Foi na arrumação de uma caixa que percebi o envelope, era uma carta entre duas mulheres contendo um perfil de alguém que uma delas parecia interessada,
não fosse… Afirmava: “… Se você pretende ser uma pessoa nom grata na casa dele, basta fazer estas coisas, não necessariamente nesta ordem: depois de comer, limpar a boca ou as mãos no pano de enxugar pratos; utilizar o garfo com que está comendo para esgravatar uma salada ou qualquer outro à mesa; terminada a refeição, indagar se na casa não existe palitos; servir-se de uma fatia de pão e sair espalhando migalhas pela casa; esquecer o cigarro aceso no balcão do bar (o seu canto favorito depois da biblioteca) de maneira que a xepa queime e atinja a madeira”…
Fui lendo distraidamente o texto e achando curioso que alguém se desse aquele trabalho, continuo… “Mexer nas peças de barro que representam o nosso boi-de-mamão e perguntar se pode levar esta ou aquela figura de recordação; pedir um livro emprestado de sua biblioteca; no banheiro, fazer xixi e não acionar a descarga ou lavar as mãos e respingar a água num raio de10 cmao redor da pia; tentar beliscar a carne na churrasqueira antes que ela esteja assada; pedir se não dá pra gelar um pouco o vinho tinto”…
Comecei a prestar mais atenção naquele comportamento sistematizado, até porque estava constatando certa familiaridade com o que eu próprio fazia, sigo… “Fazer a seguinte observação, sem ofender, mas não dá pra por um pouco de açúcar no chimarrão; cortar o queijo com a mesma faca com que você usou para passar geléia no pão; adoçar o café com a colher do açucareiro; perguntar se “ele” já consertou o desgraçado do telhado”…
Já estava identificado com muita coisa ali, ou então era uma grande coincidência, avanço… “Indagar quando irá por uma maldita lareira naquela casa; questionar se é bom morar sozinho naquele paraíso; especular se “ele” não gosta de outro grupo musical além dos Beatles; descobrir se “ele” não tem um interesse honesto por outra coisa que não sejam os livros e a literatura; ousar conhecer os segredos do “feiticeiro”, ou seja, saber se “escrever é fácil”; confirmar o que disse o poetinha Vinicius de Moraes, se o cachorro é o melhor amigo do homem ou se o uísque é o cachorro que vem engarrafado; finalmente, você sabe que “está na hora de ir embora” quando, imitando o mais nobre sotaque ilhéu, “ele” pergunta: — “Já vais? (pronunciando como um manezinho: — “Já vásss?”.
Se este cara aí não for minha “alma gêmea” então sou eu mesmo. Não contenho o riso. A carta estava datada de 1995 com a recomendação de me ser entregue depois que sua autora estivesse viajado para os Estados Unidos… Nunca dei importância, talvez a encarregada da incumbência não me inspirasse confiança e tivesse pensado que a tal carta fosse dela… Cá entre nós, não mudaria nada, afinal a cretina tinha feito uma radiografia acurada, claro, passado tanto tempo poderia ser acrescentado outros detalhes, aliás, o detalhe é a sofisticação do método, mas ela concluiu bem na carta para a amiga “… Meu anarquismo plebeu não combina com as esquisitices de um intelectual”…
E se fosse o contrário, penso, com esta sensibilidade, a escritora poderia ser ela!
NOTAS:
Olá, camaradas, salve!
Com esse texto me despeço…
Vamos manter a comunicação…
Em breve retomo, de outro lugar… Assim espero…
http://www.youtube.com/watch?v=CKHA2AGbXtI
Essa música “You’ve Got to Hide Your Love Away”, dos Beatles integra o
álbum “Help” (1965) e também faz parte da trilha sonora do filme de igual nome…
Sempre tive um carinho especial por ela, pela sonoridade, eles eram muito musicais…
Foi a segunda música em que convidaram alguém de fora (o flautista John Scott) para participar de uma gravação…
A primeira vez foi com “Love me Do”…
A letra diz que “você deve esconder o seu amor”…
Well, não é fácil… Nem esconder “o seu” amor e tampouco partir… Ir embora…
Dói…
Dói mesmo!
Até breve in another place…



http://www.facebook.com/#!/daisyescriba
Divulguei o texto lá
Olá Daisy, salve!
Grato pela surpresa do teu comentário… Bom saber que neste Brasis (como se dizia e outros tempos) há pessoas sensíveis distribuídas aleatoriamente de maneira a mantê-lo grande e unido… Carinhos do poeta e vamos manter contato… Até!
E ainda tem gente que questiona a intelectualidade na pós-modernidade. Posso falar um palavrão? PQPARIU! Há quanto tempo não leio algo tão divinamente expressivo, bem escrito, bem amado, bem sincero. Parabéns, escritor Olsen. Você é simplesmente maravilhoso. Homem poeta escritor, daqueles que eu quase não vejo mais, você ultrapassa a barreira (do som?) – Não! A barreira da geleira wébtica, amei te ler nesta manhã em que entrei no meu computador na deseperança das coisas iguais. Parabéns, Preciso de ti (contacto). Beijo com salva de palmas!