Sebastião Nery lança memórias: “Espremi a minha vida”


Claudio Leal

Sebastião Nery é memória. Num papo informal, o jornalista político é capaz de escalar ministérios, contar a história do enterro da cadela de Jânio Quadros (sim, chamava-se Muriçoca e foi presenteada pela Rainha Elizabeth II), relatar o encontro com Frei Pio de Pietrelcina, em San Giovanni Rotondo (Itália), e lançar uma farpa específica a cada víbora da política nacional.

Após um gole de vinho, poderá fisgar de cor um trecho do romance “Terra dos Homens”, de Saint-Exupéry – mais especificamente, a página em que o aviador Guillaumet retorna a pé (e na neve) de um desastre nos Andes, entra resfolegante num bar e desabafa aos companheiros de correio aéreo: “O que fiz, palavra que nenhum bicho, só o homem, era capaz de fazer”.

Essa frase talvez pudesse servir de epígrafe para as memórias de Sebastião Nery. Em 9 de novembro, na cidade do Recife, no aniversário do jornal Diário de Pernambuco, Nery lançará “A Nuvem – O que ficou do que passou” (Geração Editorial), o livro que condensa 50 anos de vida profissional e política. A aventura se inicia no internato de seminarista, na Bahia, e se estende até os anos 90. Nesse rastro de evocações, surgem os presidentes Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, os ditadores do regime militar, Tancredo Neves, José Sarney e Fernando Collor.

- Você de repente vai vivendo mais e a vida se torna uma alameda de amores mortos. Fui revirar, mesmo assim é um negócio difícil… Esse livro sou eu. É minha alma, minha vida, meus sofrimentos, minhas angústias e, inclusive, as brigas em que entrei. Não falseei nada.

A briga com o amigo Leonel Brizola, nos anos 80, está contada num capítulo “denso e forte”. Deputado federal pelo Rio de Janeiro (eleito com 111 mil votos) e secretário nacional do PDT, Nery travou uma conversa amarga com o governador carioca. Modos gaúchos, Brizola passou manteiga no pão antes de lhe pedir uma escolha: o jornalismo ou a direção do partido. Depois do encontro, a sentença.

- Desci, e estava o ótimo repórter Henrique José. Tinha me visto entrar, e ficou no botequim do Hotel Othon. “O que houve com você e Brizola? Eu tinha a notícia de que Brizola ia lhe enquadrar. É verdade?”. Falei pra ele: “Tenho que ir pra Brasília…” “Me dê apenas uma frase”, pediu. E eu dei: “Acho que nos enganamos. Fomos a Lisboa buscar Brizola e trouxemos Juan Domingo Perón.”

Nesta entrevista a Terra Magazine, Nery fala das experiências escrevinhadas em “A Nuvem”, mas também opina sobre a política brasileira contemporânea, sem esquecer a polêmica confissão do presidente Lula, de que precisa se aliar a “Judas” para poder governar.

- Lula já se aliou a Judas. Mas o Fernando Henrique se aliou a Satanás. Fernando Henrique se antecipou, se aliou a Satanás, fez uma aliança com o sistema financeiro, internacionalizou a economia – ataca o jornalista.

Para Sebastião Nery, o Congresso Nacional se empobreceu ao servir de esteio para os interesses de grupos financeiros.

- A política passou a ser um braço político do sistema financeiro e dos interesses econômicos. Atrás de cada grande negócio, existe um grande branco. A política brasileira passou a ser monetária e financeira. O Congresso não é mais cultural, político; é capitalista, financeiro.

Colunista político histórico da “Tribuna da Imprensa”, republicado em outros 25 jornais do País, Nery é autor do best-seller “Folclore Político”, que marcou a literatura política nos anos 70, “Socialismo com liberdade” (1974), “16 derrotas que abalaram o Brasil” (1974), “Crime e castigo da divida externa” (1985), “A história da vitória: porque Collor ganhou” (1990), “A eleição da reeleição” (1999) e “Grandes pecados da imprensa” (2000). Em 2002, reuniu 1.950 histórias numa edição definitiva do “Folclore Político”. Agora, nasce “A Nuvem”.

Confira a entrevista-depoimento.

Terra Magazine – O subtítulo de “A nuvem” é inspirado numa definição de Alceu Amoroso Lima sobre o passado?

Sebastião Nery – “O passado não é o que passou. É o que ficou do que passou.” O livro, na verdade, é uma espremida. Você não faz um livro desse se não espremer a alma durante 50 anos. Porque eu tinha que contar uma série de histórias. Umas são fáceis, outras não são fáceis. Mas tinha que contar. Você não pode fazer um livro desse com mentira. Pode fazer deixando de contar alguma coisa. Evidente que deixei de contar uma série de coisas. Ou eram pessoalmente desagradáveis ou politicamente incorretas. Por exemplo, discutir o problema do Brizola com o dinheiro. Eu sei quais eram, mas aí era o problema de como ele via o financiamento da vida pública.

