Arquivo do mês: agosto 2008

A LA COMUNIDAD INTERNACIONAL – À COMUNIDADE INTERNACIONAL – pela editoria

 

 

            Denunciamos el reciente ataque del gobierno de Daniel Ortega contra el sacerdote y poeta Ernesto Cardenal.

El Padre Cardenal había sido acusado en 2005 por injurias a raíz de una carta que publicó en defensa propia, y recibió una sentencia absolviéndolo de estos cargos y declarándolo inocente, tan absurda era la acusación.  

Ahora, un juez obediente a Ortega ha revocado esa sentencia declarándolo culpable. Esta acción es totalmente ilegal. La legislación nicaragüense considera que una sentencia sólo puede ser apelada en los seis meses siguientes, de lo contrario se considera cosa juzgada, y no puede cambiarse. Pero el sistema judicial responde a la voluntad política de Daniel Ortega.

Todo aparece como una clara represalia por la permanente actitud crítica del padre Cardenal contra los abusos del gobierno de Ortega. Casualmente, esta sentencia fue dictada a su regreso de la toma de posesión del Presidente Lugo en Paraguay, a la que fue invitado de honor y a la que Daniel Ortega se vio impedido de asistir por el rechazo de las organizaciones feministas a su presencia, dada la acusación de abuso sexual  que le hiciera su hijastra, Zoilamérica Narváez. En Paraguay, como en otros lugares, Cardenal dijo lo que piensa de Ortega.

La integridad de Ernesto Cardenal y sus credenciales como persona que ha dedicado su vida a la causa de la justicia, confieren enorme autoridad a sus críticas, tanto dentro como fuera de Nicaragua.  Esto resulta intolerable para Daniel Ortega y es la razón por la cual Ernesto Cardenal ha sido condenado en un fallo judicial injusto y vengativo, y por tanto escandaloso.

Ernesto Cardenal es la más reciente víctima del acoso sistemático orquestado en contra de todos aquellos que han levantado sus voces para denunciar la falta de transparencia, el estilo autoritario y el comportamiento inescrupuloso y la falta de ética de Daniel Ortega en su retorno al poder.

Llamamos a los escritores y amigos de Nicaragua en el mundo a denunciar esta persecución política, a demandar el cese de estas acusaciones ilegales e infundadas y a expresar su solidaridad con Ernesto Cardenal y con el derecho del pueblo nicaragüense a vivir libre de miedo y represión.

 

FIRMAS:

 

1. Héctor Abad Faciolince (Colombia)

2. Hugo Achugar (Uruguay)

3. Luis Fernando Afanador (Colombia)

4. Héctor Aguilar Camín (México)

5. Sergio Aguayo (México)

6. Sealtiel Alatriste (México)

7. Eliseo Alberto (Cuba)

8. Felipe Aljure (Colombia)

9. Nuria Amat (España)

10. Jotamario Arbeláez (Colombia)

11. Raúl Arias Lobillo (Rector Universidad Veracruzana, México)

12. Edda Armas (Presidenta Pen Club de Venezuela)

13. Ricardo Bada (España)

14. Mario Benedetti (Uruguay)

15. Jorge Boccanera (Argentina)

16. Juan Carlos Botero (Colombia)

17. Javier Bozalongo (España)

18. Rosa María Britton (Panamá)

19. Chico Buarque de Holanda (Brasil)

20. Javier Campos (Chile)

21. Marco Antonio Campos (México)

22. Horacio Castellanos Moya (El Salvador)

23. Victoria de Estefano (Venezuela)

24. Luis Antonio de Villena (España)

25. Joaquín Estefanía (España)

26. Festival de Poesía de Granada (España)

27. Julio Figueroa (México)

28. Ramón Fonseca M. (Panamá)

29. Eduardo Galeano (Uruguay)

30. Eduardo García Aguilar (Colombia)

31. Francisco Goldman (Estados Unidos/Guatemala).

32. Gloria Guardia (Panamá)

33. Jorge F. Hernández (México)

34. Miguel Huezo Mixco (El Salvador)

35. Bianca Jagger (Inglaterra)

36. Darío Jaramillo (Colombia)

37. Noe Jitrik (Argentina)

38. Alicia Kozameh (Argentina)

39. Ana Istarú (Costa Rica)

40. Patricia Lara (Colombia)

41. Walter Lingán (Perú)

42. Luce López-Baralt (Puerto Rico)

43. Ángeles Mastretta (México)

44. Oscar Marcano (Venezuela)

45. Salvador Medina Barahona (Panamá)

46. Mario Mendoza (Colombia)

47. Seymour Menton (Estados Unidos)

48. Tulio Mora (Presidente Pen Club del Perú)

49. Marysa Navarro (España/Estados Unidos)

50. Eric Nepomuceno (Brasil)

51. Julio Ortega (Perú)

52. José Miguel Oviedo (Perú)

53. Cristina Pacheco (México)

54. José Emilio Pacheco (México)

55. José María Pérez Gay (México)

56. Nélida Piñón (Brasil)

57. Vicente Quirarte (México)

58. Josué Ramírez Velázquez (México)

59. Abelardo Rodríguez Macías (México)

60. Daniel Rodríguez Moya (España)

61. Margaret Randall (Estados Unidos)

62. Rosa Regás (España)

63. Laura Restrepo (Colombia)

64. Juan Manuel Roca (Colombia)

65. Miguel Rojas Mix (Chile)

66. Carmen Ruiz-Barrionuevo (España)

67. José Carlos Rosales (España)

68. Alejandro Sánchez-Aizcorbe (Perú)

69. Julio Eutiquio Sarabia (México)

70. Stacey Alba Scar (Estados Unidos)

71. Federico Schopf (Chile)

72. Ricardo Silva Romero (Colombia)

73. Antonio Skarmeta (Chile)

74. Saúl Sosnowski (Argentina)

75. David Unger (Estados Unidos)

76. Marcela Valencia Tsuchiya (Perú)

77. Fernando Valverde (España)

78. Mario Vargas Llosa (Perú)

79. Juan Gabriel Vásquez (Colombia)

80. Minerva Margarita Villarreal (México)

81. José Javier Villarreal (México)

82. Juan Villoro (México)

83. José Félix Zavala (México)

84. Jonathan Cohen (USA)

 

José Saramago escribió:

 

La primera precaución consistirá en no confundir nunca la ley con la justicia. A Ernesto Cardenal no le ha servido a ley porque la administra una justicia que se dejó corromper por los rencores y las envidias del poder. Ernesto Cardenal, uno de los mas extraordinarios hombres que el sol calienta, ha sido victima de la mala conciencia de un Daniel Ortega indigno de su propio pasado, incapaz ahora de reconocer la grandeza de alguien a quien hasta un papa, en vano, intentó humillar. A Daniel Ortega le pido que se mire en un espejo y me diga qué es lo que encontrará en él. Si le da vergüenza, al menos que tenga la valentía de pedir perdón. Si no lo pide, si no levanta la voz para clamar, él mismo, contra la condena de Ernesto Cardenal, sabremos que sus méritos humanos y políticos han caído a cero. Una vez más una revolución ha sido traicionada desde dentro.

 

José Saramago

 

NOSSA GRANDE CULPA por alceu sperança

 

O pessoal fala muito que o chato, incômodo Hobbes cunhou a expressão “o homem é o lobo do homem”, mas esse conceito já havia sido exposto bem antes, pelo dramaturgo latino Titus Maccius Plautus (254–184 a.C.). Thomas Hobbes (1588–1679), talvez tenha sido o mais famoso dentre os que acham que o homem não tem jeito, que as coisas são assim mesmo e nunca vão mudar, cunhando sua máxima de que “a condição do homem (…) é a da guerra de todos contra todos”. Ou seja, com seus semelhantes e sobras para a natureza.

Para contrariar essa coisa horrível, vem em nosso providencial socorro o velho/jovem Marx com um conceito bem superior e mais alvissareiro: “A sociedade atual, muito longe de ser um cristal sólido, é um organismo susceptível de mudança e em permanente processo de transformação” (prefácio à primeira edição de O Capital, 1867).

Será que vamos nos render aos muito-vivos de gravata e colarinho engomado que assaltam os cofres públicos e aos mortos-vivos maltrapilhos que roubam nossos varais por terem sido excluídos das riquezas pelos muito-vivos? Acreditar que a corrupção do alto coturno e o desespero famélico dos excluídos são condições naturais, próprias da natureza humana, e que não há mais nada a fazer senão atirar em quem chegar perto e também tirar uma casquinha do bolo aprontando alguma contra nosso semelhante não é algo que possa durar sem que um alto preço um dia venha a ser pago por essa burrice toda. Um preço que talvez não seja pago por nós, mas por nossos filhos ou no máximo netos. Cabe refletir sobre se esta é uma herança justa e honrada para deixar a eles.

O antropólogo Marshall Sahlins tem demonstrado com especial esmero que nós podemos escolher entre a visão hobbesiana do homem (que seria o “lobo” de seu semelhante) ou agir no sentido marxiano de que a sociedade não é um cristal sólido, mas um processo sujeito a mudanças. Para Sahlins, a cultura é algo historicamente reproduzido na ação, que você pode repetir, canibalizar (recorde-se o Manifesto Antropofágico da Semana de Arte Moderna de 1922) ou melhorar. Recebo pelo nosso e-correio um interessante apanhado sobre a vida em sociedade em gerações anteriores. Alguns trechos:

1) As pessoas sendo abanadas, que vemos em filmes, tem como explicação o mau cheiro que exalavam por debaixo das saias, feitas para conter o odor das partes íntimas, que não tinham como ser higienizadas devidamente e associadas ao costume de não tomar banho devido ao frio. O cheiro era camuflado pelo abanador, que também espalhava o bodum do corpo e o mau hálito para espantar os insetos.

2) A maioria dos casamentos ocorria no mês de junho (no hemisfério Norte, o início do verão). A razão é simples: o primeiro banho do ano era tomado em maio; assim, em junho, o cheiro das pessoas ainda estava tolerável. Entretanto, como alguns odores já começavam a ser exalados, as noivas carregavam buquês de flores junto ao corpo, para disfarçar o mau cheiro. Daí porque maio é o “mês das noivas” e sabemos a razão da noiva carregar aquele buquê.

3) Os mortos, para não serem enterrados vivos, tinham amarrada uma tira no pulso, que passava por um buraco no caixão e ficava amarrada num sino. Após o enterro, alguém ficava de plantão ao lado do túmulo durante uns dias. Se o indivíduo acordasse, o movimento de seu braço faria o sino tocar. E ele seria assim “salvo pelo gongo”, expressão usada até os dias atuais.

São algumas curiosidades com a intenção de mostrar que a sociedade evolui e não fica mantendo maus hábitos eternamente. Por isso, a corrupção que tem como evidências mais aparentes o nepotismo e o inchaço da máquina pública dos muito-vivos, que dão o exemplo para a roubalheira que invade nossos quintais através dos mortos-vivos da cachaça e do crack, não estão destinados por alguma diabólica divindade a se eternizar. Podemos reagir contra isso ou deixar essa herança vergonhosa para nossos filhos e netos. A escolha é nossa. Já dizia o sábio Darwin: “Se a miséria de nossos pobres não é causada pelas leis da natureza, mas por nossas instituições, grande é a nossa culpa”.

ATIRADOR MATA CÃES DE COMPANHIA E ATINGE VEÍCULOS QUE PASSAM NA RUA (a pedido de leitores do site)

Moradores da rua Marechal Hermes (Centro Cívico), distante três quadras do Palácio Iguaçu (governo), estão alarmados e preocupados com o “matador de cachorros, com donos, e atirador com espingarda de chumbo nas residências vizinhas” como definem o que vem ocorrendo naquela quadra em frente ao nº 1299. Dois vizinhos tiveram seus cães de companhia mortos por veneno e outro morador está com seu cão ferido gravemente em razão dos tiros. As paredes e as grades da residência atestam a ação do livre atirador urbano que eles qualificam como “psicopata” como se vê na faixa-SOS. A polícia já foi acionada e está investigando. Algumas ONGs protetoras dos animais estão mobilizadas. Moradores afirmam que o atirador passou a atingir os veículos que passam pela rua, provocando quebra de vidros e furos na lataria. Então pessoal evitem a rua Marechal Hermes no trecho que compreende as quadras entre as ruas João Bonn e Celeste Santi em Curitiba e caso tenha alguma informação DENUNCIE.

 

 

aqui morreu um cão de companhia envenenado.

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as marcas dos tiros de chumbo estão por toda parte da residência.

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este é o prédio no qual os vizinhos desconfiam que more o matador e atirador. os moradores do edifício estão muito preocupados com a sua segurança.

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evite este trecho, entre João Bonn e Celeste Santi, na Marechal Hermes.

Rumorejando (03 medalhas de ouro para o Brasil, constatando). por josé zokner (juca)

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I (De uma quadrinha aparentemente matemática).

A resolução

Daquela equação

Das brigas do casal

Acabou no hospital.*

*Foi uma briga administrativa. Eles eram irmãos e os donos e gestores do hospital. Também Rumorejando pensou que era um casal, constituído por marido e mulher que teriam se desentendido onde haveria rolado agressões mutuas. Ainda bem!

Constatação II

Surrupiaram o dinheiro da Ong

Com a maior naturalidade

Como numa disputa de pingue-pongue

Como se fosse o jogo da amizade.

Constatação III (Altos e baixos da nobreza).

Por logaritmo,

Tanto decimal,

Como neperiano,

Também por algoritmo

O conde, grande matemático,

Chegou ao resultado

Que nunca mais

Seria amado

Como fora no primeiro ano

Do seu relacionamento matrimonial,

Quando depois de um dia tumultuado,

Estressante e problemático

Ele chegou em casa cansado

Mas ansiado por um antológico,

Nada escatológico,

Evento sexual,

E sem esquecer o dialógico

Cheio de ais

Como jamais.

Ele não havia atinado

Por uma dor de cabeça,

Não necessariamente eventual,

E, sim uma constante opcional

Da senhora condessa.

Coitado!

Constatação IV (Meio repetitiva).

E como finalizava suas elucubrações aquele técnico, precisamente antes da preleção final, no final do alongamento: “Eu preciso dizer para os meus atacantes que é preciso ser preciso nas finalizações”.

Constatação V

Era um cara comedido. Depois de comer 2 pizzas, das grandes, acompanhadas de cervejas, pedia, pra contrabalançar, adoçante no cafezinho.

Constatação VI

E como apregoava filosófica e didaticamente o obcecado: “A gente tem que ser favorável à mudança de posição. Afinal, não adianta querer repetir as inesquecíveis emoções anteriores porque elas nunca se repetem”.

Constatação VII

Preencher uma lacuna é, nas eleições, votar em branco, ou estragar o voto, a fim de que fique bem delineado o repúdio aos candidatos, de modo que a soma dos votos em branco e nulo ultrapassem os demais?

Constatação VIII

E já que falamos no assunto, a vantagem de ser septuagenário é que não se é mais obrigado a votar. Claro que o fato se refere às eleições, jamais à opinião em casa que, essa, já tem dono, quer dizer dona…

Constatação IX

E já que falamos nesse outro assunto, uma das vantagens de ser septuagenário é que a gente, igualmente às grávidas, por exemplo, recebe determinadas atenções. Isso não quer dizer que elas, as atenções, sejam necessariamente àquelas que se almeja…

Constatação X

E como vivia se justificando o pinguço, citando a frase de um autor anônimo, querendo, inclusive, mostrar erudição: “A abstinência é uma boa coisa, desde que praticada com moderação”.

Constatação XI

Rico faz cruzeiros pelo mundo; pobre, tá perdido no mundo.

Constatação XII

Rico emigra para investir numa filial no exterior; pobre, em busca de oportunidade de trabalho.

Constatação XIII

O STJ vetou a aposentadoria

Dos deputados no Paraná

Era o que o povo queria

Salário? Ora, um caraminguá.

Constatação XIV

Defenestrado

Das suas relações,

O renitente obcecado,

Um poço de bravata

E convencimento,

Sentiu-se totalmente

Desiludido

Um falido

Aristocrata

Ao ficar sem as suas funções

E se sentiu completamente

Fu, digo, perdido,

Tão-somente.

Coitado!

Constatação XV

Rico come finas iguarias; pobre, gororoba.

Constatação XVI (Ah, esse nosso vernáculo).

Eu sabia que eu sabia quem é esse tal de Marcos que escrevi o seu telefone nesse papel. Eu só não sabia que não sabia que ia me esquecer tão facilmente.

Constatação XVII

Tirou a prova dos nove

Do seu parco salário:

O patrão não demove

De ficar milionário.

Constatação XVIII

E como dizia aquele deputado adepto da Teoria da Relatividade: “É muito melhor ter desvio de conduta do que desvio de status”.

Constatação XIX

Rico apara a barba e o bigode; pobre, junta apara de papel.

Constatação XX

Rico é perseverante; pobre, hesitante.

Constatação XXI

E como poetava a popozuda”

“Numa casca de banana

Escorreguei

Foi a terceira na semana

E não me machuquei.

A poupança que alguém abana

É de boa madeira-de-lei”.

Constatação XXII

Depois de tomar um daiquiri

Andei fabulando por aí

Que o Paraná será o campeão

Voltando pra primeira divisão.

Constatação XXIII (Epitáfio).

Aqui jaz um destemido

Que nunca dobrou a coluna

Nem num jogo onde havia perdido

Toda sua imensa fortuna.

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

                             foto livre. ilustração do site.

 

 

 

A HERANÇA DOS JOGOS DE PEQUIM por marcelo barros

Os jogos olímpicos desviaram a atenção dos bilhões de telespectadores da vida real e dos grandes desafios sociais e políticos que a humanidade enfrenta

Os Jogos Olímpicos em Pequim chegaram ao fim. Grande parte da humanidade se pergunta que herança para o futuro da humanidade deixa esta Olimpíada. Durante dias e dias, os jogos ocuparam nossas televisões e jornais. Órgãos da imprensa que, no começo pareciam apoiar um boicote à China, por causa do desrespeito aos direitos humanos, se renderam ao lucro que lhes era proposto. Os apoteóticos espetáculos oferecidos na inauguração e no encerramento dos jogos mostravam um mundo aparentemente unido. Parecia que as guerras deram lugar às competições esportivas. A humanidade inteira se tornava criança ou adolescente que vibra e torce por seus atletas.

 Por trás dos palcos e das arenas, a realidade é mais complexa. A China mostrou uma força que vai muito além dos estádios. Governos e empresas se puseram de acordo em proporcionar pão e circo às massas e, assim, dissimular a realidade cruel que, nos mais diversos países, infesta a vida cotidiana das pessoas, no campo e na cidade.

 Jogo do faz de conta

Os jogos olímpicos desviaram a atenção dos bilhões de telespectadores, da vida real e dos grandes desafios sociais e políticos que a humanidade enfrenta nestes dias. Mesmo durante os jogos, no dia 8 de agosto, as forças armadas da Geórgia, apoiadas e financiadas pelos Estados Unidos, atacaram a província da Ossétia do Sul, que ficou sob o protetorado russo. Imediatamente, a Rússia atacou por terra, ar e mar, o território da Geórgia, que não contou como o apoio esperado de Bush e, hoje, chora pelo menos dois mil mortos e vinte mil desabrigados. Os analistas internacionais estão convencidos de que é iminente um ataque de Israel contra o Irã e o revide dos países árabes contra Israel e contra os Estados Unidos que o patrocinam. Na Europa, o Parlamento aprova uma lei racista e cruel contra os migrantes. E durante os jogos olímpicos, todo mundo faz de conta que nada disso existe.

 Exemplo de paz

De fato, desde o começo de sua história, a vocação dos jogos olímpicos é servir à relação entre os povos e contribuir para a convivência amiga entre a juventude dos mais diversos países. A chama olímpica que percorre a terra inteira apela para a paz e para o diálogo entre as diferentes culturas e raças. No colorido das bandeiras, na pluralidade dos hinos nacionais e no brilhantismo dos homens e mulheres que se consagram aos mais variados esportes, transparece um olhar positivo e amigo para toda a humanidade. A herança mais profunda destes jogos deveria ser a de que os conflitos internacionais e regionais podem sempre ser resolvidos como se acertam as regras e se dão as partidas amigáveis entre as diversas equipes de atletas.

 Grande negócio

Infelizmente, a mistura entre esporte e comércio, assim como entre esporte e políticas governamentais é cada vez mais tenebrosa. As equipes precisam de patrocínio e as empresas as apóiam. Os governos querem se identificar com os seus países e seus atletas. O problema é que, além de fazerem dos jogos vitrines dos seus produtos, incentivam nos esportes um aspecto que este já continha, mas não tão exacerbado como agora: o espírito de competição e de concorrência. É quase inevitável que os jogos tenham incentivado mais ainda o culto ao corpo sarado, ao ser humano máquina. Nos mais diversos esportes, acabaram, de alguma forma sugerindo ou inculcando o ideal do mais forte, mais ágil, mais capaz e mais bem sucedido.

 Em seu famoso livro Educação após Auschwitz, o filósofo alemão Theodor Adorno destaca a necessidade de se evitar na formação cultural dos jovens a promoção à virilidade, ao “ser duro” e à indiferença à dor do outro, elementos comuns em vários esportes de competição. “Quem é rigoroso consigo mesmo não tem dificuldade de sê-lo com os outros, dando continuidade ao ciclo da violência”. Ele recorda como na Alemanha nazista o ideal do homem ariano, belo e forte, culminou no extermínio de milhares de deficientes físicos, deficientes mentais e idosos.

 Por seu caráter internacional e sua história tão rica, os jogos olímpicos não mereceriam esta crítica. Se, no passado, eles foram usados por regimes ditatoriais, (em 1936 na Alemanha nazista, em 1980 em Moscou, como em 1968 na Argentina da ditadura militar), compete a todos nós que eles sejam resgatados. Sua herança deve ser a da convivência plural e do internacionalismo e não a competição e o elitismo corporal. É preciso que eles nos apontem para a vida e não para a ilusão.

Na carta aos coríntios, Paulo alude aos jogos, ao lembrar que todos correm, mas um só ganha a taça. Nós, espirituais, devemos correr de forma que todos ganhemos, não uma taça corruptível, mas a coroa imperecível da vitória divina (1 Cor 10).

 

Marcelo Barros é monge beneditino e autor de 30 livros, dos quais: Dom Helder Câmara, Profeta para o nosso Tempo. Ed. Rede da Paz, 2006  - Brasil de Fato.

                              foto livre. ilustração do site.

LIVROS SOBRE HIROSHIMA e NAGASAKI poema de solivan brugnara

                                  

                        

 Quero livros                           

 Que deixe quem ler bêbado,

                   e  que viciem

        e sejam cheios de propagandas  subliminares.

  Quero livros vasodilatadores,

            que causem priapismo, 

e se picotar suas páginas de para fazer um cigarro de maconha.

Quero livros que dividam o mundo.

 Livros que sejam excomungados,

 que matem Deus

e que Deus e revide escrevendo seu terceiro livro.

 Livros com sabor de carne

 para serem devorados por leões.

Livros que entrem como fantasmas dentro dos computadores.

 Livros sobre Hiroshima e Nagasaki.

 Livros nasçam em pés da marula e macieira

e que os livros vermelhos floresçam nas papoulas.

Livros que tenham cheiro de cio e cartões de crédito.

Que façam as mulheres se masturbarem.

   Livros venham em formato de falo

  vibrem e que suas letras façam vezes de espermatozóides e fecundem

 úteros.

 Livros que gritem, que se aumente o volume das letras

 até elas deixarem os olhos surdos.

 Quero livros que alucinem quem se atrever a lamber suas páginas.

Que seja pego no antidoping pela substâncias deixadas pela leitura no sangue.

 Livros pretos que voem com urubus.

 Livros que explodam quando aberto.

 Quero livros cheios de veneno,

 e só passar a ponta do dardo na capa, pegar a zarabatana

 e sair para matar macacos na selva da Venezuela.

Livros que possam ser transplantados no lugar dos corações e rins,

 e que se coma suas letras amargas com arroz.

AO REVÉS poema de delinar pedrinho matuczak

 

Combinado amor e sentimento de abandono

 

Surge uma grande confusão no âmago, na razão e na relação a dois

 

Uma declaração as avessas, um reclame de amores rejeitados

 

(Se eu não estivesse com ela sua amiga beijaria você agora)

 

É,  mais apesar do desamparo momentâneo e eterno da Monaliza, eu a tenho com devotamento irrepreensível

 

Desamparar desamparou

 

Entender não entendeu

Quis você…, de pronto não veio

 

Concebes por acaso que fui contrario as suas expectativas

 

Divertido isso, tive a mesma impressão

 

Proponho uma saída, assumamos cada um nosso quinhão de irresponsabilidade

 

Não acertei onde almejei

 

Puno-me agora, autoflagelo-me

 

Será que não te chegas

 

Ou só te contentaras a ver a alma deste ser fora de seu invólucro que se encontra presentemente

 

Soube da queixa e não cogitou outra questão a não ser a fugidia traição

 

Neste trialogo só um alguém pode se sentir em desalento

 

Me senti primeiro

 

 

DISTÂNCIAS poema de altair de oliveira

 

 

Pudesse, eu seria doce

e, se desse, desde o começo

de sede, eu viesse cedo

relendo o seu endereço.

 

E fosse avesso do avesso,

azul do tanto que houvesse

ousasse um gesto de gesso

num beijo gosto de festa.

 

E  nunca mais me esquecesse

feliz em todas as espécies…

Por mais que a vida nos perca

e a morte esperta nos pesque.

 

Altair de Oliveira – In: O Embebedário Diverso

 

CLICHÊ poema de deborah o’lins de barros

 

Eu queria ser aquela

metamorfose ambulante…

…mas estou presa eternamente

no paradigma de uma geração

quase interessante.

 

carioca

coca-cola

chiclete

pipoca e guaraná

RG, CPF, CLT, GLS

cigarro depois do almoço

esquerdismo aguado

internet banda larga

orkut…

faculdade trancada

(por falta de capitalismo suficiente)

comédia romântica norte-americana

…entediante

ainda não entendo filmes

inteligentes…

 

Me dê alguns anos e me transformo

na borboleta filosófica de Raul,

ou num kafkiano inseto alucinante.

Queria ser aquela metamorfose,

Mas não passo de um mero

clichê ambulante…

 

 

 

VOCÊ JÁ ERROU ALGUMA VEZ NA VIDA? por jairo busich

 

Provavelmente você disse que sim. É o que achamos graças a tudo que nos foi dito durante anos, começando por nossos pais. E graças a esta “formação” que tivemos, nos dias de hoje, é comum entrarmos em uma sensação de culpa, por achar que algo que fizemos é errado ou foi errado. Culpamo-nos então, quando olhamos para trás e percebemos que “erramos” – ‘meu Deus, eu deveria ter feito aquilo de forma diferente!’ ou então ‘como eu pude fazer aquilo?’.

Às vezes, pode ser que tenhamos orgulho de nós mesmos, por acreditar que fizemos algo certo e isso nos faz bem, nos faz sentir bem.

Na verdade o que é certo e o que é errado? Algo que seja certo para alguém pode não ser para mim nem para você, ou, quem sabe, algo que pode ser errado para esta mesma pessoa pode não ser para nós dois.

Nós não damos conta de que o tempo passou. Vivemos outras experiências, aprendemos e evoluímos. Hoje, nós olhamos para o passado e descobrimos, graças a este aprendizado, que poderíamos ter feito de maneira diferente. Somente isto, poderíamos ter feito de um modo diferente.

Agora podemos nos perguntar: naquele instante, poderíamos ter feito de forma diferente? A resposta, tanto para mim quanto para você, deveria ser não. Deveria! Não poderíamos ter feito de forma diferente, pois naquele momento, era justamente o que nós sabíamos ou queríamos fazer. Mas como é comum acontecer, não pensamos assim, e insistimos em nos culpar. ‘Nós erramos’ continua sendo a frase principal.

Culpa tem como fonte ou causa o julgamento. O julgamento de nós mesmos. Agredimo-nos, punimo-nos, pois nós “erramos”. Merecemos ser castigados. O “errado” não existe. Dizer que algo é errado, seria como entrar na casa de Deus e dizer a ele: “O Senhor errou”.

Supondo que uma pessoa entre numa estação do metrô em São Paulo e comece a urinar na plataforma. Algumas hipóteses podem ocorrer. Ela pode apanhar de algum marido mais atento, ser linchada ou ainda presa e acusada de atentado ao pudor. Nós temos o conhecimento e por isso vamos contra nossa sensação. Por isso, a vida não nos protege.

Uma opção para que esqueçamos o julgamento em geral e, principalmente, de nós mesmos é tirar a sensação de culpa.

Vamos substituir o certo e o errado por gosto e não gosto. Desta forma a vida sempre nos protegerá, pois assim saímos do julgamento e vamos para o discernimento, e isto não é dizer que DEUS errou.

        Vivamos o agora sem medo e em acordo com nossa sensação interior de bem-estar. Sem mentir para nós mesmos, pois desta forma estaremos protegidos. Esta sugestão vai ser útil, desde que toque dentro de você. Ao olhar para trás, agora, vamos nos questionar e responder somente a verdade: VOCÊ JÁ ERROU ALGUMA VEZ NA VIDA?

ACHO QUE NÃO!

QUE BOM!

NEM EU.

CLETO DE ASSIS comenta em “QUE FAZER DE MARCEL DUCHAMP?” (de affonso romano de sant’anna)

CLETO DE ASSIS

 

Comentário:

Oportuníssima a crítica de Affonso Romano de Sant’anna! Além de corajosa, pois se opõe aos cânones acadêmicos que se estruturam em torno da arte contemporânea (ou da modernocontemporaneidade, como ele bem coloca). Há pouca gente se detendo no exame do que aconteceu no início do Séc. XX, quando muitos artistas – não só Duchamp – trataram de dessacralizar a arte a níveis rasteiros, depois do Séc. XIX ter deixado rastros de genialidade e de uma nova visão da luz, das cores e dos sentidos, principalmente com o olhar dos impressionistas e, em seguida, dos expressionistas. A fotografia, que vinha de um pouco antes, passou a se mexer e deu origem ao cinema, trtasnformado até em arma das revoluções sociais daquela época. As artes plásticas deixavam de ser meros retratos da realidade aparente para interiorizar o homem, assim como fazia a psicologia também nascente.

 

É preciso atentar que grande parte dos jovens artistas que faziam arte de protesto, nos anos iniciais do século passado, eram também vítimas das contradições políticas e sociais, flagelados de guerras e, muito possivelmente, foram atingidos por um pessimismo vivencial que os levava a atos de non-sens. E a melhor arma que tinham às mãos para extravasar sua sensibilidade era a arte, mesmo que as ações fossem contra ela.

 

Duchamp era (é) arte? Convém resguardar uma verdade, pelo menos: o que ele fazia se enquadrava nos conceitos da estética. Afinal, um penico de porcelana ou uma roda de bicicleta são esteticamente desenhados, mesmo que sirvam para panfletear contra a estética contemporânea.

leia o tema: AQUI

A POETA ZULEIKA DOS REIS comenta em ATRASO (de lélia almeida)

  1. Zuleika dos Reis

Concordo plenamente com você, declaração que talvez não agrade a alguns dos meus tantos amigos gays. Bem, Lênin (creio que tenha sido ele, se não me falha a memória) afirmou que, quando uma vara está inteira voltada para um dos extremos, para que ela fique reta é preciso, antes, vergá-la toda para o lado oposto. Serve também o exemplo de uma folha de papel, enrolada. Para torná-la reta é preciso, antes, desenrolá-la e enrolá-la toda para o lado oposto. Talvez isso pareça obscuro. De modo menos tortuoso: Quando nasceu o movimento feminista, também houve exageros de toda espécie, para compensar a “invisibilidade” ancestral das mulheres; o mesmo acontece agora com o movimento gay, agravado pela apropriação dele pela mídia até um limite quase insuportável para nós, pobres heteros quase envergonhados por sê-lo. Não é, para mim, uma atitude de preconceito de nossa parte – embora muitos heteros sejam efetivamente preconceituosos – mas uma reação natural ao império da temática gay, com o qual – diga-se, a bem da verdade – nem todos os gays são coniventes. Concordo também quando você se refere à hipocrisia da nossa sociedade e ao risco que corremos, todo o tempo, de volta a um obscurantismo moralista, este sim, o grande e mais perigoso dos riscos.


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O POETA JOÃO BATISTA DO LAGO comenta em IF (poema de jb vidal)

Comentário:
Há alguns dias alguém escreveu neste PALAVRAS TODAS PALAVRAS que a poesia atualmente não faz sentido porque estaria desprovida de sentimento… de alma… de espírito… de sensação… (mais ou menos isto, segundo se me deu observar).
Certamente o autor daquelas palavras não leu esta poesia de J.B. Vidal que, para além do quadro intimista que ele pinta com tintas carregadas de um lirismo clariciano, vê-se maresias tormentosas de apaixonante emocionalidade.
São versos que traduzem e retraduzem um oceano de emoção comovente e cativante pelo canto-grito como ondas que batem nas rochas e retornam ao leito da imensidão do próprio oceano. São versos que clamam, por exemplo, a desconstrução das guerras, das misérias, das fomes, dos flagelos e, sobremodo, de indivíduos que já não têm consciência pois nada mais são que excrementos de um pós-modernismo tardio que não os deixam transparecer no Homem (homem/mulher) o “Sujeito” que há intrínseco na espécie humana.
Não é à-toa, portanto, que o seu grito reverbera no mais profundo cósmico de si. E de lá retorna cada vez mais audacioso e voraz dizendo a todos nós que a imagem que se desvanece no horizonte de um mar revolto e revoltado de emoções – ainda que ambiguas – não se desvanece pura e tão somente no olhar esmo, pois, ela ficará para sempre retida na mais profunda retina da alma humana.

Parabéns, meu caro Vidal e obrigado por me dar a conhecer esta belíssima pérola poética.

João Batista do Lago.

 

 

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LAURITA MARTEL encontra, ou não, GARCIA DE GARCIA

Garcia de Garcia, meu querido,

Me pergunto se você será o mesmo que conheci a tantos anos atrás, naquela fria e distante fronteira que foi a nossa casa e a nossa ponte para outros mundos. Não vou me alongar, no caso de que você não seja você. Mas saiba que, mesmo passados muitos anos, ainda lembro com carinho de tudo. E com saudades também. Dos bailes, dos namoros, dos livros lidos juntos, dos amigos que se perderam, daquela vida que era só intensidade e que se foi assim, tanto tempo, e tão rápido. E daquela noite inesquecível quando você me salvou do pior de mim. Uma noite fria apesar de ser fevereiro, e de ser sábado de carnaval. Enquanto eu era coroada a rainha do carnaval, uma cigana de lantejoulas vermelhas e douradas, e vi o meu amor, o meu grande amor, grudado numa enfermeira atrás de uma coluna, vestido de zorro, o cretino. Tudo naquele momento deixou de ter sentido, a brincadeira, o meu reinado, os meus planos de fugir com aquele canalha para a capital e deixar pra sempre aquela vida ordinária de interior. Ele, que era o meu salto para o mundo. Desci a escadaria de mármore, as lantejoulas voando, como insetos brilhantes e perversos a me perseguir, o pesado manto vermelho comido pelas traças de outros reinados e sumi. Cetro em riste, sumi do baile, do clube e do centro da cidade. Não fui muito longe não. Você estava sentado no banco da praça e me amparou como se nos conhecêssemos de toda a vida. Nossa vida em comum começou assim, uma crush e a metade de um cachorro quente pra curar a ressaca. E você que não entendia nada, me disse que eu mais parecia uma vadia com aquela roupa, eu disse que era de cigana e você disse que era de cigana vadia então, e começamos a rir os dois. Eu nem lembrava mais desta história, lembrei dos detalhes agora, o gosto da laranja da crush, as suas mãos grandes repartindo o manjar comigo. Tudo voltou agora, enquanto preparo esta mensagem para atirá-la ao mar, numa garrafa incerta e ir em direção a você que não sei se é você. Você me levou para passear pela cidade naquela madrugada fria e me mostrou algumas portas de casas antigas, pé direito muito alto e as mãozinhas de bronze no lugar da campainha.  Você me salvou de mim e das minhas piores ilusões de menina do interior, você guarneceu a minha alma. E quando tirei a fantasia de cigana, foram tantas as coisas que ficaram para trás. Será que você é você? Quando vi o seu nome navegando pelas mesmas águas que eu, agora, passados tantos anos, um estremecimento me arrebatou. Fui tomada de uma saudade estranha, devo dizer. E de uma culpa que nunca me abandonou.

 

Sua Laurita Martel.

 

 

nota do editor: a leitora laurita martel pensa ter encontrado garcia de garcia, depois de muitos anos, através de seu poema FILOSOFIA postado neste site. laurita escreveu esta carta e solicitou que fosse publicada. o editor atendeu considerando o tempo e o reencontro (?).

MUSEU DESAFIA PAPA E MANTÉM ESCULTURA de SAPO CRUCIFICADO

Sapo verde crucificado “fere os sentimentos religiosos de muitas pessoas”, diz Vaticano

Um museu italiano desafiou o papa Bento 16 e se recusou a remover uma escultura de arte contemporânea que mostra um sapo verde crucificado, segurando nas mãos uma caneca de cerveja e um ovo. O Vaticano considerou a peça uma blasfêmia.

A maioria dos membros do conselho do museu Museion, na cidade de Bolzano, decidiu que o sapo é uma obra de arte e continuará na exposição.

Chamada de “Zuerst die Fuesse” (primeiro os pés), o sapo usa um pano verde na área da cintura e está pregado pelas mãos e pelos pés como Jesus Cristo. Uma língua verde pende para fora de sua boca.

O trabalho do artista alemão Martin Kippenberger, morto em 1997, foi exposto na Tate Modern e na Galeria Saatchi, em Londres, e na Bienal de Veneza. Retrospectivas da obra do artista estão programadas para Los Angeles e Nova York.

Autoridades do museu localizado na região ao norte de Alto Ádige disseram que o artista considerava a peça uma ilustração do medo sentido pelos seres humanos.

O papa, que nasceu na Alemanha e recentemente passou suas férias em um lugar perto de Bolzano, obviamente não concorda.

Em nome do papa, o Vaticano escreveu uma carta de apoio a Franz Pahl, líder do governo daquela região e uma das vozes contrárias à escultura.

“Claramente, não se trata de uma obra de arte, mas de uma blasfêmia e de um degradante pedaço de lixo que deixou muitas pessoas indignadas”, afirmou Pahl à Reuters, por telefone, enquanto a diretoria do museu realizava sua reunião.

Na carta, o Vaticano disse que a obra “fere os sentimentos religiosos de muitas pessoas que vêem na cruz o símbolo do amor divino”.

Reuters. 

 

MANIFESTO À NAÇÃO: “OAB:Tortura não é crime político.”

Tortura não é crime político: pela verdade e reconciliação!

Manifesto em favor do debate e contra a impunidade e a tentativa de imposição do esquecimento.

Um debate fundamental para a democracia brasileira, há muito tempo sufocado, finalmente se estabelece de forma republicana junto à opinião pública: a questão da responsabilização jurídica dos agentes torturadores durante a ditadura militar.

Causa espécie e estranhamento o fato de que, em plena democracia, tal assunto provoque reações contrárias que rejeitam até mesmo o próprio debate público do assunto. Sob os argumentos de que o tema é inoportuno, intempestivo, e até mesmo que significa “um desfavor para a democracia” ou que “não mais interessa a sociedade’, percebe-se explicitamente um movimento, certamente motivado por interesses específicos mas nem sempre explícitos, que procura abafar as vozes daqueles que há mais de três décadas clamam e esperam por justiça.

O fato concreto é que existem no Brasil mais de 100 associações de ex-perseguidos políticos e familiares de mortos e desaparecidos políticos. Mais de 62 mil brasileiros ingressaram com pedidos de reparação na Comissão de Anistia nos últimos sete anos, restando quase 25 mil por apreciar. A União apreciou mais de 500 processos movidos por famílias que tiveram familiares mortos ou desaparecidos durante a ditadura militar. Diversos particulares têm ingressado com ações no Poder Judiciário pedindo a responsabilização jurídica de quem os torturou ou levou à morte dos seus familiares. O Ministério Público Federal promove, atualmente, Ação Civil Pública contra agentes públicos que chefiaram o DOI-CODI de São Paulo. Milhares de brasileiros aguardam reparação, centenas aguardam o direito de enterrar seus entes próximos ou de conhecer a verdade histórica sobre seus paradeiros. Não se pode falar em reabrir feridas que nunca se estancaram. Estudos internacionais recentes revelam que a impunidade aos crimes (ressalta-se sempre, atos praticados na ilegalidade do próprio regime ditatorial) é fator de piora dos índices de violência e de abuso aos direitos humanos, servindo como uma forma de legitimação da violência praticada hoje no Brasil. Não há de se falar, portanto, de que se trata de um assunto do passado. É mais do que presente.

O debate que está posto não é a alteração ou revisão da lei de anistia, mas sim o cumprimento da mesma. O debate que está posto não significa afronta às Forças Armadas enquanto instituição nacional, mas sim o prestígio de sua corporação frente àqueles que não respeitaram nem ao menos as regras do próprio regime ditatorial que proibia a prática da tortura e comprometeram a sua imagem. A questão jurídica central é: se a lei de anistia abrangeu ou não os crimes de tortura enquanto como crimes políticos. O certo é que não há manifestação do Poder Judiciário sobre a questão e, por isso, a importância do debate público. Enquanto este momento não ocorrer o debate permanecerá em pauta junto à sociedade civil.

Questões fundamentais ainda não foram respondidas: Se a anistia foi ampla, geral e irrestrita, porque a anistia a Carlos Lamarca foi questionada por setores militares da reserva na Justiça? Existe correlação moral e ética entre aqueles que usurparam da estrutura estatal do monopólio da violência para torturar com aqueles brasileiros que exerceram a resistência contra uma ordem injusta que os perseguia? Que democracia é essa, incapaz de enfrentar o seu passado? A quem interessa que o debate não seja realizado e os fatos não sejam revelados? Os perseguidos foram processados e julgados e hoje são anistiados à luz da Lei n.º 10.559/02, os torturadores nem ao menos reconheceram seus atos. Como anistiar em abstrato crimes que não foram elucidados e julgados?

As organizações da sociedade civil abaixo assinadas vêm por meio desta mensagem apoiar e somar-se às iniciativas do Ministério da Justiça e do Ministério Público Federal em discutir a validade e alcance da Lei de Anistia de 1979 e os caminhos jurídicos para que, sem alteração das leis que permitiram a redemocratização do Brasil, a questão seja apropriadamente tratada no Poder Judiciário. É dever do Estado, no mínimo, promover o debate sobre as garantias fundamentais dos seus cidadãos, entre elas o direito à verdade, à memória e à justiça.

Cremos, em consonância com diversos tribunais internacionais, e com diversas cortes superiores da América Latina, que os crimes contra a humanidade não são prescritíveis, portanto, não passíveis de anistia, e que aqueles que os cometeram, fora da própria legalidade do regime de exceção, devem ser julgados e responsabilizados.

Apenas com o devido processamento e esclarecimento de todos os fatos que envolveram esses crimes é que será efetivamente possível falar em anistia, permitindo que a reconciliação nacional se consolide, desbancando a tese degenerativa da democracia de que a única solução possível para lidar com as abomináveis violações de direitos humanos perpetradas por agentes públicos é a impunidade e a imposição do esquecimento.

