Mapa astral e outras adivinhações – por luis fernando pereira / curitiba.pr

Era criança lá em Cascavel quando um primo um pouco mais velho me explicou que o futuro já estava definido. Todo o futuro. Falava meu primo das profecias de Nostradamus. Fiquei meio desconfiado, mas acreditei. Aquela imagem de um velho sisudo e com longa barba branca ajudava a impressionar uma criança. Como há um bom tempo deixei de ser criança (mais tempo do que eu gostaria), parei de acreditar em Nostradamus ou qualquer outra forma de futurologia. Impressiona-me como até hoje muitos amigos (já bem crescidos) insistem em acreditar na possibilidade de se predizer o futuro. Resolvi escrever sobre tema.

Há várias modalidades de adivinhação. Dizem que os caldeus (aquela turma do sul da Mesopotâmia) prediziam o futuro analisando as entranhas dos animais. Hoje isso já não seria mais possível, imagino. A Brigitte Bardot e outros protetores dos animais não permitiriam o sacrifício dos bichinhos apenas para revelar o futuro a humanos ansiosos. Em tempos atuais a adivinhação se dá por intermédio das cartas de tarô, búzios, astrologia, quiromancia (leitura das mãos, explico aos não iniciados) entre outros “métodos” menos votados. Em um conto de Rubem Fonseca (reunido no ótimo “Secreções, Excreções e Desatinos”), li a possibilidade de se adivinhar o futuro por meio da análise das fezes. Não pesquisei, mas acho que a adivinhação escatológica era pura ficção do nosso grande Rubem (melhor contista brasileiro vivo, aproveito para anotar).

Ainda sobre os “métodos”, tem um amigo meu que acredita que tudo pode ser revelado pela borra do café (cafeomancia, outro método moderno de adivinhação). É só eu terminar de tomar o meu café que ele fixa o olhar no fundo da minha xícara para fazer a leitura da borra. – Mês bom para fechar acordos, disse ele uma vez. Eu acho que no futuro ele vai confessar que está me gozando com este papo de borra de café, mas como eu não me arrisco em adivinhações, simulo certa atenção. Como há vários métodos, pesquisei para ver se havia alguma hierarquia. Por exemplo: os búzios prevaleceriam em relação ao tarô que, por sua vez, estaria acima da cafeomancia? Não achei nada neste sentido. Isso só aumenta minhas dúvidas. Fico pensando: se por acaso os búzios revelarem período bom para acordos e a cafeomancia (o negócio da borra de café) disser que devo apostar em conflitos, como devo proceder? Cheguei à conclusão que o ideal é que cada adepto da adivinhação se concentre em apenas um método, evitando que o maldito do tarô possa eventualmente desmentir a leitura das mãos, gerando certa desorientação.

Bem, como meu espaço aqui na Revista Ideias é pequeno, permitam-me agora um corte metodológico. Vou me concentrar um pouco na análise da astrologia. É o método mais popular entre meus amigos. Fazer um mapa astral é quase uma obrigação hoje em dia. Se entendi bem a explicação sobre o funcionamento deste método de adivinhação, na essência a pessoa é definida (personalidade, caráter etc.) a partir das posições do sol, da lua e dos planetas no instante do nascimento. Ao ouvir a explicação, me perguntei por que não levam em conta o momento da concepção; ou quem sabe da primeira mamada? Não compreendi bem o porquê, mas o fato é que vale mesmo a hora do nascimento. Dia desses, ao tentarem me convencer a fazer meu mapa astral, disseram-me que bastaria eu informar o horário e a data do nascimento que o astrólogo (não confundir com astrônomo) me entregaria o tal mapa pronto. Falaram na influência das constelações zodiacais, se me recordo. O mapa astral, com suas casas astrais e trânsitos astrológicos (nomes pomposos, devo reconhecer), seria um guia a revelar períodos futuros propícios para determinadas atividades. Para resumir, é um horóscopo mais sofisticado. Com todo o respeito que devo aos meus amigos adeptos da astrologia, não vejo nenhum sentido nisso.

Certa vez, fiz uma conta interessante para uma amiga que não saía de casa sem ler o horóscopo diário (parece que mais recentemente ela migrou para o i-ching). Como somos mais de sete bilhões de humanos andando pela terra e apenas doze signos, mais ou menos seiscentos milhões de pessoas acabam tendo o mesmo tipo de dia (bom para os negócios; ruim para o amor, por exemplo). Não por acaso as “previsões” do horóscopo são genéricas o suficiente para não frustrar a expectativa da turma. Mesmo genéricas, há casos de inevitáveis equívocos. Quando pergunto sobre os erros, meus amigos do mapa astral chamam a atenção para a influência do signo ascendente. Eu mesmo nem sabia que existia o tal do ascendente. Existe e tem gente que chega a cancelar viagem se o mapa astral, levando ou não em consideração o ascendente, indicar um período impróprio. Gente importante acredita nisso. Os mais velhos lembram bem da estranha relação do casal Reagan com a astrologia. O ex-presidente americano chegou a ficar um tempo sem sair da Casa Branca com medo de ser assassinado. Era um sinal do mapa astral.

Eu simplesmente não consigo acreditar em rigorosamente nada disso. Acho sinceramente que não se trata propriamente de métodos de adivinhação, mas métodos de ganhar dinheiro. Para cada método há um “sensitivo”. São os intérpretes dos métodos. São pessoas que se vestem diferente para compor o tipo esotérico. Não duvido que haja gente séria metida com isso. Muitos realmente acreditam, mas a grande maioria tem a adivinhação como ganha-pão e pronto. O número de adeptos é tal que se trata de um ofício que dá um futuro certo aos “intérpretes”.

Apesar de tudo, antes de enviar este texto, resolvi consultar meu horóscopo. Entre outros conselhos, dizia que era para eu aproveitar o ensejo do ingresso de Júpiter em Áries para ampliar horizontes. O astral favorece a flexibilidade e a abertura mental, dizia outro trecho. Foi confiando nestes conselhos que eu enviei o texto. Não gostou? A culpa não é minha; é do mapa astral ou, noutras palavras, da bendita posição das constelações zodiacais na hora exata do meu nascimento.

About these ads

Uma resposta

  1. Caro Luis
    Foi com grande prazer que li seu texto. Me parece que as pessoas estão sempre procurando confirmar nos astros, na borra, nas cartas, cristais , videntes ou terreiros as decisões que ja tem resolvidas em suas cabeças. Seria mais barato prestar atenção a si mesmos e aquela tão baixinha voz interior.
    Abraço

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 386 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: