos e marés, e não há fosso nem ponte levadiça que a proteja, apenas ele de atalaia.
Não pode imaginar a verdadeira dimensão daquele retângulo vazado quem nunca enfrentou, ou se expôs, melhor dizendo, ao artilheiro na hora crucial do pênalti. Já naquela época era permitido se movimentar em vaivém sobre a linha de cal. Eu não desperdiçava a regra. Dava pulinhos de lá para cá, mor de confundir o verdugo. Porém, para este caso extremo, eu havia adotado três atitudes do meu modesto arsenal técnico, e as colocava em prática de forma alternada. Contrariamente à maioria dos colegas, que decidem mergulhar num dos lados da meta de forma aleatória, a la diable!, digamos assim, apesar da afirmação de Herr Hand que apenas imaginou, sem que se tenha notícia de jamais ter sentido a angústia do guarda-redes no cadafalso futebolístico (Preclaro Leitor, não vos incomodeis se vez por outra me valho do vernáculo lusitano para variar um pouco meu dizer). Vossas Excelências sem dúvida terão notado que este lado é sempre baixo, pois não? Mergulho ou salto mortal às vezes recompensado por coincidir com a escolha do anti-herói. Eu, ao contrário, pulava para um dos ângulos superiores do gol. Vossas Excelências hão de convir comigo que, do ponto de vista geométrico, tal comportamento é mais lógico, se bem que menos estético, pois ao cair, caindo, cobria toda a altura do gol do lado escolhido Perdido por perdido, tanto dava no porão ou no andar de cima. Isto provocou não poucos risos, muitos mais do que aplausos, em todo caso, pelas poucas vezes que tive êxito. Outro jeito era ficar imóvel no meio do gol. As estatísticas indicavam em números quão poucos marcadores escolhiam aquela direção para dirigir o dardo, apesar de contar com a queda do guardador do túmulo num dos cantos inferiores. Creio que a presença do goleiro naquele local no momento anterior perdurava na visão deles como um espectro de mau agouro. Eu, previdente, não descuidava aquela área tabu. A terceira tática consistia em apontar o ângulo de minha opção, desafiando, tentando induzir, instigar, enfim, o cobrador, a me vencer naquela zona escolhida, segundo fazia, com sucesso variável, um goleiro caolho da segunda divisão. Demais está dizer que no meu caso isto rendeu mínimos frutos: faltava-me a autoridade do caolho. Aplicava estas pequenas astúcias de forma alternada, como já tive a honra de informar Vossas Excelências. Aquele chutador que me conhecesse poderia contar com estes truques, sem, contudo, jamais estar certo à qual deles eu recorreria dessa feita, e isso já era algo que poderia perturbá-lo, facilitando as coisas para mim.
Pênalti? Pelotão de fuzilamento a doze passos de distância, Excelência! Pelo menos metade do estádio deseja a crucificação do goleiro. Comemora-se seu sacrifício antes mesmo de apitar o comandante da execução. Se a sorte, ou o acaso, fazem que a bola suba demais ou decida alargar seu percurso beirando o poste ou a trave, pode se sentir feliz, a crítica vai desancar o pobre fuzileiro. Mas se a esfera demoníaca balança a rede pelo lado de dentro, sempre haverá quem culpe o defensor de incompetência. Destino cruel o deste peão avulso.
Bola recuada, diz Vossa Excelência. Sim, algo disso. Esse ficar entre os três paus da canoa furada à beira das águas revoltas sem poder intervir diretamente, a menos que a tal bola recuada ou El Niño invada a área, e aí é um Deus nos acuda e salve-se quem puder mulheres e crianças primeiro!
