OS TRÊS GRANDES por hamilton alves / florianópolis

É comum críticos literários considerarem Machado de Assis, João Guimarães Rosa e Graciliano Ramos como sendo o trio de ouro da literatura nacional. E o são, na verdade. Mas Graciliano é o menos destacado dos três. Ou que tem uma obra um pouco inferior em qualidade. “Angústia” é chatíssimo. Segue a linha da estética do século 19. “Caetés” é simplesmente soporífero. Como pode merecer destaque entre os livros do escritor alagoano. “Memórias do Cárcere”, que conta toda a travessia que fez de Alagoas até o Rio num navio de carga, preso pela polícia de Getúlio, é outro livro mal estruturado, que li (não fui ao fim, foi-me impossível) boa parte aos trancos e barrancos. Antonio Cândido deve ter adorado todos eles pelo simples fato de ser correligionário de Graça. E comungar de seus ideais políticos.

Há uma exceção na ruindade da obra de Graciliano e eminente exceção, diga-se. É sua pequena novela de pouco mais de cem páginas, “Vidas Secas”, que Nelson Pereira dos Santos transformou numa das melhores fitas do cinema brasileiro.

Rubem Braga lhe batizou com um nome que pegou – a novela desmontável. Pelo fato que pareceu ao Braga que todos os capítulos separados tinham sua própria autonomia e mais pareciam contos que uma novela.

Outros críticos disseram coisa semelhante.

Acho “Vidas Secas” uma novela perfeita. Tenho uma edição (ou duas) dela. Nem me lembro as editoras (ou uma só editora) que a lançou, com um prefácio (ou posfácio) de Etelvino Lins, que vai ao fundo de sua estrutura.  Ou de sua elaboração lenta, mas cuidada.

No entanto, Graça tinha por ela total desapego. Teria dito mais ou menos o seguinte quando a publicou:

- Não vale nada.

Tal declaração revela quanto um autor sabe pouco ou não sabe nada às vezes da qualidade de seu trabalho. Não foi a primeira vez que um artista fez tal declaração menoscabando sua obra. Van Gogh foi um desses grandes artistas que não tinha nenhuma dúvida sobre a desvalia de suas telas.

- Meus quadros não têm valor. – disse ele (Cartas ao Theo).

“Vidas Secas”, no entanto, já teve repetidas edições. Alcançou um sucesso estrondoso, mais do que qualquer outro livro de Graça.

Coloco essa novela em igualdade com outras famosas: “O Velho e o Mar”, de Hemingway, “Pedro Páramo”, de Juan Rulfo, e ainda “O estrangeiro”, de Camus, além de outras que poderia citar, de igual estofo.

Em valor literário, essa pequena novela (tipicamente novela, como entendemos ou distinguimos o gênero no Brasil) se destaca na literatura brasileira como, talvez, um acontecimento único. Dizendo de forma diferente, não há outra que se lhe compare, a não ser que se admita que “O alienista”, de Machado de Assis, não seja conto mas também uma novela de poucas cinquenta páginas, como a considero.

Dá impressão ao leitor, ao findar sua leitura, – e o faz com inigualável deleite – que acabou de ler algo em que seu autor se esmerou ao máximo de suas possibilidades para traçar um quadro perfeito de um problema social e regional dos mais pungentes – a seca do nordeste, que dizima há séculos com aquela pobre gente, que ainda hoje, sem nenhuma iniciativa do poder público, sofre seus terríveis efeitos.

Fabiano, Sinhá Vitória e a cachorra Baleia são o triste retrato de uma região desolada pela miséria, pela degradação humana, ao mesmo tempo que, como dizia Euclides da Cunha, revelam que o sertanejo é, antes e sobretudo, um forte.

“Vidas Secas” é um monumento da literatura nacional.

9 Respostas to this post.

  1. Publicado por manoel de Andrade em Julho 5, 2009 11:14 am às 11:14 am

    Caro Hamilton, realmente “Vidas Secas” é um monumento da literatura nacional, e também quando você a coloca em igualdade com outras famosas que você citou, das quais fico com o “Velho e o Mar”. Contudo se falarmos da novela mais perfeira da literatura universal, eu não sou o único a ficar com “A morte de Ivan Ilitch” de Leon Tolstói. Se você ainda não leu, fica aqui minha sugestão acompanhada do meu fraterno abraço…, Manoel

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  2. Publicado por hamilton alves em Julho 5, 2009 11:37 am às 11:37 am

    Manoel (és por acaso meu amigo Manoel Andrade?),

    já li, sim, nem poderia deixar de lê-la a enormíssima novela de Tolstoi, “A morte de Ivan Ilitch”. Não foi apenas uma única vez, mas perdi já a conta de quantas vezes a li. Tenho seguramente uma meia dúzia de edições diferentes (óbvio) dessa novela, que Otto Maria Carpeaux elegeu como a mais bela novela já produzida na literatura universal.a última vez que a li resultou de uma edição, conseguida num sebo por um amigo, que ma (“ma” é dose num domingo) presenteou. abraço. hamilton

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  3. Publicado por Tonicato Miranda em Julho 5, 2009 16:43 pm às 16:43 pm

    Hamilton Alves, infelizmente ainda não cruzamos nossos andares por estas terras sulinas. Ou até isto já ocorreu, acidentalmente, mas por não nos identificarmos no olhar os passos seguiram firmes conduzidos para as direções das ditaduras de nossas mentes – vá para lá!!!.

