Autor Arquivo: Equipe Palavreiros da Hora

DALTON TREVISAN vence o PRÊMIO CAMÕES (português)

Escritor brasileiro vence Prêmio Camões

 

O escritor brasileiro Dalton Trevisan, 86, foi anunciado o vencedor da 24ª edição do Prêmio Camões nesta segunda-feira (21), em Lisboa. A premiação, criada em 1988 por Brasil e Portugal, é o principal reconhecimento da literatura em língua portuguesa.

O júri, formado por seis representantes de Portugal, Brasil, Moçambique e Angola, reuniu-se nesta manhã para eleger o ganhador. Dalton Trevisan foi premiado por sua “dedicação ao fazer literário”, segundo o escritor Silviano Santiago, um dos integrantes do júri.

“A escolha de Dalton Trevisan foi unânime. Houve uma discussão maravilhosa entre os membros do júri de cerca de duas horas e depois chegamos a essa decisão consensual”, afirmou Santiago em nota divulgada pela Fundação Biblioteca Nacional, responsável pelo prêmio no Brasil. “Primeiramente, pela contribuição extraordinária de Dalton Trevisan para a arte do conto, em particular para o enriquecimento de uma tradição que vem de Machado de Assis, no Brasil, de Edgar Allan Poe, nos EUA, e de Borges, na Argentina.”

Nascido em Curitiba em 14 de junho de 1925, Dalton Jérson Trevisan é autor de “O Vampiro de Curitiba” (1965), uma das suas obras mais conhecidas. Entre outros títulos notáveis do escritor estão “Vozes do Retrato – Quinze Histórias de Mentiras e Verdades” (1998), “O Maníaco do Olho Verde” (2008), “Violetas e Pavões” (2009), “Desgracida” (2010) e “O Anão e a Ninfeta” (2011).

Reprodução
O escritor Dalton Trevisan, vencedor do Prêmio Camões, que não se deixa fotografar, em uma de suas raras imagens
O escritor Dalton Trevisan, vencedor do Prêmio Camões, que não se deixa fotografar, em uma de suas raras imagens

CABO ANSELMO: COMISSÃO DE ANISTIA JULGA ANSELMO NA PRÓXIMA TERÇA / brasilia.df

O ex-marinheiro, que atuou dos dois lados durante a ditadura, reivindica indenização e a condição de anistiado político

20/05/2012 | 16:46 | AGÊNCIA O GLOBO

Comissão de Anistia julga na manhã da próxima terça-feira (22), menos de uma semana após a instalação da Comissão da Verdade, o caso de José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo. O ex-marinheiro, que atuou dos dois lados durante a ditadura, reivindica indenização e a condição de anistiado político. Ele entrou com o processo na comissão em 2004.

O relator do processo na comissão será o petista Nilmário Miranda, ex-preso político e ministro dos Direitos Humanos no primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A tendência é que os conselheiros neguem o pedido de Anselmo.

O processo dele, de número 2004.01.42.025, aguardava na fila para entrar na pauta. Cabo Anselmo liderou a revolta na Marinha, chegou a fugir e viver no exílio, inclusive em Cuba, onde recebeu treinamento de guerrilha. De volta ao Brasil, foi preso no início dos anos 70. Em troca da liberdade delatou perseguidos políticos ao delegado Sérgio Paranhos Fleury, do Dops, incluindo sua namorada, Soledad Viedma, que acabou morta pela tortura. Cooptado pelos órgãos de segurança, tornou-se agente duplo e sua atuação foi decisiva para desmontar grupos de resistência armada urbana à ditadura.

Em entrevista ao programa “Roda Viva”, em outubro do ano passado, disse que não se arrepende de nada do que fez, nem de ter entregado militantes à morte, assassinados em emboscadas armadas pelas forças de repressão. O ex-militar estima ter contribuído para a morte de até 200 pessoas durante o período do regime militar.

O DOCE SABOR DE UMA MULHER – de auber fioravante junior / porto alegre.rs

Face Orvalhada
Tem certos dias,
Que não sinto a caricia do vento
Murmurando pelos laredos d’ alma,
Comungando em segredo com silêncio
Amigo divagador do verso oriundo da brisa!

A bom bordo da nave,
Diante da praia ouço da areia a canção
Pairando dentre as estações,
Relíquias do tempo e do espaço
Dando aconchego ao olhar de solidão!

Mesmo incerto da próxima onda,
Deixo a este bordo, reversos perdidos,
Sem a imagem que inebria meus avessos
Mais insanos brotos já desabrochados,
E ainda altivos percebendo o orvalho das manhãs!

Em pequenos detalhes,
A poesia se formou, se fez flor,
Ensinou-me que o verbo
É tão grande quanto o universo!

Com as lágrimas que habitaram
E ainda habitam minha face,
Componho minha partitura em amor,
Clarividente na luz devaneando pelo luar!

Auber Fioravante Júnior_13/04/2012_Porto Alegre – RS

REGINA, a mulher-loba do Brasil – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

Regina, mulher-loba do Brasil

 

Lobas são extremamente ciosas dos seus filhotes. Ou então: lobas são selvagemente ciosas. São mansas e pacíficas enquanto o mundo se lhes apresenta manso e pacífico. O problema é que elas se dão ao hábito de pensar e, ao pensar, tomam partido e definem-se criticamente frente a esse mesmo mundo. E ele que se comporte! Nem sonhe em sair da linha!

 

Os filhotes da Regina são os seus alunos, a Literatura (mais necessária e carinhosamente aquela próxima, feita em Santa Catarina) e, por consequência dos cuidados anteriores, os escritores catarinenses. Estes filhotes é que lhe importam.

 

Regina, loba, preocupa-se. Tem consciência política (não se trata aqui de partido político, é importante deixar bem claro), posiciona-se filosoficamente no meio em que vive, em que trabalha com uma dignidade que muita gente não tem para mostrar, no meio em que paga seus impostos como penitência para viver e participar da sua rua, do seu bairro, da sua cidade.

 

Com esse dinheiro, com seu imposto, paga o salário de vereadores e servidores públicos que têm a obrigação de considerar suas opiniões, ao invés de, numa forma simplista, demagógica e autoritária, ameaçá-la de processo judicial por “entravar a máquina pública” ao impedir, com sua força de mulher e sua coragem de ser humano, a “limpeza de um terreno público” no Estreito.

 

O terreno público em questão é uma área com árvores que abriga um sítio arqueológico protegido pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

 

Acontece que a gerente da loja vizinha ao sítio, loja que vende a mais famosa marca de motos do mundo, decidiu limpar o terreno público ao lado. “Vive cheio de usuários de droga”, foi a bandeira que ela levantou. Como o local estaria “desocupado”, dita senhora dá a qualquer um o direito de supor que ela imaginava abrir ali um espaço informal e gratuito para servir de estacionamento exclusivo aos seus abastados clientes. Já que a loja naturalmente será contribuinte dos cofres públicos, a gerente achou-se no direito de acionar seus “contatos”, de maneira informal (por que tanta burocracia, não é mesmo?), a fim de conseguir autorização para a limpeza – limpeza arrasadora com patrola, como um corte de cabelo com máquina zero.

 

Um vereador, que já deixara a secretaria municipal ligada ao caso para candidatar-se à reeleição, autorizou verbalmente o desmate, o desmonte, a “limpeza” de tolerância zero com o terreno – atribuição e autoridade de que ele já não mais dispunha, da mesma forma que não disporia ainda que estivesse no exercício do cargo, simplesmente por tratar-se de um sítio arqueológico: um patrimônio público (não do poder público) de interesse histórico.

 

Regina Brasil, mulher-loba, escolada, que dá um monte de aulas, educa pessoas e ensina-lhes cidadania, desconfiou quando retiraram a tela que protegia o terreno. No dia seguinte, bem cedo, a patrola iniciou a devastação. A professora correu, pôs-se à frente da máquina e impediu que o crime se consumasse em sua totalidade. Ela foi fotografada (as fotos saíram na imprensa e circulam pelos caminhos da internet), aplaudida e consagrada como heroína.

 

Mas as pressões sobre ela aumentam, e serão maiores assim que baixar a poeira da publicidade que envolve o seu ato. Como a ameaçou o pessoal da loja de motos, o que a forçou a registrar Boletim de Ocorrência na delegacia do bairro, “Você não sabe do que somos capazes! Você tem certeza que quer essa incomodação para o resto dos seus dias?”

 

 

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AMILCAR NEVES é membro da ACADEMIA  CATARINENSE DE  LETRAS

‘Nova Lei Rouanet’ terá edital para pequeno produtor e pontuação – por julianna granjeia / são paulo.sp

O projeto de lei que deve substituir a Rouanet pretende fortalecer o FNC (Fundo Nacional de Cultura) para descentralizar o fomento e o incentivo à cultura.

O fundo patrocinará editais para produções culturais que não costumam ser atendidas pela renúncia fiscal, em especial aquelas de fora do eixo Rio-São Paulo.

Para isso, o projeto de lei -chamado ProCultura- fixa mecanismos de capitalização do FNC (que contou com cerca de R$ 300 milhões em 2011). Um deles prevê que parte da renúncia fiscal vá direto para o fundo. Outro seria a destinação a ele de 5% da renda de loterias.

O ProCultura também estabelece um sistema de pontuação -quanto mais contrapartidas sociais (como gratuidade do produto/serviço cultural, acessibilidade, difusão no exterior e ações educativas) houver, maior será o abatimento do IR, que pode ser de 30%, 50% ou 100% do montante investido.

Os empresários que investirem em projetos que alcançarem pontuação equivalente a 30% e 50% de dedução poderão abater o valor total do investimento como despesa operacional, o que acarretará em mais descontos no final do processo.

Já o percentual do imposto destinado pelas empresas para investimentos em shows, teatro e literatura, por exemplo, pode chegar a 6% do total do IR devido -atualmente, o teto é de 4%. O patrocinador que deduzir mais de 4% doará parte do excedente desse percentual ao FNC (veja ao lado).

Outra novidade é o estímulo ao Ficart (Fundo de Investimento Cultural e Artístico), destinado a aplicações em projetos culturais e artísticos. Esse investimento garante dedução no IR de até 50% do valor das cotas adquiridas.

O deputado Pedro Eugênio (PT-PE), relator do projeto, deve entregar o texto para a Comissão de Finanças da Câmara nas próximas semanas.

Ele aguarda um estudo da Fazenda que calculará o impacto da eventual mudança na arrecadação de impostos.

Paulo Pélico, vice-presidente da APTI (Associação dos Produtores Teatrais Independentes), afirma que, se o esquema de renúncia previsto for aprovado, haverá uma mudança positiva no financiamento cultural.

“Nunca tivemos separação entre projetos independentes, públicos e corporativos. Depende, agora, de o governo aprovar. Se tirar uma peça desse quebra-cabeça, não vai funcionar”, diz ele.

TAINHA: No alto de morro na Barra da Lagoa, olheiros têm papel importante na captura da tainha / ilha de santa catarina.sc

Na Barra da Lagoa, Leste da Ilha, a dupla observa o mar no alto do morro

Olheiros têm papel importante na captura da tainha  Caio Marcelo/Agencia RBS

Seo Diquinho (E) conta causos enquanto observaFoto: Caio Marcelo / Agencia RBS
Sâmia Frantz

Seo Diquinho é pescador, mas há 25 anos não entra no mar. Não empurra o barco, nem cerca o cardume. Também não ajuda a puxar a rede e a contar os peixes. No ritual da pesca da tainha, Seo Diquinho, 67 anos, usa os olhos. São eles que, atentos e experientes, observam o mar e são capazes de identificar as inconfundíveis manchas na imensidão das águas. E quando as vê, a busca se transforma em gritos: “vem vindo tainha aí, minha gente!”.

Adir João Lemos, esse é o nome dele, é olheiro. E todo o ritual da pesca da tainha começa com um olheiro. Seu Diquinho se posiciona no alto do Morro da Barra da Lagoa, lá onde a cruz abençoa a comunidade.

Barcos vão pra água após o sinal

E é ao sinal dele que, na praia, os pescadores sabem que chegou a hora de jogar os barcos na água. Seo Diquinho olha tudo lá do alto. Nem sequer participa da “bagunça”:

— A gente só fica olhando daqui. Não dá para ir lá. Pode vir mais atrás, né?

Ele só sai de lá para almoçar. Segue a trilha e caminha até o rancho, onde é preparada a comida. Mas não deixa o posto sozinho, nunca. Reveza o tempo de almoço com José Vieira, 63 anos. José também é pescador, mas pela primeira vez está lá, como olheiro. Trabalhou 30 anos em barcos de caça de malha, mas cansou. Agora quer uma vida mais calma, em terra.

Trabalho puxado de todos

O trabalho do olheiro começa cedo. Às 6h, quando ainda é escuro, Seo Diquinho e José já estão lá, a postos. Debaixo do braço trazem casacos, guarda-chuva, lanterna e comida – geralmente pão, bolo e café com leite. Ficam lá o dia inteiro e só vão embora quando voltar a escurecer.

São horas e horas de observação do mar. Seo Diquinho olhando para o Norte, José para o Sul. Peixe não tem destino, por isso. Ficam de olho na mancha que, algumas vezes, é mais avermelhada e, outras, de um amarelão forte.

— A gente vem todos os dias, faça chuva, faça sol, esteja frio, esteja quente. Venho até quando estou com gripão. É a vida de pescador, né? Peixe não avisa quando passa.

Histórias para passar o tempo

Seo Diquinho é daqueles que gostam de contar histórias. Suas preferidas são as de fantasmas e de causos que ele viu ou ouviu há muitos anos. A sorte de Seo Diquinho é de ter um bom ouvinte. Tudo o que ele tem de conversador, seu José tem de quieto.

— Sabe feiticeira? Ela existe. E sabe lobisomen? Também.

Ele é olheiro há 25 anos e já passou pelo Gravatá e pela Galheta. Gosta tanto do que faz que, agora, só trabalha em época de tainha:

— Às vezes elas vêm pulando. É lindo de ver!

Mais de 4,5 toneladas até agora

A safra deste ano começou com o pé direito, mas as 4,5 toneladas de tainhas retiradas do mar até agora, só na Grande Florianópolis, ainda não são suficientes para fazer a alegria do pescador. A estimativa, nos primeiros três dias, é do Sindicato dos Pescadores.

— Ainda estamos na estaca zero. O forte da tainha começa, mesmo, na semana que vem. Os bons lanços sempre aparecem entre o fim de maio e o início de junho. Isso é histórico – alerta o presidente do órgão, Osvani Gonçalves.

MAR – de omar de la roca / são paulo.sp

 

Que palavra é essa que se agita em mim?

Que mar é esse ?

Como uma onda que me cobre a cabeça,

E eu tenho que bater os pés com força para respirar

Ou como uma tábua de salvação

A que me agarro

E me desgarro quando o pé encontra o chão.

Como a onda que me leva boiando no espaço liquido.

Onde faço lentos movimentos circulares.

Onde sufoco um pouco, um pouco ofego

Sôfrego de luz e de palavras.

Como o barco, que só alcanço a borda

Sem força para nele me chegar

Fraco,tímido, sôfrego  de medo

Tremendo,querendo mergulhar

Mais fundo e mais e mais

Deixando que  a corrente me transporte.

Trazendo a tona a água dividida.

E quebro a onda, com meu corpo

Cujo destino é pedra. E alga.

Com a mão aliso a vaga

Que me levanta e a mim salga.

E sigo resistindo a sereia que se enrosca

Em meus tornozelo, e a mim puxa,

Para o fundo,para o fundo.

Mas me sacudo e me livro

 

Como faço com palavras que me incomodam

Pondo no papel, pondo ao vento

Como roupas a secar e a chuva molha,

Apelando ao perdido pensamento,

Sentimento que não volta.

Que mar é esse ?

Que palavra é essa?

Aceno a mão para o navio inexistente,

Querendo voltar ao porto que ainda não existe,

A água sobe e perco o pé, mais esforço feito,

para ficar a tona, cabeça de fora,nariz de fora.

Ar , que te quero puro.

Ar que é preciso, e eu preciso .

Que palavra que se agita

Em mim e logo grita,

Que mar, no qual me agito,

Muito alem de meu próprio grito?

O sol chia ao encostar na água lá no horizonte.

Logo será noite. Encontrarei areia. Bato os pés

Em desalinho,respiro,afundo.

Me agarro a um tronco. Devo estar perto de terra firme.

Bato os pés e vou seguindo.Vou seguindo.

Que palavra, que mar ?

Bato os braços,os  pés.

Chego lá ? Não sei,engulo água,

E ,me agito mais forte para respirar,

para alem de minha mágoa.

Que cor é essa com a qual escrevo?

Cor de água do mar.

E o papel ? Transparente ,de vidro.

Que mar ?…afundo.

Que palavra ? Surdo, de água.

Areia,concha,alga e pedra. Mar.

E no ar seguro de novo.

PRESIDENTA DILMA ROUSSEFF dá posse a COMISSÃO da VERDADE (vídeos, foto, texto) / brasilia.df

UM clique no centro do video:

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Integrantes falam na posse da COMISSÃO:

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O Brasil e as novas gerações merecem a verdade, afirma presidenta Dilma

Presidenta Dilma Rousseff durante cerimônia de instalação da Comissão Nacional da Verdade, no Palácio do Planalto. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

A presidenta Dilma Rousseff afirmou hoje (16), no Palácio do Planalto, ao dar posse aos integrantes da Comissão da Verdade, que o Brasil e as novas gerações merecem a verdade. Segundo Dilma, a comissão, que terá prazo de dois anos para apurar violações aos direitos humanos ocorridas no período entre 1946 e 1988, que inclui a ditadura militar (1964-1985), não será pautada pelo revanchismo e pelo ódio.

“O Brasil merece a verdade, as novas gerações merecem a verdade e, sobretudo, merecem a verdade factual aqueles que perderam amigos e parentes e que continuam sofrendo como se eles morressem de novo e sempre a cada dia. É como se disséssemos que, se existem filhos sem pais, se existem pais sem túmulo, se existem túmulos sem corpos, nunca, nunca mesmo, pode existir uma história sem voz. E quem dá voz à história são os homens e as mulheres livres que não têm medo de escrevê-la.”.

Segundo a presidenta, a criação da Comissão da Verdade não foi movida pelo desejo de reescrever a história. Para Dilma, a instalação da comissão é a celebração da transparência da verdade de uma nação que vem trilhando seu caminho na democracia.

“Ao instalar a Comissão da Verdade não nos move o revanchismo, o ódio ou o desejo de reescrever a história de uma forma diferente do que aconteceu, mas nos move a necessidade imperiosa de conhecê-la em sua plenitude, sem ocultamentos, sem camuflagens, sem vetos e sem proibições”.

Dilma afirmou que os sete integrantes da Comissão da Verdade – Cláudio Fonteles, Gilson Dipp, José Carlos Dias, João Paulo Cavalcanti Filho, Maria Rita Kehl, Paulo Sérgio Pinheiro e Rosa Maria Cardoso da Cunha – foram escolhidos pela competência e pela capacidade de entender a dimensão do trabalho que vão executar.

“Ao convidar os sete brasileiros que aqui estão e que integrarão a Comissão da Verdade, não fui movida por critérios pessoais nem por avaliações subjetivas. Escolhi um grupo plural de cidadãos, de cidadãs, de reconhecida sabedoria e competência. Sensatos, ponderados, preocupados com a justiça e o equilíbrio e, acima de tudo, capazes de entender a dimensão do trabalho que vão executar. Trabalho que vão executar – faço questão de dizer – com toda a liberdade, sem qualquer interferência do governo, mas com todo apoio que de necessitarem”, disse a presidenta.

Na cerimônia, a presidenta também falou sobre a Lei de Acesso à Informação, que passa a vigorar a partir de hoje, junto com a Comissão da Verdade.

“A nova lei representa um grande aprimoramento institucional para o Brasil, expressão da transparência do Estado, garantia básica de segurança e proteção para o cidadão. Por essa lei, nunca mais os dados relativos à violações de direitos humanos poderão ser reservados, secretos ou ultrassecretos”.

LEI ÁUREA, 124 anos após a publicação o Brasil não consegue erradicar trabalho escravo – por najla passos / são paulo.sp


As comemorações dos 124 da Lei Áurea, neste domingo (13), perderam o brilho. Mais uma vez, a Câmara dos Deputados adiou a votação da Proposta de Emenda Constitucional 438, a chamada PEC do Trabalho Escravo, que prevê a expropriação das terras em que a prática for comprovada. A bancada ruralista foi quem deu a última palavra. O argumento é meramente ideológico: a defesa intransigente da propriedade.

As comemorações dos 124 anos da Lei Áurea, neste domingo (13), perderam o brilho. Mais uma vez, a Câmara dos Deputados adiou a votação da Proposta de Emenda Constitucional 438, a chamada PEC do Trabalho Escravo, que tramita há 11 anos na casa. Não bastaram a intensa mobilização da sociedade civil, os esforços do governo e o compromisso dos parlamentares mais progressistas. A bancada ruralista, que possui a maioria dos votos na casa, foi quem deu a última palavra, a exemplo do ocorreu na votação do novo Código Florestal.

A votação estava prevista para ocorrer na noite de terça (8), em sessão extraordinária. Durante todo o dia, movimentos camponeses, militantes dos direitos humanos, representantes das centrais sindicais, artistas, intelectuais e políticos participaram de atos e manifestações em favor da matéria, que prevê o endurecimento da pena contra os proprietários das terras onde for comprovada a prática, inclusive com a expropriação das terras para fins de reforma agrária.

Embora nenhum parlamentar tenha chegado à ousadia de subir na tribuna para defender a prática, momentos antes do horário previsto para a votação, o quórum do plenário da Câmara permanecia baixo. As 16:30 horas, apenas 208 dos 513 deputados haviam assinado a lista de presença. Para a aprovação de uma mudança na constituição, são necessários pelo menos 308 votos favoráveis. O deputado Amauri Teixeira (PT-BA) que acompanhava de perto a mobilização em plenário, já denunciava: “Há partidos grandes, alguns deles da própria base aliada do governo, que estão com poucos deputados em plenário”.

Na reunião dos líderes de bancadas, representantes dos partidos de oposição e da própria base aliada do governo explicaram porque não aprovariam a matéria. De acordo como líder o governo na Câmara, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), os ruralistas reclamavam que a PEC não deixava claro o que é trabalho escravo e nem detalhava em quais circunstâncias se daria a expropriação.

O presidente da Câmara, deputado Marco Maia (PT-RS), ainda tentou um acordo: os parlamentares aprovavam a PEC como estava, e ele conversaria com o presidente do Senado, José Sarney, para que a casa revisora aprovasse uma lei complementar detalhando os pontos de discórdia. Os ruralistas concordaram. O presidente anunciou a votação para o dia seguinte e deu início às negociações com o Senado. A mobilização social se dispersou.

Entretanto, na quarta (9), pela manhã, os ruralistas se reuniram e decidiram pelo rompimento do acordo. Em documento divulgado, eles criticavam não só os pontos levantados na reunião de líderes do dia anterior, como vários outros. Segundo eles, a PEC implicaria em insegurança jurídica, o que ocasionaria a fuga de investidores do país.

“Os argumentos são mentirosos. O conceito de trabalho escravo, por exemplo, já está tipificado no Código Penal e e muito bem difundido até no senso comum. Mas eles terão que acertar as contas com a história”, afirmou o presidente da Comissão dos Direitos Humanos da Câmara, deputado Domingos Dutra (PT-MA).

Ele criticou também a alegação dos ruralistas de que a expropriação poderia prejudicar, também, um proprietário que, porventura, arrendasse terras para alguém que compactuasse com prática do trabalho escravo. “Saber a quem arrenda um imóvel é dever do proprietário já previsto na Constituição”, rebateu.

À noite, o quórum era de 338 deputados em plenário. Porém, sem conseguir negociar com os ruralistas, o presidente da Casa fez as contas e, ciente de que não conseguiria aprovar a matéria, adiou a votação para 22 de maio.

Ferida aberta
Dados do relatório Conflitos no Campo Brasil 2011, divulgados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), na última segunda (7), já mostravam a dimensão atual do problema. Só em 2011, foram identificados 230 casos de ocorrência de trabalho escravo em 19 dos 27 estados do país, envolvendo 3.929 trabalhadores, inclusive 66 crianças. Destes, 2.095 foram de fato considerados em condições análogas à de escravidão, e libertados.

As ocorrências se deram, principalmente, nas atividades ligadas à pecuária (21%), ao corte de cana (19%), à construção civil (18%), a outras lavouras (14%), à produção de carvão (11%), ao desmatamento e reflorestamento (9%), à extração de minério (3%) e à indústria da confecção (3%).

“O trabalho escravo é um fenômeno majoritariamente rural, da fronteira agrícola, da invisibilidade, salvo as raras exceções em que ocorrem nas cidades, com a exploração de estrangeiros ilegais. O agronegócio brasileiro, que se diz pujante, moderno e altamente tecnológico, não precisa estar vinculado a esta prática. Por isso, acredito que a posição da bancada ruralista reflete mesmo é a questão ideológica da defesa intransigente da propriedade”, resumiu o ex-ministro dos Direitos humanos do governo Lula, Nilmário Miranda.´

Najla Passos

O vento mudou na Europa – por josé manuel pureza / coimbra.pt

A política europeia virou? Não. Mas só o sectarismo mais cego se recusará a reconhecer que as condições do combate político em escala europeia e em escala nacional mudaram no domingo passado. Há uma inequívoca derrotada nas eleições francesas e gregas: a troika e a sua receita estúpida e incompetente para a Europa. O campo dos talibãs da austeridade ficou fragilizado. Pode estar em germinação uma Europa nova. As escolhas que agora fizermos decidirão o sentido e a densidade dessa novidade.



Não, não é inevitável. Foi essa a mensagem dada à Europa pelos povos de França e da Grécia. Cada um a seu jeito, porque cada um está em sua condição. Não é inevitável a desconstrução da Europa por um fundamentalismo recessivo, disse com clareza o povo francês. Não é inevitável a punição das vidas das pessoas e a humilhação dos povos como redenção da cupidez do sistema financeiro, disseram com clareza os gregos.

A política europeia virou? Não. Mas só o sectarismo mais cego se recusará a reconhecer que as condições do combate político em escala europeia e em escala nacional mudaram no domingo passado. Há uma inequívoca derrotada nas eleições francesas e gregas: a troika e a sua receita estúpida e incompetente para a Europa. O campo dos talibãs da austeridade ficou fragilizado. E se é certo que do novo presidente francês não se ouve a palavra ruptura, não é menos certo que no centro do seu compromisso eleitoral estava a renegociação do pacto orçamental imposto por Angela Merkel.

Esse vai ser o teste decisivo à intensidade da mudança: ou a social-democracia hoje personificada em François Hollande se queda por uma adenda ao neo-liberalismo – que o aceita e não quer mais do que “humanizá-lo” – ou tem a coragem de lhe contrapor com clareza e coragem outra estratégia, outro horizonte e outra cultura econômica e política.

Essa é também a escolha que os socialistas portugueses terão que fazer. Que a direção do Partido Socialista tenha alinhado com esta direita na aprovação pacoviamente precoce do pacto orçamental ditado de Berlim – para mais, votando a favor – retira-lhe todo o crédito que um sábio adiamento da decisão confere agora a Hollande e coloca-a em contradição com a vontade expressa pelo SPD de votar contra o dito pacto. O PASOK, na Grécia, fez o mesmo que Seguro. Os resultados estão à vista. A interpelação de Mário Soares ao seu partido tem, neste contexto, um sentido claro: a radicalidade da crise não se compadece com adendas suavizadoras da austeridade, é precisa outra opção de fundo e ela não se fará sem rutura com o memorando de entendimento com a troika. Não por palavras mas em atos concretos.

O dogma da ilegalização de tudo quanto não seja neo-liberalismo- custe-o-que-custar sofreu um sério revés em Paris e Atenas. Cabe agora a todos/as os/as que aspiram a uma mudança efetiva transformar essa derrota do adversário numa vitória própria. Para isso é preciso programa, é preciso firmeza sem transigências no essencial e maleabilidade lúcida no acessório, é preciso ouvir as pessoas e garantir-lhes em concreto a dignidade que lhes está a ser roubada.