Não queiram saber das bolas paradas do outro lado da barreira! Imaginem o invisível artilheiro preparando o movimento do cavalo, ensaiado à exaustão nas escaramuças da tropa para enganar a defesa. E imaginem a este humilde servidor sob a fina linha que demarca o limite superior do baluarte. Homem de carne e osso, não de borracha. O goleiro, para compensar sua falta de elasticidade, voa, literalmente voa, para impedir que o dardo alcance sua meta fatal, e assim, pássaro atingido em pleno vôo, contribui para a beleza do gol adversário. Cruel destino, Excelências, podem crer! É o momento máximo do atirador oculto por trás da muralha de homens ou solto em algum lugar do campo para disparar o seu canhão a cento e vinte quilômetros por hora. Vede o Cabeça-de-bagre que aproveita o tsunami dentro da área para ficar na banheira e criar fama de oportuno, de homem de finalização, de torpedo, enfim, graças ao azar do vigia do reduto, nosso semelhante, abandonado pelos seus anjos da guarda tanto quanto pelos zagueiros Rozencrantz e Guildenstern. Eis a queda! O goooool! Palavra breve que bem ilustra o tempo necessário para a rainha ultrapassar a linha fronteiriça da vitória à derrota. Então o herói corre para a beira do campo de batalha e agita a camisa qual flâmula entre ovações e exibe o torso nu e suado de gladiador romano a comemorar a morte do leão diante da tribuna de Calígula. Para ele todos os confetes e serpentinas. Eis a horda a despregar estandartes e bandeiras e a bombardear os ares com seus tiros de festim, e às vezes, lamentavelmente, verdadeiros. Agora observe nosso homem, desolado, cabisbaixo, recuperando a bola já fora do desenho da alcatifa verde. Enquanto a turba vocifera delirante, para ele sobram os apupos da nação adversária, não poucas vezes acrescidos dos da sua própria torcida, que vê nele a encarnação do Iscariote. Nesse momento, a alma cai aos pés. Deseja-se que a terra se abra e nos trague para sempre. Os poucos passos que separam a linha fronteiriça do fundo da rede são uma peregrinação dolorosa ao Santo Sepulcro, se não vos ofende a sacra comparação, Excelência. Mais de uma vez vi Sísifo derramar lágrimas nessa via crucis. Tal o sofrimento do último defensor da praça. Ninguém está disposto a dividir com ele a responsabilidade, a culpa, a traição, o pecado original (digamos assim para melhor impressionar nosso leitor!) São tais sentimentos os que me fazem ser condescendente com esses companheiros de infortúnio defronte ao vídeo. Sinto que pertencemos à mesma estirpe de heróis vencidos, ou em desgraça momentânea.
Acusam-me de ser um homem revoltado, grande equívoco. Apenas sou alguém que clama por justiça diante daqueles passes curtos, repetidos entre dois ou três jogadores que parecem desfrutar com o desconforto do prisioneiro do estado de sítio, e deixam que a bola role indefinidamente, da esquerda para a direita, ora penetrando de leve na área, ora se afastando para retornar pela lateral direita ou esquerda; os atacantes trocando de lugar enquanto a bola, como a peste, repete seu percurso pendular. Diástole! Sístole! O joguinho desses passistas é a lição do Mestre que à beira do tabuleiro gesticula e grita e pula adoidado feito Diretor de Harmonia. Isso vira as tripas de qualquer um! Segundo me dizem, esse chove e não molha parece conto de certo escritor duplamente anglo-americano de séculos passados. Vossa Excelência, Mr. Albert, apesar de sinólogo certamente ouviu falar dele, pois seu funeral foi realizado na Velha Igreja de Chelsea, e Vossa Excelência, professor Volódia, que aprecia o tênis e as belas letras, deve saber de quem se trata, uma vez que estudou em Cambridge. Seu estilo, dizem, belisca o assunto sem se decidir a concluí-lo. Chutar ao gol, quero dizer, que é a finalidade da vanguarda de todo time competitivo e verdadeira razão de ser do guarda-redes. E a torcida do outro bando a gritar com mofa Olé!, Olé!, como se nossa esquadra de fornidos atletas fosse um bando de ninfetas se deleitando com castanholas e balalaicas nesse balê inconseqüente. É de chorar! Vossas Excelências desculpem os dedos pingando mas esqueci o lenço.