    Já afirmei ao Vidal que não responderia mais aos comentários sobre trabalhos meus postados neste importante “blog” do nosso amigo comum. No entanto, disse também a ele que não me furtaria em fazer comentários sobre pensamentos, obras e idéias postadas por outros autores.

    Quase concordei com você (permita-me assim tratá-lo) em tudo escrito e dito no breve artigo-comentário “OS TRÊS GRANDES”. Interessante observar que ao tratarmos de classificações acabaremos sempre esquecendo alguém, lembrando de um outro e isto logo irá virar polêmica.
    Pois bem, longe de mim contestar os “grandes”, sejam eles quais forem. Penso que há uma unanimidade nacional chamada Guimarães Rosa. Os demais ficariam por conta da inclusão incidenteal: uma hora um, outra hora outro. E digo hora, porque esta é sempre uma questão temporal mesmo. Em 300 anos anos todos estaremos esquecidos. Alguns em 30 anos, ou menos.

    Mas queria falar do Graciliano Ramos, jornalista/escritor, cuja obra foi por você dissecada. Em tudo e por tudo concordo com relação a “Vidas Secas”. Nada há a acrescentar. No entanto, fazer menoscabo de “Memórias do Cárcere” me obriga a ler o livro novamente, para certificar-me de suas palavras e do seu conceito negativo sobre a obra. Por isto, não estranhe se daqui há umas duas semanas voltar a escrever sobre o tema e sobre seu artigo.

    Quanto às novelas, muitas em forma de conto, outras em forma de crônica, acho que tem muita coisa para ser enaltecida além de “A morte de Ivan Ilitch”. Ainda este ano voltei a ler uma coletânea, intitulada “Contos Russos”, organizada por Rubens Braga, que tem muitos contos, alguns são verdadeiros primor como novela literária. Não falo de “O capote” de Gogol, tradução de Vinicius de Moraes; nem tampouco de “Uma noite de outono” de Gorki, tradução de Emil Fahrat; mas sim, de “As facas”, de Valentin Kataiev, tradução de Elsie Lessa; ou de “O ultraje”, de Aleksander Kuprin, tradução de Guilherme de Figueiredo. Pérolas sim. São preciosidades esquecidas da literatura russa que não surfou no ocidente num grande tsunami como surfou entre nós “A morte de Ivan Ilitch”.

    Sem problema, há muita coisa boa no mundo.
    Não temos tantos olhos assim para vê-las. Às vezes não somos mais do que monte de unicórnios e central-olho, na linguagem expositiva/criativa de Jairo Pereira, para enxergar tantas variantes do belo brotando por toda parte.

    De qualquer foram parabenizo a você, Hamilton. O artigo ou texto valeu porque suscitou a polêmica. Mesmo nada podendo ser acrescido como valor qualitativo, valerá mais ainda para mim se a réplica for digna de tréplica. Mas compreenda que apenas me expresso, e não para contestar ou criar novo parceiro de briga. Já estou velho para criar novos inimigos. Ainda mais agora que alguns até já se tornaram suportáveis. Portanto, com todo carinho e respeito deixo a você um grande abraço.

    E uma última observação, para o Vidal, não existe esta história de crônica ou mesmo novela. Para ele tudo é conto. Eu, em respeito a Rubem Braga, que inscrevo junto com Nelson Rodrigues entre os grandes da literatura brasileira, elevar as crônicas do Rubem à condição de conto é deixar de considerar suas virtudes e precisões e seus prórpios tempos. Por isto mesmo geniais ao tempo em que foram lidas. Acho que assim também diria Otto Lara Resende, outro grande mestre cronista.

    TM.

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  4. Publicado por hamilton alves em Julho 5, 2009 18:40 pm às 18:40 pm

    Prezado Tonicato Miranda,

    sinto-me muito honrado de você ter dedicado atenção a minha crônica, na qual falei de uma obra da grandeza de “Vidas Secas”. Não consegui gostar dos outros livros do Graça, especialmente Angústia e Memória do Cárcere. Achei-os ambos enfadonhos, embora tenham, sem dúvida, momentos de boa literatura., Mas bastou essa novela mgnífica para elevar bem alto o nome do escritor alagoano, que foi antes de tudo um homem de bem e de caráter. ou um grande brasileiro, Braga só escreveu crônica. chamar de contos suas crônicas é um insulto a um dos maiores cronistas deste país, senão o maior. volte sempre a falar do que escrevo. grande abraço. hamilton

