BOM de BICO e A PRÓXIMA ATRAÇÃO dois mini contos de raymundo rolim
Maio 1, 2008 21:14 pm de Equipe Palavreiros da Hora
Bom de bico
Depois daquela, da penúltima rodada, jurara ir direitinho para casa. O carteado seguia animado e contribuía fortemente com a falta de fidelidade às promessas (antigas) de que jogaria só mais alguns trocados. Quem sabe a sorte estava depositada justamente naqueles níqueis que até então, teimosamente, insistiam em ficar enfiados numa dobra qualquer do bolso extra lateral da calça que mais cobria do que aquecia, mais identificava que vestia. Sim, seria a penúltima rodada, disso não se descuidaria para que não passasse um anjo e dissesse amém e o pegasse com a boca na botija, descumprindo promessas. Não, isso não iria acontecer de novo. Da última vez que assim procedera e passara um anjo, manquejara por mais de mês depois de ter tropeçado na calçada, logo à saída daquele cassino que funcionava semiclandestino. Mas dessa vez não! Seria diferente. Sairia direto para casa, de mãos dadas com o anjo que já o estaria esperando lá fora, e velaria para que não acontecesse novamente de ele voltar a se enterrar em dívidas! A última carta, de virada, mostrou-lhe que, além da sorte estar ao seu lado, o seu anjo ria-se satisfeito e semi-oculto num canto, acima da mesa de pôquer e já o esperava com a mão estendida para acompanhá-lo pelas águas mansas e tranqüilas do caminho que o levaria direto para casa. Desta vez, para a casa do anjo! Para sempre. Amém.
A próxima atração
O anúncio em letras enormes e garrafais convidava a todos que se inscrevessem para um final de semana à beira mar, do outro lado, no oriente próximo e distante. Tudo pago pela nova rede de hotéis que prometia ser a mais nova sensação em resorts. Casais e outras parelhas (muitos dos quais em gozo de lua de mel) se apresentaram munidos de documentos e esperanças. O atendimento era de primeira. Moças bonitas, risonhas, bronzeadas, com saias curtas sobre pernas esbeltas, desfilavam dentes e aparência em apurado esmero, açulavam os interessados para que não deixassem nenhum campo do formulário em branco. Preencham, preencham tudo, repetiam com voz pausada, não deixem de responder a nenhuma das questões, não deixem espaços vazios, por favor! O documento solicitava desde renda familiar a preferências sexuais e outros mimos tais que: esporte preferido, livros lidos nos últimos seis meses, diretores de filmes clássicos, tipo de academia de ginástica que freqüentavam, nomes de restaurantes e os respectivos menus preferenciais, boates e shopping, além de uma infinidade de enunciados que insistia em descobrir os meandros da vida dos interessados. Tinha de preencher! Data e local de nascimento, doenças contraídas ou não, vacinas, saúde bucal. Tudo estava lá! Como é que não se esqueciam de nada? Quem aporia tantos e minuciosos itens com tais e específicos detalhes? Eram homens ou máquinas pensantes? Bem, fosse lá quem ou o quê fosse, sabia-o e muito bem o que queria; conhecia o que procurava. O tipo de pessoa que desejava selecionar. O resultado seria divulgado no outro fim de semana e os escolhidos receberiam, em casa, o restante das instruções necessárias para a então fabulosa viagem. Estava claríssimo que tudo se daria no mais completo e absoluto sigilo e quaisquer dúvidas, seriam dirimidas pelos telefones de número e senha secretos que receberiam junto com as novas ordens para que pudessem acessá-los. Deveriam guardar tudo de memória, (e “memória”, neste caso, concernia estritamente a um dos itens da seleção). Chegou o grande dia! O avião belíssimo e cheio de turbinas (que fora fretado a uma empresa cujo nome era mantido em absoluto e poderoso círculo confidencial) aguardava. Taxiara sem alardes ou ruídos pela pista. Pessoal de bordo habilmente treinado para a ocasião com todos os vínculos e gentilezas próximas e prontas. Impressionavam os requintes e iguarias da cozinha: molhos, bebidas, gratinados e flambados entre outras trutas e frutas. E lá estavam eles, os venturosos e escolhidos em fila indiana. Roupas e chapéus, falatório geral, alegria e perfume no ar. O mundo daquele aeroporto era algo recomposto, asséptico e perfeito. O comandante do vôo, mais a tripulação, os aguardavam com olhos, bocas, caras e gestos profissionais ao desejarem os bons dias e boas viagens, além das flores que a todos eram ofertadas. Um botom-ship era-lhes afixado na pele e desaparecia em fração de segundos, deixando no local uma sensação de frescor. Tudo lindo, extraordinário, magnífico, demais! Finalmente, quando já se encontravam nos devidos lugares, acomodados, os motores foram acionados, (isto é, na verdade, nem tinham sido desligados - isentos de ruídos que eram ). Cintos apertados, as mímicas de praxe das comissárias e o avião rolou suave pela pista macia, para em seguida ganhar um céu de brigadeiro. Não houve um solavanco, nuvem alguma apareceu! Um zumbido desconhecido e agudo quase feriu os ouvidos dos incrédulos passageiros. A aeronave principiou por alargar-se na base e ganhar formas de losango-trapézio no seu interior. As poltronas se afastaram umas das outras e o espaço entre as mesmas foi preenchido por matéria e cores desconcertantes. A próxima atração aconteceu imediatamente, quando a um gesto do comandante, toda a tripulação deixou cair as vestes, permitindo-se que pequenas antenas (que lhes saía do alto da cabeça) e a cor acinzentadas de suas peles, contrastassem com imensos olhos negros e oblíquos acima do quase ausente nariz. Muitas bocas se abriam ao mesmo tempo em que a nave, numa velocidade inconciliável com a experiência terrestre, desaparecia das esferas da região solar para aterrissar tranqüila no interior de uma plataforma anos-luz distante, que ostentava siderais ensejos de boas vindas.

Pelo visto, os ares das serras estão te inspirando muito, Ray. Belos contos.
Saudade de tu, menino.
Beijo