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Sanções contra a Rússia agilizam a formação de novo mercado financeiro

Por Redação, com agências internacionais – de Moscou

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Peskov falou sobre a formação de um mercado financeiro independente

As sanções anunciadas pela União Europeia e EUA contra a Rússia também voltaram a mexer com o mercado investidor, nesta terça-feira, após uma entrevista com o porta-voz do Kremllin, Dmitry Peskov. A Rússia voltou a cogitar a formação de um mercado financeiro paralelo ao de Wall Street, com negociações realizadas em moedas como o rublo, o yuan e o real, em resposta às pressões do Ocidente contra a anexação do Estado independente da Crimeia.

Segundo Peskov, as sanções contra a Rússia foram “o último gatilho” para a criação de um sistema financeiro independente, baseado na economia real. Segundo afirmou, “o mundo está mudando rapidamente”.

– Quantas civilizações cresceram e se extinguiram no curso da História? Quem está apto a resistir à pressão de um sistema perto da falência e indicar ao seu povo o caminho para o futuro? A possibilidade de um novo sistema financeiro independente do dólar, que segue perto de um colapso após a crise de 2008 será uma consequência das sanções contra a Rússia que, doravante, passará a reforçar seus laços econômicos com o países do BRICS, em particular com a China, que é dona de grande parte da dívida externa norte-americana – afirmou.

O mundo, hoje em dia, segundo análise do porta-voz do governo russo, “deixou de ser bipolar” e países como Brasil, Índia, China e África do Sul, que integram o BRICS, juntos com a Rússia, representam 42% da população mundial e cerca de um quarto da economia, o que coloca este bloco como um importante ator global. As sanções determinadas pelo Ocidente “podem significar uma grande catástrofe para os EUA e os europeus, no futuro”, acrescentou Peskov.

A discussão sobre um novo sistema financeiro, no entanto, não começou agora. Desde a formação do BRICS, há mais de uma década, estuda-se a possibilidade de se formar um novo mercado, que aceite outras moedas, e não apenas o dólar norte-americano, na liquidação dos negócios. Os países que integram este bloco estão todos de acordo com os princípios legais, em nível mundial, e o volume de negócios entre estas nações tem batido novos recordes a cada ano, nas mais diferentes áreas.

Com o objetivo de modernizar o sistema econômico global, que tem no centro dele os EUA e a UE, os líderes do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul criaram o BRICS Stock Alliance, um embrião deste novo mercado sem o dólar, e têm desenvolvido mecanismos bancários capazes de financiar seus grandes projetos de infraestrutura. Apesar do ceticismo dos mercados formais, “estes países têm mostrado bons resultados em suas balanças comerciais”, concluiu.

 

FREI BETTO – entrevista em 23/11/2013

Por Cleidi Pereira |

O contraste do olhar sereno com o semblante sério resume a trajetória de Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto: mesmo diante de injustiças e dificuldades, ele jamais perdeu a fé e a esperança. Foi assim nos quatro anos em que esteve preso durante o regime militar, por apoiar a luta armada contra a ditadura, e nos cinco anos seguintes em que morou na periferia de Vitória, no Espírito Santo, quando decidiu ficar no Brasil.

Aos 69 anos, o escritor mineiro, religioso dominicano e assessor de movimentos sociais é hoje reconhecido mundialmente por sua luta pela justiça social e pelos direitos humanos. Em janeiro, recebeu da Unesco o Prêmio José Martí, por seu trabalho marcado pela “oposição a todas as formas de discriminação, injustiça e exclusão”.

Frei Betto recebeu ZH no Convento Santo Alberto Magno, no arborizado bairro Perdizes, zona oeste da capital paulista, onde reside há mais de 30 anos. Ele fez dois pedidos: que a entrevista não fosse registrada em vídeo – costuma dizer que o “olho canibal” das câmeras o agride – e que a repórter, se possível, se adiantasse. A conversa começou com meia hora de antecedência para que o homem que diz não ter rotina pudesse cumprir rigorosamente a agenda apertada do dia.

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Autor de 57 livros que se define como escritor compulsivo, Frei Betto tem um perfil que provoca dúvidas. Há quem diga que ele é padre e filiado a partido político, mas não é e nunca foi nem uma coisa nem outra. Quando olha para o passado, o frade diz que ocárcere, na verdade, o libertou, pois serviu como um “grande retiro espiritual e literário”. Participou da criação do PT e, embora classifique os governos Lula e Dilma como “os melhores da história republicana”, não poupa críticas ao partido, que diz ter sido picado pela mosca azul.

Na entrevista, ele conta como nasceu a amizade de mais de 30 anos com Lula, analisa os 10 anos de governo do PT, conta como conheceu e indicou Joaquim Barbosa ao Supremo Tribunal Federal (STF) e fala sobre o pontificado do Papa Francisco.

Leia, abaixo, a entrevista.

O DOM DA ESCRITA, O CHAMADO À VIDA RELIGIOSA E A ATUAÇÃO NO COMBATE À DITADURA

O senhor já escreveu que a “arte de tecer letras” é a sua forma de administrar a loucura. O que tanto perturba um autor de 57 livros?

Somos seres múltiplos interiormente. Então, a literatura tem um caráter terapêutico. O Hélio Pellegrino, psicanalista, escritor, poeta e muito meu amigo, diz que eu não ter enlouquecido nos quatro anos de prisão nem precisado fazer terapia se deve ao fato de eu ter trabalhado minha dor através da literatura. Isso é verdade. E até hoje a literatura é o meu refúgio, é a maneira de administrar os anjos e demônios que me habitam. Por isso, sou um escritor compulsivo e não posso ficar 48 horas sem escrever alguma coisa que começo a me sentir mal.

Quais são as suas técnicas na hora de escrever?

Tenho dois processos. O mais importante é que reservo 120 dias do ano só para escrever. Já sei quais são os dias de 2014 que vou me afastar de tudo só para escrever. No máximo 10 e no mínimo cinco dias, ao longo do ano, que, somados, dão 120. Isso é uma prática que vem desde 1987. Segundo fator é que tenho muita facilidade para escrever graças a minha experiência no jornalismo. Escrevo no aeroporto, na sala de espera de dentista. Escrevo, aí mais trabalhando artigos que tenho que preparar para jornais e revistas toda a semana. Livros não, mais nesses 120 dias que reservo. Sou muito disciplinado para escrever.

Nesses 120 dias dedicados à escrita, o senhor costuma viajar?

É, me isolo, num sítio, fico sozinho, eu mesmo cozinho. E aí aproveito para fazer aquilo que eu mais gosto: rezar e escrever.

A minha geração era viciada em utopias. Estou convencido de que quanto mais utopia, menos drogas e, quanto menos utopias, mais drogas.

Como o senhor descobriu a sua vocação religiosa?

Através da JEC, a Juventude Estudantil Católica, um movimento da Ação Católica, nos anos 60. Os frades dominicanos de Belo Horizonte eram assessores da JEC. Vários militantes da JEC entraram nos dominicanos. Nem todos permaneceram, mas vários ficaram empolgados com o testemunho dos dominicanos. E essa inquietação me veio desde os 16 anos. Entrei na JEC com 13. Isso eu conto no livro “O Que a Vida Me Ensinou”, publicado este ano pela editora Saraiva. Aos 20 anos, estava na faculdade de jornalismo e decidi interrompê-la para fazer uma experiência nos dominicanos, convencido de que não era minha vocação, mas não queria chegar aos 40 anos pensando que não tive coragem de fazer a experiência. Entrei e já são 48 anos de vida religiosa. Me sinto muito feliz.

Em algum momento já pensou em desistir dessa escolha?

Quando trabalhei no teatro e fui assistente de direção de uma montagem do “Rei da Vela”, de José Celso Martinez Corrêa, do Teatro da Oficina. Descobri que tinha talento para dirigir uma peça, mas ser diretor de teatro é outro sacerdócio. E sempre dividi a minha vida religiosa com a minha literatura, mesmo com o jornalismo, mas com o teatro seria impossível. Então, foi a minha maior tentação.

Como o senhor lida com o celibato e o voto de castidade?

É muito tranquilo, porque quando você faz o voto, faz baseado em dois princípios. Primeiro, é um sentimento de que tenho vocação para isso. Segundo, você faz uma renúncia, mas tem muitas compensações. Por exemplo: nunca tive saudade do casamento que não tive, dos filhos que não tive. O celibato me dá muita liberdade. Posso ter amizades sem suscitar ciúme, apropriação. E isso me convém, é muito bom, sabe? Vejo amigos casados que não podem ter essa diversidade de amizades que tenho e essa liberdade. Viajo e volto para casa, mas sei que ninguém está preocupado se vou voltar, o que está acontecendo. Para mim, é uma libertação.

O senhor já se apaixonou ou pensou em se casar?

Ao longo da vida, já me apaixonei algumas vezes. Foi uma experiência muito rica, mas nunca blefei. Da primeira vez, eu coloquei para os meus superiores – ainda não tinha feito os votos – e eles disseram: “namora e vê o que você quer”. E eu cheguei à conclusão de que o meu lugar era aqui e não casar com aquela moça.

Quais são os seus três votos?

Pobreza, castidade e obediência, que eu gostaria que fossem mudados os nomes. O voto de pobreza deveria se chamar voto de compromisso com a justiça, porque é um cinismo falar que o religioso é pobre, mas vive numa estrutura que tem tudo, riquíssima, que o mantém e ele não precisa ter as preocupações que os comuns mortais tem. Quero saber não é essa pobreza virtual dele, quero saber se ele tem compromisso com a justiça. Voto de castidade eu chamaria de voto de gratuidade no amor, quer dizer, você renuncia a um pacto quase de apropriação, que é o casamento, para ter gratuidade no amor. E o voto de obediência, que é uma palavra execrável, parece uma relação senhor/escravo, eu preferiria chamar de voto de fidelidade comunitária, que é um termo mais bíblico.

Houve alguma resistência na família a sua entrada para a vida religiosa? Em um dos seus livros, o senhor conta que seu pai dizia que “filho seu podia ser tudo, menos vestir saia.”

Tinha duplo sentido essa advertência dele. Meu pai era um anticlerical militante, e na minha casa era proibido entrar padre, embora ele respeitasse totalmente a prática cristã da minha mãe. Minha mãe era uma mulher de uma visão cristã muito avançada, aberta, mas ele tinha total ojeriza a igreja e a padre. Depois, ele mudou, a ponto de me apoiar totalmente no fim da vida, principalmente depois da minha prisão.

Vocês chegaram a romper?

Sim. Ele foi a última pessoa que soube que eu iria entrar nos dominicanos. Quando comuniquei isso ele, me disse “nunca mais fale comigo”. E, simbolicamente, ele me enterrou, porque chorou de uma maneira que nunca ninguém jamais o tinha visto chorar, porque ele nunca enterrou nenhum descendente. Foi a maior convulsão de choro que ele teve, no dia em que me disse essa frase. Mas um ano e pouco depois voltamos a nos falar e, aos poucos, ele foi vendo que os dominicanos, o segmento da Igreja ao qual estou ligado, a Teologia da Libertação, era muito diferente daquilo que ele havia experimentado na infância e na juventude.

Como foi a sua infância em Belo Horizonte?

Foi uma infância extremamente feliz, com muita brincadeira de rua, muita fantasia. Na época, tínhamos duas grandes vantagens: não havia medo da rua, a rua não era um lugar perigoso, nem pelo trânsito nem pela violência; e nós não éramos dependente nem da televisão nem da internet. Então, com isso, tive uma infância muito lúdica, de muita brincadeira, muito carnaval, muita piscina – até hoje, o esporte que mais gosto de praticar é a natação. Tive uma infância realmente saudável.

“Aprendi a não odiar, não por virtude, mas por comodismo. O ódio destrói primeiro quem odeia, não quem é odiado”

O senhor foi vizinho da presidente Dilma Rousseff nessa época. Vocês eram amigos?

A Dilma, que a gente chamava de Dilminha, porque a mãe dela é Dilma também, a gente vivia na mesma rua, a Major Lopes. Ela é mais nova do que eu e era amiga da minha irmã Teresa – somos oito irmãos e eu sou o segundo. Então, cruzei com a Dilma, mas não cheguei a ser amigo dela. Brinco com a Dilma que nós somos tri vizinhos, porque mais tarde fomos vizinhos aqui em São Paulo, no presídio Tiradentes. Ela no pavilhão feminino e eu no masculino. E depois, pela terceira vez, fomos vizinhos no Palácio do Planalto. Ela ministra de Minas e Energia e eu assessor do presidente da República.

Como foi o reencontro no presídio Tiradentes, durante a ditadura?

No presídio é que fiquei amigo de Dilma, porque o diretor permitia que eu passasse alguns domingos, com os outros dois frades que estavam comigo, o Ivo e o Fernando, para o pavilhão feminino para fazer uma celebração dominical. Então, a gente levava recado dos homens para as mulheres, das mulheres para os homens. E algumas noites fazíamos uma fantástica serenata, porque o que se falava de um lado da parede se escutava muito bem do outro. Além do que essa parede, que era fronteira entre os dois pavilhões, tinha buracos disfarçados pelos quais passávamos mensagens.

Foi um erro da esquerda apelar às armas naquele período?

Não acho que foi um erro. Até porque não havia outro meio de combater a ditadura. A ditadura suprimiu todos os meios democráticos e pacíficos. O nosso erro foi a pressa. Devíamos ter feito um trabalho político muito mais profundo, sem a convicção de que empunhar as armas iria criar um fato político. Não criou. A ditadura conseguiu, ao nos qualificar de terroristas, nos distanciar da opinião pública. Creio que cometemos vários erros. Possivelmente, o maior deles foi não ter um pouco mais de paciência histórica para fazer um trabalho de formação política dos militantes. Porém, na nossa consciência, nós do grupo de frades que apoiou o (Carlos) Marighella, era uma ação legítima, embora não legal, e respaldada pela doutrina tradicional da Igreja. Segundo o Santo Tomás, quando há uma tirania e não há outro meio de derrubá-la, a não ser enfrentando o tirano com as armas, se isso será um mal menor do que deixar que o tirano permaneça oprimindo povo, então que se faça assim. E assim fizemos. Fomos derrotados nas armas, fomos vitoriosos a longo prazo, porque a ditadura acabou e, historicamente, para sempre, do ponto de vista simbólico. Hoje, os meus torturadores e carcereiros têm vergonha do que fizeram e eu tenho orgulho do que fiz.

Não adianta ter raiva de torturadores e generais. Vai corroer o meu coração e não incomodá-los.”

O que motivou seu apoio à luta armada contra a ditadura?

A minha geração era viciada em utopias. Estou convencido de que quanto mais utopia, menos drogas, e quanto menos utopias, mais drogas. Estudava filosofia no convento e antropologia na USP. Tudo isso me levou a esse envolvimento com a resistência à ditadura. Primeiro, através de manifestações estudantis e, depois, de apoio à luta armada – nunca peguei em armas. Mas de apoio, principalmente, aos perseguidos, quando me transferi, no início de 1969, para o Rio Grande do Sul. Fui estudar teologia em São Leopoldo, e o Marighella (guerrilheiro Carlos Marighella) pediu que eu organizasse o esquema de fronteiras para permitir a saída de militantes perseguidos, na fronteia com Argentina e Uruguai. E assim o fiz, como está detalhadamente descrito no livro “Batismo de Sangue”, que também virou filme. Me sinto muito orgulhoso, apesar do custo pessoal que isso teve, em termos de quatro anos de prisão, mas valeu a pena.

Como o senhor conheceu o poeta Carlos Marighella?

Como éramos da USP, ligados ao movimento estudantil, um dos militantes que rompia com o Partido Comunista Brasileiro junto com o Marighella, o João Antônio, que depois morreu em um acidente, trouxe o Marighella aqui no nosso convento. No livro do Mário Magalhães, infelizmente, o frei Oswaldo se equivocou ao dizer que nós conhecemos Marighella na sapataria do pai do João Antônio, no bairro da Liberdade. Não, nos conhecemos aqui (no convento). Hoje o frei Oswaldo reconhece que ele estava equivocado no momento que deu a entrevista. Então, o Marighella veio aqui com o João Antônio interessado em conhecer a renovação da Igreja, o concílio, e com o nome de professor Menezes, com uma peruca que chamava mais atenção do que disfarçava. Mas não percebemos quem ele era, a não ser na saída depois que ele nos deu um embrulho e disse: “Olha, são algumas publicações minhas que quero deixar com vocês”. Quando ele foi, a gente abriu e viu “Poemas”, de Carlos Marighella, “Carta ao Povo Brasileiro”, de Carlos Marighella. Foi quando caiu a ficha.

Como foi a sua passagem pelo Rio Grande do Sul?

Em fevereiro de 1969, fui para o seminário do Cristo Rei, onde hoje é a Unisinos, em São Leopoldo (lá era o seminário dos jesuítas) e já com a proposta do Marighella que organizasse esse esquema de fronteiras. Passei de 10 a 12 pessoas, inclusive sequestradores do embaixador americano _ o sequestro aconteceu em setembro de 1969. Consegui formar uma redezinha de apoio e tudo isso veio abaixo depois da morte do Marighella, em São Paulo, em 4 de novembro de 1969. E eu só fui preso, cai numa cilada, no dia 9 de novembro de 1969.

Como foi essa cilada?

Quando o Cristo Rei foi cercado pela polícia, era mais ou menos 14h. Marquei no livro “volto às 19h”, que era para ganhar tempo. E saí pelos fundos. Tomei um ônibus para Porto Alegre e, realmente, foi uma boa ideia que tive, porque a polícia ficou esperado o meu retorno. Prenderam vários padres, que não tinham nada a ver com a história, achando que estavam me escondendo. Fui procurar o padre Manoel Valiente, que, por sua vez, estava hospedando um assessor de Dom Helder, o padre Marcelo Carvalheira, que depois veio a ser arcebispo de João Pessoa. Os dois me abrigaram e, em seguida, me levaram para o convento das Irmãs de Jesus Sacrificado, um convento-asilo, onde ficavam religiosas idosas. E o Jornal Nacional estava inaugurando naquela semana, o Cid Moreira era muito jovem e, de repente, à noite, depois do jantar, estávamos todos vendo televisão e aparece a notícia de que toda a polícia, Exército, Aeronáutica estava atrás do terrorista frei Betto, ligado a Marighella, possivelmente escondendo Lamarca (guerrilheiro Carlos Lamarca). Enfim, eu era responsável pelo dilúvio universal. E aparece a minha foto ocupando toda a tela da TV. Aí as freirinhas olharam para trás… Eu falei para a superior, que era uma pessoa muito lúcida: eu não fico aqui, e ela “não, não tem problema, não representa nenhum perigo”. Mas, poxa, elas recebiam visitas, falavam ao telefone.

Como acabou sendo preso?

O padre Manoel me levou para um sítio em Viamão, que, segundo ele, era de um amigo que não utilizava e onde, portanto, poderia ficar tranquilamente escondido. Pertencia a uma família muito tradicional do Rio Grande do Sul. Uma tarde um filho do dono entra no sítio, que tinha caseiros, me vê e nem vem falar comigo. No dia seguinte, ele volta e diz: “Você é o frei Betto, né?”. Digo “sim”, e ele: “Pois é, esse sítio é perigoso, foi utilizado por mim para reuniões estudantis. Vou te esconder em Porto Alegre, no apartamento de um amigo”. Me levou para Porto Alegre e passei a noite numa mansão na Avenida Independência, com absoluta segurança de que seria preso, de que tinha caído numa cilada, o que me deu tempo para jogar uma série de documentos na privada. Na manhã seguinte, chegou um jipão do Exército e eu fui preso. Um mês depois fui transferido para São Paulo.

Durante a ditadura, o senhor foi preso duas vezes (15 dias em 1964 e quatro anos entre 1969 e 1973), passou por oito presídios, ficou um mês em uma solitária, foi torturado. Que estigmas e que lições trouxe dessa época?

A prisão foi um grande retiro espiritual e literário para mim. Estudei, li, rezei, meditei. Sou uma pessoa antes e outra depois da prisão. Ela me deu uma enorme liberdade, por mais paradoxal que essa afirmação pareça. Deixei de dar importância para coisas que não têm importância, aprendi a ver a vida como quem chupa manga deixando o caldo escorrer pelos braços. E me fez perder o medo. Eu tinha tanta certeza que não sairia com vida que me surpreendi de ter passado quatro anos, o que me fez continuar no Brasil. Houve muita pressão da Igreja, da família e do governo militar para que eu fosse embora do país. Poderia ter escolhido qualquer cidade importante, com comunidade dominicana, seria acolhido depois de sofrer tanto. Mas não. Fui morar numa favela em Vitória, onde fiquei cinco anos. Depois voltei para São Paulo. Aprendi também a não odiar, não por virtude, mas por comodismo. O ódio destrói primeiro quem odeia, não quem é odiado. Não adianta nada ter raiva de torturadores e generais. Vai corroer o meu coração e não incomodá-los. Daí a clareza de que a minha luta é contra um sistema e não contra essa ou aquela pessoa.

BALANÇO DE 10 ANOS DE GOVERNO DO PT, A CONJUNTURA NACIONAL E O PAPEL DA IGREJA

Como nasceu sua amizade com o ex-presidente Lula?

Durante 22 anos, fui responsável pela Pastoral Operária do ABC, na época do Dom Cláudio Hummes, em 1979. E só no ano seguinte, em um encontro sindical, em Minas Gerais, conheci o Lula, e aí nasceu a amizade. Depois passei a frequentar a casa dele.

Nestes mais de 30 anos de convivência com o ex-presidente, há algum episódio que mais o tenha marcado?

Quando ele me convidou para ser assessor especial em algo que tem a ver com a minha trajetória pastoral, que é cuidar dos mais pobres entre os pobres, que são os famintos. Mas, depois de dois anos de governo, cheguei à conclusão de que o serviço público não é a minha vocação. E também porque fui trabalhar no Fome Zero, que era um programa de caráter emancipatório, e considero o Bolsa Família bom, mas de caráter compensatório. O Fome Zero era melhor. Discordei – isso descrevi detalhadamente no livro “Calendário do Poder” – e aí resolvi pegar o meu boné e voltar para casa. Mas ficou a amizade, tenho apreço, admiração e ele contará sempre com meu voto.

Sobre a eleição de Lula em 2002, o senhor começa o livro “A mosca azul” com a frase: “Ainda bem, meu pai partiu antes”, e diz que ele não suportaria “ver tantos sonhos esgarçados”. O governo Lula lhe decepcionou?

Os governos Lula e Dilma são os melhores da nossa história republicana, mas eu esperava muito mais.

Lula teria condições, no primeiro ano de governo, com todo o apoio popular que recebeu, de ter feito uma reforma agrária. É uma demanda histórica, até hoje não cumprida. Estamos com 10 anos de governos do PT, com todos os avanços que teve, com a inclusão econômica de milhões de brasileiros miseráveis e pobres, mas não tivemos nenhuma reforma de estrutura. Então, como meu pai esperava também muito mais, daí essa frase. Penso que o PT trocou um projeto de Brasil por um projeto de poder. Permanecer no poder passou a ser mais importante do que criar uma alternativa civilizatória para a nação Brasil.

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Recentemente, ao ser questionada sobre uma possível volta de Lula à Presidência, Dilma afirmou que ele não iria voltar porque nunca saiu. Lula foi picado pela mosca azul?

Não acho que Lula foi picado. Muita gente no governo foi, o PT, como partido foi – embora há muitas pessoas não picadas lá dentro, e o Lula é uma delas.

Estou convencido de que, se a Dilma não apresentar bons índices de possibilidade de vitória eleitoral em 2014, Lula voltará. E, se ela for eleita, também estou convencido de que ele volta a ser candidato em 2018.

Por que ainda em 2014?

Porque se ela apresentar índices negativos, com o risco de a Presidência ir para as mãos de outro candidato, o “volta, Lula” haverá de funcionar.

Quais os principais acertos do PT nestes 10 anos de governo?

O principal acerto foi a inclusão social de milhões de brasileiros.

Vinte milhões de famílias, crédito facilitado, hoje ando pelo Nordeste e não tem mais jegue, tem moto, desoneração da linha branca, universalização do ensino. Então, esse foi o primeiro grande acerto, inclusão social e econômica.

Segundo acerto: soberania nacional. O Brasil hoje fala olho no olho com os países metropolitanos, como os Estados Unidos.

O Brasil deixou de ser subserviente frente ao FMI, Washington, Reino Unido. Dom Pedro II e Lula foram os únicos chefes de Estado que ousaram ir ao Oriente Médio, porque havia uma pressão americana para que isso não acontecesse.

E o terceiro fator é que o governo do PT nunca criminalizou os movimentos sociais.

Isso é muito importante, quando eu penso que, no governo FHC, greve da Petrobras foi reprimida com tanques de guerra. E hoje os movimentos sociais ocupam as ruas. São reprimidos pelas polícias militares, são estaduais e resquícios da ditadura. O Brasil não deveria ter polícia militar, deveria ter polícia federal e civil e forças armadas.

E os erros?

Primeiro, a falta de inclusão política, daí as manifestações de rua.

Paradoxalmente, os 10 anos de governo do PT foram 10 anos de despolitização da sociedade brasileira. Então, os jovens, agora, querem ter esse protagonismo político, estão ocupando as ruas, querem participar. Acreditou-se que a política era um privilégio do andar de cima, que as coisas se resolveriam entre os partidos, numa total indiferença para com o povo, com os jovens.

Segunda grande falha desses 10 anos: nenhuma grande reforma de estrutura.

Nem a agrária, nem a tributária, nem a política, nem a previdenciária, nem a de educação, nem a da saúde. E o terceiro é a não redução da desigualdade social, apesar dos avanços. Segundo o Ipea, dado de outubro de 2013, a desigualdade no Brasil entre os mais ricos e os mais pobres é de 175 vezes, e isso é escandaloso.

Qual sua avaliação do governo Dilma?

É positiva. Gostaria que ela tivesse feito mais. Por exemplo, acho que ela falhou muito na questão da reforma agrária, no diálogo com os movimentos sociais e com a classe política. Mas continuo achando que ela e o Lula fizeram os melhores governos da nossa história republicana, na questão da inclusão econômica, inclusão social e, agora, nessa tacada de mestre que foi o programa Mais Médicos. Ou seja, isso vai quebrar uma série de mitos, de que os médicos não vão para o interior porque não têm os equipamentos que a lógica capitalista considera importante.

Os médicos cubanos estão impressionados como a medicina no Brasil nutre a indústria farmacêutica.

As pessoas no interior têm recursos fitoterápicos tradicionais que dispensam esses alopáticos venenosos recomendados pelos médicos da cidade. Então, creio que isso foi uma revolução, uma passo importantíssimo. Parabéns à presidente Dilma pela coragem.

O senhor é apontado como o responsável pela indicação de Joaquim Barbosa ao Supremo Tribunal Federal. Como vocês se conheceram?

Por mero acaso, numa agência da Varig, antes da posse de Lula, em Brasília. Sentamos lado a lado, ele me reconheceu, puxou conversa e trocamos cartões. E passaram alguns meses, o ex-ministro Márcio Thomaz Bastos entrou na minha sala, no Planalto, e disse que o presidente queria nomear um jurista negro para o STF, perguntou se eu conhecia algum. Me lembrei da conversa que eu tive, entreguei o cartão do Joaquim Barbosa e, depois, vi que ele havia sido nomeado ministro. Penso que esta não é a melhor forma de fazer um ministro, por razões étnicas e não por razões de histórico e mérito. Na verdade, eu advogo que os ministros em todas as instâncias deveriam ser eleitos por seus pares no Judiciário. Ou seja, para o STF, para o Tribunal Superior do Trabalho, para o Tribunal Superior Eleitoral, todos deveriam ser eleitos pelos juízes desde a primeira instância.

O senhor acha que Lula se arrependeu de aceitar a sugestão?

Essa é uma pergunta que só ele pode responder.

Como avalia a atuação de Barbosa no comando do STF e no julgamento do mensalão?

Preferia que fosse menos espetaculoso. Acho que a Justiça deve ser mais sóbria, mais séria e mais prudente.

Os brasileiros já elegeram um operário e uma mulher. O país está preparado para ter um presidente negro?

Claro. Agora, o fato de ser negro não representa nenhuma novidade. O Obama, todo mundo achou que ele ia ser uma novidade por ser negro, mas esqueceram que, antes de ser negro, ele é americano e defende os interesses dos EUA e considera que os interesses dos EUA estão acima dos interesses do resto do planeta. Ponto. Então, espero que este não seja critério para escolha de nenhum governante.

São poucos os bispos e cardeais negros. Há racismo na Igreja?

Não só racismo como classismo. A Igreja Católica tem pouca penetração nas classes pobres. E no Brasil, que carregou o mais longo período de escravidão das três Américas, 350 anos, ainda hoje os negros são negros e pobres. São duplamente discriminados, por serem negros e por serem pobres. E como a Igreja teve pouca inserção entre os pobres, daí a razão porque tem poucos negros.

Quais são as suas expectativas em relação aos trabalhos da Comissão da Verdade?

Gostaria que fosse uma comissão da verdade e da justiça, como foi no Chile, na Argentina, no Uruguai. Não por uma questão de vingança, mas por uma questão de justiça, para apurar e punir os responsáveis. Mas espero que, pelo menos, seja uma comissão da verdade e da transparência. Até agora, como brasileiro, não sei a que veio a Comissão da Verdade. Sei que ela trabalha, mas não vi nenhum resultado desse trabalho. Quem foram os responsáveis pelo golpe? E pelas torturas e desaparecimentos? Onde funcionaram esses centros? Sobre responsabilidade de quem? Quem financiou? Quem patrocinou? Quem deu ordens? Tudo isso está por ser esclarecido. Aguardemos.

Qual a sua opinião sobre a exumação do ex-presidente Jango?

Acho que tem que exumar Juscelino, Jango, Lacerda. Todos aqueles sobre os quais recai a suspeita de que foram assassinados pela ditadura. A ditadura é bem capaz de ter eliminado todos esses líderes da política brasileira.

Mesmo com a possibilidade de não ter resultado conclusivo?

E se tiver? Aí, pelo menos, é mais um dado de que esse processo ditatorial foi muito mais cruel do que pensávamos. Ou seja, nem um brasileiro exilado eles respeitavam. Tem um simbolismo de política terra arrasada: vamos eliminar todos aqueles que podem fazer sombra aos governantes ditatoriais.

A que se deve essa crescente necessidade de ostentação, manifestada tanto por jovens da periferia como por empresários?

Sou de uma geração que tinha 20 anos nos anos 60 e os nossos ídolos eram pessoas altruístas: Jesus, Francisco de Assis, Che, Gandhi, Luther King. E quem são hoje os ídolos da garotada? Sebastian Vettel, Lady Gaga…

São os valores do capitalismo neoliberal. E aí? Você vai querer que o adolescente se levante no ônibus para mulher idosa? Ele fica com o fone no ouvido e faz de conta que ela é invisível, ele nem a enxerga. Enquanto escola, Igreja e família querem formar cidadãos, a grande mídia e a publicidade querem formar consumistas. O sistema quer formar consumistas. Daí porque muitos jovens hoje estão fixados em quatro “valores”: poder, dinheiro, beleza e fama. Quanto maior a ambição, maior o buraco no coração. E quanto maior o buraco no coração, maior o número de farmácias em cada esquina, para tentar cobrir a frustração. Estamos indo para a barbárie, se continuar predominando como paradigma dessa pós-modernidade incipiente que estamos entrando, o mercado, a mercantilização de todas as dimensões da vida.

Porque o senhor afirma que o capitalismo fracassou?

Fracassou para dois terços da humanidade que vivem abaixo da linha da pobreza, quatro bilhões de pessoas. O capitalismo é bom para um terço, que teve sorte e ganhou na loteria biológica, não nasceu nem entre os miseráveis nem entre os pobres. E esse um terço deveria ter consciência de que isso não é um privilégio, mas é uma dívida social para com aqueles não tiveram a mesma sorte. E, portanto, devemos lutar para que essa loteria social não mais exista.

Na sua opinião, existe alguma alternativa ao capitalismo?

Claro que tem alternativa. Se não tiver, iremos para a barbárie. Quando penso que quatro cidadãos americanos têm juntos uma fortuna equivalente ao PIB de 42 nações com 600 milhões de pessoas… A humanidade não tem futuro por aí.

Só vejo futuro para a humanidade na partilha dos bens da terra e dos frutos do trabalho humano, não importa o ‘ismo’ como isso será chamado. Nós hoje temos fome crônica, desnutrição crônica. Basta ver a África e algumas regiões do Brasil. No entanto, a FAO diz que existe comida para 12 bilhões de pessoas – nós somos sete bilhões. Então, o problema não é falta de alimento, é falta de justiça. O alimento existe, mas ele é uma mercadoria só acessível para quem pode pagar, ainda que bilhões morram de fome.

O Evangelho endossa ou condena a visão de mundo capitalista/liberal?

Condena radicalmente, porque o Evangelho prioriza o direito dos pobres e o capitalismo neoliberal, não. O Evangelho propõe a solidariedade e o capitalismo neoliberal, a competitividade. O Evangelho propõe a sacralidade irredutível de cada ser humano – ainda que ele seja hanseniano, cego, coxo, paralítico – e o capitalismo neoliberal, se puder, manda por fogo nos mendigos, está pouco se lixando para essas pessoas que estão deitadas na rua, sabe? Indiferença total, como disse o papa Francisco, é a globalização da indiferença, isso é terrível.

Então, o Evangelho é um texto e uma prática radicalmente anticapitalista.

Se Jesus vivesse hoje, ele seria mais alinhado à ideologia de direita ou de esquerda?

Ele seria chamado de esquerda, como foi na sua época, porque ele foi contra o status quo. E isso é ser de esquerda.

Que avaliação o senhor faz dos 10 meses do pontificado do papa Francisco?

Muito, muito positivo. Francisco é uma grata surpresa, como foi o Papa João XXIII. Depois de 34 anos de pontificados conservadores, temos um papa que já iniciou a reforma da Igreja pela reforma do papado, quando ele abre mão das insígnias pontifícias, de morar no Palácio Pontifício, de usar cruz de ouro, sapato vermelho. Agora, ele nomeou oito cardeais de cinco continentes para fazer a reforma da Cúria. Como a Igreja é piramidal, ele começou a reforma de cima para baixo.

Que reformas o senhor espera do papa Francisco?

Tenho muitas esperanças, que Deus o guarde e o encoraje para tirar a Igreja desse marasmo em que ela se encontra, numa atitude temerosa diante da modernidade e pós-modernidade, numa atitude moralista, cínica, sem compaixão, sem misericórdia, sem tolerância, sem amor às pessoas nos seus dramas, suas contradições, na sua condição de pecadores, que somos todos. Então, tenho muita esperança de que o papa Francisco vá fazer uma verdadeira revolução na Igreja Católica, a começar pela aplicação das decisões do Concílio Vaticano II, que ocorreu há 50 anos e ainda estamos esperando aplicação das suas decisões. Tais como maior democratização da Igreja, o povo de Deus como protagonista e não como ovelhas a serem tosquiadas.

Também espero que ele acabe com o celibato obrigatório, permita o sacerdócio das mulheres, a reinserção no ministério sacerdotal dos padres casados que queiram voltar e faça uma profunda revisão da moral sexual da Igreja.

Qual sua opinião sobre as acusações de que Bergoglio teria sido cúmplice da ditadura argentina?

São infundadas. Sou muito amigo do argentino Adolfo Pérez Esquivel, premio Nobel da Paz, e ele assegura que isso é infundado. Bergoglio era um professor, um diretor dos jesuítas, não era um homem politizado nem chamado para ter um papel proeminente naquele momento. E o próprio Bergoglio admitiu que naquela época ele não era tão esclarecido quanto agora. Esse passado condena, sim, a igreja da Argentina que foi cúmplice da ditadura, mas não Bergoglio. Ele defendeu os jesuítas que foram ameaçados pela ditadura, mas não chegou a ser um profeta como dom Paulo Evaristo Arns, dom Helder Câmara.

As declarações do Papa sobre os pobres sugeririam uma possível reabilitação da Teologia da Libertação?

Sem dúvida nenhuma. Isso vem ao encontro da Teologia da Libertação. O que ele está falando vem ao encontro e expressa o que a Teologia da Libertação sempre disse. Ele, inclusive, recebeu o pai da Teologia da Libertação, que é o frei Gustavo Gutiérrez, dominicano, meu colega. Isso mostra que o Bergoglio não tem nenhum preconceito. Aliás, diga-se de passagem, quando a Teologia da Libertação e as comunidades eclesiais de base eram valorizadas pela Igreja no Brasil, os nossos templos estavam cheios. Depois que começaram a ser discriminadas e reprimidas, dando lugar ao espiritualismo do “aleluia, aleluia”, os nossos templos começaram a esvaziar. Então, é caso de perguntar: quem tem culpa? Quem está esvaziando a Igreja? A Teologia da Libertação ou essa Igreja espiritualista que fica de frente para Deus e de costas para os pobres?

freibetto09

Como o senhor analisa o aumento do poder de pressão e da influência dos evangélicos na seara política?

Eu temo que alguns evangélicos – não todos – estejam chocando o ovo da serpente. Já que eles não podem impor, através da sua pregação, a sua moral e os seus costumes ao conjunto da população, então, eles buscam o poder político, porque através da lei você torna qualquer decisão universal. Exemplo: eu, como pastor evangélico só posso convencer alguém a não beber álcool se ele se converteu à minha doutrina, mas, como político, eu posso fazer a lei seca e acabar com a produção e comércio de bebida alcoólicas. Isso me preocupa porque está sendo ameaçada a laicidade do Estado e do espaço político, que são conquistas da modernidade.

Quais os recados que, desde junho, os manifestantes que ganharam as ruas estão dando aos governos?

Queremos reforma política profunda, queremos deixar de ser objetos de campanhas eleitorais de dois em dois anos e passar ao protagonismo, queremos direitos sociais. O governo concedeu direitos pessoais, através da desoneração da linha branca, da facilidade de crédito e do acesso a moto e carro, mas não concedeu direitos sociais, que basicamente consistem em alimentação, moradia, saúde e educação. Os países europeus começaram primeiro a conceder os direitos sociais para, depois, conceder os direitos pessoais. Até porque elas tendo direitos sociais, se qualificam para conquistar os seus direitos pessoais, e o Brasil cometeu o erro de inverter o processo.

O que senhor acha da atuação de grupos anarquistas como os Black Blocs, que costumam atacar símbolos do capitalismo durante os protestos?

Não tenho nada contra os Black Blocs. Tenho contra aos baderneiros, e eu não confundo baderneiros com Black Blocs. Sou contra quebrar bancos, lojas, ônibus, que é um instrumento útil para a população pobre se locomover. Me lembro do velho Marx, no século XIV, dizendo aos operários da Inglaterra: “Não adianta vocês quebrarem as máquinas. Os patrões mandam vocês embora e compram outras. A nossa luta não é contra o seu patrão, é contra o sistema”. E eu repito a mesma coisa. Espero que esses manifestantes, muito positivamente indignados e revoltados, apresentem propostas, porque sem propostas não iremos a lugar nenhum. A raiva precisa se consubstanciar em esperança.

‘Assustaram os donos do poder, e isso foi ótimo’, diz o sociólogo Chico de Oliveira – por ricardo mendonça / são paulo.sp

Socialista inveterado, acadêmico prestigiado, parceiro rompido de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, o sociólogo Francisco de Oliveira completou 80 anos quinta-feira passada (dia 7) sem demonstrar qualquer sinal de afrouxamento da energia crítica.

Em entrevista realizada no seu apartamento no bairro da Lapa, em São Paulo, ele falou com entusiasmo dos protestos de junho (“a sociedade mostrou que é capaz ainda de se revoltar”) e, sem rodeios, criticou as principais figuras do atual cenário político.

Fabio Braga/Folhapress
O sociólogo Francisco de Oliveira
O sociólogo Francisco de Oliveira

A presidente Dilma Rousseff é uma “personagem trágica” que deu uma “resposta idiota” às manifestações. Lula “está fazendo um serviço sujo” ao atuar como apaziguador de tensões sociais. Marina Silva é uma “freira trotiskista” adepta de um “ambientalismo démodé”. O Bolsa Família, “uma declaração de fracasso”. E por aí vai.

O sociólogo não tem receio de expor suas ideias “revolucionárias”. Uma delas é separar o Brasil como forma de resolver a questão indígena: “Há um Estado indígena [...] Ninguém tem coragem de dizer isso. Então todo mundo quer integrar”, afirma.

*

Folha – Oitenta anos. Que tal?

Chico de Oliveira – Oscar Niemeyer disse que a velhice é uma merda. Eu não sou tão radical. Mas ela não tem essas bondades que geralmente se diz. A história de que o sujeito ganha em sabedoria é uma farsa. Não é bom envelhecer.

O senhor está bem, está lendo, fazendo críticas.

Só aparentemente. Eu tomo dez remédios por dia. Entre insulina para diabetes, remédio para hipertensão… Não é nada bom. As pessoas sábias deveriam morrer cedo (risos).

Antigamente era assim. Esse negócio de longevidade é uma novidade, né?

É, a longevidade é uma coisa recente mesmo. Não é façanha sua. É da economia, basicamente. É a economia que te leva até os 80 anos. São as condições de vida que mudam, você não precisa de trabalho pesado. Quem condiciona tudo é o trabalho. E, evidentemente, gente da minha classe social está apta a aproveitar essas benesses do desenvolvimento capitalista. Mas pessoalmente não é agradável. Só que não existe solução. Você vai se matar para poder não cumprir os desígnios de sua classe social?

O senhor se surpreende aos 80. Em junho, milhares de brasileiros foram às ruas protestar. E o senhor disse que era tudo inédito e surpreendente. Na sua avaliação, qual é o saldo?

É bom não fazer uma cobrança positivista do tipo “o que é que deu aquilo?”. Deu algum resultado, a tarifa de ônibus baixou. Mas deu uma coisa ótima. O ótimo é que a sociedade mostrou que é capaz ainda de se revoltar, é capaz de ir para a rua. Isso é ótimo. Não precisa resultados palpáveis. O que é bom em si mesmo foi o fato de a população, alguns setores sociais, se manifestarem. Assustarem os donos do poder, e isso foi ótimo. Isso é que é importante. Esse objetivo foi cumprido. Eu falava que era inédito porque a sociedade brasileira é muito pacata. A violência é só pessoal, privada, o que é um horror. Quando vai para a violência pública, as coisas melhoram. Esse é o resultado que nos interessa: um estado de ânimo da população que assuste os donos do poder.

Assustou mesmo?

Assustou. Porque era uma coisa realmente inédita, com setores sociais que geralmente dizem que são conformistas, parte da juventude. Esse tipo de manifestação mostrou que não é assim. Isso é bom para a sociedade. Não é bom para os donos do poder. Mas são eles, exatamente, que a gente deve assustar. Se puder, mais do que assustar, derrubá-los do poder. Não acho que essas manifestações tenham esse caráter, essa forma. Mas regozijo-me porque foi manifestado o não conformismo.

O senhor disse que sociedade brasileira é muito pacata. Por que tem essa característica e qual é a melhor explicação?

É um complexo de fatores, não é fácil definir. Quem fala sobre isso geralmente aponta as raízes escravistas. Uma sociedade que não faz muito tempo, faz 100 anos, libertou-se do escravismo. Isso deu lugar a uma sociedade que apanha, mas não reage. Quem melhor estudou isso foi Gilberto Freyre. Ele estudou isso, do ponto de vista saudosista, mas é quem mais foi fundo nessa espécie de conformismo na sociedade. Embora a interpretação de Sérgio Buarque [de Holanda] também seja boa, a sociedade que se conforma. Para ele, é o homem cordial. Gilberto tem outro “approach”, ele vai para a cultura. Cultura não no sentido de quem carrega livro, mas na forma pela qual a sociedade se construiu e se reconhece nela. É basicamente a ideia da casa grande. A casa grande é uma formação conformista. Tem uma violência que explode a cada momento. E tem um senhor de escravo que é compadre de escravo. É uma formação muito complexa. Muito interessante para um sociólogo estudar, mas muito pesada para quem sofre os efeitos dessa cultura brasileira. Que não é a portuguesa exatamente, não é a indígena. É um mix de várias fontes. Não tivemos nenhuma grande revolução violenta. A que o Brasil comemora sempre, que é a de 1930, não teve nada de especialmente violenta. Teve os gaúchos saindo do sul, [Getulio] Vargas a frente. Na verdade enfrentaram uns paulistas aí, mas terminou tudo em pizza (risos). Isso marca muito a sociedade brasileira. Esse conformismo que só explode em violência privada, o sujeito que morre de facada. Você liga a televisão e vê: todo dia tem uma tragédia dessa.

Se sempre foi assim, o que desencadeou em junho?

Não foi sempre assim, claro. Isso é o meu jeito de falar. Havia violência, muita violência, mas não era uma violência que se tornava pública porque era uma violência de escravos e isso sempre foi abafado. Hoje é uma sociedade urbana, extremamente violenta e que só explode em violência privada. Sobre violência pública, não temos muito o que contar. Nesse quesito, o Brasil perde de longe para qualquer outra revolução. A revolução mexicana, por exemplo, foi uma coisa espantosa. Espantou o mundo tudo. No Brasil, não. A cubana também.

Bom, da cubana tem gente com medo até hoje por aqui.

Ah, é (risos). Fidel, que não teve jeito de prosseguir com aquela revolução, está aí. Está envelhecendo à sombra dela. Mas o Brasil é isso. Não dá para lamentar propriamente. Ninguém ama a violência. Mas isso influi muito no caráter, na formação da sociedade. Eu não tenho mais, mas toda casa brasileira tem uma empregada doméstica. A empregada doméstica é um ser em definição. Ela não é pública nem privada. Algum progresso se deu pelo fato de que elas agora pedem carteira assinada. Isso parece nada, mas é muita coisa. Mas, em geral, isso leva a uma situação acomodatícia, uma relação de compadre com a comadre. Isso molda a sociedade em geral.

Está na arquitetura brasileira, o quarto de empregada na lavanderia. Existe algo assim em algum outro país?

Não tenho notícia de nenhum outro lugar. Isso [o quarto de empregada] tem um nome científico: edícula (risos). Temos quarto para empregada, né? É realmente fantástico… Nas sociedades que eu conheço, não é assim. Na Europa pode ter tido um período, mas hoje não existe. Nos Estados Unidos, tão pouco. O Brasil é muito especial. Criou uma forma de convivência, um processo com muita força que se reproduz mesmo nas sociedades urbanas.

