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M E N I N O C O M G O L E I R O S – por jorge lescano / são paulo.sp

M E N I N O   C O M   G O L E I R O S

 

Eu salvei um pênalti que vai ficar na história de Leticia.

Ernesto Che Guevara: Primeiras viagens.

 

São dois garotos chutando uma bola na pracinha deserta. O homem os observa de vez em quando e volta para seus livros. Está sentado no banco verde e consulta os volumes distraidamente, como quem os conhece demais ou se reservando para estudá-los com atenção em local mais apropriado. Fuma e olha em volta.

A tarde de outono está chegando ao fim. As vozes dos garotos chegam de longe, de uma distância maior que a da realidade da praça, dir-se-ia uma distância temporal.

São dois garotos diferentes. Um tem por volta de dez anos, o outro é menor, seis anos talvez. Este é branco, o outro negro e toma os cuidados de um irmão mais velho. Agora amarra os cadarços dos sapatos do pequeno e voltam a chutar a bola. Fazem comentários. O homem fuma e os contempla por trás dos seus grandes óculos.

O pequeno chutou a bola com força desproporcional ao seu tamanho e ela se elevou carregada pela brisa por cima dos braços esticados do outro, deixando vazias as mãos abertas. O homem vê a bola vir em sua direção. Muito alta, impossível detê-la sentado. O garoto maior que corria para alcançá-la estaca esperando que o homem detenha seu percurso.

O homem parece indeciso da atitude a tomar. Seus livros estão sobre as coxas. A bola se aproxima. Com calma o homem põe os livros de lado e no momento oportuno dá um pulo e segura a bola com as duas mãos. O salto foi lento, preciso, elegante, como de alguém que sabe dominar a situação por experiência. Devolve a bola ao garoto maior que o observa com curiosidade.

– Ô, tio! – diz o garoto recebendo a bola.

Presta-se a virar para continuar com a brincadeira, mas algo parece intrigá-lo. Não sabe como expressar o que sente.

– O senhor, hein, tio! – é o seu comentário cheio de admiração esportiva pela defesa espetacular do homem magro que olha o garoto de uma distância imprecisa, difusa na penumbra de fim de tarde que tanto se parece a uma lembrança.

Antes de chutar a bola para seu companheiro de jogo, ainda com ela nas mãos, o garoto contempla com calma o goleiro improvisado.

– Obrigado! – diz, e chuta em direção do garotinho que espera fazendo pose de goleiro na hora do pênalti.

O crepúsculo invade a praça.

A Copa Nacional versus Não Copa golpista – Dom Orvandil

A Copa Nacional versus Não Copa golpista – Dom Orvandil

Vive-se hoje verdadeira tensão desequilibrada entre a maioria que torce e apoia a Copa do Mundo no Brasil e uma minoria mesclada entre fingidos que publicamente dizem não se interessar pela Copa, mas que na intimidade torcem por ela e os que a ligam ao Governo Dilma e pressionam pela derrota da Seleção Brasileira tentando alvejar a candidata à reeleição. Há os que alegam que a Copa não deve se misturar com política, numa falsa dicotomia entre coisas que são políticas e outras que não são.

Torcedores e Seleção Brasileira - selfie

 

Querido Rudá Morcillo

Sou-te imensamente agradecido pelo convite que me fizeste para escrever para teu maravilhoso site (Meu Blog de Política). Este é o primeiro artigo que compartilho prazerosamente contigo, meu amigo. Abordo aqui o problema da luta política em torno da Copa do Mundo no Brasil.

Vive-se hoje verdadeira tensão desequilibrada entre a maioria que torce e apoia a Copa do Mundo no Brasil e uma minoria mesclada entre fingidos que publicamente dizem não se interessar pela Copa, mas que na intimidade torcem por ela e os que a ligam ao Governo Dilma e pressionam pela derrota da Seleção Brasileira tentando alvejar a candidata à reeleição. Há os que alegam que a Copa não deve se misturar com política, numa falsa dicotomia entre coisas que são políticas e outras que não são.

É preciso entender a vinculação política histórica entre os grandes esportes e as lutas dos blocos que defendem interesses contraditórios. A Copa sempre foi política, mesmo que o Felipão, treinador principal da Seleção, não saiba disso. O que é lamentável é que a Seleção do Brasil não receba um direcionamento deliberado como política de Estado na defesa dos interesses nacionais e sociais de nosso povo, como o Presidente Nelson Mandela fez na África do Sul, usando o futebol como fator de unidade nacional e de cura das feridas abertas e sangramentos divisionistas pelo racismo nazista, que separou negros e brancos, pobres e ricos, opressores e oprimidos.

Quando a direita dominou usou abertamente o esporte como fator de propaganda. Assim aconteceu no dia 1º de agosto de 1936 na Alemanha, evento olímpico aberto Adolfo Hitler. Com advento da TV o principal teórico de marketing e comunicação do ditador nazista o “ministro nazi Joseph Goebbels (blog Esquerda.net) como meio de propaganda política, encomendou um filme que retratasse a supremacia dos atletas “arianos” frente aos outros desportistas. Sob a direção de Leni Riefenstahl, foi rodado o filme Götter des Stadions (Deuses do Estádio), que registrou em mais de 300 quilômetros de película os principais resultados daquela Olimpíada para os alemães.” Os Estados Unidos, contudo, sem intervenção de Hitler, que não desejava isolar-se do mundo, enviaram para a competição mundial negros e judeus. Foi aí que a intenção política clara do nazismo de ressaltar a superioridade branca e ariana fracassou. “… a maior revelação das competições foi Jesse Owens, um atleta americano e, ainda por cima, negro.” Jesse Owens, negro, subiu ao centro e no alto do pódio.

Durante a ditadura civil-mediática-militar no Brasil o carniceiro general Garrastazu Médici usou e abusou da Copa e, principalmente da vitória dos Canarinhos em 1970, para fazer propaganda política da ditadura e calar os gritos e gemidos que emergiam das prisões e dos porões sujos de sangue, onde patriotas sofriam sob o tacão opressor do terrorismo adotado pelo Estado, por lutarem contra o fascismo.

Pelo lado do povo os países socialistas contaram com o esporte, notadamente o futebol, para unir seus povos. Assim aconteceu com a extinta União Soviética e acontece com Cuba, com a China e com todos os outros. Os grandes eventos esportivos sempre foram fatores políticos, de um lado ou de outro.

Aqui no Brasil nesse ano grupos de direita e a mídia, igualmente de interesse colonial e fascista, usa o povo e setores inocentes sociais para boicotar o governo Dilma, disso os esclarecidos sabem. A barulheira do “não vai ter copa” (até na frase há ignorância. Porque não dizer com simplicidade “não haverá copa”?) tem a intenção escondida o denuncismo sem provas, que nada fundamenta quanto à corrupção e gastos excessivos com o grande evento mundial. Os ruídos, felizmente cada vez mais abafados pela paixão nacional, intencionam evitar o sucesso dos jogos e, sublinhe-se, o “risco” de a Seleção sair-se campeã e de isso ajudar a campanha da reeleição da Presidente Dilma.

No fundo, essa campanha, ignorante não somente na formulação da frase, é contra o Brasil, é contra a comunhão internacional que se dará aqui nesses dias, é contra os milhares de empregos gerados direta e indiretamente pelas grandes obras que se edificam. É contra a enorme projeção cultural e econômica do Brasil. É uma torcida contra o Brasil e contra o nosso povo.

A TV Globo e os demais bobos da corte da casa grande, numa política perniciosa e antipatriótica, falam mal das obras e do legado que a Copa entregará ao nosso País. Mentem deslavadamente e de modo hipócrita, até para esconder os antros de corrupção de seus negócios, das sonegações e mentiras junto da Receita Federal. Esses órgãos, que são concessões do povo através do Estado, massacram a verdade ao mentir e tentar jogar o povo contra o mundo, que crava seus olhos em nós, impondo uma propaganda criminosa e ainda impetram mandatos judiciais pedindo que o STF libere os tais “protestos” durante os jogos, num verdadeiro arroubo de oportunismo.

Sinceramente, penso que o Ministério dos Esportes e a Presidenta Dilma deveriam ser mais enfáticos na orientação da Seleção Brasileira e exigir que os jogadores e toda a equipe de apoio tivessem aulas de política nacional, de posturas políticas em campo e de gestos que ajudassem nosso povo e lutar por mais dignidade, como nos ensinou o grande jogador Sócrates, que sabia como deveriam se comportar os jogadores conscientes de sua cidadania e dos compromissos com a Pátria, mesmo jogando.

Abraços críticos e fraternos na luta pela justiça e pela paz.

Dom Orvandil: bispo cabano, farrapo e republicano, também na Copa.

25 de maio, 2014 – por jorge lescano / são paulo.sp

25 de maio, 2014

Do outro lado do vidro, batia de leve o chuvisco de inverno. Ele fazia algumas pausas na leitura para apreciar melhor aquele som miúdo, música de câmara se comparado com as tempestades de verão, ribombantes, texturadas por fachos de luz iridescente, raios e trovões numa sinfonia romântica.

Desfrutava a leitura de modo diverso. Não procurava o final do relato, ao contrário, saboreava cada frase como um fruto isolado numa árvore carregada de frutas suculentas, douradas, aromáticas.

O resfriado obrigava-o a permanecer quase imóvel e bem agasalhado. Cobria as pernas com uma manta felpuda e bebia seu chá com prazer ostensivo, como se alguém estivesse presenciando a cena; melhor, como se ele estivesse representando para alguém invisível.

Contra seu hábito, lia um relato atrás de outro, como se todos eles formassem uma história única. Até a monotonia da tarde de domingo contribuía para saturar o clima de paz. Uma paz que raramente sentia.

Sentia-se na sua mítica Noruega, terra de trolls, criaturas dos bosques sombrios, de Ibsen, de Munch, de Grieg…, e de Peer Gynt!

Contemplou a capa do livro onde uma borboleta temporã adejava sutilmente, lembrando uma paixão do autor. Nabokov, apesar de redondamente russonário, era um grande escritor. Reconhecia que as sensações daquele momento eram em grande parte produto dos seus relatos.

Lembrou-se de uma tarde de cinquenta anos antes. Tinha ido visitar de improviso um amigo croata que morava na estação terminal de uma linha férrea. Depois daquela paragem era o deserto. Chovia molemente, Dentro da casa havia um aconchego de cobre salpicado pela luz de uma lamparina. Ele olhou pela pequena janela da sala enfeitada com uma modesta cortina estampada com pequenas flores e viu a chuva caindo no quintal de terra onde algum matinho balançava quando as gotas pousavam nele. Sentiu o calor do ambiente matizado pelo sotaque da mãe do seu amigo, que se afanava para servir chá e bolinhos e vodka.

Estou numa aldeia russa, pensou, numa isbá da estepe.

Um sentimento de gratidão o invadiu.

Bebeu mais um gole de chá, não queria estragar a sua sensação com qualquer comentário.

AS ELEIÇÕES E AS CARTOMANTES – poe wanderley guilherme dos santos / são paulo.sp

AS ELEIÇÕES E AS CARTOMANTES

Há quem morra acreditando que o fim do mundo está próximo. E há quem viva crente de que será o beneficiário de riquezas inesperadas, conquistas inauditas.

Cartomantes, videntes, intérpretes de pesquisas eleitorais e, muito especialmente, editorialistas e colunistas muito mais especialmente ainda, não são interpelados sobre a inexatidão dos prognósticos e profecias com que assustam ou embriagam seus clientes. Certo, vez por outra recebem leves críticas pelo fiasco das previsões, sem serem acionados por charlatanice ou falsidade ideológica. E a maioria dos viciados volta a procurar todos, e todas, sempre que temem o futuro.

Convenhamos, é coisa de enorme fragilidade emocional acreditar que o que lhe está desde já reservado, caso existisse de fato, se revela na manipulação matreira de valetes de copas, azes de espada e as cobiçadas damas de alcova, quero dizer, damas de outros, ou melhor, damas de ouros. Há modos de entender o fenômeno sem a necessidade de convocar entidades sub metafísicas ou supra psicanalíticas.

Há pouco, boatos de nobre origem alimentaram a expectativa de que os computadores iriam desarranjar-se sem conserto com a passagem do século. De 1999 para 2000 ou deste para 2001, contudo, nada aconteceu. E nessa dúvida cronológica já se encontra metade dos subterfúgios com que fracassados profetas justificam o escandaloso vexame, a saber: a volubilidade do tempo e a pobreza dos calendários. Esse negócio de contar o tempo não é fácil, como se comprova por consulta ao Google ou à Wikipédia. Papas e imperadores sempre desejaram aprisionar em métricas comedidas aquelas anomalias da natureza disfarçadas de micro milionésimos de segundos ou minutos e que, quando menos se espera, viraram algumas horas, dia até, ocasionando “bolos” históricos e rupturas matrimoniais. Calendários ditos Julianos, Gregorianos, lunares, sub-lunares, solares, maias e astecas, é vasta a oferta do modo de contar o tempo. Steven J. Gould, em Questioning the Millenium, faz erudita e bem humorada recensão de todas as tentativas.

Pois é ao caráter fugidio do tempo que os profetas apelam para justificar a decepção de suas apostas. Tratar-se-ia de erro de contagem nas mensagens cifradas das cartas, nuvens, borras de café, vísceras de aves e teclados de computador. Quem sabe o 1 era 2 e o 2, 3, e o dia do Juízo Final dos computadores se dará na passagem do ano de 2 999 para 3 000? Isso, claro, se o mundo não for destruído, antes, por herético conciliábulo entre reis, rainhas, damas e valetes de heterogêneo e pecaminoso conjunto de naipes.

Ao explicar o normal andar dos dias oposto aos reboliços prometidos por mais cuidadosa leitura do tempo, preservam a suposta dádiva da antevisão e a reputação do visionário, culpando os cosmólogos por não traduzirem corretamente os indícios emitidos pelo movimento e duração dos astros (Ponho aqui “indício” de caso pensado, termo tornado célebre por juízes e repórteres ao tomá-lo, tal como as cartomantes, por equivalente a “evidência”. Nos tempos que correm, conforme o calendário Juliano ou Gregoriano, não importa, indício quer dizer evidência, ou não, só quando convém, é evidente). No caso, defendem-se os catastrofistas com a desculpa de que os indícios não apontavam para evidências e, portanto, a data anunciada ficou comprometida. Pena só se ter tomado ciência disso depois de queda nas bolsas, suicídios antecipados e uísques tomados por conta. No próximo fim de mundo, ou de governo, asseguram, não falharão.

A outra muleta de profetas do não acontecer chama-se, petulantemente, dissonância cognitiva. Trocada em miúdos, a dissonância do mal arrumado profeta refere-se ao óbvio descompasso entre o que ele vê e o mundo real dos paralelepípedos e procissões religiosas. Se cismar de perceber nestas últimas a obscenidade de ritos pagãos não há santo que os persuada do contrário.

Cantochões tomados por convites à devassidão, paramentos anunciando a variedade de strip-tease que será apresentada, e por aí vai. Em suma, reinterpreta-se o mundo para fazê-lo conferir com a pretensa cognição. Nas seitas milenaristas, que anunciam o fim dos tempos, quando a desculpa não é o calendário que teria sido mal composto, é a dissonância cognitiva, isto é, os sinais ainda não teriam atingido sua forma derradeira e estaríamos ainda às vésperas dos grandes acontecimentos.

Há quem morra acreditando que o fim do mundo está próximo. E há quem viva crente de que será o beneficiário de riquezas inesperadas, conquistas inauditas e glórias, e poder, prestígio e pesquisas. Andaço muito comum em períodos eleitorais, levando os fiéis a permanente romaria entre a dissonância e o calendário. Nada a fazer além de deixar o tempo passar e só tocar no assunto no ano seguinte. A ressaca é longa.

A FILOSOFIA DO ÓDIO por marco vasques / florianópolis.sc

A FILOSOFIA DO ÓDIO

Por Marco Vasques

Publicada no jornal Notícias do Dia [12/05/2014]

Antes que alguém nos acuse de apocalípticos, já vamos explicando que não. Ao contrário, o mundo está até ordenado em demasia e, de alguma maneira, gostaríamos que ele estivesse mais revoltoso, mais radical. Seríamos capaz de desfilar um rosário de motivos pelos quais a revolta se faz urgente. A fome que assola todos os cantos do mundo. A corrupção generalizada e institucionalizada. As guerras criadas e deflagradas nos gabinetes. A presença de uma elite econômica cada vez mais reacionária. O preconceito – o silencioso e o violento.  A falta de políticas públicas efetivas para a saúde e a educação. Enfim, da calçada esburacada do bairro a uma simples compra no supermercado. Sim. Temos mais motivos para irmos ao protesto do que para ficarmos sentados à frente de uma televisão vendo a Copa do Mundo.

No geral, somos absorvidos pela rotina e acabamos amortecidos com tantos afazeres. Trabalho, escola, academia, oficina do carro, filhos, aluguel, plano de saúde, animais, amigos, família, e assim segue a roda viva de sempre. Os dias, os meses, os anos passam e quando nos damos conta, estivemos praticamente toda a vida correndo atrás da vida. No entanto, dispomos de uma infinita maneira de demonstrar nosso desconforto e, digamos assim, nosso ódio com tudo que está posto. O uso do ódio, fruto da indignação, para que haja um efeito real na vida prática, precisa estar pautado pela inteligência e por algum princípio de razão. Mas como assim? Usar o ódio com inteligência? Se podemos usar o amor com inteligência, e, infelizmente, raramente o fizemos, por que não o ódio? Não há nada mais clichê e chavão que afirmar que o ódio é tão humano quando o amor. E é mesmo.

Aqui poderíamos, ainda, abrir categorias de ódio. Do ódio privado, aquele que é gerado por uma insatisfação íntima, por uma inadequação à vida. Sim. Existem pessoas que são inábeis à vida. Ao ódio coletivo, ao ódio das causas comuns, que são muitas. O fato é que nem tudo é tão binário e compartimentado. Nossas emoções oscilam para um lado e outro, quando não para o acúmulo. Porém, um dado sobre o nosso exercício do ódio a ser observado é que ele quase sempre atinge o alvo errado. Os linchamentos de mendigos em praça pública; os assassinatos e esquartejamentos de nossas meninas; os estupros diários sofridos por crianças, adolescentes, jovens e mulheres. A nossa intolerância com quem opta por orientações religiosas e sexuais distintas das nossas são exemplos de que exercemos o imperativo do ódio como método de opressão, não de libertação. Temos que domar a filosofia do ódio para esmagar o uso da força e da violência contra quem já é, constantemente, violentado.

Crónicas da Infâmia – por maria josé vieira de souza / lisboa.pt

Crónicas da Infâmia

Portugal no Coracao

2 – Do ( Des)amor
Portugal foi sempre o meu país  e a minha pátria. Todavia, creio que país e pátria já não são coincidentes, nem tão pouco complementares. Não sei se alguém  o afirmou. Digo-o, apenas porque senti.
Um país preenche e  ilustra um mapa.  Uma pátria habita e adorna um coração.
A guerra começa quando se pretende apô-los e se descobre  que essa pátria não veste aquele país e esse país não tem corpo para aquela pátria. Ficar sem pátria é,então, ter um coração apátrida. São os laços que se quebram num coração que passa a sobreviver sem essas amarras.
Assim ficou o meu coração. Apátrida de um país que me dá a nacionalidade. Apátrida de um país que me inclui na população residente. Apátrida de um país que existe ausente de mim. E nessa ausência, tento  descobrir  o que fez deste  Portugal  um país de tantas pátrias expatriado. Confirmo, atónita,  que foi também uma outra ausência. A maior talvez, porque é uma ausência vital – a ausência do amor. Sem ele,  a infâmia vinga.
O amor, sentimento exigente, volatilizou-se adquirindo uma  forma estranha  que  enviesa os dias  e as gentes deste país. Arredou-se,  em degeneração profunda, dando lugar ao (des)amor.
(Des)amor que se implantou sem que fosse regulamentado, exigido, recomendado.
(Des)amor que se infiltrou sem pedir licença, mas entrando , invadindo, espalhando-se , qual erva daninha que brota sem ser semeada.
(Des)amor que reina, que dispõe, que exige, que quebra, que anula, que separa, que mata.
(Des)amor, a nova infâmia  deste  canhestro  e ancestral país.
As loas que, ao longo do tempo, os poetas  foram tecendo ao amor, jazem, agora, nas obras  maiores de Camões, de Shakespeare ,de Neruda ou de  tantos outros grandes poetas.
E se o  (des)amor  grassa e prospera pelo mundo, porquê invocar a infâmia?
Impossível não invocar a infâmia, quando se entra num Hospital apinhado de doentes nos corredores da urgência.
Impossível não invocar a infâmia, quando se não tem pão para matar a fome de um filho.
Impossível não invocar a infâmia,  quando se abandonam  quatrocentos mil desempregados à sorte de uma anunciada penúria extrema.
Impossível não invocar a infâmia, quando se coloca um pai, uma mãe, um avô, uma avó num Lar de idosos. Nesta situação, não se invoca apenas a  infâmia, confirma-se  a dolosa evidência do (des)amor. Basta entrar nesses Lares, áridos ou confortáveis, para verificar que são os  armazéns  dos  idosos. A dor magoa-nos sem reserva e sem defesa. Perante nós, desfia–se, em terrível surpresa, o verdadeiro estiolamento da família. São os pais , os avós,  abandonados, espoliados por filhos e por netos que foram desejados e amados na teia dos laços familiares, no  seio de uma família que todos incluía. E ei-los , empurrados para o último e mais confrangente lugar da degradação do amor: a sepultura dos vivos.
A finitude da vida apresenta-se na sua forma mais vulnerável e mais trágica . Roubar o tecto de uma vida inteira para  um chão que não se ajusta aos pés gastos por outros soalhos é invocar a morte e exercer  uma despudorada violência em nome  de uma solução sem qualquer outra alternativa.
Os lares deste país estão cheios de idosos, esquecidos, rejeitados, prostrados a um destino que não escolheram. O olhar de cada um perde-se na memória de um tempo que já não existe e de outro que se estiola. Feriu-me, logo que entrei num Lar.
No último que visitei, fui ao encontro de uma das mulheres mais notáveis do combate ao antigo regime fascista: Cândida Ventura.
Mulher corajosa, mulher histórica com um passado relevante e de referência na luta pela defesa da Liberdade. Uma das primeiras mulheres comunistas a atingir o topo da hierarquia marxista. Presa , exilada , viveu anos de clandestinidade ao longo da sua militância partidária. Ei-la , aos 95 anos, clandestina, confinada  e esquecida num Lar.
Inteligente, activa , em pleno  uso de todas as suas faculdades mentais, rejeita viver emparedada num Lar. Retirá-la , é- me impossível. Denunciar esta atrocidade é minha obrigação.
Cândida Ventura está viva, mas impossibilitada de viver a sua própria vida. Como ela , vivem milhares de idosos deste país.
País que deixou o meu coração apátrida.
Haverá infâmia maior?
                                                           Praia da Rocha,  4 de Fevereiro de 2014

CADÊ O AMARILDO? CADÊ MARIA DO ROSÁRIO? – por paulo timm / torres.rs

CADÊ O AMARILDO? CADÊ MARIA DO ROSÁRIO?

                        Paulo Timm – Torres, julho 31 – copyleft

Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado

Tiago: 4. 17

 

Há duas semanas o auxiliar de pedreiro Amarildo de Souza, brasileiro, morador da Rocinha-RJ, foi “detidoparaaveriguações” e ela Polícia Militar do Estado do Rio e sumiu.Ele não pode estar entre os 3,3 milhões de pessoas que saudaram o Papa. Mas, desde então, por todos os cantos do país, com grande impacto na mídia, todos se indagam:

CADÊ O AMARILDO?

O país está inquieto com o desaparecimento do operário nas mãos de órgãos de Segurança. Parece que voltamos PAULO TIMMaos anos de chumbo da ditadura. Ou, quem sabe, nunca saímos realmente dela? Mais precisamente, quem sabe ela sempre existiu para quem é negro, mulato, pobre e  morador de periferia? Ou gay? Lembro, com emoção do dia em que o General Geisel, Presidente da República, demitiu o Comandante do II Exército, em São Paulo,  Gen. Enardo D´Avila ,depois do episódio das torturas e mortes no DOI-CODI. Foi um momento dramático no processo de redemocratização. O país rumava para o Estado de Direito Democrático e se tinha grandes esperanças em que em breve veríamos o fim das arbitrariedades policiais. Com a Nova República em 1985 e com a Constituição de 1988 houve avanços: Os líderes de movimentos políticos e sociais são mais respeitados, apesar da criminalização de manifestações desde o Governo FHC. Mas a truculência nunca arrefeceu. Os métodos, a filosofia de atuação dos órgãos de segurança e a ação da Polícia continuam os mesmos quando tratam com pessoas simples do povo e mesmo com eventuais delinqüentes ou condenados ou simplesmente membros de uma minoria discriminada. No fundo, a questão social ainda é tratada, apesar dos afagos de um governo federal de inspiração popular em suas origens, como caso de Polícia, tal como na Velha República ou no Império. Ou na ditadura. Isso tem que mudar! O povo hoje mais esclarecido, mais consciente de seus direitos já não suporta este tipo de Política e de Polícia. Metade dos eleitores brasileiros já têm secundário ou superior completo, nas grandes metrópoles todos têm acesso à INTERNET e Redes Sociais, um terço dos municípios brasileiros, segundo IDHM recém publicado pelo IPEA/PNUD, é  alto e comparável ao de países desenvolvidos, nossa vida média também é comparável à deles, 73 anos. Estamos vivendo mais, sabendo das coisas e de olhos e ouvidos muito abertos. Por isso queremos saber:

CADÊ O AMARILDO?

Chega a ser comovente, ver e ouvir familiares de sua família dizendo que não querem proteção governamental. Querem é saber do Amarildo. Até porque se dizem protegidos pela comunidade. Que coisa impressionante! Sentem-se protegidos pela comunidade. Então, existe comunidade na Rocinha. E existe consciência e solidariedade na favela. A favela é humana…Isso, acima de tudo, é lindo! Isso é o verdadeiro Brasil! Não o mundo artificial dos Políticos e outras autoridades públicas deste país que continuam a achar que seus cargos lhes conferem privilégios de Príncipes: salários altíssimos, assessorias incontáveis, mordomias, conluios altamente sospechosos  com interesses privados como se vivêssemos nas cortes absolutistas. Pior: eternização na vida pública tansformando de instrumento da sociedade em meio de vida pessoal.

Aí vem o Governador Cabral,  tocado pelas palavras do Papa e pede perdão pelos pecados cometidos. Reconhece que foi soberbo e prepotente.  Agora vai ouvir as ruas: O Museu do Indio será preservado, ao lado do Maracanã. As passagens de ônibus não aumentarão. Eotras cositas más…Tocante! Mas tragicômico. Teve que ter o menor reconhecimento público (12%) e submeter o Brasil aos vexames dos desencontros na vinda do  Papa Francisco para se dar conta de que havia “ algo de podre no Reino da Dinamarca”. A ele meu  veredicto:

                                               FORA CABRAL!

Mas ao longo de todas as manifestações de junho e julho, me ocorre outra indagação:

CADÊ A MARIA DO ROSÁRIO, Ministra dos Direitos Humanos?

A diligente Ministra, tão ciosa de suas responsabilidades na Comissão da Verdade parece achar que os atentados à pessoa humana só aconteceram na ditadura. Será que ela não sabe que não há Governo sem crime? Particularmente em sociedades com elevado passivo social e evidente histórico de violência policial? A OAB e Defensorias Públicas do Rio e São Paulo, até de outras cidades que também têm visto manifestações de rua, não arrefeceram em seu ofício de proteger a cidadania. Mas jamais vi ao lado deles a Ministra. Nem lhe ouvi uma só palavra sobre os exageros do Estado contra manifestantes ou mesmo contra  meros transeuntes, vítimas de balas de borracha e gases  intoxicantes. Isso se chama omissão. A mesma omissão do antigo comandante do II Exército, à época dos generais, que o levou ao desterro:

É evidente que estamos falando de omissão, que nada mais é do que nos silenciar diante de determinadas coisas, ficarmos mudos diante de fatos onde deveríamos nos posicionar, deixar de lado aquilo que não poderia ser deixado.

(O pecado da omissão - http://www.palavrafiel.com.br/?p=3865)

 

Ora direis ouvir estrelas, responderão alguns. Isso é pura poesia teológica. Recorro, então, ao dicionário e ele é ainda mais contundente:

Omissão, no direito, é a conduta pela qual uma pessoa não faz algo a que seria obrigada ou para o que teria condições.

Deduzo, pois, que Maria do Rosário foi e continua sendo OMISSA diante do que vem ocorrendo no país e, principalmente, diante do desaparecimento de Amarildo. Ela deveria ser sempre a primeira voz em defesa dos Direitos Humanos ameaçados. E a primeira a exigir providências, na forma da Lei. Se não o fez e não faz, cabe à Presidente Dilma a responsabilidade de chamá-la ao Ofício. Enquanto isto, nos continuaremos gritando, a plenos pulmões:

                               C A D Ê   O   A M A R I L D O?

E lamentando o fato de que uma área tão delicada quanto Direitos Humanos tenha sido entregue, não a uma lutadora ou  lutador eméritos desta nobre causa, como é Perez Esquivel, como é Paulo Sérgio Pinheiro, como é José Gregori, como foi Dom Paulo Evaristo Arns,  mas a uma militante partidária,  eventualmente respeitável  mas sem vulto, nem desenvoltura  na área. Muito menos independência.  Decididamente, Dilma está só. Muito só!

Senhor, rogai por ela! Por Amarildo! Por todos nós..!!!

