Arquivos Mensais: março \31\UTC 2013

Choro Bandido – de chico buarque / salvador.ba

Choro Bandido

Chico Buarque

Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim

Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão

E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim

Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons

 

Como a classe média alta brasileira é escrava do “alto padrão” dos supérfluos – por adriana setti / barcelona.es


Adriana Setti

No ano passado, meus pais (profissionais ultra-bem-sucedidos que decidiram reduzir o ritmo em tempo de aproveitar a vida com alegria e saúde) tomaram uma decisão surpreendente para um casal – muito enxuto, diga-se – de mais de 60 anos: alugaram o apartamento em um bairro nobre de São Paulo a um parente, enfiaram algumas peças de roupa na mala e embarcaram para Barcelona, onde meu irmão e eu moramos, para uma espécie de ano sabático.

Aqui na capital catalã, os dois alugaram um apartamento agradabilíssimo no bairro modernista do Eixample (mas com um terço do tamanho e um vigésimo do conforto do de São Paulo), com direito a limpeza de apenas algumas horas, uma vez por semana. Como nunca cozinharam para si mesmos, saíam todos os dias para almoçar e/ou jantar. Com tempo de sobra, devoraram o calendário cultural da cidade: shows, peças de teatro, cinema e ópera quase diariamente. Também viajaram um pouco pela Espanha e a Europa. E tudo isso, muitas vezes, na companhia de filhos, genro, nora e amigos, a quem proporcionaram incontáveis jantares regados a vinhos.

Com o passar de alguns meses, meus pais fizeram uma constatação que beirava o inacreditável: estavam gastando muito menos mensalmente para viver aqui do que gastavam no Brasil. Sendo que em São Paulo saíam para comer fora ou para algum programa cultural só de vez em quando (por causa do trânsito, dos problemas de segurança, etc), moravam em apartamento próprio e quase nunca viajavam.

Milagre? Não. O que acontece é que, ao contrário do que fazem a maioria dos pais, eles resolveram experimentar o modelo de vida dos filhos em benefício próprio. “Quero uma vida mais simples como a sua”, me disse um dia a minha mãe. Isso, nesse caso, significou deixar de lado o altíssimo padrão de vida de classe média alta paulistana para adotar, como “estagiários”, o padrão de vida – mais austero e justo – da classe média europeia, da qual eu e meu irmão fazemos parte hoje em dia (eu há dez anos e ele, quatro). O dinheiro que “sobrou” aplicaram em coisas prazerosas e gratificantes.

Do outro lado do Atlântico, a coisa é bem diferente. A classe média europeia não está acostumada com a moleza. Toda pessoa normal que se preze esfria a barriga no tanque e a esquenta no fogão, caminha até a padaria para comprar o seu próprio pão e enche o tanque de gasolina com as próprias mãos. É o preço que se paga por conviver com algo totalmente desconhecido no nosso país: a ausência do absurdo abismo social e, portanto, da mão de obra barata e disponível para qualquer necessidade do dia a dia.

Traduzindo essa teoria na experiência vivida por meus pais, eles reaprenderam (uma vez que nenhum deles vem de família rica, muito pelo contrário) a dar uma limpada na casa nos intervalos do dia da faxina, a usar o transporte público e as próprias pernas, a lavar a própria roupa, a não ter carro (e manobrista, e garagem, e seguro), enfim, a levar uma vida mais “sustentável”. Não doeu nada.

Uma vez de volta ao Brasil, eles simplificaram a estrutura que os cercava, cortaram uma lista enorme de itens supérfluos, reduziram assim os custos fixos e, mais leves,  tornaram-se mais portáteis (este ano, por exemplo, passaram mais três meses por aqui, num apê ainda mais simples).

Por que estou contando isso a vocês? Porque o resultado desse experimento quase científico feito pelos pais é a prova concreta de uma teoria que defendo em muitas conversas com amigos brasileiros: o nababesco padrão de vida almejado por parte da classe média alta brasileira (que um europeu relutaria em adotar até por uma questão de princípios) acaba gerando stress, amarras e muita complicação como efeitos colaterais. E isso sem falar na questão moral e social da coisa.

Babás, empregadas, carro extra em São Paulo para o dia do rodízio (essa é de lascar!), casa na praia, móveis caríssimos e roupas de marca podem ser o sonho de qualquer um, claro (não é o meu, mas quem sou eu para discutir?). Só que, mesmo em quem se delicia com essas coisas, a obrigação auto-imposta de manter tudo isso – e administrar essa estrutura que acaba se tornando cada vez maior e complexa – acaba fazendo com que o conforto se transforme em escravidão sem que a “vítima” se dê conta disso. E tem muita gente que aceita qualquer contingência num emprego malfadado, apenas para não perder as mordomias da vida.

Alguns amigos paulistanos não se conformam com a quantidade de viagens que faço por ano (no último ano foram quatro meses – graças também, é claro, à minha vida de freelancer). “Você está milionária?”, me perguntam eles, que têm sofás (em L, óbvio) comprados na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, TV LED último modelo e o carro do ano (enquanto mal têm tempo de usufruir tudo isso, de tanto que ralam para manter o padrão).

É muito mais simples do que parece. Limpo o meu próprio banheiro, não estou nem aí para roupas de marca e tenho algumas manchas no meu sofá baratex. Antes isso do que a escravidão de um padrão de vida que não traz felicidade. Ou, pelo menos, não a minha. Essa foi a maior lição que aprendi com os europeus — que viajam mais do que ninguém, são mestres na arte dosavoir vivre e sabem muito bem como pilotar um fogão e uma vassoura.

PS: Não estou pregando a morte das empregadas domésticas – que precisam do emprego no Brasil –, a queima dos sofás em L e nem achando que o “modelo frugal europeu” funciona para todo mundo como receita de felicidade. Antes que alguém me acuse de tomar o comportamento de uma parcela da classe média alta paulistana como uma generalização sobre a sociedade brasileira, digo logo que, sim, esse texto se aplica ao pé da letra para um público bem específico. Também entendo perfeitamente que a vida não é tão “boa” para todos no Brasil, e que o “problema” que levanto aqui pode até soar ridículo para alguns – por ser menor. Minha intenção, com esse texto, é apenas tentar mostrar que a vida sempre pode ser menos complicada e mais racional do que imaginam as elites mal-acostumadas no Brasil.

DO GOLPE MILITAR ÀS DIRETAS-JÁ – por altamiro borges / são paulo.sp


O golpe militar de 1964 serviu aos interesses – ideológicos, políticos e empresariais – dos barões da mídia. Com exceção do Última Hora, os principais jornais, revistas, emissoras de TV e rádio participaram da conspiração que derrubou João Goulart. O editorial da Folha de S.Paulo de 17 de fevereiro de 2009, que usou o neologismo “ditabranda” para qualificar a sanguinária ditadura, ajudou a reavivar esta história sinistra – além de resultar num manifesto de repúdio com 8 mil adesões de intelectuais e na perda de mais de 2 mil assinantes. Afinal, não foi apenas a Folha que clamou pelo golpe. Vários livros documentaram a participação ativa da mídia, inclusive listando veículos e jornalistas a serviço dos golpistas [9]. Os editoriais da época escancararam essa postura ilegal.

“Graças à decisão e heroísmo das Forças Armadas, o Brasil livrou-se do governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo a rumos contrários à sua vocação e tradições… Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares”, comemorou o jornal O Globo. “Desde ontem se instalou no país a verdadeira legalidade… A legalidade está conosco e não com o caudilho aliado dos comunistas”, afirmou, descaradamente, o Jornal do Brasil. “Escorraçado, amordaçado e acovardado, deixou o poder como imperativo de legítima vontade popular o Sr. João Belchior Marques Goulart, infame líder dos comunos-carreiristas-negocistas-sindicalistas”, disparou o fascistóide Carlos Lacerda na Tribuna da Imprensa.

Na sequência, alguns veículos ingeriram seu próprio veneno e sentiram a fúria dos fascistas, que prenderam, mataram, cassaram mandatos e impuseram a censura. Lacerda, que ambicionava ser presidente, foi escorraçado pelos generais. Já o Estadão, com a sua linha liberal-conservadora, discordou do rumo estatizante do regime e teve várias edições censuradas. Este não foi o caso do grupo Frias, que tornou a Folha da Tarde “uma filial da Operação Bandeirantes”, a temida Oban, e no jornal de maior “tiragem” do país devido ao grande número de “tiras” (policiais) na sua redação [10]. Também não foi o caso da Rede Globo, que ergueu seu império graças ao irrestrito apoio à ditadura [11].

Até quando a ditadura já dava sinais de fraqueza, a TV Globo insistiu em salvá-la. Nas eleições de 1982, a corporação de Roberto Marinho montou um esquema, através da empresa Proconsult, para fraudar a apuração dos votos e evitar a vitória do recém-anistiado Leonel Brizola. A fraude foi denunciada por Homero Sanchez, ex-diretor de pesquisas da própria emissora. Ela também tentou desqualificar todos os principais líderes da oposição à ditadura. Numa entrevista ao jornal The New York Times, Roberto Marinho confessou: “Em um determinado momento, me convenci que o Sr. Leonel Brizola era um mau governador… Passei a considerar o Sr. Brizola daninho e perigoso e lutei contra ele. Realmente, usei todas as possibilidades para derrotá-lo”.

A manipulação mais grosseira, que popularizou o refrão “O povo não é bobo, fora Rede Globo”, ocorreu na campanha pelas Diretas-Já. Até duas semanas antes da votação da emenda Dante de Oliveira, que instituía a eleição direta para presidente, ela omitiu a mobilização que contagiava milhões de brasileiros. Ela recusou até matéria paga com chamadas para o comício em Curitiba (PR). Já o ato na capital paulista, que reuniu 300 mil de pessoas em 25 de janeiro de 1984, foi apresentado pelo âncora da emissora como “festa em São Paulo; a cidade comemora seus 430 anos”. “O Jornal Nacional sonegou ao público o fato – notório, na época – de que o ato fazia parte da campanha nacional por eleições diretas. Sonegou que essa campanha era liderada publicamente pelos principais expoentes da oposição” [12]. Um verdadeiro crime!

Das greves à histeria na Constituinte

Alguns veículos perceberam o naufrágio da ditadura militar e jogaram papel positivo na luta pela redemocratização. O caso mais curioso foi o da Folha, que até usou suas capas para convocar os comícios das Diretas-Já. O grupo Frias, que apoiara os generais “linha dura”, mudou de lado por oportunismo político e “mercadológico” [13]. Apesar destas nuances, nenhum barão da mídia abdicou de sua visão de classe. Jornalões e emissoras de TV e rádio nunca vacilaram diante das lutas dos trabalhadores, procurando criminalizar suas greves e satanizar suas lideranças. Numa das massivas assembléias em Vila Euclides, em maio de 1980, os metalúrgicos do ABC paulista destruíram câmeras e veículos da TV Globo, indignados com as suas recorrentes manipulações.

Esta opção de classe ficou visível durante os trabalhos da Assembléia Nacional Constituinte, em 1987/1988. Meticulosa pesquisa de Francisco Fonseca, da Fundação Getúlio Vargas, prova que os quatro principais diários do país (Jornal do Brasil, O Globo, Estadão e Folha) uniformizaram os seus ataques aos direitos trabalhistas. “Através dos editoriais, que definem a linha editorial e ideológica de cada veículo, a grande imprensa operou nos debates constituintes, sobretudo nos temas que se referiam aos direitos sociais… Alguns dos direitos propostos, como a diminuição da jornada de trabalho, a ampliação da licença-maternidade, a licença-paternidade e o aumento do valor da hora extra, foram tratados como catastróficos à produção” [14].

“A Constituinte embarcou em um caminho de distribuição de benefícios sociais cujo produto só pode ser um e único: a redução da taxa de investimentos, com o conseqüente atraso econômico”, afirmou o editorial terrorista do JB (28/02/88). “Concessões feitas em total descompasso com os efeitos não prejudicarão apenas os trabalhadores, [mas também] a estabilidade institucional”, ameaçou o golpista O Globo (15/11/87). O Estadão, com sua linha liberal-conservadora, pregou a supremacia do deus-mercado, afirmando que tais direitos “acarretariam pernicioso desestímulo aos melhores” (18/06/87). Já a Folha atacou a “demagogia”, inclusive nas propostas do adicional de férias, aviso prévio aos demitidos e limite de seis horas nos turnos ininterruptos (08/07/88).

Além de rejeitar qualquer avanço trabalhista, a mídia bombardeou o direito de greve e procurou fragilizar o sindicalismo. “A liberdade de greve é um abuso conceitual”, atacou o JB (07/07/88). A Folha exagerou ao dizer que as propostas dos constituintes estimulariam o “direito irrestrito de greve… [com] artigos condenáveis” (15/07/88). Já O Globo, no editorial “A porta da anarquia”, afirmou que este direito “significa a porta aberta à desordem e ao caos” (17/08/88). E o Estadão explicitou sua aversão às greves, principalmente no setor público. “São exércitos de empregados que agem com todas as regalias e mordomias de funcionários públicos, promovendo greves que ganham, hoje, aspectos nitidamente políticos e ideológicos, que levam à violência” (19/11/88).

Diante da ascensão das forças democráticas nos anos de 1980 e das conquistas da “Constituição-cidadã”, segundo a célebre definição do deputado Ulisses Guimarães, a mídia percebeu os riscos na origem e deu seu grito de guerra. “A hora é dos liberais acordarem, porque depois será tarde… Os liberais brasileiros têm diante de si uma ingente tarefa; se não se organizarem para combater o populismo estatizante (…), o Brasil corre o risco de regredir”, alertou o Estadão. “Não há outro caminho senão o de todos nos unirmos pondo acima de superadas divergências ideológicas ou de futuras disputas eleitorais os supremos objetivos da nação”, clamou o golpista Roberto Marinho.

NOTAS

9- Renê Armand Dreifuss. 1964: A conquista do estado. Editora Vozes, RJ, 1981.

10- Beatriz Kushnir. Cães de guarda. Boitempo Editorial, SP, 2004.

11- Valério Brittos e César Bolaño. Rede Globo: 40 anos de poder e hegemonia. Editora Paulus, SP, 2005.

12- Eugênio Bucci e Maria Rita Kehl. Videologias. Boitempo Editorial, SP, 2004.

13- Armando Sartori. “Oportunismo mercadológico”. Revista Retrato do Brasil, setembro de 2006.

14- Francisco Fonseca. “O conservadorismo patronal da grande imprensa brasileira”. Dezembro de 2002.

- Extraído do quarto capítulo do livro “A ditadura da mídia” (Editora Anita Garibaldi).

Foi Um Rio Que Passou em Minha Vida – de paulinho da viola /rio de janeiro.rj

Foi Um Rio Que Passou em Minha Vida

 

Se um dia
Meu coração for consultado
Para saber se andou errado
Será difícil negar
Meu coração
Tem mania de amor
Amor não é fácil de achar
A marca dos meus desenganos
Ficou, ficou
Só um amor pode apagar
A marca dos meus desenganos
Ficou, ficou
Só um amor pode apagar…

Porém! Ai porém!
Há um caso diferente
Que marcou num breve tempo
Meu coração para sempre
Era dia de Carnaval
Carregava uma tristeza
Não pensava em novo amor
Quando alguém
Que não me lembro anunciou
Portela, Portela
O samba trazendo alvorada
Meu coração conquistou…

Ah! Minha Portela!
Quando vi você passar
Senti meu coração apressado
Todo o meu corpo tomado
Minha alegria voltar
Não posso definir
Aquele azul
Não era do céu
Nem era do mar
Foi um rio
Que passou em minha vida
E meu coração se deixou levar
Foi um rio
Que passou em minha vida
E meu coração se deixou levar
Foi um rio
Que passou em minha vida
E meu coração se deixou levar!

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Presidente norte-coreano ordena preparação de mísseis para atacar EUA “a qualquer momento”

Presidente norte-coreano ordena preparação de mísseis para atacar EUA “a qualquer momento”

Kim Jong-un afirmou nesta sexta-feira que é hora de “acertar contas” com Coreia do Sul e seu aliado Estados Unidos

Agência Efe

Zona fronteiriça entre as duas Coreias está com tensão elevada devido à possibilidade de novom conflito

O presidente da Coreia do Norte, Kim Jong-un, ordenou o posicionamento técnico de “mísseis estratégicos” para atacar a “qualquer momento” alvos dos Estados Unidos e da Coreia do Sul, informou a agência norte-coreana KCNA.

O jovem líder ordenou que os mísseis “estejam preparados para disparar e golpear a qualquer momento o território dos EUA, suas bases militares no Pacífico, inclusive Havaí e Guam, e as da Coreia do Sul”, detalhou o comunicado.

“Chegou o momento de acertar contas”, afirmou Kim Jong-un.

A medida foi tomada horas depois de Washington enviar dois bombardeiros B-2 Spirit, com tecnologia furtiva para penetrar defesas antiaéreas e descarregar bombas convencionais e nucleares, para os exercícios militares que faz com os sul-coreanos desde o início do mês. A ação foi vista pela Coreia do Norte como uma violação à sua soberania.

