Multidão segue o funeral do cantor chileno Victor Jara

Nem a longa espera e o sol quente foram suficientes para afastar os milhares de chilenos que acompanharam, com um cravo vermelho na mão, a despedida ao cantor Victor Jara, 36 anos após seu assassinato. Jara foi torturado e morto no estádio Nacional, uma pequena instalação esportiva vizinha ao palácio presidencial de La Moneda, pouco depois do golpe militar de 11 de setembro de 1973.

.Claudio Reyes/EFE/05/12/09

Em 12 de setembro daquele ano, mais de 600 estudantes, professores, e funcionários da Universidade Técnica do Estado foram concentrados à força no estádio. Eles tinham permanecido na universidade com a intenção de defender o governo da Unidade Popular do presidente socialista Salvador Allende contra o golpe desencadeado pelo general Augusto Pinochet. Destacado militante comunista, Jará foi golpeado e submetido a varias sessões de tortura durante cinco dias, antes de falecer.

Essa semana, a viúva, Joan e suas filhas Amanda e Manuela, junto com a fundação Victor Jara, decidiram organizar a despedida pública a qual ele não teve direito em 1973, quando seu corpo foi encontrado. Naquela época, Joan sepultou clandestinamente os restos mortais de seu companheiro acompanhada de apenas duas pessoas.

O funeral público acontece após a exumação do corpo, em 4 de junho passado. A família quis aproveitar as novas tecnologias do Instituto Genético de Innsbruck, na Áustria, para saber o que tinha realmente acontecido. Os médicos concluíram que Jara morreu de múltiplas feridas e que tinha recebido mais de 30 tiros.

Jovens em massa

Um velório de três dias foi organizado, desde quinta-feira (3), na Praça Brasil, bairro ainda marcado pela presença da esquerda. Milhares de pessoas suportaram filas de várias horas para poder tocar o caixão do músico e, sobretudo, escrever algumas linhas nos três livros de condolências dispostos na calçada, enquanto grupos folclóricos dançavam e outros declamavam poesia ou cantavam.

.Claudio Santana/AFP/05/12/09

“Você representa o melhor da juventude”, escreveu Nicolas Valencia, 19 anos. O estudante de direito nem tinha nascido quando a democracia foi restabelecida em 1999, com a saída do general Pinochet da presidência, 17 anos após o golpe. Mas para ele, era fundamental acompanhar o funeral. “Victor era um grande lutador, ele soube falar da pobreza do povo em suas canções, é por isso que a ditadura o matou”, afirma, ao lado de vários colegas da universidade.

Nicolas interrompe a conversa para gritar, junto à multidão “Victor Jara vive! Victor Jara presente!”. Emocionado, ele espera sua vez para entrar no velório. “Olha, colocaram o poncho que ele usava sempre!”, diz, antes de acariciar a madeira do caixão com solenidade.

A dois metros de distância, Fedora Demsky Verdugo observa a cena com um sorriso. Ela tem 59 anos e, comunista convencida, lembra de cada minuto do golpe e da repercussão da morte do cantor. “É bom ver tantos jovens”, diz a funcionária do Ministério da Educação. De fato, a metade do público tem menos de 25 anos. “Não sei se os adolescentes sabem toda a história, mas a presença deles aqui é o sinal de que eles rejeitam a injustiça e a desigualdade que estão cada vez maiores no Chile. A mensagem de Victor é mais forte que nunca”, analisa.

Fedora guarda, porém, um motivo de tristeza: “ninguém pagou pela morte de Victor, justiça não foi feita”. Em maio passado, um juiz decidiu processar o ex-oficial Jose Adolfo Paredes Márquez, considerando-o um dos autores do assassinato do cantor. O acusado negou e foi libertado pelo tribunal, que considerou que faltavam provas sólidas.

Candidatos

A uma semana da eleição presidencial, no domingo (13), vários políticos fizeram questão de aparecer no velório, começando pela própria presidente Michelle Bachelet. “Acredito que finalmente, trinta e seis anos após sua morte, Victor pode descansar”, declarou Bachelet, que termina seu mandato com uma popularidade de cerca de 80% – no Chile, a reeleição é proibida pela Constituição.

O esquerdista Jorge Arrate foi o único dos quatro candidatos presidênciais – além dele também Eduardo Frei, Sebastian Piñera e Marco Enríquez-Ominami – a acompanhar o enterro desde o velório até o Memorial dos presos desaparecidos, no cemitério geral de Santiago. “Victor simboliza o triunfo da memória”, declarou o candidato, atualmente na quarta posição das intenções de voto dos eleitores, segundo as pesquisas.

O autor de canções como El cigarrito e Te recuerdo Amanda, que os intérpretes Silvio Rodriguez, Joan Manuel Serra e Joaquim Sabina incorporaram aos seus repertórios, chegou finalmente à porta do memorial, onde sua família e um grupo de amigos se recolheram em uma cerimônia intima. Fora, a festa em sua homenagem continuou, com vários grupos preparando o palanque para cantar até a noite.

