Preocupações com o livro e a Literatura amanhã – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc


Este ano a Biblioteca Nacional da Espanha celebra o seu terceiro centenário.


Aqui, tivemos um governador que decidiu ser sua missão acabar com a Biblioteca Pública do Estado de Santa Catarina, que contava apenas a metade da idade da sua congênere madrilenha – completou 158 anos no dia 31 de maio. Ele desfraldava um argumento que considerava arrasador e definitivo: “Por que a biblioteca de Joinville é municipal e a de Florianópolis tem que ser estadual?” Como não conseguiu extingui-la, mudou o nome para Biblioteca Pública de Santa Catarina (ou seja: ela está pronta para deixar de ser do Estado desde que o novo proprietário se comprometa a mantê-la pública…) e sustou a liberação de verbas até para a manutenção do acervo. Hoje o homem é senador da República e relata o projeto do novo Código Florestal Brasileiro, ancorado em opiniões pouco próprias sobre essa mania nacional de se querer preservar meio ambiente às custas da produção de alimentos.


Claro que bibliotecas têm tudo a ver com a preservação do livro, da Literatura e do salutar hábito da leitura. Ainda outro dia, o peruano Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura de 2010, declarando seu amor incondicional pelas bibliotecas, revelou que o fato mais importante da sua vida foi ter aprendido a ler. A paixão pela leitura desde criança, conforme afirmou, permitiu-lhe, a partir de então, viver “grandes experiências” graças aos livros.


O mesmo Vargas Llosa participou neste 9 de maio de um ciclo organizado por aquela biblioteca espanhola em comemoração aos seus 300 anos. Durante o debate com um jornalista, ele desabafou: “É um temor, tomara que não aconteça”. Referia-se ao advento dos mais diversos aparelhos eletrônicos que têm surgido nos últimos anos e se propõem a operar como suporte ao livro e à leitura. O mais recente deles constitui a família dos tablets, palavra que, em inglês, significa precisamente tabuleta, tabuinha, bloco de papel (assim como um notebook nada mais é, no vernáculo anglo-saxão, do que um mero caderno de notas, uma simples agenda, o velho e tradicional caderno escolar).


A preocupação do escritor latino-americano é que, segundo ele acredita, o suporte eletrônico acabará por influir decisivamente no conteúdo da escrita; neste caso, afetando comprometedoramente a qualidade do texto. Ele dá um exemplo: “a literatura criada diretamente para os tablets” pagará o mesmo preço que o texto escrito para a televisão, “pois se banalizará e cairá na frivolidade”. Seu argumento é claro: “A televisão banalizou tanto os conteúdos […] porque aponta ao mais baixo para chegar ao maior número de pessoas.”


Na verdade, não se pode considerar Literatura uma telenovela, tanto quanto nunca se deu essa condição à velha radionovela. Mesmo um texto teatral será ou não obra literária dependendo da perícia, do engenho e da autocrítica que o seu autor colocar no trabalho. De forma idêntica, um escritor jamais escreverá sua literatura de maneira apressada (e irresponsável) para “postar” o texto no segundo seguinte querendo que se trate de uma peça efetivamente literária. A obra literária exige tempo, maturação, revisões infindas e um enorme grau de exigência até chegar-se mais ou menos perto do resultado ideal.


Assim, jamais se escreverá um conto teclando-o diretamente num dispositivo eletrônico e publicando-o no ato. Literatura é outra coisa, e até poderá ser lida num tablet, mas nunca produzida nele para consumo imediato.

AMILCAR NEVES  é membro da ACADEMIA DE LETRAS DE SANTA CATARINA.

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