para Luiz Alceu Molento
Será que aquele que está nascendo agora
saberá de nós dois e deste mundo envelhecido?
Forjemos palavras para os lamentos e as lamúrias
em ritual de oferenda ao broto das araucárias
às sumaúmas, aos jatobás e ao amanhecer.
Pare e para toda a paisagem murmura
doces canções ao ser que não conseguirá crescer.
.
O Século 21 saúda e inveja o Século 20
que um dia já invejou o Século 19 com todo seu requinte
onde embora nem todos pudessem ser garbosos
havia ternos e vestidos para todos, para os velhos e os novos
um africano nu de então não era um africano sem roupa
nem uma doença exposta, pronta para se espalhar nos navios
araras e periquitos voavam nas palhadas das palmeiras
de quando em vez até imitavam nossos assobios
hoje andam presas em gaiolas com argolas “made” exportação
cruzam oceanos, mas não são passageiras dos “Queen Elizabeths”.
.
Mas tomemos um trago no boteco da esquina
e tanto faz que o copo seja sujo, esperemos que ainda toque um tango
aceito até um vaneirão ou uma salsa, brindemos às sobras
dê cá um abraço, aguce o olhar, esprema os sentidos, mãos-a-obra
porque os humanos, ao criador, ainda são a sua maior virtude
.
Não precisa detestar meus textos e poemas pra me derrubar
sei que sou mais comum do que na salada a alface
qualquer pequeno vírus consegue me adoentar
basta resfriar direto o olhar na minha face
.
Sei que estou atrasado em alguns compromissos
mas para que tanta pressa pra envelhecer largado a um canto
para que tanta agonia para cevar o orgulho dos homens de preto
aceito um trago e uma massa gorda depois de emagrecer tanto
aceito uma pinga antes e uma pinga depois de uma gelada cerveja
.
Se admitirmos que amanhã estaremos ferrados
ainda valerá a pena olhar de cima a Serra do Mar
imaginando um marzão besta pra se navegar
lá embaixo, pra além da Ilha do Mel e da minha caneta
pra lá da nossa morte e da matança que estamos impondo ao planeta
.
Viajar com a viagem é mais do que quedar-se ao olhar
é voltar a todo instante ao futuro
pois para onde formos seremos sempre parte do barco
e não apenas o corpo em movimento esperando transpor o muro.