Assinam este manifesto:

Maurício Azêdo, RJ, Presidente da ABI
Cezar Britto, DF, Presidente da OAB
Lúcia Stumpf, SP, Presidente da UNE
Emir Sader, RJ, Professor, UERJ
Alberto Manuel Quintana, RS, UFSM
Alexandre Zamboni, PR, Engenheiro Agrônomo, Candidato a Vice-prefeito de Ponta Grossa Paraná
Aluízio Ferreira Palmar, PR, Jornalista e escritor
Alzira Anamaria Lutfi, SP, Dentista
Amir Eduardo Abud Machado, SP
Ana Carolina Guimarães Seffrin, RS, FADISMA
Ana Jose Alves Lopes, MS, Diretora Presidente e Diretoria Executiva, Rede de Mulheres Negras e Fórum Nacional de Mulheres Negras
Ana Maria Wilheim, SP
Ana Monteiro Caldas, RJ
André Pereira Roquete, RJ
Andressa Rissetti Paim, RS, UFSM
Angela Caniato, PR, Universidade Estadual De Maringá
Anita de Moraes Slade, RJ, Programadora Visual, Rio de Janeiro, Fórum de Reparação do Rio de Janeiro
Camila Borges Breda, RS, UCS
Carlos Eduardo Pestana Magalhães, SP, Jornalista e Sociólogo, coligação PT-PCdoB Clara Charf, RJ, ex-perseguida política
Clanricardo Paulino, SP
Daniela Helena
Fernanda Giardini Pogorelsky, RS, Unisinos
Francisco Fernandes Maia, DF, Presidente da Acimar
Geo Britto, RJ, Centro de Teatro do Oprimido – CTO-Rio
Marcia de Almeida, RJ, jornalista
Giselle Megumi Martino Tanaka, DF, Arquiteta e Urbanista
Ivete Caribé da Rocha, SERPAJ BRASIL
João Guilherme Vogado Abrahão, PA, Universidade Federal do Pará
Lawrence Estivalet de Mello, RS,Universidade Federal de Pelotas
Leila Rocha Marques, BA, Instituto Eletrocooperativa
Letícia Garcia Ribeiro Dyniewicz, SC, Universidade Federal de Santa Catarina
Lincoln Secco, SP, Professor, Departamento de história, USP
Manoela Michelli
Marco Aurelio Purini Belém, SP, USP
Marcos Aarão Reis, RJ
Maria Angela Santa Cruz, SP, Psicanalista e analista institucional, Instituto Sedes Sapientiae
Maria Perpétua Guimarães de Castro, BA, Eletrocoopertativa
Mariana Monteiro de Matos, PA, UFPA
Marta Cezária, MS, Rede de Mulheres Negras e Fórum Nacional de Mulheres Negras
Matheus Bandeira Onofre, PB, Diretor de Extensão da UNE, João Pessoa-PB, UFPB
Natalina Ribeiro, SP, Assistente Social
Nathalia Beduhn Schneider, RS, UFRGS
Nélie Sá Pereira, RJ
Og Roberto Doria, SP
Paulo Sergio Alves Barbosa, SP, Técnico em eletrônica e cidadão brasileiro
Raimunda Luzia de Brito, MS, Rede de Mulheres Negras e Fórum Nacional de Mulheres Negras
Reinaldo Pamponet Filho, BA, Instiuto Eletrocooperativa
Rodolfo Porley Corbo, Uruguay, Secretario del Ámbito Proceso Uruguay Entero Sur
Rose Nogueira, SP, Presidente, Grupo Tortura Nunca Mais de São Paulo
Selma Pellizon Teixeira de Camargo, SP
Vera Vital Brasil, RJ, Psicóloga Clínica, Tortura Nunca Mais Rio de Janeiro e membro do Fórum de Reparação do Rio de Janeiro
Viktor Mello Goulart, RS, Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Zilda Cargnin Piovesan, RS, Jornalista
Gilmar de Mello Pereira, SP
Luiz Rodolfo de Barros Correia Viveiros de Castro, RS
Daniel Gerardo Raviolo, CE, Coordenador Geral de Comunicação e Cultura do Ceará
Marília Bandeira, RJ, Programadora Visual
Alexandrina Cristensen de Souza, DF, Presidente da Associação Brasileira de Anistiados Políticos
Ana Gabriella de Souza Andrade, PE, AJUP direito nas ruas, UFPE
André Luiz Barreto Azevedo, PE, NAJUP, Direito nas Ruas, UFPE;
Ariel de Castro Alves, SP, Coordenador da Seção Brasileira da Ação dos Cristãos para a Abolição da Tortura,
Cícero Paiva de Souza, DF, funcionário da Associação Brasileira de Anistiados Políticos
Denise Pereira Silva, DF, funcionária da Associação Brasileira de Anistiados
Fernanda Motta d’Avila, RS, Advogada
Glauco Ludwig Araujo, RS, DCE UFRGS
Jacqueline Sinhoretto, SP, Professora Universitária
Jéssica Elize da Fonseca, SP, Estudante de Direito
João Bosco Da Silva, SP, Tesoureiro-Geral, Sindicato dos Servidores Públicos da Assembléia Legislativa e do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo
Mariana Cavalcante Araujo Costa, SP, Fórum Centro Vivo
Marleide Ferreira Rocha, DF, Advogada, Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares
Vera da Silva Telles, SP, Universidade de São Paulo
Mirnalene Neves da Silva, DF, funcionária da Associação Brasileira de Anistiados Políticos
Nelson Cicone Filho, DF, funcionário da Associação Brasileira de Anistiados
Olivia de Campos Maia Pereira, SP, Arquiteta
Márcia S. Hirata, SP, Fórum Centro Vivo, FAU-USP
Tales de Castro Cassiano, SP, Vice-Presidente da UNE
Ademar Pozzatti Junior, SC, Mestrando, Universidade Federal de Santa Catarina
Reila Márcia Miranda da Silva, SP, Jornal Brasil de Fato
Pedro Ruas, RS, Advogado
Rafael Lemes Vieira da Silva, RS, Estudante de Direito da UFRGS
Rodrigo Marcos de Jesus, MG, professor de filosofia
Secretário Geral do Conselho Estadual de Direitos Humanos de São Paulo, Membro do Movimento Nacional de Direitos Humanos
Suellen Muniz Coelho, Paris, França
Tarciso Tavares, Presidente, União Nacional de Aeronautas Anistiados


Lançamento do Manifesto: Tortura não é crime político: pela verdade e reconciliação!
28 de agosto (quinta-feira)
Largo São Francisco, São Paulo

 

DE CARNE PARA CARNE poema de tonicato miranda

 

para Jairo Pereira

 

 

veredas de poemas a você poeta

lhe dou uma alameda de buritis sagarânicos

à sua triste-e-alegre sina, também uma pedra, um bodoque

para que a atire ao címbalo madrugadino, anunciando

mais de cem mil e duzentos versos satânicos

recitados entre acordes clássicos, com jazz e rock

veredas de buritis e mosquitos a você poeta

e no dizer de Bashô: que ao menos sejam eles pequenos

pois a natureza é mesmo vária, solidária e antropofágica

pior são os gigantes olímpicos de força e de merda, aboiando

em novos coliseus se digladiando – pobres terrenos

lutam pela redução de marcas, mágicos sem mágica

veredas de meias mentiras envio a você poeta

deixa-me vampirar seu sangue quente e revoltoso

rolar em suas espheras estelares qual uma vaca voadora

perplexa com sua própria leveza, no céu flutuando

quem sabe montemos uma plataforma no espaço cosmoso

e nela sentemos com Clark para apreciar a roda 2001 inventora

veredas de nada e porções de nus desejo a você poeta

porque o nu é o todo, sendo o corpo a maior dádiva humana

deste postulado sabem leões, caranguejos e todos que têm carne

onde o rumo não é dado pela ponta do sapato, andando

mas pelo rigor do clima rufando os poros e pêlos, pele que se amaina

na ansiedade do contato de outra pele, que se irmana a outra carne

FILOSOFIA poema de garcia de garcia

 

 

não sirvo-me do pensamento alheio

alimento-me dos meus,

nascidos na história do meu viver,

do meu olhar cósmico,

 

não seria eu se fosse o pensar de outros

seria eles,

 

não sentiria eu, sentiria eles

não veria o mundo, veria como eles

 

não, sou eu próprio

com meu próprio processo,

 

engana-se quem crê no que outros pensaram

apenas reprisam,

anulam-se,

não são,

 

e não sendo

 

[....]

 

nulos!

RELANCE poema de seth báratro

Olímpico e alheio aos olhos impudicos
meu pênis inflado é objeto de gratidão:
nunca se estafa, no maior convencimento
engalanando seus propósitos lúbricos;
pelo mais ao menos não me deixa na mão.
Destarte, assim vai exaltado em tempo.

Destino injusto que me foi traçado
todos reconhecem no caralho o rei
da espécie e boceta apenas o seu fado;
de toda experiência tida apenas sei
que a cada um se reserva conquista:
o homem enfraquece, a mulher lista
sai de uma cama para o dossel ao lado.
Portanto tal homem vazio enfurece,
por desmerecido se não lhe batesse.

Gloriosa a divina boceta da Sílvia
jamais deixou a desejar se excitada
teve homem com a glande esfolada
houve mulher gemendo à recidiva.
E nem tão pouca glória se completa
se uma bela se bastasse na punheta.

VOLÚVEL poema de marilda confortin

 

Tem hora sou da paz.

Quero casa,

casar,  czar,

morar num harém,

ser oásis, caça,

presa, amélia, amém.

 

Outra hora quero guerra,

pena de morte,

porte de arma,

tormenta, fogo,

terremoto, correnteza.

Pura brabeza.

 

Tem hora creio em buraco negro

camada de ozônio, câncer no seio

falta de hormônio, aids, escorbuto

corrupto, degelo, desgraça

apocalipse… Vixe!

 

Noutras acho graça

de tudo que disse

quero viver mais cem anos

fazer planos,

plástica, ginástica

poesia, música

teatro, cinema

amor.

 

Ontem te amei

Hoje não sei.

 

EDU HOFFMANN e seus HAICAIS

poeta nua

 

      no moon

 

        da lua

 

 

=

 

 

                      lado         a         lado

 

                         sobrevoamo-nos

   

                             abismados

 

 

 

=

 

 

                 intacto

 

 

          apenas o coração

 

 

              do cacto

 

 

=

 

 

 

                pequeno acrobata

 

 

                       o tudo

 

 

              num brinquedo de lata

 

 

=

 

 

 

              sombra no jardim

 

             ave chama contente

 

                minúsculos sóis

CANTATA EM SOL MAIOR poema de bárbara lia

Como quem clareia sonhos
com o fogo de deuses desgarrados
fecha-se em silêncio?Na solidão da montanha desenha
a partitura que incendeia
a noite das Bacantes
e os orgasmos das sereias.

Eis o poeta: Alquimista
que filtra a alma da rosa
no bosque dos invisíveis.

E a adormece, à distância,
cantando anil ao celular
uma canção de McCartney:

Day after day
um homem sozinho
em uma montanha.

Day after day
vendo o sol se por
os olhos na memória do mundo.

Day after day
a voz do homem da montanha
tal qual na canção
- uma centena de vozes
falando claramente -

A CORNUCÓPIA OFERECIDA AO POETA – por jairo pereira

Teu cu Senhor dos Precipícios. Pótria cloaca a céu aberto. Deixo o prato cheio pra epistemólogos, semiotas, críticos, exegetas e xeretas em geral. Quando o prato resta cheio, até os santos desconfiam. Mas é o q. deixo deixarei no futuro aos pulhas. Meu prato cheio do melhor alimento do espíritho. Ainda não me leram em vida. Nem lerão os crástimos letargidos. A vida é dos güentadores e güento, os piores espinhos. Num único livro, escrevi e reescrevi trezentas vezes o mesmo poema, só pra encher o saco dos tolos. Nem perceberam a fraude institucionalizada nos fins. Comigo é assim, não deixo pra depois o q. é de se dizer hoje. Meninos, não sabem vós um décimo da reza, quando li as inscrições nas pedras da caverna e depois abduzido, andei por aquelas estrelas cults, cheias de módulos oferecidos aos transnautas como eu. Meninos, vi as espheras em piscas-piscas, reflexos de reflexos sígnicos, tudo assimilei, conformei, desconstrui. Meninos, a poesia é mais do q. almejam os beletristas. Mais do q. sequer imaginam os acadêmicos e diluidores. Mais q. ornamento e prenda. É mais q. linha direcionada a um fim de não ter fim, ser só-linguagem. Linguagem em estado de fonte, matriz, vertente dos contraditos. Quando vi, estava só, sem família, e o poema não tinha o q. comer, beber. Vertigem essa viagem transfulgínia, em busca da linguagem a denotar teu tudo. Quando senti, um cosmos se abriu a minha frente. Um cosmos, um emaranhado de fios invisíveis, com miçangas, ou tipo miçangas, onde era de se colocar sentido, significado, sonâncias… Me abro com o indizível, o imprescrito, o irreversível, de fato sobre fato, matéria sobre matéria, e acelero o ímpeto (renovado) em cada gesto. Poesia brinca com isso, sim Senhor. Adentra searas virgens, contempla despenhadeiros, reconstrói edifícios, só por prazer. Tive medo de enlouquecer naquelas prospecções: a vez q. fiquei no Asteróide ZHUFPHIZT’S 109, e as espheras de significados difusos, ardiam em minhas mãos. Cada esphera um conjunto de significados/significantes, signos rotativos, a refletir linguagens recém-criadas no teto da nave. Outra vez, admirei a fossa imensurável, onde as linguagens eram desovadas, de ciclo em ciclo. Linguagens atiradas fora. O lixão dos signos em desserviço naquele sistema estranho. Olhei os pequenos corpos esphéricos ainda em luminiscências cálidas naquele imenso fosso. Morreram muitas linguagens ali, muitas almas sígnicas, contritas pra sempre no grande canion. O fisgador de espheras apareceu por ali, pálido, superconvicto de q. poesia necessita disso, dos novos signos, como vespas transitoritas, acidentalícias. Fisgo espheras como quem fisga peixes no super-piscoso pantanal. Cada corpo comunicante, daqueles do lixo-espacial, me acrescenta signos novos. Não serei, não posso, ser compreendido. Um ser assim, passado do ponto, em suas razões, fisgador de signos (espheras matriciais) andar a solta na vida. Muitas almas tresenquistas, condenam-me aos infernos e purgatórios de Dante. Selva

selvagem selvagínia, buceta bucetânia bucetínia, cresci revendo as almas q. significam sem expressar vida. Vivi com meus tormentos, a discernir os códigos inescritos. Meus pais me viram ali, com menos de seis anos, em pesadelos horrendos, visitando esses mundos, onde tudo é des-é, transignifica. A tela no céu de minha convulsa mente, era monocromática no pior amarelo-solar. Amarelo, amarelo… Por isso agora, quando entro pra dentro dos corpos aparentemente gélidos dos signos, e encontro vida ali, vida de força de investimento, nos atos, fatos, pensamentos, entendo q. a missão não fora vã. Um louco com seu cavalo, um louco como um messias protovérbico, espelhado de luz estelar, correndo desertos de almas, pra ver onde a energia mínima se concentra. Dentro do signo, já limpei paredes, tracei projetos, esbocei construções singulares. Dentro do signo, me perdi e me encontrei. Não há morte na vida dentro do signo. Não há morte, não há sofrer, não há ilusão de vida sem sentido. Ali me refugiei com minhas almas-irmãs, minhas almas, meus cães, meus cavalos, meus versos queridos, extraídos de obras de amigos. Ali foi q. inventei de inventar o antilugar, só pra ver no q. ia dar. E deu, se transtornar, se entorpecer, de realidades díspares, transvivências, iluminações, tudo q. é, está, longe do lugar comum, da primeira e segunda nathureza. Inventei de inventar nathurezas transversas nos meus ditos. Um perigo, só correr, desesperar sem motivo. Reflexo no reflexo no reflexo, foda Sr. dos Precipícios, com sua pótria cloaca a céu aberto. Nenhum dinheiro, cala meu canto orfiothermotercial. Nenhum poder e asco, emudece minha voz, transvoz, tubervoz, na veloz empreitada do fazer sem precedentes. Me precederam almas transitas, turboanímoras, de outros orbes. Me precederam com obras erigidas em transmundos. Obras sobre obras, perdidas no vasto universo dos signos. Depois da terceira grande explosão cósmica, muitas obras se perderam no caos. O caos q. organizou-se em caos novamente, e ofereceu-se a vida. Vc físico de aluguel, não entende eu sei, o q. poesia tem a ver com isso. Tudo e nada, é o q. sempre direi, em meus relativismos de inteligência. A poesia, era apenas vento e poeira cósmica quando os mundos se erigiram em matéria consistente. A poesia, errante ser no cosmos. Os transpoetas das estrelas, esqueceram as ferramentas do fazer, e as obras deambulavam os espaços, acidentalmente, como em apoteóticas aparições. Antropomísticas minhas miragens interiores, quando penso nisso, e em tudo quanto foi, fui naquelas imensas clareaduras estelares. Bem q. meu filho poderia estar ali comigo, nossos pobres cavalos, encilhados no básico, visitando estrelas de muito capim. Não tenho jeito pra essas coisas de só-razão nos ditos. Sempre comecei ensaios com razão e terminei em ficção das mais ficta inverdade. Não há grilhões a manear os loucos intuitivos. Um poeta, poetar armadilhas do pensamento. Na philosophia me encontrei, na philosophia, menti e não me penitenciei, na antropologia matei e comi aqueles animais peludos, de príscas eras, na psicologia repeli energias invasoras, íncubos & sucubos, tudo o q. pensei não pensei, disse, desdisse, esteve ali em minha mente, como um tratado só-firmado pro próprio tratadista. Há os loucos investidos nisso, sim, os loucos-bons, como eu, inventores do desinventado, compondo mundos novos no transespaçotempo. Cuidado, vc. q. acha me conheceu, conhece-me. Cuidado, vá com mais calma em suas conclusões. Transei transmundos com minhas invenções e não sei porque parei aqui. Parar aqui, nessa terra de meu deus e de nossa esperança, uma escala pra outra aventura no tempo. Vou pegar os últimos signos do meu tempo, as últimas espheras q. vejo nos grandes fossos do pensamento desutilizado, e criar uma lânguida deusa pra poesia, numa grande escultura trans-semiótica. Ninguém jamais ouviu falar do cara q. fez isso, naquele tempo. Do cara q. de tanto ver a poesia no chão da simplitude, subserviente & solíptica de linguagem, resolveu provocar o quinto big-bang dentro de si. Q. os reflexos reflexos quintessências do mesmo corpo implodido em mim, atinjam no espaço as almas refratárias de linguagens. Muitos corpos-almas, conquistados pro nosso mundo Sr. do Superlux. No superlux me dispersei, imortalizei, alma alucinada com as espheras transignificadas. Divulgo formas nos horizontes crispados de veios subterrâneos. Divulgo estrelas no teto da caverna. Divulgo cenas míticas, centauros gordos nos salões pomposos, unicórnios nas fontes de águas cristalinas. Divulgo mulheres leitosas e nuas, confundidas com esculturas de gelo, nas estepes. Caio em transes repetidos, quando conspurco contra o intelecto. A cornucópia prata está cheia do sangue dos inocentes, do sangue dos poetas recusados. Como um deus de mentirinha, bebo da nova e gloriosa vida da poesia. Bebo três goles do líquido espesso. Três goles e três arrotos, subseqüentes. Avante camaradas! Longe de mim, os q. só agiram para o certo, o determinado, os q. só perseguiram verdades matutinas, quando a noite grande deitava signos como imensas nuvens de gafanhotos negros. Um poeta paranormal, sabe muito bem do q. estou falando, do q. sinto, transmito em minhas sãs preleções. Desconfie, dos q. não amam, dos q. não cantam, não dançam, não emocionam. Soy fantástico, patético e particular, como disse-me um de meus filhos, certa vez. Não há razão onde há só razão. Não há conflito onde há só conflito. Não há dialética onde há só diálogo. Não consumo o produto de tuas oficinas, Sr. dos Precipícios. Roupas, relógios, carros, tvs, calçados, merenda escolar. As  embalagens de cliclet’s condizem com tua ira insana. Na penúltima noite da verdade, menti pra mim mesmo, q. o SOL esse SOL soliníssimo de segunda-feira, vai clarear pra sempre os meus caminhos. Sobre a imensa pedra do deserto, um ser esmerilando signos. A contingente realidade do meu futuro. No amplo deserto da poesia, um ser inglorioso, a esmerilar os signos. Continuo não acreditando, nos monstros dominadores dos signos. Almejo vencer o desvencido: o poder q. nos rouba a energia-matriz da criação. O poder q. desencanta e atormenta o criador. Intenciono, tenho fibra e coragem pra isso. Melhor fazê-lo com poemas, e é o q. farei.

 

jAirO pEreIrA

Autor de O antilugar da poesia,

O abduzido e outros.

 

 

BRASIL GARROTEADO PELA DITADURA por walmor marcellino

DO(S) FUNDAMENTO(S) DA LEI

Qualquer arbitrista pode conseguir impor-se pela força das armas, fazendo-se assim um suposto “jus-agendi”, mas suas decisões não conferirão legitimidade e direitos a seus atos. A desrazão não pode produzir lei positiva. Como uma vaca não entende de leis e uma vaca fardada desconhece o que seja um consensum constitucional, eu (não sendo uma nem outra) quero dizer que farda ou fardão não confere ao engalanado invólucro e à coisa dentro o direito de legislar e jurisprudenciar. Ouço mugidos que repercutem desde o Clube Militar e vejo que remanescem os magarefes políticos, e os coices-de-mula mantêm sua associação conspiratória para o crime.

Se um manipanço chamado Humberto de Alencar Castelo Branco foi alçado ao poder nacional em 1964 por um golpe de traição a serviço de potência interventora, ele e a sua camarilha de fardão e gibão não constituem uma corte de justiça. Partamos desse princípio, para assim argumentar com os nacionais, o povo brasileiro, os contemporâneos a respeito desse dejeto ditatorial chamado “Lei da Anistia”. Em primeiro lugar aquela canalha títere do Departamento de Estado dos EUA promoveu excrescências legalizadas, mas não outorgou a nossa Constituição, seu preâmbulo, artigos e cláusulas; embora seus herdeiros continuem mostrando considerar-se tutores da República e até da Constituição de 1988. Ainda que uma conciliação oportunista os venha querendo sancionar.

A Constituinte de 1988 reorganizou a nação brasileira estilhaçada pelo fascismo de 19641986. A partir do mando nacional restaurado, o Brasil se tornou pátria de cidadania livre e independente, regida por sua própria vontade. Todos os atos e procederes que envergonharam a nação foram de aí proscritos.

Todavia os crimes infames de ofensa aos direitos humanos, entre eles o de tortura, esses não têm prescrição conforme nossa adesão à Carta das Nações Unidas. O direito internacional não confere ex vi a torcionários, escroques e assassinos o direito (ou imposição permanente) de anistiar-se, o direito a salvaguardas como “agentes encarregados de cumprir seus próprios mandamentos” de violência e crimes de toda sorte. Assim, enquanto a vontade nacional não prevalecer sobre os arreganhos fascistas e as ameaças de tutoria não teremos firmado o marco zero da nacionalidade que julgávamos estar claro na redação constitucional de 1988 e seus progressos.

Afinal, quem são esses capitães-de-mato e mercenários a martelo, essa malta que se está opondo ao País? Estão refazendo atos adicionais e leis complementares à Carta Magna? Serão templários, agentes confessionais, que se autoqualificam como “delegados” da lei e da ordem, contra o povo brasileiro?

 

BRENNAND: A CATEDRAL BRASILEIRA – UMA POÉTICA TRIDIMENSIONAL DE FOGO, AR, TERRA E ÁGUA / por flávio calazans

 

“Eu não me envergonho de ter fabricado meus próprios brinquedos.”

Brennand apud Jacob Kintowitz, página 34.

 

Em Pernambuco, minha namorada insistiu em levar-me para conhecer uma fazenda na periferia de Recife,  a “Propriedade São Cosme e Damião”, cerca de uns 20 quilômetros do centro da cidade; Lá fica o atelier do ceramista internacionalmente reconhecido Francisco Brennand.

 

Na verdade, eu já tinha vislumbrado a obra do artista contemporâneo Brennand, como todos os que desembarcam pelo aeroporto de Guararapes, pois lá é impossível não ver o enorme mural de Brennand; vi outro mural dele na Rua Nova, centro de Recife,  um exemplo de muralismo, retratando as duas batalhas de Guararapes, quando expulsamos meus loiros ancestrais holandeses; de quem herdei a memória genética dos olhos claros, misturados aos loiros italianos de Turim no porto de Santos, em São Paulo.

 

Porém, estes murais não podem ser comparados à experiência estética e espiritual que é  andar pessoalmente dentro da obra viva de Brennand, é esta sensação que quero contar, provocando você a visitar e sentir esta arte brasileira tão pouco divulgada.

 

Uma estradinha de terra passa sob um túnel de copas de árvores que juntam-se sobre a estrada, já criando um clima na entrada da fazenda, uma sombra úmida cujo frescor chega aliviando-nos do sol ardente e abrasador de Recife, uma sensação de acolhida, boas vidas, aquela hospitalidade familiar nordestina que nos faz sentir à vontade, como um abraço carinhoso e feminino…talvez esta impressão tenha ficado pela minha percepção estar enevoada por estar apaixonado e com minha namorada dirigindo e trocando carícias e beijos eu sentia-me muito mimado, inebriado, como só uma mulher nordestina sabe fazer para seduzir seu homem.

 

A fazenda parece uma cidade, com vilas de casinhas térreas bem antigas e muito movimento, dois quilômetros depois surgem enormes chaminés erguidas como arranha-céus ou símbolos fálicos fumegantes, são fábricas de azulejos e pastilhas às margens do rio Capibaribe, a família Brennand produz por gerações as cerâmicas comerciais para o setor da construção civil, iniciada em 1917 como fábrica de telhas e tijolos, com galpões imensos, gigantescos depósitos cuja fachada e arquitetura é idêntica aos edifícios ingleses da revolução industrial, ainda existentes em Bristol, com arcos românicos que já evocavam algo de sacro ou medieval; o patriarca Ricardo Brennand fundou a fábrica e colecionava porcelanas, inclusive chinesas, e isto contagiou o filho Francisco Brennand.

 

A entrada do Ateliê tem seguranças e uma loja de souvenirs com duas funcionárias, vendendo catálogos de exposições, livros de e sobre Brennand, vídeos, cds musicais inspirados em suas obras, camisetas, posters e até peças originais com a grife,  assinadas por Brennand, nada ficando a dever a Museus internacionais como Prado, Louvre ou Museus de um autor como o Rodin em Paris.

 

Já no primeiro pátio vem o impacto desta obra em processo, uma praça que demonstra os espaços generosos, a amplitude luxuosa de vazios, os jardins imensos que recordam a arte zen dos e-makimono e pinturas taoístas, gramados infindáveis pontuados por totens vigilantes, estátuas imponentes e severas como as Mori da Ilha da Páscoa no oceano pacífico, como um exército guardião do espaço sagrado em que entramos e que minha namorada percebia como símbolos fálicos, pênis eretos em uma exaltação ao poder masculino, e ele fez-me dar várias voltas no conjunto de estátuas para convencer-me da semelhança com membros viris, que eu só com muito esforço poderia vagamente perceber assim (para mim ainda são soldados que recordam peças de um tabuleiro de Xadrez: Peões com capacete de conquistador espanhol, Bispo e até  um Rei de cartola capitalista, como se parte de um jogo em andamento jogado por Deuses enormes cujo tabuleiro era a grama em que pisávamos), a interpretação de minha namorada partia de um horizonte de perspectiva feminina, aceitei intrigado e com ressalvas, e em muitas das cerca de mil e duzentas obras expostas ela repetia esta perspectiva com a qual eu discordava, mas foi interessante constatar esta visão feminina.

 

Algum tempo depois li na revista VEJA de 18 de agosto de 1999, página 45,  que Brennand estava fazendo um farol ou torre em Recife, um monumento em comemoração aos 500 anos do “descobrimento” do Brasil, e surgiu o escândalo quando o esboço teve seu desenho  alterado para parecer um minarete árabe, ocasionando uma carta aberta de Brennand aos jornais dizendo que “não tenho mais idade para ser censurado”, os jornais descobrem que a obra fora alterada por ordem da Primeira-Dama do município, Jane Magalhães, religiosa, advogada e defensora dos bons costumes que exige ser chamada de “DOUTORA JANE” até mesmo pelo marido, a doutora teria achado a forma do totem muito semelhante a um órgão masculino excitado; a doutora também teria vetado desfiles de moças vestindo biquínis no concurso Rainha de Recife do carnaval; este escândalo confirma que mulheres teriam mesmo a percepção de genitais do sexo masculino nos totens de Brennand.      

 

Mais a frente uma imensa fonte esguicha torres de água jorrando com força e sonoramente, circundando um obelisco ou totem que também é percebido como um falo por minha amada, falo gigante cercado de falos menores, estes do tamanho de uma pessoa adulta de pé.

 

Já no segundo pátio, à direita, são paredes afastadas uma da outra em um pátio que, somente aos poucos, virando muitas vezes a cabeça, perplexos pela magnitude do espaço, percebemos formar um conjunto imenso, delimitando um espaço sagrado, um saguão que vai sendo, camada a camada, sentido como a NAVE de uma imensa e descoberta IGREJA ou TEMPLO a céu aberto…evocando memórias de templos indianos e chineses, de uma outra tradição…ou talvez até de uma Reconstrução do mítico  Templo de Salomão em Jerusalém, aquele desenhado pelo arquiteto Hiran…ou mesmo o mausoléu indiano TAJ MAHAL com seus espelhos de água nos jardins frontais.

 

Neste Saguão ou NAVE é onde passeiam livres três anjos da guarda de plumas negras, três lindos e elegantes cisnes negros nos seguem com um olhar severo e vigilante, como parte viva desta obra única, que poderia ser chamada até de faraônica sem com isso ser pretensiosa, pelo contrário, sua importância passa despercebida, e é aí que reside sua força e verdadeiro poder.

 

Espelhos de água enormes como piscinas  revelam-se como aquários povoados por miríades de CARPAS vivas e coloridas, dançando lenta valsa no lago circundando o ovo da abóboda azul em cuja sombra repousa a TRINDADE de cisnes negros ao sol do meio dia, fazendo do espetáculo arquitetônico um ser vivo e orgânico.

 

As carpas são animais simbólicos, no oriente equivalem ao SALMÃO dos celtas, representam a sabedoria, a alquimia taoísta da tranqüilidade e longevidade, pois ultrapassam os cem anos de idade, nestas lagoas vivem comunidades de carpas, flutuam lentamente tais cardumes de carpas de todas as cores e idades-tamanhos, em um convite à meditação zen, a sair da mente estressada que vive remoendo remorsos e re-escrevendo fantasias do pretérito imperfeito e projeções de um futuro improvável, para ficar no PRESENTE PERMANENTE dos alquimistas e sufis, dos taoístas e zen-budista, o aqui-agora. 

 

Somos suavemente conscientizados de estar DENTRO da obra de Brennand, contemplando um complexo conjunto orquestrado de arquitetura sacra, inacreditavelmente projetado e realizado por um homem sozinho executando um CONCEITO, uma obra hercúlea que nos abriga como um útero, que nos cerca e abraça com ternura e força, sem ser ostensiva e sem que percebamos sua imponência…um espaço que evoca STONEHEGE dos Druidas Celtas e sua harmonia com a floresta, seu culto panteísta da natureza (mais naturalmente e de modo vivenciado e visceral do que a filosofia de Spinoza) com Menires e Dolmens.

 

Este pátio que apresenta-se como uma humilde exposição, secretamente é uma lição de vida, mil mensagens em um livro de pedra e céu aberto, oculta por estar escancaradamente aberta para quem souber relaxar e sentir…um pátio que transcende nomenclaturas e classificações da mente racional, mente que luta por chamar de INSTALAÇÃO por convidar a entrar nela, de RITUAL ARTE por delimitar um espaço com símbolos como as performances ecumênicas de um Alex Grey (“Sacred Mirrors”), de BIO ARTE pela  presença dos cisnes e das carpas…de  ARTE SACRA pela abundância de simbologias,orçando analogias com ESCHER, Willian BLAKE e outros artistas, até que, vencida, a mente consciente relaxa e o inconsciente pode fluir entre o desfile de arquétipos e figuras ancestrais e arcanas.

 

Brennand demontra uma extensa erudição em seus livros e entrevistas, impressionam as citações, por exemplo: em uma parede um mural de lajotas quase tridimensional põe em relevo as letras de uma frase: “The horror, the horror” últimas palavras do Coronel Kurtz no  livro clássico de Joseph Conrad “Coração das Trevas”, livro filmado com John Malkovitz e que inspirou Copola no filme “Apocalipse Now”.

 

“Coração das Trevas” de Conrad é um livro que fala da civilização e do instinto, de um inglês caçando marfin no Congo Belga para uma companhia comercial colonialista; Kurtz é um poeta, pintor e musicista (que toca instrumentos musicais), um militar com vocação de cientista e com hobbies artísticos que imerso na selva encontra o mistério da vida; Assim iluminado, como um Buda Guerreiro, é incompreendido e ao falecer sussurra esta frase enigmática, pontifica esta sentença em seu último suspiro, quase um koan japonês, frase que inspira centenas de interpretações pela história da literatura, uma OBRA ABERTA como diria Umberto Eco…

 

Assim, este livro é um incômodo para todos os caucasianos, nós, descendentes de europeus, pois forçosamente nos obriga a reflexões profundas sobre quem somos e qual nosso papel no mundo que estamos construindo… Brennand pontua sua obra de citações e referências deste calibre, desta magnitude, chocando e provocando, obrigando a tomar partido, posicionar-se frente sua obra…como todo verdadeiro artista, Brennand incomoda e instiga, nos transforma com os símbolos entrelaçados e bem costurados de sua obra. Obra esta que fala profundamente a nós, brasileiros frutos  de uma civilização judaico-cristã européia…

 

Em outro mural há uma frase do poeta cego argentino, Jorge Luiz Borges: “Sua imediata obrigação era o sonho”. 

 

No livro “Francisco Brennand por ele mesmo”, página 9, ele próprio fala abertamente do místico domínio do fogo, de misteriosos “senhores do fogo”, e de uma “LINGUAGEM SECRETA” que expressa sentimentos além da capacidade de expressão da linguagem cotidiana,e fala da comunicação criptografada, das mensagens secretas, do sentido oculto dos símbolos, e de mistérios somente compreendidos pelos INICIADOS. ..e na página 13 recorda a visita de IONESCO a este pátio, que declarou desejar encenar uma de suas peças o Teatro do Absurdo neste cenário surreal, transformando o espaço em uma grande casa de espetáculos para óperas, balets e orquestras filarmônicas e sinfônicas, um espaço vivo como eram as Catedrais Medievais, Brennand criou sua própria CATEDRAL.

 

Atração TURÍSTICA de potencial internacional, a “Cateral de Brennand” já foi matéria bilingue da revista de bordo distribuída nos aviões da Varig, a ÍCARO número 172 de dezembro de 1998, ano 15, páginas 34 a 43, com lindas fotos convidando a uma visita turística a quem aprecia as artes, e o jornalista cita Brennand, que conta um caso de senhoras que caminhavam DESCALÇAS por seu pátio das carpas e cisnes (que eu sinto como uma Catedral) para absorver as “ENERGIAS DO SOLO”.

 

O Templo de Brennand toca profundamente a sensibilidade feminina, nenhuma mulher fica indiferente, ou apaixonam-se ou odeiam a obra, um sinal de sua força nos arquétipos femininos, em aspectos SOMBRA do inconsciente, mereceria uma pesquisa mais detalhada de Ginecopsicologia ou Biomidiologia da Arte… 

 

O corpo feminino é especialmente sensível a algumas freqüências de onda vibratória sutil; há uma maior retenção de água na pele, e as coxas e seios são depósitos de tremulante gordura líquida, nos quadris há muita água nos rins, bexiga e útero que reverbera tais ondas telúricas, a Igreja Católica conhece bem estes mistérios, daí os corais de castrati com vozes únicas e a nota musical Trítono ou DIABOLOS, no filme “FARINELLI” vê-se a biografia de um cantor castrado cuja voz em trítonos leva mulheres ao orgasmo; no filme “O rei da baixaria” sobre o radialista Stern o orgasmo da fã sobre caixas de som ilustra esta sensibilidade fisiológica feminina a estímulos vibradores, bem como os showmícios, comícios de Hitler e dos Nazistas ocasionando orgasmos histéricos, e o Trítono é a nota base do HOT JAZZ dos cajuns de Nova Orleans, USA.    

 

Brennand construiu a sua “Catedral Pessoal” sobre uma Linha Ley, um alinhamento de energia telúrica vibrante, igual ao do Museu do Ipiranga em São Paulo e de diversas Catedrais européias; lá nos fundos, após as últimas esculturas, há um vale ou campina, pradaria, e ao fundo percebem-se duas colinas, talvez uma falha geológica, exatamente  alinhada com o Templo-Catedral.

 

Brennand  edificou um outro tipo de arquitetura de igreja, um templo cujo teto é o próprio céu aberto, dando uma sensação maior que a de qualquer Catedral européia: o infinito do céu azul do nordeste, e à noite aquele céu estrelado com todas as constelações zodiacais ilustrando a abóboda celeste…impossível não recordar de Barcelona, da Sagrada Família de Gaudi, com suas paredes e sem teto, esta ainda em construção, mas a nossa catedral de Brennand está pronta e acabada, aberta com fé e confiança para os céus e aceitando o que a natureza trouxer, chuva ou sol aceitos sem julgamento, sem mente, vivendo no aqui-agora, o GERÚNDIO QUÂNTICO dos idiomas não predicativos como o nhenhengatu-tupi guarani .

 

Na Catedral de Brennand a luz solar e a exuberante natureza brasileira contradizem a sombra úmida das Igrejas Românicas (Terra e Água) e os arcos reverberantes das Igrejas Góticas (Fogo e Ar).

 

E aqui, Brennand sopra o AR do fole sobre o FOGO do forno cozendo com paciência a ÁGUA com TERRA do barro, transubstanciando, como Senhor do Fogo, a cerâmica sagrada, a cerâmica esotérica, construindo sozinho, peça por peça, uma Catedral que evoca os livros do alquimista parisiense Fulcanelli.

 
Todas as paredes são ricamente decoradas com uma equilibrada e harmônica mistura bem pensada, ponderada, meticulosamente pesada e digerida-reinterpretada de  simbologias  maçônica, rosa-cruz , alquímica, astrológica, heráldica e cabalística, onde onças jaguatiricas e tatus convivem com pelicanos bicando o peito (como na Basílica de Tremembé, Vale do Rio Paraíba , pertinho de Taubaté, terra de Monteiro Lobato, interior de São Paulo, repleta de tais simbologias), ovos rachando para dar a luz mitos vivos, peixes de boca aberta como que engolindo o profeta Jonas brotam aqui e ali no lago de carpas, diversas Vênus –Afrodites,  Gárgulas ao topo da muralha –paredão direito, com o clássico Delta com o olho onisciente do “Grande Arquiteto do Universo”, imagens africanas, sumerianas, incas e astecas, maias e egípcias, e muitos, incontáveis símbolos, uma criptozoologia pessoal, quimeras autorais de Brennand em um bestiário de fazer inveja ao argentino Jorge Luiz BORGES, tudo compondo um cenário indescritível, com uma energia de Pajés (Xamans) com abundantes jacas, cajás, cajús e ingás, mil frutas nordestinas, flora e fauna brasileira em alto-relevo ricamente colorido e esmaltado ou vitrificado brilhante e reluzente.

 

Uma releitura e interpretação personalizada de Brennand , uma PAJELANÇA de terra molhada (argila- adamah em hebraico é terra vermelha molhada, barro, como Adão modelado de barro, como o GOLEM do rabino cabalista de Praga) cozida a fogo lento no forno alquímico ATANOR (a- partícula negativa, e Tanathos, morte, o forno que nega a morte, que busca a eterna juventude, o elixir da longevidade, a fonte de Ponce de Leon que a arte busca em sua ilusão de eternidade) em cerâmicas quase vitrificadas, esmaltadas.

No Forno alquímico, argilas coloridas são misturadas e cozidas pacientemente, e a cerâmica quase-viva destes golens impressiona na família “Adão-Eva-Caim” ao lado do altar com uma cachoeira cheia de mais carpas nadando um balé dionisíaco…

 

Indubitavelmente, não se pode desmentir que o conjunto da obra transpira muita sensualidade, e, se é que haveria algum  erotismo nestas obras, se os totens forem percebidos como falos e as frutas maduras abertas o forem como vulvas, este seria um erotismo sagrado, tantra ou alquimia sexual chinesa, sutil e insinuado, dependendo tanto do ângulo do olhar quanto da intencionalidade do observador; sensual e natural, até inocente, como a sexualidade de nossos ancestrais índios tupinambás, algo pré-cristão, que não poderia nunca ser rotulado de sexual ou muito menos de pornográfico, conceitos inaplicáveis a esta obra de arte…o verdadeiro artista é fiel a si mesmo, em contato com o inconsciente, incompreendido, como demonstram as biografias de um pintor como GAUGUIN ou um poeta como RIMBAUD.

 

 O atelier de Brennand é uma visita sem a qual os templos europeus não fazem sentido, pois este lugar sagrado é o contraponto, a resposta deste nosso continente americano à arquitetura sagrada e arte sacra européias, pois até a “quadradura do círculo” é representada subliminarmente pela mandala central do pátio dos cisnes.

 

Tamanha erudição e riqueza de minuciosos detalhismos, preciosismos, não perde contato com o popular,  pois o traço do desenho de Brennand lembra muito o estilo da Xilogravura de Cordel, da arte popular da madeira entalhada a canivete da Feira de Caruaru, das Carrancas dos barcos do rio São Francisco, mas também com algo de desenho animado e história em quadrinhos da Mídia de Massas do Século XX (cf. Ferraz página 21).

 

Ariano Suassuna considera Brennand uma continuação do escultor mineiro do período Rococó (no Brasil culturalmente insistem em denominar Barroco) o ALEIJADINHO, Suassuna, erudito, cita o Santuário de Congonhas como exemplo de arquitetura de templo do tipo ILUMIARA, anfiteatro ou conjunto-de-lajedos, como o ILUMIARA esculpido pelos antepassados dos índios Carirys no sertão nordestino,  a “Pedra do Ingá” na Paraíba, um lugar de culto e rituais; este conceito arquétipo indígena e rococó de Ilumiara ajuda a mente racional a compreender e classificar o impacto deste templo de Brennand em nosso inconsciente racial brasileiro, o que também explicaria as formas fálicas de obeliscos, pois no centro das Ilumiaras indígenas sempre há um monólito erguido (CF Suassuna apud Klintowitz p.61 e Suassuna apud Ferraz p.44.).

 

O próprio símbolo presente na parede de entrada do museu e repetido pontualmente, como um refrão visual desta canção de cerâmica, da POÉTICA DE FOGO, AR, TERRA E ÁGUA  de Brennand é um arco com uma flecha apontando para cima; clara influência dos cultos africanos, pois é um PONTO RISCADO antigo, símbolo do ORIXÁ OXOSSI, orixá africano protetor dos bons caçadores. 

 

E um busto impressiona, a cabeça de ATENA encerrada em um repressor capacete grego que só permite entrever seus lábios espremidos em bico, é a civilização, a mente racional, retratada prisioneira de seus recalques e perda de espontaniedade .

 

O prédio à esquerda do pátio aberto dos cisnes negros e carpas vermelhas e brancas impressiona pela sobrecarga, constato estupefato que estou em um museu de mil e duzentas esculturas a perder de vista, povoando o depósito como um exército em prontidão ou uma corte só aguardando a música começar para bailar uma valsa ou minueto neste rico saguão.

 

Minha namorada chama minha atenção para Brennand em pessoa, que passa por nós do outro lado do amplo salão a passos rápidos e fortes, impressionante energia focada do homem idoso e alto, com suspensórios coloridos sobre camisa branca, que desaparece entre as colunas de seu museu, perdido da vista, como se fundido as centenas de totens e estátuas da gigantesca exposição.

 

O galpão é enorme e complexo, parece ter naves e capelas internas, evocando outra vez um templo, só que desta vez com um pé direito gigantesco e coberto com teto de vigas nuas, bem industrial, em uma estrutura na qual nos perdemos, recordando a arquitetura iniciática de um LABIRINTO.

 

Vagando a esmo e namorando sem pressa, ambos encontramos um tipo de FORNO que parece um iglu, uma casa, não resistimos a descer os degraus e entrar no único lugar escuro, sem a iluminação constante em todo o conjunto…este lugar fechado tem uma atmosfera densa, viva, como se fora o onfalos, o umbigo de todo este lugar de poder; há cavaletes com quadros inacabados ou sendo pintados, baús, nichos iluminados nas paredes, e sentimos como que entrando no verdadeiro atelier, em um lugar pessoal, privado, como se invadíssemos a intimidade dos processos criativos do artista…como se fosse um útero, um forno atanor, ou uma alcova que convida a um longo e apaixonado beijo…

 

Também há uma piscina vazia com degraus dentro deste edifício, parecendo uma casa de banhos romana ou turca, azulejos azuis em relevo com muitos símbolos…nesta piscina tive a impressão, por um segundo, de estar em um estande de feira de azulejos ou em um portfólio, imaginei se Brennand usaria este museu como uma vitrine de possibilidades para clientes internacionais milionários…pois noutra sala as paredes são forradas do rodapé ao teto de prêmios internacionais, de diplomas e homenagens, de cartas de bienais de arte européias, e centenas de documentos curriculares  emoldurados em vidro, um belo exemplo de MARKETING da ARTE ou de Marketing Pessoal de Brennand como consciente empresário de sua obra de artista.

 

Francisco de Paula Coimbra de Almeida Brennand nasceu a 11 de junho de 1927 em Recife  (consciente dos arquétipos, comenta a sua reforma da fábrica antiga em atelier –templo comparando-se a outro Francisco, São Francisco de Assis, atendendo a um chamado, missão ou vocação de restaurar a igreja).  Em 1990 representou o Brasil na Bienal de Veneza, Bienal de Barcelona de 1955, Bienal de Punta Del Este –Urugay em 1964; Bienal de São Paulo em 1959;  além de exposições da Alemanha a Portugal, de Sevilha a Londres; ganhou para o Brasil o Prêmio Gabriela Mistral de 1994 conferido pela Organização dos Estados Americanos em Washington USA; e seu curriculum impressionante daria um livro ou um filme.

 

Na estação de Metrô Trianon-Masp, na Avenida Paulista, em São Paulo, Capital, bem no subsolo desta Linha Ley telúrica do coração paulistano, encrava-se um totem fálico de Brennand; um gigantesco e imponente símbolo re-interpretado da literatura árabe, dos Contos das Mil e Uma Noites de Sherazad, é o PÁSSARO ROCA, ave mitológica gigantesca capaz de erguer pelo ar elefantes, um símbolo das potentades do elemento Ar (como alados Anjos, Silfos e Fadas até o garanhão Pégasus) erigida em barro esmaltado e vitrificado, cerâmica moldada nos elementos Terra-Água e temperada pelo elemento Fogo do forno, figura do Ar embaixo da Terra recebendo as faíscas dos trens do metrô e vigiada pelas câmeras de segurança, toda vez que passo pelo PÁSSARO ROCA de Brennand vislumbro desde um Prometeu acorrentado no Tártaro até uma estaca cravada no coração de um vampiro, a força da poética tridimensional de Brennand evoca a cada contemplação mil projeções, inspirando desde elevados  sentimentos religiosos até instigando a sermos audazes como o marinheiro Simbad desafiando os mares desconhecidos de nosso futuro.

 

“O sonho é fundamental ao equilíbrio mental do homem. O homem que não sonha, enlouquece. Da mesma maneira, a ARTE é o sonho das nações (…) Uma nação sem arte, isto é, que não sonha, está gravemente enferma, está fadada a enlouquecer. Um país não se constrói apenas com estradas, pontes, barragens, siderúrgicas; ele se constrói também com as imagens que estão sendo criadas o tempo todo pelos artistas”.  Brennand em um colóquio de arte na Universidade do Texas, em Austin, USA, 1975 (apud Ferraz p.23).

 

 

Bibliografia:

 

FERRAZ, Marilourdes. Oficina cerâmica Francisco Brennand; usina de sonhos. Recife: Associação de Imprensa de Pernambuco, 1997.

 

FERNANDEZ CHILI, Jorge. La cerâmica esotérica; curso de filosofia cerâmica. Buenos ires: Condor Huasi [c1993]. 447p.

 

Francisco Brennand por ele mesmo. Recife: Fundarpe –Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco, 1995.

 

KLINTOWITZ, Jacob. Francisco Brennand: mestre do sonho. São Paulo: Laserprint, 1995.

 

PASTRO, Cláudio. Guia do espaço sagrado. 2. ediçõ, São Paulo: Loyola, 1999, 262 p.

  

COMO LIDAR COM A BAIXA FREQUÊNCIA ESCOLAR por vicente martins

 

 

Como as escolas públicas e privadas podem lidar com a infreqüência escolar, especialmente quando alunos e docentes faltam às horas-aula ou têm baixa freqüência aos dias letivos?  Na jornada escolar, que entendimento devemos ter do período letivo? No presente artigo, pretendo responder as duas questões acima levantadas a partir das concepções sobre a freqüência interpretadas à luz da Constituição Federal(1988) e da Lei de Diretrizes e e Bases da Educação Nacional(LDBEN), a Lei 9.394. promulgada em 1996.