Lamia Oualalou

OM.

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3 Respostas

  1. Ainda bem, caro Manoel : você evocou todo o lado luminoso daquele tempo, este que é o lado a permanecer para sempre no mais fundo do nosso coração, pois como diz o já senso comum:”Os ditadores passam; o povo é eterno. “

  2. Escrevo atualmente um livro contando minhas andanças pela América Latina, na década de 70. O trecho que se segue é parte dos meus relatos sobre o Chile e embora não trate exclusivamente de Victor Jara, aborda o fenômeno musical da Nova Canção Chilena, da qual ele participou ativamente, passando a brilhar na PEÑA DE LOS PARRA, onde o vi e ouvi cantar tantas vezes.

    (…) A NUEVA CANCIÓN CHILENA
    Carmen 340. Quem não conheceu esse endereço naqueles anos em Santiago? A Peña de los Parra foi o berço da Nueva Canción Chilena. Aqueles eram anos mágicos e o fenômeno da renovação musical contagiava a América inteira, a começar pelo Brasil que de 1966 a 1972 realizou no Maracañazinho o Festival Internacional da Canção, amplamente transmitido pela televisão.

    O fenômeno cultural, aparentemente sem nenhuma conexão internacional, era marcado pelo conteúdo social numa poética de protesto que era ouvida dentro mesmo dos Estados Unidos na voz de Joan Baez e Bob Dylan, em Cuba com a Nueva Trova protagonizada por Pablo Milanes e Silvio Rodriguez e são os anos em que a América revolucionária canta nas vozes de Daniel Viglietti, Marcedes Sosa, Soledad Bravo, Geraldo Vandré, Victor Jara e quando começava a se ouvir, no Continente, a canção desterrada em toda a Espanha do catalão Juan Manuel Serrat.

    No Chile este fenômeno teve um momento culturalmente grandioso e historicamente trágico. A Nueva Canción Chilena foi marcada pelo aparecimento de novos intérpretes e solistas, compositores e conjuntos que deram uma diferente feição musical ao Chile. Sob a influência da música andina e as profundas raízes do folclore, sua bandeira estava tingida com as cores das lutas sociais desfraldadas contra a perseguição, a violência e a censura cultural da ultra-reacionária burguesia chilena. Comprometida historicamente com os ideais socialistas e com o povo a Nueva Canción transformou as reivindicações operárias e camponesas em letra, ritmo, melodia e encanto e sua voz ecoou nos grandes auditórios universitários, nos recitais para a classe trabalhadora e popularizando-se através das penãs do país.
    Suas origens remontam a década de 40 nas vozes de Margot Loyola e Violeta Parra, e começa a ecoar no fim dos anos 60, alheia a toda música de consumo e questionando a penetração cultural imperialista. Teve sua alta ressonância durante a campanha presidencial e triunfo da Unidade Popular em 1970, ouvida sobretudo no recinto da Peña de los Parra e na interpretação de grandes conjuntos como Quilapayún e Inti Illimani, mas silenciou bruscamente em 1973 com a derrota do Governo de Salvador Allende.

    Quando cheguei em Santiago, em abril de 1969, a Penha de los Parra estava em plena floração e dali exalava o melhor perfume musical do Chile.. Herdeiros da genialidade musical de Violeta Parra, seus filhos Isabel e Angel Parra abrem, em meados dos anos 60, numa grande casa no centro velho de Santiago, o local de onde irradiaria todo o significado musical do movimento. Foi alí que ouvi tantas vezes os irmãos Parra, Rolando Alarcón y Patrício Manns que incorporaram inicialmente o grupo, e depois, no meu retorno ao Chile em 72, as inesquecíveis interpretações de Victor Jara. Era a época em que ali também cantavam o temucano Tito Fernández, Osvaldo ‘Gitano’ Rodríguez e o conjunto Los Curacas. Sempre haviam cantores convidados e por ali passaram o argentino Atahualpa Yupanqui e o espanhol Paco Ibáñez.

    Do dia 11 de setembro de 1973 – 28 anos antes do fatídico ataque dos aviões às Torres Gêmeas, em Nova Yorque – um ataque da avião chilena contra o Palácio de la Moneda, derruba o primeiro governo marxista livremente eleito na América. Depois da morte de Salvador Allende, seguiram-se momentos de perseguição e pânico social. Do grupo que integrava a Peña de los Parra, Victor Jara foi um dos primeiros a ser preso. Detido no recinto da Universidade de Chile, onde trabalhava, foi levado com mais 600 estudantes para o Estádio Nacional. Ao longo de cinco dias foi barbaramente torturado, cortaram-lhe as mãos e finalmente assassinado a tiros por militares chilenos. Ao lhe cortarem as mãos seus carrascos lhe disseram com ironia: “Agora pode tocar violão”.(…)

  3. Esta lembrança evoca tantas outras… tantas outras… de um tempo terrível, que deixou marcas tão fundas… tão fundas…

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