O senhor acha que os governantes ficaram com medo de verdade?

Não. Ainda não. Mas deu um susto. Teve. Os jornais repercutiram de forma bastante conservadora, né? Mas deu um susto.

Aí a presidente Dilma Rousseff lançou na sequência aquela ideia de Assembleia Constituinte para a reforma política. O que achou da resposta?

Eu achei idiota. Não gostaria de fazer uma avaliação precipitada do governo Dilma para não dar força à direita que está em cima dela o tempo todo. Mas é uma resposta idiota. Ninguém resolve o problema assim com reforma da Constituição. Ela seria importante para encaminhar os novos conflitos. A Constituição deveria ser o que molda as relações no Brasil. Não é. Ninguém dá bola para a Constituição.

O que teria sido uma resposta adequada?

Seria reconhecer que o país está atravessando uma zona de extrema turbulência devido ao crescimento econômico. Não é que o caráter do povo é violento. Isso é uma bobagem. Não é que uma reforma política vai resolver os problemas da violência pública. Isso é outra bobagem. Ela teria que reconhecer o Brasil está atravessando um período de extrema turbulência porque o crescimento econômico é que cria a turbulência, não é o contrário. Todo mundo pensa que o crescimento apazigua. Não é verdade. O crescimento exalta forças que não existiam, o capitalismo é um sistema econômico violentíssimo. Os EUA, que são o paradigma do capitalismo, são uma sociedade extremamente violenta, tanto pública quanto privada. O Brasil vive uma espécie de adormecimento devido a essa cultura que eu estava comentando. De repente, o tipo de crescimento econômico violento e tenso em pouco tempo quebra todas as amarras, e a violência vai para rua.

Mas a presidente Dilma é criticada pelo baixo crescimento, é criticada porque o país não cresce.

Não é verdade. O país está crescendo de forma violentíssima nos últimos 20 anos. Numa perspectiva mais de longo prazo, desde Fernando Henrique, passando por Lula e agora Dilma. Além de quê é um crescimento econômico diferenciado. Não dá mais para crescer no campo. Agora o crescimento é na cidade. E na cidade gera relações público-privadas diferentes. Se o Estado não tem políticas para tal, é melhor ficar calado do que dizer besteira. Reforma da Constituição. E daí? O que a reforma da Constituição faz? Para o que passou, não tem efeito nenhum.

Parte das manifestações dizem muito respeito às polícias estaduais. O que o senhor acho do papel dos governadores?

Esse [Geraldo] Alckmin é uma coisa… Todo mundo pensa que o crescimento econômico influi na política de forma positiva. Isso é uma ilusão. O Alckmin é bem o representante dessa política. Um ser anódino. Já chamaram ele de picolé de chuchu. O José Simão [inventor do apelido] talvez seja o melhor sociólogo brasileiro. Ele de fato não desperta paixões nem ódio. Em geral é assim. Não tem nenhum governador que inspire empolgação, esperança de que um dia desse casulo nasça uma espécie de borboleta bonita. Nenhum deles. Mesmo o Tarso Genro, do Rio Grande do Sul, que é um tipo mais educado. Vai para o governo e se amolda. O Alckmin: pelo jeito a população aprova esse estilo anódino, que não diz nada com nada. Isso é ruim, viu? Ruim porque é o Estado mais importante da Federação, o que poderia dar uma chacoalhada nesse sistema. Mas não dá. E tudo muito conformado. E a imprensa tem um papel horroroso: o que for conformismo, ela exalta; o que for rebeldia, ela condena. Daí que o viés conservador no olhar sobre essas manifestações é a tônica. Ninguém vê nisso um processo de libertação da sociedade. Todo mundo quer a passividade. Eu saúdo essas manifestações como uma amostra de que a sociedade pode e deve manifestar-se sempre que as condições de sua existência sejam tão iníquas como são hoje.

Que avaliação o senhor faz do movimento “black bloc”?

Faço uma boa avaliação. Se eles se constituem como novos sujeitos da ação social, é para saudar. Vamos ver se, com a ajuda deles, a gente chacoalha essa sociedade que é conformista. Parece que tudo no Brasil vai bem. Não é verdade. Vai tudo mal. Porque o Estado não age no sentido de antecipar-se à sociedade que está mudando rapidamente. Você tem uma sociedade como a brasileira em que a questão operária tornou-se central. E aí vem o Lula e ele está fazendo um trabalho sujo, que é aquietar aquilo que é revolta. Essa sociedade não aguenta esse tranco.

Trabalho sujo?

Ah, tá. A questão operária tem a capacidade de transformar o Brasil e ele está acomodando. De certa forma, está matando a rebeldia que é intrínseca a esse movimento. Rebeldia não quer dizer violência, sair para a rua para quebrar coisa. Rebeldia é um comportamento crítico.

Onde o senhor vê isso no Lula?

Em tudo. Lula é um conservador, ele nunca quis ser personagem desse movimento [operário]. Ele foi contra a vontade dele. Mas ele, no fundo, é um conservador. Ele age como. Na Presidência, atuou como conservador. Pôs Dilma como uma expressão conservadora. Porque você não vende uma personalidade pública como gerente. Gerente é o antípoda da rebeldia. Ele vendeu a Dilma como gerente. Uma gerentona que sabe administrar. É péssimo. O Brasil não precisa de gerentes. Precisa de políticos que tenham capacidade de expressar essa transformação e dar um passo a frente. Ele empurrou a Dilma goela abaixo. Não se pode nem ter uma avaliação mais séria dela, pois ele não deixa ela governar. Atrapalha ela, se mete, inventa que ele é o interlocutor. Aí não dá. E ela não pode nem reclamar. É uma cria dele, né?

O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos disse que Dilma tem insensibilidade social. Citou problemas com movimentos sociais, indígenas, camponeses, meio ambiente. O senhor concorda?

Eu não diria com essa ênfase. O Boaventura, eu conheço bem, um sociólogo importante. Essa ênfase na questão camponesa… O Brasil não tem camponês. Isso é um equívoco teórico que vem do fato de a gente analisar o desenvolvimento capitalista brasileiro nos moldes europeus. Não é assim. Aqui nunca teve campesinato, nem terá. Porque, basicamente, aqui teve uma propriedade extremamente concentrada do escravismo. Isso se projetou depois numa economia capitalista. O que tem é uma questão urbana grave, pesada, que é preciso resolver. Não tem questão camponesa, isso é uma celebração do passado.

Mas problema indígena tem.

Indígena é um problema. Porque a sociedade só sabe tratar indígena absorvendo e descaracterizando. Para tratar dessa questão é preciso, na verdade, de uma revolução de alto nível. Qual é essa revolução de alto nível? É reconhecer que há um Estado indígena.

Estado indígena?

É. A real solução. Há um Estado indígena. E o Estado capitalista no Brasil não pode tratar essa questão, não sabe tratar essa questão. Ele só sabe tratar indígena atropelando, matando, trazendo para dentro da chamada civilização. Os irmãos Vilas-Boas são os arautos dessa solução. Eles são ótimos, mas a visão deles estava equivocada. A real solução é de uma gravidade que a gente nem pode propor. Trata-se de um Estado indígena. Separa. Separa. E nada de integrar. Deixa. Ajuda até eles a proporem suas próprias… Ninguém tem coragem de dizer isso no Brasil. Então todo mundo quer integrar. Para integrar, você machuca, você mata, você dissolve as formações indígenas. Já a questão camponesa é falsa. O que existe é um assalariado agrícola pesado que sofre os efeitos de um desenvolvimento acelerado. O Estado do Mato Grosso era uma reserva antigamente. Hoje você passa lá e só não tem mato. É grosso, mas sem mato.

E o tema do meio ambiente? Sensibiliza o senhor?

Eu não acredito que o meio ambiente seja uma forma de fazer política. A Marina Silva está aí lançada. Ela não tem nada a dizer sobre o capitalismo? Será? Será que a política ambiental é ruim? Ou é o capitalismo que é ruim? Ela não diz nada disso. Então, para mim a Marina Silva é uma freira trotskista (risos). Cheia de revolução sem botar o pé no chão. Ela juntou com o Eduardo Campos, uma jogada política importante. Mas nenhum deles tem proposta nenhuma. A Marina fica com esse ambientalismo démodé, não diz o que quer. Criticar a política de meio ambiente é fácil. Quero ver ela criticar o sistema capitalista nas formas em que ele está se reproduzindo no Brasil. Aí é botar o dedo na ferida. Mas ambientalismo…

O senhor disse que a política da Dilma é conservadora. O senhor diria que ela é de direita?

Não, não diria. Ela é um personagem difícil, coitada. Ela é uma personagem trágica. Porque ela não pode fazer o que ela se proporia a fazer. Ela tem uma história revolucionária. Mas ela não pode fazer isso porque ela está lá porque Lula a colocou. E Lula não é um revolucionário. Ao contrário, ele é um antirrevolucionário. Ele não quer soluções de transformação, ele quer soluções de apaziguamento. E ela está lá para fazer isso. Ela seria mais para o outro lado. Mas não teria força política para isso. Nem existe força social revolucionária. É preciso a gente combater os nossos próprios mitos. Então Dilma está sendo empurrada para a direita. Pelo Lula. Talvez, se as opções estivessem em suas mãos, Dilma faria uma política mais de esquerda no sentido amplo. Mas ela não foi eleita para isso. Nem tem força social capaz de impor essa mudança. A tragédia brasileira de hoje é que o Brasil precisa de uma revolução social, mas não tem forças revolucionárias. O campesinato não existe. O operariado não é revolucionário, é sócio do êxito capitalista no Brasil. Os principais fundos de pensão são todos eles, entre aspas, de propriedade dos trabalhadores. E todos eles atuam nas grandes empresas capitalistas. A burguesia nunca foi revolucionária. Florestan Fernandes deu xeque-mate quando tratou da revolução burguesa no Brasil. É o melhor livro de Florestan.

O que o senhor espera da eleição do ano que vem?

Mais do mesmo. Com nomes diferentes. Ninguém tem capital político para fazer diferente. Além do que, como dizia Telê Santana, em time que está ganhando não se mexe. Eles estão ganhando. Para fazer o projeto de país e sociedade que eles pensam, eles estão ganhando. Nós estamos perdendo. A esquerda está perdendo. Perdendo suas referências e sua força na sociedade. Então, do ponto de vista deles, eles estão ganhando.

E o que a esquerda pode fazer?

Nada. O Aécio Neves não disse a que veio. E não tem proposta nenhuma, na verdade. A dupla Marina-Campos também não tem proposta nenhuma. O ambientalismo… O que é exatamente? Nem ela diz, nem ela sabe. Ela sabe é ficar nesse floreio, que não resolve coisa nenhuma. A Dilma é o que você está vendo. Ela não faz política porque tem de fazer o projeto do Lula. E o projeto do Lula é isso, é conservador. Então é mais do mesmo. A resultante de tudo será um governo muito parecido com o atual: o pouco de virtude que esse governo tem e a carga de irresoluções que ele reproduz.

O que é o pouco de virtude?

O pouco de virtude é, talvez, dar um pouco mais de atenção à área social. Que eu não gosto, para falar a verdade, porque é um conformar-se em não resolver. O Bolsa Família é uma declaração de fracasso. Não é uma declaração de vitória. Para não morrer de fome, a gente vai dar uma comidinha. Eu não gosto disso. Eu sou socialista há 50 anos. Para mim, a gente tem de mudar. E mudar não é necessariamente por revolução violenta, pois está um pouco fora de moda. Mudar fundo. O Estado brasileiro é detentor das principais empresas capitalistas do país. Não são empresas de fazer favor. A Petrobras não faz favor a ninguém. Agora mesmo que a questão dela está repercutindo muito na imprensa, ela pode dizer “eu não estou aqui para fazer favor”. Mas se puder fazer capitalismo e distribuir melhor a renda, essa é a tarefa dela. O Estado brasileiro é muito forte, ao contrário do que se passa na maioria dos países. O Estado nos EUA não é forte. Nem na Europa é mais. Foi [forte] na grande virada social-democrata, mas não é mais. No Brasil ainda é. Portanto é aproveitar isso e fazer uma transformação que vá na direção dos interesses populares. O Bolsa Família não é solução. Ele é uma espécie de conformismo: deixa como está para ver como fica; dá um pouquinho de comida para isso não virar revolta. Eu não gosto desse tipo de política. Acho o Bolsa Família uma política conservadora que atende uma dimensão da miséria popular, mas não tem promessa de transformação.

Gal. Amauri Kruel TRAIU JANGO POR 6 MALAS DE DÓLARES em 1964- quem afirma é o Major MOREIRA que presenciou a entrega

 

Major Moreira conta a João Vicente que Kruel aderiu ao Golpe uma hora e meia depois

 

 

João Vicente Goulart, filho de Jango, e Veronica Fialho gravaram em vídeo o depoimento do Major do Exército Erimá Pinheiro Moreira, que testemunhou como o Comandante do II Exército, em São Paulo, Amaury Kruel traiu Jango no Golpe de 1964, por seis malas cheias de dólares, em nota novinhas, sacadas de um banco americano.

Será o Citibank ?

O Boston ?

O Chase, que, no Brasil, operava de mano com a CIA – e a Editora Abril ?

Será o Banco da América, do udenista e Golpista de 64, Herbert Levy, que, depois, deu origem ao Itau-América ?

E o Itau, que, até hoje está onde sempre esteve …

Sempre se suspeitou que a traição de Kruel, amigo e compadre de Jango, tinha cheiro de suborno.

Kruel foi o Pinochet do Jango – por um punhado de dólares.

É o que demonstra esse depoimento histórico do Major Moreira.

Como se sabe, o Historialismo – não é História nem Jornalismo – brasileiro assegura que Jango caiu porque gostava de pernas – de moças e de cavalos.

E que o Golpe foi preventivo, já que Jango ia dar um Golpe.

O “Golpe” do Jango é o Grampo-sem-Áudio – I.

Como se sabe, o Historialismo assegura que Geisel e Golbery deram o Golpe para salvar a Democracia e, depois, resolveram recriá-la.

O depoimento do Major Moreira comprava o que, cada vez fica mais claro.

(Clique aqui para ler sobre o documentário “O Dossiê Jango” e aqui para ler sobre o documentário de Camilo Tavares.)

O papel dos dólares na queda de Jango.

A FIESP – a mesma do PIB da Tortura - foi o trem pagador.

Um desses notáveis historialistas, colonista (*) da Folha (**) e do Globo Overseas, cita neste domingo editorial do New York Times – como se fosse a Bíblia – de 3 de abril de 1964, onde Jango é tratado de “incompetente”e “irresponsável”.

Uma dos indícios da “incompetência” do New York Times, por exemplo, é a cobertura que faz do Brasil.

Parcial, partidária, superficial e pigal (***).

Foi o jornal que disse que o Lula não podia governar porque era um alcoólatra.

O mesmo que assegurou que havia “armas de destruição em massa” no Iraque.

Eis o video com a entrevista, que também será postada no site do Instituto João Goulart:

 

O Conversa Afiada reproduz artigo de Mário Augusto Jakobskind sobre o depoimento:

 

QUANDO DÓLARES FALAM MAIS ALTO

Engana-se quem pensa que já se conhecem todos os fatos relacionados com o golpe civil militar de 1964 que derrubou o Presidente constitucional João Goulart. Nos últimos meses, graças ao trabalho das Comissões da Verdade, sejam estaduais ou a Nacional, muito fato novo vem sendo divulgado.

Mas um fato desta semana, protagonizado por João Vicente Goulart, ao ouvir uma denúncia do então Major do Exército Erimá Pinheiro Moreira, poderá mudar o entendimento de muita gente sobre a ocorrência  mais negativa da história recente brasileira. O alerta tem endereço certo, ou seja, aqueles que ainda imaginam terem os golpistas civis e militares agido por idealismo ou algo do gênero.

O Major farmacêutico em questão, hoje anistiado como Coronel, servia em São Paulo em 31 de março de 1964 sob as ordens do então comandante II Exército, General Amaury Kruel (foto).  Na manhã daquele dia, Kruel dizia em alto e bom som que resistiria aos golpistas, mas em pouco tempo mudou de posição. E qual foi o motivo de o general, que era amigo do Presidente Jango Goulart, ter mudado de posição assim tão de repente, não mais que de repente?

Mineiro de Alvinópolis, Erimá Moreira, hoje com 94 anos, e há muito com o fato ocorrido naquele dia trágico atravessado na garganta, decidiu contar em detalhes o que aconteceu. O militar, que era também proprietário de um laboratório farmacêutico e posteriormente convidado a assumir a direção de um hospital, foi procurado por Kruel no hospital. Naquele encontro, o general garantiu ao major que Jango não seria derrubado e que o II Exército garantiria a vida do Presidente da República.

Pois bem, as 2 da tarde Erimá foi procurado por um emissário de Kruel de nome Ascoli de Oliveira dizendo que o general queria se reunir com um pessoal fora das dependências do II Exército. Erimá indicou então o espaço do laboratório localizado na esquina da Avenida Aclimação, local que hoje é a sede de uma escola particular de São Paulo. Pouco tempo depois apareceu o próprio comandante do II Exército, que antes de se dirigir a uma sala onde receberia os visitantes pediu ao então major que aguardasse a chegada do grupo.

Erimá Moreira ficou aguardando até que apareceram quatro pessoas, um deles o presidente interino da Federação das Indústrias de São Paulo (FIESP), de nome Raphael de Souza Noschese, este já conhecido do major. Três dos visitantes carregavam duas maletas grandes cada um. Erimá, por questão de segurança, porque temia que pudessem estar carregando explosivos ou armas, mandou abrir as maletas e viu uma grande quantidade de notas de dólares. Terminada a reunião foi pedida que a equipe do major levasse as maletas até o porta-malas do carro de Amaury Kruel, o que foi feito.

De manhã cedo, por volta das 6,30 da manhã, Erimá Moreira conta que mais ou menos uma hora e meia depois da chegada no laboratório ligou o rádio de pilha para ouvir o discurso do comandante do II Exército. Moreira disse que levou um susto quando ouviu Kruel dizer que se “o Presidente da República não demitisse os comunistas do governo ficaria ao lado da “revolução”.

Erimá Moreira então associou o que tinha acontecido no dia anterior com a mudança de postura do Kruel e falou para si mesmo: “pelo amor de Deus será que ajudei o Kruel a derrubar o Presidente da República?”

Ainda ouvindo o discurso de Kruel, conta Erimá, chegaram uns praças para avisar que tinha uma reunião marcada com o general no QG do II Exército.

Na reunião, vários militares, alguns comandantes de unidades, eram perguntados se apoiavam Kruel. “Eu não aceitei e pedi para ser transferido”.

Indignado, Erimá Moreira dirigiu-se a um coronel do staff do comandante do II Exército para perguntar se o general Kruel não tinha recebido todo aquele dinheiro para garantir a vida do Presidente. “Me transfiram daqui, que com o Kruel no comando eu não fico”.

“Aí então – prossegue Erimá Moreira – me colocaram de férias para eu esfriar a cabeça. Na volta das férias, depois de um mês, fiquei sabendo pelo jornal que o Kruel havia me cassado”.

A partir de então o Major e a família passaram maus momentos com os vizinhos dizendo à minha mulher que era casada com um comunista. “Naquela época, quem fosse preso ou cassado era considerado comunista”.

“Algum tempo depois contei esta história que estou contando agora ao General Carlos Luis Guedes, meu amigo desde quando servimos em unidades militares em São João del Rey. Fiz um relatório por escrito e com firma reconhecida. O General Guedes tirou xerox e levou o relato para a mesa do Kruel. Em menos de 24 horas o Kruel pediu para ira para a Reserva. Fiquei sabendo que com o milhão de dólares que recebeu do governo dos Estados Unidos comprou duas fazendas na Bahia”.

Ao finalizar o relato, o hoje Coronel Erimá Moreira mostrou-se aliviado e ao ser perguntado se autorizava a divulgação desse depoimento, ele respondeu que “não tinha problema nenhum”.

Nesse sentido, sugerimos aos editores de todas as mídias que procurem o Coronel Erimá Pinheiro Moreira para ouvir dele próprio o que foi contado neste espaço. Sugerimos em especial aos editores de O Globo, periódico que recentemente fez uma autocrítica por ter apoiado o golpe de 64, que elaborem matéria com o militar que reside em São Paulo.

Nélida Piñon faz críticas veladas a Luiz Ruffato e a Paulo Coelho

Nélida Piñon faz críticas veladas a Luiz Ruffato e a Paulo Coelho

 

CASSIANO ELEK MACHADO
ENVIADO ESPECIAL A FRANKFURT

“Tenho dois princípios. Não falo mal do meu país fora das fronteiras brasileiras. E não critico meus colegas.” Foi desta forma que a escritora Nélida Piñon sintetizou, na manhã desta quarta (9), sua opinião sobre o discurso de Luiz Ruffato, feito na abertura da Feira de Livro de Frankfurt.

Piñon participou, no pavilhão brasileiro do evento alemão, de debate com o escritor Carlos Heitor Cony, colunista da Folha.

O autor de “Quase Memória” evocou o maior autor da língua inglesa para tratar de outro ponto polêmico, as críticas que foram feitas à escolha dos autores da delegação brasileira. “Nos tempos de Shakespeare ninguém dava bola para ele”, comentou Cony.

A colega de mesa, por sua vez, elogiou o time nacional. “A delegação brasileira está muito bem representada. Houve um propósito de escolher autores de vários grupos estéticos e gerações”, disse, e, sem citar nomes, criticou Paulo Coelho. “Há quem queira ser um árbitro estético. Não há árbitros estéticos.”

Ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, Piñon homenageou um dos fundadores da casa, Machado de Assis, “um dos grandes nomes da literatura do século 19, que até recentemente ainda era muito pouco conhecido fora do país”.

A atual presidente da ABL, Ana Maria Machado, que também discursou ontem na abertura oficial do evento, aplaudiu. Além dela, outros autores brasileiros, como a historiadora Mary del Priore e o crítico João Cezar de Castro Rocha, escutaram o debate, batizado “As Convergências da Memória”.

“Toda a vida de uma figura de quem não se diz o nome por aqui, que é Hitler, foi produto de sua memória”, disse Cony, que citou ainda Santo Agostinho: “Memória é a caverna da alma”.

“Os homens são basicamente memória”, complementou, antes de falar sobre alguns dos seus heróis da memória literária: Marcel Proust, James Joyce, Machado de Assis.

Nélida Piñon terminou a fala protestando contra o formato do evento.”Não se deveria fazer leituras dos textos”, disse, em referência ao fato de metade do painel com Cony, de duração total de uma hora, ter sido usado para que trechos de suas obras fossem apresentadas em traduções para o alemão. “Não faz sentido trazer figuras como Cony e a minha modesta pessoa para falarmos só uma linha ou outra”.

“As farmacêuticas bloqueiam medicamentos que curam, porque não são rentáveis” – por richard j. roberts / new york.usa

“As farmacêuticas bloqueiam medicamentos que curam, porque não são rentáveis”

O Prémio Nobel da Medicina Richard J. Roberts denuncia a forma como funcionam as grandes farmacêuticas dentro do sistema capitalista, preferindo os benefícios económicos à saúde, e detendo o progresso científico na cura de doenças, porque a cura não é tão rentável quanto a cronicidade.
ARTIGO | 8 JULHO, 2011 – 15:23

Richard J. Roberts: “É habitual que as farmacêuticas estejam interessadas em investigação não para curar, mas sim para tornar crónicas as doenças com medicamentos cronificadores”. Foto de Wally Hartshorn
.

Há poucos dias, foi revelado que as grandes empresas farmacêuticas dos EUA gastam centenas de milhões de dólares por ano em pagamentos a médicos que promovam os seus medicamentos. Para complementar, reproduzimos esta entrevista com o Prémio Nobel Richard J. Roberts, que diz que os medicamentos que curam não são rentáveis e, portanto, não são desenvolvidos por empresas farmacêuticas que, em troca, desenvolvem medicamentos cronificadores que sejam consumidos de forma serializada. Isto, diz Roberts, faz também com que alguns medicamentos que poderiam curar uma doença não sejam investigados. E pergunta-se até que ponto é válido e ético que a indústria da saúde se reja pelos mesmos valores e princípios que o mercado capitalista, que chega a assemelhar-se ao da máfia.

A investigação pode ser planejada?

Se eu fosse Ministro da Saúde ou o responsável pelas Ciência e Tecnologia, iria procurar pessoas entusiastas com projectos interessantes; dar-lhes-ia dinheiro para que não tivessem de fazer outra coisa que não fosse investigar e deixá-los-ia trabalhar dez anos para que nos pudessem surpreender.

Parece uma boa política.

Acredita-se que, para ir muito longe, temos de apoiar a pesquisa básica, mas se quisermos resultados mais imediatos e lucrativos, devemos apostar na aplicada …

E não é assim?

Muitas vezes as descobertas mais rentáveis foram feitas a partir de perguntas muito básicas. Assim nasceu a gigantesca e bilionária indústria de biotecnologia dos EUA, para a qual eu trabalho.

Como nasceu?

A biotecnologia surgiu quando pessoas apaixonadas começaram a perguntar-se se poderiam clonar genes e começaram a estudá-los e a tentar purificá-los.

Uma aventura.

Sim, mas ninguém esperava ficar rico com essas questões. Foi difícil conseguir financiamento para investigar as respostas, até que Nixon lançou a guerra contra o cancro em 1971.

Foi cientificamente produtivo?

Permitiu, com uma enorme quantidade de fundos públicos, muita investigação, como a minha, que não trabalha directamente contra o cancro, mas que foi útil para compreender os mecanismos que permitem a vida.

O que descobriu?

Eu e o Phillip Allen Sharp fomos recompensados pela descoberta de introns no DNA eucariótico e o mecanismo de gen splicing (manipulação genética).

Para que serviu?

Essa descoberta ajudou a entender como funciona o DNA e, no entanto, tem apenas uma relação indirecta com o cancro.

Que modelo de investigação lhe parece mais eficaz, o norte-americano ou o europeu?

É óbvio que o dos EUA, em que o capital privado é activo, é muito mais eficiente. Tomemos por exemplo o progresso espectacular da indústria informática, em que o dinheiro privado financia a investigação básica e aplicada. Mas quanto à indústria de saúde… Eu tenho as minhas reservas.

Entendo.

A investigação sobre a saúde humana não pode depender apenas da sua rentabilidade. O que é bom para os dividendos das empresas nem sempre é bom para as pessoas.

Explique.

A indústria farmacêutica quer servir os mercados de capitais …

Como qualquer outra indústria.

É que não é qualquer outra indústria: nós estamos a falar sobre a nossa saúde e as nossas vidas e as dos nossos filhos e as de milhões de seres humanos.

Mas se eles são rentáveis investigarão melhor.

Se só pensar em lucros, deixa de se preocupar com servir os seres humanos.

Por exemplo…

Eu verifiquei a forma como, em alguns casos, os investigadores dependentes de fundos privados descobriram medicamentos muito eficazes que teriam acabado completamente com uma doença …

E por que pararam de investigar?

Porque as empresas farmacêuticas muitas vezes não estão tão interessadas em curar as pessoas como em sacar-lhes dinheiro e, por isso, a investigação, de repente, é desviada para a descoberta de medicamentos que não curam totalmente, mas que tornam crónica a doença e fazem sentir uma melhoria que desaparece quando se deixa de tomar a medicação.

É uma acusação grave.

Mas é habitual que as farmacêuticas estejam interessadas em linhas de investigação não para curar, mas sim para tornar crónicas as doenças com medicamentos cronificadores muito mais rentáveis que os que curam de uma vez por todas. E não tem de fazer mais que seguir a análise financeira da indústria farmacêutica para comprovar o que eu digo.

Há dividendos que matam.

É por isso que lhe dizia que a saúde não pode ser um mercado nem pode ser vista apenas como um meio para ganhar dinheiro. E, por isso, acho que o modelo europeu misto de capitais públicos e privados dificulta esse tipo de abusos.

Um exemplo de tais abusos?

Deixou de se investigar antibióticos por serem demasiado eficazes e curarem completamente. Como não se têm desenvolvido novos antibióticos, os microorganismos infecciosos tornaram-se resistentes e hoje a tuberculose, que foi derrotada na minha infância, está a surgir novamente e, no ano passado, matou um milhão de pessoas.

Não fala sobre o Terceiro Mundo?

Esse é outro capítulo triste: quase não se investigam as doenças do Terceiro Mundo, porque os medicamentos que as combateriam não seriam rentáveis. Mas eu estou a falar sobre o nosso Primeiro Mundo: o medicamento que cura tudo não é rentável e, portanto, não é investigado.

Os políticos não intervêm?

Não tenho ilusões: no nosso sistema, os políticos são meros funcionários dos grandes capitais, que investem o que for preciso para que os seus boys sejam eleitos e, se não forem, compram os eleitos.

Há de tudo.

Ao capital só interessa multiplicar-se. Quase todos os políticos, e eu sei do que falo, dependem descaradamente dessas multinacionais farmacêuticas que financiam as campanhas deles. O resto são palavras…

18 de Junho, 2011

Publicado originalmente no La Vanguardia

Tradução de Ana Bárbara Pedrosa.

Pablo Neruda entrevistado por Clarice Lispector / são paulo.sp

Numa manhã de abril de 1969, a escritora brasileira entrevistou o poeta chileno, que, à época, era considerado um dos mais importantes nomes da poesia em língua espanhola no século 20.

Pablo Neruda

Cheguei à porta do edifício de apartamentos onde mora Rubem Braga e onde Pablo Neruda e sua esposa Matilde se hospedavam — cheguei à porta exatamente quando o carro parava e retiravam a grande bagagem dos visitantes. O que fez Rubem dizer: “É grande a bagagem literária do poeta”. Ao que o poeta retrucou: “Minha bagagem literária deve pesar uns dois ou três quilos”.

Neruda é extremamente simpático, sobretudo quando usa o seu boné (“tenho poucos cabelos, mas muitos bonés”, disse). Não brinca porém em serviço: disse-me que se me desse a entrevista naquela noite mesma só responderia a três perguntas, mas se no dia seguinte de manhã eu quisesse falar com ele, responderia a maior número. E pediu para ver as perguntas que eu iria fazer. Inteiramente sem confiança em mim mesma, dei-lhe a página onde anotara as perguntas, esperando Deus sabe o quê. Mas o quê foi um conforto. Disse-me que eram muito boas e que me esperaria no dia seguinte. Saí com alívio no coração porque estava adiada a minha timidez em fazer perguntas. Mas sou uma tímida ousada e é assim que tenho vivido, o que, se me traz dissabores, tem-me trazido também alguma recompensa. Quem sofre de timidez ousada entenderá o que quero dizer.

Antes de reproduzir o diálogo, um breve esboço sobre sua carga literária. Publicou “Crepusculário” quando tinha 19 anos. Um ano depois publicava “Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada”, que até hoje é gravado, reeditado, lido e amado. Em seguida escreveu “Residência na Terra”, que reúne poemas de 1925 a 1931, da fase surrealista. “A Terceira Residência”, com poemas até 1945, é um intermediário com uma parte da Espanha no coração, onde é chorada a morte de Lorca, e a guerra civil que o tocou profundamente e despertou-o para os problemas políticos e sociais. Em 1950, “Canto Geral”, tentativa de reunir todos os problemas políticos, éticos e sociais da América Latina. Em 1954: “Odes Elementares”, em que o estilo fica mais sóbrio, buscando simplicidade maior, e onde se encontra, por exemplo, “Ode à cebola”. Em 1956, “Novas Odes Elementares” que ele descobre nos temas elementares que não tinham sido tocados. Em 1957, “Terceiro Livro das Odes”, continuando na mesma linha. A partir de 1958, publica “Estravagario, Navegações e Regressos”, “Cem Sonetos de Amor”, “Contos Cerimoniais” e “Memorial de Isla Negra”.

Pablo Neruda

No dia seguinte de manhã, fui vê-lo. Já havia respondido às minhas perguntas, infelizmente: pois, a partir de uma resposta, é sempre ou quase sempre provocada outra pergunta, às vezes aquela a que se queria chegar. As respostas eram sucintas. Tão frustrador receber resposta curta a uma pergunta longa. Contei-lhe sobre a minha timidez em pedir entrevistas, ao que ele respondeu: “Que tolice”. Perguntei-lhe de qual de seus livros ele mais gostava e por quê. Respondeu-me: “Tu sabes bem que tudo o que fazemos nos agrada porque somos nós — tu e eu — que o fizemos”.

A entrevista foi concedida em 19 de abril de 1969 e publicada no livro “De Corpo Inteiro”, Editora Rocco, em 1999.

Você se considera mais um poeta chileno ou da América Latina?

Poeta local do Chile, provinciano da América Latina.

Escrever melhora a angústia de viver?

Sim, naturalmente. Tra­ba­lhar em teu ofício, se amas teu o­fí­cio, é celestial. Senão é infernal.

Quem é Deus?

Todos algumas vezes. Nada, sempre.

Como é que você descreve um ser humano o mais completo possível?

Político, poético. Físico.

Como é uma mulher bonita para você?

Feita de muitas mulheres.

Escreva aqui o seu poema predileto, pelo menos predileto neste exato momento?

Estou escrevendo. Você pode esperar por mim dez anos?

Em que lugar gostaria de viver, se não vivesse no Chile?

Acredite-me tolo ou patriótico, mas eu há algum tempo escrevi em um poema: Se tivesse que nascer mil vezes. Ali quero nascer. Se tivesse que morrer mil vezes. Ali quero morrer…

Qual foi a maior alegria que teve pelo fato de escrever?

Ler minha poesia e ser ouvido em lugares desolados: no deserto aos mineiros do norte do Chile, no Estreito de Ma­ga­lhães aos tosquiadores de ovelha, num galpão com cheiro de lã suja, suor e solidão.

Em você o que precede a criação, é a angústia ou um estado de graça?

Não conheço bem esses sentimentos. Mas não me creia insensível.

Diga alguma coisa que me surpreenda.

748. (E eu realmente surpreendi-me, não esperava uma harmonia de números)

Você está a par da poesia brasileira? Quem é que você prefere na nossa poesia?

Admiro Drummond, Vinícius, Jorge de Lima. Não conheço os ma­is jovens e só chego a Paulo Men­des Campos e Geir Campos. O poema que mais me agrada é o “Defunto”, de Pedra Nava. Sem­pre o leio em voz alta aos meus amigos, em todos os lugares.

Que acha da literatura engajada?

Toda literatura é engajada.

Pablo Neruda

Qual de seus livros você mais gosta?

O próximo.

A que você atribui o fato de que os seus leitores acham você o “vulcão da América Latina”?

Não sabia disso, talvez eles não conheçam os vulcões.

Qual é o seu poema mais recente?

“Fim do Mundo”. Trata do século 20.

Como se processa em você a criação?

Com papel e tinta. Pelo menos essa é a minha receita.

A critica constrói?

Para os outros, não para o criador.

Você já fez algum poema de encomenda? Se não o fez faça agora, mesmo que seja bem curto.

Muitos. São os melhores. Este é um poema.

O nome Neruda foi casual ou inspirado em Jan Neruda, poeta da liberdade tcheca?

Ninguém conseguiu até agora averiguá-lo.

Qual é a coisa mais importante no mundo?

Tratar para que o mundo seja digno para todas as vidas humanas, não só para algumas.

O que é que você mais deseja para você mesmo como indivíduo?

Depende da hora do dia.

O que é amor? Qualquer tipo de amor.

A melhor definição seria: o amor é o amor.

Você já sofreu muito por amor?

Estou disposto a sofrer mais.

Quanto tempo gostaria você de ficar no Brasil?

Um ano, mas depende de meus trabalhos.

Clarice Lispector

E assim terminou a entrevista com Pablo Neruda. An­tes falasse ele mais. Eu poderia prolongá-la quase que indefinidamente. Mas era a primeira entrevista que ele dava no dia seguinte à sua chegada, e sei quanto uma entrevista pode ser cansativa. Espontaneamente  deu-me um livro, “Cem Sonetos de Amor”. E depois de meu no­me, na dedicatória, escreveu:
“De seu amigo Pa­blo”. Eu também sinto que ele poderia se tornar meu amigo, se as circunstâncias facilitassem. Na contracapa do livro diz:
“Um todo manifestado com uma espécie de sensualidade casta e pagã: o amor co­mo uma vocação do homem e a poesia co­mo sua tarefa”. Eis um retrato de corpo inteiro de Pablo Neruda nestas últimas frases.

***

O Defunto 
(Pedro Nava)

Quando morto estiver meu corpo,
Evitem os inúteis disfarces,
Os disfarces com que os vivos,
Só por piedade consigo,
Procuram apagar no Morto
O grande castigo da Morte.

Não quero caixão de verniz
Nem os ramalhetes distintos,
Os superfinos candelabros
E as discretas decorações.

Quero a morte com mau-gosto!

Pablo Neruda (…)


Deem-me coroas de pano.
Deem-me as flores de roxo pano,
Angustiosas flores de pano,
Enormes coroas maciças,
Como enormes salva-vidas,
Com fitas negras pendentes.

E descubram bem minha cara:
Que a vejam bem os amigos.
Que não a esqueçam os amigos.
Que ela ponha nos seus espíritos
A incerteza, o pavor, o pasmo.
E a cada um leve bem nítida
A ideia da própria morte.

Descubram bem esta cara!

Descubram bem estas mãos.
Não se esqueçam destas mãos!
Meus amigos, olhem as mãos!
Onde andaram, que fizeram,
Em que sexos demoraram
Seus sabidos quirodáctilos?

Foram nelas esboçados
Todos os gestos malditos:
Até os furtos fracassados
E interrompidos assassinatos.

— Meus amigos! olhem as mãos
Que mentiram às vossas mãos…
Não se esqueçam! Elas fugiram
Da suprema purificação
Dos possíveis suicídios.

— Meus amigos, olhem as mãos!
As minhas e as vossas mãos!

Descubram bem minhas mãos!

Descubram todo o meu corpo.
Exibam todo o meu corpo,
E até mesmo do meu corpo
As partes excomungadas,
As sujas partes sem perdão.

— Meus amigos, olhem as partes…
Fujam das partes,
Das punitivas, malditas partes …

E, eu quero a morte nua e crua,
Terrífica e habitual,
Com o seu velório habitual.

— Ah! o seu velório habitual!

Não me envolvam em lençol: 
A franciscana humildade 
Bem sabeis que não se casa
Com meu amor da Carne, 
Com meu apego ao Mundo.

E quero ir de casimira: 
De jaquetão com debrum, 
Calça listrada, plastron…
E os mais altos colarinhos.

Deem-me um terno de Ministro
Ou roupa nova de noivo …
E assim Solene e sinistro,
Quero ser um tal defunto,
Um morto tão acabado,
Tão aflitivo e pungente, 
Que sua lembrança envenene
O que resta aos amigos
De vida sem minha vida.

— Meus, amigos, lembrem de mim.
Se não de mim, deste morto,
Deste pobre terrível morto
Que vai se deitar para sempre
Calçando sapatos novos!
Que se vai como se vão

Os penetras escorraçados,
As prostitutas recusadas,
Os amantes despedidos,
Como os que saem enxotados
E tornariam sem brio
A qualquer gesto de chamada.

Meus amigos, tenham pena,
Senão do morto, ao menos
Dos dois sapatos do morto!
Dos seus incríveis, patéticos
Sapatos pretos de verniz.
Olhem bem estes sapatos,
E olhai os vossos também.

Tarsila do Amaral – desbravadora do modernismo

Tarsila do Amaral – desbravadora do modernismo

“Eu invento tudo na minha pintura. E o que eu vi ou senti, eu estilizo.”
– Tarsila do Amaral, em entrevista a “Revista Veja”, fevereiro de 1972.

 Auto-retrato 1923  -1
Tarsila do Amaral, Auto-Retrato [Manteau Rouge], 1923
Museu Nacional de Belas Artes (Rio de Janeiro, RJ)

Tarsila do Amaral (Capivari SP 1886 – São Paulo SP 1973). Pintora, desenhista. Estuda escultura com William Zadig (1884-1952) e com Mantovani, em 1916, na capital paulista. No ano seguinte tem aulas de pintura e desenho com Pedro Alexandrino (1856-1942), onde conhece Anita Malfatti (1889-1964). Ambas têm aulas com o pintor Georg Elpons (1865-1939). Em 1920 viaja para Paris e estuda na Académie Julian e com Émile Renard (1850-1930). Ao retornar ao Brasil forma em 1922, em São Paulo, o Grupo dos Cinco, com Anita Malfatti, Mário de Andrade (1893-1945), Menotti del Picchia (1892-1988) e Oswald de Andrade (1890-1954). Em 1923, novamente em Paris, freqüenta o ateliê de André Lhote (1885-1962), Albert Gleizes (1881-1953) e Fernand Léger (1881-1955). Entra em contato como o poeta Blaise Cendrars (1887-1961), que a apresenta a Constantin Brancusi (1876-1957), Vollard, Jean Cocteau (1889-1963), Erik Satie, entre outros. No ano seguinte, já no Brasil, com Oswald de Andrade, Olívia Guedes Penteado (1872-1934), Mário de Andrade e outros, acompanha o poeta Blaise Cendrars em viagem às cidades históricas de Minas Gerais. Realiza uma série de trabalhos baseados em esboços feitos durante a viagem. Nesse período, inicia a chamada fase pau-brasil, em que mergulha na temática nacional. Em 1925 ilustra o livro de poemas Pau-Brasil, de Oswald de Andrade, publicado em Paris. Em 1928, pinta Abaporu, tela que inspira o movimento antropofágico, desencadeado por Oswald de Andrade e Raul Bopp (1898-1984). Em 1933, após viagem à União Soviética, inicia uma fase voltada para temas sociais com as obras Operários e 2ª Classe. Em 1936 colabora como cronista de arte no Diário de São Paulo. A convite da Comissão do IV Centenário de São Paulo faz, em 1954, o painel Procissão do Santíssimo e, em 1956, entrega O Batizado de Macunaíma, sobre a obra de Mário de Andrade, para a Livraria Martins Editora. A retrospectiva Tarsila: 50 Anos de Pintura, organizada pela crítica de arte Aracy Amaral e apresentada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ) e no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC/USP), em 1969, ajuda a consolidar a importância da artista.

Comentário crítico
 tarsila do amaral - autoretrato
Tarsila do Amaral – auto-retrato
Nascida em Capivari, São Paulo, em 1886, a pintora e desenhista Tarsila do Amaral inicia-se nas artes em 1902, período em que freqüenta o colégio Sacré Couer de Barcelona. Na escola copia imagens religiosas. Em 1904, regressa ao Brasil. Pouco tempo depois se casa com André Teixeira Pinto, com quem tem sua única filha, Dulce. O casamento não dura muito. Contra a vontade da família, Tarsila se separa. Em 1913, muda-se para São Paulo. Aprende piano, copia pinturas e acompanha algumas discussões literárias, sem saber direito a que se dedicaria. O contato com as artes se estreita a partir de 1916, quando passa a trabalhar no ateliê do escultor William Zadig (1884-1952), com quem aprende a modelar. No mesmo ano, tem aulas com o escultor Mantovani. Seu aprendizado continua no curso de desenho com Pedro Alexandrino (1856-1942). Aí conhece Anita Malfatti (1889-1964), já modernista, abrigada na turma do professor acadêmico. Posteriormente ela e alguns colegas do curso de Pedro Alexandrino fazem aulas de pintura com Georg Elpons (1865-1939), que lhes apresenta técnicas diferentes das acadêmicas, como a aplicação de cores puras, diretamente do tubo.
Estimulada pelo maestro Souza Lima, parte para Paris em 1920. Quer entrar em contato com a produção européia e aperfeiçoar-se. Ingressa primeiro na Académie Julian, depois tem aulas com Emile Renard (1850-1930). Nesse período, trava contato com a arte moderna. Vê o que Anita Malfatti já lhe havia contado. Conhece trabalhos de Pablo Picasso (1881-1973), Maurice Denis (1870-1943) e a produção dos dadaístas e futuristas. O interesse coincide com o fortalecimento do modernismo em São Paulo. De longe, Tarsila recebe curiosa a notícia dos progressos do grupo, na correspondência com Anita. Em abril de 1922, dois meses depois da Semana de Arte Moderna, volta ao Brasil para “descobrir o modernismo”.1 Conhece Mário de Andrade (1893-1945), Oswald de Andrade (1890-1954) e Menotti del Picchia (1892-1988). Com eles e Anita, funda o Grupo dos Cinco. O aprendizado europeu será digerido aqui, no contato com o grupo. A artista pinta com cores mais ousadas e pinceladas mais marcadas. Faz retratos de Mário de Andrade e Oswald de Andrade com cores expressionistas e gestualidade marcada.
 Retrato de Tarsila, de Anita Malfatti (Acevo MASP SP)
Retrato de Tarsila, por Anita Malfatti (Acevo MASP SP)
Em 1923 volta a Paris e passa a viver com Oswald de Andrade. Retoma as aulas, mas em outras bases: distância-se da educação convencional, acadêmica. Quer estudar as técnicas modernas. Nesse ano, se torna aluna de André Lhote (1885-1962). Com ele, suas formas se regularizam. Na mesma época, entra em contato com os grandes nomes do modernismo parisiense, como o poeta Blaise Cendrars (1887-1961), que a apresenta a Constantin Brancusi (1876-1957), Vollard, Jean Cocteau (1889-1963), Erik Satie e Fernand Léger (1881-1955). Chega a freqüentar o ateliê deste pintor cubista. Tem aulas também com Albert Gleizes (1881 – 1953). A convivência com os mestres vai influenciá-la profundamente. Nesse período faz uma pintura de inspiração cubista,2 no entanto, interessa-se, cada vez mais pela figuração tipicamente brasileira, de temas nacionais, como em A Negra (1923) e A Caipirinha (1923).
Retorna para o Brasil com interesse voltado para as coisas daqui. Viaja para conhecer o carnaval carioca e as cidades históricas de Minas Gerais. Tarsila utiliza as técnicas aprendidas no exterior para figurar coisas de sua terra. A abordagem geométrica da iconografia brasileira vai originar a pintura Pau-Brasil em 1924. Sérgio Milliet (1898-1966) descreve esses trabalhos como “a captação sintética de uma realidade brasileira sentimental e ingênua, de que haviam se envergonhado antes os artistas do nosso país”.3 Em sua primeira individual, em 1926, na Galerie Percier, em Paris, a artista mostra esses trabalhos.
Em 1928, ela presenteia Oswald de Andrade com o quadro Abaporu (1928) A pintura estimula o escritor a fundar o movimento antropofágico. Neste período, a geometria é abrandada. As formas crescem, tornam-se orgânicas e adquirem características fantásticas, oníricas. Telas como O Ovo [Urutu] (1928), O Sono (1928) e A Lua (1928), compostas de figuras selvagens e misteriosas, aproximam-na do surrealismo.
 Tarsila, por Lasar Segall
Tarsila do Amaral, por Lasar Segall
A partir da década de 1930, a vida de Tarsila modifica-se bastante. No primeiro ano da década separa-se de Oswald. Na mesma época, ocupa, por um curto período, a direção da Pinacoteca do Estado de São Paulo (Pesp). Viaja para a União Soviética no ano seguinte e expõe em Moscou. A partir de 1933, seu trabalho ganha uma aparência mais realista. Influenciada pela mobilização socialista, pinta quadros como Operários (1933) e 2ª Classe (1933), preocupados com as mazelas sociais.
Em 1935, muda-se para o Rio de Janeiro. Sua vida é atribulada. A artista tem uma situação doméstica confusa, repleta de afazeres e afasta-se da pintura. Ocupa-se da disputa de posse de sua fazenda e trabalha muito como ilustradora e colunista na imprensa. A partir de 1936 colabora regularmente como cronista no Diário de São Paulo, função que ocupará até os anos de 1950. Nessa época, seus quadros ganham um modelado geométrico. As cores perdem a homogeneidade e tornam-se mais porosas e misturadas. Em 1938, recupera a propriedade, retorna à São Paulo e sua produção volta à regularidade. Reaproxima-se de questões que animaram o período heróico do modernismo brasileiro. A partir da segunda metade dos anos de 1940, as inquietações do período pau-brasil e da antropofagia são reformuladas, os temas rurais voltam de maneira simples. Em algumas telas, como Praia (1947) e Primavera (1946), as figuras agigantadas evocam o período antropofágico, mas agora aparecem sob forma mais tradicional, com passagens tonais de cor e modelado mais clássico.
 Tarsila do amaral, 1924 auto retrato
Tarsila do Amaral – auto-retrato I , 1924
Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo do Estado de S. Paulo.
Palácio Boa Vista (Campos do Jordão, SP)

Em 1950, é feita a primeira retrospectiva de seu trabalho, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP). A exposição dá mais prestígio à artista, nela as pinturas da fase “neo pau-brasil” são mostradas pela primeira vez. O retorno a temas nacionais anima Tarsila a pintar dois murais de forte sentido patriótico. Em 1954, termina Procissão do Santíssimo , encomendado para as comemorações do IV Centenário da Cidade de São Paulo. Dois anos depois, entrega O Batizado de Macunaíma, para a Editora Martins. Em 1969, a crítica de arte Aracy Amaral organiza duas importantes retrospectivas do trabalho de Tarsila. Uma no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC/USP) e outra no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ). As mostras consolidam sua importância para a arte brasileira. Tarsila falece em São Paulo em 1973.