Episódios da campanha eleitoral?

O que é um problema complicado com todo político brasileiro. Quando você tem um processo político financiado não publicamente, mas privadamente… Isso aconteceu com o Jânio, com Brizola, com os outros todos. Isso eu achei que não devia tratar, até porque, embora fosse testemunha de alguns fatos, era um processo de financiamento de políticos.

Mas, em algumas colunas, você chegou a tratar dessas histórias de Brizola, não?

Sim. Já cheguei a tratar. Mas era no aceso da campanha e tal, mas num livro… A não ser que eu fizesse um capítulo específico sobre isso. Não quis. Porque aí eu tinha que fazer sobre o Jânio, quem financiou a campanha do Tancredo, quem financiava as campanhas de Juscelino (Kubitschek), e vai por aí. Outro assunto, no caso concreto do Brizola: o problema da segurança do Rio de Janeiro. Esse eu podia ter tratado. Eu poderia ter me vingado e não quis. Na época, em 1983, eu denunciei: esta visão política de Brizola vai levar o Rio a se transformar numa Colômbia. Por quê? Duas frases dele. Quando eu defendi a tese de que ele precisava começar imediatamente obras públicas nas favelas, para que o correio e o médico chegassem, para que a ambulância subisse, ele dizia assim: “Eu não vou abrir as favelas para o PT entrar”. O negócio dele era político.

E hoje nem o PT sobe.

Nem o PT. Outra coisa, ele dizia assim: “O Chagas (Freitas) viveu nomeando policiais para as favelas. O Negrão (de Lima) nomeava policiais que comandavam as favelas”. Era a verdade, os delegados comandavam. Aí ele dizia: “Temos que substituí-los.” Como? “Vamos transformar as associações de moradores em diretórios do PDT”. E eu dizia pra ele: “Mas as associações de moradores pertencem aos traficantes.” Ele disse: “Isso é um problema dos rapazes com as associações de moradores. Nós não temos nada com isso. As associações de moradores têm que ser do PDT e não do PT e de outros partidos”. Foi um erro grave do Brizola. “Você vai transformar isso aqui numa Colômbia.”

Mas houve também os erros dos outros. Houve os quatro anos do Brizola e depois Moreira Franco, que deixou a mesma coisa. A tese: a polícia não sobe, o crime não desce. (risos) Se a polícia não sobe, o crime sempre desce. Eles não iriam roubar eles mesmos, iriam buscar o dinheiro aqui embaixo no asfalto. É uma expressão curiosa. Você não vê um favelado, sobretudo os traficantes, falar na cidade, no comércio… É no asfalto. Foram essas duas coisas que não tratei no livro, mas as outras todas, políticas, eu tratei.

Memórias são sempre seletivas, não dá pra capturar tudo. Como foi a construção de “A Nuvem”?

É impossível colocar 50 anos em 600 páginas. Isso é um problema. Não é um livro vazio. O livro tem dois seminários, três mandatos disputados e ganhos em três estados diferentes, oito países, onde eu passei mais de 6 meses, e 30 países mais por onde passei trabalhando. O livro tem um fio condutor que é uma história de amor que começa no seminário e acaba 50 anos depois.

Qual é?

O leitor vai pegar o livro e ver. Começa no seminário e é uma história densa, forte, um pouco massacrante às vezes, mas que durou 50 anos.

E, claro, o jornalismo.

Fora isso, trabalhei em dois jornais em Minas, o jornalismo na Bahia (Jornal da Bahia e A Tarde), os jornais do Rio (Correio da Manhã, Última Hora e a Tribuna da Imprensa). Depois tem dez anos na Folha de São Paulo e a TV Bandeirantes. E os dois jornais que eu fundei, o Jornal da Semana, na Bahia, e o Politika, no Rio. Jornais que duraram mais de três anos, numa luta difícil. Se você somar tudo isso, é uma carga enorme de fatos. Por isso eu gosto do livro. Não ficou literário. É um depoimento.

Algo como o formato do livro de Rodrigo Octávio, “Minha memória dos outros”? A vida política a partir de sua experiência de jornalista, como você acompanhou os fatos?

Isso, como eu acompanhei os fatos. Aí, claro, eu conto as histórias dos outros. Mas eu conto a história de Juscelino como poucos. Porque fui testemunha da vida de Juscelino por quatro anos, quase cinco, dia a dia. Depois ele veio a ser presidente da República. É diferente, eu estava na Bahia e ele no Rio. Claro que eu vinha, de vez em quando tinha entrevista com ele. Foi cassado, continuei amigo dele. Outra coisa é ver a virada que ele deu em Minas para ser presidente da República.

No tempo em que atuava como repórter?

Sim, cheguei em 1952. Eu vi Juscelino sem saber como escrever o nome dele (risos). Verdade! Conto o primeiro encontro. Pergunto como se escreve o nome dele… Eu era, digamos, um bobo. Tinha saído do seminário… Outro negócio é o da aventura pessoal. Um menino da roça vai pra cidade e, de repente, por isso ou por aquilo, resolve ir pro seminário e vai. Quem resolveu fui eu. Para não ficar na cidade. Por isso o livro se chama “A nuvem”.

