Costumo dizer que, de quando em vez, vôo nas asas de um poema meu. Ocorre em determinados dias em que estou mais propenso a essa acrobacia. Não é, pois, sempre que isso acontece. Há que ter fatores propícios para possibilitar essa manobra do espírito. Ou uma perfeita sintonia com o teor do poema, que tem que combinar, por exemplo, com a cor do dia, se faz sol ou sombra, se venta e que tipo de vento, se norte ou sul, se encontro determinados tipos de pessoas, que estimulam esse processo ou o alimentam de qualquer modo ou ainda a cor do mar preponderante ou se revoltoso ou calmo – tudo isso me permite ter mais ou menos sucesso na prática desse salutar esporte. No sábado passado, encontrei o clima propício ao vôo com o poema que segue:
“As ondas batendo
Nas rochas dizem:
- efêmero! efêmero! efêmero!
As nuvens no alto
Seguem o mesmo estribilho:
- efêmero! efêmero! efêmero!
As gaivotas grasnando
Como que ensandecidas
Entoam idêntico cântico:
- efêmero! efêmero! efêmero!
O vento que sopra
Uivando feito lobo
Faz coro a tais vozes:
- efêmero! efêmero! efêmero!”
Dois peritos em poesia fizeram uma rápida abordagem sobre esse poema. Um me disse que, se excluísse os terceiros versos da terceira e quarta estrofes, o poema ganharia em beleza ou talvez em harmonia ou estaria mais bem expresso; outro opinou de forma diferente, alegando que, se fizesse essa operação, sugerida pelo primeiro, o poema desabaria na sua estrutura ou na sua expressão mais bela.
O caso é que, no sábado passado, como dito, voei nas asas desse poema (como outros tenho conseguido esse mesmo objetivo). Essa discussão, que se travou entre dois ledores, críticos de literatura ou conhecedores profundos de poesia, pouco pode ser por mim considerada, haja vista que estava entretido a visualizar a paisagem em volta.
Não há experiência, na verdade, mais interessante e divertida do que voar nas asas de um poema de que se gosta. Ou de alguma forma se aprecie. É uma forma inesquecível e inexprimível de giro por aí.



Publicado por vinícius em Novembro 4, 2009 11:00 am às 11:00 am
Hamilton NEVES? não seria Hamilton ALVES? atenção aí, editor. QUAXQUÁX!
abraço do vini