TRES MESAS – por jorge lescano / são paulo.sp

T R Ê S   M E S A S

 

Para J B  Vidal

Objeto de nosso cotidiano, corriqueiro, insignificante pode-se dizer, se ausente, perturba a nossa vida. Acreditamos que seja dos primeiros criados pelo homem e somos tentados a afirmar que é prévio à sua fabricação. O troglodita utilizou-o – ab ovo! – antes que lhe dessem forma e nome, pois a função faz o objeto. A pedra achada no caminho, um tronco atingido pelo raio, o próprio chão, cumpriram a função de mesa antes do artefato. Este móvel está presente nos mais diversos ambientes da civilização, tão presente que, como já dissemos, só o notamos quando falta. Mesa, a secas, sem atributos funcionais, espirituais, ou quaisquer outros que lhe foram agregados pela insuficiência de nossa língua: mesa de trabalho, mesa redonda, mesa branca, mesa de vivissecção, mesa de negociações, mesa de jogo…

Deste modesto produto da marcenaria se ocuparam um pintor, um poeta e um romancista. Presente como objeto em Jean Dubuffet (Le Havre, 1901-Paris, 1985), canteiro de obras em Francis Ponge (Montpellier, 1899 – Bar-sur-Loup, 1988), apoio do discurso narrativo em Ramón Bonavena (Escritor argentino, sem outros dados biográficos), evocado pelo seu compatriota e sempre bem informado em questões de estéticaBustos Domecq.

Curiosidade à margem: os três personagens têm prosápia francesa, o último apenas intermediário entre oconhecido ainda que não famoso escritor Bonavena, autor do suposto romance Nor-noroeste – a obra trataria deste setor limitado do tampo da mesa – e o leitor de sua entrevista. (Borges, Jorge Luís, Casares, Adolfo Bioy, Uma tarde com Ramón Bonavena in Crônicas de Bustos Domecq- (1967); São Paulo, Alfa Omega, s.d.)

Ensaios eruditos abordam os diversos aspectos da construção da mesa de Ponge(Ponge, Francis, A Mesa; (1981); São Paulo, Iluminuras, 2002 – edição bilingue). Árdua tarefa é desvendar os meandros lingüísticos e estéticos da obra; serve-nos aqui apenas como contraponto de referência de nosso assunto. Da fluída mesa de trabalho de Bonavena, mestre do descricionismo, ele e o cronista Bustos Domecq fornecem elementos suficientes para situar o leitor comum, o homem massa, em um plano de relativa compreensão.Sobra-me (abandono o plural do pronome ao mesmo tempo em que descarto as mesas narradas para assumir, só e desarmado – correlação coerente do ponto de vista óptico e narrativo – o objeto proposto por Dubuffet) a obra em questão: Móveis e objectos, 1952 (sic) reproduzida em livro editado em Portugal, como a grafia deixa evidente (Grandes pintores do século XX, Globus, 1996), mas impresso em Barcelona.

O quadro (óleo sobre Isorel, 92 x 122 cm. Fundação Jean Dubuffet, Périgni–sur-Yerres.) apresenta três figuras da mesma cor sobre fundo escuro As cores variam segundo estejam impressas em papel ou reproduzidas pela luz do computador. A figura maior ocupa o centro da obra e sobre ela – dentro dela – objetos menores – “copo” e “despertador” (o título nos obriga a vislumbrar objetos familiares) – denunciam sua função de mesa. À esquerda do espectador uma superfície mais estreita na mesma tonalidade sugere um cavalete de pintor e algo que poderia ser a tela “em branco”, embora onde se deveriam ver as hastes do tripé uma inesperada transformação do design sugira pernas humanas. Do lado direito outra forma – quadrúpede – indica que deve ser uma cadeira, o respaldo torto e a vizinhança com a mesa sugere esta identidade, caso contrário poderia ver-se outra mesa: criado mudo ou mesa de sala.

O objeto maior – a mesa – pela violação da perspectiva descricionista ganha características zoológicas. Intuo bovino decapitado, a cabeça decepada pela margem do suporte. Vista deste modo a cadeira é seu filhote e o copo e o relógio selo com que se marca o gado, a própria disposição deles – no “quarto traseiro” – reforça a idéia. Continuando a observação por este corte, a figura da esquerda – cavalete – adquire dimensão e densidade humanas – também decapitada, pois se tem pescoço e até gola (nesta espécie de grampo que segura a tela por cima aparece a enigmática inscrição ENCRA: tinta de escrever ou imprimir. – S. Burtin-Vinholes: Dicionário francês-português/portugês-francês, Globo, 1951), falta-lhe a cabeça que as justifique. Neste contexto o quadro tem novo significado: cena bucólica: recolhimento do gado em fim de tarde. Camponês e reses rumo ao curral da fazenda poderia ser o título, caso o autor fosse Corot (Jean Baptiste Camille; Paris, 1796 – Ville d’Avrey, 1875) ou Courbet (Gustave; Ornans, 1819 – La Tour-de-Peliz, 1877).