Como se inicia a vida de seminarista?

Termino o quarto ano primário e digo à minha professora: “O que vou fazer agora?”. Eu ganhei um prêmio, ela me deu um presente. Ela disse: “Você não pode ficar aqui. Não pode ir pra trás do balcão como seus irmãos”. Eu já tinha três irmãos trabalhando em lojas de tios. “O que eu posso fazer?”. E ela: “Vá pro seminário”. “Mas como?”. “Fale com o padre Flamarion. Está sendo fundado um seminário…”. A frase dessa mulher mudou minha vida, porque eu poderia ter ficado lá com meus irmãos. Mas eu não teria feito uma vida de jornalista, uma vida na área cultural, se não fosse essa bendita mulher.

Em Belo Horizonte, no seu início no jornalismo, você procura Wilson Figueiredo pra pedir um emprego e ele diz pra você procurar um jornal que pague em dia. Como foi isso?

Saio da Bahia. Na minha cabeça, queria ser professor de filosofia. Adorava o curso. Estimulado por um professor, que dizia que só existia um curso bom de filosofia no Brasil, o do Rio de Janeiro, eu então pego um caminhão. Ele quebra e eu fico um ano no interior de Minas, em Pedra Azul. De lá vou pra Belo Horizonte, fundo um jornal na faculdade, chamado A Onda. Resolvo ser jornalista, porque comecei a escrever no jornal oficial do diretório, e no meu próprio. Um dia vou ao Folha de Minas e encontro Wilson Figueiredo. Levei os dois jornais. E ele então diz assim: “Estou com seis meses de atraso, você tá maluco? Quem tem dinheiro aqui é o Chateaubriand ou o arcebispo. Vá no jornal do arcebispo”. Arranjei um emprego, virei jornalista.

Comecei a exercer o jornalismo com o furor que eu emprestava às coisas que fazia. Eu era um estudante ativíssimo, meio furioso na universidade. E fui me destacando como jornalista, comecei a assinar. Naquela época não era fácil um sujeito assinar matérias, com 19 anos. O José Mendonça, que tá vivo, a quem eu faço todas as homenagens, teve a sensibilidade de dizer: “Esse cara é jornalista”. Um dia eu abri o jornal e estava lá: “S.N.” “Comece a assinar”, ele me disse. “Jornalista assina. Mas, pra assinar, precisa merecer”. De repente, abro o jornal e está: “Sebastião Nery”. Não parei mais.

Você sempre gostou de polêmicas, criou muitas delas. Mas quando situa a primeira?

A primeira foi no primeiro ano, com um padre. Fui a um congresso de estudantes em novembro de 1952. Primeiro ano da faculdade, eu era delegado no congresso, e primeiro ano do jornal. E cheguei lá no congresso, o padre da cidade de Uberaba, que tinha um programa de rádio muito ouvido, seis hora da tarde, esculhambava a nós da oposição e defendia os outros. “Vou o negócio desse padre hoje”. Sentei na porta do hotel e fiquei com um rádio, ouvindo. O padre falava bem, inteligente, dizia assim: “Nós homens, nós cristãos, temos que agradecer a Deus por não termos nascido borboleta, sapo, cavalo, não termos nascido animais, cocos, mas homens à imagem e semelhança de Deus”. (risos)

Então fiz uma crônica: “O coco e o sapo”. Tirei a borboleta e sacaneei. Não nascemos nem sapo nem coco, mas homens à imagem e semelhança de Deus. Tudo bem, mas eu publiquei no Diário do arcebispo, o maior jornal católico da América Latina – e era verdade. Era o mais importante jornal de Minas. Aqueles intelectuais todos: Edgar da Matta Machado, Oscar Mendes, Milton Amado, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Ettiene Filho, etc. Todos escreviam no jornal, embora o Estado de Minas fosse mais poderoso, vendia mais. Mas aí saiu. Foi aquele escândalo. Os padres de Uberaba exigiram do arcebispo que me demitissem. O Mendonça me disse: “O Dom Cabral quer conversar com você. Ele ficou abismado com sua audácia. Você desmoralizou o padre. O sapo e o coco, no jornal do arcebispo?” Lá vou eu, todo humilde. Dom Cabral: “Meu filho, quantos anos você tem?” “Acabei de fazer 20″. “Você é muito atrevido. Não se faz isso com um sacerdote, que é um enviado de Deus. Os que não gostam dele estão pegando o nosso jornal, meu jornal, e botando assim: O Diário confirma: o padre fulano de tal é uma besta.” (risos)

E seu veio polemista se desdobra com a oposição a Juracy Magalhães?

Vou pra Moscou, saio do jornal do católico…

Pelo Partido Comunista?

