O (A)PARTO DO POETA
Ofertório-dor é um desses escritos que só ocorrem de 10 mil em 10 mil anos. É um parto de dor apartado de si. É um parto de tanta dor, que dói na alma de qualquer vivente que dele venha tomar conhecimento… e lê-lo… e senti-lo… e deixar-se conduzir num parto apartado do ser que se pretende por alguma via encontrar o centro do divino.
Esta poesia de JB Vidal é um levante contra o ser e o não-ser.
Paradoxal inferição que me ocorre, pois, logo ele, que se pretende para além de si, grita seu inferno dantesco de forma tão pungente que se nos revela a oikós onde se “instalou nessa podridão”, ou seja, neste espaço
tempo de nossas existências, que na síntese é a presencialidade do ser no poeta que tenta se organizar no interno centro do divino do seu exílio caótico.
Já nesta primeira estrofe ele se nos oferece a dor após rasgar com
violência anti-humana o seu centro do divino, isto é, arromba com
violência o seu útero eterno sem pai e sem mãe e deblatera o mais
recôndito do seu inferno existencial, como se quisesse ampliar neste
nascer-se as vozes de Nietzsche e Kierkegaard.
Mas o mais genial desta poesia são as duas estrofes centrais, onde o
autor se nos revela todos os tecidos e fibras que fazem parte do
corpo-útero, espermas e óvulos, símbolos e sons, discursos e
proselitismo retórico, forma e conteúdo, deste poema que deixa de ser
fala para se transformar em linguagem, onde atinge, aí sim, o centro do
divino e se faz sujeito… e se constrói, aliás, se reconstrói num
lamento em sujeito-sujeito, uma espécie de deus ou lúcifer, que grita o
tempo inteiro para dizer: “eu existo; eu sou… e só eu sou”. De certa
maneira há aqui um kantianismo infantil, mas exuberante porque nos faz,
de fato, pensar. E pensar não é coisa de humano, mas de anti-humano ou
de antideus ou antidemônio. Permita-me, o poeta, repetir aqui esses
belíssimos versos:
soube então da dor de parir
e parido fui,
da dor da fome e fome senti
da dor do sangue e o sangue correu
em minha’alma gnóstica
a dor assumiu e sobreviveu
quero então oferecer
esta dor maior que o corpo
mais que desprezo e humilhação
mais que guerras e exploração
mais que almas aleijadas
mais que humanos em farrapas degradação
Já o ofertório-dor propriamente dito, ou seja, a última estrofe, aos
meus olhos, é uma construção inconclusa. Mas penso que aí reside a
maldade-bondade da oferta deste poeta deus-demônio de si, que tem a
coragem de si rasgar e de si parir como o caos que faz e constrói
sujeitos do ser. Ei-la:
ofereço a dor do amor que amei
da partida sem adeus
da saudade sem sentir
da espera inquietante
do futuro irrelevante
da ânsia divina de morrer




Digna crítica para um digno poeta.