Neste sentido, o líder norte-coreano ordenou que o Exército esteja preparado para “reagir perante a chantagem nuclear dos EUA com um ataque atômico sem piedade”.

Além disso, a KCNA revela que Kim Jong-un tomou estas decisões “em vista da trágica situação” e após ter realizado na primeira hora de hoje uma reunião urgente com as Forças de Mísseis Estratégicos do país comunista perante a presença do estado maior do Exército.

As novas ameaças acontecem depois de a Coreia do Norte anunciar nesta semana a suspensão da única linha de comunicação militar que mantinha com a Coreia do Sul e que administra o acesso ao complexo industrial comum de Kaesong, no meio de uma escalada de tensão entre os dois países.

O corte de todas as comunicações com o Sul se inscreve na campanha de ameaças belicistas que a Coreia do Norte dirige ao Sul e aos EUA desde o último dia 7 de março, quando a ONU anunciou novas sanções ao regime de Kim Jong-un por seu último teste nuclear de fevereiro.

Dentro desta dinâmica, a Coreia do Norte anunciou ontem que seus mísseis e unidades de artilharia se encontram “em posição de combate” apontando para alvos dos EUA e da Coreia do Sul, o que representa o grau máximo de alerta militar.

Posição norte-americana

Os Estados Unidos defenderam nesta quinta-feira o uso de um bombardeiro estratégico em suas manobras anuais conjuntas com Coreia do Sul como uma resposta “dissuasória” ao recente tom beligerante da Coreia do Norte.

O secretário de Defesa, Chuck Hagel, negou que o posicionamento de dois bombardeiros B-2 na Coreia do Sul seja uma provocação e assegurou que “a dissuasão também faz parte dos exercícios militares” entre as forças sul-coreanas e as tropas norte-americanas, manobras que começaram no dia 1º de março e se prolongarão até 30 de abril.

“As ações muito provocativas e o tom beligerante (norte-coreano) aumentaram o perigo”, indicou Hagel, que também defendeu a decisão de meados deste mês de aumentar as defesas antimísseis perante as ameaças do regime de Kim Jong-un.

Da mesma forma que o chefe do Pentágono, a Casa Branca e o Departamento de Estado defenderam este passo pouco convencional como parte do compromisso em defesa com seu aliado sul-coreano, ao mesmo tempo em que pediram que Pyongyang abandone suas provocações e ameaças.

“Quando um país diz o tipo de coisas que a República Democrática Popular da Coreia diz, você tem que levar a sério e dar passos para assegurar que fique claro que podemos defender e defenderemos nosso país e nossos aliados”, declarou a porta-voz do Departamento de Estado, Victoria Nuland.

Para o porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest, a mensagem de Washington é: “frente à retórica bélica e as ameaças dos norte-coreanos estamos ombro com ombro com nossos aliados sul-coreanos e nos asseguramos que os interesses de ambos estão protegidos”.

(*) com Agência Efe

Nazijornalismo – por leandro fortes / são paulo.sp

A violência do CQC contra o deputado José Genoíno alcançou, essa semana, um grau de bestialidade que não pode ser dimensionado à luz marcelo tasdo humorismo, muito menos no campo do jornalismo. Isso porque o programa apresentado por Marcelo Tas, no comando de uma mesa onde se perfilam três patetas da tristeza a estrebuchar moralismos infantis, não é uma coisa nem outra.

Não é um programa de humor, porque as risadas que eventualmente desperta nos telespectadores não vem do conforto e da alegria da alma, mas dos demônios que cada um esconde em si, do esgoto de bílis negra por onde fluem preconceitos, ódios de classe e sentimentos incompatíveis com o conceito de vida social compartilhada.Não é jornalismo, porque a missão do jornalista é decodificar o drama humano com nobreza e respeito ao próximo. É da nobre missão do jornalismo equilibrar os fatos de tal maneira que o cidadão comum possa interpretá-los por si só, sem a contaminação perversa da demência alheia, no caso do CQC, manipulada a partir dos interesses de quem vê na execração da política uma forma cínica de garantir audiência.

A utilização de uma criança para esse fim, com a aquiescência do próprio pai, revela o grau de insanidade que esse expediente encerra. O que se viu ali não foi apenas a atuação de um farsante travestido de jornalista a fazer graça com a desgraça alheia, mas a perpetuação de um crime contra a dignidade humana, um atentado aos direitos humanos que nos coloca, a todos, reféns de um processo de degradação social liderado por idiotas com um microfone na mão.

A inclusão de um “repórter-mirim” é, talvez, o elemento mais emblemático dessa circunstância, revelador do desrespeito ao ofício do jornalismo, embora seja um expediente comum na imprensa brasileira. Por razões de nicho e de mercado, diversos veículos de comunicação brasileiros têm lançado, ao longo do tempo, mão dessa baboseira imprestável, como se fosse possível a uma criança ser repórter, ainda que por brincadeira.

Jornalismo é uma profissão de uma vida toda, a começar da formação acadêmica, a ser percorrida com dificuldade e perseverança. Dar um microfone a uma criança, ou usá-la como instrumento pérfido de manipulação, como fez o CQC com José Genoíno, não faz dela um repórter – e, provavelmente, não irá ajudá-la a construir um bom caráter. É um crime e espero, sinceramente, que alguma medida judicial seja tomada a respeito.

Não existem repórteres-mirins, como não existem médicos-mirins, advogados-mirins e engenheiros-mirins.

Existem, sim, cretinos adultos.

E, a estes, dedico o meu desprezo e a minha repulsa, como cidadão e como jornalista.

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Da CartaCapital

E DEUS CRIOU PORTO ALEGRE – por paulo timm / torres.rs

   Paulo Timm – 2010 (Da Série Prévidi
E assim foi: Longos anos, décadas, longe do sul e então o retorno.

ChegueI piá em Porto Alegre, em pleno inverno de 1955. Mas não reclamei do frio. Santa Maria era muito pior. E me aquerenciei no perímetro do bonde “Duque”, morando logo abaixo do Alto da Bronze. Ali me ambientei, numa rara ecologia humana que ia do cais do Porto à Pantaleão, numa orla carregada de álcool, prostituição e até uma Casa de Detenção, subindo gradativamente a Vasco Alves, para se recuperar social e moralmente, ao longo de toda a Duque de Caxias, até o Viaduto Borges de Medeiros. Um período maravilhoso, em meio PAULO TIMMaos “Anos Dourados”, em cujas férias eu me atirava na velha “Maria Fumaça”  para reviver  minha antiga morada. E assim passaram anos e anos,  nos quais me reencontrava com os primos e primas na casa grande de minha amada avó, Romilda, transformada em Clube da meninada. Quando me dei conta, tinha passado pelo Colégio das Dores, pelo “Julinho”, pela antiga Escola de Cadetes da Redenção. Era um porto-alegrense.  E já era homem. Ou, pelo menos, pensava que era..

Era 1966. Estava na Faculdade de Filosofia, em pé, junto ao umbral que separava o salão de entrada do Bar interno,  ao lado do Flavio Koutzii, do Clovis Paim Grivot, do André Foster, da Mercedes (então) Loguercio iniciando-me nas teias  da subversão, para horror de uma família conservadora estrelada  de militares de alta patente. Durou pouco: o tempo de me formar e , cagado de medo  pelos rumos que a velha dissidência estudantil comunista ia tomando, rumar para o Chile.  Paulo Renato Souza, colega de Faculdade, na Economia, me esperava e me daria, generosamente, o seu emprego como “ayudante” do José Serra (esse mesmo!!!) na Faculdade Latinoamericana de Ciências Sociais – FLACSO. Começava o ano mais terrível da ditadura:1970.

Muitos anos depois vim a saber-me, pela crônica de Sergius Gonzaga, hoje Secretário de Cultura, sobre a década de 60 ,em Porto Alegre, que eu fora um guru do marxismo-leninismo na cidade, já àquela época contaminado pelo vírus do “ Discreto Charme da Burguesia”, na inclinação  por carros esporte, roupas finas, vinho e charutos da melhor qualidade e queda irresistível por mulheres bonitas e amantes castelhanas…Mas esquerda, como toda a geração daquela época.

Esta Porto Alegre, por quatro décadas, ficou nos meus sonhos e devaneios.Do Chile fui para Brasília e lá fiquei 35 anos.  Certa feita, um amigo, Heitor Silveira, já falecido, de quem me aproximara na Planisul de todas as cores e malucos, também em Brasilia, retornara, em caráter definitivo, e me esnobava: “Aqui eu não ando, eu flutuo…”  Eu morria de inveja. Era o suficiente para eu conseguir umas férias matrimoniais, com ou sem permissão do empregador, e mergulhar dias sem fim naquela que  sempre foi a minha cidade. E sofregamente tomava alguma aventuras amorosas como quem  se agarra ,não ao passado,mas à própria cidade. Sentia-me, então , embriagado de estranha felicidade naqueles dias em Porto Alegre.

Agora estou aqui ao lado, em Torres. Já nada me impede de estar “em  casa”. Digo  ao filho e família que temo o excesso de frio e chuva. Outras vezes, digo que já não suporto a cidade grande, cujas vias  nem reconheço e novos bairros nem sei chegar. Vezes há , ainda, que a cidade não é segura. Tudo mentira. Guardo as vindas a Porto Alegre como uma primícia, de sabor sensual e convidativo. Como quem freqüenta furtivamente a  proibição. Quem inventou a saudade, me disse uma vez uma amiga, não conhecia a distância. Nunca saberei , ao certo, se a máxima era ou não dela. Mas valeu…Saboreio a pequena distância que me separa de Porto Alegre com  uma pitada de saudade.

Aí escolho o Hotel. Tem que ser no Centro, no meu velho perímetro do “Duque”, onde me sinto em casa. E, quase sempre, procuro as pegadas do Mário Quintana, em busca de inspiração poética. Já não há o Majestic, onde ele morava,  que me foi tão misterioso na juventude, pelos arcos, arcadas, sacadas que contemplava , lá de baixo. Hoje pego o elevador no Centro Cultural Mario Quintana , vou àquelas sacadonas  e  me sinto senhor  de um tempo que se foi. Não importa. Disseram-me que o Falcão levou meu ídolo para o Hotel Royal, na descida do Sevigné, então lá eu fico.

Chego em Porto Alegre , quase sempre, à noite. E aí redescubro o prazer de ouvir Lupicínio pelo seu filho, a gratidão de me sentir perto do Uruguai, através de uma parrillada, de andar pela boemia da Cidade Baixa como quem anda no Quartier Latin. Já não vejo os velhos amigos. Muito raro. Acho que nos evitamos  sem querer, querendo. Mas encontro novos e nos regozijamos com os mesmos profundos papos que nos anos 60 povoavam nossas tertúlias quando saíamos do Festival de Cinema Tcheco, na Praça da Alfândega, para discutir, sob inspiração do último artigo do Pilla Vares,  a diferença entre consciência e ódio de classe, como critério de discernimento da ação revolucionária.

Pela manhã uma longa caminhada ao longo dos  imaginários trilhos do “Duque”. Atavismo. Reapropriação do tempo e do espaço. Casas, casarões, a escadaria da Fernando Machado relembrando a ampla vista que se tinha do Guaíba, o cumprimento aos lugares vividos numa espécie de oração matinal , um velho, como eu, irreconhecível,  por trás de uma janela. Naquele tempo banhávamos no gasômetro. E entrávamos e saíamos do Porto como queríamos. Eu sempre com um SPICA debaixo do braço para vender no  Colégio e fazer uma graninha. Na primeira vez que subi no convés de um navio fiquei impressionado com a altura até a superfície da água. Desci correndo.

São oito e meia da manhã e já percorri minha juventude, com uma passagem pela Redenção para reviver os ideais soterrados pela barbárie stalinista.  Estou na frente do Mercado  com os sentimentos à flor da pele. Ali entrei , pela primeira vez, muito menino. Para provar o morango com chantili na Banca 40, que desconhecia. E mordiscar uns camarões ultra-salgados expostos na banca ao lado. Fascinado. Entro solenemente, como se fora numa feira  medieval.

Primeiro uma parada na Banca de Revistas e Livros usados. Salta aos olhos um exemplar de Cícero, sobre Obrigações Civis. Cícero a essa hora? Nada melhor. Procurar um lugar para sentir o momento mágico e folhear o opúsculo alentador. Aí o Café do Mercado, um balcão simples , com mesas altas e bancos suspensos defronte.  Mas, lá dentro, o segredo do café cremoso apojado de tetas sibilantes numa variedade rara no resto da cidade. –Tem café Jacu, pergunto hesitante?  – Sim , senhor! Um expresso?  – Pois sim!  E me sento num dos  bancos para folhear  o capítulo sobre o “Decoro”, ao sabor do melhor – e mais caro café – do mercado brasileiro. Cagado por uma ave, o jacu, e retirado depois de secas as fezes…(!) Degusto o café sem pressa. Nem olhares curiosos. No passal das gentes a única preocupação é o dia que vem pela frente. Fico eu, apenas, com o prazer. O prazer de estar no Mercado de Porto Alegre. E deixar escoar o tempo… Certo de que, na saída, levarei para Torres um belo pedaço de charque de ovelha para um carreteiro.

Deixo o Mercado, retorno à Rua da Praia e rumo para a Jerônimo Coelho. Fazer barba e cabelo num daqueles  machadianos salões que prometem funcionar dia e noite! Escutar o falar acalorado de adversários ferrenhos sobre as virtudes dos novos jogadores do Grêmio e do Internacional.  “ Sou do Força e Luz”, digo. Não entendem bem. “Depois torci pelo Cruzeiro, pelo qual joguei no time de basquete”. Eles me olham desconfiados, de cima pra baixo, e eu, do meu 1.60m completo: “ No infantil…”

Aí resolvo subir a ladeira, ver uns sebos, e me reconheço uma vez mais no céu. Acho dois livros que já havia perdido numa das inúmeras mudanças e lá me vou para o reencontro com “A Razão Cativa “ e “Razões do Iluminismo”, de um dos maiores filósofos brasileiros, marcado para morrer por ter sido Ministro da Cultura do Collor: Sergio Paulo Rouanet. E nem se dão conta que Collor , foi , depois de Jango, o único Presidente a ter Ministros irretorquíveis. Várias livrarias, o mesmo encanto. Então, carregado, me sento num pequeno restaurante da Riachuelo, à hora do almoço, para um copo de vinho. E me convenço de que “Deus criou Porto Alegre”, como diz o Prévidi.

E tenho um dia inteiro e um domingo,  ainda, pela  frente. Mas não vou contar mais nada  hoje. Fica para outro dia…

Cura de leucemia é anunciada por cientistas

Foto: The New York Times

Foi publicado nesta semana uma pesquisa no New Engand Journal of Medicine que abre espaço para o tratamento de uma forma de leucemia muito complicada para os médicos, a leucemia linfocítica aguda (LLA). Especialistas da Universidade da Pennsylvania conseguiram curar uma paciente infantil utilizando  um método de reprogramação das células da defesa.

A garota é esta da foto, Emily Whitehead. Ela foi diagnosticada com a doença quando tinha apenas cinco anos. Como os tratamentos convencionais não estavam surtindo efeito, os pais da menina resolveram tentar o tratamento experimental.

O método consiste em modificar geneticamente as células de defesa. Assim, elas passam a combater as células cancerígenas. Um ano depois, Emily permanece sem a doença.

O método ainda não apresentou 100% de eficácia em outras pessoas – houve um paciente que morreu -, mas abre espaço para a cura de outros tipos de câncer, como da mama e da próstata, dizem pesquisadores.

Via IG

Ditadura: revelados detalhes da morte de militante da ALN

Enviado por luisnassif, dom, 24/03/2013 – 12:11

Depoimentos de ex-militantes reforçam sadismo de torturadores na ditadura

Detalhes sobre o assassinato do comandante Jonas, da Ação Libertadora Nacional, foram revelados esta semana em audiência da Comissão da Verdade de São Paulo

Por: Júlia Rabahie, da Rede Brasil Atual

 

São Paulo – Novos depoimentos de ex-militantes reforçam a dose de sadismo dos torturadores de presos políticos no final da década de 1960, além de trazerem à tona detalhes sobre a morte de Virgílio Gomes da Silva, o comandante Jonas, em setembro de 1969. Os militantes, assim como Virgílio, faziam parte da Ação Libertadora Nacional (ALN), uma das principais organizações guerrilheiras de combate à ditadura brasileira (1964-85).

Antônio Carlos Fon, Celso Horta e Manuel Cirillo participaram esta semana da audiência pública da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo Rubens Paiva, na Assembleia Legislativa, para depor sobre a morte de comandante Jonas, torturado em um dos porões da ditadura, a Operação Bandeirantes (Oban). A Oban se tornaria depois o Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) de São Paulo.

“O capitão Albernaz era o mais violento e o mais doente de todos eles. Ele simbolizava muita coisa, andava com um pedaço de viga de madeira na mão, e quando passava nos corredores ia batendo nos presos. Não precisava de sala ou interrogatório para torturar. Ele era o exemplo do diabo”, disse Horta ao comentar a atuação do capitão do Exército Benoni de Arruda Albernaz na repressão aos presos da Oban. “Aquilo era uma casa de horror e de gritos”, completou.