___
Notas
(1) AMARAL, Aracy. Tarsila: sua obra e seu tempo. 3. ed. rev. ampl. São Paulo: Edusp: Editora 34, 2003. p.70.
(2) Em 1924, ao retornar ao Brasil, Tarsila responde afirmativamente à pergunta: “A Senhora é cubista? “. Cf. AMARAL, Aracy. op. cit. p. 141.
(3) MILLIET, Sérgio. Uma exposição retrospectiva. In: AMARAL, Aracy. op. cit. p. 454- 457.
Fonte: Enciclopédia de Artes Visuais/Itaú Cultural

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Abaporu, de Tarsila do Amaral, 1928
(Acervo Fundación Costantini)


“Sou muito devota do Menino Jesus de Praga, porque alcancei muitas graças com as orações a ele. É uma novena milagre, eu sei tudo de cor: ‘Oh Jesus que dissestes: Pedi e recebereis, procurai e achareis, batei e a porta se abrirá´.”

- Tarsila do Amaral, em entrevista a “Revista Veja”, fevereiro de 1972.

Marilena Chauí: Classe média é facista, violenta e ignorante / depoimento

“A classe média é uma abominação política, porque é fascista, é uma abominação ética porque é violenta, e é uma abominação cognitiva porque é ignorante. Fim”, afirmou a filósofa, durante lançamento do livro “10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma”; em seu discurso, ela também grita: “Eu odeio a classe média”; assista

marilena chaui

O ineditismo de medidas governamentais e seus resultados surpreendentes estão sendo analisados durante o lançamento do livro 10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma. O primeiro deles ocorreu no último dia 13, em São Paulo, e contou com presença de Lula, Emir Sader, Márcio Pochmann e Marilena Chauí.

Sem as sutilezas filosóficas das aulas emocionantes que costuma dar em eventos desse tipo, ela foi direto ao assunto. Chauí falou sobre o Bolsa Família para exemplificar a “revolução feminista” que vem ocorrendo no país, ao direcionar o recurso para a mulher, e depois o exemplo do ProUni, para explicitar o racismo que emergiu com força na sociedade, ao encher as salas de aula do ensino superior de pobres e negros.

Por fim, fez duras críticas à classe média: “a classe média é uma abominação política, porque é fascista, é uma abominação ética porque é violenta, e é uma abominação cognitiva porque é ignorante. Fim”, concluiu ovacionada.

MINISTRA MARIA DO ROSÁRIO: “Há um pacto perverso para a verdade não vir a público”

Rosário: “Há um pacto perverso para a verdade não vir a público

A ministra-chefe da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência, Maria do Rosário foi entrevistada pelo jornal Zero Hora e afirmou conviver com a dificuldade em desvendar mistérios do regime militar. Leia trechos da entrevista abaixo:

  
Ministra diz que ditadura gerou estrutura para dissimular seus crimes Foto: Daniel Conzi / Agencia RBS

Zero Hora — Por que permanece a dificuldade em desvendar crimes cometidos pelo regime militar?
Maria do Rosário — A ditadura não teve apenas uma atuação de violação dos direitos promovendo tortura. Ela também teve agentes profissionais em criar versões errôneas para disfarçar seus crimes. No fundo, havia a consciência de que o futuro não seria conivente com os crimes cometidos. Daí, a preocupação de tudo esconder, de tudo disfarçar.

Os arquivos nacionais foram de fato abertos? Há documentos que sumiram?
No governo federal, todos os documentos que dizem respeito ao período da ditadura militar, que versam sobre direitos humanos, devem ser enviados ao programa Memórias Reveladas, do Arquivo Nacional. É uma decisão da presidente Dilma, reforçada na própria na Lei de Acesso à Informação.

Mas a determinação vem sendo cumprida?
É uma determinação para todo o governo. Documentos oficiais que estão de posse formal do Brasil foram disponibilizados. Se existem outros documentos, que foram subtraídos, fica difícil dizer.

A Comissão Nacional da Verdade tem poder de confiscar acervos de documentos que estão com civis ou militares?
A comissão tem o poder de fazer a busca a qualquer momento, mas parece ainda ter um movimento de perversa disciplina, de cumprir primeiro a responsabilidade com a sua corporação, deixando de lado a história do país e a democracia.

A comissão vai completar o primeiro ano em maio. Qual a sua avaliação até o momento?
Talvez a comissão sofra as mesmas dificuldades que todos os que trabalham pela verdade sofrem até hoje: as informações são fragmentadas e contraditórias sobre os mortos e desaparecidos. Os verdadeiros agentes do período não falaram e não tiveram até o momento a dignidade de falar a verdade.

A senhora é favor de ampliar o prazo de trabalho da comissão, que expira em 2014?
Não tenho posição firmada sobre prorrogar ou não. É uma decisão da presidente, mas certamente a comissão terá bons resultados.

Dos casos sem solução, a Guerrilha do Araguaia é emblemática. Quais as dificuldades para localizar os corpos?
Nossa obrigação é seguir buscando, mas enfrentamos barreiras em uma região úmida, com rios e de floresta. No entanto, a principal dificuldade é a ausência de informações efetivas e até as ameaças feitas a pessoas da região que tentam colaborar com nossas buscas. É uma situação absurda. Há um pacto perverso para a verdade não vir a público.

Existe a possibilidade do Brasil reconhecer por escrito que não encontrou os corpos por ter destruído os cadáveres?
Claro que existe, mas antes de chegarmos a essa medida precisamos fazer o máximo.

Antônio Carlos Jobim (Tom Jobim) – entrevistado por Clarice Lispector

 TOM  1
Clarice Lispector e Tom Jobim, no lançamento
de “A maçã no escuro” (Foto: Arquivo Nacional)
“Minhas sinfonias estão inéditas.”
Tom Jobim e eu já nos conhecíamos: ele foi o meu padrinho no Primeiro Festival de Escritores, quando foi lançado meu livro A maça no escuro. E ele fazia brincadeiras: segurava o livro na mão e perguntava: quem compra? Quem quer comprar?
Para este diálogo, marcamos às seis da tarde: às seis e trinta e cinco tocavam a campainha da porta. E era o mesmo Tom que eu conhecia: bonito, simpático, com um ar puromalgré lui, com os cabelos um pouco caídos na testa. Um uísque na mesa e começamos quase que imediatamente a entrevista.
- Como é que você encara o problema da maturidade? É terrível ter quarenta anos?
- Tem um verso do Drummond que diz: “A madureza, esta horrível prenda…” não sei, Clarice, a gente fica mais capaz, mas também mais exigente.
- Não faz mal, Tom, a gente exige bem.
- Com a maturidade a gente passa a ter consciência de uma série de coisas que antes não tinha, mesmo os instintos, os mais espontâneos, passam pelo filtro. A polícia do espaço está presente, essa polícia que é a verdadeira polícia da gente. Tenho notado que a música vem mudando com os meios de divulgação, com a preguiça de se ir ao Teatro Municipal. Quero te fazer esta pergunta, Clarice, a respeito da leitura dos livros, pois hoje em dia estão ouvindo televisão e rádio de pilha, meios inadequados. Tudo o que escrevi de erudito e mais sério fica na gaveta. Que não haja mal-entendido: a música popular considero-a seriíssima. Será que hoje em dia as pessoas estão lendo como eu lia quando garoto, tendo hábito de ir para a cama com um livro antes de dormir? Porque sinto uma espécie de falta de tempo da humanidade – o que vai entrar mesmo é a leitura dinâmica. Que é que você acha?
- Sofro se isto acontecer, que alguém me leia apenas do método vira-página dinâmico. Escrevo com amor e atenção e ternura e dor e pesquisa, e queria de volta, como mínimo, uma atenção completa. Uma atenção e um interesse como o seu, Tom. E no entanto o cômico é que eu não tenho mais paciência de ler ficção.
- Mais aí você está se negando, Clarice!
- Não, meus livros felizmente para mim não são superlotados de fatos, e sim da repercussão dos fatos no indivíduo. Há quem diga a literatura e a música vão acabar. Sabe quem disse? Henry Miller. Não sei se ele queria dizer para já ou para daqui a trezentos ou quinhentos anos. Mas eu acho que nunca acabarão.
Riso feliz de Tom:
- Pois eu, sabe, também acho!
- Acho que o som da música é imprescindível para o ser humano e que o uso da palavra falada e escrita são como a música, duas coisas das mais altas que nos elevam do reino dos macacos, do reino animal.
- E mineral também, e vegetal também! (Ele ri) Acho que sou um músico que acredita em palavras. Li ontem o teu O búfalo e a Imitação da rosa.
- Sim, mas é a morte às vezes.
- A morte não existe, Clarice. Tive uma (uma com agá: huma) experiência que me revelou isso. Assim como também não existe o eu nem o euzinho nem oeuzão. Fora essa experiência que não vou contar, temo a morte vinte e quatro horas por dia. A morte do eu, eu te juro, Clarice, porque eu vi.
- Tem alguma coisa além do eu, Tom.
- Além de tudo (ri) e vivam os estudantes! Se eu não defender os estudando, estou desprotegendo meus filhos. Se esse eco do sucesso não nos interessa em vida, muito menos depois da morte. Isso é o que eu chamo de mortalidade.
 TOM 2
Tom Jobim (Foto: Antônio Andrade)
- Você acredita em reencarnação, Tom?
- Não sei. Dizem os hindus que só entende de reencarnação quem tem consciência das várias vidas que viveu. Evidentemente não é meu ponto de vista: se existe reencarnação só pode ser por um despojamento.
Dei-lhe então a epígrafe de um de meus livros: é uma frase de Bernard Berenson, crítico de arte: “Uma vida completa talvez seja aquela que termina em tal identificação com o não eu que não resta um eu para morrer.”
- Isto é muito bonito, é o despojamento. Caí numa armadilha porque sem o eu, eu me neguei. Se nós negamos qualquer passagem de um eu para outro, o que significa reencarnação, então a estamos negando.
- Não estou entendendo nada do que nós estamos falando, mas faz sentido. Como podemos, Tom, falar do que não entendemos. Vamos ver se na próxima reencarnação nós dois nos encontramos mais cedo. Que é que você acha do fato da liderança do mundo estar hoje nas mãos dos estudantes?
- Acho que não podia ser de outra forma e que venham os estudantes. Vladimir sabe disso.
- A sociedade industrial organiza e despersonaliza demais a vida. Você não acha, Tom, que está reservado aos artistas o papel de preservar a alegria do mundo? Ou a consciência do mundo?
- Sou contra a arte de consumo. Claro, Clarice, que eu amo o consumo… Mas do momento que a estandardização de tudo tira a alegria de viver, sou contra a industrialização. Sou a favor do maquinismo que facilita a vida humana, jamais a máquina que domina a espécie humana. Claro, os artistas devem preservar a alegria do mundo. Embora a arte ande tão alienada e só dê tristeza ao mundo. Mas não é culpa da arte porque ela tem o papel de refletir o mundo. Ela reflete e é honesta. Viva Oscar Niemeyer e viva Villa-Lobos! Viva Clarice Lispector! Viva Antônio Carlos Jobim! A nossa, Clarice, é uma arte que denuncia. Tenho sinfonias e músicas de câmara que não vêm à tona.
- Você não acha que é dever seu o de fazer a música que sua alma pede? Pelas coisas que você disse, suponho que significa que o nosso melhor está dito para as elites?
- Evidentemente que nós, para nos expressarmos, temos que recorrer à linguagem das elites, elites estas que não existem no Brasil… Eis o grande drama de Carlos Drummond de Andrade e Villa-Lobos.
- Para quem você faz música e para quem eu escrevo?
- Acho que não nos foi perguntado nada a respeito, e, desprevenidos, ouvimos no entanto a música e a palavra, sem tê-las realmente aprendido de ninguém. Não nos coube a escolha: você e eu trabalhamos sob uma inspiração. De nossa ingrata argila de que é feito o gesso. Ingrata mesmo para conosco. A crítica que eu no faria, Clarice, nesse confortável apartamento do Leme, é de sermos seres rarefeitos que só se dão em determinadas alturas. A gente devia se dar mais, a toda hora, indiscriminadamente. Hoje quando leio uma partitura de Stravinsky ainda mais sinto uma vontade irreprimível de estar com o povo, embora a cultura jogada fora volte pelas janelas – estou roubando C.D.A.
- Por que nós todos somos parte de uma geração quem sabe se fracassada?
- Não concordo absolutamente! – disse Tom.
- É que eu sinto que nós chegamos ao limiar de portas que estavam abertas – e por medo ou pelo que não sei, não atravessamos plenamente essas portas. Que no entanto têm nelas já gravadas nosso nome. Cada pessoa tem uma porta com seu nome gravado, Tom, e é só através dela que essa pessoa perdida pode entrar e se achar.
- Batei e abrir-se-vos-á.
- Vou confessar a você, Tom, sem o menor vestígio de mentira: sinto que se eu tivesse tido coragem mesmo, eu já teria atravessado a minha porta, e sem medo de que me chamassem de louca. Porque existe uma nova linguagem, tanto a musical quanto a escrita, e nós dois seríamos os legítimos representantes das portas estreitas que nos pertencem. Em resumo e sem vaidade: estou simplesmente dizendo que nós dois temos uma vocação a cumprir. Como se processa em você a elaboração musical que termina em criação? Estou simplesmente misturando tudo, mas não é culpa minha, Tom, nem sua: é que esta entrevista foi se tornando meio psicodélica.
- A criação musica em mim é compulsória. Os anseios de liberdade se manifestam.
- Liberdade interna ou externa?
- A liberdade total. Se como homem fui um pequeno-burguês adaptado, como artista me vinguei nas amplidões do amor. Você desculpe, eu não quero mais uísque por causa de minha voracidade, tenho que é que beber cerveja porque ela locupleta os grandes vazios da alma. Ou pelo menos impede a embriaguez súbita. Gosto de beber só de vez em quando. Gosto de tomar uma cerveja mas de estar bêbado não gosto.
(Foi devidamente providenciada a ida da empregada para comprar cerveja.)
 TOM 3
Tom Jobim (Foto: Instituto Antônio Carlos Jobim)
- Tom, toda pessoa muito conhecida, como você, é no fundo o grande desconhecido. Qual é a sua face oculta?
- A música. O ambiente era competitivo, e eu teria que matar meu colega e meu irmão para sobreviver. O espetáculo do mundo me soou falso. O piano no quarto escuro me oferecia uma possibilidade de harmônio infinita. Esta é a minha face oculta. A minha fuga, a minha timidez me levaram inadvertidamente, contra a minha vontade, aos holofotes do Carnegie Hall. Sempre fugi do sucesso, Clarice, como o diabo foge da cruz. Sempre quis ser aquele que não vai ao palco. O piano me oferecia, de volta da praia, um mundo insuspeitado de ampla liberdade – as notas eram todas disponíveis e eu antevi que se abriam os caminhos, que tudo era lícito, e que se poderia ir a qualquer lugar desde que se fosse inteiro. Subitamente, sabe, aquilo que se oferece a um menor púbere, que o grande sonho de amor estava lá e que este sonho tão inseguro era seguro, não, Clarice? Sabe que a flor não sabe que é flor. Eu me perdi e me ganhei, enquanto isso sonhava pela fechadura os seios de minha empregada. Eram lindos os seios dela através do buraco da fechadura.
- Tom, você seria capaz de improvisar um poema que servisse de letra para uma canção?
Ele assentiu e, depois de uma pequena pausa, me ditou o que se segue:
Teus olhos verdes são maiores que o mar.
Se um dia fosse tão forte quanto você
eu te desprezaria e viveria no espaço.
Ou talvez então eu te amasse.
Ai! que saudades me dá da vida
que nunca tive!
- Como é que você sente que vai nascer uma canção?
- As dores do parto são terríveis. Bater com a cabeça na parede, angústia, o desnecessário do necessário, são os sintomas de uma nova música nascendo. Eu gosto mais de uma música quanto menos eu mexo nela. Qualquer resquício de savoir faire me apavora.
- Tom, Gauguin, que não é meu predileto, disse no entanto uma coisa que não se deve esquecer, por mais dor que ela nos traga. É o seguinte: “Quando tua mão estiver hábil, pinta com a esquerda, quando a esquerda ficar hábil, pinta com os pés.” Isso responde ao seu terror do savoir faire.
- Para mim a habilidade é muito útil mas em última instância a habilidade é inútil. Só a criação satisfaz. Verdade ou mentira, Clarice, eu prefiro uma forma torta que diga, do que uma forma hábil que não diga.
- Você é quem escolhe os intérpretes? e os colaboradores?
- Quando posso escolher intérpretes, escolho. Mas a vida veio muito depressa. Gosto de colaborar com que eu amo, Vinícius, Chico Buarque, João Gilberto, Newton Mendonça, Dolores Duran. E você?
- Faz parte da minha profissão estar mesmo sempre sozinha, sem colaboradores e intérpretes. Escute, Tom, todas as vezes em que eu acabei de escrever um livro ou um conto, pensei com desespero e com toda a certeza de que nunca mais escreveria nada. Você, que sensação tem quando acaba de dar à luz uma canção?
- Exatamente o mesmo. Eu sempre penso, Clarice, que morri depois das dores do parto.
- Vou agora lhe fazer as minhas três perguntas clássicas. Qual é a coisa mais importante do mundo? Qual é a coisa mais importante para a pessoa como indivíduo? E o que é amor?
- A coisa mais importantes do mundo é o amor. Segunda pergunta: a integridade da alma, mesmo que no exterior ela pareça suja. Quando ela diz que sim, é sim, quando ela diz que não, é não. E durma-se com um barulho desses. Apesar de todos os santos, apesar de todos os dólares. Quanto ao que é o amor, amor é se dar, se dar, se dar. Dar-se não de acordo com o seu eu – muita gente pensa que está se dando e não está dando nada – mas de acordo com o eu do ente amado. Quem não se dá, a si próprio detesta, e a si próprio se castra. Amor sozinho é besteira.
- Houve algum momento decisivo na sua vida?
- Só houve momentos decisivos na minha vida. Inclusive ter de ir, aos 36 anos, aos Estados Unidos, por força do Itamaraty, eu que gostava já nessa época de pijama listrado, cadeira de balanço de vime, e o céu azul com nuvens esparsas.
- Muitas vezes, nas criações em qualquer domínio, pode-se notar tese, antítese e síntese. Você sente isso nas suas canções? Pense.
- Sinto demais isso. Sou um matemático amoroso, carente de amor e de matemática. Sem forma não há nada. Mesmo no caótico há forma.
 TOM  4
Tom Jobim (Foto: Otto Stupakoff)
- Quais foram as grandes emoções de sua vida como compositor e na sua vida pessoal?
- Como compositor nenhuma. Na minha vida pessoal, a descoberta do eu e do não eu.
- Qual é o tipo de música brasileira que faz sucesso no exterior?
- Todos os tipos. O velho mundo, Europa e Estados Unidos estão completamente exauridos de temas, de força, de virilidade. O Brasil, apesar de tudo, é um país de alma extremamente livre. Ele conduz à criação, ele é conivente com os grandes estados de alma.

Slavoj Zizek: “Estou cansado das análises culturais e políticas”

O cansaço do filósofo esloveno

Em conversa com o Jornal do Commercio, o filósofo esloveno diz que procura mostrar agora seu trabalho mais teórico e que o momento é de pensar a crise.

 

“Eu acho que mais do que nunca a ideologia é hoje parte da nossa vida cotidiana”, diz Zizek

Conhecido como polemista e figura midiática, Slavoj Zizek está cansado de falar da cultura pop. Cada vez se vê mais como um filósofo – Zizekainda que um filósofo pouco convencional, de ideias ousadas e quase contraditórias. Em viagem ao Brasil para lançar seu novo livro, Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético (Boitempo, 656 páginas, R$ 79), trabalho densamente reflexivo, o esloveno falou ao JC por telefone. Zizek faz nesta sexta (15/3) palestra no Recife, às 19h30, no Teatro da UFPE, dentro da estreia do projeto ArtFliporto Apresenta, com ingressos a R$ 20 e R$ 10 (meia).

JC – Seu trabalho passa por diversos campos teóricos, da teoria cultural ao multiculturalismo. O que, para você, o faz tão lido em diversos círculos acadêmicos?
SLAVOJ ZIZEK – Bem, eu conecto algumas semiteorias, como as de Hegel, as de Jacques Lacan e a crítica de Marx da ideologia com elementos da cultura popular, referências ao cinema, entre outros. Eu dei a psicanálise, junto com alguns amigos, uma orientação diferente. Lacan, quando eu e meus amigos começamos a trabalhar, era visto em geral como um psicanalista crítico, um pouco ligado à teoria da cultura, mas não como alguém cujo trabalho cria referências para o campo político. Existe talvez outro aspecto: eu – e é por isso que eu tenho vários opositores – provoco, quebro posições estabelecidas. Por exemplo, você mencionou o multiculturalismo. Eu sou completamente contra o tema do multiculturalismo, do establishment cultural. Eu resisto em absoluto a ser parte do multiculturalismo. Eu disse em um ensaio meu de dez anos atrás: o multiculturalismo é a principal ideologia do capitalismo tardio global. Eu não vejo nada de subversivo no multiculturalismo. Também não sou, definitivamente, parte do que é chamado de análise do discurso ou do desconstrucionismo francês de Michel Foucault e outros. Não! Eu defendo, se você quiser chamar assim, um retorno à grande metafísica. Mas, em algum momento, eu devo desapontá-lo: eu estou ficando um pouco cansado das análises culturais e políticas. Nos últimos anos, eu tenho retornado para o campo da pura filosofia. Estou ficando velho e acho que devo focar no que eu realmente tenho a dizer.

JC – Você se tornou uma figura midiática e já chegaram até a inventar uma amizade entre você e Lady Gaga. Isso atrapalha seu trabalho?
ZIZEK – Aquilo foi uma loucura! Eu simplesmente vivo no meu próprio mundo, sem ser afetado por toda essa estupidez. Eu ignoro isso. Eu sou uma pessoa extremamente solitária. Eu não vou a festas, eu não circulo por lugares. Para lhe dar uma ideia, nessa minha turnê pelo Brasil, sabia que eu não estive com outras pessoas? Não estive em nenhum almoço, jantar, ou evento social. Eu insisti nisto: eu faria palestras, daria, talvez, um número limitado de entrevistas, mas o restante do tempo eu iria ter todo para mim mesmo. Então, isso é absurdo, eu tenho uma vida muito privada.

JC – Você é um pensador que gosta de ir aonde o público está, de dialogar. Qual é o papel de um intelectual hoje?
ZIZEK – Tem algo que gosto de repetir: o grande papel dos intelectuais não é dar respostas. As pessoas me perguntam, por exemplo, sobre a crise ecológica: “O que devemos fazer?”. Eu não sei! A principal tarefa do intelectual público hoje, eu acho, é permitir, ou melhor, possibilitar que as pessoas pensem, fazer com que elas façam as perguntas certas. Eu acho que os problemas que nós temos hoje existem porque nós estamos fazendo as perguntas erradas. Nós entendemos qual é o problema real, mas a forma de formular o problema é falsa. Por exemplo, é só tomar o racismo, o sexismo, todos esses “ismos” populares de hoje. Ao menos no Ocidente, eles são traduzidos como um problema de tolerância, de que nós devemos ser mais tolerantes. Eu sou totalmente contra isso. Acho que isso é uma mistificação. Até escrevi um livro curto, lançado na Europa, com o título Elogio da intolerância. Outro exemplo é a ecologia. Todos nós sabemos que há um problema. Mas eu acho que o modo de formularmos o problema costuma ser errado. Por exemplo, todas essas coisas de que eu não gosto, mesmo em Evo Morales, as celebrações de alguma “Mãe Natureza”, com uma abordagem holística, e a visão de como o capitalismo a destrói e como nós a exploramos em excesso – eu não aceito de forma alguma essa visão. Qualquer celebração da natureza que leve em conta alguma ideia de “sabedoria” é, para mim, totalmente errada. Então, não é que eu ofereça respostas fáceis. Eu só quero que as pessoas vejam os problemas econômicos de hoje. Acho crucial convencer as pessoas de que o problema não são a falta de regulações do mercado, os banqueiros gananciosos ou seja lá o que for. O problema está no sistema. Estamos começando a perceber lentamente que existe algum antagonismo desequilibrado, uma falha de construção, por assim dizer, no nosso capitalismo global.

JC – Como se pode continuar a interpretar o mundo de hoje a partir do marxismo?
ZIZEK – Ok, essa é uma questão bastante complicada, mas a primeira coisa que eu diria é que nós, para continuarmos o trabalho de Marx, devemos realmente começar de novo e voltar nossas ferramentas críticas para o próprio marxismo. Claro que não se pode culpar Marx por Stalin ou coisas do tipo. Contudo, o fato é que a experiência comunista marxista global, a experiência de projetos políticos que foram inspirados pelo marxismo no século 20, é, basicamente, uma experiência catastrófica. E eu acho que nós devemos nos perguntar a seguinte questão: será que Marx foi pouco radical? O meu segundo movimento é, em dado ponto, retornar de Marx a Hegel. Eu acho que Hegel não foi um louco racionalista que pensava que na sua mente e na sua lógica ele podia deduzir tudo. Ele era bastante aberto à contingência da história. Nós precisamos disso. Nós precisamos quebrar essa visão marxista de que a história se move do capitalismo para uma ordem superior, o socialismo ou algo do tipo. A história é aberta, na minha opinião. De forma espontânea, ela provavelmente se move em direção a alguma catástrofe.

JC – E por que Hegel é tão importante para entender o mundo de hoje?
ZIZEK – Eu sou bem mais um pessimista histórico, por assim dizer. Eu penso a alienação não no sentido marxista, mas no sentido da não transparência da história. Você faz algo e o resultado é totalmente diferente do que você esperava; você planeja a libertação e o resultado é o terror e o horror. Eu acho que nós devemos ficar mais conscientes disso, dessa impenetrabilidade da história, de como tudo termina de forma diferente do que esperávamos. Hegel estava profundamente ciente disso. Novamente, toda a história da esquerda radical no século 20 demonstra isso. Olhe para a Revolução Chinesa. A maior revolução comunista terminou fazendo do Partido Comunista Chinês o mais implacável e eficiente regulador do novo sistema capitalista. Nós devemos nos preparar para essas surpresas.

JC – E qual é o papel de Lacan para ajudar a entender Hegel?
ZIZEK – Lacan é para mim especialmente importante. Por um lado, ele me dá conceitos para poder ler Hegel e também para compreender como a ideologia funciona hoje. É fascinante dizer hoje que, com exceção de algum louco fundamentalista religioso, nós não temos mais ideologia, somos todos cínicos pragmáticos. Mas não, eu acho que mais do que nunca a ideologia é hoje parte da nossa vida cotidiana. Na verdade, é uma parte até invisível.

JC – Em tempos pós-modernos, você procura trabalhar com a noção de totalidade, de uma teoria que dá conta de toda a sociedade, não é?
ZIZEK – Sim, eu recuso totalmente essa ideia pós-moderna de que não existem mais grandes narrativas, que tudo são só moléculas dispersas. Em todos os níveis, das teorias e da política, eu acho que nós devemos retornar completamente à ideia da totalidade. Eu rejeito totalmente essa ideia de que, como diz Emmanuel Levinas, a noção filosófica da totalidade prepara o caminho para o totalitarismo político.

JC – Esse é o problema que você vê em movimentos como o Occupy Wall Street e a Primavera Árabe?
ZIZEK – Eu não simplesmente os critico. Por exemplo, eu esperava o que aconteceu no Egito. Contudo, o resultado disso não é simplesmente zero. Ainda que agora nós tenhamos um pacto entre os militares corruptos pró-Estados Unidos e os fundamentalistas muçulmanos, não vamos esquecer que alguma coisa sobrevive dos protestos de dois anos atrás. O que ficou foi principalmente uma mobilização incrível da sociedade civil: mulheres, estudantes, sindicatos, etc. Isso é agora um fator bastante forte na vida política do Egito. E a luta não está terminada. Eu não sou simplesmente um pessimista, mas, se você me perguntar se eu vejo algum lugar a se chegar hoje, um movimento político com que eu me identificaria completamente, não há nada muito grande. O movimento de que mais me aproximo é o da Grécia, o Syrila, coalização radical de esquerda que quase ganhou a última eleição.

JC – E o que você vê de positivo no Syrila?
ZIZEK - É difícil entrar em detalhes, mas é esse o motivo: a esquerda até agora sempre foi cooptada pela divisão entre um realismo comprometido – das reformas, das pequenas mudanças feitas dentro do sistema, da busca por fazer o capitalismo mais socialmente sensível, etc -, e um dogmatismo de princípios, mas que é de fato impotente. Eles de certa forma superam essa cisão. Eles têm atitudes baseadas em princípios, contudo, ao mesmo tempo, são impiedosamente pragmáticos.

JC – Parte da sua notoriedade vem de suas palestras e discursos. Qual pensa que é a função dessas conferências?
ZIZEK - Para mim, conferências e palestras são puramente instrumentais. Eu quero levar as pessoas a lerem meus livros. É isso que é importante. Eu acho que eu não sou sequer muito bom. Nas conferências e, principalmente, nas minha entrevistas, eu apenas digo, de forma simplificada mas ainda confusa, o que está dito de forma bem melhor nos meus livros. Eu olho para isso de uma forma totalmente instrumental. Tudo que eu realmente tenho a dizer está nos meus livros.

JC – A teoria pode ajudar a mudar o mundo?
ZIZEK - Faço minhas obras pelo puro amor à filosofia, não para contribuir para a solução da crise da humanidade ou coisa do tipo. Eu sou, por assim dizer, um autor metafísico bastante tradicional. Eu acredito na teoria que serve unicamente a si mesma; você a faz porque ela é uma bela teoria. Mas penso também que esse tipo de teoria, a longo prazo, fornece os melhores resultados práticos. Quando você quer fazer uma teoria que vai servir imediatamente a um propósito social, ela vira uma teoria ruim que não tem efeito nenhum a longo prazo.

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Do Jornal do Commercio

Diogo Guedes

“O PDT se afastou do trabalhismo”, afirma Carlos Araújo – entrevista a SUL21/rs

Aos 75 anos, Carlos Araújo voltará a se filiar ao PDT | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Samir Oliveira

Ex-deputado estadual e fundador do PDT no Rio Grande do Sul, Carlos Franklin Paixão Araújo afirma que o partido está “descaracterizado” e “afastado das raízes do trabalhismo” no país. Após romper com a sigla em 2004 e permanecer ausente da política desde então, o ex-marido da presidente Dilma Rousseff (PT) voltará a se filiar ao PDT em março deste ano.

O retorno de Carlos Araújo ao PDT ocorre às vésperas da convenção que irá eleger o comando nacional da sigla – que permanece com o ex-ministro do Trabalho Carlos Lupi desde a morte de Leonel Brizola, em 2004. Carlos Araújo retorna ao PDT para ajudar os netos de Brizola a disputar a hegemonia no partido.

Nesta entrevista ao Sul21, Carlos Araújo fala sobre a situação do PDT no país e no Rio Grande do Sul e defende uma maior formação política dos seus militantes. Para o ex-deputado, o trabalhismo é doutrina que irá levar o brasil ao socialismo. “Pretendo me filiar em março. O trabalhismo é o caminho brasileiro para o socialismo. Quero participar dessa luta”, explica.

Com 75 anos de idade, Carlos Araújo é natural de São Francisco de Paula e ingressou clandestinamente na Juventude do Partido Comunista Brasileiro aos 14 anos – sigla na qual militou até 1957. Formado em Direito pela UFRGS, começou a ter contato com Leonel Brizola durante a campanha da Legalidade, em 1961. Após o golpe militar, em 1964, ingressou na luta armada e foi um dos dirigentes da VAR-Palmares. Foi na guerrilha que conheceu sua ex-mulher, Dilma Rousseff, com quem foi casado durante 30 anos, de 1969 a 1999. Graças ao relacionamento com Carlos Araújo, Dilma veio morar em Porto Alegre, já que o marido encontrava-se detido na Ilha do Presídio, durante os anos 1970. Ainda hoje, Carlos Araújo é uma das pessoas mais próximas de Dilma, com quem teve uma filha, Paula, e compartilha um neto, Gabriel.

Após eleger-se deputado estadual em 1982 e reeleger-se por mais duas legislaturas, Carlos Araújo – que também disputou a prefeitura de Porto Alegre em 1988 e 1992 – abandonou a vida pública, devido a um enfisema pulmonar que vem lhe causando complicações desde 1995.

“O trabalhismo é uma corrente de pensamento que tem como base a defesa dos direitos sociais no capitalismo”

Ex-deputado abandonou o partido em 2004 e afirma que, mesmo com o retorno, não irá se candidatar a cargos públicos | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – Como o senhor avalia a situação atual do PDT no país?
Carlos Araújo – O PDT está um pouco descaracterizado, se afastou das raízes do trabalhismo. Falta ao PDT uma prática social maior, uma maior participação nos movimentos sociais. O partido deveria se voltar aos grandes problemas nacionais, mas não faz esses debates. A atuação é muito tímida. Internamente, é preciso haver mais democracia, discussão e revezamento de poder no PDT. Não podemos ter lideranças que se eternizam no poder.

Sul21 – Como o partido vem administrando a era pós-Leonel Brizola?
Carlos Araújo – Sempre é difícil administrar um partido após a perda de um grande líder. Leva tempo até que se encontre um rumo. O PDT procura esse rumo, mas não tem encontrado. A perda de um grande líder sempre gera embaraços, cria dificuldades e barreiras a serem superadas.

Sul21 – Foi um erro do partido ficar tão dependente do Brizola?
Carlos Araújo – Acho que não. A história tem mostrado, principalmente nos países emergentes, que as forças sociais se estruturam em cima de grandes lideranças. Líderes como Fidel Castro, Hugo Chávez e Leonel Brizola discursam durante muito tempo. Fidel chegou a falar por 14 horas seguidas. O Brizola já discursou por 7 horas. Esses líderes aprenderam que a educação para a consciência das massas é formada, em grande parte, pela audição. Esses líderes se destacam e é muito difícil formar um partido com eles. O PT tem um grande líder, mas o partido depende muito do Lula. É bom para o PT ter estrutura, conseguir caminhar sozinho, mas é algo muito difícil.

Sul21 – O senhor ajudou a fundar o PDT no Rio Grande do Sul. O que o partido representava em sua origem?
Carlos Araújo – O PDT sempre representou o trabalhismo. É uma corrente de pensamento que tem como base a defesa dos direitos sociais no capitalismo. Getúlio Vargas, que é o fundador do trabalhismo, quando tomou o poder, em 1930, tinha que responder à seguinte pergunta: “Como vai ser o processo de desenvolvimento capitalista no Brasil?”. Então ele disse: “O meu governo terá como base uma democracia social, uma democracia política e uma democracia econômica. O Estado será um indutor do desenvolvimento, mas as rédeas do processo estarão nas mãos das forçais sociais”. Ele usava essa expressão: “Forças sociais”. Em seguida, as elites paulistas e mineiras se levantaram, em 1932, dizendo que esse projeto não servia para o país. Eles acreditavam que as forças sociais não conseguiam gerir o capitalismo no Brasil, defendiam que só quem poderia fazer isso era o capital internacional. Queriam que os representantes do capital internacional desenvolvessem o capitalismo brasileiro.

“Embora tenha feito e esteja fazendo grandes governos, o PT perdeu a sua auréola”

Carlos Araújo entende que PDT deve disputar espaço na esquerda | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – Esse embate existe até hoje no país?
Carlos Araújo – Continua. Por isso tentaram derrubar o Getúlio em 1932 e em 1937. Por isso conseguiram derrubá-lo em 1945 e o levar ao suicídio em 1954. Foi a mesma questão que levou a derrubarem o Jango em 1964. Getúlio dizia que a hegemonia do processo político tem que estar com as forças sociais. Em 1866, quando houve a primeira eleição na Inglaterra, perguntaram ao Marx – que dirigia a Internacional – como os trabalhadores deveriam votar. Havia um candidato capitalista e outro que representava o regime monárquico anterior. O capitalismo naquela época era terrível, com crianças morrendo nas fábricas, trabalhando 20 horas por dia. Marx respondeu que os trabalhadores deveriam fazer uma aliança com os capitalistas. E disse que o ideal seria que, nessa aliança, os trabalhadores tivessem a hegemonia. Ele dizia que os trabalhadores seriam capazes de desenvolver o capitalismo com mais sabedoria do que os próprios capitalistas, dando um sentido mais social a ele. Foi isso que Getúlio falou. É isso que aconteceu nos governos Lula e acontece no governo Dilma. É o desenvolvimento do capitalismo com as rédeas do processo nas mãos das forças sociais. É a única forma de desenvolver o capitalismo e dividir o bolo enquanto ele vai crescendo. Se não vai tudo apenas para um lado. O trabalhismo representa essa visão do desenvolvimento capitalista.

Sul21 – O PDT não alimenta mais o discurso do trabalhismo?
Carlos Araújo – Não está mais adotando esse discurso e está muito desvinculado dos movimentos sociais. O PDT perdeu muito espaço, mas ele pode ser recuperado. Há um espaço para que o PDT avance. Embora tenha feito e esteja fazendo grandes governos, o PT perdeu a sua auréola. Isso nos faz pensar em como será no futuro. Sem o PT, surgirá outro partido para ocupar seu espaço? É uma questão muito delicada e o trabalhismo tem um papel a desempenhar nesse contexto, desde que esteja envolvido com os movimentos sociais.

Sul21 – O PDT pode voltar a disputar o poder dentro da esquerda?
Carlos Araújo – Sim. Esse é o destino do PDT, por isso o partido precisa retomar o seu caminho. O Brizola concorreu por duas vezes à Presidência. Em uma, ele perdeu por pouco no primeiro turno e apoiou Lula no segundo. Na outra eleição, foi vice do Lula. Nosso caminho é esse, é marchar junto com as forças de esquerda.

“Quem é de esquerda e está na política institucional tem que ser militante. Tem que pular muro e subir morro”

Sul21 – O senhor retornará ao PDT?
Carlos Araújo – Pretendo me filiar em março. Eu estava esperando melhorar um pouco a saúde. Sou trabalhista, penso que o trabalhismo é o caminho brasileiro para o socialismo. Quero participar dessa luta.

Carlos Araújo dará cursos de formação política a jovens do PDT nas tardes de sábado | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – Quando o senhor tomou essa decisão?
Carlos Araújo – Essa decisão foi construída. O que me levou a acelerar o processo foi eu pensar que os netos do Brizola têm um papel a cumprir no partido. Eles estão sendo muito injustiçados dentro do PDT. Isso me levou à aproximação com eles.

Sul21 – Foi difícil o rompimento com o PDT em 2004?
Carlos Araújo – Foi, eu senti muito. Mas era uma conjuntura em que eu não queria mais permanecer no PDT nem em partido nenhum. Foi um afastamento. Saí para ficar mais livre, para não dizerem que eu desobedeci às normas do partido. Mas continuei muito amigo dos companheiros trabalhistas, nunca me afastei totalmente. Nunca tive vontade de ingressar em outros partidos.

Sul21 – Com o retorno ao PDT, o senhor pretende voltar a disputar eleições?
Carlos Araújo - Não vou concorrer. Vou ajudar na formação de quadros e em tudo o que eu puder. Como eu fiquei doente, é muito difícil permanecer na política institucional. Quem é de esquerda e está na política institucional tem que ser militante. Tem que pular muro e subir morro.

“Há uma crise partidária na esquerda. Os partidos estão muito desorganizados e não formam seus militantes”

Ex-marido de Dilma defende democratização do estatuto do PDT | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – Qual a importância da convenção nacional do PDT para renovação do partido?
Carlos Araújo – É muito difícil que haja uma renovação agora. O estatuto do PDT é muito rígido e autoritário, dá muito poder à executiva e ao diretório nacional. É muito difícil furar esse cerco. Eu estou retornando ao PDT e participando de uma corrente que quer sacudir o partido, que vai disputar a convenção. Estamos tentando fazer uma conciliação, para verificar se há trânsito dentro do partido. Acreditamos que o Alceu Collares é um bom candidato para essa transição. Precisamos ter um candidato que consiga unificar o partido, que está muito dividido. E que seja um candidato de transição, fixando regras para uma nova eleição e aproximando as correntes para construir a unidade possível.

Sul21 – Essa transição seria para realizar reformas no estatuto?
Carlos Araújo – Sim, para oxigenar o partido. O estatuto precisa ser mais democrático e adequado a nossa realidade. O estatuto atual foi feito pelo Brizola, que já havia perdido um partido e não queria perder outro. Então ele fez um estatuto extremamente centralizado e muito rígido. Agora não temos mais uma liderança do vulto do Brizola, por isso precisamos adequar o estatuto à nossa realidade.

Sul21 – Então a intenção é lançar um candidato de conciliação? Não haverá um candidato de oposição ao atual grupo que comanda o PDT?
Carlos Araújo – Se não der, iremos lançar sim esse candidato. Tentaremos fazer a conciliação até onde der. Se não for possível, lançaremos um candidato, mesmo que seja para perder.

Sul21 – Os irmãos Juliana Brizola (deputada estadual gaúcha), Carlos Brizola (deputado federal licenciado e atual ministro do Trabalho) e Leonel Brizola (vereador do Rio de Janeiro), todos netos de Leonel Brizola, fazem parte deste movimento. Quem mais integra o grupo? 
Carlos Araújo – Dos integrantes gaúchos eu destacaria o Afonso Mota (secretário estadual do Gabinete dos Prefeitos) e o deputado federal Giovani Cherini. Também há muitos prefeitos.

“O prestígio do Lula e da Dilma é muito grande. Mas essa força eleitoral fantástica não se expressa da mesma forma como grande força política”

Sul21 – É um grupo majoritariamente formado por gaúchos?
Carlos Araújo – Não, temos apoios nos estados. Minas Gerais nos apoia. Há esforços em vários estados. Essa análise deve ser feita mais adiante. Na segunda-feira (4) tem uma reunião da executiva nacional que fixará as regras para a convenção nacional.

Para Carlos Araújo, as “consequências do poder” tornaram a esquerda acomodada| Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – O ex-ministro do Trabalho Carlos Lupi – afastado da pasta por denúncias de corrupção e presidente nacional da sigla desde a morte do Brizola – prejudicou o partido?
Carlos Araújo – Eu não gostaria de pessoalizar nada. Prefiro não abordar esse assunto, ao menos no momento. Quero travar a luta interna em um nível estritamente político.

Sul21 – Mas no entendimento do grupo do senhor, os dirigentes atuais do PDT são responsáveis pela situação que vocês criticam.
Carlos Araújo – Sim. Queremos democratizar o partido. Queremos que o PDT tenha uma vida política interna permanente, não só em época de eleição. Há uma crise partidária na esquerda. Os partidos estão muito desorganizados e não formam seus militantes. Os jovens querem cursos, mas os partidos não dão. O PDT tem uns cerca de 600 jovens atuantes em Porto Alegre, que disputaram os DCEs da UFRGS e da PUCRS com chapa própria. Tem bastante dirigente jovem atuando. Mas eles estão sedentos por conhecimento e por discussão política. É um absurdo eles não saberem onde buscar conhecimento, quais livros ler. Eu fiz uma reunião com esses jovens na terça-feira (26), vou começar a dar cursos a eles nos sábados à tarde. Eles querem discutir e participar e a esquerda não está ocupando plenamente esse espaço de debates.

Sul21 – Por que não?
Carlos Araújo – Talvez por estar no poder. São as chamadas “consequências do poder”. Há uma certa acomodação. Todos os quadros políticos vão para o aparelho do Estado e ficam envolvidos em atividades burocráticas. Teria que haver uma maior formação política. Mas, ao mesmo tempo, os quadros precisam ir para o aparelho do Estado, precisam governar. É uma questão complicada.