Eu tinha entrado na juventude comunista e quando fui pra Moscou já era do Partido Comunista. Quando fui ser editor político do Jornal do Povo, eu respondia ao Partido. Volto pra Bahia e vou para o Jornal da Bahia, evidentemente simpático ao Juracy, que era um administrador competente. Mas aí vem a greve do petróleo. Esse Petrosal me persegue desde então! A principal refinaria do Brasil era a de Mataripe, depois tinha a de Cubatão e a de Duque de Caxias. Os petroleiros da Bahia ganhavam menos que os petroleiros paulistas e cariocas. Mário Lima e os companheiros dele de sindicato lançaram um slogan brilhante: “Ou equipara ou aqui para”. E eu fiz um artigo no jornal contando a história. Só que eles pararam. A direção da Petrobras não quis papo. Fui pro sindicato e lá assisti a porrada, os pontapés, a polícia deu porrada. Os petroleiros também eram agressivos, não estavam brincando. Eu então voltei, fiz uma nota, mais ou menos dizendo que o general voltou a ser tenente. Ele fez a campanha dizendo que era um general de cabelos brancos, não era mais o tenente de 30…

Que usava o terço…

Foi aí que eu disse: “Juracy bate com o terço”. (risos) Criou uma impossibilidade de eu continuar no Jornal da Bahia. Vou para o jornal A Tarde, fico um ano. Um pouco pelas mesmas razões, saio de lá e fundo o Jornal da Semana. Ele produziu minha candidatura para deputado. Nunca pensei, naquela época, em ser deputado. Foi no último ano. Me elegi, fui cassado em 1964.

O “Jornal da Semana” tinha um slogan muito bom: “Tirando o Senhor do Bonfim, a Bahia e Marta Rocha, este jornal não tem compromisso com mais ninguém”.

E eu comecei com: “Conta sábado o que os outros esconderam durante a semana.” Um dia o Jorge Calmon (ex-editor-chefe do jornal A Tarde) me chamou e disse: “Nery, não faça isso. Isso é agressivo contra mim e contra os outros. Nós gostamos tanto de você, mude isso”. Mudei em homenagem ao Jorge: “Conta sábado os segredos da semana”. Ele achou que era “descortês”. Estou dizendo essas coisas, mas quero dizer, então, que meu livro não podia ser leve. Tive uma preocupação enorme em não fazer um livro pesado. Nem um livro choroso, nem um livro falso, dizendo que tudo foi fácil. Contei as coisas, as brigas, as dificuldades todas. Sempre com uma coisa que é uma verdade: por isso ou aquilo, minhas coisas sempre deram mais ou menos certo. Poderia ter falhado, profissionalmente. Eu podia ter morrido.

Onde?

Por exemplo: só ter passado quatro anos entrando naqueles aviões de Minas, atrás do Juscelino, aquilo era uma tentativa de suicídio! (risos) Tinha uma empresa em Minas chamada Omta, Organização Mineira de Transportes Aéreos. Aí cai um avião da Omta, avião em que nós jornalistas voávamos. Ele tinha um aviãozinho dele, viajava com os assessores. Quando nos convidava para ir a alguma cidade do interior, íamos para esse aviãozinho, convidados pelo palácio. Não tinha aquele negócio da TV Globo dizer: nós pagamos, demos dinheiro pro Bolsa Família… Enfiava um ali pra ver se voltava vivo. Cai um avião, cai o segundo, o terceiro… Quando caiu o quarto, fiz uma coluna: “Omta: Organização Mineira de Tombos Aéreos”. Esculhambei. Quando cheguei no outro dia, no Diário, o Mendonça olhou pra mim e disse: “Por que você pediu demissão?”. “Não pedi demissão de nada…”. “Você sabe de quem é essa Omta?” “Não, é do fulano!”. Era o diretor-geral, tesoureiro do jornal. Um cara simpático, elegante, saiu de lá: “Nery, não fique nessa conversa do Mendonça. Eu entendo, você é um jovem, imagina o meu constrangimento. Eu não sou dono sozinho dessa empresa. Somos três sócios. Sou um cristão, sei que você não teve maldade”.

E os aviões russos, na viagem à Sibéria? Outro risco, hein?

O resto do resto. Todos os aviões russos. Quando os aviões não prestavam mais, eles mandavam pra Sibéria. Cai no gelo, não sai nem fogo! Viajei muito naqueles aviões. Deu tudo certo, nunca caí de avião. O Zé Aparecido (de Oliveira, ex-ministro) caiu de avião. Eu nunca caí.

Como era a cobertura jornalística de campanha eleitoral?

Fiz a candidatura de Juscelino, em 1955, quase toda. Viajava, ia atrás nesses aviões vagabundos. Me lembro do Nereu Ramos. Saltei em Santa Catarina, nosso avião chegou antes do Juscelino porque ele ficou em Curitiba, tratando alguma coisa, talvez com Lupion. Atrasou o voo. Na hora que eu desci do avião, tinha um homem feio, mas tão feio, tão feio, com gravata, elegante, bem vestido. Eu disse: “Meu Deus, nunca vi um homem tão feio!” Era Nereu Ramos. Não conhecia.