Comandante Jonas era dirigente da ALN e foi um dos comandantes do sequestro do embaixador norte- americano Charles Burke Elbrick, no dia 4 de setembro de 1969. Poucos dias depois do fim da operação, quando pretendia mudar-se para Cuba com a família, Jonas foi preso, torturado e assassinado, segundo relatos.

Os depoimentos dos companheiros de militância de Virgílio à Comissão da Verdade indicam que sua morte ocorreu no dia 29 de setembro do mesmo ano, dia em que foi preso. O jornalista e companheiro de Virgílio da ALN, Antonio Carlos Fon, declarou ter certeza sobre os responsáveis pela morte do amigo. “Major Inocêncio de Fabrício Beltrão, capitão Benone de Arruda Albernaz, sargento Paulo Bordini e capitão Maurício Lopes Lima assassinaram Vírgilio Gomes da Silva, sob tortura brutal. Afirmo aqui e afirmo em juízo se for necessário.”

“Neste dia tínhamos marcado um ponto e percebi logo que havia repressão ali. Nem cheguei a atravessar a rua. Mas me localizaram, e quando me dei conta estava dentro de um fusca, os soldados com os pés em cima de mim. Fui desembarcar na Operação Bandeirantes”, contou Celso Horta, que, à época, era estudante, e militava na ALN desde 1968. “Sofri choques elétricos, e assim que os torturadores se retiraram vi a chegada do Virgílio. Ele devolvia os chutes e gritava ‘vocês estão matando um brasileiro, um patriota’.” Esta foi a última vez que Horta viu Jonas vivo.

Apesar de afirmar certeza sobre sua data de prisão – dia 30 de sembro de 1969 (um dia após a prisão de Virgílio) – os documentos de prisão de Manuel Cirillo indicam que sua captura foi feita antes desta data, no dia 16 do mesmo mês. “Isso já é a primeira coisa a ser investigada pela comissão.”

“Toque vermelho”

Cirillo estava hospedado em uma casa em São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, quando foi preso, junto com a esposa de Virgílio, Ilda Gomes da Silva, e os quatro filhos do casal: Virgílio, Vladimir, Gregório e Maria Isabel – que tinha apenas quatro meses de idade. “Esperávamos documentos falsos para ir para o exterior. Quando acordei, na manhã do dia 30, havia um cidadão com um pé no meu peito e um fuzil na minha cara. Os espancamentos começaram ali mesmo, na frente das crianças”, contou Cirillo.

O militante contou que, logo ao chegar no prédio da Oban, foi levado para a sala de tortura. “O que mais impressionou no pau de arara foi o sangue que havia ali, devia haver pedaços de massa encefálica também”, disse, emocionado. De acordo com ele, enquanto era torturado, os torturadores diziam, repetidamente e em tom de escárnio “matamos um brasileiro aqui, mas que tinha um toquezinho de vermelho”. “Debaixo das porradas que DitaduraMilitar-Tortura-ChoqueEletricoeu sofria, contaram que mataram um ‘brasileiro’ na véspera, isso ficou na minha cabeça”, contou.

Foi apenas em 2004 que a ficha do atestado de óbito de Virgílio foi localizada no Instituto Médico Legal (IML) de São Paulo. “Mais de 30 anos depois, o atestado de óbito de Virgílio é achado, e traz as informações de que vestia uma camiseta amarela, um calção verde, e meias vermelhas. Um brasileiro com um toque de vermelho.”

O atestado também indicava que o corpo do militante havia sido sepultado no Cemitério da Vila Formosa, o maior da América Latina, na zona leste paulistana. No fim de 2010, atendendo aos pedidos da família, do Sindicato dos Químicos – do qual era militante – e do Grupo Tortura Nunca Mais de São Paulo, o Ministério Público Federal conseguiu acordo para que se desse início aos trabalhos de escavação no cemitério.

A operação, envolvendo a Polícia Federal, o Instituto Médico Legal e a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, foi encerrada em março de 2011 com a retirada de várias ossadas que passaram por análises de laboratório. O cemitério, a partir da década de 1970, foi fortemente descaracterizado, teve suas ruas alargadas e árvores plantadas, tornando a localização dos corpos praticamente impossível.

Ilda Gomes da Silva, e dois de seus filhos estavam presentes na audiência: Virgílio – Virgilinho, como é chamado –  e Maria Isabel. Em depoimento emocionado, Virgilinho contou sobre o período em que ele e os irmão ficaram separados da mãe, quando ela foi presa. Dona Ilda ficou nove meses na prisão. Durante este período, as crianças ficaram no Juizado de Menores por dois meses.

“Levavam a gente para passear, e mostrar casas, nos oferecendo para adoção. Diziam que nossos pais eram bandidos. Depois nossas tias conseguiram nos tirar de lá, fomos cada um morar com uma delas.” Depois da soltura de dona Ilda, ela e os filhos foram para Cuba, em 1973, da onde só retornaram ao Brasil depois de 21 anos, em 1994. “Em Cuba, eu vi o sonho dos que lutavam contra a ditadura no Brasil”, disse o filho do dirigente morto.

Ele também agradeceu a presença dos militantes da ALN na audiência, ressaltando a importância de seu papel para o resgate à memória e à verdade. “Somos privilegiados de estar aqui com pessoas que fizeram parte da história do Brasil, que abdicaram dos seus sonhos para levantar sua voz na Justiça contra aqueles que, pela força, achavam que podiam dominar.” Ele também destacou o trabalho das Comissões da verdade pelo país. “Já vivi vários momentos históricos, e neste momento vivo outro, de resgate da justiça.”

Ampla, geral e irrestrita

O deputado Adriano Diogo (PT), presidente da Comissão, e os ex-militantes da ALN defenderam uma revisão da Lei da Anistia, de 1979, que garante anistia política aos militantes de esquerda e também aos agentes da repressão do Estado. “Aquela gente tomou de assalto o Estado brasileiro. Todas as instituições foram tomadas de assalto, esta lei tem de ser revista, foi votada por um Congresso cassado, porque o parlamento também foi tomado”, disse Cirillo.

A lei garante anistia àqueles que cometeram “crimes políticos ou conexos com estes”. Cirillo contesta o significado dado, pela lei, aos crimes conexos. “Não deveriam ser crimes entendidos como aqueles praticados pelos que estavam no poder, mas sim como a criação de condições para os guerrilheiros fugirem de prisões, coisas do tipo.”

Atuação

Virgílio Gomes da Silva nasceu na cidade de Santa Cruz, no Rio Grande do Norte, em 1933. Em 1957, já em São Paulo, começou a trabalhar como operário na empresa Nitroquímica. No mesmo ano, ingressou no PCB e passou a atuar no Sindicato dos Químicos e Farmacêuticos de São Paulo. Em 1964, após o golpe, foi preso por sua atuação como sindicalista, e após alguns meses ficou no Uruguai, durante três meses. Em 1967 entrou para a ALN e foi para Cuba fazer treinamento de guerrilha, onde ficou até 1968.

Os depoimentos dos colegas e familiares lembraram Virgílio como um “grande estrategista”. “Virgílio sempre teve a cabela voltada para o social, antes de mais nada, apesar de ser nosso comandante militar”, disse Celso Horta.

As Rosas Não Falam – de cartola / rio de janeiro.rj

As Rosas Não Falam  – CARTOLA

Bate outra vez
Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão,
Enfim

Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar
Pra mim

Queixo-me às rosas
Mas que bobagem as rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti

Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E quem sabe sonhavas meus sonhos
Por fim…

.

PRECE DE GRATIDÃO – de manoel de andrade / curitiba.pr

“Prece de Gratidão”

 

Eu te agradeço, Senhor,
ser filho do Teu amor
e herdeiro do Universo.
Ser cantor dessa beleza,
ter um lugar nessa mesa,
pelo sabor do meu verso.

Senhor, muito obrigado,
pelos  pais bons e honrados
e pelas lições da pobreza.
Pelo café com farinha,
por tudo que eu não tinha
e que fez minha riqueza.

Pelo meu corpo perfeito,
pela poesia em meu peito
e os anos da minha idade.
Por todo dever cumprido,
pelo amparo recebido
e o céu da imortalidade.

Eu Te agradeço também
pela semente do bem
plantada no meu pomar.
Pela doçura desse fruto
não ter me tornado um bruto
e ter aprendido a amar.

Pela água da minha fonte,
pela linha do horizonte
e um sonho de marinheiro.
Pelo meu mar de criança
e o meu barco de esperança
percorrendo o mundo inteiro.

Pelo pão, pelo abrigo,
pelo abraço do amigo,
por Teu carinho invisível.
Agradeço-Te com veemência
esta paz na consciência
e a minha fé invencível.

Pela luz que me ilumina
desde a antiga Palestina
na alegria e na dor.
Por quem sou, pelo que sei,
por Moisés trazendo a Lei,
por Jesus trazendo o amor.

Senhor, eu Te agradeço
pela dor e o tropeço
quando ensinam uma lição.
Ninguém paga sem dever
e a Lei obriga a colher
o efeito da nossa ação.

Pela sapiência contida
no pergaminho da vida,
na magia e na razão.
Agradeço-Te a minha parte,
pela ciência, pela  arte
e pela Grécia de Platão.

Por Cabral no rumo certo,
pelo Brasil descoberto,
pela pátria e o cidadão.
Pelo herói da Inconfidência,
o Grito da Independência
e a bênção da Abolição.

Pelas lições da História,
pelo povo e a sua glória
na busca da liberdade.
E pela Humanidade inteira,
quando erguer sua bandeira
pela paz e a verdade.

Grato sou por ter um sonho,
sonhar com um mundo risonho
numa paz contagiante.
Ver este Brasil fecundo,
como o coração do mundo,
em um porvir deslumbrante.

Agradeço o bom combate,
e ter encarado esse embate,
com o coração despojado.
Com Tua luz nos meus passos,
a fraternidade em meus braços
e o meu sonho preservado.

Contigo Senhor, sou forte,
tenho um fanal, tenho um norte:
amor, sensibilidade.
Eu moro na melodia,
na música, na poesia
e no farol da verdade.

Muito obrigado Senhor
pelo trabalho e o suor,
pelo que dei e recebi.
Quando chegar meu momento,
se eu tiver merecimento,
me leva pra junto de Ti.

Manoel de Andrade

DOIS POEMAS DE ZULEIKA DOS REIS – são paulo.sp

A FLAUTA

                                                             

 

A flauta funda

fértil fauno

a fecundar ninfas

a fecundar fábulas

fontes a jorrar

nadas nuncas.

A flauta é funda.

Nadas nuncas

que a flauta funda

feudos

flâmulas

feridas  a jorrar

formas fatídicas.

A flauta é funda

a forjar forjas

ferozes fendas

fronteiras filigranas

a fulgir, a jorrar

na funda flauta

informes formas

nadas nuncas

nadas nuncas

na funda flauta

fundidas faces

falo febre fogo

sêmen dos segundos…

sêmen dos silêncios…

sêmen… deuses assassinados.

================

                       

                

                                                                                      

O anel que tu me deste

Era vidro e se quebrou.

O amor que tu me tinhas

Era pouco e se acabou.

De Ciranda infantil

****************************

TROVAS DE SER-NÃO SER

A estrela que eu te dei

era cadente e sumiu?

A estrela que tu me deste

por onde anda no céu?

Anéis para os nossos dedos

eram invisíveis e os víamos

com os olhos da nossa alma

que não mais, nunca se acalma.

Nunca se acalma esta alma

que te dei, que tu me deste.

Onde os céus que se partiram?

Onde os anéis para os dedos?

Sei que houve outras estrelas

nestes céus da tua alma.

Nem todas elas me amam.

Tento sempre compreendê-las.

Ninguém mais fiel tiveste

aos teus segredos mais fundos

que são também meus segredos

e com zelo os guardo, todos.

Poupa-me do teu ciúme

que cego como o assum-preto

transforma em lama, a estrela

e o canto dela em negrume.

Só negrume a estrela-lama

canta, tal canta o assum-preto.

Teus passos pisam essa estrela

que te iluminava, bela,

as noites, de insônias longas,

os dias de insones sonhos,

a vida, de ouro antigo,

- céus de eternas turbulências

céus das mais fundas tristuras

céus de loucas esperanças

céus dos mais longínquos voos

que as nossas asas voaram

céus dos quais nunca voltamos

mas voltamos, obrigados,

para sempre estrangeiros,

eu mais que tu, que tens Pátria

outra, escolhida por alma.

Eu não, tu eras a Pátria

que me cabia por sina.

Sina: Pátrias adversas

e de destino mutante,

que me afirmas e me negas

às vezes no mesmo verso

na alma do mesmo instante.

      

Costumes nacionais – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

Costumes nacionais

 

Apenas para registro, antes que me esqueça: o título que o Autor efetivamente deu à crônica de quarta-feira, 30 de janeiro, foi Como dinheiro perdido no bolso de um casaco, e não Com o dinheiro, etc. Mas vamos ao que interessa.

 

Na semana passada, uma onda de indignação, digamos assim (à falta de melhor classificação), varreu este País de Sul Amilcar Nevesa Norte, de Oeste a Este, por conta da candidatura de Renan Calheiros à presidência do Senado. Ficha limpa no Congresso!, era a tônica da campanha. Cada um de nós recebeu pelo menos oito mensagens eletrônicas de repúdio à situação que se punha, com o pedido de subscrição e repasse do protesto ao maior número possível de concidadãos.

 

E qual foi a consequência de tamanha movimentação? Aliás, uma movimentação que não requer das pessoas que se mexam, sequer que levantem seu nobre assento da cadeira em que o instalaram, bastando-lhes apertar um ou outro botão do seu computador, um ou outro ponto da tela do seu celular ultrainteligente. Assim, todos nós pudemos participar de mais um fantástico espasmo da cidadania enquanto aguardamos sequiosos o próximo escândalo que, se Deus quiser, não há de tardar.

 

Sim, mas… e a consequência da mobilização? A de sempre: nada. Nada mudou. Conforme longamente gestado, Renan foi eleito presidente da Casa e, semana que vem, já teremos esquecido quanto nos indignamos com tão profunda sinceridade enquanto ele permanecerá no comando, chefe de um dos três poderes da Nação, por dois longos e recheados anos de, cada um, doze meses inteiros (serão, pois, 24 salários assim usufruídos, fora o resto das vantagens – e resto, aqui, é mera figura de retórica, já que elas se sobrepõem milhares de vezes ao principal; o resto, na verdade, o troco, a esmola é o salário).

 

Todo mundo sabia há muito que Renan seria o presidente, mas, ocupados com a vida, só o percebemos nos derradeiros dias – quando saímos a campo; todo mundo sabe há muito que não é isto que o fará arredar pé da cadeira que enfeixa tantos e tão sedutores poderes, e que ele a ocupará a despeito da nossa cara feia: ele sabe que nós, como povo em geral, o elegemos ou, ao menos, elegemos os que o elegeram.

 

Se Alagoas até mereceria ser expulsa da Federação por votar e revotar em Renan e Collor, poluindo nosso conceito de ética e de higiene dos fichários, nós reelegemos políticos que votam neles para cargos no Congresso. Ainda que refutemos em nome pessoal que eu não, eu não votei nesses caras, o meu candidato, ético, limpo, decente, até honesto!, foi derrotado, isso não exclui nossa responsabilidade de povo que elege essa gente.

 

Daqui a pouco teremos nova jornalista (não mais a Mônica Veloso, já velha demais para isso, manjadíssima), ou outra profissional qualquer, a meter-se na vida de Renan e, depois, nas páginas daPlayboy – não para relatar, indignada, o que viu e soube, mas para mostrar os bens, pagos por empreiteiras ou por desvios de verbas públicas, de que o senador desfrutou, se é que, nas condições dele, desfrutar ainda seja o verbo. Talvez melhor será dizê-lo bens que o alagoano viu e apalpou, embora mais certo mesmo pode ser que seja o que apregoa um amigo:

 

- Comer? Que nada! Aquilo quer é participar: diz que estivemos juntos, eu assumo contrariado e tu me passas 45% do que a Playboy te pagar, cash pra mim.

 

Nossa culpa é não brigar o tempo todo para que o voto seja consciente, ou seja, não brigar o tempo todo por uma educação decente e uma formação cultural que nos honre e eleve.

