TRADIÇÃO E RUPTURA: A Lírica Moderna de Nauro Machado – por joão batista do lago

TRADIÇÃO E RUPTURA: A Lírica Moderna de Nauro Machado

 

© DE João Batista do Lago

 

Desde que ganhei um exemplar deste livro – TRADIÇÃO E RUPTURA: a lírica moderna de Nauro Machado –, que me foi ofertado pelo protagonista do mesmo, o poeta maranhense Nauro Machado, esta é a quinta leitura que acabo de realizar. Leitura e releituras que me renderam significativas notas! Há tempo queria sobre isto falar alguma coisa, mas sempre relegava para o futuro sem me dar conta de que, escrever sobre este livro é uma exigência; mas, ao mesmo tempo, uma operação difícil de executar, pois, o seu autor, Ricardo Leão, se não esgotara o assunto deixara muito pouco por ser dito. A pesquisa feita por Ricardo Leão é de uma profundidade epistemológica insuperável, além do que, a metodologia da sua analítica me soa bem ao espírito e a alma: a fenomenologia, que reduz ao máximo os enfoques psicologistas.

 

Tenho em conta ser o ludovicense Nauro Machado o maior poeta da língua portuguesa brasileira. Maior que seus conterrâneos Sousândrade, Gonçalves Dias ou Ferreira Gullar, por exemplo; maior que seus compatriotas Carlos Drumond de Andrade, Manuel Bandeira ou Affonso Romano de Sant’Anna, por exemplo. Isto não significa dizer que estes não tenham valor literário. Ao contrário: têm-no até demasiadamente. Contudo significa destacar e enfatizar que a poética de Nauro Machado supera quaisquer dos citados. E o livro de Ricardo Leão [aos meus olhos] vem provar exatamente isto.

 

Para além do resgate que faz da obra poética de Nauro Machado, Ricardo Leão restabelece “uma” verdade que, ainda hoje, está escondida sob o domínio de uma aculturação imperativa e imperialista do eixo Rio-São Paulo. Aculturação que produz e reproduz o conceito do colonizador sobre o colonizado, do ponto de vista da literatura brasileira. “Esse trabalho de Ricardo Leão é de significativa importância não só porque representa, para a cena crítica acadêmica e para o leitor da boa poesia, um poeta de larga produção qualificada, como Nauro Machado, mas também porque recoloca a reflexão, um tanto adiada, do fazer poético da contemporaneidade” [grifo meu] – (Valdelino Soares de Oliveira, professor de Teoria Literária da Universidade Estadual Paulista).

 

Ricardo Leão não mediu a extensão do fôlego. Não teve medo. Fez imersão na obra nauriana de tal profundidade que desconheço trabalho idêntico. E digo sem medo de, aqui e agora, fazer qualquer exageração que TRADIÇÃO E RUPTURA: a lírica moderna de Nauro Machado é um livro indispensável para quem quer, honestamente, estudar a literatura brasileira sem apelos de regionalismos ou submisso a uma indústria cultural bajulatória e concentradora de mesmisses que conspurcam a inteligência, o pensamento e as artes literárias daquilo que “eles” chamam de “o interior do Brasil”. Afirmo que qualquer estudo que se realizar no campo da literatura nacional e não se fizer menção a este livro, nada está (ou se considerará) completo, posto que, faltará sempre esta verdade sobre a poética de Nauro Machado.

 

E para finalisar resgato uma questão levantada pelo autor de  TRADIÇÃO E RUPTURA: a lírica moderna de Nauro Machado: “que fato de natureza literária ou não, explica a ausência de consagração absoluta em torno da obras de Nauro?” (p. 224). Ricardo Leão enumera e discorre sobre algumas nuanças para responder a esta pergunta. Todas factíveis. Todas prenhes de respostas ainda não dadas. Pessoalmente tenho outras tantas nuanças que poderiam ou podem ser enumeradas (o que não é o caso presente), mas a principal delas [aos meus olhos], não tenho qualquer dúvida, reside no seguinte fato: Nauro Machado jamais baixou a cueca para o eixo Rio-São Paulo, construtor de mitos de barro… de igrejinhas… de curriolas… Enfim, Nauro Machado, jamais quis sair do seu torrão, da sua São Luis,  da sua Atenas, para integrar os círculos de comensais circulatórios e circundantários de uma indústria cultural voltada para si mesma.

 

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FICHA TÉCNICA

 

Martins, Ricardo André Ferreia (Ricardo Leão)

Tradição e Ruptura: a lírica moderna de Nauro Machado / Ricardo André Ferreira Martins (Ricardo Leão. São Luis: Fundação Cultural do Maranhão, 2002. 388 pp.

Livro impresso pela Indústria Gráfica e Editora LITHOGRAF. End.:  Av. Ferreira Gullar, 40 – São Luis – Maranhão.

Fone: (0xx98) 3235-2082

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Uma resposta

  1. Nauro Machado
    O Signo das tetas (1984)

    PROCTOLOGIA

    Só a fala do Homem
    crucifica o Verbo.
    Só o hálito do Homem
    – suas rosas, suas vísceras –
    sopra o ânus do eterno.
    No alto desse abismo
    se executa Deus.

    (Beber à saúde
    dessa enfermidade!)

    SINAL DA CRUZ

    Porque tudo é intransferível
    minha vida também o é.
    Nada pertence a outro nada.
    Nenhuma coisa a outra chega,
    sem que se cumpra o dia igual.

    alheia é a nuvem à sua idéia.
    Alheio é o espelho à sua imagem.
    alheia é a rosa à sua origem.
    Só o homem tem por raiz
    a semelhança da flor.

    A fatalidade é minha.

    AFOGAMENTO

    Se aos náufragos uma bóia
    lhes atira o comandante,
    à minha alma, que é jibóia
    enroscada como jóia,
    resta o corpo, dela amante.
    E este corpo, que lhe é bóia,
    sem nenhum Pai ou Comandante,
    e este corpo lhe bate e mói
    a eternidade minguante.

    Manhã de azul, manhã pássaros:
    afundei em mim! Sou meus braços
    caindo na água.
    Descendo…

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