A MORTE DE PLATÃO – por jorge lescano / são paulo


“Platão, pai dos filósofos, morreu com a idade de 81 anos em 7 de novembro, dia do aniversário do seu nascimento, na saída de um banquete do qual ele havia participado. Esse banquete, comemorativo de seu nascimento e de sua morte, foi cada ano repetido pelos primeiros discípulos de Platão até a época de Plotino e de Porfírio. Mas depois que Porfírio morreu, esses ágapes solenes foram esquecidos durante mil e duzentos anos, e foi somente em nosso tempo que o famoso Lorenzo de Médici, querendo restabelecer esse costume, designou como anfitrião Francesco Bandini que, para celebrar esse 7 de…”.

Assim começa a quarta parte da palestra do Professor Benedito Nunes reproduzida neste volume. Longe de mim a intenção de imitar Ficino e replicar o ilustre palestrante, antes, desejo reverenciá-lo. Porém (sempre há um porém, diz o ditado popular), quero registrar algumas dúvidas a fim de ocupar meu ócio.

Eis a primeira: diferentemente de Ficino, Will Durant (A história da Filosofia; Nova Cultural, 1996; pág. 68) diz:

Um de seus discípulos, enfrentando esse grande abismo chamado casamento, convidou o Mestre para a festa de suas bodas, Platão foi, rico com seus oitenta anos, e uniu-se prazerosamente aos foliões. Mas à medida que as horas passavam em meio à alegria, o velho filósofo retirou-se para um canto tranqüilo da casa e sentou-se numa cadeira para tirar uma soneca. Pela manhã, quando a festa havia terminado, os exaustos convivas foram acordá-lo. Verificaram que, durante a noite, tranquilamente, sem agitação, ele passara de um sono curto para um sono interminável.

A quem dar crédito?Se a versão de Durant é a correta (?), os banquetes realizados pelos primeiros discípulos de Platão, até o século III d.C., perdem a dramaticidade, e a reedição proposta por Lorenzo, o Magnífico, assume o tom de paródia, enquanto o jogo de reflexos sugerido pelo Prof. Nunes se assemelha a uma miragem.

A segunda dúvida: 80 ou 81 anos? Depois de 25 séculos, um ano a mais ou a menos não altera grande coisa, pode disser o leitor apressado, mas se se menciona a idade é porque se pressupõe que faz diferença, ou não? Em todo caso, o texto não é mais o mesmo.

A terceira questão diz respeito à data de nascimento. 7 de novembro, precisa Ficino. Estranha precisão! No verão da 87º Olimpíada (cinco anos antes do nascimento de Platão, aproximadamente), baseados em estudos do matemático Metão (432 a.C.), que procurava adaptar os meses lunares ao ano solar, os helênicos adotaram um novo calendário, apesar da opinião de Sólon, um dos sete sábios da Grécia (640-558 a.C.) que no dizer de Diógenes Laércio (séc. III d.C.), recomendava se contassem os dias segundo o calendário lunar. É de crer que ao tempo da morte de Platão (108º, 2 Olimpíada, aproximadamente), esta diferença tivesse sido dirimida, prevalecendo o calendário solar. (Já veremos que os gregos são lerdos na adoção de reformas)

Jota César, Imperador Romano, em cuja homenagem o calendário patrocinado por ele recebeu o nome de Juliano, ordenou, em 708 ab Urbe condita (“desde a fundação da cidade”), que a partir do ano seguinte (45 a.C.; e ele nada sabia deste a.C., como nada sabia do idus de março de 710 a.U.c. –  44 a.C.), o dia 1º de janeiro marcasse o inicio dos anos.

O monge cita Dionysius Exiguus, “que vivia em Roma e era amigo de Cassiodor” (Flávio Magno ou Magno Aurélio Cassiodoro Senador, 477 ou 490-562 ou 580; ou mais ou menos 580; Jota van den Basselaar; Introdução aos Estudos Históricos, São Paulo, EPU; EDUSP, 1974; pág. 18, 209; e outras fontes), e que, ironicamente (?), não é citado no filme A Vida de Bryant (é assim que se escreve?), estabelece, no século VI d.C., a cronologia cristã, a partir de uma provável data de nascimento do famigerado Jota Cristo. Contudo, esta mesma data é imprecisa, pois entre a.C. e d.C., falta o Ano Zero (A.C. ou A.Z.), correspondente ao nascimento do titular. Inda mais: o exíguo Dionísio se entrega à magna tarefa de situar a Era Cristã no tempo histórico, no entanto, seu próprio feito flutua no interior de um lustro (alguma data entre os anos 527-532 de sua –nossa- cronologia; 1100 anos após o nascimento de Platão, aproximadamente).

O livro de Marsilio Ficino foi publicado em 1469, A.D., ou seja: 113 anos antes de entrar em vigor o calendário gregoriano, fato este que se deu em outubro de 1582, numa noite na qual, no decorrer de algumas horas, passou-se de 4 para 15 de outubro, ou, para atualizar os dados, de 25 de outubro para 7 de novembro (datas que serão um marco no século XX). Quando Ficino diz 7 de novembro, alude a essa data no calendário Juliano (25 de outubro), que não foi abolido simultaneamente por toda a cristandade. Os russos adotaram o calendário gregoriano após a Revolução de (25) de Outubro (7 de novembro a partir de então.Não me escapa a diferença de 3 (três) dias entre aquela noite de 1582 e as datas de 1917, porém, esta a cronologia  vigente). Os gregos só admitiram este calendário entre as duas guerras mundiais (1923, A.D.).

Depois de toda esta prestidigitação numérica, como estabelecer com precisão a data de 7 de novembro de 427-346 a.C., como aniversário de nascimento e morte, respectivamente, do inventor do Amor Platônico? Contudo, se esta for confirmada, teremos que, no decorrer de 2500 anos, na mesma data, primeiro morre o Pai dos Filósofos Idealistas e, depois, a plebe ignara, tão detestada pelo autor d’A República, toma o lugar da aristocracia (ainda que russa, não importa, o que vale é o conceito).

Isto não é fundamental, desde logo. Mera coincidência (?), poderá dizer um ficcionista pouco rigoroso, não fosse a pretendida exatidão histórica de Ficino e seus asseclas, vítimas da superstição documental.

O século XX é o século da revisão, da releitura, da documentação e da informação. A fotografia, o rádio, a televisão, o cinema, o computador, são os atuais instrumentos do oráculo. A fé cega na tecnologia áudio-visual não permite ver que a democratização do (pelo) consumo, faz com que toda pessoa que tenha acesso àquela está apta para forjar qualquer “documento”. Deste modo, a precisão histórica poderia ser uma questão de oportunidade. Ou então ela não é a confluência de datas, locais, personagens e circunstâncias.

No caso de Ficino há atenuantes. Se pensarmos que a renascença entende por humanizar criar e aplicar medidas a todos os fenômenos, a cultura grega, redescoberta – inventada? – pelo renascimento italiano, não podia – nem devia – ficar imune à nova corrente do pensamento. Tudo devia se ajustar à Divina Proporção e ter uma aparência cientifica, sugere a historiografia atual. Se não existem provas, tanto pior, urge criá-las. Também é conhecida a atitude bajuladora dos poetas em relação aos seus patrocinadores, e nada podia ser mais agradável ao espírito maneirista do que esse espelhamento proposto por Lorenzo, encenado por Bandini, registrado por Ficinoi e festejado pelo professor Nunes.

A precisão deste consiste em reproduzir, ipsis verbis, o trecho correspondente do florentino. Um jeito de lavar as mãos com sabonete de luxe numa bacia de prata de Benvenuto Cellini poderíamos dizer se fôssemos dados a preciosismos. Não dizê-lo demonstra nosso extremado bom gosto e imensa modéstia. Prova, outrossim, a enorme distância que medeia entre o ismo renascentista e nosso sóbrio credo estético.

No que diz respeito às circunstâncias da morte do filósofo, devemos acreditar mais na segunda versão do que na primeira? Nada o impede, mas tampouco nada o autoriza. A troca de uma data, do motivo do banquete, não faz diferença a esta altura das olimpíadas. É como trocar a letra inicial ou esquecer o acento de um nome, quando o portador deste é conhecido: uma questão de somenos importância, em suma.