PRESENÇA DO PAPA – por paulo timm / torres.rs

PRESENÇA DO PAPA
Paulo Timm – Torres 23 julho – copyleft
Francisco I , Papa há apenas quatro meses, chegou ao Brasil numa mensagem de grande otimismo à juventude.  Seu estilo parece ter agradado: simplicidade. Nas palavras, nos gestos, nos aparatos. Nada de ostentação, o que cai como uma luva na conjuntura nacional, mobilizada precisamente em torno de uma mudança na cultura política do país. PAULO TIMMNisso, Francisco I  tem tudo para se consagrar como um ídolo carismático. Ídolos dificilmente são homens ou mulheres sofisticados, de grande erudição. As grandes massas preferem, sempre, alguém que se confunda com ela e que expresse uma mensagem singela, mais de sentimentos que falam ao coração do que fortes argumentos sustentados pela razão. Cristo mesmo, tinha esse perfil, mas isto ocorre em outros campos da vida social. O ídolo é uma espécie de herói,  sem se deixar envolver pelo excesso de familiaridade, marcado com o carisma como uma espécie de graça divina.
O herói é sempre – ele também – um mediano dotado de superpoderes. É a aplicação (ou o sinal da Graça) do arquétipo do herói a uma pessoa dotada de misteriosas fluxos e comunicações empáticas.
Pela leitura ideológica, o estrelato é uma apropriação pelo sistema produtor das qualidades empáticas e de certos dons gratuitos de atores tomados pela magia do estrelato. Pela leitura psicológica o estrelato é uma relação profunda entre pessoas com um “self” extrovertido capaz de simbolizar valores patentes, latentes , ou jacentes no público. São seres marcados por alguma forma particular de Graça, identificados com o mistério e o sagrado. Daí o carisma, marca peculiar, “graça extraordinária concedido pelo Espírito Santos” segundo a definição do cristianismo
                                                          Arthur da Távola – Talento e Carisma
O Papa Francisco reúne todas essas características. É um homem sem grandes mistérios, de origem definida, de prática sacerdotal  aparentemente inatacável. A tentativa de intrigá-lo com as esquerdas latinoamericanas, em razão de uma suposta omissão durante o regime militar na Argentina, não se confirmaram. Perez Esquive, Nobel da Paz, foi o primeiro a sair em defesa do Papa. Se porventura ele não foi um combatente, nem mesmo resistente como “ As Mães da Praça de Maio, tampouco foi colaborador dos militares. E está se saindo bem nos primeiros pronunciamentos no Brasil :–“ Não trouxe ouro nem prata. Trago Jesus Cristo”. Palavras óbvias, mas, por isso mesmo oportunas e convenientes. O Brasil vive um momento delicado e exige cuidados. Ele demonstra que os tem.  Parece até ter escutado aquele famoso conselho de Jung que recomendava sempre à alma que fala lembrar-se de que falava à outra alma humana. De resto, chega ao Brasil numa nova Era da própria Igreja, já muito distante dos Poderes terrenos e mais aberta  ao diálogo com ideologias de forte caráter social. Não por acaso, registrou a imprensa a afinidade do discurso de Dilma Roussef  com os ideais cristãos, malgrado  o pequeno deslize da sua referência exclusiva à década  petista da inclusão social.
Ao mesmo tempo, estamos recebendo um Papa diplomático. Diante de um discurso meio desleal da presidente Dilma Rousseff, que aproveitou o momento para promover os dez anos de trabalho do PT, o Papa argentino ofereceu uma fala moderada, de extrema simpatia, sem abrir o seu estoque de críticas à sociedade moderna, que cria e abandona excluídos.
Teremos mais seis dias de programação, pelo visto com o mesmo nível de risco na circulação do ilustre visitante, que imagina estar seguro no Brasil, mesmo sendo o Rio de Janeiro uma cidade minada pelo crime organizado e por manifestações a cada momento mais violentas.
Seja o que for, realmente, o primeiro dia do Papa deixou para o mundo uma imagem de um Brasil humano, alegre e até seguro. Rezemos para que permaneça assim.
                              (Jorn. Renato Riella – BSB – FB)
Bem Vindo, pois  Francisco! Que suas palavras alimentem este momento de renovação e esperanças do Brasil!

POEMA SONHADO – ALHO-PORÓ – por jorge lescano / saõ paulo.sp

ALHO-PORÓ

(poema sonhado)

 

Para Maria Aparecida

In memoriam Marguerite Duras

As folhas

finas

as nervuras

a cor

das folhas.

Verde.

Folhas e folhas

de alho-poró.

O talo:

fino

esbranquiçado.

O bulbo:

arredondado

fiapos ásperos

levemente amarelados:

A verdura.

O vento

nas folhas.

O cheiro

trazido pelo vento

nas folhas finas

da verdura.

O cheiro da verdura.

Na cozinha

O alho-poró

nas mãos

da mulher

que amorosamente

condimenta

a sopa da família.

Eis o poema sonhado nesta manhã nórdica de São Paulo. Quis transcrevê-lo como o recuperei na vigília antes que o dia me tomasse a mente. Com certeza mais tarde escreverei sobre as vertentes que reconheço como origem do sonho porque me apraz investigar essa coisa que alguns chamam de inspiração. Agora, no entanto, preferi referi-lo como eu o traduzia para duas ouvintes.

O engraçado do caso é que eu o traduzia do castelhano para duas mulheres bolivianas que poderiam ler o original. Curioso também que elas tivessem essa nacionalidade, pois não tenho contato com ninguém da Bolívia.

Na leitura onírica havia elementos visuais que embora não correspondam à realidade, a enriqueciam. As folhas sonhadas eram mais largas que as do alho-poró e tinham uma variação de cor que ia do verde escuro ao amarelo, esta variação cromática era observada pelos três personagens e devidamente apreciada. Isto tornava a planta, e o poema, mais sutis. Para ilustrar esta qualidade do sonho deveria aproveitar a imagem da folha de outra planta, com outro formato e outra textura.

Há, na gênese deste sonho, circunstâncias familiares e pessoais que o formaram. Estou trabalhando num relato que trata da tradução e por uma situação dolorosa penso constantemente em minha mulher, da qual estou separado há vinte anos, especialmente na hora em que preparo o modesto jantar na minha mansarda.

Três pessoas se apresentaram à memória para a dedicatória. A primeira é a que está estampada, as outras duas por motivos diversos. Uma é poeta e creio que apreciará esta minha incursão no seu quintal. A outra fez o seu doutorado em letras francesas com tese sobre Marguerite Duras, razão pela qual com ela compartilhei a leitura das obras de nossa amada escritora durante um longo período e que certa vez, para “ilustrar” um evento realizado com textos dela, me telefonou pedindo que localizasse uma receita de sopa de alho- poró em um dos seus livros.

Para que o leitor desta nota não fique em suspense digo que esse texto tem o título de A sopa de alhos-porros e se encontra no livro Outside (São Paulo, Difel, 1983).

Triturar calçadas ou preservar o mangue / amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

 

Sou realmente um ignorante irretocável em assuntos de administração pública e gestão do meio ambiente. Vejo atitudes, ações, omissões e declarações e não consigo assumir uma posição nem formar um juízo ao menos razoável Amilcar Nevessobre os acontecimentos: tudo pode ser tanto uma coisa como o seu extremo oposto. Não consigo assumir uma posição a não ser levado por uma revista, uma televisão, um pastor ou um líder carismático (especialmente se esse líder pagar o meu sacrossanto salário mensal).

 

A dialética se instala e nada concluo sequer com mediana clareza. De acordo com o Houaiss, noplatonismo a dialética é um “processo de diálogo, debate entre interlocutores comprometidos com a busca da verdade, através do qual a alma se eleva, gradativamente, das aparências sensíveis às realidades inteligíveis ou ideias”. O problema em Platão é descobrir quando os interlocutores buscam honestamente a verdade e quando atuam segundo um papel predeterminado, seja político, filosófico ou religioso, mas sempre de olho nalguma vantagem. No fundo, todos queremos ganhar mais dinheiro, independente de quanto tenhamos e de quanto efetivamente necessitemos. Me darei por feliz se conseguir te ludibriar, inclusive intelectualmente.

 

De fato, hoje todos os idealismos estão sepultados, todo mundo esconde um interesse, muitas vezes inconfessável, por detrás das palavras, pensamentos, atos e omissões. Não há para onde correr, seja para o Executivo, o Legislativo, o Judiciário, a Igreja ou o Ministério Público: tudo é relativo e depende de interpretações que hoje são pétreas e amanhã serão reformadas sem qualquer escrúpulo, respeito ou consideração pelos prejudicados. Melhor dizendo: pelos atropelados.

 

Afinal, a vida se faz assim, não é mesmo?, de acertos e erros, de vantagens e prejuízos, de momentos e oportunidades, de ganhos e perdas. Sinto muito. Se faz de trapaças e desonestidades. No fundo, a questão básica é posicionar-se (custe o que custar) como o homem certo na hora certa e no lugar certo; qualquer desvio em uma dessas três circunstâncias levará para o brejo a tua causa (por mais nobre que seja) feito vaca atolada.

 

Vejo, por exemplo, uma gigantesca lagarta e um leve lince a revolver as águas e as margens do Rio do Sertão à saída do bairro Santa Mônica, operação que já realizaram manguezal a dentro pelos baixios pantanosos do Itacorubi. Rio e regatos dragados para cima e para baixo. Humm… Imagino que seja uma operação necessária e, até, indispensável: se as águas não tiverem leito onde rolar, subirão às margens e transbordarão, inundando em volta casas, ruas e lojas (construídas, um dia, sobre o mangue).

 

Lagarta e lince (caterpillar e bobcat, no original), retroescavadeiras de esteira de aço, avançam devastando o caminho que percorrem e empilham, ao lado, o lodo com vegetação retirado das margens e leitos dos córregos. Mas ali vivem jacarés, tartarugas e peixes de 40 centímetros. Fora caranguejos e a fauna miúda. Onde irão parar, durante a operação que ocorre a cada seis meses, esses animais, seus ninhos e seus ovos?

 

Além disso, para chegar ao local de trabalho, ao cruzá-los esse maquinário tritura em diversos locais meios-fios, ciclovia e pista de caminhada, inclusive uma calçada que fora refeita há semanas, depois de passar meses detonada. Não haveria formas de criar alguma passarela móvel, por exemplo, que preservasse os bens públicos?

 

Burro que sou, não encontro respostas. Porém, dialeticamente falando…

A MORADA DO SER – por paulo timm / torres.rs

A MORADA DO SER

Paulo Timm – junho,10-Torres RS 

 

 

 

Palavras sempre sabem o que querem” . (Adriana Falcão , Pequeno Dicionário de Palavras ao Vento)

Hoje , dia 10 de junho celebra-se o Dia da Língua Portuguesa, data da morte de Luiz de Camões, “Pai da Língua”, autor de “Os Lusíadas”, em 1589. É com a língua que resistimos e existimos como espécie. E que nos diferenciamos na Babel de povos distintos. O próprio português PAULO TIMMdo Brasil, distanciando-se do lusitano,  é um amálgama do poder colonial com  a malemolência tropical, obrigada, por duas vezes, a discriminar o tupi, amplamente falado no território até o final do século XVIII: Pelo Marquês do Pombal, em  17 de agosto de 1758,  e por Dom João VI, em 1808.  A língua é, de resto,  nossa primeira prisão, nas malhas da  razão que a própria razão desconhece; mas é também, nossa única possibilidade de alforria, pelo exercício da liberdade.

Em 1968, por exemplo,  às vésperas do AI-5, uma canção, de Geraldo Vandré, sintetizou este poder da língua, ao ser interpretada nas eliminatórias por ele próprio no III Festival Internacional da Canção, transformando-se no maior hino de repúdio à ditadura militar: “Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores” ou “Caminhando“. Até hoje, para quem viveu, mesmo de longe, aqueles momentos, não há como sufocar  à forte emoção que evoca e que bem demonstra o importante papel da cultura, em seu vasto espectro, na redemocratização do país, independentemente do grande enigma que Vandré ainda representa em sua poética solidão.(É patética sua fala, mas digna de respeito, tanto pelo personagem humano, como pelo gênio artístico ineludível,  na recente entrevista concedida a Geneton de Moraes Neto, na GloboNews):

 

“Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Caminhando e cantando
E seguindo a canção…

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer…(2x)

Pelos campos há fome
Em grandes plantações
Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão…

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer…(2x)

Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição:
De morrer pela pátria
E viver sem razão…

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora”

 

Lamentavelmente,  os comentaristas da grande mídia obnubilaram a data da língua, preferindo as estatísticas da economia, no melhor estilo da velha tradição,   tão condenada pelos verdes: a maldição do PIB. Mas se a moeda forte nos mercados globais não é o real; se a tecnologia, até mesmo do provecto automóvel  “nacional” , vem de fora; e  se a economia está se desindustrializando, sob o fascínio da exportação de commodities que nos aferra à matriz colonial, tão condenada por Caio Prado Jr., desde seus primeiros escritos econômicos da década de 30 do século passado, o vernáculo é nosso.  Fernando Pessoa, Poeta Maior da língua, ia mais longe. A língua, para ele se confundia com a própria pátria, no melhor estilo heideggeriano, para quem a palavra é a morada do ser:

“As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie – nem sequer mental ou de sonho – , transmudou-se o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintática, me faz tremer como um ramos ao vento , num delírio passivo de coisa movida.         (…)

Não tenho sentimento político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a ortografia sem ípsilon, como o escarro direto que me enjoa independentemente de quem o cuspisse.

 

Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da trasliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.

 

(Fernando Pessoa –  Livro do Desassossego, por Bernardo Soares, Lisboa, Ática, 1982)

Mauro Santayana, decano do jornalismo brasileiro, não vai tão longe. Mas defende a língua escrita como  fundamento da soberania e tem uma posição de defesa intransigente da pureza do idioma:

“Demolir a linguagem é demolir o homem. Quando se trata de política de Estado, é crime contra o povo.”

(Mauro Santayana, Linguagem e Soberania – www.maurosantayana.com)

Mais do que         morada, pátria e essência da soberania de um povo:  A linguagem escrita é um momento do processo civilizatório que potencia a comunicação humana elevando-a culturalmente. A importância da Grécia Antiga consistiu precisamente no fato de que foi a simplificação da sua escrita , de base fonética, mais avançada do que as paralelas,   que proporcionou uma  inédita sinergia  da inteligência da época naquela região, culminando no requinte do helenismo.   E, mesmo sucumbindo ao poder de Roma, foi esta cultura que forjou os valores fundamentais da cultura ocidental, demonstrando o poder da palavra trasliterada na “última flor do Lácio”:

Língua portuguesa

Olavo Bilac


Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

em que da voz materna ouvi: “meu filho!”,
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

            ( “Poesias”, Livraria Francisco Alves – Rio de Janeiro, 1964, pág. 262)

 

É pelas palavras escritas e pela língua falada que nos identificamos como um povo no seu cotidiano. Por elas  nos eternizaremos como cultura, sendo, portanto nossa maior riqueza, aquela que se projeta como mito. Podemos não comer palavras, no sentido literal, nem chegar com elas, literalmente, às estrelas. Para tanto, farse-ão indispensáveis a boa matemática, a física e a tecnologia. Mas pela palavra dizemos do nosso espanto e descobrimos o logon da  fina teia de Ariadne. E pela palavra cantamos nossos sentimentos, suportando a dor e revalorizando a existência. E quando a palavra corta, abre-se o silêncio que grita:

“A última palavra é a palavra do poeta; a última palavra é a que fica.
A última palavra de Hamlet:
O resto é silêncio.
A última palavra de Júlio César:
Até tu, Brutus?
A última palavra de Jesus Cristo:
Meu pai, meu pai, por que me abandonaste?
A última palavra de Goethe:
Mais luz!
A última palavra de Booth, assassino de Lincoln:
Inútil, inútil…
E a última palavra de Prometeu:
Resisto!”

(José Antonio Küller  – Liberdade, Liberdade – http://josekuller.wordpress.com/3-liberdade-liberdade/)

A besta na jaula – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

O ano é 1916.

 Amilcar Neves

O mês: agosto.

 

O dia: a sexta-feira 11.

 

O local: uma sala escurecida, fedendo a cigarro, poeira e tinta, na rua Jeronymo Coelho nº 5. Silenciosa e vazia, os sons e ruídos da cidade, escassos, não conseguem vencer venezianas, vidros, postigos e as gastas cortinas aveludadas, menos ainda as grossas paredes da edificação.

 

Um barulho seco e brusco tira os móveis da modorra noturna. Embaixo, as máquinas silenciaram há muito e o alarido dos moleques vai longe, anunciando as maravilhas espantosas estampadas pelo jornal vespertino. Quase se pode dizer que a cidade honesta se prepara para dormir. Aqui e ali se vão encerrando os serões das famílias, as pessoas a se despedirem respeitosas. Logo o Teatro Álvaro de Carvalho concluirá outra encenação de uma revista musical de vibrante sucesso, escrita por consagrado autor da terra.

 

Nesse silêncio ordeiro de gente devota e virtuosa, de cidade comportada, o barulho embaixo se repete, agora mais seco e impaciente, e a fechadura da porta externa cede sob a pressão, rangendo num guincho agudo que perfura a noite. A Ilha treme um pouquinho, uma luz se acende na casa em frente, uma janela se abre no sobrado e uma dona assoma sonolenta, o roupão descuidado, aberto, deixando à mostra um seio de alabastro que jamais recebeu o calor do sol; coroando-o, um mamilo escuro desponta impudente.

 

Oclândio Ramos faz um sinal para Lindaura Consuelo e lhe dá as costas. Ela, por sua vez, afasta-se do ar frio da noite e, em segundos, a luz do quarto no sobrado está apagada.

 

Para mesas, máquinas de escrever e cinzeiros atulhados de xepas de cigarro na sala do nº 5 da Jeronymo Coelho, porém, a tensão aumenta a tal ponto, com o barulho que vem de baixo, da porta da rua, que nem a poeira suspensa no ar abafado se sente em segurança. Agora são como que passos escalando degrau a degrau. Um vulto surge nebuloso no topo da escada.

 

Dito vulto cruza o local como se conhecesse cada obstáculo como o corpo da amante, mete a mão no trinco da porta de vidro, escancara-a, senta a uma escrivaninha, acende um cigarro, liga um abajur de mesa, da sua mesa, pega uma lauda em branco e alimenta a máquina de escrever. Analisa a folha vazia à sua frente e então datilografa no alto da página, em capitais, as palavras A Besta na Jaula.

 

O vulto é Oclândio Ramos, redator chefe e diretor comercial deO Estado, o “Jornal de maior circulação em Santa Catharina”. Oclândio olha para a mesa vazia da sua secretária, ao lado, e conclui que é melhor assim, “com a Lindaura Consuelo por perto, e sem ninguém na redação, não ia sair matéria alguma”, e ele tinha que trabalhar no furo que iria estremecer a cidade e, em seguida, todo o estado.

 

Oclândio acabara de ver Joaquim Adeodato, recém-chegado à cidade pelo vapor Max, da companhia de navegação de cabotagem do alemão Hoepcke. Mandou fotografar para o jornal o último chefe dos fanáticos no Contestado: descalço, em mangas de camisa, ladeado pelo tenente Cabreira e por um cabo do Regimento.

 

Vai ser o furor do fim de semana!, avaliava Oclândio, a cidade vai falar nisso até o Natal!

 

Entusiasmado, “é isso que o povo quer”, considerou, pôs-se a teclar com fervor quase religioso, numa fúria santificada:

 

“Desde que se soube aqui, por via telegráfica, que havia sido preso, pelo tenente Cabreira, o célebre bandoleiro Joaquim Adeodato, a população está vivamente interessada em conhecer esse homem, sobre quem pesam os mais graves crimes.

 

“Ontem, circulou na cidade a notícia de que o célebre chefe dos fanáticos vinha para esta capital, a bordo do ‘Max’.

 

“A curiosidade pública se acentuou, então, e grande massa popular se avolumou no trapiche Rita Maria, onde atracou o ‘Max’, às 11 horas, esperando ver o indigitado facínora.

 

“Mas, a polícia, previdente, havia partido, em sua lancha, ao encontro do ‘Max’ e, no canal do Estreito, o abordou, recebendo a bordo da ‘Santa Catharina’ o terrível fanático que desembarcou, escoltado, pelo trapiche da Praia de Fora.

 

“Dali Adeodato foi conduzido à cadeia pública, onde está recolhido.

 

“Mesmo assim, pelas ruas por onde transitou a escolta que trazia o indigitado criminoso, foi se reunindo grande número de curiosos que vieram, na retaguarda da escolta, acompanhando Adeodato até a cadeia.

 

“Adeodato será interrogado hoje pelas autoridades.”

 

Oclândio recostou-se satisfeito na cadeira, jogou os olhos sobre o texto fresco, acendeu o oitavo cigarro, pensou com volúpia nos seios brancos de mamilos pretos e atrevidos de Lindaura Consuelo e sorriu de bem com a vida.

 

Sob a mesa, no cesto de lixo, amassado com raiva e picotado em dezenas de fragmentos, jazia o texto de duas colunas da entrevista exclusiva que “esse imbecil do Teotônio Almeida”, correspondente em São Francisco, conseguiu com Adeodato, “o sicário e temível assassino do Contestado”, na cadeia pública da cidade.

 

Começava assim, a matéria: “Nós, que esperávamos ver nesse instante o semblante perverso e hediondo de um bandido, cujos traços fisionômicos estivessem a denotar a sua filiação entre os degenerados e os desclassificados do crime, vimos, pelo contrário, diante de nós, um mancebo em todo o vigor da juventude, de uma compleição física admirável, esbelto, fronte larga, lábios finos, o superior vestido de um buço pouco denso, cabelos negros, olhos de azeviche, pequenos e brilhantes, dentes claros, perfeitos e regulares, ombros largos, estatura mediana, tez acaboclada e rosto levemente alongado”.

 

- Porra! – exclamou Oclândio Ramos no meio da redação vazia. – Por que cargas d’água o bosta desse Teotônio queria fazer de Adeodato um ser humano, caralho?

 

 

 

N.S.Desterro, março de 2013

O TAC. De novo?! – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

Os abris não têm sido benevolentes com o Teatro Álvaro de Carvalho, o nosso TAC. Nosso porque é um bem público, um patrimônio da Amilcar Nevessociedade – e uma bela edificação tombada, um dos poucos resquícios arquitetônicos do século XIX que sobraram na Ilha de Santa Catarina. O resto foi abaixo.

 

Em abril de 2007 o TAC estava na linha de tiro para ser privatizado. Não só o Teatro como a Biblioteca Pública do Estado e dois museus, todos administrados pelo governo estadual, que tem a obrigação legal de mantê-los e fazê-los funcionar. Dispunha de pessoal e orçamento para isso, mas o governador achava que a iniciativa privada tudo resolve melhor e mais eficientemente do que a administração pública. Na verdade, desejava fazer caixa com a venda do terreno da Biblioteca e com o repasse do prédio do Teatro.

 

Notável humorista e exímio nomenclador, Luiz Henrique da Silveira iniciava seu segundo mandato em 2007. Quatro anos antes, para o órgão estadual que “cuidaria” da Cultura deu o nome de Secretaria de Organização do Lazer (o lazer, então, andava que era uma esculhambação só), para a qual forjou a criativa sigla SOL, e propôs a extinção da Fundação Catarinense de Cultura. Não conseguiu matar a FCC e, em 2005, mudou o nome da pasta para Secretaria de Cultura, Turismo e Esporte, à qual atribuiu o mesmo SOL como sigla. Tudo a ver. Quando teve a brilhante ideia de suprimir das obrigações estaduais a Biblioteca, o Teatro e os museus (também não conseguiu matá-los, apesar de lutar bravamente cortando-lhes os repasses de verbas e não repondo o pessoal que saía), renomeou o órgão como Secretaria de Turismo, Cultura e Esporte, uma mudança fundamental refletida já na sigla que lhe conferiu: SOL.

 

A maior piada de LHS foi criar 36 secretarias regionais, idealizadas para abafar ou cooptar lideranças que surgissem em qualquer ponto do Estado, chamando-as “de desenvolvimento”. Outra, recente, foi publicar sexta-feira neste DC o artigo A Capela Sistina, a Torre Eiffel e a Ponta do Coral, onde afirma que a Ilha perderá seu “novo ícone” se continuar opondo-se à construção de um hotel privado, ao estilo Dubai, na Ponta do Coral; esqueceu que o ícone já existe, chama-se Ponte Hercílio Luz e, durante suas duas gestões, ele não a recuperou nem como ponte, nem como monumento. A Ponte só não caiu porque não quis.

 

Agora, neste novo abril, o TAC volta a ser ameaçado. Vazou, e a imprensa local tem publicado, que há um acerto costurado com o SESC para repassar-lhe o Teatro. Gente da SOL e gente da Fecomércio, a federação dos sindicatos patronais dos comerciantes, que administra o SESC, desconversa dizendo que ainda não se chegou aos detalhes operacionais do acordo. Apesar disso, confirma-se que a assinatura do repasse se dará no próximo dia 8 de maio. Onde? No próprio TAC, é claro, de carona em solenidade de lançamento de editais para a Cultura. Era para ser surpresa.

 

Fala-se desde um comodato de 45 anos até algum compartilhamento de pauta durante 100 ou 200 semanas. Pelo uso do bem público, a entidade do Comércio faria reformas necessárias no prédio. Como de hábito, aqui fora ninguém sabe de nada: nem o respeitável público, nem os nobres artistas.

 

Além de se alinhavar essas coisas a portas fechadas, o que é muito feio, o pior é que se ignora a existência de um Plano Estadual de Cultura em gestação (a despeito do governo atual), que deveria orientar esse tipo de iniciativa. Mas seria no mínimo ingenuidade acreditar, aqui, em planos e em Cultura.

GUIMARÃES ROSA – por paulo timm / torres.rs

“Quando escrevo, repito o que já vivi antes.
E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente.
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo
PAULO TIMMvivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser
um crocodilo porque amo os grandes rios,
pois são profundos como a alma de um homem.
Na superfície são muito vivazes e claros,
mas nas profundezas são tranquilos e escuros
como o sofrimento dos homens.”

Então, Guimarães é notícia em destaque?

Por quê…?

Aconteceu alguma coisa? Ganhou o Nobel de Literatura Post Mortem? A patrulha descobriu que ele era racista, homofóbico, ou vice-versa?

Nada disso, apenas Guimarães — eterno — e uma resenha ao léu no Blog do Milton Ribeiro, que não resisti a comentar. Daí a cobrança dele por esta aventura que se segue: falar sobre o maior autor moderno do país. Aquele que ultrapassou o modernismo e o regionalismo para entronizá-los na literatura mundial, com a mesma envergadura de “Cem Anos de Solidão”. Talvez mais original, mais ousada. Advirto o editor: – Não sei nada de literatura, a não ser como leitor. Penso comigo: – Devorei a “Biblioteca Lar Feliz” que minha mãe, professora primária em Santa Maria, guardou com tanto zelo, até morrer. E havia outra coleção: “Terremarear”… Como esquecer esses nomes todos? Mas, curiosamente, lá não havia muitos clássicos. Até hoje não li sequer um livro de Shakespeare. Conheço-o, como diria Machado, de vista e de chapéu. Ainda assim, pra mó de me compreenderem saibam que “ Soletrei, anos e meio, meante cartilha, memória e palmatória.”  No Cícero Barreto e Colégio São Luiz, em Santa Maria, anos 1950/53. E o fiz até cansar, porque era muito fraquinho, não dava pra esportes coletivos, mal brincava na rua. Sempre escutando minha mãe: ” Acho que esse menino não dura, já está no blimbilim”.

Mas Milton me anima: — Trata-se de depoimentos, fã clube!

Levo medo. “Abriu em mim um susto. Mal haja-me!”  Afinal respondo:  :“Do demo? Não gloso. Senhor pergunte aos moradores. Em falso receio, desfalam no nome dele – dizem só : o Que-Diga.”

“Parece até que ficou o feliz, que antes não era…”

Pois assim funciona o Guimarães, pra mim:  Como um desencontro de palavras  que escorre em melodia, como a fala de todo mineiro. Outra lógica.

Decididamente, me retombo como água caindo em cachoeira. E me vou, retórico, vaidoso e despido de vergonhas a caminho da crônica, embebido de diadorices .

Grande Sertáo, Veredas foi o melhor romance que li:  Lhe digo, à puridade.- Pois não sim…?”

A primeira vez na juventude e não consegui entender nada. Nem o título. Sertão, pra mim, ficava no Nordeste do país: “Vidas Secas”, “O Cangaceiro”, “O Pagador de Promessa”. Glauber, “Os Retirantes”. Guimarães não é minero?, perguntei ao Fabinho, um de meus gurus, comunista visceral, com quem repartia o verdadeiro “aparelho” na Demétrio Ribeiro, 1094. Meados da década de 60. Aliás, outro cadáver da ditadura. Homenagem. Ele me disse que sim, mas não explicou mais. Tudo é e não é…” Passei décadas sem voltar ao livro. Mas, perto dos 60 anos, fui morar num ermo de Goiás: Olhos d‘Água. Afinal, um homem nessa idade “ carece de aragem de descanso. Solito e Deus. Cuidando de plantar mandioca, cuidar das galinhas e fazer poesia. Cansado de guerra!

“Sofro pena de contar não….Melhor se arrepare: pois, num chão, e com igual formato de ramos e folhas, não dá a mandioca mansa, que se come comum, e a mandio-brava, que mata?

Lá convivi com muitas gentes oriundas das Gerais, pessoas simples, rudes e sábias. E também com um mineiro, meu senhorio, Betão, de Cordisburgo, cidade de Guimarães, cujo pai havia sido dele colega. Eu lhe ensinei a tomar chimarrão nas madrugadas, ele me devolvia com mineirices.  E susseguinte… sem remediável, ”percebendo a maneira curiosa de toda aquela gente pensar e falar, ocorreu-me voltar ao “Grande Sertáo”. Pois “ponho primazia é na leitura — eu gosto muito de moral — ajudo com meu querer acreditar. De sorte que carece de se escolher. Que no causo, é reler com o jeito, agora, de poder entender. Porque aprendi com aquela gente do Planalto Central, que o excesso de argumentos e a falta de jeito falecem a razão. Que redescoberta! Comecei a entender tudo. Há sertão nas Gerais, um sertão misterioso e encharcado durante as águas, que são abundantes; há uma filosofia popular profunda entre mineiros e goianos (estes, dizem, mineiros fugidos depois de matar alguém…) Hoje, Grande Sertão, é um dos meus livros de cabeceira. Vez por outra roubo-lhe uma expressão. Ou um parágrafo inteiro – aí cito…-. E coisa incrível: Oferecendo-me para ler em grupo com algumas pessoas o livro, aqui em Torres, descobri duas mulheres devotas da obra, uma psicóloga, Angela, a outra professora, Vera. Nem precisou reler o livro com elas. Elas o sabiam melhor do que eu… Coisas deste mundo que ninguém, nem o mais o desinquieto, desentende… “Só um e outro, um em si juntos. O viver em ponto sem parar (consegue). Coração-mente. Pensamento. Avançam parados dentro da luz.

Parece que aqui, mesmo com o mar a tiracolo, com a Serra Geral subindo ao longe, também tem sertão…Pois ele está é dentro da alma de cada um de nós.