Nem de caricatura?

Exato! Nereu Ramos tinha sido importante na Constituinte, foi o presidente da Comissão Constitucional. Depois foi presidente do Senado e ministro da Justiça de Juscelino, presidente após o golpe do Café Filho, naquela confusão do Lott.

Invertendo o que Carlos Lacerda disse de Castello Branco, Nereu era “mais feio por fora do que por dentro”?

Ele, o Nereu, era muito feio, mas o aeroporto conseguiu ser mais feio que o Nereu! (risos) Parecia uma quitanda, o aeroporto de Florianópolis. E não era só isso. É você sair de Belo Horizonte, conseguir chegar a João Pessoa e de lá a Campina Grande, ir pro comício de Juscelino em Campina Grande. Como mandar as matérias? Não havia o telex. Você tinha que voltar e fazer a matéria com atraso. Ou então as companhias de aviação, os grandes correios do Brasil: a Panair, a Varig estava só começando, e a Cruzeiro do Sul, a que tinha a melhor malha aérea interna. A gente ia pro aeroporto, escrevia a matéria, enfiava num bloco, se comunicava com o jornal, e mandavam buscar… Um sufoco.

O golpe atrapalhou sua vida profissional? Você foi obrigado a mudar outra vez de Estado?

O golpe foi burro comigo. Primeiro eu tive logo uma posição patriótica. Dois amigos meus eram dos cinco maiores conspiradores na Bahia, Raimundo Schaum e Virgilio de Sá. Esses dois conspiraram o tempo todo lá na Bahia. Me chamaram cinco, dez vezes pra algumas reuniões. Eu não fui. Veio o golpe, falei na rádio Mayrink Veiga, na rádio Nacional, depois voltei pra Bahia. Muda sua vida. Eu era deputado estadual, já candidato a deputado federal, tinha um jornal que me apoiava, tinha uma atuação no Estado, na Assembleia. Acaba tudo de repente, é uma aventura, venho pra São Paulo, onde fico um ano e tanto escondido. E volto pro Rio. Nunca pensei que o golpe ia me promover de um jornalista suburbano, provinciano da Bahia, para um jornalista do Rio de Janeiro. Eu vim, pousei no Diário Carioca por quatro meses e logo fui pra TV Globo. Comecei a escrever na Tribuna (da Imprensa), fui pro Correio da Manhã. Virei um jornalista nacional.

O jornalista Sebastião Nery, 77 anos, publica o livro de memórias “A nuvem” (Geração Editorial), que condensa 50 anos de vida política e profissional

“Lula se aliou a Judas, FHC a Satanás”

Como foi sua experiência com Roberto Marinho na TV Globo?

Sebastião Nery – Foi uma experiência excelente porque, naquela época, Roberto Marinho ia quase todo dia à televisão. Roberto Marinho nunca considerou a televisão, ao menos na cabeça dele, como o pião da organização. O jornal era O Globo. Se você quisesse saber o que ele pensava, que lesse O Globo. Se você tiver dúvida em alguma matéria, dê a matéria segundo O Globo. Ele dizia: “a TV Globo não tem opinião, quem tem opinião é O Globo”. Uma vez por semana ele entrava no departamento de jornalismo, conversava conosco, na maior gentileza, elogiava as coisas, às vezes criticava. Preocupado com a audiência. Cada dia que ele chegava, dizia: “Vim trazer os parabéns porque estamos a tantos pontos da Tupy.” Tantos pontos, tantos pontos, até que um dia ele chegou e comunicou: “Nós passamos a Tupy”. Não discutíamos salários com ele, era tudo com Armando Nogueira ou Walter Clark, o diretor-geral da televisão. Mas ele era um sujeito cordial, gentil, chamava todo mundo de “senhor”, de “deputado”.

Muito formal?

A verdade é que ele tratava todo mundo como profissional, ele não tratava de cima pra baixo, arrogantemente. Era um sujeito simples, conversava e tal. Não conversava muito, não demorava muito, ia embora. Nunca houve constrangimento de nenhum de nós com ele. Mesmo quando eu dei uma notícia de Vitorino Freire, que deu uns murros e uns pontapés num sobrinho dentro do avião, do Maranhão pro Rio de Janeiro. Eu botei numa sexta-feira. E o Armando não ia na sexta-feira de noite. Eu fechava o jornal quando não tinha outro, o Jaime Dantas também não foi. Aí eu era o responsável. Sentei na máquina e contei: “O senador Vitorino Freire teve um incidente no avião, tal, tal… Embora fosse mais velho e menor, nocauteou seu sobrinho, o deputado estadual do Maranhão.” Era sobrinho da mulher dele. A matéria saiu no Jornal da Globo. Um minuto depois toca o telefone.

O próprio?