  Comecemos, então, pelo artigo 206, da Constituição Federal(1988). Entre os diversos princípios enumerados no referido artigo, o primeiro refere-se à igualdade de condições para o acesso e permanência dos alunos na escola. Mais adiante, no artigo 208, o legislador, ao tratar sobre o dever do Estado com a educação,  determina que o mesmo será efetivado mediante várias garantias de acessibilidade à escola,  estabelecendo, como competência do Poder Público o recenseamento dos educandos no ensino fundamental, e outras ações como a de fazer-lhes a chamada e zelar, junto aos pais ou responsáveis, pela freqüência à escola (§ 3º). Estas prescrições da Constituição Federal migraram, ipsis litteris, para a LDBEN.

O conteúdo do § 3º do artigo 208 da Constituição Federal é reproduzido, em 1996,  no artigo 5º da LDBEN. A Lei reafirma que cabe ao Poder Público zelar, junto aos pais ou responsáveis, pela freqüência à escola. Portanto, aqui o dispositivo é mais aplicável para diretores, coordenadores e professores das redes estadual e municipal de ensino, enquanto agentes do poder público e, como os estabelecimentos privados de ensino seguem as orientações nacionais, o zelo pela freqüência é uma tarefa também dos pais ou responsáveis.

A infrinqüência de professores e alunos aos estabelecimentos de ensino, aqui entendida como falta de freqüência às horas-aula ou a baixa freqüência aos dias letivo, fere, portanto, os ditames legais da Constituição Federal e da sua legislação correlata, a LDBEN.

         No artigo 12,  inciso VII, da LDBEN, cabe aos  estabelecimentos de ensino informar aos pais, responsáveis ou, mesmo aos alunos, quando na maioridade, sobre sua  freqüência e seu rendimento acadêmico, bem como sobre a execução da proposta pedagógica ou projeto pedagógico do  estabelecimento de ensino.

Ainda no referido artigo 12, inciso III, cabe as instituições assegurarem o cumprimento dos dias letivos e horas-aula estabelecidas. Como sabemos, nos estabelecimentos de educação escolar, existem dias letivos e horas letivas ou horas-aula, duas categorias importantes do chamado período letivo. Por hora-aula, devemos entender o espaço de tempo estipulado para o desenvolvimento de uma aula, isto é o período em que o professor desempenha atividade docente com os alunos, em grupo ou individualmente. Em geral, a duração de cada Hora-aula é de 50 minutos.

No âmbito da jornada escolar, o dia letivo pode ser tomado como em duas acepções: a primeira, como de trabalho escolar efetivo. Isto quer dizer, como prescreve a LDBEN, que o dia letivo não compreende aqueles reservados às provas finais ou resultados de recuperação. Uma segunda acepção compreende que o dia letivo é aquele em que os alunos ocupam seu tempo em atividades relativas ao desenvolvimento do currículo, na escola ou fora dela (visitas, excursões ou viagens, desde que devidamente planejadas. Assim, quando o professor vai à escola, mesmo não ministrando horas-aulas, está ministrando (observe que estou repetindo o verbo no gerúndio) seus dias letivos.

Quanto à freqüência ou infreqüência escolar dos docentes, o que se deve entender, enfim, nesse particular, é que a freqüência no âmbito escolar deve ser entendia como sinônimo de assiduidade, isto é, se efetiva, legalmente, quando o  docente: 1)  se faz presente constantemente no estabelecimento de ensino. 2)  não falta às suas obrigações; e 3)   se aplica, outrossim, quando o docente executa com tenacidade as suas tarefas acadêmicas (ensino, pesquisa, extensão, administração). Em substância, ser assíduo, ao pé da letra, como se pode sugerir da forma latina “assidùus”, é o docente está sempre presente, em corpo e espírito no estabelecimento de ensino.

O artigo 12, no seu inciso IV, diz que cabe às instituições de ensino a incumbência de velar (aqui, o verbo significa “cuidados, proteção a; tratar de, interessar-se, dedicar-se, zelar, proteger”) pelo cumprimento do plano de trabalho de cada docente (PTD).Grifaria o pronome cada para dizer que é da incumbência do estabelecimento de ensino interessar-se e zelar pelo PTD de cada docente.

 No caso das universidades, vale destacar o que prescreve o artigo 47 da LDBEN, em referência à educação superior,  referindo-se o ano letivo regular, ao determinar que é obrigatória a freqüência de alunos e professores, salvo no caso da educação a distância.

Assim, a freqüência é obrigatória, particularmente nos seguintes casos:  1)  quando se refere a uma obrigação imposta por  Lei, no caso a Lei 9.394 (LDBEN) e 2) no caso de pressão moral da comunidade universitária (docentes, alunos e funcionários).  Como imposição de Lei, no caso a LDBEN,  em geral, os docentes têm  obedecido efetivamente à Lei à medida que cada profissional de educação escolar cumpre, conforme sua carga horária de trabalho,  a tarefa de ministrar os dias letivos e hora-aulas.

No tirante à pressão moral, o que nos leva a evocar aqui uma questão de ordem ética, a verdade é que maioria dos docentes, em sala de aula, busca oferecer boas condições de ensino aos nossos alunos, de ofertar à comunidade um ensino de qualidade, um ensino voltado à aprendizagem do aluno, esforço traduzido, eticamente, como um caráter imperativo, na relação interpessoal professor-aluno que se impõe à consciência de cada profissional de educação escolar,  sem a necessidade de coerção física ou terrorismo psicológico por parte dos gestores escolares, diretores ou coordenadores dos estabelecimentos de ensino.

Uma última palavra é a seguinte: é papel dos estabelecimentos de ensino, quanto à freqüência dos docentes às aulas, tomar, sempre, como guia de acompanhamento profissional, o que prescreve a LDBEN, diretriz importante para o trabalho escolar. O artigo da 13, da LDB, diz, entre as incumbências dos docentes (a rigor, os professores com cargos públicos ou contratados segundo as normas trabalhistas da CLT) está a de  ministrarem “dias letivos e horas-aulas estabelecidos, além de participar integralmente dos períodos dedicados ao planejamento, avaliação e ao desenvolvimento profissional”.

Fora do ordenamento jurídico, especialmente o do parâmetro estabelecido pela LDBEN, qualquer instituição de ensino, pública ou privada, municipal ou estadual ou federal,  que negue o princípio de liberdade de ensinar do docente e a liberdade de aprender do aluno estará fora da lei, em desobediência civil.

Numa exegese simples, significa que os docentes devem ministrar  os dias letivos, dentro ou fora do estabelecimento de ensino,  com ou sem a presença dos alunos, como no caso do tempo de preparação para suas atividades didáticas em sala de aula. De outro modo, aos docentes deve ser assegurada a tarefa de ministrar horas-aula, dentro ou fora também dos estabelecimentos de ensino, sendo que, neste caso, unicamente nesta situação, com a presença obrigatória dos alunos.

 

 

 

Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), em Sobral, Estado do Ceará.

O FREI VOADOR ou o noviço rebelde – por jb vidal

 

 

 

certamente ele queria estar mais próximo da aventura do que de Deus. servir ao Senhor seria aqui, em baixo, na terra, em solo, na igreja.

 

ver o mundo “de cima” como os governos, os poderosos (sic) e quem sabe ver como Deus vê. certamente tudo que lhe vinha aos pensamentos era eletrizante, fascinante, algo que nunca sentira mas imaginara. fantástico. recorde. guines!

 

por que não? e ainda, por algumas horas, perder contato com a realidade dos pobres, dos sofredores que lhe acudiam desde as primeiras horas da manhã, exalando álcool, éter e loucura, outros, desesperança, fome e suicídio.

 

por que não? afastar-se das carpideiras, rezadeiras, puxadoras, não de samba nem de baseado, pior, de ladainhas intermináveis que até os santos se fazem de surdos.

ausentar-se da hipocrisia das senhoras first class xeirando à xanel nº5 das três fronteiras e de seus xás beneficientes onde oferecem mais desfiles e fuxicos do que esmola. de lambuja, se distanciaria, dos candidatos a prefeito e vereador, todos em fila indiana a pedir-lhe os votos de quem comunga, não comunga e excomunga, a benção sagrada sobre aquela urna desgraçada que irá receber os votos, e assim conter um X divino no seu nome.

 

por que não? sentir e ouvir o silêncio total das alturas, usá-lo, respirá-lo, absorve-lo e refletir sobre o que foi vivido até então; distante de tudo o que poderia influenciá-lo, tv, rádio, jornais, senhoras pecadoras, crianças mijadas, mendigos sujos, pecadores que não pecaram, virgens putas, putas santas, homens cínicos, hipócritas, falsos, corruptos que se consideram espertos, pessoas enfim que formam o mar de lama em que convive.

 

por que não? quem sabe essas poucas horas nas alturas fossem o mais importante momento a ser vivido? ser uma ave de arribação, voar a rota completa, ver abismos e penhascos como pontos de descanso, falar e não ser ouvido; quem sabe, de lá, pudesse compreender a humanidade? e, aí, não desejar mais retornar?

 

quem sabe?… por que não?…

 

- soltem os balões!!

 

 

 

 

             arte livre. ilustração do site.

ROPA USADA poema de francisco cenamor – Madrid/Espanha

yo me llevo la ropa usada

otros se llevan mis regalos

los besos, las caricias

la piel joven

 

se quedan el dinero

la posición social, el buen coche

la casa, el perro, los niños

las noches de amor

 

se quedan también mis ideas

mientras me asolan mis actos

ella se va con otro en el coche

mis manos se alegran

con su ropa usada para mis pobres

 

a mí me quedan mis niños y niñas

que un día me hacen tocar el cielo

para bajarme al día siguiente a los infiernos

si es que hay varios infiernos abajo

y un solo cielo en lo alto

 

mi familia también me queda

junto a esa pléyade de amigos y amigas

algunos de los mejores

 

también me queda dios

por eso ellos pasan con sus coches

mientras yo permanezco

con mis bolsas de su ropa usada

 

vale, sí, me duele

pero no me duele por sus coches y así

sino por ella, o sea por mí entonces

porque no podré sentirla, sólo quererla

por qué no podré sentirla, sólo quererla

 

 

Del libro Amando nubes (Talasa Ediciones, Madrid, 1999)

 

POEMA DE DESENCANTO – de leonardo meimes

Se, pelo menos, eu pudesse fazer um soneto.

O soneto que todos se lembrarão.

Um que as pessoas pedirão para ouvir,

Para bandas musicarem e amantes cantarem.

 

Um soneto para lembrar as pessoas da paz?

Ou um para falar de amor?

Talvez alguma coisa sobre a Terra…

Eu preciso que seja real, só o que eu preciso.

 

Eu criarei cada linha como se fosse uma parte do meu coração.

……………………………………………………………………………………….

Vou chorar por cada linha,

Um rio de criatividade,

  Um rio de dor.

 

O soneto solitário,

O soneto quebrador de corações,

Um para falar dos humanos

E fazer o verdadeiro sentimento

Vir a tona como lagrimas.

.

                                                                        .

Mas não um soneto como todos os outros.

Um soneto que não precisa estar em nenhum padrão,

Sem limite de linhas, sem forma para seguir.

 

Eu quero um soneto livre, real e expressivo.

Um para amantes, professores, garotas…

Poesia para se viver com e esquecer o resto.

UMA LINHA D’ÁGUA poema de lilian reinhardt

                              

Com esta pele d’água
te bebo   no espelho,
além da transmigração dos segredos,
além dos estranhos reinos dos ossos,
entre os esboços das rosas,
no rosto do chão,
na noite marinha da montanha,
na fermentação do absoluto magma da fera,
essencialmente na lâmina do tempo,
nesta linha perdida d’água!…

ORIGENS poema de vera lúcia kalaari – Angola/Portugal

 

 

 

Eu vim da terra dos traídos

Vim dum monte de sonhos destroçados

Vim de cidades em ruinas

Dum bando de famintos revoltados.

Amei os pobres, as crianças, as mães amarguradas.

Fui choro, fui pranto de muitos lares,

Fui o roçar de facas, de chibatadas.

Entrei nos templos, p’ra  achar pureza,

Desci às ruas, p’ra conhecer tristeza.

Fui bandeira branca, desfraldada,

Fui lágrima de noiva abandonada.

Fui grito de dor, brado de morte,

Fui brinquedo morrendo com um menino.

Fui solidão e fui miséria

Fui flor de sangue derramado.

Eu vim da terra dos traídos…

 

Da terra sem lares, ou maternas mãos…

Sem portos, sem ruas, sem amores,

Sem Credos, sem Deus, sem alvoradas…

Vim dum bando de crianças inocentes

Qu´esperavam com fé p´la madrugada,

Que não conheciam ódios raciais

E tinham direito à sua sobrevivência.

Eu sou a que está convosco, incompreendidos,

Que não querem curvar-se ao cativeiro,

Que querem ser livres, encontrarem-se,

E acreditam que num futuro aurifulgente,

Num mundo sem ódios, nem concessões,

Tudo será melhor, será diferente.

 

OLIMPÍADAS COMEÇAM EM CASA por cleto de assis

 

 

Nos jogos olímpicos que hoje se encerram, uma pequena ilha do Caribe nos deu uma grande lição. Entre os países americanos, a Jamaica ficou em segundo lugar no ranking olímpico, atrás apenas dos Estados Unidos da América do Norte e à frente do Canadá, do Brasil e de Cuba.  A Jamaica chegou ao final dos jogos em 13º lugar, enquanto os três outros países alcançaram, respectivamente, os 19º, 23º e 28º lugares.

A Jamaica, senhoras e senhores, literalmente isolada no mar caribe, ocupa uma área de apenas 10.991 km2, exatamente a metade de Sergipe, o menor estado brasileiro. Com uma população de 2 milhões e 700 mil habitantes, cem mil a menos do que a nossa Bahia, equivale, portanto, a pouco menos de 1,5% da população brasileira total.

Até o ano de 1940, quando foram descobertas reservas de bauxita naquela ilha, a economia jamaicana era inferior à nossa da época colonial. Lá se vivia apenas da agricultura, que tinha na banana e na cana-de-açúcar seus principais sustentáculos. Além do famoso rum, é claro. Segundo o Banco Mundial, hoje a Jamaica tem um PIB anual de cerca de 20.183 milhões de dólares americanos, enquanto o Brasil alcança um bilhão e 695 milhões. Seu PIB per capita, portanto, ascende a de cerca de US$ 7,500, contra US$ 9,700 do Brasil.

O que nos diferencia, culturalmente, da Jamaica? Nosso inter-relacionamento cultural tem se dado principalmente por meio da música. E muita gente vê na Jamaica uma irmandade com a Bahia, hospedeira do reggae jamaicano como se baiano fosse. Também há identidade entre o sincretismo religioso, igualmente herdado das raízes africanas. As bandeiras de ambos os países têm as cores verde e amarela. E quase nada mais. Ao contrário do Brasil, eternamente administrado ao vai da valsa, isto é, de acordo com os acontecimentos do dia, a Jamaica tem um plano de desenvolvimento que visa o ano de 2030. Isso significa que eles decidiram atingir toda a próxima geração de jamaicanos para que a pequena ilha tropical possa alcançar a coesão social e o desenvolvimento pretendido. Plano de estado e não um simples plano de governo.

A Jamaica ainda pertence à comunidade britânica, mas goza de relativa independência. Deve ter recebido dos ingleses o respeito à educação, o mesmo sentimento que fez prosperar outro filho da Grã-Bretanha, os Estados Unidos da América do Norte.

Os jamaicanos, conforme declarou há alguns dias o seu herói esportivo Usain Bolt, desenvolveram um grande diferencial para poder galgar pódios: determinação e muito trabalho. Aliás, essa determinação foi provada em 1988, quando o pequeno país antilhano, com temperaturas anuais variando entre 25 e 38 graus centígrados, foi representado por quatro teimosos atletas nos Jogos Olímpicos de Inverno de 1988, em Calgary, no Canadá. Eles pilotaram um desengonçado bobsled, trenó de corrida habilmente dirigido por atletas de países que têm neve na porta de casa.

Acredito que muita gente lembra esse fato. Ele foi documentado em um filme dos Estudios Disney, em 1993, dirigido por Jon Turtletaub, Cool Runnings, que no Brasil recebeu o título de Jamaica Abaixo de Zero. Embora o roteiro tenha optado por um clima quase caricato e um pouco fantasioso, o que valeu, na verdade, naquela aventura esportiva, foi a tenacidade dos quatro atletas, que enfrentaram todas as dificuldades para realizar um sonho. Não ganharam prêmios na début olímpico, mas a equipe voltou aos Jogos Olímpicos de Inverno de 1992, na França, terminando em 14º lugar, à frente dos Estados Unidos, da Rússia, da França e da Itália. A equipe de trenó de dois lugares terminou em 10º, batendo a equipe sueca. E a pertinácia valeu: no ano de 2000 eles ganharam sua primeira medalha de ouro nessa modalidade no World Push Bobsled Championships, nos Estados Unidos.

Usain Bolt não comentou, mas o contínuo trabalho para criar atletas, na Jamaica, começa nas escolas, com meninos e meninas. Não foi à toa que o país conquistou seis medalhas de ouro em Pequim, o dobro das medalhas do Brasil, com uma delegação de apenas 57 atletas.

Enquanto isso, nos preparamos, com Pelé de embaixador, para lutar pelas Olimpíadas de 2016. O presidente Lula foi à China, na abertura dos jogos de Pequim, com a missão explícita de defender a nossa candidatura perante o Comitê Olímpico Internacional. E acredita-se que o Brasil tem todas as condições políticas para reclamar a sede de 2016, já que poucas vezes os jogos olímpicos se realizaram no hemisfério sul.

Creio, em princípio, que é muito boa essa candidatura, pois os jogos olímpicos trazem vários benefícios para os países que os sediam. O difícil é acreditar que estaremos preparados, nos próximos oito anos, para levar a cabo tamanha responsabilidade. À exceção dos jogos de 1928, o Brasil participou de todas as demais Olimpíadas realizadas a partir de 1920. Parece que aprendemos pouco sobre o que é a preparação de delegações esportivas para representar o país em eventos que reúnem a nata do atletismo e dos esportes em geral. Não sei do que vive o Comitê Olímpico Brasileiro, mas suas dificuldades financeiras são visíveis e declaradas por seu próprio presidente, apesar de seu ufanismo, quando diz que, de quatro em quatro anos, o Brasil dá saltos para se transformar em uma potência olímpica.

Foi no site do COB que conheci algumas historinhas interessantes sobre essa escalada histórica.  Por exemplo, a melhor performance da equipe brasileira nos jogos olímpicos foi registrada em sua primeira participação, nas Olimpíadas de Antuérpia, na Bélgica, que levavam o número VII. Ficamos em 15º lugar, no ranking final, apesar da exígua representação de 21 atletas. De lá para cá, descemos e pouco subimos. Até mesmo a última, que hoje se encerra com a vitória monumental da China, registra um decréscimo em relação à de Atenas, de 2004,  quando 125 homens e 122 mulheres  fizeram mais dos que os 145 homens e as 132 mulheres de agora. Para quem quiser fazer um estudo comparativo mais apurado, ofereço um quadro resumido da história do Brasil olímpico, que vai ao final dessas considerações não muito breves.

E por falar em história, vejam só o que nos conta o mesmo site do COB (http://www.cob.org.br/) , ao relatar o que se passou com a sofrida delegação brasileira presente nas Olimpíadas de Los Angeles, em 1932:

 Dos 82 atletas (81 homens e uma mulher) que integravam a delegação brasileira enviada a Los Angeles, somente 67 participaram dos Jogos. Para cada passageiro que deixasse o navio Itaquicê, onde viajaram durante um mês, as autoridades locais cobravam um dólar. Como os recursos eram escassos, os organizadores decidiram que só desceriam os que tinham chances de medalha. Em seguida, os integrantes das equipes de pólo aquático, do remo e do atletismo também receberam autorização para desembarcar.

Uma exceção foi aberta por cavalheirismo e a nadadora Maria Lenk, aos 17 anos, foi a primeira sul-americana a participar de uma competição Olímpica. Ela nadou em três provas: 100m livre, 100m costas e 200m peito.

Outra história, em especial, teve um desfecho inusitado. Adalberto Cardoso era um dos que estava impedido de desembarcar, mas escapou do navio rumo ao Estádio Olímpico, a cerca de 19 quilômetros. O atleta chegou a dez minutos do início dos 10.000m e participou da prova com os pés descalços.

A missão enviada a Los Angeles ainda guardou outros detalhes curiosos. Um deles é que o navio em questão estava camuflado de barco de guerra para não pagar pedágio no Canal do Panamá. Não adiantou: ao aportar, inspetores subiram a bordo, verificaram que os canhões eram mera decoração e a delegação teve que arcar com o tributo. Além disso, os porões do Itaquicê transportavam 55.000 sacas de café e os atletas tinham o compromisso de vendê-las nos portos durante as paradas do percurso. Quem não desembarcou em São Pedro para os Jogos, seguiu viagem até São Francisco para encontrar compradores.

Naqueles jogos não conquistamos qualquer medalha, mas poderíamos nos ter auto-premiados com as medalhas do descaso governamental, da pobreza cultural e, para não ficar de fora, do tradicional jeitinho e da corrupção.

Para entender melhor meu aparente pessimismo (que não quer dizer derrotismo), façamos algumas perguntas muitos simples. A primeira é: de onde surgem nossos atletas? Já respondendo, verificamos que a grande maioria dos que se destacam no atletismo nasce de sonhos de superação econômica, nas corridas de pés descalços pelas estradas poeirentas do sertão nordestino ou das periferias das cidades. Outra parte de ocasional incentivo de clubes esportivos ou sociais das grandes urbes. Uma minoria, aquela que participa dos chamados esportes de elite, como o hipismo, a esgrima, a vela e o tiro, de seu autopatrocínio. Muitas vezes, um hobby que se transforma em esporte olímpico.

Outra perguntinha inconveniente: onde estão os antigos jogos colegiais e universitários, que também revelavam craques em várias modalidades? E o esporte nas escolas, ainda existe? Apesar da proliferação dos cursos universitários de Educação Física? Não sei responder em detalhes a essas duas últimas questões, pelo menos no momento e não quero perder muito tempo procurando respostas na Internet. O que me espanta é que, a exemplo de alguns candidatos às próximas eleições de Curitiba, muita gente está reinventando a roda na área esportiva e esparramando pérolas, como aquele que se diz jovem e “criador dos jogos colegiais” (deve ter nascido há muito mais tempo do que ele próprio imagina) e do prefeiturável que quer construir centros de lazer para os jovens das periferias, quando a solução mais simples (que defendo há muito tempo) é fazer de cada escola um centro de convivência social, melhorando e aproveitado as suas estruturas esportivas e culturais para que toda a comunidade circunvizinha aproveite e respeite mais o templo escolar. Ele mesmo não se dá a entender quando afirma que “a prática desportiva deve começar na escola” mas “não há participação das escolas nos jogos escolares” (sic).

E é para ele a outra questiúncula: e as universidades, Magnífico Reitor, onde é que estão? Pois todos sabemos que, nos EUA, as instituições de ensino superior catam atletas até em outros países, concedendo-lhes polpudas bolsas de estudos para enriquecer suas equipes esportivas. Aposto que cada universidade brasileira, pelo menos as federais – as chamadas universidades públicas para as quais as chamadas elites econômicas são mais chamadas – mantêm estruturas esportivas de alto nível e cursos de formação para a área. Mas quantos atletas têm formado? Quais seus legítimos representantes nos jogos olímpicos? Elas valorizam os talentos que surgem nas camadas mais pobres e os atraem para seus bancos escolares? O que vemos é um caminho inverso: o atleta profissional bem realizado é que procura, quase ao final de sua carreira, uma matrícula em um curso de Educação Física para consolidar o status social que conseguiu.

O que eu queria, como brasileiro e não como atleta que não sou (os únicos músculos que utilizo, em matéria de esportes, são os faciais, para mostrar satisfação ou decepção com alguns eventos que assisto pela televisão, além dos glúteos que às vezes se mexem na poltrona), era ver uma revolução educacional e cultural em nosso país nos próximos oito anos, que nos tornasse merecedores de recepcionar os demais países nos ainda virtuais XIX Jogos Olímpicos de Verão (?) do Rio de Janeiro. Com todas as reformas necessárias. Reforma da Educação, da Segurança Pública, da Saúde, dos programas de geração e manutenção de empregos, das condições de moradia, entre as principais. É muito? É o mínimo que podemos querer. Vejam que até a velha Londres está pensando em um programa de múltiplas reformas para 2012.

Embora não seja seu eleitor, me orgulharia muito se pudesse ver o presidente Lula receber, na próxima semana, todos os nossos bravos atletas de Pequim em uma solenidade no Palácio do Planalto (ou no Maracanãzinho, por que não?) e entregar-lhes um diploma de agradecimento pelo muito que fizeram pela representação do Brasil. Com vitórias ou derrotas, com medalhas ou com muito choro.

Gostaria de ouvir, em seu discurso de agradecimento, a notícia de que ele estaria criando a Universidade dos Esportes do Brasil (a Jamaica tem uma), que coordenaria os demais centros de excelência que todas as IES brasileiras, oficiais ou particulares, passariam a montar, já nas próximas semanas, com reformulação dos seus cursos afins e um grande direcionamento para as escolas fundamentais e de segundo grau. Adoraria ouvir dele um convite para que todo atleta que agora volta da China se transformasse em um agente dessa revolução cultural que necessitamos para receber os jogos de 2016. E assumisse, em nome de seus sucessores, companheiros ou não, o compromisso simples e exeqüível de arrumar a casa para poder receber as visitas.

Porque as Olimpíadas devem começar em casa.

 

Curitiba

24.agosto.2004

 

 

ilustração de cleto de assis.

 

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RESUMO HISTÓRICO DA PARTICIPAÇÃO DO BRASIL NOS JOGOS OLÍMPICOS

 

 

Ano: 1920

VII Jogos Olímpicos de Verão

Local: Antuérpia, Bélgica

Posição: 15º

Número de Atletas: 21 homens

Modalidades: Natação, pólo aquático, saltos ornamentais, remo e tiro esportivo

Medalhas:               01 Ouro      Tiro rápido (25m) masculino Guilherme Paraense

                                                                                                                                                            01 Prata           Tiro Pistola livre (50m) masculino Afrânio Costa

01 Bronze Pistola livre (por equipe) masculino – Afrânio Costa, Dario Barbosa, Fernando Soledade, Guilherme Paraense, Sebastião Wolf

 

 

Ano: 1924

VIII Jogos Olímpicos de Verão

Local: Paris, França

Número de Atletas: 12 homens

Modalidades: Atletismo, remo e tiro esportivo

Medalhas:               nenhuma

 

 

Ano: 1928

IX Jogos Olímpicos de Verão Olimpíada

Local: Amsterdã, Holanda

O Brasil não participou, em razão da crise financeira

 

Ano: 1932

X Jogos Olímpicos de Verão

Local: Los Angeles, EUA

Número de Atletas: 66 homens e uma mulher

Modalidades: Atletismo, natação, pólo aquático, saltos ornamentais, remo e tiro esportivo

Medalhas:               Nenhuma

 

Ano: 1936

XI Jogos Olímpicos de Verão

Local: Berlim, Alemanha

Número de Atletas: 88 homens e seis mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, ciclismo, esgrima, natação, pentatlo moderno, remo, tiro esportivo e vela

Medalhas:               Nenhuma

 

Ano: 1940

XII Jogos Olímpicos de Verão

Não realizada

 

Ano: 1944

XIII Jogos Olímpicos de Verão

Não realizada

 

Ano: 1948

XIV Jogos Olímpicos de Verão

Local: Londres, Grã Bretanha

Posição: 34º

Número de Atletas: 70 homens e 11 mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, esgrima, natação, saltos ornamentais, hipismo, pentatlo moderno, remo, tiro esportivo e vela

Medalhas:               01 Bronze    Basquete masculino

 

Ano: 1952

XV Jogos Olímpicos de Verão

Local: Helsinque, Finlândia

Posição: 25º

Número de Atletas: 193 homens e oito mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, esgrima, natação, pólo aquático, saltos ornamentais, futebol, hipismo, levantamento de peso, pentatlo moderno, remo, tiro esportivo e vela

Medalhas:               01 Ouro      Salto triplo masculino – Adhemar Ferreira da Silva

               02 Bronze  Salto em altura masculino – José Telles da Conceição

                                                                  Natação – 1.500m livre masculino – Tetsuo Okamoto

 

Ano: 1956

XVI Jogos Olímpicos de Verão

Local: Melbourne, Austrália

Posição: 25º

Número de Atletas: 47 homens e uma mulher

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, ciclismo, natação, saltos ornamentais, hipismo, levantamento de peso, pentatlo moderno, remo, tiro esportivo e vela

Medalhas:               01 Ouro      Salto triplo masculino – Adhemar Ferreira da Silva

 

Ano: 1960

XVII Jogos Olímpicos de Verão

Local: Roma, Itália

Posição: 40º

Número de Atletas: 80 homens e uma mulher

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, ciclismo, natação, pólo aquático, saltos ornamentais, futebol, hipismo, levantamento de peso, pentatlo moderno, remo, tiro esportivo e vela

Medalhas:               02 Bronze    Basquete masculino

                              Natação – 100m livre masculino – Manuel dos Santos Junior

 

Ano: 1964

XVIII Jogos Olímpicos de Verão

Local: Tóquio, Japão

Posição: 39º

Número de Atletas: 21 homens

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, futebol, hipismo, judô, natação, pólo aquático, pentatlo moderno, vela e vôlei

Medalhas:               01 Bronze    Basquete masculino

 

Ano: 1968

XIX  Jogos Olímpicos de Verão

Local: Cidade do México, México

Posição: 35º

Número de Atletas: 81 homens e três mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, esgrima, natação, pólo aquático, futebol, hipismo, levantamento de peso, remo, tiro esportivo, vela e vôlei

Medalhas:               01 Prata      Salto triplo masculino – Nelson Prudêncio

               02 Bronze         Boxe – Classe Mosca – Servílio de Oliveira

                                               Vela – Classe Flying Dutchman – Burkhard Cordes e Reinaldo Conrad

 

Ano: 1972

XX Jogos Olímpicos de Verão

Local: Munique, Alemanha

Posição: 41º

Número de Atletas: 84 homens e cinco mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, ciclismo, natação, futebol, hipismo, judô, levantamento de peso, remo, tiro esportivo, vela e vôlei

Medalhas:               02 Bronze    Salto triplo masculino –  Nelson Prudêncio

                                               Judô – Meio-pesado masculino – Chiaki Ishii

 

 

Ano: 1976

XXI Jogos Olímpicos de Verão

Local: Montreal, Canadá

Posição: 41º

Número de Atletas: 86 homens e sete mulheres

Modalidades: Atletismo, boxe, esgrima, natação, saltos ornamentais, futebol, judô, levantamento de peso, remo, tiro esportivo, vela e vôlei

Medalhas:               02 Bronze    Salto triplo masculino – João do Pulo

                                     Vela – Classe Flying Dutchman – Peter Ficker, Reinaldo Conrad

 

Ano: 1980

XXII Jogos Olímpicos de Verão

Local: Moscou, União Soviética

Posição: 18º

Número de Atletas: 94homens e 15 mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, ciclismo, natação, saltos ornamentais, ginástica artística, judô, levantamento de peso, remo, tiro com arco, tiro esportivo, vela e vôlei

Medalhas:               02 Ouro      Vela – Classe 470 masculino – Eduardo Penido e Marcos Soares

                                     Vela – Classe Tornado – Alex Welter e Lars Björkström

                              02 Bronze    Salto triplo masculino – João do Pulo

Natação – Revezamento 4x200m livre masculino – Cyro Delgado, Djan Madruga, Jorge Fernandese e Marcus Mattioli

 

Ano: 1984

XXIII Jogos Olímpicos de Verão

Local: Los Angeles, EUA

Posição: 19º

Número de Atletas: 129 homens e 22 mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, ciclismo, natação, natação sincronizada, pólo aquático, saltos ornamentais, futebol, ginástica – artística e rítmica -, hipismo, judô, remo, tiro com arco, tiro esportivo, vela e vôlei

Medalhas:               01 Ouro      Atletismo – 800m masculino Joaquim Cruz 

05 Prata    Futebol masculino

                              Judô Meio-pesado masculino – Douglas Vieira

                              Natação – 400m medley masculino – Ricardo Prado

                              Vela – Classe Soling – Daniel Adler, Ronaldo Senfft e Torben Grael

                              Voleibol masculino

               02 Bronze         Judô – Leve masculino  – Luís Onmura

                              Judô – Médio masculino – Walter Carmona

 

Ano: 1988

XXIV Jogos Olímpicos de Verão

Local: Seul, Coréia do Sul

Posição: 19º

Número de Atletas: 135 homens e 35 mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, ciclismo, esgrima, natação, natação sincronizada, saltos ornamentais, futebol, ginástica artística, hipismo, judô, levantamento de peso, lutas, remo, tênis, tênis de mesa, tiro com arco, tiro esportivo, vela e vôlei

Medalhas:               01 Ouro      JudôMeio-pesado masculino – Aurélio Miguel                

02 Prata    800m masculino – Joaquim Cruz

                      Futebol masculino

03 Bronze  200m masculino – Robson Caetano

                      Vela – Classe Star – Nelson Falcão e Torben Grael

                      Vela – Classe Tornado – Clínio de Freitas e Lars Grael

 

Ano: 1992

XXV Jogos Olímpicos de Verão

Local: Barcelona, Espanha

Posição: 25º

Número de Atletas: 146 homens e 51 mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, esgrima, natação, natação sincronizada, saltos ornamentais, ginástica – artística e rítmica -, handebol, hipismo, judô, levantamento de peso, lutas, remo, tênis, tênis de mesa, tiro com arco, tiro esportivo, vela e vôlei

Medalhas:               02 Ouro      Judô – Meio-leve masculino – Rogério Sampaio

                                               Voleibol masculino

               01 Prata    Natação – 100m livre masculino  – Gustavo Borges

 

Ano: 1996

XXVI Jogos Olímpicos de Verão

Local: Atlanta, EUA

Posição: 25º

Número de Atletas: 159 homens e 66 mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, natação, futebol, ginástica artística, handebol, hipismo, judô, levantamento de peso, remo, tênis, tênis de mesa, tiro esportivo, vela e vôlei – de quadra e de praia

Medalhas:               03 Ouro      Vela – Classe Laser masculino – Robert Scheidt

                                               Vela – Classe Star – Marcelo Ferreira e Torben Grael

                                               Volei de Praia feminino – Jacqueline Silva e Sandra Pires

               02 Prata    Basquetebol feminino

                              Natação – 200m livre masculino – Gustavo Borges

                                               Volei de Praia feminino – Adriana Samuel e Mônica Rodrigues

09 Bronze  Revezamento 4x100m masculino – André Domingos, Arnaldo Oliveira, Edson Luciano Ribeiro e Robson Caetano

               Futebol masculino

                      Hipismo – Saltos por equipe  – Álvaro Affonso de Miranda Neto (Doda), André Johannpeter, Luiz Felipe Azevedo e Rodrigo Pessoa

               Judô – Meio-leve masculino – Henrique Guimarães

               Judô – Meio-pesado masculino – Aurélio Miguel

               Natação – 100m livre masculino – Gustavo Borges

               Natação – 50m livre masculino – Fernando Scherer (Xuxa)

               Vela – Classe Tornado – Kiko Pelicano e Lars Grael

               Voleibol feminino

 

Ano: 2000

XXV Jogos Olímpicos de Verão

Local: Sidney, Austrália

Posição: 52º

Número de Atletas: 111 homens e 94 mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, esgrima, natação, natação sincronizada, saltos ornamentais, futebol, ginástica – artística e rítmica -, handebol, hipismo, judô, levantamento de peso, remo, taekwondo, tênis, tênis de mesa, triatlo, vela e vôlei – de quadra e de praia

Medalhas: 06 Prata   Revezamento 4x100m masculino André Domingos, Claudinei Quirino,                    Edson Luciano Ribeiro, Vicente Lenilson  

                                      Judô - Leve masculino – Tiago Camilo 

                              Judô – Médio masculino – Carlos Honorato

                              Vela – Classe Laser masculino  – Robert Scheidt

                              Volei de Praia feminino – Adriana Behar e Shelda

                              Volei de Praia masculino – Ricardo e Zé Marco

         06 Bronze Basquete feminino

Hipismo – Saltos por equipe Alvaro Affonso de Miranda Neto (Doda), André Johannpeter, Luiz Felipe Azevedo, Rodrigo Pessoa

Natação – Revezamento 4x100m livre masculino Carlos Jayme, Edvaldo Valério, Fernando Scherer (Xuxa) e Gustavo Borges

       Vela – Classe Star – Marcelo Ferreira e Torben Grael

Volei de Praia feminino – Adriana Samuel e Sandra Pires

Voleibol feminino

 

Ano: 2004

XXVI Jogos Olímpicos de Verão

Local: Atenas, Grécia

Posição: 16º

Número de Atletas: 125 homens e 122 mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, esgrima, futebol, ginástica – artística e rítmica, handebol, hipismo, judô, lutas, natação, natação sincronizada, pentatlo moderno, remo, saltos ornamentais, taekwondo, tênis, tênis de mesa, tiro esportivo, triatlo, vela, vôlei – de quadra e de praia

Medalhas:               05 Ouro      Hipismo – Saltos  – RodrigoPessoa

Vela – Classe Laser masculino – Robert Scheidt

Vela – Classe Star – Marcelo Ferreira e Torben Grael

Volei de Praia masculino – Emanuel e Ricardo

Voleibol masculino

               02 Prata    Futebol feminino

                                               Volei de Praia feminino – Adriana Behar e Shelda

03 Bronze  Maratona masculino – Vanderlei Cordeiro

                      Judô – Leve masculino – Leandro Guilheiro

                      Judô – Meio-médio masculino – Flavio Canto

 

Ano: 2008

XXVII Jogos Olímpicos de Verão

Local: Pequim, China

Posição: 23º

Número de Atletas:   145 homens e 132 mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, esgrima, futebol, futebol feminino, ginástica artística, ginástica rítmica, halterofilismo, handebol, hipismo, judô, luta livre, nado sincronizado, natação, pentatlo moderno, remo, taekwondo, tênis, tênis de mesa, tiro, tiro com arco, triatlo, vela, vôlei de quadra e de praia

Medalhas:               03 Ouro      Salto em distância feminino – Maurren Higa Maggi

                                               Natação – 50m livre masculino – César Cielo

                                               Voleibol feminino

               04 Prata    Futebol feminino

Vela – Classe Star – Bruno Prada e Robert Scheidt

       Voleibol masculino

08 Bronze  Futebol masculino

                      Judô – Leve feminino – Ketleyn Quadros

                      Judô – Leve masculino – Leandro Guilheiro

                      Judô – Meio-médio masculino – Tiago Camilo

                      Natação – 100m livre masculino – César Cielo

                      Tekwondo – > 67kg feminino – Natalia Falavigna

                      Vela – 470 feminino – Fernanda Oliveira e Isabel Swan

                      Volei de Praia masculino – Emanuel, Ricardo

 

Quadro das Medalhas do Brasil em todas as Olimpíadas

 

20 medalhas de ouro

25 medalhas de prata
46 medalhas de bronze


Colocação geral do Brasil no quadro de medalhas dos Jogos Olímpicos: 37º

 

Fontes: http://www.cob.org.br/    http://www.quadrodemedalhas.com/

 

 

 

 

 

 

 

 

QUE FAZER DE MARCEL DUCHAMP? por affonso romano de sant’anna

 

            Há, pelo menos, duas maneiras de ver essa  retrospectiva de Marcel Duchamp no Museu de Arte Moderna de São Paulo. A primeira é com o olhar de 1917. A segunda é com o olhar de 2008. Com o olhar de cem anos atrás ficaremos pasmos e/ou encantados que alguém tenha decretado o fim da arte transformando, paradoxalmente, qualquer objeto cotidiano em peça de museu. Com o olhar de hoje, de quem  já atravessou os caminhos e descaminhos da história e da arte no século 20, exercita-se uma visão crítica que ensine a ver o ontem e questionar o agora.

            Duchamp tem sido vítima de dois tipos de leitura: a primeira é uma  leitura precária, superficial, repetitiva do que vem sendo dito há cem anos. Pura celebração, escrita de endosso, subserviente, intimidada diante da celebridade e da história. A rigor, é uma leitura anti-duchampiana. É´ o que se faz nos cursos de arte e nos manuais. O  segundo tipo de leitura que vitimou Duchamp é a hiper interpretação. Aí situam-se grandes ensaístas, tanto Octávio Paz e sua alucinada interpretação do  “Grande Vidro” ou Jean Clair que compara Marcel Duchamp a nada mais nada menos que Leonardo da Vinci.

            Não seria já hora de fazemos uma revisão crítica da modernocontemporaneidade? Duchamp é peça fundamental neste processo. Contraditoriamente, o dessacralizador foi sacralizado e os que o seguem são paradoxalmente anti-duchampianos. Contudo, a melhor homenagem que se pode fazer a Duchamp é contestá-lo. Não gratuitamente, mas com argumentos e conceitos pertinentes.

O séc. 20 viveu às custas de três contribuições do sec. 19: o marxismo, a psicanálise, a arte moderna. O marxismo entrou em processo de revisão,  a psicanálise está sendo reanalisada. Por que   temer a revisão da arte moderna? Uma revisão, enfatizo, não com os olhos do sec. 19, mas do sec. 21.

 

 

A COISA AUSENTE

 

            As pessoas que estão indo ver a retrospectiva de Duchamp no MAM devem estar sentindo uma certa estranheza. Além de não conseguirem conferir  as obras expostas com as teorias e as expectativas que as precedem, estão indo ver uma coisa que não está lá.  Existe um vazio, que se explica, porque na arte conceitual, o conceito é mais importante que a obra. Algumas obras são só o conceito. Por essa razão os objetos que lá estão, o urinol, a roda de bicicleta, o vidro pintado, não têm  uma singularidade,  podem ser substituídos, replicados por outros urinóis, rodas de bicicleta, etc.

             Daí decorre  que esse tipo de obra não é para ser “vista” mas para ser “pensada”. Portanto, insistir em “ver” tais obras não nos dará a chave do enigma. O enigma só será desvendado se pensarmos os conceitos geradores da obra. Não é à toa que, espertamente,   Duchamp era contra  a “arte retiniana” e fazia a apologia do ” homem cego”. Uma análise de tal arte deveria centrar-se nos conceitos que a originaram.

            Mas surge, então, uma pergunta perturbadora: por que esses conceitos nunca foram examinados? Ou melhor: esses conceitos resistem a uma análise? Qual o campo para a análise da “arte conceitual”? Certamente não é a estética nem o campo artístico, até porque Duchamp ambiguamente negava a estética e a arte. Daí surge outra questão intrigante: se as teorias artísticas e estéticas não dão conta desses problemas, em que espaço eles devem ser enfrentados?

            A resposta é: na área da filosofia, da linguística e da retórica. É até possível dizer que a arte conceitual é um ramo da literatura. No entanto, espantosamente, há cem anos que essas áreas ignoram as riquezas contraditórias das falácias duchampianas.

            Trazendo, portanto, o problema para o campo que lhe é próprio, afirmo: Duchamp era um sofista. E os sofistas que prosperaram no  sec. IV a.C.  na Grécia, prosperaram também muito na modernocontemporaneidade. O sofista acredita poder demonstrar qualquer coisa com seu discurso. Pode dizer, como Zenão, que uma tartaruga corre mais que Aquiles  ou, como Duchamp, que qualquer objeto é uma obra de arte. O sofista é um ilusionista da linguagem. Enfrentar o enigma duchampiano é desconstruir o ilusionismo retórico que ele criou. Como alertava Bachelard, há que enfrentar os “obstáculos verbais”. E Lacan,  analisando o conto “A carta roubada” de Poe, dizia que a primeira façanha do ilusionista é nos transformar em personagem de sua ficção. Deste modo, os que estão indo ao MAM ver as obras de Duchamp correm o risco  de   simplesmente caírem numa armadilha verbal. 

            No meu próximo livro “O enigma vazio”, detenho-me pormenorizadamente sobre as idéias e falácias do discurso duchampiano, aprofundando questões levantadas em “Desconstruir  Duchamp”.   Aqui, rapidamente, lembro   duas delas. A primeira falácia é sua definição de “arte”. Numa  entrevista à BBC, em 1968, disse   que “etimologicamente” a palavra “arte” significa “agir” e não “fazer”. Equívoco.  Em sânscrito, no indo-europeu, no grego, no latim, por exemplo, arte está ligada a “fazer”, à “técnica”. Mas nosso Duchamp acha que pode inventar etimologias. Se dissesse que estava inventando, poderíamos dizer como os lusos- ” tem piada”. Mas, não disse. Se bastasse “agir” para ser artista   qualquer pessoa andando na rua seria artista e os animais grandes virtuoses.

                                  

            ARGUMENTAÇÃO EM DECLIVE

 

             A retórica do frasista Duchamp pode ser desconstruída quando surpreendemos nela o que os lógicos chamam de “argumentação em declive”. Douglas Valton diz que ” o declive escorregadio é um tipo de  argumento que começa quando somos levados a reconhecer  que uma diferença entre duas coisas não é significativa. Depois disto, pode ser  difícil negar que a mesma diferença, entre a segunda e a terceira, também não é significativa. Quando esse tipo de argumento começa, pode ser tarde demais para detê-lo: entramos no declive escorregadio”.

É isto que ocorreu com o urinol (“Fountain) apresentado como obra de arte, ou seja,   quando o marchand   Arensberg, a mando de Duchamp, argumentou junto   à direção da exposição, em 1917, que se alguém mandasse cocô de cavalo como obra de arte, teriam que aceitar. Fazia sentido. Deu no que deu. Esta é uma   tática sofista que consiste em encadear afirmações, ilógicas, inverossímeis, absurdas. Se o ouvinte não pára para conferir cada unidade e a des/unidade do conjunto, se verá prisioneiro num encadeamento sem poder achar a saída.

Duchamp exercitou o declive escorregadio quando explicando o “Grande vidro” (-essa obra não terminada e sobre a qual há anotações que os próprios biógrafos chamam de  confusas e inexplicáveis), disse que aquela obra é um “atraso”. Mas como “atraso” é algo que ele não sabia como definir pois tem “diferentes sentidos”, aceitou a  “totalidade deles”; e assim desembocamos naquilo que ele jubilosamente chama de “indecisão”. E a “indecisão” (ou relativismo) de seu discurso sofista é de tal ordem que ele explica que em vez de “atraso”,   poderia dizer que o quadro é um “poema em prosa” ou uma “escarradeira de prata”. Então a obra é tudo e nada, e, sobretudo,  uma coisa que não se sabe o que é­. Assim entende-se porque para ele “tão logo começamos a por nossos pensamento em palavras e frases sai tudo errado”.