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A REPÚBLICA SANGRA – por paulo timm / torres.rs

“Queremos livros que nos afetem como um desastre. Um livro deve ser como um machado diante de um mar congelado em nós.” Franz Kafka

Tomo o título de um comentário de M.Aurélio Nogueira, num comentário sobre a atual PAULO TIMMconjuntura , feito no FaceBook.
A tensão entre os Poderes Judiciário e Legislativo não chegou ontem, com a aprovação, pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, de Emenda – PEC – introduzindo restrições do Legislativo sobre o Supremo Tribunal Federal. Ela percorreu todo o processo dito “Mensalão”, chegou à gravidade no final do ano passado, quando o então Presidente da Câmara ofereceu apoio e “refúgio” a deputados eventualmente condenados naquele processo e, agora, chega ao paroxismo com exaltações de todos os lados. Tomara que não chegue às vias de fato, com sopapos e bofetões visíveis no ar, nos noticiários da noite. Isto seria fatal para nossa ainda jovem democracia. Afinal, ela nasceu mesmo com a Constituição de 88. Não chegou sequer `a beleza dos 35, hoje cantada pelo escritor gaúcho F. Carpinejar em bela crônica inspirada na bela Carla Bruni DEPOIS DOS 35 ANOS  “A cantora e ex-primeira dama da França, Carla Bruni, falou em entrevista para a revista Veja algo que acredito muito. Que depois dos 35 anos, a beleza é resultado da simpatia, da elegância, do pensamento, não mais do corpo e dos traços físicos. A beleza se torna um estado de espírito, um brilho nos olhos, o temperamento. A sensualidade vai decorrer mais da sensibilidade do que da aparência. Uma mulher chata pode ser bonita antes dos 35 anos. Uma mulher burra pode ser bonita antes dos 35 anos. Uma mulher egoísta pode ser bonita antes dos 35 anos.
Uma mulher deprimida pode ser bonita antes dos 35 anos. Uma mulher desagradável pode ser bonita antes dos 35 anos. Uma mulher oportunista pode ser bonita antes dos 35 anos. Uma mulher covarde pode ser bonita antes dos 35. Depois, não mais, depois acabou a facilidade. Depois o que ilumina a pele é se ela é amada ou não, se ela ama ou não, se ela é educada ou não, se ela sabe falar ou não. Depois dos 35 anos, a beleza vem do caráter. Do jeito como os problemas são enfrentados, da alegria de acordar e da leveza ao dormir. Depois dos 35 anos, o sexo é o botox que funciona, a amizade é o creme que tira as rugas, o afeto é o protetor solar que protege o rosto. A beleza passa a ser linguagem, bom humor. A beleza passa a ser inteligência, gentileza. Depois dos 35 anos, só a felicidade rejuvenesce.”
Nossa democracia, enfim, é pouco mais do que uma adolescente e já enfrentou desafios dignos de mulher madura: O impeachment de Collor, em 92, a República de Juiz de Fora, sob o comando de Itamar Franco, a vaidade de FHC, que contrariando muitos entendidos, não chegou a salvar seu Governo, apesar do grande feito do Plano Real, que na verdade, lhe foi anterior, a eleição, posse e governo (como dizia Carlos Lacerda, duvidando de JK, nos idos de 55) de um operário do PT, e a eleição, posse e …difícil governo de uma mulher guerrilheira, e uma problematica Comissão da Verdade. Êta mulher…!!! É verdade que todo o processo de construção da democracia no Brasil foi “devidamente” calculado. Jamais saiu dos eixos. Começou com a “ Lenta, Segura e Gradual distensão do Presidente General Ernesto Geisel , sob o crivo do bruxo Golbery do Couto e Silva. Culminou aquela fase, depois de cinco longos anos, nos quais não faltaram mortos sob tortura, com a Anistia controlada de 1979 e uma rigorosa reorganização partidária que acabou ferindo mortalmente Leonel Brizola. Tiraram-lhe o PTB e obrigaram-nos a começar quase do zero. Pagou caro. Talvez com a Presidência, cargo para o qual, até o final de 80 era o mais viável, dentre os quadros da esquerda. Depois de Geisel, para consolidar a obra, sobreveio um velho e cansado General de Informações, mais afeito às estrebarias do que às praças públicas. Ficou longos seis anos. Nem ele agüentava mais: “Me esqueçam”, foram suas palavras ao sair do Palácio do Planalto. Como isso durou tanto? Onze anos…? Nem eu sei. Só sei que ele – Figueiredo, entrou em 79 , arrastou-se em meio à segunda Crise do Petróleo durante aquele ano e mais os anos 80, 81 e 82 e acabou enfrentando galhardamente a posse de Governadores de Oposição pelo país inteiro. Aí “encarou” os comícios das Diretas Já e, com certo enfado, tratou de sepultar a Emenda Dante de Oliveira que as consagrariam ao final de seu mandato, no dia 25 de abril de 1984. Com direito a colocar o General Newton Cruz, do SNI nas ruas de Brasília dando porrada a torto e a direito nos manifestantes. Então sobreveio, o fator alfa: Maluf que viria complicar um pouco os cálculos do “ancien regime”. Ele comprou o colégio eleitoral da ARENA (Partido do Sim, Senhor General) que deveria manter o esquema por mais vinte anos e abortou a eleição indireta pelo PMDB de Tancredo Neves , cuja posse deveria ocorrer em 1985.
Aí o fatídico : Morre Tancredo e assume Sarney, dissidente do regime militar, sob cujo comando terá continuidade a transição, que deveria culminar na eleição direta para Presidente imediatamente, mas que acabou se arrastando até 1989. Cinco anos de Sarney ( 85-86-87 – 88 -89 ) graças à bondade da Constituinte em lhe dar um ano a mais do que o inicialmente previsto. Bom… Nem vou continuar recontando datas. O que desejo, apenas, é mostrar que nosso processo de transição não foi apenas longo. Foi penoso. E extremamente excludente. Ele conseguiu liquidar ao longo desse tempo as grandes lideranças do passado, consolidando um dos objetivos do Golpe de 64: Romper com o passado. Só não conseguiu romper, logicamente, com as conquistas daquele passado, que se incorporaram como feitos civilizatórios na Sociedade e no Estado brasileiros: a regulação do trabalho e do capital, as grandes estatais que operaram como suporte da industrialização, a vontade do Brasil em se modernizar.
Digo isto para reiterar uma coisa óbvia: Não houve uma ruptura no processo de redemocratização do Brasil. Saímos de uma institucionalidade precária, da Constituição militar de 1967 e ingressa no regime Constituinte de 88 sem muitos traumas. Até a Constituinte de 46 havia sido conseqüência de uma ruptura, com a derrubada de Vargas em 1945, além do grande impacto da vitória aliada na II Guerra. A Constituinte de 87/88 teve imensa participação de movimentos sociais, muitos debates internos e grande efervescência política, mas não foi fruto de uma grande vitória popular anterior. Essa, aliás, a nossa diferença com outros processos de abertura no Continente. E nossa crucial diferença, por exemplo, com a Revolução dos Cravos, em Portugal, que soterrou a ditadura salazarista. Aqui, vivenciamos um processo peculiar quase insólito, tipo das Coréias, em 1953: Chegou-se a um armistício de paz não formal, em que os antigos dirigentes recuaram do Poder, sem admitir qualquer culpa, e os “novos” foram ocupando o terreno, meio sem-cerimônia, açodados até pela perspectiva de ocupada da “máquina governamental”. Rigorosamente, até hoje não existe uma análise clara sobre como acabou a ditadura no Brasil. Ela sumiu, enquanto proscênio. Mas seus gerentes continuaram onde sempre estiveram: No Poder…Eles estão no Estado. Na Grande Imprensa. Nos órgãos de classe patronal. Nas Forças Armadas. E sempre que existe uma possibilidade de ruptura maior, a esquerda, seja ela qual for, recua, porque sabe que não tem como enfrentar as adversidades. A esquerda, no Brasil, ficou “hábil”. Hábil em contornar o “Mercado”, como fez Lula na famosa Proclamação que resultaria na manutenção de Henrique Meirelles no Banco Central. Hábil em recuar diante da questão da democratização da Mídia. Hábil em lidar com Chavez e Cristina Kirchner. Hábil até em promover o Brasil como um oásis de prosperidade num mundo em crise. A esquerda brasileira, entretanto, só não foi hábil em manter sua unidade interna. Preferiu, no Poder, ceder à tentação da governabilidade através do “caro”, aqui no seu pior sentido, conceito de Base Aliada. Com isso, vem despedaçando-se aos poucos, não sem proclamar, sempre, o seu direito à verdade como representante de uma Política Econômica e Social avançada em benefício dos mais pobres. Brizola nunca embarcou de bom grado nesta canoa. Engoliu, indigestamente, o “Sapo Barbudo” no segundo turno de 89 e em 94. Desconfiado, afastou-se, até vir a falecer em 2004. O que sobrou do PDT, nas mãos dos dirigentes atuais, nada tem a ver com Brizola, como o PTB de Jefferson nada tem a ver com Vargas e Goulart. Roberto Freire, herdeiro do PCB, perdeu-se no meio do caminho. Heloísa Helena e Marina caíram fora, junto
com outros grandes nomes do PT. Agora chegou a vez da turma do Arraes, com a defecção do seu neto, Governador de Pernambuco, virtual candidato do PSB à Presidência. Só falta, mesmo, agora, uma grande ruptura, de maior vulto , dentro do próprio PT, tal como já se cogita entre dentes, no sul do país… Todo este processo político de consolidação da democracia no Brasil está em jogo na crise atual entre Legislativo e Judiciário. Tanto um como outro destes Poderes são estruturantes do Estado brasileiro. E reforçam sua natureza. O Judiciário, certamente, é mais conservador e republicano, no sentido da valorização da coisa pública. O Legislativo, mais progressistas e democrático, no sentido de atender à demandas populares. O Judiciário, porém, é mais estável e, consequentemente, mais estabilizador do que o Legislativo. A irritação entre esses dois Poderes, aos quais o Executivo olha de camarote, é , portanto, extremamente perigosa à democracia e deve ser cuidadosamente analisada, pois pode acarretar uma grave crise institucional. Lembro, aqui, a propósito , o famoso discurso de Márcio Moreira Alves, na Câmara, em 1968, preâmbulo do AI-5. Mais além de interesses Partidários em jogo na atual crise – e muito menos pessoais -, creio que se deve sopesar melhor as forças reais que atual sobre a conjuntura de forma a evitar atropelos. O medo não deve jamais ser conselheiro nestas horas, mas a prudência, se sabe, é o olho das virtudes e que, se não garante o melhor, evita também o pior. A quem interessa na verdade, colocar lenha na fogueira da crise entre o Judiciário e o Legislativo? Será à democracia brasileira, mesmo!? Leio, por acaso esta passagem, que me parece singular, de Josias Teófico, sobre arte, Publicado na Revista Continente e noSul21 em 20 de outubro de 2012, para ilustrar o que é o Judiciário , como ícone, e o Legislativo como ídolo: No livro O ícone – Uma escola do olhar, Jean-Yves Leloup faz uma distinção entre ídolo e ícone. O primeiro seria qualquer forma de representação religiosa que prende o olhar em si mesmo, pelas formas, cores ou movimentos que chamam a atenção, provocando emoções. O ícone, ao contrário, não tem movimento nem profundidade, as cores e formas obedecem a padrões tradicionais. Nele, a transcendência é o fator essencial, a intenção é mostrar o “Invisível no visível, Presença na aparência”
Recorro à anotação sobre Arte porque a Política tem mais a ver com ela como praxis do que com as ditas Ciências, embora guiada remotamente pelo logos. A esquerda, entretanto, não raramente inverte esta equação. Para os velhos comunistas, a razão histórica da proclamação do socialismo como etapa superior do capitalismo estará , sempre, na vanguarda de sua práxis. O imperativo democrático, no sentido das aspirações populares, é sempre mais importante do que as instituições. Daí seu desprezo, embora sempre oportunamente aproveitados, pelas instituições republicanas, dentre as quais o Judiciário é das mais sólidas.
Todo cuidado, nesta hora, é, portanto pouco… As simplificações abundam na ordem do senso comum com ares de senso crítico, atropelando o bom senso…

Paulo Timm é economista da UNB.

1964 – “O ano que nunca acaba…” – por paulo timm / torres.rs

11 de abril

 

1964 – “O ano que nunca acaba…”

 

O título não é meu. É do meu amigo escritor A. Brandão  Brandão, que diz que não agüenta mais tanta falação sobre o fatídico 1964. Mas não resisto. Volto ao assunto. Sorry Brandão…

A verdade é que o 1964 não vai acabar nunca. Sempre haverá o que dizer. Contra ou favor, estes em número cada vez menor. Já foram os PAULO TIMMmais, outrora. Hoje se resumem a alguns  saudosistas da caserna e um ou outro radical de direita. E por que volto ao tema? Porque há uma tendência em se concentrar a crítica  ao Golpe apenas nos militares e, com isso, safam-se todos as suas “vivandeiras” e defensores oblíquos.

Nesta data, 11 de abril, por exemplo, em meio à prisões, ameaças, algumas mortes e pressões de todo tipo, no ano de 1964, o Congresso Nacional referendava, através do voto, o nome do General Castelo Branco , chefe do golpe, como   Presidente da República,  cargo declarado vago com o exílio de João Goulart. Insólito. Inacreditável. Ele deveria “completar”o mandato da Presidência, declara vaga. O golpe se institucionalizava, já naquela época, de forma semelhante ao que aconteceu no ano passado com o Presidente Lugo, no Paraguai.  Mas como…?

Muito simples: Primeiro, porque o país estava dividido, não entre comunistas, aliados de Jango, como pretendiam os golpistas, e não comunistas, eles próprios, mas entre uma parte significativa  da sociedade brasileira, que apoiava o Programa de Reformas de Base, em curso no país, sob o comando do Presidente da República, e uma parte que reagia às mudanças democraticamente encaminhadas, os “reacionários”.  O Congresso Nacional refletia esta divisão. Uma parte, liderada pelo antigo PARTIDO TRABALHISTA BRASILEIRO – PTB – , ao qual pertencia o Presidente, o apoiava;  outra, com epicentro na UNIÁO DEMOCRÁTICA NACIONAL o combatia ferozmente. Era um tempo de grandes mudanças na sociedade brasileira e de intensos debates e mobilizações populares, envolvendo sindicatos de trabalhadores, camponeses, estudantes, intelectuais e até militares. O país se urbanizava rapidamente, a população crescia, as demandas explodiam. No fundo, tratava-se do coroamento de um processo de incorporação de massas populares à economia e à política que vinha se intensificando desde o final da II Grande Guerra, em 1945, ao qual um Governo de esquerda moderada, de corto social-democrata, liderado por Jango, procurava responder positivamente, olhando para o futuro. No dia 13 de março, o Presidente, à frente da Central do Brasil, no Rio de Janeiro,  havia anunciado uma ampla  reforma agrária. Foi a gota d ‘água para os setores conservadores. Já articulados aos interesses estratégicos dos Estados Unidos, lançaram-se ao golpe, com amplo apoio da Igreja Católica, da grande mídia, dos líderes de direita, como Carlos Lacerda, Governador do Rio,  Magalhães Pinto,  Governador de Minas, ambos da UDN, de Ildo Meneghetti, no Rio Grande do Sul  e Ademar de Barros, do PSP, ideologicamente ambíguo , grandes empresários e setores expressivos da classe média. Não fora, aliás, o apoio nestes Governadores  de Estados grandes e fortes, o golpe dificilmente teria tido sucesso.  Quando o Governo caiu sob o Golpe, líderes do então PSD ,  um Partido que iria dar a base e os contornos do futuro MDB/PMDB , como Juscelino, Tancredo , Ulysses Guimarães e muitos outros, mesmo aninhados na “Base Aliada” do Governo, o abandonaram imediatamente. Aderiram ao golpe. E , com ampla base parlamentar no Congresso, deram seus valiosos votos em apoio à sufragação do General Presidente. Isto foi trágico, porque “legitimou”pelo Congresso a violência das armas. E permitiu aos militares , mediante artifícios legais,  permancerem no poder por 21 anos.

Têm razão, pois, os militares, quando dizem que não atuaram sozinho.

Realmente, eles foram a ponta de lança de um complô conservador que tinha seu epicentro nos interesses americanos no continente e que se armara no Brasil com o apoio financeiro e político a diversas entidades que operavam livremente no país angariando adeptos e apoios.

Tampouco foram todos os militares , os que se envolveram no golpe. Pelo contrário, havia no Exército Brasileiro uma ampla tradição de debates e de presença da instituição em torno de grande projetos como a siderurgia, petróleo e até mesmo a construção de Brasilia no Planalto Central. E foi precisamente por causa da divisão interna das forças armadas quanto à conjuntura nacional que a repressão  se deu primeiro dentro delas, levando ao afastamento , às vezes à liquidação, dos oficiais democratas. Dessa forma, seria possível engolfar o conjunto delas numa ideologia de segurança nacional que acabaria levando aos anos de chumbo, depois do 13 de dezembro de 1968, quando os órgãos da inteligência passaram a controlar a vida nacional. Lamentavelmente, esta lavagem cerebral , apesar de quase três décadas da redemocratização, ainda persiste nos  quartéis.  E o centro dos ataques da esquerda às forças armadas, como responsáveis exclusivas pelo Golpe, sem a explicitação dos grandes interesses que lhe sustentavam, só faz acirrar a animosidade. Tempo, pois, de pensar esta data de 11 de abril, como tão ou mais importante do que a do 31 de março, pois ela reflete , com mais nitidez, o que ocorreu realmente no país naquele ano de 1964.

 

Aos que não creem: para procurar inverdades – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

Trata-se de um documentário. Um documentário repleto de despachos, Amilcar Nevestelegramas, cartas, informes, relatórios, avaliações e sugestões. E mais: pleno de gravações, fotografias e filmagens. São conversas, encontros, reuniões, confabulações e conspirações expostas às claras.

 

E se, de repente, uma potência estrangeira decidisse invadir o Brasil e tomar militarmente o País, de que lado ficaríamos?

 

E, para piorar, se essa decisão de invadir o Brasil, de nos submeter pelas armas, não tivesse nenhuma motivação nobre, como a defesa da democracia, das liberdades, dos direitos humanos ou de princípios filosóficos, mas apenas a proteção dos interesses comerciais e econômicos do invasor, como nos veríamos e nos portaríamos frente a isso?

 

E se nem ao menos fossem levantadas vagas e difusas questões religiosas (a religião tantas vezes usada como pretexto para as guerras levadas a cabo sempre de olho nos negócios e nos lucros) para tentar justificar a invasão do Brasil por uma potência estrangeira, invasão que só visasse os objetivos do comércio exterior do invasor, o que faríamos então e, especialmente, o que diríamos, na hora e depois, aos nossos amigos, aos nossos filhos e aos nossos netos?

 

E se, para atingir a meta planejada – a invasão militar do Brasil por uma grande potência com fins escusos e rasteiros, ou seja, por dinheiro -, fosse empregada uma quantidade enorme desse mesmo dinheiro para mentir, subornar, forjar, enganar, iludir e tapear a opinião pública, qual seria o nosso grau de revolta com uma situação dessas?

 

E, além disso tudo, qual seria a nossa taxa de indignação e de repúdio com relação aos brasileiros que apoiassem essa invasão militar do Brasil para atender aos interesses econômicos da potência invasora, tenha esse apoio sido dado por ingenuidade ou, conhecendo os bastidores da ação, por interesses políticos, financeiros e de assalto ao poder?

 

Alguns daqueles poucos que chegaram até aqui podem estar se dizendo que só acreditam em evidências não contaminadas por ideologias. Com isso, estarão a dizer que só creem naquilo que provier dos Estados Unidos, única nação insuspeita do mundo. Que ótimo.

 

E se tal documentário estiver recheado de papéis, fotos, gravações e imagens, até há pouco classificados como top secret, liberados pelos Estados Unidos, e for conduzido por três pesquisadores, a saber, Peter Kornbluh, Coordenador dos Arquivos da Segurança Nacional dos EUA, James Green, Historiador da Brown University, dos EUA, e Carlos Fico, Professor de Teoria e Metodologia da História na UFRJ?

 

O plano dessa invasão existiu e, em março de 1964, uma formação da Marinha de Guerra estadunidense deslocou-se para fundear em frente ao porto de Santos. Só não deu um único tiro porque, cá dentro, não se deu um único tiro para reagir ao golpe de Estado planejado pelos EUA, com surpreendente participação do embaixador Lincoln Gordon na defesa dos interesses comerciais das empresas do seu país. Só se começou a dar tiros contra o golpe muito tarde, depois do AI-5, de 1968, quando os tiranos se fizeram ainda mais sanguinários.

 

O documentário, de título O Dia que Durou 21 Anos (está hoje num cinema e não pode ser perdido!), é uma vigorosa aula de História que deveria ser levada a todas as escolas do Brasil. Só poderá falar de 1964 e de ditadura (ditabranda, no deboche de alguns) quem assistir a esse filme que, pela origem insuspeita da sua matéria-prima, está isento de conotações ideológicas.

E DEUS CRIOU PORTO ALEGRE – por paulo timm / torres.rs

   Paulo Timm – 2010 (Da Série Prévidi
E assim foi: Longos anos, décadas, longe do sul e então o retorno.

ChegueI piá em Porto Alegre, em pleno inverno de 1955. Mas não reclamei do frio. Santa Maria era muito pior. E me aquerenciei no perímetro do bonde “Duque”, morando logo abaixo do Alto da Bronze. Ali me ambientei, numa rara ecologia humana que ia do cais do Porto à Pantaleão, numa orla carregada de álcool, prostituição e até uma Casa de Detenção, subindo gradativamente a Vasco Alves, para se recuperar social e moralmente, ao longo de toda a Duque de Caxias, até o Viaduto Borges de Medeiros. Um período maravilhoso, em meio PAULO TIMMaos “Anos Dourados”, em cujas férias eu me atirava na velha “Maria Fumaça”  para reviver  minha antiga morada. E assim passaram anos e anos,  nos quais me reencontrava com os primos e primas na casa grande de minha amada avó, Romilda, transformada em Clube da meninada. Quando me dei conta, tinha passado pelo Colégio das Dores, pelo “Julinho”, pela antiga Escola de Cadetes da Redenção. Era um porto-alegrense.  E já era homem. Ou, pelo menos, pensava que era..

Era 1966. Estava na Faculdade de Filosofia, em pé, junto ao umbral que separava o salão de entrada do Bar interno,  ao lado do Flavio Koutzii, do Clovis Paim Grivot, do André Foster, da Mercedes (então) Loguercio iniciando-me nas teias  da subversão, para horror de uma família conservadora estrelada  de militares de alta patente. Durou pouco: o tempo de me formar e , cagado de medo  pelos rumos que a velha dissidência estudantil comunista ia tomando, rumar para o Chile.  Paulo Renato Souza, colega de Faculdade, na Economia, me esperava e me daria, generosamente, o seu emprego como “ayudante” do José Serra (esse mesmo!!!) na Faculdade Latinoamericana de Ciências Sociais – FLACSO. Começava o ano mais terrível da ditadura:1970.

Muitos anos depois vim a saber-me, pela crônica de Sergius Gonzaga, hoje Secretário de Cultura, sobre a década de 60 ,em Porto Alegre, que eu fora um guru do marxismo-leninismo na cidade, já àquela época contaminado pelo vírus do “ Discreto Charme da Burguesia”, na inclinação  por carros esporte, roupas finas, vinho e charutos da melhor qualidade e queda irresistível por mulheres bonitas e amantes castelhanas…Mas esquerda, como toda a geração daquela época.

Esta Porto Alegre, por quatro décadas, ficou nos meus sonhos e devaneios.Do Chile fui para Brasília e lá fiquei 35 anos.  Certa feita, um amigo, Heitor Silveira, já falecido, de quem me aproximara na Planisul de todas as cores e malucos, também em Brasilia, retornara, em caráter definitivo, e me esnobava: “Aqui eu não ando, eu flutuo…”  Eu morria de inveja. Era o suficiente para eu conseguir umas férias matrimoniais, com ou sem permissão do empregador, e mergulhar dias sem fim naquela que  sempre foi a minha cidade. E sofregamente tomava alguma aventuras amorosas como quem  se agarra ,não ao passado,mas à própria cidade. Sentia-me, então , embriagado de estranha felicidade naqueles dias em Porto Alegre.

Agora estou aqui ao lado, em Torres. Já nada me impede de estar “em  casa”. Digo  ao filho e família que temo o excesso de frio e chuva. Outras vezes, digo que já não suporto a cidade grande, cujas vias  nem reconheço e novos bairros nem sei chegar. Vezes há , ainda, que a cidade não é segura. Tudo mentira. Guardo as vindas a Porto Alegre como uma primícia, de sabor sensual e convidativo. Como quem freqüenta furtivamente a  proibição. Quem inventou a saudade, me disse uma vez uma amiga, não conhecia a distância. Nunca saberei , ao certo, se a máxima era ou não dela. Mas valeu…Saboreio a pequena distância que me separa de Porto Alegre com  uma pitada de saudade.

Aí escolho o Hotel. Tem que ser no Centro, no meu velho perímetro do “Duque”, onde me sinto em casa. E, quase sempre, procuro as pegadas do Mário Quintana, em busca de inspiração poética. Já não há o Majestic, onde ele morava,  que me foi tão misterioso na juventude, pelos arcos, arcadas, sacadas que contemplava , lá de baixo. Hoje pego o elevador no Centro Cultural Mario Quintana , vou àquelas sacadonas  e  me sinto senhor  de um tempo que se foi. Não importa. Disseram-me que o Falcão levou meu ídolo para o Hotel Royal, na descida do Sevigné, então lá eu fico.

Chego em Porto Alegre , quase sempre, à noite. E aí redescubro o prazer de ouvir Lupicínio pelo seu filho, a gratidão de me sentir perto do Uruguai, através de uma parrillada, de andar pela boemia da Cidade Baixa como quem anda no Quartier Latin. Já não vejo os velhos amigos. Muito raro. Acho que nos evitamos  sem querer, querendo. Mas encontro novos e nos regozijamos com os mesmos profundos papos que nos anos 60 povoavam nossas tertúlias quando saíamos do Festival de Cinema Tcheco, na Praça da Alfândega, para discutir, sob inspiração do último artigo do Pilla Vares,  a diferença entre consciência e ódio de classe, como critério de discernimento da ação revolucionária.

Pela manhã uma longa caminhada ao longo dos  imaginários trilhos do “Duque”. Atavismo. Reapropriação do tempo e do espaço. Casas, casarões, a escadaria da Fernando Machado relembrando a ampla vista que se tinha do Guaíba, o cumprimento aos lugares vividos numa espécie de oração matinal , um velho, como eu, irreconhecível,  por trás de uma janela. Naquele tempo banhávamos no gasômetro. E entrávamos e saíamos do Porto como queríamos. Eu sempre com um SPICA debaixo do braço para vender no  Colégio e fazer uma graninha. Na primeira vez que subi no convés de um navio fiquei impressionado com a altura até a superfície da água. Desci correndo.

São oito e meia da manhã e já percorri minha juventude, com uma passagem pela Redenção para reviver os ideais soterrados pela barbárie stalinista.  Estou na frente do Mercado  com os sentimentos à flor da pele. Ali entrei , pela primeira vez, muito menino. Para provar o morango com chantili na Banca 40, que desconhecia. E mordiscar uns camarões ultra-salgados expostos na banca ao lado. Fascinado. Entro solenemente, como se fora numa feira  medieval.

Primeiro uma parada na Banca de Revistas e Livros usados. Salta aos olhos um exemplar de Cícero, sobre Obrigações Civis. Cícero a essa hora? Nada melhor. Procurar um lugar para sentir o momento mágico e folhear o opúsculo alentador. Aí o Café do Mercado, um balcão simples , com mesas altas e bancos suspensos defronte.  Mas, lá dentro, o segredo do café cremoso apojado de tetas sibilantes numa variedade rara no resto da cidade. –Tem café Jacu, pergunto hesitante?  – Sim , senhor! Um expresso?  – Pois sim!  E me sento num dos  bancos para folhear  o capítulo sobre o “Decoro”, ao sabor do melhor – e mais caro café – do mercado brasileiro. Cagado por uma ave, o jacu, e retirado depois de secas as fezes…(!) Degusto o café sem pressa. Nem olhares curiosos. No passal das gentes a única preocupação é o dia que vem pela frente. Fico eu, apenas, com o prazer. O prazer de estar no Mercado de Porto Alegre. E deixar escoar o tempo… Certo de que, na saída, levarei para Torres um belo pedaço de charque de ovelha para um carreteiro.

Deixo o Mercado, retorno à Rua da Praia e rumo para a Jerônimo Coelho. Fazer barba e cabelo num daqueles  machadianos salões que prometem funcionar dia e noite! Escutar o falar acalorado de adversários ferrenhos sobre as virtudes dos novos jogadores do Grêmio e do Internacional.  “ Sou do Força e Luz”, digo. Não entendem bem. “Depois torci pelo Cruzeiro, pelo qual joguei no time de basquete”. Eles me olham desconfiados, de cima pra baixo, e eu, do meu 1.60m completo: “ No infantil…”

Aí resolvo subir a ladeira, ver uns sebos, e me reconheço uma vez mais no céu. Acho dois livros que já havia perdido numa das inúmeras mudanças e lá me vou para o reencontro com “A Razão Cativa “ e “Razões do Iluminismo”, de um dos maiores filósofos brasileiros, marcado para morrer por ter sido Ministro da Cultura do Collor: Sergio Paulo Rouanet. E nem se dão conta que Collor , foi , depois de Jango, o único Presidente a ter Ministros irretorquíveis. Várias livrarias, o mesmo encanto. Então, carregado, me sento num pequeno restaurante da Riachuelo, à hora do almoço, para um copo de vinho. E me convenço de que “Deus criou Porto Alegre”, como diz o Prévidi.

E tenho um dia inteiro e um domingo,  ainda, pela  frente. Mas não vou contar mais nada  hoje. Fica para outro dia…

Costumes nacionais – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

Costumes nacionais

 

Apenas para registro, antes que me esqueça: o título que o Autor efetivamente deu à crônica de quarta-feira, 30 de janeiro, foi Como dinheiro perdido no bolso de um casaco, e não Com o dinheiro, etc. Mas vamos ao que interessa.

 

Na semana passada, uma onda de indignação, digamos assim (à falta de melhor classificação), varreu este País de Sul Amilcar Nevesa Norte, de Oeste a Este, por conta da candidatura de Renan Calheiros à presidência do Senado. Ficha limpa no Congresso!, era a tônica da campanha. Cada um de nós recebeu pelo menos oito mensagens eletrônicas de repúdio à situação que se punha, com o pedido de subscrição e repasse do protesto ao maior número possível de concidadãos.

 

E qual foi a consequência de tamanha movimentação? Aliás, uma movimentação que não requer das pessoas que se mexam, sequer que levantem seu nobre assento da cadeira em que o instalaram, bastando-lhes apertar um ou outro botão do seu computador, um ou outro ponto da tela do seu celular ultrainteligente. Assim, todos nós pudemos participar de mais um fantástico espasmo da cidadania enquanto aguardamos sequiosos o próximo escândalo que, se Deus quiser, não há de tardar.

