Cauby Peixoto, 80 anos / são paulo

A vida e a obra de um artista que já nasceu velho como cantor


 

Foto: AE

Cauby Peixoto durante apresentação em 2004

O homem que completa 80 anos nesta quinta-feira (10 de fevereiro) gosta de se resguardar e de poupar ao máximo as energias que armazena. Anda em passos curtos. Prefere ficar sentado que de pé. Responde com frases curtas às perguntas daqueles que se amontoam ao seu redor numa segunda-feira, o único dia da semana em que ele costuma, religiosamente, sair de casa. “Olha, eu gostaria de sair mais se pudesse, se não fizesse mal. Beber, por exemplo, eu não bebo, porque sei que não é bom”, explica o resguardo, no dia da exceção.

Em algum momento da noite ele soltará de vez a voz, conhecida Brasil afora há 60 anos. E provará que ela, a voz, é a única coisa que ele, o cantor, extravasa sem economia de esforço. Niteroiense radicado em São Paulo, Cauby Peixoto mantém-se há oito anos em temporada contínua no igualmente histórico Bar Brahma, de São Paulo. É ali que ele dissipa a energia ainda acumulada no auge de seus 80 anos.

Na noite de 17 de janeiro, o mítico compositor paulista Paulo Vanzolini abrilhanta a plateia do bar, o que confere simbolismo extra à “cena de sangue num bar da avenida São João” de “Ronda”, interpretada por Cauby três vezes durante o show, em português e em espanhol. A voz de trovão, acredite, está em grande medida preservada. Imóvel, Cauby faz ela verter pelo salão como se fosse o sangue do verso de Vanzolini. A plateia retribui acenando-lhe lenços brancos improvisados em guardanapos de papel. Ele devolve o gesto e o afeto, balançando em gestos mínimos seu lenço de linho.

 

Foto: AEAmpliar

Cauby Peixoto em 1969

“Eu não bebo, não me aborreço muito, tenho uma vida tranquila. Cuido muito de mim, sabe?”, Cauby explica o inexplicável, o fato de ele conseguir ser o único artista brasileiro de sua idade que mantém uma rotina intensa de apresentações e de contato direto com o público. O cantor de “Conceição” chega às 21h30 para o show que começará por volta de 22h30. Entra nas dependências do bar pelo anexo conhecido como Brahminha, atualmente desocupado, onde é montado seu camarim, à base do improviso e da simplicidade.

Concede mini-entrevistas antes de iniciar o show – não gosta de desperdiçar saliva fora do palco, a não ser na hora de contar quais músicas pretende selecionar para o disco de releitura de rocks dos Beatles, que lançará na sequência dos recentes álbuns devotados aos repertórios de Frank Sinatra e Roberto Carlos. Em vez de citar títulos como “Help”, “Yesterday” e “Michelle”, prefere fazer charme, entoando trechos das letras em pronúncia, sotaque e entonação 100% Cauby Peixoto.

As gravações mais antigas de Cauby datam de 1951, e sua trajetória resulta espetacular também pela época peculiar em que conseguiu se impor como artista. Eram os anos 1950, provavelmente o mais extenso e intenso período de transição da música brasileira do século passado.

Havia um mundo que envelhecia, dos sambas-canção românticos, derramados e cantados com toda a força do peito por coriscos vocais como Dalva de Oliveira, Nelson Gonçalves e Angela Maria. Ao mesmo tempo, um novo mundo eclodia, nas vozes estranhamente mansas e gentis de Dick Farney, Lúcio Alves, Johnny Alf, Dolores Duran, Tito Madi, Elizeth Cardoso, Maysa. Essa nova categoria de cantores prenunciava a chegada da da bossa nova, que só aconteceria em 1958.

Cauby pertencia à primeira turma, da cabeça aos pés, passando pela garganta em nada precursora da bossa. Quando surgissem João Gilberto e seus seguidores, ao final da transição, o Brasil aprenderia que Cauby, com 20 anos em 1951, já nascera velho como cantor.

  • Até por essa peculiaridade, ele pode entrar no salão do Bar Brahma em 2011, cercado de seguranças rombudos, pairar por sobre as décadas como se não pertencesse a nenhuma delas – e ainda causar tumulto numa plateia em que prevalecem contemporâneos seus, mas em meio à qual despontam uns tantos nas faixas etárias dos 40, dos 30, até dos 20 anos.

“Essas meninas cresceram e não deixaram de ser minhas fãs”, filosofa Cauby, antes mesmo de pousar os olhos no público do dia. “Acho que só quando eu desafinar é que deixarei de ter fãs. Enquanto eu tiver voz, eu terei o aplauso delas.” Resistem nele a confiança na própria afinação e o imaginário forjado pelo maranhense Di Veras, seu empresário, tutor e pai postiço praticamente o tempo inteiro, desde o início do pupilo até a morte, em 2000. Foi Di Veras quem desenvolveu, logo no princípio, a mística do Cauby arrasador de corações, provocador de desmaios entre as fãs adolescentes, galã caboclo quase hollywoodiano.

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Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura

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