A lição dos resultados eleitorais na Grécia é essa mesma. Claro que, aflitos, os amigos do centrão sentenciam o caos causado pela vitória dos “radicais”. Como se radicais não tivessem sido as políticas que governaram a Grécia nos últimos dois anos pela mão da troika e do centrão com ela alinhado, como se caos não fosse uma dívida que cresceu para os 180% do PIB depois da intervenção externa, um desemprego que vai nos 22% e um horizonte de pelo menos mais dez anos de agravamento desta descida aos infernos. Não, o que incomoda verdadeiramente os amigos do centrão é que uma esquerda europeísta e por isso mesmo frontalmente contrária à destruição recessiva da Europa passe a ter um reconhecimento social amplo e possa ser vista como precedente de conteúdos de governação alternativos para a União.

Pode estar em germinação uma Europa nova. As escolhas que agora fizermos decidirão o sentido e a densidade dessa novidade. Não, não há inevitabilidades. Tudo está sempre em aberto.

(*) José Manuel Pureza – prof de Relações Internacionais da Universidade de Coimbra e prof visitante do departamento de Relações Internacionais da PUC/SP

O MUSEU E A ARTE CONTEMPORÂNEA – por almandrade / salvador.ba


Na arte contemporânea não existe limites estabelecidos para a invenção da obra, embora nem tudo em nome da liberdade, sem critérios e sem o risco de referências, a transgressão sem saber de que, divulgado como arte, é arte. Com o deslocamento dos suportes tradicionais, a exemplo da pintura e da escultura para outras opções estéticas ou experiências artísticas em processo, com o uso de novas tecnologias disponíveis, ou não, mas principalmente com um novo conceito do que vem a ser uma obra de arte, hoje em dia, coloca em xeque o museu tradicional. Determinadas linguagens de natureza diversificadas da atualidade solicitam a reformulação de demandas e estratégias museias, um outro modelo museológico e museográfico.

O museu é o recipiente de conservar uma coleção e preservar uma herança estética e cultural de um tempo que passou e do presente para significar o possível futuro. Ele ocupa um lugar de destaque entre os diferentes elementos que compõem o sistema da arte. Assim como o hospício e a clínica, é provável ver nele um espaço de confinamento, um espaço sagrado, intocável e asséptico de exposição de objetos, que exige do espectador um ritual de contemplação, quase em silêncio, das chamadas obras de arte.

Não é um lugar neutro, tem história e implicações ideológicas. Na primeira metade do século XX, o museu de arte era o depósito de repouso do moderno, questionado no início desse século pelo precursor das poéticas contemporâneas, Marcel Duchamp e seu novo paradigma, bem humorado, para a arte: não mais uma coisa criada pelo artista, mas a coisa que o sujeito reconhecido como artista escolhe e decide para ser a obra de arte.

O museu como lugar passivo foi desarticulado com o Minimalismo na década de 1960 e logo em seguida a Arte Conceitual entrou em cena questionando de forma crítica e decisiva as instituições culturais, em especial o museu, o templo da sacralização da arte. O embate foi travado entre o museu e as novas propostas artísticas, efêmeras, privilegiando a ideia contra a materialidade que se armazena na instituição e alimenta o mercado de arte com mercadorias. A arte, desde então, passou a ser uma usina geradora de críticas, provocações e incômodos. Os mal-entendidos entre a arte e a instituição museal foram inevitáveis e imprevisíveis.

O caráter problematizador dessa produção de arte praticamente rejeitou o estatuto da obra de arte como produto, isto contrariou interesses do mercado e o desejo de classificar e acomodar da instituição museológica. Para a arte contemporânea, o museu com sua arquitetura característica, com função de alojar uma diversidade de procedimentos, é um laboratório de ensaio do que pode ser uma obra de arte, um campo de experimentação. O museu é indispensável, é o ponto de partida e a estação de chegada. É ele que legitima o que se designa experiência artística. E o papel do museu, mais do que armazenar obras, é ser um espaço de pensamento crítico e educativo, frequentado por um público ativo e não mero observador do que está em exposição.

De certa forma, a arte, produzida hoje, expõe feridas da cultura e do sistema da arte. E o imaginário museal tem uma importância na formação do olhar capaz de pensar sobre a arte, do olhar que deixou de contemplar passivamente para experimentar e vivenciar. A arte de hoje não nos diz nada como a arte do passado, ela convida o espectador para refletir sobre o que é uma obra de arte e suas relações com o sistema institucional. Nesse caso, o museu é o lugar privilegiado para o exercício do pensamento, até porque, as obras efêmeras são transferidas ou resgatadas para dentro do discurso e da instituição museológica pelos documentos, registros e reproduções.

Almandrade

(artista plástico, poeta e arquiteto)

AMOR de MÃE – por wilker barreto

Meus amigos, hoje é o Dia das Mães e – por que não dizer – o dia do amor. Não há na vida algo maior, mais intenso e mais sublime do que o amor de mãe: incondicional, absoluto e irrestrito.

Amor que encoraja, fortalece, transforma, torna possível o impossível. Berço da vida, afago da alma, combustível da esperança, és tu, mamãe, que nos educa, ensina, acalenta e nos acompanha em nossa caminhada. Todo dia é teu dia, mãe! Nada que possamos fazer será suficiente para agradecer a dedicação, o carinho, a generosidade, a compreensão, os dias a fio e o amor que nos foi dedicado.

Verdadeiras guerreiras na batalha de educar e preparar seus filhos, as mães cumprem várias jornadas de trabalho e nada recebem por isso. São mães, esposas, profissionais e, infelizmente, têm sido cada vez mais frequentes os casos em que também se tornam pais. Não restam dúvidas, somente as mulheres poderiam ser capazes de desempenhar tantas funções ao mesmo tempo e com tamanha excelência. Só nos cabe agradecer, reverenciar e dizer que não chegaríamos a lugar algum sem o seu amparo, seu colo e seus ensinamentos.

Nenhuma mãe falece, porque todas habitam em nossos pensamentos e residem em nossos corações. Seus ensinamentos jamais se perderão, e do seu amor jamais esqueceremos. O pouco que somos devemos a ti e, como diria o poeta, “somente uma coisa no mundo é melhor e mais bela do que a mulher: a mulher que é mãe”.

Amemos, celebremos e jamais nos esqueçamos da criatura mais importante de nossas vidas. Aproveitemos, em especial, o dia de hoje para exaltar as mães, festejar o amor e valorizar a família. Que todos tenhamos um grandioso e memorável dia. Muito amor, paz, saúde e longevidade às nossas mamães. Irmanemo-nos no amor e na generosidade das mães de ontem, de hoje e do amanhã. Profiramos todos os dias em alto e bom som: Mãe, eu te amo!

jorn. AROLDO MURÁ, MANOEL DE ANDRADE e DANTE MENDONÇA, CONVIDAM: Curitiba.pr

COMISSÃO DA VERDADE, governo anuncia integrantes / Brasilia.df

Cerimônia de posse, em 16 de maio, terá a presença dos ex-presidentes Sarney, Collor, FHC e Lula

BRASÍLIA – A presidente Dilma Rousseff escolheu os sete integrantes da Comissão da Verdade. São eles: José Carlos Dias, ex-ministro da Justiça, Gilson Dipp, ministro Superior Tribunal de Justiça, Rosa Maria Cardoso da Costa, ex-advogada da presidente Dilma, Cláudio Fonteles, diplomata e ex-secretário de Direitos Humanos do Ministério da Justiça Paulo Sérgio Pinheiro, a psicanalista Maria Rita Kehl e o advogado e jurista José Paulo Cavalcanti Filho.

A posse está marcada para o dia 16 de maio e os ex-presidentes José Sarney, Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva participarão da cerimônia. O porta-voz do Planalto, Thomas Traumann, informou que os convites foram feitos todos na tarde desta quinta-feira, pessoalmente, “Todos os ex-presidentes já confirmaram suas presenças em uma demonstração de que esta comissão não é de governo, é de Estado”, afirmou o porta-voz.

A Comissão da Verdade gerou uma grande polêmica desde quando foi anunciada por causa de questionamentos da área militar. Em todas as manifestações os militares da reserva, principalmente do Exército, afirmar que a comissão será revanchista e tentará reescrever a história à sua maneira. Mas o governo rebate esta tese e insiste que a comissão será de Estado e agirá com imparcialidade. Em seu discurso, quando sancionou a lei, a presidente Dilma afirmou que a Comissão da Verdade consolida o processo democrático e salientou que “o silêncio e o esquecimento são sempre uma grande ameaça. Não podemos deixar que no Brasil a verdade se corrompa com o silêncio”.

Dilma acrescentou ainda que “a verdade interessa muito às novas gerações que tiveram a oportunidade de nascer e viver sob regime democrático. Interessa, sobretudo, aos jovens que hoje têm o direito à liberdade e devem saber que essa liberdade é preciosa e que, muitos, por ela lutaram e pereceram. As gerações brasileiras se encontram hoje em torno da verdade. O Brasil inteiro se encontra, enfim, consigo mesmo sem revanchismo, mas sem a cumplicidade do silêncio”, concluiu.

Entre os objetivos da comissão estão “esclarecer os fatos e as circunstâncias dos casos de graves violações de direitos humanos” entre 1946 e 1988 e “promover o esclarecimento circunstanciado dos casos de torturas, mortes, desaparecimentos forçados, ocultação de cadáveres e sua autoria, ainda que ocorridos no exterior”. A partir da sua instalação, a comissão terá um prazo de dois anos para conclui os trabalhos. Não está estabelecido como será o rito de funcionamento da comissão. Cada integrante da comissão receberá um salário mensal de R$ 11.179,36.

A lei prevê que a comissão requisite documentos de órgãos públicos, convoque para entrevistas “pessoas que possam guardar qualquer relação com os fatos e circunstâncias examinados”, promova audiências públicas e peça proteção para indivíduos que eventualmente se encontrem “em situação de ameaça” por conta da colaboração com a comissão.

A legislação ainda estabelece que as atividades não terão “caráter jurisdicional ou persecutório” e que “é dever dos servidores públicos e dos militares colaborar” com a comissão. A legislação ainda estabelece que as atividades não terão “caráter jurisdicional ou persecutório” e que “é dever dos servidores públicos e dos militares colaborar” com a comissão. Está prevista ainda que a comissão poder firmar parcerias com instituições de ensino superior e organismos internacionais.

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Tânia Monteiro e Rafael Moraes Moura, da Agência Estado

senador CIRO MIRANDA faz elogio inédito, da tribuna do senado, ao POVO BRASILEIRO Brasilia.df

ANDRÉ RIEU e o BRASIL / londres

Surpresa no Concerto de André Rieu em Londres… 


Desenvolvia-se o concerto de música clássica no refinado Royal Albert Hall, em Londres, sob sua regência . E de repente ele surpreende. Espetacularmente. Bravíssimo!!!

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IGREJAS e INDÚSTRIAS unem seus deputados e votam contra a “tributação de fortunas”, porque seriam atingidas / brasilia

Parceria CNI-Igreja derruba votação para tributar fortunas

Em comissão da Câmara, parlamentares dos setores esvaziaram reunião

EVANDRO ÉBOLI

BRASÍLIA – Uma inusitada parceria entre o lobby da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e parlamentares católicos e evangélicos impediu nesta quarta-feira a aprovação de projeto que cria a Contribuição Social das Grandes Fortunas (CSGF), recurso que seria destinado exclusivamente para a saúde. Essa união de forças se deu na Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara. O autor do pedido de verificação de quórum na comissão, uma manobra para impedir aprovação de projetos, foi do deputado Darcísio Perondi (PMDB-RS), médico que se apresenta como defensor da saúde. Desde o início da sessão, assessores da CNI e de deputados evangélicos negociaram boicotar a reunião.

O interesse dos religiosos era evitar, mais uma vez, um projeto que tramita há anos no Congresso e que cria direitos previdenciários para dependentes de homossexuais. Este nem chegou a ser apreciado. E o da bancada da CNI era impedir a votação do projeto que taxa as grandes fortunas. E conseguiram. Parlamentares desses dois grupos esvaziaram a sessão. O projeto que taxa as grandes fortunas tem como autor o deputado Doutor Aluizio Júnior (PV-RJ). Pela proposta, são criadas nove faixas de contribuição a partir de acúmulo de patrimônio de R$ 4 milhões e a última faixa é de acima de R$ 115 milhões. O projeto atinge 38 mil brasileiros, com patrimônios que variam nessas faixas.

- São R$ 14 bilhões a mais para a saúde por ano. Desse total, R$ 10 bilhões viriam de 600 pessoas, mais afortunadas do país. Vamos insistir com o projeto – disse Aluizio Júnior.

A relatora do projeto foi a deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ), que deu parecer favorável. O projeto das grandes fortunas chegou a ser votado e 14 parlamentares votaram sim e três, não. Foi nesse momento que Perondi pediu a verificação de quórum e eram precisos 19 votantes ao todo. E tinham 17. Faltaram apenas dois para a matéria ser considerada aprovada.

Quando começou a votação, parlamentares do PSDB e do DEM deixaram o plenário. O deputado Doutor Paulo César (PSD-RJ) fez um parecer contrário ao de Jandira e argumentou que taxar grandes fortunas iria espantar os investimentos e empresários levariam dinheiro para fora do país. Mas a derrota, no final, pode ser atribuída a dois parlamentares evangélicos. Um deles, Pastor Eurico (PSB-PE) chegou a fazer um discurso a favor da taxação das grandes fortunas e afirmou até que a Câmara está cheio de lobbies de interesses. Chegou a ser aplaudido, mas, na hora de votar, atendeu ao apelo da parceria CNI-religiosos, e deixou o plenário. Nem sequer votou. Outro deputado, Marco Feliciano (PSC-SP), defensor dos interesses religiosos deixou o plenário quando se inicia a votação.

O advogado Paulo Fernando Melo, um assessor das bancadas religiosas e que atuou na parceria com a CNI, comemorou o resultado.

- Tinham duas matérias polêmicas na pauta (pensão para gays e taxação de grandes fortunas). No final, a articulação desses dois setores, que é regimental, deu certo e os dois lados saíram vitoriosos – disse Paulo Fernando.

senador AGRIPINO MAIA, presidente do DEM, arauto da moralidade, É ACUSADO de receber propina (de R$1.000.000,00) no Rio Grande do Norte

Testemunha acusa Agripino Maia de receber propina

Leandro Fortes
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O senador Agripino Maia, presidente do DEM, é acusado de receber 1 milhão de reais do esquema. Foto: Válter Campanato / Agência Brasil

Há pouco mais de um mês, em 2 de abril, um grupo de seis jovens promotores de Justiça do Ministério Público do Rio Grande do Norte organizou uma sessão secreta para ouvir um lobista de São José do Rio Preto (SP), Alcides Fernandes Barbosa, ansioso por um acordo que o tirasse da cadeia. Ele foi preso com outras nove pessoas, em 24 de novembro de 2011, durante a Operação Sinal Fechado, que teve como alvo a atuação do Consórcio Inspar, montado por empresários  e políticos locais com a intenção de dominar o serviço de inspeção veicular no estado por 20 anos. A quadrilha pretendia faturar cerca de 1 bilhão de reais com o negócio. Revelado, agora, em primeira mão, por CartaCapital, o depoimento de Barbosa aponta a participação do senador Agripino Maia, presidente do DEM, acusado de receber 1 milhão de reais do esquema.

O depoimento de Barbosa durou 11 horas e reforçou muitas das teses levantadas pelos promotores sobre a participação de políticos no bando montado pelo advogado George Olímpio, apontado como líder da quadrilha, ainda hoje preso em Natal. De acordo com trechos da delação, gravada em vídeo, Barbosa afirma ter sido chamado, no fim de 2010, para um coquetel na casa do senador Agripino Maia, segundo disse aos promotores, para conhecer pessoalmente o presidente do DEM. O convite foi feito por João Faustino Neto, ex-deputado, ex-senador e atual suplente de Agripino Maia no Senado Federal. Segundo o lobista, ele só foi chamado ao encontro por conta da ausência inesperada de outros dois paulistas, um identificado por ele como o atual senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) e o outro apenas como “Clóvis” – provavelmente, de acordo com o MP, o também tucano Clóvis Carvalho, ex-ministro da Casa Civil do governo Fernando Henrique Cardoso.

Apontado como um dos principais articuladores do esquema criminoso no estado, Faustino Neto foi subchefe da Casa Civil do governo de São Paulo durante a gestão do tucano José Serra. Na época, era subordinado a Aloysio Nunes Ferreira.

De acordo com os promotores, o papel de Barbosa na quadrilha era evitar que a Controlar, uma empresa com contratos na prefeitura de São Paulo, participasse da licitação que resultou na escolha do Consórcio Inspar. Em conversas telefônicas interceptadas com autorização da Justiça potiguar, Barbosa revela ter ligado para o prefeito Gilberto Kassab (PSD), em 25 de maio de 2011, quando se identificou como responsável pela concessão da inspeção veicular no Rio Grande do Norte. Aos interlocutores, o lobista garantiu ter falado com o prefeito paulistano e conseguido evitar a entrada da Controlar na concorrência aberta pelo Detran local. Em um dos telefonemas, afirma ter tido uma conversa “muito boa”. Embora não se saiba o que isso significa exatamente, os promotores desconfiam das razões desse êxito. Apenas em propinas, o MP calcula que a quadrilha gastou nos últimos dois anos, cerca de 3,5 milhões de reais.


Aos promotores, Alcides Barbosa revelou que foi levado ao “sótão” do apartamento do senador Agripino Maia, em Natal, onde garante ter presenciado o advogado Olímpio negociar com o senador apoio financeiro à campanha de 2010. Na presença de Faustino Neto e Barbosa, diz o lobista, George prometeu 1 milhão de reais para o presidente do DEM. O pagamento, segundo o combinado, seria feito em quatro cheques do Banco do Brasil, cada qual no valor de 250 mil reais, a ficarem sob a guarda de um homem de confiança de Agripino Maia, o ex-senador José Bezerra Júnior, conhecido por “Ximbica”. De acordo com Barbosa, Agripino Maia queria o dinheiro na hora, mas Olímpio afirmou que só poderia iniciar o pagamento das parcelas a partir de janeiro de 2012.

O depoimento reforça um outro, do empreiteiro potiguar José Gilmar de Carvalho Lopes, dono da construtora Montana e, por isso mesmo, conhecido por Gilmar da Montana. Preso em novembro de 2011, o empreiteiro prestou depoimento ao Ministério Público e revelou que o tal repasse de 1 milhão de reais de Olímpio para Agripino Maia era “fruto do desvio de recursos públicos” do Detran do Rio Grande do Norte. O empresário contou história semelhante à de Barbosa. Segundo ele, Olímpio deu o dinheiro “de forma parcelada” na campanha eleitoral de 2010 a Carlos Augusto Rosado, marido da governadora Rosalba Ciarlini (DEM), e para o senador Agripino Maia. E mais: a doação foi acertada “no sótão do apartamento de José Agripino Maia em Morro Branco (bairro nobre de Natal)”.

Com base em ambos os depoimentos, o Ministério Público do Rio Grande do Norte decidiu encaminhar o assunto à Procuradoria Geral da República, pelo fato de Agripino Maia e ser senador da República, tem direito a foro privilegiado. Lá, o procurador-geral Roberto Gurgel irá decidir se uma investigação será aberta ou não.

O depoimento de Barbosa (foto) reforçou muitas das teses levantadas pelos promotores sobre a participação de políticos no bando montado pela quadrilha.,

Procurado por CartaCapital, o senador Agripino Maia negou todas as acusações. Afirma que nunca houve o referido coquetel no apartamento dele, muito menos repasse de 1 milhão de reais das mãos da quadrilha para sua campanha eleitoral, em 2010. Negou até possuir um sótão em casa. “Sótão é aquela coisinha que a gente sobe por uma escadinha. No meu apartamento eu tenho é uma cobertura”, explicou. Agripino Maia afirma ser vítima de uma armação de adversários políticos e se apóia em outro depoimento de Gilmar da Montana, onde ela nega ter participado do coquetel na casa do senador.

De fato, dias depois de o depoimento do empreiteiro ter vazado na mídia, no final de março passado, o advogado José Luiz Carlos de Lima, contratado posteriormente à prisão de Gilmar da Montana, apareceu com outra versão. Segundo Lima, houve “distorções” das declarações do empresário. De acordo com o advogado, o depoimento de Montana, prestado a dois promotores e uma advogada dentro do Ministério Público, ocorreu em condições “de absoluto estresse emocional e debilidade física” do acusado, que estaria sob efeito de remédios tranquilizantes. No MP potiguar, a versão não é levada a sério.

Dá dó! – por valdo cruz / Brasilia.df

Dá dó!

 

A oposição está atordoada. Alguns de seus líderes ensaiaram críticas às mudanças feitas pela presidente Dilma Rousseff na remuneração da caderneta de poupança. Saíram dizendo que ela deveria ter reduzido os impostos sobre aplicações financeiras, como fundos de investimentos, em vez de mudar o cálculo do rendimento da caderneta, a mais tradicional forma utilizada pelo brasileiro para poupar seu dinheirinho no final do mês.

Faltou quem orientasse esses líderes da oposição. Em resumo, eles defenderam que o governo melhorasse a vida dos rentistas, aumentando o lucro daqueles que aplicam, por exemplo, em títulos do Tesouro Nacional, em vez de mexer na poupança, o que irá permitir que o Banco Central reduza ainda mais a taxa de juros do país. Traduzindo, querem beneficiar um grupo restrito de pessoas em vez de adotar uma medida que tem potencial para melhorar a vida de empresários e trabalhadores com a redução do custo financeiro do país.

Mal comparando, a oposição ensaiou entrar no mesmo caminho dos petistas quando do lançamento do Plano Real. Luiz Inácio Lula da Silva, que veio a se tornar presidente do Brasil, não poupou críticas ao plano elaborado pelo tucano Fernando Henrique Cardoso no governo Itamar Franco. Mais tarde, admitiu o erro, responsável por sua derrota na eleição de 1994.

Agora, se tudo der certo na estratégia dilmista, o Brasil pode caminhar para ter juros civilizados -estratégia que a equipe da presidente classifica de o Plano Real da Dilma. Se a oposição insistir nas críticas fáceis à mexida na poupança, corre o risco de ter de reconhecer, daqui alguns anos, o erro de avaliação. Infelizmente, a oposição brasileira minguou e não se mostra capaz de lançar uma agenda propositiva.

O fato é que, tirando as preferências partidárias, a mudança na caderneta de poupança é uma medida que veio tarde. Dilma, ao contrário de seus antecessores, teve disposição e coragem de enfrentar o tema, tido como impopular por conta do histórico recente de confisco da poupança patrocinado pelo governo de Collor.

A remuneração fixa da caderneta de poupança, na casa dos 7%, havia criado um piso para a taxa de juros. Ela não podia cair para 8,5% sem provocar distorções no mercado financeiro e no financiamento da dívida pública.

Como as aplicações financeiras pagam taxa de administração e Imposto de Renda, um juro de 8,5% pago pelos títulos públicos, que compõem as carteiras de fundos de investimento, acaba equivalendo a algo na casa de 7%. Resultado: os rentistas tenderiam a tirar seu dinheiro dos fundos e passar para a poupança, que ficaria mais rentável. Agora, esse risco deixa de existir. E o Banco Central fica livre para reduzir os juros, caso, claro, avalie que o cenário econômico permite tal movimento.

No Palácio do Planalto, a expectativa é que os juros, hoje em 9% ao ano, caiam para pelo menos 8% no final de 2012. Há quem aposte que pode ficar até abaixo deste percentual. A conferir.

 

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VALDO CRUZ  é jornalista da Folha.com

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE concede entrevista a LEDA NAGLE /são paulo.sp

 

UM clique no centro do vídeo:

PRESIDENTA DILMA: Um dia de desagravo a VARGAS, JANGO e BRIZOLA

DILMA põe a máquina, de volta, aos trilhos da história e Fernando Henrique Cardoso sai dos trilhos envergonhado. A história é implacável.

Em seu discurso de despedida do Senado, em dezembro de 1994, o presidente eleito Fernando Henrique Cardoso anunciou o fim da Era Vargas. Foi generosamente elogiado pelas corporações midiáticas, saudado pelos bancos, aplaudido pelo capital estrangeiro, incensado, enfim, pelo dinheiro grosso e seus áulicos de escrita fina.

Era preciso sedimentar o estigma maniqueísta para legitimar o projeto conservador. Foi o que se fez e ainda se faz. Não escapa ao observador atento a entrevista ‘oportuna’ de FHC à Folha esta semana para advertir a Presidenta em corajosa ofensiva contra os bancos para a redução dos juros.”Vá devagar, não se brinca (sic) com o mercado financeiro”, protestou o tucano. É coerente. Pelos quase dez anos seguintes seu governo negociaria barato o patrimônio público construído, na verdade, por décadas de lutas de toda a sociedade brasileira. A nova referência autossuficiente da economia, da sociedade e da história seriam os livres mercados –sobretudo o capital especulativo que não presta contas a ninguém.
Inclua-se nesse arremate a Vale do Rio Doce, mas também algo de incomensurável importância simbólica: a auto-estima da população, seu discernimento sobre quem tem o direito e a competência para comandar o destino de uma sociedade e do desenvolvimento. Entorpecida a golpes do tacape midiático, essa consciência seria desqualificada para a entronização dos ‘mercados desregulados’ como o portador autossuficiente do futuro e da eficiência. Em suma, era a vez do ‘Brasil não caipira’.

Três vitórias seguidas do PT resumem o escrutínio da população sobre os resultados desse ciclo de desmonte da esfera pública, endividamento da Nação e depreciação da cidadania em dimensões profundas, talvez ainda não suficientemente avaliadas; por certo, não superadas em suas usinas realimentadoras.

Seria preciso, porém, uma crise capitalista igual ou pior que a de 1929 para sacudir de vez a inércia ideológica e o interdito histórico que recusavam admitir nas conquistas sociais e econômicas do ciclo iniciado em 2003, um fio de continuidade com tudo aquilo antes execrado e sepultado como anacrônico e populista.

Lula cutucou-os não poucas vezes; no fígado da intolerância histórica em certas ocasiões , como quando anunciou a autossuficiência do petróleo em 2006, e disse: ” a seta do tempo não se quebrou”. E o demonstraria na prática pouco depois, com a regulação soberana do pré-sal, fazendo das encomendas da Petrobrás uma alavanca industrializante capaz de fixar um novo divisor produtivo.

Conquistas acumuladas em décadas de luta pelo desenvolvimento seriam assim resgatadas de um reducionismo a-histórico, desmentido nos seus próprios termos pelo colapso planetário das premissas esfareladas na crise de 2008.

Coube nesta 5ª feira à Presidenta Dilma Roussef acrescentar a essa espiral dialética um discurso pedagógico. Na cerimônia de posse do novo ministro do Trabalho, Brizola Neto, nomes e agendas que a soberba conservadora se propôs um dia a banir da história brasileira, retornaram com orgulho e reconhecimento à narrativa de um governo soberano que, desde 2003, com tropeços e hesitações, aos poucos se liberta daqueles que ainda evocam o direito de cercear o passo seguinte da história brasileira. Esse tempo acabou e Dilma,ontem, fez do seu réquiem um desagravo à história da luta pelo desenvolvimento.Palavras da Presidenta Dilma Rousseff:

“O desemprego no Brasil está hoje nos mais baixos patamares de nossa história – 6,5% em março. Trata-se de um contraste gritante(…) o mundo perdeu 50 milhões de vagas formais de emprego, pulverizadas pela crise econômica, por políticas de austeridade exagerada, pela redução de direitos e precarização da legislação trabalhista. Nós navegamos na contramão dessa tendência (…)

A partir do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, houve uma mudança (…) Nós mudamos a nossa forma de conceber o desenvolvimento e definimos um processo de desenvolvimento com inclusão social (…) Somente nesses últimos 15 meses do meu governo, nós geramos 2 milhões e 440 mil empregos formais (…)

É assim, muito significativa, a circunstância que traz ao cargo de ministro um jovem que representa, inclusive, no sobrenome Brizola, uma história de mais de meio século de lutas sociais, de defesa do interesse nacional e de conquistas de direitos por parte dos trabalhadores brasileiros. Não bastasse levar o sobrenome Brizola, o novo ministro do Trabalho carrega consigo a história do seu tio-avô João Goulart, ex-presidente da República. Em 1953 – vejam os senhores que coincidência -, também aos 34 anos, também jovem e determinado, Jango foi empossado ministro do Trabalho do governo democrático de Vargas. Foi Jango quem deu à pasta do Trabalho grande peso político e grande dimensão.