“MATAR O ÍNDIO PARA SALVAR O HOMEM. O ÚNICO ÍNDIO BOM É O ÍNDIO MORTO” – 100 ANOS DE GENOCÍDIO


“MATAR O ÍNDIO PARA SALVAR O HOMEM. O ÚNICO ÍNDIO BOM É O ÍNDIO MORTO.” Citação de Richard H. Pratt,fundador do primeiro internato indiano denominado “Carlisle Indian School Industrial”.

crianças 1

As crianças eram arrancadas à força de suas famílias, sob pretexto de receberem educação civilizada. Nunca mais retornavam. Simplesmente sumiam.
De acordo com o Reverendo Kevin Annett, Secretário do Tribunal Internacional para Crimes da Igreja e dos Estados (www.itccs.org), o Instituto Mohawk (foto abaixo) foi criado pela Igreja Anglicana da Inglaterra em 1832 para aprisionar e destruir gerações inteiras de crianças da etnia indígena Mohawk. As crianças indígenas eram arrancadas violentamente de suas famílias e levadas a esses internatos. Lá sofriam todo o tipo de maus tratos, trabalhados forçados, experiências médicas, torturas, rituais malignos, violência sexual e toda uma série de perversões perpetradas por padres, freiras e mandatários da igreja. O Instituto Mohawk foi a primeira escola indígena  residencial no Canadá e durou até 1970 quando foi fechada para esconder os crimes ali cometidos pela igreja.


Como na maioria das escolas residenciais, mais de metade das crianças presas ali nunca mais voltou para casa. Muitasescola delas foram enterradas ao redor da própria escola.
Em 1909, o Dr. Peter Bryce , superintendente médico geral para o Departamento de Assuntos Indígenas (DIA), informou o departamento que entre 1894 e 1908, as taxas de mortalidade em algumas escolas residenciais no oeste do Canadá variou de 30% a 60% em cinco anos (ou seja, cinco anos após a entrada, de 30% a 60% dos estudantes tinham morrido, ou 6-12% ao ano). Estas estatísticas não se tornaram públicas até 1922, quando Bryce, que já não estava trabalhando para o governo, publicou A História de um Crime Nacional:. Sendo um registro das condições de saúde dos índios do Canadá 1904-1921. Desde então, a humanidade cruzou os braços para essa situação.
Para saber a história completa desses campos de concentração e extermínio de crianças administrados pela Inglaterra e pela Igreja, acesse:
 crianças
.
mirantesul

MENINO COM CARRINHO – por jorge lescano / são paulo.sp

M E N I N O   C O M  C A R R I N H O

Na rua dom José de Barros, no centro de São Paulo, não trafegam veículos, é intensamente ocupada por pedestres durante todo o dia. Ela é povoada de lojas, barracas, quiosques e quaisquer outras locações que permitam a exposição e venda de produtos. Estes também são os mais diversos, Há utilidades domésticas e adereços de mágica, aparelhos eletrônicos e comida feita na hora.

No horário do almoço é quando a rua ganha um ritmo frenético. Os edifícios de escritórios jorram na rua multidão de funcionários ávidos de comida e de liberdade entre dois períodos de escravidão. O sol de verão desértico ameaça fritar os passeantes desprevenidos.

Nesta hora é que de forma insólita aparece a figurinha deslocada do contexto citadino: um garoto negro de aproximadamente três anos, sozinho, anda tranquilamente, ignorando a multidão apressada. Numa das mãos um barbante, no extremo deste, um carrinho de madeira. Concentrado em sua atividade, segue reto um itinerário que só ele conhece.

A figura chama a atenção dos pedestres que olham, procuram algum adulto próximo dela, fazem comentários inaudíveis e seguem seu caminho, coincidente ou oposto ao do garoto. O velho para e contempla a cena como se fosse um espetáculo maravilhoso. Com certeza lhe chama a atenção o fato dessa cena tão familiar e corriqueira numa rua da periferia, estar se dando em pleno centro da cidade mais populosa da América do Sul.

Lembra-se de seu filho, há muito tempo, enfileirando carrinhos numa ladeira criada por uma tábua e uma caixa de sapatos e lhe dando instruções de como se comportar quando você quer brincar de carrinhos.

O velho também está intrigado pela ausência de um acompanhante da criança. Enquanto isso o garoto segue em frente, fiel ao destino do seu veículo, condutor consciente, deve levá-lo sem percalços até o lugar designado por alguma autoridade invisível. Portanto, vez por outra para e observa o carrinho para se certificar de que tudo está em ordem. Feito isto, continua com a calma própria que só dá a consciência de estar fazendo sua tarefa corretamente. O silêncio do menino cria um vácuo na sordidez escandalosa do meio-dia paulistano.

Finalmente o velho percebe na entrada de uma pequena loja uma mulher magra parada, observando o menino. Com certeza é a mãe dele. Só esta relação pode explicar a paciência com que aguarda o andar parcimonioso do pequeno condutor. Ele a olha como se estivesse comprovando a existência de sinais de trânsito no seu caminho. Não muda de rumo nem aumenta a velocidade. O velho observa o menino. Não quer ver nenhum gesto de impaciência de quem quer que seja. Quer guardar na memória a atitude digna e responsável deste garoto que em silêncio dirige seu veículo pelos recantos do seu país mágico, indiferente à turbamulta da cidade.

O DIA DA POESIA o site homenageia com TORQUATO NETO / ilha de santa catarina.sc

COGITO
Torquato neto

.

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.

PAPA FRANCISCO: “Os vínculos do novo papa com a ditadura militar da Argentina”

 

Os vínculos do novo papa com a ditadura militar da Argentina

publicado em 13 de março de 2013 às 17:05

Internacional| 13/02/2013 | Copyleft

Os conservadores argentinos sonham com um papa próprio

 

Como em 2005, quando Ratzinger foi eleito, os conservadores argentinos voltam a sonhar em ter um homem seu no Vaticano: o cardeal Jorge Bergoglio. Mas o papel desempenhado pela Igreja argentina e pelo cardeal na ditadura militar (1976-1983) torna quase impossível a escolha de um personagem com semelhante currículo.

Oscar Guisoni

Buenos Aires – “Quando João Paulo II morreu todos nos iludimos com a possibilidade de que nosso cardeal Bergoglio assumisse como papa. Mas não aconteceu. Oxalá desta vez ocorra”, exclama sem ruborizar uma conhecida jornalista local em uma das tantas transmissões improvisadas da televisão argentina surpreendida, como o resto do mundo, com a renúncia de Bento XVI. “Deus não o permita”, responde o colunista Fernando D’Addario, no Página/12.

Como ocorreu em 2005, quando foi eleito o Papa Joseph Ratzinger, os conservadores e ultramontanos argentinos voltam a se iludir com a possibilidade de colocar seu homem no Vaticano: o cardeal Jorge Bergoglio. Mas o papel desempenhado pela Igreja argentina e pelo citado cardeal em particular durante a última ditadura militar (1976-1983) torna quase impossível que o Vaticano opte por habilitar com a “fumaça branca” um personagem com semelhante currículo.

Salvo que “assim como nos anos 80 escolheram Karol Wojtyla para canalizar religiosamente a luta do povo polonês (isto é, a do mundo ocidental e cristão) contra o totalitarismo soviético”, sustenta D’Addario com acidez, “agora escolham um papa argentino para salvar-nos do populismo gay e favorável ao aborto que se expande como uma peste por estes pampas”.

A polêmica, que em apenas algumas horas voltou a impregnar grande parte da imprensa argentina, trouxe à tona de novo a triste memória do papel desempenhado pela Igreja local durante a última ditadura militar e suas implicações no presente.

Assim, enquanto o setor mais conservador e católico da classe média local volta a sonhar em ter seu próprio Papa, os organismos de Direitos Humanos e as associações que agrupam os familiares dos 30 mil detidos desaparecidos na última ditadora recordam que a Igreja não só colocou uma venda nos olhos diante da matança organizada pelo Estado, como se fez de distraída inclusive frente o assassinato de seus próprios sacerdotes, comprometidos com a “opção pelos pobres’ e com a Teologia da Libertação que havia iluminado o Concílio Vaticano II.

Uma prova da atualidade da polêmica é a recente decisão judicial do tribunal que julgou na província de La Rioja o assassinato dos padres Carlos de Dios Murias e Gabriel Longueville, ligados ao também assassinado bispo Enrique Angelelli, uma das figuras emblemáticas da “Igreja comprometida” dos anos setenta na Argentina.

Nesta sentença inédita anunciada na semana passada fala-se pela primeira vez da “cumplicidade” da Igreja Católica local com os crimes cometidos pelos militares, ao mesmo tempo em que se assinala a “indiferença” e a “conivência da hierarquia eclesiástica com o aparato repressivo” dirigido contra os sacerdotes terceiro-mundistas.

Chama a atenção, diz ainda a sentença, que “ainda hoje persiste uma atitude resistência por parte de autoridades eclesiásticas e de membros do clero ao esclarecimento dos crimes”.

Como ocorreu em 2005, enquanto por trás dos muros do Vaticano se escolhia o sucessor de João Paulo II, a discussão pública leva os argentinos a olhar para sua própria Igreja no espelho que mais os envergonha: do outro lado da Cordilheira, a Igreja Católica tem outra cara para mostrar, já que sua atitude frente à ditadura de Augusto Pinochet foi exatamente a oposta à adotada pela hierarquia argentina.

A polêmica transcende rapidamente o âmbito religioso e se instala no cenário político cada vez mais radicalizado, que encontra os partidários da política de Direitos Humanos promovida pelo governo kirchnerista no caminho oposto ao dos conservadores que desejam encerrar os julgamentos contra os responsáveis pelos crimes contra a humanidade executados pela ditadura antes que os processos comecem a bater às portas dos cúmplices civis do regime, o que já começou a acontecer.

Enquanto isso, o candidato em questão, o atual arcebispo de Buenos Aires, Jorge Bergoglio, sonha em alcançar um papado impossível. Nascido em 1936 e presidente da Conferência Episcopal durante dois períodos (cargo que abandonou recentemente por doenças da idade), é difícil que o Vaticano se arrisque a colocar no trono de Pedro um homem citado em vários processos judiciais por sua cumplicidade com a ditadura e que conseguiu evitar seu próprio julgamento por contra de influências e argúcias de advogados.

Nada disso impede, porém, os ultramontanos argentinos de sonhar com a possibilidade de ter um Papa em Roma que os ajude a acabar de uma vez por todas com um governo que consideram o pior inimigo da Igreja Católica desde que o presidente Juan Domingo Perón enfrentou-se de forma virulenta (incluindo a queima de algumas igrejas) com a hierarquia católica no final de seu governo em 1955.

Tradução: Katarina Peixoto

da Carta Maior.

PS do Viomundo: Um papa com dupla tarefa: frear os evangélicos e a esquerda na América Latina.

JUDAÍSMO REJEITA O SIONISMO E O ESTADO DE ISRAEL – este texto está em ingles. escrita original.

JUDAÍSMO FOTO
‘NYT’ landmark: Jewish philosophy prof says we ‘really ought to question’ Israel’s right to existOur site keeps urging a mainstream conversation about Zionism. That’s the endpoint of our work, questioning that almost-religiously-held belief. Well, last night, the New York Times’s opinionator blog published a bold piece by Joseph Levine, a professor of philosophy at the University of Massachusetts, saying that we have to question the right of Israel to exist as a Jewish state–and pretty much concluding that it doesn’t have such a right.Mind you the piece appears in the Opinionator’s philosophical section, which I see is called The Stone, and though it begins by asserting that Levine was raised in a Zionist home, it is a calm and logical disquisition, explaining why Jews do not deserve self-determination inside a state created in the Middle East, up until the end, when Levine arrives at the actual conditions of Palestinians, including the Nakba, and says that these abuses were “unavoidable” in the constitution of a Jewish state.”I conclude, then, that the very idea of a Jewish state is undemocratic, a violation of the self-determination rights of its non-Jewish citizens, and therefore morally problematic.”Writes Donna Nevel, who sent this to me:I think it’s important that these positions are becoming more visible and it’s becoming much harder (though we know too well they still try!) for the Jewish establishment (and AIPAC, etc.) to silence and marginalize these discussions or pretend that views like this don’t reflect similar perspectives of an increasingly large segment of the Jewish community.

Here are excerpts. Go to the Times for the entire thing:

Over the years I came to question this consensus and to see that the general fealty to it has seriously constrained open debate on the issue, one of vital importance not just to the people directly involved — Israelis and Palestinians — but to the conduct of our own foreign policy and, more important, to the safety of the world at large. My view is that one really ought to question Israel’s right to exist and that doing so does not manifest anti-Semitism. The first step in questioning the principle, however, is to figure out what it means….

My view is that one really ought to question Israel’s right to exist…

But the charge that denying Jews a right to a Jewish state [is anti-Semitic because it] amounts to treating the Jewish people differently from other peoples cannot be sustained…

But if the people who “own” the state in question are an ethnic sub-group of the citizenry, even if the vast majority, it constitutes a serious problem indeed, and this is precisely the situation of Israel as the Jewish state. Far from being a natural expression of the Jewish people’s right to self-determination, it is in fact a violation of the right to self-determination of its non-Jewish (mainly Palestinian) citizens..

Any state that “belongs” to one ethnic group within it violates the core democratic principle of equality, and the self-determination rights of the non-members of that group…

I conclude, then, that the very idea of a Jewish state is undemocratic, a violation of the self-determination rights of its non-Jewish citizens, and therefore morally problematic…

There is an unavoidable conflict between being a Jewish state and a democratic state.

JUDAÍSMO PASSEATA

The piece is reminiscent of other Jewish landmarks/awakenings: Tony Judt writing 10 years ago in the New York Review of Books, territory the journal has never sought to lay claim to, that the Jewish state is an anachronism, Brian Klug’s great essay, “On saying that Israel has a right to exist,” which we republished two years ago. Once the media begin stating this argument more regularly, calmly and honestly, you’re going to be stunned by how many young Americans sign on.

Via: Mondoweiss

The Wall Will Fall

Jack Andraka: Aos 15 anos, ele criou um sensor para câncer

Por Anna Carolina Papp

Norte-americano inventa sensor que detecta câncer no pâncreas e que é muito mais rápido, barato e sensível que o método atual. Agora, aos 16 anos ele quer criar um aparelho para reconhecer 15 tipos de doenças

SÃO PAULO – No ano passado, um cientista apresentou uma descoberta brilhante em uma premiação: criou um sensor que detecta câncer no pâncreas com um teste muito mais eficaz do que o utilizado atualmente: 168 vezes mais rápido, 26 mil vezes mais barato, 400 vezes mais sensível e quase 100% preciso. Detalhe: o cientista tinha 15 anos de idade.

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Jack Andraka, hoje com 16 anos, é um aluno de ensino médio da cidade de Crownsville, próxima a Washington, nos Estados Unidos. O gosto por ciência, no entanto, não é de hoje.

Quando tinha apenas três anos de idade, o garoto se lembra de ter ganhado uma maquete de plástico com um pequeno rio. Ele e seu irmão faziam testes com a água, vendo qual objeto boiava e qual afundava, qual era levado pela corrente. “Conforme fui ficando mais velho, percebi que a ciência era algo que podia usar para entender o mundo ao meu redor; daí me tornei fascinado por ela!”, disse Jack ao Link por telefone.

Atento. Numa aula de Biologia sobre anticorpos, Jack estava lendo sobre nanotubos de carbono, e logo teve a ideia: ‘Vou combinar os dois’. FOTO: Paul Morigi/Getty Images – 16/6/2012

Mas a inspiração para criar o sensor que diagnostica câncer de pâncreas – a doença que tirou a vida do cofundador da Apple, Steve Jobs – veio de uma experiência pessoal: um amigo próximo da família, que Jack considerava como um tio, faleceu da doença. As muitas dúvidas sobre o assunto rapidamente levaram o garoto à internet.

“Fui ao Google e descobri que 85% dos casos de câncer de pâncreas são diagnosticados de forma tardia – quando a pessoa só tem 2% de chance de sobreviver”, diz o garoto. “Além disso, o teste de diagnóstico atual é uma técnica de 60 anos que custa 800 dólares.” Chocado com os números, Jack se convenceu de que devia haver um método mais simples, rápido e barato.

Eureca. O garoto começou a pesquisar sobre biomarcadores de proteínas. “Aí conheci a mesotelina, uma proteína que, em casos de câncer de pâncreas, ovário e pulmão, aparece em alta concentração na corrente sanguínea, mesmo em estágio inicial da doença”, explica.

A grande sacada, no entanto, veio numa aula de Biologia. Em vez de prestar atenção, Jack lia um trabalho sobre nanotubos de carbono. “Eles têm o diâmetro 150 mil vezes menor do que o de um fio do seu cabelo, mas têm propriedades incríveis; são os super heróis da ciência material”, diz. O aluno então se deu conta de que a professora falava sobre anticorpos, moléculas do sistema imunológico. De repente, ele teve uma ideia: combinar uma rede de nanotubos de carbono e anticorpos, produzindo uma estrutura que pudesse identificar a presença da mesotelina e, portanto, do câncer.

Jack pesquisou sobre o assunto e procurou ajuda de mentores que pudessem lhe orientar para realizar os testes e concretizar o projeto. “Mandei e-mail a 200 professores, e só recebia rejeições: foram 199 rejeições e um ‘talvez’”, conta. Três meses depois, ele encontrou-se com a pessoa que lhe dera o “talvez”: Dr. Anirban Maitra, professor da escola de medicina da Johns Hopkins, que lhe convidou para uma reunião.

