DARCY RIBEIRO sobre seu “CONFISSÕES” pela editoria
Maio 1, 2008 18:12 pm de Equipe Palavreiros da Hora
o prólogo das Confissões (1996):
“Escrevi estas Confissões urgido por duas lanças. Meu medo-pânico de morrer antes de dizer a que vim. Meu medo ainda maior de que sobreviessem as dores terminais e as drogas heróicas trazendo com elas as bobeiras do barato. Bobo não sabe de nada. Não se lembra de nada.Tinha que escrever ligeiro, ao correr da pena. Hoje, o medo é menor, e a aflição também. Melhorei. Vou durar mais do que pensava.
Se nada de irremediável suceder, terei tempo para revisões. Não ouso pensar que me reste vida para escrever mais um livro. Nem preciso, já escrevi livros demais. Mas admito que tirar mais suco de mim nesta porta terminal é o que quisera. Impossível?
Este livro meu, ao contrário dos outros todos, cheios de datas e precisões, é um mero reconto
espontâneo. Recapitulo aqui, como me vem à cabeça, o que me sucedeu pela vida afora, desde o começo, sob o olhar de Fininha, até agora, sozinho neste mundo.
Muito relato será, talvez, equivocado em alguma coisa. Acho melhor que seja assim, para que meu retrato do que fui e sou me saia tal como me lembro. Neguei-me, por isso, a castigar o texto com revisões críticas e pesquisas. Isso é tarefa de biógrafo. Se eu tiver algum, ele que se vire, sem me querer mal por isso.
Quero muito que estas minhas Confissões comovam. Para isso as escrevi, dia a dia, recordando meus dias. Sem nada tirar por vexame ou mesquinhez nem nada acrescentar por tolo orgulho. Meu propósito, nesta recapitulação, era saber e sentir como é que cheguei a ser o que sou.
Quero também que sejam compreendidas. Não por todos, seria demasia. mas por aqueles poucos que viveram vidas paralelas e delas deram ou querem dar notícia. Nos confessamos é uns aos outros, os de nossa iguala, não aos que não tiveram nem terão vidas de viver, nem de confessar. Menos ainda aos pródigos de palavras de fineza, cortesãos.
Quero inclusive o leitor anônimo, que ainda não viveu nem deu fala. Mas tem coração que pulsa, compassado com o meu. Talvez até me ache engraçado, se alegre e ria de mim, se tiver peito. Não me quer julgar, mas entender, conviver.
Não quero mesmo é o leitor adverso, que confunde sua vida com a minha, exigindo de mim recordos amorosos e gentis, apagando os dolorosos, conforme sua pobre noção do bem e da dignidade. O preço da vida se paga é vivendo, impávido, e recordando fiel o que dela foi dor ou contentamento.
Termino esta minha vida exausto de viver, mas querendo mais vida, mais amor, mais saber, mais travessuras. A você que fica aí, inútil, vivendo vida insossa, só digo: ‘Coragem! Mais vale errar, se arrebentando, do que poupar-se para nada. O único clamor da vida é por mais vida bem vivida. Essa é, aqui e agora, a nossa parte. Depois, seremos matéria cósmica, sem memórias de virtudes ou de gozos. Apagados, minerais. Para sempre mortos’.”

LINDO ! Darcy Ribeiro um chamado !
Conseguiu comigo o que queria, fiquei comovida. É uma mensagem para quem tem olhos de ver , coração para sentir e vontade de fazer. Fazer o que? Que descubra a que veio, mesmo que se “arrebente” rompendo padrões, pré-conceitos, mas que cumpra o que se propôs antes de voltar a ser “pó de estrela.”
Sem medo, mas que deixe dentro de si um sabor de
realização.
Avani
Darci Ribeiro é tanta energia falando e escrevendo que nos deixa sem fala, sem texto. Brasileiro até o talo, sendo brasileiro o fruto dessa misturança, essa bagunça, essa esperança, essa força, estranha, como na letra de música, mas que vai, aos trancos e barrancos, como o título de outro livro do professor, depurando, enxergando o lado falso, o lado podre, o lado mentiroso, que comanda essa imensidão de luz que teve nele, Darci, um intelectual que soube enxergar de dentro. Ele conhecia bem essa gentalha que arrebenta o povo sabendo disso, mas se lixando porque é seduziada pelo poder de roubar sob o manto da impunidade. São mais coitados do que a ninguenzada que não tem nada, mas é honesta, toma cachaça, vibra com o gol do time, samba no pé, faz sexo com o maior tesão do mundo, cria os filhos com nada de dinheiro, mas ensina a ser gente. Saravá, Darci! Que não está apenas nas bibliotecas. É presença nas florestas, nas selvas de pedra, no mar, nos rios, nos lagos, no céu azul, nas montanhas, nas pedreiras, no sorriso deste povo lindo, feio, vivo, que vai dando de leve o pé na bunda dos escrotos.
Darci Ribeiro! alma viva das palavras… imagem refletida no espelho!revisões das confissões…em vida essa passagem…tão curta . ….. e que disse a todos “a que veio’