De Rimbaud, mais que tudo do que produziu (e não foi muito) conheço “Le bateau ivre” (ou “O barco bêbedo”), que gostaria de dizer melhor, na voz popular, “bêbado”. Esse poema é uma pequena autobiografia do poeta, tanto quanto pude julgá-lo ou interpretá-lo à primeira leitura. E isso já conta alguns anos. Nem me lembro de quem era a tradução. Mais tarde (decorridos alguns anos), li outra. Esta de Augusto de Campos, emérito tradutor.
Mas que autobiografia mais hermética, mais fechada, mais misteriosa.
Como todo o grande poema, esse de Arthur (por delicadeza / perdi minha vida) também se esconde, se enfurna, se encerra em seus desvãos de pouca luz. Ou de pouca clareza.
Quando chegou a Paris, por volta dos 15 anos, Rimbaud, de um talento precoce, viu que a poesia chafurdava na mesmice ou no mais puro convencionalismo, ainda seguindo os padrões mais ou menos do parnasianismo, mas já se inclinando, pouco que fosse, para o simbolismo, tendo em Stéphane Mallarmé sua figura máxima (Un coup de dés n,abolira le hasard).
Aos 17 anos, quando dera por concluida sua obra resumida a poucas páginas, abandona a poesia para traficar armas em Harat, uma cidade na Arábia.
Perguntado por que encerrara sua carreira de poeta, respondeu:
- À la merde la poésie.
Formou com outro grande poeta uma dupla que revolucionou aqueles tempos sisudos, em que poetas eram vistos (ou concebidos) como vivendo em redomas ou seres tocados pelos dedos dos deuses (ou de exceção) – Paul Verlaine. Eram (ou primavam por ser em tudo) dois marginais, que romperam com todos os preconceitos. Rimbaud largou o amigo, que, em certo momento, lhe disparou um tiro quase mortal pelo qual pegou uma pena de dois anos de prisão.
Depois se reconciliaram. Tudo não passara de mal entendidos.
O fato é que, desde então, se separaram, mas Verlaine nunca mais esqueceria o amigo. Rimbaud, certamente, tão pouco esqueceria Verlaine, que produziu um poema da mesma grandeza de “Le bateau ivre”: “Chanson d’automne”, que tem essa belíssima primeira estrofe:
“Les sanglots longs
Des violons d’automne
Blessent mon coeur
D’une langueur monotone”.
(julho/09)