 

Sim, mas… e a consequência da mobilização? A de sempre: nada. Nada mudou. Conforme longamente gestado, Renan foi eleito presidente da Casa e, semana que vem, já teremos esquecido quanto nos indignamos com tão profunda sinceridade enquanto ele permanecerá no comando, chefe de um dos três poderes da Nação, por dois longos e recheados anos de, cada um, doze meses inteiros (serão, pois, 24 salários assim usufruídos, fora o resto das vantagens – e resto, aqui, é mera figura de retórica, já que elas se sobrepõem milhares de vezes ao principal; o resto, na verdade, o troco, a esmola é o salário).

 

Todo mundo sabia há muito que Renan seria o presidente, mas, ocupados com a vida, só o percebemos nos derradeiros dias – quando saímos a campo; todo mundo sabe há muito que não é isto que o fará arredar pé da cadeira que enfeixa tantos e tão sedutores poderes, e que ele a ocupará a despeito da nossa cara feia: ele sabe que nós, como povo em geral, o elegemos ou, ao menos, elegemos os que o elegeram.

 

Se Alagoas até mereceria ser expulsa da Federação por votar e revotar em Renan e Collor, poluindo nosso conceito de ética e de higiene dos fichários, nós reelegemos políticos que votam neles para cargos no Congresso. Ainda que refutemos em nome pessoal que eu não, eu não votei nesses caras, o meu candidato, ético, limpo, decente, até honesto!, foi derrotado, isso não exclui nossa responsabilidade de povo que elege essa gente.

 

Daqui a pouco teremos nova jornalista (não mais a Mônica Veloso, já velha demais para isso, manjadíssima), ou outra profissional qualquer, a meter-se na vida de Renan e, depois, nas páginas daPlayboy – não para relatar, indignada, o que viu e soube, mas para mostrar os bens, pagos por empreiteiras ou por desvios de verbas públicas, de que o senador desfrutou, se é que, nas condições dele, desfrutar ainda seja o verbo. Talvez melhor será dizê-lo bens que o alagoano viu e apalpou, embora mais certo mesmo pode ser que seja o que apregoa um amigo:

 

- Comer? Que nada! Aquilo quer é participar: diz que estivemos juntos, eu assumo contrariado e tu me passas 45% do que a Playboy te pagar, cash pra mim.

 

Nossa culpa é não brigar o tempo todo para que o voto seja consciente, ou seja, não brigar o tempo todo por uma educação decente e uma formação cultural que nos honre e eleve.

MENINO COM CARRINHO – por jorge lescano / são paulo.sp

M E N I N O   C O M  C A R R I N H O

Na rua dom José de Barros, no centro de São Paulo, não trafegam veículos, é intensamente ocupada por pedestres durante todo o dia. Ela é povoada de lojas, barracas, quiosques e quaisquer outras locações que permitam a exposição e venda de produtos. Estes também são os mais diversos, Há utilidades domésticas e adereços de mágica, aparelhos eletrônicos e comida feita na hora.

No horário do almoço é quando a rua ganha um ritmo frenético. Os edifícios de escritórios jorram na rua multidão de funcionários ávidos de comida e de liberdade entre dois períodos de escravidão. O sol de verão desértico ameaça fritar os passeantes desprevenidos.

Nesta hora é que de forma insólita aparece a figurinha deslocada do contexto citadino: um garoto negro de aproximadamente três anos, sozinho, anda tranquilamente, ignorando a multidão apressada. Numa das mãos um barbante, no extremo deste, um carrinho de madeira. Concentrado em sua atividade, segue reto um itinerário que só ele conhece.

A figura chama a atenção dos pedestres que olham, procuram algum adulto próximo dela, fazem comentários inaudíveis e seguem seu caminho, coincidente ou oposto ao do garoto. O velho para e contempla a cena como se fosse um espetáculo maravilhoso. Com certeza lhe chama a atenção o fato dessa cena tão familiar e corriqueira numa rua da periferia, estar se dando em pleno centro da cidade mais populosa da América do Sul.

Lembra-se de seu filho, há muito tempo, enfileirando carrinhos numa ladeira criada por uma tábua e uma caixa de sapatos e lhe dando instruções de como se comportar quando você quer brincar de carrinhos.

O velho também está intrigado pela ausência de um acompanhante da criança. Enquanto isso o garoto segue em frente, fiel ao destino do seu veículo, condutor consciente, deve levá-lo sem percalços até o lugar designado por alguma autoridade invisível. Portanto, vez por outra para e observa o carrinho para se certificar de que tudo está em ordem. Feito isto, continua com a calma própria que só dá a consciência de estar fazendo sua tarefa corretamente. O silêncio do menino cria um vácuo na sordidez escandalosa do meio-dia paulistano.

Finalmente o velho percebe na entrada de uma pequena loja uma mulher magra parada, observando o menino. Com certeza é a mãe dele. Só esta relação pode explicar a paciência com que aguarda o andar parcimonioso do pequeno condutor. Ele a olha como se estivesse comprovando a existência de sinais de trânsito no seu caminho. Não muda de rumo nem aumenta a velocidade. O velho observa o menino. Não quer ver nenhum gesto de impaciência de quem quer que seja. Quer guardar na memória a atitude digna e responsável deste garoto que em silêncio dirige seu veículo pelos recantos do seu país mágico, indiferente à turbamulta da cidade.

Desconectado – por amilcar neves / ilhe de santa catarina.sc

Desconectado

 

Confesso-vos, com um orgulho que não consigo bem dissimular, que desde sexta-feira ando desligado do mundo. Quero dizer, desde sexta, quando enfrentei com o Tibi Laus uma maratona das 14 às 2
Amilcar Nevesmanhã, mal parando para um lanche à noite, em respeito ao dinheiro público vindo de um contrato temporário assinado com o Ministério da Cultura, até esta segunda de Carnaval, oportunidade em que vos escrevo esta crônica de Cinzas.

 

Desliguei-me para poder escrever, ou para tentar escrever uma novela, tarefa que não se mostra (que nunca se mostrou) nada fácil. Não, a dificuldade anotada aí atrás não se trata das dores e dos bloqueios inerentes ao ato de escrever, a dificuldade é desligar mesmo. Imbuído dessa determinação há precisamente uma semana, quando, no dia 4, dei início ao texto, isso não me impediu de ver-me forçado a passar uma tarde inteira em profícua e agradável conversa no bairro da Barra do Aririú, na Palhoça, e a noite do mesmo dia entre pizzas e novas conversas igualmente instrutivas na Pedra Branca, da mesma Palhoça. Ou seja: o difícil não é escrever, mas arranjar o tempo e o necessário retiro para tanto, especialmente quando se projeta uma obra de fôlego apenas um pouquinho maior do que a crônica ou o conto, como a novela.

 

E antes que dois ou três me perguntem, como sempre fazem, se é na Globo e em qual horário vai passar, quero deixar solenemente claro que novela é um gênero literário, enquanto a telenovela é coisa completamente diferente e não tem nada a ver com literatura. Não estamos aqui falando de dinheiro, embora minha intenção mais secreta seja dar à luz o meu primeiro best seller, vocês verão (nem que seja no verão europeu, digamos assim).

 

Quando vos digo que me desliguei do mundo vos digo que não acessei internet, não liguei televisão, não ouvi rádio, não fui à Ressacada (mesmo porque o Avaí não joga neste imenso feriadão), não telefonei nem fui telefonado, não teclei um enter que fosse no celular (que, aliás, ridiculamente ultrapassado que é, de avançado apenas recebe e envia mensagens de texto – e nem isso com ele eu fiz -, não tem nada disso de entrar em redes sociais e páginas eletrônicas). Pra vos ser bem sincero, embora correndo o risco enorme de passar por descarado mentiroso, sequer liguei meu computador, sequer na sua função mais prosaica de máquina de escrever, posto que tudo que escrevi escrevi à mão, letra por letra desenhada no papel, consumindo na tarefa três canetas importadas de ponta em esfera metálica e tinta líquida ou gelatinosa.

 

No entanto, saí para a minha caminhada habitual nesta segunda de manhã, coisa que não fazia desde quarta a fim de deixar um pouquinho mais de tempo para a novela, e fui abordado apenas por um ciclista com cara de universitário que disse desconhecer o lugar e queria saber como chegar na Penitenciária. Ignoro se levaria na mochila às costas algum sortimento de celulares, baterias e carregadores, artefatos tão úteis para mandar tocar fogo em ônibus e carros estacionados na sede do governo estadual.

 

Ao chegar, a Vitória me aborda:

 

- O Papa, soubeste?

 

- Não, não soube nada. Morreu, é isso? De qualquer forma, ele foi eleito para durar dois ou três anos e passou muito do prazo.

 

- Não, vai renunciar. No dia 28.

 

- Meu Deus! – exclamei. – E se calha de ele morrer dia 27, como fica a situação?

 

De qualquer forma, mesmo desconectado parece-me que sou talvez o primeiro cronista semanal a registrar a renúncia papal. O mundo, definitivamente, não nos deixa em paz.

O sorriso de Mona Lisa – por jorge lescano / são paulo.sp

© Lescano

 

Mona Lisa deixou de ser apenas o quadro mais famoso do mundo para ser tema de escritos e pesquisas as mais disparatadas.

Na década de 1970 um médico japonês, utilizando os mais recentes recursos tecnológicos detectou na esclerótica do olho esquerdo da matrona – talvez fosse nos dois olhos – uma tonalidade esverdeada que denunciaria alguma afecção biliar. Concluía com seriedade científica: Algo muito perigoso numa mulher de sua idade.

Além de não se ter certeza se a obra retrata alguém – alguns a consideram uma espécie de equação matemática – o quadro foi pintado entre 1503-1506, uns 470 anos antes de este arguto médico ter nascido.

O interessante é que por um dia – e nisto refutava Andy Warhol – sua descoberta circulou por todo o mundo.

 

Já no início do século XXI, ou seja, 500 anos depois da feitura do quadro, dois pesquisadores italianos “descobriram” onde se localiza a paisagem que aparece no fundo da obra. O nome do lugar já esqueci. Grande erro de minha parte!

 

Em 2012 veio à luz outra Mona Lisa pintada por Leonardo. Qual é a réplica? Parece que os mistérios se acumulam à medida que vão sendo desvendados. Paradoxos das grandes obras.

 

Há também duas Mona Lisa “de Duchamp”. São reproduções em ofsete adquiridas em papelarias, uma delas mostra a matrona italiana com bigode, a outra, barbeada, isto é, como saiu da gráfica.

 

Nos últimos séculos por várias vezes o quadro ocupou as páginas policiais, fosse por agressões ou roubo, mas como boa filha adotiva sempre voltou ao Museu do Louvre, sua residência oficial, virgo intacta.

 

O romancista francês Pierre La Mure, que cultivava o subgênero histórico, publicou nos Estados Unidos, em 1975, A vida Privada de Mona Lisa, no qual a personagem título não é a mais interessante. Pessoalmente prefiro seu retrato do fanático monge dominicano Girolamo Savonarola:

Savonarola era realmente feio e fraco do peito, com uma testa baixa e um nariz enorme, curvado, que mergulhava sobre lábios grossos e úmidos. Sua feiúra era espantosa, inesquecível, e se tornava ainda mais impressionante por causa dos olhos brilhantes, profundamente recuados, que podiam ser os de um louco ou de um santo.

A descrição sugere um personagem dos Caprichos de Goya, se não um de Arcimboldo, ou mesmo uma das figuras grotescas dos cadernos de esboços do próprio Leonardo.

 

Em 1961 o pintor colombiano Fernando Botero vendeu ao Museu de Arte Contemporânea de Nova Iorque sua obra Mona Lisa aos doze anos. Na época o mundo não vivia ainda a psicose da obesidade – quem escreve isto segue todas as dicas de alimentação, usos e costumes errados porque teoricamente engordam, e não consegue aumentar 100 gr. à sua esquálida figura de cavaleiro sedentário. A pintura de Botero foi vista com condescendência bem humorada e em conseqüência deu ao artista excessiva fama internacional. Dentre suas figuras infláveis, a mais conhecida é a caricatura da obra de Leonardo da Vinci.

 

Alguém batizou o quadro de La Gioconda – a sorridente, em italiano – e aditou ao sorriso o epíteto de misterioso. Os séculos não passam em vão. Quem se atreveria, hoje, a negar-lhe tal qualidade?

Circulam diversas versões sobre o significado do sorriso de Mona Lisa – se pressupõe que o sorriso não signifique apenas sorriso.  Especula-se que o artista teria contratado bufões para entreter a modelo e lhe fixar os músculos faciais na posição exibida no quadro. Também se diz que a ela faltariam alguns dentes.

Em 2006, cientistas canadenses utilizaram alta tecnologia para descobrir que a modelo vestia roupas usadas unicamente por mães renascentistas e italianas. Segundo estes pesquisadores o mistério do sorriso se deve à gravidez de Lisa Gherardini, esposa de um abastado comerciante de Florença e provável modelo do quadro. Se ela não estava prenhe, diz a pesquisa, teria acabado de dar a luz o seu segundo filho. Neste caso a obra poderia ter sido encomendada para comemorar a efeméride familiar.

A Comunidade Internacional, com sua autoridade imanente, opina que nem a família Gherardini nem o próprio Leonardo podem ser responsabilizados pelo estardalhaço do retrato nos séculos seguintes. Não cabe a eles o mérito nem a culpa, conclui o relatório sobre o assunto.

Os Teóricos dos Astronautas do Passado suspeitam que o sorriso de la gioconda oculte sorrateiramente conhecimentos interplanetários confiados em sigilo ao pintor. Isto explicaria o ricto levemente irônico da matrona.

Talvez Mona Lisa, premonitoriamente, sorria da ingenuidade das massas que se aglomeram na sua frente em postura ritual de contemplação devota, alheias ao fato de estarem cumprindo um ato regido pela alma do negócio. De qualquer modo ela faz tanto sucesso quanto Madonna.

 

Na última exposição de Mona Lisa nos Estados Unidos, o número de visitantes foi extremamente alto. Alguém dividiu este número pelo tempo de exibição. O resultado é alarmante: cada espectador ficou diante do quadro – separado por um cordão de isolamento a mais de um metro de distância, com a obra protegida por um vidro a prova de balas que, previsivelmente, devia refletir as luzes da sala – entre seis e sete segundos. Cabe a pergunta:

– O quê foi que viram estas pessoas?

 

De Washington, DC, recebo este e-mail de um leitor:

hehe, exatamente isso… eu tive oportunidade de ir até o Louvre, e na sala da Mona Lisa tinha tanto, mas tanto coreano louco tirando fotos que eu resolvi ir comer uma baguete…

Um abraço, Manuel.   

 

Não quero finalizar a minha crônica – almejo que ela tenha divertido o meu leitor sequer secretamente, como a Mona Lisa se diverte – sem aportar ao tema o meu modesto descobrimento: O sorrir, como todas as coisas do universo, é tudo aquilo que não é outra coisa.

Ostravacância – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

Tio Otácio mora em São Ludgero desde que se entende por gente. As primeiras luzes do saber, como aprecia dizer, adquiriu-as no famoso Seminário da cidade. Aliás, o primeiro seminário do Estado. O Amilcar Nevesque ninguém sabe ao certo é até onde ele foi nos seus estudos teológicos nem até que ponto chegou na carreira eclesiástica, se é que a tenha iniciado algum dia. À força de tanta leitura saborosa servida pela vasta biblioteca do Seminário, veio a tornar-se um intelectual, ou seja, alguém que procura pensar pela própria cabeça. Era inevitável. Tio Otácio adora ler, a ponto de sentir-se mal, muito mal mesmo, quando passa um dia inteiro sem ler ao menos dez ou doze páginas de algum livro. Mas de livros que valham a pena, faz questão de completar. Tio Otácio também adora ostras, mas não chega ao exagero de passar mal se não conseguir deglutir dez ou doze desses saborosos moluscos bivalves num mesmo dia.

 

Para munir-se de ostras frescas, tio Otácio precisa deixar sua São Ludgero, onde é figura política influente e respeitada, e buscar uma beirada de mar. Muitas vezes Otacílio Osório, seu nome de batismo e de registro civil, aproveita para visitar a Capital, onde conta com o suporte logístico do sobrinho Manoel Osório, que muito aprecia os papos com o parente.

 

Tio Otácio aproveitou a primeira folga que teve no início do ano para conferir a situação, levado pela notícia de que 11,6 mil litros de óleo escorreram de dois transformadores de uma subestação desativada para as águas da Baía Sul no distante dia 16 de novembro de 2012, embora o vazamento só tenha sido descoberto e comunicado à Fundação do Meio Ambiente em 19 de dezembro. A Baía Sul, que vai da Ponte Hercílio Luz até o extremo sul da Ilha de Santa Catarina, é uma das duas maiores regiões produtoras de ostras e mariscos do Brasil. A outra é a Baía Norte. Nas duas baías há inúmeras fazendas marinhas que cultivam os moluscos e abastecem São Paulo e restaurantes no exterior, além de servirem ao consumo local. Nos restaurantes à beira-mar da Freguesia do Ribeirão da Ilha, no sul, e de Santo Antônio de Lisboa, no norte da Ilha, podes acompanhar o sujeito pegar o barco e retirar da água a ostra que te servirão em seguida.

 

- E o que diz a companhia de luz? – quer saber Otacílio Osório.

 

- Disse duas coisas – esclarece Manoel Osório. – Disse que o terreno da subestação já tinha sido repassado à Universidade Federal, a qual alega não ter ainda recebido a sua posse, e que o óleo derramado era inofensivo, praticamente inerte.

 

- E não era.

 

- Não, não era. Trata-se do Ascarel, marca comercial da notória Monsanto para um produto já proibido até no Brasil por ser altamente tóxico e cancerígeno, além de outras formidáveis propriedades negativas. Tão danoso quanto os mais deletérios pesticidas vendidos pelo mesmo fabricante.

 

Após circularem por um Ribeirão de casas todas em luto fechado, com bandeiras e faixas pretas, pessoas entristecidas pelas ruas e restaurantes entregues às moscas no auge do verão, pois a extração, o consumo e a reposição dos moluscos da região estão proibidos até a avaliação precisa do tamanho do estrago, tio Otácio apenas comenta:

 

- É obsceno, não? Quando o pessoal consegue desenvolver uma atividade econômica forte e sustentável, sem destruir a arquitetura do lugar, vem uma empresa do Estado e abandona na beira do mar equipamentos cheios de líquido mortífero. Então é isso que se vê, essa ostravacância, essa síndrome de restaurantes vazios por falta de ostras.

Provações – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

Apresentou-se para tirar sangue. Apresentou documentos, carteiras, cartões, fotos e comprovantes. Ninguém haveria de tolerar que se passasse por quem não é. Mas tirar sangue não é só chegar e dizer, Amilcar Nevesvim aqui para tirar sangue. Exige-se requisição de médico competente, isto é, credenciado. Exige-se alguém doente ou, pelo menos, um sujeito passível de adoentar-se. Desde que identificado por impressões digitais digitalizadas, quer dizer, eletrônicas, e coisas assim.

 

Passada toda a provação, ou melhor, superadas todas as provas a que se teve que submeter, após formulários e assinaturas, refugiou-se no assento da cadeira mais discretamente afastada de tudo, ignorou a tela tagarela de televisão à sua frente, às suas costas e aos seus lados, selou os ouvidos e abriu o livro que trazia, um pequeno volume em edição de bolso, pondo-se, alheio, a lê-lo.

 

Livro de bolso só faz sentido em terras frias, habitadas por gente que não tira um sobretudo, sobretudo na rua e no metrô, o que não é o caso, supõe-se, quando o cara vai fazer amor com sua legítima senhora e, especialmente, quando se vai banhar. Sobretudos costumam ter, acima de tudo, vastos bolsos onde se podem acomodar com prazer e conforto um ou mais livros de bolso, sem qualquer incômodo para ditos livros nem para os seus felizes (e eventualmente cultos) portadores.

 

Nos trópicos, tal costume não pode mesmo vingar. Como portar nos bolsos – em quais bolsos? – qualquer tamanho de livro? Se muita gente já acha estranho que alguém use camisa polo com bolsinho do lado esquerdo, onde mal cabe uma caneta esferográfica de feira e no qual dinheiro e documentos encharcam-se de suor mal ameaçam despontar os primeiros calores do verão (que costumam insinuar-se, precoces, já em pleno inverno), o que dirá de um pobre mortal que carregue livros nos bolsos? Livros serão sempre objetos de biblioteca até o dia em que algum cupim deles inevitavelmente dê cabo, como mandam os usos e os costumes.

 

Ainda assim, aquela pessoa que saiu de casa disposta a tirar sangue sentou-se surda no banco mais distante e abriu o livro de bolso que trazia na mão (à falta sobretudo de bolsos adequados, como cá já se demonstrou à exaustão) e pôs-se a ler por escassos minutos até que a moça de guarda-pó branco tocou-lhe o ombro e, em tom admoestatório, perguntou-lhe se não sabia que, para ser atendido, deveria ter deixado no guichê apropriado o papelucho que lhe entregaram.

 

Ante suas negativas, ela lhe disse, a fim de evidenciar o prejuízo que tivera em não atentar para as orientações recebidas, que devia estar ali, estupidamente, esperando há muito tempo. Nada disso, respondeu, não deu tempo de ler nem mesmo uma única página do livro. E que livro é esse, ela perguntou, espiando a capa e interessando-se pelo título. É um romance. Humm, ainda está no início do livro, já apareceu o casal? Casal? É, não é um romance? Sim. Então, todo romance tem um casal, de que trata esse? De um cara que decide matar o pai. Que horror, como alguém pode pensar em tirar a vida de quem lhe deu a vida? Isso às vezes acontece. E é um romance, hein, imagine se fosse uma tragédia: seria uma catástrofe, um dilúvio, o fim do mundo! Bem, o pai passou a vida toda tentando acabar com a vida do filho. Isso não justifica, me desculpe.

 

Terminou o seu trabalho e disse, vou procurar e ler esse romance, mas se não gostar, para o seu próprio bem: não me apareça na minha frente pra eu lhe tirar sangue de novo. Sabe como é, quem avisa amiga é.

Velhinhos não merecem Cultura? – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

A presidenta Dilma Rousseff sancionou na última semana do ano passado a lei que cria o Vale-Cultura,
no valor de 50 reais, destinado a trabalhadores que ganham até cinco salários mínimos. Desde ontem, este teto é de R$ 3.390,00, o que certamente abrange expressiva parcela da mão de obra assalariada no Brasil; no caso dos aposentados do setor privado, o limite alcança praticamente todas as pessoas com direito ao benefício. Entre estas não há aposentadorias de 25 ou 28 mil mensais, como aquelas que pagamos com o nosso imposto a servidores públicos graduados que, muitas vezes, pouco tempo contribuíram e menos tempo ainda trabalharam pelo bem público, pelo interesse coletivo – e ainda não estamos, aqui, falando de corrupções, prevaricações e crimes que tais.

 

Antes, porém, que vozes encrenqueiras se alevantem para tudo questionar e denunciar submissões servis até no uso de uma vírgula, imploro-lhes que me permitam dizer que o substantivo feminino presidentaé termo antigo do nosso vernáculo, vem lá do século XIX (embora, em pleno século XXI, alguns iluminados achem que foi “inventado” pela nossa mandatária maior, eleita por um partido do qual têm verdadeiro pavor como se a vontade do povo brasileiro só tenha de ser respeitada caso coincida com os interesses desses esclarecidos), registrado já no dicionário de Cândido Figueiredo nos idos de 1899, dez anos apenas após a proclamação da República.

 

Aliás, para fins de reflexão geral, dentro do mesmo capítulo das “intromissões por decreto” na língua portuguesa falada no Brasil, cabe aqui, aproveitando os parêntesis abertos, uma pequena informação: “A lei federal 2.749, de 1956, do senador Mozart Lago (1889-1974), determina o uso da forma feminina para referir-se a cargos públicos ocupados por mulheres“. Isto foi há 57 anos, quando Juscelino estava iniciando o seu mandato presidencial.

 

Assim, Dona Dilma tem todo o direito de pedir para ser tratada de presidenta e de determinar que, no âmbito do governo, seja este o tratamento a lhe dispensar.

 

Mas voltemos ao Vale-Cultura antes que ele esfrie de vez. Trata-se de incentivo fiscal, ao qual empresa ou pessoa alguma é forçada a aderir. Vai funcionar assim: a empresa entra com 45 reais por trabalhador todo mês e desconta o total dos impostos federais a pagar, enquanto o empregado contribui com os outros cinco reais, os quais também abaterá do imposto de renda. Assim, todos os envolvidos naquilo que os economistas gostam de chamar de “cadeia produtiva”, neste caso da Cultura, serão diretamente beneficiados por esses recursos: o escritor, o pintor, o fabricante do papel para o livro, o fabricante de molduras, o ator, o teatro, o laboratório de processamento das imagens. O incentivo não pode valer para a pirataria, situação em que todos perdem e supostamente ganha apenas o pirata, que surrupia obras alheias.

 

Então vem a pergunta, como muito se diz atualmente, “que não quer calar”: por que aposentados e pensionistas não são favorecidos por essa benfazeja legislação? O governo, via INSS, renunciaria a 45 reais e o beneficiário da Previdência que desejasse contribuiria com os outros cinco paus. Se fosse comigo, eu sairia correndo para abraçar a oportunidade: poderia comprar, todo mês, um livro de 38 e um filme em DVD de 12 reais, por exemplo. Todo mês!

 

Aliás, cada auxílio-moradia de 4,3 mil reais pago em Santa Catarina poderia ser convertido em vales-cultura para 95,5 aposentados – sem prejuízo para ninguém.

A BONECA DE NATAL – de jorge lescano / são paulo.sp

In Memoriam Luanda.

As lojas tentavam a população com seus produtos estrategicamente expostos nas vitrines para criar a ilusão de que todos podiam proporcionar alegria ao levar para casa o objeto desejado por aquela pessoa querida. Tal, mais ou menos, a linguagem utilizada nos anúncios.

Mesmo nos bairros mais afastados do centro comercial, as lojas acenavam com um esboço de felicidade pré-datada até para o mais necessitado ou imprevidente dos mortais. Os preços e as facilidades do crédito convidavam a se endividar, e a data justificava o endividamento.

Postado ao lado da porta de uma destas lojas da rua Butantã, encontrava-se um homem magro, modestamente vestido, carregando uma espécie de valise com fecho de zíper, que ele fazia correr num sentido e noutro. Difícil dizer se experimentava o seu funcionamento ou se a ação correspondia a nervosismo.

Várias caixas com brinquedos de plástico se encontravam na entrada do estabelecimento. O preço – módico – unificava os objetos. Cada caixa ostentava uma placa com o valor genérico. Pelo valor de cinco reais podia-se adquirir tanto um trenzinho como uma boneca de plástico marrom vestida com um macacão vermelho e um lenço na cabeça, amarrado à moda africana.

Por duas vezes, nas lojas populares da rua Direita, vira a conseqüência do furto. A primeira, duas moças que haviam furtado peças de lingerie, a segunda, uma boneca dentro de uma caixa.

O caso das moças se deu esquina da praça Clóvis Beviláqua. Ele viu no momento em que o empregado da loja fez que elas abrissem as bolsas e de lá retirassem as peças furtadas. Alguns curiosos pararam para olhar. Uma das moças abaixou cabeça e deixou a mão escorregar ao longo do rosto, ocultando-o. Era metade da tarde e nessa hora a multidão se apinhava no local.

O homem que se apropriara da boneca era magro como ele. Pelo que havia podido observar, enquanto circulava pela loja entre as mesas de exposição, o homem cometeu o erro de prestar atenção excessiva ao brinquedo, chamando a atenção do funcionário encarregado da segurança. O movimento rápido que fez a caixa desaparecer no interior da sacola, provocou um deslocamento sincrônico do empregado, e apesar do homem ganhar a rua em alta velocidade, sem correr, contudo, para não chamar excessivamente a atenção, porém a passos mais rápidos que os usuais nessa rua, permitidos porque nessa hora o comércio já começara a abaixar as portas, foi alcançado pelo segurança e outro funcionário, que devia servir-lhe de escudeiro. Sem resistência, o homem entregou a boneca. Isto não satisfez os guardiões da ordem comercial, que fizeram questão de levar o larápio para os fundos da loja.

A testemunha ainda teve tempo de ouvir o comentário de um passante Sujar-se por pouca coisa não vale a pena! Ele pensou na filha do homem, que inutilmente esperaria seu presente.

O homem magro não deixaria que sua criança pensasse haver sido esquecida por Papai Noel. Com passo firme entrou na loja

ARTISTAS E VACAS – por jorge lescano / são paulo.sp

O analista revelara à paciente que ela sofria de falsa identidade – ou como esses profissionais da escuta esotérica chamem esta perturbação da personalidade –: era uma vaca presa num corpo de mulher. Ela decidiu assumir seu verdadeiro EU. Começou a mugir e se fazer tatuar grandes manchas negras na pele branca.

Sem que se conhecessem, ela vivia a metamorfose almejada pelo poeta. Este, em protesto pelo descaso da plebe ignara com a ninfa Eco, sonhava ser uma vaca, malhada, de nome Gertrudes, como os irlandeses chamam as fêmeas do seu gado bovino, segundo James Joyce num romance do argentino Ricardo Piglia

 

O pintor Paul Klee, nascido na Suíça, herdou do pai a nacionalidade alemã e só recebeu a cidadania do seu país natal, solicitada sete anos antes, um dia depois de sua morte.

Alguém comentou – talvez seja apenas uma boutade, com esta ressalva figura numa biografia do artista – que a demora teve origem em um quadro no qual o pintor retratou um rebanho de vacas empilhadas, sugerindo que o país não tinha espaço suficiente para sua pecuária. Isto numa nação que se orgulha da qualidade do seu queijo e criou um gênero de canções dedicadas a este ruminante.

 

O romancista acordou e deu pela falta do seu manuscrito. O jornal não fornecia o título do romance. Um pouco afastada da árvore sob a qual o escritor dormira sua sesta de verão, uma vaca ruiva ruminava a sua merenda.

Tarde demais ele ficou sabendo que os nutrientes que este animal encontra no capim também estão no papel.

 

Com o passar das gerações a anedota ficou mais ou menos assim:

A senhora interrogava Claude Debussy sobre o método utilizado para suas composições.

- É muito fácil, eu pego todos os sons e retiro aqueles que não desejo usar – teria respondido o músico.

- Confesso que não entendo as suas melodias – disse a dama. – Eu apenas sei do que gosto e do que não gosto.

E o compositor:

- Como as vacas, minha senhora!

 

 

O ator dirigia a sua motocicleta em alta velocidade quando o ruminante estacionou no meio da estrada. Não houve tempo para desviar ou frear. O veículo bateu em cheio na massa de carne que na hora do impacto ganhou solidez de concreto.

A polícia rodoviária contou com a serra e a habilidade de um magarefe para extrair a cabeça e os ombros do motoqueiro do flanco da vaca.

Aquela noite foi de consagração do ator substituto. Em turnê pelo interior do estado, a companhia representava Androcles e o leão, de George Bernard Shaw.

 

Como descrever o assombro da vaca solitária ao contemplar com seu olhar bovino o jovem negro atravessar a cerca, armar seu saxofone e totalmente concentrado improvisar alguns compassos na sua frente e para seu exclusivo prazer, enquanto seus colegas, não menos surpresos que ela, esperavam o final do breve concerto à beira da estrada?

Quem disse que as vacas gostam de música?, deve ter pensado o animal ao ver o carro se afastar levantando uma nuvem de poeira.

A cena foi narrada por um integrante da banda de Charlie Parker presente na ocasião.

Autoajuda. Está tudo resolvido – por luiz fernando pereira / curitiba.pr

Nunca tinha me dado conta do incrível avanço das publicações de livros de autoajuda (sim, aqui a reforma, sob meu protesto, sacou o hífen). Especialmente nas livrarias mais modernosas, há sempre um enorme departamento luiz-fernando-pereiraespecialmente dedicado. Não é o caso do nosso Chain, livreiro que ainda resiste um pouco ao subproduto. Chain vende autoajuda – é inevitável -, mas os livros estão um pouco escondidos, revelando saudável constrangimento.

Achei alguns números. Há dez anos a revista Veja já mostrava que a publicação de obras do gênero havia tido um crescimento de mais de 700% nos últimos oito anos, contra um aumento de 35% do mercado geral de livros. Dez anos depois e os livros de autoajuda tomaram conta do mercado. Notem que as listas de mais vendidos estão divididas em três categorias: ficção, não ficção e autoajuda. Por que atraem tanto? É simples: prometem resolver tudo de forma rápida e simples.

Dizem que foi o americano Dale Carnegie que deu início ao gênero. E convenhamos: faz todo o sentido que tenha começado no fértil ambiente dos americanos. Nos anos 30 Carnegie publicou Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas. Vendeu mais de cinquenta milhões de exemplares. É muita coisa. Nemesis, livro de despedida de Philip Roth, tem uma tiragem de sete mil exemplares aqui no Brasil. Carnegie vende muito mais porque sabe simplificar. Costuma dizer: “Acredite que você pode mudar sua vida, e isso se concretizará”. Fascina multidões.

Bem analisado o fenômeno, autoajuda faz em boa medida o que a religião sempre fez. Confira comigo: Quando você diz que é impossível, Deus observa: “tudo é possível” (Lucas – capítulo 18, versículo 27). Quer mais? Quando você diz: Eu não posso, Deus discorda: “tudo podes” (Filipenses 4:13). Não por acaso a bíblia vende ainda mais do que Dale Carnegie. É auto-ajuda do início ao fim. Os budistas criaram o mesmo papinho cinco séculos antes de Cristo e os muçulmanos cinco séculos depois. Na essência é tudo autoajuda.

Não tenho capacidade e não quero fazer análise sociológica do fenômeno, é claro. A curiosidade dos títulos é o que me motiva. Já pensando em escrever o artigo, anotei alguns bem interessantes. Como são incontáveis as publicações, se você tiver tempo ou dinheiro para apenas um, sugiro Como Conquistar Tudo o que Você Deseja mais Rápido do que Jamais Imaginou. Conquistar tudo que deseja. E rápido. Esse é perfeito.

Entre os mais focados, estão os orientados para o assim chamado mundo corporativo. Lançado em 2011, o título (sempre autoexplicativo) é Consiga um aumento e seja promovido com rapidez. Se você leu, entendeu e seguiu os conselhos, mas não foi promovido e muito menos conseguiu aumento, não se preocupe. Tente Como se destacar em seu ambiente de trabalho, de Joe Calloway. Novo insucesso? Aí é o caso de apelar para um tal John Hoover e culpar o chefe: Como trabalhar para um idiota, já na décima primeira edição pela Saraiva. E se você por acaso for o próprio chefe, Bruce Tulgan lançou título encorajador: Não tenha medo de ser chefe.

Gosto muito dos que tratam das questões de alcova, a começar por um clássico: Tudo o que Você Queria Saber Sobre Sexo… Mas Tinha Medo de Perguntar. Leu e está sabendo tudo, mas perdeu um pouco o entusiasmo na relação? Pamela Lister, pela Editora Gente, tem a solução: Sexo no casamento: dez segredos para manter viva a atração. De acordo com a autora, “o desejo a longo prazo está ao alcance de todos os que se empenharem”. Como não pensamos nisso antes? A mulher já não é mais tão nova? Sem problemas. Gail Sheehy, agora pela Rocco, explica tudo em O sexo e a mulher madura. Bem, se eventualmente os livros anteriores não ajudaram, resta gastar um pouco mais com o livro de Rosaura Rodriguez: Bem-vinda ao clube do divórcio. Li a contracapa. Rosaura explica que “não se deve confiar em conselhos estapafúrdios de amigas solteiras”. No final a incrível conclusão: “é possível ser feliz sozinha ou acompanhada”. Genial a Rosaura.

Com o crescimento do mercado, é natural que aumente o grau de especialidade dos títulos. Gostei de alguns realmente bem direcionados. Antônio Fonseca Jr., orientado pelo aumento do percentual de obesos, publicou: Tudo que um gordo deveria saber (atitudes de um gordo). No anúncio promete uma visão holística da matéria. Fico a pensar: o que pode ser uma visão holística do gordo? Você não é gordo, mas se acha muito tímido e introvertido, ponha sua vida nas mãos de Susan Cain e seu novo livro: O poder dos quietos. A autora critica “o ideal da extroversão do século XX” (?!) e, também como está na síntese apresentada, “oferece inestimáveis conselhos sobre como os tímidos podem tirar vantagem das suas características”. Para os não raros casos de gordos tímidos a saída é ler os dois livros. Até pelo menos que alguém lance algo mais específico: “sucesso total ao alcance imediato dos gordos tímidos” (fica minha singela sugestão de título).

No fundo eu desconfio que todos os livros são escritos por heterônimos de um mesmo autor – que só muda um pouco a ordem das palavras. Viva o Chain – que ainda mantém intacta a vergonha e quase esconde os livros de autoajuda.

PAULINHO DA VIOLA completa 70 anos hoje – por zuleika dos reis / são paulo.sp

ANIVERSÁRIO DE PAULINHO DA VIOLA

                                                         

 

Paulo César Batista de Faria, nosso Paulinho da Viola. Poeta, príncipe, rei, mestre do samba, venho saudar-te, humildemente, por toda a beleza que sempre nos trouxeste a todos; venho para saudar-te neste dia 12 de novembro de 2012, quando completas 70 anos.

Ah! “Foi um rio que passou em minha vida”: Portela querida; “Coisas do mundo, minha nega”: sempre as coisas do mundo, meu nego; “Sinal Fechado”: de quantos sinais fechados se tecem as múltiplas vidas! Os nomes de tuas obras-primas poderiam continuar a ser aqui citados… ah… poderiam… por muitas linhas e linhas…

Paulinho da Viola e a Velha Guarda da Portela. Paulinho da Viola e dos azuis sem fim, e das rodas de samba sem fim… e da saudade dos sambas partilhados, compartilhados… tantos sambas… tantos…

Paulinho da Viola, artesão, em sua oficina, em casa, a fabricar com as mãos tão hábeis, instrumentos musicais.  Paulinho da Viola, a tocar junto com o filho e com o pai César de Faria, grande músico do conjunto Época de Ouro. Paulinho da Viola, presença ímpar nos mais autênticos pagodes da Música Popular Brasileira; Paulinho da Viola, de tempos mais limpos e mais felizes, de tempos de Outras Esperanças para este país do futuro.

Paulinho da Viola, em cuja voz e sambas ecoam muitas saudades infinitas de mim mesma. Ave, Paulinho da Viola, poeta, príncipe, rei, mestre do samba, cantor dos sentimentos mais fundos e autênticos da alma do povo brasileiro.  Com minha hoje tão parca voz venho saudar-te, neste 12 de novembro de 2012, saudar os teus 70 anos, saudar-te a ti que não tens idade, eterno que és. Por tudo o que representas e sempre representarás na nossa história musical venho saudar-te, com o abraço mais fundo do meu coração. Esta fã desconhecida de Sampa, esta fã que já cantou músicas tuas, esta para sempre anônima de si mesma, mas com palavra ainda para saudar-te. Ainda. A ti, patrimônio musical do Brasil: Paulo César Batista de Faria: Paulinho da Viola. Feliz aniversário.

 

2057. UMA CRÔNICA MARCIANA – por arnaldo barbosa brandão / brasilia.df

“Vem cá Brasília, deixa eu ler tua mão menina, 
tem grande destino reservado pra você”.
Adaptação do samba do Zé Catimba (carnaval de 1974)

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Logo que cheguei a Marte em 2055 tive que responder a uma pergunta que me deixou encafifado: onde anda o Edgar? Perguntou-me um escritor marciano. Não dei muito papo, porque escritores, sabem como são, gostam de conversar fiado e metem o focinho em tudo, preferi marcar um café mais tarde no meu bangalô. Diz ele que vai processar o Edgar, como nunca li o tal Edgar, pensei, por que será? Deve ter sido briguinha de intelectuais ou alguma criticazinha a Marte. Os marcianos são tão bairristas quanto os brasilienses, eles acham Marte o suprassumo do Sistema Solar, eu acho isto aqui uma merda, sem falar que não tem praia, se bem que, como trabalho pro Itamarati, moro perto do Mare Sirenum (um lago artificial criado pras elites daqui), bem próximo ao “Monte Olimpo”, com seus 26 km de altura. Em Marte é assim, ou você está por cima, nos píncaros, é um DAS-8, ou vai morar nas ‘Fossas Marianas’, para além da “Cratera do Schiaparelli”, na periferia da periferia, e leva horas no metrô para chegar ao batente. Nos últimos anos, dizem que Marte mudou, falam em tempestades solares, mau-olhado, macumba, poluição. Há os que culpam os alienígenas, dizem que tudo começou a dar errado depois que nós chegamos, que Marte era uma tranquilidade, um sossego, com os alienígenas veio a violência, a poluição, os ventos mudaram de direção, e os morros começaram a desmoronar na periferia, é claro. O “trágico acidente”, como diz o telão, foi para os lados da “Terra de Malboro”, onde a poeira vermelha sobe em redemoinhos gigantes, porque em Marte tudo é gigantesco, tudo é super, tudo é mais bonito, mais espetacular, mais trágico. O acidente foi por volta de meia noite, acordando muitos moradores de seus sonhos freudianos, os desejos reprimidos de sempre: ganhar na loteca, comprar uma TV de 50 polegadas, conseguir um emprego no governo, desfilar na Unidos do Cruzeiro, e ir pro céu. Muitos foram nessa. Confesso que me adaptei em Marte melhor do que esperava, não é dos piores lugares em que estive. Primeiro, fui mandado pra Amazônia, era como se fosse Marte, antes dos americanos baixarem lá (vazia, calor infernal, sem falar nas doenças). O pior era a distância do Rio, que, naquela época, era o centro do meu universo. Depois fui pra Brasília nos inícios, aí era Marte mesmo, sentia falta de ar, meu nariz sangrava, faltava tudo, a poeira vermelha cobria até a Esplanada dos Ministérios. Faltava até mulher, que no Brazyl (agora com z e y, é a nova nomenclatura, fazer o quê) havia em profusão nas praias lotadas, depois inventaram essa de mulheres trabalharem para adquirir liberdade, e agora estamos nesse impasse, elas querem voltar pra casa e querem liberdade. Aqui em Marte raramente são vistas, e quando aparecem, são como os pardais, andam em bandos, chilreando e com o dedinho iluminado, sinal que estão na fase fértil. Outro dia, pensando em encontrar uma marciana mulata e tentando matar a curiosidade sobre a fisiologia sexual delas, dei uma volta pelos subúrbios, fui conhecer a “Terra de Marlboro”, queria ver os tais redemoinhos gigantescos, peguei um carro-voador blindado, com dois robôs, vi muitos homens armados, usando aquelas máscaras do Darth Vader, dando bascolejo, sem mais nem menos deitavam os suspeitos no chão, pisavam nos ovos dos caras com aquelas botas pesadas, metiam a porrada e os transeuntes aplaudiam. Este passeio pelos subúrbios de Marte me deixou muito triste, tive que tomar um rivotril que trouxe do Brazyl, é recomendado pra tristeza e amargura. É que a pobreza me deixa amargurado, é a coisa de que mais tenho medo: voltar a ficar pobre, sem dinheiro, vocês podem imaginar, Nelson Rodrigues já dizia: “dinheiro compra até amor verdadeiro”. E compra mesmo, até em Marte. Paramos numa esquina barulhenta e poeirenta, e logo me apareceu um menino com uma telinha, onde a cada toque se via uma marciana, algumas belíssimas. Quanto é? Ele abriu a mão de treze dedos. Treze? Fez uns sinais dando a entender que eu poderia negociar direto com ela. Hoje não, tomei o comprimido pra ficar alegre, mas o meu tesão foi pro brejo, efeito colateral e, depois, meu motorista disse que estava escurecendo e que seria perigoso continuar naquela área.
Próximo a minha casa, nas margens do Mare Sirenun, reencontrei o escritor, disse chamar-se Lorquas Ptomel, pedi à robozinha (coisa linda, só vendo), pra servir um café, estava um tanto curioso para conhecer a cultura local. Ele era o rei das perguntas chatas: perguntou-me pelo Ray, eu nem consegui dizer que ele morreu em 2012, insistiu com a pergunta sobre o Edgar, pensei que ele queria saber alguma coisa do Tarzan ou então estava falando do outro Burroughs, filho do inventor da máquina de escrever (acho que vocês não sabem o que é), mas não, me disse que o cara escreveu vários livros sobre Marte. Fingi que já sabia, fiquei saboreando o café e apreciando a bunda da robô, nem ouvia as abobrinhas que o marciano falava, com aquele ar entediado, comum aos escritores, sejam de Marte ou de Brasília. Botei a vassoura atrás da porta e aguardei (é o verbo mais usado por aqui). Assim que o escritor marciano deu a entender que ia embora, pensei: hoje eu pego essa robô de qualquer maneira. Vocês não fazem ideia do que seja fazer amor com uma robô, sim, porque com ela eu fiz amor e não sexo, é como se tivesse voltado aos inícios dos anos 70 do Brazyl. Não fazem ideia do que seja fazer amor olhando pro céu estrelado de Marte, sem nenhuma nuvem, nada, céu azulíssimo. Agora começo a entender porque os dois Impérios que mandam na Terra gastaram bilhões de dólares e outros tantos de Yuanes pra se estabelecer aqui. Só fazer amor em Marte com a Seane (coisa mais linda) já teria valido a pena. Lembram-se da Rachael, do Blade Runner, é a cara e o corpo dela, só que “com uns quilinhos a mais” como ela me disse, quando a escolhi na tela da minha sala, olhando-me com aquele olhar marrom-claro e os cabelos presos na nuca. Quando ela levanta a cabeleira negra liberando a nuca, é o céu, o céu de Marte. Depois de uma noite de sono, que há muito não tinha tido, sem ter nem porquê, meu pensamentos voaram pro Brazyl, tenho essas recaídas, dizem que a palavra só existe na língua marciana: saudade. Nessas horas, sempre lembro de uma frase do Gregório de Matos (não deve haver mais vestígios nem no Google): “Que me quer o Brasil, que me persegue?” Parece papo do Lorquaz Ptomel, o escritor marciano, mas a frase me empurra para o passado distante, mesmo que eu não queira ir. Acordei tarde, botei meus óculos protetores, sapatos de chumbo, pra me segurar no chão, olhei pela janela e quem estava na porta pra me importunar? O Ptomel, com aquela cara de interrogador, querendo saber como era Brasília. Pensei: porra, esse cara vai infernizar minha vida por aqui, logo agora que a minha robozinha está no período fértil. Vou contar logo o básico e ver se me livro deste chato.
Houve uma época em que se imaginou que seríamos um Império grandioso: “O Império do Meio do Mato.” Lá se vão cem anos, foi no reinado de Ramsés de Oliveira e Marte ainda era chamado de Planeta Vermelho e só existia nos sonhos do Schiaparelli (deve ter no Google) e nas histórias do Bradbury, que não tenho saco pra ler, detesto ficção científica. Para entender o presente, e o que vim fazer em Marte, é preciso dar uma olhada no passado. Infelizmente, é o passado que cria o futuro, se o passado foi uma merda, porque o futuro seria diferente? Está nos livros de história, tudo começou com o príncipe Ramsés, que subiu no Morro do Cruzeiro e disse com a pompa de sempre: “daqui, deste curral, que será o palco das grandes decisões nacionais, fica criada esta ilha chamada Brasília, onde, como disse Dom Bosco, correrá muita grana e muito mel”. Desculpe Ptomel, mas li a frase antes de derrubarem a Rodoviária, não me lembro com exatidão. Chamou então o grande arquiteto do universo (Deus), e disse-lhe ao pé do ouvido: “Oscar, quero uma cidade bem egípcia, muitas pirâmides, muitos palácios e o Rio Nilo em volta, não importa quanto vai custar”. Está claro nos textos bíblicos que ele se referia ao grande Oscar Niemeyer, que hoje está com 200 anos, completamente lúcido. Oscar convocou seu compadre, o resto, todo o mundo sabe: ele fez uns rabiscos e um pouco de literatura. Alguns criadores de caso avisaram: “isto vai dar merda”. Os empreiteiros e fazendeiros berraram bem alto, cada qual defendendo seus pastos. Ramsés não quis nem saber, pediu grana emprestada aos gringos pela tabela Price, os gringos achavam que valia o risco, queriam ordem no seu quintal, pensavam que poderíamos ser um grande “mercado” para seus produtos. Ramsés chamou os pelegos-chefes do IAPI, IAPETEC, IAPC e outros IAPs e exigiu a grana acumulada na CAIXA para pagar a aposentadoria dos trabalhadores. Não, príncipe, é para o nosso futuro, disseram os pelegos. Ramsés retrucou na bucha: o futuro é agora, lasca o pau e manda rodar a manivela. Por essas e outras é que chamam a cidade de “O Túmulo do Faraó”. O problema é que o príncipe que sucedeu Ramsés, um magrelo apelidado “Vassourada”, um dia acordou de ressaca e cismou que não ia morar mais no Palácio da Alvorada, reclamava daquele silêncio de túmulo e do frio cortante do cerrado. Dizia que mandava menos que o prefeito de São Paulo e tinha razão, como alguém ia comandar um continente de dentro de um palácio a beira do Lago Paranoá, sem o Google, sem Facebook, sem o MSN e sem o Badoo? Era o problema de sempre, as legiões não o levavam a sério. Resultado: foi varrido do poder. Renunciado. Um espanto, nunca se soube de alguém que tivesse renunciado a nada em Brasília, no máximo o sujeito pede licença sem vencimentos. Enquanto rolavam essas complicações nos altos escalões, o povo (sempre mal informado, só viam o programa do Chacrinha e ouviam o futebol), chegava aos borbotões, em busca da grana e do melado, mal sabiam que a grana tinha dono e o melado estava sendo disputado em recinto fechado, no Palácio das Duas Tigelas, também conhecido como Vinte e Oito, em homenagem aos 28 que caíram lá de cima na sua construção (alguns, de vez em quando, saem da tumba e desempatam a votação). Os gringos, que já andavam ressabiados por causa dos cubanos, a essas alturas começaram a desconfiar que não receberiam a grana, e que aqui dentro, caberiam umas seiscentas Cubas. Se uma, comandada por um lunático, já dava um trabalho danado, calcule seiscentas. Então chamaram os militares. Estávamos na época do “nacional-devedorismo” (devo, não nego, pagarei quando puder), doutrina criada pelos militares nos anos 40 do século passado. A proposta era crescer endividando-se, como faz o povo até hoje no Ponto Frio e nas Casas Bahia, confiando que amanhã vai estar tudo muito mais caro. A ideia era construir uma cidade que fosse o contrário da bagunça brasileira. Tudo certinho, organizado (cada coisa em seu lugar, um lugar para cada coisa). Só que a bagunça brasileira também foi planejada, não se cria uma esculhambação como o Rio, Salvador, São Paulo, Recife, Belém, de uma hora pra outra, são coisas planejadas, de séculos. No final do mandato, Ramsés fez uma viagem (ele gostava muito de viajar) pra Paris. Os milicos entraram e trataram de consolidar a cidade, afinal iam morar nela por muitos anos. Logo notaram que O Vassourada nada tinha feito e Jango, como percebeu Glauber Rocha, era um fazendeiro-poeta, mais fazendeiro que poeta, queria mudar o imutável sem sair da fazenda. A capital cresceu mais do que qualquer outra cidade em todos os tempos, os súditos do príncipe Ziror, que governou a cidade nos começos, passaram de 140 mil almas, em 1970, para mais de 10 milhões. O problema é que as cidades tem o péssimo hábito de mudar o tempo todo. São como caleidoscópios (uma metaforazinha que o Lorquas Ptomel gosta, ele adora também o verso do poeta Saint-John Perse: “As cidades crescem, enquanto as mulheres sonham”), diz ele que os sonhos femininos são confusos. Pensei: este Ptomel parece misógino, acostumou-se mal com a obediência das robôs, vive no passado distante, talvez pra se proteger, quem sabe, ou talvez porque os marcianos são assim mesmo, quando ficam velhos. Os marcianos são pessimistas, só falam em problemas, o Ptomel chegou ao ponto de me dizer que problema algum tem solução definitiva, diz ele que apenas mudam a forma. Ele falando estas abobrinhas e eu pensando na minha robô (coisa mais linda), depois que ela dorme fico observando Brasília aqui de cima, o mais interessante é que ela dorme com os olhos abertos. O Ptomel quer saber quais são nossos problemas. Sei lá, a minha robozinha deitada me esperando e eu tendo que falar de problemas em Brasília, quero lá saber daquela politicagem, esse Ptomel tem cada uma. Acho que o problema principal de que acusam o príncipe Ziror é a “Grande Muralha Medieval”, construída em 2030, para controlar a entrada dos bárbaros. É que não só os DAS estão dentro da Muralha, mas também os hospitais, cinemas, teatros, universidade, restaurantes, lago, zoológico e até o melhor cemitério. Até o samba está do lado de dentro. De vez em quando, alguém pula a “Muralha”, geralmente no Natal e Carnaval, mas logo as legiões do príncipe Ziror III tratam de expulsá-los. Apesar dos contratempos, tudo ia bem, mas como diz um ditado marciano: “depois da tempestade, sempre vem outra”. O horóscopo do príncipe Ziror III dizia que Netuno estava na sua casa e que sua eleição estava garantida, aí, não mais que de repente, os centuriões do Rei Lulácio, também chamado “Sapo Barbudo”, o matador de andróides, mandaram prender o príncipe Ziror III, período que ficou conhecido como “Arrudaço”. Daí pra frente, as coisas se acalmaram e a vida continuou como sempre foi, Marte brilhando no firmamento, Vênus tranquila desfilando sua beleza e minha robozinha dormindo de olhos e pernas abertos. Confirmando o ditado marciano, aconteceu o improvável, a inflação voltou com tudo, pegou a Rainha Dilma com as calças na mão, não teve jeito, a Rainha, apelidada de “a imutável”, jogou nas telas o plano “Real Novo 2.0-Turbo Flex”. Isto foi bem antes da Copa do Mundo de 2052. Brasília sediou uma das chaves, construíram um estádio pra um milhão de torcedores. O Rei Lulácio VI, que voltou a governar, deu o pontapé inicial, errou a bola, mas acertou no discurso, dizendo ser candidato a Imperador de Marte. Já me cadastrei (em Marte você não faz nada sem se cadastrar), pra votar. Mas vocês devem estar perguntando: por que fui transferido pra Marte? Simples, é que morri, e pra lá vão os espíritos superiores. Ou não leram o livro do Ramatis, o escritor preferido do Lorquas Ptomel, meu vizinho?

Omar e o Bolo de Côco – por omar de la roca / são paulo.sp

 

” Quando cheguei na cozinha, ao contagem regressiva estava e dez e descendo rápido.Fiquei olhando para o relógio imaginando coisas sabendo que  eu não ia sair dali. Quatro,três, dois, um…Um apito,e a água para o meu chá estava quente.”  Disse Omar rindo. Mas é preciso deixar bem claro que entre ler e ouvir ele contando havia uma grande diferença. Ele fazia questão de interpretar cada palavra. Estava sério ao entrar na cozinha, de olhos arregalados ao ver o relógio contando para baixo, a cara de espanto sem saber o que fazer e o sorriso ao retirar o copo plástico de água quente de dentro do microondas e colocar um saquinho de chá dentro. Era sua veia artística que as vezes falava alto.Ele era reservado e normalmente quieto.Mas não dispensava um brincadeira de vez em quando.O problema é que gostava de brincadeiras inteligentes e piadas que fizessem as pessoas pensarem.Mas as vezes as pessoas queriam o riso fácil,debochado com preguiça de fazer a associação correta. E as vezes era uma piada particular que só ele entendia e ria sem que ninguém entendesse o porque. Agora ia fazer uma verdadeira preleção sobre o chá. Era um chá,ou melhor uma tisana, palavra antiga que quer dizer uma infusão de ervas,já que não havia sabor de chá  que  folha de chá propriamente dita, estava ausente.Ou tisana. Como outros muitos rótulos, dava-se um nome inapropriado para algumas coisas. Era uma mistura importada de alcaçuz, menta e limão, muito saborosa que dispensava açúcar,e como Omar estava com o nível alto e precisava se conter para não sair devorando tudo que fosse doce que cruzasse seu caminho.E que apesar de ser importado custava tanto quanto um bom chá nacional. E o custo benefício era compensador. A caixa com 25 custava em torno de 8 reais.Quando achava,  e num supermercado só, comprava duas. O açúcar era um caso sério. Com freqüência, ao começar a comer já estava pensando na sobremesa. Ansiedade, stress, ele sabia o que isso tudo era. De uns tempos para cá estava tendo uns apagões e consultou um neuro que pediu exames e receitou tarja preta. Ele ficou surpreso ao comprar o produto já que não sabia que tinha tal tarja. E surpreendeu-se com os progressos da medicina já que o remédio o fazia sentir-se bem. Sono ele já tinha bastante, um pouco mais, tudo bem. Mas vamos lá, preciso estar bem mesmo que tenha que tomá-lo,pensou antes de iniciar o tratamento. Era tido como o mais sério dos três. Persignava-se três vezes ao passar por toda e  qualquer igreja, mas não entrava nelas. Só se fosse para rezar para São Jorge, o que fazia em qualquer lugar. No fundo era corinthiano mas não confessava esta paixão a ninguém dizendo que não gostava de futebol. Com certeza abominava a bagunça que faziam em seu bairro quando o timão ganhava . Dizia que fitas pornô eram indecentes. Mas assistia a um DVD escondido  em casa, nas raras vezes em que ficava sozinho e podia se            “ divertir “ . Nesse ponto era parecido dom Kevin, mas a diferença entre os pornôs… bom, é melhor deixar pra lá qual era . Gostava de música clássica e de pintura. Mas também só podia ouvir quando estava sozinho já que apenas ele gostava. Pintura a óleo estava sujeito a fazer sujeira já que ele não era tão cuidadoso assim e as vezes limpava a ponta do dedo na barra da cortina da sala, e produziam um cheiro forte,que ele camuflava misturando terebintina com secante de cobalto. E a cachorrinha estava sempre por perto pronta para pular no colo dele ou dentro da caixa de tintas. Conseguir pintar era uma ginástica. Mas o relaxava e nestes tempos nos quais ele estava, precisava disto. Mas  duas coisa fazia questão absoluta de esconder de todos. Era um incorrigível romântico. Acreditava em finais felizes. Emocionava-se ao ver um filme quando os personagens finalmente de entendiam. E detestava injustiças  Assistiu A Beira do Abismo e no fim,quando o herói afronta o bandido , ficara tão descontrolado que quase rasgou a perna da calça de tanto puxá-la de nervoso. E tinha certo talento para poesia erótica. Nestes dias estava pensando e começara a escrever uma

Escrevi  lentamente todos os meus versos de amor com a ponta do dedo em tuas costas nuas. E quando passava da cintura você ria e apertava o corpo contra o colchão. E eu apagava tudo e escrevia outra e mais outra só para ver a tua reação. Uma vez pedi que escrevesses nas minhas costas. Mas escrevias rápido e eu não conseguia ler. E você perguntou se eu queria que você desenhasse. Beijei a tua nuca.  Pensei na tua idéia, pedi que deitasses e comecei a desenhar com alguns fios de teu cabelo, enfiando na orelha de vez em quando para que não dormisses. Você disse  rindo que desenhos eróticos não valiam. E eu apaguei tudo. E comecei a desenhar uma flor com um longo caule que descia pelas tuas coxas.. Mas você não queria que eu terminasse o caule. Em determinado ponto você não deixou mais que eu continuasse. Tudo bem, eu disse, vou apagar tudo. E você disse tudo não apenas o caule. Escrevi outro poema que começava com“ Teus olhos brilham como o reflexo das estrelas na espuma do mar,e me encaram como  o  vento de calmaria,” . Teus olhos se nublaram e você disse que você não era tudo aquilo.Que você se sentia como Lady de Shallot, condenada a ver o mundo através do reflexo de um espelho,que refletia outro e mais outro até não distinguir mais realidade de fantasia.Beijei tuas espáduas.E quebrei os espelhos que refletiam o salgueiro no lago. Com jeito te deitei de costas e você meio que escondeu os seios com as mãos. Eu disse que queria escrever naquela folha também mas você resistia. Fui passando o dedo até onde alcançava, até você relaxar e segurar minha mão e escrever com ela a palavra que você queria, aonde você queria. E eu me deixei guiar.Já conhecia as rimas todas. Fui escrevendo, um pouco aqui, um pouco ali . Até que a página ficou inteira, a estória fazia sentido e eu podia continuar apenas passando o dedo em tuas costas enquanto cochilavas. E eu prestava atenção na chuva que caia. Aquela chuva  que você tanto esperava,.mas que agora não vias em teu sono. Aquela chuva que me trazia lembranças de outras chuvas, outras épocas. Épocas de águas mágicas caindo das  folhas em nossos corpos abraçados,respingando nos cabelos,nos ombros,no peito, ventre chegando aos pés nus que brincavam nas poças.