 

            Por que até hoje ninguém se dispôs a analisar tolices de certas frases duchampianas, que passam por sabedoria, como essa: “Pode alguém fazer obras que não  sejam obras de ‘ arte’”? Claro que pode, e Duchamp é um exemplo. Por que não se analisa isto: ” a idéia de julgamento deveria desaparecer”. Ou esse outro disparate: “a palavra não tem a menor  possibilidade de expressar alguma coisa”.

            Em Duchamp há um problema central: o problema da linguagem. E não sairemos da aporia que ele criou enquanto não decifrarmos a linguagem do problema. Dentro da estratégia da indecisão, os recursos estilísticos usados por ele eram a homonia( palavras semelhantes com significados diferentes), a paronomásia (grafia e pronúncia semelhante e sentido diverso) e anfibologia (termos ambíguos, obscuros). Gostava de trocadilhos e chegou a colecionar centenas deles . Com isto  construiu armadilhas verbais e conceituais que iludiram cautos e incautos. Desmontar essas armadilhas é desconstruir um mito.  Como    mentiroso paradigmático,  ele ilustra o clássico  “paradoxo do mentiroso”, pois quando o mentiroso diz que está falando a verdade,  está mentindo ou não?  O fato é que seus   solipsismos levaram várias   gerações a uma paralisia do pensamento, ao enigma vazio. Ele é o cultor do oxímoro paralisante, o avesso do oxímoro dialético este sim,  produtor de conhecimento.

           Ter dito ” sou totalmente um pseudo”  serve para absolvê-lo? Ter dito “cada palavra que lhes digo é estúpida e falsa”   o exime de responsabilidade? E o que dizer desta frase dramática escamoteada por seu adoradores: “Este século é um dos mais baixos na história da arte”. Não é ele responsável por isto?

            Individuo sedutor, inteligência brilhante, ilusionista ardiloso,  acabou por fazer com que outros tomassem como sendo  lei universal, o que era seu modo de ver e de ser. Não se lhe pode negar   o direito de ter feito o que fez, ter dito o que disse ou viver a vida que viveu. Isto tinha certo sentido em 1917. O que não se pode é mitificá-lo e deixar de analisar  objetivamente sua obra e   pensamentos    ficando na  deliquescente imitação ou fiel adoração.

            No final da vida ele disse “os anos mudam e não poderia mais ser um iconoclasta”. Entrou então, ao lado de Calder, para  o Instituto Nacional de Letras e Artes dos Estados Unidos. Assim o apóstata voltou ao seio da igreja.  É´ como se alguém tivesse a vida inteira garantido aos seus seguidores que não existe céu  nem inferno, e , no entanto, ao morrer, se despedisse cinicamente de sua grei dizendo, desculpem-me, me equivoquei, mas estou indo para o céu. Desculpem-me se infernizei a vida de vocês.

 

(03-8-08.)

EXPONDO AS VÍSCERAS (sobre poemas de marilda confortin e jb vidal) – por joão batista do lago

Tenho escrito, muito vagarosamente, uma tese sobre a coisa poética visceralista, aquilo que entendo como sendo poesia visceral; ou seja, a poesia que surge do instinto do instante (G. Bachelard) em toda a sua brutalidade fenomenal; a poesia que insurge contra verdades exatas ou absolutas, produzidas a partir de um lirismo de tipologia cartesiana ou kantiana; a poesia que se inscreve e escreve a política e a história na “carne do mundo”, onde o real se mistura à realidade, subvertendo assim a realidade dada, ajustando a poesia e o poeta ao campo de mundanidade – (Merleau-Ponty).

 

Evidentemente que enfoco tudo a partir de uma abordagem epistemológico-fenomenológico-existencial (se é que assim posso conceituar), partindo sempre de fenômenos imagéticos, noutras palavras, dos desenhos ou das imagens que “o texto poético” causa em mim: sou, assim, um caçador de imagens ou um arqueólogo de sombras existentes nas carnes poéticas. O que quero inferir com esta minha frase é que, não tenho quaisquer preocupações com “campos psicológicos ou psicanalíticos”. Acho-os, em verdade, representações de puro “significantes vazios”.

 

Neste artigo, e de forma extremamente superficial, tentarei demonstrar este arcabouço epistemológico-fenomenológico-existencial, partindo da poética de dois poetas que “caminham” por este espaço: Marilda Confortin e J.B. Vidal. Dela utilizarei a poesia “Hoje Estou Naqueles Dias…”; e dele, a poesia “Ofertório-Dor”. Ah! Como eu gostaria de ter escrito essas duas poesias! E mesmo sem tê-las escrito tenho a “impressão” que elas foram escritas por mim! E mesmo sem tê-las escrito elas estão em mim “encarnadas” com todos os seus campos de “mundanidade”, com todos os seus “pré” e “pós” políticos e históricos, me levando a cada leitura às imagens já registradas, bem assim, à criação de novas imagens a serem criadas. E é tudo que peço aos leitores: que captem as imagens contidas em ambas: Vejamo-las:

 

HOJE ESTOU NAQUELES DIAS…

 

Marilda Confortin

 

Dias em que o corpo

me castiga

por eu ter exercido

o poder divino

de me negar a dar à luz.

Estou naqueles dias

de terra amaldiçoada

que não fecundou

nenhuma semente

dentre as milhares

que foram plantadas.

 

Estou naqueles dias em que choro…

Como quando Ele se arrependeu

de nos ter dado ventres férteis

e inconseqüentes

e chorou,

chorou tanto que seu pranto

afogou todas as pragas que nasceram

nos dias que antecederam

aqueles dias de dilúvio

 

Hoje estou naqueles dias

em que Deus me usa

para abortar a humanidade.

Me deixe chorar, sofrer e sangrar só.

 

OFERTÓRIO-DOR

 

de jb vidal

 

a dor que ofereço não foi provocada

nem apascentada por mim e a solidão

veio com a chuva, c’os raios

com os anéis de saturno, na cauda do meteoro

fez poeira de lágrimas

e instalou-se nesta podridão

 

soube então da dor de parir

e parido fui,

da dor da fome e fome senti

da dor do sangue e o sangue correu

em minha’lma gnóstica

a dor assumiu e sobreviveu

 

quero então oferecer

esta dor maior que o corpo

mais que desprezo e humilhação

mais que guerras e exploração

mais que almas aleijadas

mais que humanos em farrapas degradação

 

ofereço a dor do amor que amei

da partida sem adeus

da saudade sem sentir

da espera inquietante

do futuro irrelevante

da ânsia divina de morrer

 

*****

 

Convido-te agora, caro leitor, para, comigo, construir as imagens que ressaltam destas duas poesias. Mas, antes levantemos uma questão que se me parece indispensável e fundamental para a pintura deste quadro: em que ponto os dois “sujeitos” que falam na poesia cruzam e se entrecruzam nos seus caminhares? Em qual “casa” eles se “encarnam” para construírem o “equilíbrio” para poder deblaterarem suas dores? Qual a cor e a espessura da tinta que ambos utilizam para pintarem seus quadros ou simplesmente “um” quadro? Qual o enunciado dos discursos desses sujeitos? Quais “nuanças” reside entre ambos?

 

Resgatemos, pois, as imagens que ressaltam destas duas poesias: a) o ponto de cruzamento e entrecruzamento dos dois “sujeitos” que falam nas poesias é, exatamente, o ponto da libertação de suas dores. E com que força eles gritam essa libertação! É tanta e quanta que (penso!) nenhum ser humano escapa ou escapará das palavras vérsico-sálmicas de ambos: (Marilda) – Hoje estou naqueles dias/em que Deus me usa/para abortar a humanidade./Me deixe chorar, sofrer e sangrar só. (Vidal) – ofereço a dor do amor que amei/da partida sem adeus/da saudade sem sentir/da espera inquietante/do futuro irrelevante/da ânsia divina de morrer.

 

Há ou haverá sublimação maior que esta, ou seja, em que os dois “sujeitos” que falam nas poesias se oferecem como “um cristo” oriundo da mundanidade, para “abortar a humanidade (Marilda); da ânsia divina de morrer” (Vidal)? Que imagem (ou imagens?) fenomenal! Só mesmo os poetas conseguem considerar a imaginação como potência maior da natureza humana.

 

Mas continuemos construindo as imagens que nos sugerem os poetas. Consideremos agora a segunda questão: b) em qual “casa” eles se “encarnam” para construírem o “equilíbrio” para poder deblaterarem suas dores? Eis aqui a questão central: antes de ser “jogado no mundo”, somos “abrigados” na “casa”. Ou seja: antes de tudo – de tudo mesmo – somos “encarnados” na mundanidade das casas. Somente a “casa”, e em especial a “casa natal”, nos fornece os elementos essenciais para o processo de aprendizagem e de apreendidade do mundo. Que imagem fenomenal, caro leitor! Ao ponto de me fazer lembrar da Alegoria da Caverna, de Platão (e traçar uma analogia, aqui e agora, sobre isso tornaria este artigo muito extenso). Quem de nós, porventura, por um instante sequer, não já projetou ou projeta a “sua” casa como “campo de concentração de segurança”? Com certeza todos! Mas, qual é a “casa” dos “sujeitos” que falam nas poesias? É a casa primeira: o corpo. É no corpo que habita a poesia. É no corpo que habita o poeta. É no corpo que a poesia é encarnada. É no corpo que o poeta é encarnado.

 

Você, caro leitor, pode até imaginar que eu estou falando de um campo metafórico. Contudo ouso dizer-te: não! Não estou aqui me referindo a metáforas – muito embora ela se configure implicitamente -; mas à existência dos “sujeitos” das poesias que fazem (e dão) sentido; falo da existencialidade; falo do real e da realidade, desse mesmíssimo real que subverte a realidade, para ser a realidade do real: a casa-corpo no seu pleno movimento de formas que surgem a cada instante do fundo de si: (Marilda) – Dias em que o corpo me castiga; (Vidal) – Esta dor maior que o corpo. Que imagens! Que imagens! Fantásticas! Perceberam o movimento dialético dos versos que são, per se, construtores de novas imagens? Senão vejamos: (Marilda) – corpo X castigo; (Vidal) dor X corpo. Quantas imagens surgem na mente a partir dessa dicotomia dialética!

Passemos para a terceira questão proposta por mim: c) qual a cor e a espessura da tinta que ambos utilizam para pintarem seus quadros ou simplesmente “um” quadro? Muito embora fosse prudente falar dos vários quadros que poderiam ser pintados, sugiro que me acompanhem no raciocínio de apenas uma imagem. Os “sujeitos” que falam nas poesias nos sugerem quadros pintados com a cor vermelha em suas “nuanças” várias. Mas aqui podemos ressaltar (também!) que tais “nuanças” não sejam pura e tão-somente matizes figuradas. Não. A cor vermelha que sobressai da imagem que crio é sangue puro… vivo… correndo por todas as veias e saltando por todos os poros para significar uma matiz existencialista, como nos mostra esta estrofe da poesia “Ofertório-dor”, do poeta JB Vidal:

 

soube então da dor de parir

e parido fui,

da dor da fome e fome senti

da dor do sangue e o sangue correu

em minha’lma gnóstica

a dor assumiu e sobreviveu

 

ou como nos diz a poeta Marilda Confortin em sua poesia “Hoje Estou Naqueles Dias…”:

 

Estou naqueles dias em que choro…

Como quando Ele se arrependeu

de nos ter dado ventres férteis

e inconseqüentes

e chorou,

chorou tanto que seu pranto

afogou todas as pragas que nasceram

nos dias que antecederam

aqueles dias de dilúvio

 

Que imagens! Que imagens! Fantásticas imagens! Fenomenais!

São imagens assim que nos remetem à inferição de Gaston Bachelard: “a Filosofia da Poesia (…) deve reconhecer que o ato poético não tem passado, pelo menos um passado próximo ao longo do qual pudéssemos acompanhar sua preparação e seu advento (…). A imagem poética não está sujeita a impulso. Não é o eco de um passado. É antes o inverso: com a explosão de uma imagem, o passado longínquo ressoa de ecos e já não vemos em que profundeza esses ecos vão repercutir e morrer. (…) a imagem poética tem um ser próprio, um dinamismo próprio. (…) a imagem poética terá uma sonoridade de ser. O poeta fala no limiar do ser. (…) a imagem poética é, com efeito, essencialmente variacional. (…) a imagem não tem necessidade de um saber (…) é uma linguagem criança. (…) Nada prepara uma imagem poética: nem a cultura, no modo literário; nem a percepção, no modo psicológico”.

 

Talvez pensando nessas palavras de Gaston Bachelard foi que C.-G. Jung declarara: o interesse desvia-se da obra de arte para se perder no caos inextricável dos antecedentes psicológicos, e o poeta torna-se um caso clínico , um exemplar que porta um número determinado da psychopathia sexualis. Assim, a psicanálise da obra de arte afastou-se do seu objeto, transportou o debate para um âmbito geralmente humano, que não é de forma alguma específico do artista e principalmente não tem importância para a sua arte”.

 

Quanto às duas últimas questões por mim propostas – Qual o enunciado dos discursos desses sujeitos? Quais “nuanças” reside entre ambos? -, caríssimos leitores, se vocês perceberem bem elas se encontram imbricadas no contexto do texto. Transformaram-se, naturalmente, em questões intertextuais.

 

 

veja o poema  de marilda: AQUI

veja o poema de jb vidal: AQUI

 

SAPOS, COBRAS e BOLSA-MÁFIA – por alceu sperança

O saudoso advogado Octacílio Ribeiro, que foi um dos chefões do antigo Banestado, em sua primeira campanha à Assembléia Legislativa estava sendo levado a um “antro de perdição”. Lá, seu cabo eleitoral era aguardado pelas “tias”, que desejavam conhecer o candidato antes de votar nele. Ao saber que o destino era um “puteiro”, como se dizia, Octacílio, carola e puritano, recusou-se terminantemente a ir. O cabo eleitoral, inutilmente, tentou argumentar: “Quando cai na urna, voto de puta e de santa valem a mesma coisa!”

Na recente campanha italiana, onde a direita venceu em vários lugares, a compra de votos chegou a um tamanho grau de sofisticação que tornou completamente inviável a campanha em torno de idéias e propostas.

A fórmula é simples. Contrata-se um instituto de pesquisas para saber o que o povo quer ouvir. A equipe de marketing mistura tudo isso numa gosma coerente e bem ilustradinha. Faz um comercial de sabão em pó, só trocando a marca do sabão pelo nome do candidato ou coligação. Não vai ser nem melhor nem pior que os demais, pois isso não importa. O que conta é aquele celular com câmera que o candidato mafioso dá de presente ao eleitor nos bairros e vilas.

No dia da eleição, o eleitor vota, tira uma foto do voto e ao apresentar o “comprovante” ao mafioso, ganha, além do celular, mais 50 dólares. A compra de votos, assim, chegou de vez, além da urna eletrônica, ao mais sofisticado padrão tecnológico jamais imaginado, a ponto de que o voto consciente, fruto de boa educação e cultura, cai lá urna e vale menos um celular e 50 dólares que o voto do vendilhão.

Os religiosos que propagam a máxima “voto não preço, tem conseqüência” estão certos, mas o eleitor-meretriz que vende o voto-corpo prefere a conseqüência, uma espécie de aids cívica. Acha que nada vai mudar, por isso prefere tirar alguma vantagem do sacrifício de ir votar, antes de retornar à vidinha escrava de sempre.

O professor Pedro Cardoso da Costa em uma de suas aulas desenhou um sapo no meio de diversas cobras. O sapo era o eleitor e cada cobra, um partido. A data da eleição era o único dia, a cada dois anos, em que o sapo escolhia qual cobra deveria picá-lo. O vendedor de voto se deixa picar pela cobra já antes do dia da eleição.

Uma camaradinha nicaragüense nos disse: “Não devemos votar de vez em quando. Temos que escolher a cada minuto. Eleger a atitude que vamos tomar diante de tudo, e a todo instante”. Por isso, essa agitação toda em torno da contratação de cabos eleitorais, campanha aquecida e nas ruas nada mais é que a mera compra de votos, talvez ainda não tão sofisticada quanto a da Itália. Mas eles estão caprichando: um dia chegarão lá. Se depender da ilusão das urnas, limitando-se apenas a votar no dia da eleição, o voto da pessoa esclarecida vai valer menos uns cem dólares, gasolina, telha ou tijolos, que o voto vendido do sujeito agraciado pela Bolsa-Máfia.      

 

AROLDO MURÁ G. HAYGERT lança seu livro “VOZES do PARANÁ – RETRATOS DE PARANAENSES” no PALACETE DOS LEÕES – ESPAÇO BRDE

LEMINSKI:HOMENAGEM DO SITE AO SEU ANIVERSÁRIO COM POEMA DO CARTUNISTA SOLDA

o escritor e poeta paulo leminski, o artista visual rogério dias e o cartunista y otras cositas luiz solda. foto de francisco kava que também já entregou as moedas para o barqueiro.

         vai

        meu amigo

        desta vez

        eu não vou contigo

 

        a morte

        é um vício

        muito antigo

        só que nunca

        aconteceu comigo

 

        pode ir

        que eu não ligo

        eu fico por aqui

        separando

        o tijolo do trigo

 

        (7/6/89)

 

SOLDA

 

GETÚLIO VARGAS: HÁ 54 ANOS A MESMA REAÇÃO DE HOJE “SUICIDARAM” O GRANDE PRESIDENTE

CARTA TESTAMENTO DO PRESIDENTE GETÚLIO VARGAS

24 de agosto de 1954

     Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se novamente e se desencadeiam sobre mim.

     Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao Governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculizada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente.

     Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores de trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançaram até 500% ao ano. Na declaração de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia a ponto de sermos obrigados a ceder.

     Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo a mim mesmo, para defender o povo que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão. E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate.

     Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história

Getúlio Vargas

 

 

o estadista gaúcho GETULIO VARGAS em sua estância em São Borja no Rio Grande do Sul. (1950).

 

você ouve a Carta Testamento com música de Villani-Cortes (parte I):

 

você ouve a parte II da Carta:

Rumorejando, (Assustado com uma inflação avançando).

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I (“Poesia”, dedicada aos jovens da atualidade).

Era um sujeito empírico

Metido a satírico.

Livro, nunca havia lido

Sem, da vista, ter sofrido.

O máximo era ler gibi

Que fazia desde guri.

E nisso estacionou.

Um dia se enamorou.

Por uma jovem formosa

Que lembrava um botão de rosa.

Ela era exatamente o inverso:

Tanto em prosa como em verso,

Lia com sofreguidão de tudo

Mesmo aquele livro maçudo

Que no cara daria arrepio.

Afinal, ele era vazio!

E ela se deu conta na hora

E mandou ele embora.

“Vá pastar”, ela exclamou

Ele de dor quase gritou,

Quase soltou um urro.

“Quando fala parece um zurro.

Seu burro!”

Ele ficou casmurro.

“Você só dá na gente enfado!

Seu abobado.”

Coitado!

Constatação II (Quadrinha didática de mau exemplo).

Cada um se serviu regiamente

Três baitas pratos de feijoada.

Aí, foram pro motel ali em frente.

Quase acaba mal a patuscada*.

*Patuscada = 1. reunião festiva para comer e beber

2. folia animada, divertida e barulhenta; pândega, farra (Houaiss).

Constatação III

Rico sempre é bem-vindo; pobre, é malvisto.

Constatação IV (Reminiscências).

Quando os cursinhos, a fim de preparar candidatos para enfrentar essa excrescência que se chama vestibular, eram específicos para os cursos de engenharia e medicina, por exemplo, no do Dom Bosco havia uma turma de 70 rapazes e uma única moça para o de engenharia. Evidentemente que os tiques e o vocabulário dos rapazes, mesmo que a vestibulanda assim não o desejasse, acabaram se incorporando ao seu. O palavreado nos dias de hoje, então, nem falar: cheio de gírias, ainda que mais, digamos, espontâneo, nem por isso, para a velha geração, muito mais passível de enrubescimento. Um dia a moça entra na sala e, já da porta, grita para os mais íntimos: “Gente! ‘Sentei’ em física”…

Constatação V

Rico é sempre imune a…; pobre é sempre suscetível a…

Constatação VI (De uma dúvida crucial).

Será que as sogras, quando assistem as novelas elas torcem em favor dos vilões?

Constatação VII

Foi o jovem padreco

Que no sermão,

Por um momento,

Usou baixo calão

Ao se referir ao paramento

Como aquele treco?

Constatação VIII

E foi a macaca

Que fez fuxico

Com a comadre,

Soltando a matraca

Que o compadre,

O seo Mico,

Com cara de panaca,

Andava de banzé

Com uma jovem chipanzé?

Constatação IX

E foi o polvo,

Num baita revolvo

Deu um amasso,

Ao agarrar a polva,

Que transcendia perfume,

Com seus tentáculos,

Que pareciam aço

Dando espetáculos,

A tardinha,

A um cardume

De sardinha

Que por ali passeava,

E alguém gritava:

“Que ninguém se envolva.

Essa coisa indecente,

Com tanto pé e mão

Enroscado,

Embaralhado

Algum beliscão

Pode sobrar pra gente”.

Constatação X (Pseudo-haicai).

Em lugar onda há futrica

Muita gente curiosa

Não arreda o pé. Fica…

Constatação XI

Ficou a má lembrança:

O truco aquela vez:

Foi uma lambança,

Uma sordidez

Na última carteada

Apareceu naquela jogada

O mesmo três,

Um ilustre conhecido,

Que, na primeira, já havia saído.

Constatação XII

Rico faz charminho; pobre c. doce

Constatação XIII (Quadrinha para ser recitada aonde mais convém).

Perdi minha lapiseira,

Mas não me importei.

Eu só escrevia asneira

Como certo decreto-lei.

Constatação XIV

Deu na mídia: “Maradona é comunista da boca para fora, afirma Chilavert, o ex-goleiro da seleção paraguaia”. Data vênia, como diriam nossos juristas, mas será que alguém poderia ser comunista da boca pra fora, pra dentro, pro lado, pra cima ou pra baixo, mormente, no tempo das ditaduras da Argentina, Paraguai, Uruguai, Chile, Brasil, Nicarágua, República Dominicana para citar as mais, digamos, recentes?

Constatação XV

Rico faz sacrifício; pobre, esforço.

Constatação XVI (Passível de mal-entendido).

Ela vivia mergulhada tanto nos seus pensamentos de casar com seu namorado, um oficial da marinha, que até passou a sofrer de enjôo.

Constatação XVII (Matemática meio confusa).

O candidato que semeia discórdia na cúpula do seu partido político é capaz de colher a simpatia do partido rival e a antipatia no seu próprio partido. Portanto, diretamente proporcional num caso e inversamente proporcional noutro.

Constatação XVIII

E como ponderava o obcecado: “Eu gosto muito de tirar a minha roupa. Mormente depois de ter tirado a dela”.

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

 

 

foto livre. ilustração do site. FRUTOS DO MAR DE POBRE.

O MUNDO E EU poema de zuleika dos reis

 

O mundo volte de novo e eu ao mundo

algum encontro novamente entre nós

uma troca no agora entre esses dois.

Não seja tarde demais para tal câmbio.

A Lua já passou por todas as fases

infinitas vezes

desde que nos separamos .

Já não sabemos mais nada um do outro.

O que estaremos fazendo?

Tento imaginar com que olhar

o reencontro

com que silêncio

a celebração da volta.

Com que humor estaremos nesse dia?

E se, de repente, o diálogo começar

com a palavra errada?

E se a resposta a essa fala for pior ainda?

Talvez, depois de tanta ausência,

paire entre nós apenas

o silêncio infinitamente incômodo

de amantes que se perderam há muito

de repente na mesma cama

ao acaso e desconhecidos.

Como estaremos vestidos?

Com a displicência

de quem se dispõe ao fortuito?

Com a nossa melhor roupa

para um  impacto favorável?

Será que, depois de tanto tempo,

ainda seremos capazes de reconhecer

a cara um do outro?

HABEAS PINHO poema de ronaldo cunha lima e roberto pessoa de souza / joão pessoa

Na Paraíba, alguns elementos que faziam uma serenata foram presos. Embora liberados no dia seguinte, o violão foi detido. Tomando conhecimento do acontecido, o  famoso poeta e  senador Ronaldo Cunha Lima enviou uma petição ao Juiz da Comarca, em versos, solicitando a liberação do instrumento musical.

Senhor Juiz.

Roberto Pessoa de Sousa

O instrumento do “crime”que se arrola

Nesse processo de contravenção

Não é faca, revolver ou pistola,

Simplesmente, Doutor, é um violão.

Um violão, doutor, que em verdade

Não feriu nem matou um cidadão

Feriu, sim, mas a sensibilidade

De quem o ouviu vibrar na solidão.

O violão é sempre uma ternura,

Instrumento de amor e de saudade

O crime a ele nunca se mistura

Entre ambos inexiste afinidade.

O violão é próprio dos cantores

Dos menestréis de alma enternecida

Que cantam mágoas que povoam a vida

E sufocam as suas próprias dores.

O violão é música e é canção

É sentimento, é vida, é alegria

É pureza e é néctar que extasia

É adorno espiritual do coração.

Seu viver, como o nosso, é transitório.

Mas seu destino, não, se perpetua.

Ele nasceu para cantar na rua

E não para ser arquivo de Cartório.

Ele, Doutor, que suave lenitivo

Para a alma da noite em solidão,

Não se adapta, jamais, em um arquivo

Sem gemer sua prima e seu bordão

Mande entregá-lo, pelo amor da noite

Que se sente vazia em suas horas,

Para que volte a sentir o terno acoite

De suas cordas finas e sonoras.

Liberte o violão, Doutor Juiz,

Em nome da Justiça e do Direito.

É crime, porventura, o infeliz

Cantar as mágoas que lhe enchem o peito?

Será crime, afinal, será pecado,

Será delito de tão vis horrores,

Perambular na rua um desgraçado

Derramando nas praças suas dores?

Mande, pois, libertá-lo da agonia

(a consciência assim nos insinua)

Não sufoque o cantar que vem da rua,

Que vem da noite para saudar o dia.

É o apelo que aqui lhe dirigimos,

Na certeza do seu acolhimento

Juntada desta aos autos nós pedimos

E pedimos, enfim, deferimento.

O juiz Roberto Pessoa de Sousa, por sua vez, despachou utilizando a mesma linguagem do poeta Ronaldo Cunha Lima: o verso popular.

Recebo a petição escrita em verso

E, despachando-a sem autuação,

Verbero o ato vil, rude e perverso,

Que prende, no Cartório, um violão.

Emudecer a prima e o bordão,

Nos confins de um arquivo, em sombra imerso,

É desumana e vil destruição

De tudo que há de belo no universo.

Que seja Sol, ainda que a desoras,

E volte á rua, em vida transviada,

Num esbanjar de lágrimas sonoras.

Se grato for, acaso ao que lhe fiz,

Noite de luz, plena madrugada,

Venha tocar à porta do Juiz.


SONHO DE AMOR poema de mário oliveira

Vivo num mundo tão belo, cheio de dúvida e incerteza.

Meus versos são tão singelos para definir tua beleza.

Teu escravo eu queria ser, para te servir toda hora.

Muitas flores te oferecer, e morar onde você mora.

 

Foi bom eu te ver calada, para eu ficar te olhando.

Por favor não diga nada para eu continuar sonhando.

Com essa imagem querida, não vou mais viver tristonho.

Se eu não for feliz na vida deixa-me ser feliz no sonho

 

Não quero ouvir a semelhança, da triste palavra não.

Para dormir com a esperança, e acordar com a ilusão.

Você não tem culpa de nada eu tenho culpa de tudo.

Tu me vê e fica calada, e eu te vejo e fico mudo.

 

Queres saber quem sou eu, sou um mendigo sonhador.

Que pede pelo amor de Deus, um pouquinho do teu amor.

Sê queres saber quem te ama, olhe em minha direção.

Com certeza verá uma chama, que sai do meu coração. 

 

Meu pensamento me carrega, pelos tempos em que vivi.

E meu coração só se alegra, quando estou pensando em ti.

Lembrar de ti é reviver, mesmo sentindo saudade.

Lembrando eu consigo ter, momentos de felicidade.

 

Gostaria de ser o ar, para tua respiração.

Para quando tu respirar, embalar teu coração.

Não sinta-se constrangida, tu não tens culpa de nada.

São os erros de minha vida, de amar a pessoa errada.

 

Teu olhar longe daqui, perdido pelo alem.

Estou tão perto de ti, tu olha e não vê ninguém.

Sê busca pelos campos, consolo paro teu coração.

Meu amor é um lírio branco ao alcance de tua mão.

 

Gostaria de estar distante, por esse mundo sem fim.

Para que esse olhar ausente estivesse olhando em mim.

Queria eu parar o tempo, para mandar no espaço.

Ter o teu consentimento, para te envolver em meus braços.

 

Queria ouvir o teu coração, tuas verdades me dizendo.

Mas, temo a desilusão de um sonho que estou vivendo.

Vivo de sonho e saudade, não me acorde, por favor.

Brincando com a felicidade, e sonhando com teu amor.

 

Não sei se você existe de verdade, e nem sei o teu endereço.

Sei apenas que és a felicidade, e teu amor neste mundo não tem preço.

Sê tu não podes amar este pobre sonhador, ao Mestre vou perguntar.

Se lá no céu tem lugar para quem morre de amor.                             

DENÚNCIA: A CNTBio vista por dentro. leitura indispensável. – pela editoria

 “A carta de Lia Giraldo é leitura indispensável para entendermos como os impulsos políticos de governo são transformados em “decisões técnicas” pelos já conhecidíssimos “especialistas”.

——-

Brasília, 17 de maio de 2007.

Excelentíssimo Senhor Ministro da Ciência e Tecnologia

Excelentíssima Senhora Ministra do Meio Ambiente

Ilustríssimo Senhor Presidente da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança

Referente: Notificação de desligamento da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança e declaração de motivos.

Há 31 anos sou servidora pública dedicada à Saúde Coletiva, dos quais 20 anos como médica sanitarista, tendo por esse período trabalhado na região siderúrgica-petroquímica de Cubatão – SP, promovendo a saúde dos trabalhadores e ambiental. Fiz meu mestrado e doutorado investigando biomarcadores para análise de risco. Há dez anos sou pesquisadora titular da Fundação Oswaldo Cruz e docente do programa de Pós-Graduação do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães, onde sou responsável pelas disciplinas obrigatórias de “Filosofia da Ciência e Bioética” e de “Seminários Avançados de Pesquisa”.

Como técnica, gestora, cientista e professora tive que lidar com diversas situações de conflitos de interesses que muitas vezes emergiam de forma aguda e tenho claro que os conflitos são parte do processo social e por isso mesmo devem estar subordinados a regras de convivência civilizada, em respeito ao estado de direito e à democracia.

Sou membro titular na CTNBio como Especialista em Meio Ambiente indicada pelo Fórum Brasileiro de Organizações Não Governamentais, a partir de uma lista tríplice à Ministra do Meio Ambiente, a quem coube a escolha. Hoje, após quinze meses de minha nomeação, peço o desligamento formal dessa Comissão e apresento a titulo de reflexão algumas opiniões críticas no sentido de colaborar com o aprimoramento da biossegurança no país.

Na minha opinião, a lei 11.105/2005 que criou a CTNBio fez um grande equívoco ao retirar dos órgãos reguladores e fiscalizadores os poderes de analisar e decidir sobre os pedidos de interesse comercial relativos aos transgênicos, especialmente sobre as liberações comerciais.

A CTNBio está constituída por pessoas com título de doutorado, a maioria especialistas em biotecnologia e interessados diretamente no seu desenvolvimento. Há poucos especialistas em biossegurança, capazes de avaliar riscos para a saúde e para o meio ambiente.

Os membros da CTNBio têm mandato temporário e não são vinculados diretamente ao poder público com função específica, não podendo responder a longo prazo por problemas decorrentes da aprovação ou do indeferimento de processos.

A CTNBio não é um órgão de fomento à pesquisa ou de pós-graduação ou conselho editorial de revista acadêmica. O comportamento da maioria de seus membros é de crença em uma ciência da monocausalidade. Entretanto, estamos tratando de questões complexas, com muitas incertezas e com conseqüências sobre as quais não temos controle, especialmente quando se trata de liberações de OGMs no ambiente.

Nem mesmo o Princípio da Incerteza, que concedeu o Prêmio Nobel à Werner Heisenberg (1927), é considerado pela maioria dos denominados cientistas que compõe a CTNBio. Assim, também na prática da maioria, é desconsiderado o Princípio da Precaução, um dos pilares mais importantes do Protocolo de Biossegurança de Cartagena que deve nortear as ações políticas e administrativas dos governos signatários.

O que vemos na prática cotidiana da CTNBio são votos pré-concebidos e uma série de artimanhas obscurantistas no sentido de considerar as questões de biossegurança como dificuldades ao avanço da biotecnologia.

A razão colocada em jogo na CTNBio é a racionalidade do mercado e que está protegida por uma racionalidade científica da certeza cartesiana, onde a fragmentação do conhecimento dominado por diversos técnicos com título de doutor, impede a priorização da biossegurança e a perspectiva da tecnologia em favor da qualidade da vida, da saúde e do meio ambiente.

Não há argumentos que mobilizem essa racionalidade cristalizada como a única “verdade científica”. Além da forma desairosa no tratamento daqueles que exercem a advocacy no strito interesse público.

Participar desta Comissão requereu um esforço muito grande de tolerância diante das situações bizarras por mim vivenciadas, como a rejeição da maioria em assinar o termo de conflitos de interesse; de sentir-se constrangida com a presença nas reuniões de membro do Ministério Público ou de representantes credenciados da sociedade civil; de não atender pedido de audiência pública para debater a liberação comercial de milho transgênico, tendo o movimento social de utilizar-se de recurso judicial para garantia desse direito básico; além de outros vícios nas votações de processos de interesse comercial.

Também a falta de estrutura da Secretaria Geral da CTNBio é outra questão que nos faz pensar como é que é possível ter sido transferido para essa Comissão tanta responsabilidade sem os devidos meios para exerce-la? Assistimos a inúmeros problemas relacionados com a instrução e a tramitação de processos pela falta de condições materiais e humanas da CTNBio.

Para ilustrar cito o processo No. 01200.000782/2006-97 da AVIPE que solicitava a revisão de uma decisão da CNBS. O mesmo foi distribuído para um único parecerista pela Secretaria Geral como um processo de simples importação de milho GM para alimentar frangos. Graças à interpretação de um membro de que haveria necessidade de nomear mais um parecerista, em função dos problemas antigos deste processo que sofrera recurso da ANVISA e do MMA junto ao CNBS, é que se descobriu que este processo estava equivocado. Mesmo porque a CTNBio só poderia dar parecer a pedidos de importação de sementes para experimentos científicos. Importação de sementes para comercialização para ração animal, por exemplo, não é uma atribuição da CTNBio.

Outro fato ilustrador é o caso da apreciação do pedido de liberação comercial da vacina contra a doença de Aujeski (em que também fui um dos relatores). Os únicos quatro votos contra a liberação não seriam suficientes para a sua rejeição. No entanto, o fato de não se ter 18 votos favoráveis impediu a sua aprovação e este fato foi utilizado amplamente para justificar a redução de quorum de 2/3 para maioria simples nas votações de liberação comercial de OGM. Ocorre que o parecer contrário à aprovação desse processo trouxe uma série de argumentos que sequer foram observados por aqueles que já tinham decidido votar em favor de sua liberação.

Essa vacina está no mercado internacional há quinze anos e só é comercializada em cinco países, nenhum da comunidade européia. Esta observação levou-me a investigar as razões para tal e encontrei uma série de questões que contraindicam o seu uso na vigilância sanitária de suínos frente aos riscos de contrair a doença de Aujeski e que também são seguidas pelo Brasil.

Infelizmente este fato foi utilizado politicamente no Congresso Nacional como um argumento para justificar a redução do quorum para liberação comercial, mostrando que os interesses comerciais se sobrepujam aos interesses de biossegurança com o beneplácido da CTNBio.

Desta forma, em respeito à cidadania e a minha trajetória profissional de cientista e de formadora de recursos humanos, não poderei mais permanecer como membro de uma Comissão Técnica Nacional de Biossegurança que, a meu ver, não tem condições de responder pelas atribuições que a lei lhe confere.

Faço votos que uma profunda reflexão inspire todos aqueles que têm responsabilidade pública para que os órgãos com competência técnica e isenção de interesses possam de fato assumir o papel que o Estado deve ter na proteção da saúde, do ambiente, da sociedade, da democracia e do desenvolvimento sustentável.

Brasília, 17 de maio de 2007.

Profa. Dra. Lia Giraldo da Silva Augusto

Membro Titular da CTNBio

 

 Meio Ambiente

DEBATE: TENTANDO RECONSTRUIR A HISTÓRIA DO BRASIL

Parte da história do Brasil está em debate.

 

O Ministério Público Federal, por meio de uma ação pública conduzida pelos procuradores Marlon Alberto Weichert e Eugênio Fávero, pede a reinterpretação da lei de Anistia. A idéia é que o coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra, responsável pelo comando do DOI-Codi, em São Paulo, nos anos 70, seja responsabilizado pela tortura, morte e desaparecimento de mais de 60 pessoas.

A lei de Anistia de 1979 diz que estão isentos de responsabilidades as pessoas que cometeram crimes políticos ou conexos. Ustra não reconhece os crimes que cometeu. No entanto, o coronel usa do argumento que a tortura e os desaparecimentos ocorridos poderiam ser interpretados como crimes políticos ou conexos.

Em entrevista à Radioagência NP, o procurador Marlon Alberto Weichert explica que o argumento utilizado pelo coronel não é válido, e afirma que a responsabilização dos torturadores da ditadura militar e a abertura dos arquivos sobre o período, são fatores essenciais para que o Brasil conheça seu passado e se consolide como uma República democrática.

Radioagência NP: Porque não se pode enquadrar a tortura, assassinato e outros crimes como “conexos”?

Marlon Alberto Weichert: Essa figura de conexão entre crime praticado entre aqueles que se voltam contra o Estado e aqueles que defendem o Estado não existe. Não existe essa possibilidade, se considerar uma conexão, pela essência do crime, entre aquele que atenta contra o Estado e aquele que depois pratica um crime para justamente punir ou reprimir os crimes que pelos primeiros foram praticados. Tão pouco pode se dizer que crimes praticados pelos agentes do Estado são crimes políticos ou por motivação política. Porque os crimes políticos ou por motivação política precisam ter um elemento que se caracteriza pela intenção de você querer ir contra o poder público e, no caso, os agentes da repressão não queriam ir contra o poder público e sim, defender a ideologia e o governo vigente. Então tecnicamente não é possível de forma alguma caracterizar os crimes dos agentes da repressão como crimes conexos aos políticos.

RNP: Você diz que sem a abertura dos arquivos da ditadura “a sociedade não poderá reger sua vida civil e política de forma adequada”. Explique melhor isso.

M.A.W: Se você suprime da sociedade civil o acesso da memória do país, você está suprimindo do povo a possibilidade de conhecer os erros e os acertos que foram praticados no passado, e a partir dessa análise, adotar decisões pro futuro. Não podemos não pode esquecer que o poder é do povo e para você exercer um poder, você precisa conhecer a matéria pertinente ao exercício dessa faculdade de participar do poder. Como é que eu posso trabalhar para o futuro se eu não conheço o passado. Assim nós acabamos todos sendo meros fantoches e coadjuvantes em um processo onde deveríamos ser os protagonistas.

RNP: As ações civis que são encabeçadas pelas famílias das vítimas de tortura no DOI-Codi, pedem que o coronel Ustra apenas reconheça que participou dos crimes. Isso seria o primeiro passo para depois poder punir essas pessoas criminalmente. Mas como fornecer provas para responsabilizar pessoas por crimes que aconteceram há cerca de 30 anos?

M.A.W: Isso tem que ser analisado caso a caso. Mas existem muitas provas de que Carlos Alberto Brilhante Ustra era o comandante de um centro de tortura em São Paulo e que sob o seu comando e com base na sua omissão, se praticavam torturas e homicídios naquele lugar. Então ele [ao se omitir], assume a responsabilidade criminal sobre aqueles atos. Então uma condenação criminal de Ustra não é uma matéria de prova difícil. Há dezenas de depoimentos de pessoas que foram torturadas no DOI-Codi e que tiveram a presença dele, durante a sessão de tortura. Disso não há a menor dúvida, pois está reconhecido no próprio relatório da presidência da república sobre o direito à memória e à verdade.

RNP: Mas os casos de homicídio no Brasil têm que ser julgados em um prazo de até 20 anos. Como fica isso? Já que esses atos foram cometidos há cerca de 30 anos.

M.A.W: Isso é a questão da prescrição. Mas ocorre que quando agente do Estado, por orientação do governo praticam, de forma ampla e repetitiva, a perseguição de algum segmento da população civil, isso é se caracteriza como crimes contra a humanidade. E crimes contra a humanidade, por definição, eles não estão sujeitos a esse tipo de delimitação temporal, que é da prescrição. Então pode passar quanto tempo for que essas pessoas ainda poderão ser punidas.

RNP: Figuras como o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, se manifestaram contra a retomada sobre o debate da revisão da lei de Anistia. Em sua opinião, a que se deve isso?

M.A.W: No Brasil há certo apego à cultura do esquecimento. Só que esquecimento não constrói futuro e esquecimento não permite reconciliação, pois perdoar pressupõe conhecer e então poder perdoar. A ONU aponta que é necessário um conjunto de medidas para que um país que viveu um regime autoritário consolidar um regime democrático, que é responsabilizar aqueles que gravemente violaram os direitos humanos e reparar as vítimas. O Brasil só reparou as vítimas até hoje, mas não tomou as demais medidas. Nós temos a certeza de que quando um ministro do STF manifesta um entendimento, trata-se de um entendimento precário e provisório. Porque ele precisa ter a isenção de quando chegar o processo em suas mãos, ele não pode ter pré-julgado a causa, sob pena inclusive de ficar impedido de participar do julgamento.

 

 Radioagência NP, Juliano Domingues.

“FINAL DO MES” peça de alexandre frança no TEATRO GUAÍRA (auditório)

Sinopse

 

Uma mãe + uma filha que depende desta mãe + uma dívida de R$ 6.000,00, esta é a fórmula utilizada na nova produção da Dezoito Zero Um – Cia de teatro, que vem apresentar um novo olhar sobre a relação de pais e filhos.

 

Depois do sucesso de crítica e público de sua produção anterior (“Um Idiota de Presente”, texto escrito em homenagem a Dostoievski), a Cia quer agora apresentar ao público um olhar sobre a questão financeira no seio da classe média brasileira, utilizando como mote a relação de dependência entre uma mãe e uma filha.

 

No elenco, a consagrada e premiada atriz paranaense Claudete Pereira Jorge contracena com sua filha na vida real Helena Portela. Aqui, mais do que nunca, a interpretação alça vôos de uma realidade marcante.

 

Numa montagem que reúne elementos tanto do teatro do absurdo, quanto do naturalismo típico em comédias de costume, “Final do Mês” quer, de uma forma bem humorada, dialogar o valor do dinheiro nas relações afetivas do mundo contemporâneo.

 

Ficha técnica

 

Elenco: Claudete Pereira Jorge e Helena Portela

Texto e Direção: Alexandre França

Cenário e Figurino: Paulo Vinícius

Luz: Karol Gubert

Trilha: Carlito Birolli, Cauê Menandro e Mazzarolo

Produção: VM Produções

Dezoito Zero Um – Cia de Teatro

Duração: 60 min

Classificação: 14 anos

 

 

De 14 a 31 de agosto de 2008

Mini-Auditório do Teatro Guaíra

Quinta, sexta e sábado às 21h00

domingo às 19h00

Ingressos: R$20,00 inteira e R$10,00 meia

MARCO POLO E A CIDADE DAS MUITAS LINGUAS de frederico fullgraf

“Em seus cálculos o mestre-contador de Kublai Khan estimara sessenta luas-novas sem notícias do mercador de Veneza. Mas agora ele estava de volta, certamente abastecido de estórias. Mal disfarçando sua impudica curiosidade, o imperador parecia sentado sobre espinhos; tanto que se movia sobre a almofada de seda de Sezuan, ornada com delicados apliques de bambu. Estava impaciente, tinha confiado sua filha Cocacin à escolta de Marco Polo por mares do Índico e queria saber se Ilkhan Arghun se revelara marido digno dela.

 

“Contudo, naquele primeiro final de tarde após sua jornada ao Levante, o loquaz Marco parecia estranhamente amofinado; atitude na qual o Khan percebeu-lhe alguma dissimulação, pois o italiano irradiava uma esquisita, mas luminosa expressão. Luzimento potenciado pelo céu, que ardia em cores alaranjadas e púrpuras, e pelo perfume de romãs maduros, do jardim onde aves do paraíso alvoroçadas com o poente, gorjeavam o anúncio da noite”.

 

“Fingindo-se absorto, o viajor ensaiava a elipse que lhe permitiria circunavegar com cautela o motivo de sua excitação; que não resultava de sua viagem, mas era segredo que estava escondido naquele palácio. Observando-o de soslaio, o Grande Khan não se conteve: partiste com a promessa de falar-me das cidades da Pérsia, que horror te aflige, firengi? Hábil, com uma nesga de ironia, o veneziano engatou uma charada: ó Grande Kublai, dizei-me onde fica a “gruta do Tigre Branco” e contar-vos-ei minha aventura.

 

“Gabola, o soberano divagou sobre fantasiosa geografia, mas o mercador atalhou a pimponice, alcançando-lhe o prato de fina porcelana chim com as fragrantes tâmaras de Hormuz. E reincorporado, pareceu içar velas, pondo em movimento a barca da narrativa. Partindo de Quanzhou, fundeara em terras com nomes tão melodiosos como aromáticos seus tabacos, balsâmicas suas essências e perfumosas as suas mulheres – Sumatra, Sri Lanka, Mylapore, Madurai e Alleppey… Depois os litorais do Indh, por Gujarat, e finalmente  a Pérsia.

 

“Aqui o impaciente Khan interrompeu-o, chasqueando que estava farto de relatos sobre ´cidades invisíveis´ como Antioquina, Teodósia, Cleopatrópolis e italianices quetais (e a propósito: desde quando se interessava por mulheres?). Mas o veneziano prosseguiu imperturbável: na volta navegara por mares bizarros e escaldantes, feitos de areia. Rumando para a Costa do Ouro, transportara-se sobre a corcova de camelos, entre a Somália e o Magreb. Kublai considerou perfunctória a cartografia, então o veneziano o desafiou com novo entrecho, de enviesada concupiscência: e o que é “mergulhar às pérolas”, ó onisciente Khan?