O garoto, apreensivo, compareceu à entrevista munido de seus relatórios, materiais e estimativas de custo, e foi aceito. “Logo que comecei a trabalhar no laboratório, desenvolvi uma estratégia e… não estava funcionando de jeito nenhum!”, diz ele. “Demorou cerca de sete meses para garantir que o projeto fosse testado e funcionasse.”

O resultado do trabalho certamente impressiona: um sensor em forma de pequenas tiras de papel que, com uma amostra de sangue de alguém, consegue detectar se há câncer de pâncreas, ovário ou pulmão. O teste custa US$ 0,03 e leva cinco minutos.

Com a invenção, Jack foi premiado na Feira Internacional de Ciência e Engenharia da Intel. Ele estuda viabilizar o projeto com apoio de empresas como Quest Diagnostics e LapCorp, da área de diagnósticos. O sensor deve chegar ao mercado entre dois e cinco anos.

Tricorder. Além de ver seu sensor espalhado por aí, Andraka também quer ir além do câncer e o próximo desafio é vencer a competição Tricorder X, lançada durante a feira Consumer Eletronics Show em janeiro. A disputa é uma premiação de US$ 10 milhões em que os participantes devem criar um aparelho portátil para diagnosticar 15 tipos de doenças em 30 pacientes em três dias.

Ao ouvir sobre a competição, Jack entrou em contato com dois de seus amigos finalistas da feira da Intel. Aí nasceu o grupo, a “Geração Z”.

O objetivo dos meninos é construir um aparelho do tamanho de um smartphone que detecte qualquer doença pela pele. Jack afirma que está trabalhando num componente do tamanho de um grão de açúcar que possa passar pela pele humana, chegar à corrente sanguínea e detectar doenças por meio da análise de proteínas.

Cada colega seu mora em um lugar diferente e, por isso, trabalha em uma parte específica do projeto. A maioria das discussões é pela internet, principalmente por Skype. A Geração Z ainda está recrutando interessados, e o prazo final para entregar o projeto é 2015.

‘Ele é muito novo’. No fim de fevereiro, Jack Andraka foi um dos palestrantes da conferência de inovação TED. Sua descoberta o tem levado a fazer diversas apresentações. Ele diz que sua idade ainda provoca desconfiança: “Dizem: ‘ele é muito novo, não sabe do que está falando!’”, conta o jovem pesquisador. “Mas ao sentar comigo, ler e ouvir sobre o meu trabalho, se convencem.” Ele prevê que a idade será cada vez mais irrelevante como critério. “Conheci um monte de adolescentes que fazem pesquisas completamente inovadoras”, diz.

Jack fala que, apesar de muitos jovens considerarem a ciência uma área fria e distante, o que o fascina é justamente vê-la aplicada no seu dia a dia. “A questão não é decorar códigos ou fórmulas; há um grande aspecto criativo em fazer ciência; é detectar um problema e pensar em soluções criativas.”

Ao longo de seu processo criativo, Jack destaca um componente fundamental: a internet. “Quando comecei esse projeto, eu nem sabia o que era um pâncreas!”, afirma. O garoto conta que usou muito o Google e a Wikipedia para pesquisar, pois muitas vezes a biblioteca estava fechada ou desatualizada. “Hoje, é possível fazer pesquisa contemporânea sobre todos esses campos diferentes pelo celular!”, diz. “A tecnologia realmente acelerou o modo como fazemos ciência.”

Hoje, Jack frequenta pouco a escola; prefere os laboratórios. Perguntado sobre o que faz para se divertir, ele conta que adora andar de caiaque com sua família e fazer origami. Mas não consegue esconder o lado gênio: “Ah, além das competições internacionais de matemática.”

UMA CIÊNCIA – por luis fernando veríssimo – porto alegre.rs

Uma ciência

Decidiram fazer um churrasco para as famílias se conhecerem. Do lado da Bea havia seu pai, sua mãe, um irmão mais moço e uma tia solteira. Do lado do noivo, Carlos Alberto, mãe viúva, duas irmãs mais velhas, sendo uma com uma Luis-Fernando-Veríssimo-01namorada, e um irmão com a mulher e dois filhos menores. O churrasco seria na casa da Bea, que tinha um pátio grande com churrasqueira, e o Carlos Alberto se prontificou: seria o assador.

Acertaram a logística do encontro Os donos da casa forneceriam as saladas e a cerveja, os visitantes trariam a carne, a sobremesa e os refrigerantes, inclusive zeros para quem estivesse controlando a glicose. E o assador. Tudo transcorreu bem. Uma das crianças ralou o joelho e, segundo o consenso geral, exagerou um pouco nos gritos para chamar atenção, a tia solteira da Bea bebeu demais e caiu da cadeira, mas fora isso, tudo bem. Todos se entenderam, se divertiram – a namorada da irmã mais velha do Carlos Alberto tinha um repertório inesgotável de anedotas – e conversaram bastante. Menos o pai da Bea, o seu Vicente, que passou todo o churrasco emburrado. Sem dizer uma palavra.

Naquela noite, Bea perguntou aos pais se tinham gostado do Carlos Alberto. Seu Vicente e dona Nininha se entreolharam.

- Sei não… – disse o seu Vicente.

Bea se surpreendeu. “Sei não” por quê?

- Para começar – disse seu Vicente – ele botou a carne em espeto baixo com o fogo ainda alto. Não esperou o carvão virar brasa. Vi que ia ser um desastre quando os salsichões vieram queimados.

- Ora, papai. O…

- Outra coisa. Ele usou salmoura na carne, em vez de sal grosso. Ninguém mais usa salmoura. A salmoura foi usada em churrasco no Brasil pela última vez na administração do Washington Luiz.

- Papai, você está dando importância demais ao…

- Tem mais! Ele botou a picanha com a gordura para cima. O certo, o clássico, é com a gordura para baixo. E a costela ele botou com o osso pra cima!

- Está bem, papai. Eu prometo que o Carlos Alberto nunca mais fará um churrasco para vocês.

- Não se trata disso, minha filha.

Não se tratava só daquilo. O importante era o que aquilo revelava sobre o caráter do assador. Alguém que se apresenta como assador sem ter a mínima ideia de como se assa não é apenas pretensioso e irresponsável. É um estelionatário. Demonstra desonestidade, arrogância e descaso pelos outros.

- O churrasco é uma ciência, minha filha. Não é para qualquer impostor.

- Mas papai…

- E o que ele inventou? Corações de galinha num espeto intercalados com pedaços de abacaxi. Não há hipótese de eu deixar minha filha casar com alguém que intercala corações de galinha com pedaços de abacaxi!

- E as sobremesas não estavam grande coisa – acrescentou dona Nininha.

O casamento foi adiado. Bea disse ao Carlos Alberto que precisava pensar.

Desconectado – por amilcar neves / ilhe de santa catarina.sc

Desconectado

 

Confesso-vos, com um orgulho que não consigo bem dissimular, que desde sexta-feira ando desligado do mundo. Quero dizer, desde sexta, quando enfrentei com o Tibi Laus uma maratona das 14 às 2
Amilcar Nevesmanhã, mal parando para um lanche à noite, em respeito ao dinheiro público vindo de um contrato temporário assinado com o Ministério da Cultura, até esta segunda de Carnaval, oportunidade em que vos escrevo esta crônica de Cinzas.

 

Desliguei-me para poder escrever, ou para tentar escrever uma novela, tarefa que não se mostra (que nunca se mostrou) nada fácil. Não, a dificuldade anotada aí atrás não se trata das dores e dos bloqueios inerentes ao ato de escrever, a dificuldade é desligar mesmo. Imbuído dessa determinação há precisamente uma semana, quando, no dia 4, dei início ao texto, isso não me impediu de ver-me forçado a passar uma tarde inteira em profícua e agradável conversa no bairro da Barra do Aririú, na Palhoça, e a noite do mesmo dia entre pizzas e novas conversas igualmente instrutivas na Pedra Branca, da mesma Palhoça. Ou seja: o difícil não é escrever, mas arranjar o tempo e o necessário retiro para tanto, especialmente quando se projeta uma obra de fôlego apenas um pouquinho maior do que a crônica ou o conto, como a novela.

 

E antes que dois ou três me perguntem, como sempre fazem, se é na Globo e em qual horário vai passar, quero deixar solenemente claro que novela é um gênero literário, enquanto a telenovela é coisa completamente diferente e não tem nada a ver com literatura. Não estamos aqui falando de dinheiro, embora minha intenção mais secreta seja dar à luz o meu primeiro best seller, vocês verão (nem que seja no verão europeu, digamos assim).

 

Quando vos digo que me desliguei do mundo vos digo que não acessei internet, não liguei televisão, não ouvi rádio, não fui à Ressacada (mesmo porque o Avaí não joga neste imenso feriadão), não telefonei nem fui telefonado, não teclei um enter que fosse no celular (que, aliás, ridiculamente ultrapassado que é, de avançado apenas recebe e envia mensagens de texto – e nem isso com ele eu fiz -, não tem nada disso de entrar em redes sociais e páginas eletrônicas). Pra vos ser bem sincero, embora correndo o risco enorme de passar por descarado mentiroso, sequer liguei meu computador, sequer na sua função mais prosaica de máquina de escrever, posto que tudo que escrevi escrevi à mão, letra por letra desenhada no papel, consumindo na tarefa três canetas importadas de ponta em esfera metálica e tinta líquida ou gelatinosa.

 

No entanto, saí para a minha caminhada habitual nesta segunda de manhã, coisa que não fazia desde quarta a fim de deixar um pouquinho mais de tempo para a novela, e fui abordado apenas por um ciclista com cara de universitário que disse desconhecer o lugar e queria saber como chegar na Penitenciária. Ignoro se levaria na mochila às costas algum sortimento de celulares, baterias e carregadores, artefatos tão úteis para mandar tocar fogo em ônibus e carros estacionados na sede do governo estadual.

 

Ao chegar, a Vitória me aborda:

 

- O Papa, soubeste?

 

- Não, não soube nada. Morreu, é isso? De qualquer forma, ele foi eleito para durar dois ou três anos e passou muito do prazo.

 

- Não, vai renunciar. No dia 28.

 

- Meu Deus! – exclamei. – E se calha de ele morrer dia 27, como fica a situação?

 

De qualquer forma, mesmo desconectado parece-me que sou talvez o primeiro cronista semanal a registrar a renúncia papal. O mundo, definitivamente, não nos deixa em paz.

MUDEM – uma homenagem as mulheres no seu dia – do jornalista gustavo henrique vidal / curitiba.pr

MUDEM

As postagens de hoje estão cada vez mais variadas: as divertidas, as machistas e as do respeito.

Mas continua sendo o dia da veneração.
Hoje os homens reconhecem a importância delas.
Mas só hoje, salvo às exceções.

Todos são carinhosos, amáveis, que chegam a enojar.
Lotam os motéis de reservas e esgotam os estoques das floriculturas e docerias.

E tudo acaba em sexo.
Sem respeito.
Voltando às origens da servidão feminina.

Esquecem-se da luta diária delas.
Até elas esquecem.
Comemoram um dia originado do fogo, fogo que queimou centenas de mulheres dentro de uma fábrica.
Ah! Mas isso não importa.
O Dia Interacional da Mulher virou um negócio.

Não para mim.
Eu não esqueço.
Do enfrentamento e solidão.
Da aversão e raiva.
Sentimento comum nelas, devido à convivência diária com os “doadores da costela”, que transformam esse mundão, cada vez mais insensível.

Se eu sou sensível?

Eu sou.
Sensível às lutas, às suas dores.
Sou sensível, apenas.

Raros são os homens que enxergam o coração de uma mulher.
Não sou um deles.
Mas admiro-os sem conhecer.

Um coração que sangra sem cor.
Suportando a barbárie sem pulsação.
Que silencia.

Nós, homens, não sabemos a metade do que se passa no coração delas.
E não queremos saber.
É do homem a razão.
O coração é da mulher.
E muitas vezes a razão também é.

Mas é preciso se importar.
Defender.
E lutar, muito.

Anita, Olga e Rosa e tantas outras estão aí.
Indicando o caminho.
Lutaram com homens, independentes.
E não ‘como’ homens, como bradam velhas vozes roucas distorcidas.

O que me vem à cabeça neste dia?
Demonstrar o mesmo respeito de todos os dias.
Que pouco existe em muitos.
Pouco que já agrada a muitas.
Mas poucas ainda querem mais.

Amem as mulheres.
Todos os dias.
Eu amo.
Todas.
Pelo fato de serem, simplesmente, mulheres.

 

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ELE, o autor:

OS CHICANOS – por manoel de andrade / curitiba.pr

               “Manoel de Andrade, poeta e escritor brasileiro, escreveu esta reportagem para PURO CHILE, depois de haver conhecido, de primeira mão, a realidade dos chicanos, um exemplo do destino  que poderia esperar as nações latino-americanas se os Estados Unidos pudessem submetê-las  ao seu total arbítrio. De Andrade visitou o sul norte-americano, especialmente convidado por organizações chicanas, e sua reportagem deve constituir um dos primeiros testemunhos sobre a verdadeira situação de oito milhões de mexicanos e filhos de mexicanos que vivem no grande império do dólar. PURO CHILE publicou esta reportagem em duas partes. Esta é a primeira delas.

          Desterrados por mais de um século em sua própria terra e espalhados pelo centro e sudoeste dos Estados Unidos, oito milhões de pessoas de língua hispânica  vivem atualmente segregadas social, econômica e politicamente, em toda uma imensa e fértil região de cinquenta milhões de hectares, usurpados através de uma guerra de conquista e agressão contra a nação mexicana.

          Sua história passada é a história de sua própria tragédia. A perda do seu território; dos direitos mais elementares do ser humano; o aniquilamento sistemático  de sua cultura ancestral; a proibição de falar a própria língua e mais o sangue de milhares e milhares de caídos, foi a herança que o tempo preservou para deixar na memória de todo um povo as cicatrizes de 125 anos de genocídio.

          Sua história recente é a história de uma consigna acariciada  de geração em geração. Escreve-se com  o conteúdo de muitas palavras: greve, marchas, prisões, mártires.  Escreve-se com poemas, contos, teatro, panfletos políticos, revistas e quase uma centena de jornais. Escreve-se com o renascimento de sua cultura, com as raízes de sua raça, e,  sobretudo, com a consciência de luta de um povo explorado de uma maneira cruel e desumana. Seu grito se soma ao clamor incontido de todos “os condenados da terra”. É um grito de combate e de libertação; contudo é também um grito em busca de solidariedade, lançado desesperadamente por milhões de homens e mulheres oprimidos, discriminados, massacrados no seio mesmo da nação mais poderosa e agressiva do mundo.

          Neste artigo se conta a história do segredo mais bem guardado dos Estados Unidos: Os Chicanos.

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A guerra

          A guerra que o México declarou aos EE..UU. em 1846, teve como principal motivo a anexação norte-americana do grande território do Texas, na época parte da nação mexicana. O México perdeu a guerra, o território do Texas e teve que suportar as duras imposições do vencedor, pelas quais a metade do seu território  —  equivalente a uma extenção superior aos territórios da Bolívia e Chile juntos  —  foi arrebatada pelos ianques e passou a ser parte dos Estados Unidos da América.

A invasão norte-americana ao território mexicano chegou até a cidade do México. Alguns livros sobre o assunto relembram essa época de terror e crueldade. Os soldados ianques infundiram verdadeiro pânico às povoação da capital, assassinando, roubando, e violando mães e filhas frente aos homens da família amarrados ou sujeitados por outros soldados. Dizem os cronistas e historiadores que tal foi a barbárie de seus visinhos do norte, que 250 soldados norte-americanos, decepcionados, se uniram ao exército mexicano. Posteriormente, a refinada brutalidade com que foram executados, em um bairro metropolitano, 80 desses desertores, tem sido recordado há longo tempo pelos mexicanos como uma prova a mais da crueldade ianque.

O tratado Guadalupe-Hidalgo

          Terminada a guerra se assinou, em 2 de fevereiro de 1848, o Tratado Guadalupe-Hidalgo, pelo qual os EE.UU. se apropriaram das províncias mexicanas do Texas, Novo México, Califórnia, Colorado e, posteriormente, do Arizona, vendida em 1853 ao governo norte-americano, quando ainda governava o México o ditador Santa Anna, o qual embolsou uma parte do pagamento. Segundo as condições do Tratado, todos os cidadãos que residiam dentro dos territórios perdidos se convertiam en cidadãos dos Estados Unidos se não abandonassem a região ao cabo de um ano de sua assinatura. Somente alguns milhares de mexicanos abandonaram suas terras para marchar ao sul. A maioria da população, por negligência, pela impossibilidade de fazer a viagem, ou para não perder o único que tinham, sua terra, se converteram, automaticamente, em cidadãos norte-americanos. Por outro lado, a bilateralidade do Tratado estipulava a garantia da propriedade e os direitos políticos dos mexicanos que viviam na região incorporada, além da preservação de sua língua, religião e cultura. Obviamente que nenhuma dessas normas foram respeitadas pelos norte-americanos que, pelo contrário, passaram a tratar os mexicanos com desprezo e até com repugnância.