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  5. Publicado por hamilton alves em Julho 5, 2009 18:51 pm às 18:51 pm

    Tonicato ,

    se você puder me conseguir esses dois contos (ou pequenas novelas) , de autoria de Kataiev, “As faca”, e a outra “Ultraje”, de Alekxander Kuprin (pretendo ter acertado os nomes dos russos), e a referida a Gorky, lhe agradeço muito. mande-me seu e-mail. o meu está junto a este bilhete. abraço. Hamilton

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  6. Publicado por manoel de Andrade em Julho 5, 2009 18:54 pm às 18:54 pm

    Hamilton, sou o impropio Manoel de Andrade, teu irmão, do Tonicado e do Vidal aqui virtualmente reunidos. Tonicato, meu caro, é tudo isso que você citou e mais uma novela notavel do Gogol: O Nariz.. Pessoal, acho melhor organizarmos uma antologia: AS GRANDES NOVELAS UNIVERSAIS NA ÓTICA DOS PALAVREIROS.

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  7. Publicado por hamilton alves em Julho 5, 2009 19:57 pm às 19:57 pm

    tonicato, o nariz, do gogol, tenho duas edições. hamilton

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  8. Publicado por Tonicato Miranda em Julho 5, 2009 22:23 pm às 22:23 pm

    Prezado Hamilton,

    Pensei que saísse automaticamente nosso “e-mail” quando realizamos comentários, mas não. De fato ele somente segue ao Vidal, talvez para ele conferir ou nos dar um puxão de orelhas se nos comportarmos mal.

    Pois bem, meu “e-mail” é antonmir@gmail.com, mas o seu ainda não sei. Não tem problema, quando chegar sua resposta saberei identificar. No momento que vier vou fotografar as páginas do livro que contém os contos solicitados e enviá-las. Farei isto porque se digitá-las, além do trabalho insano, poderia ser processado pelo Editora Ediouro.

    Hamilton, vou usar este seu espaço para fazer um gancho com o Manoel de Andrade. Meu prezado Manoel, não acho que seria oportuno fazer uma antologia de grandes escritores. Penso que se ela for russa nós plagiaríamos o notável livro “Contos Russos – Os clássicos”, da Editora Ediouro, publicado em Novembro de 2004. O livro teve Coordenação e Apresentação do Rubem Braga, Prefácio do Aníbal Machado e Supervisão exatamente do autor que está motivando esta nossa prosa (Graciliano Ramos) que já vai longe, pra mais de umas cinco rodadas de chimarrão velho ou de pito de cachimbo das Minas Gerais à beira do fogo. O livro tem 523 páginas e eu o reli este semestre. Tem 39 contos, incluindo “A morte de Ivan Ilitch” e os outros contos que citei anteriormente. Interessante notar que Rubem faleceu em 1990, outros foram embora até mesmo antes, mas a antologia somente saiu há quatro anos e meio.

    Sobre a polêmica “crônica ou conto”, é claro que concordo sobre a grande diferença entre os dois gêneros. Se para mim “O Alienista” se inscreve como um dos maiores contos da nossa literatura, Rubem Braga – com suas crônicas magistrais, se inscreve como um dos maiores cronistas da nossa literatura. “Crônicas de Guerra na Itália” é um apanhado magistral das suas crônicas da época da guerra. Como correspondente de jornal do Rio ele enviava para todo o Brasil no meio de suas histórias notícias de que José de Passo Fundo ía bem, Carlos de Pomerode estava saudoso de casa… e por aí ele foi narrando suas histórias anisadas de norte a sul pelos parentes dos pracinhas. Ou seja, passava o estado da arte em duas dimensões: na literatura e na sobrevivência física. Maravilha.

    Mas não somente Rubem foi magnífico, tivemos Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Drummond (o grupo mineiro), e tantos outros do Rio, de Recife. Hoje, estamos um pouco limitados ao genial Veríssimo e alguns outros mais que preferia não citar nomes para não ferir suscetibilidades e ser traído pela memória falha.

    Sobre novela… esta é uma outra história.
    E aqui vai um pedido de desculpas ao Vidal por estar usando o espaço como ponto de correspondência.

    Grande Abraço.
    TM

    ET: Acho que este “blog” do Vidal já possui um acervo fabuloso que não seria difícil peneirar uns dez livros, separados por gêneros ou mesmo colocados num grande almanaque, ao estilo do velho Pasquim, onde muitos autores e artistas plásticos estariam presentes. Quem sabe quando ele chegar ao seu terceiro ano de vida o Vidal não se anime com essa empreitada?

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  9. Publicado por hamilton alves em Julho 6, 2009 9:17 am às 9:17 am

    Tnicarto, OK.

    te mandarei meu e-mail e espero que me mandes os contos dos autores russos a que me referi (incluido o do gorki que ainda não conheço. só tenho dele uma peça de teatro e uma novela, “A mãe”. hamilton

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