Omar olhou o relógio.Ouviu um rebuliço na cozinha.Era aniversário da loira da contabilidade e o pessoal tinha comprado um bolo para comemorar. Um bolo branco coberto com fitas de côco. “ Que pena, ia gostar mais se fosse de chocolate… “ . Mas levantou-se depressa , afinal, açúcar era açúcar !!! E, com certeza, repetiu mais de uma vez. Com dois copos de Coca Zero.

HOMENAGEM FINAL à GAUCHADA PELAS COMEMORAÇÕES DA REVOLUÇÃO FARROUPILHA – por arnaldo barbosa brandão / brasilia.df

Uma cortesia dos Torpedos ao facebook.

Pois é meus amigos, temos que aceitar a situação, o mundo não é mais de professores, muito menos dos políticos, e olha que eles se esforçam. E muito menos de escritores, filósofos ou de artistas plásticos ou de músicos ou poetas. De economistas, de sociólogos, antropólogos? Nem pensar. Já foi tempo em que até arquitetos ficavam famosos, cansei de dar entrevistas no Correio e na Tv, nos anos 70 e 80. Isso tudo já era. O mundo agora é dos jogadores de futebol, dos cantores populares, dos atores de Tv e das chamadas celebridades, uma profissão nova que circula por aí e acumula funções com as outras, inclusive com a mais antiga de todas. Pra vocês verem, até uns programinhas bem discretos sobre literatura que havia na Tv a cabo, de repente foram tomados pelos Caetanos, Gils e Chicos e Martinhos, etc. É a Tv em busca de audiência. Até o Paulo Coelho, que veio da canção popular (fazia letras pras maluquices do Raulzito), e diz ter sido escritor, está tendo que dizer umas coisas de quando ele se internava no Pinel, pra tentar atrair o olhar da mídia.

Então, nesta última homenagem, me desculpem os gaúchos mais letrados, mas vou ter que apelar. Vou falar um pouco de um grande cantor popular do Rio Grande. Vou logo avisando: não é o Lupicínio, muito menos Kleiton e Kleidir, que têm sotaque dos Beatles, que, como vocês sabem, iniciaram o processo de aveadagem do rock, com aquelas franjinhas e terninhos abichalados, cantando, “deu pra ti, baixo astral, Ciao”. Devem ser de Pelotas, não sei não.
O cara a que me refiro, começou com um “tiro ao alvo” em Passo Fundo, tinha um programa de rádio por lá, foi passear em Porto Alegre, voltou, vendeu o “tiro ao alvo”, gravou “Coração de Luto” que o pessoal mais refinado, fã dos Beatles e do Michael Jackson, chamava pejorativamente de “churrasco de mãe”. Teixeirinha comprou uma produtora de cinema, e fez doze filmes, felizmente ainda não vi nenhum. Bem, Teixeirinha foi o sujeito que mais vendeu discos no Brasil, e quiçá no mundo, vendeu mais do que o Michael e a Madona. Falam em 120 milhões de cópias, sabem como são os gaúchos. Pois é, entre ele e o Michael e a Madona, fico com Teixeirinha. Quer dizer, sugiro que a gauchada fiquem com Teixeirinha, porque eu fico mesmo é com a Angelina Jolie.

 

TÔ NEM AÍ PRO PORTUGUÊS ! – por renoir pereira da silva

Aquela Feijoada Baiana estava cheirosa, aquele feijão estava gostoso, aquele feijão estava charmoso, aquele feijão estava uma uva. Não era qualquer feijão. Aquele feijão tinha cheiro de quê? Aquele feijão é para quem gostava de feijão, é para convencer quem não gostava. A feijoada passou, mas na memória ficou. Só 1 kg de Feijão Mulatinho? Um bocadinho mais. Não coma quaisquer feijões, coma com folhas de coroas olímpicas. O Manuel pôs só cinco folhinhas? Um bocadinho mais. Aquele feijão estava um arco-íris, em cores, aquele feijão estava a cores. O pessoal comeu bem, à custa do trabalho do Manuel, que além de cozinheiro é um belo advogado, que ganhou um bom dinheiro com as custas de um processo e pagou a bebida. Só 700g de charque? Eu disse “um bocadinho mais”. Ai! Que saudade da feijoada, saudades da cenoura e da linguiça e do último prato. 200g de toucinho salgado? Hum! Um bocadinho mais. Eu, que voltei a estudar, pedi um prato de Phaseolus vulgaris, Manuel se confundiu, depois de eu explicar, todo mundo riu. 500g de carne bovina? Um bocadinho mais. Em vez de uma cabeça de alho amassado, foi posta inteira, ele disse que é melhor. Mas só uma cabeça? Ao invés de cair os preços, com a chegada da safra, os preços aumentaram. Bela desculpa para o pão duro, que é o Manuel. Manuel escreveu para mim: “Minha namorada, que mora em Joinville, virá amanhã”. Sábio Manuel, que pôs “que mora em Joinville” entre vírgulas, caso ao contrário ele teria várias namoradas, e só viria aquela que mora em Joinville, ai ele se complicaria. Só 1 kg de Feijão Mulatinho? Depois não reclama. Perguntei: Posso vir aqui pegar mais, Manuel? E ele disse: se eu vir tu não pagarás. Sem ele ver… mais do mesmo. 400g de rabo de porco? Olha! 300g de orelha de porco? Mais pares. 600g de pernil de porco? Logo pernil. 600g pé de porco? Mais pares. 600g de costela de porco defumada? Logo costela. Vai faltar porco. Numa provável sobra fiquei rodeando. Numa eventual mudança do mau humor do cozinheiro, eu pensava em pegar mais. Que feijão! Manuel prefere fazê-lo a comê-lo. Vai entendê-lo. Eu, já prefiro comê-lo que fazê-lo. Manuel pediu-me para ser discreto, agir com discreção, ir devagar, mas sou indiscreto, agi naturalmente, com discrição. Era um prato atrás do outro. Nem dei bola para o Manuel. A bagunça? Não foi culpa minha. Foram eles quem fez. Eu nem havia saído da mesa, ainda. 400g de paio? Um bocadinho mais. 200g de tomate picado? Depois não reclama. 250g de cebola picada? Põe 500g. São indescritíveis os cheiros por que tive de cheirar. Por que aquele feijão é tão cheiroso? Aquele feijão é tão gostoso por quê? Até ali, ninguém sabia o porquê daquele gosto. Eu fui perguntar àquele homem o motivo do feijão ser tão gostoso. Manuel não revelou o porquê. Ninguém sabia por que ele não explicou. Ninguém sabia porque ele não explicou. Chamaram-me. Hum! Não fui porque estava comendo. A minha tia não veio, porque estava doente, e, como ela come três pratos, mas três sobraram, e sobraram para mim. Eu toda hora ia aonde a feijoada estava e ficava ali onde a feijoada estava. E ficava ali à-toa. Dito assim parece à toa. 5 ramos de hortelã? Um bocadinho mais. 2 colheres de coentro picado? Põe três. Aquele era o feijão ao qual me refiro. A feijoada do Manuel. A todo poderosa feijoada dele tem feitiço, aquilo não era panela, era um caldeirão. Aquele é o feijão que eu gosto. Manuel é o cozinheiro de quem lhes falo. Ele é brabo, pois tem brabeza. Ele é bravo, pois tem bravura. Manuel, quem faz um ótimo feijão. 10g de pimenta do reino moída? Põe 15g. A féria do final do dia, ou seja, o acumulado no final do dia foi um cansaço enorme do Manuel. Ele já estava pensando nas férias. 4 colheres de extrato de tomate? Que estranho!Mas põe seis. O sal é a gosto. Há bastantes razões para se comer mais de um prato, tais como, o cheiro, a textura, o segredo principal. Há razões bastante irresistíveis para se comer mais de um prato, tais como, o cheiro, a textura, o segredo principal. Meu caro leitor, a feijoada de sua mãe não chega perto da feijoada daquele cara. A dele seguem anexas linguiças temperadas, seguem anexos segredos, seguem, em axexo, as especiarias do gajo. Após muita insistência, Manuel explicou como se faz: deixe as carnes de molho de um dia para o outro, trocando a água para retirar o sal. Refogue as carnes no toucinho, acrescentando o feijão e a água necessária. Tempere com tomate, cebola, alho, hortelã, pimenta do reino, extrato de tomate e louro. Retire as carnes que forem amolecendo até que o feijão fique cozido. Faltou feijoada, eu bem disse. Comi tanto, que fui processado por Manuel a limpar as panelas. Limpei só uma e fui embora. Tô nem ai pro português.

REVOLUÇÃO FARROUPILHA -HOMENAGEM NÚMERO 2 – à GAUCHADA e ALAGOANOS, PERNAMBUCANOS, BAIANOS E PARAENSES – por arnaldo barbosa brandão / brasilia.df

 

Uma “nova” interpretação para a Revolução Farroupilha, menos Marx e mais Weber e Freire.

Quando penso no Rio Grande do Sul, por incrível que pareça, penso em Alagoas. Destes dois lugares, aparentemente tão díspares, saíram os homens que moldaram o Brasil moderno. Para os menos informados, basta lembrar Floriano, Hermes da Fonseca, Getúlio e Prestes, mas, se preferirem podem ficar com Corisco (que Glauber imortalizou no seu “Deus e o Diabo…”) e um certo Capitão Rodrigo Cambará(que Érico Veríssimo tornou real). Há alguma dúvida sobre os homens citados, ou preciso explicar? Podem não gostar deles, mas isso é outra história. Há dúvidas sobre a importância de Prestes? Sem a chamada “Intentona” o Brasil seria outro, porque a partir dali o exército mudou, e o exército talvez seja a mais importante das nossas instituições, qualquer tre-le-lé: chama o exército. Quando digo aparentemente dispares, me referindo a Alagoas e Rio Grande, é porque há algo em comum de grande importância: são lugares de gente áspera, basta ler os dois grandes escritores representativos destes lugares. Se vissem um gaúcho cavalgando em alta velocidade tentando capturar uma rês, como eu vi certa vez em Dom Pedrito, ou um boiadeiro alagoano rasgando a caatinga, na tentativa de garantir sua “carne de sol” cotidiana, como vi em Palmeiras dos Índios, iriam entender bem o que estou dizendo. Parece que estou ouvindo alguém dizer: “não é mais assim”. Entendo.
Dizem que a Revolução Farroupilha tem a ver com Carne de Sol, ou de Charque. Eu, como baiano não aceito uma explicação simplista desta, isso é reduzir a heroica Guerra do Farrapos a “pó de traque”. Não aceito. Seria reduzir o Rio Grande a um digamos, Goiás, que alguém divide ao meio e ninguém fala nada. Primeiro porque nunca acho que as coisas são simples e se forem, trato de torná-las complicadas. Quem me explicou há muito tempo, em 1985, como funcionava a produção e exportação de charque, foi o Roberto Cavalcanti, até então imaginava que a carne de sol era coisa nascida e criada no Nordeste e sequer supunha que um nordestino transferiu a tecnologia para os gaúchos que passaram a dominar a produção. Nunca soube que exportavam charque há tanto tempo e pra tão longe, e que o produto representava tanto para a economia do Rio Grande. Pois bem, é comum que os historiadores afirmem, com certa convicção, que a causa da revolução farroupilha foi a entrada do charque argentino e Uruguaio no Brasil, tirando o mercado dos estancieiros gaúchos, e que a revolução interessava apenas aos estancieiros. É uma explicação excessivamente materialista, coisa do pessoal que reza pela bíblia marxista, e não condiz com as tradições gaúchas, nem baianas, nem pernambucanas, vou explicar por quê.
Quem dera que as coisas fossem assim tão simples. Se assim fosse, a Revolução dos Farrapos não teria levado 10 anos, não teria mobilizado tanta gente e tampouco alcançaria a extensão territorial que alcançou. Ocorre que a Região Sul do Brasil sempre foi instável sob o ponto de vista político e militar, devido a muitos fatores, entre os quais, a formação política do Rio Grande (que só recentemente, com Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros, tornou-se um estado da Federação, de fato), a questão do Uruguai (criação da Província Cisplatina que mexeu com o Rio Grande), a Guerra do Paraguai, que contou com 1/4 de soldados do Rio Grande e portanto mobilizou militarmente o Estado, isto sem mencionar os problemas do Brasil com a Argentina, que é um país instável e beligerante desde sua criação. Vou contar um segredinho pra vocês: quando estive na ESG em 85, soube que a ordem de Guerra nº 1 do Brasil era contra a Argentina. Sabem o que isso significava? Nosso principal inimigo não eram os ingleses ou americanos como os intelectuais marxistas achavam, eram os argentinos e isso implicava que nossa “máquina de guerra” estava virada para o Sul o tempo todo, pra invadir a Argentina. Daí veio o Mercosul que matou vários coelhos(melhorou a economia do Sul, integrou a Argentina, etc.) e antes, veio Itaipu que nos vinculou ao Paraguai para o bem ou para o mal, mais para o bem. E, devido às circunstâncias, nós deveríamos pagar muito bem ao Paraguai pela energia, porque como todos sabemos desde o Beira-Rio até o Maracanã, não dá pra confiar nos portenhos.
Daí quando o Grêmio ou Internacional joga contra o Penarol ou o Boca, o pau quebra. Por que? São povos belicosos. Coloque no caldeirão: cavalos (a verdadeira felicidade está no coração das mulheres e no lombo dos cavalos, sei que a maioria dos meus leitores jamais montou, a não ser nos parquinhos, portanto, não têm a menor ideia), sangue espanhol, distância de centros civilizados, desleixo do governo central, clima hostil (frio infernal e calor infernal), deixe cozinhar ao sol e veja o resultado. Mas ainda não chegamos na questão central das causas da Guerra dos Farrapos, e ela pode ser resumida numa palavra, e que palavra, vão saber daqui a pouco.
Em 1985, fui assistir uma palestra do Gilberto Freire na casa dele em Apipucos, no Recife, onde tomei um licor de pitanga do quintal. Estava arrastando os pés, mas lúcido como sempre. Anotei várias coisas, uma delas nunca tinha cogitado. Ele disse textualmente: “Nordeste faz fronteira com a África”. Fronteira? Pois é, recente, lendo os livros do Costa e Silva é que fui entender bem, mas já desconfiava (“eu quase não sei de nada, mas desconfio de muita coisa”). Pois é, meus amigos, FRONTEIRA é uma palavra muito complexa. Na Fronteira (como vocês devem ter notado no texto anterior que publiquei aqui), você tem que estar preparado pra o que der e vier. E lá no Sul são três. Por isso, os gaúchos, assim como os nordestinos, assim como os paraenses, são tão briguentos, ou melhor, beligerantes. Se não tem ninguém pra brigar, brigam contra eles mesmos. Lembrem-se da Revolução Federalista, foram mais de 10 mil mortos, isso no final do século XIX.
Todos sabemos que o Rio Grande sempre teve uma tradição separatista, que diferentemente dos pernambucanos, baianos, maranhenses e paraenses, era mais fácil de ser insuflada, seja pela geografia, pela cultura, e até pela língua (lembrei do Dicionário Farroupilha do Vidal) e sobretudo pela beligerância e também, porque não, pelo caráter fanfarrão, que depois, a migração europeia tratou de acalmar. Lembro sempre da história do gaúcho que se afogava no Guaíba e berrou: “sai da frente Guaíba, senão te engulo todo”.
Voltando à Guerra dos Farrapos, seria mais pertinente dizer que houve um conjunto de causas, não saberia dizer qual a mais importante (ou estrutural, concedendo alguma coisa à Marx), contudo é bom considerar que o Brasil viveu o “período regencial”, quando o poder central estava enfraquecido e o exército fraturado por facções, dai a ocorrência, não somente da Revolução Farroupilha, mas também da Sabinada, Balaiada, Cabanagem, Revolta dos Malês, etc. Vejam que, quando o país se reorganizou, Caxias foi lá e acabou com o bafafá. É, meus amigos, quando até baiano faz revolução é porque a coisa estava esculhambada, mas isso não é novidade.

INEDITORIAL – por paulo timm / portugal.pt

 

 

Gaúcho que é gaúcho é assim:  maula, mas sensível à poesia, hiperbólico mas llano,  como o pampa que lhe faz morada. Mesmo que pareça para muitos,  “Para Nada”, como vaticinou Ascenso Ferreira em seus versos satíricos. O gaúcho é grande:

 

“Eu sou maior do que História Grega, Eu sou gaúcho e me basta…”

 

Por via das dúvidas, estamos no dia 20 de setembro, data máxima do civismo rio-grandense. Haverá, além do Acampamento Farroupilha, no Parque da Harmonia, em Porto Alegre,  muita cavalgada pelo interior, muita discurseira, tanto de palanque , quanto de beira de chão, e fortes doses de folclore. Alguns, como o cientísta politico Dilan Camargo, ridicularização mais um vez os feitos de 35;  Juremir Machado reiterará seu ceticismo diante de qualquer Revolução, Farrapa ou não;  um ou outro historiador lembrará Bento Gonçalves. Mas, curiosamente, há pouco debate sério sobre o 20 de setembro.

 

Ah que falta faz o Décio Freitas! Ele alíás, sentenciou : “A historiografia dos Farrapos não é crítica. Há uma massa enorme de documentos que nunca foi utilizada pelos historiadores. Por quê? Porque os historiadores têm medo de mexer em verdades estabelecidas” – DÉCIO FREITAS, NA APLAUSO 46 (2003) . Nos falta também o Joaquim Felizardo, tanto ou mais iridescente do que o Décio, mas também fumante inveterado e senhor de papos homéricos. Resta-nos, pois, na data, o regozijo com o folclore, farto por todo o Rio Grande e até na China, com a proliferação de CTGs, ficando a lacuna da reflexão.

 

Por certo, náo é este o lugar para teses aprofundadas. Mas pior é a omissão.

 

Comecemos por separar o que é tradição – e aí se enquadra o movimento propriamente chamado de “Tradicionalista”, cuja maior expressão sáo exatamente os CTGs, do que é cultura riograndense, aí situando a questão do separatismo .

 

Há uma confusão muito grande entre o FOLCLORE gaucho, que acabou se concentrando na valorização da Revolução Farroupilha e a questão do sentimento separatista do gaucho.

O folclore é e sempre será RETROSPECTIVO  e nisso ele cumpre – e cumpriu-  importantes papeis. Não fora ele, nós seríamos identificados, no sul, como fazem os australianos, pelo canguru, ou canadenses, por uma árvore. Os paranaenses, aqui ao lado padecem do mesmo estigma. São simbolizados por um pinheiro… O folclore, principalmente depois dos grandes esforços de Paixão Cortes , deu-nos uma expressão antropológica. Forçou a barra. Mas reconstruiu um modelo típico ideal do gaúcho – não o inventou – e o propôs como paradigma no meio de um processo da formação multicultural, que a geografia e a economia só  acentuaram entre 1824 e meados do século XX.  . Funcionou! Aí está. Não foi imposto por nenhum Partido Político ou Igreja sectária. Rebrotou naturalmente do ventre do pampa para a sociedade gaúcha como um Manifesto. E se instalou definitivamente como um dado da cultura.

 

Eu tive minha infância em Santa Maria entre 1945 e 1955, vindo depois para Porto Alegre, filho de um militar de origem alemã e uma prendada professora. Todos de cultura eminente urbana. Nunca montei num cavalo- as tentativas de meu avô, fazendeiro em Tupanciretá, foram desastrosas…- nem me adentrei nas profundezas do sertão pampeano. Sou, rigorosamente, um europeu: branco, supereducado, louco por livros e cinema, socialista. Nem sequer chimarrão se via nas nossas tertúlias portoalegrinas nos anos 60. Às vezes pintava um João, asmático e gauchesco,  de cuia na mão nas rodas da Livraria do Arnaldo,  na Praça da Alfândega. Mas era raro. Mesmo os que chegavam do interior e ganhavam alguma projeção, como um dos melhores tribunos daquela época, vindo de Quaraí, onde fez política, logo se socializavam na cultura eminente urbana de Porto Alegre. E víamos, sempre, a movimentação tradicionalista, cujo epicentro era exatamente no “Julinho”, onde eu estudei e de onde provinha grande parte da elite da época, com distanciamente e até preconceito. – “Era a indiada”, como se dizia. Hoje, malgrado a globalização, o gauchismo foi entronizado pelas elites como um dado da cultura riograndense. E basta ir à Redenção para ver a infinidade de gente de cuia na mão. Até bombacha…Vitória do “tradicionalismo”…

 

Mas é claro que o tradicionalismo, para se firmar, apoiou-se mais no feito da Revolução Farroupilha, que pouco conhece em profundidade, sendo até suspeito para fazê-lo porque o toma como ato de fé ,  do que no próprio folclore. Acabou nesta sobrevalorização do 20 de Setembro, quando, se tivesse sido mais cuidadoso com a História,  teria valorizado mais o 11 de setembro, data da fundação da República Riograndense. A tarefa, porém, de pesquisa cuidadosa no terreno sobre música, danças, indumentária e estilos de vida antigas , são dignas de um prêmio de Antropologia. Eles não revelaram apenas formas de uma outra era, mas a própria alma de um povo rústico em sua formação.

 

Outra confusão do tradicionalismo foi misturar folclore com ideologia. Antes de 64 o Movimento era francamente “trabalhista”e deixou não raros registros desse alinhamento em suas canções. Depois… Melhor nem falar…

 

Mas voltemos ao  separatismo, muitas vezes suscitado no 20 de Setembro.

 

Se ele ocorreu no passado, ou não, cabe aos historiadores comprová-lo. O que é certo é que , quando a Independencia foi feita, em 1822, o Rio Grande era uma vastidão incerta, com uma população muito pequena e, certamente, poucas convicções nativistas. O resto do Brasil, nesta época, com mais de três séculos de vida, já tinha desenvolvido seus próprios interesses, contrários ao domínio colonial, do qual padeciam severas discriminações. O Rio Grande, porém, ocupado por militares portugueses retirados do serviço militar, com epicentro (deslocado) ainda na cidade de Rio Grande, estava longe de participar ativamente, como Minas, Rio de Janeiro e o Nordeste todo, do estado de espírito que levou à Independência. Desconheço como se deu, ela, aqui no Rio Grande, e estranho que, tal como houve  em outros pontos do país, a guarnição lusitana não tenha tomado os brios de quem lhe pagava os soldos…: a Coroa Portuguesa.

 

De qualquer forma, o SEPARATISMO no Rio Grande, se tem um olho no passado, o outro será sempre  PROSPECTIVO, embora , inevitavelmente recorra ao FOLCLORE como justificação e propaganda. . Assim fazem aqui na Europa catalães, bascos , escoceses e todos os demais povos que se separaram , não sem dores, da antiga YUGOSLAVIA.  E também os que se separaram da Uniáo Soviética. Um olho no padre, outro na missa. Porque o projeto POLITICO de emancipação é eminentemente  IDEOLÓGICO, e deve nutrir –se de sólidas  razões para a construção de um futuro independente  melhor.

 

Discutir o separatismo não é também mover uma guerra pela independência do Rio Grande do Sul, tout court. Trata-se, na verdade, de se discutir o federalismo no Brasil. E se ele , tal como está implantado, é bom ou mau para os gaúchos. Nessa discussão, temos que entrar com argumentos e determinação. Não será um convite para um jantar, nem um piquenique, ao qual levamos sanduíches. Trata-se de levantar argumentos e entrar de sola para rediscutir várias questões do federalismo no Brasil: a representação parlamentar no Congresso Nacional, o sistema tributário, o regime de subsídios ao capital e ao trabalho, segundo as regiões do país, os critérios de redistribuição do produto da arrecadação da União no Estado, os meios de comunicação e a industrial cultural, a importância dos resultados na educação , o balanço de produtos estratégicos , como petróleo e outros do subsolo, etc. Daí poderá até haver uma nova concertação federal. Mas se não houver conserto (…) a atual deve ser veemente combatida, nem que seja através de uma luta pela autonomia riograndense. Vivo , aliás, em Portugal, um país “pequeno, mas muito grande”, como lembra José Saramago , em “Viagem a Portugal” e com uma qualidade de vida exemplar, apesar da Crise.  Pois bem, o Rio Grande é até maior do que Portugal, em população, em diversidade geográfica, em PIB industrial , em tecnologia e até em exportações. Só não é  maior em glórias, apesar do Movimento Tradicionalista…

A data do 20 de setembro, portanto, deve nos resgatar parte destas glórias do passado, mas deve, sobretudo, lançar-nos com o olhar para o futuro de forma a nos perguntarmos: O que queremos do Rio Grande. Um Novo Nordeste, como profetizou em série de reportagens memoráveis Franklinde Oliveira, nos anos 1960, mercê da perda de substância no processo econômico em curso no país? Ou ficar a Pátria Livre, e morrer … pelo Rio Grande, senão independente, autônomo.

FACEBOOK – por arnaldo barbosa brandão / brasilia.df

FACEBOOK. O veículo desgovernado vai passando, entra o Leonardo com o adágio do dia (hoje ele abriu o baú e mostrou o peitão da Ella). Benício entrou pautando com um link, pra variar. Entrou o Ribondi com uma mulher nua do Ingres, acho que é a Dominique, atrás uma centena de seguidores, o ônibus passa debaixo dos Ipês (azuis, amarelos, brancos), todo mundo curte, e tome cervejas, depois o Bolivar

 com a política e a musica, ultimamente dá pra ouvir a risada dele. Nem parece o cara que citei na minha tese há 30 anos. O Cassio deve estar doente, não botou nada, logo entra no ônibus o pessoal do amor romântico: pelos cachorrinhos, gatinhos, leõezinhos. Finalmente a Silvia aparece, acompanhada pelo Flósculo, sai fora Silvia. O Walter reapareceu. A Silvia curtiu uma flor branca. Ah, o Luis Áquila, volto, Proust. A Gauchada chegou, entra o Vidal, e o Timm direto de Torres. Ishh, baixou o pessoal das músicas. Douglas entrou com suas orações, botou um Cristo do Mantegna, ainda bem. O Bruno e Prdl Saldanha a essa hora? Devem ter caído da cama. Tadeu aparece de boné correndo a maratona do Texas, e o Torelly, onde andará? O Evangelos ativa os neurônios dos arquitetos, aí entra minha filha e diz pra eu parar de falar palavrões. Agora tu vê. Dalvinha e Lee dos EUA e suas meninas lindas. João e sua paixão: MENGOOO. Giselle Moll hoje está curtindo adoidado, e a Patricia Melasso mostra mais uma vez o belo rosto com sardas, no espelho. Patricia Doyle compareceu discretamente com a trilha dos “intocáveis”, Toledo sai do Sarah-Rio e nos bombardeia com uns desenhos fantásticos e uma foto do sítio Alecrim(fui Papai Noel numa festa lá).Instituto Moreira Sales diz que falta sexo, aqui em casa acho que não. Giselle Mancini em inglês, nossa! Como diria o Ribondi. Paulo Cesar da UnB quer um dia mundial sem carro, faz isso não Paulo. Timothy reaparece. Carlos Fernando, que não vejo há um tempão, curtiu “La Règle de Jeu”, está passando em Paris, de graça. Aí entram uns garotos, já chegam kkkkkk. O pessoal do Rio deve estar na praia. Rochana Rams entrou com um ditado indiano. Estou sentindo falta da piada do Fabiano. Aí entra outra carrada de cervejas e logo a seguir o time da política, Rollemberg quer regular o uso da rocha moída. Imagine que até FHC me aparece recebendo alguém no seu Cafofo, será que é candidato? Eu entro com uma historinha do Marquês, ninguém curtiu, pesada demais. O veículo é desgovernado, mas nem tanto. E tome cerveja. Vou pro Badoo.

O FURTO DO ALECRIM – por olsen jr / rio negrinho.sc

O FURTO DO ALECRIM

Olsen Jr.

   A garagem tinha sido adaptada para receber as celebrações de aniversário do primogênito da casa que estava comemorando 13 anos. Os balões coloridos (mobilizaram a família toda na tarefa de enchê-los) estavam onde deveriam estar. Uma plotagem meticulosamente realizada felicitava publicamente o dono da festa. Antes que me perguntem, sim tinha os indefectíveis “brigadeiros” e os indispensáveis “canudinhos recheados com maionese” o que, sem isso, nenhuma comemoração é digna de nota. Aos refrigerantes tradicionais somava-se a coqueluche do lugar, a famosa “Gengibirra” uma bebida cujo ingrediente principal é o gengibre e é muito apreciada.

O dono da festa está como gosta, ora compartilhando os seus jogos eletrônicos com alguns convidados, ora animando pequenos grupos de amigas onde pontifica como o centro das atenções.

Observo o vizinho da casa em frente que acaba de chegar. A residência possui um jardim bem organizado mesclando plantas ornamentais e também outras de utilidades domésticas. Tudo bem cuidado e deixando claro que o morador do lugar é alguém com mentalidade prática e bem determinado.

Depois de cumprimentar a todos enquanto experimenta um canudinho de maionese, fica prestando a atenção no que diz uma das convidadas da festa exibindo dois belos ramos de alecrim… “Olhem só que coisa mais linda, nunca vi um alecrim tão bonito, viçoso, com estas folhas verdes brilhantes… Já tentei de tudo lá em casa e não consigo fazer eles vingarem, deve haver algum segredo, afinal sei que se dão bem em solos mais secos e nem precisam de tantos cuidados”… “E onde você achou estes?” Indaga outra convidada interessada naquela planta… “Ali no jardim daquela casa em frente” – responde ingênua e prontamente…

Foi quando o dono do jardim onde a planta fora retirada resolveu intervir, depois de limpar a boca com um guardanapo, dar uma pigarreada chamando a atenção para si, timidamente, mas seguro do que estava fazendo, afirmar “então a senhora gostou do meu alecrim”… Um breve silêncio açambarcou o grupo de mulheres, e antes que alguém se manifestasse, continuou “o alecrim já era cultivado pelos romanos que o chamavam de rosmarinus, nome em latim e que significa “orvalho da noite” e além de servir de tempero também era usado para fins medicinais, religiosos e até em perfumaria… E não se confunda com o rosmaninho que é outra coisa de gênero bem diferente”…  Aquela breve intervenção deu tempo da mulher que segurava os ramos de alecrim cair em si, e levemente sem graça confessar “olha só e eu me exibindo com a beleza da planta que peguei do teu jardim sem pedir autorização”… Não terminou o pensamento e todos a estas alturas começaram a rir… “Não tem importância – disse o homem – eu sempre distribuo para quem gosta e sabe dar valor e depois, considero um grande elogio para mim que estas coisas (referia-se ao furto), às vezes, aconteçam…

Depois, a mulher se desculpou e tudo acabou em gargalhadas… ”Quem iria supor, brincava ela, que logo o proprietário daquele belo jardim fosse aparecer e me flagrar em uma confissão dessas?”…

Mais tarde pouco antes de ir embora, pensei que alguns pés de alecrim poderiam ficar bem lá em frente da minha casa, para isso deveria esperar o dono das plantas se retirar, então, sem que percebesse, me apropriar de alguns ramos de alegrim… Claro, como bem lembrou, seria mais um grande elogio ao bom gosto e a excelência de seu jardim!