A época da violência

          Desde 1848, os mexicanos que viviam em sua antiga pátria começaram a ter constantes desentendimentos com os norte-americanos que ali chegavam para viver. No Texas este fenômeno foi sempre mais agudo que nos demais estados. Em fins do século dezenove o Texas se tornou famoso como uma região de bandoleiros e até os “rangers” titubeavam antes de entrar nessa terra de ninguém. Os ódios estavam tão exarcebados que por parte dos mexicanos matar um gringo era um ato de orgulho e, por parte dos texanos, matar um mexicano não era crime.

De 1908 a 1925 toda a fronteira do Rio Bravo estava convulsionada em vista da Revolução Mexicana. Este foi um período de matanças recíprocas e calcula-se  que o número de norte-americanos e mexicanos mortos tenha chegado a cinco mil. Além disso, durante a Primeira Guerra Mundial, houve uma verdadeira caça aos mexicamos por suspeitar-se que estavam conluiados com os alemães. Foi por esses anos que uma força militar norte-americana, a expedição Pershing, entrou no território do México para perseguir mexicanos. Em vista desse fato, em 9 de março de 1916, Pancho Villa invadiu com suas tropas o Estado de Novo México atacando a cidade de Columbus. Esse incidente piorou a situação dos mexicanos que viviam além da fronteira. A matança assumiu proporções nunca antes igualadas. O então Presidente do México, Venustiano Carranza, acusou formalmente o assassinato frio de 114 mexicanos em território norte-americano. Na Califórnia e no Texas, os linchamentos e assassinatos de mexicanos eram quase diários.  O jornal “New York Times”, com todo o peso de sua importância sobre a opinião pública norte-americana chegou a expressar, no editorial de 18 de novembro de 1922, que “a matança de mexicanos  sem provocação é tão comum, que passa quase inadvertida”. Por sua parte, na cidade do México, o editorial de “El Heraldo”, de 15 de maio de 1922, comentava que “É sumamente indignante que enquanto em nosso país os cidadãos norte-americanos gozam de amplas garantias e quando algo lhes acontece se resolve através dos consulados dos Estados Unidos, nesse país, ao contrário, os mexicanos seguem sendo assassinados sem que as autoridades norte-americanas façam o menor esforço para castigar os culpados.”

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Essa foi, talvez, a época mais difícil para os mexicanos que viviam no outro lado. O Tratado Guadalupe-Hidalgo, que lhes havia assegurado direitos iguais aos dos cidadãos norte-americanos, foi, na verdade, sua sentença de morte física, jurídica, econômica e cultural. Os grandes fazendeiros texanos expulsaram quase toda a população nativa de suas próprias propriedades agrícolas, sob a proibição, com ameaça de morte, de voltar às vizinhaças de suas antigas fazendas. Os mexicanos, abandonados a sua própria sorte, haviam perdido tudo: o solo que pisavam não era mais sua pátria mexicana; haviam perdido a terra herdada de seus antepassados; depois de algumas gerações foram se esquecendo de sua língua e de sua cultura. Com a sua nacionalidade perdida, sem nenhum governo a quem recorrer, os mexicanos dispersados e perseguidos por todo o sudoeste, somente encontraram asilo no orgulho e na dignidade de sua raça.

Em todas as épocas, depois da queda do Império Romano, não se conhece, na história de um povo, um genocídio espiritual tão grande.

Os imigrantes

          Em princípios do século XX a povoação mexicana nos Estados Unidos estava mais ou menos aculturada, porém de 1900 a 1930 mais de um milhão de mexicanos cruzaram as fronteiras do Rio Grande e encontraram trabalho no sudoeste do país, nas grandes plantações norte-americanas de algodão, beterraba e aipo, ou como trabalhadores ferroviários.

Essa imigração massiva de mexicanos veio renovar o velho conflito de culturas. Os novos imigrantes, ao dar-se conta de que estavam sendo estratificados e segregados em relação aos trabalhadores ianques, tentaram rebelar-se. Contudo, essa rebelião ao cabo de 20 anos estava totalmente reprimida. Os mexicanos foram culturalmente derrotados pela segunda vez dentro dos Estados Unidos.

O surgimento da luta sindical

          Apesar de tudo, a rebelião dos trabalhadores mexicanos encontrou sua expressão através da militância sindical. Efetivamente foram os imigrantes os pioneiros da organização sindical no sudoeste dos EE.UU. O primeiro sindicato de trabalhadores mexicanos nesse país foi fundado no sul da Califórnia em 1927, com a formação da Confederação das Uniões Operárias Mexicanas, integrada por 3.000 camponeses organizados em vinte locais de região.

A primeira greve levada a cabo pela União, em 1928, no Vale Imperial, na Califórnia, foi rompida por prisões em massa e deportações. Em 1930, uma greve de 5.000 trabalhadores mexicanos foi novamente esmagada na mesma região. Em 1933, 7.000  camponeses fizeram uma greve no Condado de Los Angeles. Este movimento despertou a atenção e a preocupação dos plantadores e das autoridades sobre a crescente rebeldia dos mexicanos. Neste mesmo ano, outra greve de trabalhadores agrícolas, na Califórnia, protestava “pela discriminação racial, habitações miseráveis e salário baixo”. Em 1936, no sul da California, para romper uma greve de 2.000 trabalhadores mexicanos, a polícia teve que mobilizar cerca de1.500 homens armados. A repressão foi a mais sangrenta até então. Houve vários grevistas mortos e centenas de presos e feridos. Dessa época em diante a história dos trabalhadores mexicanos nos Estados Unidos foi uma sequência  de greves reprimidas com a maior violência. Mas não somente na Califórnia. A repressão foi sofrida pelos mineiros de carvão no Novo México, pelos mineiros de cobre do Arizona e pelos trabalhadores petroleiros do Texas, onde a Companhia tinha duas tarifas de pagamento para o mesmo trabalho: uma tarifa “blanca” para os trabalhadores norte-americanos, e outra “no blanca”, para negros e mexicanos. A diferença era 10 centavos de dólar por hora.

A discriminação racial

          A história do racismo nos Estados Unidos, não está somente relacionada com os 23 milhões de negros, com o milhão e meio de portorriquenhos e outras minorias como os chineses e filipinos.

Os mexicanos, a segunda minoria do país, têm sido sistematicamente discriminados e segregados. No entanto, sempre foi nos Estados de Texas e California  — onde se concentra, proporcionalmente, a maioria da população de origem mexicana — que este fenômeno  tem assumido as dimensões mais insólitas.

Muitos casos famosos, ocorridos principalmente em Los Angeles, mas que não caberia relatar nos limites dessa síntese, ilustrariam a tragédia cotidiana e a humilhação pública da gente mexicana, por um lado e, por outro, o desprezo e o cinismo das autoridades norte-americanas. Na década de 40, en Los Angeles, os mexicanos, além da discriminação, eram perseguidos por bandos ianquis, condenados à prisão por crimes não cometidos, massacrados nas ruas e assassinados friamente ante o olhar impassível de cidadãos norte-americanos.

À parte da violência física, a violência moral era absoluta. Por todos os lugares havia letreiros proibindo a entrada de mexicanos em determinados lugares públicos. Em certas piscinas públicas lia-se: “Quintas-feiras reservado para negros e mexicanos”. Determinados teatros da cidade não permitiam a entrada aos mexicanos ou lhes reservavam sessões especiais. Alguns restaurantes negavam-se, terminantemente, a servi-los e o declaravam com avisos públicos desse tipo: “Proibida a entrada de negros e mexicanos”. Nos cárceres do Texas havia letreiros em que se especificavam dias de visitas especiais “para negros e mexicanos”. Neste mesmo estado havia igrejas católicas que exibiam em seus letreiros: “Não se admite mexicanos”. Em outras igrejas  lia-se: “Para negros e mexicanos”, e em outras estavam pendurados letreiros com a frase: “Igrejas brancas”. Havia no Texas um restaurante com o seguinte letreiro: “Proibida a entrada de negros, mexicanos e cães”. Em muitos cemitérios se negava o direito ao sepultamento. Em outros os cadáveres eram enterrados numa região separada, suficientemente distanciada da terra destinada aos brancos. Nos banheiros de muitos tribunais de “justiça” lia-se na porta: “Para brancos. Proíbe-se a entrada de mexicanos”.

          Proibições desse tipo eram tanto para os mexicanos de nascimento como para os já nascidos nos Estados Unidos.

A discriminação também se fazia nas escolas primárias e secundárias, entre crianças negras e mexicanas. As crianças mexicanas que não sabiam falar bem o inglês, apanhavam, eram colocadas nos últimos lugares ou em salas de aula para retardados mentais.

Seria cansativo relatar todos estes aspectos  da segregação e da discriminação das pessoas morenas no sudoeste dos Estados Unidos. De qualquer forma essa era a situação dos habitantes de origem mexicana nesse país quando, há sete anos atrás, começaram a organizar-se em torno de um movimento social e político.”

Os primeiros passos de oito milhões de excluídos

                   “Publicamos a segunda e última parte da reportagem que o poeta e escritor brasileiro, Manoel de Andrade, escreveu sobre os chicanos. Seu informe, cheio de dados contundentes, de revelações incríveis, foi elaborado especialmente com base na mais feroz exploração do homem pelo homem, que fica  — uma vez mais  — a descoberto. As fotografias que publicamos (de um patetismo estremecedor) foram extraídas da revista “La Raza”, que expressa as aspirações de todos os chicanos.”

          Entre os acontecimentos mais importantes que marcam o início do Movimento Chicano nos Estados Unidos, destacam-se a Greve da Uva, na Califórnia; a Marcha de Delano a Sacramento; A Retirada de Albuquerque; a Greve do Texas e a luta sem trégua de Reyes Tijerina, no Novo México.

A Greve da Uva teve início em 8 de setembro de 1965, em Delano, Califórnia. Esta famosa greve está sendo levada ao cinema, durou oito meses e foi dirigida por César Chávez, atualmente o líder mais importante do Movimento Chicano. Seu êxito se deveu à forma como César Chávez a converteu numa “greve de família”, ou seja, fundamentando a estrutura da união e solidariedade dos grevistas, na sólida estrutura familiar mexicana. A greve logo se tornou em notícia nacional e se difundiu rapidamente por todo o país, obtendo o apoio de muitas organizações civis e eclesiásticas.

O ponto posteriormente culminante da greve foi a Marcha de Delano à Sacramento, capital do Estado da Califórnia. A história quase heroica da Greve e da Marcha, assinalam os primeiros passos de uma minoria de oito milhões de pessoas em busca de um caminho para dar causa ao seu anelo secular de justiça econômica, política, social e cultural, numa luta que, em sua primeira etapa, começou por reivindicar  igualdade de oportunidades e de direitos. Contudo, o valor eminentemente histórico da Greve da Uva e da Marcha a Sacramento, foi haver dado a primeira vitória aos trabalhadores agrícolas mexicanos nos Estados Unidos. Em si mesmo a peregrinação de Delano a Sacramento foi um feito carregado de significação porque era também a primeira vez que o povo de origem mexicana se unia e se solidarizava em torno de um problema comum. Simbolicamente a marcha dos agricultores era também a marcha de um povo que, embora durante 117 anos tivesse sido sacrificado ao longo do vale californiano, marchava agora vitorioso junto com os trabalhadores de sua raça.

Quase ao mesmo tempo em que os trabalhadores da uva na Califórnia marchavam até Sacramento, em Albuquerque, no Estado do Novo México, no dia 28 de março de 1966, sessenta membros da delegação chicana que participavam das audiências públicas da Comissão de Oportunidade de Igualdade e Direitos, retirou-se inteira do recinto da audiência, em sinal de protesto pela falta de atenção e a condescendência com que a estavam levando a cabo. Essa retirada assumiu uma grande importância moral aos olhos das novas gerações de jovens e de alguns líderes que começavam a surgir. A Retirada de Albuquerque teve amplas repercussões nas inúmeras comunidades de língua hispânica do sudoeste. Tal como a Greve de Delano, foi um sinal de que os chicanos já não estavam dispostos a sofrer pacificamente todo tipo de humilhação.

Estes três acontecimentos já haviam inicialmente acendido o espírito de luta e de solidariedade dos chicanos, quando, em 5 de junho de 1967, os camponeses mexicanos do Texas, sob a orientação de Eugene Nelson, convocaram uma greve que também culminou com uma longa marcha desde o Vale do Rio Grande até a capital do Estado. Conta-se que em 4 de setembro do ano seguinte, quando os quarenta cansados componeses, que haviam resistido por três meses a uma peregrinação de 800 quilômetros, entraram na cidade de Austin, foram recebidos com o entusiamo de 8.000 partidários da mesma luta. Conta-se ainda que, além disso, a marcha despertou a solidariedade de todos os habitantes mexicanos do Texas, estimada em quase dois milhões de pessoas.

É muito longa a história das lutas quase heroicas dos trabalhadores mexicanos nos últimos trinta anos nos Estados Unidos. Contudo, nenhum acontecimento qualifica com mais exatidão o surgimento de uma consciência de dignidade e orgulho de um povo e sua determinação de pôr um basta à opressão, como o levantamento dos habitantes do Norte do Novo México sob a direção de Reyes López Tijerina, organizador da Aliança Federal de Mercedes. Sua luta para recuperar as terras usurpadas aos mexicanos começou  já em 1957 e tem sido, em princípio, baseada na legalidade. Apesar disso, por conta das brutais repressões a que foi submetida sua gente, bem como pelas perseguições pessoais que sofreu, obrigaram-no a recorrer à violência para defender os direitos e a honra dos mexicanos. Esteve várias vezes na prisão e atualmente cumpre uma nova sentença.

O Movimento Chicano na atualidade

          Até aqui, fez-se uma tentativa de sintetizar os fatos mais significativos da história dos norte-americanos de origem mexicana, desde a guerra até os últimos anos. Para a elaboração desse trabalho foram utilizados alguns livros e uns quantos documentos.

Contudo, quisera dar uma imagem mais viva e, se possível, analítica do Movimento Chicano. Levado pela curiosidade em conhecer os alcances desse Movimento, estive na Califórnia durantes os meses de abril e maio do ano passado e o que reportarei a seguir baseia-se em contatos que tive com estudantes e dirigentes chicanos, em acontecimentos que me foram relatados e em alguns documentos que me foram facilitados.

 A morte de Rubén Salazar

          De cada 100 habitantes dos EE.UU. 4 são chicanos, e de cada 100 soldados norte-americanos que caem no Vietnã, 20 são de origem mexicana.

A desproporção de chicanos sacrificados na Indochina foi um dos principais motivos que, na manhã de 29 de agosto de 1970, levou às ruas do leste de Los Angeles cerca de 30.000 chicanos que, além disso, protestavam contra um sistema educativo em que 50%  de chicanos se veem obrigados a abandonar seus estudos; pelos baixos salários pagos à gente de origem mexicana; pela falta de oportunidade e a discriminação do trabalho; por falta de representação política; pela violência policial, etc.

A marcha  —  como quase todas as manifestações políticas, culturais e sociais dos chicanos  —  começou em um ambiente de alegria e festa. Os casais levavam consigo os seus filhos. Havia grupos procedentes de Arizona, Novo México, Texas,  Illinois, Utah, de todo o Estado da California desde Sacramento até San Diego, e porto-riquenhos da costa leste.

Quando a imensa multidão chegou ao Parque da Laguna, iniciou-se o programa organizado pelo Comitê de Chicano Moratorium. Cantaram-se canções mexicanas e chicanas e, em seguida, discursariam alguns líderes como César Chávez, Corky González e Rosalio Muñoz.

De repente viu-se a fumaça das primeiras bombas lacrimogênicas. As mulheres com seus filhos começaram a correr, porém de todas as partes do parque surgiam policiais. Meia hora depois um cinturão policial rodeava o parque. Ninguém podia entrar, nem sair. Angel Gilberto Diaz foi o primeiro chicano metralhado quando, ao tratar de afastar-se daquele inferno axfixiante de fumaça, tentou atravessar a barricada levantada pela polícia para que nenhum carro saísse. Enquanto isso o número de policiais aumentava. No início, grupos organizados de chicanos repeliram com garrafas e paus o ataque policial. No entanto, a resistência tornou-se impossível com a chegada de várias unidades do Departamento de Polícia da Divisão Metropolitana, conhecida por suas táticas de brutalidade e treinadas para dominar as manifestações de massa.

O segundo chicano morto foi Lyn Ward, que expirou num hospital, ferido pela explosão de uma granada de gás. Em face do desespero e da confusão, os pais procuravam os filhos, os filhos gritavam pelos pais, senhoras e meninas vomitavam, rostos banhados de sangue, crianças perdidas correndo histericamente pelas ruas, e, no meio desse caos, os policiais golpeando as pessoas sem distinção de idade e sexo. Alguns tentaram encontrar refúgio nas casas vizinhas ao parque, mas os policiais atiravam as bombas de gás dentro das casas, entravam brutalmente nelas e de arrastro retiravam as pessoas.

