
Não há quem não elogie Curitiba por seu perfil europeu, sua civilidade plena de cortesias, sua face organizada de Brasil que dá certo. Claro, como ninguém é perfeito, falta o mar, o cheiro das ostras e maresias uma ausência tão sentida que, para nós, Curitiba quer dizer ostracismo.
O que ninguém sabia é da existência de uma Curitiba secreta, cheia de cerebrinas histórias, bares e restaurantes memoráveis – entre os quais o da empreiteira que inaugurou uma casa de pasto num buraco, comemorando a canalização de um rio na Rua Voluntários da Pátria.
Não é piada do Dante Mendonça, o neotrentino catarina que é hoje o mais celebrado chargista-escritor da terra do Vampiro. A empreiteira organizou um churrasco dentro das canaletas do riacho, ainda a céu aberto. E convidou as “otoridades” para o faturamento de praxe. O eterno prefeito de Curitiba, Jaime Lerner, confessa o seu estupor:
— Quando vi onde seria o churrasco, levei um susto. O povo passava acima, ao nível da rua, e eu devorando uma picanha num túnel de lama!
O ex-prefeito, gourmet de fina linhagem, recomenda “Curitiba. Melhores defeitos, Piores qualidades” como o saboroso cardápio “à la carte” da bela e – seria verde? – capital paranaense. Curitiba, ensina Dante, não tem uma única cor, mas várias. Seu livro é um “intensivão” sobre os meandros da variada alma da “Potylândia” – ou você não sabia que nasceu e morreu em Curitiba o maior ilustrador gráfico do Brasil, o mitológico Napoleón Potyguara Lazzarotto (1924-1998), o “Poty”, bico de pena predileto de Gilberto Freyre, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, José Américo de Almeida, Mário Palmério e Raul Bopp?
Os painéis de Poty estão no aeroporto, nos mercados, nos parques, nos monumentos históricos. “Numa cidade em que os artistas se tornam invisíveis, Poty é o artista mais visível de Curitiba”.
Flagrado no tal churrasco subterrâneo, o grande prefeito, que fundou a nova Curitiba, oferece seu selo de qualidade ao livro, como se ele fosse a surpreendente “sobremesa” daquele churrasco:
— O livro é um delicioso passeio pela história de Curitiba. Leitura obrigatória para curitibanos e não curitibanos, neotrentinos incluídos.
O autor, que já nos obsequiara com um verdadeiro “Tratado do Bem Beber”, um “Berlitz” sobre as linguagens do bar e de seus tipos, coloca na prancheta as “almas” – a ostensiva e a secreta – de uma cidade que seduz aos poucos, revelando os seus segredos apenas àqueles que merecem essa “Eureka”.
Como o vampiro Dalton Trevisan, Dante admite que “às vezes dói morar em Curitiba”, mas como é tão milagreiro quanto a Santa Paulina de Nova Trento, o autor descobre que há até sol na sua terra de adoção…:
— Sim, há sol em Curitiba. Mas somos a única capital brasileira onde os ouvintes ligam para as rádios reclamando porque o tempo vai melhorar…
Vou amanhã a Santo Antônio de Lisboa, debaixo de um sol adriático, e à beira de uma fazenda de ostras, comprar o instigante livro do Dante Mendonça, desvairada declaração de amor a Curitiba.
Afinal, se a vizinha capital não é o Paraíso, não deixa de ser um excelente “Limbo”.
Sérgio da Costa Ramos
17/04/09