 

Isto não pode ser!, interrompeu, insolente, Italino Calvo, afastando-se bruscamente da fogueira noturna, em torno da qual se reunia com copistas da milenar Biblioteca. Ao silente dervixe da madrassa de  Sankore, que media .o relato, não escapou na reação do italiano, a defesa contra alguma insondável estocada.  Mas antes que o irritado Calvo, há décadas aferrado às andanças de seu conterrâneo, que agora o faziam aportar nas areias abrasadas do Mali, cobrasse aclarações, o mais velho dos escribas brandiu na mão direita um pergaminho aos frangalhos: o Urbi Multilinguae. Como isto era possível, se este texto jamais fora citado em Il Milione? Calvo amuou-se desconfiado.

 

Preguiceiro, um dos copistas reacendeu seu cachimbo com um graveto em brasas e bafejou: segundo os tuaregs o pergaminho fora roubado de um galeão italiano em Darfur, alcançando Timbuktu, este porto faiscante do imenso Saara, no lombo de dromedários. E aqui escondido, como tantos outros manuscritos – este, no entanto, por ser considerado ultrajante, blasfemo, advertiu; e os mocelemanos se entreolharam, não sem ironia, estendendo-lhe o escrito.

 

Calvo lê, mas desconfia de seus próprios olhos. “Distraído pela súbita presença da cortesã que lhes serve o chá (cujas curvas intui sob as dobras do sári e cujo perfume almiscarado, gotejando dos seios fartos, lhe inebria os sentidos), Marco Polo fixa o horizonte, como se buscasse no céu as coordenadas para seu piloto. Respira fundo e diz com entonação de indiferença protocolar: não perdi tempo com o comércio do sal, do marfim e do ouro. Me desviei do curso e fui obrigado a “lamber a macaca”… A fazer o quê?, insiste o Khan, com olhos esbugalhados. Isso mesmo, responde Marco: abocanhar a “crista da concha púrpura” na Terra Santa, se é que me entende. Meca!, redargüiu Kublai. Não, Jerusalém, devolveu Marco, o cristão.

 

“Aborrecido com o relato cacete de Marco, o Khan gritou a um eunuco usbeque que lhe devolvesse a almofada atirada escada abaixo. O veneziano desviou seu olhar impaciente, e puxando da algibeira um pergaminho empoeirado, estendeu-o, desafiador: שררך אגן הסהר אל יחסר המזג ! Que língua era aquela, rosnou o desconsolado Khan. Surpreender-vos-eis com a  l í n g u a, troçou Marco, e Kublai pareceu ouvir uma vaga menção ao Cântico dos Cânticos.

 

Mas isto é um texto apócrifo, protesta Calvo, e escrito em francês arcaico, língua que Polo não falava – correto, infere o capcioso Sidi Ahmad, mas  ditou-o a Rustichello da Pisa, na prisão, durante a batalha de Curzola. Aliás, seu herói não será croata?,  alfineta o muçulmano. Dizem que veio ao mundo naquela ilha de Korčula – ou Curzola, como queira. Absurdo, brada Calvo, se ele nasceu em Veneza! O mouro se diverte, mas Calvo cala-se e lê.

 

“O autor do poema descreve uma coisa movendo-se das sandálias acima, pelo ventre, até os seios da amada, notou Marco. Quê coisa?! insiste o Khan. Espere, desconversa Marco: há nesta geografia um ponto que o faz perder a cabeça: Seu umbigo é uma cratera arredondada, jamais vaza o vinho amalgamado´. Pois o original nos fala de shor, Grande Khan, termo hebreu que deriva do Aramaico, significando ´lugar secreto´ – muito sugestivo, não lhe parece? Então a expressão do Khan fechou-se: quereis dizer-me que viajastes por meio mundo para contar-me que vos submetestes ao miserável ritual de nossa velha imperatriz Wu Hu, mulher satânica!

 

Sem dúvida o texto estava impregnado da tagarelice de Polo, vaticinou Calvo, mas neste ponto a narrativa se interrompia bruscamente, remetendo para algo de versão não autorizada, como se tivesse sido narrada em of, depois anotada de memória, alternando o narrador – uma cilada de Rustichello?

“Contou-me Polo cousas que parecem inventadas, números assombrosos, até mesmo o mundo do pecado: dentro das muralhas de Khanabalik ele contou 20 mil prostitutas, tratadas com respeito pela corte e o povo… Como que adivinhando por onde se movia a narrativa, Sidi Ahmad fixou Calvo, fez um beiço lúbrico e bombardeou-o com uma saraivada da ponta da língua –  indecência que não escapou ao dervixe e respondida obliquamente: Mansa é a palavra do Profeta, Allá esteja com ele!, ferina é apenas a língua dos homens!

 

“Embora Chabi fosse a prima-dona que trouxera os mestres budistas do Tibet à corte, Kublai tinha quatro esposas e numerosas concubinas dentro do palácio. Sendo que trinta delas eram escolhidas todos os anos entre as mais belas moças de Kungurat; segundo Polo a província famosa bela beleza de suas mulheres. Já os pais dessas moças consideravam a escolha de suas filhas como concubinas do Khan, motivo da maior felicidade.

 

Entediado com as alcoviteirices Calvo olhou o céu estrelado do Saara, colocando de lado o pergaminho pegajoso. Lascivo, o mal-educado Sidi Ahmad perguntou-lhe se tinha entendido todas aquelas “línguas”. Trazido de volta à realidade pela cusparada de um camelo, o distraído escritor latino entendeu a ironia e então sobreveio a apoteose:

 

“Segredou-me Polo que por ele se enrabichara Khutulun, sobrinha do Khan, que descreve tão brava e forte, que em todo o exército de seu pai não havia homem que lhe fosse páreo. Seus pais estavam preocupados porque até a idade dos 23 anos não se casara. Mas ela advertiu que só consentiria num casamento, se fosse vencida em combate por algum jovem que lhe desse 100 cavalos em garantia. Era tão imbatível guerreira que em pouco tempo amealhou 10 mil cavalos. Seu último pretendente lhe deixara 1 mil cavalos e retirara-se humilhado. Até seu caminho cruzar-se com o do veneziano, que guerreiro não era, mas bem dotado de outras virtudes”.

 

Apertando a ponta de seu punhal contra minha jugular, exigindo-me juramento de silêncio, disse-me o mercador que cometera traição à confiança do imperador, desonra que lhe teria custado a degola. Fingindo constrangimento, desenhou no ar as curvas do corpo adestrado da mongol e disse, extasiado: Kothulum ergueu suas faldas imperiais, debaixo das quais não vestia quaisquer calçolas, abriu suas coxas flavescentes e fez-me ajoelhar, pressionando minha boca contra seu fruto, já encharcado. Forçou-me a cabeça com as duas mãos, arquejou sobre meus lábios, murmurou coisas que não eram Mandarim nem Mongol, mais se assemelhavam a onomatopéias das cavernas, asseguro-lhe. E então, a apoteose: seu pajem ordenou-me que escrevesse com minha língua as letras do alfabeto sobre o “pico da concha púrpura”; como chamam aquela protuberância. Já sentindo cãibras, no meio da letra “o”, que é o próprio infinito, ela revirou os olhos e inundou minha boca com furiosa arrebentação de mar salgado…

 

Não acredito! praguejou Calvo e Sidi Ahmad disse apenas: pode crer! E então o italiano leu em voz alta o último parágrafo do pergaminho: “Elas (as línguas, suponho) parecem querer nos dizer que paremos de comparar medidas tolas, que o tamanho de uma língua não passa de meio palmo e seu peso não excede duas onças”, conclui Marco, com olhar debochado para Rustichello: “a língua de que falo, não é como o falo, é músculo, muito manobrável, que nunca chega cedo demais (aqui Rustichello confessa ter enrubescido). “Em outras palavras: o importante não é a carne, mas o movimento”. Dito isto, Calvo e Sidi calaram, cingidos pelo primeiro clarão da lua, que emergia por trás das dunas.

 

                             selo comemorativo. ilustração do site.

 

LUZES DA TARDE poema de tonicato miranda

                                                                                                                                 para os palavreiros

 

antes que a tarde acabe

dúvida que de mim duvida

mais um desenho a fazer

ou num poema me fazer

não falo de fazer como quem

veste o ego ou uma roupa

mas de fazer o corpo-casa

o espírito obrando sua casa

olho à janela e vejo a luz

apraz-me este ar parado

o calor manso desta tarde

borboletas belas na tarde

a vontade de desenhar perdeu

para a vontade do poema

foi bom não perder a tarde

farei desenhos mais tarde

A RELIGIÃO DA ARTE DE WILLIAM BLAKE por flávio calazans

 

 William Blake é um artista que hoje nós chamaríamos de multimídia. Versátil e eclético, tal qual Leonardo Da Vinci, Göethe e outros, Blake não se deixava restringir por preconceitos estéticos.
Blake nasceu em 28 de novembro de 1757 em Londres, expressou suas idéias por desenhos, pinturas, gravuras, poesias, prosa, etc; mesclando a produção simbólica do cérebro esquerdo com as imagens do cérebro direito.
Seu profundo conhecimento esotérico ajudou-o a compreender e expressar sua intuição mística com uma obra híbrida de imagens, palavras e cores que transmitem bem suas visões.
Aos 12 anos escreveu o livro “Esboços Poéticos”.Lia clássicos ocultistas como Paracelso, Jakob Boheme, Swedenborg, Gnósticos, Filosofia, Literatura, etc…
Blake revolucionou as técnicas de gravura com um método à base de cera e ácido em placas de bronze, coloridas à mão com aquarela.
Em 1782 casou-se com Catherine Boucher, filha de um jardineiro e analfabeta. Ele a ensinou a ler, escrever e pintar, e ela passa a ajuda-lo a colorir manualmente as gravuras, tornando-se sua admiradora apaixonada por toda a vida.
Um visitante intelectual encontrou Blake e Catherine nus no quintal da casa, lendo trechos de “Paraíso Perdido” de Milton, um para o outro, representando Adão e Eva.
Suas imagens mágicas refletem sua rica vida interior, inspiração visionária que o leva a auto-editar dois livros: “Cantos da Inocência” (1789) e “Cantos da Experiência” (1794), cada exemplar colorido à mão e diferente dos outros.
Quem teve a oportunidade de manusear estes originais afirma ter experimentado uma experiência estética e mística indescritível!
O texto e o desenho juntos lembram a arte taoísta chinesa, o E-Makimono japonês, as filacteras sacras medievais das catedrais e as nossas histórias em quadrinhos, uma linguagem de mistura de códigos, intermídia, intersemiose, meio poesia concreta, só que tudo, duzentos anos antes!
Os aforismos lembram haikais e arte calígrafa chinesa, e cabalisticamente, Blake explicou:      “Arte é a árvore da vida”.
Seus livros proféticos são de um misticismo altruísta, social, defende a Revolução Francesa e critica a miséria e exploração até de crianças, pela revolução Industrial inglesa, sendo várias vezes processado.
Blake cria um universo próprio, uma complexa mitologia pessoal que antecede Lovecraft e Clive Barker.
Para Blake, o cordeiro não é bom para representar o Cristo, o certo seria o tigre da revolta que expulsa os mercadores do templo.
Deus (Urizen) comete um pecado ao criar o universo, a separação (solve), Los (imaginação criativa) e Enitharmon (o espírito feminino), visão cósmica da ilusão humana (Maya para os yogues) até a “Filosofia dos Cinco Sentidos” (Materialismo).
O livro “Jerusalém” descreve o despertar do gigante Albion (A Humanidade) do sono de Ulro (materialismo) quando Los constrói Golgonooza, a Cidade da Arte.
Em 1809 realiza uma exposição que é sucesso de público e duramente atacada pela crítica acadêmica incomodada por suas inovações criativas, incompreendido, passa por dificuldades financeiras e ilustra catálogos de fábrica de porcelanas.
Somente depois de surgir o movimento simbolista, sua obra começou a ser compreendida em sua força criativa e coerência, chegando a influenciar até os surrealistas.
No livro ‘Casamento do Céu e Inferno”, Blake concilia bem e mal, razão e emoção, e de forma que lembra a tantra yoga, ele prega o amor sexual como via de condução para um estado de transe místico.
Sua sinceridade e amor à humanidade transparecem em toda sua obra, inclusive na figura cruel, castradora e tirânica do seu DEUS URIZEN que convida à rebelião criativa.
Blake faleceu amado por todos que conhecia a 12 de agosto de 1827.

                                                                        “Ver o mundo num grão de areia
                                                                         e o céu numa flor silvestre.
                                                                         Detém o infinito na palma da tua mão
                                                                         E a eternidade numa hora”.
                                                                                          W.Blake


 

 

           foto da nasa. feita pelo telescópio hubble. ilustração do site

 

 

A SOLIDARIEDADE É ! por rubem alves

“Se te perguntarem quem era essa que às areias e aos gelos quis ensinar a primavera…”: é assim que Cecília Meireles inicia um de seus poemas. Ensinar primavera às areias e aos gelos é coisa difícil. Gelos e areias nada sabem sobre primaveras… Pois eu desejaria saber ensinar a solidariedade a quem nada sabe sobre ela. O mundo seria melhor. Mas como ensiná-la?

Será possível ensinar a beleza de uma sonata de Mozart a um surdo? E poderei ensinar a beleza das telas de Monet a um cego? De que pedagogia irei me valer? Há coisas que não podem ser ensinadas, coisas que estão além das palavras. Cientistas, filósofos e professores são aqueles que se dedicam a ensinar as coisas que podem ser ensinadas por meio das palavras. Sobre a solidariedade muitas coisas podem ser ditas. É possível desenvolver uma psicologia da solidariedade, ou uma sociologia da solidariedade, ou uma ética da solidariedade… Mas os saberes científicos e filosóficos sobre a solidariedade não ensinam a solidariedade, da mesma forma como as críticas da música e da pintura não ensinam a beleza da música e da pintura. A solidariedade, como a beleza, é inefável – está além das palavras.

Palavras que se ensinam são gaiolas para pássaros engaioláveis. Mas a solidariedade é um pássaro que não pode ser engaiolado. Não pode ser dita. A solidariedade pertence à classe de pássaros que só existem em vôo. Engaiolados, eles morrem.

Walt Whitman tinha consciência disso quando disse: “Sermões e lógicas jamais convencem. O peso da noite cala bem mais fundo em minha alma…” E Fernando Pessoa sabia que aquilo que o poeta quer comunicar não se encontra nas palavras que ele diz: ela aparece nos espaços vazios que se abrem entre elas, as palavras. Nesse espaço vazio se ouve uma música. Mas essa música – de onde vem ela se não foi o poeta que a tocou?

O que pode ser ensinado são as coisas que moram no mundo de fora: astronomia, física, química, gramática, anatomia, números, letras, palavras. Mas há coisas que não estão do lado de fora, coisas que moram dentro do corpo. Estão enterradas na carne, como se fossem sementes à espera…

Sim, sim! Imagine isto: o corpo como um grande canteiro! Nele se encontram, adormecidas, em estado de latência, as mais variadas sementes. Elas poderão acordar, como a Bela Adormecida acordou com um beijo. Mas poderão também não brotar. Tudo depende…

As sementes não brotarão se sobre elas houver uma pedra. E também pode acontecer que, depois de brotar, elas sejam arrancadas… De fato, muitas plantas precisam ser arrancadas, antes que cresçam: as pragas, tiriricas, picões… Uma dessas sementes é a “solidariedade”. A solidariedade não é uma entidade do mundo de fora, ao lado de estrelas, pedras, mercadorias, dinheiro, contratos. Se ela fosse uma entidade do mundo de fora poderia ser ensinada e produzida. A solidariedade é uma entidade do mundo interior. Solidariedade nem se ensina, nem se ordena, nem se produz. A solidariedade tem de brotar e crescer como uma semente…

Veja o ipê florido! Nasceu de uma semente. Depois de crescer não será necessária nenhuma técnica, nenhum estímulo, nenhum truque para que ele floresça. Angelus Silesius, místico antigo, tem um verso que diz: “A rosa não tem porquês. Ela floresce porque floresce”. O ipê floresce porque floresce. Seu florescer é um simples transbordar natural da sua verdade.

A solidariedade é como o ipê: nasce e floresce. Mas não em decorrência de mandamentos éticos ou religiosos. Não se pode ordenar: “Seja solidário!” A solidariedade acontece como um simples transbordamento: as fontes transbordam…

Já disse que solidariedade é um sentimento. É esse o sentimento que nos torna humanos. A solidariedade me faz sentir sentimentos que não são meus, que são de um outro. Acontece assim: eu vejo uma criança vendendo balas num semáforo. Ela me pede que eu compre um pacotinho das suas balas. Eu e a criança – dois corpos separados e distintos. Mas, ao olhar para ela, estremeço: algo em mim me faz imaginar aquilo que ela está sentindo. E então, por uma magia inexplicável, esse sentimento imaginado se aloja junto dos meus próprios sentimentos. Na verdade, desaloja meus sentimentos, pois eu vinha, no meu carro, com sentimentos leves e alegres, e agora esse novo sentimento se coloca no lugar deles. O que sinto não são meus sentimentos. Foram-se a leveza e a alegria que me faziam cantar. Agora, são os sentimentos daquele menino que estão dentro de mim. Meu corpo sofre uma transformação: ele não é mais limitado pela pele que o cobre. Expande-se. Ele está agora ligado a um outro corpo que passa a ser parte dele mesmo.

Isso não acontece nem por decisão racional, nem por convicção religiosa, nem por um mandamento ético. É o jeito natural de ser do meu próprio corpo, movido pela solidariedade. Pela magia do sentimento de solidariedade meu corpo passa a ser morada do outro. É assim que acontece a bondade.

O menino me olhou com olhos suplicantes.

E, de repente, eu era um menino que olhava com olhos suplicantes…

 

            ilustração do site.

EDUCAÇÃO EM VALORES por vicente martins

 

 

          Pergunto à minha filha Mariana, de 11 anos, o que pensa da seguinte situação: um pai, vendo um filho passar fome, resolve roubar alimentos em um supermercado no bairro em que mora. Ele agiu certo ou errado ao cometer esse delito?”. Ela me responde: “Acho que ele agiu certo porque ao ver o filho com fome não suportou  a cena de  miséria em sua casa e  não teve saída senão roubar. Por outro lado, também agiu errado por ter roubado o supermercado; afinal, roubar é uma ação feia”.

         O que Mariana chama de “ação feia” um promotor, membro do Ministério Público, que representa a sociedade e atua como acusador contra os suspeitos de terem cometido alguma ação criminal,  poderá definir o  ato do pai  como “ apropriação indébita de bem alheio” e  um júri, formado por um juiz togado e cidadãos previamente selecionados  para o  julgamento do caso,  poderá julgar a prática do pai   como uma  transgressão imputável da lei penal por dolo ou culpa, ação ou omissão.

O exemplo acima pode nos dar uma idéia da complexidade que é viver em sociedade. A luta por um mundo melhor, por uma civilização mais humana, mais democrática e mais justa tem sido historicamente construída pelo homem. 

Atualmente, os governos, as organizações não-governamentais e os cidadãos do mundo lutam pela eqüidade. O que é a eqüidade? É uma forma de praticar a Justiça, isto é, o respeito à igualdade de direito de cada um, que independe do que está escrito nos códigos jurídicos.  No século XXI,  a sociedade, civil e política, quer que todos pratiquem a eqüidade como expressão de  um sentimento do que se considera justo,  que seja expressa em forma de  virtude de quem ou do que (atitude, comportamento, fato etc.) manifesta senso de justiça, imparcialidade, respeito à igualdade de direitos dos homens.

 Por isso, na Filosofia, a ética é o  ramo de estudos que cuida particularmente de investigar os princípios que motivam, distorcem, disciplinam ou orientam o comportamento humano, refletindo especialmente a respeito da essência das normas, valores, prescrições e exortações presentes em qualquer realidade social.

Podemos observar que as ações humanas,  em face de sentimentos,  estímulos sociais ou de necessidades íntimas,  requerem, para a boa convivência na vida social,    bons costumes, boa conduta, segundo os preceitos socialmente estabelecidos pela sociedade.  Uma pessoa,  mesmo com as mais contundentes e sensíveis justificativas,  em  situação de privação material ou  situação de fome, comete um crime ao roubar para alimentar-se. Roubar é um ato que fere a moral e os bons costumes.

 Os valores não surgem na vida  em sociedade como um trovão no céu. São construídos  na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas escolas, nas manifestações culturais, nos movimentos e organizações locais. Conhecê-los, compreendê-los e praticá-los é uma questão fundamental da sociedade atual, imersa numa rede complexa de situações e fenômenos que exige, a cada dia, atitudes éticas como  a honestidade, a bondade e a virtude, considerados, em todas as civilizações modernas,  como norteadores das relações sociais e da conduta dos homens.

 Sem a prática de valores, não podemos falar em cidadania. A cidadania é condição de pessoa que, como membro de uma sociedade, independente da cor de sua pele, raça ou classe social, se acha no gozo de direitos que lhe permitem participar da vida política e, outrossim, pode viver, como um indivíduo que usufrui de direitos civis e políticos garantidos pelo  Poder Público e desempenha os deveres que, nesta condição, lhe são atribuídos para viver em sociedade.
  Entre as diferentes ambiências humanas, a escola tem sido, historicamente, a instituição escolhida pelo Estado e pela família, como o melhor lugar para o ensino-aprendizagem dos valores, de modo a cumprir, em se tratando de educação para a vida em sociedade, a finalidade do pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o mundo do trabalho.

Sendo assim, caberá às instituições de ensino a missão, por excelência, de ensinar valores no âmbito do desenvolvimento moral dos educandos, através da seleção de conteúdos e metodologias que favoreçam temas transversais (Justiça, Solidariedade, Ética etc) presentes em todas as matérias do currículo escolar, utilizando-se, para tanto, de projetos interdisciplinares de educação em valores, aplicados em contextos determinados, fora e dentro da escola.

HOJE ESTOU NAQUELES DIAS… poema de marilda confortin

Dias em que o corpo
me castiga
por eu ter exercido
o poder divino
de me negar a dar à luz.

Estou naqueles dias
de terra amaldiçoada
que não fecundou
nenhuma semente
dentre as milhares
que foram plantadas.

Estou naqueles dias em que choro…
Como quando Ele se arrependeu
de nos ter dado ventres férteis
e inconseqüentes
e chorou,
chorou tanto que seu pranto
afogou todas as pragas que nasceram
nos dias que antecederam
aqueles dias de dilúvio

Hoje estou naqueles dias
em que Deus me usa
para abortar a humanidade.
Me deixe chorar, sofrer e sangrar só.

CIRANDA DOS PALAVREIROS poema de helio de freitas

 

 

Vidal, fiel palavreiro,

caudilho das letras,

gaúcho matreiro,

do blog leal paladino.

 

O outro Batista,

lacustre do agreste,

em tudo versado,

vate ilustre e analista.

 

Maneco poeta,

guardião da poesia

de nervos e sangue,

coração que palpita.

 

Juca barbudão rumoreja,

glosador incansável,

comentarista marcante,

neo-Salomão tão sapiente.

 

Marcelino valente,

militância sem jaça,

de verbo agressivo

que não há quem desfaça.

 

Padrela, versátil talento,

até o Marumbi escalou,

acrescenta a tão grande lista

atributos de palavreiro.

 

Egresso das receitas federais,

Saraiva exercita outras receitas,

sem cifras, só letras,

e vai bem o rapaz.

 

E Jairo Pereira,

de outro planeta,

revolução e vanguarda,

abdução de caneta.

 

Marilda e a Bárbara,

lirismo e vigor,

com muito valor,

cada qual com sua cor.

 

Tadeu bigodudo,

da Curitiba polaca

bardo raçudo,

sem texto que empaca.

 

Cleto, Filó,

rol de outros tantos

palavreiros da hora,

com brio e talento.

 

A todos vocês

o abraço fraterno,

o aplauso sincero

e muitas mercês.

 

POEMA I – poema de carolina correa

Sou pé no chão

Cabeça, nem tanto

 

Me entrego à filosofia das entrelinhas

Sem muito gosto pelo óbvio

 

Comunicação para mim vai muito mais além da mera dicção,

Por isso escolhi me comunicar pela paixão.

Daí, a compreensão daqueles que julgamos irracionais.

 

Meu objetivo de vida é a curto prazo

Pecadora

Sou guiada pelos prazeres imediatos

 

Escrevo

Canto e disseco

 

Isso é pura Carolina

Hoje.

Amanhã…

Já disse q meu objetivo de vida é a curto prazo?

SE A GENTE GRANDE SOUBESSE poema de darlan cunha

Natural que entre as alas de um dia qualquer

surja o que se torna conceito

daí pra frente, é mesmo

da natureza ser vítima e algoz de nossos membros

é o ímã ao qual não se foge, ou se foge

numa fria manhã, num quarto

de hora

qualquer, sim, vê:

se a gente grande soubesse refletir no mesmo

tom e noutros

mais apurados a matéria

dos sonhos

que nos fazem inventar e subir nos degraus

da Grande Escada, saberias tu, por

exemplo, onde o trapézio nos jogaria

um nos laços ou rodízios do outro ?

PALAVRA e ESPADA poema de walmor marcellino

 

Pende a palavra
uma espada
com fio de vidro.
Nasce tímida a palavra
sob a espada
e queima a boca a palavra
em amargo sal.

Flora de perdido hilo
em sereno vidro
vai amanhecer depois.
Agora a espada e seu fio
de anúncio e olvido.

Ela tenta seu vôo
expande a palavra
seu ar de gorjeio.
A palavra ameaça
Eu digo
Ameaça
mas seu pássaro perigo
já não voa.
Boca a boca ela resiste.
A palavra e sua flora
no espaço de suas ervas
seu som puro e liberdade.

 

MARILDA CONFORTIN no espaço cultural ALBERTO MASSUDA

REVISTA “HISPANISTA” publica MANOEL DE ANDRADE em CANÇÃO de AMOR à AMÉRICA

 

editada pela mestra suely reis pinheiro desde abril de 2000 a revista HISPANISTA publicou em sua edição nº 33, o nosso amigo, poeta e PALAVREIRO manoel de andrade com o seu poema CANÇÃO DE AMOR À AMÉRICA nas duas versões português e espanhol. acompanha a publicação do poema a tela O BARDO ERRANTE feita para o poeta pelo artista visual claudio kambé, que também deverá ser a capa do próximo livro. o poema foi publicado, originalmente, na Colombia em seu livro POEMAS PARA LA LIBERTAD  que o poeta colocou no prelo, agora, para impressão bilíngue e que deverá ser lançado nos próximos meses pela Editora Escrituras, a mesma que editou o seu CANTARES.

clique na foto para ver. 

CANÇÃO DE AMOR À AMÉRICA

 

Ai América,
que longo caminhar!

Eu venho com o trigo do meu canto
minha ternura aberta 
e o meu espanto;
e do fundo de mim e do meu assombro
e pelos meus lábios de vinho e gaivotas,
te trago o meu cantar de caminhante.

Para ti, amada minha,
para teu corpo de cansaço
e por tua fome
eu trago esse meu verso frutecido.

Eu venho com o rocio do amanhecer
sou o cantor da aurora
o que desperta
o que anuncia a vida e a esperança.
Eu sou o mensageiro destes anos
o cantor deste tempo e destas terras
eu sou daqui,
desde a Patagônia até o Rio Bravo
e daqui alço meu canto para o mundo.

Ai América,
que longo caminhar!

Eu sou como uma ave que passa
apenas um cantor errante,
mas se na minha voz há uma sinfonia delirante,
é para golpear-te, América,
para  entoar teu grito emudecido.

Agora venho cantar-te
e meu canto é como o dia e como a água
para que me entenda sobretudo o homem humilde.
Agora venho cantar-te 
mas em teu nome, América,
eu só posso cantar com a voz que denuncia.

Eu não venho cantar o esplendor de Machu  Picchu,
a Grande Cordilheira e a neve eterna;
não venho cantar esta América de vulcões e arquipélagos
esta América altiplânica da lhama esbelta e da vicunha;
venho em nome de uma América parda, branca e negra,
e desde Arauco a Yucatán,
venho em nome desta América indígena agonizante.
Eu venho sobretudo em nome de uma América proletária,
em nome do cobre e do estanho ensangüentado.

Eu hoje não venho cantar um continente de paisagens,
não venho cantar o mar que amo,
os lagos escondidos na montanha,
nem dos rios que correm ao fundo dos vales florescidos.
Não, eu não venho cantar este trigo que se nega a quem semeia;
eu venho por uma história mais sincera,
venho falar do homem que vi e ouvi pelos caminhos.

Ai América, 
que longo caminhar!

Eu venho falar do camponês
de seu poncho roto e o seu colchão de  terra,
de sua resignação e o seu misterioso silêncio,
de seu gesto incontido que em alguma parte se levanta,
de sua fome saciada com o sangue dos massacres.

Eu venho falar do mineiro e sua morte prematura,
de uma vida vivida na penumbra tumular dos socavões,
da silicose escavando dia a dia os pulmões dos operários jovens.
Venho contar das mulheres de Yanuni, Catavi e Siglo Veinte
das palhiris bolivianas com quem falei um dia,
dessas desamparadas viúvas do mineiro massacrado ou soterrado,
que buscam no lixo do estanho,
o pão diário dos seus filhos.
                                                            
Eu não venho cantar o encanto colonial destas cidades,
os altares espanhóis recobertos com o ouro dos Incas,
as grandes praças onde se erguem as estátuas dos libertadores.
Venho cantar as favelas, barriadas e tugúrios,
as povoações calhampas e as vilas-misérias,
Venho denunciar a tuberculose e o frio,
venho em nome dos meninos sem pão e chocolates,
em nome das mães e de suas lágrimas.
Eu venho falar por toda voz que se levanta,
por uma geração reprimida com fuzis,
venho falar das universidades fechadas
e com a marca das tiranias encravada nas paredes.

Eu venho denunciar falsas revoluções
e o oportuno pacifismo,
venho denunciar um tempo de desterros e de torturas,
eu venho alertar sobre um terror que cresce uniformizado
e sobre estes anos em que cada promessa de paz é uma mentira.

Ai América,
eu venho em nome do homem e sua agonia,
em nome de uma infância sem doçura.
E por isso eu venho falar de outra colheita
e de um vale semeado na montanha.
Eu venho anunciar o mel e a espiga
e a terra fértil e doce e repartida.

Ai América,
em nome de uma América americana,
eu venho convocar-te para a luta.
Eu canto para isso, amada minha,
para pronunciar um tempo já chegado entre nós todos,
para dizer-te destes punhos que amadurecem em cada gesto,
e destes rifles que disparam em cada peito.

Ai América,
que longo caminhar!

Rumo ao norte 
ao sul
a leste ou a oeste,
eu avanço atravessando essas nações.

Oh caminhar, caminhar…
e saber sentir-se um caminhante!
Pois é tão triste morrer a cada dia,
morrer com os punhos abertos e o coração vazio.
Morrer distante do homem e sua esperança
morrer indiferente ao mundo que morre
morrer sempre,
morrer pequenamente
quando a vida é um gesto de amor desesperado.

Oh caminhar, caminhar…
mas caminhar como caminha o rio e a semente,
conhecendo a completa plenitude em seu destino.
Oh caminhar!
Caminhar
e saber-se um dia fruto.
Caminhar 
e sentir-se um dia mar.

Ai América,
que não exista a dúvida em meu caminho,
que somente esta paixão de justo me enamore.

Fui prisioneiro,
mas outra vez sou pássaro,
outra vez um caminhante,
e volto a abrir a alma com meu canto.

Hoje me detenho aqui…
levanto minha voz, minha acusação, meu juízo.
Declamo minha bandeira de sonhos,
proclamo minha fé,
recolho meu testemunho e me vou.

Eu sou o jogral maldito
e bem amado.
Meu canto é um grito de combate
e eu não canto por cantar.
Eu parto deixando sempre uma inquietude,
deixando numa senha a certeza de uma aurora.

Eu sou o cantor clandestino e fugitivo,
aquele que ama a solidão imensa dos caminhos.
Passo despercebido de cidade em cidade,
em algum lugar público eu vou dizer meus versos
e ali conheço amigos e inimigos.
Mas sempre pude encontrar o grande companheiro,
o homem novo,
aquele que traz a face da esperança,
aquele que se aproxima em silêncio
e com um gesto inconfundível me saúda.

Ai América, 
que longo caminhar!

Eu venho amada América,
para iluminar com meu canto este caminho.
Trago-te meu sonho imenso, latino e americano
e meu coração descalço e peregrino.
Mas quando sinto meu sangue escorrendo-se nos anos
e a vida se me acabe antes de ver-te amanhecida;
Quando penso que é tão pouco, amada minha,
o que eu posso dar-te em um poema;
Ai, quando penso nessas flores de sangue que murcharam,
nestes iluminados corpos que tombaram,
e que ainda não pude fazer por ti quanto quisera;
Ai, se com o tempo eu descobrir
que este lírico fuzil que empunho não dispara,
ai América…
quem dirá que a intenção que tive foi sincera.

                                       
                                                                             Quito, Agosto de 1970

CORRUPÇÃO por marco aurelio carvalho gonçalves

Se formos mudar as coisas do modo como devem ser mudadas, teremos de fazer coisas que não gostaríamos de fazer.
John F. Kennedy

Quando a corrupção atinge fortemente o poder judiciário e não ocorre investigação ativa e julgamento punição dos agentes de corrupção ativa e passiva, instala-se o regime de governo conhecido como cleptocracia.

Cleptocracia
Historicamente, qualquer que seja sua origem e seu tamanho, os agentes de corrupção política – caso não sejam combatidos pela sociedade – acabam transformando o Estado em uma “cleptocracia” . Esta palavra de origem grega significa literalmente “Estado governado por ladrões”.
A fase “cleptocrática” do Estado ocorre quando a maior parte de sistema público governamental – criado para manter as relações sociais entre as pessoas da nação – já foi capturada pelos agentes corruptos passivos e ativos e funciona agora apenas como uma máquina de extração de renda ilegal.
Quando os agentes de corrupção de um país conseguem atingir esta fase “cleptocrática”, já não há mais a necessidade de apresentar qualquer aparência de honestidade em suas atividades de corrupção. Essas atividades podem ficar totalmente visíveis porque há uma certeza de impunidade. Quando se instaura esta fase, o jogo político já deixa de ser necessário e os cidadãos sem representação tem poucas aletrnativas. Uma delas é o cesarismo, nome que se dá à tomada do poder pela força das armas (um dos exemplos são os golpes de Estado praticados por funcionários públicos militares especialmente nos países da América Latina, da Ásia e da África. Outra saída dos cidadãos é apelar para políticos populistas civis que têm liderança entre os militares e que também fazem uso da força militar para impor regimes ditatoriais. Isto é, ao subverter os processos formais da boa governança, a corrupção faz o governo perder legitimidade e acaba minando a democracia representativa. Isto é, os valores democráticos como confiança e tolerância, aspectos do que economistas como Robert Putnam têm denominado de capital social e que são fatores necessários ao desenvolvimento econômico, são destruídos. Isto preparam o campo para as ditaduras. (Para mais informações sobre capital social veja Putnam, R. Making Democracy Work – Civic Traditions in Modern Italy).
A fase cleptocrática é caracterizada por níveis de impostos extremamente altos (mais de um terço ou níveis tão altos quanto 40% do Produto Interno Bruto chegam a ser extraídos da população em regimes cleptocráticos), desnacionalização da propriedade dos negócios dos principais setores da Economia, altos níveis de desemprego estrutural (acima de 15% da população economicamente ativa). O resultados, em termos sociais, são níveis de violência social altíssimas(o número de assassinatos pode chegar a 20 para cada 100.000 pessoas da população da nação por ano, por exemplo). Outros fatos sociais, demonstrados por taxas de imigração e de de sonegação correspondentemente altas, também mostram os efeitos da corrupção.

Contribuições de campanha e dinheiro de corrupção
A corrupção política implica que as políticas governamentais beneficiam os agentes de corrupção ativa e passiva e não os cidadãos da população geral que pagam os impostos que sustentam a máquina governamental. Um exemplo disso é que os políticos corruptos tendem a promulgar leis que protegem as grandes empresas ao mesmo tempo em que criam dificuldades enormes para a sobrevivência dos pequenos negócios. O que acontece é que esses políticos “favoráveis aos grandes negócios estão devolvendo os favores para as grandes empresas as quais contribuíram pesadamente para suas eleições. Nos Estados Unidos muitos interesses especiais tem sido tão fortemente blindados contra eventuais restrições legislativas que o suborno pode ser considerado um “crime legal”. Para um tratamento mais completo sobre este tema veja corporocracia.
É fácil provar a corrupção, mas é difícil provar que ela não existe. A razão da existência de freqüentes rumores sobre a corrupção de muitos políticos é a dificuldade de provar a ausência de corrupção. Em função de seu trabalho, o de defender um determinado grupo de interesse, geralmente os políticos são colocados na posição comprometedora de solicitar contribuições financeiras para financiar suas campanhas aos constituintes desses grupos de interesse. Freqüentemente, após eleitos, eles precisam agir em defesa dos interesses dos grupos que os financiaram. Mesmo que façam seu trabalho dentro da lei, isto dá início aos boatos sobre corrupção política.
Os defensores dos políticos – não corruptos e corruptos – afirmam que é apenas uma grande coincidência o fato de que muitos políticos pareçam estar agindo em defesa dos interesses dos que financiaram sua eleição e chegada ao poder. No entanto, isto levanta a questão lógica sobre qual é a razão dos grupos de interesse (empresas ou organizações religiosas, por exemplo) financiarem os políticos durante suas eleições se tais grupos de interesse não tem como objetivo obter retornos em troca do valor investido. Qualquer doação de dinheiro sem a devida esperança de retorno vai contra a necessidade de otimização financeira que permite a sobrevivência empresarial ou vai contra a necessidade de obtenção de poder político por parte de outras organizações (como, por exemplo, as organizações religiosas).
Se a legislação permitir que as empresas financiem os políticos que se candidatam a eleições, existe a possibilidade de que estas empresas na verdade estejam comprando antecipadamente desses políticos ações em sua defesa – quando eleitos. Em função deste perigo, a França proibiu totalmente o financiamento dos partidos políticos por empresas. Para evitar a fraude à esta proibição (por exemplo, a empresa aumentando o salário dos executivos e estes repassando o aumento para vos políticos), a França também impôs uma despesa máxima nas campanhas eleitorais mesmo pra doações de pessoas físicas. Candidatos que excederem tais limites ou que apresentarem relatórios de despesas de campanha enganosas e que sejam descobertos são simplesmente declarados derrotados na eleição e perdem o cargo ou são impedidos de concorrerem nas próximas eleições. Na França, o financiamento governamental dos partidos para as eleições é diretamente proporcional ao seu sucesso nas eleições. No entanto, mesmo medidas como estas podem ser consideradas como fontes de corrupção ao favorecerem o status quo político. Políticos de partidos pequenos e independentes argumentam que a tentativa de controlar a influência das contribuições privadas às campanhas eleitorais através de seu financiamento público nada mais fará que proteger os grandes partidos com fundos públicos garantidos e impedindo que fundos privados financiem novos e pequenos partidos concorrentes. Desta maneira, os políticos atualmente no poder estarão legalmente tirando dinheiro dos cofres públicos para garantir que continuem a desfrutar de suas posições influentes e bem pagas.

LEONARDO MEIMES comenta em ESCÂNDALO: MONSANTO NA USP!

Comentário:

LEONARDO MEIMES

 

Esta parceria entre as universidades e interesses privados já se provou controversa nos Estados Unidos. Lá, enquanto ninguém pode confiar na autoridade nacional de regulação dos transgênicos (FDA), uma outra saída para testar esses alimentos seriam os laboratórios das universidades. O que acontece é que essas universidades em sua maioria têm parecerias com as indústrias de biotecnologia e incluem clausulas de sigilo (algo como uma ordem por parte das indústrias dizendo: “estão proibidos de contar qualquer coisa sobre nosso trabalho”.). Neste caso a universidade é obrigada a fazer estudos parciais, sem comprometer o que as industrias de biotecnologia classificam como segredos. Não sei se você percebeu, mas nós estamos na mesma posição agora. Não podemos confiar na CTNbio, que de acordo com Lia Giraldo (membro titular da CTNBio) em carta à Ministra do Meio Ambiente, “está constituída por pessoas com título de doutorado, a maioria especialistas em

biotecnologia e interessados diretamente no seu desenvolvimento”. Além disso, ela diz que “Há poucos especialistas em biossegurança, capazes de avaliar riscos para a saúde e para o meio ambiente” na CTNBio. Não podemos mais confiar em nossas universidades, pois elas estão se envolvendo com “interesses” que são mundialmente conhecidos como danosos. Estamos sem defesa. O que fazer?! O assunto dos transgênicos continua sendo um dos menos conhecidos pela nossa população, que sem saber, come muitos desses alimentos nocivos todos os dias.

 

leia o tema: AQUI

 

COMO a LDB CONCEBE A APRENDIZAGEM por vicente martins

A Lei de Diretrizes e Bases da educação Nacional (LDB), promulgada em 1996, é uma lei emanada do Congresso Nacional. Como lei 9.394/96, deve ser cumprida e respeitada. No entanto, para os educadores, deve ser tomada, também, como uma espécie de livro sagrado e, sendo assim, reverenciada.
  Na Lei da Educação, são muitas as acepções de aprender que podemos depreender a partir da leitura de seus dispositivos legais referentes à educação escolar. 


São estes princípios, indicados abaixo, um importante exemplário de conduta para diretores, professores, pais e alunos e, por isso mesmo, devem nortear, à guisa de um decálogo da boa aprendizagem, às práticas escolares:1. A liberdade de aprender como principio de ensino (Inciso II, art. 3º, LDB): cabe ao educador a tarefa de, no âmbito da instituição escolar, ensinar a aprender, mas respeitar, como princípio, a liberdade de aprender. Só se aprende a aprender, papel fundamental da escola, na sociedade do conhecimento, com espírito de liberalidade, com espírito de liberdade de perceber, conhecer e aprender a ver o mundo com os olhos de um ser livre. Ensinar só tem sentido, no meio escolar, quando a liberdade é guia para a ação de aprender. 

2. A garantia de padrões mínimos de qualidade de ensino para desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem. (Inciso IX, art. 4º, LDB): cabe ao poder público, através dos governos; às famílias, através dos pais e responsáveis e à sociedade, como um todo, ofertar um ensino de qualidade. A qualidade de ensino só pode ser medida sob enfoque da aprendizagem. Não há qualidade de ensino quando o aluno deixa de aprender. Não há aprendizagem sem a garantia, a priori, de que as condições objetivas de aprendizagem estão hoje e serão permanentemente asseguradas: dinheiro direto na escola e gestão democrática de ensino.

3. O zelo pela aprendizagem dos alunos como incumbência dos docentes (Inciso III, art. 13, LDB ): aos docentes, o zelo pela aprendizagem do ensino é, antes de tudo, uma questão de compromisso profissional, ético, e resulta de uma atitude deontológica e ontológica perante seu papel educador na sociedade do conhecimento. Quando o aluno deixa de aprender, por imperícia ou incapacidade pedagógica, a escola perde o sentido de existir. Os alunos vão à escola para aprender a aprender, formar as bases de sua cidadania, para um exercício de co-cidadania, a partir do conhecimento do mundo e dos valores da sociedade.

4. A Flexibilidade para organização da educação básica para atender interesse do processo de aprendizagem (art. 23, LDB): À escola cabe a tarefa de patrocinar todas as formas eficazes de aprendizagem. O que interessa aos pais e agentes educacionais é a aprendizagem dos alunos. 
Se for preciso, deve a escola desmontar a estrutura antiga, mesmo que tenha sido a melhor referência educacional no século anterior. O importante é a escola fazer funcionar o ensino que garanta a aprendizagem dos alunos. A sociedade do conhecimento não se fossiliza mais em modelos, em paradigmas acabados: o paradigma novo, no meio escolar, é o devir, é a mudança constante.

5. A verificação do aprendizado como critério para avanço nos cursos e nas séries (item c, inciso V, art. 24, LDB): Quem aprende a aprender, isto é, passou a ser capaz de aprender com a orientação docente, deve ser incentivado a ir adiante e, seu tempo escolar, deve ser, pois aligeirado ou abreviado. A escola não pode ficar, com o aluno, mais de uma década, engessando seu andar, seu pensar, seu aprender. A escola é meio. A escola não é fim. O fim da escola é a sociedade. O fim da sociedade é humanidade, com toda carga semântica que esta palavra sugere no tempo e no espaço. O fim escolar, pois, é estar bem em convivência, em sociedade. Assim, a aprendizagem vem da interação. O que a escola deve ensinar é a estratégia de interagir, de aprender na socialização de idéias e opiniões, para que o aluno, desde cedo, se prepare para ação no meio social. É a vida social a verdadeira escola de tempo integral.

6. O desenvolvimento da capacidade de aprender, tendo como meios básicos o pleno domínio da leitura, da escrita e do cálculo, como estratégia para objetivar a formação básica do cidadão no ensino fundamental (Inciso I, art. 32, LDB): Ninguém nasce aprendiz, embora todo ser nasça para aprender. A capacidade de aprender deve ser, pois, desenvolvida nos primeiros anos escolares. Para tanto, devem ser definidas, desde logo, nas escolas, as estratégias de aprendizagem que priorizem a leitura, a escrita e o cálculo. O que fazemos na sociedade do conhecimento depende unicamente da leitura, escrita e o cálculo. Por isso, deveriam ser as três únicas disciplinas do currículo escolar. A escola não deve se ocupar de domesticar, isto é, passar a ser, coadjuvante, de um aparelho ideológico do Estado ou da sociedade política, de natureza coercitiva, assim como, historicamente, vem procedendo a Igreja e a Justiça. A escola deve unicamente preparar seus alunos para a vida em sociedade, para a prosperidade material e comunhão entre os homens.

7. O desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, tendo em vista a aquisição de conhecimentos e habilidades e a formação de atitudes e valores para objetivar a formação básica do cidadão no ensino fundamental (Inciso III, ar. 32, LDB): cabe à escola desenvolver estratégias para fortalecer a memória de longo prazo (MLP) dos educandos. A aprendizagem é o assegurar de informações e conhecimentos, por parte do educando, no seu “estoque de informação na memória”. Quem memoriza, pensa mais. Quem pensa mais, aprende mais. Quem aprende mais, emancipa-se mais cedo. O homem só aprende quando é capaz de manipular o que produz, os objetos, as mercadorias e as máquinas. Uma criança que depende de uma simples máquina de calcular para saber quanto é 2 + 2, ou 2 X 2 ou 2 X 9 ou 2 X 2,897 não está preparada para resolver, no mundo, de cabeça, soluções domésticas, cotidianas, imediatas, em interação com outro, que exigem, em ação rápida, uma decisão pronta, às vezes, uma questão de valor para a vida social. Aprender é espécie de gol de placa quando a bola não cai no pé mas na cabeça.