“O Armando está?”. Eu conheci a voz dele. “Não, doutor Roberto”. “Quem está falando?”. “Sebastião Nery”. “Deputado, preciso urgente de uma explicação. Quem é que pôs no ar essa matéria?”. Eu disse: “Fui eu. O Jaime Dantas não está aqui, Armando não estava, eu pus”. Ele me disse: “Deputado, o senhor sabe a gravidade dessa matéria?”. “Sei”. “O senhor sabe que eu sou um amigo fraterno do senador Vitorino Freire? O senhor sabe que essa empresa deve favores políticos ao senador? O senhor sabe o risco dessa matéria?”. Eu disse: “Doutor Roberto, me faça um favor. Se o senhor é amigo dele, telefone pra ele e me diga como a matéria saiu”. “Não, me conte”. Eu disse: eu ia saindo de casa, encontrei o senador em Copacabana, na porta de um restaurante. Tinha acabado de chegar do avião, me chamou, eu conheço o filho dele. Ele me chamou e disse assim: “Você quer uma notícia pro Jornal da Globo? Acabou de acontecer isso, isso e isso.” “Senador, veja o que o senhor está fazendo, eu só tenho esse emprego, se essa notícia não for precisamente certa, o doutor Roberto Marinho me demite hoje, com razão.” Ele disse: “Dê a notícia que eu garanto. Eu dava as notícias sobre o presidente Dutra e sempre garanti.” Fui pra televisão e botei no ar. Aí Roberto Marinho me disse: “Deputado, o senhor me dá cinco minutos de licença?”. Pois não. Ele retornou. “Deputado, primeiro eu quero lhe dar parabéns. Segundo, quero lhe dizer que o senhor foi absolutamente fiel ao que o senador fez e lhe contou e ainda lhe disse: pode publicar que eu garanto.” O Vitorino foi corretíssimo. Quase que eu sou Vitorino, não sou Sarney. Sarney ia virar de lado, eu ia me ferrar… (risos) O Vitorino, não. Garantiu meu emprego. No outro dia foi um escândalo dos jornais.

“Deus é juscelinista!”

No livro, você relata como nasceu o “Folclore Político”?

O folclore político. Um dia eu estava na Tribuna da Imprensa, era véspera do 12 de setembro, aniversário de Juscelino. Como eu sabia que o Juscelino era um nome meio proibido, fiz um negócio discreto. Então fiz uma coluna contando histórias de Juscelino, procurando sair por esse lado agradável. O homem que não tinha medo de avião e dizia: “Deus é juscelinista”, o título da matéria. Eu dizia: “Governador, tá chovendo, não vou entrar nesse avião, vou deixar pra ir amanhã”. E ele: “Deus é juscelinista, ô baiano! Entra!”. Acabou sendo mesmo. Fiz a matéria. Aí o major Douglas, um sujeito muito simpático, elegante, cordial, inteligente. A gente terminava a matéria, ia pro café e ficava esperando a decisão dele. Ele me chamou e disse: “Nery, venha cá. Esta matéria não pode sair. Eu reconheço que é uma matéria brilhante, você conta umas histórias ótimas aqui. A história dos queijos…”

Juscelino estava no aeroporto de Campina Grande e, antes de descer do avião, perguntou a Abelardo Jurema: “Quem é aquele cara que tá lá?”. “Aquele é o coronel que lhe deu aqueles queijos…”. Na hora que abre a porta do avião, o coronel lá embaixo, Juscelino cá de cima grita: “Coronel, trouxe meus queijos?” (risos) Contei essa história e outras. Foi aí que ele (major Douglas) fez aquela frase: “Infelizmente, Juscelino, Brizola, dom Helder, nem a morte da mãe.” Falei pra ele: “Tudo bem, vou falar pro jornal colocar outra matéria”. Ele: “Não, senhor. O jornal não sai com lugar em branco. Não sai sem sua matéria porque é uma denúncia que sua matéria não saiu. Porque todo dia você faz. Vá ali e escreva outra, por favor.” Fui e fiz assim: “Alckmíadas: sete histórias de um gênio da raça”. Sete histórias do (José Maria) Alckmin. Em duas delas eu citava o Juscelino. Mas o Juscelino entrava…

Marginalmente…

No dia seguinte, entro no Hotel Itajubá, estava o Abelardo Jurema, estava o pai da Maysa Matarazzo, que tomava uísque, tinha outro sujeito que sempre ia lá. Cheguei e Jurema disse: “Você é um gênio, Nery. Você descobriu o folclore político”. “O quê?”. Aí eu atinei rápido. “Você criou o Folclore Político. O Brasil precisa disso. Dia sim, dia não, conte histórias do folclore político. Essa coluna do Alckmin tá genial!”. Na verdade, o Abelardo era a cara do folclore político, não é? Era um sujeito inteligente, preparado e um político alegre, bebedor de uísque, inventava histórias. Eu passei, de três em três dias, a contar histórias, sapecava personagens. Adhemar de Barros…

Logo depois você levou pra Folha?