“A principal questão colocada hoje é a do bem estar do conjunto da sociedade ainda no capitalismo. Uma revolução socialista não está na ordem do dia”

Sul21 – Com a chegada do PT e seus aliados ao poder, outros grupos políticos fazem fortes críticas à esquerda deste projeto que está no governo do país há 10 anos.
Carlos Araújo – Há uma fragmentação. Mas, veja bem: na sociedade, o prestígio do Lula e da Dilma é muito grande. Todas as pesquisas demonstram muito apoio da população. Mas essa força eleitoral fantástica não se expressa da mesma forma como grande força política. Há um descompasso.

Carlos Araújo defende que PT apoie candidatura do PDT ao governo gaúcho em 2018 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – No campo ideológico, mudou o debate na esquerda? Anteriormente, principalmente nos anos 1960 e 1970, havia mais forças organizadas defendendo a superação total do capitalismo. Essa bandeira já não é mais defendida por muitos desses grupos hoje.
Carlos Araújo – Isso muda com o governo Lula. O mundo impôs essa mudança. O Vietnã, a China, Cuba e a União Soviética mostraram que, nos termos em que colocaram, foi inviável a construção do socialismo numa época em que o regime capitalista ainda era muito forte no resto do mundo. Lênin, quando estava no poder na União Soviética, elaborou a Nova Política Econômica, a chamada NEP. Era uma política de desenvolvimento do capitalismo. O que está em discussão hoje é a viabilidade do socialismo. Ele é viável somente em um país? Ou é viável somente quando houver um grande desenvolvimento internacional do socialismo?

Sul21 – Na sua avaliação, existe algum país plenamente socialista hoje em dia?
Carlos Araújo – Não. Existe um certo nível de bem estar social em alguns países, como a Suécia. Mas isso foi conquistado em cima de outros países. O capital sueco no Brasil é muito forte. A principal questão colocada hoje é a do bem estar do conjunto da sociedade ainda no capitalismo. Uma revolução socialista não está colocada na ordem do dia. Quem quiser fazer isso pode ter um pequeno espaço em alguns lugares, não terá um espaço significativo. A realidade demonstra isso. O que fazem Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa em seus países? Eles estão desenvolvendo o capitalismo para tirar a população da miséria. Mas é claro que esses governos vão se fortalecendo e a América Latina vai se unindo.

“A internacionalização do capital é um processo em direção ao socialismo. É um processo de desenvolvimento capitalista, mas é, também, um processo em direção ao socialismo”

Sul21 – É possível passar desta etapa de gestor do capitalismo ao socialismo pleno?
Carlos Araújo – A internacionalização do capital é um processo em direção ao socialismo. É um processo de desenvolvimento capitalista, mas é, também, um processo em direção ao socialismo. O capitalismo vai se internacionalizando, rompendo fronteiras nacionais e se fragmentando. Hoje um controlador de uma grande empresa tem 10% do seu capital. Socializar essa empresa já não significa mais tirar das mãos de uma única pessoa. Se a GM (General Motors) for nacionalizada hoje, por exemplo, quem irá sentir essa medida a não ser uma meia dúzia de acionistas mais significativos, que possuem 5% ou 8% das ações? Não estou dizendo que já estamos no socialismo. Mas, como dizia Marx, a nova sociedade é gerada no útero da atual sociedade.

Ex-candidato à prefeitura de Porto Alegre, Carlos Araújo diz que Fortunati terá que desdobrar para atender base aliada | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – Voltando ao tema do PDT: o partido no Rio Grande do Sul é muito diferente do PDT nacional?
Carlos Araújo – O partido sempre foi bastante concentrado no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro. E sempre enfrentou resistências históricas em São Paulo. Mas isso não significa que não possam ter lideranças em outros estados, o PDT está se fortalecendo.

Sul21 – No Rio Grande do Sul, o PDT aderiu ao governo Yeda Crusius (PSDB) após perder as eleições de 2006 com Alceu Collares e, em 2010, concorreu ao lado de José Fogaça (PMDB). Como o senhor avalia essas ações?
Carlos Araújo – Foram equívocos. Isso se confirmou com a eleição da Dilma. Naturalmente, se formou uma aliança em torno da candidatura dela no Rio Grande do Sul, inclusive com setores do PMDB liderados pelo Mendes Ribeiro Filho. Esses equívocos fazem parte da política, mas não podem se repetir.

Sul21 – O que o senhor defende para o PDT em 2014 no Rio Grande do Sul?
Carlos Araújo – Há uma discussão em torno desse assunto. Uns defendem candidatura própria, outros querem aliança com o PMDB e outros querem permanecer apoiando o governo Tarso Genro. Eu defendo que o PDT apoie o atual governo em 2014, mas com uma maior participação política nas decisões e com um acordo para que o PT apoie o PDT em 2018. O PDT é muito forte no estado, precisa ter candidato, mas agora não é o momento, o partido ainda não está suficientemente organizado e com força expressiva para isso.

“Defendo que o PDT apoie Tarso em 2014, mas com uma maior participação política nas decisões e com um acordo para que o PT apoie o PDT em 2018”

Sul21 – O PDT precisa reivindicar a indicação do vice-governador em uma eventual aliança com Tarso em 2014?
Carlos Araújo – Isso é inevitável. Parece que o PSB está tentando um caminho próprio, isso faz com que o PDT passe a ser o parceiro próximo do Tarso.

Carlos Araújo entende que PSB deve apresentar um plano de governo para o país | Foto: Ramiro Furquim/Sul2

Sul21 – Em Porto Alegre, depois de muito tempo o PDT conseguiu vencer uma eleição para a prefeitura.
Carlos Araújo – Vários fatores influenciaram. Um deles foi a construção de uma ampla frente política. E os candidatos adversários não tinham muita força política e eleitoral. Isso também pode pesar a favor do Tarso. Com todas as críticas que se pode ter ao seu governo, não há uma liderança expressiva para enfrentá-lo.

Sul21 – A senadora Ana Amélia Lemos é a grande aposta do PP. Ela conquistou 3,4 milhões de votos em 2010.
Carlos Araújo – Ela tinha mais potencial antes das eleições municipais. Ela é uma candidata que tem uma expressão eleitoral, mas ficou enfraquecida por não seguir as determinações do seu partido em 2012.

“É justo que o PSB tenha candidato à Presidência, mas é preciso apresentar um programa de governo, dizer o que quer e a que vem”

Sul21 – Voltando a Porto Alegre, o senhor disse que um dos fatores que favoreceram a vitória de José Fortunati foi a construção de uma ampla aliança. Mas até que ponto uma aliança tão ampla e diversa se sustenta politicamente? A de Porto Alegre contém partidos aliados e partidos que fazem oposição aos governos Dilma e Tarso, como o DEM, o PPS e o PSDB.
Carlos Araújo – As alianças muito amplas são trabalhosas de serem administradas. O Fortunati vai ter que se desdobrar para conseguir governar com uma aliança tão ampla. Começam a vir exigências, principalmente fisiológicas. E essas alianças atingem, de certa forma, o perfil político do governo. Eu sou favorável a alianças. Às vezes são composições que não queremos fazer, mas não existe outra saída. É uma questão delicada, principalmente quando são alianças muito amplas, que podem levar o governo ao imobilismo.

Sul21 – Outro partido que está querendo disputar espaço político e se lançar eleitoralmente à Presidência é o PSB.
Carlos Araújo – O PSB tem sido um companheiro de viagem na esquerda. Provavelmente terá um candidato à Presidência, o que é justo, mas precisa apresentar um programa de governo. É indispensável que o PSB diga o que quer e a que vem. O PSB precisa explicar quais as suas diferenças com o PT, o PDT e o PCdoB. Isso ainda não está colocado. Tomara que o partido permaneça sempre como força de esquerda.

DOM GERALDO MAJELA: Papa corria risco de vida – por gerson camarotti / brasilia.df

Para cardeal brasileiro, Papa corria risco de vida

Na terceira reportagem da série especial do Jornal das Dez, os cardeais brasileiros que participarão do Conclave analisam os escândalos recentes na Igreja. A decisão de enfrentar os problemas foi um ato de coragem – dizem eles. Mas já há análise de que esse enfrentamento colocou em risco não só o pontificado, como também a vida de Bento XVI. Veja reportagem:

Ao falar nesta quarta-feira pela última vez em público, Bento XVI afirmou que enfrentou “águas agitadas” durante o papado. Uma referência aos escândalos e polêmicas que marcaram o curto pontificado – que começou em 2005.

Para dom Geraldo Majella, Bento XVI foi corajoso ao mudar a atitude da Igreja em relação aos casos de pedofilia. “Ele já colocou: não pode haver  convivência. Uma vez que tenha o caso, ele deve ser tratado  assim drasticamente. Imediatamente tem que  ser deposto da sua função e deposto totalmente, não pode assumir mais nenhum exercício da sua missão como sacerdote”, observou o cardeal emérito de Salvador.

Uma orientação simples. Mas de aplicação complexa. O cardeal emérito de Los Angeles, Roger Mahony,  é acusado de ter protegido padres que abusaram sexualmente de crianças. Mas, pelas regras da Igreja, nada impede que ele participe do Conclave que escolherá o próximo papa.

“Pelo direito canônico ele tem menos que 80 anos e tem direito de participar”, disse dom Raymundo Damasceno.

“Eu penso que tudo isso é da responsabilidade dele. Ele que terá que resolver isso em consciência”, completou dom Cláudio Hummes.

Até o início do ano passado, o fantasma da pedofilia atormentava o Vaticano. De lá pra cá, surgiram novos escândalos. O jornal italiano Il Fatto Quotidiano, revelou que havia um complô para assassinar Bento XVI.  A informação foi atribuída ao cardeal de Palermo, Paolo Romeo. O Vaticano negou. Mas foi a partir daí, que as intrigas internas da Santa Sé ficaram expostas.

Em fevereiro, foi denunciado o vazamento de documentos sigilosos que apontavam corrupção nos negócios da Igreja. O mordomo Paolo Gabrielle foi apontado como culpado.

Ao Jornal das Dez, o cardeal de Salvador admite, pela primeira vez, que o escândalo que ficou conhecido como Vatileaks colocou a vida do Papa em risco.

J10 – O senhor acha que o Papa Bento  XVI, ao tocar o dedo na  ferida desses dossiês, desse escândalo do mordomo, ele corria risco de vida?

Dom Geraldo Majella - Continuava a correr.

Meses depois, a demissão do presidente do Banco do Vaticano foi mais uma pedra no sapato vermelho de Bento XVI.

“O Papa Bento XVI foi muito corajoso.  Tomou decisões rigorosas. O presidente chegou a ser demitido, por razões que eu não saberia dizer. Mas ele quis, e ordenou que o banco obedecesse todas as normas da Comunidade Européia”, disse o cardeal de Aparecida.

J10 – O próximo papa terá que colocar o dedo na ferida para resolver essas questões?

Dom Cláudio Hummes - Com certeza. Isso sim. Isso será um desafio muito grande.

 

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Para bispo, cardeal italiano se disse convicto de complô para matar Papa

 

qui, 28/02/13
por Gerson Camarotti |

 

Apesar de negado publicamente, o próprio cardeal de Palermo, Paolo Romeo, chegou a relatar para alguns bispos próximos de que estava convencido da existência de um complô para matar Bento XVI. O Blog apurou que esse relato chegou a ser feito pessoalmente pelo purpurado italiano para um influente bispo da América Latina.

Há um ano, o jornal italiano Il Fatto Quotidiano revelou que haveria um complô para matar o Papa  e que o sucessor seria o cardeal de Milão, Angelo Scola. Segundo a reportagem, a revelação teria sido feita pelo cardeal de Palermo numa conversa reservada, durante visita à China.

O relato dessa conversa teria sido entregue ao Papa num documento confidencial escrito em alemão pelo cardeal colombiano Dario Castrillón Hoyos. Prefeito emérito da Congregação do Clero, o colombiano é um grande amigo do Papa.

“O Papa não foi assassinado. Mas renunciou ao cargo e agora Scola aparece como favorito. Isso tem sido comentado no Vaticano”, ressaltou ao Blog um importante prelado brasileiro, preocupado com o clima de beligerância na Cúria Romana.

Quando a notícia foi publicada, o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi disse que a informação estava “tão fora da realidade e tão pouco séria” que não podia ser levada em consideração. “Parece incrível e não quero nem comentar”, acrescentou Lombardi, na ocasião.

Já o cardeal de Palermo, Paolo Romeo, negou as informações e disse que não havia qualquer fundamento na reportagem. Romeo admitiu ter ido à China, mas disse que foi “uma viagem particular” e “de curta duração, limitada só à cidade de Pequim.

Nelson Rodrigues – a última entrevista

Nelson Rodrigues, por Tito Oliveira

Entrevista de Nelson Rodrigues, concedida em outubro de 1980, ao jornalista Tom Murphy, do jornal “Latin American Daily Post”. O dramaturgo morreria dois meses depois.

Tom Murphy:
Fui recebido por um homem pálido, até mais alto do que eu imaginava, de calça azul mal ajustada pelos largos e famosos suspensórios; um homem lento no andar e na fala. Lento de dar pena. Anos depois conheci Alfredo Machado, dono e cabeça da Editora Record, a quem relatei a experiência daquele dia: “Entrevistei o Nelson Rodrigues dois meses antes da morte dele; ele já estava doente, muito mal mesmo”. O grande mentor de tantos escritores brasileiros riu: “Nelson estava muito mal sempre”. Naquele ensolarado outubro de 1980, tive o privilégio de conversar durante uma hora e pouco — sentado, como tantos de seus personagens, diante da simples mesa de cozinha — com Nelson Rodrigues. O cenário era bem Nelson: um apartamento escuro e assombroso na beira da alegre praia carioca do Leme, um cheiro leve, não do mar, mas de desinfetante. Na época eu trabalhava para o “Latin American Daily Post”, jornal de língua inglesa, que publicou a entrevista dias depois. Foi só em dezembro que eu soube da real dimensão da doença de Nelson, quando ele deu entrada num hospital. No mesmo mês, dia 21, ele morreu, aos 68 anos.

A partir da morte dele, a entrevista, que permanecia inédita em português, virou, para mim, uma grande curiosidade, quase um talismã. Eu fui um dos últimos a falar com Nelson Rodrigues, o famoso e, para tantos, infame e tarado homem das letras — o par de Tennessee Williams e Jean Genet da dramaturgia brasileira. Já no fim, já enfartado e safenado, mas nada manso, era lúcido e atuante, o maior dramaturgo nacional.

Qual é sua visão sobre o papel dos intelectuais no Brasil?
Os intelectuais brasileiros não têm nenhuma importância. Há algumas exceções, como o grande sociólogo Gilberto Freyre, mas estes constituem um grupo seleto.

Os escritores brasileiros, pelo menos, conseguem mostrar a realidade brasileira?
A cultura brasileira não é uma cultura escrita. O pouco que existe hoje da cultura brasileira é estéril. Não se escrevem romances, poemas e ensaios como antes. E só é assim que o escritor tem possibilidade de tocar nos assuntos mais profundos. O que falta entre os intelectuais brasileiros de hoje é paixão. Não dá nem para ler os jornais. As notícias são velhas! Antigamente, até os jornais eram mais dinâmicos. Um jornal como “A Noite” saía com as notícias do mesmo dia! E com muito espírito. Do ponto de vista da cultura, o Brasil hoje vive uma fase de transição. Existe uma literatura aguardando para nascer. Vai nascer cedo ou tarde, pelo menos eu espero. A literatura brasileira aguarda um gênio para tirá-la do tédio. Por enquanto, porém, não há gênio à vista. (Em 1980, os escritores e intelectuais brasileiros pareciam confundir-se com políticos, num país que corria para a mudança do regime militar para a democracia. Nelson Rodrigues criticava essa posição. Ao mesmo tempo, dizia que o mundo estava sendo dominado pelos “idiotas”.)

Qual sua opinião sobre intelectual e política na atualidade brasileira?
O intelectual que entra na política não faz nenhum bem para ninguém. Em primeiro lugar, não entende nada da política. Antigamente, a política era uma profissão para pessoas com determinados conhecimentos e hábitos. Era um dom. Todo mundo virar político é ridículo. Mas, hoje, os intelectuais vão aos comícios. Para quê? Para aparecer, tirar foto e vê-la nos jornais. Para o artista, a melhor maneira de servir a pátria é servindo arte.

Qual é sua avaliação do Brasil de hoje como sociedade?
A verdadeira história do Brasil só vai começar com a chegada em cena de uma grande figura, um Napoleão. Os Estados Unidos tiveram George Washington, a França, Napoleão. Nós tivemos Juscelino Kubitschek, um grande homem, de certa forma, com grandes qualidades, mas quando eu falo de um Napoleão, eu me refiro a algo muito maior do que um Juscelino. A China, por exemplo, teve Mao [Tsé-tung] e Chiang Kai-Shek, homens que correspondiam às necessidades da época.

E o Brasil de hoje?
Antigamente, todos eram idiotas e o sabiam. O mundo tinha milhões de idiotas, todos humildes. Muito sabiamente, eles se consideravam idiotas. Mas hoje em dia, quase todas as pessoas se consideram competentes. Os idiotas querem ser professores, ministros, presidentes. O nosso mundo é dominado pelos idiotas. A única maneira de combater essa onda de idiotice é através de um homem com o magnetismo de um Napoleão. O problema do Brasil é o mesmo de todos os países subdesenvolvidos: a falta de autoestima. Quando um povo não acredita em si mesmo, não acredita em nada. Bom exemplo disso é a mania do povo brasileiro  de massacrar a seleção de futebol. Isso me irrita profundamente. É só a seleção errar em uma coisa e todo o País vem em cima. O brasileiro só sabe torcer pela seleção quando ela está ganhando. Quando perde, vem em cima com chicote.

O sr. disse que o homem competente não tem vez. E o artista brasileiro?
Não. Eu, por exemplo, sempre tive de trabalhar como jornalista. Não que eu  despreze a profissão. Mas, nos Estados Unidos, um escritor lança um best-seller e já pode se aposentar. No Brasil, você tem de trabalhar até o fim da vida. Se eu tivesse escrito tudo nos Estados Unidos que eu escrevo aqui, eu hoje seria um homem milionário. Mas em vez disso, eu ainda tenho de trabalhar para comer.

Eu gostaria que o sr. falasse um pouco sobre a censura e o modo como ela afetou sua carreira.
Tenho muito a falar sobre censura. Sou autoridade no assunto. Nos últimos 35 anos eu tenho sido o autor brasileiro mais censurado. Censura é uma barbaridade, uma monstruosidade. O único papel legítimo para a censura é classificatório, ou seja: pode somente limitar certas coisas para certas faixas etárias. Não pode limitar, de maneira alguma, a criatividade do artista.

O sr. falou de faixas etárias. A propósito, qual a sua opinião sobre a juventude hoje?
Fui recentemente a um programa de televisão e me perguntaram se eu tinha alguma coisa a dizer aos jovens brasileiros, ao que respondi: “Que deixem de ser infantis”, somente. Nunca a juventude foi tão pouco generosa, tão pouco heroica, tão pouco humana. Espero que um dia a juventude tenha um grande renascer. É necessário. Os jovens da França praticamente tomaram o poder em 1968. Deram as costas a De Gaulle. Mas, uma vez no controle das universidades, eles não fizeram absolutamente nada. Descobriram que não tinham nada a dizer. Era tudo puro exibicionismo. Afinal, o que tem a dizer um jovem de 17 ou 18 anos? Nada. São os velhos que detém a sabedoria e que podem assumir a liderança. De Gaulle era velho. Mao era velho. Chiang era velho.

Suas peças foram sempre polêmicas. Por que escolheu temas relacionados ao sexo e à violência, tão controvertidos?
Nas minhas obras eu tento transmitir algo que vem de dentro de mim. É trabalho duro, um sacrifício. E acho que, para escrever bem, o escritor precisa de algumas obsessões, algumas ideias fixas, que sustentam a sua obra. Sem isso, o trabalho vira um caos. Um dos meus temas preferidos é a violência humana. O ser humano é um assassino natural. O ser humano é feroz. É somente isso, uma verdade e, portanto, uma obsessão.

Qual é a avaliação que faz do teatro brasileiro hoje?
Era muito melhor antigamente. Hoje todo autor virou demagogo.

Quais os seus autores favoritos? Brasileiros e estrangeiros.
Meus autores brasileiros prediletos são Gilberto Freyre, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Machado de Assis e Euclides da Cunha. Gosto muito de Dostoiévski. Gosto dele desde jovem. E gosto de Tolstói. A Rússia tem, ou tinha, uma literatura de boa qualidade. Um país onde um escritor pode ser internado num hospital para doentes mentais porque escreveu algo contra o governo não pode ter uma literatura importante. Os Estados Unidos tem um dos maiores dramaturgos do século 20, Eugene O’Neill. Também tem Faulkner e Hemingway. Da França, eu gosto de Gide, Albert Camus e alguns outros. Não suporto Sartre. Ele traiu a condição de escritor quando virou político. Não me entusiasmo muito com Borges. Hoje em dia, eu estou na fase de ler os clássicos de novo. Um livro bom é sempre novo.
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Fonte: Entrevista publicada pelo jornal “Latin American Daily Post”, em outubro de 1980. E republicada no jornal “O Estado de São Paulo”, em julho de 2002.

RAFAEL CORREA: “Problema da América Latina sempre foi a elite, que nunca trabalhou para o bem comum”

Um dia depois de ser reeleito, presidente do Equador traça suas principais metas para seu próximo mandato

Agência Efe

Rafael Correa pretende deixar a vida pública após 2017 para se dedicar à sua família

Ainda antes de ser reeleito como presidente do Equador, Rafael Correa definiu a consolidação de sua Revolução Cidadã como seu principal objetivo para os próximos quatro anos.

Vencedor do pleito do último domingo com mais de 55% dos votos e sem a necessidade de disputar um segundo turno, Correa coloca a elite dominante e a imprensa do país como os maiores adversários de seu governo. “Eles nunca trabalharam para o bem comum.”

Em entrevista realizada um dia depois das eleições, o presidente equatoriano também analisa a situação política da América Latina, critica a política externa de Barack Obama para a região e fala sobre seus planos para 2017, quando pretende deixar a vida pública.

Russia Today (RT): Para começar, gostaria de saber como passou a noite de sua vitória. Teve tempo para dormir o descansar um pouco?
Rafael Correa: Nesse trabalho, não há muito tempo para descansar. Chegamos em casa à 1h da manhã. Faço o possível para não perturbar a vida cotidiana de minha família. Então, às 7h levo meus filhos à escola e dali vou para o Palácio, continuar trabalhando. Temos cansaço acumulado. Já estamos habituados.

RT: As pesquisas previam 60% dos votos. Acertaram (com 70% das urnas apuradas, Correa tem 57% dos votos).
RC: É, foram bem precisas, porque havia indecisos. Temos alguma experiência… Tínhamos 62-61%, mas havia cerca de 20% de indecisos, os que não se haviam decidido por proposta forte como a nossa; o mais provável é que escolhessem outros setores políticos. Assim, sabíamos que os números poderiam ser menores. Seja como for, começamos a campanha com 52%. Nosso objetivo era não perder nenhum desses votos. Começamos a subir e chegamos a 57-58%. Só tenho a agradecer ao povo equatoriano.

RT: Mas não houve nervosismo… 
RC: Algum nervosismo sempre há. Trabalhamos, na campanha, como se não tivéssemos nenhum voto. Foram 32 dias muito intensos, fiquei sem voz, mas foi uma bela campanha, bastante bem coordenada, com mensagem profunda. Tudo funcionou quase perfeitamente: equipe de campanha, organização política, autoridades, militantes, os comitês da Revolução Cidadã, que são grupos de cidadãos que se organizam para dar apoio a essa revolução. E aí estão os resultados. São resultados contundentes. E insisto: só tenho a agradecer ao nosso povo. Claro, também, que mantenho o compromisso de não falhar com os equatorianos.

RT: O senhor diz que foi uma bela campanha. Mas o senhor criticou os meios eletrônicos e há boatos de que a CIA prepara um golpe para desestabilizar o Equador. De que se trata, exatamente?
RC: Foi uma bela campanha, de nossa parte, porque foi com alegria, música, um programa muito bem elaborado de governo, resumido em 10 eixos, com 35  propostas muito concretas. Sinceramente, é o melhor plano de governo da história do Equador.

Mas, sim, enfrentamos campanha suja, na qual intervieram serviços de inteligência daqui e do exterior. Alguns dos nossos opositores, os menos éticos, são militares da reserva, com experiência em inteligência, os quais, quando não conseguem vencer nas urnas, trabalham para destruir a moral, agridem a família, agridem a honra de amigos nossos. Tivemos, sim, algumas dessas patrañas e, sim, foram organizadas, principalmente, pelas redes sociais. Graças a Deus o povo equatoriano soube ignorá-las. A CIA também… falou-se, mas nada foi provado, que haveria 87 milhões de dólares para financiar a oposição, com o objetivo de desestabilizar o governo, para impedir que vencêssemos e, no caso de vencermos, como aconteceu, para nos desestabilizar. Não se pode nem confirmar nem desmentir essas denúncias gravíssimas, sem investigação muito mais profunda.

RT: Sua imagem não foi abalada durante a campanha?
RC: Não. Mas sem dúvida houve campanha suja. E a campanha de sempre, de alguns veículos que tomam partido e não fazem o trabalho de informar.

RT: Em 2010, houve aqui uma tentativa de golpe de Estado que ninguém previu naquele momento. Deve-se esperar algo parecido agora? Provocação semelhante?
RC: Não se pode excluir completamente o risco. Olhe à volta: o contexto daquele golpe de Estado foi a imprensa desinformando… E os membros da oposição política, que se diz democrática, foram os primeiros a apoiar os golpistas, pediram a renúncia do presidente – o mais violentamente agredido. Tomaram medidas para desestabilizar o governo. E agora, na campanha, proclamavam o quanto respeitam a Constituição.

Evidentemente, não se pode excluir o risco da imprensa corrupta – porque também há melhor imprensa –, a imprensa que nada tem de ética, a mesma imprensa que já não tem poder para impor e derrubar presidentes. Ontem, ficou demonstrado. Mas, sim, aquela imprensa corrupta ainda tem capacidade para provocar grande dano. Sempre podem difundir alguma outra mentira, que, sim, pode nos prejudicar muito. Por isso, não se exclui essa possibilidade. Temos de nos manter muito atentos, sempre, a essas tentativas de desestabilizar governos eleitos.

Grande parte do que houve dia 30/9/2010 aconteceu porque a imprensa informou mal, disse aos policiais e militares que perderiam benefícios, salários, até as medalhas… De fato, foram canceladas várias dessas coisas, que, em seguida, foram unificadas em salário muito maior. Mas isso, precisamente, a imprensa não informou. Enganaram muita gente. E, sim, podem criar outra vez clima semelhante. É preciso atenção extrema.

RT: Seu opositor nessas eleições, Guillermo Lasso, que alcançou 24% dos votos, disse que o senhor é o presidente dos ricos.
RC: Eu?! Considero Guillermo Lasso homem inteligente e não acredito que tenha dito tal coisa. Até que o ouça dele mesmo, dou-lhe o benefício da dúvida, porque seria a maior tolice que Lasso jamais disse. E, afinal, não chegará aos 24%. Faltam alguns votos.

RT: Mas há quem diga também que algumas reformas feitas no país, reformas tributárias, por exemplo, funcionam em benefício só dos ricos. O que o senhor tem a dizer?
RC: Que reforma tributária beneficiou só os ricos? [risos]

RT: Foi o que disseram os opositores.
RC: A única proposta de todos os demais candidatos foi reduzir impostos. Porque, pela primeira vez no Equador, os ricos pagam impostos. A evasão ficou impossível. Antes, eles nem se preocupavam se os impostos eram altos ou baixos, porque não pagavam imposto algum, sonegavam e nada lhes acontecia. Por isso, agora que a sonegação e a evasão ficaram impossíveis, a proposta de eliminar todos os impostos foi derrotada nas urnas, já duas vezes. Mas os ricos nunca pagaram impostos e agora pagam. Duvido, sinceramente, que Guillermo Lasso, pessoa inteligente, tenha dito tal barbaridade. Em todo o caso, é extremamente claro quem é o candidato das elites no Equador.

RT: No ano passado, houve muita polêmica em torno do caso de Julian Assange. Quais os objetivos do Equador, quando decidiu dar-lhe asilo?
RC: Que polêmica? Por que teria havido polêmica? Da próxima vez que a Suécia, onde vivem muitos asilados latino-americanos, decidir dar asilo a alguém, também haverá ‘polêmica’? Na minha opinião, há, nessa história, muito de neocolonialismo. Este governo, este presidente e este país não aceitarão essas manobras. Não temos de pedir licença a ninguém para exercer nossa soberania. É figura definida, bem claramente, no direito internacional. O Equador exerceu a própria soberania, nos termos do Direito Internacional, e não devemos explicações a ninguém, nem temos de pedir desculpas, nem de pedir autorização a seja quem for.

Agência Efe
Na prática, toda a solução da questão Julian Assange depende hoje da Europa. Se, amanhã, a Grã-Bretanha lhe dá o salvo conduto, acaba o problema. Se a Suécia o interrogar, como a lei sueca admite, por vídeo, como pode fazer ou enviando um Promotor à Embaixada do Equador em Londres, como também pode fazer, acaba a confusão. Assange foi convocado para interrogatório. Não há nem sequer acusação formal contra ele, de coisa alguma. Se o advogado do Sr. Assange nas cortes europeias, o Dr. Baltasar Garzón, obtiver autorização para que o asilado deixe a Embaixada do Equador em segurança, acaba-se a questão. Agora, tudo depende da Europa. O Equador fez o que tinha de fazer, no exercício de sua soberania. Não pedimos nem vamos pedir licença a seja quem for. Não devemos desculpas a ninguém, nem explicações. País algum jamais pediu desculpas a alguém, por exercer a própria soberania.

RT: E quando o senhor supõe que se resolverá isso?
RC: Amanhã, se a Grã-Bretanha quiser resolver. Mas há aí muita soberba, muita arrogância, muito de neocolonialismo. Querem de nós explicações por conceder um asilo? Como assim? O que significa isso E querem também que revertamos decisão já tomada. Não o faremos. Nunca.

RT: O senhor acredita, como o próprio Julian  Assange, que pode acontecer de ele ser extraditado para os EUA, não para a Suécia?
RC: Bem… Havia alta probabilidade. O caso do Sr. Assange foi estudado detidamente, durante várias semanas, aqui no Equador. Entendemos que aquele pedido de asilo tinha fundamento e concedemos o asilo.

RT: Digamos que, ontem, não foi noite só de sua vitória, que foi uma pequena vitória também para Hugo Chávez, que voltou à Venezuela. O senhor foi dos primeiros a visitá-lo em Cuba e dedicou sua vitória também a ele. O que sabe de seu estado de saúde e quando imagina que possa voltar às suas funções?
RC: Bem, estive com ele antes da operação, sem dúvidas operação delicada, mas quem o visse, sem saber da doença, diria que estava perfeitamente normal, com bom ânimo, muito bom aspecto. Mas, sim, que se tratava de operação delicada, todos sabíamos. A notícia que temos é de que se está recuperando. Excelente notícia, que tenha podido voltar à sua amada Venezuela. Ama Cuba, mas a Venezuela é sua pátria, a terra natal, e estou certo de que estar em casa será o melhor remédio para a rápida recuperação de Hugo. Desejo-lhe rápida recuperação. Que não seja cabeça dura. Das primeiras coisas que fez, depois de agradecer à Venezuela, foi mandar-me felicitações… Ele agora tem de não pensar, por uma semana, no que acontece na América Latina e concentrar-se na recuperação.

RT: O senhor acredita que a recuperação seja possível?
RC: Não sei. São desejos. Não sei se realizarão.

RT: Digamos, no caso de que Hugo Chávez não possa voltar às funções de antes. O senhor está disposto a assumir papel mais importante na América Latina?
RC: Sempre me fazem essa pergunta e, com todo o respeito, o que mostra é desconhecimento do que se passa na América Latina. Quem aqui está buscando algum protagonismo? Hugo tem liderança natural.

RT: Mas a questão existe, na arena internacional. Vê-se como…
RC: Há alguns fatos, há práticas, mas ninguém busca ascensão continental. Essas coisas não funcionam assim, entre nós: se vou ser novo líder depois de Hugo, mas Hugo está aí e continua. Então eu seria o vice-líder. Nada disso funciona assim, aqui. Estamos aqui para servir o povo, ninguém está procurando… E falo por mim, por Cristina, por Evo, por Hugo, por Dilma, por todos os coordenadores desse processo de mudança histórica na nossa América Latina. Nenhum de nós busca poder para si, nada queremos para nós; queremos tudo para os nossos povos. Estaremos onde o povo mais necessite de nós, como o mais humilde dos cidadãos, como qualquer operário que constrói a pátria todos os dias, o camponês ou o presidente da República, mas sempre para servir ao povo, sem ambições pessoais.

RT: Barack Obama foi reeleito. Hugo Chávez  e o senhor, também. Todos os atores chaves nesse hemisfério mantêm as respectivas posturas. Até que ponto, com os mesmos jogadores, pode mudar a situação no continente?
RC: Mudar em que sentido?

RT: No sentido das mudanças que esse bloco queria. Para a Revolução Cidadã, por exemplo.
RC: Entendo que o presidente Obama seja boa pessoa, mas infelizmente nada mudou na política externa dos EUA. A moral dupla prossegue. Insistem em dar-nos aulas de Direitos Humanos e tal, e mantêm as torturas em Guantánamo. Se os grandes ditadores por aqui, os mesmos que massacram sua gente, se são aliados incondicionais dos EUA, viram grandes democratas, e são promovidos, dão-lhes emprego e os põem a dar aulas em Washington. E presidentes totalmente democráticos, você viu, ontem, como esse que aqui lhe fala, que dá a vida em defesa dos direitos humanos de seus cidadãos, se não somos seguidores incondicionais de Washington, somos nós os ditadores, os que atentamos diariamente contra a liberdade de imprensa, contra as liberdades fundamentais. Isso, infelizmente, não mudou.

Repito que o presidente Obama parece ser bom ser humano, boa pessoa, mas a política externa dos EUA, sobretudo para a América Latina, absolutamente não mudou. E tem de mudar, porque essa dupla moral é inaceitável.

RT: Depois de vencer as eleições, o senhor disse que sua meta é que a Revolução Cidadã seja irreversível. Mas que passos devem ser tomados para que assim seja?
RC: Temos de acabar de consolidar a nova instituição do Estado. O ponto de partido é mudar as relações de poder. O problema da América Latina sempre foi as elites dominantes. Nunca foram elites progressistas, modernizadoras, que trabalhassem para o bem comum. Foram elites que se apropriaram dos frutos do progresso técnico e apropriaram-se deles de forma excludente, para ter seus bairros exclusivos – em um dos quais mora o Sr. Lasso, que diz que eu representaria as elites.

A senhora, se quiser entrar no condomínio onde mora o Sr. Lasso, onde há lagos artificiais, precisa ter um cartão magnético de identificação. Eu não entro, porque sou escurinho. Para ter esses bairros exclusivos, emparedados, para ter suas escolas exclusivas que nem por isso são as que dão melhor educação, mas são tão caras que só os ricos podem frequentá-las… E os ricos casam-se entre os ricos. Para casar ‘bem’ também os filhos e perpetuar a linhagem e a dominação. Eles têm seus clubes exclusivos…

Esse é o tipo de elite que manobrou a América Latina. São os poderes que manobraram nossos países, que se traduziram em estados aparentemente burgueses, de fato, aristocráticos, que representam uns poucos, bem poucos, excluindo as grandes maiorias. A Revolução Cidadão implica, basicamente, mudar essa relação de poderes com vistas a atender os cidadãos, em função das imensas maiorias, em função do ser humano, antes do capital. Porque o capital também nos dominou como está dominando na Europa, vale lembrar. E converter esses estados só aparentemente burgueses em estados integrais, populares, que nos represente todos e todas.

Já avançamos muitíssimo, mas tudo ainda pode ser perdido. Essa é a mensagem do povo equatoriano, nesta reeleição. Temos de tornar irreversíveis as mudanças que já alcançamos nas relações de poder, para que, no Equador, os cidadãos continuem a governar como governam hoje. Para que nunca mais voltem a governar, aqui, os banqueiros, os meios corruptos de comunicação, os países hoje hegemônicos, as burocracias internacionais como o FMI e, ainda pior, o capital financeiro – todos os agentes que dominavam e governavam o Equador, antes da Revolução Cidadã.

RT: Trata-se também de mentalidade. Quanto mudou a mentalidade das pessoas, nesse sentido?
RC: Mudou muitíssimo. A senhora dizia, antes da entrevista, que não conhecia o Equador, que só conheceu o país este ano. Mas se tivesse vindo há seis anos, não havia estradas, não havia bons serviços públicos, não havia nada. Recebemos um país destroçado. Mas, mais importante que as estradas, as escolas, os hospitais, as represas, os portos e aeroportos, é a mudança na mentalidade dos equatorianos. Nos haviam castigado tanto, uma oposição com líder político medíocre, uma imprensa que, para nos controlar, roubava-nos qualquer esperança, nos convencia de que éramos os mais inúteis, mais corruptos, mais preguiçosos seres do planeta. Tanto nos bombardearam com esse discurso, que se pode definir a situação, antes, como o país da desesperança.

Essa é a maior mudança que observo: vê-se que as pessoas estão motivadas, orgulhosas do que se faz em sua terra, sentem-se representadas pelo próprio governo, recuperaram a autoconfiança. É o essencial para seguir adiante, mais importante que as estradas e a infraestrutura reconstruída: a atitude das pessoas. E essa atitude mudou radicalmente. Mudança de 180 graus.

RT: Mas  eles têm também muita confiança no senhor e em seu governo. Sua popularidade é incrível e continua crescendo. A que se deve isso, depois de tantos anos de governo?
RC: É como diz Cristina Kirchner [presidente da Argentina]: são processos inéditos na América Latina. Antes, um governo vencia eleições com 52% dos votos. Em um ano, o apoio popular despencava para 15%, quer dizer, o desgaste no exercício do poder era muito rápido. Agora é o contrário: o apoio popular consolida-se. Uma das explicações, de nossa querida amiga Cristina é que, afinal, os governos se parecem com o povo. Antes, eram governos que queriam imitar estrangeiros, obedeciam a interesses estrangeiros falavam espanhol, mas pensavam em inglês, quando pensavam. Hoje temos governos honestos, que trabalham, que cometem erros, mas são dedicados, sacrificam-se, amam o país como o amam os que os elegem para representá-los. As pessoas, afinal, sentem-se representadas pelos governos.

RT: Que visão o senhor tem para o Equador dentro de quatro anos? Como vê o país?
RC: Quando sair, quero deixar um país. Obviamente, não conseguiremos resolver todos os problemas. Mas somos o país que mais reduz a pobreza na América Latina; somos o país que mais reduz a desigualdade, e a América Latina é a região mais desigual do mundo. Somos uma das três economias que mais crescem. Somos a economia com menor taxa de desemprego, 4,1%. Mas, apesar de todos esses sucessos, não conseguiremos, nos próximos quatro anos, resolver todos os problemas. Ainda haverá pobreza, desemprego, desigualdade.

O importante é deixar o país posto, irreversivelmente, na trilha rumo à justiça social, ao desenvolvimento, na trilha desse conceito que propusemos ao mundo – o conceito do buen vivir, do bom viver. Para isso, como já disse, o básico é mudar as relações de poder: que o Equador seja governado pelo povo do Equador, não por banqueiros, não por empresas jornalísticas, não por países estrangeiros. Que, no Equador, o ser humano domine. Não o capital.

RT: Senhor presidente, há também quem discorde que a pobreza aumentou, pois há mais gente que recebe a ‘bolsa pobreza’. Queria, por favor, que o senhor explicasse.
RC: É o argumento que a imprensa inventou. É tão infantil. Quem diz que o Equador é o país que mais reduziu a pobreza não é o meu governo: é a ONU. Não são indicadores locais. São números da Comissão Econômica para a América Latina, CEPAL, da ONU. Para desmentir esses números, inventaram um argumento infantil.

Hoje transferimos dinheiro para os mais pobres, principalmente para mães que trabalham em casa, as mais pobres da população. Quando chegamos ao governo, eram 1.200.000; hoje, são cerca de 1.900.000. A imprensa olha esses números e conclui: a pobreza aumentou… Ninguém jamais considera que as estatísticas eram precárias, que a base era errada. Nós corrigimos a base. Incluímos cerca de 400 mil mães excluídas e retiramos da base 200 mil que não deviam estar lá. De fato, foram incluídos novos 200 mil que recebem o auxílio-pobreza. Nos depuramos, corrigimos a base.

A imprensa ‘interpreta’ que há, hoje, mais pobres… Dia seguinte, não há estatísticas de tuberculose. Construímos a pesquisa e a estatística. Descobre-se que há 20 casos de tuberculose. A imprensa ‘noticia’: “Aumentou a tuberculose”. Nada disso. Hoje já temos estatísticas.

Antes, o auxílio-pobreza não era dado aos portadores de necessidades especiais. Agora, com as políticas de vanguarda que se desenvolvem no Equador, cerca de 150 mil deles já recebem essa transferência monetária, que é de 50 dólares. Antes, os idosos não recebiam o auxílio, nem tinham direito a aposentadoria. Dos 700 mil idosos sem aposentadoria que temos no Equador, 500 mil já recebem a transferência monetária.

Some tudo e terá os quase 2 milhões de auxílios que distribuímos. Para os gênios da mídia, significa que a pobreza aumentou. Merecem o Prêmio Nobel de Economia. Veja o nível de oposição e os jornais, jornalistas e redes comerciais de comunicação que temos de enfrentar aqui… A pobreza, aí sim, parece, sem remédio: pobreza intelectual e ética.

RT: O senhor disse também que é seu último mandato. Que se vai, depois desses quatro anos. Não imagino uma pessoa como o senhor, deixando serviço por terminar. Mas é impossível terminar todas essas mudanças em quatro anos.
RC: Sim, mas também há outros que podem continuar construindo a patria nueva. Antes de ser presidente, estive, toda a vida, na Universidade. Era feliz dando aulas, de tênis, jeans, camiseta. E também fui muito feliz na presidência, cuidando de fazer o melhor possível pelo meu povo. Quando me aposentar, se Deus quiser, também serei feliz com minha família. Devo muito à minha família, cuja vida familiar foi muito gravemente perturbada, porque, eu na presidência, minhas filhas perderam privacidade, têm de andar com seguranças, recebem ameaças, ouvem campanhas horrendas de difamação, realmente repugnantes. Então, devo esse tempo à minha família.

E também, como a senhora já disse, minha presença é forte demais. Com certeza não perturbarei a existência de quem venha depois de mim, se continuar na política. É o que menos desejo.

Temos sido muito cuidadosos na preparação de quadros, que venham os novos quadros. Depois desses quatro anos, penso retirar-me, não só da presidência, mas também da vida pública.

RT: O senhor mencionou sua família. Dizem que leva seu filho à escola.
RC: Sim. Hoje cedo, deixei os dois na escola.

RT: Hoje, um dia depois da reeleição? E como encontra tempo para…
RC: Sou rápido. Retomar a vida normal, na medida do possível. Porque, não se engane, tudo isso altera a vida. Minha família não mora aqui no Palácio. Continuamos na mesma casa de classe média, ao norte de Quito. Mas foi preciso instalar segurança, sistemas de vigilância… Tudo isso atrapalha. Há quem goste, mas, para mim, essa é uma das partes mais difíceis da presidência: ter de viver cercado de seguranças, a sensação de perigo sempre iminente, nenhuma privacidade. Além dos que vivem para justificar o próprio ódio: “Correa, odeio você.” E põe-se a inventar ataques, até que … “Ah, já entendi porque odeio você: porque você fez tal coisa…” Têm sempre de provar algum mal, para justificar o ódio. Nada é mais terrível que isso!

ASSANGE: ” liberdade da NET está ameaçada”

Entrevista com Assange: “É bom que os governos tenham medo das pessoas”

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LONDRES – A Internet está se transformando no maior instrumento de vigilância já criado e a liberdade que ela representa estaria seriamente ameaçada. A avaliação é de Julian Assange, criador do Wikileaks e que, há sete meses, vive na embaixada do Equador em Londres. Para ele, a web redefiniu as relações de poder no mundo, se transformou no “sistema nervoso central hoje das sociedades” e chega a ser mais determinante que armas. O problema, segundo ele, é que esse poder está agora se virando contra as populações.

O australiano recebeu a reportagem do Estado para uma entrevista sobre seu livro “Cypherpunks, Liberdade e o Futuro da Internet”, que está sendo lançado no Brasil nesta semana pela Boitempo Editorial.

Apesar de aparentar relaxado, não escondia a palidez de sete meses dentro de um escritório. Em junho de 2012, ele optou por pedir asilo ao Equador, diante de sua iminente deportação para a Suécia, onde é acusado de assédio sexual. Segundo ele, sua decisão de pedir refúgio ao governo de Quito tem como meta evitar sua extradição da Suécia para os EUA, onde seria julgado pela difusão de documentos secretos. O Equador lhe concedeu asilo. Mas a polícia britânica indicou que, assim que ele pisar para fora da embaixada em direção ao aeroporto, seria detido. O resultado tem sido um confinamento sem data para acabar.

Mas essa situação não o deixou menos polêmico. Segundo ele, ao colocar informações em redes sociais, internautas pelo mundo estão fazendo um trabalho de graça para a CIA. “Hoje, o Google sabe mais sobre você que sua mãe”, disse. “Esse é o maior roubo da história”.

Assange ainda defendeu seu anfitrião, o presidente equatoriano Rafael Correa, diante de sua ação contra jornais no Equador e que chegou a ser criticado pela ONU.

Sobre o futuro do Wikileaks, Assange já prometeu que, em 2013, um milhão de novos documentos serão publicados. Ao Estado, ele garantiu: “haverá muita coisa sobre o Brasil””. Ao aparecer para a entrevista, Assange vestia uma camisa da seleção brasileira, num claro esforço de criar simpatia no Brasil e numa operação de imagem cuidadosamente trabalhada.

Eis os principais trechos da entrevista e as fotos de Joao Castelo Branco, as primeiras publicadas por um jornal brasileiro desde que o australiano pediu asilo ao Equador.