A presença viva do tampo da mesa – corpo de rês – é tão forte que não sinto a ausência das cabeças das três figuras/personagens. A forma menor – cadeira/ filhote – também partilha desta circunstância. Sendo francesa a obra, posso imaginar que se trate de uma cena de fins do século XVIII: Retrato de família?

 

Os três pintores mencionados neste artigo têm nacionalidade francesa, escolha que revela o desejo do autor de não invadir outras geografias, a menos que oculte (três?) intenções diversas.

A tríade é um Meio e Analogia porque todas as comparações consistem em três termos, pelo menos, e as analogias eram chamadas de meios pelos antigos.

             O cão de Plutão, Cérbero, tinha três cabeças.

            Três coisas melhoram o homem: uma boa casa, uma esposa bonita e uma boa mobília. (Sublinhados nossos.)

(Por se tratar de citação de obra esotérica, o autor declina, excepcionalmente, seu saudável hábito de fornecer a fonte. Nota do compilador.) (1)

Dubuffet disse a respeito da série Mesas-paisagens [...] uma mesa não é só um pedaço de terreno, mas está povoado de factos: não são os que pertencem à vida da própria mesa como outros que, misturados com estes, ocupam o pensamento do homem e que este projecta sobre a sua mesa no momento em que a olha. (op.cit.)

O pintor reconhece que sua obra é ambígua, mas já foi dito que em arte a ambigüidade é uma riqueza. Acredito que o meu olhar não distorce nem deturpa a proposta do artista, antes a confirma. Se ele vê paisagem, o olhar-pensamento que projeto sobre a imagem sugere gado; em todo o caso ver Mesa e outros objectos neste quadro é tão subjetivo quanto ver gado/paisagem. A obra – que não depende do título – é um convite à imaginação, não reprodução do cotidiano (a observação cotidiana dos objetos). A rica, porém discreta textura de toda a superfície desta pintura prende o meu olhar com o mesmo poder hipnótico do fogo, da água e das nuvens, revelando sua raison d’étre.

A Mesa de Francis Ponge – sessenta e sete páginas. Nas páginas 33 e 48 v. do original, 243 e 275 respectivamente, da edição brasileira, há apenas uma linha, várias outras são quase tão ermas quanto elas – e os improváveis seis volumes sobre o ângulo Nor-noroeste da escrivaninha de Ramón Bonavena documentam estas viagens ao centro – essência – da imaginação intelectual. Quanta documentação seria necessária para comprimir, com o dom da síntese, um lápis Goldfaber 873 em vinte e nove páginas in octavo (sic)!

 

A mesa é dos objetos mais afáveis, maternal, poder-se-ia dizer, sobre o qual convêm não repisar muito.

É provável que esta obra de Jean Dubuffet não precise do meu comentário (redutor, como todo comentário de uma imagem), contudo, creio que nada impede a um observador o registro de suas ambíguas impressões dela.

 

 

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1 – Com o intuito de oferecermos aos leitores que prestigiam nossa casa editorial obras de envergadura duradoura in totum, não aquiescemos a publicar este ensaio antes de verificarmos todas as suas instâncias. Nossas pesquisas nos levaram ao título sonegado. Trata-se de Os poderes ocultos dos números; RJ, Ediouro, 1987, de autoria de W. Wynn Westcott (o três W), Supremo Mago da Ordem Rosa-Cruz da Inglaterra. Pelo que nos consta e apesar da analogia, este(s) três W nada tem a ver com a mesma tríade da internet cujo significado desconhecemos visto sermos profissionais à respeitável maneira de Gutenberg. (Nota do Editor à guisa de epílogo)(2)

2 – Alguém chamou o autor anônimo de Três Mesas de contador de piadas bibliográficas. Pela nota precedente parece que não é bem assim. PALAVRAS, TODAS PALAVRAS estampou a pequena jóia sem qualquer ressalva, e é bem conhecida a responsabilidade que norteia este site. Enfim, prefiro deixar nas mãos da posteridade e do ilustre leitor a solução final deste nó górdio, para não dizer a última palavra. (Comentário no site mencionado de Jorge Lescano, remetente da miniatura literária em questão.)

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Uma resposta

  1. Que bela viagem, na interpretação dessa imagem da mesa e cadeiras. Gostei muito. Texto especial, se eu fosse leitor de Borges, diria Borgeano… mais q isso um texto tecnicamente, preciso na ambiguidade da imaginação.

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