Assim, nomear como ministro do Trabalho e Emprego Carlos Daudt Brizola Neto reforça, em meu governo, é o reconhecimento da importância histórica do Trabalhismo na formação do nosso país” (Presidenta Dilma na posse do ministro do Trabalho, Brizola Neto).

 

C. MAIOR.

ELEIÇÕES NA FRANÇA: Hollande vence Sarkozy…

 …e socialistas voltam ao poder.

François Hollande diz querer ter “uma presidência normal”. Foto: AFP

PARIS, França (AFP) – O socialista François Hollande foi eleito presidente da França neste domingo 6 ao derrotar o atual chefe de Estado, o conservador Nicolas Sarkozy, no segundo turno das eleições francesas.

Em seu primeiro discurso como presidente eleito, Hollande afirmou que a “austeridade não deve ser uma fatalidade” entre os diversos governos de uma Europa em crise.

“Hoje mesmo, responsável pelo futuro do nosso país, estou ciente de que toda a Europa nos observa”. “Na hora em que o resultado foi anunciado, tive a certeza que em diversos países europeus houve um sentimento de alívio e de esperança, de que, por fim, a austeridade não deve ser mais uma fatalidade”, disse Hollande, que obteve 52% dos votos.

“Neste 6 de maio, os franceses escolheram a mudança para me levar à presidência da República” e estou “orgulhoso por ter sido capaz de devolver esta esperança”. “Prometo ser o presidente de todos”.

“Envio uma saudação republicana a Nicolas Sarkozy, que dirigiu a França durante cinco anos e que por isto merece nosso respeito”.

Sarkozy reconheceu a derrota no início da noite e chamou Hollande de “novo presidente” que o “povo francês elegeu de forma democrática e republicana”.

O atual chefe de Estado assumiu “toda a responsabilidade pela derrota” e comunicou a seus partidários que não liderará a luta para as eleições legislativas, previstas para 10 e 17 de junho.

BRASÍLIA 52 ANOS DA CAPITAL DO PODER – por almandrade / salvador.ba

BRASÍLIA 52 ANOS DA CAPITAL DO PODER

“Nenhum rosto é tão surrealista quanto o verdadeiro rosto de uma cidade”
Walter Benjamin

Mais de cinqüenta anos depois, a bossa nova da arquitetura e do urbanismo,mostra suas rugas e os sintomas de um envelhecimento precoce. O
símbolo maior da modernidade e da ideologia desenvolvimentista que
projetou o Brasil como um país novo, revela o que é a cidade moderna,
o lugar da afirmação e do poder da máquina e das restrições do domínio
público. Com uma malha rodoviária e amplos espaços que ultrapassam a
escala humana, Brasília foi concebida nas pranchetas de Oscar Niemeyer
e Lúcio Costa sob a orientação do presidente Juscelino Kubitschek para
responder ao desenvolvimento industrial, em particular, a indústria
automobilística em ascensão, e hoje representa o fim do sonho e das
ilusões desenvolvimentistas.

Sem dúvida, Brasília é uma das mais importantes contribuições
brasileira para a arte do século XX, juntamente com a Bossa Nova, a
Arte Concreta e o Cinema Novo, que resiste aos escândalos políticos
que assolam a capital. As estruturas de suas construções permanecem
intactas, o concreto armado parece eterno. Uma cidade cartesiana
implantada no interior do país, sob o cerrado, distante do litoral,
uma aventura quase que impossível. Nas palavras do critico de arte
Mário Pedrosa, “se Brasília foi uma imprudência, viva a imprudência”.
A nova capital era uma resposta à crítica de um Brasil litoral, de
costas para o seu interior, desde os tempos do Marques de Pombal. Esta
experiência urbanística foi estimulada por uma opção de
desenvolvimento que se desejava para o Brasil o qual estamos sofrendo
suas conseqüências.

Mais do que uma simples cidade, Brasília é um discurso, símbolo de uma
nova situação que direcionou a vida e a economia do país. Uma cidade
com uma arquitetura governamental, monumental e moderna. O trançado
urbano e a arquitetura arte criaram a cidade como uma realidade
moderna, imagem e símbolo do Brasil industrial, país da tecnologia e
da democracia para os que dispõem de meios mecanizados para dominar os
grandes espaços vazios. A cidade que arquiteto francês, nascido na
Suíça e mestre dos arquitetos brasileiros, Le Corbusier não teve a
oportunidade e o privilégio de construir. O centro principal e
simbólico da capital do poder é a praça dos três poderes, na
organização do espaço as hierarquias e os interesses de classe não
ficam ausentes.

Falar de Brasília não se pode deixar de lado as manobras processadas
na economia e da política dos anos de 1950. “o avanço dos 50 anos em
5 anos” meta do governo JK. A sede de democracia, agitações, debates
inflamados e o avanço da indústria. A população vivia o impacto da
confiança no futuro. A nova capital refletia uma sociedade otimista
disposta a realizar utopias. Brasília foi pensada para ser um centro
político, cultural e administrativo para o desenvolvimento do
Centro-Oeste, mas não contava com o crescimento desordenado e
populacional, que acabou comprometendo o plano urbanístico de Lucio
Costa e trouxe os problemas e os desastres que assolam os grandes
centros urbanos. Com o regime militar, implantado em 1964, a cidade
criada em um período raro de democracia acreditando que a sua
localização no interior estaria mais protegida de ataques militares,
foi associada ao totalitarismo, mas resistiu com seu chame como uma
expressão artística que colocou o Brasil internacionalmente num
patamar de respeito.

Almandrade
(artista plástico, poeta e arquiteto)

 

DOS BEATLES… PAUL MCCARTNEY! – por olsen jr / rio negrinho.sc

DOS BEATLES… PAUL MCCARTNEY!


   Talvez quem mais tenha sofrido com a separação dos Beatles tenha sido o Paul.

Os historiadores costumam situar os Beatles num espaço cronológico de 1962 (quando gravaram o primeiro disco) até 1972 (quando venceu o contrato que os mantinha unidos enquanto grupo) num lapso de tempo menor que dez anos. Acontece que John e Paul, George em seguida, se conheceram em 1957 e paralelamente aos ensaios, também compunham. A música “Love me Do” é desta época, uma das raras que se salvou depois que Jane Asher (namorada de Paul) em uma faxina despachou um caderno onde ele costumava anotar suas criações.

Durante o período em que a banda existiu, os Beatles eram muito gregários, andavam sempre juntos, compunham, trabalhavam, divertiam-se, faziam festas, viviam como uma família… Bonitos, bem sucedidos, ricos, famosos, além de trabalhadores (mais criativos que Beethoven, segundo uma crítica da época), revolucionários, tornaram-se uma referência mundial.  A juventude copiava seus cortes de cabelos, modos de vestir, irreverência, desprezo pelas instituições que tinham envelhecido sem acompanhar os apelos do seu tempo, eles mostravam novos caminhos onde certamente a paz e o amor tinham lugar assegurado e onde tudo era permitido, exceto a indiferença.

.  As intermináveis sessões fotográficas da banda (porque não existe na história da música pop mundial um grupo que teve tantos registros fotográficos como os Beatles) eram organizadas por Paul, também o projeto de fazer um filme e lançar dois álbuns por ano…

Paul McCartney raciocinava como um escritor, disse mesmo em uma entrevista que pensava os discos como se fossem livros, desde o título às ideias que norteavam suas feituras, os álbuns conceituais “White Album” e “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” , são exemplos.

A morte de Brian Epstein, descobridor e primeiro empresário dos Beatles em 1967 – tido por muitos como o “Quinto beatle” deixou um espaço livre para o surgimento das “diferenças” entre os componentes da banda.. E foi de Paul o fantasioso e incompreendido projeto da gravação do “Magical Mistery Tour” dentro de um ônibus, sem roteiro… O primeiro vídeoclip a ser mostrado na televisão. Uma tentativa de mantê-los ocupados e adiando o conflito que estava por vir.

Antes de o John Lennon proferir a célebre frase “The dream is over”, os Beatles individualmente já tinham consciência disso.

Natural, portanto, que passada aquela euforia onde tudo parecia possível, sobreviesse um tempo de angústia, de desespero, um não saber como continuar seguindo adiante sem os outros.

Em 1971, os Beatles mostraram ainda por que eram os melhores, Paul McCartney lançou “Another Day”, John Lennon “Mother”, George Harrison “My Sweet Lord” e Ringo Starr “It Don’t Come Easy”… Todas as composições fizeram enorme sucesso e indicavam o caminho e o momento que cada um estava vivendo… Paul que tinha dado a volta por cima; John buscando na perda da mãe a origem de sua angústia; George um reencontro com a espiritualidade e Ringo, a arte de representar que lhe era latente.

Os Beatles continuam sendo um marco a ser batido com mais de um bilhão de discos vendidos… E seus integrantes já fazem parte da história musical do mundo, alguns ainda podem ser vistos e admirados, como Sir James Paul McCartney em Florianópolis, finalmente!

BOX I

O COMEÇO DO FIM

   Quando morreu Brian Epstein (em 1967) as fissuras dentro do grupo começaram a aparecer. A Apple, empresa que haviam criado para dar sustentação aos negócios deles como músicos e de outros que tivessem talento (um caos com muitas possibilidades) estava perdendo dinheiro. Eles também gastavam sem conta, principalmente o John. Aliás, foi o próprio John Lennon quem disse numa entrevista que se tudo continuasse daquele jeito eles e a Apple estariam falidos em pouco tempo. Foi o contador deles que se demitiu deixando um bilhete: “Suas contas pessoais estão uma zona”.

Para retomar o caminho, Paul tinha escolhido para gerir os negócios, Lee Eastman o sogro (pai da Linda Eastman com quem estava casado) e John (com Yoko que o apoiava em tudo) preferia Allan Klein (que tinha sido empresário dos Rolling Stones e que Mick Jager detestava e alertou os Beatles “evitem este cara”). Mas Klein estava assediando a banda fazia muito, até conseguir uma audiência com John/Yoko e tomar a frente os negócios do fab four. Paul foi o único que não concordou, mas os outros três assinaram um contrato por três anos, o que deixava, na prática, os Beatles vinculados até 1972.

A história, no entanto, mostraria que Paul estava certo. Mais tarde os outros três Beatles processaram Klein.

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 BOX II

O ÚLTIMO SHOW PELA ARTE

Em 1968 eles foram fazer meditação transcendental na Índia buscando uma autoavaliação do que eram e do que poderiam se tornar… Cerca de 40 composições foram produzidas no período, boa parte do “Álbum Branco”.

Na verdade Paul tentava dar um rumo para a banda. Este esforço parecia aos outros, uma tentativa de dominação, eram considerados ofensivos e davam a entender sempre ser “mais um projeto” de Paul McCartney que, aliás, era meticuloso, detalhista, sempre premiando a habilidade, fazendo diferente… A composição “Ob-ladi, Ob-lada” foi gravada mais de 40 vezes, para se ter uma ideia…

Ringo disse em uma entrevista que “O Paul queria que trabalhássemos o tempo todo… Era um viciado em trabalho”, um workaholic…

Para o produtor George Martin “Paul era mandão e os outros caras detestavam… Mas era o único jeito de mantê-los juntos… Num processo de desintegração generalizado”.

Enquanto gravavam o disco “Let it Be” (que deveria se chamar Get Back, originalmente) os Beatles tocaram 52 músicas novas… Muitas destas acabaram entrando no “Abbey Road” (o último disco deles) ou fazendo parte do melhor material dos álbuns solos dos membros da banda.

Para completar o filme/documentário que saiu com o mesmo nome do disco “Let it Be”, o diretor Lindsay-Hogg queria um final e, por sugestão de alguém foi marcado para o dia 30 de janeiro no telhado do escritório da Apple um show com os Beatles… Acompanhados por Billy Preston, foi o primeiro show desde agosto de 1966 e também foi o último… “Também foi o melhor o que diz muito sobre o poder coletivo da afinidade musical e do carisma que os quatro cultivaram, e que nem suas desavenças mútuas seriam capazes de apagar.”

Paul declarou a um jornal: “Ringo saiu primeiro, depois George, então John. Eu fui o último a sair! Não fui eu! (Revista Rolling Stone Brasil/setembro de 2009).

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BOX III

O RECOMEÇO

   Paul ficou arrasado com a separação dos Beatles, era a banda da qual ele fazia parte desde os 15 anos…

No final de 1969, afastado dos holofotes, casado com Linda, vivendo seu retiro na Escócia… Bebia pela manhã, de tarde e á noite, parou de compor, ficou irascível entregando-se a uma depressão paralisante… Foi com o apoio da mulher que tinha pedido para ele voltar ao trabalho e retomar a carreira que o ex-beatle reacendeu para o mundo, porque a vida deveria continuar desta vez sozinho e no natal daquele mesmo ano Paul começou a trabalhar no seu primeiro LP solo.

Depois de gravar dois álbuns, “McCartney” (1970) e “Ram” (1971) tentando ainda provar que poderia ter êxito na carreira sem ser um “beatle” , forma outra banda, “Wings” que tinha como princípio não tocar nenhuma composição dos Beatles.

Ao todo, sete álbuns (1971/1979) e o sucesso chegou já no segundo com a canção “My Love” que foi logo ao primeiro lugar, depois o “Band of the Run” que se tornou o maior sucesso da banda e foi eleito o disco do ano (1974)… A catarse que precisava para existir sem os Beatles estava feita e surgiu daí um novo artista predestinado a bater recordes: em 1979 o Guinness declarou-o como o compositor de maior sucesso da história da música pop mundial de todos os tempos… Em 1990 tocou pela primeira vez no Brasil, foi no “Maracanã” para 184 mil pessoas, batendo o recorde de público em uma única apresentação de um artista solo.

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OLSEN JR é membro da ACADEMIA DE LETRAS DE SANTA CATARINA

FÉLIX CORONEL e MARCO MACEDO batem papo em GUARATUBA.pr

Na foto, FelixCoronel e Marcos Macedo editor do jornal FOLHA DE SANTA FELICIDADE

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Conheci o Felix Coronel como a gente conhece tanta gente nessa babel da internet. Sou curioso e ávido leitor. No site do jornal on-line Correio do Litoral me deparei com as crônicas do Felix. Irônicas, questionadoras e que mostravam uma cultura ampla, geral e irrestrita. Mas sem anistiar ninguém. Esse argentino portenho paranaense – que se autointitula ‘insuportável’, pero no mucho – , começou escrevendo no jornal La Crônica de Buenos Aires, desde lá seus 15 anos de idade. E agora, no exílio na bela Guaratuba do Paraná, escreve e escreve. Fui lá conversar com ele e conhecê-lo. Valeu a pena. Com sua simpatissíssima esposa Lúcia (que o suporta) tivemos horas e horas de boa conversa jogada fora à vista da praia central de Guaratuba. Do seu livro Como É Que É, tirei essa pérola da literatura. Veja como se deu este poema. Felix nos seus quase dois metros de altura foi levar um currículo para arrumar um emprego em uma empresa. Um jovem -bem -jovem, lhe perguntou: Qual é sua experiência? Ah, prá quê!!! A coisa só não acabou nos finalmente por que Felix Coronel num impulso zen arrefeceu os ânimos. Mais tarde, em casa, ele nos oferece essa genial CURRICULUM VITAE… Leia e se emocione. Ah! Felix Coronel vai nos dar a honra de ser CRONISTA do novo site da Folha de Santa Felicidade que, em breve, será inaugurado.

CURRILUM VITAE
Félix Coronel

Eu já dei risada até a barriga doer,
Já nadei até perder o fôlego,[
Já chorei com o rosto desfigurado.
Já fiz cosquinha na minha irmã só pra ela parar de chorar,
Já me queimei bricando com vela.
Eu já fiz bola de chiclete e melequei todo o rosto.
Já conversei com o espelho.
E até já brinquei de ser bruxo.

Já quis ser astronauta,
Violonista, mágico, caçador e trapezista.
Já me escondi atrás da cortina e esqueci os pés pra fora,
Já passei trote por telefone,
Já tomei banho de chuva,
E acabei me viciando.

Já roubei beijo,
Já fiz confissões antes de dormir
Num quarto escuro pro melhor amigo.
Já confundi sentimentos,
Peguei atalho errado
E continuo andando pelo desconhecido.

Já raspei o fundo da panela de arroz carreteiro,
Já me cortei fazendo a barba apressado,
Já chorei ouvindo música no ônibus.
Já tentei esquecer algumas pessoas,
Mas descobri que essas são as mais difíceis de se esquecer.

Já subi escondido no telhado prá tentar pegar estrelas,
Já subi em árvore prá roubar fruta,
Já caí da escada de bunda.
Conheci a morte de perto,
E agora anseio por viver cada dia.

Já fiz juras eternas,
Já escrevi no muro da escola,
Já chorei no chão do banheiro,
Já fugi de casa pra sempre,
E voltei no outro instante.

Já saí pra caminhar sem rumo,
Sem nada na cabeça, ouvindo estrelas,
Já corri pra não deixar alguém chorando,
Já fiquei sozinho no meio de mil pessoas
Sentindo falta de uma só.

Já vi pôr-do-sol cor-de-rosa e alaranjado,
Já me joguei na piscina sem vontade de voltar,
Já bebi uísque até sentir dormentes os meus lábios,
Já olhei a cidade de cima
E mesmo assim não encontrei meu lugar.

Já senti medo do escuro,
Já tremi de nervoso,
Já quase morri de amor,
Mas renasci novamente pra ver o sorriso especial de alguém especial.

Já acordei no meio da noite
E fiquei com medo de levantar.
Já apostei em correr descalço na rua,
Já gritei de felicidade,
Já roubei rosas num enorme jardim.
Já me apaixonei e achei que era pra sempre,
Mas sempre era um “para sempre” pela metade.

Já deixei na grama de madrugada
E via a Lua viral Sol,
Já chorei por ver amigos partindo,
Mas descobri que logo chegam novos,
E a vida é mesmo um ir e vir sem razão.
Foram tantas coisas feitas,
Momentos fotografados pelas lentes da emoção.
Guardados num baú, chamado coração.

E agora um formulário me interroga,
Encosta-me na parede e grita:
“- Qual sua experiência?”.
Essa pergunta ecoa no meu cérebro:
“- … experiência… experiência…”.
Será que ser “plantador de sorrisos” é uma boa experiência?
Não!
“Talvez eles não saibam ainda colher sonhos!”

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Por Marcos Macedo
Editor da Folha de Santa Felicidade

CLAUDIO GUERRA, ex-delegado, diz que queimou corpos de militantes em usina /rio de janeiro.rj

Ex-delegado diz que queimou corpos de militantes em usina

Em livro de memórias, agente do Dops confessa crimes da ditadura

“Isso me atormentou durante muito tempo porque eu sei que as famílias devem ainda ter até hoje aquela esperança de saber o destino de seus entes queridos. Se eu tive coragem de fazer, eu tenho que ter coragem de assumir os meus erros”, diz Guerra em vídeo publicado na tarde desta quarta-feira no site de promoção do livro, editado pela Topbooks, que chegará às livrarias no próximo fim de semana.

Em trecho do livro publicado nesta quarta-feira no site “IG”, o ex-delegado diz ter se aproveitado da amizade com o ex-deputado federal e ex-vice-governador do Estado do Rio Heli Ribeiro Gomes, dono da Usina Cambahyba, para usar o forno da unidade em Campos (RJ) e desaparecer com o corpo de militantes. De acordo com o livro, teriam sido incinerados João Batista, Joaquim Pires Cerveira, Ana Rosa Kucinski, Wilson Silva, David Capistrano, João Massena Mello, José Roman, Luiz Ignácio Maranhão Filho, Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira e Eduardo Collier Filho.

Guerra afirma ter levado dois superiores hierárquicos ao local para que aprovassem o uso do forno da usina: o coronel da cavalaria do Exército Freddie Perdigão Pereira, que trabalhava para o Serviço Nacional de Informações (SNI), e o comandante da Marinha Antônio Vieira, que atuava no Centro de Informações da Marinha (Cenimar). Ambos já morreram; o primeiro em 1996, e o segundo em 2006. O dono da usina, Heli Gomes, foi deputado pelo PTB, filiado à Arena e ao PFL. Morreu em 1992, três anos antes de a usina fechar.

— Meu pai era simpático aos militares, mas naquela época ou você era de um lado ou de outro. Ele não queria o comunismo dentro do Brasil, mas era totalmente contrário a qualquer perseguição ou violência, era um democrata — diz Cecília Gomes, filha de Heli, que considera as acusações de Guerra “absurdas”.

No livro, o ex-delegado diz que a comunidade de inteligência decidiu matar Fleury em reunião realizada em São Paulo.

”Fleury tinha se tornado um homem rico desviando dinheiro dos empresários que pagavam para sustentar as ações clandestinas do regime militar. Não obedecia mais a ninguém, agindo por conta própria. E exorbitava”, diz o delegado em trecho publicado pelo “IG”.

Oficialmente, Fleury morreu acidentalmente em Ilhabela, depois de tombar da lancha. Segundo Guerra, ele teria sido dopado e levado uma pedrada na cabeça antes de cair no mar.

enviado por email.

O movimento internacional contra as coisas-lixo (junk things) – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc



A partir de um desconforto crescente, a ideia surgiu recentemente na velha Albion, o nome que teve em tempos remotos a ilha da Grã-Bretanha, assim batizada talvez pelo aspecto que causavam aos argonautas, à entrada Sul do território, os penhascos escarpados de Dover, que caem na vertical, branquíssimos, direto sobre o mar. O estopim da causa foi o tema da obesidade: “48% dos homens e 43% das mulheres do Reino Unido serão obesos em 2030″.


Não só lá, cá também.


Cá: “No Brasil, 40% da população está acima do peso. Estudo recente realizado pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia revelou que 15% das crianças brasileiras são obesas.” Há quem diga, porém, que a situação tupiniquim seja muito mais lancinante:


Segundo dados da pesquisa Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico), do Ministério da Saúde, divulgados no dia 10 de abril do corrente, o número de brasileiros acima do peso passou de 42,7%, em 2006, para 48,5%, em 2011. No mesmo período, a proporção de obesos aumentou de 11,4% para 15,8%.”


Lá: num manifesto velado em que abordam o aspecto mais nobre, ou mais passível de aceitação, do movimento, “cirurgiões, psiquiatras, pediatras e médicos de todas as especialidades do Reino Unido lançaram neste domingo, 15 de abril, uma campanha contra a obesidade e centraram suas críticas às empresas de junk foods (comidas-lixo, em livre tradução). A Real Academia das Faculdades de Medicina do Reino Unido, que representa cerca de 200 mil dos profissionais do país, pediu a proibição de marcas como McDonald’s e Coca-Cola patrocinando eventos esportivos como os Jogos Olímpicos e que famosos façam propaganda de comidas que não são saudáveis para as crianças.”


A proposta do movimento, em suma, é bastante simples e eficaz: que se crie um suculento “imposto sobre a gordura”, ideia surrupiada de alguns países escandinavos que já a aplicam, no sentido de inibir o consumo de produtos não saudáveis. A fórmula é conhecida: mais tabaco, mais álcool, mais sódio, mais colesterol, mais açúcar ou mais gordura = mais imposto.


A gordura é apenas a parte visível do iceberg, para usar uma imagem batida e desgastada que volta à tona por ocasião das celebrações do centenário de naufrágio do Titanic. O objetivo, depois, é mobilizar os povos do planeta contra todas as coisas cujo consumo faz um mal danado à saúde, ao bom senso, à inteligência e à sanidade das pessoas. Passaremos então para as fases de combate às músicas-lixo (junk musics), com perdas enormes, no Brasil, para a indústria dos sertanejos, sertanejos-universitários, axés, pagodes e gêneros afins. Em seguida, entrarão na linha de fogo as propagandas enganosas (junk marketing, o lixo da publicidade), com a quebra de milhares de publicitários maiores e menores ao redor do globo; os políticos que já deveriam ter sido expurgados da vida social (junk politicians, os políticos-lixo, espécie da qual todos nós conhecemos ao menos uma vintena de espécimes); os malditos livros-lixo (junk books), a fim de isolar do mundo todas as obras, no sentido de obrar, defecar, de autores de bestsellers que só fazem mal à saúde; e assim por diante. A lista vai longe, podemos bem imaginar o seu incomensurável tamanho.


Por fim, alçaremos o topo, o máximo, a purificação santificante: combateremos e eliminaremos do alcance dos olhos os junk people, a gente-lixo que, claro, não vale nada.

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AMILCAR NEVES é membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS.

O BAR do CICCARINO – por luis fernando pereira / curitiba.pr

O Bar do Ciccarino

 
Não sei se orgulhoso ou envergonhado, à exceção de um curto período, nunca tive o “meu Bar”. Aquele do dia a dia; de todos os dias. Mas com vergonha ou
orgulho, a verdade é que sempre tive uma inveja danada dos frequentadores diários do mesmo Bar (não é por acaso, mas por deferência que grafo “Bar” sempre iniciando a maiúscula). Lá estão sempre os mesmos amigos e, inevitável, os chatos de sempre. Bar sem chato não é Bar. E há também os chatos amigos. Até porque, como dizia o Mario Quintana, há duas espécies de chatos: os chatos propriamente ditos e… os amigos, que são os nossos chatos prediletos. Com amigos e chatos, é realmente admirável a fidelidade devotada a determinados Bares.

Como ia dizendo, à exceção de um curto período, nunca fui de frequentar Bar todos os dias. Muito menos o mesmo Bar. A exceção foi o Bar do Ciccarino – comandado pelo Vicente. À época eu trabalha com o grande Sérgio Toscano de Oliveira, no escritório do Professor Machado. Sérgio, este sim, era admiravelmente fiel aos Bares que frequentava (ponho no passado porque já não é mais o mesmo, andam dizendo). Com o Sérgio estive quase diariamente no Ciccarino. Isso durante o tal curto período da exceção (não tão curto quanto estou sugerindo).

Para quem não conheceu o Ciccarino, devo esclarecer que era um Bar – e não um Boteco (também vai com maiúscula no início). E a diferença não é pequena. O Boteco (ou Buteco, como preferem alguns) é outra coisa. O legítimo Boteco, pé-sujo como tem de ser, deve necessariamente apresentar potes de conserva com rollmops atrás do balcão. O banheiro tem de ser sujo. O garçom desleixado. O Ciccarino definitivamente não era um Boteco. O Bar do Ciccarino inaugurou em Curitiba os Bares “metidos à besta”. Coisa fina. E não era só Bar. No ambiente de entrada, onde ficava o balcão, havia um belo armazém com tudo do bom e do melhor para comer e beber.

Por falar em balcão, o Ciccarino tinha o melhor da cidade. Que balcão! E isso é muito importante. O verdadeiro frequentador de Bar (ou de Boteco) gosta mesmo é do balcão (fiquem de olho; quem prefere a mesa pode ser um falso frequentador de Bar). O Sérgio Toscano, por exemplo, não admitia sentar- se à mesa. Não abria mão do balcão. E para o lado de dentro deste imenso balcão estava sempre lá o nosso Vicente Ciccarino. O comandante. Obrigo-me a dedicar parágrafo especial ao Vicente. Sem conhecer um pouco o Vicente é impossível compreender o Bar.

Dizem que o dono de Bar deve ser simpático. Vicente não levava isso a sério. Na medida exata, ironizava, esculhambava, gozava de todo mundo. Vicente vendia fiado, mas era mais pelo prazer de cobrar os devedores publicamente. – Como é Fulano, quando vai acertar a conta, gritava o Vicente (eu mesmo fui vítima). Era isso que nós gostávamos do Vicente. O simpático é quase sempre um falsificador. Vicente era autêntico. Inteligente e vivido, Vicente, além de dono e gerente, era também o programador cultural. Sim o Ciccarino, sobretudo aos finais de semana, tinha uma programação cultural. Uma vez o Ciccarino trouxe a Curitiba o Miéle. Advirto aos mais novos que não falo aqui do Carlos Miele, estilista (o Vicente, aliás, não admitiria um estilista lá dentro). Falo, é claro, do Luís Carlos Miéle. Principal parceiro de Ronaldo Bôscoli. Chegaram a dividir o mesmo apartamento, onde também morou João Gilberto. Ator, diretor, humorista, produtor dos melhores espetáculos cariocas, Miéle é, sobretudo, um showman. Eu estava viajando e acabei não indo no dia do Miéle. Logo na segunda-feira seguinte, balcão lotado, perguntei ao Vicente como tinha sido o show. Ao seu estilo, Vicente disse que tinha sido muito bom, mas que os curitibanos (que não entendiam da animação cultural carioca) não tinham entendido nada. Os clientes do balcão riram, como se Vicente brincasse. Ele não brincava, é claro. Este é o Vicente. Os ofendidos que procurassem um dono de Bar simpático.

Vi cenas incríveis do Ciccarino. Uma noite o Nêgo Pessoa, assíduo no Bar, pegou o Pedro Longo pelo pescoço apenas em função de uma divergência em torno da questão indígena no Brasil. Retire esta opinião em favor dos índios, retire, gritava o Nêgo. Juliano Breda e Carlos Nasser (habitués no Ciccarino) são testemunhas. O Bar não abria aos domingos. Abriu uma vez para a festa infantil de aniversário da filha do Sérgio Toscano. Cheguei lá e havia uma mesa com vinte amigos do Sérgio, já bem embalados. Procurei as crianças. Isoladas em um canto, eram apenas três ou quatro. O Sérgio notou que estranhei a presença de poucas crianças em um aniversário infantil e foi logo anunciando: no próximo ano a festa da minha filha também será aqui e sem nenhuma criança! Nenhuma, deixou claro. Que eu saiba, foi a única festa infantil do Ciccarino.

Um dia o Ciccarino fechou. Todo Bar que se preze fecha, cedo ou tarde. O Ziraldo uma vez disse que o carioca Antônios era o “único bar definitivo do país”. Fechou um tempo depois. Assim é para todo nós o Ciccarino. Definitivo. Ou infinito enquanto durou, para terminar citando Vinicius.

 

A TRIGÉSIMA MULHER – de zuleika dos reis / são paulo.sp

A TRIGÉSIMA MULHER

                                   Zuleika dos Reis

a morte

em  cada xícara

a face sem face

da trigésima mulher

árvore ave canção

sussurro das coisas mortas

em vão

a trigésima mulher

a derradeira

estrelas que estalam

noite que se quebra

cai

fragmentos

de nós

a dançar

ao redor de nós

ao redor de nós

as palavras sonhadas

as palavras sagradas

a morte que te quer

esta rival

teu grito

em mim

meu grito

em ti

os tempos de nós

que tento segurar

as xícaras

a porcelana da tarde

a tarde

vaso a se partir

o meu amor

partido

em ti

em ti

em mim

cacos de nós

o primeiro homem

a trigésima mulher

números escritos ( I ) – por omar de la roca / são paulo.sp

Pus me a cismar…
Quer dizer,estava pensando na geometria das letras.Redondas como
círculos,angulosas como triangulos,retas como retas.E na aritmética
das palavras que vão somando as letras,os sentidos,eta palavrinha
dificil, sentidos.
Na matemática das sentenças, em sua densidade fluída,escorrendo para
dentro de nós, devagar ou rápido,de acordo com nosso entendimento,com
nossa vontade,com
nossa sede.
Na inexata exatidão das palavras,na precisão,necessidade,premência,com que
vem forçando passagem para se exprimir,nas expressões que vão se
formando e a gente nem sabe de onde vem.Só sabe que vem.
Como arteiras gotas de chuva,que vão se acumulando na calha esperando
alguem passar,para brincar de pega pega.E elas sempre pegam.
Assim como as palavras,que vão se acumulando na calha do pensamento
esperando para despencar sobre algum incauto.Que possa lhes mostrar o
brilho.Ou melhor,para mostrarem a ele o seu brilho.
Ou como as palavras,suspensas em galhos pesados,como frutas
aduras,esperando a brisa para cantarem com ela,enquanto aguardam
redondas pela colheita.Algumas na certa irão passar do ponto e
cairão.Quase sempre aquelas que não valhem a pena a colheita.Mas
sempre é bom dar uma olhada no conjunto que fica no chão.As vezes
formam figuras geometricas assimétricas,que valem um segundo olhar.As
vezes deixamos que os insetos as comam por serem indigestas ou
assustadoras.As vezes precisamos delas e as pegamos do chão,passamos
um paninho e colamos aqui ou ali para dar um sentido ou para esconder
outros.
Difícil esta profissão de matemático.Dar sentido a palavras sem
sentido algum.Ou lhes dar um sentido oculto,que revele tudo mas
esconda tudo também.Ou fazer apenas somas simples,que a todos
agradem,sem compromisso.  Ou então subir ate o alto da escada e ir
forçando pela garganta abaixo ( dos outros ) seus pensamentos
obtusos.( É, voce acertou,peguei obtuso do chão ha dois minutos
atrás).E me ocorreu mais uma soma.Uma soma ética como Aritmética,exata
como Humana.Somos todos produtos de somas diversas,multiplicações
complexas,divisões internas ( ate a sétima casa decimal ),e subtrações
frequentes.Normalmente a favor dos outros.Esquecendo do numero Pi
primordial que somos nos mesmos.Pares ou primos,seguimos a linha do
caderno,singulares ou plurais,vamos escrevendo para a frente.Ou para
trás.Ou de cima para baixo.Ou de tras pra frente.Mas sempre nos
expressando,calculando,acertando,errando. Com a borracha bem a mão,
para quando for necessário e possível.Para quando valer a pena.

O MUSEU E SUA FUNÇÃO CULTURAL – por almandrade / slavador.ba

O  MUSEU  E  SUA  FUNÇÃO  CULTURAL

O homem está sempre preocupado em preservar sua história e sua
memória, colecionando artefatos. Ele tem acesso ao seu passado através
de relatos ou depoimentos de testemunhas oculares, textos, enfim
documentos. Quando se defronta com a coleção de imagens e objetos,

particularidades da vida social, signos que habitam um museu, caverna
moderna onde o homem urbano fixa nas paredes os enigmas de sua
passagem no tempo ou no mundo. Com isso, não quero dizer que o museu é
um caminho em direção ao passado, ele é um lugar de possíveis diálogos
entre passado, presente e futuro. Olhar o passado é “estabelecer uma
continuidade entre o que aparentemente deixou de ser e o que ainda vai
ser”, (Frederico Morais).

Um abrigo do velho e do novo. Mais do que uma instituição de festas e
inaugurações de exposições, ele tem um papel cultural importante, além
de abrigar os registros do tempo, manifestações culturais de uma
região, país ou de um determinado povo, objetos que testemunham o
trabalho humano, é um veículo a serviço do conhecimento, da educação e
da informação que contribui para o desenvolvimento da sociedade. Os
museus são instituições com tipologias diferentes que guardam acervos,
peças integrantes da memória cultural de uma cidade, de um país.  O
ato de colecionar foi uma das ações que estimulou o seu surgimento e a
própria coleção vai educando o olhar, impondo exigências, critérios,
qualidades, exigindo espaços adequados etc. e a necessidade de ser
vista. Vai se constituindo num patrimônio que precisa ser preservado.
Seu destino é o museu.

2006 foi o ano nacional de museus determinado pelo Ministério da
Cultura. Como pensar os museus e sua função cultural nos tempos
difíceis que estamos vivendo? Eles passam por problemas como: falta de
recursos, de profissionais especializados, sem instalações adequadas,
enfim falta uma política pública para os museus que os vejam não como
dispositivos da indústria de entretenimentos. Mas se a própria
universidade, o lugar da produção de conhecimento, vem perdendo a
intimidade com a reflexão e se transformado numa fábrica de
mão-de-obra especializada, o que podemos esperar de uma instituição
museológica, neste contexto?  Para um pré-socrático chamado
Parmênides: saber é um discernir, para Sócrates e Platão (alegoria da
caverna), um discernir sobre o que é real e sua sombra projetada na
parede da caverna. Aprendemos com Espinosa que se não há pensamento,
não há liberdade. O homem é escravo do que não conhece. Esquecemos os
gregos, desprezamos a filosofia e o exercício da reflexão e estamos
construindo uma cultura descartável. Não há mais questão cultural em
jogo, mas um jogo de interesses da sociedade do espetáculo e da
indústria cultural.

Desde quando a política e a economia reservaram à cultura um espaço
quase que insignificante, dentro das prioridades da vida urbana,
interesses alheios comprometeram o funcionamento das instituições
culturais. A cidade precisa de tecnologias, partidos políticos,
técnicos, políticos, empresários, especialistas em áreas diversas,
etc., mas acima de tudo, precisa de uma tradição cultural e do
exercício da cidadania, para que ela própria signifique. Um museu
guarda mais do que obras e objetos de valor e de prestígio social, uma
situação, um fragmento da história, portanto um problema cultural.
Tudo que nele é exibido deve ter um compromisso com o conhecimento, a
memória e a reflexão. Sua programação não deveria ser decidida por
patrocinadores que tem como objetivo final vender produtos muitas
vezes até desnecessários, e circular uma imagem de que está
contribuindo para o “desenvolvimento cultural”.

Estas instituições não são fantasmas do mundo civilizado alimentadas
pelo olhar apressado das câmaras fotográficas do turista curioso ou do
olhar atraente e mundano do público das vernissages. Estão a serviço
do pensamento crítico da sociedade e sua história, portanto um
laboratório reservado a estudos, experimentações, integrando
produtores e consumidores de produtos culturais.  Vinculadas a um
saber específico, que toda comunidade tem direito ao seu acesso, mas
na prática são espaços restritivos do ponto de vista intelectual,
principalmente em cidades sem uma “tradição cultural museográfica”.

Sua localização geográfica é fundamental no sentido de facilitar o
acesso de estudantes, curiosos, turistas, do público em geral que lida
com as diversas formas de saber. Em cidades como Salvador, um museu
poderia ser um agente de contribuição na revitalização do centro da
cidade, quando ele está próximo dos serviços urbanos oferecidos, como
sistema de transportes coletivos e segurança. Bom para a cidade e bom
para o museu. É preciso inventar soluções compatíveis e possíveis com
os poucos recursos disponíveis, para garantir sua vitalidade.
O que é visitar um museu? O que se busca nele? Um museu é um centro de
informação e reflexão, onde o homem se reencontra com as possíveis
invenções da estética, a história e a memória. Seu conceito foi
ampliado e renovado nos fins do século XVIII, com o advento da
revolução francesa. Mas sem um projeto cultural que valorize seu
próprio acervo e o que nele é exposto, sem deixar que eles se
transformem em suportes para marcas publicitárias, o museu é apenas um
lugar que atrai olhares dispersos, sem interesses culturais.

Sem recursos financeiros e depois que a responsabilidade cultural foi
transferida para a iniciativa privada, que tem como principal critério
de seus patrocínios o impacto na mídia, muitos museus vêm se
transformando em instituições de entretenimento para atrair grandes
públicos consumidores de subprodutos culturais, quem sabe também
futuros consumidores das marcas que patrocinam os seus eventos.

Os museus, em particular os de arte, ultrapassaram a simples função de
guardar e preservar bens culturais e assumiram várias tarefas e outras
funções como o ensino livre da arte, foram equipados com bibliotecas,
auditórios para debates, conferências, cinemateca. Umas das principais
vanguardas brasileiras na arte, o Neo-Concretismo surgiu praticamente
no curso do prof. Ivan Serpa no Museu de Arte Moderna do Rio de
Janeiro. As oficinas de arte Museu de Arte Moderna da Bahia vêm
prestando um trabalho social e educativo na formação de artistas e
público. A prática museológica tende a se ampliar e integrar o
desenvolvimento urbano, seu objeto de estudo diz respeito  também à
paisagem urbana, ruas, praças, quarteirões. “Museu é o mundo; é a
experiência cotidiana…”, (Hélio Oiticica). As cidades,
principalmente as cidades históricas são espaços museográficos.

Almandrade
(artista plástico, poeta e arquiteto)

EM TORNO DAS 1001 NOITES – por jorge lescano / são paulo.sp

Em torno das 1001 Noites

© Jorge Lescano

 

 

 

Dahlmann había conseguido, esa tarde,

un ejemplar descabalado de las Mil y Una

Noches de Weil [...] algo en la oscuridad

le rozó la frente, ¿un murciélago, un pájaro?

[...] la mano que se pasó por la frente salió

roja de sangre.

Jorge Luís Borges: El Sur

Em aula sobre as 1001 Noites transmitida pela televisão, o professor de língua e literatura árabe Mamede Mustafá Jarouche, recontou um episódio narrado por Jorge Luís Borges em vários dos seus textos. Trata-se de um acidente pessoal que ele relacionará com aquele livro. O episódio teria acontecido na infância de Borges. Nesta versão Georgie, como era chamado em família, havia corrido dentro de casa para receber uma nova edição das 1001 Noites que acabava de chegar pelo correio; na sua afobação não teria visto o batente de uma janela recém pintada, chocando a testa contra ela. O acidente teria acelerado o processo de cegueira que, nas palavras do próprio Borges, foi um lento crepúsculo que durou mais de meio século.

O fato é verídico, porém ocorreu de modo diverso.

 

Foi na véspera do Natal de 1938 – o mesmo ano em que meu pai morreu – que tive um grave acidente. Subia correndo uma escada e de repente senti alguma coisa roçar meu couro cabeludo. Eu me esfolara no batente de uma janela aberta, recém pintada. Apesar do tratamento de urgência a ferida ficou infeccionada e por um período de mais ou menos uma semana passei as noites desperto e tive alucinações e febre alta. Uma noite perdi a capacidade de falar e fui levado às pressas ao hospital para uma operação imediata, declarara-se uma septicemia e por um mês eu vacilei, completamente sem o saber, entre a vida e a morte. (Muito depois iria escrever sobre isso no meu conto O Sul.) -  (Jorge Luís Borges: Perfis, Um ensaio autobiográfico; Porto Alegre, Globo, 1971; p. 106.)

Naquela data, Borges contava 39 anos e já havia sofrido várias cirurgias nos olhos; em algum lugar fala de oito operações. Se o fato não acelerou a cegueira, propiciou a Borges o início definitivo de sua carreira de ficcionista. O acidente fez com que ele temesse pela sua capacidade mental. Pierre Menard, Autor do Quixote, foi o desafio que se propôs para testar esta capacidade. Não devemos confiar demais no seu depoimento, que não inclui Aproximação a Almotásim, nem o as 1001 Noites; o livro é acréscimo posterior, um modo de aproximar a experiência à sua poética do fantástico. Sintomaticamente, no entanto, aqueles dois textos serão publicados no mesmo volume, Jardín de senderos que se bifurcan, em 1941. Já conhecemos os resultados do Pierre Menard: una técnica nueva (d)el arte detenido y rudimentario de la lectura.

Jorge Luís Borges, em hoje célebre citação, afirmou que há uma noite em que o rei Shahriar ouve da boca da rainha sua própria história, dessa forma chegará a vez em que outra Shahrazad narrará a história de uma Shahrazad que narra a história do rei Shahriar, e assim indefinidamente, à maneira das bonecas russas. O original diz assim:

 

¿No es portentoso que en la noche 602 el rey Shahriar oiga de boca de la reina su propia historia? A imitación del marco general, un cuento suele contener otros cuentos, de extensión no menor: escenas dentro de la escena como en la tragedia de Hamlet, elevaciones a potencia del sueño. (Jorge Luís Borges: Prosa Completa; vol. 1; Barcelona, Bruguera, 1980; p. 390)

 

Eu, como todos os leitores, fui buscar a tal noite, que, naturalmente, não encontrei. Repito as palavras do Professor Jarouche porque já antes havia realizado seu gesto. Durante algum tempo atribui minha frustração à qualidade das traduções consultadas, soube depois que a tal noite seria uma “invenção” de Borges. Interpretei o fato como sua contribuição ao livro, à maneira de Galland, Burton e outros tradutores, segundo ele mesmo aponta no artigo Os Tradutores das 1001 Noites. A respeito desta investigação sou menos otimista que o Prof. Jarouche: não acredito que todos os leitores fossem tão minuciosos. No conto El Jardín de senderos que se bifurcan, o sinólogo Albert  diz:

 

Recordé también esa noche que está en el centro de las 1001 Noches, cuando la reina Shahrazad (por una mágica distracción del copista) se pone a referir textualmente la historia de las 1001 Noches, con riesgo de llegar otra vez a la noche en que la refiere, y así hasta lo infinito. (op. cit. p.470)

Sendo um personagem de ficção, Albert tem o direito de lembrar um fato que não se encontra na obra real. Ou como Tzvetan Todorov, segundo Mariza Werneck, citada por Júlio P. Pinto (Uma Memória do Mundo, S.P. Estação Liberdade, 1998), estaria legitimando a criação borgiana sem desconfiar da armadilha?

A este respeito, o Professor Jarouche revela que essa noite, aceita, como vimos, por alguns críticos como real e não criação ou acréscimo do autor argentino – e simultaneamente  questionada por outros críticos -, existe. Afirmou que na edição Breslau, que ninguém lê e provavelmente nem Borges conhecia, essa noite tem o número 999. Borges adivinhou essa noite? Não. No artigo já citado, tratando de uma versão alemã de 1895-1897, fornecida por Max Henning, arabista de Leipzig e tradutor do Curán (sic), à Universalbibliothek de Philipp Reclam, ele escreve:

Las ediciones de Bulak  y Breslau están representadas, amén de los manuscritos de Zotenberg y de las Noches Suplementarias de Burton. (op. cit., p. 388)

Portanto, Borges conhecia a edição de Breslau. Sua contribuição estaria então no deslocamento do episódio, situando-o no entremeio do livro, alterando, assim, a arte estática da leitura.

A história pessoal de Jean Antoine Galland, leitor de línguas orientais de Luis XIV, a vida venturosa do capitão Sir Richard Burton, e especialmente a participação criativa do famigerado Hanna (pois ele foi atingido pela fama através de sua colaboração com Galland), deveriam ser acrescidas ao corpo da narrativa de Shahrazad. De algum modo quer me parecer que isto já aconteceu, de forma não oficial. De fato, com cada tradução estas histórias vêm à tona.

O sírio Hanna “inventa” contos que não constavam no livro “original” (o manuscrito árabe que Galland havia adquirido em Istambul). Isto não invalida sua versão, antes, deveria legitimá-la. Hanna é uma espécie de rawi (rapsodo) que, pela sua função, tem o dever de interessar seus ouvintes, e para tal utiliza repertório próprio.

A controvérsia faz sentido no contexto do século XIX. A imprensa diária (a letra impressa) começa a impor sua autoridade sobre a expressão oral, a verdade tem que passar pela gráfica. O jornalismo inicia seu pontificado. A partir de então esta nova força, “independente”, será um divisor de águas. O jornalista passa a ser o árbitro do que seja verdade histórica, descartando os fatos que não se enquadrem no seu programa pré-estabelecido. É verdade que se as discussões transcorrem entre especialistas, a publicidade dos confrontos fica por conta da imprensa, que cada vez mais se arroga o direito de julgar os fatos, quando deveria limitar-se a noticiá-los.

Galland-Hanna serão acusados de falsificar um original desconhecido até aquele momento, e mais tarde questionado por diversos leitores. Este enredo secular não mereceria fazer parte da leitura das 1001 Noites?

A respeito do título, alguém sugeriu outra leitura. Livro das mil noites e uma noite: as mil noites em que Shahrazad narra suas histórias (os árabes preferem contar histórias à noite) mais a noite 999, que corresponderia à noite do leitor (com cada leitor o livro recomeça). Admitindo tal hipótese, o título poderia ser interpretado assim: Livro das mil noites e esta noite.

Para finalizar, o Professor Jarouche confessou que há vários anos vinha postergando a tradução do livro. A superstição rege sua atitude, solidária com a tradição da obra. Narrou os casos de editores e tradutores que não chegaram a completar a tarefa, interrompida pela morte ou por algum acidente, como o de Borges. Haveria uma espécie de fatalidade relacionando estreitamente a vida do livro à daqueles que se ocupam de sua divulgação. O Professor Jarouche, então, compreende que o livro é um talismã. Isto eu deduzo do seu comportamento: como Shahrazad, o tradutor não evita o trabalho para esquivar a morte, antes o assume, postergando-o, porém. A equação é digna do livro: adiar a tradução é adiar a morte.

Nota carnavalesca do Professor Mamede Mustafá Jarouche:

Caro Jorge:

Somente hoje, com muitíssimo atraso, pude ler o seu texto, do qual gostei muito. As aulas na Cultura são de 2002 — e, na época, eu citava de oitiva a história do acidente com Borges. Foi somente depois que li o texto de Perfis. Quanto à “troca” que Borges operou na localização da noite, não tinha me ocorrido que ele tivesse consultado a tradução de Burton, da qual só tenho o primeiro volume. Não sei se nos volumes suplementares de sua tradução ele inclui a versão final da edição de Breslau. É possível.

Enfim, é isso. Agradeço-lhe o envio de seu excelente e arguto texto, e mais uma vez me desculpo por somente ter podido ler hoje, nesta terça de carnaval.

Grande abraço,

Mamede.

(28/02/2006)

P.S.: A nota inclui um mal-entendido que poderia ser acrescentado à história paralela à narrativa de Shahrazad. Deixo ao meu leitor, mezcla rara de Museta y de  Schaunard (cf. José González Castillo: Griseta, tango, 1924) a tarefa de corrigi-lo.

O poeta MANOEL de ANDRADE escreve sobre sua resistente viagem pela América Latina no livro: “O BARDO ERRANTE” / curitiba.pr

Na década de 60 tudo estava no ar e bastava o compromisso de sonhar para que os caminhos se abrissem magicamente. Contudo nem todas as portas da realidade se abriram aos ideais e nem todos os visionários que lutaram por uma nova sociedade conseguiram sobreviver às suas trincheiras. O poeta Manoel de Andrade trilhou esse venturoso tempo pelos caminhos da América Latina, identificado com a história e as bandeiras revolucionárias desfraldadas pelo continente. Neste artigo ele faz uma reflexão sobre os sentimentos e as emoções que marcaram a agenda daqueles anos, dizendo da ventura de ter sido jovem nesse tempo e do desencanto de ver, atualmente,  as utopias desterradas. Fala-nos da trágica herança dos nossos dias, de um mundo sem norte, sem porto e de um tempo marcado pela perplexidade e os pressentimentos. Contudo, nesse impasse,  sua alma de poeta não abdica de sonhar, imaginando que a misteriosa dialética do  tempo nos reconduza a um amanhecer , aos territórios  da esperança e a um mundo possível e melhor.

 

 

 

NOS RASTROS DA UTOPIA (*)… (capitulo)

 

                                                              Manoel de Andrade

 

                                                                                                            Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas!

                                                                                                                   Mário Quintana

 

Eram os últimos dias de 1969 e, nas conversas em Lima, discutíamos a herança que recebéramos dos “anos rebeldes”. A década de 60 se iniciara com um exército murando a liberdade de Berlím, mas terminara com três astronautas abrindo os caminhos do universo. Naqueles anos o mundo comovera-se com a mensagem de paz e de amor, na imagem sacrificada de Martin Luther King, e conhecera o real significado da resistência, na figura irretocável de Ho Chi Minh. A revolta de Nanterre mobilizara os estudantes do mundo inteiro e, ao longo do
continente, aportávamos em 1970 na crista de uma poderosa onda libertária, cujas espumas espraiavam o exemplo de Che Guevara. Vivíamos num tempo sem liberalismo e sem globalização e Cuba surgia como uma alternativa socialista e referência da luta revolucionária. O mundo era uma alquimia de ideias e a América Latina seu melhor laboratório. A nova história, no contexto continental, era a de uma só nação, de um só povo, latino e “indo-americano”  — na expressão de Mariátegui. A esperança era uma bandeira hasteada no coração de todos os que ousavam sonhar com uma sociedade justa e fraterna, fossem eles um guerrilheiro, um intelectual engajado ou integrasse uma vanguarda estudantil. Nossa ancestralidade cultural – manchada pela violência colonial e por tantos mártires na memória sangrenta de cinco séculos – era redescoberta como uma fonte trazendo novas águas para interpretar a história. Nossos sonhos navegavam no misterioso veleiro do tempo, enfunado pelos ventos da fé revolucionária, carregado de hinos e canções libertárias, levando a mãe-terra e as sementes para os deserdados, carregado com as emoções e o encanto da solidariedade e rumando à sociedade que sonhávamos.

Nós, os poetas, expressávamo-nos pelos líricos rastros dessa ansiada utopia, cantando as primícias de um novo mundo e pressentindo as luzes daquele imenso amanhecer. Transitávamos na rota das estrelas, em busca de um porto no horizonte, em busca de um homem novo, de uma terra prometida a ser entrevista nos primeiros clarões da madrugada. Havia uma perseverante certeza no amanhã e muitos caíram lutando com essa crença tatuada na alma, embora os sobreviventes nunca tenham chegado a contemplar essa alvorada.

Nos anos 60, ser jovem significava estar comprometido com uma fé, com uma causa social e, naqueles passos da história, era um desconforto, perante o grupo, não ter um engajamento político e, pior ainda, ser de “direita”. Na juventude daqueles anos, ser um “reacionário” era um estigma. Essa era a palavra com que nós, da “esquerda”, desfazíamos ideologicamente os adversários da “direita” e até os dogmáticos do Partidão, por quem éramos chamados de revisionistas. Por outro lado, falava-se de um “Poder Jovem”. Mas que “poder jovem” era aquele, maquiado com a credibilidade das filosofias orientais se esse poder não estivesse comprometido com o significado social da liberdade e da justiça? A ideologia marxista não nos permitia confundir os ideais inconsequentes da contracultura com o ideário daqueles que estavam dispostos a dar a vida pela construção de uma nova sociedade. Era como se houvesse, na América Latina, duas Mecas para a juventude: uma em Berkeley e outra em Cuba.

Se a palavra “esquerda”, perante as benesses do poder, foi perdendo sua transparência ideológica, é imprescindível não se perder o significado histórico dessa dicotomia, já que na sua origem, durante a Revolução Francesa, o clero e a nobreza ficavam à direita do rei e os representantes do povo a sua esquerda. Passados duzentos e vinte anos, todos sabemos qual o lado que continua defendendo as causas sociais. Os princípios são intocáveis mas não as ideias. É razoável, portanto, que possamos resignificá-las redefinindo as cores de nossa antiga bandeira, assim como reconhecer os equívocos e os defeitos congênitos da propria  “esquerda”.

          Os anos 60, ricos pela geração de novas teses sociais, por filosofias que apontavam para o progresso das relações humanas, não mostrariam, no gosto amargo dos frutos, o doce sabor semeado pela esperança. Os grandes sonhos políticos foram desmobilizados por interesses ideológicos equivocados, pelo oportunismo eleitoral e pela sedução do poder. Os sonhos alimentados pela contracultura, inicialmente legitimados pelas postulações contra os males do capitalismo, perderam-se nas perigosas síndromes da ilusão propiciada pelas drogas, pelos desencantos da sexualidade e pela posterior dependência de tecnologias alienantes. Sonhos e esperanças  acabaram desaguando neste inquietante “mar de sargaços” em que se transformou o mundo, onde navegam os corsários da ambição e da crueldade.

          Mas também havia jovens que não vivenciaram essa sublime  emoção de indignar-se com as injustiças. Naqueles anos, numa outra linha de reações,  uma elitizada coluna de jovens marchava contra  tudo pelo que lutávamos. Conheci essas sinistras figuras nas ruas de Curitiba. Porta-vozes da alta hierarquia da Igreja, desfilavam altaneiras, com seus paramentos medievais, nos primeiros anos da ditadura no Brasil, defendendo o regime militar e os interesses conservadores da oligarquia que representavam com os estandartes da “Tradição, Família e Propriedade”. Vi também seus parceiros, no Chile, liderados por Maximiano Griffin Ríos, em 1969, durante o governo de Eduardo Frei, portando, nos panos ao vento com o emblema da “Fiducia”, o ódio social, o ressentimento contra um cristianismo que abraçava as causas populares e, sobretudo, plantando as sementes da conspiração que derrubaria, com outros aliados sanguinários, o governo legítimo de Salvador Allende.

          A partir da década de70 aascensão do capitalismo financeiro, sob o disfarce de globalização, começou a estender as suas redes e a ganhar, com armas invencíveis, essa nova e imensa guerra mundial, avançando com sua voracidade, desterrando os valores humanos, gerando multidões de excluídos,  triturando nossas utopias, transformando o planeta num supermercado e descaracterizando a própria  cultura com atraentes modelos de um consumismo supérfluo e descartável.

Ainda que haja, no Brasil, muitos jovens “conectados”, preocupados com a ética, com as fronteiras alarmantes da corrupção, com a redenção ambiental e com belos projetos comunitários, toda aquela geração foi vítima da nova ordem social imposta ao longo dos vinte e um anos de ditadura militar, sendo induzida a “educar-se” pela cartilha da Educação Moral e Cívica, focada na obediência, passividade, no anti-comunismo e num patrioterismo doentio. Vítimas de todo um processo subliminar de moldagem comportamental, os jovens que abdicaram da consciência crítica foram transformados em meros consumidores.  Formam parte da juventude apressada dos nossos dias, descomprometida com os problemas sociais, imediatista, avessos à leitura,  ou derrotada pelo vício. Essa é a face trágica de um segmento da juventude contemporânea: jovens como meras marionetes de um mercado global de ilusões, aculturados pelas novas midias, homogeneizados desde os primeiros anos para consumir, abdicando quase sempre da análise dos fatos e do estágio promissor da cidadania.

          Os precursores involuntários da pós-modernidade – leia-se Nietzsche e Heidegger – e os seus mais ilustres ideólogos, na filosofia e na arte, aliaram-se ao trabalho posterior de demolição comandado pela globalização. Reagindo aos paradigmas orgulhosos e dogmáticos da ciência mecanicista do século XIX, os intelectuais niilistas apostaram na reação generalizada da descrença nos valores humanos, desconstruindo o significado da verdade, da beleza e da transcendência do humanismo na tradição ocidental; anunciando uma liberdade sem a noção do dever; desrespeitando os arquétipos da religiosidade; desqualificando a história; invertendo a estética da arte ao despojá-la da estesia e do encanto  – (e se há algum mérito nos exageros da arte moderna é o de retratar o perfil catastrófico do mundo contemporâneo); retirando a melodia da música,  proclamando a irreverência  e ironizando os ideais e o significado da utopia. Sobre esse termo, tão desfigurado em nossos dias, certa vez estudantes colombianos fizeram ao celebrado cineasta argentino Fernando Birri, a seguinte pergunta: Para que serve a utopia? Ele respondeu que a utopia é como a linha do horizonte, está sempre a nossa frente e por isso nunca podemos alcançá-la. Se andamos dez, vinte, cem passos, ela sempre estará adiante de nós. Se a buscamos, ela se afasta. Para que serve a utopia? perguntou ele, respondendo: Para fazer-nos caminhar…

 

Embora  quase tudo tenha sido desconstruído, nossos ideais desterrados e a globalização já não nos deixe sonhar e nos insinue a esquecer, é imprescindível acreditar que há uma Fênix entre as cinzas que restaram do mundo pelo qual lutamos. Não abdicamos da esperança, mas reconhecemos que nosso veleiro soçobrou e que seus restos foram bater nas praias melancólicas desses anos. Sobrevivemos quais náufragos num mar de ultrajes e decepções, junto com os destroços das grandes ideologias e com as cruéis aberrações que envergonharam os nossos sonhos ao vermos  o marxismo dogmatizado pelo stalinismo e ao compreendermos porque murchava a “Primavera de Praga”. Sobrevivemos nas lágrimas derramadas sobre as páginas d’O Arquipélago Gulag,  no desencanto de saber a beleza da utopia hegeliana invertida pelo totalitarismo nazista e o conhecimento científico manchado pela explosão atômica.

A contracultura, a pós-modernidade, a globalização e a destruição ambiental, são os novos cavaleiros do mundo apocalíptico que recebemos. Dessas quatro patéticas “figuras”, as três primeiras causaram efeitos desastrosos sobre a cultura – e lá na região andina, minha nova escola naqueles anos, a globalização insinuaria o esquecimento da história e da cultura deparando-se com a luta dos peruanos ante a herança quéchua e a resistência inquebrantável dos bolivianos pela manutenção da cultura aymara  –  e as duas últimas sobre os rumos futuros da humanidade.

Não herdamos somente a decepção, mas uma crônica indignação a despeito de qualquer otimismo. Hoje somos, tão somente, seres comprados nesse grande shopping de negócios e aparências em que se transformou o mundo, herdeiros impotentes de um sonho, vivendo num mundo alienante, distópico e devorado pelas fauces da globalização.

Anos 60 — que ventura ter sido jovem naquele tempo! Lá a realidade estava a poucos passos dos ideais.

Século XXI  — que estranha transição! Para onde vamos? Sem norte, sem porto, sem um amanhecer! Quanta perplexidade, quantos pressentimentos!  Haverá outro mundo, melhor e possível? Sem crueldade, estupidez e promessas mentirosas? São perguntas plurais que pedem respostas plurais. Essa é uma transição sombria balizada pela desventura e o desencanto. É um tempo de antíteses. Esperamos que o próprio Tempo, com sua misteriosa dialética, traga-nos uma regenerada síntese. Nesse impasse restam-nos, contudo, os territórios invioláveis da imaginação e da esperança e para mim um pouco mais: a transcendência, e a grata introspecção nessas memórias.

(*) Este texto é parte de livro que o autor está escrevendo sobre seus anos de auto-exílio, na América Latina.

revista Hispanista.

PAUL McCARTNEY: “Olá, manezinhos. Oi, oi, oi, Floripa”, diz, durante show

foto de guto kuerten.

foto de alvarélio kurossu.

foto de julio cavalheiro.

DIÁRIO DA PROVYNCIA I – por olsen jr / rio negrinho.sc

DIÁRIO DA PROVYNCIA I

 

A IDEOLOGIA (NOSSA) DE CADA UM

 

Nunca escondi de ninguém as influências que tive no meu fazer jornalístico. Acredito que no livro “Confissões De Um Cínico”, elas estão escancaradas.

O editor, e também poeta, Joel Gehlen se deu ao trabalho de computar, diz a propósito da obra: “…Este é um livro radical, implacável, provocativo e vigilante, retrato inequívoco do cronista. Aliás, para um autor que confessa ter recebido todas as influências possíveis, de Gregório de Matos a Bocage; de Swift, Twain, Rabelais, Voltaire, passando por H.L. Mencken, Jorge Jean Nathan, William C. Fields, Ogden Nash, Bernard Shaw, Woody Allen e Art Buchwald até Paulo Francis, bem, não era de se esperar que oferecesse refresco”.

Mas não esqueço o Groucho Marx, Ambrose Bierce, Noël Coward, Aparício Torelly (o Barão de Itararé) de onde todo o humor brasileiro descende, Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto) e Millôr Fernandes, onde este termina e o outro começa.

Houve um tempo em que pensei que iria fazer humor.

O casamento entre o humor e a filosofia era algo a ser perseguido. Como disse o Bertrand Russel “O truque da filosofia é começar por algo tão simples que ninguém ache digno de nota e terminar por algo tão complexo que ninguém entenda”.

Ou, para simplificar, vox populi, perde-se o amigo, mas não a piada.

Estou repassando isso mentalmente enquanto me lembro da reunião de ontem. Foi na casa de um professor universitário de nossa gloriosa UFSC (pronuncia-se em bom manezês, Uféiiisqui – Universidade Federal de Santa Catarina) e foi um convescote interessante. Uma tertúlia de indivíduos – ditos de esquerda – o que se depreendia pelo jargão nas conversas. Não fosse pelo fato de conhecê-los daqui e dali, diria estar em um museu. A palavra que mais ouvi foi “burguesia”, dita no sentido pejorativo de uma classe a ser extirpada do planeta. Curioso é que estávamos fazendo um churrasco onde se observava além do trivial, uma ovelhinha uruguaia, picanha, maminha, costela… E a uma profusão de bebidas, incluindo espumante argentino uma deferência minha, tequila mexicana, bondade do anfitrião, e uísque Jack Daniels e cervejinhas tantas, de outra classe, dita média (ou mérdea, como lembrava sempre o amigo escritor João Antônio) que de indigente não tinha nada.

Questão de nomenclatura. Filhos remediados da classe média fazendo pouco de suas próprias origens. Berço é destino.

Digo que está para nascer ainda um “comunista” que recuse um bom salário mensal, férias, décimo terceiro e décimo quarto, possibilidade de uma casa, carro na garagem e viagens por aí, ainda que pseudo-culturais porque no fundo (ou só na superfície mesmo) é o que todo mundo ambiciona… Mas para isso é necessário financiá-lo e dinheiro como se sabe é coisa de capitalista… Ninguém me contestou. O duro para alguns indivíduos é que “eles” sabem quando alguém lhes adivinha as segundas intenções antes que nos revelem as primeiras… É sempre alguém tentando derrubar alguém pela mesma razão e fins… A peça do Sartre “A Engrenagem” nunca esteve tão atual.

O cineasta Vittorio de Sica costumava dizer “Toda a indignação moral, na maioria dos casos, é 2% moral, 48% indignação e 50% inveja”.

Está aí o Paulo Francis me cutucando, diga a eles que “não há país democrata que não seja capitalista”… Mas era incrível o grau de intolerância no grupo com relação as diferenças, começando por preferências clubísticas, a mais popular delas e nem precisava chegar as “convicções” ideológicas, as mais pernósticas dentre elas…

Falando nisso, acredito que o papo só engrenou quando alguém me instigou em declinar como me “definia” ideologicamente… Well, afirmo, na década de 1970 tive de confessar em um interrogatório no 23º BI que era “marxista” e mesmo acrescentando que era da “tendência Groucho” (fazendo alusão a um dos irmãos Marx da conhecida família de humoristas norte-americanos) ainda assim “penei” um bocado…

Hoje, sinceramente, gosto muito do Woody Allen…Risos.

 

OLSEN JR é membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS.

ANTES do JOGO – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

Antes do jogo

Fazia tempo, já, que não chovia. Depois, começou a chover uma vez por semana apenas. Chovia por hora e meia, se tanto tempo, enchia tudo, alagava o cruzamento das avenidas e as esquinas da cidade, encharcava as pessoas na rua e os bichos encolhidos nas calçadas, e logo o sol voltava – o calor nem se tinha ido – e secava tudo. Mais meia hora e era como se não chovesse havia tempos.

Então, inesperadamente, no domingo de Páscoa, apenas três ou quatro dias da última chuva, a tarde começa a escurecer, aos poucos ainda, por enquanto, iluminada pelo clarão súbito e fugaz de relâmpagos aqui e ali que se despedaçam sob uma camada espessa de trovões ameaçadores e sinistros, que no entanto latem mais do que mordem. Haverá de chover em breve e, provavelmente, será muita chuva. Com toda a certeza, haverá de ser um pequeno dilúvio a despencar bem na hora do jogo, exatamente quando estiver prestes a iniciar a partida de futebol.

Como aconteceu ainda outro dia, sob um furioso vendaval de Oeste que levou a chuva, de frente, até o último degrau das arquibancadas do setor D, levantando, arrancando e arremessando a longa distância partes metálicas retorcidas da cobertura das cadeiras. Mais quinze minutos e o estrago seria memorável. Por sorte, o que se soltou da estrutura, devido à ferocidade insana do vendaval, correu rolando por sobre o telhado – uma só peça daquelas que voasse por baixo do telhado, uma só lasca daquele ferro, e aço, e alumínio, e zinco, que se soltasse e se projetasse sob a coberta, seria lâmina afiada e sedenta para uma cortante destruição em massa. O que se soltou, rolou sobre a cobertura e caiu atrás do estádio, nos locais onde passam as pessoas e estacionam-se os carros: por sorte, o time vinha mal no campeonato e não havia, por isso, gente caminhando antes do jogo nem carro parado naquele terreno baldio em que se cravaram, no solo, pesados restos de metal arrancados pela tempestade.

Está agora quase começando a partida desta tarde pascoal e o vento sopra furioso, o céu não cessa de espocar luzes coruscantes que buscam ávidas o chão de terra ou de água, o ronco da trovoada é então quase um rugido constante e incansável – e a chuva chega, desvairada e forte, açoitando todo mundo com rajadas cambiantes até fixar sua direção, seu Norte: ela vem precisamente de Nordeste e lava os degraus das arquibancadas encurralando o pessoal, os torcedores, nos derradeiros níveis de cadeiras, em busca inútil de uma cobertura, um abrigo que os proteja da borrasca. A chuva vem fria e consigo despeja o granizo.

O efeito mais imediato da água que nos metralha quase na horizontal é a suspensão forçada da redação deste texto: homem de arquibancada de estádio, não disponho dos vidros e paredes de um camarote para observar o espetáculo e seus atores, exatamente, de camarote. Sou parte da trupe, mero figurante, é verdade, no meio de outros nove mil torcedores anônimos.

Na hora do jogo, porém, o temporal já se tinha ido sabe-se lá para onde, o gramado perfeito escoara toda a água que se acumulara, o sol já iniciava seu retorno de detrás das nuvens e a partida começou sem atraso.

Chuvas de Norte vêm sempre de Joinville, cidade em que chove sempre, mesmo em tempos de seca geral. E foi justamente o Joinville que entrou em campo, mas de nada lhe valeu a chuva trazida consigo, derrotado que se viu por 1 a 0 pelo Avaí, completando 11 anos sem conseguir vencer o Leão da Ilha na Ressacada, faça chuva ou faça sol, faça frio ou calor.

 

AMILCAR NEVES  é membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS com 8 obras publicadas.

GENERAL da reserva: corrupção e desmandos em ALAGOAS

23/04/2012 - 12h33

General é suspeito de desvio de recursos dos presídios de AL

A Justiça de Alagoas decretou nesta segunda-feira a prisão do general da reserva do Exército Edson Sá Rocha, ex-comandante da PM alagoana, suspeito de participação em um esquema de desvio de cerca de R$ 300 milhões dos presídios de Alagoas.

Foram presos também o ex-intendente-geral do Sistema Penitenciário, coronel Luiz Bugarin, e mais dois oficiais da PM alagoana, além de quatro empresário, um policial civil e um ex-funcionário do sistema prisional.

As prisões foram efetuadas por uma força tarefa das policiais Civil e Militar, com apoio da Guarda Nacional. Os mandados de prisões foram expedidos pelos juízes da 17ã Vara Criminal da capital, a pedido do Gecoc (Grupo Estadual de Combate às Organizações Criminosas) do Ministério Público Estadual.

Os presos estariam envolvidos num esquema de fraude a licitação e superfaturamento de produtos comprados para o sistema prisional, principalmente para a alimentação dos internos. O esquema vinha sendo investigado desde 2007, no primeiro mandato do governo Teotônio Vilela Filho (PSDB), quando foi descoberto pelo ex-secretário de Segurança Pública, delegado federal Paulo Rubim.

De acordo com coordenador do Gecoc, o promotor Alfredo Gaspar, as prisões desta segunda-feira têm ligação com a operação Espectro, deflagrada pela Polícia Civil de Alagoas no início de março deste ano.

Naquela oportunidade, foram presas pessoas envolvidas com operações fiscais: empresários e contadoras das empresas suspeitas de participação do esquema.

“Desta vez, pedimos a prisão dos gestores que teriam contribuindo para a fraude registrada entre os anos de 2007 e 2009″, afirmou Gaspar. Ele disse ainda que já teriam sido executadas seis prisões e entre os presos estariam os três oficiais da PM.

PROVAS

Durante a Operação Espectro, deflagrada no dia 3 de março, além das prisões de empresários e contadores, foram apreendidos cerca de R$ 4 milhões em dinheiro e cheques. Mas no início da semana passada, a polícia constatou que parte dos cheques e do dinheiro havia sumido da delegacia, só teriam restado R$ 960 mil entre as provas do inquérito. Uma sindicância foi aberta para apurar o sumiço do material.

De acordo com as investigações, as empresas vendiam para o sistema prisional, mas não entregavam os produtos e triplicavam o valor nas notas fiscais.

Doze empresas teriam participação direta na fraude e 70 estariam envolvidas no esquema. Os suspeitos respondem por crimes de peculato, corrupção passiva, corrupção ativa, falsificação de documento público, falsificação de documento particular, fraude em licitação, formação de quadrilha e sonegação fiscal.

 

RICARDO RODRIGUES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE MACEIÓ

A linguagem secreta que há nos gestos dos maestros – new york.ny

DANIEL J. WAKIN
DO “NEW YORK TIMES”

 

Braços esculpem o ar. Uma mão se fecha. Um dedo indicador se projeta. O torso oscila para frente e para trás. E, não se sabe como, música jorra em resposta a essa dança misteriosa no pódio, música coordenada com precisão e emocionalmente expressiva.

O público dos concertos sintoniza os ouvidos na orquestra e invariavelmente fixa os olhos no regente. Mas mesmo o ouvinte mais experiente pode não ter consciência da conexão sutil e profunda entre a sinfonia de movimentos do maestro e a música que emana dos instrumentistas.

Assim, num esforço para compreender o que acontece, entrevistamos sete regentes que passaram por Nova York em temporadas recentes, procurando decompor os movimentos em partes do corpo mão esquerda, mão direita, rosto, olhos, pulmões e, o mais indefinível, cérebro.

The New York Times
Representação gráfica feita na Universidade de Nova York registra movimentos do maestro Alan Gilbert

O objetivo fundamental do regente é infundir vida a uma partitura escrita, através do estudo, de sua personalidade e sua formação musical. Mas ele demonstra o sentido da música por meio de seus movimentos corporais.

Imagine-se tentando falar com alguém em uma língua totalmente desconhecida por você. Se quisesse expressar algo a essa pessoa sem recorrer à linguagem, como você faria?, disse o regente britânico Harry Bicket. É isso o que fazemos, na realidade.

Cada regente usa um estilo singular, mas todos querem arrancar dos músicos a performance mais grandiosa possível. Portanto, nossa decomposição do gestual traz algumas generalizações inerentes.

É preciso lembrar que a arte de reger não se limita a gestos semafóricos. É uma dança em compasso de dois tempos, envolvendo corpo e alma, gestos físicos e personalidade musical. Um regente com o maior domínio técnico do mundo pode produzir performances insossas. Outro, que faça gestos aparentemente incompreensíveis, é capaz de gerar transcendência.

Você pode fazer tudo certinho e não criar absolutamente nada interessante, comentou James Conlon, diretor musical da Los Angeles Opera. E pode ser enigmático, mas produzir resultados.

MÃO DIREITA

Tradicionalmente (pelo menos para os destros), a mão direita segura a batuta e marca o pulso. Ela controla o tempo e indica quantas batidas ocorrem em um compasso. A batuta geralmente assinala o início de um compasso com um movimento para baixo (o downbeat). Um movimento para cima (upbeat) é a preparação para o downbeat.

Os manuais de regência dizem que o upbeat e o downbeat devem levar o mesmo tempo e que o intervalo deve ser igual ao comprimento da batida. O upbeat é a preparação para qualquer evento, disse Alan Gilbert, diretor musical da Filarmônica de Nova York.

É crucial definir o tempo certo para uma frase musical. Ninguém menos que o compositor Richard Wagner (1813-83), que também foi um dos primeiros maestros modernos, disse que o dever do regente está contido em sua capacidade de sempre indicar o tempo correto.

Mas um regente não é um metrônomo de casaca. Um dos grandes equívocos em relação ao que os regentes fazem é a ideia de que eles ficam lá, marcando o tempo, disse Bicket. A maioria das orquestras não precisa de ninguém marcando o tempo.

A batuta também pode moldar o som. A natureza do downbeat abrupta, delicada transmite à orquestra que tipo de caráter deve conferir ao som que vai produzir. A batuta pode suavizar fraseados agitados, realizando o movimento de modo mais abrangente.

Um gesto mais horizontal pode pedir uma qualidade mais lírica, disse James DePreist, ex-diretor de estudos orquestrais e de regência da Juilliard School. Um gesto para baixo que imite um movimento de arco de violino, disse Bicket, pode colorir o ataque. De acordo com Gilbert, mesmo quando marca o tempo em notas longas, o regente deve procurar comunicar a qualidade sonora que busca, por meio do movimento da batuta.

Predecessor de DePreist em Juilliard, o professor de regência Jean Morel, ensinava que a mão e o pulso direito devem ser totalmente autossuficientes, segundo James Conlon, um de seus alunos; devem marcar o tempo, a expressão, a articulação e o caráter para que você possa então aplicar a mão esquerda e reter conforme deseja.

Xian Zhang, que é mestre em esculpir uma linha musical com sua batuta, demonstrou isso quando ensaiava a Sinfonia Concertante para Violino e Viola de Mozart com uma orquestra de estudantes na Juilliard School.

O movimento de sua batuta correspondia estreitamente ao caráter da música, delicado nas passagens suaves, pequeno para acompanhar as cordas, maior para uma melodia de trompa e oboé. Os gestos de seus braços ficavam amplos nas frases vigorosas. Em alguns momentos, os gestos de elevação da batuta pareciam literalmente arrancar os sons.

Alguns regentes preferem não usar a batuta em alguns momentos ou o tempo todo. Yannick Nézet-Séguin, que a partir de setembro será o diretor musical da Orquestra da Filadélfia, é um deles. Sua formação se deu principalmente em corais, nos quais raramente se emprega a batuta.

As mãos estão ali para descrever um certo espaço do som e moldar aquele material imaginário, disse Nézet-Séguin. Aquele corpo imaginário de som está em frente ao maestro, entre o peito e as mãos, ele explicou. É mais fácil quando não há nada em uma mão. Ele começou a usar batuta quando começou a atuar como regente convidado de grandes orquestras, que estavam acostumadas com isso.

Valery Gergiev é outro maestro que frequentemente não usa batuta. Sua técnica foi evidenciada num ensaio da London Symphony Orchestra, no Avery Fisher Hall, preparando uma apresentação da Sinfonia nº 3 de Mahler.

Gergiev ficou sentado numa cadeira, de modo geral imóvel. Quase toda a ação vinha de sua mão direita, que em muitos momentos estava plana, com o polegar paralelo, como as mandíbulas de um jacaré. Sua mão esquerda fazia pouco, mas era usada ocasionalmente para apontar e encerrar acordes.

Gergiev não marca o tempo com sua mão direita, exatamente, mas mexe os dedos no ritmo da música. Seus dedos geralmente estavam esticados, com as palmas para baixo, o pulso voltado para cima na altura de seu rosto. Às vezes ele formava um círculo de ok com o polegar e o indicador e mexia os outros três dedos. À medida que o tempo acelerava, seu pulso ficava mais mole.

Em entrevista, Gergiev sugeriu que o balançar de sua mão, que descreveu como sendo um hábito, pode ter derivado do fato de ele tocar piano. Sou pianista, e às vezes eu toco a textura, explicou.

Ele disse ainda que uma batuta pode se contrapor a um som de canto. O mais difícil na regência é fazer a orquestra cantar, e é aqui que as duas mãos precisam basicamente ajudar os instrumentistas de sopros ou cordas a cantar. Gergiev disse que movimentar uma batuta no ar é como praticar esgrima: Não acho que isso ajude o som.

MÃO ESQUERDA

Tendo entregado as incumbências rítmicas à mão direita, a mão esquerda tem finalidade bem mais maleável. Para explicar em termos grosseiros, se a mão direita esboça os contornos gerais da pintura, a esquerda preenche as cores e texturas.

A mão direita cria a casca de chocolate do bombom, e a mão esquerda molda o recheio. Sua principal utilidade prática é dar deixas aos naipes ou músicos individuais sobre quando entrar e quando cortar, o que faz muitas vezes com dedo indicador apontado.

Se a mão esquerda se fecha ou o polegar e os dedos se fecham, isso pode fazer a frase musical encerrar-se suavemente. Um movimento rápido para baixo indica um corte abrupto no som.

James DePreist descreveu os gestos de mão esquerda às vezes inexplicáveis de outros regentes: William Steinberg costumava esfregar os dedos, como no gesto usado universalmente como símbolo de dinheiro. Antal Dorati fazia movimentos de empurrar abruptamente, como se estivesse fazendo uma bola de som subir e ficar boiando no ar. Eugene Ormandy muitas vezes mantinha a mão esquerda segurando a lapela da casaca, enquanto a Philadelphia Orchestra produzia cascatas de sons, observou DePreist.

Nézet-Séguin é um dos regentes mais expressivos fisicamente, em razão de sua baixa estatura, disse ele. Sua mão esquerda se movimenta constantemente. Ele contou que procura mantê-la em posição lateral em relação à orquestra, para que sua região palmar anterior não seja vista pelos músicos como uma barreira simbólica.

Em outro ensaio na Juilliard, Nézet-Séguin indicou entradas fazendo um círculo de ok ou abrindo seu dedo indicador, para assinalar um ataque mais leve. Um dedo indicador que se eleva com cada batida indicava mais volume.

Nos acordes de alto volume, ele colocava a mão em forma de concha voltada para cima. Uma mão em forma de concha voltada para baixo pedia uma linha sonora sustentada. Acordes marciais retumbantes eram assinalados por uma mão em punho.

A mão plana, com a palma para baixo, pedia um som sustentado e suave. Entradas repetidas eram assinaladas por movimentos como tiros de revólver.

Gilbert observa que não é preciso dizer a músicos profissionais em que momento de um compasso eles devem entrar. Ele frequentemente se prepara para dar a deixa a um músico, olhando para ele antes da hora, para criar uma conexão com ele e intensificar a energia. O objetivo de uma deixa é fazer com que as pessoas entrem na hora certa e do modo certo, dentro do fluxo, disse Gilbert.

ROSTO

Depois dos braços, a parte mais importante do arsenal do maestro é seu rosto. Sinto como se meu rosto cantasse com a música, disse Nézet-Séguin. Comunicar-se com os músicos por um olhar pode tranquilizá-los e encorajá-los. Por outro lado, alguns regentes, como Fritz Reiner, não mudam de expressão, mas suas gravações são completamente eletrizantes, afirmou Bicket. Manter-se inexpressivo também pode beneficiar a moral dos músicos.

Demonstrar sua frustração ou seu desagrado na expressão facial é algo que não ajuda ninguém, disse Bicket. Mas sobrancelhas erguidas podem ser maneiras sutis de transmitir insatisfação. O rosto se torna ainda mais importante quando as mãos estão ocupadas com outra coisa, como, por exemplo, quando um regente toca um teclado simultaneamente, prática comum de especialistas em música antiga, como Bicket.

Os próprios olhos são o mais importante de tudo quando se rege, disse Zhang. Eles devem ser o que mais revela a intenção musical. Os olhos são as janelas do coração. Eles mostram o que você sente em relação à música.

Um semicerrar dos olhos, por exemplo, pode conferir à música uma qualidade distante, disse DePreist. Um truque para criar um bom som orquestral é olhar para os músicos nos fundos da seção de cordas. Com isso, você faz com que eles sejam incluídos no jogo, disse Nézet-Séguin.

Gergiev utiliza a mesma técnica com os músicos sentados ao fundo. O fato de olhar para ele significa que estou interessado nele. Se estou interessado nele, ele está interessado em mim. Certo? Procuro fazer tudo a partir da expressão e do contato visual.

Às vezes é igualmente importante não olhar para os músicos, especialmente durante solos importantes. Essa é uma parte grande dos segredos de regência que não costumam ser verbalizados, disse Zhang. Isso pode evitar que o músico ceda ao nervosismo.

E existe um ou outro caso raro do maestro que rege com os olhos fechados e produz grandes performances, como muitas vezes fez Herbert von Karajan.

Leonard Bernstein foi um dos regentes mais expressivos fisicamente dos tempos modernos, fato que, às vezes, atraía o desprezo dos críticos. Mas também era capaz de reger com as mais sutis expressões faciais, conforme foi evidenciado por um vídeo clássico no YouTube em que suas sobrancelhas dançam, seus lábios se comprimem e seus olhos se arregalam.