8. A adoção no ensino fundamental o regime de progressão continuada, sem prejuízo da avaliação do processo de ensino-aprendizagem,. (§ 2º, art. 32, LDB): cabe à escola criar as condições de aprendizagem, através de oferta das mais diversas e criativas formas de aprender, e não temer que seja avaliada por métodos inovadores, antigos, ou tradicionais. Por isso, a escola, pensando e agindo bem, fazendo com que seu aluno sempre venha a progredir, deve constantemente atualizar ou mudar seu ritmo de acesso aos saberes, e assim, seus docentes, devem estar atentos para as formas de avaliação que vão se desenhando nas instituições educacionais, não como forma de controle pedagógica, mas como forma de verificar se estar valendo a pena a mudança ou a alteração dos modelos novos instaurados no meio escolar. Mudar é preciso para a garantia da ação de aprender.

9. A garantia às comunidades indígenas da utilização, no ensino fundamental, de processos próprios de aprendizagem. (§ 3º, art. 32, LDB): aos índios e a todos os representantes das minorias, incluindo os pobres e negros, devem ter assegurados critérios justos de avaliação pedagógica. Devemos tratar igualmente a todos por suas diferenças. Isso requer mais trabalho, maior suor dos docentes, mas cumpre um papel importante de eqüidade na sociedade de classes. Quem respeita as minorias, transforma a escola em excelência de eqüidade. 

10. A continuidade do aprender como finalidade do ensino médio para o trabalho e a cidadania do educando (inciso II, art. 35, LDB): quando concluímos a educação básica, devemos ser estimulados a seguir a caminhada rumo à Universidade, instância da educação superior. Lá, somos realfabetizados e descobrimos que aprender é um continuum: aprender é um processo que se dá, inicialmente, no meio escolar, mas perdura, por toda vida, na sociedade. Aprender é como beber água: é bom demais.

 

 

 

Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), em Sobral, Estado do Ceará.

POEMAS BREVES de sara vanegas/Ecuador

como en los viejos tiempos:

tu corazón será enterrado en medio del desierto para que los pájaros recuerden su ruta más allá del mar

 

 

————-                  

 

dunas: oleaje de fuego. aúlla el viento en tus manos resecas

bajo un cielo de vidrio molido y el espanto de la luz

te arrastras entre fantasmas arrugados. oasis imposibles

imploras la noche. allí. de bruces sobre el espejismo del agua

 

vomitando soledad y arena

 

 

—————–             

 

un latigazo de arena acaba por doblegarte. lames ese fuego que te circunda y sabes que has descendido al hueco más oscuro de la noche en pleno día. los buitres se aproximan a tus despojos. en un último intento vomitas el corazón

 

           

—————-

 

río de ojos que surca este paisaje

una palabra apenas se levanta

seca

como vómito de sol

y ciega el río para siempre

 

                       

—————-

 

 

pero es cierto que estamos solos. solos

como el aire roto de una ocarina

o el espejo de un crustáceo en la arena ardiente

estamos solos /luchando con nuestro ángel

 

y así somos

QUASE – poema de mário de sá carneiro

 

Um pouco mais de sol – eu era brasa,
Um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho – ó dor! – quase vivido…

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim – quase a expansão…
Mas na minh’alma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo … e tudo errou…
— Ai a dor de ser — quase, dor sem fim…
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou…

Momentos de alma que,desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ânsias que foram mas que não fixei…

Se me vagueio, encontro só indícios…
Ogivas para o sol — vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios…

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi…

Um pouco mais de sol — e fora brasa,
Um pouco mais de azul — e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

————————————

 

 

 

 

 

 

 

 

o poeta.

QUANDO SETEMBRO CHEGAR poema de ludmila guarçoni

Quando setembro chegar…

Quando setembro chegar o inverno terá acabado e o amanhecer virá me acordar,
apressado.
Não mais haverá folhas secas caídas ao chão, pois as cores, antes tímidas,
voltarão em puro êxtase, bailando num festival deliciosamente provocante.

Quando setembro chegar o sol estará pleno, iluminando os mares do meu mundo.
Uma brisa suave teimará em bater de leve em meu rosto, desajeitando meus cabelos
úmidos e pesados. Um aroma antigo se fará presente, trazendo consigo a quietude
do meu ser.

Quando setembro chegar serei embalada por uma música e por alguns instantes
deixarei de respirar. Em órbita, minha razão terá sido arrancada de mim por algo
que não pretendo explicar.
Teremos tempestade. Ventania.
Um doce fechar de olhos.
Um meio sorriso preso nos lábios.

Quando setembro chegar correrei ao encontro dos sentidos. Ao abrir uma janela
descobriria um novo cheiro, ao escancarar uma porta um novo gosto. Na intimidade
de um toque, desvendaria um olhar.
Uma onda de felicidade atingirá todo meu corpo. Alegria em forma de espuma nos
pés, contentamento em forma de grãos de areia nas mãos. Não haverá nuvens no meu
céu.

Quando setembro chegar eu serei todas as estações do ano…

TRANS/BORDAR poema de bárbara lia

 

Sinto desejo de desaparecer na aragem
Um rosto rima em viagem

Anagrama ao invés de alma ferida.


A poesia era hipótese escondida
Vida – mais que vida -
que engendrou versos da mulher alada

Fluía em mim um rio uma enxurrada
Não me cortava guilhotina afiada
que ora me degola

Ando escondendo versos na gola
Querendo engoli-los com coca-cola
Para não dizer de mim e sem pudor
delatar meu mais sublime amor.

CARTA AO CANDIDATO por alceu sperança

Sr. Candidato:

Sei que não é psicanalista, mas tens alguma idéia do motivo desse meu medo? Tenho pavor dos moreninhos: é só ver um e já fecho a boca do bolso onde está a carteira. Não aperto mais bochecha de criança com medo que a mãe me denuncie por assédio a ela e pedofilia ao rebento. E esse medo de ser roubado? Desconfio do balconista, do vizinho, do carrinheiro de papelão. O motoqueiro me dá tremeliques e aquela menina magérrima de olhos duros e crackentos me faz sentir o inferno em vida.

V. S. poderia me dizer por que não me sinto cidadão em minha própria cidade, mesmo sendo um contumaz pagador de impostos? Olho para a praça tri-iluminada e não posso usar, mesmo sendo um logradouro pelo qual paguei caro, pois se a freqüentar posso ser logrado por um desses mendigos que exercem sem parar o direito de ir e vir. Eles não poderiam só ir e não vir mais? Será que um dia vou poder usar meu direito à cidade e também ir e vir, e quando vir, não encontrar a casa arrombada e vazia?   

Por que, Sr. Candidato, fala-se tanto em gestão democrática da cidade e só meia dúzia decidem, inclusive para rasgar o Plano Diretor, em reuniões de quadrilha? Por que a gente lê em dezenas de programas de governo coisas sobre a “função social” da cidade e da propriedade, e a cidade me atropela a cada atravessar de rua e é mais fácil construir um palacete que uma casinha para favelado?

Por que tenho que pagar mais caro pelo lixo que pelo IPTU? Pelo que sei, o IPTU paga médico e professor, e a taxa do lixo paga só os lixeiros e os donos da empresa. Posso parecer maluco, mas me sentiria melhor pagando mais IPTU do que lixo. E por que o Estado consegue me cobrar mil vezes mais rápido que devolver meu dinheiro em serviços públicos decentes? Por que em Cuba o lotação custa centavos e aqui custa 20, 30 vezes mais, a gente gastando num dia o que lá gasta num mês? Por que estudante tem que pagar lotação, se ele vai estudar justamente para tirar este País do miserê?

Por que a função social daquela igrejinha e da escolinha no acampamento dos sem-terra foi vandalizada por terroristas e a coisa ficou por isso mesmo? De onde brota esse ódio à religião cristã e à educação? Por que nos terrenos abandonados ao matagal não são construídas casas, postos de saúde, escolas profissionalizantes, creches? Por que toda a riqueza gerada pelo agronegócio não é capaz de eliminar as favelas? Por que andam dando tiros em jovens, assustando as crianças, assaltando os idosos, atropelando as velhinhas, trombando os carros, ofendendo-se uns aos outros?

Até pensei em me mudar para a Europa. Meu amigo Zé mandou uma carta dizendo que é difícil e dá paranóia ficar escondido. Lá, ganha três vezes mais do que gasta, enquanto aqui também ficava sempre com três tipos de medo. Pensando bem, Sr. Candidato, aqui também fico escondido, trancado no barraco, paranóico e assustado, sem poder ir e vir, pois se for não sei se volto e, se volto, já me tomaram até o pouco que eu tinha.

Boa eleição e vê se dessa vez, pelo menos, toma tento e cumpre alguma coisa do que prometeu.

 

                        sem crédito. ilustração do site.

 

Rumorejando (O epinício do dever cumprido cantando). – josé zokner (juca)

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I (Balanço e Balancete de Pessoa Física).

Rico sempre tem na coluna “Ativo”: Realizável a Curto e Longo Prazo; pobre, na coluna “Ativo”: quase nada e na coluna “Passivo”: Exigível a Curtíssimo Prazo.

Constatação II

O meu grande amigo e ex-colega do BADEP – Banco de Desenvolvimento do Paraná S.A., Renato Emilio Coimbra, um dia, após ler o jornal, me perguntou o que queria dizer Yom Kipur. –“É o dia do Perdão”, respondi. “Nesse dia, os religiosos vão à sinagoga, a fim de pedir perdão a Deus pelos pecados cometidos durante o ano”. E a pergunta veio rápida: “E chega só um dia?”…

Constatação III

Cada vez que um novo governo assume a liderança do nosso país e novos deputados, senadores e demais são eleitos, tem-se a impressão que o pessoal vem com o intuito de que “agora é a nossa vez”*.

*Fica a critério dos meus prezados leitores a interpretação do que se refere a tal da “nossa vez”…

Constatação IV

E como elucubrava aquele obcecado: “A erectibilidade é tão importante, se não mais, do que a liberdade, igualdade, fraternidade da revolução francesa”.

Constatação V

Não se pode confundir Hong Kong com King Kong, muito embora Hong Kong possua prédio alto, como Nova Iorque, que King Kong podia alcançar, como ficou provado no filme realizado no país que é a maior potência do Planeta.

Constatação VI

E, ainda, não se pode confundir chuncho com funcho, até porque funcho é uma erva aromática que, evidentemente, cheira bem e chuncho sempre envolve determinado tipo de erva que cheira mal, muito mal…

Constatação VII (Perdão, antecipadamente, caros leitores).

Não se pode confundir ocupado com culpado, até porque o cidadão que tenha ocupado o banheiro público, anteriormente às necessidades de quem veio depois, não é culpado pelos apuros eventualmente ocasionados. A recíproca é como é. Tenho espontânea e didaticamente dito.

Constatação VIII (De matemática concernente ao bem-bom).

Dependendo da idade da parceira e da gente mesmo, espelho no teto não resolve o objetivo colimado. Há que se valer dos remédios. Diretamente proporcional, portanto.

Constatação IX

Deu na mídia: “Vítimas de violência sobrecarregam hospitais no país”. Data vênia como diriam nossos juristas, mas Rumorejando acha que as cadeias, nem tanto…

Constatação X (De diálogos repetitivos).

-“Doutor. O senhor não acha que essa minha dor de cabeça pode ser algum tumor que eu tenha na cabeça?”

-“Não. Eu acho que o senhor botou minhoca na cabeça”.

Constatação XI (De diálogos políticos mentirosos [político mentiroso é pleonasmo...]).

-“Deputado. Não tenho lhe visto mais na nossa rua”.

-“É que mudei de casa”.

-“Quer dizer que não somos mais vizinhos?”

-“Ah! Isso não. Gente como vocês serão sempre meus vizinhos, porque morarão, eternamente, junto ao meu coração”.

 Constatação XII

Rico tem lesão parcial do complexo ligamentar lateral do tornozelo esquerdo; pobre, pisa na bola.

Constatação XIII

Errar é humano; perdoar é induzir a pessoa que errou novamente ao erro…

Constatação XIV (De diálogos matrimoniais).

Comentou a paulista pro marido, depois de ouvir o noticiário na televisão:

-“A Polícia apreendeu, em 2007, aqui em São Paulo, mais de 11,5 milhões de produtos falsificados, importados sem nota fiscal. A maior parte, veio da China”.

Disse o marido, sem tirar os olhos da página esportiva, quando o Corinthians estava ameaçado de rebaixamento como de fato veio a acontecer:

-“É. Parece que nisso nós também somos bons. E a China, hein? Anda estourando em matéria de exportação”.

Constatação XV

Não se pode confundir opacidade, que o dicionário Houaiss define como “qualidade, estado ou propriedade do que é opaco; ausência de transparência”, com capacidade, até porque muito deputado e senador que no seu mandato passa numa opacidade total tem a capacidade de faturar uma nota alta, usando o que instituiram ser de direito através dos seus altos proventos – ainda que as custas do povo –, acrescido de outros negócios não necessariamente transparentes. A recíproca não é verdadeira. Tem gente que, com sua elevada capacidade  recebe proventos compatíveis a ela. Como exemplo, os ganhadores de prêmios científicos, literários, artísticos, etc.

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

 

 

 

BLOGS VERSUS LITERATURA por joão paulo cuenca

De quando em vez, os editores dos cadernos de cultura resolvem requentar o tema, quase sempre ao mesmo tempo. É quando repórteres telefonam e, todos, sem nenhuma exceção, me fazem a mesma pergunta: “Blog é literatura?”

Blog, teimo em dizer desde o ano 2000, é apenas um meio de publicação. Uma ferramenta gratuita para disponibilizar material pela internet. Um blog pode conter literatura, mas também receitas de bolo, fotos pornográficas, diários adolescentes ou links para piratear música. Blog é um painel em branco que, ao contrário do que alguns dizem, é apenas um meio – não é mensagem. Ele pode ser um espaço para divulgar certa experimentação literária, como um dia foram as máquinas de mimeógrafo ou os fanzines publicados por estudantes. Mas ainda não há provas de que possa ser forma literária.

(Seria o mesmo que confundir o objeto livro com a literatura em si – especialmente num momento onde cada vez menos livros carregam romances, novelas, contos ou poemas dentro deles.)

Feita essa distinção, fato é que o boom da internet no Brasil e no mundo fez com que cada vez mais a palavra escrita circulasse. Com a internet, ao contrário do que se pensa, passou a se escrever e ler muito mais – e muito mais cedo. Escreve-se em comunicadores instantâneos, escreve-se e-mails, escreve-se textos para o blog, escreve-se comentários no blog dos outros e em notícias de jornal, escreve-se em fórums, escreve-se, até, literatura. Lê-se, também, de tudo.

Inclusive literatura

O uso extensivo dos blogs pelos novos escritores que começaram a ser publicados no início dos anos zero-zero gerou, como não poderia deixar de ser, a tentativa de enquadrar todos no mesmo pelotão estético. A preguiça da crítica literária, não só por aqui, fez com que esses escritores fossem, como certa vez escreveu Joca Reiners Terron, “enfiados de forma tacanha num saco de gatos generacional, ou limitados pela visão da crítica neófita dos blogs”.

Um texto não deveria ser julgado por ter sido publicado num livro, num blog ou numa folha de papel mimeografado. No entanto, é o que ainda se vê. Na confusão entre o meio e a mensagem, que tornou o termo “blogueiro” depreciativo para qualquer escritor, perde, acima de tudo, o leitor. Porque a discussão literatura versus internet é anódina perto do que realmente importa: a vitalidade e variedade da produção literária recente no país, esteja ela em blogs ou não.

Muito mais do que uma marca estética, o que o blog trouxe à literatura foi a possibilidade democrática de cortar intermediários entre o escritor e o leitor, ainda que isso não dispensasse a existência das editoras como alguns apressados apregoaram num primeiro momento. O que aconteceu foi simplesmente a criação de um novo circuito que, em alguns casos, alimentou o mercado editorial.

De qualquer forma, o fator que sempre me parece subestimado quando se fala em blogs e literatura é o do relacionamento entre os escritores. Apesar da distância geográfica, os blogs nos fizeram compartilhar textos e idéias não numa mesa de bar ou numa tertúlia, mas dentro de casa – cada um sentado na frente de um computador. Todos sozinhos, ainda que sozinhos juntos.

João Paulo Cuenca nasceu no Rio de Janeiro em 1978. É autor de Corpo Presente (Planeta, 2003), O Dia Mastroianni (Agir, 2007). Os direitos de adaptação de Corpo Presente foram comprados pela TV Globo.

                                                     sem crédito. ilustração do site.

O SAL DA TERRA por walmor marcellino

ALGUMA COISA COM SAL?

 

De repente, Luiz Inácio decidiu uma reversão: o petróleo já não era nosso porque a Petrobrás vinha sendo privatizada, privatizou-se; e ele então anuncia recriar uma Petrobrás Pré-Sal em nome do povo brasileiro. Esse anúncio afinal seria um prenúncio de “uma virada final” nas parcerias governo/empresas (ditas público/privadas), e no “empreendedorismo na Amazônia e expropriação de reservas naturais: vegetais e minerais? E então não mais continuaremos as privatizações de bens e serviços públicos? Ora viva então!

Podemos então acreditar que as rodovias e ferrovias retornarão à propriedade social como serviços públicos administrados pelo poder público. Aquelas concessões lesivas ao interesse público ou fraudulentas na sua alienação e formatação serão revistas apesar dos arreganhos do Demo? Ou dos ladrares e ganidos do Artur Virgílio, José Agripino Maia, Tasso Gereissati, do manipanço do Piauí e do cachorro vinagre dos pampas?

Devemos esperar que a Vale do Rio Doce, a Rede Ferroviária Federal e as rodovias e ferrovias voltem a seus donos reais, o famoso povo brasileiro? Evoé Baco!, o neoliberalismo pode estar moribundo, pelo menos neste governo! Desde é claro que seja feita a reforma agrária e a tributação das grandes fortunas e primacialmente extinto o superávit primário, que é a maior afronta à nacionalidade carente; e defenestrados o Henrique Meirelles das finanças globais e o Reynhold Stephanes da agiotagem agronegocial com ativos presentes e especulativos futuros às custas do País. E assim a política econômica seja uma economia-política quase-nacional, capitalista um tanto-globalizada porém com progressiva e certa autodeterminação dos nacionais daqui da terra.

Gritemos em uníssono: Apesar do sal da terra, o pré-sal é nosso! Bem… Será

COMÉ QUE FICA MEU PREJUÍZO? conto de marilda confortin

- Me dá um misto frio e um pingado.

 

Encostados no balcão de uma lanchonete da rodoferroviária de Curitiba, Dionísio e Abreu tomam o costumeiro café da manhã.  Trabalham na redondeza  e divertem-se ouvindo trechos de conversas de pessoas desconhecidas que passam pela estação. Quando elas partem, os dois continuam o trecho do diálogo que ouviram, colocando-o no contexto de suas próprias vidas.  

O viajante que pediu o misto frio, dá uma mordida no sanduíche, mastiga, faz uma expressão de quem está experimentando um sabor inesperado e olha intrigado para o lanche.  Toma um gole do pingado, dá uma abocanhada maior, mastiga, mastiga, franze a testa, morde de novo, engole e olha interrogativo para sanduíche esperando uma explicação. Repete isso várias vezes, até restar somente um terço do pão.

 

-    Moça, não tem queijo aqui nesse misto!

 

A garçonete pega o resto do sanduíche que sobrou na mão dele, abre-o e constata que não tem queijo. Mostra para as outras moças. Cochicha no ouvido da amiga, dizendo que talvez o sujeito já tenha comido todo o queijo. Uma delas cheira o sanduíche e confirma que não tem cheiro de queijo. A outra sugere dar uma fatia de queijo para o freguês ficar quieto.

 

-     Não quero uma fatia de queijo. Eu pedi um misto: pão, presunto e queijo.

A moça, tentando evitar discussões constrangedoras, lhe oferece mais um misto frio de graça.

 

-  Não quero outro. Quero esse que pedi. Comé que fica meu prejuízo!

 

Sem saber mais o que fazer, a garçonete chama o gerente e explica a situação. Ele propõe descontar o valor da fatia de queijo. O passageiro com expressão de descontentamento fala: 

 

-   Não quero desconto, já perdi a fome. Quero saber comé que fica meu prejuízo!

 

O gerente, sem saber o que responder para o freguês, tenta acalmá-lo e propõe devolver todo o dinheiro que ele pagara pelo sanduíche.

 

-   Não quero restituição. Não quero dinheiro!  Você não entende? Você não pode me restituir o que eu nunca tive. Você não pode me dar o que não tem. Você não pode fazer nada.  Nada!  Eu só quero saber COMÉ QUE FICA MEU PREJUÍZO! 

 

         Dionísio e Abreu retiraram-se calados. A pergunta do passageiro martelava em suas mentes.  

Como é que fica meu prejuízo? Quem vai nos restituir o apetite depois de enganada a fome?  Como preencher a ausência daquilo que nunca existiu? Como explicar a frustração de algo que nem aconteceu? A quem explicar? Por que explicar? Como cobrar uma dívida de alguém que nem sabe que é devedor? Como consolar quem passou dois terços da vida esperando encontrar a “fatia de queijo”, que nuca existiu? Como ressarcir o tempo, o gosto, a vontade, o prazer? Quem vai nos restituir a vida que tínhamos direito de viver? Quem? Comé que fica meu prejuízo? 

 

COMÉ QUE FICA MEU PREJUÍZO? VOCÊ NÃO ENTENDE?

 

VOCÊS NÃO ENTENDEM?

 

rodoviária. ilustração do site.

GÊNESE da MORTE poema do joão batista do lago

Ó criatura iluminada da minha existência

Vens a mim com tua soberania imaculada (e)

Viajemos pelos túneis diversos dos tempos

Que nos revelam o espaço de novas moradas

 

 

Vens, ó doce criatura, em majestosa carruagem

Traze contigo as jovens filhas do Sol

Para podermos atravessar o mágico portal

Que nos levará à eqüidade voluptuosa do fogo eterno

 

 

Vens e traze contigo o fogo do deus Sol

Para queimarmos nosso tempo invernoso

Para que eu não retorne às casas noturnas

Onde só a escuridão e o sono são companheiros

 

 

Vens, ó santa criatura, e atravessemos os umbrais

Ainda que eles nos queiram impingir as dores

Dores do parto que haveremos de fazer (e assim)

Quebremos os grilhões de amores infaustos

 

 

Vens, ó irmã gémea, vida e morte do meu ser

Filha, como eu, do Oráculo do Saber

Templo que tudo principia – e finda! –

Casa do instante, senhor de toda democracia

 

 

Vens, ó espírito do minha alma,

Viver, não é preciso não!… Morrer toda Necessidade!…

Necessidade do Princípio sem início… sem fim

Sem as correntes que sufocam toda Verdade

 

 

Vens, enfim, ó bela e santa Morte!

Gruda-me ao peito e me carregas ao seio

Quero contigo sorver do vinho da Virtude

Quero contigo embriagar-me nas vinhas da Justiça

HIROSHIMA poema de manoel de andrade

              

Hiroshima, Hiroshima
rosa rubra do oriente
fragrância de cerejeira
céu de anil no sol nascente.

Farol de luz no estuário
remanso dos vendavais
porto e escala dos juncos
roteiro dos samurais.

Verão de quarenta e cinco
no dia seis de agosto.
Clareando as águas do delta
a aurora beija o teu rosto.

Surge o Sol, se abre o dia
na luz e no movimento.
Tudo era paz e alegria
e nenhum pressentimento.

Teus colibris revoavam
no fresco azul dos teus ares
eram os casais, eram os ninhos
carícias, trino e cantares.

O arroz na água e na espiga
talo e seiva a palpitar
os rosais desabrochando
e os girassóis a girar.

Vidas…teu rosto eram vidas
nos campos e nos quintais
nos jardins, na verde relva
na algazarra dos pardais.

Folguedos, danças, cantigas
tua infância sem receios
teus escolares em flor
correndo pelos recreios.

As horas cruzavam o dia
os pais e os filhos na praça
o povo cruzava as ruas
cruzava o céu a desgraça.

De repente nos teus ares
a Águia do Norte, o Falcão
e num segundo, em teus lares,
gritos, fogo, turbilhão.

O beijo carbonizando
a luz devorando o dia
a carne viva queimando
na instantânea agonia.

No céu… um avião se afasta
na voz… a missão cumprida
no chão… a dor que se arrasta
e  a  cidade  destruída. 

Quem eras tu, Hiroshima
naquele dia distante…?
Eras sonhos e  esperanças
incendiados num instante…

Quantos projetos de vida
mil sonhos acalentados
quantas mil juras de amor
nos lábios dos namorados.

Eras  filhote no ninho
eras fruto no pomar                                        
canteiro de brancas rosas                                
e toda a vida a cantar.

Eras mãe, eras criança
e no útero eras semente
ontem eras a esperança
e agora o braseiro ardente

Por que Hiroshima, por quê…?             
o punhal de fogo, a explosão…?           
Por que cem  mil corações
ardendo sem compaixão…?

Tua inocência  cremada
na fogueira do delírio.
Tua imagem retratada
na estampa do martírio.

Teu sangue vive na história
nas cicatrizes ardentes
nas lágrimas,  na memória
na dor dos sobreviventes.

Quem previu tua agonia ?
Quem explodiu tua paz ?
Quem tatuou nos teus  lábios
as palavras: nunca mais!?

Comandantes, comandados…
quem são os donos da guerra…?
e em que tribunal se julgam,
os genocídios da Terra…?

Por tanta dor, rogo a Deus
na minha prece tardia
que guarde no seu amor
os mártires daquele dia.

Hiroshima, flor da vida,
semente, ressurreição.
Fênix, face  renascida.
PAZ, santuário, canção.
                                                                       

Curitiba, agosto de 2005

Este poema consta do livro “CANTARES” publicado por  Escrituras.

      com todos os créditos. ilustração do site.

ESCREVER & EDITAR: O TRIUMPHO DO GUERREIRO – por jairo pereira

O q. nos leva a editar livro de poesia hoje? Amor q. temos ao ofício?! Ato de materialização/exteriorização do ego?! Necessidade de aplauso e amostragem de talento!? Mero exercício de profissionalismo, de quem escreve?! Creio q. tudo isso ao mesmo tempo. Além de reagir o poeta, a um estado de coisas q. o oprime. A poesia não tem o merecido valor. Os editores (vendedores de livros e na acepção plena dessa palavra “livro” cabe todo tipo de lixo subliterário e literesseiro) tão nem aí, com a melhor poesia brasileira contemporânea, editada por conta e risco dos próprios poetas. Muitos vendem o carro, a velha bicicleta & outras tralhas, pra ver seu livro publicado. Comigo, isso cansou de acontecer. Quem sabe, se nada tivesse editado, não amargasse a situação q. vivo hoje?! Bem q. aquele dinheirinho investido ali, no meu, digamos assim, projeto ético-estético-existencial, me quebraria agora aquele galho. Foram sete livros editados de edição do autor, com alguma parceria parcial, num q. outro. Conheci muitos gráficos beberrões e altaneiros. Meu novo livro de poemas Anemoria, pacote de biscoito protonathural, 180 pgs. de pura vertigem, esforço e acidente dos sentidos, jaz na cabeceira da cama, como ser natimorto em sua palidez de ofício 4. Contemplo-o no todo dia, e fico imaginando qual a alma ediográphica a bancá-lo um dia!? Não tenho mais carro, nem bicicleta, nem outras tralhas. Os horizontes são de névoa densa, e nada vejo. Um mecenas pra poesia. Um louco, anárquico em ato, transgressor no mercado ordinathural de livros, é o q. todos esperamos, baixe por aí um dia, e ilumine as trevas. Escrever & editar, publicar: o triumpho do guerreiro. Assim é como vejo a sanha desses poetas insubservientes ao sistemão castrador. Um brinde à imaginação companheiro. Um brinde ao prazer. Logótica, concepção: fazer e mostrar. Fazer e empurrar goela abaixo, ante toda torpeza dos tiranos. A crítica destruidora. As “igrejas poéticas” com seus bispos consagrados, aliados a mídia lacaia, operando a exclusão do talento. Contra tudo isso e mais um pouco os jovens poetas e a poesia lutam, insurgem-se, com as catanas afiadas a dente.  Nem aí estou, com a corja q. sacrifica o talento alheio. Cuidem-se os meninos com os falsos mestres. Em poesia o superlux, está em ti mesmo poeta, teu imaginário, projeção de ser, ideovisão de mundo, etc e tal. Abaixo os diluidores. Afaste de mim Senhor, a forma q. atravessa o tempo e cala no conteúdo do viver/hoje. Maestro de seus ritmos dissolutos, o poeta, impõe sua própria presença (ideophilotética). Entenda como quiser, q. essa tirei do fundo mais fundo da alma. Alma de poeta é thurva. Disso é bom q. todos saibam. Poeta suja e confunde, embaralha as coisas, por mero deleite. O signo trai significante e significado, na busca do outro eu, q. está em outra linguagem/linguagens, e um dizer no tempo, revoluciona todos os modos de ver e apreender as coisas. A poesia deixa de ser ingênua. Abaixo os líricos. O poeta não é mais o otário dos signos. Otário, ante os poderosos. Otário entre editores e livreiros desclassificados. O poeta erigir seu próprio mundo: compra, venda, transações afins, edições, publicações, prêmios, contidos no gesto ecumênico, de reação aos falhos atos dos pulhas. Um mundo poético há de ser erigido, com seu pequeno livro, meu amigo. Seu pequeno volume de poemas, sustenta uma coluna importante, nesse coliseum q. construímos da noite pro dia. Depois, da saída do boteco aquela noite, foi q. deliberamos revolutear o tudo. Linda aquela poeta, na manhã singela, dizendo poemas aos motoristas no sinaleiro. Um caos, o q. o poeta provocou na missa de sétimo dia do terceiro Drummond. Febre, vertigem do dizer e ser dito. Meu cavalo no vendaval. Meu cavalo (eu) meu corpo, oferecido ao tempo e ao vento. É isso menino, de um poema frágil alma lêtrica, enlevar a vida, como pode-se, e deve-se. Q. a força de minhas palavras, arem essas terras secas. Q. a força de tuas palavras, configurem a nova vida. Q. a força de nossa action poétic, invada todos os estádios do conhecimento. Poeta é de saber resistir, resiste a todas as realidades. AMOR é de se ter amor. Amor deixa tudo lindo. Pra ficar bonito, deve se ganhar amor. Amor q. anima e ilumina em amor as coisas e os seres. É de se ter amor, meu filho, minha menina de operações nathurais do viver e amar (POESIA). Um pai merece mais q. dois beijos por dia. Um pai de amor imensurável, convolar vontades de só amar. Amar na palavra q. encanta e ilumina. A poesia veste-se com roupas simples (palavras perdidas no dicionário). Anima e revoluciona o dizer. Tua consciência torpe, refratária à poesia, silencia ante o poder da palavra em estado de graça. No ritmo dessa nova música, um novo poeta se enleva como gram nominador das coisas. Pra q. poesia, se o povo não lê? Pra q. pão se o povo não come? Pra q. revolução dos ditos, se o sol continua o mesmo? Pra q. crescer, vituperar, no mesmo santo lugar? Perguntam os deuses aos seus filhos, das palavras e dos pensamentos. Enganam as imagens, pra um mesmo fim, de exercitar as linguagens. Espiritho santo da poesia, baixe sobre nós, no primeiro evangelho dos tempos novos q. tudo se renova na face dessa terra dura. Meus filhos pastoreiam signos difusos, só por prazer, e outras linguagens nascem de seu viver, estar no mundo. Tá vendo, não consigo manter o pensamento numa só linha. Os empeços, emoções desenfreadas, golpeiam meus ditos no transespaçotempo. Outro texto, a compor um livro, onde botei tudo pra fora, com a ira santa de poeta convulso. Foda Sr. dos Precipícios, com suas ofertas de consumo, dinheiro e poder. Minhas palavras sempre as mesmas, renovadas nas energias cósmicas. Minhas palavras pastoreadas, como vespas límias, dos pântanos (escrever, viver, editar) aos céus da lira entusiasmada. Minhas palavras, minha serventia e meu deus. Carne de minha carne, nervo de meus nervos, vida de minha vida. Onde andam as inaugurações?! Espaços no espaço, das novas gerações?! Onde os princípios alentados do futuro?! Poeta q. é poeta sabe disso: como um mar as linguagens existirem em fluxos/refluxos. Pela primeira vez, enganei-me com meus livros. Enganei, menti pra mim mesmo, q. o q. fiz, sonhei, realizei era poesia. Pela primeira e última vez, não senti os golpes da sorte, os chega-pra-lá dos insanos. Toda loucura-boa, é de ter futuro, construir no tempo. Meu são desiquilíbrio-construtivo. Animar o inanimado. Porfiar, no escuro de noites azeviches. Prata minha espada poética. Não tem futuro a não-convicção dos ditos. Não tem futuro, não expande, não progride… uma alma fleme no mundo. Escrever & editar, o triumpho do guerreiro, sói armado, com suas palavras de luz e sombra. Ninguém nos irá conter, meninos. Este SOL intenso. Este mar aberto em azul. Horizontes de luz extensa. Veredas de poemas, palavras, inscritos na memória, levantes de signos, semeaduras, hígidas inaugurações com os signos. Adiante, poeta, uma luz particular te ofusca. Uma luz um bólido transluzente, incendeia tua alma. Das estrelas longínquas o lux-singular desafia teu talento. Em muitas estrelas passei com minhas variações do dizer. Abduzi sentenças, naquelas espheras cósmicas. Quando peguei a esphera positrônica, q. emitia linguagens raras, em minhas mãos, percebi no Asteróide Azqhiph’tz 8800, a confluência universal das matrizes sígnicas. É dali amigo, q. tudo provém. Tudo emana, em luzes cálidas. Tudo, lança conceitos, atos, projeções, reflexos, de seres e coisas, espectros diluidores de imagens matriciais. E, foi só de colocar minhas mãos ali, tocar as espheras de ditos, detratoras almas contritas, q. assimilei linguagens novas, invasoras de meus ditos. Vou te dar no favo protonathural, menino uma pequena mostra do q. vivo. Vivo bem, com meus conflitos. Penso, logo insisto, persigo a mônada passageira no meu dia de domingo. O pai, meu pai, dispensou-me da marcenaria um dia, porque a serra circular quase me atora as mãos. Naquele exato momento, me nascia o primeiro poema estroncho q. quase me decepa. Lembro até hoje, a circular rangendo seu grito-trabalho, nas tábuas planas. Longos anos de ofício, de mascar pau, destinados a meu pai, q. assim dizia: mascar pau… mascar pau. Sete filhos, pro sustento: seus livros escritos pro futuro. Cada qual com seu ofício. Meu destino, minha fé, meu espaço no tempo do superespaço. O pai me tocou pra fora da oficina, e depois daquele dia, nos irreconhecemos nas pretensões megacósmicas, embora, nos reconhecêssemos em tudo mais q. era aventura de viver e amar a nathureza. Pro pai, o seu louquinho-bom, não iria dar certo nunca. Mas uma grande alegria (pensou) é vê-lo em debate, no viver sem precedentes, vestido de poema para o futuro. O futuro esse pássaro de asas de prata ou carbono, q. dá rasantes vôos sobre as pitangueiras em flor.

Adios minhas almas noctâmbulas, olhares de asco & indiferença, adeus centauros gordos dos gabinetes dos maus espírithos, adeus céu e adeus amar de minha solitude: abandono-me no dentro de um poema em sendo, áspero como uma pinha.

 

 

jAirO pEreIrA

Autor de O antilugar da poesia,

O abduzido e outros.

 

 

 

                                          ilustração do site. 

MPB – UMA EXPRESSÃO AMBÍGUA (IV) – por alberto moby

Aparentemente, é por mera coincidência que, ao mesmo tempo em que os compositores da MPB são empurrados para o hermetismo de canções de difícil compreensão até para o público intelectualizado e admirador da música “universitária”, comece a surgir no país uma preocupação com o resgate da memória musical brasileira. Essa coincidência, no entanto, não seria senão resultado de uma tática cuja estratégia visa à sobrevivência profissional de cantores, compositores (no Brasil, é comum que ambos se encontrem em uma só pessoa, embora não tenhamos, como na língua espanhola, uma palavra – cantautor – para designá-la) e da própria MPB. No entanto, entre o quebra-cabeças e o jogo da memória, “ludicamente”, a indústria fonográfica optaria por ambos. Já nos shows, nem sempre era de trânsito fácil o primeiro. Paralelamente à onda de regravações dos antigos, velhos compositores ainda vivos àquela época e já praticamente esquecidos pelo mercado musical e fonográfico começam a ressurgir: Cartola, Nelson Cavaquinho, Ismael Silva e outros são alçados de seu quase total ostracismo para “reiluminar” o cenário musical brasileiro. O ressurgimento dessas “vozes que nos chegam do passado”, para usarmos uma expressão, ainda que impropriamente, de Phillipe Joutard[1] , parece estar mais ligado à invenção de uma tradição, nos termos em que Eric Hobsbawm a utiliza[2] do que a uma coincidência. Hobsbawm lembra que “inventam-se novas tradições quando ocorrem transformações suficientemente amplas e rápidas tanto do lado da demanda quanto da oferta”[3] . Ele afirma ainda que as tradições inventadas podem ser de três tipos: as que estabelecem ou simbolizam a coesão social ou as condições de admissão de um grupo ou de comunidades reais ou artificiais; as que estabelecem ou legitimam instituições, status ou relações de autoridade; ou as que têm como objetivo a socialização, a inculcação de idéias, sistemas de valores e padrões de comportamento[4].

Dado o quadro que tentei traçar acima, parece que a invenção da tradição no sentido da reincorporação de compositores mais antigos no cenário musical dos anos 70, seja resgatando os ainda vivos, seja através da regravação de antigos sucessos na voz de cantores novos, tinha como objetivo, além de produzir condições de coesão social – principalmente entre o público ouvinte das grandes cidades, de classe média e nível universitário – na luta contra a ditadura militar, tam-bém ocupar uma lacuna criada pela forte censura às letras de canções que fez com que caísse tanto em termos quantitativos quanto em qualidade (apesar dos defensores descabelados da qualidade intrínseca do texto musical sob censura) o padrão da MPB em relação à década anterior.
O cantor, talvez mais nesse momento do que em qualquer outro, é, sem dúvida, um agente da memória. Movidos talvez não apenas péla necessidade de furar o bloqueio da Censura, mas também pelo sentimento de que era necessário resgatar do passado uma tradição de beleza e criatividade da MPB, ou ainda pelo desejo de implodir, através de um discurso produzido pelos que já não faziam parte do presente – e, portanto, praticamente imunes à tesoura da Censura -, o bloqueio do discurso interdito, os cantores dos anos 70 viam no repertório de compositores de outras décadas uma opção bastante eficaz. Não é por outra razão que o compositor, mas também (e principalmente, nesse momento) cantor Paulinho da Viola declara à revista Veja, a respeito de seu disco Nervos de aço, de fins de 1973: “O disco ficou meio nostálgico porque a gente acaba se voltando para uma época onde as coisas eram melhores, mais abertas”[5].

Ironicamente, Paulinho da Viola consolidaria seu repertório de cantor gravando, ao lado de composições suas e de parceiros, canções de compositores como Ismael Silva e Wilson Batista, que também viveram período de censura rigorosíssima, mesmo que de caráter bastante diverso.

A onda de nostalgia era reconhecida até pela imprensa da época. Embora fosse “presença inevitável nos discos de cantores de prestígio no Brasil”[6], a revista Veja chamava a atenção para o fato e que “impacto brusco de um vagalhão e a extensão de uma epidemia, a nostalgia, que já foi até capa de revista, invadiu também o mercado musical”[7], apontando para estratégias semelhantes talvez em outras manifestações culturais do país. E continua: “Regravam-se canções que o mais ferrenho colecionador tinha esquecido”[8]. Só em 1973 foram lançados, entre outros, os discos Elis, de Elis Regina, Nervos de aço, de Paulinho da Viola, Caminhada, de Marília Medalha, Canto por um novo dia, de Beth Carvalho, Alaíde Costa & Oscar Castro Neves, todos contendo duas canções de compositores antigos cada um.

Ao mesmo tempo, shows como o da ex-“jovem-guarda” Wanderléa (Maravilhosa, no Teatro Tereza Raquel, em fevereiro) traziam em sua maioria sucessos dos anos 40 e 50[9], como também foi o caso do show Drama, de Maria Bethânia, em outubro.

Ao mesmo tempo, cantores/compositores praticamente esquecidos voltavam à cena musical. É o caso, por exemplo, do cantor e compositor Synval Silva que, aos 61 anos de idade, gravava o seu primeiro LP, de Lupiscínio Rodrigues, que aos 55 anos gravava o LP Dor de cotovelo, depois de 21 anos sem gravar, e de Moreira da Silva (dois LPs, por gravadoras diferentes, no mesmo mês – novembro de 1973), com 71 anos de idade. Além disso, cantores/compositores não tão antigos no cenário musical brasileiro, mas com obras relativamente consolidadas, gravaram também discos retrospectivos, como Zé Kétti (um LP e um compacto simples) e Jorge Ben (LP com pout pourris contendo 21 de suas canções lançadas nos anos 60).

No ano seguinte, o quadro não se modificaria. O LP Aprender a nadar, de Jards Macalé, lançado em maio, continha nada menos que seis composições já consagradas de compositores antigos. Aliás, o próprio título do LP, se estou certo, era já sintomático, numa época em que a censura “afogava” a criatividade desse e de vários outros compositores. O LP Temporada de verão, com Caetano Veloso, Gal Costa e Gilberto Gil, continha também três canções antigas, cada um dos cantores interpretando uma delas. Elis Regina, que no disco anterior já comparecia com canções de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, da velha-guarda da Escola de Samba Mangueira, e de Pedro Caetano (É com esse que eu vou, lançada no ano de 1948 pelos Quatro Ases e Um Curinga)[10], em 1974 grava um LP retrospectivo da obra de Tom Jobim. Aliás, outra cantora, também em 1974, gravava LP retrospectivo de Tom Jobim: Eliseth Cardoso. São também daquele ano discos de Cartola e de Adoniram Barbosa, representantes do que o jornal Opinião chamava de “bloco de discos-documentário, um inventário de uma cultura que parece estratificada” em meio a uma “coleção que documenta o folclore do centro-sul, discos de cantores, repentistas e outros ativos exemplos de cultura popular não intelectualizada”, o que leva o articulista a perguntar, ironicamente: “Teria a música popular brasileira parado de pensar?”[11]
Fosse qual fosse a resposta – e o Opinião sabia certamente qual era –, a verdade é que crescia o número de cantores (independentemente de serem também compositores), como é o caso de Paulinho da Viola e, particularmente, de Chico Buarque, com o LP Sinal fechado, apenas com canções de outros compositores, quase todos antigos (à exceção de uma, Chame o ladrão, que Chico atribuía à dupla fictícia Julinho de Adelaide e Leonel Paiva), que incorporavam a seus repertórios de discos e apresentações em público os nomes consagrados da música popular brasileira. Esse movimento, que continuou forte até meados dos anos 80 e que ainda sobrevive no mercado musical brasileiro, além de haver inventado a tradição de se incorporar aos discos e shows compositores antigos do chamado “cancioneiro popular”, foi ainda o responsável por outra invenção mais sutil: a de que a MPB – na verdade um segmento da música popular brasileira ligado à classe média, intelectualizada, universitária, como tentei demonstrar – era a herdeira legítima e exclusiva dos compositores populares surgidos nos cerca de 40 anos compreendidos entre as décadas de 1920 e 1960.

É importante lembrar, com Pierre Nora: “Porque é afetiva e mágica, a memória não se acomoda a detalhes que a confortam; ela se alimenta de lembranças vagas, telescópicas, globais ou flutuantes, particulares ou simbólicas, sensível a todas as transferências, cenas, censura ou projeções”[12].

Ao cruzarmos a observação de Nora com a de Hobsbawm sobre as tradições inventadas, teremos claramente o surgimento de um movimento, ainda que não planejado – já que as tradições inventadas “são reações a situações novas que ou assumem a forma de referência a situações anteriores, ou estabelecem seu próprio passado através da repetição quase que obrigatória”[13] –, cujo principal objetivo é o combate ou, no mínimo, a resistência dos cantores à ditadura militar.

Obviamente, a indústria cultural (fonográfica, de espetáculos, rádio, TV, etc.) soube tirar proveito da nova situação, perpetuando-a praticamente até os dias de hoje.

De qualquer forma, a estratégia parece ter tido os resultados esperados. Cantores como Gal Costa, Maria Bethânia e Elis Regina, por exemplo, ou Ney Matogrosso, Simone, a partir dos anos imediatamente posteriores a 1973-74, tiveram suas carreiras consolidadas devido, em grande parte, a essa estratégia. Ao inventarem a tradição de uma MPB herdeira de uma música popular rica e criativa – uma verdade, mas pela metade – os intérpretes dos anos 70 parecem ter se esquecido (porque a memória é seletiva…), não se sabe até que ponto propositalmente, que em outros períodos, com ênfase para o Estado Novo, a música popular, também sob censura, teve que se adequar às regras do jogo – e quase nunca pela via da resistência. E aí a invenção da tradição, dialeticamente, transforma em elemento de sua estratégia de combate o que antes pôde estar vinculado à capitulação ante a própria Censura.

