Na década de 80, começaram a ser elaborados os PPPs (Projeto Político Pedagógico) que incluíam as novas concepções de linguagem e de aquisição do sistema com base nas teorias lingüísticas que estavam em evidência. A partir desta época a escola já teve mais de vinte anos para compreender e aplicar essas novas teorias, porém o que se vê é que, tanto os professores quanto as escolas, não conseguem fazer uma prática pedagógica de ensino de língua e leitura eficaz.
O interacionismo e o letramento são duas teorias que vieram ao encontro da necessidade de um entendimento mais compreensivo da língua e ambos são respaldados pelos estudos iniciados há muito tempo pelos cientistas da linguagem (os lingüistas). O interacionismo tem como princípio o fato da linguagem ser fruto de uma interação, através das três práticas discursivas (a escrita, a fala, a leitura), portanto o texto deve ser o principal objeto de estudo da disciplina de língua portuguesa. A compreensão insuficiente trazida pelas abordagens anteriores, de língua como código ou de língua como representação do pensamento, criou problemas que hoje são evidentes na formação de nossos alunos. Percebemos que o conhecimento só do código, dos meios pelos quais a língua se organiza e concretiza (das gramáticas), é insuficiente para que um falante faça um uso efetivo das três práticas. O que se vê nas gerações que foram alfabetizadas priorizando a estrutura da língua, com exercícios de análise gramatical descontextualizados é uma grande porcentagem de pessoas que sabem ler e escrever, mas não tem o domínio necessário destes meios (os chamados analfabetos funcionais). Essas pessoas conhecem o código, o decoraram, mas não conseguem usá-lo para uma interação social efetiva. A partir disso, pode-se perceber que no aprendizado da língua existem duas faces, como a professora doutora em educação Magda Becker Soares define, que são inseparáveis e necessárias.
A primeira face, a de aprendizado do código (da estrutura da língua), é aquela em que o falante aprende a passar a linguagem de sua forma fonológica (fala) para a ortográfica (escrita). Este processo, chamado de alfabetização, é hoje visto de forma diferente, o aluno não aprende mais repetindo e decorando as informações, como na escola tradicional, o trabalho deve ser conduzido de forma que o aprendiz seja estimulado a agir e pensar sobre a língua. Sendo essa uma ação pedagógica muito mais voltada para a proposta atual dos PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) e diretrizes, que prevêem uma ação de uso-reflexão-uso sobre a língua. O aluno vê como a língua é usada, ou percebe na fala, tem a oportunidade de criar hipóteses sobre a organização dela escrevendo e após isso reflete e reorganiza o que produziu. Agindo e interagindo dessa forma com a língua o aluno terá um aprendizado mais duradouro do sistema em questão. Seus “erros” nesta visão são considerados etapas de entendimento do sistema, em que ele está supondo soluções para a transcrição da fala. É também importante ver que nesta etapa o aluno já tem conhecimento sobre o sistema pela fala, portanto o que está aprendendo não é algo novo é apenas uma nova forma de representação do que ele já conhece. Ativar esse conhecimento prévio pode ser o gancho procurado para fazer a relação entre a linguagem oral e escrita, aumentando a compreensão do aluno e do professar sobre elas.
A segunda face, citada por Magda (SOARES, M. B. Aprender a escrever, ensinar a escrever.) é a de aprendizado das formas textuais e da produção de textos. No entendimento interacionista da língua, o texto, seja ele oral ou escrito, é visto como uma enunciação e isso muda profundamente a prática da produção de textos. Até hoje se vê aulas de redação em que o aluno é impelido a escrever sobre temas que não são de seu interesse, usa formas textuais comuns, produções controladas e pouco diversas. Este tipo de atividade com o texto não estimula a produção do aluno e o afasta do texto. As produções devem ser espontâneas, permitindo que os alunos escolham temas ou escrevam sobre o que é de seu interesse, porém a maior mudança ocorre no motivo e preparação para a produção. Na prática tradicional de produção textual, as “redações escolares” são produzidas para serem lidas pelo professor e corrigidas apenas gramaticalmente de forma resolutiva. Ao contrário, se o professor devolver os textos para que os alunos possam reescrevê-los e ajudá-los a melhorar a adequação do texto aos padrões requeridos pelo contexto, a produção textual é mais efetiva. Para que isso aconteça, a própria proposta de produção deve ser diferenciada e explicativa. O aluno deve saber porque, como, para quem e quando o texto está sendo produzido, sendo assim capaz de adequar sua produção ao leitor (quem), ao gênero (como), à formalidade, momento histórico e outros fatores que influenciam na produção. Para estimular essa produção o professor deve propor uma situação real de produção e publicação, seja na escola, na Internet ou outro meio, a produção dos alunos têm de ser real em seu sentido de interação. A partir disso, na correção dos textos o professor deve se preocupar com a adequação dos textos ao proposto, o “erro” de novo não existe e passa a ser uma falta de adequação a proposta escrita ou ao gênero e situação. Ainda, para que o aluno tenha uma produção de textos adequada é necessária a leitura, o conhecimento dos gêneros, discussão e produção textual tanto pelo aluno quanto pelo professor. Somente em contato com textos diversos de revistas, jornais é que o aprendiz conseguirá ultrapassar a “barreira” de alfabetizado e entrará no mundo dos letrados, podendo agora agir socialmente com o sistema aprendido e estudado. Essa segunda face foi chamada de letramento por Mary Kato em 1985 (Kato, M.A. O Aprendizado da Leitura).