COSTAS

Nézet-Séguin disse que tomou consciência da postura das costas ao assistir a videoteipes de Karajan. Na época, Nézet-Séguin trabalhava com Carlo Maria Giulini. A diferença principal entre o som de um e outro se devia às atitudes humanas deles, que eram expressas por suas costas, disse ele. A postura básica de Karajan era muito orgulhosa, com os ombros para trás e atitude de estar no comando.

É a atitude de alguém que espera que as coisas venham a ele. Para Nézet-Seguin, essa qualidade podia ser fria, majestosa, distante.

Mas o magrelo Giulini se debruçava para frente assim que a música começava, num gesto de aproximar-se das pessoas, de lhes dar alguma coisa, de servir.

É uma linguagem corporal muito reveladora, disse o regente, e estava relacionada às interpretações calorosas de Giulini.

Zhang costuma debruçar-se para frente para arrancar mais intensidade da orquestra. Às vezes, inclina-se para trás para fazer com que os músicos toquem mais suavemente. Ou então se inclina para frente para cobrir o som, disse ela, como quem apaga um incêndio.

PULMÕES

Os regentes muitas vezes falam da importância da respiração: de inalar junto com o upbeat, para preparar para uma entrada, mais ou menos como um cantor inala antes de começar a cantar. As cordas precisam ser incentivadas a respirar, disse Nézet-Séguin, tanto quanto os instrumentos de sopros. Isso torna a coisa toda mais natural.

Para Bicket, respirar junto quando ele rege é uma necessidade. Se suas mãos estão ocupadas de outro modo, tocando cravo ou órgão, sua deixa para as entradas muitas vezes é uma respiração audível. A natureza dessa respiração pode afetar a música. Uma inalação forte e aguda gera um som mais nítido e destacado.

CÉREBRO

Nas entrevistas, os regentes deixaram claro que, para eles, os movimentos corporais são menos importantes que a preparação mental e as ideias musicais que residem em outra parte do corpo: o cérebro. Os regentes precisam até certo ponto não ter consciência do que estão fazendo com seu corpo, disse Nézet-Séguin.

Ele disse ainda que Giulini ensinava que a clareza de um gesto vem da clareza de sua mente. A confusão decorre daquela fração de segundo de hesitação, em que a mente está decidindo qual gesto usar.

Zhang utiliza uma técnica adotada de seu mentor, Lorin Maazel: Uma projeção mental. Uma imagem mental clara do som que você quer ouvir permite uma entrada clara. Projetar mentalmente o pulso e o som, ela acrescentou, comanda nossas próprias mãos.

Como disse Conlon: Poderíamos discutir gestos e posturas físicas interminavelmente, mas, em última análise, há um elemento impalpável e carismático que pesa mais que tudo isso. Até hoje ninguém conseguiu enquadrar esse elemento. Graças a Deus.

Tradução de CLARA ALLAIN.

ADEUS EUROPA – por frei betto / são paulo.sp


 Lembram-se da Europa  resplandecente dos  últimos 20 anos, do luxo das avenidas do  Champs-Élysées, em Paris, ou da  Knightsbridge, em Londres? Lembram-se  do consumismo exagerado, dos eventos da  moda em Milão, das feiras de  Barcelona e da sofisticação dos carros  alemães?

Tudo isso  continua lá, mas já não é a mesma coisa. As  cidades europeias são,  hoje, caldeirões de etnias. A miséria empurrou milhões  de africanos  para o velho continente em busca de sobrevivência; o Muro de  Berlim,  ao cair, abriu caminho para os jovens do Leste europeu buscarem, no   Oeste, melhores oportunidades de trabalho; as crises no Oriente Médio   favorecem hordas de novos imigrantes.

A crise do  capitalismo,  iniciada em 2008, atinge fundo a Europa Ocidental.  Irlanda, Portugal e Grécia,  países desenvolvidos em plena fase de  subdesenvolvimento, estendem seus pires  aos bancos estrangeiros e se  abrigam sob o implacável guarda-chuva do  FMI.

O trem  descarrilou. A locomotiva – os EUA – emperrou, não  consegue retomar  sua produtividade e atola-se no crescimento do desemprego. Os  vagões  europeus, como a Itália, tombam sob o peso de dívidas astronômicas. A   festa acabou.

Previa-se que a economia global cresceria,  nos  próximos dois anos, de 4,3% a 4,5%. Agora o FMI adverte:  preparem-se, apertem  os cintos, pois não passará de 4%. Saudades de  2010, quando cresceu  5,1%.

O mundo virou de cabeça pra  baixo. Europa e EUA, juntos,  não haverão de crescer, em 2012, mais de  1,9%. Já os países emergentes deverão  avançar de 6,1% a 6,4%. Mas não  será um crescimento homogêneo. A China, para  inveja do resto do mundo,  deverá avançar 9,5%. O Brasil,  3,8%.

Embora o FMI evite  falar em recessão, já não teme admitir  estagnação. O que significa  proliferação do desemprego e de todos os efeitos  nefastos que ele  gera. Há hoje, nos 27 países da União Europeia, 22,7 milhões  de  desempregados. Os EUA deverão crescer apenas 1% e, em 2012, 0,9%. Muitos   brasileiros, que foram para lá em busca de vida melhor, estão de   volta.

Frente à crise de um sistema econômico que  aprendeu a  acumular dinheiro mas não a produzir justiça, o FMI, que  padece de crônica  falta de imaginação, tira da cartola a receita de  sempre: ajuste fiscal, o que  significa cortar gastos do governo,  aumentar impostos, reduzir o crédito etc.  Nada de subsídios, de  aumentos de salários, de investimentos que não sejam  estritamente  necessários.

Resultado: o capital volátil, a  montanha de  dinheiro que circula pelo planeta em busca de multiplicação   especulativa, deverá vir de armas e bagagens para os países  emergentes.  Portanto, estes que se cuidem para evitar o  superaquecimento de suas  economias. E, por favor, clama o FMI, não  reduzam muito os juros, para não  prejudicar o sistema financeiro e os  rendimentos do cassino da  especulação.

O fato é que a  zona do euro entrou em pânico. A  ponto de os governos, sem risco de  serem acusados de comunismo, se prepararem  para taxar as grandes  fortunas. Muitos países se perguntam se não cometeram  uma monumental  burrada ao abrir mão de suas moedas nacionais para aderir ao  euro.  Olham com inveja para o Reino Unido e a Suíça, que preservam suas   moedas.

A Grécia, endividada até o pescoço, o que fará?  Tudo  indica que a sua melhor saída será decretar moratória (afetando  diretamente  bancos alemães e franceses) e pular fora do  euro.

Quem cair fora  do euro terá de abandonar a União  Europeia. E, portanto, ficar à margem do  atual mercado unificado. Ora,  quando os primeiros sintomas dessa deserção  aparecerem, vai ser um  deus nos acuda: corrida aos saques bancários, quebra de  empresas,  desemprego crônico, turbas de emigrantes em busca de, sabe Deus  onde,  um lugar ao sol.

Nos anos 80, a Europa decretou a morte do   Estado de bem-estar social. Cada um por si e Deus por ninguém. O  consumismo  desenfreado criou a ilusão de prosperidade perene. Agora a  bancarrota obriga  governos e bancos a pôr as barbas de molho e  repensar o atual modelo econômico  mundial, baseado na ingênua e  perversa crença da acumulação  infinita.

Frei  Betto é escritor, autor do romance “Minas  do ouro” (Rocco), entre  outros livros.

DILMA: Aprovação ao seu governo bate recorde e vai a 64%, diz Datafolha / sãopaulo.sp

22/04/2012 08h52 - Atualizado em 22/04/2012 08h53

Pesquisa mostrou que maioria prefere ver Lula candidato do PT em 2014.
Comparação mostrou que para 57% dos eleitores Dilma é igual a Lula.

Do G1, em Brasília

Após um ano e três meses de duração, o governo da presidente Dilma Rousseff obteve aprovação recorde de 64% dos eleitores, que o consideram bom ou ótimo, mostra pesquisa Datafolha publicada na edição deste domingo pelo jornal “Folha de S.Paulo”. Outros 29% consideraram a gestão regular e apenas 5% acharam o governo ruim ou péssimo.

A série histórica das pesquisas do instituto revela que a avaliação do governo Dilma melhorou. No levantamento anterior, de janeiro, a gestão era aprovada por 59%, considerada regular por 33% e ruim ou péssima por 6% do universo pesquisado.

Os índices revelam a melhor avaliação obtida por um presidente no período considerado. Com um ano e três meses de mandato, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tinha o governo aprovado por 30% e Luiz Inácio Lula da Silva por 38%.

Apesar da aprovação recorde de Dilma, um novo dado da pesquisa revela que a maioria dos eleitores consultados prefere que em 2014 o candidato do PT seja Lula. Para 57%, o ex-presidente deve voltar a concorrer nas próximas eleições presidenciais pelo partido, contra 32% que preferem que sua sucessora concorra à reeleição. Para 6%, o candidato petista não deveria ser nenhum dos dois e 5% não souberam responder.

A comparação entre os dois governos mostrou que para 57% dos eleitores, Dilma é igual a Lula. Para 21%, Dilma é pior que Lula; 20% acham Dilma melhor que Lula; e 2% não sabem.

A pesquisa foi realizada nos dias 18 e 19 de abril e ouviu 2.558 pessoas em 161 municípios de todos os estados e Distrito Federal. A margem de erro é dois pontos percentuais, para mais ou para menos.

Juiz muda atestado de óbito de perseguido político / são paulo

enfim a história vai entrando nos trilhos da verdade

O  juiz Guilherme Madeira Dezem, da 2.ª Vara de Registros Públicos, em São Paulo, determinou a retificação, no atestado de óbito, do local e da causa da morte de um militante de esquerda assassinado durante a ditadura militar. Trata-se de uma decisão inédita, segundo organizações de direitos humanos.

No documento retificado, onde se lê que o economista João Batista Franco Drumond morreu no dia 16 de dezembro de 1976 na esquina da Avenida Nove de Julho com a a Rua Paim, passará a constar: “Falecido no dia 16 de dezembro nas dependências do DOI-Codi do 2.º Exército, em São Paulo”. Em seguida, onde se anotou que a causa da morte foi “traumatismo craniano encefálico”, ficará escrito que decorreu de “torturas físicas”.

A sentença, segundo o texto do juiz, segue orientação da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Ele cita particularmente a determinação - de 2010 - para que o Brasil adote medidas destinadas a cumprir o direito que as famílias de mortos e desaparecidos têm à memória e à verdade.

Trata-se de uma decisão de primeira instância, que ainda pode ser modificada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. O pedido de mudança foi feito pela viúva de Drumond, a senhora Maria Ester, de 65 anos. Segundo seu advogado, Egmar José de Oliveira, ela espera por isso desde a morte do marido, 35 anos atrás. “Faz parte de um longo esforço para restituir-lhea dignidade”, conta ele.

Tortura e morte

Drumond tinha 34 anos e era militante do PC do B. Foi preso no dia 15 de dezembro de 1976, no episódio que ficou conhecido como massacre da Lapa – uma operação que, sob o patrocínio do 2.º Exército, resultou no desmantelamento da cúpula do partido. Conduzido para as dependências do DOI-Codi, ele enfrentou seguidas sessões de tortura, segundo depoimentos de outros presos políticos, até a sua morte, no dia seguinte.

Quando o pai de Drumond chegou para identificar o corpo e providenciar o funeral, as autoridades lhe informaram que o filho morrera atropelado, durante uma tentativa de fuga. “Ele recebeu ordem, por escrito, para que isso constasse no atestado de óbito”, conta o advogado.

Sentindo-se ameaçadas, a mulher e as duas filhas de Drumond mudaram para a França – onde moram até hoje. Elas já tinham conseguido, junto à Comissão de Mortos e Desaparecidos, o reconhecimento de que o marido morrera quando se encontrava sob a custódia das autoridades militares.

Mas a senhora Maria Ester queria ir além, queria o reconhecimento final, na certidão de óbito do marido. Quando soube da decisão do juiz, assinada no final da semana passada e divulgada na segunda-feira, ela comemorou e chamou-o de corajoso.

Jurisprudência

“Mesmo sendo uma decisão de primeira instância, é altamente significativa. Trata-se de uma reação inédita do Judiciário, que sempre foi omisso no trato das questões da ditadura militar”, diz o advogado, que também é vice-presidente da Comissão de Mortos e Desaparecidos. “É uma a peça a mais no esforço que se faz no País para se restabelecer a memória e a verdade. Tomara que seja o início de uma jurisprudência que ajude as famílias a restabelecerem plenamente os fatos ocorridos durante a ditadura.”

O ex-preso político Ivan Seixas, da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos, também elogiou a sentença.  “Ela confirma as denúncias de morte sob tortura. É mais um passo para que o Brasil possa conhecer a verdade daquele período”, afirma.

O ESTADÃO.

Dilma estabelece ‘padrão mundial contra a corrupção’, afirma Hillary Clinton

Secretária de Estado dos EUA fez comentário na conferência da Parceria para o Governo Aberto

17 de abril de 2012 | 12h 12
 Tânia Monteiro e Rafael Moraes Moura, da Agência Estado

BRASÍLIA – A secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, disse nesta terça-feira que a presidente Dilma Rousseff está estabelecendo um “padrão mundial” na questão de transparência e luta contra a corrupção. O comentário foi durante a abertura da Primeira Conferência Anual de Alto Nível da Parceria Para Governo Aberto, que está sendo realizado em Brasília.


'Não há um parceiro melhor para iniciar esse esforço do que o Brasil', disse Hillary  - Roberto Stuckert Filho/Agência Brasil
Roberto Stuckert Filho/Agência Brasil
‘Não há um parceiro melhor para iniciar esse esforço do que o Brasil’, disse Hillary

 

 

A Open Government Partnership (OGP), ou Parceria do Governo Aberto, foi lançada em setembro passado nos Estados Unidos como um esforço conjunto na luta contra a corrupção e na promoção de transparência na gestão pública. O Brasil e os Estados Unidos lideram a iniciativa.

 

“Não há um parceiro melhor para iniciar esse esforço do que o Brasil e, particularmente, a presidente (Dilma) Rousseff. O compromisso dela com abertura, transparência, sua luta contra a corrupção está estabelecendo um padrão mundial”, disse Hillary.

 

De acordo com a secretária de Estado norte-americana, os Estados Unidos estão orgulhosos com a parceria e querem mantê-la para garantir que o século XXI seja uma era de “transparência, democracia e resultados para pessoas de todos os lugares”.

 

Para Hillary, a corrupção “mata o potencial de um país, drena recursos, protege pessoas desonestas”. “Uma das mais significantes divisões não são entre norte, sul, leste, oeste, religiosas ou de outras categorias. Estamos falando de sociedades abertas e fechadas. Aqueles governos que se escondem da opinião pública vão encontrar dificuldades crescentes”, afirmou.

 

Para o ministro-chefe da Controladoria-Geral da União, Jorge Hage, “todos se deram conta de que, quanto maior a abertura de informações ao escrutínio público, maior será a eficiência dos serviços públicos”. “Não há melhor desinfetante que a luz do sol”, disse Hage, que também discursou no evento.

MEU ENCONTRO COM MILLÔR FERNANDES (*) – por olsen jr / rio negrinho.sc


   Estava passando por um corredor no Centro de Cultura e Eventos da UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina, quando ouvi o amigo Dilvo Ristoff contando uma história hilariante envolvendo o Millôr Fernandes (**) em que “eu” aparecia como o homem certo no lugar errado. Ouvi atentamente e exclamei “espera aí, não foi bem assim”. Só intervi porque na plateia estavam os escritores Silveira de Souza, Flávio José Cardozo e Jair Francisco Hamms (***).

Não ia deixar “barato” aquele relato. Já havia passado quase dez anos e o cara não “esquecera”, ou pelo que constatei, atinha-se a “sua” versão do ocorrido.

O Millôr havia aberto a Primeira Semana de Comunicação e Expressão, início de 1996, e havia ganhado algumas “notas extras” nos jornais por conta de duas perguntas de uma jornalista. A primeira, “como você vê o quadro político-econômico do País?” Respondeu: “o quadro tem uma moldura boa, mas o conteúdo é precário”; a segunda, “Como você avalia a comunicação brasileira hoje?” Disse (simulando meditar): a Rede Globo deve valer um bilhão de dólares… A entrevista terminou aí…

Depois do evento, Dilvo (um dos idealizadores daquele Encontro) convidou o Millôr para almoçar na Lagoa da Conceição. Era uma segunda-feira, a maioria dos restaurantes fecha para o descanso semanal. Estou ao lado da minha casa, num dos poucos lugares abertos quando vejo um táxi parar em frente. O Dilvo se aproxima para ver se o local serve almoço e me vê. Após os cumprimentos, afirma que está com o Millôr Fernandes e pergunta se poderiam sentar à mesma mesa. Afirmo que seria uma honra. Logo após, estamos reunidos, o Millôr com a mulher, Cora (filha do grande crítico literário, Paulo Ronai), a escritora rio-grandense Ieda Inda, a Michelle (minha filha) e este poetinha que vos fala. O Millôr consegue manter aquele humor o tempo todo, coisa rara, de maneira que dois cínicos se dão bem, e logo parecia que nos conhecíamos há mais de 20 anos. Acredito que a “mágoa” do Dilvo (se houve alguma) deva ser atribuída a esse fato, embora “ele” próprio consiga manter um apurado senso de humor.

Terminado o almoço, perguntei se o Millôr poderia autografar alguns livros. Cora, a mulher, disse que não haveria problema. Em menos de cinco minutos, trouxe 23 obras da minha biblioteca. Motivo de gozação. O Millôr brincou “Pô! Não pensei que tivesse escrito tanto”… No livro “O Homem do Princípio ao Fim”, ele escreveu “Para o escritor Olsen Jr. que é do meio”… Cada dedicatória era uma peça, todas lidas depois em voz alta e “curtidas” pela mesa…

O tempo passou, e agora estou ali, ouvindo a “versão” do Dilvo. Tenha paciência, brinquei você foi muito gentil, aquele encontro foi memorável, ao contrário de alguns “coleguinhas” que quando trazem alguém de fora, nestas paragens, procuram isolar-se, não compartilhando de “suas” presenças. Coisa de gente pequena. Lembro que já te agradeci por isso, no que o Dilvo concordou. Depois o Jair Hamms afirmou que iria escrever sobre o fato, disse que também o faria, afinal, tenho “a minha reputação a zelar”. Aliás, aquela “nota” sobre as “respostas” do Millôr Fernandes para a jornalista, confesso, fui eu quem enviou para o Cacau Menezes (19/03/1996), o Millôr disse apenas “o quadro tem uma moldura boa, mas o conteúdo é precário”… Botei a minha colher e acrescentei “ignora-se se o conteúdo é precário porque o esboço é ruim, ou o esboço é ruim porque o conteúdo é precário”… “Fi-lo” como diria o Jânio Quadros,  porque a bolinha estava quicando na área e tinha de marcar o gol, afinal, agora o que ficou foi a minha versão, lembro a expressão clássica do Leonel Brizola “não é verdade!”.

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(*) – Esta crônica inicialmente com o título de “O que importa é a versão” foi publicada originalmente no Jornal “A Notícia”, de Joinville (SC) no dia 08 de abril de 2005.                

(**) – O humorista, escritor, tradutor, cartunista, crítico e filósofo Millôr Fernandes morreu no dia 27 de março de 2012.

(***) – O escritor Jair Francisco Hamms faleceu no dia 11 de janeiro de 2011.    

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NOTAS:

A música poderia ser esta: “Beatles in Pepperland”…

A inspiração veio do Álbum “Revolver” e da música  “Yellow Submarine” , uma das faixas,  ambos de 1966…

Em 1967, Lee Minoff escreveu uma história baseada em algumas letras dos Beatles.

Essa história foi transformada em filme.

Um desenho animado onde o produtor dos Beatles, George Martin participa com algumas músicas instrumentais.

Estas músicas foram adicionadas a trilha sonora do filme…

O Álbum com a trilha sonora foi lançado seis meses após o filme, contendo apenas algumas músicas do filme e mais as composições de George Martin…

Em 1999, o desenho animado foi reeditado digitalmente e foi lançado o Álbum Yellow Submarine Soundtrack, desta vez com todas as músicas dos Beatles que fazem parte do filme,

mas sem as compostas pelo George Martin.

A história do desenho animado era sobre PEPPERLAND, um paraíso situado a oitenta mil léguas submarinas cercado por cor e música (qualquer alusão aos livros “Vinte Mil Léguas Submarinas” e a “A Volta ao Mundo em Oitenta Dias”, de Júlio Verne não será mera coincidência)…

Os vilões denominados BLUE MEANIES atacam Pepperland para acabar com as músicas…

Os Beatles vão salvar Pepperland dentro de um Submarino Amarelo…

A música “Beatles in Pepperland” é instrumental, de George Martin que anima esta parte do filme…

Não conto o final do filme…

Aí está parte da trilha sonora, com o carinho do poeta, sempre…

http://www.youtube.com/watch?v=gbsVySv5UAU

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OLSEN JR é membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS com 8 livros editados.

AMILCAR NEVES, discurso de posse na ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS

(Discurso à moda de ficção)

Discurso de posse da Cadeira nº 32 da Academia Catarinense de Letras, proferido em 12.04.2012


Senhoras e Senhores,

Preciso pedir-vos desculpas antes mesmo de proferir as primeiras e pobres palavras que tenho para vos dirigir. Desculpai-me pela data escolhida para esta solenidade, especialmente se ela vos comprometeu outros melhores afazeres: não tenho tanta culpa assim que este evento ocorra no dia de hoje. O presidente Péricles Prade
reuniu a diretoria desta Casa de José Boiteux e o escritor e acadêmico Mário Pereira ficou encarregado de me telefonar, dizendo que a Academia sugeria o dia 12 de abril de 2012 para que novo inquilino tomasse posse da Cadeira de Santos Lostada, a Cadeira de número 32. A mim me cabia apenas concordar com a sugestão feita ou propor outra ocasião, e eu aceitei este 12 de abril.

Ninguém sabe disto, mas exultei com a data escolhida. Conto-vos agora, contista que me considero ser, em primeiríssima mão, o motivo dessa minha estranha satisfação.

Houve outro 12 de abril em minha vida, há precisos 25 anos. Há exatamente um quarto de século eu me encontrava na cidade de Acapulco, estado de Guerrero, na costa do México, às margens do Pacífico. Participava da convenção latino-americana da empresa para a qual então trabalhava, uma grande multinacional da área de informática; na verdade, a maior empresa do mundo nesse segmento da tecnologia que tanto crescia e tão mais cresceu de lá para cá. Naquele dia, em 1987, faltavam 12 dias para que eu completasse meus 40 anos de vida. Era um domingo, a tarde iniciara-se belíssima, ensolarada, com um ar temperado e muito agradável para sair meio ao acaso. Pela manhã, houvera a última sessão de trabalho da convenção e, à noite, teríamos a cena de clausura, que é como os espanhóis confinantes e os espanhóis distantes chamam o nosso jantar de encerramento. No dia seguinte, bem cedo, um pequeno grupo daqueles que ali se encontravam, mais precisamente 12 analistas de sistemas, entre os quais contava este que vos fala, partiria para um périplo de 10 dias por fábricas e laboratórios da empresa ao longo da costa Oeste dos Estados Unidos, em Vancouver, no Canadá, terminando o circuito tecnológico no estado de Nova York, com ponto final da viagem programado para Manhattan.

A tarde dominical ficou reservada para o lazer. Muitos preferiram, como sempre preferiam nessas ocasiões, beber à beira da piscina do hotel 6 estrelas – tratava-se do Acapulco Princess – em que nos puseram hospedados, um conjunto que efetivamente se proclamava, à época, detentor daquela avaliação raríssima, a máxima possível. Eu, porém, não sairia do meu cultivado canto ilhéu para deixar-me quedar por horas a tomar aperitivos hexa-estrelados à beira de uma enorme piscina, protegido por toda a segurança possível e inimaginável contra o mexicano suspeito. Pois mexicano pobre é mexicano suspeito. E o mexicano asteca, para complicar mais ainda sua situação, nem branco é. Portanto, a segurança se fazia imprescindível para resguardar centenas de cabeças privilegiadas e premiadas, posto que alcançar o direito de ir a uma convenção era, antes de tudo, um prêmio cobiçadíssimo e muito valorizado por toda a linha gerencial da empresa de origem estadunidense. Não, recusei-me a ficar na piscina, mesmo porque não foi necessária nenhuma atitude heroica, de supremas coragem e ousadia, para exercer tal recusa: bastou-me escolher outra opção de programa das muitas oferecidas pela organização.

Outros colegas das Américas preferiram passar a tarde na praia, programa que nada sensibilizava alguém que mora o ano todo em uma ilha atlântica. Terceiros resolveram ir para o apartamento, ligar a televisão – vício indomável para muita gente – a esperar o sono e dormir, ocupando assim o enorme tempo ocioso que lhes destinaram. Houve também naquele domingo, como de hábito, um bocado de conversa ao pé do ouvido que definiu, ou alterou, transferências, promoções, chefias e cotas de venda, essas coisas capitalistas.

Transbordantes de civismo, grupos de quatro ou cinco convencionais se deslocavam já em direção à área de esportes do hotel a fim de, em defesa das cores pátrias, ainda mais sagradas e saudosas quando se está no exterior, incentivar os atletas ou participar da indefectível partida de futebol entre Brasil e Argentina, com camisas oficiais e tudo o mais. Tampouco me seduziria essa pequena guerra contra los hermanos. Ou deles contra los macaquitos brasileños. Não; o cardápio de opções oficiais de lazer oferecia mais.

Oferecia uma frota de ônibus saindo a intervalos regulares do hotel e parando em pontos predeterminados ao longo das franjas da belíssima Baía de Acapulco, pelas quais se espalha a região mais charmosa e turísticada cidade, até o lado oposto, em frente ao porto, onde se situa o Fuerte de San Diego. Em tais pontos, os convencionais, identificados, podiam descer do ônibus e visitar as atrações das redondezas, geralmente com guias à disposição, enquanto o ônibus continuaria circulando. Ou abordar o veículo, embarcar e seguir até a parada adiante que lhes interessasse conhecer. Pensando nos fortes portugueses da Ilha de Santa Catarina, obviamente optei pelo forte espanhol, que espreita o mar sobre a Avenida Costera Miguel Alemán.

Perdoai-me, distintas Senhoras, desculpai-me, nobres Senhores, já chego lá: é que sempre gostei muito de viajar. Por isso me apanho quase viajando de novo ao falar de viagens.

Eu já estivera em Acapulco no ano anterior. Nunca planejei ir àquela cidade criada a propósito para atrair estadunidenses ricos – e, no entanto, voltava ali um ano depois. Em 1986 foi a Literatura que me levou até ela. Era o ano da segunda Copa do Mundo de Futebol a se realizar no México e o selecionado brasileiro, sem dúvida alguma, seria outra vez campeão mundial. Num concurso literário promovido pela finada Rede Manchete de Televisão e patrocinado por uma grande multinacional do tabaco, entre doze mil concorrentes de todo o Brasil, um texto meu, um pequeno conto de 20 linhas ou menos (essa era a condição imposta pelos organizadores: somente seriam aceitos contos com o mínimo de dez e o máximo de 20 linhas), um conto de título Galera oito foi o quinto colocado, o que me valeu um aparelho de televisão.

Entretanto, o meu Galera sete ficou em primeiro lugar nesse mesmo concurso, dando-me como prêmio a viagem ao México para assistir, à minha escolha, fosse em Guadalajara ou na Ciudad de México, jogos das semifinais e finais da Copa do Mundo: um carro me apanhava no mesmo Acapulco Princess do ano seguinte, me levava ao aeroporto, eu voava até o destino escolhido, onde outro carro já me aguardava com o ingresso na mão, deixava-me no estádio e, terminada a partida, repetia-se o trajeto, agora invertido, para me deixar em casa, digamos assim. Para as despesas fora do hotel, a multinacional do cigarro deu-me, livre de prestação de contas, isenta de recibo e em dinheiro vivo, a quantia de 500 dólares dos Estados Unidos. Preciso fazer as contas para descobrir quanto me rendeu cada linha daquele conto.

Esses meus dois contos, aos quais juntei as demais Galeras de um até onze (um time de futebol) e oCamisa doze (a torcida), estão publicados no livro Relatos de Sonhos e de Lutas.

Permiti-me, suplico-vos, duas anotações mais, rápidas, sobre a primeira viagem a Acapulco. Uma façanha que logrei foi ter encontrado – e comprado – na Sanborns, uma pequena loja da Avenida Costera que também vendia alguns livros, uma bela edición íntegra, encadernada em vermelho e baratinha, de El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha, ilustrada con grabados de Gustavo Doré. Aposto que não existe muita gente que tenha algum livro comprado em Acapulco. Ninguém compra livros em Acapulco. Aliás, até me parece que ninguém lê livros em Acapulco. Talvez em outros lugares esse fastio também aconteça, não sei.

A segunda anotação: à época eu fumava. Fui um bom fumante, ocupação que me dava enorme prazer, especialmente quando me punha a escrever e mantinha uma dose de uísque à mão. Hoje continuo com o uísque no gelo e a escritura, muitas vezes manuscrita, o que igualmente me dá profunda satisfação. Pois então eu fumava, à época, e faz-se escusado dizer que não gastei, em toda a viagem, um centavo sequer de cruzado, um cent que fosse de dólar, com a compra de cigarros. Comecei a fumar Camel brasileiro já em São Paulo, antes da partida, depois Camel americano na escala em Miami, Camel mexicano no país da Copa e até Camelda Alemanha, pois havia em paralelo, no Princess, uma convenção da filial alemã do fabricante – e, subitamente, esses dias agora, me dei conta de que aquela marca de cigarros pagou a minha viagem de 1986 por causa de um texto literário e, hoje, vejo-me, aqui, prestes a sentar-me à Cadeira 32 deste elevado sodalício, desta ilustre sociedade de homens e mulheres de letras – e o 32, no jogo do bicho, é precisamente um dos quatro números do camelo…

Avancemos um ano, ou pouco menos do que isso, para retornarmos ao 12 de abril de 1987.

Era domingo, fazia sol, o clima punha-se ameno e eu estava a ponto de desembarcar em frente ao Fuerte de San Diego. Aquela viagem começava com a convenção no México, passaria pelos Estados Unidos e Canadá e, de Nova York, concluída a fase profissional da turnê, precisamente chamada pela empresa de Tour Tecnológico, já tudo planejado, eu viajaria até Miami, onde encontraria Maria Vitória, que chegava da Ilha de Santa Catarina. Naquele momento, eu entraria em férias por um mês, gastando-o todo em um circuito a dois que seguia direto para os meus 40 anos na cidade do México e prosseguia depois pela costa Oeste dos Estados Unidos (Los Angeles e San Francisco), cruzando para Leste até a província de Québec, no Canadá (Montréal e dali, por carro, até a Ville de Québec, ida e volta), para terminar outra vez em Nova York. Ainda em casa, nesta Ilha que tantas ideias interessantes nos sugere a todo instante, decidi que 40 dias de viagem, 5 semanas fora do País, mereciam que eu finalmente fizesse o que sempre pensara fazer e nunca tinha efetivamente realizado: escrever toda santa noite, onde quer que estivesse e à hora que fosse, ao menos dez linhas sobre os acontecimentos, sensações e observações do dia – o que me rendeu, eu vos confesso, mais de 170 laudas de texto bruto que guardo comigo, escondido dos olhos do mundo (assim como outros trabalhos literários mais), com zelo e orgulho – orgulho por ter cumprido à risca o compromisso solene que assumira comigo mesmo, inclusive naquele dia 12 de abril, quando cheguei ao meu quarto de hotel, devido às circunstâncias, apenas às 4 horas da madrugada (para viajar às 8 com um braço imobilizado).

Subi os degraus da escadaria de granito que leva da avenida até o pórtico de entrada do forte e, mais tarde, na delegacia do Distrito Judicial de Tabares, afirmei, com toda a segurança e convicção, que os fatos se deram precisamente às 4 horas e 12 minutos, conforme mostrava o meu relógio digital que travara com aqueles números estáticos no visor de cristal líquido. Em verdade, por virtude de uma pancada recebida, o relógio passara do modo relógio para o modo calendário, este no formato inglês, e aí “congelara”, ao mesmo tempo em que todos os seus botõezinhos de controle ficaram presos e inoperantes: as 4 horas e 12 eram, de fato, abril, dia 12.

O pórtico de entrada do San Diego é como se fosse um pequeno túnel de pedra medindo cerca de oito a dez metros de comprimento e largo bastante para grupos de pessoas entrarem e saírem com folga. Ao chegar à metade da travessia, ouvi às minhas costas passos de gente correndo; instintiva, porém despreocupadamente, olhei e vi dois garotos, de 15 e 18 anos presumíveis, aproximando-se de mim, ambos com longos e grossos porretes de madeira erguidos nas mãos. O mais velho trazia um segundo cacete em cuja ponta encrustava-se, de alguma maneira, uma baioneta. E chegaram batendo para valer, sem ameaças nem intimações.

Bailamos um longo tempo, ou durante o que me pareceu ser, na hora, quase uma eternidade. Eles batiam e eu me protegia com o antebraço esquerdo dobrado em frente ao rosto, preocupado em não ser golpeado na cabeça; a baioneta estocava insistente e cruzava-me à frente, procurando a macieza do abdômen para mais facilmente me abater. Eu me esquivava e dançávamos, os três, uma dança de morte. Uma estocada melhor aplicada varou minhas defesas, chegou-me à camisa, pressionou-me a pele da barriga – mas não conseguiu perfurá-la, deixando-me de lembrança apenas uma pequena equimose arredondada. Antes ou depois desta investida (cuja impressão epidérmica só fui perceber mais tarde), a baioneta zuniu de novo à minha frente, eu pulei para trás – havia também a preocupação máxima de não me deixar cair; no chão, eu seria vítima por demais fácil para os adolescentes –, pulei para trás mas não o suficiente: a ponta de metal da arma branca alcançou a camisa, cortou o tecido na horizontal e atingiu a pele na altura do estômago; atingiu a pele, produziu nela um pequeno risco que fez aflorar alguma gordura superficial ou um soro transparente – e foi embora. Certamente que, por uma questão de frações de milímetro, não cheguei a sangrar.

Os dois adolescentes me deixaram, talvez um pouco assustados pela demora da ação, assim que um deles conseguiu arrancar-me do ombro a máquina fotográfica com um filme inteiro quase completamente batido, a partir de uma escuna, na véspera, dos saltos para mergulho em La Quebrada, por parte de garotos pobres mexicanos ou de rapazes exibicionistas, entre as rochas íngremes e sobre o pedregal do fundo assim que o mar preenche a falésia.

Tive as mãos muito inchadas, especialmente a esquerda, e o antebraço engessado num hospital depois de limpas do sangue coagulado todas as áreas atingidas pelos golpes. Nem um só dos meus ossos se partiu. Às 4 horas, não direi morto de cansado, mas vivo e cansado, eu cumpria responsavelmente a minha obrigação das dez linhas. Depois dos 40 dias, já no Brasil, em casa, recuperei em detalhes os acontecimentos daquele 12 de abril, colocando-o em palavras escritas. É incrível como, muito perto da morte, sai-se de um episódio assim com lembranças tão persistentemente vivas e minuciosamente detalhadas. Mais tarde, arrisquei muito ao pegar esse acontecimento real, vivido por mim, para tentar, com ele, fazer ficção – expediente que, no geral, não funciona bem: um excelente, ou interessante, ou engraçado, ou dramático, ou assustador fato real de hábito dá péssima literatura. Ainda assim, mesmo receoso, fui em frente e escrevi um conto. Mais tarde ainda, mandei esse conto, inédito, para um concurso literário. Algumas semanas depois, recebo, junto com um cheque de 350 dólares, a notícia de que o conto foi premiado em primeiro lugar e, traduzido, saiu em edição bilíngue português e espanhol na revista Plural – uma maravilhosa publicação cultural mensal do Excelsior, o maior jornal exatamente do… México.

Fascínio, o conto em questão, também está em Relatos de Sonhos e de Lutas, possivelmente o mais mexicano dos livros que escrevi até agora…

Senhoras e Senhores,

Devo dizer-vos que os riscos que assumi na vida não pararam por aí. O mais recente deles aconteceu há umas poucas semanas, quando solicitei ao escritor e presidente Péricles Prade, dirigente maior desta mui respeitável Academia Catarinense de Letras, que designasse o escritor e acadêmico João Nicolau Carvalho para me receber nesta Casa. Vós vistes o resultado da minha imprudência…

O risco, a exposição a que me submeti agora, decorre do fato de que o João Nicolau é meu amigo de uma época na vida em que não se esconde nada de ninguém, menos ainda dos amigos do peito. E assim fomos nós na Tubarão da década de 60 do século passado – o que explica, também, os exageros engrandecedores que ele me atribuiu. De tudo o que ele disse de mim, para o bem e para o mal, tiremos 90% antes de tirarmos conclusões.

Algumas das melhores experimentações a que frequentemente nos dedicávamos lá, naquela época, foram discutir literatura, escrever literatura (o João bem mais do que eu, já com um romance na gaveta só para me causar inveja) e escrever sobre literatura. Onze anos depois desses dias na terra que Virgílio Várzea batizou de Cidade Azul, e após passar dez anos sem escrever uma só linha de texto literário, após fazer um curso de Engenharia Mecânica, após concluir uma pós-graduação em Fabricação, após iniciar-me profissionalmente nos mistérios e entranhas da informática, após morar um ano em Curitiba e quatro em Londrina, e após retornar a Santa Catarina em meados de 1975, indo morar em São José porque a Ilha não tinha espaço disponível para abrigar uma família de casal e dois filhos, decidi investir algum tempo, esforço e dedicação no velho sonho de escrever contos e, com eles escritos, tentar a publicação de um livro, um apenas, para atender a uma aspiração secreta de juventude. Publicar um livro me deixaria realizado como escritor – eu assim pensava, de verdade.

Autodidata, comecei a escrever do jeito que eu achava que deveria ser um conto, da maneira como eu gostaria de ler um texto de ficção. Guiei-me pelas leituras que, essas, não cheguei jamais a interromper. Lembro-me muito bem, por exemplo, da profunda impressão que me causaram no espírito os contos de Rubem Fonseca: O Homem de Fevereiro ou MarçoO Cobrador e, especialmente, Feliz Ano Novo. Eram horizontes que se rasgavam, possibilidades infindas que se abriam, ideias audaciosas postas a borbulhar.

Assim, de 1975 a 1978 produzi um punhado de contos, desses meus contos autodidatas, mas não tinha ideia do que fazer com eles – mais ainda, não sabia que valor teriam aqueles textos, se é que eles tinham algum valor. Precisava desesperadamente de um escritor (de um crítico, na verdade, de um Lauro Junkes) que me avaliasse o material, que me indicasse como proceder, que me apontasse quais caminhos trilhar, mas eu não conhecia nenhum espécime dessa gente. Só o João. Mas, para mim, o João, antes de ser escritor, era amigo. Mas era o único escritor que eu conhecia pessoalmente, com livro publicado e tudo. E era reitor da UDESC e havia criado a UDESC Editora, mas isso não significava objetivamente nada. Pedi-lhe o obséquio de ler aquelas páginas e dar-me uma opinião, tão dura e sincera quanto precisasse ser. Ele leu e deu sua opinião.

- Manda para a editora da Universidade, ele falou, acho que o teu trabalho tem algum mérito e, quem sabe, até pode ser publicado. Lá temos um conselho editorial que dará um parecer. Vamos ver o que eles acham.

Eles acharam horrível e mandaram jogar tudo fora.

Na realidade, foi, coincidentemente, um acadêmico desta Confraria, já falecido, que não gostou do tom ideológico do conjunto e dos aspectos eróticos de uns tantos contos: “Despropósitos que a editora de uma universidade oficial jamais poderá publicar!”, ele decretou. Estávamos ainda sob a ditadura, lembremo-nos disto. Mas havia também um fado padrinho, a versão masculina da fada madrinha. Ele também atendia pelo nome de batismo de João, João Paulo Silveira de Souza, o grande escritor brasileiro, um dos maiores dos nossos ficcionistas de todos os tempos, e, por acaso, igualmente acadêmico desta Casa. O Silveira, de quem (suponho eu) mais tarde virei amigo, pediu vistas do projeto de livro e deu um parecer que, em votação, acabou prevalecendo, frontalmente contrário ao anterior. Por culpa exclusiva dele, pois, acabou saindo, em 1979 (33 anos passados, já!), o meu primeiro livro, com o inspirado título de O Insidioso Fato – algumas historinhas cínicas e moralistas.

De acordo com minhas mais caras ambições juvenis, esse era para ser o único e bastante, mas até o momento são oito os livros de ficção que publiquei, supondo que o meu amigo, escritor e acadêmico Francisco José Pereira me empreste, apenas para efeitos estatísticos, sua coautoria no livro O Tempo de Eduardo Dias – Tragédia em 4 tempos, uma peça de teatro que escrevemos sobre a vida do grande pintor catarinense. Este livro nos rende três processos judiciais, com pedidos de sua virtual retirada de circulação e de indenização por danos morais, nenhum deles da parte de familiares do artista, que eventualmente poderiam julgar-se ofendidos pela aparente realidade retratada – escrever biografias hoje, no Brasil, mesmo que ficcionais, é garantia de aborrecimentos profundos. A menos, naturalmente, que se tratem dessas obras laudatórias tão em voga, em regra encomendadas, as quais versam sobre personagens impolutos, nobres e desprendidos, mesmo quando o biografado é um político, ou um empresário, ou um ser humano. Dos processos a que eu, o Francisco e sua Editora Garapuvu respondemos, dois já foram arquivados com decisões a nosso favor. Pelo terceiro deles, entretanto, penamos as possibilidades da condenação ao pagamento de pesada indenização por conta de um fatos marginais relatados na obra, plenamente verídicos e totalmente documentados, narrados em forma de conversa de bar entre personagens secundários da peça. No entanto – pasmai, Senhores!, enrubescei, Senhoras! –, fatos tais ocorridos nesta cidade no ano da graça de 1919! Um ano antes, pois, da fundação desta excelsa Casa de Cultura! Estamos a pique de sermos penalizados porque um juiz decretou que, “ainda que verdadeiros os fatos, ainda que documentados os acontecimentos, a família do ofendido sofre demais ao ver assim tratado um seu antepassado”.

Senhoras e Senhores,

Caso o Francisco me conceda esse favor estatístico, serão oito os livros que terei publicado até aqui, até o momento da minha surpreendente aceitação por esta magna Sociedade – e oito, não nos esqueçamos, dizem, posto que nada conheço do assunto nem o utilizo, é o grupo do camelo no jogo do bicho, bicho que simboliza a Cadeira de Manoel dos Santos Lostada, a qual teve o fecundo jornalista Gustavo Neves como fundador e o admirável professor e incomparável ser humano Lauro Junkes como antecessor deste que vos fala (já há tanto tempo, há tempo demais, é verdade). Não é nada fácil desmembrar didaticamente a Cadeira de número 32, tamanho o entrelaçamento existente, e muito forte, entre seus vários ocupantes. Gustavo Neves, por exemplo, era genro adotivo de Santos Lostada, posto que casou com Benta dos Santos, filha adotiva do patrono. Como fruto das suas minuciosas pesquisas, Lauro nos ensina que Gustavo viveu na casa de Santos Lostada desde 1914, ou seja, a partir dos 15 anos de idade – quase um irmão, pois, de Benta, com quem veio a casar e ter filhos. Por outro lado, Lauro não nos informa os nomes dos pais de Gustavo Neves, situação similar à que ocorre com os pais de Ataliba Gonçalves das Neves, que vem a ser o avô paterno deste Amilcar, também Neves, que ora vos fala: ninguém me disse até agora quem são os meus bisavós Neves, nem de onde eles teriam vindo.

E há ainda os números e as datas que envolvem toda essa gente.

Algumas curiosas constatações: o patrono Manoel dos Santos Lostada nasceu em 8 de março (de 1860), enquanto Lauro Junkes, o terceiro na linha de sucessão, digamos assim, nasceu a 9 de março (de 1942). Ambos, porém, morreram em um 20 de outubro: Lostada em 1923, Lauro em 2010 – aliás, Lauro teve o capricho de escolher uma data de morte absolutamente redonda: 20 de 10 de 20-10, ou de 2010. Já os dois Neves da 32 nasceram em meses de abril: Gustavo em 10 de abril de 1899 (há 113 anos, pois, anteontem completados) e Amilcar a 24 de abril de 1947. Como os outros dois morreram no mesmo 20 de outubro e Gustavo se foi desta para melhor em 1º de abril de 1980, existe uma substancial possibilidade de que Amilcar venha a morrer também num primeiro de abril; estatisticamente, tal probabilidade é de 0,3%, só que o problema não é, claramente, de fundo estatístico, mas factual. Assim, caso isto se confirme, sinto-me aliviado pelo fato de acabar de superar mais um 1º de abril – o que, aqui entre nós, considerando o calendário gregoriano, me dá um bom fôlego, pelo menos até o finalzinho de março próximo.

Santos Lostada foi um nome que, do interior da minha ignorância, sempre me soou agradável e instigante pelo seu timbre espanholado, mas fazia-se difícil, para mim, à distância no tempo, conhecer algo da sua produção literária, a qual nem foi tão extensa. No seu discurso de posse nesta Academia, em 23 de junho de 1983, Lauro assumiu o compromisso: “Como está dispersa e quase inacessível para o leitor, proponho-me ao compromisso de, como homenagem a meu patrono, reunir futuramente o que for possível de sua obra e dar-lhe publicação em alguma forma de livro.” Homem de palavra e homem de pesquisa minuciosa, nosso notável Lauro, a quem muito deve a cultura literária deste Estado, resgatou em 2008 o solene compromisso publicamente assumido um quarto de século antes. E o fez através do volume 35 da Coleção ACL (coleção que, de forma magistral, ele tanto impulsionou, especialmente através do seu laborioso trabalho de resgate das raízes da nossa Literatura, compilando e nos trazendo obras quase esquecidas dos fundadores das letras catarinenses). Ao livro de Manoel dos Santos Lostada, Lauro Junkes deu o título de Minutos de Mar, uma referência direta à coluna de mesmo nome que nosso Patrono comum assinou no jornal Folha do Commerciopelo menos entre 1909 e 1910. E, desse livro, ressaltam as qualidades embrionárias do contista, com três obras promissoras de um gênero que lamentavelmente ele não desenvolveu mais, e, em especial, destacam-se as virtudes do cronista – no caso, obviamente, crônicas publicadas às quartas-feiras, como hoje o imita este também cronista semanal no Diário Catarinense.

Agrada-me sobremaneira a abertura da crônica Os crótons, publicada há 112 anos completados quatro dias atrás (A Página, Florianópolis, 08.04.1900): “Madalena, a esfíngica Magdá dos íntimos, profunda, austera, de ironias lacônicas e olhos em cismas, teve o extraordinário capricho de estar alegre. Recebeu-me em risos, de coração aberto. […] Jamais a vira assim, tão palavrosa e gárrula. Toda de branco, no festival do jardim, suavizava-lhe o rosto o cabelo abundante e negro, solto pelas espáduas.”

Erotismo, parece-me.

Magdá, Lostada… Ele foi grande amigo, íntimo, de João da Cruz e Sousa e de Virgílio dos Reis Várzea. Juntos, os então três jovens poetas publicaram, em 1883, o livreto dedicado “à Julieta dos Santos”, uma atrizinha de nove anos que passou pela Ilha derrubando corações. Cruz é o nome maior do simbolismo brasileiro, nosso negro sublime, o marco da poesia barriga-verde. Várzea, na prática, deu formas ao conto catarinense, além de ser considerado um marinhista de escol, votado ao culto das coisas do mar, mar ao qual nossa Capital sempre foi, estranhamente, por estar numa ilha, tão avessa. E o Manoel, Manoel dos Santos Lostada? Será que não seria o caso de pensarmos nele como o patrono, não só daquela Cadeira 32, que daqui vislumbro, como da crônica catarinense?

Senhoras e Senhores,

Entrego a palavra àqueles que detiverem a necessária autoridade para dirimir a questão – deixando claro que a melhor pessoa a fazê-lo teria sido o nosso inesquecível Lauro Junkes.

Este Lauro, que sempre foi tão gentil comigo – mas que o era com todos os que o procurassem; este Lauro, que está aqui muito perto de todos nós que o conhecemos tão bem e que dele tanto admiramos a sagaz inteligência; este Lauro, que nos deixou esparsa em jornais, revistas e livros alheios uma obra com o registro fundamental da produção literária catarinense; este Lauro, que tantas pessoas, tantos intelectuais, tantos escritores melhor do que eu teriam a necessária competência para sucedê-lo na Cadeira 32; este Lauro, de quem não fui aluno formal, nem colega de magistério, nem comandado na Academia, mas que mesmo assim vez ou outra me chamou cá para dentro desta augusta Casa para ouvir e, até, suprema audácia!, para falar; este Lauro que tanto respeitamos e que tanto valorizou a Literatura feita em Santa Catarina, por insignificante que ela fosse – por insignificante que ela seja – , porque acreditava que não seria na Universidade do Acre que as nossas letras seriam estudadas academicamente, mas apenas aqui, no seu espaço nativo, nas faculdades e universidades locais é que ela encontraria espaço, um espaço que ele tão soberanamente valorizou e pelo qual tanto brigou, nem sempre com o merecido êxito; este Lauro Junkes olhou para mim um dia e disse, em palavras candentes que me marcam até hoje e que me marcarão até um primeiro de abril desses aí:

- Tudo bem que escrever crônicas e publicá-las em jornal é interessante, divulga o teu nome, torna-te conhecido onde o jornal for lido. Entretanto, isso, a crônica, é passageiro, tão passageiro como o jornal que a veicula. Se queres algo das Letras, se desejas a tua obra inserida na Literatura, concentra-te no conto, na novela e no romance. Isto é o que permanece um pouco mais, isto é o que poderá trazer algum respeito pelo teu trabalho literário.

Ele me falava de imortalidade, a pequena imortalidade que buscamos todos os que escrevemos com seriedade, sem concessões, fieis a nós mesmos, aos nossos princípios, às nossas ideologias. Preciso ouvir o Mestre – ouvir no sentido de seguir suas palavras.

Senhoras e Senhores,

Acreditai em mim, rogo-vos: eliminei mais de 80, talvez 90% do que, ingenuamente, planejara dizer-vos. Talvez um livro dê conta da tarefa – um livro que, como costumeiro, poucos lerão (mas, ainda assim, teimamos em escrever livros).

Quero aqui, agora, agradecer, e agradecer de coração: agradecer aos acadêmicos que, sei lá por quais motivos, escolheram votar no meu nome para ocupar esta prestigiosa Cadeira 32; agradecer, com igual ênfase e reconhecimento, a todos aqueles que preferiram outros nomes para sufragar: uma unanimidade, se ocorresse, deixar-me-ia muito mal: só é unânime quem nada diz, quem nunca se posiciona, quem espera o vento soprar para escolher o lado para o qual pular; agradecer aos eventuais leitores que me prestigiam no jornal, no livro e na sala de aula: o que eles verdadeiramente prestigiam é a obra, não o autor, que pouco importa frente ao trabalho que este possa ou consiga desenvolver; agradecer a vós todos aqui presentes, e a muitos outros daqui ausentes pelos mais sérios e justos motivos, que poderiam destinar este tempo todo a tarefas bem mais gratificantes e prazerosas; agradecer aos amigos, parentes, conhecidos e seres humanos que a gente encontra e desencontra pelas esquinas da vida, pelos cantos do mundo; agradecer à Maria Vitória, um enigma: começamos a namorar no mesmo ano em que comecei a escrever, e agora já não sei mais se escrevo porque a amo ou se a amo porque escrevo, e assim não posso, sob pena de grave risco, prescindir, bígamo, nem dela nem da Literatura; agradecer a paciência e compreensão, ainda que forçadas, dos filhos Amilcar, Maria Alice e Lúcia Helena, dos netos Caio e Gabriel, do genro Nathan e da nora Mônica: esse povo todo sofre, sofreu, uns mais e outros menos, por causa dessa circunstância que faz os escritores necessariamente alhearem-se um tanto do mundo para criarem um outro mundo, fictício e mais real, de que outras pessoas, absolutamente estranhas e desconhecidas, é que eventualmente irão desfrutar; agradecer, por fim, a todos aqueles que aqui não citei por absoluta desmemória, inaceitável, da minha parte.

Senhoras e Senhores,

Assumo todas as responsabilidades desta honrosa investidura e coloco-me desde agora ao serviço das Letras, da Cultura e desta Academia de Santa Catarina.

Obrigado.


(Amilcar Neves)

MERCADORIA – de gilda kluppel / curitiba.pr

Segue o seu caminho

apresenta as armas

em linhas verticais prepara o escudo

manipula a espada

e aglutina seguidores
dentre os que não conhecem seus fetiches

permeia relações e forja emoções

inúmeros painéis indicam

os sentidos captam sem demora

matéria à mostra

preço a prazo e longe da vista

num instante a aspiração

de uma vida cumulativa

objetos, coisas, troços…

rapidamente se tornam obsoletos

outra necessidade inventada

um novo ciclo inicia

na contramão do poema

segue a sua marcha mercadoria

seduz mais adeptos

para juntar o metal precioso

e acumular tempo perdido

em tantas dores recolhidas

empilhar-se de bens

e tentar saciar as infinitas cobiças

na ilusão de ser pelo que tens.

Executivo da Marcopolo é um dos conselheiros da presidente Dilma Rousseff – por silvana toazza / ZH / porto alegre.rs

José Antônio Fernandes Martins ajudou a moldar o pacote de estímulo à indústria

Executivo da Marcopolo é um dos conselheiros da presidente Dilma Rousseff Maicon Damasceno/Agencia RBS

Martins tem longa amizade com a presidente do paísFoto: Maicon Damasceno / Agencia RBS

Um articulador, um interlocutor e um conciliador. Mais do que palavras parecidas, elas definem José Antonio Fernandes Martins, executivo da Marcopolo escalado pela presidente Dilma Rousseff para ajudar a moldar o pacote de estímulo à indústria lançado na última terça-feira.

Não foi, portanto, uma coincidência que setores importantes da Serra, como o de fabricantes de ônibus, tenham sido contemplados com as medidas de desoneração da folha de pagamento e de redução de juros para aporte em inovação.

Grande mérito de Martins, a quem Caxias vê como seu porta-voz junto ao Planalto, num momento em que a palavra desindustrialização assombra a economia. O prestígio e a responsabilidade estão à altura dos cargos que Martins ocupa.

É presidente de três entidades: da Associação do Aço do Estado, da Associação Nacional dos Fabricantes de Ônibus (Fabus) e do Sindicato Interestadual da Indústria de Materiais e Equipamentos Ferroviários e Rodoviários (Simefre).

Também é vice-presidente de Relações Institucionais da Marcopolo, da Federação das Indústrias do RS (Fiergs) e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Isso só para citar os cargos mais representativos, sendo que a última função demonstra um grande reconhecimento nacional, uma vez que a Marcopolo não possui planta fabril em São Paulo.

Martins, junto com Jorge Gerdau e Paulo Tigre, é um dos três industriais gaúchos a ter credencial para sentar na mesa da presidente e expor suas reivindicações. Esteve em Brasília na terça-feira passada durante o anúncio do pacote. Tem um canal aberto com Dilma. E não é de hoje: conhece-a há cerca de 20 anos e começou a estreitar os laços desde quando ela era secretária de Minas e Energia do Rio Grande do Sul.

Como ministra-chefe da Casa Civil, Dilma ligou diretamente para o celular de Martins em pelo menos duas oportunidades: para consultá-lo sobre o programa de ônibus escolar e para convidá-lo a integrar o conselho curador da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

— É um patrimônio essa relação de amizade. Mas eu nunca me aproveitei dessa situação, muito menos agora que ela é presidente. Só quando era candidata a presidente é que a pressionei, no bom sentido, a vir a Caxias e visitar a Marcopolo, conhecer nossa empresa — recorda, acrescentando que é convocado para os encontros em Brasília por meio de e-mails assinados pela presidente.