Chade – A Internet é o símbolo da emancipação para muitos e foi apresentada como a maior revolução já feita. Mas agora o sr. traz a ideia de que há uma contra-ofensiva a isso tudo. O sr. considera que a Internet está em uma encruzilhada ?

Assange – Diferentes tecnologias produzem mais poder para estruturas existentes ou indivíduos e isso tem sido a história do desenvolvimento tecnológico, ao ponto que podemos ver a história da civilização humana como a história do desenvolvimento de diferentes armas de diferentes tipos. Por exemplo, quando rifles, que podiam ser obtidos por pequenos grupos, eram as armas dominantes em seu dia, ou navios de guerra ou bombas atômicas. E isso define a relação de poder entre diferentes grupos de pessoas pelo mundo. Desde 1945, a relação entre as superpotências dominantes tem sido definida por quem tem acesso às armas atômicas. Mas o que ocorre agora é que Internet é tão significativa que está começando a redefinir as relações de força que antes eram definidas pelos diferentes sistemas de armas que um país tinha. Isso porque todas as sociedades que tem qualquer desenvolvimento tecnológico, que são as sociedades influentes, se fundiram totalmente com a Internet. Portanto, não há uma separação entre o que nós pensamos normalmente que é uma sociedade, indivíduos, burocracia, estados e internet. A internet é o alicerce da sociedade, suas artérias, os nervos e está conectando os estados por cima das fronteiras. A Internet é um centro, se não for o centro, da nossa sociedade. Ela está envolvida na forma que uma sociedade se comunica consigo mesmo, como se comunica entre elas. Não é só simplesmente um sistema de armas ou fonte energia. Não é certo pensar como se fosse o sangue da sociedade. É o sistema nervoso central da socidade. Portanto, se há um problema na Internet, há um problema com o sistema nervoso da sociedade. Agora, víamos antes a internet como uma força liberatadora, que garantia às pessoas que não tinham informação com informação e, mais importante ainda, com conhecimento. Conhecimento é poder. Outras coisas tambem são poder. Mas ela deu muito poder a pessoas que antes não tinham poder. E não apenas mudou a relação entre os que tem poder e aquelas que não tem, dando conhecimento àqueles que não tinham conhecimento. Mas também fez todo o sistema funcionar de forma mais inteligente. Todos passaram a poder tomar decisões mais inteligentes e puderam passar a cooperar de forma mais inteligente. Agindo contrário a essa força está a vigilância em massa criada por parte do estado.

Chade – De que forma estaria ocorrendo essa vigilância em massa?

Assange – As sociedades se fundiram com a internet, diante do fato de que comunicações entre os indivíduos ocorrem pela Internet, os sistemas de telefone estão na Internet, bancos e transações usam a Internet. Estamos colocando nossos pensamentos mais íntimos na Internet, detalhes de comunicações e mesmo entre marido e muher, nossa posição geográfica. Enfim, tudo está sendo exposto na Internet. Isso signifca que grupos que estão envolvidos em vigilância em massa tem conseguido realizar uma transferencia em massa de conhecimento em sua direção. Os grupos que já tinham muito conhecimento agora tem mais. Esse é o maior roubo que de fato já ocorreu na história. Essa transferência de conhecido, de todas as comunicações interceptadas para agências nacionais de segurança e seus amigos corporativos. A tecnologia está sendo desenvolvida para essa vigilância em massa está sendo vendida por empresas de países, como a França, que vendeu um sistema de vigilância para o regime de Kadafi. Na África do Sul, há um sistema desenhado para gravar de forma permanente todas as ligações que entram e saem do país e as estocam por apenas US$ 10 milhões por ano. Está ficando muito barato. A população mundial dobra a cada 20 anos. O custo de vigilância está caindo pela metade a cada 18 meses.

Chade – Mas, justamente o sr. citou Kadafi. Muito acreditam que a Primavera Árabe só ocorreu graças à Internet. Não teria sido esse o caso?

Assange – Há uma série de histórias tradicionais de um longo trabalho de ativistas, de sindicatos e até de clubes de futebol que tiveram um papel importante na Tunísia e no Egito, os Ultras. O que é realmente novo? Bom, algumas coisas: o ativismo pan-arábico é algo novo e potenciado pela web. Diferentes ativistas em diferentes países se conectaram entre si pela web, trocando dicas, identificando quem era bem e quem era mau. O movimento dos Ultras vieram da Itália para os clubes da Tunísia e Egito. Como? Pela Internet. E então há o Wikileaks, jogando muita informação e essa informação então foi atacada pelo regime na Tunísia e depois pelo Egito. Mas também sendo disseminada pelo Egito e Tunisia. Mais importante ainda, essa informação foi disseminada para fora desses países, a tal ponto que ficou difícil para os Estados Unidos e Europa defenderem seus tradicionais aliados.

Chade – O sr. aponta para o poder de redes como Facebook e Google. Confesso que não tenho certeza que Mark Zuckerberg (criador do Facebook) pensou nisso tudo quando estava criando o site. Como é que se tornaram tão poderosos e como é que são, como o sr. diz, usados contra civis?

Assange – Google, essencialmente, sabe o que você estava pensando. E sabe também (o que vc pensou) no passado. Porque quando você tem algum pensando sobre algo, quer saber algum detalhe, você busca no Google. Sites que tem Google Adds, que na verdade são todos os sites, registram sua visita. Portanto, Google sabe todos os sites que você visitou, tudo o que você buscou, se você usou gmail ou email. Então ele te conhece melhor que você mesmo. Um exemplo: você sabe o que você buscou há dois dias, há três meses? Não. Mas o Google sabe. Google conhece você melhor que sua mãe. Claro, mas alguém pode dizer: Google só quer vender publicidade. Portanto, quem se importa que eles estejam fazendo isso. Mas, na realidade, todas as agências de inteligência americana e de aplicação da lei tem acesso ao material do Google. Eles acessaram isso em nosso caso.

Chade – Como fizeram isso?

Assange – Eles usaram instrumentos como cartas da agência de segurança nacional e mandados para buscar os dados de email das pessoas envolvidas em nossa organização. Isso saiu do Google, da conta do Twitter, onde pessoas entraram para acompanhar a nossa conta. No caso do Facebook, é algo impressionante. As pessoas simplesmente estão fazendo bilhões de centenas de horas de trabalho gratuíto para a CIA. Colocando na rede todos seus amigos, suas relações com eles, seus parentes, relatando o que estão fazendo, dizendo que vi aquela pessoa naquela festa, aquela pessoa naquela loja. É um incrível instrumento de controle. Países como a Islândia tem uma penetração do Facebbok de 88%. Mesmo que você não esteja no Facebook, você pode ter certeza que teu irmão está e está relatando sobre você, ou sua namorada está relatando sobre você. Não há como escapar. Agora, quando uma organização como Facebook diz que as pessoas querem fazer isso…

Chade – Claro, essa é justamente a minha questão: como o sr. explica que pessoas de diferentes culturas e religiões estão dispostas a revelar suas vidas diante da web?

Assange – Claro, sobre o que é que você está paranoico. Você pode dizer: bom, estou fazendo isso de forma voluntária e é mais importante estabelecer conexões sociais que se preocupar com um aparato de um estado totalitário. O problema é que isso não é verdade. As pessoas dizem que querem compartilhar algo apenas com meus amigos e amigos de meus amigos, mas não com meus amigos e com a CIA. É uma decepção o que está ocorrendo. As pessoas estão sendo enganadas em desenvolver essa atividade.

Chade – Entendo esse ponto claramente. Mas estamos vendo também censura na China, no Irã e em Cuba, países que parecem estar de fato mais temerosos da Internet. Isso não mostraria que a web é mais ameaçadora para esses regimes que para os civis?

Assange – Acho que você não pode generalizar “esses regimes”. Temos de olhar cada um deles de forma apropriada. Pessoas censuram por um motivo. Censuram porque tem medo, ou porque querem ter mais poder. Normalmente, eles querem manter seu poder. Porque o Irã censura?Bom, porque teme que pessoas dentro do Irã sejam influenciadas por material em persa publicado fora do Irã. E quem publica isso? Bom, alguns são de dissidentes genuínos. Mas também há empresas de fachada, criadas pelos israelenses, pelos Estados Unidos. Isso é umm fato. Inclusive pela BBC em Persa. Denunciamnos essas empresas de fachada no Wikileaks e suas estruturas de financiamento, e mesmo empresas israelenses. Agora, é algo saudável que governos estejam temerosos do que as pessoas pensam. Estranhamente, é um sinal otimista que a China, com toda sua censura e vigilância, está com medo ainda do que sua população pense. Por exemplo, a China baniu o Wikileaks em 2007. Pelo que sabemos, foi o primeiro país a banir. Temos tido uma espécie de guerra para superar o firewall chinês. De alguma forma, é um sintoma positivo.

Chade – Porque? Esse raciocínio não vai contra seu princípio de liberdade no fluxo de informação?

Assange – Sim. Mas é um bom sintoma. Em um país onde as relações estão tão fiscalizadas e a vigilância está enraizada que o poder não precisa se preocupar com o que as pessoas pensam, esse é o maior problema.

Chade – Voltando à questão da liberdade do fluxo de informação. Wikileaks teve um imenso impacto em alguns países. Mas há quem ainda questione: bem, os documentos foram obtidos de forma ilegal. Qual sua avaliação sobre esse argumento de que, por eles terem sido obtidos de forma ilegal, não são informações legítimas?

Assange – Generais não definem a lei. Ou pelo menos não deveriam. Se falamos da situação ameriana, há toda uma série de leis se queremos falar de legislação e foi perfeitamente legal.

Chade – A obtenção dos documentos ?

Assange – Sim, a forma que foram obtidos. Militares americanos não tem direitos na lei americana de encobrir crimes. De fato, isso é algo explícito. Não se pode usar apenas a classificação de documentos para manter um crime sigiloso. Mas também podemos dizer: quem é que fez a lei ? Obviamente são os interesses militares. Nós, como editores, temos de levar essas leis à sério? Nós não levamos elas a sério. Quer dizer, é um conflito em relação a onde você estabelece uma linha. Muito foi dito sobre isso e muito do que foi dito está filosoficamente falido. Há uma forma simples de entender. Não é Deus que estipula essa fronteira para todos nós. Diferentes organismos tem diferentes responsabilidades. As vezes, entidades policiais tem a responsabilidade de manter algo secreto. Uma investigação sobre a Máfia, deve ser mantida em sigilo.Outras organizações, como editores e jornais, tem a responsabilidade perante o público, que é de publicar nformação que ajude o público a decidir e entender o mundo. Essas diferentes responsabilidades não devem ser contaminadas uma pela outra.

Chade – Trazendo esse debate para a América Latina, como o sr. avalia o comportamento de governos diante da Internet e da imprensa em geral ?

Assange – É bem variado e tem vários problemas. Acho que, comparado com o resto do mundo, comparado com Europa, EUA, Sudeste Asiático, a região está bastante bem.

Chade – Alguns dos críticos apontam para o fato de que o presidente (do Equador) Rafael Correa ataca a imprensa. Como o sr. se sente sobre isso, e porque escolheu essa embaixada (do Equador) para vir ?

Assange – Pelo amor de Deus. Eles deveriam ser atacados com muita frequência. A primeira responsabilidade da imprensa e em primeiro codifo de ética é acuracy. Tudo começa com você precisando dizer a verdade. Essa precisa ser a primeira coisa. E também ser representativa. Não é porque sua organização é de propriedade de alguma família. Há um grande problema na América Latina com a concentração na mídia. Ainda que, se há seis famílias que controlam 70% da imprensa no Brasil, o problema é muito pior em vários países. Na Suécia, 60% da imprensa é controlado por uma editora. Na Austrália é muito pior, 60% também da imprensa escrita é controlada por Murdoch. Portanto, quando falamos em liberdade de expressão, temos de incluir a liberdade de distribuição, uma distribição adequada e uma das coisas mais importantes que a Internet nos deu é a liberdade na prática de distribuição, se as pessoas estão interessadas no assunto. Não quer dizer que você pode levar algo a um milhão de pessoas com publicidade. Mas você pode montar um blog e, se as pessoas já estão interessados, podem ler.

Chade – Uma pergunta pessoal. Para alguns, o sr. é um herói, outros dizem que é um criminoso, uma ameaça internacional, outros dizem que o sr. é um ativista. Em suas próprias palavras, quem é o sr. ?

Assange – Sou apenas um cara. Todos nós vivemos só uma vez. Todos temos responsabilidades de viver nossas vidas de acordo com nossos princípios e não disperdiácas. Eu só estou tentando fazer isso. Não acho que é necessário que me defina. Na verdade, quando as pessoas se definem, na maioria das vezes estão mentindo. Mas, no lugar disso, devem olhar as ações de uma pessoa e ver se elas são consistentes no longo prazo.

Chade – Porque é que o sr. evita ir à Suécia (onde  a Justiça o busca por acusações de assédio sexual) ?

Assange – Porque eu seria extraditado aos EUA.

Chade – Por qual motivo exatamente ?

Assange – O EUA tem um procedimento contra minha pessoa e contra Wikileaks pelos últimos dois anos. O governo diz em seus próprios documentos internos que a investigação é de um tamanho e natureza “sem precedentes”, citando uma investigação “de todo o governo” americano. É algo sério e que envolve mais de uma dúzia de agências.

Chade – Quais são os próximos passos para o Wikileaks ? O sr. anunciou que vai publicar cerca de um milhão de documentos em 2013. Algo sobre o Brasil?

Assange – Sim. Publicaremos muito sobre o Brasil neste ano. Um material muito interessante.

Jamil Chade é correspodente do jornal O Estado de São Paulo na Europa desde 2000. Foi premiado como o melhor correspondente brasileiro no exterior em 2011, pela entidade Comunique-se. Com passagem por 67 países e mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Genebra, Chade foi presidente da Associação de Correspondentes Estrangeiros na Suíça entre 2003 e 2005 e tem dois livros publicados. « O Mundo Não é Plano » (2010) foi finalista do Prêmio Jabuti, categoria reportagem. Na Suíça, o livro venceu o prêmio Nicolas Bouvier. Em 2011, publicou “Rousseff”.

agência Estado.

ENTREVISTA DE FREI BETTO: ‘É ingenuidade pensar que tudo acabou’, sobre espiões da ditadura

‘É ingenuidade pensar que tudo acabou’, diz Frei Betto sobre espiões da ditadura

18 de janeiro de 2013

Um dos principais nomes da Igreja Católica na luta contra o regime militar e ex-assessor da Presidência diz que tem certeza que o MST está entre os alvos dos militares hoje

do iG

“É muita ingenuidade nossa pensar que tudo acabou”. A frase é do escritor Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, um dos principais nomes da Igreja Católica brasileira na resistência à ditadura militar (1964-1985).

Preso entre 1969 e 1974, acusado de integrar a Ação Popular ao lado do guerrilheiro Carlos Marighella, Frei Betto está convencido de que os militares ainda agem nos bastidores do Planalto espionando as mais altas autoridades do país, inclusive a Presidência da República.

Em entrevista ao iG, Frei Betto, que foi assessor especial da Presidência no primeiro governo Lula, disse ter alertado o então chefe de gabinete Gilberto Carvalho sobre a possibilidade de escutas telefônicas no Palácio do Planalto. “Estou convencido de que isso existe até hoje. Não que eles (militares) estejam me seguindo ou espionando. Mas tenho certeza que o MST e até a Presidência da República, sim”, afirmou.

iG – Como era a atuação da Igreja na proteção dos perseguidos pela repressão? Registros mostram que até bispos de direita como d. Eugênio Sales ajudavam a esconder alvos da ditadura.

Frei Betto – A minha pergunta é por que o d. Eugênio (morto no último dia 9, aos 91 anos) fez isso para estrangeiros e não fez para brasileiros? Essa é a minha pergunta.

iG – Existia uma rede de solidariedade na Igreja, uma rota de fuga com conexões no exterior?

FB – Meu trabalho principal foi organizar essa rota de fuga. Mandei umas 10 pessoas. Em geral, sequestradores do embaixador americano (Charles Elbrick). Ninguém acredita, a repressão muito menos, mas a verdade é que eu nunca fui na fronteira. No entanto, eu dominava o esquema da fronteira porque o (Carlos) Marighella tinha me passado como funcionava. Só tinha que receber as pessoas em Porto Alegre e dar a dica. Tinha duas passagens. Uma em Santana do Livramento com Rivera, no Uruguai, e outra em Passo de Los Libres, na Argentina. Então eu tinha que dar as coordenadas e passar um telegrama em código para a pessoa que ia ficar lá esperando e já sabia que alguém ia chegar lá com uma revista na mão, aquelas coisas. E passava. Alguns voltaram. Outros foram presos no Uruguai, Mas havia muita solidariedade em igrejas, conventos etc.

iG – Protestantes e outros grupos religiosos participavam dessa rede de solidariedade?

FB – Muito. O pastor Jamie Wright, por exemplo. O irmão dele foi assassinado, Paulo Wright, líder da AP (Ação Popular). Geralmente em Igrejas históricas como a Batista, Luterana, Presbiteriana, Metodista, judeus. Naquela época quase não existiam as neopentecostais. E todos eles divididos a exemplo da Igreja Católica.

iG – Como era lidar com os infiltrados?

FB – Era muito difícil. Quando estávamos presos no Dops, em 1969, havia lá o delegado Alcides Cintra Bueno que era chamado “delegado do culto” por ser especializado em religiões. Era um homem de formação católica meio carola, mas torturador. Como ele conhecia muito a mecânica das Igrejas era o que mais interrogava religiosos. Nós vimos frades de hábito que eram agentes dele e iam lá dar informação sobre subversão na Igreja. Além do Lenildo Tabosa que era do Jornal da Tarde, assistiu ao interrogatório do Frei Fernando e a vida inteira carregou esta cruz fazendo de tudo para negar. Mas nunca conseguiu convencer, Fernando viu.

iG – Até descobrirem a existência de infiltrados muitas pessoas caíram?

FB – Sim. Era muito difícil descobrir infiltrados. Muitos a gente detectou, mas tem gente que colaborou com a ditadura e vai morrer incólume. A não ser que tenha dado uma mancada. Tem um seminarista dominicano que a gente não sabe se ele já era colaborador quando entrou. Depois, na USP, descobriram que ele era agente da repressão. Ele sumiu do mapa durante uns cinco anos e então recebemos informação de que ele tinha sido levado para um treinamento na escola da CIA no Panamá. Quando eu saí da prisão ele reapareceu todo amiguinho dizendo que estava com saudade e falei para ele, cara a cara, “não sei se você é ou não é, mas não tenho a menor confiança em você e por favor não me apareça mais”.

iG – Essa paranoia durou até depois do fim da ditadura, não?

FB – Quando saí da prisão fui morar numa favela em Vitória e fiquei lá de 1974 a 1979. Já em 1977 comecei a voltar a São Paulo para trabalhar com educação popular. Quando Fernando Henrique, Almino Afonso e Plínio de Arruda Sampaio voltaram para o Brasil eles vieram com a ideia de fundar um partido socialista. Eu, naquele momento, estava no auge da mobilização pelas CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) e eles me convocaram para uma reunião na casa de um jornalista, cujo nome não vou citar pois estou subjetivamente convencido que esta pessoa era da repressão mas não tenho prova. Sei que me estranhou o fato de ele ser um repórter e ter um padrão de vida tão alto. E tome vinho, tome vinho, conversamos, eles tentavam me convencer que tinham a forma, um partido socialista, e eu entrava com a massa, as CEBs. Eu respondi que ia surgir um partido de baixo para cima, isso em 1978, por intuição, e depois surgiu o PT em 1980. Marcamos outra conversa, o jornalista insistiu para que fosse novamente na casa dele e isso acabou num impasse. Até que um frade daqui, depois de muitos anos, me perguntou se eu havia participado de uma reunião na casa de fulano, com Fernando Henrique (Cardoso, ex-presidente) e Plínio (de Arruda Sampaio) etc. Perguntei como ele sabia daquilo e o frade respondeu que um general amigo dele ligado ao SNI foi quem contou. Aí caiu a ficha. Tinha muito esse tipo de coisa. Recentemente peguei no arquivo público nacional todo meu dossiê. Ele vai até 1992. E tem coisas absolutamente inverossímeis.

iG – O senhor ainda toma algum cuidado especial?

FB - Estou convencido de que isso existe até hoje. Não que eles (militares) estejam me seguindo ou espionando. Mas tenho certeza que o MST e até a Presidência da República, sim. Seria muita ingenuidade nossa achar que o Planalto não é espionado. É o centro, o coração do poder. Quando trabalhei no Planalto (no primeiro governo Lula) duas coisas me chamaram atenção. Primeiro que todos os garçons eram das Forças Armadas. E o garçom é a pessoa que entra no meio da reunião, que enquanto está servindo o cafezinho fica escutando tudo, fica amigo das secretárias, tem trânsito livre até na sala do presidente. Não entra o ministro, mas entra o garçom. E outra coisa foi num dia em que o Lula estava viajando, subi na sala do Gilberto Carvalho (então chefe de gabinete da Presidência) e vi um pessoal na sala do Lula cheio de equipamentos. Perguntei o que era aquilo e o Gilberto disse que era o pessoal da varredura do Exército. Eu perguntei para o Gilberto qual a garantia de que eles não tiram um equipamento de gravação e colocam outro. Gilberto disse que nunca tinha pensado nisso.

iG – Mas seriam os militares?

FB – Sim. Os militares.

iG – Com qual objetivo?

FB – O objetivo é simples. Informação é poder.

iG – O que se sabe é que existe uma grande rede de espionagem em Brasília mas por razões econômicas, chantagem etc.

FB – Os militares neste ponto são mais… é como nos EUA. A CIA não prende ninguém. Ela só trabalha com informação. Quem prende é o FBI. É muita ingenuidade nossa pensar que tudo acabou.

iG – Os militares teriam um projeto de retomar o poder?

FB – Não. Eles têm o projeto de não serem surpreendidos e eventualmente até de manipular.

iG – Eles são movidos pelo medo?

FB – Não. É uma questão de inteligência militar mesmo.

ENTREVISTA ABRE JANELA PARA IMPEACHMENT DE FUX.

fux
                                                                                                                     LUIZ FUX.Depoimento desastroso à jornalista Mônica Bergamo aponta sinais de quebra de decoro por parte do ministro Luiz

Fux, do Supremo Tribunal Federal. Ele revela que como fez lobby explícito para chegar à suprema corte e confessa que usou decisões judiciais que tomou para se promover. No Brasil, nunca houve um impeachment de ministro do STF e a decisão compete ao Senado Federal. Qualquer cidadão pode propor a ação.
A ENTREVISTA:
02/12/2012 – 04h30

Em campanha para o STF, Luiz Fux procurou José Dirceu

MÔNICA BERGAMO
COLUNISTA DA FOLHA

O ministro Luiz Fux, 59, diz que desde 1983, quando, aprovado em concurso, foi juiz de Niterói (RJ), passou a sonhar com o dia em que se sentaria em uma das onze cadeiras do Supremo Tribunal Federal (STF).

Quase trinta anos depois, em 2010, ele saía em campanha pelo Brasil para convencer o então presidente Lula a indicá-lo à corte.

Fux era ministro do STJ (Superior Tribunal de Justiça), o penúltimo degrau na carreira da magistratura. “Estava nessa luta” para o STF desde 2004 –sempre que surgia uma vaga, ele se colocava. E acabava preterido. “Bati na trave três vezes”, diz.

‘Pensei que não tinha provas; li o processo do mensalão e fiquei estarrecido’, diz Fux

Sérgio Lima/Folhapress
Ministro Luiz Fux no prédio do Supremo Tribunal Federal, em Brasília
Ministro Luiz Fux no prédio do Supremo Tribunal Federal, em Brasília

AVAL

Naquele último ano de governo Lula, era tudo ou nada.

Fux “grudou” em Delfim Netto. Pediu carta de apoio a João Pedro Stedile, do MST. Contou com a ajuda de Antônio Palocci. Pediu uma força ao governador do Rio, Sergio Cabral. Buscou empresários.

E se reuniu com José Dirceu, o mais célebre réu do mensalão. “Eu fui a várias pessoas de SP, à Fiesp. Numa dessas idas, alguém me levou ao Zé Dirceu porque ele era influente no governo Lula.”

O ministro diz não se lembrar quem era o “alguém” que o apresentou ao petista.

Fux diz que, na época, não achou incompatível levar currículo ao réu de processo que ele poderia no futuro julgar. Apesar da superexposição de Dirceu na mídia, afirma que nem se lembrou de sua condição de “mensaleiro”.

“Eu confesso a você que naquele momento eu não me lembrei”, diz o magistrado. “Porque a pessoa, até ser julgada, ela é inocente.”

Conversaram uma só vez, e por 15 minutos, segundo Fux. Conversaram mais de uma vez, segundo Dirceu.

A equipe do petista, em resposta a questionamento da Folha, afirmou por e-mail: “A assessoria de José Dirceu confirma que o ex-ministro participou de encontros com Luiz Fux, sempre a pedido do então ministro do STJ”.

Foram reuniões discretas e reservadas.

CURRÍCULO

Para Dirceu, também era a hora do tudo ou nada.

Ele aguardava o julgamento do mensalão. O ministro a ser indicado para o STF, nos estertores do governo Lula, poderia ser o voto chave da tão sonhada absolvição.

A escolha era crucial.

Fux diz que, no encontro com Dirceu, nada disso foi tratado. Ele fez o seguinte relato àFolha:

Luiz Fux - Eu levei o meu currículo e pedi que ele [Dirceu] levasse ao Lula. Só isso.

Folha – Ele não falou nada [do mensalão]?

Ele falou da vida dele, que tava se sentindo… em outros processos a que respondia…

Tipo perseguido?

É, um perseguido e tal. E eu disse: “Não, se isso o que você está dizendo [que é inocente] tem procedência, você vai um dia se erguer”. Uma palavra, assim, de conforto, que você fala para uma pessoa que está se lamentando.

MATO NO PEITO

Dirceu e outros réus tiveram entendimento diferente. Passaram a acreditar que Fux votaria com eles.

Uma expressão usual do ministro, “mato no peito”, foi interpretada como promessa de que ele os absolveria.

Fux nega ter dado qualquer garantia aos mensaleiros.

Ele diz que, já no governo Dilma Rousseff, no começo de 2011, ainda em campanha para o STF (Lula acabou deixando a escolha para a sucessora), levou seu currículo ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Na conversa, pode ter dito “mato no peito”.

Folha – Cardozo não perguntou sobre o mensalão?

Não. Ele perguntou como era o meu perfil. Havia causas importantes no Supremo para desempatar: a Ficha Limpa, [a extradição de Cesare] Battisti. Aí eu disse: “Bom, eu sou juiz de carreira, eu mato no peito”. Em casos difíceis, juiz de carreira mata no peito porque tem experiência.

Em 2010, ainda no governo Lula, quando a disputa para o STF atingia temperatura máxima, Fux também teve encontros com Evanise Santos, mulher de Dirceu.

Em alguns deles estava o advogado Jackson Uchôa Vianna, do Rio, um dos melhores amigos do magistrado.

Evanise é diretora do jornal “Brasil Econômico”. Os dois combinaram entrevista “de cinco páginas” do ministro à publicação.

Evanise passou a torcer pela indicação de Fux.

Em Brasília, outro réu do mensalão, o deputado João Paulo Cunha (PT-SP), articulava apoio para Fux na bancada do PT.

A movimentação é até hoje um tabu no partido. O deputado Cândido Vacarezza (PT-SP) é um dos poucos que falam do assunto.

Vacarezza - Quem primeiro me procurou foi o deputado Paulo Maluf. Eu era líder do governo Lula. O Maluf estava defendendo a indicação e me chamou no gabinete dele para apresentar o Luiz Fux. Tivemos uma conversa bastante positiva. Eu tinha inclinação por outro candidato [ao STF]. Mas eu ouvi com atenção e achei as teses dele interessantes.

Folha – E o senhor esteve também na casa do ministro Fux com João Paulo Cunha?

Eu confirmo. João Paulo me ligou dizendo que era um café da manhã muito importante e queria que eu fosse. Eu não te procurei para contar. Mas você tem a informação, não vou te tirar da notícia.

O mensalão foi abordado?

Não vou confirmar nem vou negar as informações que você tem. Mas eu participei de uma reunião que me parecia fechada. Tinha um empresário, tinha o João Paulo. Sobre os assuntos discutidos, eu preferia não falar.

Fux confirma a reunião. Mas diz que ela ocorreu depois que ele já tinha sido escolhido para o STF. Os petistas teriam ido cumprimentá-lo.

Na época, Cunha presidia comissão na Câmara por onde tramitaria o novo Código de Processo Civil, que Fux ajudou a elaborar.

Sobre Maluf, diz o magistrado: “Eu nunca nem vi esse homem”. Maluf, avisado do tema, disse que estava ocupado e não atendeu mais às chamadas da Folha. Ele é réu em três processos no STF.

CHORO

No dia em que sites começaram a noticiar que ele tinha sido indicado por Dilma para o STF, “vencendo” candidatos fortes como os ministros César Asfor Rocha e Teori Zavascki, também do STJ, Fux sofreu, rezou, chorou.

Luiz Fux - A notícia saiu tipo 11h. Mas eu não tinha sido comunicado de nada. E comecei a entrar numa sensação de que estavam me fritando. Até falei para o meu motorista: “Meu Deus do céu, eu acho que essa eu perdi. Não é possível”. De repente, toca o telefone. Era o José Eduardo Cardoso. Aí eu, com aquela ansiedade, falei: “Bendita ligação!”. Ele pediu que eu fosse ao seu gabinete.

No Ministério da Justiça, ficou na sala de espera.

Luiz Fux - Aí eu passei meia hora rezando tudo o que eu sei de reza possível e imaginável. Quando ele [Cardozo] abriu a porta, falou: “Você não vai me dar um abraço? Você é o próximo ministro do Supremo Tribunal Federal”. Foi aí que eu chorei. Extravasei.

De fevereiro de 2011, quando foi indicado, a agosto de 2012, quando começou o julgamento do mensalão, Fux passou um período tranquilo. Assim que o processo começou a ser votado, no entanto, o clima mudou.

Para surpresa dos réus, em especial de Dirceu e João Paulo Cunha, ele foi implacável. Seguiu Joaquim Barbosa, relator do caso e considerado o mais rigoroso ministro do STF, em cada condenação.

Foi o único magistrado a fazer de seus votos um espelho dos votos de Barbosa. Divergiu dele só uma vez.

Quanto mais Fux seguia Barbosa, mais o fato de ter se reunido com réus antes do julgamento se espalhava no PT e na comunidade jurídica.

Advogados de SP, Rio e Brasília passaram a comentar o fato com jornalistas.

A raiva dos condenados, e até de Dilma, em relação a Fux chegou às páginas dos jornais, em forma de notas cifradas em colunas –inclusive da Folha.

Pelo menos seis ministros do STF já ouviram falar do assunto. E comentaram com terceiros.

Fux passou a ficar incomodado. Conversou com José Sarney, presidente do Senado. “Sei que a Dilma está chateada comigo, mas eu não prometi nada.” Ele confirma.

Na posse de Joaquim Barbosa, pouco antes de tocar guitarra, abordou o ex-deputado Sigmaringa Seixas, amigo pessoal de Lula. Cobrou dele o fato de estarem “espalhando” que prometera absolver os mensaleiros.

Ao perceber que a Folha presenciava a cena, puxou a repórter para um canto. “Querem me sacanear. O pau vai cantar!”, disse. Questionado se daria declarações oficiais, não respondeu.

Dias depois, um emissário de Fux procurou a Folha para agendar uma entrevista.

RAIO X – LUIZ FUX, 59

Origem
Rio de Janeiro (RJ)

Família
Casado com Eliane Fux, tem dois filhos: Rodrigo e Marianna, ambos advogados

Formação
Bacharel em direito pela Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). Concluiu doutorado em processo civil, também pela Uerj

Carreira
Atuou por 18 anos no Ministério Público do Rio. Foi juiz em para Niterói (RJ). Passou a desembargador do TJ-RJ em 1997 e, em 2001, foi nomeado pelo então presidente FHC para o STJ. Está no Supremo desde 2011, indicado por Dilma

Carlos Heitor Cony faz uma revisão amarga e irônica da vida, aos 86 anos

Às vésperas de lançar ‘JK e a ditadura’, o autor de ‘Quase memória’ critica o político mineiro, compara a ABL a um ‘jardim de infância ao avesso’ e se diz cansado da ficção

 

 

Com as pernas enfraquecidas pelo câncer, Cony acaba de ir a Nova York

RIO – Os passeios na Lagoa acabaram: um câncer linfático crônico, considerado terminal há 11 anos, e que afetou a força de suas pernas, o obriga a passeios modestos, dentro de casa, com fisioterapeutas. Mas quando vai à rua, na condição de cadeirante, Carlos Heitor Cony, 86 anos, não vê limites: viaja para palestras, vai a Nova York e visita o Marco Zero. E não descarta futuras viagens de navio. Fumante de quatro charutos por dia, lê, escreve suas crônicas para a “Folha de S. Paulo” e participa de debates matinais com Artur Xexéo na CBN. Há um ano, não vai à Academia Brasileira de Letras (ABL) e não pretende voltar à ficção, como tantos fãs esperam. O que não o impede de dissertar, horas seguidas, sobre o relançamento de “Memorial do exílio” (Bloch Editores, 1982), com novo título, “JK e a ditadura”, agora pela Editora Objetiva. Nesta entrevista, o ceticismo de sempre dá espaço a sorrisos entre o diabólico e o abençoado que o tornam uma das figuras mais carismáticas da literatura brasileira.

O GLOBO – Por ser uma espécie de autobiografia em terceira pessoa, “JK e a ditadura” é carente de um viés crítico. Ele existe?

Deveria ser o terceiro volume de sua autobiografia, mas ele morreu. Sim, tenho minhas restrições a Juscelino, em que pese o carinho e a admiração por sua obra. Ele se vendeu como democrata irredutível, mas pressionava o Congresso. Por exemplo, quando pediu licença para processar Carlos Lacerda por vazar informações do Itamaraty, jogou pesado para cima da Câmara na intenção de cassar o adversário. Não conseguiu. Mas comprou voto, constrangeu a imprensa, o diabo a quatro, como todo mundo faz, na base do fisiologismo. Politicamente, errou feio ao apoiar Humberto Castelo Branco em troca da promessa de respeitar o pleito de 1965, o que não aconteceu. A jogada de mestre teria sido renunciar à candidatura em favor do (general Eurico Gaspar) Dutra, um pessedista de 90 anos que estava na lista dos preferidos dos militares e lhe era leal. Dutra ia corrigir os rumos e acalmar os radicais. Uma vez ele me perguntou onde foi que pegou a curva errada, e eu disse isso.

Mas isso seria suficiente para neutralizar a hidra da ditadura?

Seria a chance de evitar um quadro tão violento. Além disso, uma falta menos grave: JK mentia sobre a idade. Dizia, no primeiro volume das memórias, que nasceu em Diamantina em 1902. Tenho a certidão de nascimento: o ano correto é 1900. O então repórter Roberto Muggiati chegou a ser demitido por ter publicado na “Manchete” a idade certa: JK reclamou com o patrão. Interferi a seu favor e ele acabou “exilado” atrás de uma coluna da redação. Dois anos depois, virou diretor da revista.

E o aspecto programático?

A questão de JK sempre foi mesmo a indústria. Getúlio Vargas fez legislação trabalhista sem um tiro e a sociedade, inclusive o empresariado, aceitou. Mas Getúlio não menciona a questão da terra. Se mexesse na terra, seria deposto. JK também foi avesso a essa questão. Mas, com o que fez, transformou a sociedade brasileira e a levou a outro patamar.

A segunda parte do livro, espécie de apêndice, reedita trechos de “O Anjo da Morte”, reforçando a tese de assassinato de Juscelino. Você realmente acredita nisso?

Os indícios são todos nesse sentido. Guilherme Romano, braço direito de Golbery (do Couto e Silva), foi o primeiro a aparecer no local. O pouso onde ele parou pertencia a militares e JK vivia sendo seguido. A notícia da morte por acidente correu dias antes. E, em telegrama ao general (João Batista) Figueiredo, o chefe da Dina, o SNI chileno, equipara Letelier, assassinado pela CIA, a JK, como “um problema para o Brasil”, num tempo em que o presidente Jimmy Carter ouviu de (Ernesto) Geisel que, antes da redemocratização, ainda estava em vias uma “limpeza de terreno”. Sei que indícios não são provas, embora tenha ouvido o (ex-ministro do STF Cezar) Peluso dizer que existe a “prova indicial”. Miro Teixeira chegou a criar uma comissão para apurar as circunstâncias. Todos os depoentes afirmaram isso. O último foi Miguel Arraes, grande articulador da resistência à Operação Condor, que assim se pronunciou: “JK foi assassinado.”

Em 1968, você foi preso na mesma leva que deteve JK. O que guarda desse episódio?

Foi na noite de 3 de dezembro, até depois do carnaval. Três meses. Quando fui sequestrado, ouvi que naquela noite iam fuzilar JK. Incomunicável, acreditei, aquele tempo todo, que havia um paredão. Não fui torturado, mas em muitas noites vomitei ao ouvir berros e pancadas das outras celas. Fiquei numa cela miserável, com um cano de água, que usava para escovar os dentes, e um vaso sanitário. Esta foi a segunda prisão. No total, foram seis. Em 1965, quando ainda havia legalidade, fui processado por (Artur da) Costa e Silva, que, pela Lei de Segurança Nacional, queria me botar 30 anos em cana. O STF transferiu para Lei de Imprensa e peguei seis meses. Cumpri três: foi a única vez na vida que tive bom comportamento. Os militares ainda eram educados. Invoquei a convenção de Genebra e a comida melhorou, ganhei banho de sol e lençóis, e, no Natal, um coronel nos mandou peru, vinho, farofa e castanhas, da casa do comandante.

Você foi muito atacado quando recebeu benefícios como reparação aos danos. Isso o magoou?

Vou contar só um episódio. Quando, em abril de 1964, escrevi, no “Correio da Manhã”, o artigo “A revolução dos caranguejos”, que atacava violentamente o movimento militar, tive que me esconder. No dia da publicação, três sujeitos foram à escola de minhas filhas, que tinham 12 e 8 anos, e disseram à professora que vinham buscá-las, que eram amigos dos pais e precisavam protegê-las pois estavam sob ameaça de sequestro. À saída, a dona do colégio, ao ver duas alunas com três homens estranhos à paisana, pediu documentos. Eles se recusaram a mostrar e puseram minhas filhas num carro. A mulher anotou a placa e nos procurou. Ênio Silveira, que tinha contatos, fez a coisa circular em meios militares e descobriu-se que o carro servia a um oficial da Marinha. Elas foram soltas aos empurrões. Durante o sequestro, haviam sido ameaçadas e insinuaram que tirariam, naquela noite, a sua virgindade. O resto são tecnicalidades que nem preciso mencionar, além do fato de os desembargadores nem terem lido o processo por serem contemporâneos e saberem o que passei. Mas nem se me dessem a Petrobras eu me sentiria compensado. Nem a Amazônia pagaria todo o meu sofrimento.

Por que sua aversão a livros inéditos de ficção? Você desistiu?

Olha, com “Pilatos”, livro da década de 1970, eu disse tudo o que queria dizer. Thomas Mann, depois de escrever “Doutor Fausto”, pensou em não escrever mais. E disse: “Infelizmente, vivi mais que minha obra.” Teve que escrever ainda três ou quatro livros, tudo porcaria, pois precisava de dinheiro. Quando fiz “Pilatos” foi isso: fiquei 23 anos sem escrever. Aí veio o computador, e a doença de minha cadela Mila, eu escrevi “Quase memória” para suportar o sofrimento de ouvir seus gemidos.

“Quase memória” não é bom?

É um desabafo. O que escrevi depois foi por pura pressão comercial. Nada desse período interessa.

Como é sua rotina hoje?

Tenho um câncer linfático e estou em estado terminal há 11 anos. É o mesmo câncer da Dilma e do (Reynaldo) Gianecchini. Não perdi o cabelo, mas o tratamento enfraqueceu minhas pernas. O câncer, porém, não é mais a tal da insidiosa moléstia. Todo mundo tem um. A Hebe, a Ana Maria Braga, todos os líderes do Cone Sul, Lula, Fidel, Chávez, Cristina! Há 12 dias não saio de casa. Meses atrás fui a Nova York. Para visitar os museus, ser cadeirante é bom: fui tratado como príncipe, uma maravilha. No Marco Zero me puseram de cuecas para entrar.

Em “JK e a ditadura” você diz que, com a Frente Ampla, JK, (Carlos) Lacerda e Jango (João Goulart) provaram, tardiamente, que a Humanidade pode ser melhor desde que cada homem procure, no outro, o seu melhor. Você acredita nisso? Precisamos de homens cordiais, como JK?

Não. Em “O ventre”, aos 32 anos, eu digo que só creio naquilo que pode ser atingido pelo meu cuspe. Como disse no meu discurso de posse na ABL, não tenho convicções firmes para ser de direita, disciplina para ser de esquerda nem a imobilidade do centro, que é oportunista. Sou um anarquista inofensivo.

A Academia foi uma concessão, em vistas desse ceticismo?

Entrei com 74 anos, idade com que morreu o JK. Desde 1964 já me haviam convidado. Acabaram me convencendo num movimento para legitimar a candidatura paralela, para outra vaga, de Roberto Campos, que até o Celso Furtado queria. Acabei cedendo, sob a condição de não fazer campanha. A Academia é um ambiente de cordialidade. Resumindo, porém, eu diria que é uma espécie de jardim de infância às avessas. No jardim de infância você não tem passado mas um futuro o espera, com relações novas e amigos vindouros. Na academia, não temos futuro. Temos todos um passado, se é que temos, bom, brilhante ou medíocre, mas 90% dos que lá estão não têm mais nada para fazer na vida. O futuro é o mausoléu.

Você tem medo da morte?

Não, a não ser do ritual da morte. Não quero velório. Nem quero ir para o mausoléu da Academia. Serei cremado. Toda a liturgia da morte hoje é uma contrafação, fria, impessoal. Já conquistei o que queria. Só me restam o Nobel e a morte. Como o Nobel não virá…

O Globo / Ana Branco

DR. ZEQUINHA – resistiu a ditadura com um estilingue – 40 anos depois. – curitiba.pr

Dr. Zequinha, líder estudantil em 68, se emociona ao falar da tortura na prisão e do apoio familiar durante os ‘anos de chumbo’
A famosa foto: Dr. Zequinha enfrenta a cavalaria da polícia com um estilingue - e só

A famosa foto: Dr. Zequinha enfrenta a cavalaria da polícia com um estilingue – e só
LUCIANA GALASTRI

Dr. Zequinha em evento realizado no dia 14 de maio para relembrar os 40 anos de ocupação da Reitoria da UFPR

Dr. Zequinha em evento realizado no dia 14 de maio para relembrar os 40 anos de ocupação da Reitoria da UFPR

No ano de 1968, o então reitor da UFPR, Flávio Suplicy de Lacerda, tomou uma decisão: a Universidade Federal do Paraná, uma instituição pública, passaria a cobrar por seu ensino. Cursos noturnos, em teoria voltados para estudantes que trabalhavam durante o dia para se sustentar, passariam a ser pagos. Esse novo sistema começaria a vigorar quando os calouros daquele ano fossem aprovados.

No dia do vestibular de 68, os estudantes da Universidade, sob liderança do DCE (Diretório Central dos Estudantes), da UPE (União Paranaense de Estudantes) e da UPES (União Paranaense de Estudantes Secundaristas) impediram a realização da prova no Centro Politécnico com sucesso, adiando o concurso. Suplicy insistiu em manter sua decisão e realizar uma segunda prova. Novamente, os movimentos estudantis se mobilizaram para impedir o vestibular, mas a presença da polícia montada fez com que a operação falhasse.

Então, no dia 14 de maio daquele ano, há quarenta anos, os estudantes tomaram a Reitoria da UFPR, derrubaram o busto do reitor Suplicy e arrastaram a imagem pelas ruas em uma marcha contra a Universidade paga. A polícia recebeu ordens de não interferir e os estudantes foram poupados de mais violência. Esta última manifestação foi marcada pelo sucesso absoluto. “Dizíamos que a polícia também era gente! E os policiais choravam, comovidos pelo nosso movimento” declara Stênio Jacob, presidente da UPE na época.

A tomada da Reitoria tem uma enorme significância, pois foi realizada em um período de ditadura e opressão militar no Brasil. Em termos mundiais, o ano de 68 é emblemático: vários países testemunharam movimentos estudantis que pediam a reforma do ensino, a liberdade de expressão e davam visibilidade a uma nova espécie de jovem – questionador e rebelde.

Um dos líderes desses jovens que em 1968 tomaram a Reitoria da universidade mais antiga do país era o jovem José Ferreira Lopes, mais conhecido por Zequinha – pelos amigos e pelos algozes. Membro do DCE e da UPE naqueles anos, foi testemunha de sentimentos e atitudes antagônicas, a coragem dos estudantes e a covardia das autoridades, chegou a ser preso e torturado, viu colegas sucumbirem à violência do Estado e, anos depois, voltou a cursar a profissão que fora forçado a abandonar, a Medicina, tornando-se o Dr. Zequinha.

Dr. Zequinha, protagonista de uma fotografia que rendeu ao seu autor, Edson Jansen, o Prêmio Esso de Fotojornalismo – em que enfrenta a cavalaria da polícia com um estilingue –, voltou ao cenário de sua militância, o pátio da Reitoria da UFPR, 40 anos depois, para revisitar a memória e a mentalidade daqueles dias.

Pouco antes do evento, quando se sentou ao lado do reitor da instituição, Carlos Moreira Junior, e de amigos ‘de luta’ como Stênio Jacob, Luís Felipe Haji Mussi e Vitório Seratiuk, ele falou ao Comunicação sobre os tempos de militante, a clandestinidade, a tortura e as experiências de um jovem idealista em plena ditadura militar.

Comunicação – Como se deu o seu contato com o movimento estudantil?

Dr.Zequinha – Eu sou nascido em Marília, uma cidade de São Paulo, e lá, como estudante secundarista, tive meu primeiro contato com o movimento estudantil. Isso foi na década de 60, lembro muito bem da eleição de Jânio Quadros e da história da vassoura, que varria a corrupção. De lá, vim para Curitiba cursar medicina na UFPR. Iniciei o curso e, ao mesmo tempo, tive contato com a política universitária, em 65. A partir daí, entrei para o Diretório Acadêmico Nilo Cairo, para o DCE e para a UPE. O contato com todos esses órgãos me influenciou a ter uma militância mais ativa.