Algumas horas depois, quando todos os manifestantes se haviam dispersados, e uma grande quantidade de chicanos havia sido aprisionada, o rádio informou sobre a morte de Rubén Salazar, chefe de informação do Canal 34 de televisão e reporter do jornal “Los Angeles Times”. A morte de Rubén Salazar foi uma das maiores perdas do Movimento Chicano. Através dele  a informação do Movimento chegava ao público sob o ponto de vista chicano. Era o único meio com o qual contavam os chicanos para difundir a mensagem do Movimento para as grandes massas. Salazar já havia tido sérios problemas em vista dos artigos e análises que publicara sobre o Movimento Chicano. Com sua morte o Movimento perdia seu meio de difusão mais importante.

Ao entardecer daquele 29 de agosto, o Parque da Laguna estava estranhamente tranquilo. Um cheiro asfixiante flutuava no ar. Garrafas quebradas, comida derramada, cartazes rasgados, barracas parcialmente destruídas e uma imensa manifestação abortada. Seu saldo: centenas de prisioneiros, muitíssimos feridos, três chicanos mortos e mais de um milhão de dólares em danos a propriedades e comércios de um bairro chicano.

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O Movimento Estudantil Chicano

Quase todas as manifestações de protesto dos chicanos depende fundamentalmente da presença estudantil, e a organização mais importante nesse nível chama-se MECHA – Movimento Estudantil Chicano. Está difundida en todas as universidades do sudoeste onde há estudantes chicanos.

A Universidade é a principal trincheira da juventude chicana, e o chicano é sobretudo um jovem. Mas sua luta estudantil é relativamente recente. Cinco anos atrás o número de chicanos matriculados nas universidades da Califórnia era insignificante. Em 1967, dos 25.000 estudantes da Universidade de Berkeley, somente 78 eram chicanos. Nesse mesmo ano, na Universidade da California de Los Angeles, dos 26.000 alunos matriculados, apenas 70 eram de origem mexicana. O último dado é ainda mais significativo, se considerar  que em Los Angeles há mais de um milhão de chicanos residentes.

No entanto, os poucos chicanos que há cinco anos entraram na universidade, começaram uma campanha a fim de criar condições econômicas e psicológicas para facilitar o ingresso de sua gente na universidade. A campanha se fortaleceu com o nascimento do MECHA, em cujas vitórias está a criação, em cada grande universidade do sudoeste, de um Departamento de Estudos Chicanos que conta com subvenção oficial e tem propiciado uma grande quantidade de bolsas de estudos a estudantes de origem mexicana que viviam no campo. Geralmente cada um desses departamentos publica um semanário sobre as atividades locais e generalidades do movimento. Há duas reuniões semanais do MECHA e, além disso, os estudantes, professores e dirigentes chicanos realizam constantemente encontros estaduais e regionais para tratar dos aspectos mais variados com que se organiza o movimento.

À parte do ativismo estudantil, existem outros grupos semiorganizados. Alguns com caráter eminentemente intelectual, como o “Plan Espiritual del Aztlán”, criado em 1969 na Primeira Conferência Nacional de Juventude Chicana, em Denver, Colorado. O Plano mostra o chicano como descendente de uma raça e de uma cultura superior, os antigos mexicanos. Expressa-se com o amor a sua terra perdida. O Aztlán era o nome que os aztecas davam a toda região californiana. O Plano se propõe devolver aos chicanos seu antigo sentido de comunidade, sua língua, sua música, sua arte, etc. Está caracterizado por um radical nacionalismo cultural e, entre outras coisas, propõe a reconquista do território perdido.

Há muitas outras organizações chicanas, tais como: MAPA, MAYO, LA RAZA UNIDA, CRUZADA DE JUSTIÇA, BOINAS CAFÉS, etc. Os Boinas Cafés defendem a luta armada; no entanto, pelo que pude observar, seus militantes carecem de preparação política.

A literatura Chicana

          Dentro da atividade cultural, destaca-se sobretudo o teatro. Tive a oportunidade de assistir ao Segundo Festival de Teatro Chicano, realizado em abril do ano passado em Santa Cruz, Califórnia. Entre os grupos presentes contava-se o Teatro Mestiço, de San Diego; o Teatro do Piolho do Estado de Washington; o grupo de teatro de Santa Bárbara; o grupo de San Francisco; o teatro camponês de San Juan e o teatro camponês de Fresno, dirigido por Luis Valdés, o mais destacado autor e diretor de teatro chicano.

Quase todas as obras teatrais chicanas refletem o problema da discriminação e da segregação racial e o conflito brutal entre as duas culturas: uma esmagadora e outra que apenas sobrevive. As obras de Luis Valdés são, em sua maioría, curtas, cômicas e picantes. Nelas, por um lado, se ridiculariza o norte-americano (el gabacho) e os chicanos ianquizados, e, por outro lado, procura despertar a solidariedade com a causa, o espírito de luta e a união de todos os chicanos.

Em geral, a literatura chicana é ainda muito pequena e lhe falta força como fenômeno cultural. A maioría dos seus escritores escrevem mesclando o inglês com termos e frases em espanhol. Quase se pode dizer que os chicanos têm um idioma próprio.

Entre os poetas destacam-se Alurista, José Montoya, Corky González e outros. Corky González, presidente da Cruzada de Justiça, em Denver, além de poeta e cineasta, é um dos líderes mais brilhantes do Movimento Chicano. É o autor de um longo poema chamado “Yo soy Joaquin”, muito conhecido entre os chicanos.  O poema conta as glórias do povo asteca e mexicano, a perda do território e a tragédia dos chicanos nos Estados Unidos. Joaquin é um homem que perdeu sua terra, agonizou com sua cultura pisoteada e se viu envolvido por uma sociedade estranha; desprezado por ela, explorado por ela, vivendo uma vida absurda e inumana, em um mundo de gentes absurdas e inumanas:

“Yo soy Joaquín,
perdido en un mundo de confusión,
enganchado en el remolino de una
sociedad gringa,
confundido por las reglas,
despreciado por las actitudes,
sofocado por manipulaciones,
y destrozado por la sociedad moderna.

(…)Aqui estoy

ante la corte de la justicia.

Culpable

por toda la gloria de mi Raza

a ser sentenciado a la desesperanza.

(…)Yo soy Joaquín.

Las desigualdades son grandes

pero mi espírito es firme.

Mi fe impenetrable.

Mi sangre pura.

Soy príncipe Azteca y Cristo Cristiano.

YO PERDURARÉ

YO PERDURARÉ.”[1]

O Bardo - Chicanos - IMG_4420


[1] Quando, no início de abril de 1971, estive no Segundo Festival de Teatro Chicano de Santa Cruz, na Califórnia, uma jovem atriz, integrante do Teatro Campesino de Fresno, me deu um livreto com o título  Y soy Joaquin. Eu ainda não conhecia o extenso poema de Corky González e depois de sua leitura perguntei a ela o porquê do nome Joaquin, que era muito comum em Portugal e no Brasil, mas não nos países de língua hispânica. Ela me comentou que se dizia que era uma referência a Joaquin Murrieta, uma figura lendária da Califórnia, que segundo uns era mexicano e segundo outros era chileno. Disse-me que sobre ele se contava muitas histórias durante a corrida do ouro, na Califórnia. Que ele era uma espécie de  herói popular, um Robin Hood, um bandido e patriota que lutou contra a exploração do trabalho nas minas pelos norte-americanos.  Que ele, por ser latino, foi vítima do racismo e da discrimiação por que estavam passando os chicanos e que por isso era um símbolo da luta e resistência contra os ianques.

Na verdade, as façanhas de Joaquin Murrieta deram motivo para muitos poemas e  corridos mexicanos, livros, filmes e até uma peça de teatro da autoria de Pablo Neruda chamada Fulgor y muerte de Joaquín Murieta, publicada em 1967.

NOTA:

Este texto foi escrito e teve sua publicação no Chile em 1972

“O PDT se afastou do trabalhismo”, afirma Carlos Araújo – entrevista a SUL21/rs

Aos 75 anos, Carlos Araújo voltará a se filiar ao PDT | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Samir Oliveira

Ex-deputado estadual e fundador do PDT no Rio Grande do Sul, Carlos Franklin Paixão Araújo afirma que o partido está “descaracterizado” e “afastado das raízes do trabalhismo” no país. Após romper com a sigla em 2004 e permanecer ausente da política desde então, o ex-marido da presidente Dilma Rousseff (PT) voltará a se filiar ao PDT em março deste ano.

O retorno de Carlos Araújo ao PDT ocorre às vésperas da convenção que irá eleger o comando nacional da sigla – que permanece com o ex-ministro do Trabalho Carlos Lupi desde a morte de Leonel Brizola, em 2004. Carlos Araújo retorna ao PDT para ajudar os netos de Brizola a disputar a hegemonia no partido.

Nesta entrevista ao Sul21, Carlos Araújo fala sobre a situação do PDT no país e no Rio Grande do Sul e defende uma maior formação política dos seus militantes. Para o ex-deputado, o trabalhismo é doutrina que irá levar o brasil ao socialismo. “Pretendo me filiar em março. O trabalhismo é o caminho brasileiro para o socialismo. Quero participar dessa luta”, explica.

Com 75 anos de idade, Carlos Araújo é natural de São Francisco de Paula e ingressou clandestinamente na Juventude do Partido Comunista Brasileiro aos 14 anos – sigla na qual militou até 1957. Formado em Direito pela UFRGS, começou a ter contato com Leonel Brizola durante a campanha da Legalidade, em 1961. Após o golpe militar, em 1964, ingressou na luta armada e foi um dos dirigentes da VAR-Palmares. Foi na guerrilha que conheceu sua ex-mulher, Dilma Rousseff, com quem foi casado durante 30 anos, de 1969 a 1999. Graças ao relacionamento com Carlos Araújo, Dilma veio morar em Porto Alegre, já que o marido encontrava-se detido na Ilha do Presídio, durante os anos 1970. Ainda hoje, Carlos Araújo é uma das pessoas mais próximas de Dilma, com quem teve uma filha, Paula, e compartilha um neto, Gabriel.

Após eleger-se deputado estadual em 1982 e reeleger-se por mais duas legislaturas, Carlos Araújo – que também disputou a prefeitura de Porto Alegre em 1988 e 1992 – abandonou a vida pública, devido a um enfisema pulmonar que vem lhe causando complicações desde 1995.

“O trabalhismo é uma corrente de pensamento que tem como base a defesa dos direitos sociais no capitalismo”

Ex-deputado abandonou o partido em 2004 e afirma que, mesmo com o retorno, não irá se candidatar a cargos públicos | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – Como o senhor avalia a situação atual do PDT no país?
Carlos Araújo – O PDT está um pouco descaracterizado, se afastou das raízes do trabalhismo. Falta ao PDT uma prática social maior, uma maior participação nos movimentos sociais. O partido deveria se voltar aos grandes problemas nacionais, mas não faz esses debates. A atuação é muito tímida. Internamente, é preciso haver mais democracia, discussão e revezamento de poder no PDT. Não podemos ter lideranças que se eternizam no poder.

Sul21 – Como o partido vem administrando a era pós-Leonel Brizola?
Carlos Araújo – Sempre é difícil administrar um partido após a perda de um grande líder. Leva tempo até que se encontre um rumo. O PDT procura esse rumo, mas não tem encontrado. A perda de um grande líder sempre gera embaraços, cria dificuldades e barreiras a serem superadas.

Sul21 – Foi um erro do partido ficar tão dependente do Brizola?
Carlos Araújo – Acho que não. A história tem mostrado, principalmente nos países emergentes, que as forças sociais se estruturam em cima de grandes lideranças. Líderes como Fidel Castro, Hugo Chávez e Leonel Brizola discursam durante muito tempo. Fidel chegou a falar por 14 horas seguidas. O Brizola já discursou por 7 horas. Esses líderes aprenderam que a educação para a consciência das massas é formada, em grande parte, pela audição. Esses líderes se destacam e é muito difícil formar um partido com eles. O PT tem um grande líder, mas o partido depende muito do Lula. É bom para o PT ter estrutura, conseguir caminhar sozinho, mas é algo muito difícil.

Sul21 – O senhor ajudou a fundar o PDT no Rio Grande do Sul. O que o partido representava em sua origem?
Carlos Araújo – O PDT sempre representou o trabalhismo. É uma corrente de pensamento que tem como base a defesa dos direitos sociais no capitalismo. Getúlio Vargas, que é o fundador do trabalhismo, quando tomou o poder, em 1930, tinha que responder à seguinte pergunta: “Como vai ser o processo de desenvolvimento capitalista no Brasil?”. Então ele disse: “O meu governo terá como base uma democracia social, uma democracia política e uma democracia econômica. O Estado será um indutor do desenvolvimento, mas as rédeas do processo estarão nas mãos das forçais sociais”. Ele usava essa expressão: “Forças sociais”. Em seguida, as elites paulistas e mineiras se levantaram, em 1932, dizendo que esse projeto não servia para o país. Eles acreditavam que as forças sociais não conseguiam gerir o capitalismo no Brasil, defendiam que só quem poderia fazer isso era o capital internacional. Queriam que os representantes do capital internacional desenvolvessem o capitalismo brasileiro.

“Embora tenha feito e esteja fazendo grandes governos, o PT perdeu a sua auréola”

Carlos Araújo entende que PDT deve disputar espaço na esquerda | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – Esse embate existe até hoje no país?
Carlos Araújo – Continua. Por isso tentaram derrubar o Getúlio em 1932 e em 1937. Por isso conseguiram derrubá-lo em 1945 e o levar ao suicídio em 1954. Foi a mesma questão que levou a derrubarem o Jango em 1964. Getúlio dizia que a hegemonia do processo político tem que estar com as forças sociais. Em 1866, quando houve a primeira eleição na Inglaterra, perguntaram ao Marx – que dirigia a Internacional – como os trabalhadores deveriam votar. Havia um candidato capitalista e outro que representava o regime monárquico anterior. O capitalismo naquela época era terrível, com crianças morrendo nas fábricas, trabalhando 20 horas por dia. Marx respondeu que os trabalhadores deveriam fazer uma aliança com os capitalistas. E disse que o ideal seria que, nessa aliança, os trabalhadores tivessem a hegemonia. Ele dizia que os trabalhadores seriam capazes de desenvolver o capitalismo com mais sabedoria do que os próprios capitalistas, dando um sentido mais social a ele. Foi isso que Getúlio falou. É isso que aconteceu nos governos Lula e acontece no governo Dilma. É o desenvolvimento do capitalismo com as rédeas do processo nas mãos das forças sociais. É a única forma de desenvolver o capitalismo e dividir o bolo enquanto ele vai crescendo. Se não vai tudo apenas para um lado. O trabalhismo representa essa visão do desenvolvimento capitalista.

Sul21 – O PDT não alimenta mais o discurso do trabalhismo?
Carlos Araújo – Não está mais adotando esse discurso e está muito desvinculado dos movimentos sociais. O PDT perdeu muito espaço, mas ele pode ser recuperado. Há um espaço para que o PDT avance. Embora tenha feito e esteja fazendo grandes governos, o PT perdeu a sua auréola. Isso nos faz pensar em como será no futuro. Sem o PT, surgirá outro partido para ocupar seu espaço? É uma questão muito delicada e o trabalhismo tem um papel a desempenhar nesse contexto, desde que esteja envolvido com os movimentos sociais.

Sul21 – O PDT pode voltar a disputar o poder dentro da esquerda?
Carlos Araújo – Sim. Esse é o destino do PDT, por isso o partido precisa retomar o seu caminho. O Brizola concorreu por duas vezes à Presidência. Em uma, ele perdeu por pouco no primeiro turno e apoiou Lula no segundo. Na outra eleição, foi vice do Lula. Nosso caminho é esse, é marchar junto com as forças de esquerda.

“Quem é de esquerda e está na política institucional tem que ser militante. Tem que pular muro e subir morro”

Sul21 – O senhor retornará ao PDT?
Carlos Araújo – Pretendo me filiar em março. Eu estava esperando melhorar um pouco a saúde. Sou trabalhista, penso que o trabalhismo é o caminho brasileiro para o socialismo. Quero participar dessa luta.

Carlos Araújo dará cursos de formação política a jovens do PDT nas tardes de sábado | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – Quando o senhor tomou essa decisão?
Carlos Araújo – Essa decisão foi construída. O que me levou a acelerar o processo foi eu pensar que os netos do Brizola têm um papel a cumprir no partido. Eles estão sendo muito injustiçados dentro do PDT. Isso me levou à aproximação com eles.

Sul21 – Foi difícil o rompimento com o PDT em 2004?
Carlos Araújo – Foi, eu senti muito. Mas era uma conjuntura em que eu não queria mais permanecer no PDT nem em partido nenhum. Foi um afastamento. Saí para ficar mais livre, para não dizerem que eu desobedeci às normas do partido. Mas continuei muito amigo dos companheiros trabalhistas, nunca me afastei totalmente. Nunca tive vontade de ingressar em outros partidos.

Sul21 – Com o retorno ao PDT, o senhor pretende voltar a disputar eleições?
Carlos Araújo - Não vou concorrer. Vou ajudar na formação de quadros e em tudo o que eu puder. Como eu fiquei doente, é muito difícil permanecer na política institucional. Quem é de esquerda e está na política institucional tem que ser militante. Tem que pular muro e subir morro.