A invenção dessa tradição foi algo tão importante que, além de demarcar, no mercado, o segmento MPB, na luta contra o regime, um grupo significativo de cantores e compositores identificados com a classe média urbana intelectualizada, conseguiu consolidar-se como representação do real que até hoje é aceita e reproduzida pelos grupos sociais urbanos brasileiros. Em 1991, quando de sua estréia tardia como cantor, aos 44 anos, o compositor Péricles Cavalcanti, autor de vários sucessos gravados por Gal Costa, Caetano Veloso, Miúcha, Fafá de Belém e outros, afirmava, com convicção, no samba Dos prazeres das canções: “Eu sou um mero sucessor/a minha estirpe sempre esteve/ao seu dispor”, citando na canção “Herivelto [Martins], [Dorival] Caymmi, Sinhô, [Assis] Valente, [Wilson] Batista, Noel [Rosa] e Heitor [dos Prazeres]”. Segundo Tárik de Souza, autor de uma resenha do disco para o Jornal do Brasil[14], “a linha evolutiva” retomava “o fio da meada”…

É claro que todas estas reflexões foram construídas apenas sobre indícios. “Quando as causas não são reproduzíveis, só resta inferi-las a partir dos efeitos”[15]. É praticamente impossível sabermos com certeza até aonde ia a estratégia deliberada, até aonde se configurava um processo meramente intuitivo. De qualquer forma, até mesmo a intuição é social e histórica. Não existe consciência solta no espaço e no tempo. “A consciência adquire forma e existência nos signos criados por um grupo organizado no curso de suas relações sociais”[16]. Assim, guio-me apenas por algumas poucas entrevistas em que alguns cantores foram instados a explicar suas escolhas de repertório baseadas em compositores tradicionais do cancioneiro popular brasileiro, ou nos “sinais” fornecidos pelo próprio material gravado ou apresentado nos shows realizados naquele período. Nesse sentido, parece-me que o depoimento mais significativo a esse respeito foi o de Elis Regina, nas “páginas amarelas” da revista Veja, em 01/05/1974. Na entrevista, Elis é questionada sobre a validade/necessidade de apoiar-se em Tom Jobim para realizar um disco, ao que responde:

Veja bem, para não fazer uma retrospectiva convencional, eu só rinha duas saídas. Apoiar a LP na obra de um compositor como o Tom, pois o Chico, Caetano e Edu Lobo, por exemplo, começaram comigo. Ou tentar fazer um trabalho baseado em gente nova. Lamentavelmente, porém, por uma série de razões, algumas delas muito conhecidas, nos últimos anos um imenso vazio vem sufocando a música brasileira. A partir dessa triste constatação, estou procurando coisas antigas que possam ser apresentadas, com arranjos de agora, como se fossem atuais ou mesmo inéditas. Redescobrindo Ary Barroso, por exemplo. Não se trata de nostalgia. Há músicas que duram séculos e não são superadas.[17]

Nessa entrevista, três pontos me parecem fundamentais: 1) há razões conhecidas, ainda que não ditas, para um “imenso vazio” na música popular brasileira; 2) Elis fala em redescobrir Ary Barroso, embora a entrevista trate de uma retrospectiva baseada em Tom Jobim, demonstrando uma preocupação mais geral da cantora com um repertório de outros tempos; 3) Elis não admite que sua escolha seja nostálgica, apontando mais (como eu defendo) para uma estratégia de resistência.

No final de 1974, o então ministro da Educação e Cultura, Ney Braga, “ingenuamente” recomendava ao Departamento de Assuntos Culturais, órgão do MEC, iniciar “uma sondagem entre compositores, pesquisadores e órgãos de produção e divulgação a fim de descobrir as causas da aparente decadência da música popular brasileira e, se possível saná-las”, a propósito de que a jornalista Ana Maria Bahiana retruca: “Quanto ao processo criativo propriamente dito, o ministro por certo não ignora que o cerceamento constante e sistemático da expressão artística não pode trazer nenhum proveito à evolução da vida musical brasileira”[18].

A preocupação de Ney Braga com a “decadência” da música popular brasileira não era exclusivamente sua. Tampouco se referia exclusivamente à música popular. E resultaria na primeira tentativa “séria”, durante o regime militar, a partir do governo Geisel, de contrapor ao rigor da Censura a utilização da cultura como um espaço para a construção de um projeto de hegemonia[19]. Roberto Schwarz apontava, ainda em 1969, que, “apesar da ditadura de direita, há relativa hegemonia cultural da esquerda no país”[20]. A essa hegemonia cultural, o Estado iria contrapor, em 1973, através do então ministro Jarbas Passarinho, o documento Diretrizes para uma Política Nacional de Cultura, que após a sua divulgação foi “misteriosamente” retirado de circulação, demonstrando, ao que parece, não ser aquele ainda o momento. Só em 1975, como resultado da “sondagem” do novo ministro, aparece o documento Política Nacional de Cultura, preparado sob a coordenação de Afonso Arinos de Melo Franco[21]. Mas aí já estamos falando da “distensão lenta, gradual e segura” de Geisel, primórdios de sinais de esgotamento do modelo militar.

O importante é destacar que: a) a expressão MPB não se refere a toda e qualquer manifestação da música popular brasileira, mas à música urbana, produzida e consumida prioritariamente pela classe média intelectualizada; b) diante do rigor do regime militar, cujo auge ocorreu entre 1973 e 1974, a invenção dessa tradição na música popular brasileira pode ter contribuído para que cantores e compositores, paralelamente à luta pela liberalização do regime, sobrevivessem minimamente sem a necessidade de capitulação frente ao autoritarismo, contribuindo, talvez, com sua resistência, para os tímidos passos que, nos anos posteriores, o Estado daria nesse sentido; c) que, contrariamente ao Estado Novo, no período do regime militar estudado nunca houve, efetivamente, uma política de capitalizar as manifestações culturais para seu projeto de hegemonia, nem através da AERP, no governo Médici, nem através do SCDP da Polícia Federal[22], tendo a censura papel apenas silenciador, ao contrário do DIP, responsável principalmente pela propaganda do regime de Vargas.


[1] JOUTARD, Phillipe. Esas voces que nos llegan del pasado. Trad. Nora Pasternac. México: Fondo de Cultura Económica, 1986.

[2] HOBSBAWM, Eric J. “A invenção das tradições”. In: HOBSBAWM, Eric J. & RANGER, Terence. A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.

[3] Idem, p. 13.

[4] Idem, p. 17.

[5] “Comprimido”. Veja, 03/10/1973, p. 92.

[6] “Afinada frieza”. Veja, 08/08/1973, p. 84.

[7] “Naquele tempo…” Veja, 23/05/1973, p. 74.

[8] Ibidem.

[9] Cf. “Para entendidos”. Veja, 07/02/1973, p. 74.

[10] CAETANO, Pedro. Meio século de música popular brasileira: o que fiz, o que vi. Rio de Janeiro: Vida Doméstica, 1984, p. 64.

[11] “Pensamento em crise”. Opinião, n. 92, p. 18, 12/08/1974.

[12] NORA, Pierre Nora. “Entre memória e história: a problemática dos lugares”. Trad. Yara Aun Khoury. Projeto História, São Paulo, n. 10, dez. 1993, p. 7.

[13] HOBSBAWM, “A invenção das tradições”, cit., p. 10.

[14] “Um tropicalista sai dos sombras com 14 ‘canções’”. Jornal do Brasil – Caderno B, 18/08/1991, p. 2.

[15] GINSBURG, Carlo. “Sinais – raízes de um paradigma indiciário”. In: GINSBURG, Mitos, emblemas, sinais, cit., p. 169.

[16] BAKHTIN, Mikhail Bakhtin. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1988, p. 35.

[17] “Quero apenas cantar”. Veja, 01/05/1974, p. 6. Grifos meus.

[18] BAHIANA, Ana Maria. “O ministro e a música”. Opinião, n. 111, p. 20, 20/12/1974.

[19] OLIVEN, Ruben George. “A relação Estado e cultura no Brasil: cortes ou continuidade?” In: MICELI, Sergio (org.). Estado e cultura no Brasil. São Paulo: DIFEL, 1984, p. 51.

[20] COHN, Gabriel. “A concepção oficial da política cultural nos anos 70”. In: MICELI (org.). Estado e cultura no Brasil, cit. p. 88.

[21] Idem, p. 92.

[22] Foram raras as tentativas de cooptação de compositores de que se tem notícia. Mesmo assim, não eram bem recebidas. Em 1971, por exemplo, Chico Buarque desautorizou o governo a utilizar A banda como peça de propaganda oficial, sobre o Dia do Reservista, do Estado-Maior das Forças Armadas, o que lhe valeu, certamente, o acirramento da perseguição da Censura que o compositor iria amargar por toda a década de 1970. Sobre isso, ver “Chico põe nossa música na linha”. Realidade, v. 6, n. 71, p. 78-20, fev. 1972, e “Gente”. Veja, 22/12/71, p. 35.

                  sem credito. ilustração do site. raíssa oliveira.

AS MUITAS VIDAS DE ANNA AKHAMÁTOVA por affonso romano de sant’anna

Anna, a Voz da Rússia – Vida e Obra de Anna Akhmátova (Algol Editora) é o produto  de uma paixão literária  que dura já quatro décadas, surgida quando Lauro Machado Coelho aos dezoito anos adolescia em Belo Horizonte. Mas, sendo obra de  “amante”,  não é coisa de “amador”. Anteriormente, Lauro havia publicado Akhmátova: Poesia 1912-1964 (L&PM, 1991), uma antologia daquela que foi qualificada, pela também poeta   Marina Tsvietáieva, como “Anna de todas as Rússias”.  E, recentemente, ele nos deu a reveladora Poesia Soviética (Algol, 2007), cerca de 600 páginas com uma série de poemas  de autores desconhecidos do grande público, e por ele traduzidos diretamente do russo.

Anna, a Voz da Rússia é não só uma monumental biografia, mas uma requintada façanha editorial, com a capa e    gravuras em preto e branco de Klara Kaiser Mori, um dossiê de fotos sobre a poeta  e seu tempo, a partitura de uma composição de Gilberto Mendes sobre um dos poemas de Anna e um CD com  a voz da poeta e poemas  declamados em português por Beatriz Segal. E, no momento em que este livro está sendo lançado, o compositor Rodolfo Coelho de Souza está terminando a partitura do monodrama Visita  Noturna para a Senhora Akhmátova, cujo libreto foi escrito para ele por Lauro. Ocorre assim a confluência do trabalho do Lauro Machado Coelho tradutor com o do crítico e historiador de música, que tem-nos dado uma enciclopédica História da Ópera  em vários volumes. Mais do que um livro esta edição é um acontecimento.

 

VIDAS E SOBREVIDA

 

             Quantas vidas cabem numa vida? Na de Anna Akhmátova, pelo menos três. Há uma primeira Anna, feliz na infância e parte da juventude. É aquela que vivia  em Pávloski e depois em Tsárskoie Seló, a “aldeia do tsar”, onde  o  arquiteto italiano Rastrelli  erguera,  para Catarina a Grande, um esplêndido palácio.  Ali, ela passeava nos bosques, visitava a coleção de arte do Museu Alexandre III, assistia a concertos e vivia como uma moça culta e bem educada. Aos 13 anos, descobriu a poesia de Aleksandr  Blok, mas quando escreveu seus primeiros versos, o pai advertiu: “Vê se, pelo menos, não envergonha o nome da família”.

            Não envergonhou. Essa descendente longínqua do clã da “Horda Dourada” do Grande Cã conheceria a glória em vida, e compartilharia sua dramática vida  com uma geração de artistas excepcionais como Erenbúrg, Khlébnikov, Maiakóvski, Mandelshtám, Shostakóvitch, Isaac Bábel, Pasternák, Prokófiev, Anna Pávlova, Nijínski, Modigliani. E Iósif Bródski, o Nobel de 1987, cujo talento ela estimulou desde o princípio, foi o encarregado de  escolher onde seria sua sepultura, quando ela morreu, em 1965.

            Enquanto ia se transformando em  um  ícone da poesia russa moderna, Anna experimentou, na carne e no espírito, os círculos dantescos do inferno stalinista, acrescidos do inferno hitlerista. Sua vida sofreria uma abrupta transformação: “Eu como um rio,/fui desviada por esses duros tempos./Deram-me uma vida interina./E ela pôs-se a fluir num curso diferente, /passando pela minha outra vida/ e eu já não reconhecia mais as minhas margens.”

 

            Assim é que o seu biógrafo brasileiro rastreia pormenorizadamente a trajetória da segunda vida de Anna Akhmátova, desde a eclosão da Revolução de 1917, até a implantação dos “gulags” siberianos, à resistência durante o cerco nazista de Leningrado, ao horror da repressão durante a Guerra Fria até que, a partir de 1956, Khrushtchóv iniciasse a abertura que só se consumaria quarenta anos mais tarde.

            Essa é, por consequência, também a Anna de todos os dramas e tragédias. Seu marido, o poeta Gumilióv, foi preso e fuzilado; o filho, Liev, mandado para a Sibéria, enquanto ela era acusada pelos stalinistas de  fazer ” uma poesia  prejudicial e alheia aos interesses do povo” . Expulsa da União de Escritores, ora acometida de tifo, ora  vítima de tuberculose, sendo a “tricentésima da fila” para visitar o filho na cadeia, vendo seus amigos escritores se suicidarem e desaparecerem, mesmo assim, durante o cerco hitlerista a Leningrado, ela lia diariamente, na rádio, poemas que ajudavam a manter o ânimo dos resistentes.  Poderia ter, como outros, abandonado seu país, mas preferiu resistir: “Não , não foi sob um céu estrangeiro,/ nem ao abrigo de asas estrangeiras – eu estava bem no meio de meu povo,/ lá onde o meu povo infelizmente estava”.

            Inacreditáveis e aviltantes  tempos aqueles  em que, “até 1938,  10% da população masculina da URSS foi executada”.  Tempos em que, por causa da morte de uma personalidade como Serguêi Kírov, 40 mil foram deportados, 400 mil se  suicidaram e, só no ano de  1934,  houve 6.501 fuzilamentos: “Esta terra russa gosta,/ gosta do gosto de sangue”.

            Por causa  dessas tragédias, introduz-se na literatura russa um personagem que Akhmátova chama de “o viajante aleijado”, uma metáfora de todos os destroçados pelo  regime comunista e pelas guerras, discursando  melancolicamente sobre os sofrimentos do país, como se fosse um  irremissível ” velho do Restelo” da tradição lusa.

            A poesia de Anna está tão pontuada pela morte quanto pelo amor. Em sua vida tempestuosa, ela casou-se várias vezes e teve trocas afetivas e amorosas com Gumilióv, Modigliani, Nikolái Niedobrovô, Borís Anrep, Shilêiko, Luriê, Púnin, Isaiah Berlin.

            A terceira vida de Anna Akhmátova começa a surgir com o degelo, após a morte de Stalin. Suas obras interditadas começariam a ser republicadas e ela pôde viver numa pequena “dátcha”. Começando a ser reconhecida no exterior, acabou recebendo o  Prêmio Etna Taormina (1960), o título de  doutora “Honoris Causa” pela Universidade de Oxford (1965) e a Unesco decretou 1989 como “o  Ano  Akhmátova”.  Nessa época, os astrônomos russos deram seu nome a uma estrela recém descoberta.

           

ESTRATÉGIAS DA TRADUÇÃO

 

            Lauro Machado Coelho optou por fazer uma biografia em que os fatos e os poemas se explicam e se complementam . Pode-se dizer que é, ao mesmo tempo, uma biografia antológica  e uma antologia biográfica. É uma opção que afasta o vezo formalista que tem afetado tantas vezes a tradução de autores russos para o português. Até porque Akhmátova pertencia ao grupo de poetas de São Petersburgo chamado de  acmeistas, que achavam imprescindível dialogar com a tradição e  não exercitavam o furor vanguardista do grupo de Moscou, a que pertenciam poetas como Maiakóvski e Khlébnikov, siderados pela velocidade das máquinas conforme a ideologia futurista.

 Em Anna Akhmátova, poesia e vida são uma só unidade. Como disse Mandelshtám, antes de ser eliminado pelo regime comunista: “Não sei como é em outros lugares, mas aqui, neste país, a poesia é algo que cura e devolve a vida…Aqui pode-se matar as pessoas por causa da poesia”. 

            Contextualizando os poemas, o biógrafo também recompõe a trágica história dos intelectuais russos no século 20, e nos obriga a repensar a obnubilação ideológica, que fez com que  muitos intelectuais no Ocidente, em sua ingenuidade e alucinação,  fingissem desconhecer o holocausto atrás da “Cortina de Ferro”, mesmo quando, a partir dos anos 30, tornou-se pública e  evidente a política de terror.

            Traduzir é sempre um problema que se procura enfrentar de formas diversas. Há quem queira pretensiosamente recriar e melhorar o original, e  há quem queira ser fiel e transparente ao primeiro texto. No presente caso, o tradutor e biógrafo desobrigou-se de preservar  rimas e métricas que lembrassem o original russo, mas disponibiliza para o leitor o texto original em sua versão fonética.  Cuidou de guarnecer o livro com “anexos” que trazem dados biográficos sobre alguns homens importantes na vida de Anna.

            Em seu acurado trabalho,  Lauro Machado Coelho aceitou o desafio  de fazer um comentário detalhado do longo e  difícil Poema sem Herói de Akhmátova, texto hermético, definido pela autora como mascarada arlequinal  e fantástica,  ocorrida na São Petersburgo de 1913.

            Hoje, quando alguns se espostejam na chamada pós-modernidade, rejubilando-se com a ideologia dominante, é  relevante lembrar  uma poeta da resistência. Nesse sentido, o romancista Valientin Fadêiev escreveria a um comissário do povo, rogando que amenizassem os sofrimentos  da poeta, pois “apesar da incompatibilidade de seu talento com o nosso  tempo, ela permanece a maior poeta da era pré-revolucionária”.

            É isso: para o artista autêntico sempre há uma incompatibilidade entre seu talento e seu tempo.

(*) Poeta, professor, ensaista autor de “Barroco, do quadrado  à elipse” e “Drummond, o gauche no tempo”

 

RETIRANTE poema de zuleika dos reis

Impossível descer mais

morrer mais

debaixo deste Sol

debaixo deste Azul.

 

Retirante secando

sob os sepultados sonhos.

Sob os olhos sucessão

de ossos sobre os campos

tão secos, sob o Sol só olho.

 

Impossível morrer mais

sob estas gretas

esconderijo

de bichos esturricados,

companheiros de tumba.

 

Retirante. Só mais uma

entre os infinitos

fugitivos cada qual

de um Sol diverso

os pés nus sobre os campos gretados

sob os campos minados de si mesmos.

 

Apenas mais uma quase sem lembranças

de pretéritos céus de águas

do que águas possam ser.

A TORTURA é a VERDADEIRA herança MALDITA – por elio gaspari

O ministro da Justiça, Tarso Genro, teve a sua hora como guardião dos direitos humanos e amarelou. Em agosto do ano passado ele deportou os boxeadores cubanos Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, que abandonaram a delegação do seu país durante os jogos do Pan.

Rigondeaux, bicampeão olímpico, foi excluído da equipe enviada Pequim. Erislandy fugiu de novo, está na Alemanha e de lá informou:

“Não tivemos nenhum apoio e, sem ninguém para contactar, fomos obrigados a pedir para voltar para Cuba”.

Há algo de oportunismo e de caça ao evento na auto-investidura do comissário Genro como perseguidor de torturadores. Sua estatura como ocupante da cadeira onde sentou-se Diogo Feijó (1831-1832) cabe numa frase dita por ele: “O presidente pode dar um puxão de orelha em qualquer ministro. Isso é da sua competência, mas eu não levei puxão de orelha.” Mesmo assim, Tarso Genro esteve certo em relação aos torturadores.

A tortura foi uma política de Estado durante a ditadura, particularmente entre 1969 e 1977. Como disse o general Vicente de Paulo Dale Coutinho às vesperas de assumir o Ministério do Exército, em 1974: “Ah, o negócio melhorou muito. Agora, melhorou, aqui entre nós, quando começamos a matar.” Como reconheceu um estudo do Centro de Informações do Exército, praticaram-se “ações que qualquer justiça do mundo qualificaria de crime”. Os torturadores cumpriam determinações de seus superiores. Prova disso foi a concessão da Medalha do Pacificador ao delegado Sérgio Fleury, ícone do Esquadrão da Morte e do porão paulista.

A história segundo a qual a tortura e a prática sistemática de assassinatos foi produto de excessos, indisciplina ou deformação moral de subalternos é uma patranha destinada a polir a biografia dos comandantes militares e dos presidentes da República da ocasião.

Se a família de uma vítima da máquina repressiva dos generais, almirantes e brigadeiros, vai à Justiça em busca da responsabilização dos oficiais que comandavam o porão, esse é seu direito. Caberá ao Judiciário decidir se a anistia ampara a outra parte. Pena que fiquem de fora os finados comandantes que mandaram capitães e majores torturar e matar brasileiros.

Há um aspecto relevante nesse debate. É a postura dos atuais comandantes diante da herança maldita da ditadura. Em vez de exorcizá-la, reconhecendo um erro cometido há mais de trinta anos, cavam duas trincheiras. Uma é a do debate inoportuno. Outra é a da negativa da responsabilidade dos hierarcas. Ambas são falsas e o debate é necessário. O desconforto e irritação dos comandantes militares com a tortura é o único tema dos anos 60 e 70 que não desaparece da agenda política nacional. O país já se livrou da inflação e da Telerj, mas a sombra soberba dos DOI-Codi continua aí.

Algo como se o doutor Henrique Meirelles fosse obrigado, hoje, a defender a inflação dos seus antecessores remotos no Banco Central.

Quem vive preso ao passado não são os órfãos do DOI, são os protetores de sua memória.

Os comandantes militares carregam na mochila crimes alheios. (A tortura, assim como o seqüestro, pode ter sido coberta pela anistia, mas crime foi.) Não são as vítimas nem seus parentes que devem calar. São os comandantes que devem se acostumar ao convívio com a História.

CORPORATIVISMO, BRASILIA, CORRUPÇÃO, CEILÂNDIA e CASA DA MÃE JOANA – carta de ánton passaredo

Meu Caro Vidal,

 

Como estão os ares do sul e os ares de Curitiba? Espero que, embora fria como sempre, a cidade esteja vivendo bom astral, mesmo em tempo de eleições.

 

Sobre eleições considero este o momento mais desprestigiado do País. Aliás, por “bom” costume ainda escrevo País com caixa alta. Bobagem, não existe mais países. O planeta está ferrado e países são ficções mantidas para iludir os incautos. Hoje o predomínio é dos blocos. São blocos de nações, algumas nem isto são. Blocos de continentes; blocos de interesses econômicos fortes, capazes de juntar inimigos figadais; blocos de sem terras; blocos de juízes; blocos de favelados. Parece que o corporativismo se instalou em todos os setores. Marx ensinou ao trabalhador e estes ensinaram aos patrões. Ferrou. Agora todo mundo sabe que aliados são ocasionais. Mas e as eleições, o que têm a ver com tudo isto? Tudo meu caro. Este pascácio barbudo que vos fala insiste na tese, vivemos num paiseco que vota porque a lei impede o cidadão de não votar. Se por um ato sonolento qualquer passasse no congresso uma lei deixando ao livre arbítrio do brasileiro a escolha de votar ou não votar, teríamos certamente mais de 50% de abstenções nas capitais e um bom percentual no interior. Assustaria aos mais assustados dos parlamentares. Se vivo estivesse, Enéas esbugalharia os olhos, cofiaria a barba e iria vociferar para as câmeras de TV toda sua indignação, carregada de perdigotos e palavras deletérias de baixíssima compreensão ao cidadão comum. Mas eles não dormem para estas questões, Caro Vidal. Ali no congresso reside o maior de todos os corporativismos. É questão de sobrevivência. Para eles e para os cartórios eleitorais. Se eleições não houvesse onde empregar tantos juízes que trabalham apenas de dois em dois anos? Uma corporação puxa a outra. Assim, como já disse Fellini – “La nave va”.

 

Mas estes são assuntos mundanos desinteressantes, volto a perguntar: como está passando, meu amigo? Pela sua última missiva percebo que anda um tanto indignado com esta Lei Seca.

 

É verdade, ela nos afastou dos bares e lugares onde um copo e outro podiam nos levar a viagens muito mais perigosas do que aquelas nas vias e rodovias. A lei de fato não é burra, ela é idiota. Digo isto porque a lei anterior já era por demais severa. A diferença é que agora fazem fiscalização. “Pero non tanto”, não é mesmo? Dias atrás deu na TV que a autoridade maior de uma capital de um dos estados do Norte do Brasil – que não cito para não ser injusto com a cidade – atropelou e matou o garupa de uma moto e seu estado etílico estava para lá de Marackech. Está claro, algum advogado impetrou “habeas corpus” e o “cidadão” foi solto. Pobres bebuns nós, que jamais atropelamos a lingüiça dos nossos cachorros nas garagens. Passei a beber mais em casa. Acho que muita gente aderiu a isto. Mas parece que não tem o mesmo prazer. Tomamos uma e logo desistimos. Vamos dormir ou fazer outra coisa. Um terço do prazer da bebida está na conversa; o outro terço está no prazer em pedir mais uma e se quem nos está servindo for amigo, encaixar um tira-gosto ou um comentário pueril; o terço final está em pedir a saideira, que jamais acaba e vai se prolongando até quando não há mais desculpas para o adiantado da hora.

 

Aqui no Planalto continuam roubando muito bem. Para todos os lados e em todos os poderes há uma precatória, uma liminar, uma contenda judicial etc.

 

Apenas quero fazer uma correção, meu Caro Vidal. Brasília não é de forma alguma apenas uma Brasília. Não sei se você sabia, mas existem aqui vinte e três cidades. O território do Distrito Federal tem Taguatinga, Ceilândia, Gama, Paranoá, Sobradinho, Planaltina e tantas outras que iria preencher mais três linhas para citá-las. E nestas cidades florescem vidas, se produz economia, artesanato, serviços e até mesmo um pouco de ciência. É claro que o resto do Brasil vê Brasília como uma ilha. Vê o congresso e suas duas casas legislativas, ou os ministérios e o planalto como casa de mãe Joana. Afirmo peremptoriamente: esta turma é temporária. Mais do que isto, noventa e nove por cento do congresso é constituído de gente que não é daqui. Para cá,  pelo famigerado voto, comprado ou barganhado, todos estados mandam seus representantes. A cácá que eles produzem e espalham pelo país é produzida aqui, mas por cidadãos daí e de todos os lugares. As outras Brasílias se envergonham da lamaceira, mas resiste. Fazer o quê? Tem gente que se aferra ao lugar e dele não sai, nem com reza braba. Torna-se refém, vira pedra. Até um dia quando viram pó, em meio as minhocas, debaixo da terra.

Deixemos os políticos e Brasília de lado, falemos de amenidades, sejamos mais terrais. Como vai passando Dona Beatriz? Espero que muitíssimo bem. Caso encontre uma peça boa para o próximo fim de semana me avise, pois estou voltando e pretendo levar a “frau” para passear.

 

Lembro do nosso último encontro dominical e da peça teatral que assistimos. Eu fiquei totalmente apartado, por força das contingências da venda dos ingressos. Assisti a peça num balcão do Teatro Positivo. Certamente ali é o pior lugar para ver qualquer coisa naquela casa de espetáculo. Muito tempo depois arrisco a comentar a peça. Acho que ela é uma paródia bíblica interessante, com montagem estudada e alguns personagens hilários. Mas não precisava ir tão distante para traçar paródias da nossa desgraça cultural e política. Qualquer fábula gaudéria ou mesmo um cordel nordestino, consegue ter tanto ou mais graça do que as histórias bíblicas apresentadas.

 

Também já vou passando deste para outro assunto. Como vai nosso “blog” e desculpe-me por minha possessividade, ao me arvorar em proprietário do alheio. E logo no alheio que pertence ao amigo.

 

Ocorre, Vidal, que a linguagem tem sido companheira de muitos momentos em minha vida. O gosto pela literatura não somente vem do conteúdo dos textos, muitas vezes vêm como na música, do arranjo da frase ou do improviso na interpretação. Esta minha queda, ou cachoeira despregada do paredão para o poço musical é tão forte que a maioria dos meus poemas foram feitos ouvindo canções, a maior parte jazz. Como é o caso agora, que ouço Winton Marsallis tocando “Round About Midnight”. É um sax barítono entrando dentro dos ouvidos e dos sentimentos, como lêndea invisível gerando coceiras as quais não há remédio ou creolina capaz de aplacar o incômodo. Mas qual o quê, bobagem cheia, besteira de mais para tanta conversa que poderia ser.

 

Vou fechando a conversa Vidal, como sempre prometo novo encontro em breve, acompanhado de uma garrafa de vinho. Levarei a garrafa na minha bicicleta, com certeza. Levarei o vinho, o saca-rolhas, o pão e a vontade. Somente não levarei o azeite, o prato e o sal. Mas que isto seria bom, com certeza seria. Não deixe de ir porque tenho tantas novidades que até as moscas parariam de voar para escutar. Conversa para boi e mateiro dormir. No entanto, tem conversas mais, de boa prosa. Certamente convidados mais viriam, se soubessem deste meu retorno. Mas caso queira, marque encontro na feirinha no próximo domingo. Leve a Marisa, o Lago e outros que faltaram aos últimos encontros.

 

Grande Abraço.

Ánton Passaredo

 

Brasília, 5 de Agosto de 2008.

ilustração do site. “boteco ambulante” pega, leva e traz.

COMO INTERVIR NOS CASOS DE DISLEXIA ESCOLAR – por vicente martins

 

 

Para uma eficaz intervenção psicopedagógica nos casos de dislexia, disgrafia e disortografia, há necessidade de o profissional descrever a situação para poder explicar perante aos pais e à escola o que ocorre no cérebro das crianças com necessidades educacionais específicas. Isto significa dizer que terá a missão de  representar fielmente o caso do disléxico em seu plano de trabalho, por escrito ou oralmente, no seu todo ou em detalhes. É através da descrição que o Profissional  fará relato circunstanciado das dificuldades lectoescritoras, de  modo a explicar, em seguida, as dificuldades lectoescritoras caracterizadas na anamnese. 

Uma descrição rica de detalhes historiais dos educandos com necessidades educacionais permitirá uma melhor elucidação das dificuldades de aprendizagem lectoescritoras e, também, justificará medidas mais seguras e eficientes no momento da avaliação e da intervenção psicopedagógica.
 
 
 

 

Outro verbo a ser conjugado pelo psicopedagogo é o de avaliar para intervir e a partir solucionar ou compensar a dificuldade do educando.  Assim, descrito e explicado o caso psicopedagógico, o profissional que atua com as crianças, jovens ou adultos com dislexia, disgrafia ou disortografia poderá verificar, objetivamente, os dados das dificuldades levantados junto aos professores, pais dos alunos e os próprios alunos. A pauta, protocolo ou ficha de observação quanto mais ampla mais eficaz. As avaliações escolares tradicionais também não podem ser descartas ou negligenciadas uma vez que são verificações que objetivam determinar a competência do educando.
 
 
 
 

 

A intervenção psicopedagógica deve ocorrer quando o profissional se sente seguro teoricamente para praticar atividades que atuem diretamente nas dificuldades dos educandos disléxicos, disgráficos e disortográficos. A intervenção psicopedagógica é uma capacidade, advinda da experiência, de fazer algo com eficiência. Em geral, é um período em que alunos deixam, em algumas horas do seu tempo regular de estudo escolar, na própria instituição de ensino, a sala de aula e passam a receber treinamento específico para a superação de suas dificuldades. 

 

Para ilustrar no artigo com exemplos reais de casos de dislexia, vamos expor, de forma sintética, relatos de pais, profissionais de educação da fala e educadores sobre dificuldades específicas na linguagem escrita de seus filhos e educandos:

 

 1º caso -  Fui chamada na escola de meu filho porque ele tem problemas com a escrita, faz trocas de letras como v/f, d/t, ele tem 9 anos está na terceira serie, pediram para que o leve para fazer uma avaliação com uma fono, queria saber se este caminho que devo seguir, ou o que devo fazer grata “

 

 

2º caso

– “Tenho uma paciente de 27 anos que apresenta algumas dificuldades na escrita e na fala. Em uma das atividades que realizei com ela, a mesma apresentou-se nervosa ao ler,trocando algumas letras. Ao pedir para ela falasse qual o número que estava no dado, a mesma teve dificuldades; tendo dificuldade também em distinguir letras aleatórias, trocando principalmente as letras F e V. A paciente relata ser muito agressiva querendo bater nas pessoas e não gosta de “conviver” com elas. Sente ódio de todos.Gostaria de saber como faço para verificar se ela pode ter Dislexia?.”
 
 
 

 

 

3º caso – “ Tenho uma filha de 8 anos e meio diagnosticada com dislexia, além de ter disgrafia e disortografia. A Fono disse que a dislexia dele é bem leve. Ela lê razoavelmente bem, apesar de soletrar muitas vezes, principalmente as palavras pouco freqüentes, mas eu acredito que a disgrafia e a disortografia nela sejam um pouco mais severas que a dificuldade de leitura propriamente dita. Ela não consegue escrever uma frase sem cometer vários erros, em palavras que já escreveu várias vezes (sempre escreve valar ao invés de falar, xegou ao invés de chegou, soldade ao invés de saudade entre outras coisas) e a aparência gráfica de sua letra é muito franca, parece de criança ensaiando as primeiras letras. No entanto ela gosta muito de escrever, tem um diário, escreve historinhas, só que é uma luta conseguirmos decifrar o que ela quis dizer.Gostaria de saber, se poderia indicar alguma literatura, que contivesse exercícios  especificamente para disgrafia e disortografia .”

 

Tomando, para a rápida análise e sistematização dos relatos de casos de dislexia acima, muito comuns nas queixas de crianças, pais e docentes, observaremos que, em geral, são estes indícios típicos  de dificuldades em leitura, escrita e disortografia:

 

 (1) progresso muito lento na aquisição das habilidades de leitura;

(2) problemas ao ler palavras desconhecidas (novas, não-familiares), que devem ser pronunciadas em voz alta;

 (3) tropeços ao ler palavras polissilábicas, ou deficiências o ter de pronunciar a palavra inteira;

(4) A leitura em voz alta é contaminada por substituições, omissões e palavras malpronunciadas;

(5) Leitura muito lenta e cansativa;

(6) Dificuldades para lembrar nomes de pessoas e de lugares e confusão quando os nomes se parecem;

 (7) Falta de vontade de ler por prazer;

  8 - Ortografia que permanece problemática e preferência por palavras menos complexas ao escrever;

(9) Substituição de palavras que não consegue ler por palavras inventadas e (10) Problemas ao ler e pronunciar palavras incomuns, estranhas ou singulares, tais como o nome de pessoas, de ruas e de locais, nomes dos pratos de um menu.

 

 

Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), em Sobral, Estado do Ceará.

 

TIO SAM nos pagos de STALIN – por helio de freitas

 

São atualmente tão bons e eficientes os meios de comunicação que há muita dificuldade para obter informação realmente objetiva e menos superficial sobre o que se passa em nosso próprio país. Dificuldade que é elevada à enésima potência quando se trata de uma pequena nação encravada no gelo do Cáucaso, independente depois da queda da URSS e pátria de Iossip Vissarionovich Djugashvili (com tão pouca informação sobre o que acontece e o que aconteceu, é bom esclarecer que este era o nome civil do camarada Stalin).

Lá, na Geórgia, nasceu quem viria a ser o mais implacável e obstinado condutor da União Soviética e que, apesar do imenso poder que tinha, jamais fez qualquer gesto (pelo menos nenhum historiador registra) para favorecer ou privilegiar o rincão natal. Os georgianos foram totalmente ignorados pelo compatriota, inteiramente convertido à língua e à mentalidade russas. Mesmo assim, consta que erigiram muitas estátuas ao filho ingrato, eufóricos com o culto da personalidade, e não as derrubaram quando o stalinismo foi banido por Kruschev e seus sucessores no Krêmlin.

Pois bem. Quando a União Soviética caiu e a Geórgia emancipou-se, digladiaram-se dois líderes. Por um lado, Gamsakhurdia e por outro o ex-Ministro do Exterior da URSS, Eduard Shevarnadze, (georgiano de nascimento). Depois de luta sangrenta e algumas reviravoltas, morto Gamsakhurdia (sobre quem tão pouco se sabe), Shevarnadze consolidou-se no poder, de onde foi apeado alguns anos depois por pressão americana, ao que se diz.

 

O fato real é que o atual dirigente da Geórgia, formado em Harvard, apoia os EUA e a Otan, confrontando-se com a Rússia, que por sua vez defende com seu poder militar as minorias russas em território georgiano. Simplificando a questão: os EUA lançaram uma cabeça de ponte no Cáucaso, para contrabalançar o poder russo, de acordo com o clássico e secular modelo das esferas de influência. E aí se vê a ironia da história: tudo isso se passa na terra de Stalin. Ali, onde nasceu e viveu o menino Iossip, estudante de seminário até aderir à militância comunista e atravessar as fronteiras georgianas para fazer História com agá maiúsculo, protagonizando um dos papéis mais controversos do século vinte.

 

A situação deve estar fazendo o ex-ditador se remexer no túmulo, que sabe-se lá onde atualmente se localiza, visto que o próprio Lênin está ameaçado de ser removido de seu mausoléu, se é que já não foi.

Ironia amarga desse gênero, na História, também é a passagem à França, no século dezenove, da cidade italiana de Nizza, onde nasceu o herói da libertação da península, Giuseppe Garibaldi. O pior é Garibaldi ainda estar vivo quando Nizza se transformou na francesa Nice, tendo, depois de tantas lutas, o desprazer de ver sua cidade natal arrancada do território italiano, por artes de arreglo entre um imperador máu caráter, justamente apodado de Napoleão, o Pequeno, e um rei da Savóia não menos velhaco.

“Sic transit gloria mundi” (como os mais jovens não estão afeiçoados a latinório, é bom traduzir: “assim passa a glória mundana”. E nosso tiozinho Sam, quando passará?

DADAISMO – pela editoria

O dadaísmo surgiu no ano de 1916, por iniciativa de um grupo de artistas que, descrentes de uma sociedade que consideravam responsável pelos estragos da Primeira Guerra Mundial, decidiram romper deliberadamente com todos os valores e princípios estabelecidos por ela anteriormente, inclusive os artísticos. A própria palavra dadá não tem outro significado senão a própria falta de significado, sendo um exemplo da essência desse movimento iconoclasta.

O principal foco de difusão desta nova corrente artística foi o Café Voltaire, fundado na cidade de Zurique pelo poeta Hugo Ball e ao qual se uniram os artistas Hans Arp e Marcel Janco e o poeta romeno Tristan Tzara. Suas atuações provocativas e a publicação de inúmeros manifestos fizeram que o dadaísmo logo ficasse conhecido em toda a Europa, obtendo a adesão de artistas como Marcel Duchamp, ou Francis Picabia.

Não se deve estranhar o fato de artistas plásticos e poetas trabalharem juntos – o dadaísmo propunha a atuação interdisciplinar como única maneira possível de renovar a linguagem criativa. Dessa forma, todos podiam ter vivência de vários campos ao mesmo tempo, trocando técnicas ou combinando-as. Nihilistas, irracionais e, às vezes, subversivos, os dadaístas não romperam somente com as formas da arte, mas também com o conceito da própria arte.

Não são questionados apenas os princípios estéticos, como fizeram expressionistas ou cubistas, mas o próprio núcleo da questão artística.Negando toda possibilidade de autoridade crítica ou acadêmica, consideram válida qualquer expressão humana, inclusive a involuntária, elevando-a à categoria de obra de arte.Efêmera, mas eficaz, a arte dadaísta preparou o terreno para movimentos vanguardistas tão importantes como o surrealismo e a arte pop, entre outros.

PINTURA NO DADAÍSMO

A pintura dadaísta foi um dos grandes mistérios da história da arte do século XX. Os pintores deste movimento, guiados por uma anarquia instintiva e um forte nihilismo, não hesitaram em anular as formas, técnicas e temas da pintura, tal como tinham sido entendidos até aquele momento. Um exemplo disso eram os quadros dos antimecanismos ou máquinas de nada, nos quais o tema central era totalmente inédito para aqueles tempos.

Representavam artefatos de aparência mais poética do que mecânica, cuja função era totalmente desconhecida. Para dificultar ainda mais sua análise, os títulos escolhidos jamais tinham qualquer relação com o objeto central do quadro. Não é difícil deduzir que, exatamente através desses antitemas, os pintores expressavam sua repulsa em relação à sociedade, que com a mecanização estava causando a destruição do mundo.

Um capítulo à parte merecem as colagens, que logo se transformaram no meio ideal de expressão do sentimento dadaísta. Tratava-se da reunião de materiais aparentemente escolhidos ao acaso, nos quais sempre se podiam ler textos elaborados com recortes de jornais de diferente feição gráfica. A mistura de todo tipo de imagens extraídas da imprensa da época faz desse tipo de trabalho uma antecipação precoce da idealização dos meios de comunicação de massa, que mais tarde viria a ser a artepop.

ESCULTURA NO DADAÍSMO

A escultura dadaísta nasceu sob a influência de um forte espírito iconoclasta. Uma vez suprimidos todos os valores estéticos adquiridos e conservados até o momento pelas academias, os dadaístas se dedicaram por completo à experimentação, improvisação e desordem. Os ready mades de Marcel Duchamp não pretendiam outra coisa que não dessacralizar os conceitos de arte e artista, expondo objetos do dia-a-dia como esculturas.

Um dos mais escandalosos foi, sem dúvida, o urinol que este artista francês se atreveu a apresentar no Salão dos Independentes, competindo com as obras de outros escultores. Sua intenção foi tão-somente demonstrar até que ponto o critério subjetivo do artista podia transformar qualquer objeto em obra de arte. Com exemplos desse tipo e outros, pode-se afirmar que Marcel Duchamp é sem dúvida o primeiro pai da arte conceitual.

Apareceram também, como na pintura, os primeiros antimecanismos, máquinas construídas com os elementos mais estapafúrdios e com o único objetivo de serem expostas para desconcertar e provocar o público. Os críticos não foram muito condescendentes com essas obras, que não conseguiam compreender nem classificar. Tais manifestações, por mais absurdas e insolentes que possam parecer, começaram a definir a plástica que surgiria nos anos seguintes.

FOTOGRAFIA E CINEMA DADAÍSTA

Artistas de seu tempo, os dadaístas foram sem dúvida os primeiros a incorporar o cinema e a fotografia à sua expressão plástica. E fizeram isso de uma maneira totalmente experimental e guiados por uma espontaneidade inata. O resultado desse novo materialismo foi um cinema completamente abstrato e absurdo, por exemplo, o de diretores como Hans Richter e a fotografia experimental de Man Ray e seus seguidores.

Foi exatamente Man Ray o inventor da conhecida técnica do raiograma, que consistia em tirar a fotografia sem a câmara fotográfica, ou seja, colocando o objeto perto de um filme altamente sensível e diante de uma fonte de luz. Apesar de seu caráter totalmente experimental, as obras assim concebidas conseguiram se manter no topo da modernidade tempo suficiente para passar a fazer parte dos anais da história da fotografia e do cinema artísticos.

 fonte: internet livre.

DEDILHADOS NA MADRUGADA poema de tonicato miranda

homenagens de pianistas sempre são baristas

sempre atendem a um pedido de cliente

alô man”, uma canção especial para lembrar dela

daqueles encontros anos 80, no Karina

ela um pouco mais do que menina

flutuando no gim meu olhar de álcool aquarela

queria ouvir “Tenderly”, a canção antiga

para mostrar o meu tacho doce e agreste

algo dela que ainda em mim reste

mas navega em outros mares o pianista

a vontade dele não consigo torcer

tamborila ao piano outra toada pra você

desconfio que ele está por ela enamorado

go back man” meu dinheiro e a taça

não me rouba o amor e a felicidade dela

afasta pra lá este seu piano e o teclado

não a caça, e não me venha com ameaça

é minha e somente minha a porca e a ruela

mas que cara confuso diriam muitos

mistura piano, canções e peças do parafuso

não importa quanto seja, beba gim ou cerveja

ele é assim mesmo pelo amor de uma mulher

apenas não pode mais conter tanta ausência

morre de piano lento, é nostálgico na essência

madrugada já vai alta e ele aqui na mesa sem bar

a misturar o gim com desejos e lembranças

ainda querendo ouvir “Tenderly” na voz da Maísa

até já serve um Dindi e esta vontade que pisa

aperta e arranca um ai de saudade do pescoço

queria ser novamente dela, mais uma vez velho e moço

NIEMEYER poema de deborah o’lins de barros

 

Escuto e danço enquanto

admiro o ritmo desses traços,

que ondulam e contornam nossa

terra natal. Sua obra flâmula ao vento,

firme, tremendamente graciosa, in-

ponente. Um lápis em sua mão,

é mais revolucionário que a

revolução russa; mais

modernista que Macuna-

íma, que a poesia de Décio

Pignatari, somada à de Oswald

Andrade. Um lápis em sua mão, é a

profecia de uma ruptura; sua arquitetura

sempre nova tirou o latim de nossas

igrejas, fez tudo lembrar as praias

cariocas, onde quer que sua

arte esteja. Além de

você, só Deus, para es-

crever certo por linhas tortas.

mas não o chamarei de senhor,

pois como seus traços, você é eter-

namente jovem. Sua arte tem sotaque

do Rio de Janeiro! E se, vita brevis,

Sua arquitetura é ars longa

E a mim, só resta dizer:

Niemeyer, como eu,

também é bra-

sileiro!

OS MENINOS E EU poema de bárbara lia

 

Os meninos empinavam pipas;

eu, pássaros.

 

Os meninos folheavam revistas

de garotas nuas;

eu, assistia ao namoro dos sapos.

 

Os meninos iam ao cine;

eu, atravessava a pé

o igarapé.

 

Os meninos desenhavam piratas

tesouros, navios;

eu, a escafandrista solitária.

 

Agora

solidão nos devora

em negros prédios

meio à elite ignara

 

Os meninos vestem

negro/desencanto

seguem com cifras

nas pupilas vítreas

 

Tão tristes os meninos

reclusos, bebendo

o índice Dow Jones

com café.

 

Trocando de amantes

a cada inverno.

A alma pesada os faz andar

em cadência de elefante.

 

Eu,

desenho gravuras

em tons rosa chá

teço minhas roupas

danço minhas músicas

escrevo meus poemas.

 

Não atravesso

o vidro frio do templo

moderno

- shopping center –

 

Não atravesso

a porta de cedro

do antigo templo

 

(enquanto o Vaticano

não doar aos pobres

todo o ouro seu)

 

Vivo nas esferas

desço ao chão

para pisar águas

dos igarapés.

 

Adormeço

no berço-arraia

que me embalazul

no “mar/

belo mar selvagem…”

 

 

 

 

“Os meninos e eu” – poesia classificada entre as dez finalistas do Concurso Nacional de Poesias Helena Kolody – 2.007

CORAÇÃO e NERVOS por alceu sperança

“Você é um triste, estranho e pequeno homem. Tenho pena de você… Adeus!” (Buzz Lightyear, o robozinho futurista de Toy Story, criado para superar na preferência das crianças o bonequinho de cow-boy, a boneca de pano e os soldadinhos de chumbo)

….