Comunicação – Houve alguma outra influência que o levou para a militância? Um professor, um livro?

Dr.Zequinha? – Tive influência de duas pessoas, no curso de medicina, e tenho um respeito muito grande por eles. Eles possuíam opiniões muito boas a respeito do próprio curso, da universidade, da reforma do ensino e também foram pessoas muito queridas para mim. O Dante Romanó Júnior, que acabou sendo reitor da UFPR, e o professor Paulo Barbosa, que tinha uma cadeira em medicina, na época. Ambos foram pessoas muito queridas e que tiveram muita influência em meus tempos de universitário.

Comunicação – Antes de entrar nos movimentos estudantis, você era um jovem muito politizado?

Dr.Zequinha – Acredito que havia uma vivência política já bem anterior na cidade de Marília. Meu pai não era militante, mas era um ser muito amplo no ponto de vista da aceitação das coisas. Eu lembro de ter um vizinho que pertencia ao Partido Comunista do Brasil. Também havia uma família, os Silva, que militavam pelo partido. Eram pessoas ‘de casa’, pessoas com quem convivi na minha juventude, era amigo de seus filhos. Existia também um alfaiate nordestino, uma pessoa muito legal, que possuía, no fundo de sua alfaiataria, uma biblioteca. Tive esse contato, meu pai sempre ajudou muito esse pessoal que era perseguido e acabei me envolvendo.

Comunicação – Como sua família e seus amigos viam essa atuação política militante? Eles o apoiavam?

Dr.Zequinha – Meu pai era semi-analfabeto, mas tinha uma preocupação básica: seus filhos deveriam estudar, portanto, deviam ter uma biblioteca em casa. Então ele comprava livros do Jorge Amado, Graciliano Ramos, entre outros. Acabamos tendo contato com essa literatura. Minha própria turma de adolescentes tinha esse hábito da leitura, ouvia muita música, além das estripulias que fazíamos como todo jovem (risos). Ao final do ano de 68 houve o Ato Constitucional nº5. Eu estava na iminência de ser preso – já havia sido preso algumas outras vezes em Curitiba, e também pertencia ao Ação Popular, o AP. E eu decidi que continuaria minha militância política, mas em caráter clandestino. Conversei com amigos da república em que morava, alguns me desencorajaram, outros disseram “você que decide, você sabe da sua vida”. Então saí de Curitiba e fui à cidade de meu pai, conversar com ele e com minha mãe. Lembro até hoje. Estávamos na varanda da casa deles e comentei o que eu iria fazer. A reposta deles foi assim: “é isso que você quer? Então seja feliz.” Quando fui preso, minha mãe percorreu céus e infernos à minha procura. Devo muito a ela o fato de não ter sido… não diria assassinado, mas eu estava em uma situação muito complicada na repressão da ditadura. E ela moveu céus e mares até me achar. Essa era a relação que eu tinha com minha família, e me deixa muito emocionado.

Comunicação – Você pode descrever o tempo em que ficou preso? Comentar alguma experiência que tenha passado?

Dr.Zequinha – Posso sim. Acho até importante comentar isso, para que não caiam no esquecimento as barbaridades feitas pela ditadura militar.

Fui preso pela primeira vez em 68, quando eu fazia a pichação de um muro no Batel, e eu pichava ‘abaixo a ditadura’. Fiquei detido na Carlos de Carvalho, que era a sede da Polícia Federal na época, e lá sofri uma amostra do que seria uma tortura. Deixaram-me nu, em cima de uma lata de cera, sem a tampa, e eu pisando com os dois pés na lata e me apoiando com as minhas mãos em uma parede. Às vezes me batiam no rim, que não deixa marca certo? Queriam que eu fizesse uma confissão, queriam que eu dissesse por que estava pichando ‘abaixo a ditadura’.

As outras duas vezes em que fui preso em Curitiba, foi nas passeatas. A polícia batia, prendia e soltava. Quando fui pra clandestinidade, foi, com certeza, o momento mais difícil. Saber o que era uma ditadura militar e sua repressão… Estava em Minas Gerais, trabalhava como operário metalúrgico e fui preso dentro da fábrica. No primeiro momento, não falei nada. Levaram-me para o DOPS, o Departamento de Ordem e Política Social. Aí sim, choque elétrico em todas as partes do corpo, afogamento, sempre querendo informações. Houve um período de sete ou dez dias, não posso dizer com clareza, em que eles não sabiam quem eu era, não sabiam que eu era o Zequinha do Paraná. Eles acharam que eu era um operário mesmo, Isaías José de Souza. Acharam que eu poderia estar envolvido com uma ‘subversão’ e com questões do partido. Mas eu sempre negava, até que um dia, depois de sessões de tortura me levaram aonde estava um coronel do exército brasileiro, um torturador, e ele me mostrou uma foto, minha foto. Disse que estavam procurando por mim, que eu era o Zequinha. Eu neguei. Precisava de tempo para organizar meus pensamentos, saber o que estava acontecendo, se alguém sob tortura falou que era eu na foto. Eu precisava de um momento. Até que, depois de muita insistência e muita tortura, eu decidi me identificar. Disse que era José Ferreira Lopes, o Zequinha, líder da UPE, estou preso por vocês e pronto! Não tinha mais nada o que falar, era isso. Fui transportado para o Rio de Janeiro, submetido a mais torturas. Até que apareceu uma especial, chamada ‘cabine de som’. Eles torturavam, torturavam… Deixavam você bem mal por uma noite, e de manhã cedo te jogavam em uma cabine pequena. Lá tinha um som muito alto, ondas supersônicas e temperatura altíssima. Depois variavam a temperatura até abaixo de zero e tudo ficava em absoluto silêncio. Abriam a porta e diziam “fala, fala, fala”! Fiquei muito tempo assim. Eles viram, depois, que eu não queria falar nada, que eu estava tranqüilo, ou melhor, consciente de que não ia entregar ninguém, não ia comprometer a vida de mais pessoas.

Depois fui levado novamente a Belo Horizonte. Continuaram as torturas e começaram a simular fuzilamentos. Levavam-nos para uma área, pegavam a metralhadora e diziam “apontar… fogo”! Não saía a bala, mas você já ficava assustado. E continuava a passar por afogamentos… Todas essas barbaridades. Algum tempo depois me entregaram um papel e uma caneta. Era uma declaração política em que eu assumia que eu era contra a ditadura militar, que eu era a favor da democracia e da liberdade. Mas nunca assumi que era de um partido político – que era o exatamente o que queriam saber, para me comprometer. Nessa trajetória vi assassinatos de companheiros meus, como José Carlos da Mata Machado, que foi vice-presidente da UNE, assassinado no Recife além de outros estudantes, barbaramente assassinados e torturados.

Comunicação – Você mantinha contato com outros grandes líderes estudantis, como o Vladimir Palmeira, o José Dirceu, o José Arantes entre outros?

Dr.Zequinha – Tínhamos contato, mas não éramos tão próximos. Participávamos de alas diferentes. O contato mais estreito que eu possuía, no caso, era com o Luís Travassos, presidente da UNE em 67 ou 68. O José Carlos da Mata Machado, que eu já citei. Principalmente porque vivemos juntos em uma república durante oito meses, morando clandestinamente.

Comunicação – Qual era o cenário político do Paraná no início da ditadura?

Dr.Zequinha – Depois do golpe, em 65, já havia uma repressão muito grande aos movimentos mais organizados, como os camponeses, os operários. Muitos foram submetidos a torturas e exilados na Argentina, no Paraguai, sofreram muitas dificuldades. Quando cheguei ao Paraná, existia a ditadura militar, mas não havia chegado ao extremo. Tínhamos aqui o Ney Braga que era governador, mas era indicado. Em 68 havia o Paulo Pimentel, que também foi indicado, não havia eleições. Ainda que não houvesse democracia, liberdade maior e que a censura estivesse presente, era possível se manifestar. Havia os diretórios, as reuniões, que foram extintos com o Ato Institucional nº5. Foi então que a coisa complicou, não havia liberdade nenhuma. As organizações políticas foram todas extintas, mesmo assim, eu fiz parte da AP, a Ação Popular, no início de minha carreira política mas ninguém sabia.

Comunicação – Sobre a famosa ‘foto do estilingue’, você sabia que estava sendo fotografado? Era uma combinação?

Dr.Zequinha – Não sabia. O fotógrafo, o Edson Jansen, acabou ganhando o Prêmio Esso de Fotojornalismo com ela. Ele estava estrategicamente posicionado acima da estradinha em que ocorreu o fato e registrou toda a cena.

Comunicação – Você já conhecia o Edson?

Dr.Zequinha – Não. Fui conhecer o Edson depois que eu saí da clandestinidade, quando voltei para Curitiba em 1980 e reiniciei o curso de medicina.

Comunicação – A foto o tornou mais visado pela polícia?

Dr.Zequinha – Com certeza. Eles passaram a me considerar perigosíssimo’. Tudo isso foi registrado nos arquivos. No arquivo do DOPS estavam coisas que nem eu me lembrava que havia feito. Que eu fui em uma reunião em tal hora,que eu estive em Apucarana em tal lugar. Eu era acompanhado.

Comunicação – Qual era sua posição em relação à luta armada?

Dr.Zequinha – Na época eu não concordava. Mas você tem que estar junto ao povo para organizar as reações. Mas as reações são construídas pela vida. Não podíamos prever. Por exemplo, no momento mais crítico da ditadura, o governo Médici, com as torturas. Não podemos nem comparar com a Argentina, dizendo que a ditadura lá foi pior. Acho que as ditaduras brasileira e argentina têm suas pequenas diferenças, mas são muito semelhantes. Não tínhamos como fazer política, quando começávamos algum movimento íamos presos. Foi então, quando o PCdoB, que havia se unido à AP, começou a organizar uma luta do campo – a guerrilha do Araguaia. Mas era um momento extremo, não havia mais o que fazer. Não tivemos tempo de preparar o povo, conversar, ganhar a sua confiança. Foram fatores externos. É o próprio momento que define se uma luta vai ser armada ou não.

Comunicação – E qual era a relação entre a mídia e o movimento dos estudantes? A imprensa realmente apresentava sua posição contra a ditadura, como é divulgado?

Dr.Zequinha – A imprensa nunca apoiou o movimento dos estudantes de modo aberto, objetivo. Havia casos isolados de jornalistas, mas nada a ver com a imprensa de modo geral.

Comunicação – Você estava em Curitiba na redemocratização do país? Como foi a experiência de ver essa ‘revolução’?

Dr.Zequinha – Sim, estava em Curitiba. Foi um complemento, embora não total, de toda aquela luta que nós fizemos. O movimento estudantil de 68, apoiado pelas primeiras greves operárias, teve a repercussão. Desde o AI-5 estava se concretizando um pensamento que culminou nas Diretas Já. Então, para mim, foi muito legal. Estive falando em palanques no movimento… Valeu a pena tudo o que fizemos. Temos que ter orgulho. Não ser prepotentes, nada disso, mas saber que tudo culminou para exterminar a ditadura que se abateu sobre o país.

Comunicação – Recentemente a Superinteressante publicou um artigo dizendo que a visão que temos de 68 é muito romântica. Que na verdade, os movimentos eram feitos por ‘filhinhos de papai’, burgueses, que haviam enriquecido com a Segunda Guerra Mundial. Qual é sua opinião sobre isso?

Dr.Zequinha – É difícil negar os fatos da história. Naquela época, os cursos universitários tinham uma característica mais elitista. É difícil negar isso. Mas mesmo que fôssemos de classe média, havia toda uma questão nacional e internacional que exerceu influência sobre os estudantes. As ditaduras da América Latina, Allende, a Revolução Cubana. Havia mitos, como Che Guevara, Ho Chi Mihn. Tínhamos acesso a livros de Marx, Engels, Mao Tse-Tung. Foi essa juventude que fez a Passeata dos Cem Mil, que foi pra cima da ditadura quando assassinaram o Edson Luís, no Rio de Janeiro. A classe cultural, poetas, músicos, atores, intelectuais de forma geral foram às ruas protestar. Não eram todos ‘filhinhos de papai’. Um ou outro podia ter sido, mas e daí? É uma posição política. E o idealismo próprio de ser jovem? Uma afirmação como essa renega até esse idealismo, a forma de questionar sistemas, inerente à juventude. Vejo os jovens de hoje lutando pelo acesso mais democrático à universidade. Isso é ser ‘filhinho de papai’?

Comunicação – Qual a sua opinião a respeito da atuação política de pessoas que sofreram nas mãos do regime ditatorial? Presos, perseguidos, exilados, torturados, como a Dilma Rousseff, o José Dirceu e mesmo o presidente Lula?

Dr.Zequinha – Eu vejo de forma muito positiva a participação deles. Tentam manter a política progressista. Obviamente, alguns cometem erros. Podem cometer erros, mas que não reneguem o passado. Vejo isso em alguns políticos, como o senador pelo Amazonas, Arthur Virgílio Neto. Alguns tomaram um posicionamento claramente conservador.

Comunicação – E sobre o Daniel Cohn-Benedit? Ele era um grande líder estudantil e símbolo dos movimentos de 68. Hoje, trabalha no Parlamento Alemão.

Dr.Zequinha – Não sei qual é a função dele no Parlamento. Mas, com certeza, é importante lembrar o grande papel dele naquela época, no meio daquela revolução cultural toda, na reforma de ensino, nas várias discussões, inclusive sobre liberdade sexual. Tudo se concentrou naqueles anos.

Comunicação – Qual é sua relação com o governo atual do país, com a política do Lula?

Dr.Zequinha – Participei da frente Brasil Popular, fui coordenador da campanha do Lula no Paraná, em 1989. Percorremos o estado todo, fizemos três comícios grandes. Apóio o governo do Lula, acho que ele tem tomado decisões muito importantes para a mudança da situação do povo brasileiro. Mas, ao mesmo tempo, sou crítico. Faço crítica à política econômica, que julgo, ainda, conservadora. O próprio presidente não toma uma posição mais altiva. No entanto, é um governo eleito, democrático, progressista e popular, então apóio, com certeza.

Comunicação – E quais as suas impressões sobre o governo do Requião no Paraná?

Dr.Zequinha – Apóio o governo avançado e democrático do Requião. Ele é taxado de louco, de chato, mas o que a mídia faz com ele é algo muito violento, a mídia o provoca. Ele é, também, sangue-quente, todos sabem disso, mas tem feito políticas sociais muito boas no Paraná. É um estado que se tornou referência. Há avanços na área de educação, de saneamento básico que eu, como médico, julgo imprescindível, assim como a distribuição de energia elétrica. Assim como no governo Lula, há o apoio à pequena e média empresa. Eu, particularmente, tenho esse senso crítico em relação a tudo. Observo e, se julgo errado, critico. Mas tanto o governo do Lula quanto o do Requião, são, em geral, bons governos, necessários para esse país.

Comunicação – Há boatos de que a UNE, atualmente, é muito ligada ao governo federal, defendendo mais seus interesses do que os dos estudantes. Como você encara a atuação, tanto da UNE quanto da UPE, atualmente?

Dr.Zequinha – Eu acho que a UNE não segue o governo do Lula, ela sempre manteve sua independência e tem como característica pensar na luta geral do povo. Questões como ‘o petróleo é nosso’ e a luta das Diretas Já. Evidentemente, a UNE tem uma visão positiva do governo federal, mas continua fazendo críticas ao presidente. Há grupos que se dizem esquerdistas ao extremo, mas quando são comparados os discursos desses grupos, com os grupos de direita, conservadores, eles são muito parecidos. A própria Heloísa Helena, na segunda eleição do Lula, acabou tendo uma postura mais conservadora. O fio entre esquerda e direita é muito tênue. Mas a postura independente, que nos permite fazer críticas nas horas certas é essencial para que haja a organização e a mudança.

Comunicação – E como o PC do B se situa hoje na política?

Dr.Zequinha – O meu partido está no governo. Mas apresentamos propostas para mudanças. Criamos um bloco unindo PC do B, PRB, PSB e PDT, que se situa à esquerda e apresentamos várias propostas para o governo Lula. Cinco reformas estruturais fundamentais, entre elas a Reforma Agrária, Reforma Urbana e a Reforma da Educação. Visamos envolver a participação popular para mudar a estrutura do país e permitir essas melhoras.

Comunicação – Como é seu trabalho na Comissão Especial de Indenização a Ex-Presos Políticos, sendo representante dos ex-presos políticos?

Dr.Zequinha – É a segunda vez que atuo na Comissão. Somos muito criteriosos na hora de conceder as indenizações. Existe um decreto que estabelece normas e regras que devemos seguir. Só tem direito à indenização quem esteve preso no estado do Paraná, e tiver provas concretas dos eventuais maus-tratos. Quem esteve preso um pequeno número de dias deve receber indenização proporcional ao período. Há muitos parentes de camponeses que foram presos, já falecidos, que não apresentam provas necessárias. Então as pessoas saem chateadas, mas são as normas estipuladas pelo governo estadual. O governo tem a ação louvável de reconhecer o seu erro, oferecendo uma quantia justa às pessoas. Obviamente, é impossível pagar ou repor doze anos de clandestinidade. É preciso retomar a vida. Eu, casado, com dois filhos, voltei da clandestinidade e me tornei novamente estudante, para concluir o curso de medicina. Eu podia ter me formado médico e exercido a profissão há anos, nenhuma quantia paga tudo isso. O que importa é ser reconhecido. Fui perseguido. Fui torturado. Fui preso político.

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Reportagem LUCIANA GALASTRI
Edição VANESSA PRATEANO
EDISON JANSEN

Conheça o garoto que pode mudar a história do câncer

Antes de tornar realidade um teste mais sensível, rápido e barato para detectar o câncer de pâncreas, Jack Andraka foi rejeitado por 199 pesquisadores

São Paulo –  Jack Andraka – guarde esse nome – tem 15 anos. Em maio deste ano ele venceu a Feira Internacional de Ciência e Engenharia da Intel com um projeto que pode mudar a história do câncer de pâncreas : um teste para detectar a doença 68 vezes mais rápido, 400 vezes mais sensível e 26 mil vezes mais barato que o padrão usado hoje para detectar a doença, inventado nos anos 50.

Jack com o sensor de nanotubos: potencial revolução no diagnóstico do câncer de pâncreas | Foto: Reprodução Internet

Jack com o sensor de nanotubos: potencial revolução no diagnóstico do câncer de pâncreas | Foto: Reprodução Internet

A doença que vitimou um familiar de Jack e inspirou o jovem a pesquisar uma forma de detectá-la antes que ela se espalhe para o resto do corpo, tem um prognóstico sombrio: menos de 2% dos diagnosticados em estágio avançado sobrevivem.

“Eu pensei: se fosse possível diagnosticar essa doença em estágios bem iniciais, as chances de sobrevivência aumentariam muito”, conta ele.

Munido de vontade, curiosidade e uma bagagem científica incomum para garotos da idade dele, Jack se embrenhou no tema e bolou o teste unindo conceitos estudados nas aulas de Biologia com o que havia lido em um artigo sobre nanotubos – estruturas milhares de vezes menores do que a espessura de um fio de cabelo.

“Eles têm propriedades incríveis, são como super-heróis da Ciência.”

Como ele conseguiu fazer isso? Filho mais novo de uma médica e um engenheiro civil, ele foi estimulado desde cedo a encontrar por si as respostas para as dúvidas que tinha sobre as coisas. Além de inteligente e esforçado, claro, Jack foi perseverante. Decidido a concretizar a ideia do teste, ele escreveu para nada menos que 200 pesquisadores norte-americanos apresentando o projeto de pesquisa e pedindo espaço em laboratório para trabalhar nele. Apenas um respondeu que sim. Ainda bem.

Jack conversou por telefone, do laboratório que aceitou abrigá-lo e incentivá-lo. Hoje, ele estuda meios de viabilizar comercialmente o teste. Jack Andraka – guarde esse nome – tem 15 anos. Veja a seguir a entrevista.

Quando você começou a se interessar por ciências?
Eu tinha uns três anos quando meu pai comprou para mim e para o meu irmão [ dois anos mais velho ] uma maquete de plástico de um rio, com água e tudo. Nós ficamos brincando com aquilo o dia inteiro, observando a corrente e colocando os mais diferentes objetos nela, para ver o que afundava, o que seguia o curso da água e o que mudava a corrente. A gente queria respostas. Queria entender como aquilo acontecia. Acho que o interesse despertou a partir daí.

Quanto tempo depois disso você começou a participar de competições de ciências?
A primeira competição foi na 6ª série, com 12 anos. Eu adaptei um dispositivo de segurança para evitar que o fluxo de água nas quedas d’água de pequenas represas cause afogamentos.

Você venceu?
Eu tinha 10 anos e como estava na 6ª série, não podia participar do prêmio da Intel, porque aqui nos EUA ele é apenas para estudantes de ensino médio. Mas tirei segundo lugar na versão internacional do mesmo prêmio com esse projeto.

Como você teve a ideia do projeto vencedor do prêmio internacional deste ano?
Eu escolhi um tema que me interessava na época. O câncer de pâncreas teve um impacto importante na minha família, nós perdemos um parente com a doença. Aí fui pesquisar sobre ela e descobri que 85% dos casos são diagnosticados em estágios avançados, quando o câncer já está espalhado pelo corpo e os pacientes em geral têm menos de 2% de chances de sobrevivência. Eu pensei: se fosse possível diagnosticar essa doença em estágios bem iniciais, as chances de sobrevivência aumentariam muito.

E você simplesmente decidiu fazer isso?
Bem, eu fui atrás de todas as formas conhecidas de diagnóstico desse tipo de câncer e descobri uma proteína chamada mesotelina, que está presente no câncer de pâncreas, assim como nos de ovário e pulmão. A ideia veio mesmo numa aula de biologia. Estávamos aprendendo sobre anticorpos, essas estruturas produzidas pelo sistema imunológico. No câncer que eu estava estudando, os anticorpos se ligavam apenas à mesotelina. Na mesma época, li um artigo muito legal sobre nanotubos de carbono. Você sabia que essas estruturas têm o diâmetro 150 mil vezes menor do que o de um fio do seu cabelo?

Nossa, não tinha ideia de que eram tão pequenas…
Sim, os nanotubos têm propriedades incríveis, são como super-heróis da Ciência. Ok, o que fiz foi meio que conectar essas duas ideias. Eu inventei um sensor de nanotubos de carbono e anticorpos capaz de identificar a presença da mesotelina e dizer, baseado no quanto dessa proteína se liga aos anticorpos, se a pessoa tem câncer de pâncreas.

Quanto tempo você levou para concretizar a ideia?
Foram ao todo 7 meses de muito trabalho.

Onde você trabalhou? Em casa? No laboratório da escola?
Não, eu contatei 200 pesquisadores na Universidade Johns Hopkins e nos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos pedindo espaço em laboratório e apoio para desenvolver a minha pesquisa. Apenas um me disse sim [ Anirban Maitra, professor de Patologia, Oncologia e Engenharia Química e Biomolecular da Escola de Medicina da Johns Hopkins ]. Uns me responderam que não tinham espaço, outros que não tinham o equipamento, outros simplesmente não responderam. Quando finalmente fui aceito, cumpri um rigoroso processo para me transformar em um pesquisador e iniciei o trabalho.

Durante a pesquisa, como ficou a escola? Você conseguia dar conta de tudo?
Normalmente eu consigo fazer todas as coisas da escola durante o período das aulas. Enquanto desenvolvia o projeto, eu ficava até tarde da noite no laboratório fazendo e refazendo os testes, então aproveitava o tempo entre eles para completar o dever de casa.

Os seus pais não reclamavam de você ficar até tarde da noite trabalhando?
Meus pais não reclamavam, pelo contrário. Eles sempre valorizaram o trabalho e o esforço. Acho que só consegui chegar até aqui porque como pais eles me ajudaram e me incentivaram.

Com todas essas atividades, você consegue passar algum tempo com os amigos e a família? Aliás, você tem namorada?
Não tenho namorada. Mas eu gosto de socializar sim. Este ano, com todo o trabalho no projeto, a minha vida social ficou um pouco comprometida, mas os meus amigos me apoiam e entendem isso. E continuam meus amigos.

Depois da vitória no prêmio da Intel você foi contatado por algum interessado em produzir e vender o seu teste?
Sim, já fui contatado por sete empresas de biotecnologia interessadas em produzir o teste. Estou aguardando a conclusão do processo de patente, ainda não decidi que direção quero tomar.

Além do câncer, quais outras áreas você ainda gostaria de pesquisar?
Eu definitivamente gosto de Biologia, mas também tenho interesses em Física e Química. Então venho tentando combinar essas três coisas nos meus próximos projetos.

Já pensou sobre a faculdade? O que pretende cursar e onde deseja estudar?
Hum…não tenho a mínima ideia de onde ou o que vou estudar. Há tantas opções hoje em dia e tanta gente com diploma. Não sei se quero seguir esse caminho.

O seu histórico e a sua mais recente invenção geraram uma grande expectativa em torno da sua performance no concurso do próximo ano. Como você lida com isso?
Acho que será um novo desafio. Quero participar do concurso do ano que vem e pretendo me divertir com isso. Só quero seguir pesquisando.

 Leoleli Camargo do iG

‘A pirataria online pode minar a produção do conhecimento’ – por roberto feith

Diretor da Objetiva diz que seu maior arrependimento foi deixar passar a edição de ‘Harry Potter’

24 de agosto de 2012 | 19h 30

Não, não é porque diz sentir falta da “adrenalina da TV” que o ex-repórter carioca Roberto Feith, diretor-geral da Objetiva, uma das maiores editoras de livros do País, pode ser considerado ainda jornalista, a despeito dos mais de 20 anos que deixou a profissão. Ex-correspondente da TV Globo na Europa e ex-editor chefe do Globo Repórter, Feith aceitou em 1991 a proposta de dois conhecidos e comprou 60% de uma editora inexpressiva – ela mesma, a Objetiva. Àquela altura, tocava uma produtora, a Metavídeo, após ter estado com Walter Salles na Intervídeo, que fazia trabalhos para a extinta TV Manchete. Não entendia nada de editora, mas como bom repórter diante de um furo em potencial, decidiu arriscar – seguindo critérios jornalísticos.

 

Viés jornalístico foi fundamental na trajetória da editora, diz - Clayton de Souza/AE
Clayton de Souza/AE
Viés jornalístico foi fundamental na trajetória da editora, diz

Começou mal. Apostou numa biografia de Boris Ieltsin – política internacional era sua especialidade -, que resultou num enorme fracasso. Aos poucos, porém, foi ajustando o foco. “Como correspondente e depois noGlobo Repórter, exercitei muito a função do editor e o trabalho em equipe. Nessas tarefas, você está sempre buscando uma abordagem original para contar determinada história. E o trabalho do editor de livro, principalmente do livro de não ficção, é muito próximo disso; as aptidões e os talentos são muito parecidos. A Objetiva evoluiu, principalmente na área da não ficção, em função dessas características”, diz ele na entrevista a seguir. Confortavelmente instalado num hotel da região da Avenida Paulista, Feith conversou com uma equipe do Estado: Rinaldo Gama, editor do Sabático; os repórteres Antonio Gonçalves Filho e Maria Fernanda Rodrigues, e Ubiratan Brasil, editor do Caderno 2.

Por três horas, seu raciocínio cristalino e a fala assertiva – educada pelos sinais elétricos dos microfones e uma longa convivência com a escrita – atravessaram um largo espectro de temas ligados ao livro: o dia a dia do processo editorial, os erros (Harry Porter lhe foi oferecido com insistência e ele deixou passar), os acertos (Inteligência Emocional, que vendeu meio milhão de exemplares), pirataria online (“o Google e o Yahoo são ‘sócios’ do Megaupload”, alfineta), o futuro do e-book no Brasil e da própria literatura brasileira, para o qual, aliás, ele acenou publicando novos talentos em um número especial da revistaGranta. Aos 60 anos, Roberto Feith não é mais majoritário na Objetiva: em 2005, vendeu 76% da empresa para a Santillana, que participou da criação do prestigioso jornal espanholEl País. Sim – mesmo sem a adrenalina da TV, Feith, de certo modo, está em casa.

Que interesse o senhor tinha no mercado editorial para entrar de sócio na Objetiva?

Um dos projetos importantes que fizemos na Metavídeo foi uma série de seis documentários sobre a história do cinema no Brasil. Produzimos tanto, que uma grande parte desse material fotográfico e de entrevista ficou inédito. Então, surgiu a ideia de fazer um livro usando esse conteúdo. A Nova Fronteira coeditou. Lá, o Alfredo Gonçalves e o Armando Campos tocaram o projeto comigo. Passou-se um tempo e nunca mais os vi, mas soube que seis meses depois eles saíram para criar uma editora, com o apoio de um investidor. A editora não conseguiu evoluir. Anos depois, esse sócio saiu e eles me procuraram. Foi assim que eu entrei no negócio. O meu sonho profissional era ser jornalista de imprensa escrita; entrei para a TV por mero acaso. Mas sempre fui um leitor voraz, rato de livraria. Minha mulher foi a única pessoa que me incentivou a investir numa editora. Todo mundo me dizia que eu estava maluco, que televisão era o veículo de maior poderio e projeção no Brasil, que aqui ninguém lê. Depois que entrei, continuei anos com a produtora enquanto tentava entender como funcionava o mercado e uma editora. (Gonçalves deixou a editora em 2004 e Campos, em 2006)

Quando o senhor fez o negócio, tinha um modelo de editor na cabeça?

Não. E não tinha por ignorância.

Alguma linha editoria em mente?

Hoje poderia falar sobre isso de um modo mais coerente. Na época, foi uma mistura de oportunidades que surgiam aleatoriamente com as minhas experiências pessoais. Eu me lembro de contratar direitos de tradução de muitos títulos sobre política internacional, um grave equívoco, nenhum deles vendeu nada. Era o assunto que eu conhecia e gostava. Um dos primeiros livros que compramos foi uma biografia do Boris Yeltsin. Imagine se alguém ia ler um livro do Yeltsin! Aprendi isso a duras penas. E o outro tipo de livro que a gente acabou trabalhando foram aqueles que surgiram por circunstâncias aleatórias. O Lair Ribeiro é um bom exemplo disso. Não me lembro como apareceu a oportunidade, mas aproveitamos e ele foi nosso primeiro best-seller.

Qual sua participação ao entrar na editora?

Se não me engano comprei 60% da empresa em 1991. O que veio a ser um investimento mais substantivo não foi a compra das cotas, mas sim a tentativa de fazer a editora decolar.

Quanto pagou?

Não tenho a menor ideia. Mas foi pouco. Talvez o valor de um carro usado.

Muitos editores dizem que publicam best-sellers para ter recursos que possibilitem vencer o leilão de um título de qualidade literária indiscutível. Essa também foi a estratégia da Objetiva a partir de sua entrada?

Havia a ideia de que publicando autores comercialmente potentes teríamos condições de desenvolver a editora na linha de um projeto mais consistente.

Ainda sobre best-sellers, o senhor criou a Plenos Pecados, uma série com autores de prestígio escrevendo a respeito de temas mais palatáveis. Como é a reação de autores consagrados quando se oferece a eles a oportunidade de escrever um livro para uma série como essa?

Uma das razões de montar esse projeto era atrair autores de renome para uma editora ainda sem grande visibilidade ou uma trajetória consolidada. Fiz o projeto com Isa Pessoa, que trabalhava na editora. Levou quase um ano para fecharmos a lista dos sete autores. Convidamos o Mario Vargas Llosa, e ele disse que escreveria contanto que fosse sobre a luxúria. Mas a luxúria já estava tomada pelo João Ubaldo. A coleção deu certo, trouxe autores de grande qualidade e sucesso comercial, e pudemos começar a montar a editora que sonhávamos.

E qual era essa editora?

Como disse antes, eu não tinha um modelo de editora – nem mesmo considerando as estrangeiras. Se olharmos a trajetória da Objetiva, veremos que ela não é igual a nenhuma outra. Acho que é um pouco pela experiência de vida das pessoas da equipe – havia muito o viés jornalístico.

De que modo ter atuado como jornalista contribui para o trabalho da editora?

Como repórter e correspondente internacional e depois no Globo Repórter, exercitei muito a função do editor e do trabalho em equipe. Nessas tarefas, você está sempre buscando uma abordagem original para um determinado tema, procurando como contar determinada história. Às vezes, você vê um assunto que tem consistência, que tem interesse ou relevância, mas precisa encontrar uma outra maneira de tratá-lo. E o trabalho do editor de livro, principalmente do livro de não ficção, é muito próximo disso; as aptidões e os talentos são muito parecidos. A Objetiva evoluiu, principalmente na área da não ficção, ou a da ficção dirigida, encomendada, em função dessas características.

O modelo do publisher americano parece que vingou no Brasil – e o europeu ficou um pouco esquecido. Filho de americano, o senhor acabou unindo as duas pontas: o pragmatismo de um publisher dos EUA, atento à performance de vendas, e uma visão europeia, marcada mais pela vontade de publicar qualidade literária, independentemente dos resultados financeiros. Como se deu isso?

Ser filho de americano não teve, na prática, nenhuma influência. Como mencionei, acredito que a vivência que mais marcou meu papel na editora foi a jornalística. Acho que há pessoas que tocam editoras lendo e editando e outras não. Sou editor-geral de uma editora que faz as duas coisas. Desde o início.

Sua editora cresceu muito. O senhor ainda consegue estar em todas as frentes?

Conciliar tudo tem sido um exercício. A palavra publisher evoca uma pessoa que não edita. Não me sinto totalmente encaixado nesse conceito porque não é bem esse o meu cotidiano. Continuo avaliando manuscritos, vou a feiras, converso com os agentes.

O senhor edita algum autor que não vende, mas dá prestígio ao catálogo da editora?

Naturalmente. Prestígio, prazer de publicar. Mas essa não é uma decisão puramente romântica, porque poder publicar grandes autores, ainda que comercialmente não sejam tão bem-sucedidos, é uma forma de você qualificar o selo e atrair outros escritores. Tem outro componente relevante no universo editorial brasileiro: esses grandes autores podem não vender muito, mas periodicamente são adotados num vestibular ou entram numa compra pública. Lobo Antunes é um exemplo disso. Os Cus de Judas foi um livro dele que vendeu mais de 20 mil exemplares por causa de um vestibular.

Qual foi o seu maior sucesso de vendas?

Comédias Para se Ler na Escola, do Verissimo. Mais de 1 milhão de exemplares.

Quando seguiu sua intuição na hora de adquirir um livro, qual foi seu maior equívoco e o maior êxito?

O maior equívoco é fácil. Tessie Barham, hoje uma importante agente literária, nos ajudava na avaliação de textos. Naquela época, ela ainda estava tateando e me propôs uma série juvenil maravilhosa, a Fronteiras do Universo, de Philip Pullman. Compramos, investimos pesado em marketing, e nada aconteceu. Paradoxalmente, anos depois vendeu mais de 100 mil exemplares.

E o arrependimento?

Foi nos anos 90. Um dia, Tessie me mandou um e-mail assim: “Roberto, tem aqui outro livro juvenil para você comprar. Muito bom, você tem de comprar. Chama-se Harry Potter.” E eu: “Olha, Tessie, me desculpe, mas não vou comprar.” Ela ficava mandando e-mail dizendo que eu iria me arrepender. E eu: “Tessie, lembra o que aconteceu com o Pullman?” Bem, ela estava certa, claro; eu me arrependi amargamente. Errei e continuo errando. Mas se o editor ficar desanimado quando errar, ele vai mudar de profissão.

Algum outro acerto?

Nessa linha um pouco anedótica da intuição e do imponderável, comprei os direitos de um livro que vendeu maravilhosamente bem (meio milhão de exemplares), que foi oInteligência Emocional, do Daniel Goleman. Li o informe do nosso scout e intuitivamente achei aquilo muito forte. Entrei no leilão em Frankfurt, suei, mas consegui.

Os grandes livros não são mais vendidos em Frankfurt, são? Perdeu-se um pouco do frenesi dos leilões?

Hoje, os agentes literários e as editoras que têm uma grande oferta de direitos autorais para tradução, deliberadamente, esperam até a véspera da feira para distribuir alguns de seus títulos mais potentes, porque eles compreendem que a dinâmica da pré-feira leva a uma disputa mais acirrada pelos editores de cada país por aqueles direitos.

Os brasileiros estão pagando valores irreais nos leilões?

Houve num passado recente e continua havendo uma exuberância irracional, para tomar emprestada uma expressão do Alan Greenspan, em relação à compra de direitos de tradução. Adquirir um livro que exija torná-lo um mega best-seller para recuperar esse investimento é um exercício perigoso. Isso é realidade e tem a ver com o aumento da concorrência.

Enquanto as grandes editoras criam selos para organizar melhor o catálogo, as de menor porte têm se especializado em determinado segmento. Isso terá lugar no futuro ou acha que as pequenas serão incorporadas por grandes grupos?

Sempre houve e haverá espaço para pequenas editoras focadas em determinados nichos. Isso não é novo. Novo são editoras importantes buscando diversidade de linhas de atuação criando novos selos, de uma forma semelhante ao que adotamos há cinco anos. Isso está acontecendo de forma sistemática. A tendência é que nenhuma editora se limite a atuar só num gênero.

O que leva a isso?

Hoje, a diversidade é um bem em si no mercado editorial, dado o grau de competição visto na última década.

No início do ano, o senhor escreveu um artigo investindo contra a campanha das gigantes da internet contra a lei antipirataria. Como vê o futuro do mercado digital, as leis antipirataria?

Fico feliz que tenham levantado esse assunto, que é importante. Vivemos a era do conhecimento. A produção do conhecimento é fundamental para o avanço de qualquer país. E esse tipo de produção tem de ser incentivada, e não minada. As empresas, ou pessoas, que defendem a pirataria online, ou a cópia irrestrita online, estão minando a produção do conhecimento nos seus respectivos países. Da mesma forma que não existe o milagre da multiplicação dos peixes, não existe o milagre da multiplicação do conhecimento. Sua produção exige formação, trabalho, investimento, e tudo isso tem de ser remunerado. Ninguém imagina que uma pessoa possa entrar numa livraria, pegar uma dúzia de livros e sair sem pagar. Mas algumas pessoas argumentam que na internet você pode e deve fazer isso.

A Objetiva sofre com a pirataria?

O Sindicato Nacional de Editores apoia um grupo de trabalho que identifica a oferta de conteúdo ilegal e pirata online. Em maio, no caso da Objetiva, havia 1.600 títulos oferecidos ilegalmente – 90% em um só site, o Fourshared. Esse site americano está ganhando dinheiro com escritores que publicamos, e alguns deles são brasileiros. Para isso as pessoas não atentam. O Fourshared e o Megaupload não têm estrutura para vender publicidade pelos quatro cantos. Eles usam estruturas criadas para esse fim por grandes corporações da internet, como o Google e o Yahoo. Então, o Google e o Yahoo são “sócios” do Megaupload e, indiretamente, se apropriam de obras dos escritores brasileiros para faturar milhões de dólares. E faturam literalmente milhões de dólares. Assim, quando uma grande corporação da web defende a pirataria na internet, argumentando que é uma questão de liberdade de expressão, estamos diante do mais puro oportunismo e demagogia. É preciso que a sociedade se conscientize, porque se a pirataria for consolidada como prática na web, a produção de conhecimento vai atrofiar aqui, e o brasileiro será obrigado a consumir conhecimento produzido nos países onde essa atividade é estimulada.

No momento em que o e-book se difundir efetivamente, o que o livro impresso precisará ter para não perder vendas?

O e-book é coisa do futuro e será uma coisa do presente. Mas eu não vejo o livro físico sendo a parte menor do mercado. Não vejo o digital ocupando a maior parte do mercado brasileiro no horizonte de uma década.

A Objetiva tem uma equipe focada na questão do livro digital?

Não, acho isso um erro. Todos têm de entender do digital para fazer seu trabalho. Mas uma das coisas que fiz tendo em vista essa transformação foi propor a criação da Distribuidora de Livros Digitais, que toma grande parte do meu tempo e tem como sócias as editoras Objetiva, Record, Sextante, Rocco, Planeta, L&PM e Novo Conceito.

Por que uma distribuidora?

Quando formamos a DLD, pretendíamos participar da definição de como o livro digital iria se consolidar e se implantar no Brasil. Essa preocupação se traduz em três objetivos. Primeiro, trazer para o consumidor brasileiro o que existe de melhor no exterior, em termos de experiência de consumo de livro digital, sem que isso signifique que empresas vindas de fora tenham condições de concorrência, no relacionamento com as editoras, superiores àquelas disputadas pelas empresas brasileiras que atuam no entorno digital. Segundo, garantir uma oferta diversificada e ampla de conteúdo. E terceiro, trabalhar com preços que sejam atraentes para o consumidor, mais baratos que o livro impresso, mas que remunerem o trabalho do escritor, da editora e da livraria.

De quanto é o desconto da DLD?

Nosso e-book tende a ser de 30% a 40% mais barato que o livro impresso; em julho, o preço médio do livro vendido pela DLD foi de cerca de R$ 16. Ou seja, menos que US$ 9.

Como estão as negociações com as empresas estrangeiras que querem atuar no País?

Estamos conversando com cinco empresas e muito perto de fechar acordos – acho que até o fim do ano teremos novidades. Para que o livro digital dê corda no Brasil, precisamos de três coisas: dispositivos de leitura bons e baratos, livrarias virtuais com facilidade de uso e oferta ampla e diversificada de títulos pelas editoras. A conclusão desse tripé é que teremos, ainda este ano, dispositivos de leitura lançados aqui, de primeira geração, a preços acessíveis. Penso que teremos o primeiro Natal digital.

Quais são as cinco estrangeiras que estão negociando para atuar aqui?

Amazon, Apple, Google, Kobo e nós, na Objetiva, estamos negociando com a Barnes & Noble, mas não para o Brasil.

Falamos em concorrência, em e-book, mas existe também a questão da territorialidade. Até pouco tempo atrás, era possível comprar um e-book de um autor português editado no Brasil pela Alfaguara diretamente da editora portuguesa desse autor.

Você está se referindo a um livro de António Lobo Antunes. Foi uma falha da editora portuguesa, já foi sanada. Isso se chama territorialidade. Hoje, quando você faz o upload de um título, tem de indicar para que países tem os direitos de venda.

Como fazer para que as pessoas leiam independentemente de obrigações escolares ou profissionais? Há, de modo recorrente, a queixa de que o livro no Brasil é caro.

O Snel e a Câmara Brasileira do Livro vêm contratando pesquisa de mercado há mais de uma década, que é feita pela Fipe. A última pesquisa, de 2011, identificou que no setor de obras gerais o número de lançamentos aumentou 8,6%, o número de exemplares vendidos aumentou 0,2%, e o faturamento, em reais, caiu 11%. Se considerar o acumulado de 2004 até 2011, em obras gerais, em valores nominais, a queda no preço médio foi de 26%. Em valores reais, compensados a inflação, 45% de redução. Eu pergunto: que outro produto teve uma queda de 45% no seu preço médio, real, nos últimos sete anos?

Por que o preço caiu?

Competição, competição. Há outros fatores: Avon, com vendas de porta em porta, os selos de bolso, a desoneração, no caso de livros de obras gerais.

Essa queda está chegando ao limite?

Sim. A criatividade dos editores está sendo cada vez mais exigida. Acredito que as margens têm sido comprimidas por esses processos. O que aconteceu de 2007 para 2011 não pode se repetir. A tendência é desacelerar, mas não posso afirmar que não haverá mais uma queda de preço.

A Alfaguara Brasil lançou recentemente uma edição da Granta com novos talentos do País. Essa seleção consolidou alguns autores que, nos últimos anos, começaram a se posicionar como promessas. O que sua editora, dentro ou não da Granta, faz para descobrir, de fato, novos valores na ficção?

A maioria das editoras que publicam ficção está sempre louca para encontrar jovens talentos. Eu sei que muita gente comenta que é difícil conseguir ser publicado, mas é difícil encontrar talento também. Temos conseguido atrair grandes autores da literatura brasileira, nomes como João Ubaldo, João Cabral de Melo Neto, e agora o Mário Quintana. Mas fiquei preocupado que o selo se tornasse clássico demais, com pouca vitalidade e criatividade. Por isso, temos feito grande esforço para encontrar e trazer jovens autores. Hoje em dia, temos quatro ou cinco novos escritores com muito potencial. Laura Erber é uma jovem que tem muito a dizer, domina a técnica da escrita. O Ricardo Lísias nem se fala, ele é completamente original, uma coisa difícil de encontrar.

Fazer uma seleção como a da Granta é uma experiência de risco.

Sim, dá dor de cabeça. Mas olhando em retrospecto, posso dizer que deu tudo certo. Estávamos preocupados. Quando anunciamos o projeto, não sabíamos se seria bem-sucedido. Era efetivamente um risco. A primeira coisa que nos tranquilizou foi a quantidade e a qualidade de textos submetidos. Depois, conseguimos montar um grupo de jurados de inegável qualidade e qualificação. O resultado da revista foi muito bom. Há desigualdades, diversidade. Alguns textos são melhores que os outros e nunca tive expectativa de achar que os 20 seriam extraordinários, isso não acontece em coletânea nenhuma. O resultado tem quantidade suficiente – na minha opinião pessoal – de escritores de talento para que se possa dizer: está justificado o esforço.

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Rinaldo Gama, Antonio Gonçalves Filho, Maria Fernanda Rodrigues e Ubiratan Brasil – O Estado de S. Paulo

E SE FALTAR ESPAÇO NA INTERNET?


De fato, isso já está acontecendo.


Vint Cerf, Chief Internet Evangelist no Google e o pai da Internet, discute a próxima versão da Internet e explica por que precisamos dela.

Por que está começando a faltar espaço na Internet?

Assim como os telefones usam um sistema de números de telefone para efetuar as chamadas, cada dispositivo conectado à Internet recebe um número exclusivo conhecido como “endereço IP” que o conecta coma rede global on-line.

O problema é que o sistema atual de endereçamento da Internet, Internet Protocol v4 (IPv4), só tem espaço para cerca de 4 bilhões de endereços – longe de ser suficiente para os habitantes do planeta, sem falar nos dispositivos que estão on-line hoje e os que estarão no futuro: computadores, telefones, TVs, relógios, geladeiras, carros e por aí vai. Mais de 4 bilhões de dispositivos já compartilham endereços; com o esgotamento dos endereços IPv4 disponíveis, dispositivos e usuários da Internet precisarão compartilhar.