Aquelas circunstâncias me fizeram lembrar um conto “Os Crisântemos”, de John Steinbeck onde a planta é usada como um símbolo que codifica o amor de sua cultivadora para compensar a ausência deste sentimento entre ela e o marido, mas é outra história…

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NOTAS:

A música poderia ser esta…

Composta por Horace Ott…

Tem a letra de Bennie Benjamin, Gloria Caldwell (mulher de Horace) e Marcus Sun…

Foi concebida para a cantora Nina Simone que a gravou em 1964…

Uma versão lenta e introspectiva bem ao seu jeito, aliás uma artista muito visada por ser considerada uma “ativista” pelos direitos civis, etc, etc…

A Novela que já se conhece…

Mas quem “matou a pau” foi o grupo “The Animals”…

A revista Rolling Stone inclui esta “Please don’t let me be misunderstood” entre as 500 melhores músicas de todos os tempos…

Muitos artista já fiseram versões dela…

Santa Esmeralda, Joe Cocker, Moody Blues, Cyndi Lauper, Elvis Costello, Dire Straits… Entre outros…

Vai com o carinho do poeta, sempre!

http://www.youtube.com/watch?v=HHjKzr6tLz0&feature=related

NEM SEMPRE FREUD EXPLICA por olsen jr / rio negrinho.sc

Estou no consultório odontológico esperando a minha vez. Procuro ler alguma coisa (qualquer coisa) para aliviar a tensão. Pego uma revista “Status” (remake)… Na década de 1970 uma publicação com este nome era o melhor que se tinha para a satisfação do público masculino. Guardo um exemplar temático (só Drinks) daquela época. Agora, a edição que tenho em mãos é uma pálida evocação do que a memória ainda retém.

Não deveria ter mais “certas” preocupações, mas tenho… Vejo a senhora que sai do gabinete, caminha lentamente em minha direção… Afirmo para descontrair “não doeu nada, certo?”… Ela parece surpresa com a minha observação, afinal tudo ali é asséptico e sério… “Não, meu filho, não doeu”…

Digo para ela que certos “traumas” ou “má vontade” se preferir, com algumas situações a gente leva da infância e não muda mais… A ela junta-se a atendente e ficam me ouvindo… Continuo, “dentista, cortar cabelo e comprar roupas sempre foram questões a serem resolvidas para mim”. O primeiro por não suportar o ruído que a broca faz (e a gente não vê o que ela está fazendo), o segundo porque nunca me deixaram ter o cabelo comprido na época em que isso era moda (na década de 1960 quando os Beatles mandavam na música pop) e por último, se antes era porque a minha mãe escolhia o que iria vestir, agora simplesmente porque não suporto a constatação sempre quando me vejo num provador de que preciso perder peso, e todo o drama continua…”

A mulher e a recepcionista começam a rir e naquele momento esqueço que sou o próximo a ser atendido. Ela concorda comigo e lembra que na sua infância a broca nos consultórios era acionada por pedais e claro, dependia das flutuações da energia do dentista despendidas no ato… Penso que as alterações de rotação da dita cuja deveriam provocar “dores” de intensidades variadas em curto espaço de tempo… E, “quanto aos provadores, acrescentou ela, tenho verdadeiro pavor… Menos porque não goste de comprar roupas, porque gosto, mas não sou compulsiva como uma amiga que já deve ter perdido a conta de quantos sapatos tem em casa”…

Intervenho e afirmo que deve ser algo no componente genético das mulheres porque não conheço uma que não goste de sapatos…

Ela assente com a cabeça e continua a história afirmando que sua amiga teve de ir a uma festa e comprou uma sandália para combinar com a roupa… Quando já em casa foi procurar a peça descobriu que tinha guardada outra sandália, da mesma cor e modelo… Mas eu estava falando dos provadores, porque os detesto… Algum tempo atrás fui provar uma roupa… Estava lá dentro me preparando para vestir a roupa que pretendia comprar quando escorreguei e tentei me apoiar no que eu pensava ser uma parede daquela cabine… Para minha surpresa, levei um susto, eram apenas cortinas dispostas em “U” e caí de costas no provador ao lado… Naquele momento havia um homem só de cuecas que iria também vestir alguma roupa… Caí por cima dele e foi um “Deus nos acuda!”…

Aí foi a minha vez de juntar-me as gargalhadas da recepcionista… A mulher pareceu não se abalar, disse já ter superado o “trauma”, mas não esquecia o caso… Alguém avisou que o motorista dela já estava esperando e ela saiu, não sem antes abraçar a secretária e a atendente do gabinete… Depois olhou para mim e afirmou “não se preocupe, meu filho, não vai doer nada!”

Agradeci aquele conforto moral e depois que ela saiu fiquei imaginando que nada é melhor que o bom humor para encorajar um homem recalcitrante (sem nenhuma vocação para herói) num gabinete de dentista!

NOTAS:

O cantor e ator Ricky Shane é um mistério…

Filho de pai libanês e mãe francesa…

Foi para Paris com 15 anos…

Gravou  “Mamy Blue” em 1971 e literalmente “matou a pau”…

Depois sumiu… Dedicou-se ao cinema e teatro…

Casou, teve filhos…

Nunca mais ouvi falar dele… Uma pena!

Tinha talento, esta composição é um exemplo, vai…

http://www.youtube.com/watch?v=-lgpC4NTr0Y

A“INVENÇÃO” DO 7 DE SETEMBRO – por paulo timm / portugal.pt

 

 

Culminando a  Semana da Pátria, neste 7 de setembro, quecelebra o aniversário da Independência do Brasil, tropas militares, estudantes,organizações cívicas e alguns poucos  remanescentes vivos da Força ExpedicionáriaBrasileira – FEB- na II Guerra Mundial desfilarão pelas ruas de cidades de todoo país. Neste dia, em 1822, o Príncipe Regente de Portugal, indo ao encontro dos anseios da nação teria dado o famoso Grito do Ipiranga, que nos separou dePortugal.  Isso posto,  o 7 de setembro, está inscrito, hoje, como adata da Independência do Brasil. Não obstante, esta é apenas parte da verdade,senão, segundo alguns pesquisadores mais críticos, pura invenção. Por quê? Porque, na História, os acontecimentos passados são sempre pensados e transmitidos pelos recursos de cada época e, a partir destas redefinições, se renaturalizam, como se tivessem ocorrido exatamente como são contados.

 

Diversos autores já discutiram a moldura geral da nossa Independência, que se consagrou mediante um pouco glorioso Tratado com a Potência Colonial, mediado pela Inglaterra, justo no dia 07 de setembro de1925.

 

Outros pesquisadores procuram precisar com mais rigor o efetivo significado desta data três anos antes, no suposto Grito da Independência de D.Pedro I.  Demonstram eles  que houve poucos registros do  ato. E pouco crédito sobre ele, embora sempre fosse registrado como um momento importante, mas não “o momento” da Independência. Datam de 1862, data em que se viria  inaugurar a estátua eqüestre de D.Pedro I na Praça da Constituição no Rio de Janeiro, então capital, os depoimentos do Coronel Marcondes e do Tenente Canto, testemunhas do feito, os quais reproduziram outro relatório, do Padre Belquior, de 1826, este considerado peça chave do  momento da fundação do Brasil.  A verdade, porém,  é que só por volta de 1830, no auge da crise do I Império, que resultaria na saída de Dom Pedro I do trono, o 7 de setembro se consolidaria como data nacional.  Foi  Gottfried Heinrich Handelmann quem observou em sua Historia do Brasil, publicada  em1860, este fato, destacando que  “a princípio não se lhe ligou tanta importância (…)”. Outra data, a da Proclamação do Imperador, em 12 de outubro, lhe ofuscava, embora tenha  suscitado preocupações na Europa, que temia, na época, os excessos populistas.

 

Até 1930 , pois,  duas  datas eram celebradas como fundadoras da nação, por ordem de importância: Dia 12 de outubro e o  07 de setembro .

 

Por trás destas duas datas, a tensão política que dividia as opiniões entre liberais e conservadores. Estes, sintonizados com a vaga conservadora do Congresso deViena, em 1815 – e provavelmente mais próximos dos interesses remanescentes da Coroa Portuguesa na Corte de Dom Pedro I, optavam pela cerimônia protocolar, de caráter mais palaciano e militar, preferiam o 7 de setembro. Os liberais,inflamados pelo jornal Aurora Fluminense, que depois de 1927 seria editado por Evaristo da Veiga, preferiam o 12 de outubro, data em que a população teria participado festivamente da independência.

 

As duas datas foram largamente celebradas na primeira década da Independência do Brasil como fundadoras da nação e  ambas eram igualmente  prestigiadas pelo Imperador, mas com distintos significados.  Não foi  por acaso que a celebração do Tratado da Independência, mediado pela Inglaterra, acabou sendo  firmado a 7 de setembro de 1825. Contra ele,  , aliás, levantaram-se indignadas muitas vozes liberais, vez que assinalava a concessão, à penas (!),  da Independência e não sua conquista como resultado de anseios populares. Mas Dom Pedro I soube administrar durante este tempo a controvérsia, não sem os desgastes que o levariam à abdicação. Firmemente, com medidas extremas como a dissolução da Constituinte, e a draconiana repressão à Confederação do Equador,  foi  impondo, não só os diktats do referido Tratado, como, também,  o 7 de setembro como data nacional, amplamente reconhecida em todo o território. Não por acaso, também, contrariamente à data nacional em outros países, bastante festivas, esta sempre foi tomada como festividade cívico-militar.

Chegada a Regência, enfim, já não havia o que discutir, embora nenhum documento, nenhum monumento, nenhum registro viesse a demarcar o 7 de setembro como DATA NACIONAL.

Nos últimos anos,soterrada a história sob o peso dos anos, Governo e Sociedade vêem procurando popularizar mais o 7 de setembro, retirando-o dos quartéis, para uma celebraçãode tipo mais festiva, como deveria ser. Mas a timidez das celebrações demonstra que o esforço ainda levará algum tempo. Até lá, o brado do cronista…

Leitor e Chuva – por jorge lescano / são paulo.sp

Chovia com violência e as pessoas se recolhiam na entrada do banco. Esperavam impacientes que o temporal amainasse para ir embora rumo aos seus afazeres; aparentemente resignado ao capricho do clima, o homem tirou um livro de sua bolsa a tiracolo.

Chuva torrencial.

Sob a laje de concreto

um casal de pardais.

Um leve sorriso modificou-lhe as feições, a turma de garotos comemora a chuva dançando na tormenta entre gritos e gargalhadas. Mesmo interrompida no espaço por prédios, domesticada por encanamentos, civilizada, enfim, a chuva é uma festa da natureza. Repentinamente o leitor decidiu contemplar o primitivo espetáculo do aguaceiro.

A ventania cria vagas que desabam sobre as pessoas apinhadas no refugio acanhado. A rua alaga-se, os carros levantam pequenas ondas ao passar espirrando naqueles que se atrevem a andar no temporal. Os carros perfuram a tarde. A chuva é tão densa que se pode sentir os esforço do veículo para abrir caminho, e este espaço é quase visível quando o carro perfura a massa líquida que cede na parte anterior e vai se fechando novamente a medida que ele avança, de modo que se o carro não estivesse alguns metros adiante no momento seguinte se poderia pensar que é a massa de água que se movimenta em sentido contrário envolvendo o veículo do capô ao porta-malas. As vagas são oblíquas pela ação do vento, isto aumenta a sensação de imobilidade do trânsito de veículos. Tudo acontece em um instante, a sua percepção é simultânea a ponto de ser quase imperceptível no momento em que acontece, e só depois, ao lembrar o fato, é que a observadora toma ciência do fenômeno.

Na outra calçada, na janela de um primeiro andar, alguém está imóvel contemplando a rua. Talvez um homem atarefado que vê frustrar-se uma reunião importante para seus negócios – quando chove o trânsito na cidade vira um caos –, ou uma mãe preocupada com seu filho que ainda não chegou do colégio. Talvez uma criança que se maravilha ao perceber pela primeira vez que a chuva é um espetáculo musical de beleza mágica, embora preocupe o homem de negócios e a mãe do rapaz que demora em chegar.

A figura permanece imóvel além da densa cortina líquida, bem protegida pela vidraça. Não importa quem é. Faz parte da paisagem – monocromática agora – deste início de outono.

Árvores antigas balançam suas frondosas copas ao sabor da ventania, um arbusto baixo se sacode feito cachorro depois do banho.

O catador de papel, provável morador de rua, atrelado às barras de madeira, puxa sua carroça contra o vento, sob o veículo, seu cão de estimação de raça indefinida acompanha o passo lerdo do patrão. O chapéu do homem despeja grossos fios de água diante dos seus olhos. Todo seucorpo está encharcado, tomou banho em plena rua.

Um flash de luz celeste ilumina todo o cenário, por um instante a cena fica congelada, o espectador postado na janela tem uma instantânea do grupo.

O leitor conserva seu livro aberto e olha a chuva. A moça de vestido preto protege seu peito do vento com uma pasta branca. No horário do almoço a jovem havia consumido protetor solar e sabonete e dentifrício e talco para os pés e para o corpo e creme para as mãos e para prevenir rugas no rosto e xampus e tinturas para o cabelo e fixador e creme umectante e desodorante em pasta e aerossol e esmaltes para as unhas e batons para o dia e para a noite e sombra para os olhos e rímel para os cílios e supercílios, pois ela está ligeiramente acima do peso e é oportuno completar a ausência de gorduras na comida com cosméticos,mesmo quando se é apenas heroína de uma história literária. 

Um motociclista veste a brilhante roupa impermeável e as galochas para enfrentar a intempérie, deve entregar documentos ou mercadoria antes do fim do expediente comercial. Nada mais pode ser visto no lampejo do raio. O trovão estremece o ar, afasta-se ribombando em ziguezague.

A moça estica a mão espalmada para conferir se a chuva parou, como as horas, a água lhe escorre entre os dedos. Diminui a força d’água, ou é a fúria do vento que decresce e dá a sensação de que a chuva está amainando. Lentamente o grupo acorda. Em câmera lenta os personagens retornam à vida. De fato, a chuva está mais leve. A figura da janela desaparece.

Não havia o cheiro de terra molhada que tanto lhe agradava quando criança e ainda não era noite para contemplar o rastro lusco-fusco das rodas dos carros sobre o asfalto. Brilhos fugitivos, um dos prazeres visuais da chuva noturna na cidade. Os guarda-chuvas, apesar de perigosos para seus óculos, especialmente se portados por mulheres, sempre mais baixas que ele, também mereceriam a atenção do pintor. Amava a chuva e sabia que não poderia viver numa cidade dominada pelo sol. A chuva sempre lhe trazia lembranças de sua cidade que lhe parecia nórdica com o céu de nuvens baixas e escuras de abril e agosto,

No fim do outono a cidade vive sua época mais bela, com as árvores que perdem a folhagem enfeitando o chão com cores que vão do amarelo ao terra-sombra passando pelo ocre, o sépia, o laranja, e ouve-se o crepitar das folhas ao andar sobre elas. O sol pálido cria longos crepúsculos feéricos que convidam a passeios distraídos sem rumo, perambular a esmo até as luzes serem acesas. Quando o chuvisco apressa a noite, ele veste a sua velha capa de chuva e sai a vagar. Nesses anoiteceres sente-se na Londres dos romances de mistério do século XIX. Longe dela percebe que ama a sua cidade que provavelmente nunca mais verá. O homem fechou o livro, guardou-o na bolsa, levantou a gola do casaco, abaixou a cabeça e adentrou na massa líquida da tarde.

As árvores conservariam em suas copas agitadas os rastros da tempestade e por longas horas continuariam a despejar gotículas iridescentes de cores variegadas ao ritmo das luzes que aos poucos se acendem na cidade e dissolvem os objetos em massas indefinidas de cor pastel. O crepúsculo distribui seu cromatismo sobre formas evanescentes que aos poucos desaparecem pela invasão das sombras noturnas. À luz dos faróis, o chuvisco é um redemoinho de alfinetes.

Portugal e Brasil: apáticos ou tolerantes? Conclusão simplista: a apatia brasileira é filha da apatia portuguesa. – por graciano coutinho

Às indignidades de que são alvo diariamente, portugueses e brasileiros reagem com uma indolência irritante. Será isso necessariamente mau?

 

 

 A decisão do regulador das telecomunicações no Brasil, a Anatel, de proibir as operadoras Claro, TIM e Oi de vender novos chips de telemóveis deixou o país de boca aberta. Afinal, um órgão estatal enfrentar, em nome do bom serviço à população, o poder dos gigantes mexicano, italiano e brasileiro (com forte participação portuguesa) não acontece todos os dias. Na manhã seguinte à decisão já três delegações dos operadores, que, até há uma semana, dizia-se, faziam o que queriam do regulador, estavam à porta da Anatel para tentar minorar estragos.

Enquanto as três empresas (a Vivo escapou com advertência) não apresentarem um plano de investimento em antenas que melhore as condições de rede dos consumidores, a Anatel não permitirá a venda de mais uma linha sequer.

A propósito desta medida, um correspondente britânico no Brasil comentou que é uma medida histórica e necessária “porque o consumidor brasileiro é o mais maltratado do mundo”. “O brasileiro é de uma apatia incrível na defesa dos seus direitos”, acrescentou um jornalista americano. “E essa apatia alastra a tudo, incluindo, à política”, rematou uma correspondente francófona.

O correspondente português presente na conversa não disse nada. Mas pensou. Lembrou-se de duas fotos colocadas propositadamente lado a lado nesse mesmo dia nas redes sociais. Numa, via-se uma praça de Madrid invadida por manifestantes a protestar contra as medidas de Rajoy; noutra, uma praia da Costa de Caparica invadida por manifestantes a protestar contra a onda de calor. Os comentários às fotos eram de portugueses indignados com a “apatia” (a mesma palavra do americano e da francesa) dos compatriotas que não reagem à forma como são “maltratados” (a mesma palavra do britânico) pelos seus governantes.

Conclusão simplista: a apatia brasileira é filha da apatia portuguesa.

E segundo o Mahabharata, a Bíblia do hinduísmo e maior livro da história (200 mil versos, o equivalente a 20 Odisseias), a apatia é um dos piores defeitos do ser humano. Uma das conclusões do tratado filosófico indiano é que “os equilibrados elevam-se, os ativos ficam na região intermediária e os apáticos descem, envolvidos nas piores qualidades porque a preguiça, a ilusão e a ignorância nascem da apatia”.

Mas a fronteira entre uma qualidade e um defeito (persistência-teimosia, autoridade-violência) é muito mais ténue do que se supõe. Talvez a apatia seja apenas a face negativa da tolerância (e o protesto a face positiva da intolerância).

Os correspondentes em causa e os madrilenos em manifestação convivem ou conviveram com siglas e nomes como IRA, Ku Klux Klan, Le Pen ou ETA; Brasil e Portugal são dois países praticamente imunes a separatismos e em que os grupos radicais intolerantes são absolutamente residuais.

No Brasil, convivem nas mesmas cidades pretos e brancos, árabes e judeus, católicos e protestantes, sem sinais de violência por esse motivo – a violência é motivada quase exclusivamente pela desigualdade económica. Em Portugal,  demorou mas fez-se uma revolução após 50 anos de ditadura – uma revolução simbolizada por uma flor num cano de espingarda.

Os brasileiros e o portugueses são apáticos com as injustiças diárias mas talvez saibam reagir com firmeza no momento certo. Como a Anatel, que até à semana passada era considerada uma agência apática.

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Crónicas de um português emigrado no Brasil

UMA FARMÁCIA DENTRO DO CARRO – por olsen jr / rio negrinho.sc

 

Na medida em que vamos passando pelo tempo (detesto a palavra envelhecer) estamos adquirindo e incorporando hábitos.  Quando se é jovem fazemos pouco desta prática ao constatá-la nos outros. Principalmente quando o fato se dá em cima de algo que julgamos não  precisar tão cedo, ou melhor, sequer nos imaginamos em situação de “necessitar”… Estou pensando em “remédios”, por exemplo.

Não lembro quando percebi isso, mas acredito que foi enquanto esperava o frentista abastecer o carro, “the good and old Hägar, o Horríve”l (é o nome dele, herdado do Dick Browne)… Arrisco em contar a história.

Primeiro foi um inocente colírio “Moura Brasil”, apenas para refrescar e clarear a vista já antecipando uma hipotética necessidade em uma viagem em função de minhas novas atividades pelo estado de Santa Catarina…

Depois, quando um check-up detectou uma hipertensão e tive que regularizar isso diariamente com um medicamente tradicional, the big and famous “Captopril”… Como sempre me lembrava de tomar o remédio quando já estava dentro do carro, não tive dúvidas em deixar uma caixa ali à mão para não deixar passar batido…

Mais tarde fui contagiado pela mania de limpar as mãos com um gel anticéptico antes de tocar no volante, segundo se afirmava era uma maneira de não se contaminar com a tal gripe “H1N1” ou Gripe “A”… O contato estava resolvido, mas e o ar?… Não sou médico, estava fazendo o que recomendava a vox populi vox dei…

Acreditando que o tal gel poderia ressecar as mãos, adicionei o hidratante, por recomendação de uma amiga, um creme da Natura, com odor de maracujá, belo, caro, mas eficiente, um odor agradável compensava todo o mise-en-scène em aplicá-lo…

Seguindo a máxima de que “vale mais prevenir que remediar” após três ataques de gota em tempos diferentes com uma dor insuportável, tive de me precaver… A gota era considerada antigamente, a “doença dos reis”, o excesso de proteínas no organismo gerando um ácido úrico além da conta e que se não tratado acaba em “gota”…  Depois de ler sobre o assunto, não é difícil imaginar, aqueles senhores diante de uma mesa farta com carne de javali, coelho, ovelha assada e aves silvestres acompanhadas com vinho tinto… Ingerindo com a pele, o couro, além dos miúdos de aves, coração, moela, fígado onde se concentram os mais altos teores de toxinas e de onde se origina o tal ácido úrico… Well, levava comigo sempre uma caixinha de “Colchicina”… Três comprimidos ao dia, de preferência antes de comer qualquer daquelas comidas apreciáveis por um descendente de viking…

Com a mudança de clima oriunda da altitude (800 m acima do nível do mar) um frio de inverno, lugar úmido e desencanto o velho “Vick – VapoRub” de guerra para melhorar a respiração… À noite, o igualmente imbatível “Neosoro”, no meu tempo de guri era “Rinosoro”, no fim, mais do mesmo…

Todas às vezes que estou num posto de gasolina constato a presença de todos estes medicamentos à minha disposição… Semelhantes àquelas equipes que acompanham os ciclistas na disputa do “Tour de France” estão presentes e correm paralelamente, em algumas etapas não se precisa deles, mas ninguém adivinha qual e por isso andam todos juntos… Depois, se servir de consolo, lembro de Bernard Shaw quando diz “Use toda a sua saúde a ponto de esgotá-la. E gaste todo o seu dinheiro antes de morrer. Não vale a pena sobreviver a essas coisas”… O humor cáustico do escritor irlandês, no entanto, apenas abranda a consciência de que enquanto aquela etapa da prova não for cumprida o atleta não muda, mas a equipe de apoio está constantemente em transição!

lembrei do Mencken “Quanto mais envelheço, mais desconfio da velha máxima de que a idade traz a sabedoria”.

 

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NOTAS:

A música poderia ser essa, “Summertime Blue”, de Eddie Cochran…

Gravada em 1958, foi um dos grandes sucessos daquele ano…

A canção foi trilha do filme “Caddyshack’ (1980)…

Foi classificada em 73 lugar entre as maiores 500 de todos os tempos pela Revista Rolling Stone…

Também gravada por inúmeros artistas, entre eles, os grupos “The Beach Boys” e “The Who”…

Eddie Cochran morreu em 1960, aos 22 anos num acidente de carro…

Este formato que deu para a gravação de “Summertime Blue” acabou moldando o que viria depois…

Do rockabilly ao rok’n roll…

http://www.youtube.com/watch?v=MeWC59FJqGc

Paca, tatu, cutia não! – por olsen jr. / rio negrinho.sc

Prometi que não ia falar sobre o assunto, mas não resisto. A notícia da separação daquela artista e modelo, depois de oito “longos” meses de casamento me faz lembrar a história de duas amigas que se encontraram num shopping após quase 15 anos sem se ver.

- Olá querida, quanto tempo?

“Muito tempo mesmo”, pensou a outra, fazendo um breve cálculo, mentalmente, enquanto procurava o que dizer.

- Como você está bem…

Surpreendida com aquele encontro, nem pôde dimensionar o elogio que recebia, mas estava atenta à indumentária da amiga. Não tinha muita noção de etiqueta; intuia, entretanto, que aquele vestido negro não era a roupa mais adequada para se usar em uma tarde de um dia de semana para simples compras.

- Qual é a fórmula para permanecer jovem assim?

As palavras saíam em golfejos, como se tivessem ensaiadas durante muito tempo apenas para preencherem aquelas ocasiões.

“Muito trabalho… muito trabalho”, pensou, sem no entanto dizer nada. A amiga parecia não lhe querer ouvir.

- Mas que blazer bonito este seu, onde você comprou?

“Pois agora”, pensou, fazia pelo menos dez anos que tinha aquela roupa, não percebia nada de mais, era comum. O que será que ela estava pretendendo?

- Você está bem mesmo, hein? Sempre invejei esta sua postura, tudo o que você veste fica muito bem.

Enquanto ela falava, não pôde deixar de observar aquele batom vermelho carregado, o que tornava a boca da amiga uma provocação desnecessária.

- Há! – exclamou – como tudo isso me cansa.

E aquela sombra no olho? O conjunto era por demais chamativo.

- Estou aqui há três horas e não gastei ainda os R$ 2 mil que ganhei ontem.

Como havia mudado, não parecia ser a mesma com quem convivera em outros tempos.

- Você casou? Tem filhos? Como está a vida?

Ela falava muito rápido, em pequenos arranques, olhando para os lados, como se estivesse fazendo um esforço por estar ali, tendo de bancar aquela “quase obrigação” de conversar e ser agradável. Fez menção de responder, mas a amiga insistia com outras referências.

- Eu consegui ficar casada por três meses, imagina, não sirvo para ficar fechada num apartamento, não dou para a coisa, entende? Quer dizer, dar eu dou, mas não… você sabe? Perguntou sorrindo e revelando os dentes (outrora brancos) com a cor amarelada da nicotina levemente pigmentada com o vermelho do batom.

A amiga tinha mudado muito, percebia sem esforço, punha um toque de vulgaridade em tudo o que fazia, falava ou gesticulava, parecia muito confiante na beleza do rosto ou do corpo, o quê, apesar da idade (faziam aniversário no mesmo mês, dezembro, e do mesmo ano, 53), sabia-o ainda era cobiçado.

- Gosto da vida que levo, sem horário para acordar, sem compromisso para fazer ou deixar de fazer isso ou aquilo, sem explicar nada para ninguém. Vou onde quero, à hora que quero, com quem eu quero. Ganho meu dinheiro, não devo nada para ninguém. Viajo, passeio, tenho minhas aventuras… tudo sem compromisso. Quem quiser, tem de me aceitar como sou, livre, desimpedida, sexy, gostosa, cheia de vida, romântica, sonhadora, com tudo para ser “curtido” ainda… Ah! Quer saber se sou feliz? E como, querida… A propósito, fale um pouco de você.

Dizer o quê? Não sabia por onde começar, principalmente porque todo aquele interesse parecia falso.

- Não vejo a hora, interrompe a amiga, de chegar em casa, ligar a banheira, encher de sais, e me deitar naquela espuma… sei que deve ter pelo menos dois buquês de flores, cartões apaixonados, de admiradores que não dou a mínima, mas faço com que pensem serem especiais, serem únicos, todos os homens gostam… como são tolos estes homens. Suspirou, e como se lembrasse de algo, repetiu:

- E você, querida? Fale de você, o que tem feito?

Compreendendo o cinismo de tudo aquilo e no que sua amiga se transformara, não teve dúvidas:

- Ah! Eu… Bem, eu também sou puta!

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NOTAS:

Vai a da semana com o carinho de sempre…

A música poderia ser esta…

http://www.youtube.com/watch?v=ifMuAvaPOd0&feature=related

O “Trio Galleta” foi uma banda argentina fundada em 1969…

Iniciaram fazendo covers (Creedence, Ray Charles) depois criaram o seu próprio som…

A música “I’m so Happy” gravada em 1972 foi uma das mais tocadas no Brasil, deixando o Rei Roberto Carlos em segundo lugar…

Teve uma versão “Sou Feliz” feia por “The Fevers” que também emplacou…

Só para “matar” a saudades…

INCONFIDÊNCIAS, INCONVENIÊNCIAS – por amailcar nevesw / ilha de santa catarina.sc

 

- Não deviam permitir que envelhecesse! – Ela disparou, os olhos injetados.

- Fazer o que? – Ele contrapôs. – Se as pessoas não morrem, elas envelhecem.

- Nem tolerar que chegassem jamais perto de qualquer igreja! As religiões, todas, não fazem mais do que amolecer o caráter e curvar a espinha! Tarefa ainda mais fácil se o elemento se tornou um velho: por idade, por escassez de saúde ou por opção de vida – Ela ignora o comentário que Ele fez.

- Como se fosse fácil tratar todo mundo com o suprassumo da gerontologia. Como se fosse só lhes dar pílulas da eterna juventude – Ele resmunga.

- Não se trata disso, não te faças de desentendido – agora Ela o escutou. – Como é que sempre se fez? Como é que sempre se evitaram os conflitos potencialmente comprometedores?

- Aposentando compulsoriamente com vencimentos integrais? – Ele arrisca. – Dando férias perpétuas como adido cultural da Embaixada na Letônia? Internando num manicômio judicial?

- Eu é que ainda vou acabar um dia te internando num manicômio! – Ela explode. E suavizando em seguida o tom da voz e a rudeza do rosto: – Parece que hoje nasceste só pra me contrariar, só pra me irritar. Qual foi o bicho que te mordeu?

- Acho que andas meio nervosa – Ele apalpa cuidadosamente o caminho, as palavras, o sorriso desenxabido.

- E não hei de andar?! Não viste isso, por acaso? Então não precisavas nem perguntar – Ela mal se contém. – Não podiam permitir que gente assim envelhecesse!

- E fazer o que com elas? – Ele decide ser direto.