O trabalho com as duas faces do ensino de língua é necessário para que o aluno aprenda a transitar pelos sistemas de texto e seja mais do que um alfabetizado. Segundo Magda Soares (SOARES, M. B. O que é Letramento.) “Já não basta aprender a ler e a escrever, é necessário mais que isso para ir além da alfabetização”. Quando o trabalho prioriza uma das partes o aprendiz sente a falta da outra, pois assim como existem alfabetizados que não sabem ler e escrever adequadamente, também existem os letrados que não são alfabetizados, pessoas que não conhecem o código. Para tanto é necessário que os professores e alfabetizadores tenham conhecimento dessas teorias, saibam passá-las para a prática de uma forma efetiva e tenham o apoio da escola. Os projetos pedagógicos já consideram a abordagem interacionista, mas não conseguem fugir da prática tradicional porque os professores também não conseguem.
Quem hoje leciona português tem, muitas vezes, uma falha na formação, na qual não foram contempladas as teorias lingüísticas e interacionistas, muito menos o letramento. Apesar da maioria dos cursos de letras já trabalharem com as teorias lingüísticas, os cursos de pedagogia e magistério, que formam os alfabetizadores, ainda não as consideram. Como resultado, nossos educadores estão desatualizados e os que têm conhecimento teórico encontram dificuldades em transpor para a prática o que é visto nos livros. Muitos se sentem confusos sobre como trabalhar com o texto e com a gramática em uso de uma forma única e outros não sabem como fugir da alfabetização usando as “cartilhas”. As escolas ainda não têm, em sua maioria, bibliotecas adequadas e os materiais didáticos priorizam um ensino de gramática descontextualizado, faltando o contanto necessário com o texto para que professores e alunos mudem essa prática
Enfim existem muitas barreiras a serem transpostas e derrubadas no caminho de um ensino de língua mais eficaz. A formação de professores e alfabetizadores deve ser melhorada e continuada, as escolas devem atentar-se ao que seus professores tem feito nas salas de aula e devem assegurar aos alunos o acesso aos textos necessários ao seu aprendizado. Uma prática boa do letramento e da alfabetização pode nos presentear ao longo prazo com jovens e adultos que serão leitores e escritores ativos e eficazes, retirando nosso país da lista dos países menos letrados do mundo.

Publicado por jéssica em Novembro 26, 2008 10:33 am às 10:33 am
Olá,estou fazendo uma pesquisa para a faculdade sobre os 10 paises mais alfabetizados do planeta,pOrém não encontro esses dados em nenhum site.
Publicado por Leonardo Meimes em Novembro 28, 2008 9:31 am às 9:31 am
http://www.ibge.gov.br/paisesat/
No site acima, do IBGE, você encontra informações sobre muitos países. É só clicar em português, abrirá um pop-up, deixa carregar e vai no tópico indicadores sociais.
=)
Publicado por Leonardo Meimes em Dezembro 1, 2008 21:05 pm às 21:05 pm
O site do IBGE tem um mapa mundi com tudo. Dê uma olhada.
Publicado por carlos eduardo em Março 21, 2009 11:45 am às 11:45 am
É com tristeza que vejo que muito pouco mudou nas escolas,e que tudo indica teremos muito analfabetos funcionais no futuro,o governo finge que se importa,a escola tenta se importar…e os professores…coitados travam uma batalha sem fim,sem recurços,sem um local adequado para lecionar,sem material didático apropriado…dessa forma como não teremos analfabetos funcionais?