Como estamos abrindo espaço para crescer?

Está claro que a Internet precisa de mais endereços IP.Mais quantos, exatamente? Bem, que tal uns 340 trilhões de trilhões de trilhões (ou 340.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000)? É isso que cabe na nova “tubulação” da Internet, o IPv6. É o suficiente para que todos os habitantes do planeta tenham seus próprios bilhões de endereços IP. Em outras palavras, é suficiente para oferecer espaço infinito para a Internet crescer, de agora até o futuro previsível.

Quando vai acontecer a transição?

Substituir os encanamentos da Internet vai levar um tempinho. O lançamento mundial do IPv6, dia 6 de junho de 2012, marcou apenas o início de uma implantação coordenada pelos principais websites e provedores de serviços e equipamentos de Internet. No Google, acreditamos que o IPv6 seja essencial para o bem-estar e o crescimento contínuos da Internet e que, permitindo que todos os dispositivos conversem entre si diretamente, o IPv6 possibilita novos serviços inovadores.

Você não precisa fazer nada para se preparar, mas se estiver interessado em aprender mais sobre o IPv6 e como apoiar sua implementação, consulte algumas perguntas frequentes.

 

 

 

Perguntas frequentes

IPv4 é a versão atual do Protocolo de Internet, o sistema de identificação que a Internet usa para enviar informações entre dispositivos. O sistema atribui uma série de quatro números (cada um variando entre 0 a 255) a cada dispositivo. O IPv4 permite apenas 4 bilhões de endereços, e a Internet precisa de um espaço maior que esse. O IPv6 é a nova versão do Protocolo de Internet, que aumenta o número de endereços disponíveis a um total praticamente sem limites: 340 trilhões de trilhões de endereços.

Estão faltando endereços IPv4 na Internet. A transição para o IPv6 permite que a Internet continue a crescer e que serviços novos e inovadores sejam desenvolvidos, uma vez que mais dispositivos podem se conectar à Internet.

Assim como um número de telefone ajuda você a se comunicar com outro telefone, um endereço IP (abreviação para endereço de Protocolo de Internet) é fornecido a seu computador para que ele possa se comunicar com websites, serviços de Internet e outros dispositivos. Endereços IP são números exibidos como strings de letras e números, como, por exemplo 192.0.2.1 (para IPv4) e 2001:db8::1234:ace:6006:1e (para IPv6).

O Lançamento Mundial do IPv6, em 6 junho de 2012, organizado pela Internet Society, é o dia em que os principais websites e Provedores de Serviços de Internet (ISPs) participantes ativarão o IPv6 e começarão a transição do IPv4.

Você não precisa preparar nada para o IPv6; seus aplicativos e dispositivos funcionarão exatamente como antes. Essa mudança é para garantir que você possa continuar a usar a Internet no futuro da mesma forma que faz hoje.

A transição completa do IPv4 para o IPv6 demorará algum tempo, uma vez que todos os websites e Provedores de Serviços de Internet precisarão fazer a troca. Por enquanto, ambos os sistemas funcionarão juntos, até que o IPv4 não seja mais necessário.

Não, os serviços de IPv4 continuarão a operar como de costume.

Talvez você já esteja usando o IPv6. Visite ipv6test.google.com para descobrir. Muitos dispositivos que você usa já suportam IPv6; no entanto, os websites que você visita e seu Provedor de Serviços de Internet devem, primeiro, ativar o IPv6 para que você possa usá-lo.

A maioria dos principais websites e Provedores de Serviços de Internet já oferece suporte ao IPv6, mas há outros que ainda precisam realizar a troca. Se você gostaria de usar o IPv6, entre em contato com seu Provedor de Serviços de Internet e peça para fornecerem a você o acesso à Internet com IPv6. Você também precisa ativar o IPv6 em seu roteador doméstico ou fazer upgrade para um que suporte o IPv6. Para obter uma lista de fabricantes de roteadores doméstico que suportam IPv6, comece aqui.

A versão 5 foi reservada para o Protocolo de Fluxo de Internet, desenvolvida antes do IPv6. Ela não foi amplamente implantada e não será usada publicamente.

 

“A indústria cultural nunca será inteligente” entrevista com o intelectual SILVIANO SANTIAGO – por joão pombo barile /belo horizonte.mg


Nascido em 1936, o mineiro Silviano Santiago é um dos mais refinados intelectuais brasileiros. Autor de diversos livros nos mais variados gêneros – poesia, romance, conto –, é na forma do ensaio que ele se tornou uma importante referência na vida cultural e acadêmica do país, ganhando ressonância até mesmo no exterior. Recebeu em 2010, pelo conjunto da obra, o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura. Sua capacidade crítica, presente em livros como Nas malhas da letra (1989) e O Cosmopolitismo do Pobre: Crítica Literária e Crítica Cultural(2004), também pode serconferida nesta entrevista.

Quais as causas da desimportância atual dos rodapés literários no Brasil? A ideia da cultura como entretenimento tem ganhado mais e mais adeptos nas redações de jornal? O que resulta do embate do escritor com o computador? Qual a relação entre narrador pós-moderno e jornalista celebridade? Qual a importância de Jacques Derrida? A cada pergunta, Silviano responde com uma reflexão iluminada e iluminadora, mostrando ao leitor faces por vezes ocultas dessas questões.

Quando é que os rodapés literários pararam de ter importância no Brasil? É possível precisar uma data? E por que isto aconteceu?

Silviano Santiago –Tudo indica que podemos datar a perda de prestígio do rodapé. A partir da década de 1950, uma geração de críticos poderosos, formada pelas ideias modernistas, e os textos produzidos por eles e publicados em suplemento literário ou em revista, perdem gradativamente a importância nacional. Álvaro Lins serve de exemplo. Seu Jornal de crítica tem a primeira série de rodapés publicada em livro pela José Olympio no ano de 1941 e a sexta no ano de 1951. Saltam-se dez anos. A última e sétima coleção de rodapés escritos por ele e reunidos também em livro, volume ainda intitulado Jornal de crítica, sai então pelas Edições O Cruzeiro, no ano de 1963. O primeiro conjunto de textos, 1941, é dedicado a Paulo Bettencourt e ao jornal que ele dirige, Correio da Manhã. Lins agradece ao diretor e ao jornal por o volume de crônicas ter-se formado, “com a categoria de sua crítica literária oficial, numa colaboração de todas as semanas”. Havia, portanto, relação estreita entre coluna e jornal, entre coluna e linha editorial, entre colaboração e periodicidade. O sistema do rodapé era prestigioso, influente e orgânico. A relação está óbvia no próprio título das coleções de rodapés: jornal de crítica.

Outro exemplo, Brito Broca. Em prefácio a reunião de rodapés (ou de crônicas) de Brito Broca, datada de 1981, Antonio Candido esclarece: “Talvez os escritos de Brito Broca não satisfaçam aos que limitam a crítica à análise sistemática e altamente técnica dos textos”. Em leitura dos diários críticos de Sérgio Milliet, o mesmo Candido recomenda a vasta obra porque ela “pode ajudar muito a restaurar o que se poderia chamar o ato crítico, meio sufocado pelo aparato teórico contemporâneo. O ato crítico é a disposição de empenhar a personalidade, por meio da inteligência e da sensibilidade, através da interpretação das obras, vistas sobretudo como mensagem de homem a homem”.

Não é, pois, difícil detectar a causa para a perda de prestígio do rodapé. A apreciação de Candido, formado por professores brasileiros e franceses na USP, aponta, de um lado, para a ausência na produção jornalística de fundamento propiciado por conhecimento técnico (teórico?) da arte literária e, do outro lado, para a limitação no ato de julgamento pelos que rechaçam o jornal e são geradores de valores teóricos no processo de análise da arte. A atitude de Candido pode ser reforçada pelos escritos raivosos dos anos 1960 de Afrânio Coutinho, logo depois de um período de estudos nos Estados Unidos, em que se entregou à leitura do new criticism. Os escritos de Afrânio, contundentes pelo tom de desprezo pelos jornalistas culturais, foram reunidos no volume No hospital das letras (1963), onde é espezinhada a figura de Álvaro Lins e o gênero de trabalho crítico a que se dedica. Não passava de um mero crítico impressionista.

No bate-boca entre os colunistas de jornal, formados pelo saber modernista sobre as artes, e seus dois (então jovens) leitores, formados pela pós-graduação universitária, está o conflito que marca a passagem de uma postura impressionista à outra, dita técnica. Uma se sobrepõe à outra no correr da década de 1960 e a leva de vencida na década de 1970. O centro da apreciação crítica é deslocado do papel-jornal semanário para o ensaio ou a tese universitária, de circulação restrita e bem modesta. As famosaspanelinhas literárias perdem o espaço buliçoso e alvissareiro dos bares e restaurantes do centro da cidade para ganhar a austeridade e a linguagem especializada do campus. Talvez haja ganho em qualidade crítica na tarefa; talvez o grande público perca o acesso às ideias abstratas expostas pelos rodapés. O crítico amador, cuja formação tinha sido feita no contato com os tratados sobre filosofia e estética e com os livros dos grandes autores de literatura, perde o prestígio e é substituído pelo especialista em literatura, que aprecia o romance e a poesia nos detalhes (close reading), a partir de rigorosos pressupostos metodológicos, tomados a uma das correntes críticas colocadas à disposição do estudioso nos bancos acadêmicos. O colunista “oficial” (a palavra é de Lins na dedicatória do livro ao Correio da Manhã e seu diretor) do suplemento literário é substituído pelo professor titular no Departamento de Letras, emérito autor de história da literatura brasileira e responsável pelos cursos de pós-graduação, onde os alunos, por sua vez, produzem trabalhos de estágio e teses de mestrado e de doutorado.

Da perspectiva da implantação do Modernismo no Brasil, outra maneira de ver o tema do rodapé seria o da análise do movimento por gêneros literários. Década de 20: dominância da poesia. Década de 30: dominância da prosa. Década de 40: dominância da crítica. O final do rodapé coincidiria com o final da forte e definitiva influência das ideias modernistas na formação do jovem escritor.

Nesse tipo de discussão, há uma terceira via que é sempre esquecida. Desde os anos 1920, na época da vanguarda modernista, os próprios artistas buscavam espaço no jornal e se faziam de críticos literários e de arautos da própria obra. É o caso de Mário de Andrade e de Manuel Bandeira, principalmente. Nos anos 1950, época em que o crítico de rodapé perde influência nacional e o crítico universitário não a alcança, é a nova vanguarda, hoje tida como “experimental”, que passa a ocupar os jornais e os suplementos. O caso mais notável é o do suplemento do Jornal do Brasil (SJDB, lançado em junho de 1956), tomado de assalto pelos neoconcretos, liderados por Mário Faustino. Os irmãos Campos e Décio Pignatari atuam de maneira semelhante em São Paulo (suplemento de O Estado de S. Paulo) e nos suplementos cariocas, tendo recebido destaque na famosa Revista do Livro, do INL, no momento em que Alexandre Eulálio era redator-chefe. Em Minas Gerais, há que citar o caso do pessoal da revista Tendência (Affonso Ávila, poeta, e Rui Mourão, romancista) e da revista Complemento. Lembre-se, ainda, que uma nova geração de escritores surgirá neste suplemento literário.

Três detalhes a serem explorados.

1.Há uma importante fusão das artes a partir da época do experimentalismo. Cinema, artes plásticas, teatro e balé cortejam a literatura. O livro Alguns, de Júlio Bressane, é revelador nessa matéria. Diz ele lá que as palavras do poema “Cidadezinha qualquer”, de Carlos Drummond, pintam um quadro de Tarsila: “Casas entre bananeiras / mulheres entre laranjeiras / pomar amor cantar”. Ao filmar Vertigo, Alfred Hitchcock escreve um poema de Mallarmé. Já Mário Reis, o Braguinha, desenha Betty Boop, criada por Max Fleischer, ao compor a marchinha “Moreninha da praia”. O filme Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, escreve o romance de igual nome assinado por Graciliano Ramos.

2.Há também um jornalismo cultural que pode ser lido de maneira enviesada e que, por isso, beira o gosto pela anedota. Refiro-me à correspondência trocada entre grandes escritores. De maneira retrospectiva, ali se pode ler a história subterrânea e amistosa dos vários caminhos por que passa, por exemplo, o modernismo no processo de afirmação. De certa forma, ler as cartas trocadas por Mário com seus amigos equivale à leitura atual do jornal de crítica, de Álvaro Lins, ou do diário crítico, de Sérgio Milliet.

3.No novo milênio, o jornalismo cultural é feito por profissionais formados nas Escolas de Comunicação (e não mais nas Faculdades de Letras). Está para ser analisado o estilo que os comunicólogos devem imprimir aos textos e à crítica. Já é certo que a ideia de cultura como entretenimento ganha mais e mais adeptos nas redações de jornal.

A indústria cultural brasileira, pelo menos aparentemente, foi mais inteligente do que a atual (fiquemos apenas em dois nomes: Chico Buarque e Caetano Veloso). Passados 27 anos do fim da ditadura, como você vê a produção cultural do país? É possível comparar os dois períodos? [Aqui penso, sobretudo, no seu texto “Democratização no Brasil: 1979-1981 (Cultura versus Artes)” e, se possível, gostaria que você fizesse uma pequena reavaliação do texto. O que ainda vale? O que não?]

S.S. –A indústria cultural brasileira, ou a estrangeira, nunca foi e nunca será inteligente. Ela pode ser favorecida pelos fados da radicalidade dos governos, contrários à inteligência e à cultura, e ganhar, por interposto agente – por exemplo, regimes totalitários ou regimes ditatoriais −, importância e respeito, perdendo o caráter óbvio de mero entretenimento. É claro que, depois desse empurrão inicial e no caso de os artistas conseguirem se renovar, a indústria cultural, modificada nos seus alicerces, lhes proporcionará anos de bonança e de riqueza. O artista que lá põe o pé e consegue permanecer firme, de lá nunca se arredará. Tentará encontrar palavras e argumentos que justifiquem a sua permanência.

Esse é um paradoxo difícil de ser esboçado em poucas linhas. Ele surge no Brasil e na América Latina nos anos 1960 e nos anos seguintes. Valho-me dos nomes que você cita. Chico Buarque resumiu a ambivalência na canção “Apesar de você”. Apesar dos militares no poder, a MPB funciona às mil maravilhas e tem uma plateia privilegiada e imensa. A canção anuncia a felicidade geral do povo brasileiro no dia de amanhã: “Apesar de você / Amanhã há de ser outro dia / Eu pergunto a você onde vai se esconder / Da enorme euforia? / Como vai proibir / Quando o galo insistir em cantar”. Caetano, por sua vez, resumiu-a no hit “Soy loco por ti América”: “El nombre del hombre muerto / Ya no se puede decirlo quien sabe / Antes que o dia arrebente… / El nombre del hombre es pueblo”.

Dadas as circunstâncias da ditadura militar no país, o artista alimenta e é alimentado por vasto público. A ele se dirige em termos menos artísticos e mais conteudísticos. Trata-se da estética do “bom conselho”, como a apelidei em Uma literatura nos trópicos. Quando se avulta a insatisfação popular, o artista vai canalizá-la e emprestar-lhe sentido em mensagem de tom otimista, que acaba por ser apreciada por um número maior do que o dos happy few que amam a arte. Simplificadamente enuncio o paradoxo: quando o Estado nacional passa por crise aguda e insustentável, olhos e ouvidos do povo abrem-se para a mensagem artística, seja ela pessimista (crítica) seja ela otimista (utópica). A obra torna o artista figura carismática. É ele que, enquanto intelectual (e não como artista, capaz de refletir sobre as insuficiências e os limites do próprio trabalho artístico), sustenta o próprio nome e a obra. Aliás, a mensagem do intelectual (muitas vezes engajado) nega a reflexão do artista sobre o trabalho de arte. Ela minimiza a este para ser mais direta e convincente, mais sedutora. No caso dos anos de chumbo no Brasil, as chamadas artes da imagem e da oralidade (cinema, música popular, teatro, etc.) foram as privilegiadas. O analfabetismo, ou o pouco interesse do brasileiro pela letra impressa, sempre passa a perna na expressão propriamente literária. Passa a perna no livro.

No novo milênio e no contexto do saber e da cultura, a discussão sobre o fim da ditadura torna-se menos importante que a avaliação da importância crescente da fibra ótica. Os anos de chumbo já se tornaram objeto institucional, haja vista a importância de se criar uma comissão da verdade. No novo milênio, os vários avanços tecnológicos propiciados pelo uso inteligente da fibra ótica tomam de assalto o lugar privilegiado ocupado por Gutenberg para lançar o livro impresso. A forma de estocagem do saber objetivo e da produção de arte muda, assim como mudam os meios científicos e artísticos de sua transmissão. Fiquemos com a cultura. Ela nasce hoje para ser rotulada ou como reflexões minimalistas sobre o umbigo, independente do meio que a veicula (veja o caso da poesia), ou já se apresenta a priori como mercadoria no mercado industrial (o caso do entretenimento puro e simples). Por industrial entenda-se – com a ajuda de Walter Benjamin – a exigência de um grande público que sustente financeiramente a obra e abra para o artista a possibilidade de novas criações. Os happy few não pagam o custo de uma mercadoria cultural.

Passo por cima do óbvio em indústria cultural (o cinema, a televisão, o vídeo, o CD etc.) e entro no campo literário. O embate do escritor hoje é com o computador, seja para torná-lo meio de comunicação entre pares (as várias linguagens do umbigo, expressas nas redes sociais), seja para domá-lo – com o respaldo do editor de livros – como lugar popular e barato de recepção do seu texto (os vários sistemas de leitura do e-book). Mesmo o texto jornalístico de caráter artístico sai simultaneamente no papel e na internet, veja o caso do jornalismo cultural. A folha de papel impressa não dispensa a sua reprodução na telinha. O embate do escritor de literatura pode ser também com o cinema, a televisão e o vídeo (ele será autor de scripts), ou com o CD (será autor de canções). Neste caso, sua produção textual perde o caráter de expressão artística de uma subjetividade (voltamos ao tema do umbigo) para se adequar ao esforço de uma coletividade de artistas (ou seja, ele tem de buscar uma trama que seja compatível com o desejo da maioria da equipe a ser montada e devidamente remunerada). A indústria cultural exige o entrosamento. Bem que os franceses tentaram criar o cinema de autor.

A passagem do umbigo para a mercadoria pode ser atestada pela crescente importância da figura do agente literário no diálogo da obra (indiretamente do autor) com as editoras. O autor não recebe mais o tapinha nas costas do editor, que lhe era dispensado quando entrava na José Olympio. Tampouco o editor lhe sussurra: passe no caixa para receber um vale com o adiantamento dos direitos. As relações se estabelecem por contrato assinado pelas partes.

O legítimo criador literário pode dispensar tudo, menos a folha de papel, mas isso se dá e continua a se dar por decisão individual e íntima. Há artistas que apostam, não no dia seguinte ao da ditadura (Chico Buarque e Caetano, citados por você), não no último meio artístico em pauta (os poetas experimentais e seus suportes técnicos), mas no dia seguinte ao da realização de toda uma obra. Costumo chamá-los hoje de escritores póstumos, e o melhor exemplo de vitória póstuma na atualidade brasileira é Clarice Lispector, como no dia de ontem foi Machado de Assis e, de certa forma, Oswald de Andrade. Ela confiou sem desconfiança nos textos que escreveu, confiou na arte literária em que acreditava. Foi profissional, sendo amadora. Em vida, teve um público minguado e morreu à míngua. Apenas dois dos seus inúmeros títulos ganharam edição que não fosse a primeira. Trata-se de uma aposta e, como tal, pode levar o jogador ao buraco do silêncio eterno ou ao céu do sucesso póstumo. A obra literária se assemelha ao cavalo no jogo de xadrez, que se move pelas diagonais. No tabuleiro da arte, a graça do seu movimento nada tem a ver com a linearidade do peão. Além do mais, se estiver na casa preta pode mover-se para a branca, e vice-versa.

Gostaria que você comentasse, a partir do seu conceito de narrador pós-moderno que está presente em “Nas malhas da letra”, o estranho fenômeno que acabou acontecendo nos últimos anos no jornalismo: o jornalista celebridade. A lista seria infindável (e só da Globo preencheria várias laudas). Mas voltando a fraca fria: a partir deste tipo de jornalista e pensando no seu texto do narrador pós-moderno. Hoje o jornalista é, muitas vezes, apresentado como mais importante que a notícia. Concorda?

S.S. –Política e indústria cultural têm uma exigência prioritária. Têm menos a ver com o produto pelo qual são responsáveis e mais a ver com o nome próprio que o assina. O próprio do produto e o próprio do nome são raramente discutidos e debatidos. Nome próprio é nome próprio, e vende. Políticos e atores (no sentido amplo das categorias) são figuras carismáticas. A etimologia latina da palavra carisma diz tudo. São pessoas que recebem um dom da natureza, que são favorecidos pela graça divina, e se contentam em dar asas ao dom e à graça recebidos. Não se questiona quem são eles e o que fazem, a não ser pelo viés da maledicência, que, aliás, infesta a imprensa marrom. Os paparazzi fotografam os nomes próprios.

Se não me engano foi Edgar Morin quem, na segunda metade do século 20, pôs primeiro o dedo numa nova categoria de seres humanos que estava sendo criada pelos meios de comunicação de massa – a estrela (Les stars, 1957). Seu livro foi traduzido ao português com o título de As estrelas: mito e sedução no cinema. (Glosando sua constatação sobre o jornalista, sabemos de há muito que a estrela é mais importante que o filme.) Tomado ainda pela linguagem psicanalítica, Morin percebia na base do mito um processo de projeção/identificação do espectador/leitor, que se expressava pelo desejo não satisfeito, reprimido (as calcinhas que as moçoilas ainda recentemente jogavam no palco em que Wando se apresentava é uma espécie de link libidinoso. Por cima da diferença entre palco e plateia, entre ator e espectador, no meio da multidão, estabelece-se um diálogo íntimo e intransferível do sujeito com o objeto do desejo). Em romance, De cócoras, tentei cena semelhante, valendo-me de Rita Hayworth no filme Gilda.

No entanto, por ser grande conhecedor do cinema, haja vista o clássico Le cinéma, ou l’homme imaginaire, Morin saiu pela porta da psicanálise e entrou pela janela da teoria sobre as artes do espetáculo. O processo de projeção/identificação do espectador com a estrela é usado pela indústria cultural – ele constatou − que passa a transformá-la em mercadoria cada vez mais rentável. A estrela vende tudo o que leva o nome que lhe é o próprio, seja o produto propriamente artístico, seja ainda o produto industrialtout court (refrigerante, perfume, automóvel etc.). Tudo é mercadoria, tudo é consumo no universo da estrela. Haja Rodrigo Santoro e Ivete Sangalo! De vez em quando, surge uma voz indignada, que apenas acentua o peso da lei geral. Caetano não quis que o nome Tropicália fosse dado a um edifício em construção.

No entanto, há que se fazer um esclarecimento. Se a criação da estrela pela indústria cultural é passível de discussão e de crítica, não há dúvida de que os novos meios tecnológicos de comunicação são responsáveis por novas formas de linguagem, por novos tipos de narrativa que afetam a tradicional “retórica da ficção”, para retomar a expressão de Wayne Booth. A linguagem cinematográfica veio para se espraiar para as outras linguagens artísticas.

O pós-moderno, no texto a que você se refere, publicado em Nas malhas da letra, era definido pelo fato de que o jornalista, enquanto narrador, tinha sido desprezado por Walter Benjamin como superficial, mas estava sendo valorizado por alguns escritores na época em que a linguagem geral (a língua franca, por assim dizer) do drama era tomada de empréstimo a ele e ao meio. Quem atua (no real) é sempre observado por um espectador que, por sua vez, passa a atuar como narrador (no campo da arte).

Minha hipótese de trabalho era ampla: o autor pós-moderno narra a ação enquanto espetáculo a que assiste (literalmente ou não) da plateia, da arquibancada ou de uma poltrona na sala de estar ou na biblioteca; ele não narra enquanto atuante, embora acabe por o ser. Tentava, então, deslocar o fulcro da narrativa da figura da estrela (o ator, o atuante) para a figura do espectador (o leitor, caso ele fosse crítico do ator e da ação por ele praticada – no caso de Wando, interessava-me mais quem jogava a calcinha do que o artista que levava o espectador a jogá-la). Anunciava o fim da narrativa narcisista, feita pela estrela na primeira pessoa do singular, apanágio da grande literatura europeia, e mal sabia que estava dando trela a outro tipo de narcisismo, o do espectador/leitor enquanto narrador. Devo ter caído nas malhas do meu ídolo Jorge Luis Borges. Ou nas malhas da minha prosa libertária intitulada Em liberdade. A prisão vivenciada pelo meu personagem, Graciliano Ramos, era expressa através da forma-prisão, o pastiche, de que se valia o narrador para relatar a experiência real do outro. A estética recobria a ação para dar nascimento a uma escrita ética.

Em termos mais gerais, a linguagem – seja ela a artística, ou não – é uma ferramenta. Uma ferramenta semelhante ao fogo, que nos foi doado por Prometeu. A técnica é que encaminha, de uma maneira ou de outra, o funcionamento das mãos em contato com as possibilidades do fogo e da linguagem.

Caso o leitor (no caso o espectador da cena a ser a narrada, ou seja, o narrador não-atuante, a moça que joga a calcinha para Wando, o jornalista) deixe de ser crítico (de ser ético) na própria narrativa, o problema é menos dele do que da própria crítica atuante no nosso momento histórico. Se o jornalista é mais importante que a notícia, para te glosar, há algo de podre no reino das comunicações e algo de mais podre na crítica dos espetáculos.

O aumento do número de vagas no ensino superior, com critérios populistas e não técnicos, tem causado grave problema para muitas universidades espalhadas pelo país. À boca pequena (nos bastidores) já se fala até na possibilidade do curso de Letras “caminhar” de mãos dadas com o jornalismo (espécie assim de “fusão camuflada”). O que pensa disto? E do futuro dos nossos cursos de Letras?

S.S. –O aumento de vagas em qualquer dos níveis de ensino é sempre algo de positivo. Portanto, não há que se queixar do avião como meio de transporte se ele, por decisão do governo norte-americano, despejou bombas atômicas no Japão. Há sempre que se questionar o modo como as coisas são feitas, principalmente as que na verdade deveriam ser bem feitas. A importância das medidas tomadas por Jules Ferry, ministro da educação na França ao final do século 19, atestam até hoje a favor da escola pública, leiga e republicana para todos os cidadãos, indiscriminadamente.

Nos países do Novo Mundo, em virtude de o processo de colonização ter sido feito de fora para dentro, em virtude de o processo ter sido de responsabilidade de europeus e ter comportado o extermínio da raça indígena e a escravidão africana, há injustiças históricas em relação aos descendentes dessas duas etnias. Não há dúvida de que, no tocante à educação e a outras obrigações públicas, há no Brasil grupos de cidadãos privilegiados e grupos de cidadãos não privilegiados. Como estabelecer a justiça? Como trabalhar com vistas à igualdade? Como neutralizar os preconceitos inerentes ao status quo? Essas e muitas outras questões deveriam ter sido feitas pelos homens públicos que – corretamente – procuram um sistema de compensação para beneficiar na área da educação todos os que, no correr dos séculos, foram destituídos dos seus direitos.

Guardadas as diferenças, a decisão desses homens públicos é semelhante à decisão tomada pelo presidente Truman no fatídico dia 3 de agosto. O fim da guerra com as forças do Eixo e a educação pública para todos e em todos os níveis são uma necessidade. Se essa necessidade leva o governante a mandar jogar uma bomba atômica (metafórica ou não) no já pobre e desmantelado ensino público brasileiro, é um gasto horroroso de energia, uma tragédia calamitosa e uma perda irreparável de tempo. Já vê que o que seja “técnico” e o que seja “populista” nessas matérias em que o problema fundamental é o da justiça ou da ética, e não o da mera política, é discussão por demais delicada para poucas linhas.

Problema bem distinto é o segundo proposto pela pergunta. Os já tradicionais cursos de Letras se aproximam dos novos e expansíveis cursos de Comunicação – e provavelmente se fundirão. É inegável que o avanço da tecnologia em fibra ótica na área de produção, estocagem e transmissão do saber retira o livro do pedestal onde foi colocado por séculos (a biblioteca) e é, ao mesmo tempo, algo que veio para ficar. Acima disse algumas palavras sobre isso. A questão da aproximação e fusão dos cursos tem duas pontas que deveriam ser analisadas.

Numa ponta, está uma questão propriamente orçamentária e na outra uma questão relativa à melhor e mais completa formação do aluno. Não é interessante que os cursos se dupliquem (ou seja, tenham gastos inutilmente duplicados), oferecendo conteúdos praticamente similares, nem é interessante que o aluno interessado pela questão da linguagem (artística ou não) no século 21 tenha uma formação limitada por ter optado por Letras (linguagem fonética, livro) ou, caso paralelo, por Comunicação (linguagem dos meios de comunicação de massa, mídia eletrônica).

É inegável que os cursos de Letras terão o futuro que o livro tiver. Qualquer cálculo no dia de hoje é precipitado, como o foi nos anos 1960, após a publicação do livro A galáxia de Gutenberg. A partir das ideias desenvolvidas por McLuhan os poetas concretos chegaram a “dar por encerrado o ciclo do verso” (v. Plano piloto da poesia concreta). O verso continuou firme e forte na produção dos poetas marginais e até nas (notáveis) traduções feitas pelos próprios irmãos Campos. De novo, estamos diante de matéria delicada para algumas linhas.

Nos cadernos de cultura de hoje cultura é sinônimo de entretenimento. O que pensa disto?

S.S. –Sinal dos tempos seria boa resposta, comprometida com o atual estágio mercadológico por que passa a cultura nas nações do Primeiro Mundo, que influenciam, por sua vez, todo o planeta. Veja-se uma única figura, Michael Jackson, e perceba-se a quantidade enorme de coisas que giram em torno dele internacionalmente. Da reprodução ao pastiche e à paródia. Vivemos mundialmente num regime único de arte, impossível de ser recuperado ou de ser transformado, a não ser pelo trabalho de jovens que são logo assimilados pelo regime único.

Às vezes me assusto com o fato de que há obras de arte, muitas vezes secundárias, que têm o dom de horóscopo. Prognosticam o futuro com a graça e a desenvoltura de quem entendeu para que veio, para que viemos e para onde vamos. Refiro-me, por exemplo, ao filme musical Em busca de um sonho (“Gipsy”), de 1962. (As músicas para a peça em que o filme se baseia foram escritas pelo mago Sondheim, em 1959.) O personagem da filha (Nathalie Wood) em confronto com a mãe (Rosalind Russell), uma estrela decadente e controladora, diz o que se deve dizer (metaforicamente) sobre as figuras que dominam a arte do entretenimento: “Me with no education. Me with no talent. Maman, look at me now. I am a star. Look how I live. Look at my friends…” e assim por diante. A canção, que se tornou famosa na voz de Nina Hagen ou Chita Rivera, complementa: “Let me entertain you / Let me make you smile / Let me do a few tricks / Some old and some new tricks / I’m very versatile”.

Depois dessa lição de palco, de strip-tease, de sorriso, de truques e de versatilidade não há como duvidar que a cultura passe a segundo plano. Entretenimento na cabeça.

Gostaria de uma pequena palavra sua sobre a importância que teve o trabalho que você é o principal responsável de ter tornado a obra de Derrida conhecida no Brasil. Gosta da recepção que ela tem hoje entre nós?

S.S. –Sem dúvida, Jacques Derrida é um dos grandes filósofos do século 20, e não um mero professor de filosofia. Sua obra escapa, pois, aos parâmetros de uma entrevista. Sua presença, no entanto, pode ser delineada através de uma questão capital, a meu ver, para o bom entendimento da importância da literatura a que chamei de póstuma. Não há dúvida de que, nos dias de hoje e em relação à produção literária classificada como moderna, a filosofia é a melhor articuladora de problemas e propicia melhores leituras que as ciências sociais. Nessa matéria, e há que se tirar o chapéu para o filósofo, ele trabalhou todos os grandes pensadores que o antecederam. Pense em Heidegger leitor de Hölderlin, pense em Benjamin leitor da reprodutibilidade técnica da arte, pense em Nietzsche e os helenos, pense em Bataille, Blanchot e Foucault, eles lá estão bem estudados. E tantos outros. A desconstrução é uma chave que abre todas as portas do saber humano pelo viés da história (da história da filosofia) e pelo viés da atualidade (da leitura a contrapelo). O leitor de Derrida está e estará diante de um arquivo infindável.

Daí a dificuldade em tomar assento na plateia de Derrida e em abrir a boca. Aliás, o próprio ato de proferir palavras oralmente tem pouco valor para ele (quem o conheceu pessoalmente sabe que ele nunca falava “de improviso”; suas aulas, palestras e conferências eram sempre “lidas”). De uma perspectiva populista e/ou demagógica, esse é o primeiro grande obstáculo que o leitor de Derrida tem de enfrentar. Enfrentar a linguagem como letra morta, ou seja, como letra que para poder existir enquanto tal teve de assassinar o pai (o locutor). O texto é como um filho assassino e bastardo, que caminha pelo mundo, de um lado para o outro, de uma época para a outra, à procura de quem possa lhe dar significado − o leitor.

Platão nos fez acreditar que a verdade seria expressa pelo locutor presente, junto à sua fala. Responsável por ela, ele seria sensível aos comentários do outro, ou seja, seria capaz de corrigir, ou de rasurar a própria fala no próprio momento em que se expressava. No entanto, é a verdade das ideias de Platão que está hoje impressa sob a forma de diálogo. O diálogo é apenas uma forma, uma forma fonocêntrica (defende a expressão oral) e etnocêntrica (defende a tradição ocidental) de saber, e não traduz a complexidade do processo de busca da verdade. Há que desconstruir o fonocentrismo que está na base do pensamento socrático, há que desconstruir o etnocentrismo que é fundamento do pensamento europeu. Descontruídos, chegamos à conclusão de que a verdade está sendo dada pela leitura de ocidentais e não-ocidentais, pela leitura do diálogo socrático, pela leitura do texto. Um lado do mar Mediterrâneo é europeu, mas o outro é africano.

É o próprio texto platônico, mostrou-nos Derrida em A farmácia de Platão, que se articula pelas ambivalências de sentido. Estas são apreendidas numa leitura cuidadosa dos rigorosos e frágeis esquemas linguísticos de que se serve o filósofo – e qualquer escritor para montar o texto que deverá nos levar ao conhecimento da verdade. Estamos sempre diante de diferenças. A diferença organiza o pensar, daí que Derrida desclassifique o tradicional conceito, para nos propor o pensamento a partir de palavras escritas, cujo sentido é indecidível (indécidable). O leitor, como figura, é um decisor, mas no seu texto de decisor, haverá também indecidíveis, que só serão apreendidos por outro e futuro decisor.

***

[João Pombo Barile é jornalista e diretor do SLMG]

Suplemento Literário de Minas Gerais, edição especial “Reflexões sobre o jornalismo cultural”, Belo Horizonte, 2012

PAULO EGYDIO MARTINS, ex governador de São Paulo, e a morte do jorn. WLADIMIR HERZOG . Entrevistado por Geneton Moraes Neto / são paulo.sp

Ex-governador de São Paulo dá veredito: “Suicídio foi maquiado. Herzog foi assassinado no II Exército”. E descreve chantagem praticada por militares do DOI-CODI contra um general

por Geneton Moraes Neto |

A Globonews reapresenta nesta terça-feira (amanhã 5/6/12)  em dois horários:  uma e cinco (madrugada) e onze e cinco da manhã)  o DOSSIÊ GLOBONEWS em que o ex-governador Paulo Egydio Martins se torna a primeira autoridade a se oferecer publicamente a depor na Comissão da Verdade. Egydio – que governou São Paulo de março de 1975 a março de 1979 –  descreve com detalhes, na entrevista, cenas de bastidores ocorridas em momentos críticos do regime militar, como a crise provocada pelas mortes do jornalista Vladimir Herzog e do operário Manoel Fiel Filho nas dependências do II Exército. Pela primeira vez, uma autoridade da época faz uma declaração tão direta sobre as circunstâncias da morte do jornalista: “O suicídio foi maquiado. Herzog foi assassinado dentro das dependências do II Exército, na rua Tutóia, em São Paulo”.

O ex-governador também se refere, na entrevista, a um caso que jamais foi esclarecido: uma chantagem praticada por subordinados contra um general do II  Exército. O fato de não se saber do desfecho da chantagem parece ser uma prova de que ainda há capítulos inteiros a serem contados sobre a história do regime militar.

Trechos da entrevista:

GMN: O senhor revela que o chefe do Estado Maior do II Exército foi vítima de uma chantagem, praticada por dois militares que ameaçavam denunciar publicamente a prática de torturas no II Exército. Que providências o senhor tomou ?

Paulo Egydio: “Quando o coronel Erasmo Dias ( secretário de segurança ) me procurou, me disse o seguinte: “Governador, o general Marques me procurou,nervosíssimo, extremamente tenso, porque um sargento e um cabo, integrantes da equipe do DOI-CODI, foram a ele pedindo um volume de dinheiro. Senão, iriam delatar para a imprensa o que se passava dentro do DOI-CODI. E ele ficou sem saber o que fazer. Veio me pedir se eu podia arranjar esse dinheiro da verba secretra da Secretaria de Segurança”.

Quando eu assumi o governo, extingui a verba secreta do gabinete do governador. E disse a Erasmo que a verba secreta da Secretaria de Segurança era de responsabilidade dele. Jamais eu iria intervir. Virei para ele e disse: “Erasmo, a decisão é sua, sobre se vai atender ao Marques ou se não vai atender. Chantagem só tem duas respostas: “Ou você mata ou você morre”. Porque qualquer tentativa de aceitar chantagem é horrível, é péssima. É minha reação pessoal. Você faz o que você quiser fazer” .

Nunca mais tive retorno dessa conversa. Nada aflorou dessa chantagem. Mas ela mostra o que significa, como quebra de hierarquia militar: a gravidade deste episódio. Porque, quando um cabo e um sargento procuram um general comandante do Estado Maior de um Exército e chantageiam pedindo dinheiro para não contar o que estava se passando dentro do recinto pertencente a esse mesmo Exército, acabou qualquer hierarquia militar, qualquer espírito militar. Isso é absoluta e totalmente incompreensível e inaceitável”.

GMN: O fato de esses militares não terem feito a denúncia pública não significa que eles podem ter recebido o dinheiro ?

Paulo Egydio: “Eu não saberia lhe responder. A dúvida paira. Não voltei a conversar com Erasmo. Não foi pedida prestação de contas. A verba era secreta. Não estava sujeita à aprovação de ninguém. Não saberia lhe responder. Posso dizer que sim e posso dizer que não”.

O Caso Herzog: Egydio pediu a órgãos de segurança a ficha do jornalista. Conclusão: Nada consta.

GMN : O senhor fez uma reunião com o então secretário de  Cultura, José Mindlin; com o coronel Erasmo Dias, secretário de segurança; com o diretor do DOPS, Romeu Tuma e com o representante do SNI, coronel Paiva, para discutir a nomeação do jornalista Vladimir Herzog para a TV Cultura. Qual foi o resultado da reunião ?

Paulo Egydio: “Quem me trouxe o problema foi o secretário de Cultura, meu amigo José Mindlin, que disse:”Estou recebendo acusações de ter escolhido, com muitas dificuldades, um responsável pelo Jornal da Cultura. E esse indivíduo que escolhi agora está sendo acusado – por uma imprensa marrom – de ser comunista” . Eu não tinha a menor idéia, cá entre nós. Se a Globo tinha cinqüenta por cento de audiência, o Jornal da Cultura deveria ter zero vírgula zero um de audiência. Quem era o diretor de jornal da TV Cultura era algo que não estava na minha cabeça –  de jeito nenhum. Se era comunista, se não era comunista….Virei para Mindlin: “O problema não é meu. É seu. Você resolve como quiser”. E Mindlin: “Isso tem me causado incômodo. Preciso que você verifique se procede alguma coisa ou não”.   Numa reunião, deixei instruções específicas : eu queria ter  informações do Serviço Secreto do Exército , Marinha e Aeronáutica e do SNI sobre se alguma coisa constava sobre aquele diretor de jornal da TV Cultura – de quem eu nunca ouvido o nome antes – , chamado Vladimir Herzog. Passaram-se dez, quinze dias. Houve outra reunião, em que as mesmas pessoas se reportaram a mim: “Nós levantamos tudo. Nada consta, senhor governador”. Eu disse: “Mindlin, veja a resposta: se nada consta, você fica livre para decidir o que quiser. Já cumprimos nossa obrigação de verificar se procedia uma acusação ou não. Ficou provado que não procede. Você, agora, aja como quiser agir. Quer manter, mantenha. Não quer manter, não mantém. Após esse incidente, houve a determinação se ele comparecer ao DOI-CODI, onde acabou assassinado”.

GMN :Se nada constava contra Vladimir Herzog nos órgãos de informação, se a ficha era limpa, como o senhor diz, a prisão foi inteiramente
injustificada. Depois da morte de Vladimir Herzog, o senhor fez esta comunicação ao presidente Geisel ?

Paulo Egydio: “Fiz. Não só fiz esta comunicação, como eu tinha liberdade com ele de pensar alto. Eu estranhava o que estava se passando, aquele luta intestina, aquela luta em quarto escuro. Você não tem meios de comprovar essas coisas com clareza. Como é que você comprova uma tortura ? Só assiste a tortura o torturador. E um torturador não vai dedurar outro torturador. Num caso desse aqui, eu dizia para Geisel: “Presidente, estou estranhando : existe alguma coisa a mais”. E Geisel: “Paulo, tire isso da cabeça! Enquanto eu for Presidente desse país, nada vai acontecer”. Geisel não aceitava que a autoridade dele pudesse ser questionada. Não é mais um fato de você averiguar: é um fato histórico. Havia um plano de derrubar o general Ernesto Geisel da presidência da República. Tentaram me usar como governador do 
Estado mais forte da federação naquela ocasião pela minha ligação pessoal com ele – que era pública e notória (….). Havia uma briga interna do Exército  que nós, civis, não avaliamos. Não tenho a menor dúvida quanto a um embate dentro de duas facções do Exército nacional que disputavam o Poder”.

GMN: Quando o senhor tratou com o presidente Geisel pela primeira vez sobre a morte de Vladimir Herzog, o senhor disse a ele que nada
constava contra o jornalista Vladimir Herzog nos órgãos de segurança?

Paulo Egydio:”Disse. E disse claramente, como acabo de  repetir para você. Ele sabia disso ( silêncio). Se maquiou um suicídio ! O suicídio foi maquiado ! Não houve suicídio! Herzog foi assassinado dentro das dependências do II Exército na rua Tutóia, em São Paulo”.

GMN: O senhor testemunhou uma cena importantíssima dos bastidores do regime militar: o dia em que o presidente Geisel chamou o então
comandante do II Exército, general Ednardo D`Ávila, logo depois da morte do jornalista Vladimir Herzog nas dependências do quartel. O que foi exatamente que o general Geisel disse ao gen0eral Ednardo ?

Paulo Egydio :”Eu já tinha me recolhido com o presidente Geisel para a ala residencial do Palácio dos Bandeirantes. Estávamos sentados na biblioteca. Ednardo subiu para a ala residencial. Quando apareceu na porta, fiz um gesto de me levantar .Não ia ficar presente a uma reunião do Presidente da República com o comandante do II Exército, os dois generais. Geisel virou para mim e disse:  “Não,não, Paulo. Quero que você fique aí e escute”. E o general Ednardo D`Ávila Melo, perfilado, em posição de sentido, na frente de Geisel e na minha, ficou ouvindo Geisel se dirigir a ele assim:  “Ednardo, você me conhece muito bem. Você sabe do meu passado. Você sabe da minha história. Não vou admitir que fatos como esses que ocorreram aqui no II Exército se repitam. Quero que você saiba que vou tomar medidas. Você vai tomar conhecimento pelo seu ministro do Exército e pelo Diário Oficial. Vou tornar isso um decreto: proibir que alguém seja preso antes de uma comunicação ao meu gabinete – ao gabinete militar, ao SNI ou a mim, pessoalmente. Só depois dessa comunicação é que posso admitir que um preso político seja levado ao recinto de um quartel do Exército. O senhor está me ouvindo? Está entendendo? “. E o general: “Sim, senhor  Presidente; sim,senhor Presidente”. Geisel: “Pode se retirar”. Escutei tudo aquilo quieto e calado. Meses depois, houve o caso de Manoel Fiel Filho – que contrariou juridicamente, formalmente e hierarquicamente todas as determinações do Presidente da República, comandante-em-chefe das Forças Armadas do Brasil. Consequência: o general, fiel às palavras que tinha proferido na minha frente, exonerou um general de quatro estrelas do comando do II Exército, fato inédito na história do Exército brasileiro”.

GMN: Se o senhor for convocado a depor na Comissão ds Verdade  para relatar as cenas de bastidores que aconteceram nos episódios das mortes de Vladimir Herzog e de Manoel Fiel Filho, o senhor vai comparecer ?

Paulo Egydio: “Claro. Se eu não comparecer, faça um favor: mande uma cópia deste depoimento. Irei a qualquer hora, a qualquer instante. Não temos de temer nada. É hora de botar para fora tudo o que for para botar para fora. Vivemos numa democracia para ser verdadeira”.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE concede entrevista a LEDA NAGLE /são paulo.sp

 

UM clique no centro do vídeo:

MILLÔR FERNANDES: ‘A imprensa brasileira sempre foi canalha’

leia entrevista com Millôr

No início da década de 1980, a revista “Oitenta”, inspirada na Granta inglesa, entrevistou o escritor e jornalista Millôr Fernandes por mais de sete horas. Segundo avaliação de Millôr, de 1938 –quando começou no jornalismo– até aquela data, a técnica foi a única mudança nos meios de comunicação. Em quesitos éticos e morais, “a imprensa brasileira sempre foi canalha.”

Em homenagem ao intelectual brasileiro que pensou, falou e escreveu sobre temas importantes de nosso tempo, a Livraria da Folha selecionou um trecho do livro “A Entrevista” no qual Millôr conta o seu envolvimento com o jornalismo e as suas impressões sobre a mídia brasileira.

