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A Voz da Rã
Começo o ano com Janis Joplin
começo o ano com saudades minhas
e da goela dela reverberando no meu peito
nos botões da camisa, nas pregas das linhas
fechando-me o sangue nas veias do coração
“Summertime” não é deste mundo
uma lápide de mármore dura e branca
Janis quase não canta, quase se encanta
Negra voz sibilante, em breve castidade
Sussurro rouco, bafejando-nos sua imortalidade
Mas todos os sobreviventes
ainda estão por aqui
querendo se despregar da cruz
morrendo no dia-a-dia, na ponta das espadas de luz
sob o sol que teima em furar o cerco das nuvens
Os sobreviventes são bandos de mentirosos
Calem-se, calem-se, façam-se mudos
nada mais quero ouvir além da canção
quero da voz de Janis, a sua benção
quero ouvir os porões da minha mente
“Summertime” don’t me “cry”
“Summertime” o amor chora-me um ai
porque o amor é uma forma de sofrimento
o corpo perdendo o movimento
quando toda a máscara arrancada da cara, cai
“Summertime” escorre em meu peito um verão de saudades
e já não me reconheço no turbilhão de fatos, anos depois
não sou eu chorando por meu passado, mas o retrato do que fui
e fujo como sapo ligeiro, nos charcos dos campos de arroz
fujo da rã cantora agonizando-me a dúvida da sobrevivência
“Summertime”
Ahhh! Por que já não me reconheço?
Onde enterrei meu passado?
Ahhh!! Janis!! Ahhh! Janis Jasmim!
Quantas ausências sinto dentro de mim!
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O Bicho da Goiaba
às poetas das noites Curitibanas, anos 80
Ela quer arrancar do meu coração
as angústias que pastam nos meus relvados
ao calar e sumir serra abaixo, pras bandas de Morretes
no rumo dos rios pedregosos e encachoeirados
Ela não sabe dessa dor que rói
traça que depois de mariposa
mastiga as madeiras e até os próprios dentes
comendo a si mesma antes de ser esposa
Ela não sabe que as cigarras passam
cinco anos debaixo da terra, raízes a comer
até que brotando do chão cantam e chamam
os companheiros para fornicar e logo morrer
Ela não sabe que estou pronto para a morte
mas queria ao menos me deleitar no malho
roupas arrancadas aos urros e nos sussurros
ser o rei, a besta, o coringa, todo o baralho
Não sabe ela que estou pronto para o jantar
e não mais importa quem vai comer ou beber quem
se minha boca vai comer ou beber a comida
serve também que ela mesma seja a comida
Não sabe ela que comprei um vinho especial
para esta particular folia fora de época, meu carnaval
onde sou o Rei Momo, o Arlequim, o passista
vinho amoroso, para saciar meu lado menos animal
Não sabe ela que morro de saudades dela e de mim
eu, tão idiota, que não sei de morros e de morretes
de estradas lamacentas, de marimbondos e goiabas
ela tão airosa, alucinando minhas pontas e aríetes




Publicado por Hamilton Alves em Novembro 11, 2009 17:30 pm às 17:30 pm
Toinicato,
gostei bastante do teu poema “BARQUEJANDO…”. Um abraço. Hamilton
Publicado por neuza pinheiro em Novembro 14, 2009 1:18 am às 1:18 am
eu sempre quis escrever um poema, algum texto que expressasse o meu arrebatamento quando ouvia
e ouço Janis. Nunca o escrevi e o encontrei aqui, agora.
No dia 11 de novembro , quarta-feira(Sesc Consolação, no Que viva Leminski), misturei Janis com Leminski: “um homem com uma dor/é muito mais elegante…ópios, édens, analgésicos…”; num blues. E cantava Summertime no final, feito mesmo a canção
de ninar, o bálsamo…
um bálsamo e um abraço admirado
Publicado por vera lucia kalahari em Novembro 14, 2009 10:09 am às 10:09 am
Não és só tu que por vezes te comparas a um arlequim… . Todos nós o somos. E desempenhamos tão bem o nosso papel, que lá vamos recebendo aplausos, daqui e dali.
O saudosismo de verões passados, daqueles que nos marcaram a todos, numa época em que achavámos que o mundo se iria transformar num pequeno Eden onde só imperasse, o amor e a paz, onde nem mesmo uma ”passada” era considerada maléfica, porque fazia parte do nosso sonho de mundo perfeito, esse está patente nestes poemas. Aposto que foram feitos num momento de profundo fastio, num momento sem nada, provàvelmente tendo apenas por companhia, uma bebida fresca, mas ”forte” . Acho que essa estadia em Curitiba, deve ser uma boa cura, mas será que te dás bem em SPA´s?
Um bom fim de semana, com menos saudades e com o teu proverbial espírito a que já nos habituaste.
Vera Lucia