Com perfil afável, sorriso fácil e um discurso sereno, o vice-presidente para assuntos institucionais da Marcopolo conseguiu convencer a presidente, mostrando por “a mais b” que o ramo de ônibus tem uma importância estratégica brutal para o país. Engatou, com isso, avanços significativos para o setor, refletidos na redução de juros e na ampliação do prazo de pagamento do crédito, a  ponto de Dilma perguntar na terça:

— Está satisfeito, Martins?
— Muito! — apressou-se.

O Pioneiro fez a mesma pergunta, e ouviu de resposta:
— Esse pacote busca a continuidade de um crescimento sustentável das empresas nacionais contra os ataques que sofremos da economia mundial. Mas, claro, não vai resolver tudo. É o início. É uma demonstração que o governo federal está dando no sentido de recompor e melhorar a competitividade das nossas empresas.

Com seu jeito conciliador, Martins transita com desenvoltura tanto no ambiente de sindicalistas quanto por gabinetes de ministros, deputados, senadores, secretários, governador e presidente (muitos, amigos pessoais dele), carregando os pedidos de melhoria ao setor de transporte. Resultado: foi escolhido para o time de “conselheiros” de Dilma como um dos 28 jogadores que mais entendem do campo econômico e empresarial do país.

— Eu era até certo ponto um grão de areia perto da montanha rochosa do PIB brasileiro — sintetiza, modestamente, lembrando que nos encontros no Palácio do Planalto ficou lado a lado de grandes nomes do setor de empreiteiras, de bancos, da aviação.

Na última semana, sentou ao lado de Eike Batista, empresáriomais rico da América do Sul. Para Caxias, no entanto, Martins representa o oceano de oportunidadese perspectivas de uma região que soube se projetar no mundo e hoje é o segundo maior polo metalmecânico do país.

Com 79 anos a serem completados no dia 21 de abril, José Antonio Fernandes Martins não aparenta nem de longe a idade que tem. Exibe com orgulho as medalhas como corredor de longa distância. Participou de maratonas em São Paulo, Porto Alegre e Blumenau, fato que lhe trouxe no passado problemas na coluna e a necessidade de uma cirurgia.

De 1982 até 1995, chegava a correr 16 quilômetros por dia. Em uma única prova, atingiu 43 quilômetros, em quatro horas e vinte minutos. Afastado da maratona de corridas (embora continue maratonista de aeroporto e na defesa de setores econômicos), o engenheiro montou uma academia em casa. Sempre que pode, exercita-se duas horas por dia para não perder o pique.

Também é adepto da medicina ortomolecular. Conheceu praticamente o mundo quando trabalhava com afinco no processo de internacionalização da Marcopolo.

Hoje, em compensação, faz questão de não viajar ao Exterior para compromissos de trabalho. Os xodós da casa são o trio de cadelas: a Âmbar (poodle), a Chanel (poodle gigante que parece uma ovelha) e a Lica (boxer). Tem dois filhos, Bebeto (empresário) e Zeca (jornalista, com atuação junto ao governo), três netas e um neto.
Seu Martins tenta reunir a família em almoços e jantares, mas admite que a agenda às vezes não ajuda.

Mas, como conciliador, consegue administrar as múltiplas tarefas, sempre com tranquilidade, fala pausada e bom humor. Assim, com seu  jeito cortês, ganhou a simpatia da presidente, a ponto de lhe perguntar na visita que fez ao estande da Marcopolo, durante a abertura da Festa da Uva 2012, em fevereiro:

— Seu Martins, se recuperou da cirurgia do coração? — numa preocupação que vai além de números.

Ele diz que passou um mês em ritmo lento, mas agora já retomou sua antiga boa forma. Engana-se quem pensa que José Antonio Fernandes Martins tem um bom trânsito apenas com alas oficiais.

Assim como é amigo de grandes nomes ocupantes de cargos dos governos federal e estadual e tem boa relação com entidades de classe e órgãos institucionais, também demonstra habilidade para se comunicar com sindicalistas. Consegue dialogar com lideranças da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e da União Geral dos Trabalhadores (UGT), resolvendo impasses e buscando formas de empresas e funcionários crescerem juntos. Como se dá esse trânsito por alas com interesses conflituosos?

— Eu aprendi uma coisa muito cedo na minha vida: eu não brigo com ninguém, porque você nunca sabe de quem vai precisar e quem estará sentado na cadeira amanhã.
Eu me dou bem com o PT, o (José) Serra de São Paulo é meu amigo, assim como o Geraldo Alckmin (governador de São Paulo). Já fui a Dubai com os dois. A vida não tem partido político bom ou ruim. Você tem de buscar as melhores condições para o seu setor — aconselha, dando uma pista do temperamento amistoso.

Porto-alegrense de nascimento, Seu Martins tem como hobby colecionar obras de arte. Sabe contemplar o que é belo. E não apenas por intuição ou por vaidade. Dedica-se com desenvoltura a ler (ou melhor, estudar, como define) livros sobre arte, vinhos e economia, áreas com as quais trava bastante afinidade.

Seu escritório em casa é recheado de publicações sobre os três temas. Mandou catalogar, em formato de livro, todos os quadros que, junto com a mulher Hieldis Severo Martins, garimpa em antiquários, galerias e por meio de contatos com colecionadores.
Orgulha-se das peças raras que possui e prestigia pintores brasileiros (inclusive de Caxias e região), como Iberê Camargo, Sergio Lopes, Heitor dos Prazeres, Victor Hugo
Porto, Beatriz Balen Susin, Di Cavalcanti, Celestino Machado e Britto Velho.
Em sua casa, para onde quer que se olhe, há um detalhe a espreitar a curiosidade e enlevar o espírito.

O bom gosto é expresso em obras de arte como quadros, esculturas, móveis, prataria e pequenos objetos raros de decoração garimpados em antiquários, galerias e pelas viagens ao redor do mundo. A impressão é de se estar circulando por uma galeria. Uma casa inteira ornamentada com uma primorosa coleção de arte, inclusive o elevador.

— Eu prefiro investir em arte do que em imóveis e terrenos. Arte é uma coisa que você aproveita, curte, embeleza, alegra. Mas para curtir, você tem de conhecer, ler, estudar — ensina, admitindo que poucos empresários investem nessa área.

Martins e Hieldis também gostam de frequentar amigos e serem frequentados. Nesses momentos, “aos que apreciam e conhecem”, o casal não hesita em brindá-los com vinhos distintos, de lotes raros. Já recebeu em sua casa, para “jantares de cortesia”, o governador Tarso Genro, secretários, políticos e empresários.
Homem de confiança de Dilma, já houve especulação de que Martins teria sido convidado pela presidente para assumir algum cargo no governo, como o de ministro. O empresário, no entanto, nega. Garante que isso não ocorreu, até por ele sempre ter demonstrado que não assumiria um desafio assim:

—Eu nunca tive intenção, vontade e nem disposição para assumir um cargo político. Eu sou homem Marcopolo e acabou. Eu sou mais útil para a empresa (Marcopolo), para a comunidade e para o setor de transporte na posição em que estou, pois tenho liberdade para falar e criticar — argumenta Martins.

O executivo diz que está confiante na sinalização de Dilma de que pretende dar continuidade a esses encontros com o empresariado e que mais medidas de impulso à economia devem estar a caminho, abrangendo outros setores. E já aponta, com conhecimento de causa, lacunas que o setor industrial apresenta:

— Carga tributária próxima aos 40%, uma logística altamente inadequada e cara, um câmbio desfavorável, talvez os maiores juros do mundo, uma energia cara, uma carga de leis sociais absurdamente alta. Isso faz com que o custo Brasil torne-se elevado, deteriorando nosso poder de competição. Tudo isso fez com que o país sofresse um ataque forte das economias internacionais, sobretudo da China, provocando o que chamamos de desindustrialização.

POEMAS DE V. KHLÉBNIKOV (1885-1922) – por mario francisco ramos / são paulo.sp

1)Из мешка
На пол рассыпались вещи.
И я думаю,
Что мир -
Только усмешка,
Что теплится
На устах повешенного.
(1908)De um saco roto
Vazou quase tudo.
E eu penso
Que o mundo
É só um riso maroto
Luz fraca nos lábios
De algum enforcado.

2)

Девушки, те, что шагают
Сапогами черных глаз
По цветам моего сердца.
Девушки, опустившие копья
На озера своих ресниц.
Девушки, моющие ноги
В озере моих слов.
(1921)

Moças, estas que marcham
Nos coturnos de seus olhos negros
Pelas flores do meu coração.
Moças que baixam as lanças
De seus cílios sobre os lagos.
Moças que lavam seus pés
Nas águas das minhas palavras.
(1921)

3)
* Fragmento do longo poema épico Zanguézi, escrito entre 1920 e 1922, última obra de Velimir Khlébnikov:

А вы, сапогоокие девы,
Шагающие смазными сапогами ночей
По небу моей песни,
Бросьте и сейте деньги ваших глаз
По большим дорогам!
Вырвите жало гадюк
Из ваших шипящих кос!
Смотрите щелками ненависти.
Глупостварь, я пою и безумствую!

E vocês, mocinhas botinolhas?
Com suas botas ensebrilhadas da noite
Pelo céu das minhas canções,
Colham e semeiem a grana dos seus olhos
Pelas estradas!
Arranquem o ferrão de serpente
De suas sibilantes tranças!
Olhem pelas frestas do ódio.
Ferestúpida, eu canto e enlouqueço!

4)
Я И РОССИЯ

Россия тысячам тысяч свободу дала.
Милое дело! Долго будут помнить про это.
А я снял рубаху,
И каждый зеркальный небоскреб моего волоса,
Каждая скважина
Города тела
Вывесила ковры и кумачовые ткани.
Гражданки и граждане
Меня – государства
Тысячеоконных кудрей толпились у окон.
Ольги и Игори,
Не по заказу
Радуясь солнцу, смотрели сквозь кожу.
Пала темница рубашки!

А я просто снял рубашку -
Дал солнце народам Меня!
Голый стоял около моря.
Так я дарил народам свободу,
Толпам загара.
(1921)

Eu e a Rússia

A Rússia deu a liberdade a milhares de milhares.
Que bonito! Por muito tempo lembrarão disto.
E eu tirei a camisa,
E cada arranha-céu espelhado dos meus cabelos,
Cada fresta
Da cidade do corpo
Estendeu tapetes e rendas.
Cidadãs e cidadãos
De Mim, eu-Estado
De mil janelas de madeixas apinhadas nelas.
Olgas e Ígores
Alegrando-se ao sol,
E não por ordem de alguém, espiavam pela pele.
Caiu a prisão da camisa!

Tão só a camisa tirada,
Dei o sol aos povos de Mim!
Nu, junto ao mar, foi assim
A liberdade aos povos dada,
O bronzeado às multidões.
(1921)

5)
* Fragmento do poema épico (supernarrativa) Zanguézi (1921):

Иди, могатырь! [1]
Шагай, могатырь! Можарь, можар!
Могун, я могею!
Моглец, я могу! Могей, я могею!
Могей, мое я. Мело! Умело! Могей, могач!
Моганствуйте, очи! Мело! Умело!
Шествуйте, моги!
Шагай, могач! Руки! Руки!
Могунный, можественный лик, полный могебнов!
Могровые очи, могатые мысли, могебные брови!
Лицо могды. Рука могды! Могна!
Руки, руки!
Могарные, можеские, могунные,
Могесные, мошные, могивые!
Могесничай, лик!
Многомогейные, могистые моги,
Это вы рассыпались, волосы, могиканами,
Могеичи — моговичи, можественным могом, могенятами,
Среди моженят — могушищ, могеичей можных,
Вьется один могушонок,
Можбой можеству могес могатеев могатых.
В толпе моженят и моговичей.

Вода в клюве! Крылья шумят ворона.
Тороплюсь, не опоздать бы!

Лицо, могатырь! Могай, моган!
Могей, могун!
Могачь, могай!
Иду можарищем, можарю можарство можелью!
Могачь, могай! Могей, могуй!
Иди, могатырь!
Мог моготы! Можар можавы!
Могесник, мощник!
Можарь, мой ум! Могай, рука! Могуй, рука!
Моган, могун и могатырь!

Vai, poderói!
Marcha, poderói! Possarda, possardor!
Possaz, eu podo!
Poderudo, eu posso! Podei, eu podo!
Podei, meu eu. Prumado! Aprumado! Podei, posseidor!
Poderandai, olhos! Prumados! Aprumados!
Desfilai, podeidades!
Marcha, posseidor! Mãos! Mãos!
Possálico, podivinoso semblante, cheio de pondorações!
Poderardentes olhos, posselhonários pensares, pondereiros sobrolhos!
O rosto dos podentreiros. A mão dos podentreiros! Possenvasores!
Mãos, mãos!
Possublimes, possálicas, podivinas,
Portenteiras, potenciosas, poderousadas!
Posserga-se, semblante!
Onipodentes, posserosas podeidades,
Vocês espalharam-se, cabelos, possindígenos,
Poderanos: poderdeiros, pelo possenhor podivinoso, por podescendentes,
No meio dos possinfantes: o potentaço, dos poderozes proverossímeis,
Enrosca-se um sapoderoso,
Possencantado por podivineiros podencantos de possentes posselhardários.
Na multidão de possinfantes e poderdeiros.

Água no bico! As asas da gralha fazem ruído.
Tenho pressa, não posso atrasar!

O rosto, poderói! Possai, poderoz!
Podei, possaz!
Possereiro, possai!
Em poderardor, possincendeio com potentochas o podereino!
Possereiro, possai! Podei, Possaz!
Vai, poderói!
Poderarde a podreria! O poderardor do possincêndio!
O possencanto, potentante!
Possarda, minha mente! Possai, mãos! Possejam, mãos!
Possaz, poderoz e poderói!

6)
* Fragmento do poema épico (supernarrativa) Zanguézi:

Они голубой тихославль,
Они голубой окопад.
Они в никогда улетавль,
Их крылья шумят невпопад.
Летуры летят в собеса
Толпою ночей исчезаев.
Потоком крылатой этоты,
Потопом небесной нетоты.
Летели незурные стоны,
Свое позабывшие имя,
Лелеять его нехотяи.
Умчались в пустыни зовели,
В всегдаве небес иногдава,
Нетава, земного нетава!
Летоты, летоты инес!
Вечернего воздуха дайны,
Этавель задумчивой тайны,
По синему небу бегуричи,
Нетуричей стая, незуричей,
Потопом летят в инеса,
Летуры летят в собеса!
Летавель могучей виданой,
Этотой безвестной и странной,
Крылом белоснежные махари,
Полета усталого знахари,
Сияны веянами дахари.
Река голубого летога,
Усталые крылья мечтога,
Широкие песни ничтога.
В созвездиях босы,
Там умерло “ты”.
У них небесурные косы,
У них небесурные рты!
В потоке востока всегдава,
Они улетят в никогдавель.
Очами земного нетеж,
Закона земного нетуры,
Они в голубое летеж,
Они в голубое летуры.
Окутаны вещею грустью,
Летят к доразумному устью,
Нетурные крылья, грезурные рты!
Незурные крылья, нетурные рты!
У них небесурные лица,
Они голубого столица.
По синему небу бегуричи!
Огнестром лелестра небес.
Их дико грезурные очи,
Их дико незурные рты.

Eles são a azul silencidade,
Eles são a azul quedad’olhos.
Eles voam pra nunquidade,
Suas asas rugem como foles.
Voaderos voam pros céuguros
Com os noturnos desapareseres.
Na corrente de aladas estasas,
Na torrente celeste de outralas
Voavam lamúrias liberaladas,
Esquecidos do próprio nome
A acarinhar malquereres.
Chisparam por ermos chamantes,
No semprante dos céus de asvezentes,
Da negante, terrestre negante!
Voasentes dos celementos!
A brisa, à noite, em secreditos,
Estérea triste em misterínios.
Passam no céu os correndicos,
Desaseiros bandos, liberalindos,
Na torrente voam pros celementos,
Vão pros céuguros em voamento!
O voaral das vistas potentes,
Com o estranho estaquele indigente,
De asas de neve, os marretadeiros,
Cansados do voo, os curandeiros,
De aureolantes soprenúncios dadeiros.
O rio azul do vôlo,
As asas cansadas do sônholo,
As grandes canções do nádalo.
Nas constelações descalças
A morte do “tu” se alça.
Têm firmamenteiras tranças,
E firmamenteiras bocarras!
Na corrente do leste semprante,
Voaram pro nuncamente.
Com os olhos terrestres da neguez,
Das terrestres leis negandeiras,
Eles vão pro azul em voarez,
Eles vão pro azul em voadeiras.
Envoltos em prefecias em vão,
Voam à foz da pré-razão,
Desaleirasas e roandeiras bocas!
Liberalasas, desaleiras bocas!
Têm firmamenteiras caras,
São a capital azulada.
Correndicos no azul altaneiro!
Afagosos faisqueiros do céu.
Seus olhos bem roandeiros,
Seus lábios liberaleiros.

7)
* Fragmento do poema épico (supernarrativa) Zanguézi:

Иверни выверни,
Умный игрень!
Кучери тучери,
Мучери ночери,
Точери тучери, вечери очери.
Четками чуткими
Пали зари.
Иверни выверни,
Умный игрень!
Это на око
Ночная гроза,
Это наука
Легла на глаза!
В дол свободы
Без погонь!
Ходы, ходы!
Добрый конь.

Solta a sapátada,
Sábio pocó!
Côcheda núveda,
Mórtida nôitida,
Pôntida núveda, tárdida vístada.
Contas num cântaro
Caem as manhãs.
Solta a sapátada,
Sábio pocó!
Bate na cara
Noturno toró,
Ciência tão clara,
Nos olhos, sem dó!
Livre é o vale
Rédeas na mão!
Marche, marche!
Bom alazão.

8)
* Fragmento de Zanguézi:

Верхарня серых гор.
Бегава вод в долину,
И бьюга водопада об утесы
Седыми бивнями волны.
И сивни облаков,
Нетоты туч
Над хивнями травы.
И бихорь седого потока
Великой седыни воды.
Я божестварь на божествинах!

A altinaria dos montes cinzentos.
A corrandeira das águas nos vales,
A nevarrasca caindo do abismo
Em grisalhos marfins de ondas.
E o agrisalhado das nuvens,
Outrasas nubladas
Sobre circundulantes matas.
E o pancar da corrente grisalha,
O grande grisalhar d’água.
Eu sou um divinomem em divinestâncias!

9)

Мне мало надо!
Краюшку хлеба
И каплю молока.
Да это небо,
Да эти облака!
(1912, 1922?)

A mim basta pouco!
Um naco de pão
E um tanto de mel.
E as nuvens que vão
No azul deste céu.
(1912, 1922?)

Mario Francisco Ramos. Docente de Literatura Russa na USP. Tradutor, publicou artigos sobre literatura russa e tradução de poema de Khlébnikov (revista Cadernos de Literatura em Tradução, no 2), traduziu a peça teatral “À Saída do Teatro…”, de Nikolai Gógol (Paz e Terra, 2002) e participou com a tradução de seis contos na recente Nova Antologia do Conto Russo (editora 34, 2011), com contos de Arkádi Aviértchenko, Velimir Khlébnikov, Boris Pasternak, Evguénii Zamiátin, Serguei Dovlatov e Vladimir Sorokin.

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Notas

[1] No poema será criada uma série de neologismos e associações de sentido com base em três formas radicais: motch (“мочь”) e mog (“мог”), além de moj (“мож”) e mochtch (“мощь”).
De motch (o verbo “poder”, em sua forma infinitiva), nasce a raiz de sua conjugação interna em primeira pessoa, mogú (“могу”, ou “posso”, em português), e da terceira pessoa do plural, mógut(“могут”, ou “podem”). Esta mesma raiz se expandirá, no texto, para sua função nos adjetivosmogútchii (“могучий”, que significa “potente”, “vigoroso”, “forte”) e também mogúchtchestvennyi(“могущественный”: “poderoso”, “potente”), além do substantivo moguchtchéstvo (“могущество”: “poderio”, “força”).
Moj , além de participar nas formas da conjugação do verbo “poder”, da segunda pessoa do singular à segunda do plural do presente do indicativo (por exemplo, em “tu podes”/ ty mójech/ “ту можешь” ou “nós podemos”/ my mójem/ “мы можем”), também está presente nas palavrasmójno (“можно”: “pode-se”, “é possível”) e vozmójnost (“возможность”: “possibilidade”).
Mog e moj estarão fortemente associadas, na formação de neologismos no poema do Plano X, entre outros casos, à raiz da palavra bog (“бог”: “deus”) e suas variantes, como, por exemplo,bojéstviennyi (“божественный”: “divino”) e bojestvó (“божество”: “divindade”). Etimologicamente, esta palavra está ligada, na língua russa, à formação do substantivo bogátstvo(“богатство”: “riqueza”), do adjetivo bogátyi (“богатый”: “rico”) e de bogátch (“богач”: “muito rico”, “ricaço”, “milionário”). Esta união gerou neologismos como mogátch (mog + bogátch) emojéstviennyi (moj + bojéstvienny).
O neologismo que abre o poema é de grande importância não só para o fragmento, mas paraZanguézi como um todo. Trata-se do neologismo mogatýr (“могатырь”), resultado da aglutinação de mog e bogatýr . Bogatýres eram os heróis das canções épicas antigas russas. Para o neologismo, utilizamos a construção “poderói”.
No caso de palavras nas quais ocorre a união das raízes associadas à idéia de “poder” (verbo ou substantivo) com outras palavras ligadas a “deus”, “divindade”, “divino”, como mojéstviennyi(“можественный”), mojestvó (“можество”), mog (“мог”), foram utilizadas as formas “podeidade(s)”, “podivino(so)”, “possenhor” e outras.
As uniões constantes formadas por “poder” associadas a “riqueza”, “rico”, “ricaço” e outras, comomogátch (“могач”), mogátyi (“могатый”), mogátstvo (“могатство”), a opção foi pelas variantes, entre outras, “posselhonário(s)”/ “posselhardário(s)”, “posseidor(es)”, “podereza”.
Também foi necessária a criação de formas verbais. Khlébnikov trabalha com ao menos três tipos distintos de neologismos que formam imperativos, a partir do verbo “poder”: moguéi (“могей”),mogái (“могай”), mogúi (“могуй”). As variantes possíveis de neologismos em português que mantivessem o mesmo sentido, na segunda ou terceira pessoa do singular (Khlébnikov utiliza a segunda pessoa do singular), não resultaram adequadas, seja por se assemelharem a formas já existentes em outros modos do verbo (como em “possa”), seja por simplesmente fazer recordar outros verbos (como na possibilidade de “poda”, que lembraria o verbo “podar”; esta possibilidade foi considerada inicialmente devido à relação com a criação do neologismo “eu podo”, em primeira pessoa). A opção adotada foi a criação de imperativos na segunda pessoa do plural, com as formas, por exemplo, “possai”, “podei”.

JORGE VIDELA, ex ditador militar da Argentina diz, orgulhoso, ter ordenado até 8 mil mortes

 

13/04/2012 16h21 - Atualizado em 13/04/2012 16h47

Jorge Videla deu entrevista a jornalista argentino que lança livro sobre o regime militar do país.

 BBC
O ex-ditador argentino Jorge Videla (Foto: AFP)
O ex-ditador argentino Jorge Rafael
Videla (Foto: AFP)

O ex-presidente militar argentino Jorge Rafael Videla (1976-1981) admitiu, pela primeira vez, que foi o responsável direto pelas ‘mortes e desaparecimentos de entre 7 mil e 8 mil pessoas’ durante seu governo.

A declaração foi dada ao jornalista argentino Ceferino Reato, que lança no próximo fim de semana na Argentina o livro ‘Disposición Final’ (‘Disposição Final’, em tradução livre), sobre os anos em que Videla comandou o regime argentino.

O general afirmou que a repressão violenta a opositores foi necessária para que não ocorressem protestos dentro e fora do país.

‘Não havia outra solução. Na cúpula militar estávamos de acordo que era o preço a se pagar para ganhar a guerra contra a subversão e precisávamos [de um método] que não fosse evidente, para que a sociedade não o percebesse’, disse Videla ao jornalista.

Em entrevista à BBC Brasil, Reato disse que ‘não foi difícil conseguir a entrevista’.

‘Videla não é procurado pelos jornalistas e estava disposto a falar’, disse.

Ordens
O ex-homem forte da Argentina afirmou ter dado as ordens sobre cada prisão e assassinato de seus opositores. Disse porém ser incapaz de apontar a localização dos corpos pois os assassinatos e eliminação dos cadáveres teriam sido praticados pelas diversas unidades militares sob seu comando.

Videla tem hoje 86 anos e cumpre pena de prisão perpetua na cadeia militar Campo de Mayo, na Província de Buenos Aires.

‘Tenho peso na alma, mas não estou arrependido de nada. Gostaria de fazer esta contribuição para que a sociedade saiba o que aconteceu e para aliviar a situação de muitos oficiais que atenderam às minhas ordens’, afirmou Videla ao jornalista.

As cerca de 20 horas de entrevistas foram gravadas pelo jornalista entre outubro de 2011 e abril de 2012. ‘Ele está bem fisicamente, apesar de curvado por problemas na coluna vertebral’.

‘Videla disse que [os militares] chegaram ao poder depois do golpe decididos a ‘aniquilar’ as ações dos subversivos’, contou.

Desaparecimentos
Videla contou que antes da decisão pelas mortes e desaparecimentos, outras formulas para ‘eliminar’ a guerrilha foram tentadas, como tiroteios disfarçados nas ruas.

‘Eu sabia tudo o que estava acontecendo e autorizei tudo’, disse Videla.

O livro foi chamado de ‘Disposición Final’ porque era como os militares definiam a última etapa a ser cumprida – primeiro prisão, depois morte, e no fim o desaparecimento do corpo.

‘Disposição final são palavras bem militares. Significam tirar algo de circulação quando já é irreversível’, disse.

Videla foi sentenciado à prisão perpétua em 1985, mas cinco anos depois recebeu o perdão do presidente Carlos Menem. Em 1998 foi condenado à prisão domiciliar, sob acusação de sequestro de bebês durante seu governo. Em 2007, o perdão de 1990 foi revogado e um ano depois ele foi enviado a uma prisão militar.

AMILCAR NEVES, teve uma das posses mais concorridas a uma cadeira na ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS dos ultimos anos.

auditório da ACADEMIA completamente lotado.

o acadêmico AMILCAR NEVES, diploma na mão, recem empossado, em foto histórica entre seus pares presentes.

o poeta J B  VIDAL foi cumprimentar o amigo  AMILCAR quando da cerimonia. uma pequena mão, de um futuro acadêmico, “tenta surrupiar” o medalhão do titular.

Salman Rushdie: pseudônimo batizará suas memórias / ag. f

O nome falso que Salman Rushdie usou enquanto durou a sentença de morte contra ele vai batizar o livro de memórias do escritor britânico nascido na Índia.

“Joseph Anton” terá lançamento mundial em 18 de setembro. No Brasil, o livro sairá pela Companhia das Letras.

Em 1989, após a publicação do romance “Versos Satânicos”, o aiatolá Khomeini, do Irã, anunciou uma “fatwa”, um decreto religioso que naquele caso estipulava uma sentença de morte, contra o escritor, alegando que o livro blasfemava o islã e o profeta Maomé.

Rushdie viveu por nove anos escondido e sob proteção policial, até que em 1998 o governo do Irã anunciou que não mais incentivaria o cumprimento do decreto religioso.

Segundo a editora Random House, que publicará “Joseph Anton” no Reino Unido, quando passou a viver escondido o romancista escolheu o pseudônimo –exigido pela polícia para dar-lhe proteção– em homenagem a dois de seus escritores prediletos: Joseph Conrad e Anton Tchékhov.

Zsolt Szigetvary/Efe
Escritor Salman Rushdie durante entrevista coletina em Budapeste em novembro de 2007
Escritor Salman Rushdie durante entrevista coletina em Budapeste em novembro de 2007
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