Às vezes acontecem acidentes de trabalho incompreensíveis para o leigo. Como a bola passar quicando ao nosso lado feito frango travesso, oportunidade ou evento que a imprensa não se cansa de mostrar para regozijo das tribos adversárias. Dá-se também o azar de, querendo jogar depressa com nossos companheiros, servimos o inimigo, que aproveita a falha para enfiar a bola no fundo da rede, e isto pode acontecer depois da cobrança de um escanteio, quando na pequena área surgem protuberâncias ósseas por todos os lados, cujo único alvo é o corpo do goleiro. Punhos cabeças ombros joelhos pés cotovelos feito aríetes atacam não a porta, o próprio porteiro do castelo, sem elmo ou armadura que o proteja. Tais os ossos desse ofício. Doeu? Vai-se queixar ao bispo! E se a bola afundou na rede, acusam-no de caçar borboletas! Não quero aborrecer Vossas Excelências contando todos os sofrimentos do goleiro (apenas cito os fatos mor do leitor ficar ciente deles).
Vossa Excelência quer saber a origem deste meu azar crônico? Pois bem, digo-lhe de fonte segura, meu amigo O Astrólogo fez meu mapa astral, e o que descobriu? Nada menos que seis planetas conspiram contra mim como um ataque reforçado no tempo suplementar em final de campeonato. Caso raro, disse-me a modo de consolo, original. Não conheço ninguém com este quadro; você é um eleito, cuide-se. E não me refiro apenas aos frangos resfriados ou gripados dentro e fora do galinheiro em que transformaram o campo de batalha, outras são as agruras, Excelência.
Já disse, nunca abusei das exceções: elas sempre me pareceram pobres recursos de quem não tem ética profissional. Naquela época não sabia que estas eram qualidades apreciadas pelos técnicos. Verdadeiras recomendações para conseguir a vaga na equipe titular. Segundo a minha concepção do jogo, estes eram subterfúgios, álibis, atenuantes, qualquer coisa beirando o ilegal. O correto era defender as traves sem deixar a bola sair do tabuleiro. Para mim, a bola só podia sair do campo por um chute sem direção ou, caso extremo, para permitir a atenção de algum jogador machucado. Tal é ainda o meu credo, compartilhado, pelo que me disse o doutor Marcelo Pasquali, por famoso ex-artilheiro alemão, que nunca recuava a bola nem a chutava para fora do campo. Ele e eu pertencemos à legião dos justos!
Vossa Excelência pergunta de onde tirei esta concepção esdrúxula do direito. Pois eu lhe digo: de ver todo dia, a toda hora, em todo lugar, o abuso do mais forte sobre o mais fraco. A prepotência do uso da lei me fez conceber um código de proporção humana, quero dizer: para benefício dos homens, não para o bem do Estado. Vossas Excelências já perceberam que com esta moral, ou poética do jogo, minha carreira não podia ir muito longe. Acertaram em cheio, donde concluo que direito e esporte não se coadunam. A bem dizer, não sei se é o esporte que não combina com o direito, ou se são as marcas nas camisas. Tem gente que confunde a marca com o nome do time. Pelo que sei, os jogadores têm hoje mais obrigações sociais com o patrocinador do que com a torcida. Isto, somado ao pensamento anterior, faz prever para breve a congregação cantarolando o rifão da marca ao invés do hino do time (suspeito seja essa a próxima grande jogada dos marqueteiros dos patrocinadores). Algum país engata seu Deus salve a Rainha! à imagem de herói inimigo para vender o refrigerante nacional. Ai de mim!, há algo de podre no reino do futebol.
Eu, menino pobre em fim, tive as minhas ilusões: jogar na seleção e depois, talvez, naquele time multinacional que revolta os nacionais porque todos os jogadores são estrangeiros. Ainda hoje não me conformo com a mediocridade dos rapazes que se incorporam ao time de várzea sem almejar outra coisa. Jogam lá como uma fatalidade. Eu sonhava, porém, o sonho devia caber no meu senso de justiça. Jamais aceitaria jogar na seleção contra a ética. Depois compreendi que a tal ética tornaria impossível a minha escalação oficial. Deixei o futebol…, fiquei fora de forma… A musa me abandonou, essa é que é a verdade!
Hoje acompanho na telinha, como numa sessão contínua de cinema, jogo após jogo, o momento supremo do ritual. Comemoro simultaneamente o triunfo do ataque e a derrota da cidade sitiada representada pelo estrangeiro, o estranho, ali alocado para maior glória do artilheiro.
O depoimento fora deveras comovente, o doutor Jotas enxugava os olhos. Alguém reclamou da fumaça dos charutos.