Um pássaro de asas brancas, desdobradas,
Anda a dançar na praia…
Há o rumor de ondas desgrenhadas,
Há espuma fervente e fria
E silêncio de ventos que não existem.
O barco da minha vida
Caravela d’esperança
Naufragou naquela praia,
Sem mar, só com o cantar doce, amargurado,
Do meu pranto.
Esse pássaro que nasceu comigo
Não mora numa gaiola,
Não nasceu nos verdes bosques,
Não é um pássaro de penas.
É um pássaro que canta
Nas longas noites sem luz,
Um canto de risos e prantos,
Um pássaro que agarrei
Com mãos trémulas de criança
E d’esperança.
Larguei para que voasse
E cantasse
Em todas as almas,
Fizesse nelas brotar flores,
Estrelas e amores.
O meu pássaro branco…
Branco como nuvens esvoaçantes,
Como um pássaro tecido de fios de luar…
Fugiu das minhas mãos trémulas de criança
Que se fechavam
E procuravam encurralá-lo
Em qualquer ninho de amor.
É agora um pássaro triste e desolado…
Um pássaro vagabundo
Açoitado por um vento furioso
Que o assusta e o arrasta p’ra solidão.
Um pássaro de asas murchas,
Roxas como lírios macerados,
Como um céu esfarrapado
Sem estrelas, sem luar.
Não houve ninhos que o abrigassem
Nem mãos trémulas d’esperança que o agarrassem.
De nada serviram meus prantos e minhas dores…
O meu pássaro branco, alvo como nuvens esvoaçantes,
Dança na praia que não existe,
A praia da solidão,
Ferido de dor e de morte,
Curvando as asas brancas
Que não são brancas,
Largando às ondas e aos ventos, as suas penas.



Publicado por Zuleika dos Reis em Novembro 10, 2009 11:13 am às 11:13 am
Tão profundamente belo este teu pássaro branco, tão dorida e pungentemente belo, querida poeta Vera Lúcia Kalahari, que me quedo aqui, da minha praia desolada, a olhá-lo, o voo deste pássaro a percorrer-me algo como um refrigério-prece, pelos sonhos que se foram, uma prece pelo pássaro nunca póstumo,sempre-vivo no poema, que para a imortalidade de pássaros de toda natureza, existe a poesia.
Grande abraço
Zuleika.
Publicado por vera lucia kalahari em Novembro 11, 2009 17:16 pm às 17:16 pm
Querida Zuleika,
Teu comentário tocou-me profundamente, primeiro, por ser ele também um pequeno poema, duma beleza serena mas melancólica.Segundo, por confessares que quedas muitas vezes na tua praia solitária, esperando, quem sabe, receber algo mais, trazido pelas ondas e pelos ventos, do que
aquilo que, provàvelmente tens recebido da vida. Que o pássaro branco que vive na tua alma de poeta,
tenha sempre asas que o levem mais alto e não as perca, largando as suas penas em marés de equinócio ou vendavais tormentosos.
Um abraço apertado de grande amizade.
Vera Lucia
Publicado por Zuleika dos Reis em Novembro 11, 2009 22:02 pm às 22:02 pm
Querida Lúcia: Muito obrigada pelo calor humano, poético calor do teu comentário sobre o meu comentário sobre o teu belo poema. Assim, camada por camada, uma tessitura de flor a duas mãos.
Beijo de carinho
Zuleika.