A coisa repercutiu, as pessoas começaram a ler. Boris Casoy um dia me telefona: “Olha, o Cláudio Abramo quer conversar com você. Pegue um avião e venha aqui.” Ele telefonou para o jornal. “Vai ter uma reunião das seis horas da tarde e você precisa vir pra cá.” Eu disse: “Ô, Boris, eu não tenho nem dinheiro pra ir pro aeroporto pegar uma passagem de avião.” Ele disse: “Deixe de ser imbecil! Tome emprestado”. É o que eu fiz. Saí dali, entrei no Banco Nacional, pedi dinheiro emprestado a Zé Aparecido (de Oliveira). Foi quando conheci Cláudio Abramo.

Ele lhe chamou pra escrever a Contraponto, não?

O Boris disse: “Eu faço sozinho o Painel. Você vem, mas vai fazer umas cinco ou seis notas pra me ajudar.” Ele ia assumir um cargo na direção do jornal. Aí Cláudio Abramo disse: “Deixe o Nery. Ele começa a escrever hoje”. História é o que não me faltava. E eu fazia mais algumas matérias pro Boris. Depois, quando saiu o Abramo, dois, três meses depois, Boris assumiu a diretoria do jornal. Eu sempre colaborava com umas notas. Fiz a coluna por 9 anos e meio. Até mesmo quando fui à Sibéria. Na Sibéria, fiz dez colunas e levei à embaixada brasileira, pra enviar no pacote, sem saber se ia chegar.

Nos anos 70, virou um sucesso editorial nas bancas.

Fiz o Folclore Número 1 (capa ilustrada por Henfil) e foi aquele sucesso. A Record comprou. Deu 14 edições. O Folclore vendia em bancas de jornal, aí é diferente.

Como ocorreu seu rompimento com Brizola?

Primeiro, eu entrei de cabeça no episódio de Brizola. Tinha ido ao Rio Grande do Sul, entrevistei e não foi publicado. Brizola vai pra Buenos Aires, depois vai a Lisboa e comecei a ser uma espécie de porta-voz dele no Rio. Ele me ligava quase todo dia. Ele veio e nós fizemos a campanha (em 1982). Eu tinha dois instrumentos: a TV Bandeirantes e a coluna que já não saía na Tribuna, mas na Última Hora. Conto a dificuldade de fazer campanha política com o Brizola. Pra minha surpresa, li um relato muito bom…

De Fernando Lyra, em “Daquilo que eu sei”?

Do Lyra, sobre as dificuldades da campanha com Brizola (em 1989). Outro que me deu igual depoimento agora, na Alemanha, foi o Moniz Bandeira: o problema do Brizola é que ele era um caudilho, um nacionalista, mas num processo democrático é impossível fazer política com ele. Defendia o fechamento de Congresso… Fui divergindo… Mas houve outro episódio anterior. Eu virei secretário do PDT. O presidente do partido era ele, mas tinha o secretário-geral, o Frejat, e eu era o secretário nacional. Ou seja, o quarto sujeito da executiva nacional. Ele confiava em mim e também nunca teve razão pra deixar de confiar. Virei vice-presidente do diretório do Rio. Era uma responsabilidade enorme. Mas começaram a aparecer o Bocayuva Cunha, o Brandão Monteiro, vetando: “Não dá. Nery é jornalista da Última Hora e dono do partido no Rio”. Foi quando Brizola me chamou pra conversar. Bem gaúcho, o Brizola passava a manteiga no pão e me dava. “Companheiro, você tem que escolher. Você não pode ser mais jornalista e dirigente político”. Argumentei que o jornalismo era minha vida desde 1952. “Agora eu sou dirigente político, mas não sei amanhã. Não posso deixar de ser”. Brizola disse: “Companheiro, tu vais começar analisar as coisas do governo e começar a me fazer críticas”.

E sua resposta?

“Brizola, não vou discutir nem brigar com você. O partido é seu, você que me indicou pro cargo. O lugar é seu, mas eu não vou deixar de jornalista”. Ele ficou assustado: “Tu estás falando de coração?”. Respondi: “Coração, alma, cabeça, tudo. Vou embora”. “Então tu tomaste a decisão. Não vai ser mais dirigente”. Desci, e estava o ótimo repórter Henrique José. Tinha me visto entrar, e ficou no botequim do Hotel Othon. “O que houve com você e Brizola? Eu tinha a notícia de que Brizola ia lhe enquadrar. É verdade?”. Falei pra ele: “Tenho que ir pra Brasília. Quando eu voltar na sexta, eu lhe conto a história toda.” “Me dê apenas uma frase”, pediu. E eu dei: “Acho que nos enganamos. Fomos a Lisboa buscar Brizola e trouxemos Juan Domingo Perón.” No dia seguinte dá no Jornal do Brasil. Aí conto o que Ary de Carvalho me disse: “Não dá, o governador não aceita que você continue fazendo a coluna (na Última Hora)”. Depois fiquei sabendo que o Bocayuva foi ao Banerj e arrumou um empréstimo pra Última Hora, pra ser pago com publicidade. Voltei pra Tribuna da Imprensa, botei a coluna em quatro estados e comecei a analisar o PDT. Pedi demissão da secretaria nacional e da executiva. Defendia Brizola e o governo do Rio na Câmara, mas comecei a fazer críticas. É um dos capítulos mais densos e fortes do livro.