- O que sempre fizeram, o que sempre fizemos: matá-las antes de entrarem na imbecilidade, antes de saírem por aí dizendo asneiras, antes de apanharem um microfone para pregar a palavra de Deus. Neopastores neoevangélicos de almas arrependidas, bah! Fizeram o que fizeram de livre e espontânea vontade, porque acreditavam no que faziam e ganhavam muito dinheiro para fazer tudo direitinho e, depois de velhos, saem-se com essa de consciência, reconciliação e busca pela paz. – Furiosa, Ela: – Deveriam é ter buscado a paz eterna no momento em que ainda estavam lúcidos, isto é que sim!

- O General teu pai, com todo o respeito, deve estar agora se revirando no túmulo – Ele enfim concorda com Ela.

- O General – que Deus o tenha! – teria resolvido isso há muito. Assim que esse delegadinho de Guerra abrisse o caderno para escrever a primeira palavra, a primeira letra do título do livro, ele teria deixado de ser gente, de ser deste mundo – Ela continua exaltada. – Não fizeram o que Papai teria feito de imediato para preservar a pele e a memória de todos, e o que acontece? O que acontece, hem?

- O General é citado no livro com todas as letras do nome, na patente de Coronel, como torturador, assassino e incinerador de cadáveres numa usina de açúcar em Campos dos Goitacazes – Ele fala como se tivesse decorado o texto.

- Isso mesmo! – Ela aplaude, entusiasmada. – Isso mesmo! E, no entanto, ele apenas honrava seu juramento de defender a Pátria contra o inimigo, contra esses solertes lacaios pagos com o ouro de Moscou! Se o Alto Comando fraquejava, o General impunha sua linha, dura porém eficaz, e o Brasil tornou-se um oásis de paz e prosperidade num mundo mergulhado em sabotagens, greves, atentados, conflitos internos e guerras fratricidas.

- É verdade – Ele parece perplexo. – Como é que falharam assim, deixando vivo um delegado do DOPS que sabia de coisas para abrir o bico? Será que foi só porque ele vivia meio escondido lá no Espírito Santo?

 AMILCAR NEVES  é membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS.

LIVROS – por omar de la roca / são paulo.sp

Livros

Sim.Foi no dia que não acordei encostado.Mas fui revirado e sacudido e conto tudo tim tim por tim tim.Depois que saí do Consulado,passei de raspão de Cultura.E o peso de todos aqueles livros caiu como uma avalanche por cima de mim.Quantos e quantos,incontáveis.E fui colhendo os títulos.Cada um mais estranho que o outro.Destaco apenas um “ A sociedade literária e a torta de casca de batatas.”E me pergunto,como alguém pode dar um nome destes? Bom,ao menos me fez curioso.Mas não o peguei,já que estava na entrada e eu queria ver mais.E aos poucos fui tomado pela imensidão de livros,pela musica de Vivaldi que tentava suavizar a presença atordoante dos livros.Nem que tivesse dez vidas e vivesse cem anos cada, não conseguiria le-los todos.E pensar que um dia eu acreditei que poderia encontrar tudo que eu quisesse nos livros.Os livros,para quem se escreve?Comercialmente ? Sim,é o que desconfio quando vejo aqueles títulos esdrúxulos.Para exorcizar antigos demônios?Sim,aprendi isso com meus contos.Contos ou seja qual for o nome.Que me mostram suas caras de repente e logo se escondem me instigando a descobri-los inteiros dentro de mim e expo-los ao sol.Pobres contos.Quem os lerá?Que eu saiba apenas o espelho,que mantenho suspenso por um fio num quarto espaçoso e arejado e o visito todos os dias.Para aprender alguma coisa aqui,outra ali quando observo meus cabelos que insistem em branquear.Voltando a livraria,percorro meio assustado a galeria repleta.Estranho,não é a primeiras vez que venho aqui e não me senti assim da outra vez.Acho que começo a ver tudo com novos olhos.Acho os livros que queria ler.Ulisses de James Joyce e A Montanha Mágica de Thomas Mann.Mas são tão grossos que compra-los é uma impossibilidade absoluta.Pelo menos agora.E muitos outros desfilam suas capas coloridas,e eu que tenho um fraco por cores,me aproximo para aprecia-las.Vi Jane Austeen e pensei em falar com ela.Mas não quis interromper,que ela estava escrevendo com uma longa pena de pavão.Quase pedi um autografo,mas resolvi não pagar o mico.E a capa do livro dela,um livro chique,bilíngüe me mostrou um lírio que ela trazia escondido. Andei mais um pouco na direção da saída e um livro de lombada azul perdido entre outros me chamou a atenção.Era uma compilação de contos de amor de Gibran.E eu o folheei saboreando os poemas com avidez e me envergonhei com o que escrevera e tentei  guardar alguns de memória para anota-los aqui,mas falhei.O que ficou foi,” se o inverno dissesse que tinha a primavera no coração,alguém acreditaria nele?” De outro só me lembro da essência,falava de falcões presos em gaiolas enquanto viam os passarinhos voando livres pelos céus da campina. Me lembrei então dos meus ventos que  percorriam céleres os campos descampados,as clareiras mágicas onde um beija flor pousou num céu de maio ,ventos que iam colhendo folhas e se desculpando com as arvores,quando em sua pressa quebravam alguns pequenos galhos secos e elas não gostavam.Ventos que circulavam as pedras e as pessoas que se abrigavam em suas roupas,mas não eu que os acolhia com prazer e abria meus braços alegre para que eles me possuíssem por inteiro.E tudo isso abrindo um pequeno livro.Coloquei-o no lugar.Não sei mais se era o lugar que ele estava acostumado.Senão espero que tenha encontrado boa companhia,que ele merece.Fui caminhando devagar pela geleira que eu temia desabasse sobre mim como uma avalanche de papel picado e folhas soltas,perdidas, reviradas e esquecidas.E depois do que li, entre revirado e sacudido me encontrei encantado e encontado e apesar de tudo,cantos e desencontos  achei que valia a pena continuar escrevendo.

Nem que fosse apenas para o espelho que pendurei por um fio,numa parede nua de um quarto amplo arejado.Meus contos serão condenados a serem como uma fonte de água limpa porém escondida entre as pedras,que a poucos,muito poucos mata a sede e mesmo assim tem medo de falhar,de secar e busca incessantemente no seio da terra a água com a qual ira ao menos mitigar a sede de alguns viajores que se arriscarem pelo caminhos pedregosos que levam a ela. E que vê a água secar logo depois que cai,sem ninguém para aproveita-la.Ou devo  aprender a manter a água presa,sem desperdício,nem que faça barreiras com areia,folhas secas, ventos e livros?Que agora,longe da livraria, posso falar deles sem medo de temporais e ventanias.

MOMENTO II – por olsen jr / rio negrinho.sc

NEM SEMPRE FOI ASSIM

 

Coincidências à parte, aliás, como já disse em outro lugar, coincidência é o acaso premeditado. Foi em novembro de 2004, quando ocupava o cargo de gerente de projetos da Fundação Catarinense de Cultura, em conversa com o escritor e editor, Francisco José Pereira, justamente no ano em que se lembravam os 40 anos do golpe militar no Brasil, ato que baniu o regime democrático que havia e se instalou o obscurantismo que vivenciamos durante 21 anos, que sugeri para ele a idéia de que deveríamos publicar uma antologia de contos “temática” tendo como leitmotiv os anos de chumbo. Não apenas para marcar a data, mas também e principalmente, para não descuidarmos de nossa própria participação nesta história.

O Francisco Pereira ouviu atentamente afirmando “(…) Foi uma pena que não tenhamos lembrado em tempo para fazer ainda este ano (…)”… Como o bate-papo continuou, comecei dizendo que o importante naquela situação era marcar a presença, contar a história, que mais não sirva, disse: para que esta juventude que está aí submetida à internet, vai e volta para qualquer lugar quando bem entende, diz o que quer a hora que quer, enfim, que tudo está pára ser feito, não há restrições nenhuma e pouco se está fazendo, mas principalmente, para que saibam que tudo isso nem sempre foi assim…

Quando ouviu a última expressão, Francisco teve um brilho no olhar, repetiu “nem sempre foi assim”, está aí um bom título e já pegou uma folha de papel com uma caneta e começamos a fazer uma lista de escritores. Antes de responder a pergunta “quem vamos convidar?”, deveríamos definir os critérios para estas escolhas. Na verdade tudo foi muito claro, deveriam ser escritores que tivessem “uma questão com a ditadura”, seja de prisão arbitrária, de constrangimento, de cerceamento de liberdade, de perseguição política, de algo que houvesse estigmatizado o “protagonista/autor” dentro do regime estratocratico imposto pelo arbítrio. Começamos pelos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

A primeira lista pareceu alentadora, pelos nomes e pelas qualidades dos escritores mencionados. O tempo passou e realizamos mais duas reuniões com os mesmos propósitos, uma no Café Matisse e mais outra na FCC… Novamente o tempo correndo célere, e tudo aquilo me pareceu mais o sonho romântico de dois idealistas que primeiro precisam se encharcar de idéias, reviverem casos, amargar desilusões novamente, repassar o que poderia ter sido e não foi, e finalmente, cair na realidade dos novos tempos e tratar tudo com o mesmo desvê-lo, mas com a razão possibilitada pelo distanciamento histórico dos fatos e claro, ter a consciência de que se trata do testemunho de (sobre)viventes de um tempo mal.

Mantivemos mais dois contatos, desta vez por telefone, já tratando dos prazos das entregas dos contos. Agora, três anos (e daí a coincidência referida na primeira linha deste texto) depois daquela conversa inicial, será dada ao público a antologia “Nem Sempre Foi Assim” – contos dos anos de chumbo, com lançamento no dia 04 de dezembro, a partir das 19h30min, na Saraiva Mega Store do Shopping Iguatemiem Florianópolis. Osautores convidados (por ordem alfabética): Amilcar Neves, Cristovam Buarque, Emanuel Medeiros Vieira, Francisco José Pereira, Mario Prata, Olsen Jr., Sérgio da Costa Ramos, Sérgio Faraco, Silveira de Souza e Urda Alice Klueger.

A propósito, lembrei agora, quando perguntaram ao Abade de Siéyès o que tinha feito durante a Revolução Francesa, simplesmente respondeu: “Eu sobrevivi!”.

Bem, camaradas, este livro trata de alguns “sobreviventes” e de suas histórias.

 

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NOTAS:

 

Segue o Momento II da homenagem ao camarada Francisco José Pereira…

Morto no dia 02 de julho…

Um  pouco da história…

A música pode ser esta…

Pouca gente sabe, mas o Hino do Estudante Brasileiro foi composta por Vi nícius de Moraes…

Porém (e sempre tem um “porém”, diria o amigo dramaturgo Plínio Marcos) o que ficou consagrado como Hino foi “Caminhando” (ou para não dizer que não falei das flores) de Geraldo Vandré…

Vai…

http://www.youtube.com/watch?v=gVmmgvgB8Ms

 

A LIBERDADE ENFIM (a morte de Francisco José Pereira) – por olsen jr / rio negrinho.sc

Morreu no dia 02 de julho o camarada Francisco José Pereira. Dois dias antes da celebração de independência dos EUA. Só uma alusão uma vez que não podemos escolher a hora, nem local e muitíssimo menos o dia para partir. O “Chico” como era conhecido entre os amigos, foi militante do Partido Comunista Brasileiro, advogado de profissão, defensor dos trabalhadores em causas inerentes durante a década de 1960, empenhado dentro dos sindicatos e fora deles. Em algum tempo dos “anos de chumbo” esteve exilado e trabalhou como adido cultural na Unesco.

Um Homem (assim mesmo com “H” maiúsculo) de fibra, para dizer pouco, com um código de ética irrepreensível… Quando foi assessor do prefeito Sérgio Grando em Florianópolis, por conta de sua eficiência, ganhou certo dia um presente de algum contribuinte… Francisco, antes mesmo que o gesto pudesse ser tomado como um “agradecimento” ou mesmo uma “preparação para futura demanda”, na condição de quem conhece a “psique” envolvente de tal ação, não teve dúvidas e mandou devolver a oferenda sob a alegação básica de que “já era remunerado pelo trabalho que fazia” dispensando outros emolientes capazes de questionar o seu fulcro.

O Francisco não tergiversava. Como era um Ser íntegro cobrava esta integridade de todo o mundo que compartilhasse de sua amizade. Não estou autorizado e sequer tenho procuração para “ressuscitar” fatos e pessoas que participaram (ou deixaram de) de circunstâncias de cujo comportamento poderia redundar em benefícios sociais para outras pessoas dentro da legalidade… O que não impede de citar o fato omitindo o “santo”…  Houve um momento na história que o Francisco precisava de um depoimento/declaração de certo escritor catarinense para que um conhecido militante do Partido pudesse ser beneficiado com a Lei da Anistia… O “tal” escritor (ele próprio um beneficiado com a Lei) se recusou em fazê-lo… Mostrando toda a sua contrariedade, Francisco Pereira – a partir daquele momento – jamais voltou a dirigir a palavra ao dito escriba… E quando indagado sobre tal comportamento, sempre explicava as razões para manter tal comportamento… A verdade com ele jamais era escamoteada.

Fomos apresentados pelo poeta C. Ronald em uma cerimônia de entrega de prêmios na Casa do Jornalista no antigo endereço (na Deodoro…) o lugar havia sido escolhido para a cerimônia, o Senador Jayson Barreto havia doado o seu “hipotético jetom” (calma que já explico) para que se organizasse um Concurso Literário (alô Remy Fontana) dando uma destinação social a uma excrescência (porque aquele seria um pagamento para os Senadores irem pela última vez ao Colégio Eleitoral, a forma que a estratocracia tinha arranjado para se escolher o futuro presidente do País)… Por pressões populares o tal jetom acabou não saindo, mas o Senador Jayson Barreto manteve a palavra e bancou o Concurso do seu próprio bolso… A cerimônia foi  prestigiada, naquele tempo o (P)MDB era muito respeitado e lembro da manchete do jornal “O Estado” (o mais antigo) “Na falta de eventos culturais se prestigia até entrega de prêmios’… Matéria assinada pelo jornalista Paulo Clóvis… O vencedor do Concurso foi o escritor Olsen Jr. com o conto “Marcas da Solidão”…   Lembro que o poeta C. Ronald me pegou pelo  braço e disse, venha cá que vou te apresentar um “verdadeiro comunista”… Um homem honesto, íntegro…

Desde então, formamos uma amizade que nunca se dissipou nos maus “entendimentos da vida”… Isso decorre também porque nunca permiti que os fatos e as coisas da história em que faço parte não sejam todos bem esclarecidos… Sou alguém que sempre toma posição, faço a escolha (à maneira sartriana, porque a vida é sempre o resultado de “escolha” e “consequência”) e assumo a ação daí decorrente… Em minha casa nem o detergente da cozinha é neutro…  “Almas gêmeas”, penso, foi isso… Uma convivência íntegra muitas vezes com opiniões divergentes, sim, mas com respeito às convicções de cada um…

Na Academia Catarinense de Letras, Francisco ocupava a Cadeira 05, cujo Patrono foi o jornalista Crispim Mira (que morreu assassinado por suas convicções)… Nasceu na rua que leva o nome do Patrono da sua cadeira e também publicou um livro biográfico sobre ele… Na Instituição não existe outra combinação astral que reúna tantas coincidências…

Agora preciso confessar: quando pretendi a Cadeira 05, fui o primeiro a fazer a inscrição e nunca me detive em analisar as tais “coincidências” que por si só, tornariam o Francisco imbatível na disputa… Quando alguém sugeriu que eu deveria “retirar a candidatura”, me pareceu um convite para um ato de covardia… Tudo menos isso… Tomada a decisão, feita a escolha vou até o fim… Cinco candidatos inscritos disputando os 20 votos necessários para o ingresso na Academia… Os dois mais votados foram para o segundo turno e o Francisco foi eleito com alguns votos (dos oito que fiz) naquele escrutínio…  O Francisco ficou reconhecido com isso e, à exceção desta tive o seu apoio sempre até ser eleito por minha vez à Cadeira 11… Hoje, à luz da maturidade que a convivência possibilitou, o gesto de “renúncia” naquela época poderia ser considerado como um ato de elegância e reverência…

Mas, considero “quando alguém está se afogando não diz “gostaria que um gentil cavalheiro me observando nesta situação delicada e acreditando ser justo o seu envolvimento me auxiliasse a sair desta”… O cara grita apenas por “socorro”… A necessidade imediata da ação prescinde das boas maneiras que em outras circunstâncias o ato talvez requeresse… Meu caro Francisco José Pereira já conversamos sobre isso, homens de ação, você entendeu o gesto, e elegantemente me perdoou… A  reverência lhe presto agora!

NOTAS:

Segue o Momento III da homenagem ao colega Francisco José Pereira…

Foi escrito agora a pouco…

Outra lacuna aberta…

A música poderia ser esta, do “America”, outro grupo que admiro…

A solidão não tem monopólio…

Vai…

http://www.youtube.com/watch?v=IRDnEqW1vAc&feature=related

Preocupações com o livro e a Literatura amanhã – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc


Este ano a Biblioteca Nacional da Espanha celebra o seu terceiro centenário.


Aqui, tivemos um governador que decidiu ser sua missão acabar com a Biblioteca Pública do Estado de Santa Catarina, que contava apenas a metade da idade da sua congênere madrilenha – completou 158 anos no dia 31 de maio. Ele desfraldava um argumento que considerava arrasador e definitivo: “Por que a biblioteca de Joinville é municipal e a de Florianópolis tem que ser estadual?” Como não conseguiu extingui-la, mudou o nome para Biblioteca Pública de Santa Catarina (ou seja: ela está pronta para deixar de ser do Estado desde que o novo proprietário se comprometa a mantê-la pública…) e sustou a liberação de verbas até para a manutenção do acervo. Hoje o homem é senador da República e relata o projeto do novo Código Florestal Brasileiro, ancorado em opiniões pouco próprias sobre essa mania nacional de se querer preservar meio ambiente às custas da produção de alimentos.


Claro que bibliotecas têm tudo a ver com a preservação do livro, da Literatura e do salutar hábito da leitura. Ainda outro dia, o peruano Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura de 2010, declarando seu amor incondicional pelas bibliotecas, revelou que o fato mais importante da sua vida foi ter aprendido a ler. A paixão pela leitura desde criança, conforme afirmou, permitiu-lhe, a partir de então, viver “grandes experiências” graças aos livros.


O mesmo Vargas Llosa participou neste 9 de maio de um ciclo organizado por aquela biblioteca espanhola em comemoração aos seus 300 anos. Durante o debate com um jornalista, ele desabafou: “É um temor, tomara que não aconteça”. Referia-se ao advento dos mais diversos aparelhos eletrônicos que têm surgido nos últimos anos e se propõem a operar como suporte ao livro e à leitura. O mais recente deles constitui a família dos tablets, palavra que, em inglês, significa precisamente tabuleta, tabuinha, bloco de papel (assim como um notebook nada mais é, no vernáculo anglo-saxão, do que um mero caderno de notas, uma simples agenda, o velho e tradicional caderno escolar).


A preocupação do escritor latino-americano é que, segundo ele acredita, o suporte eletrônico acabará por influir decisivamente no conteúdo da escrita; neste caso, afetando comprometedoramente a qualidade do texto. Ele dá um exemplo: “a literatura criada diretamente para os tablets” pagará o mesmo preço que o texto escrito para a televisão, “pois se banalizará e cairá na frivolidade”. Seu argumento é claro: “A televisão banalizou tanto os conteúdos […] porque aponta ao mais baixo para chegar ao maior número de pessoas.”


Na verdade, não se pode considerar Literatura uma telenovela, tanto quanto nunca se deu essa condição à velha radionovela. Mesmo um texto teatral será ou não obra literária dependendo da perícia, do engenho e da autocrítica que o seu autor colocar no trabalho. De forma idêntica, um escritor jamais escreverá sua literatura de maneira apressada (e irresponsável) para “postar” o texto no segundo seguinte querendo que se trate de uma peça efetivamente literária. A obra literária exige tempo, maturação, revisões infindas e um enorme grau de exigência até chegar-se mais ou menos perto do resultado ideal.


Assim, jamais se escreverá um conto teclando-o diretamente num dispositivo eletrônico e publicando-o no ato. Literatura é outra coisa, e até poderá ser lida num tablet, mas nunca produzida nele para consumo imediato.

AMILCAR NEVES  é membro da ACADEMIA DE LETRAS DE SANTA CATARINA.

Mapa astral e outras adivinhações – por luis fernando pereira / curitiba.pr

Era criança lá em Cascavel quando um primo um pouco mais velho me explicou que o futuro já estava definido. Todo o futuro. Falava meu primo das profecias de Nostradamus. Fiquei meio desconfiado, mas acreditei. Aquela imagem de um velho sisudo e com longa barba branca ajudava a impressionar uma criança. Como há um bom tempo deixei de ser criança (mais tempo do que eu gostaria), parei de acreditar em Nostradamus ou qualquer outra forma de futurologia. Impressiona-me como até hoje muitos amigos (já bem crescidos) insistem em acreditar na possibilidade de se predizer o futuro. Resolvi escrever sobre tema.

Há várias modalidades de adivinhação. Dizem que os caldeus (aquela turma do sul da Mesopotâmia) prediziam o futuro analisando as entranhas dos animais. Hoje isso já não seria mais possível, imagino. A Brigitte Bardot e outros protetores dos animais não permitiriam o sacrifício dos bichinhos apenas para revelar o futuro a humanos ansiosos. Em tempos atuais a adivinhação se dá por intermédio das cartas de tarô, búzios, astrologia, quiromancia (leitura das mãos, explico aos não iniciados) entre outros “métodos” menos votados. Em um conto de Rubem Fonseca (reunido no ótimo “Secreções, Excreções e Desatinos”), li a possibilidade de se adivinhar o futuro por meio da análise das fezes. Não pesquisei, mas acho que a adivinhação escatológica era pura ficção do nosso grande Rubem (melhor contista brasileiro vivo, aproveito para anotar).

Ainda sobre os “métodos”, tem um amigo meu que acredita que tudo pode ser revelado pela borra do café (cafeomancia, outro método moderno de adivinhação). É só eu terminar de tomar o meu café que ele fixa o olhar no fundo da minha xícara para fazer a leitura da borra. – Mês bom para fechar acordos, disse ele uma vez. Eu acho que no futuro ele vai confessar que está me gozando com este papo de borra de café, mas como eu não me arrisco em adivinhações, simulo certa atenção. Como há vários métodos, pesquisei para ver se havia alguma hierarquia. Por exemplo: os búzios prevaleceriam em relação ao tarô que, por sua vez, estaria acima da cafeomancia? Não achei nada neste sentido. Isso só aumenta minhas dúvidas. Fico pensando: se por acaso os búzios revelarem período bom para acordos e a cafeomancia (o negócio da borra de café) disser que devo apostar em conflitos, como devo proceder? Cheguei à conclusão que o ideal é que cada adepto da adivinhação se concentre em apenas um método, evitando que o maldito do tarô possa eventualmente desmentir a leitura das mãos, gerando certa desorientação.

Bem, como meu espaço aqui na Revista Ideias é pequeno, permitam-me agora um corte metodológico. Vou me concentrar um pouco na análise da astrologia. É o método mais popular entre meus amigos. Fazer um mapa astral é quase uma obrigação hoje em dia. Se entendi bem a explicação sobre o funcionamento deste método de adivinhação, na essência a pessoa é definida (personalidade, caráter etc.) a partir das posições do sol, da lua e dos planetas no instante do nascimento. Ao ouvir a explicação, me perguntei por que não levam em conta o momento da concepção; ou quem sabe da primeira mamada? Não compreendi bem o porquê, mas o fato é que vale mesmo a hora do nascimento. Dia desses, ao tentarem me convencer a fazer meu mapa astral, disseram-me que bastaria eu informar o horário e a data do nascimento que o astrólogo (não confundir com astrônomo) me entregaria o tal mapa pronto. Falaram na influência das constelações zodiacais, se me recordo. O mapa astral, com suas casas astrais e trânsitos astrológicos (nomes pomposos, devo reconhecer), seria um guia a revelar períodos futuros propícios para determinadas atividades. Para resumir, é um horóscopo mais sofisticado. Com todo o respeito que devo aos meus amigos adeptos da astrologia, não vejo nenhum sentido nisso.

Certa vez, fiz uma conta interessante para uma amiga que não saía de casa sem ler o horóscopo diário (parece que mais recentemente ela migrou para o i-ching). Como somos mais de sete bilhões de humanos andando pela terra e apenas doze signos, mais ou menos seiscentos milhões de pessoas acabam tendo o mesmo tipo de dia (bom para os negócios; ruim para o amor, por exemplo). Não por acaso as “previsões” do horóscopo são genéricas o suficiente para não frustrar a expectativa da turma. Mesmo genéricas, há casos de inevitáveis equívocos. Quando pergunto sobre os erros, meus amigos do mapa astral chamam a atenção para a influência do signo ascendente. Eu mesmo nem sabia que existia o tal do ascendente. Existe e tem gente que chega a cancelar viagem se o mapa astral, levando ou não em consideração o ascendente, indicar um período impróprio. Gente importante acredita nisso. Os mais velhos lembram bem da estranha relação do casal Reagan com a astrologia. O ex-presidente americano chegou a ficar um tempo sem sair da Casa Branca com medo de ser assassinado. Era um sinal do mapa astral.

Eu simplesmente não consigo acreditar em rigorosamente nada disso. Acho sinceramente que não se trata propriamente de métodos de adivinhação, mas métodos de ganhar dinheiro. Para cada método há um “sensitivo”. São os intérpretes dos métodos. São pessoas que se vestem diferente para compor o tipo esotérico. Não duvido que haja gente séria metida com isso. Muitos realmente acreditam, mas a grande maioria tem a adivinhação como ganha-pão e pronto. O número de adeptos é tal que se trata de um ofício que dá um futuro certo aos “intérpretes”.

Apesar de tudo, antes de enviar este texto, resolvi consultar meu horóscopo. Entre outros conselhos, dizia que era para eu aproveitar o ensejo do ingresso de Júpiter em Áries para ampliar horizontes. O astral favorece a flexibilidade e a abertura mental, dizia outro trecho. Foi confiando nestes conselhos que eu enviei o texto. Não gostou? A culpa não é minha; é do mapa astral ou, noutras palavras, da bendita posição das constelações zodiacais na hora exata do meu nascimento.

O CICLO QUE SE FECHA – por olsen jr / rio negrinho.sc



Entrei na ruazinha de terra batida com o pensamento fixo. Relutei no princípio, o lugar me trazia boas lembranças. Talvez por isso hesitasse, o temor da decepção rondava o desavisado. Quando desci do carro, um solzinho medroso esgueirava-se por entre as pedras do barranco onde uma vegetação ainda espreguiçava-se estendendo seus braços ao acaso.

As pessoas que estavam comigo se espalharam buscando as novidades que o lugar prometia. Permaneci por momentos observando a casa de madeira bem construída no alto da elevação do terreno e que era a mesma da última vez que ali estive com os meus pais. Eles buscavam um mel diferenciado, puro, que só era encontrado ali. O encarregado era amigo da família, meu pai e ele tinham boa convivência e o encontro entre ambos era sempre uma celebração. Naquele dia não fora diferente. Depois dos cumprimentos, efusivos pela própria natureza, subiram a pequena encosta caminhando vagarosamente e tentando por a prosa em dia. As notícias caindo como novidades semelhantes a um conta gotas aspergindo alívio a um par de vistas cansadas. Distanciando-se dos curiosos e compartilhando de uma conversa de homens vividos com muitas coisas em comum. Para nós, crianças na época, a parada era mais um contratempo que uma alternativa de entretenimento. Permanecíamos inquietos até servirem os favos ainda dentro do  caxilho onde eram produzidos, vinham cheios de mel, levemente refrescados por um acondicionamento em geladeira pouco antes de serem levados ao consumo. Mastigar aquelas favas em pequenos nacos, sentir o líquido doce escorrendo pela boca e sorvê-lo em bocados era uma sensação divina. Porque os adultos costumavam afirmar que aquele alimento líquido era o néctar dos deuses e, portanto, aquele “divino” acrescido ao prazer sentido em absorvê-lo era um reconhecimento mundano ao olimpo onde era usualmente apreciado.

Enquanto estávamos assim entretidos, os adultos aproveitavam para beber uma aguardente misturada com porções daquele mel e servido à temperatura ambiente. Naquele tempo as pessoas se adaptavam facilmente ao que possuíam tirando partido das circunstâncias e eram compreensíveis os rumos que a conversa tomava escorrendo como as águas de uma fonte ocupando todos os desvãos do terreno sem um destino específico, apenas fluindo.

Depois havia uma despedida… A próxima visita poderia demorar, talvez nem acontecer, o importante era os vínculos afetivos reavivados sempre como as chamas brandas de um acampamento cigano sem tempo para extinguir.

A pequena venda aberta ali no pé do morro era uma novidade. O garoto que atendia o balcão estava ocupado em montar pequenos dispositivos elétricos enquanto esperava os clientes.  Responde as minhas perguntas como se já estivesse habituado a elas… Fico sabendo que o amigo do meu pai era seu avô… Também que eles não vendiam mais mel ali…

Estava diante da terceira geração…

Observo as prateleiras do mercadinho, busco com os olhos alguma coisa para amarrar a minha memória ao presente, mas não encontro nada… Talvez aquele garoto fosse o último liame com o passado… Sufocando a própria infância…

Digo que o meu pai foi grande amigo do avô dele… Ele sorri, talvez não consiga ver a ligação daquelas reminiscências com o que estava fazendo ali atrás do balcão… Despeço-me dele e do local…

Ali fora ainda observo a casa na colina… Esforço-me para ver os meus pais e o avô do garoto conversando enquanto subiam a pequena encosta… Foi muito rápido, por momentos senti naquela quietude um laivo de saudades e logo uma voz me tirou daquele devaneio… “Vamos!”… Ouvi…

… Um homem é ele e sua memória… Penso enquanto me afasto do lugar aderindo ao convite para ir embora e repetindo a expressão: “vamos!” Para ter certeza!

 

NOTAS:

Olá, camaradas, salve!

Com este texto começo algo diferente…

Na condição de cidadão rionegrinhense… A palavra é feia, mas as pessoas são acolhedoras…

Well, vamos regularizar o envio semanal… Espero…

A música poderia ser esta…

 

http://www.youtube.com/watch?v=r4wiF1qnPlY&feature=related

 

O Grupo “The Walkers” (Os Andarilhos) é holandês, do início da década de 1960…

A composição “There’s no More Corn on the Brasos” foi um dos seus maiores sucessos…

Folk, country, rock… O de sempre para a época…

Com o carinho do poeta!

 

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