O menino estava sentado no centro da nave do templo, mantinha os olhos fechados. O local vazio lhe dava um ar solene. O silêncio em volta aumentava a sensação de concentração do rosto moreno. Estava absolutamente imóvel, na penumbra poderia ser confundido com algum dos ídolos que se espalhavam pelo altar, ladeando o corpo esquálido e ensangüentado da figura principal.
Pelo silêncio e imobilidade poderia se acreditar que estava ali por não ter para onde ir. As roupas modestas e a trouxinha ao seu lado, os sapatos gastos, sugeriam que poderia ser um retirante, um dos tantos que nesses dias percorriam os campos e as estradas fugindo da violência das cidades devastadas, saqueadas, bombardeadas. As mãos juntas descansavam sobre as coxas.
Um grupo de pessoas entrou ocupando os bancos com murmúrios e cochichos. Desse grupo surgiu um rapaz que foi direto para o menino que deve ter sentido a sua presença, mas não abriu os olhos.
– O que você faz aqui? Este não é lugar para bandidos.
– Estou rezando – respondeu sem olhá-lo.
– Aqui? Você é um infiel!
– O templo estava vazio e eu precisava orar.
– Mas você é um infiel!
– Deus é um só, clemente e misericordioso e está em todo lugar – salmodiou o menino. – Por que não atenderia as prezes de um muçulmano na casa dos cristãos?



É preciso mesmo subverter a leitura do mundo, a que somos submetidos pelos discursos do reino. É preciso, para por luz no recinto.