Com sua atuação no lado de lá, no Congresso, como deputado federal, dá pra explicar a transformação do político brasileiro nas últimas décadas? Por que chegamos a um nível de qualificação tão baixo?

O que houve é que o capitalismo chegou ao Brasil. Éramos um País rural, Getúlio montou as bases e Juscelino ampliou a industrialização. O País não era capitalisticamente comandado pelo sistema financeiro. A política passou a ser um braço político do sistema financeiro e dos interesses econômicos. Atrás de cada grande negócio, existe um grande branco. A política brasileira passou a ser monetária e financeira. O Congresso não é mais cultural, político; é capitalista, financeiro. Cria essa dificuldade toda porque na hora que o governo tenta dizer que é de esquerda, não consegue.

Concorda com Lula? No Brasil, Jesus é obrigado a se aliar a Judas?

Ah, sim, evidente, ele já se aliou a Judas. Mas o Fernando Henrique se aliou a Satanás. Fernando Henrique se antecipou, se aliou a Satanás, fez uma aliança com o sistema financeiro, internacionalizou a economia. O Brasil tinha um sistema bancário muito nacional. E o Lula continuou mais ou menos esse processo. E se alia com todos, Lula não é aliado, é sócio do mensalão, o dinheiro que entrava por fora pra comprar votos por dentro do Congresso. Você não vê criticas. O que fez com os movimentos sociais… Os judas de Lula são mais ou menos os satanás do Fernando Henrique, mas são menos agressivos. Quais são os judas dele? Como é que o País tem seis centrais sindicais e todas apoiam o governo? Isso não aconteceu nem com Stalin. Na França, há as centrais contra Sarkozy e a favor de Sarkozy, é uma briga. Na Alemanha também. O mais puro dos movimentos sociais brasileiros, pra usar uma palavra agressiva, foi “estuprado” por Lula: a UNE. Ela era um dos mais puros movimentos sociais do País, mas o Lula realmente estuprou, virou um escritório do governo. Pois bem. Tenho uns depoimentos que só um sujeito da minha idade pode dar. O que era o seminário católico. O que era o Partido Comunista. O Partido Comunista era o mais santo…

Por quê?

Era a favor do povo, de todas as causas nacionais. Era comandado pela União Soviética, inegável, mas como a URSS não tinha invadido o Brasil, não tinha tropas aqui, era uma coisa distante. O PC defendia melhores bandeiras que a imprensa. A imprensa de hoje é uma imprensa capitalista.

A mídia brasileira não ficou muito com a cara de São Paulo?

Porque é uma imprensa empresarial e a base está lá. O Sistema Globo está no Rio, mas na verdade está lá. Destaco determinadas maneiras de atuação no livro. Mostro como era a UNE. Éramos todos soldados do bem. E o Partido Comunista ajudava isso, mas tinha atrás a URSS. A gente tem agradecer ao Dutra, porque rompeu logo com a URSS e purificou o Partido Comunista Brasileiro.

Por que o PCB foi rejeitado pela esquerda brasileira? Até hoje é atacado, condenam sua herança para a esquerda.

Porque quando caiu o muro de Berlim, mudou tudo. Lula chegou mais aliado a Golbery. Era uma “válvula de escape”, como Golbery dizia, do movimento operário, que não era mais controlado pelo PC, mas por Lula e a Igreja Católica e seus aliados. A Igreja substituiu o Partido. Aí veio toda aquela cobertura do dom Evaristo (Arns). A Igreja substituiu porque os membros do PC estavam mortos ou na cadeia.

O livro vai até o governo Collor?

O livro é uma história de 50 anos, de 1944 até 1994, quando eu voltei de Paris. Depois de 94, tem o Fernando Henrique e o Lula, mas guardo pra outro livro.

Na hora do ponto final, o que você sentiu ou pensou?

Eu tive um estresse, doença mesmo. Me deu uma labirintite. Terminei o livro inteiramente perturbado. No resto do livro eu me senti estressado. Ele tem três amores mortos. Você de repente vai vivendo mais e a vida se torna uma alameda de amores mortos. Fui revirar, mesmo assim é um negócio difícil. Agora, foi a melhor coisa que fiz na minha vida, é a coisa mais parecida comigo. Fiz “Folclore Político”, mas minha cabeça não é de folclore político. Fiz o de campanha, mas também não sou eu, 50% dos outros e 50% meu. Eu procurei, acho que fiz bem, esse livro sou eu. É minha alma, minha vida, meus sofrimentos, minhas angústias e, inclusive, as brigas em que entrei. Não falseei nada. Deixei de contar algumas histórias. Mas conto a história da campanha do Collor, do Juscelino, da ditadura.

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