“Há uma crise partidária na esquerda. Os partidos estão muito desorganizados e não formam seus militantes”

Ex-marido de Dilma defende democratização do estatuto do PDT | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – Qual a importância da convenção nacional do PDT para renovação do partido?
Carlos Araújo – É muito difícil que haja uma renovação agora. O estatuto do PDT é muito rígido e autoritário, dá muito poder à executiva e ao diretório nacional. É muito difícil furar esse cerco. Eu estou retornando ao PDT e participando de uma corrente que quer sacudir o partido, que vai disputar a convenção. Estamos tentando fazer uma conciliação, para verificar se há trânsito dentro do partido. Acreditamos que o Alceu Collares é um bom candidato para essa transição. Precisamos ter um candidato que consiga unificar o partido, que está muito dividido. E que seja um candidato de transição, fixando regras para uma nova eleição e aproximando as correntes para construir a unidade possível.

Sul21 – Essa transição seria para realizar reformas no estatuto?
Carlos Araújo – Sim, para oxigenar o partido. O estatuto precisa ser mais democrático e adequado a nossa realidade. O estatuto atual foi feito pelo Brizola, que já havia perdido um partido e não queria perder outro. Então ele fez um estatuto extremamente centralizado e muito rígido. Agora não temos mais uma liderança do vulto do Brizola, por isso precisamos adequar o estatuto à nossa realidade.

Sul21 – Então a intenção é lançar um candidato de conciliação? Não haverá um candidato de oposição ao atual grupo que comanda o PDT?
Carlos Araújo – Se não der, iremos lançar sim esse candidato. Tentaremos fazer a conciliação até onde der. Se não for possível, lançaremos um candidato, mesmo que seja para perder.

Sul21 – Os irmãos Juliana Brizola (deputada estadual gaúcha), Carlos Brizola (deputado federal licenciado e atual ministro do Trabalho) e Leonel Brizola (vereador do Rio de Janeiro), todos netos de Leonel Brizola, fazem parte deste movimento. Quem mais integra o grupo? 
Carlos Araújo – Dos integrantes gaúchos eu destacaria o Afonso Mota (secretário estadual do Gabinete dos Prefeitos) e o deputado federal Giovani Cherini. Também há muitos prefeitos.

“O prestígio do Lula e da Dilma é muito grande. Mas essa força eleitoral fantástica não se expressa da mesma forma como grande força política”

Sul21 – É um grupo majoritariamente formado por gaúchos?
Carlos Araújo – Não, temos apoios nos estados. Minas Gerais nos apoia. Há esforços em vários estados. Essa análise deve ser feita mais adiante. Na segunda-feira (4) tem uma reunião da executiva nacional que fixará as regras para a convenção nacional.

Para Carlos Araújo, as “consequências do poder” tornaram a esquerda acomodada| Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – O ex-ministro do Trabalho Carlos Lupi – afastado da pasta por denúncias de corrupção e presidente nacional da sigla desde a morte do Brizola – prejudicou o partido?
Carlos Araújo – Eu não gostaria de pessoalizar nada. Prefiro não abordar esse assunto, ao menos no momento. Quero travar a luta interna em um nível estritamente político.

Sul21 – Mas no entendimento do grupo do senhor, os dirigentes atuais do PDT são responsáveis pela situação que vocês criticam.
Carlos Araújo – Sim. Queremos democratizar o partido. Queremos que o PDT tenha uma vida política interna permanente, não só em época de eleição. Há uma crise partidária na esquerda. Os partidos estão muito desorganizados e não formam seus militantes. Os jovens querem cursos, mas os partidos não dão. O PDT tem uns cerca de 600 jovens atuantes em Porto Alegre, que disputaram os DCEs da UFRGS e da PUCRS com chapa própria. Tem bastante dirigente jovem atuando. Mas eles estão sedentos por conhecimento e por discussão política. É um absurdo eles não saberem onde buscar conhecimento, quais livros ler. Eu fiz uma reunião com esses jovens na terça-feira (26), vou começar a dar cursos a eles nos sábados à tarde. Eles querem discutir e participar e a esquerda não está ocupando plenamente esse espaço de debates.

Sul21 – Por que não?
Carlos Araújo – Talvez por estar no poder. São as chamadas “consequências do poder”. Há uma certa acomodação. Todos os quadros políticos vão para o aparelho do Estado e ficam envolvidos em atividades burocráticas. Teria que haver uma maior formação política. Mas, ao mesmo tempo, os quadros precisam ir para o aparelho do Estado, precisam governar. É uma questão complicada.

“A principal questão colocada hoje é a do bem estar do conjunto da sociedade ainda no capitalismo. Uma revolução socialista não está na ordem do dia”

Sul21 – Com a chegada do PT e seus aliados ao poder, outros grupos políticos fazem fortes críticas à esquerda deste projeto que está no governo do país há 10 anos.
Carlos Araújo – Há uma fragmentação. Mas, veja bem: na sociedade, o prestígio do Lula e da Dilma é muito grande. Todas as pesquisas demonstram muito apoio da população. Mas essa força eleitoral fantástica não se expressa da mesma forma como grande força política. Há um descompasso.

Carlos Araújo defende que PT apoie candidatura do PDT ao governo gaúcho em 2018 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – No campo ideológico, mudou o debate na esquerda? Anteriormente, principalmente nos anos 1960 e 1970, havia mais forças organizadas defendendo a superação total do capitalismo. Essa bandeira já não é mais defendida por muitos desses grupos hoje.
Carlos Araújo – Isso muda com o governo Lula. O mundo impôs essa mudança. O Vietnã, a China, Cuba e a União Soviética mostraram que, nos termos em que colocaram, foi inviável a construção do socialismo numa época em que o regime capitalista ainda era muito forte no resto do mundo. Lênin, quando estava no poder na União Soviética, elaborou a Nova Política Econômica, a chamada NEP. Era uma política de desenvolvimento do capitalismo. O que está em discussão hoje é a viabilidade do socialismo. Ele é viável somente em um país? Ou é viável somente quando houver um grande desenvolvimento internacional do socialismo?

Sul21 – Na sua avaliação, existe algum país plenamente socialista hoje em dia?
Carlos Araújo – Não. Existe um certo nível de bem estar social em alguns países, como a Suécia. Mas isso foi conquistado em cima de outros países. O capital sueco no Brasil é muito forte. A principal questão colocada hoje é a do bem estar do conjunto da sociedade ainda no capitalismo. Uma revolução socialista não está colocada na ordem do dia. Quem quiser fazer isso pode ter um pequeno espaço em alguns lugares, não terá um espaço significativo. A realidade demonstra isso. O que fazem Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa em seus países? Eles estão desenvolvendo o capitalismo para tirar a população da miséria. Mas é claro que esses governos vão se fortalecendo e a América Latina vai se unindo.

“A internacionalização do capital é um processo em direção ao socialismo. É um processo de desenvolvimento capitalista, mas é, também, um processo em direção ao socialismo”

Sul21 – É possível passar desta etapa de gestor do capitalismo ao socialismo pleno?
Carlos Araújo – A internacionalização do capital é um processo em direção ao socialismo. É um processo de desenvolvimento capitalista, mas é, também, um processo em direção ao socialismo. O capitalismo vai se internacionalizando, rompendo fronteiras nacionais e se fragmentando. Hoje um controlador de uma grande empresa tem 10% do seu capital. Socializar essa empresa já não significa mais tirar das mãos de uma única pessoa. Se a GM (General Motors) for nacionalizada hoje, por exemplo, quem irá sentir essa medida a não ser uma meia dúzia de acionistas mais significativos, que possuem 5% ou 8% das ações? Não estou dizendo que já estamos no socialismo. Mas, como dizia Marx, a nova sociedade é gerada no útero da atual sociedade.

Ex-candidato à prefeitura de Porto Alegre, Carlos Araújo diz que Fortunati terá que desdobrar para atender base aliada | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – Voltando ao tema do PDT: o partido no Rio Grande do Sul é muito diferente do PDT nacional?
Carlos Araújo – O partido sempre foi bastante concentrado no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro. E sempre enfrentou resistências históricas em São Paulo. Mas isso não significa que não possam ter lideranças em outros estados, o PDT está se fortalecendo.

Sul21 – No Rio Grande do Sul, o PDT aderiu ao governo Yeda Crusius (PSDB) após perder as eleições de 2006 com Alceu Collares e, em 2010, concorreu ao lado de José Fogaça (PMDB). Como o senhor avalia essas ações?
Carlos Araújo – Foram equívocos. Isso se confirmou com a eleição da Dilma. Naturalmente, se formou uma aliança em torno da candidatura dela no Rio Grande do Sul, inclusive com setores do PMDB liderados pelo Mendes Ribeiro Filho. Esses equívocos fazem parte da política, mas não podem se repetir.

Sul21 – O que o senhor defende para o PDT em 2014 no Rio Grande do Sul?
Carlos Araújo – Há uma discussão em torno desse assunto. Uns defendem candidatura própria, outros querem aliança com o PMDB e outros querem permanecer apoiando o governo Tarso Genro. Eu defendo que o PDT apoie o atual governo em 2014, mas com uma maior participação política nas decisões e com um acordo para que o PT apoie o PDT em 2018. O PDT é muito forte no estado, precisa ter candidato, mas agora não é o momento, o partido ainda não está suficientemente organizado e com força expressiva para isso.

“Defendo que o PDT apoie Tarso em 2014, mas com uma maior participação política nas decisões e com um acordo para que o PT apoie o PDT em 2018”

Sul21 – O PDT precisa reivindicar a indicação do vice-governador em uma eventual aliança com Tarso em 2014?
Carlos Araújo – Isso é inevitável. Parece que o PSB está tentando um caminho próprio, isso faz com que o PDT passe a ser o parceiro próximo do Tarso.

Carlos Araújo entende que PSB deve apresentar um plano de governo para o país | Foto: Ramiro Furquim/Sul2

Sul21 – Em Porto Alegre, depois de muito tempo o PDT conseguiu vencer uma eleição para a prefeitura.
Carlos Araújo – Vários fatores influenciaram. Um deles foi a construção de uma ampla frente política. E os candidatos adversários não tinham muita força política e eleitoral. Isso também pode pesar a favor do Tarso. Com todas as críticas que se pode ter ao seu governo, não há uma liderança expressiva para enfrentá-lo.

Sul21 – A senadora Ana Amélia Lemos é a grande aposta do PP. Ela conquistou 3,4 milhões de votos em 2010.
Carlos Araújo – Ela tinha mais potencial antes das eleições municipais. Ela é uma candidata que tem uma expressão eleitoral, mas ficou enfraquecida por não seguir as determinações do seu partido em 2012.

“É justo que o PSB tenha candidato à Presidência, mas é preciso apresentar um programa de governo, dizer o que quer e a que vem”

Sul21 – Voltando a Porto Alegre, o senhor disse que um dos fatores que favoreceram a vitória de José Fortunati foi a construção de uma ampla aliança. Mas até que ponto uma aliança tão ampla e diversa se sustenta politicamente? A de Porto Alegre contém partidos aliados e partidos que fazem oposição aos governos Dilma e Tarso, como o DEM, o PPS e o PSDB.
Carlos Araújo – As alianças muito amplas são trabalhosas de serem administradas. O Fortunati vai ter que se desdobrar para conseguir governar com uma aliança tão ampla. Começam a vir exigências, principalmente fisiológicas. E essas alianças atingem, de certa forma, o perfil político do governo. Eu sou favorável a alianças. Às vezes são composições que não queremos fazer, mas não existe outra saída. É uma questão delicada, principalmente quando são alianças muito amplas, que podem levar o governo ao imobilismo.

Sul21 – Outro partido que está querendo disputar espaço político e se lançar eleitoralmente à Presidência é o PSB.
Carlos Araújo – O PSB tem sido um companheiro de viagem na esquerda. Provavelmente terá um candidato à Presidência, o que é justo, mas precisa apresentar um programa de governo. É indispensável que o PSB diga o que quer e a que vem. O PSB precisa explicar quais as suas diferenças com o PT, o PDT e o PCdoB. Isso ainda não está colocado. Tomara que o partido permaneça sempre como força de esquerda.

O Rio de Janeiro de antes do choro e do samba – por claudio caldas / ilha de santa catarina

Fiquei pensando aqui com os meus botões, meu caro leitor, se é possível imaginar uma cidade como o Rio, nos tempos em que nem samba e nem chorinho ainda existiam…pesquisando aqui e acolá, cheguei a um quadro interessante, mas que confesso, não é tão fácil de “sentir” depois de tantos anos….os textos sobre Chiquinha Gonzaga e Joaquim Calado, nos ajudam um pouco.
Vamos nos situar no tempo e no espaço. O período a que me refiro é mais ou menos o compreendido entre o final da Guerra do Paraguai e a Proclamação da República, algo entre 1870 e 1889. Nos livros de história ficamos sabendo que os gastos com a Guerra do Paraguai tinham aumentado, de forma considerável, a nossa dívida externa. As fazendas de café do Estado do Rio de Janeiro e de São Paulo, responsáveis pela maior exportação brasileira, agora sofriam com a queda vertiginosa dos preços do grão no mercado internacional.
O Rio de 1885, segundo Marc Ferrez
O Rio tinha , em 1872, segundo o primeiro senso realizado no Brasil, uma população de 274.972 pessoas. Era o Brasil Imperial ainda e em plena utilização do trabalho escravo, especialmente nestas regiões produtoras de café. Um época de muita efervescência política na cidade e de discussões de questões que culminaram com a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República, fatores geradores de movimentos migratórios para o Rio de Janeiro, que, já em 1890, na aferição do segundo senso, contou 522.651 habitantes.
Era o tempo da criação dos grêmios políticos e literários, das associações recreativas que intensificaram a vida urbana. O carioca passa a ter hábitos mais sociais e logo são abertas várias confeitarias, propiciando que instrumentistas realizassem apresentações e saraus aqui e ali, para mostrar suas polcas. Creio que estas condições fizeram com que a organização do tipo patriarcal, familiar, fosse substituída pelas sociedades civis, não ligadas ao governo, que promoviam encontros, discussões, audições de piano e a apresentação de peças teatrais.
É neste ambiente que surge uma mulher que não reconhecia limites de participação e que queria mostrar seu trabalho, suas criações musicais. Chiquinha Gonzaga que já havia passado por dificuldades por conta de seu temperamento, separada inclusive dos filhos, frequenta confeitarias e lança em 1877 a sua polca “Atraente”, com um sucesso que obteve 15 edições de sua partitura.
O Rio passa a ter vida noturna e surge a figura do seresteiro, primeiro isoladamente, com seu violão a apresentar modinhas. As confeitarias multiplicam-se, agora até com a presença de senhoras, que sentam-se às mesas e pedem seus sorvetes, doces e pastéis, licores e cervejas. Os artistas passam a marcar ponto na Confeitaria Castellões, na Rua do Ouvidor. Carlos Gomes, quando ia ao Rio, por lá passava para encontrar o pessoal do Teatro e da Música. São também deste tempo a Confeitaria Paschoal, na Rua do Ouvidor, nr. 128, muito frequentada pelo abolicionista José do Patrocínio e a Colombo, que ainda hoje tem grande simpatia do carioca.

Os café-cantantes também foram instalados neste início de boêmia carioca e neles rolavam apresentações de cançonetas maliciosas de duplo sentido. O bonde surgia pra facilitar a movimentação deste  novo público e a Rua do Ouvidor era o “must”, o “point” da cidade.

Rua do Ouvidor 1890
Uma rua estreita e cheia de elegantes lojas, cujos donos eram predominantemente franceses, ditava a moda, costumes e fofocas. O escritor Machado de Assis a descreve em vários de seus contos e romances, dizendo que ela era o paraíso dos boatos. Por isso mesmo, quando cogitaram alargar a rua, ele preocupou-se em frisar que “o boato precisa de aconchego, do ouvido à boca para murmurar depressa e  baixinho…”
Este era o Rio que proporcionou que o choro surgisse e que tivesse um interesse grande do público. O mesmo ambiente que, um pouco mais tarde, foi forjando as condições para o surgimento do samba…mas aí já vale uma outra postagem…
A recomendação pra quem quiser saber mais sobre o tema, vai para “História Social da Música Popular Brasileira”, de José Ramos Tinhorão e “Chiquinha Gonzaga, uma história de vida”, de Edinha Diniz. Boa leitura e até a próxima.

ESCRAVOS – de fabio pereira

Ó república escravizada
Donde escuto escravos
Em murmúrio açoitados
Ao pelourinho indouto.

Encilham-nos o intelecto
A cabresto e a chibata,
Lampejos incultos fustigam
Nas tezes calejadas.

Sob a tenda do Pão e Circo armada,
Ali as massas anestesiadas,
Tementes à desvairada
Ditadura Midiática.

Ó república escravizada,
Toda a vida anoitecida,
Sem uma lua ou ponto de luz,
Restrita à noite desculta!

Por um 13 de Maio novo,
A alforriar mentalidades,
Libertando e nutrindo-as
A banquetes de crítica e cultura.

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