As grandes corporações fabricantes de computadores estão sistematicamente desafiando os campeões mundiais de xadrez para milionários games: neles, o homem ganha fortunas em troca de alguns empates e uma ou outra derrota. É fácil para qualquer máquina superar a inteligência do homem quando ele se deixa iludir, trapacear ou é “convertido”, à custa de uma bela grana, a aceitar que a máquina é superior e aos homens inúteis só resta morrer por conta própria (“Adeus!”, diz Buzz) ou se deixar matar pelas “guardas” criadas a todo instante a pretexto de defesa da sociedade. É fácil para as máquinas – e seus poderosos manipuladores – dominar os homens que entram nesse jogo mortal.

Em 1993, como que a iniciar antecipadamente o terceiro milênio, o mundo conheceu o primeiro livro escrito por um computador. Claro, essa coisa de besta do Apocalipse tinha que dar o ar de sua desgraça nos EUA, a nação mais maravilhosa e iludida deste planeta. O “livro” não teria nada de mais se não entrasse no mercado na condição de obra futurista, que faria do gênio humano uma coisa ultrapassada e inútil até quando se trata de fazer literatura, na medida em que a arte é o último bastião da espécie humana.

As grandes corporações, portanto, não querem apenas mostrar que as máquinas podem fazer tarefas braçais e arriscadas, limpar latrinas e arriscar o couro no lugar dos homens: querem provar, simplesmente, que o gênio e a rebeldia criadora do homem são dispensáveis, que o espírito, a dor, a angústia, a neurose e o amor – essas coisas tão humanas – são desprezivelmente inúteis. O “livro”, intitulado Just This Once (“Apenas Desta Vez”), como a dizer, envergonhadamente, que essa ousadia absurda não se repetiria, teve 75% do seu texto criado por um computador, porque os outros 25% foram bestas humanas alimentando a máquina com um software de inteligência artificial e uma lista de elementos contidos em livros escritos por gente de carne e osso, coração e nervos.

Essa “obra literária” vendeu na sua primeira edição 15 mil exemplares (se fosse para ser apenas uma vez, não haveria outras edições). Esse número significa um volume de vendas duas ou três vezes superior à de qualquer livro cunhado no Brasil pelo gênio humano. Talvez à exceção de um Paulo Coelho, uma espécie de computador humano: ele requenta (ou simplifica) textos tradicionais da antiguidade para misturá-los e entregar a pizza a um público desesperado, desiludido e desencantado com a vida, ávido por coisas supostamente espirituais e “superiores”.

Mas só há uma “coisa” realmente superior: a vida, com todas as suas dores, angústias, trapalhadas, equívocos e alegrias.

GERALD THOMAS: Óbvio que a ARTE está morta: não PASSAMOS de IMPOSTORES de Renda, cabideiros de emprego: Marcel DUCHAMP, o URINOL que deixava o artesanato de pé em seu próprio MIJO!

“DUCHAMP: O AUTORTURADO DaDaISTA”

 

Está em cartaz no MAM, aqui em São Paulo, uma retrospectiva de Marcel Duchamp. A simples idéia de uma retrospectiva pra Duchamp teria sido, no mínimo, algo impensável, ridículo ou risível, quando ele rompeu com tudo, com a caretice de tudo, com o Samaritanismo da arte, o chamado “bonitismo” da arte no início do século XX. Foi aí que começou o nosso “desastre”. Duchamp, Freud, e alguns outros são os culpados pelos nossos fracassos. Mas explico. São os nossos grandes HERÓIS. Meus grandes, grandes, imensos heróis.

Quem destrói pra construir é aquele que consegue transformar o mundo num abrir e fechar de olhos, e deixar todo mundo de pé, plantado em seu próprio mijo, sem ter o que dizer: claro, e não é à toa que o URINOL de Duchamp foi um dos primeiros READY MADES (achados prontos) – um combate contra a arte artesanal, pintura, escultura tradicional, etc. Sim, deixar o espectador pasmo em pé, em seu próprio mijo de espanto! Retrospectiva de Duchamp é muitíssimo estranho. Quando eu era aluno de Ivan Serpa e Helio Oiticica, eles só me falavam em Duchamp. Haroldo de Campos foi mais longe, já que era Dos Campos, um Duchamp também, Du Champos! A Arte de vanguarda fala em uníssono sempre a mesma coisa, berra sempre a mesma coisa. Mas uma retrospectiva dela nos traz uma lágrima de crystal japonês. E porque?Porque quando Duchamp cancelou sua parceria com Tristan (sem Isolda) Tzara, e deixou Paris, e virou um NovaYorkino, o movimento em si, de deixar o velho pelo novo, já tinha um significado. Falo de 1911 ou algo assim. O Armoury Show.“Achar” objetos prontos na rua e juntá-los, “casá-los” como se fosse um destino “by arrangement” no sentido oriental, é um humor que os americanos não tinham. Só vieram a ter na década de 60 com Wharol, Andy Wharol.Então, certo dia, Duchamp cancelou sua expo na Pace Gallery na rua 57 em Manhattan. Falou “retirem todos os quadros, apareço aí mais tarde com objetos novos”. E, pra juntar-se ao já famoso “NU DESCENDO a ESCADA“ (um dos mais escandalosamente LINDOS tributos à arte desconstrutivista, Duchamp pintou uma mulher descendo uma escada, nua, EM MOVIMENTO, pode-se dizer que remota e cremosamente cubista. E…..ao lado do MOEDOR de CHOCOLATE e ao LARGE GLASS (também chamado de THE BRIDE STRIPPED BARE BY THE BACHELORS EVEN – algo como: “ a noiva desnudada pelos solteiros ATÉ!, nessa ordem, escrito nessa cadência concreta das palavras) somou-se ao seu maior e mais conhecido piece ou seja, peça, ou seja, marca, ou seja QUADRO-NÃO-QUADRO, ou seja: o pai e mãe disso que chamamos hoje de INSTALAÇÃO/manifesto.A RODA DE BICICLETAEssa roda (objeto de obsessão meu) (o que posso fazer? nasci torto!), foi assim: nesse mesmo dia em que Duchamp cancelava sua Expo na Pace, andava pelo Bowery (equivalente a 3ª Avenida, na lower Manhattan) perto da Houston Street, de um lado da rua tinha uma roda de bicicleta jogada fora. Do outro lado um desses bancos de mandeira de bar! Ele GRAMPEOU, tacou a roda em cima do banco e levou o treco pra Pace!

Então, esse foi o MAIOR REVOLUCIONÁRIO de todos os tempos, em qualquer contexto, em qualquer arte (porque sem ele não teríamos John Cage na música ou Merce Cunningham na dança (aliás, a Fabi estuda com o Merce Cunningham em Westbeth até hoje).

A arte está morta? Rose Selavy? Como ironizava seu próprio personagem feminino com uma estrela escupida em seu CABELO, ou os cubinhos de mármore dentro de uma gailola (: porque não espirrar Rose Selavy?:) ou …

Chega de descrever Duchamp !!!

A melhor maneira e a mais triste de representar uma RETROSPECTIVA foi desenhada por Saul Steinberg. O Cartum é assim: um Coelho olhando pro Oeste está sentado em cima de uma Tartaruga que caminha lentamente para o Leste.

Duchamp foi um dos primeiros ENORMES iconoclastas. Com humor. Quebrou o vidro? Deixa lá, quebrado. O acaso é otimo!

O movimento dadaísta (não os surrealistas caretas e marqueteiros que só eles!), o iconoclástico, desconstrutivista, atonal, dodecafônico, serialista, abstrato, abstrato expressionista, minimalista, enfim, tudo isso visa uma só coisa:

- colocar a arte debaixo da lente do microscópio, autopsiá-la; ver, dissecar se as verdades e mentiras dos séculos anteriores de música e pintura e iluminismo e jacobeanismo e Renascentismo, e ismo, ismo de anos e anos de arrotismo de tantos e tantos Rembrants, Velasquez, Beethovens, Monteverdis, Wagners, Lord Humes e Hegels e Kants, e os tantos Goethes, faziam realmente sentido na era pós Freud, na era pós industrializada numa América ainda a ser desvendada pelos bachelors de toda a humanidade enclausurada em suas culturas pré-guerra, fugindo pra lá, digo pro novo mundo, fugindo das emboscadas culturais da pequenina Europa, onde à cada 16 km o teu sotaque te colocaria num campo, num Duchamp de concentração!

E no que deu? Estamos na mesma. Aliás, estamo mais CARETAS. Estamos numa era PRÉ DUCHAMP, porque hoje olhamos Duchamp como se ele estivesse no nosso passado e, toda essa porcaria pseudo inovadora (salvo alguns, óbvio, como Kiefer, Josef Beyus, Nuno Ramos, Tunga, Warhol, Damien Hirst e outros POUCOS) ainda estão naquela era de DECORAR a sala de estar da madame porque – já que voltamos aquela era do GOLD RUSH, à corrida pelo petroléo e à plantação de cana – nada mais óbvio mesmo do que declarar um ESTADO de DIREITO, e colocar um estatuto logo de uma vez:

O que vale aqui é o muralista Siqueiros, ou o medíocre Portinari, ou o idota do Henry Moore, ou a Hepworth.

E o povo, ignorante como sempre, se concentra ali na estátua dos retirantes no Ibirapuera, a metros, meio quilometro da RETRO de Duchamp, sem sequer saber o que foi tudo aquilo, ou se o ovo de Colombo ficou em pé ou não, porque, afinal de contas: não foi Pedro Alvares Cabral que descobriu as AMERiKas de Kakfa?

A Arte está MORTA sim. E faz anos que fazemos teatrinho de representação infantil em torno de seu enterro pra não perdermos emprego. Não passamos é de canastrões de última categoria, com a azeitona na ponta do esôfago, segura ali por algum Nexium, Plexium, Sexium ou Mylanta, Maalox, ou anti-ácido.

Afinal, antigamente as pessoas tomavam ácido.

HOJE: só tomam anti-ácido

CURITIBANA: A FAMILIA PROVINCIANA

Com família, sem caretice e de portas abertas

 

Há poucos dias, a pesquisadora da UFPR Araci Asineli da Luz, especialista em questões de infância e adolescência, surpreendeu-se num simpósio com a fala de um representante da iniciativa privada – um interessado em questões de educação. Os professores, disse, não sem razão, devem lembrar aos alunos que vão ser pais um dia, aos 30 e poucos anos. “Mas muitos deles já são pais. E damos aulas para diversas adolescentes grávidas”, protesta Araci, diante desse exemplo do descompasso que ainda rege o discurso em torno da juventude. Não causa espanto que muitas políticas cheirem a mofo. “Não se fala com o jovem. Como é que pode haver política que funcione?”, questiona.

A secretária de estado da Criança e da Juventude, Thelma Alves de Oliveira, bem poderia fazer coro com Araci. Ela até hoje está pasma com a postura dos shoppings em relação ao público jovem. “Curitiba tem de aprender a ser mais acolhedora e tolerante. É uma cidade muito excludente e conservadora”, lamenta a mulher que promove no Paraná o pacto da infância e da juventude, mas que volta e meia, bate com a cara na porta. Em outras palavras – reina a caretice.

A bandeira de Thelma é conhecida – a moçada precisa de cinemas, de áreas de lazer, de espaços de produção cultural. Mas não faltam obstáculos impedindo o impulso que eles têm de se agregar e expressar, desejo que ficou declarado nas conferências estadual e nacional para a juventude, ocorridas no primeiro semestre deste ano.

Em miúdos, o pensamento sobre a juventude está só engatinhando, mas corre o risco de nascer marcado pelo mesmo autoritarismo e paternalismo que ainda marcam as políticas públicas brasileiras. O assunto renderia um fórum em dias de eleição, o que provavelmente não vai acontecer. “Nunca antes nesse país” houve tantas políticas sociais, infelizmente acrescidas de dependência do estado, impedindo a autonomia necessária ao setor. Quem faz, sabe.

 

gazeta do povo. por José Carlos Fernandes

marcador de texto do site.

 

ilustração do site. cheirando cola. com todos créditos. infelizmente.

POEMAS de sara vanegas/ ecuador

el faro es una mancha en la noche

la noche

 

cicatriz en el océano

 

___________

 

 

el recuerdo es ave

migrante

 

entre mi corazón y la nada

 

 

___________

 

a veces

la soledad es una flor morada

 

en el espejo

 

 ___________

 

tu niñez:

ese barco en la mirada

 

que un día partió sin despedirse

                                                                                             

 

            __________

 

la inquietud del rosal todas las tardes

es un beso de sol

 

traspasado de hastío

 

            ___________

 

 

cuando los pájaros se fueron

quedaron huecos oscuros

 

en el viento

 

            ___________

 

 

el puerto se ha lanzado tras la barca

en un día sin sol

 

y sin retorno

                                                                                 

 

            ___________

 

 

 

mi corazón arrastra su silencio

salobre

 

hasta llegar al mar

RUMOREJANDO (Com os jogos olímpicos, que jamais participou, rememorando).- por josé zokner (juca)

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I (Dúvida crucial, via quadrinha).

A corneta

De certos quartéis

Soa como lambreta

Por causa dos decibéis?

Constatação II

Rico tem a capacidade de memorizar; pobre, impossibilidade de lembrar.

Constatação III

Deu na mídia: “Um ano depois de ter escapado do sequestrador que a manteve em cativeiro por oito anos, a austríaca Natascha Kampusch diz estar cada vez mais triste com a morte dele”. Vá lá alguém procurar entender a intrincada alma humana.

Constatação IV (Teoria da relatividade para principiantes).

É muito melhor cantar uma gata do que cantar ‘Parabéns pra você’, numa festa infantil, àquela que tá cheia de balões e outras crianças, que você foi obrigado a ir porque era da filha do teu chefe. Nem a possibilidade de você poder levar um balão colorido pra casa pra você levar à tua neta, nem a presença da secretaria boazuda da empresa atenua o atazanante programa.

Constatação V

Rico dá sugestão oportuna; pobre, palpite errado.

Constatação VI

Rico se preocupa com a alta da Bolsa de Valores; pobre, com os baixos valores do bolso.

Constatação VII

Quando o obcecado leu na mídia que a China havia fechado 44 mil sites pornográficos, em 2007, exclamou indignado: Isso é um acinte contra a liberdade de expressão e, daria pra dizer, até da imprensa.

Constatação VIII

Um dos fatos que sempre chamou a atenção deste assim chamado escriba é o investimento de ricaços em jogadores de futebol e, assim, passarem a ser o dono, parcial ou total, do passe do jogador. Segundo alguns, o ricaço estaria ajudando o seu time do coração; segundo alguns outros, ele estaria tentando fazer um negócio; e segundo, terceiros, as duas coisas. Seja como for, para Rumorejando soa como uma espécie de trabalho escravo tal tipo de “investimento”. Fica-se imaginando o cartola falando para o “seu” jogador: “Olha, vê se você dá um pouco mais de você, se esforça mais, porque “nós” temos que ganhar esse jogo e os demais. É tua chance de passar a jogar num time grande do eixo Rio São Paulo e mesmo ser adquirido por um time da Europa que paga em euros, o que é uma maneira de você conseguir a tua independência financeira”. E por aí ele vai. Naturalmente, sem citar o lucro que ele teria. Data vênia, como diriam nossos juristas, mas para Rumorejando soa, também, como mais uma forma de capitalismo selvagem e de filhadap…ce. Por favor, cartas por e-mail, telegrama, pelo blog (http://rimasprimas.blogspot.com/), etc., opinando sobre o assunto. Obrigado.

Constatação IX

E como elucubrava o obcecado, mostrando estar por dentro do que se passa na maior potência do Planeta e suas repercussões: “Nem a turbulência do mercado mundial, nem a desaceleração em setores da economia, tampouco as altas e baixas da Bolsa de Valores irão afetar a elevação do que mais me interessa…

Constatação X

Rico é lisonjeador; pobre, puxa-saco.

Constatação XI

O filme “Saneamento Básico” é tão bom quanto os já citados anteriormente por Rumorejando. Dá, mesmo com o comportamento dos políticos, para proferir a frase, já conhecida, “porque me ufano do meu país”. Tenho, sem patriotada, dito!

Constatação XII

E o programa Certa Vez, apresentado pelo Amigo Beto Guiz, na rádio Educativa FM, além de sábado na AM, aos domingos, às seis horas da manhã, não é para nenhum boêmio, que tá chegando essa hora em casa ou quem acorda cedo, botar defeito. E Revivendo, da mesma emissora, apresentado aos sábados, às 4 horas da matina, pelo radialista Ubiratan Lustosa, é o mesmo caso.

Constatação XIII

Sinistrose*, teu nome é dengue, febre amarela, vaca louca e os políticos.

*Sinistrose = “1. tendência a alardear a iminência de colapsos e perigos terríveis, individuais ou sociais, a vaticinar desastres, ruínas, grandes perdas materiais, catástrofes em empreendimentos, planos econômicos, projetos políticos

2. a inquietação causada por tais riscos e perigos sinistros”. (Houaiss).

Constatação XIV

Deu na mídia: “O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, considera possível que a inflação já tenha parado de subir”. Data vênia, como diriam nossos juristas, mas S. Excia., aparentemente, não freqüenta supermercado…

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

 

ORAÇÃO das MULHERES resolvidas – autor desconhecido

Que o mar vire cerveja e os homens tira gosto,

que a fonte nunca seque,

e que a nossa sogra nunca se chame Esperança,

porque Esperança é a última que morre…

 

Que os nossos homens nunca

morram viúvos,

e que nosso filhos tenham pais ricos e mães gostosas!

Que Deus abençoe os homens bonitos,

e os feios se tiver tempo…

 

Deus…

Eu vos peço sabedoria para entender um homem,

amor para perdoá-lo e paciência pelos seus atos,

porque Deus, se eu pedir força,

eu bato nele até matá-lo.

 

Um brinde…

Aos que temos, aos que tivemos e aos que teremos.

Um brinde também aos namorados que nos conquistaram,

aos trouxas que nos perderam

e aos sortudos que ainda vão nos conhecer!

 

Que sempre sobre,

que nunca nos falte,

e que a gente dê conta de todos!

Amém.

 

P.S.: Homens são como um bom vinho.

Todos começam como uvas, e é dever

da mulher pisoteá-los e mantê-los no escuro

até que amadureçam e se tornem

uma boa companhia pro jantar.

 

ilustração do site. “o sonho” a senadora ideli salvatti e zé sarney.

SEM CHANCES e A SORTE DOS MERCADORES – mini contos de raimundo rolim

Sem chances

 

Que inferno que nada, gritava o ateu empírico. Deus? Céu? Nem pensar! Não vou e não quero. Recuso-me terminantemente a ir a qualquer desses lugares pelo simples, tranqüilo e justificado motivo de nunca ter comungado com tais Entidades antes. Não seria agora, depois de fazer a grande travessia da vida que se entregaria, assim sem lutas, nem bandeiras. Fez uma careta danada de feia, torceu os braços numa banana sólida. Fora-lhe o último gesto a carregar túmulo adentro. 

 

 

         A sorte dos mercadores

 

E veio a neve e veio o frio e veio a chuva e a tempestade e o maremoto. Depois o furacão impiedoso e o granizo, a peste e a fome. Os vulcões explodiram, liberando um forte cheiro de enxofre e na saraivada de impropérios, o carrasco brandindo a machadinha na mão direita com o decreto real na esquerda, despojava a todos de seus bens. Mulheres e filhos abandonados à própria sorte correram, e os trovões se expuseram assustadores. Raios e mais raios coriscaram os céus e a terra com intensidade jamais imaginadas enquanto os cães ladravam. Um dragão saiu do fundo do mar e a besta do Apocalipse roncou alto. Nos campos, os grãos secaram e um terremoto sacudiu a crosta. As montanhas vieram abaixo e os vales se elevaram enquanto a caravana passava tranqüila.

 

 

O QUÊ FAZER ? – por reni ribeiro

O quê fazer? Olho para cima da geladeira, duas garrafas de vinho. Uma abaixo da metade (vinho nacional produzido no Vale de São Francisco, Bahia, MINHA Bahia) o outro da Serra Gaúcha (e por que não dizer MEU Rio Grande?). Fim de semana monótono como uma tarde de inverno inteira e seu céu cinza (uma das minhas cores prediletas, aliás). Bem, é fato que estava só em casa, acompanhado apenas por mim mesmo, o micro e as músicas salva nele. Ainda dei uma volta pelo centro da cidade (moro no interior do RS, imagina a “agitação da cidade”) e sinceramente nada de interessante encontrei.

 

Voltei para casa depois de passar na farmácia e comprar um analgésico e passar na livraria e escolher o que vou comprar na semana que vem. Graças a Deus ainda me resta a literatura, mas dá um desespero olhar um livro e ler os comentários comprados sobre a obra, com comentários vazios tipo: “neste livro a autor consegue desbravar a mente humana com maestria, além de ter um ritmo narrativo empolgante, bem ao estilo Umberto Eco em o ‘O nome da Rosa’ – sempre citam o Eco – e Dan Bronw”. SEMPRE o comentário vem seguido do autor da frase e o veículo da impressa estados-unidense em que trabalha (Washington Post, New York Times, etc). Cara, como se uma obra precisasse do aval de qualquer pessoa ou ser parecida com a obra de outrem para ter valor. Já li muita porcaria engrandecida pela crítica nacional e estrangeira e muita coisa boa esquecida por ela. Mas fazer o quê?

 

Mas não é sobre livros que estou falando mesmo e sim da monotonia e da luta para suplantá-la. Fui ver alguns sites, ler alguns comentários de blogs, tentar conversar com algum amigo desavisado do MSN, em vão, e continuei com aquela profunda sensação de vazio. Mas fazer o quê, não é mesmo?

 

Tenho uma nova diversão que é ler comentários sobre notícias e artigos de blogs e sites jornalísticos da web. É divertido gente, vocês têm de ler. Alguns são bem legais, comentam sem sair do tema, levaram a serio o que foi dito, criticam mesmo o texto (criticam aqui não é sinônimo de falar mal do texto), mas tem o pessoal que é meio louco, que parece não pensar direito e que expõe aquilo que não podem fazer pessoalmente em casa, no trabalho, na escola, no barzinho da esquina: soltar a língua envenenada para cima de quem esboçou alguma opinião na web. Xingam, ridicularizam, falam asneiras sobre os autores dos textos, perdem a noção das coisas diante de um texto. Imagino que num jornal ou revista devem fazer o mesmo, mas os editores com certeza editam ou mesmo excluem esses comentários. Já na web o “gatekeeper” não tem muito espaço para manobras. Estão lá registrados todos os comentários, bons ou ruins, sobre determinado texto, imagem ou qualquer coisa que seja publicado na internet. É bom lembrar, o que falta de educação sobra em bom humor e desrespeito. Quer um exemplo? Vai nesta página aqui: http://colunistas.ig.com.br/geraldthomas/2008/07/19/obvio-que-a-arte-esta-morta-nao-passamos-de-impostores-de-renda-cabideiros-de-emprego-marcel-duchamp-o-urinol-que-deixava-o-artesanato-de-pe-em-seu-proprio-mijo/#comment-112302.

 

Ao texto do Gerald Thomas não consegui chegar ao final, não consigo perder tempo com discussões do tipo “fim da arte”, “fim da história”, etc, mas os comentários demonstram a falta de educação de nossos patrícios e até mesmo a graça desses comentários. Só fico imaginando o que vão comentar deste aqui. Mas, fazer o quê, não é mesmo? Vou é tomar mais um copo de vinho.

SONHOS e DESEJOS (I) poema de rosa mel

O sonho que eu sonho
Dou para ti em desejo
E em corpo eu deponho
O desejo que almejo
Estar em teus braços
Sedentos de amor
Mirando-me os traços
Tremulos de ardor

Derreto em teu corpo
Quente e aconchegante
É este o meu porto
Onde fico estonteante

Abrasador e envolvente
Mergulhado em minh’alma
Absorvente e carente
Onde busco a minha calma

Por entre corpos enroscados
Sem começo e nem fim
Pernas e braços entrelaçados
E a ternura brotando em mim

Muito grande esse tesão
Que por ti eu sinto e quero
E eu desperto num repelão
A mulher ardente e espero

Que ventura me cobrir
Com beijos apaixonados
No amor e no servir
Vivendo entrelaçados

 

 

 

ESCÂNDALO: Monsanto na USP. Halliburton na Agência Nacional do Petróleo

Transnacionais estadunidenses avançam sobre setores estratégicos do Estado brasileiro. Maior instituição de ensino firma convênio com transnacional líder no setor de transgênicos, com cláusula de sigilo; já empresa ligada à Halliburton – também dos EUA – administra o banco de dados da ANP.

O jornal Brasil de Fato desta semana (ed. 284) denuncia dois acordos que colocam instituições públicas a serviço dos interesses privados. A Monsanto firmou um convênio com a Universidade de São Paulo (USP), no início deste ano, cuja versão original do contrato, revisto após pressão de professores e estudantes, submetia a USP a sigilo absoluto e a subordinava a uma lei dos EUA. Uma cláusula que permaneceu no documento, a oitava, estabelece que a Universidade e sua Fundação, a Fusp, são obrigadas a manter sigilo em relação à toda informação relacionada às atividades da Monsanto.

A parceria entre a USP e a transnacional estadunidense se insere dentro de um projeto de pré-iniciação científica para estudantes do ensino médio da rede estadual, feito também em parceria com a Secretaria de Educação do Estado. A USP disponibilizará seus laboratórios e alguns docentes que aceitem receber esses estudantes. A Monsanto financiará parte do projeto, num valor de R$ 220 mil, destinado a garantir bolsas a professores da rede estadual que acompanharão os alunos participantes. Ao todo, o projeto atingirá 500 estudantes e 60 docentes. As bolsas estudantis serão, por sua vez, financiadas pelo banco Santander, com uma verba bastante superior àquela fornecida pela Monsanto.

Para Ermínia Maricato, representante docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo no Conselho de Pesquisa da USP, o convênio com a transnacional pode prejudicar a imagem da instituição de ensino. “Não concordo que a USP assine convênio com essa empresa, contra a qual existem fatos graves”, finaliza.

 

Promíscuas relações na ANP

Parcerias como essa não são novidade, mas afastam instituições públicas da sociedade e a instrumentalizam para atender interesses privados. Um outro exemplo disto é o caso de outra denúncia, desta vez apresentada pelos engenheiros da Petrobras, de que a também transnacional estadunidense Halliburton controla há 10 anos o Banco de Dados de Exploração e Produção da Agência Nacional de Petróleo (ANP) sem ter ganho nenhuma licitação.

O fato foi questionado, em 2004, por parecer da Procuradoria Geral da República que exigiu que os serviços prestados ao banco de dados passassem por concorrência. De acordo com currículo publicado no site da ANP, o diretor Nelson Narciso possui experiência de “24 anos em cargos de direção e gerência na Indústria de Petróleo”, sendo que o último ano antes de assumir seu atual cargo foi na Halliburton, entre maio de 2005 e junho de 2006. Narciso é o responsável pelas superintendências de Gestão e Obtenção de Dados Técnicos, de Promoção de Licitações, de Comercialização e Movimentação de Petróleo, seus Derivados e Gás Natural e de Definição de Blocos. “A raposa está no galinheiro”, definiu nota emitida pela Associação dos Engenheiros da Petrobras (Aepet). Ou seja, as informações do BDEP podem ser acessadas pela Halliburton que, além disso, está ligada ao diretor responsável pela definição dos blocos que vão a leilão.

Paulo Metri, engenheiro mecânico e conselheiro do Clube de Engenharia, informa que o BDEP contém dados sobre levantamentos sísmicos, análises e resultados de perfurações realizadas em diversas áreas do território brasileiro. “Essas informações são estratégicas, pois a partir delas é possível estimar, com maior chance de sucesso, a possibilidade de ocorrência de petróleo”, completa.

 

Dafne Melo e Luís Brasilino, da redação

COMENTÁRIO:

Enviado por Raymundo Araujo Filho em 07/08/2008 09:52

 

James Petras é importante cientista político, ligado ao Tribunal Russel para a América latina. Tem um livro “Ensaios contra Ordem”, onde descreve com exatidão os meios e métodos que o Imperialismo se utiliza para a invasão militar, cultural e/ou tecnológica dos países.

Um dos capítulos refere-se à compra de intelectuais, jornalistas e cientistas, para de forma insidiosa e clandestina, validarem sua ideologia e produtos tecnológicos.

Este casamento USP e Monsanto, apenas confirma a ese de James Petras.

E o que mais me preocupa é a falta de gigantesca e visível manifestação de repúdio pela comunidade acadêmica.

Depois reclamam da iniciativa do MST ter as suas próprias escolas. Estas, com todas a sdificuldades e até possíveis equívocos, formará cidadãos e não robôs.

brasil de fato.

ilustração do site. sem comentários.

 

 

UM MAU POEMA – poema de p.v.

Somos invadidos pela péssima arrogância
de um poema flâmengo armado em queijo
qual burro embalsamado no conservatório
qual erasmo principiante no ágora, escorraçado
este mesmo poema, que aqui se lê.
Um poema dislexico e cheio de erros
E que é a expressão do poeta
quando consumiu café em vez de carne
bolachas em vez de ódio
cigarros em vez de fruta fresca
flocos em vez de filosofia

Uma ode ao poeta mau
que ele dure até ao dia em que retorne à aprendizagem da vida

que ele consuma o absoluto rápidamente
e invente de novo o sol
para que não se apaguem dos livros
as emoções tremendas
de um amanhã sem rumo

RETTA NO SESC ÁGUA VERDE – É HOJE 8/8/08

EXPRESSO PARA O NIRVANA – pela editoria

Jill Bolte Taylor é uma neurocientista da universidade de Harvard, em Boston nos EUA. Jill tem um irmão com esquizofrenia e essa foi a razão pela qual ela decidiu dedicar sua carreira ao estudo de doenças mentais. Como cientista, queria entender como o cérebro consegue captar sinais do ambiente, transformá-los em sonhos e depois em realidade. O irmão de Jill não consegue captar esses sinais da realidade e por isso vive isolado. A pesquisa dela era justamente comparar as diferenças biológicas entre os cérebros normais e os daqueles com doenças neurológicas.

Numa manhã de dezembro de 1996, Jill passou por uma experiência única, que muitos neurocientistas só chegam a conhecer de forma teórica: teve um derrame que a levou direto ao nirvana. Uma veia explodiu no hemisfério esquerdo e durante quatro horas ela acompanhou seu cérebro deteriorar e perder a capacidade de processar qualquer tipo de informação. Não podia falar, andar ou lembrar de qualquer episódio de sua vida. Estava ausente.

O cérebro humano possui dois hemisférios, conectados por um feixe de 300 milhões de fibras nervosas conhecido como corpus caloso. Numa analogia computacional, podemos dizer que o hemisfério direito funciona como um processador paralelo enquanto que o esquerdo funciona como um processador serial. Justamente porque eles processam informação de formas diferentes, cada hemisfério é responsável por tarefas distintas.

O hemisfério direito é responsável pelo visual e intuitivo. Informações que chegam pelos sistemas sensoriais são conectadas e formam uma imagem de um determinado momento. Dessa forma, o hemisfério direito é o responsável pela sua inserção no ambiente. Para essa parte do cérebro, não existe uma definição do “eu”, tudo pertence a um mesmo momento, somos todos a mesma coisa pois estamos juntos naquele mesmo instante.

O hemisfério esquerdo é bem diferente, processa a informação de forma linear e metódica. Considera as ações sempre no passado e no futuro. É o lado do cérebro responsável pela triagem das informações adquiridas no momento presente, classificar cada detalhe, associando com lembranças do passado e projetando as diversas possibilidades no futuro. Ao contrário do hemisfério direito, o esquerdo usa uma linguagem verbal e não visual. Esse hemisfério exclui o indivíduo do resto, pois é o responsável pelas conseqüências das ações do “eu”.

E foi justamente o hemisfério esquerdo o afetado no cérebro de Jill. Depois de sentir uma sensação dolorosa atrás do olho esquerdo, ela começou a perceber que os músculos estavam ficando rígidos. Com esforço, conseguiu chegar no banheiro onde perdeu o equilíbrio e se apoiou na parede. Foi ai que teve uma das mais estranhas sensações, pois não conseguia mais focar nos limites do próprio corpo, como se os átomos do seu braço estivessem se misturando com os átomos da parede. A percepção física do limite de seu braço não era mais o encontro da pele com o ar.

Jill descreve esse momento como se fosse a realização de que tudo está conectado numa mesma massa energética. Seu cérebro pôde apreciar o que estava acontecendo mas sem compreender nada, pois a experiência fugia daquelas do seu dia-a-dia. Momentos mais tarde, ela compararia esse sentimento com o “nirvana”, como se o derrame tivesse sido dado a ela a oportunidade de experienciar algo mágico. Naquele momento, ela perdia toda a bagagem sensorial que carregava desde o nascimento e se sentia livre. Estava viva apenas no presente e em total equilíbrio com o ambiente ao seu redor. Esse sentimento trouxe a ela um respeito maior pelas coisas que a cercam.

Quando você faz parte de um grupo, você respeita isso, para ela o grupo naquele momento era o universo. Imagine se todos tivéssemos essa oportunidade?

Após alguns minutos nesse estado, o hemisfério esquerdo começou a funcionar e chamar a atenção da consciência de Jill: alguma coisa estava errada e ela tinha que agir. Foi aí que perdeu o movimento de um braço e só então percebeu que estava tendo um derrame. Conseguiu então chamar por ajuda e sobreviveu. Uma cirurgia que retirou um coágulo do tamanho de uma bola de golf de seu cérebro seguido de oito anos foram necessários para que se recuperasse.

Esse sentimento de nirvana não faz necessariamente parte da experiência das pessoas que sofrem derrame. Algumas observam alteração no humor quando o lado esquerdo é afetado. Jill foi salva porque o derrame não danificou completamente o hemisfério esquerdo, fazendo com que recuperasse a consciência serial e buscasse por ajuda.

O hemisfério esquerdo é responsável pelo ego, contexto, tempo e lógica; enquanto que o direito se dedica a empatia e criatividade. Na maioria das pessoas, o esquerdo é dominante e a sociedade atual é fruto dessa dominância. Mas para Jill não precisa ser sempre assim, a experiência do nirvana estaria contida dentro do cérebro de cada um, seria uma forma de estabelecer conexões com os outros. Para ela, isso não é um milagre, mas ciência. Desde o episódio, a pesquisadora tem sido contactada por uma série de grupos religiosos que buscam nela uma confirmação espiritual. Mas para ela, religião não passa de uma “história que o hemisfério esquerdo conta para o direito”.

Ou seja, para Jill não precisamos de religião para atingir esse estado. Então como fazemos sem ter que sofrer um derrame? Essa é a grande questão dessa história toda e não sabemos a resposta. A pesquisadora está convencida que exercitar o lado direito com atividades visuais como desenho e pintura, diminui a dominância do lado esquerdo. Interessante notar que diversas linhas de meditação também buscam a imersão no presente através de técnicas de respiração.

Chamo a atenção para a prática de Yoga, diversas evidências descrevem esses exercícios milenares como uma efetiva forma de redução dos níveis de estresse. Mas concordo que isso está longe de propiciar o mesmo sentimento que Jill teve.

Como esse tipo de sensação não dá pra estudarmos em modelos animais, temos que coletar diversas ocorrências em humanos para entender quais as conexões nervosas seriam responsáveis por essa experiência. Enquanto isso não acontece, não custa acrescentar uma nova atividade para quebrar a rotina. Pode não te levar ao nirvana, mas com certeza alguma coisa nova você vai aprender.

 APÓS DERRAME, NEUROCIENTISTA ALCANÇA “O NIRVANA”

… A história de Taylor não é comum entre os pacientes de derrames. As lesões no lobo esquerdo do cérebro em geral não conduzem a uma prazerosa iluminação; as pessoas muitas vezes afundam em um estado de irritabilidade constante, e perdem o controle de suas emoções. Taylor também foi ajudada pelo fato de que o hemisfério esquerdo de seu cérebro não foi destruído, e isso provavelmente explica porque ela conseguiu se recuperar plenamente.

Hoje ela se diz uma nova pessoa, capaz de “penetrar a consciência de meu hemisfério direito” sempre que assim deseja, e de ser “uma com a totalidade da existência”. E ela diz que isso nada tem a ver com a fé, e sim com a ciência. Taylor oferece profunda compreensão pessoal a algo que havia estudado por muito tempo: a grande diferença entre as personalidades das duas metades do cérebro.

O hemisfério esquerdo em geral nos fornece contexto, ego, tempo, lógica. O hemisfério direito nos oferece criatividade e empatia. Para a maioria das pessoas de fala inglesa, o hemisfério esquerdo, que processa a linguagem, é dominante. A percepção de Taylor é que isso não tem necessariamente de ser verdade.

A mensagem dela, a de que as pessoas podem escolher viver uma vida mais pacífica e espiritual deixando de lado a porção esquerda do cérebro, atrai muita gente.

Em fevereiro, ela palestrou na conferência TED, sobre tecnologia, meio ambiente e design, um fórum anual para a apresentação de idéias científicas inovadoras. O resultado foi eletrizante. Depois que sua palestra de 18 minutos foi postada no site da TED, ela se tornou uma espécie de celebridade instantaneamente.

Mais de dois milhões de pessoas assistiram ao vídeo, e mais de 20 mil ao dia continuam a fazê-lo. Ela também concedeu uma entrevista veiculada no site de Oprah Winfrey e foi escolhida como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo em 2008, pela revista Time.

Também recebe mais de 100 e-mails de fãs ao dia. Alguns deles são cientistas especializados no estudo do cérebro, fascinados com o fato de que uma colega tenha sofrido um derrame e agora tenha podido retornar e traduzir essa experiência nos termos que eles estão acostumados a empregar. Outros são vítimas de derrames ou profissionais de saúde que trabalham nessa área, interessados em contar suas histórias e em agradecê-la pela franqueza.

Mas muitos dos que a procuram têm interesse em fenômenos espirituais, especialmente budistas e praticantes de meditação, para os quais a experiência pela qual ela passou confirma sua crença de que existe um estado de alegria ao qual se pode chegar.

Taylor decidiu estudar o cérebro – e obteve um doutorado em ciências com especialização em neuroanatomia -, porque seu irmão enfrentava uma doença mental e sofria ilusões de que estava em contato direto com Jesus. E de seu antigo laboratório de pesquisa em Harvard, ela continua a falar em defesa das pessoas mentalmente doentes.

Mas reduziu sua carga imensa de trabalho. Ela vive em beco arborizado a alguns minutos de distância da Universidade de Indiana, onde fez seu curso de graduação e onde hoje leciona na Escola de Medicina.

O vestíbulo da casa está pintado de uma cor púrpura intensa. Ela recebe os visitantes com abraços calorosos e, quando fala, seus olhos de um azul pálido não se desviam dos olhos de seus interlocutores. Solteira, ela vive com seu cachorro e dois gatos, e não hesita em definir sua mãe, 82 anos, como sua melhor amiga.

Taylor diz que escreveu suas memórias porque acredita que haja muito de aproveitável em sua experiência, no que tange à recuperação de pacientes de trauma cerebral.

Quanto a questões mais sérias, como a paz mundial, ela diz que não sabe como atingi-la, mas acredita que o hemisfério direito do cérebro possa ajudar – ao menos foi o que disse na conferência TED. “Creio que quanto mais tempo usarmos os circuitos de paz de nosso hemisfério direito, mais paz projetaremos no mundo, e mais pacífico será o planeta”. Quase parece ciência.

 

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times 

 

 

(PESQUISA) NÓS E O DANIEL DANTAS SUBIMOS!- por walmor marcellino

MARGINALIDADES E VERTICALIDADES

 

Evoé! Mais 20 milhões de pessoas (completando 86 milhões de brasileiros em êxtase, ou 46% de pessoas vívidas) subiram de classe e já estaríamos ameaçando avalanchar (aluir) as classes de cima. O socialismo bate às portas do mercado nacional, corroendo a acumulação capitalista-especulativa e desenfreada dos 10% mais ricos (oligarcas, aristocratas, plutocratas, com a sua “elite” sebácea apensa nos estamentos administrativos e burocráticos do Estado). E quem está provocando esse terremoto? A doutrina social-nacional do nosso Partido dos Trabalhadores guiada pelos timoneiros Luiz Inácio Lula da Silva-Henrique Meirelles-Guido Mântega, que tiveram três eurekas: a continuação das políticas neoliberais de Fernando-Henrique, o superávit primário e as reformas sociais lentas em homenagem ao Betinho.

Anunciam-me, com atestado estatístico do IBGE, que as classe D e E estão desaparecendo e que eu também ingressei numa elite social de renda (embora nem econômica nem política, logo sem florescência social) através da caracterização que nos fazem as agências de propaganda como cidadãos-clientes de mercado, ou consumidores de eletrodomésticos móveis e imóveis. Imaginam que até eu possa comprar um Mercedes Benz em fixos de 60 meses, se der uma entrada de R$50 mil!

Fiquei exultante de patriotismo e de satisfação-Brasil, pois que agora vamos enfrentando os inimigos nacionais que sempre estiveram a serviço do imperialismo* (como esses Dantas, Lalaus e Mendes exportadores de juros, royalties e lucros e com retornos em forma de capital, sem ônus fiscal), as oligarquias dos grilos e latifúndios, os manipuladores de agronegócios, os especuladores rentistas das bolsas do presente e dos futuros; enfim os vis detratores dessa grande frente social-trabalhista-nacional, porque alcançamos democraticamente o poder político-administrativo e ameaçamos assumir o poder real das instituições em sua práxis política.

Vou exultante de um lado e meio ressabiado de outro, pois me preocupa que os 10% mais ricos também estão rindo muito. Um deles me provou, debochadamente, que nunca ganharam tanto para cima e para os lados (vertical e horizontalmente) como nos últimos anos; e chegou a dizer-me: “Adoro essa carta náutica do PT. Temos plena confiança no comandante-piloto e em seus imediatos. Assim, nada como um dia depois do outro; motor à vante, como se diz: velas soltas, vamos vencendo procelas e rebojos, sucessivamente”.

 

(* No “Brasil de Fato”: A Associação dos Engenheiros da Petrobrás denuncia a presença de agente da Halliburton (EUA) nos quadros da Agência Nacional do Petróleo, administrando seu banco de dados e produção).

 

Curitiba, 7/8/2008

 

 

segundo a pesquisa da corte mudei de classe. como vou pra casa?

ilustração do site.

 

LEONARDO MEIMES comenta em ” A CRIANÇA E O PRAZER DE LER”

COMENTÁRIO:

LEONARDO MEIMES

 

Muito bom. O trabalho que os professores tem feito com a literatura têm literalmente MATADO a leitura. Os professores de língua portugesa tem que perceber que a leitura é a parte principal do aprendizado da língua, não só a leitura da literatura mas em geral. Já é mais do que óbvio que só saber falar, escrever e ler não forma um bom leitor. O contato constante coma leitura é a única forma de realmente praticar o que se aprende. E importante a o uso da literatura como pretexto para ensinar gramática deve ser PROIBIDO. Assim o professor acaba matando a literatura que tem um poder estético intrinseco, artístico e isto é que deve ser mostrado a criança. A literatura de entretenimento tem nesta prática o papel mais importante, leitores não são formados lendo os clássicos. Primeiramente é necessário um contato com leituras fáceis e divertidas para depois e aos poucos se introduzir leituras mais complexas. Obrigada pela contribuição Graziele. é sempre importante relembrar a todos que a literatura é um objeto do prazer de ler e não da obrigação de ler para passar de ano ou no vestibular.

 

veja o tema: AQUI

KEVEN comenta em “COMO ACABAR COM A VIOLÊNCIA NA ESCOLA”

COMENTÁRIO:

KEVEN

1.      A violência na escola
Os meios de comunicação audiovisual, não raras vezes retratam acontecimentos violentos protagonizados pelos alunos nas escolas. De facto, “inverteram-se os papéis; os métodos violentos de alguns professores eram tradicionalmente mais frequentes no mundo escolar: castigo físico, humilhações verbais…” (Fermoso: 1998:85). Actualmente, os professores não podem exercer qualquer tipo de castigo aos alunos sob pena de sofrerem sanções disciplinares, mas e os alunos? Que perfil apresentam os adolescentes que se envolvem em actos de violência nas escolas portuguesas?
Um estudo realizado em 2001 por Margarida Matos e Susana Carvalhosa baseado em inquéritos a 6903 alunos de escolas escolhidas aleatoriamente, com as idades médias de 11, 13 e 16 anos, analisaram a violência na escola entre vítimas, provocadores (incitação na forma de insulto ou gozo de um aluno mais velho e mais forte do que o outro) e outros (similarmente vítimas e provocadores) demonstram os seguintes dados bastante curiosos:
o Mais de metade dos alunos inqueridos são do sexo feminino (53.0%);
o 25.7% dos jovens afirmaram terem estado envolvidos em comportamentos de violência, tanto como vitimas, provocadores ou duplamente envolvidos;
o As vítimas de violência são maioritariamente masculinas (58.0%);
o Os inqueridos que se envolveram em comportamentos de violência em todas as suas formas situavam-se nos 13 anos de idade;
o Os jovens provocadores de violência são aqueles que têm hábitos de consumo de tabaco, álcool e mesmo de embriaguez. Também são os que experimentaram e consumiram drogas no mês anterior à realização do inquérito;
o Quanto às lutas, nos últimos meses anteriores ao inquérito, 19.08% dos jovens envolveram-se em comportamentos violentos;
o Os vitimados pela violência, são os que andam com armas (navalha ou pistola) com o intuito da sua própria defesa;
o Os adolescentes que vêem televisão quatro horas ou mais por dia são os que estão mais frequentemente envolvidos em actos de violência;
o As vítimas e os agentes de violência não gostam de ir à escola, acham aborrecido ter que a frequentar e não se sentem seguros no espaço escolar;
o Para os actores de violência a comunicação com as figuras parentais é difícil;
o 16.05% das vítimas vive em famílias monoparentais e 10.9% dos provocadores vive com famílias reconstruídas;
Quanto aos professores, os alunos sujeitos e alvos de violência consideram que estes não os encorajam a expressar os seus pontos.

 

veja o tema: AQUI

Ser-âmica – poema de cleto de assis

Matéria arrancada do ventre da terra

Vem a minhas mãos para ser amassada

                                    obediente

                                    mentalizada

                                    moldada

                                    torneada

                                    formada.

 

Com as pontas dos dedos

                                     pressiono

                                     pressinto

                                     imagino

                                     rezo

                                     me deifico.

 

Ela se forma na deformação

                                     indolente

                                     dolentemente

                                     ardilosamente

                                     argilosamente.

 

E só terá sentido se abandonar a brandura

                                     a ternura

                                     a suave textura

                                     para, dura,

                                     cingir-se em definitiva arquitetura.

 

Para cumprir teu destino, acrisola-te no fogo.

Tu és pedra: e sobre teus cacos construo a minha vida.

 

Curitiba – 10.jan.2008