A exígua superfície do guardanapo foi preenchida, interrompendo o fluxo destas digressões pra lá de acadêmicas.

(Jota L. – jan. ’97)

Jota L., que comete o mesmo pecado que condena (a menos que seja uma armadilha), incorporou a anotação acima ao livro O Renascimento (R.J., Agir Editora, 1978; vol. Nº 3072) respeitando a paginação e o colofão, como se desejasse deixar constância de sua leitura. O fato tem algo de Trem Fantasma (brinquedo maneirista?).

Parece-me que o discurso que se inicia no último banquete de Platão, interrompido pela morte de Porfírio, recuperado por Lorenzo, reproduzido por Bandini, citado por Ficino e mencionado pelo professor Nunes na palestra comentada por Jota L. vinte anos mais tarde, ilustra um mecanismo que alguém já atribuiu ao Espírito. Nos espelhos não é a superfície do vidro a que produz o reflexo, mas uma virtude do azougue do reverso.

Penso em Jota L. a partir de sua nota: como se (me) acenasse do espelho; e há algo de inquietante em seu gesto “anônimo”. Este gesto é realizado do vazio para o vazio. Jota L. não podia ter certeza de que seu texto fosse recolhido por alguém (talvez seja esta incerteza o verdadeiro motivo do meu próprio texto. Também, talvez, algo como solidariedade com a voz solitária. Seu discurso, que tem prefácio preâmbulo prólogo prelúdio polifônico, termina num solilóquio.).

Duvido quanto à inclusão numa certa pasta vermelha (futuro “livro” xerocado). Não deveria anexá-lo a outro volume do livro em questão, em continuidade ao enxerto de Jota L., individualizando-o, como o meu volume foi individualizado pelo texto dele? E depois? Sub-repticiamente deveria abandonar o livro numa prateleira poeirenta de algum sebo crepuscular, para que outro leitor…

Embora pudesse – por que não? – citar o fato no meu “livro” (que não terá circulação comercial) e que talvez, por uma desejável e imprevisível confluência de circunstâncias, chegue às mãos desse outro leitor (ou às mãos de Jota L.), e este, apenas este…

Cada vez há menos material disponível para os arqueólogos uma vez que diariamente há novas descobertas arqueológicas. Vivemos a era da Realidade Virtual, em outras palavras: do simulacro, então, por que não contribuir para a manutenção daquela sadia atividade esportivo-cultural?

Naturalmente, não poderá ser meu exemplar o achado arqueológico. Ele já está identificado pelo meu ex-libris (e pelo texto de Jota L.).

Procurar outro volume de O Renascimento, tal a tarefa que me impõe o texto. Tarefa difícil para quem sempre alimentou sua leitura com refugos dos alfarrabistas – o que alguma vez lhe deparou o raro prazer de adquirir um livro fora de circulação há muito tempo –, porém imprescindível, e sem cuja execução todo o precedente é letra morta. (J. Ele – fev. ’97)

Missão cumprida, o volume Nº 1479 já está novamente em circulação. Fim das peripécias de um leitor de raridades bibliográficas (que fatigados e vulgares os conceitos “livro inédito”, “livro encalhado”!).*

*Esta nota não figura no livro-objeto. Encontrei o exemplar citado num sebo de São Paulo, todavia, para não interromper o fluxo de leitura proposto pelos textos, deixei-o na prateleira crepuscular de outro sebo depois de xerocado, segundo o ilustre leitor pode conferir (esta é uma versão gráfica atualizada do texto xerocado.).

Como tomei conhecimento da nota? É uma longa história que contarei em outra ocasião. (J.L.)

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4 respostas

  1. Felisberto Pascoal Candele | Responder

    foi bom saber!

  2. EL.E FOI UMA PESSOA MUITO UMILDE

  3. nathully pedrosa coelho silva | Responder

    gostei muito de saber como o pai dos filósofos morreu pois sabemos de sua biografia ilustre e de seu companheirismo com o grande Sócrates e foi Platão quem deu continuidade a sua escola,mas não se comenta muito como ele morreu,ou com que idade ele morreu.

  4. Texto assaz interessante Lescano. Preciso reler e reler agora.

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