FUGA PICTÓRICA OPUS 2002 - 2 / poema de tonicato miranda
Maio 9, 2008 de Equipe Palavreiros da Hora
para Guilherme Magalhães Vaz
14 de Março de 2002
Coltrane, sempre ele, pinga notas na minha alma
você não conhece Curitiba, nem eu tão pouco
a cidade já me habitou como caranguejo na lama
da mesma forma como Brasília, quando era só poeira
quando a solidão das pessoas, nadava no jazz e na beira
das janelas, onde jovens de apartamento bebiam Coltrane
elas bebiam e cresciam em John, lançando-se à calma
janelas afora, no tapete voador da pauta do músico rouco
Brasília era assim, mais perplexidade do que trauma
cidade onde o pontilhado de um Equinox era mugido de boi
ruminante longe do sertão, próximo do que para Picasso foi
o touro, os chifres, os seios e para mim os acordes do Coltrane
o fraseado deixa-me triste, preso às linhas da mão na palma
solto num sertão de recordações, nas tardes de ventos loucos
onde acordes como pulsos, salpicavam-me como napalm
enquanto Vietnams sangravam pessoas, florestas e fogueiras
A morte e as guerras, tão distantes estavam das mangueiras
o último acorde do sax, mais do que música era puro Coltrane
morrer na lembrança todos morrem um pouco, que nos diga a Salma
vizinha do paraíso plantado no solo de um terreno, de pouco em pouco,
frases musicais volteiam-me, apalpam a alma, viram-na e salgam-na
Lembranças do Lago Norte, daquela casa, do pé de Guabirovu
das árvores plantadas no pé da minha janela e do meu olho nu
e My favourite things trina no sax passarinho, do bico de Coltrane.