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Livro apresenta um longo e denso depoimento atravessou três décadas
Livro traz um denso depoimento de Millôr que atravessou três décadas

Millôr – Eu quero fazer um pequeno introito a esta entrevista absolutamente sincero: não gostaria de estar dando esta entrevista. Estou porque gosto muito fraternalmente – como não posso dizer fraternalmente por causa da idade, eu costumo dizer fra-paternalmente – do Lima e do Ivan. Por osmose comecei a gostar dos outros. Eu só não digo que estou começando a ficar gaúcho porque não tenho rebolado gaúcho. Agora – nada, na minha estrutura, soi disant intelectual, com todas as aspas, me conduz a dar uma entrevista a sério, sobretudo a pessoas altamente respeitáveis como vocês. Quero que fique gravado nesta entrevista: realmente, eu não me levo a sério. Mas na proporção em que o tempo passa, a idade avança, as pessoas vão te levando insuportavelmente a sério, e você acaba assumindo um mínimo disso.

Quando você começou no Jornalismo?

Millôr – Eu comecei a trabalhar no dia 28 de março de 1938; tinha 13 pra 14 anos de idade. E essa é uma das coisas de que me orgulho – a minha vanglória – a consciência profissional. Eu era um menino solto no mundo, uma vida que dependia só de mim mesmo. Naquela época, o Ministério do Trabalho era recém-fundado. O meu empregador já eraO Cruzeiro. Pedi que me assinassem a carteira de trabalho. Quando cheguei em casa (uma pensão) e vi que a data que estava lá na carteira era a data em que eu havia pedido a assinatura da carteira e não a em que eu havia começado a trabalhar, voltei e pedi retificação. Veja você, um menino com menos de 14 anos, sem nenhuma influência ideológica de trabalhismo, de nada, apenas com aquela consciência de que tinha direito. Então a carteira diz assim: “onde se lê tal, leia-se tal data”. Está lá registrado o primeiro dia de trabalho: 28 de março de 1938. Já fiz 43 anos de jornalismo, mais anos do que vocês, em conjunto, têm de vida.

Obrigado pela generosidade. Você acha que o jornalismo brasileiro melhorou muito de lá pra cá?

Millôr – Muito, tecnicamente. Lamentavelmente, porém, do ponto de vista ético, moral e social, melhorou muito pouco. E já era quase criminosamente ruim naquela época. Conforme você sabe, eu não tenho nenhuma formação marxista, não acredito em excessivos determinismos históricos. É evidente, é liminar, que as forças de produção regem muitas coisas. É liminar que o contexto da sociedade reja fundamentalmente muitas coisas. Agora – o que não é liminar é o seguinte: há forças metafísicas, há entrerrelações no mundo que não estão previstas em qualquer ideologia; a isso eu chamo o anticorpo. O Marx é o próprio anticorpo dentro da sociedade em que vivia. Se as teorias de Marx fossem perfeitas, ele não existiria. Porque o contexto social e as relações de produção da época não o previam, não o permitiram. Você pode dizer que a imprensa é resultado do meio, a imprensa é resultado da sociedade em que funciona. Certo. Mas, às vezes, por força de um indivíduo, ou por força de um pequeno grupo de indivíduos, ela pode se antecipar ao seu meio e fazer progredir esse meio. Mas a imprensa brasileira sempre foi canalha. Eu acredito que se a imprensa brasileira fosse um pouco melhor poderia ter uma influência realmente maravilhosa sobre o país. Acho que uma das grandes culpadas das condições do país, mais do que as forças que o dominam politicamente, é nossa imprensa. Repito, apesar de toda a evolução, nossa imprensa é lamentavelmente ruim. E não quero falar da televisão, que já nasceu pusilânime.

Há um consenso de que a imprensa brasileira, tecnicamente, teria atingido uma qualidade comparável com o que de melhor se faz no mundo.

Millôr – De acordo. A revista onde trabalho, Veja, é um exemplo, tem todas as possibilidades; praticamente iguais às da Time. A TV Globo só não tem mais possibilidades porque não quer. Ela pode mandar 30 repórteres amanhã pra Polinésia com o poder que tem, fazer a cobertura que quiser. Mas só age em função do merchandising. Nos falta até o contraste, que existe em países supercapitalistas como os Estados Unidos, onde o choque de interesses é tão violento que faz da imprensa americana a melhor imprensa do mundo. Quando o New York Times não quer dar cobertura a um setor, o Washington Post vai em cima. A França tem dois fenômenos de boa imprensa: são Le Monde e Le Canard Enchainé: prova de que a chamada imprensa burguesa, ou a imprensa dentro de países burgueses, pode ser realmente a expressão de uma absoluta liberdade, maior do que em países socialistas (nestes não há imprensa: há boletins).

É possível fazer imprensa com independência. Se o Canard Enchainé faz, se o Le Monde faz, por que não se pode fazer no Brasil? É uma coisa que pode parecer até brincadeira: quando nós fizemos o Pasquim, num certo momento eu disse pro pessoal: “Olha, eu sou o único comunista daqui”. Eu acreditava que aquele negócio fosse mesmo um negócio comunitário, para o bem público. É verdade! Os que se presumiam comunistas (não só eles!) começaram a roubar da maneira mais deslavada, mais escrota possível. Mas que se pode fazer dentro de um contexto capitalista, de um contexto burguês, uma imprensa de alta eficiência social voltada para o bem público, isso se pode, sim! Dei provas: você tem o Le Monde e o Canard Enchainé, duas coisas até bem contrastantes.

Em Nova York, há um Village Voice, e um canal 13 de televisão orientado como serviço público. Por que no Brasil não existem condições, neste momento ao menos, de se ter uma imprensa alternativa – mas não marginal – de grande penetração na sociedade? Por que não existe isso?

Millôr – Respondo voltando àquela velha anedota de Deus criando o mundo: todo mundo conhece. Alguém (havia mais “alguém” por ali?) reclamou que Deus tinha feito este país maravilhoso, sensacional. O Chile foi feito cheio de terremotos, o Paraguai tinha pântanos incríveis, outro país tinha furacões, o outro tinha desertos e o escambau e, de repente, no Brasil não tinha nada desastroso: florestas maravilhosas, mares maravilhosos, montanhas lindas. Aí Deus parou e disse: “Espera porque você vai ver a gentinha que eu vou botar lá”.

Que tipo de imprensa poderia contribuir melhor pro bem social?

Millôr – Estou pensando, além dos que já citei, no Village Voice. Hoje, um jornal rico. Já é até um jornal do sistema. Talvez hoje, curiosamente, jornais maiores, como o Washington Post e o New York Times, para falar dos dois que sempre se confrontam, ajam mais em função do bem público do que o Village Voice. Mas a imprensa alternativa (e o Village Voice foi um dos seus grandes exemplos), eu acho que ela é a grande solução para a liberdade de expressão. Os jovens precisavam se conscientizar disto. Saber que eles podem fazer um jornal que, ocasionalmente, vai ficar preso ao bairro, mas é importante que o bairro seja protegido, é importante que as misérias do bairro sejam mostradas ao poder público, até que o poder público chegue àquele negócio mínimo (que é o máximo!) que é consertar o buraco da rua. Não se vai partir para a solução do mundo partindo do macrocosmo; precisamos partir do microcosmo, não tenha dúvida nenhuma. Cristo começou com uma cruz só. Essa pretensão do homem de fazer o organograma universal acaba em Delfim Neto, acaba em tecnocracia, acaba em “herói”. E chega de heróis. O homem tem que se convencer de que o mais importante de tudo é o dia a dia. O homem vive é todo dia. A maior utopia é a resistência diária. Ser herói é fácil. Herói se faz em três meses. Tem amigos nossos, feito o Gabeira, que fazem três meses de heroísmo, viram heróis de todos os tempos e passam a viver disso. E é aquele negócio, é bicha porque está na moda, elogia mulher porque está na moda, é incapaz de dizer alguma coisa contra a corrente, mesmo que a corrente seja lamentável, odiosa, reacionária.

E você acha, por exemplo, que os jornais alternativos estão contribuindo pra alguma coisa neste sentido no Brasil?

Millôr – Neste momento estão um pouco em recesso. Mas de qualquer forma estão contribuindo. A maior contribuição que foi dada à imprensa brasileira, nos últimos tempos, foi a imprensa opcional a partir do Pasquim, não tenho dúvida nenhuma. Mas a própria abertura forçou um pouco o recesso no setor. A própria abertura trouxe junto muita vigarice, os caras estão explorando demais o sexo, estão explorando o homossexualismo, o sensacionalismo: pegando os vícios da outra imprensa. A coisa essencial é “vender”. Mas continuo achando que a imprensa opcional é uma solução. Bem feita, essa imprensa opcional forçará a grande imprensa a dar cobertura a certos assuntos. Cobra! Envergonha! Força! Aquele negócio: o socialismo força o capitalismo a ceder em certas coisas. Você pega o Manifesto do Partido Comunista do Marx: das oito ou dez exigências básicas do Marx, pelo menos uns seis itens nem Uganda deixa de aplicar hoje em dia. O imposto de renda é um deles.

AF.

DIVALDO PEREIRA FRANCO, entrevista / salvador.ba

P: – EXISTEM OS CHAMADOS ESPÍRITOS ELEMENTAIS OU ESPÍRITOS DA NATUREZA?
R: – Sim, existem os espíritos que contribuem em favor do desenvolvimento dos recursos da Natureza. Em todas as épocas eles foram conhecidos, identificando-se através de nomenclatura variada, fazendo parte mitológica dos povos e tornando-se alguns deles ‘deuses’, que se faziam temer ou amar.

P: – QUAL É O ESTÁGIO EVOLUTIVO DESSES ESPÍRITOS?
R: – Alguns são de elevada categoria e comandam os menos evoluídos, que se lhes submetem docilmente, elaborando em favor do progresso pessoal e geral, na condição de auxiliares daqueles que presidem aos fenômenos da Natureza.

P: – ENTÃO ELES SÃO SUBMETIDOS HIERARQUICAMENTE A OUTRA ORDEM MAIS ELEVADA DE ESPÍRITOS?
R: – De acordo com o papel que desempenham, de maior ou menor inteligência, tornam-se responsáveis por inúmeros fenômenos ou contribuem para que os mesmos aconteçam. Os que se fixam nas ocorrências inferiores, mais materiais, são, portanto, pela própria atividade que desempenham, mais atrasados submetidos aos de grande elevação, que os comandam e orientam.

P: – ESTES ESPÍRITOS SE APRESENTAM COM FORMAS DEFINIDAS, COMO POR EXEMPLO FADAS, DUENDES, GNOMOS, SILFOS, ELFOS, SÁTIROS, ETC?
R: – Alguns deles, senão a grande maioria dos menos evoluídos, que ainda não tiveram reencarnações na Terra, apresentam-se, não raro, com formas especiais, pequena dimensão, o que deu origem aos diversos nomes nas sociedades mitológicas do passado. Acreditamos pessoalmente, por experiências mediúnicas, que alguns vivem os Períodos Intermediários entre as formas primitivas e hominais, preparando-se para futuras reencarnações humanas.

P: – QUER DIZER QUE JÁ PASSARAM OU PASSAM, COMO NÓS, ESPÍRITOS HUMANOS, POR CICLOS EVOLUTIVOS, REENCARNAÇÕES?
R: – A reencarnação é lei da Vida através de cujo processo o psiquismo adquire sabedoria e ‘desvela o seu Deus interno’. Na questão 538 de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec interroga: “Formam categoria especial no mundo espírita os Espíritos que presidem os fenômenos da Natureza? Serão seres à parte ou Espíritos que foram encarnados como nós?” E os Benfeitores da Humanidade responderam: “Que foram ou que serão“.

P: – ALGUM DIA SERÃO OU JÁ FORAM HOMENS TERRESTRES?
R: – Os mais elevados já viveram na Terra, onde desenvolveram grandes aptidões. Os outros, menos evoluídos, reencarnar-se-ão na Terra ou outros mundos, após se desincumbirem de deveres que os credenciem moral e intelectualmente, avançando sempre, porque a perfeição é meta que a todos os seres está destinada.

P: – O ELEMENTAIS SÃO AUTÓCTONES OU VIERAM DE OUTROS PLANETAS?
R: – Pessoalmente acreditamos que um número imenso teve sua origem na Terra e outros vieram de diferentes mundos, a fim de contribuírem com o progresso do nosso planeta.

P: – QUE TAREFAS EXECUTAM?
R: – Inumeráveis. Protegem os vegetais, os animais, os homens. Contribuem para acontecimentos diversos: tempestades, chuvas, maremotos, terremotos… interferindo nos fenômenos “normais” da Natureza sob o comando dos Engenheiros Espirituais que operam em nome de Deus, que “não exerce ação direta sobre a matéria. Ele encontra agentes dedicados em todos os graus da escala dos mundos“, como responderam os Venerandos Guias a Kardec, na questão 536b de “O Livro dos Espíritos”.

P: – TODOS ELES SABEM MANIPULAR CONSCIENTEMENTE OS FLUIDOS DA NATUREZA?
R: – Nem todos. Somente os condutores sabem o que fazem e para o que fazem, quando atuam nos elementos da Natureza. Os mais atrasados “oferecem utilidade ao conjunto” não suspeitando sequer que são “Instrumentos de Deus“.

P: – NÓS NÃO OS VEMOS NORMALMENTE. ISTO SIGNIFICA QUE NÃO SE REVESTEM DE MATÉRIA DENSA?
R: – O conceito de matéria na atualidade, é muito amplo. A sua “invisibilidade” aos olhos humanos, a algum indivíduo, demonstra que sejam constituídos de maneira equivalente aos demais espíritos da Criação. Encontram-se em determinada fase de desenvolvimento, que são perceptíveis somente aos médiuns, as pessoas de percepção especial, qual ocorre também com os Espíritos Nobres, que não são detectados por qualquer pessoa destituída de faculdade mediúnica.

P: – QUAL É O HABITAT NATURAL DESSES ESPÍRITOS?
R: – A erraticidade, o mundo dos Espíritos, pertencendo a uma classe própria e, portanto, vivendo em regiões compatíveis ao seu grau de evolução. “Misturam-se” aos homens e vivem, na grande maioria, na própria Natureza, que lhes serve de espaço especial.

P: – UMA DAS GRANDES PREOCUPAÇÕES DA HUMANIDADE, ATUALMENTE, É A PRESERVAÇÃO DO EQUILÍBRIO ECOLÓGICO. QUAL A ATITUDE OU PROVIDÊNCIA QUE TOMAM QUANDO A NATUREZA É DESRESPEITADA PELOS HOMENS?
R: – Quando na infância do desenvolvimento, susceptíveis às reações mais primitivas, tornam-se agressivos e revoltados. À medida que evoluem, fazem se benignos e se apiedam dos adversários da vida em qualquer forma pela qual esta se expressa. Assim, inspiram a proteção à Natureza, o desenvolvimento de recursos que a preservem, a sua utilização nobre em favor da vida em geral, em suma, “fazem pela Natureza o que gostariam que cada qual fizesse por si mesmo“.

Veja os cinco maiores arrependimentos daqueles que estão para morrer / londres.en

09/02/2012 – 12h19

DE SÃO PAULO

Uma enfermeira que aconselhou muitas pessoas em seus últimos dias de vida escreveu um livro com os cinco arrependimentos mais comuns das pessoas antes de morrer.

Bronnie Ware é um enfermeira que passou muitos anos trabalhando com cuidados paliativos, cuidando de pacientes em seus últimos três meses de vida. Ela conta que os pacientes ganharam uma clareza de pensamento incrível no fim de suas vidas e que podemos aprender muito desta sabedoria.

“Quando questionados sobre desejos e arrependimentos, alguns temas comuns surgiam repetidamente”, disse Bronnie ao jornal britânico “The Guardian”.

Confira a lista e os comentários da enfermeira:

1. Eu gostaria de ter tido a coragem de viver a vida que eu quisesse, não a vida que os outros esperavam que eu vivesse

“Esse foi o arrependimento mais comum. Quando as pessoas percebem que a vida delas está quase no fim e olham para trás, é fácil ver quantos sonhos não foram realizados. A maioria das pessoas não realizou nem metade dos seus sonhos e têm de morrer sabendo que isso aconteceu por causa de decisões que tomaram, ou não tomaram. A saúde traz uma liberdade que poucos conseguem perceber, até que eles não a têm mais.”

2. Eu gostaria de não ter trabalhado tanto

“Eu ouvi isso de todo paciente masculino que eu trabalhei. Eles sentiam falta de ter vivido mais a juventude dos filhos e a companhia de seus parceiros. As mulheres também falaram desse arrependimento, mas como a maioria era de uma geração mais antiga, muitas não tiveram uma carreira. Todos os homens com quem eu conversei se arrependeram de passar tanto tempo de suas vidas no ambiente de trabalho.”

3. Eu queria ter tido a coragem de expressar meus sentimentos

“Muitas pessoas suprimiram seus sentimentos para ficar em paz com os outros. Como resultado, ele se acomodaram em uma existência medíocre e nunca se tornaram quem eles realmente eram capazes de ser. Muitos desenvolveram doenças relacionadas à amargura e resentimento que eles carregavam.”

4. Eu gostaria de ter ficado em contato com os meus amigos

“Frequentemente eles não percebiam as vantagens de ter velhos amigos até eles chegarem em suas últimas semanas de vida e não era sempre possível rastrear essas pessoas. Muitos ficaram tão envolvidos em suas próprias vidas que eles deixaram amizades de ouro se perderem ao longo dos anos. Tiveram muito arrependimentos profundos sobre não ter dedicado tempo e esforço às amizades. Todo mundo sente falta dos amigos quando está morrendo.”

5. Eu gostaria de ter me permitido ser mais feliz

“Esse é um arrependimento surpreendentemente comum. Muitos só percebem isso no fim da vida que a felicidade é uma escolha. As pessoas ficam presas em antigos hábitos e padrões. O famoso ‘conforto’ com as coisas que são familiares O medo da mudança fez com que ele fingissem para os outros e para si mesmos que eles estavam contentes quando, no fundo, eles ansiavam por rir de verdade e aproveitar as coisas bobas em suas vidas de novo.”

O poeta JAIRO PEREIRA entrevista o poeta ANTONIO THADEU WOJCIECHOWSKI / curitiba.pr

Poeta, compositor, professor e publicitário. Nascido em Curitiba em 24 de dezembro de 1950. Tem como filosofia de vida a seguinte máxima: tudo ao mesmo tempo agora já neste momento inclusive antes e depois. Boêmio e extremamente curioso com tudo que se refere a relações humanas. Livros de cabeceira: EU, do Augusto dos Anjos e Tao, o Livro, de Lao Tsé.

o poeta J B VIDAL e THADEU em Sambaqui, Floripa. foto do poeta VINÍCIUS ALVES.

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1.       Transitando por tantas linguagens o poeta é, ou pode tornar-se demiurgo?

É porque pode. O poeta tem uma certa tendência doentia (sic) a assenhorar-se do universo como espelho de si e de sua própria criação. Mas transitar entre inteligências e artes diversas é  um privilégio e pode dar a ele a capacidade de antecipação, de estar antes e poder contar. Pound o designa como antena da raça, mas atingir este estado não é pra qualquer um. A maioria se perde nos processos de racionalização e materialização do mundo.

2.       O poeta Thadeu, faz sua própria poesia, escreve a muitas mãos, traduz e se comunica com o mundo. A vida poética te exige muito?

Acho tudo muito divertido, escrever a sós ou a N mãos é a mesma coisa. As lâmpadas vão se acendendo, as idéias se multiplicando e a técnica entrando em ação. O mundo está cheio de mestres e mestres não dizem, mas mostram caminhos que vc pode trilhar para procurar.

Quando estou com o violão na mão ou quando um parceiro ao lado está, conversar é criar, compor, transgredir. A vida é movimento e é  certo que ela, viva, revela perfis inéditos através do trivial, do picaresco, do cotidiano, do fútil.

3.       Na tua visão pra onde caminha a poesia brasileira contemporânea?

Acho que para a apropriação de tudo, a perda da propriedade intelectual, fazer uso de algo existente para criar um diferente,  novo, todos os signos se inter-relacionando. As possibilidades já são quase infinitas, mas há um perigo em tudo isso: OS VENDILHÕES DO TEMPLO ESTÃO SEMPRE DE PLANTÃO. Não dá pra simplesmente eliminar a figura do mestre, daquele que veio antes. Pelo contrário, sua técnica, sua forma de arte, sua expressão, devem ser canibalizadas, deglutidas, incorporadas e só depois pode-se pensar em superação.

4.       O Tao, seria o caminho… no teu caminho Faustos vendem a alma ao diabo?

Eu traduzi as duas obras junto com o Roberto Prado, Alberto Centurião, Marcos Prado, Sérgio Viralobos. O TAO levou 14 anos pra ficar pronto, UM FAUSTO DOIS, 3 anos. Não sei se vendi a alma ao diabo ou se só a emprestei durante aquele período. Sei que caminhar dentro dessas duas obras deu a mim e à minha pena um apuramento da técnica e da musicalidade que eu considero essencial para conseguir fazer o que faço hoje em dia.

5.       Você nunca foi um poeta bem comportado, mas é um aglutinador de mentes privilegiadas, já se indispôs com muita gente?

Eu não tenho muita noção do que é ser bem comportado, eu sou feliz e vivo intensamente. Minha casa tem as portas abertas à criatividade e  à alegria. O pessoal vem pra cá porque é divertido, todos se sentem vivos e atuantes, participantes dessa maravilhosa aventura que é estar sobre o planeta Terra. A gente tem uns arranca-rabos de vez em quando, mas isso não é nada. Só expulsei um até hoje, era um poetinha, exatamente do tamanho do nada.

6.       Tua obra (vasta) traz o clássico (nas formas e conteúdos), o moderno, pós, transcontemporâneo e a construção despojada. O poema é Senhor do seu próprio destino?

Sim, mas só até eu enfiar a mão na cara dele, depois somos amparados um pelo outro. A diferença está na projeção de tempo que cada um faz.

7.        Até que ponto o poeta Thadeu W é o gestor majoritário dos signos da composição, seja na poesia ou na poesia/letra de MPB?

Não penso assim, como um cálculo a ser feito para se decidir o percentual de cada parceiro. Muitas vezes, assino um poema com mais meia dúzia, mas é só porque eles estavam lá e indiretamente participaram daquela energia criadora. Pra mim, estar de bem com a vida, me divertindo com os amigos, cantando até altas horas, ou simplesmente sentado no meu escritório escrevendo, é o que conta. E dividir com eles a autoria é um prazer enorme e justo.

8.       Música e poesia, na sua vida de poeta, convivem de que maneira?

Em tempo integral e inseparáveis. Fico o dia inteiro pensando versos e melodias. Criando, repetindo, analisando, consultando, lendo, relendo. Está cada vez mais difícil de trabalhar com propaganda, parece que estou em outro mundo. Queria chegar ao ponto de não precisar pensar em mais nada além da poesia e da música.

9.       O que mudou,  ao seu ver, com o advento da internet nas linguagens poéticas, e na sua particularmente?

Acho que nada, mas a exposição é muito maior e vc pode ter um feedback instantâneo sobre o que está fazendo. Em época nenhuma se veiculou tanta poesia, TVs, rádios tocando o dia inteiro, jornais, revistas, as mídias da internet etc. Não se fala aqui de qualidade e, sim, de quantidade. Mas o acesso leva inevitavelmente a um novo patamar de qualidade. Fazer arte é como treinar karatê, vc tem o estágio da faixa branca, amarela, laranja, alguns, infelizmente poucos, um belo dia, chegam à preta.

10.   É possível a poesia advir somente da linguagem, sem o sentir propriamente do poeta no social?

Pra mim, não. É como querer separar corpo e alma, mas tem muito poeta fazendo joguinhos de palavras, tipo monta-desmonta de terapia ocupacional, que pensa o contrário. Eu quero uma arte tão rica de imaginação, mas tão rica, que a realidade não possa mais interferir. E imaginar é criar a partir de mim, de tudo que sou,  vivo,  sei e sinto.

11.   O livro impresso, a palavra manchando a página branca, terá algum futuro… diante dos sistemas e meios eletrônicos, o e-book, blogs, facebook?

Bom, acho que o prazer táctil que um livro em sua forma impressa

me proporciona é insubstituível. Isso nunca vai acabar. Adoro livros, mas transito em outras mídias com a mesma desenvoltura. Tenho milhares de fãs que me conhecem somente através da internet, com os blogs, facebook, twitter, site, entre outros. Uma coisa não anula outra. O Tavinho Paz acaba de fazer um e-book com meus poemas e fotos. O lançamento vai ser no Rio. Veja só: ele pegou matéria da Internet e fez. O livro é meu, mas é dele também.

12.   Quantas gerações você já perdeu como poeta, ou elas podem ainda ser resgatadas no turbilhão dos signos estéreis?

Eu não perdi nada, eu encontrei muita coisa boa. Amigos excepcionalmente criativos, bons de conversa, melhor ainda de versos. Augusto dos Anjos, por exemplo, está quase sempre presente. Cruz e Sousa, Dante, Shakespeare, Rimbaud, Baudelaire, Maiakovski, Emily, Poe, Yeats, Bashô, Issa, Adam, Kliébnikov, Marcos Prado, Leminski, Machado, Dalton, Nelson Rodrigues, Noel Rosa, Nelson Cavaquinho, enfim, a companhia é grande. Tem sempre algo novo no antigo. Tem sempre algo antigo no novo. Muita gente acha que essas quinquilharias tecnológicas (espelhinhos pra enganar índio) são o novo. Vivem iludidos na matéria, trocando sua eternidade por produtinhos e artiguinhos de grifes, nem desconfiam que a novidade é uma impossibilidade matemática.

E pra terminar:

poeminha no cu da madrugada

tec

tec
tec
etc…

antonio thadeu wojciechowski

MINISTRA ELIANA CALMON: ‘Estou vendo a serpente nascer, não posso calar’ / são paulo

Após ataques de ministro do Supremo, corregedora nacional da Justiça afirma que não irá esmorecer na investigação do Judiciário

SÃO PAULO – Alvo de 9 entre 10 juízes, e também do ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), que não aceitam seu estilo e determinação, a ministra Eliana Calmon, corregedora nacional da Justiça, manda um recado àqueles que querem barrar seu caminho. “Eles não vão conseguir me desmoralizar, isso não vão conseguir.”
Calmon avisa que não vai recuar. “Eu estou vendo a serpente nascer, não posso me calar.”

Na noite desta segunda feira, 9, o ministro do STF disparou a mais pesada artilharia contra a corregedora desde que ela deu início à sua escalada por uma toga transparente, sem regalias.
No programa Roda Viva, da TV Cultura, Marco Aurélio partiu para o tudo ou nada ao falar sobre os poderes dela no Conselho Nacional de Justiça (CNJ). “Ela tem autonomia? Quem sabe ela venha a substituir até o Supremo.”

Ao Estado, a ministra disse que seus críticos querem ocultar mazelas do Judiciário.

Estado: A sra. vai esmorecer?

MINISTRA ELIANA CALMON: Absolutamente, pelo contrário. Eu me sinto renovada para dar continuidade a essa caminhada, não só como magistrada, inclusive como cidadã. Eu já fui tudo o que eu tinha de ser no Poder Judiciário, cheguei ao topo da minha carreira. Eu tenho 67 anos e restam 3 anos para me aposentar.

ESTADO: Os ataques a incomodam?

ELIANA CALMON: Perceba que eles atacam e depois fazem ressalvas. Eu preciso fazer alguma coisa porque estou vendo a serpente nascer e eu não posso me calar. É a última coisa que estou fazendo pela carreira, pelo Judiciário. Vou continuar.

ESTADO: O que seus críticos pretendem?

ELIANA CALMON: Eu já percebi que eles não vão conseguir me desmoralizar. É uma discussão salutar, uma discussão boa. Nunca vi uma mobilização nacional desse porte, nem quando se discutiu a reforma do Judiciário. É um momento muito significativo. Não desanimarei, podem ficar seguros disso.

ESTADO: O ministro Marco Aurélio deu liminar em mandado de segurança e travou suas investigações. Na TV ele foi duro com a sra.

ELIANA CALMON: Ele continua muito sem focar nas coisas, tudo sem equidistância. Na realidade é uma visão política e ele não tem motivos para fazer o que está fazendo. Então, vem com uma série de sofismas. Espero esclarecer bem nas informações ao mandado de segurança. Basta ler essas informações. A imprensa terá acesso a essas informações, a alguns documentos que vou juntar, e dessa forma as coisas ficarão bem esclarecidas.

ESTADO: O ministro afirma que a sra. violou preceitos constitucionais ao afastar o sigilo de 206 mil investigados de uma só vez e comparou-a a um xerife.

ELIANA CALMON: Ficou muito feio, é até descer um pouco o nível. Não é possível que uma pessoa diga que eu violei a Constituição. Então eu não posso fazer nada. Não adianta papel, não adianta ler, não adianta documentos. Não adianta nada, essa é a visão dele. Até pensei em procura-lo, eu me dou bem com ele, mas acho que é um problema ideológico. Ou seja, ele não aceita abrir o Judiciário.

ESTADO: O que há por trás da polêmica sobre sua atuação?

ELIANA CALMON: Todo mundo vê a serpente nascendo pela transparência do ovo, mas ninguém acredita que uma serpente está nascendo. Os tempos mudaram e eles não se aperceberam, não querem aceitar. Mas é um momento que eu tenho que ter cuidado para não causar certo apressamento do Supremo, deixar que ele (STF) decida sem dizer, ‘ah, mas ela fez isso e aquilo outro, ela é falastrona, é midiática’. Então eu estou quieta. As coisas estão muito claras.

ESTADO: A sra. quebrou o sigilo de 206 mil magistrados e servidores?

ELIANA CALMON: Nunca houve isso, nunca houve essa história. Absolutamente impossível eu pedir uma quebra de sigilo de 206 mil pessoas. Ninguém pode achar na sua sã consciência que isso fosse possível. É até uma insanidade dizer isso. O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) age com absoluta discrição, como se fosse uma bússola. Aponta transações atípica. Nunca ninguém me informou nomes, nada. Jamais poderia fazer uma quebra atingindo universo tão grande. Mas eu tenho anotações de alguns nomes, algumas suspeitas. Então, quando você chega num tribunal, principalmente como o de São Paulo, naturalmente que a gente já tem algumas referências, mas é uma amostragem. Não houve nenhuma devassa, essa é a realidade.

ESTADO: A sra. não tinha que submeter ao colegiado o rastreamento de dados?

ELIANA CALMON: O regimento interno do CNJ é claro. Não precisa passar pelo colegiado, realmente. E ele (ministro Marco Aurélio) deu a liminar (ao mandado de segurança)e não passou pelo Pleno do STF. E depois que eu fornecer as informações ao mandado de segurança e depois que eu der resposta à representação criminal ficarei mais faladora. Estou muito calada porque acho que essas informações precisam ser feitas primeiro. Eu não vou deixar nada sem os esclarecimentos necessários.

ESTADO: Duas liminares, dos ministros Marco Aurélio e Ricardo Lewandowski, ameaçam o CNJ. A sra. acredita que elas poderão ser derrubadas pelo Pleno do STF?

ELIANA CALMON: Esperança eu tenho. Agora, tradicionalmente o STF nunca deixou o seu presidente sem apoio, nunca. Todas as vezes eles correram e conseguiram dar sustentação ao presidente. Qual é a minha esperança: eu acho que o Supremo não é mais o mesmo e a sociedade e os meios de comunicação também não são mais os mesmos. Não posso pegar exemplos do passado para dizer que não acredito em uma decisão favorável. Estamos vivendo um outro momento. Não me enche de esperanças, mas dá esperanças para que veja um fato novo, não como algo que já está concretizado. Tudo pode acontecer.

ESTADO: O ministro Marco Aurélio diz que a competência das Corregedorias dos tribunais estaduais não pode ser sobrepujada pelo CNJ.

ELIANA CALMON: Tive vontade de ligar, mandar um torpedo (para o programa Roda Viva) para dizer que as corregedorias sequer investigam desembargador. Quem é que investiga desembargador? O próprio desembargador. Aí é que vem a grande dificuldade. O grande problema não são os juízes de primeiro grau, são os Tribunais de Justiça. Os membros dos TJs não são investigados pelas corregedorias. As corregedorias só tem competência para investigar juízes de primeiro grau. Nada nos proíbe de investigar. Como juíza de carreira eu sei das dificuldades, principalmente quando se trata de um desembargador que tem ascendência política, prestígio, um certo domínio sobre os outros.

ESTADO: A crise jogou luz sobre pagamentos milionários a magistrados.

 ELIANA CALMON: Essas informações já vinham vazando aqui e acolá. Servidores que estavam muito descontentes falavam disso, que isso existia. Os próprios juízes falavam que existia. Todo mundo falava que era uma desordem, que São Paulo é isso e aquilo. Quando eu fui investigar eu não fui fazer devassa. São Paulo é muito grande, nunca foi investigado. Não se pode, num Estado com a magnitude de São Paulo, admitir um tribunal onde não existe sequer controle interno. O controle interno foi inaugurado no TJ de São Paulo em fevereiro de 2010. São Paulo não tem informática decente. O tribunal tem uma gerência péssima, sob o ponto de vista de gestão. Como um tribunal do de São Paulo, que administra mais de R$ 20 bilhões por ano, não tinha controle interno?

ESTADO: Qual a sua estratégia?

ELIANA CALMON: Primeiro identificar a fonte pagadora em razão dessas denúncias e chegar a um norte. São Paulo não tem informática decente. Vamos ver pagamentos absurdos e se isso está no Imposto de renda. A declaração IR até o presidente da República faz, vai para os arquivos da Receita. Não quebrei sigilo bancário de ninguém. Não pedi devassa fiscal de ninguém. Fui olhar pagamentos realizados pelo tribunal e cotejar com as declarações de imposto de renda. Coisa que fiz no Tribunal Regional do Trabalho de Campinas e no tribunal militar de São Paulo, sem problema nenhum. Senti demais quando se aposentou o desembargador Maurício Vidigal, que era o corregedor do Tribunal de Justiça de São Paulo. Um magistrado parceiro, homem sério, que resolvia as coisas de forma tranquila.

Fausto Macedo, de O Estado de S.Paulo

O poeta HÉLIO DE FREITAS PUGLIELLI é entrevistado pelo poeta JAIRO PEREIRA / curitiba.pr

  1. “Fúria em silêncio/império do Nada/rua Augusto Stelfeld 824”. (Autoretrato). Este excerto de poema da coletânea inominada de 67, com outros poetas do Paraná, dá mostra da força de sua poesia. O Hélio, é um poeta que nunca quis se mostrar?

Me mostrei até demais.,,inclusive o endereço, que há 20 anos não é mais esse. Muito jovem, entre 1957/60. pintei e bordei na página literária de “O Estado do Paraná” (que infelizmente deixou de circular este ano). Quando dediquei a página inteira a alguém que não sabia ser “persona non grata” do diretor do jornal, ele acabou com minha festa.

2.Seu olhar crítico acompanhou gerações de criadores no Paraná, focando mais na área de literatura. Como você avalia, a atual literatura no Estado?

Antigamente as pessoas escreviam, mas dificilmente publicavam livros. Hoje não é tão difícil publicar e vários escritores que nasceram e/ou vivem aqui conseguiram projeção nacional.

  1. A internet, a seu ver, é matriz determinante na evolução ou involução das linguagens poético-literárias?

Às vezes os meios são neutros, mas muitas vezes afetam o conteúdo. Creio que a internet faz alguns escritores involuírem e outros evoluírem. Tudo depende dos propósitos e da habilidade no uso dos recursos proporcionados pela WEB.

  1. Ainda muito jovem você escreveu um ensaio interessante: “O SER DE PARMÊNIDES CHAMA-SE BRAHMA”. A filosofia te persegue e reflete sempre na sua produção intelectual?

“O Ser…” é um pequeno poema escrito na maturidade, com intenções filosóficas, sim. Até hoje sou grato aos raros amigos que entenderam o texto (três ou quatro escreveram a respeito) e confesso que me desgostou a incompreensão de alguns que não entenderam ou fizeram-se de desentendidos.

  1. O intelectual, ao contrário do criador livre e loucos de todo gênero é o ser que por seu próprio juízo e razão, expõe o bem e o mal do mundo?

Para o meu gosto sim. A maioria do que se faz agora é literatura que não cheira nem fede, feita por criadores que nada têm de loucos e, por isso mesmo, não são portadores da chama (nem sagrada nem profana). Na minha concepção, se não for criador, um pouco louco e não mexer com o bem e o mal, nenhum escritor pode ser considerado grande. Veja o Guimarães Rosa: criador, louco pela linguagem e se imiscuindo no bem e no mal. Só poderia fazer grande literatura.

  1. Sente-se no Paraná e no Brasil, a ausência de críticos… Em que sentido isso é ruim pra literatura e a poesia?

Com o atual domínio por parte do mercado editorial e da mídia, não surpreende a ausência de críticos. Quem pode ser independente nessa engrenagem? Agora só temos teses de mestres e doutores em literatura. Quando essa gente faz textos críticos, em geral é uma coisa chatíssima, mas há exceções, é claro.

  1. O Hélio intelectual de formação acadêmica e o Hélio de cultura mundana, poética, crítica… combinam até que ponto?

“Formação acadêmica” no sentido de ter estudado e lecionado na Universidade Federal do Paraná (onde também estudou meu pai, filho de imigrante italiano pobre). Sempre fui inconformista e nunca derrapei na “literatura sorriso da sociedade”.

  1. Nessa entrevista que puxa sempre mais para o literário, o crítico, e o poético, é importante saber: o Hélio de Freitas Puglielli tem um projeto presente/futuro em ação?

Meu projeto presente é viver o “aqui e agora”. O projeto futuro é editar alguns livros que estão dormindo na gaveta há muito tempo e outros nem tanto.

9.A literatura oficialesca, no sentido de editorial, (aos que conseguem chegar numa editora) estabelecida, a seu ver representa o que há de melhor na produção paranaense e brasileira?

Aí é difícil julgar, pois a literatura não-oficialesca tem baixa visibilidade  para que se possa realmente comparar.  Mas li muita coisa boa nas revistas, internet e livros editados pelos próprios autores. Cito um amigo falecido, Sérgio Rubens Sossella e outros vivos que você, Jairo, sabe bem quem são.

  1. Como você vê o futuro do livro, da poesia e da literatura, ante a força arrebatadora dos meios eletrônicos (facebook, blogues, links…)?

Não tenho nenhum fetichismo com relação ao livro de papel. Os e-books se multiplicam cada vez mais e acho muito cômodo fazer download, já que não me incomoda ler diretamente no monitor, ao contrário daqueles que têm de imprimir primeiro para depois ler. A revolução da informática/internet eclodiu numa escala maior do que a revolução gutemberguiana. Queiram ou não, os efeitos tendem a ser irreversíveis.

  1. O ser transmoderno (internético) pode tornar-se anti-reflexivo, ou a velocidade dos links, não altera a performance do pensar?

Sem dúvida a reflexão demanda tempo. Mas não tem que ser necessariamente lenta. A performance do pensar sem dúvida está se alterando. Bobagens e sandices foram ditas em todas as épocas. Se bobagens e sandices são ditas hoje, a culpa é da desqualificação cultural dos que nem sabem usar o Google adequadamente para ampliar seus horizontes.

Parabéns ao entrevistador!

o poeta JAIRO PEREIRA entrevista o artista visual RETTAMOZO / curitiba.pr

os artistas visuais RETTAMOZO (RETTA) e ATTILA trocam idéias sobre novo projeto com o poeta e webeditor J B  VIDAL no bar ARMAZÉN DA ESQUINA. foto do garçon. Curitiba. 2010.

Entrevista para a REVISTA “CLIC MAGAZINE” e para o site “PALAVRAS TODAS PALAVRAS”:

  1. De todos os Rettamozos (pintor, compositor, performer) qual é o que mais te sublima?

Retta: Sou o pior aluno que o polacolocopaca Paulo Leminski jamais teve. E vem dele que se você tiver consciência de linguagem rola muitas línguas. Hoje vejo que incorporo, quando poeta sou um, penso, vivo, brinco poesia. O poema é a maior máquina inventada pelo homem. dEUs ou DeuS. Quando desenho faço o contorno, viro um contornador, quando pinto faço preenchimentos. Nestas horas eu só sei uma coisa de cada vez. Rsss…muitas almas num só corpo é muito baicon prum porco.

  1. Na tua pintura, vê-se obras onde a visão do artista focou os objetos de cima pra baixo, tipo cinco mil metros de altura? È muito difícil esse olhar distanciado dos objetos, na realização da obra?

R. – Nosso olhar é de quem está pendurado em um galho de árvore a girar nesse planeta maluco a não sei quantos mil quilometros por hora em direção ao buraco negro…ou seja ao cair antes de dar de cara no chão. Nossa visão é de topo. Assim minha tribo kaigang conta em uma lenda a criação do mundo.

Nhanderú está em cima da primeira árvore (jabuticabeira?) quando quase caiu…nesse momento o chão se abriu e dali sairam 2 irmão. E como tal qual sairam brigando. Um muito rápido e o outro muito lento. Até esse dia sétimo tudo sobre a face da terra era cor de barro…inclusive os irmãos.

Quando Nhanderú gritou “ Olha o lagarto! “ o irmão mais rápido que agora não lembro o nome – imediatamente pintou o lagarto só com listrinhas…e

Quando Nhanderú pediu silencio “ Shsss…olha a onça!” o mais lento pintou uma bolinha nela e esperou. Segundo essa bela lenda tudo sobre a face da terra ou é listrado ou manchado. É isso que a gente pinta. Paisagens do tamanho natural.

  1. A arte como sagração do homem, tem o espaço e respeito merecido nos dias de hoje? É possível se viver de arte?

R. É impossível viver sem arte.

  1. Existe grande dotação do homem Rettamozo na sua arte? Ou seja, tua arte se confunde com você até que ponto?

R. O trabalho que faço é com um coletivo. ComoVer nossa terra. Começa com um encontro depois um passeio para reconhecer o terreno. Depois catamos terra e fazemos a tinta do suporte sobre tela. Caminhamos e contamos histórias com os pés-de-chinelos que podem ser crianças ou adultos. Depois pintamos uma flor verdinha e sua sombra com um barro mais escuro. Pela posição da sombra temos o horário da obra. 3 horas da tarde, por exemplo, neste horário as formiguinhas carregam folham que as cortadeiras cortaram de manhã. Pintamos uma carreirinha de pedaços de folhas e assim cada um vai fazendo isso e aquilo. 30 crianças, 30 folhas em 30 segundos…pintamos no tempo da via ao vivo.

  1. Toda arte reflete além de outros elementos do real, uma dose de indignação. A tua arte com forte presença do lúdico, traz que indignação do sujeito criador?

R. Bom…eu já fui da Vanguarda do Século Passado, agora sou da Rettaguarda do milênio entrante…

  1. O Rettamozo que fez já marcou e muito pra artistas e público em geral. E o hoje? E o amanhã? Quais seus planos de realização pictórica e artística?

R. Pois é de quebrar paradigmas acabei inventando um pra mim. Pensava que ser autodidata era não freguentar a academia, hoje descubro que autodidata é o cara que inventa uma academia. No caso da pintura. Que é um jogo de RPG com o resultado final uma imagem, que parece fotográfica, mas ao contrário das cameras que tem um olho só, esses trabalhos são feitos com 40 olhares…rsss

  1. Sente-se na sua pintura que há uma busca pelo novo, o anárquico em ato, a arte que se impõe por si só, fugindo um pouco da razão do artista/criador. Isso realmente acontece?

R. Sim acontece vida durante o trabalho. Só pela dúvida vale a vida, duvida?

  1. Qual o seu processo básico de criação, focando-se mais a pintura?

R.Trabalho em oficinas pelo interior…Agora sexta-feira, dia 29/30 e 1º vou pra Porto Belo Santa Catarina. Numa oficina de onde resultam trabalhos que ficam no local do evento. Tipo assim ó: http://pintando7empontal.com.br/Pintando_o_7/Pintura.html

  1. A tinta traz a responsabilidade dos séculos, por si só ela tem o compromisso de fazer alguma coisa. Ou você acha que não, que tudo depende do artista como gestor majoritário dos signos/símbolos na composição?

R. Obra de arte se aprende na escola, obra prima além da esquina…rsss

  1. Duas numa só: Existem as ditas “vanguardas” ou tudo não passa de antecipação de formas e conteúdos que o próprio tempo brinda a alguns artistas? Qual sua visão da arte contemporânea?

R. Vanguarda, segundo um sábio banqueiro, plantador de soja é quando você planta uma “vanguarda” de milho em redor, pras pragas se fartarem com o milho enquanto a soja dá frutos.

 

“o artista visual RETTAMOZO tem uma página, exclusiva, neste site. veja acima.”

“PRIVATARIA TUCANA” esgota-se em 4 dias, é o best seller de 2011/12. Veja a entrevista de AMAURY RIBEIRO JR

o jornalista AMAURY RIBEIRO JUNIOR concede entrevista ao jornalista PAULO HENRIQUE AMORIM, veja:

UM clique no centro do vídeo:

Regina Braga: “Somos todos bissexuais”


Casada há trinta anos com o médico Dráuzio Varella e mãe de Gabriel Braga Nunes, atriz conta que “se envolve com mulheres todos os dias”

Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro 28/07/2011 11:40


O que para alguns é polêmica, para Regina Braga é assunto corriqueiro. Não só porque ela está em cartaz há dois meses em São Paulo com uma peça que aborda a vida da poetisa americana Elizabeth Bishop, lésbica assumida. Para a atriz, a opção sexual não é tabu. “Eu acho que nós somos, o ser humano em geral, somos bissexuais. Eu sou bissexual, qual é o problema?”, afirma ela.

Casada há trinta anos com o médico Dráuzio Varella, ela não vê problema algum em lidar com isso. “Eu vivo com ele. Eu não escolhi viver com uma das minhas amigas. E ele está feliz com isso. E eu também”, diz, categórica.

A atriz está em cartaz em São Paulo com a peça “Um porto para Elizabeth Bishop”, sobre a estadia da poetisa americana por longos quinze anos no Brasil. Mesmo texto que ela apresentou, com igual sucesso, dez anos atrás. Em novembro, estréia no Solar de Botafogo, no Rio. Em breve volta à TV (sua última participação foi em “Tititi”), como uma fazendeira viúva na série “As Brasileiras”, na qual viverá um romance contra a aceitação da filha, interpretada pela Sandy Lima.

Em conversa exclusiva com o iG, Regina também comentou que não assiste às maldades do seu filho,Gabriel Braga Nunes, em “Insensato Coração”. “Me senti mal muitas vezes vendo esta novela”, diz.

iG: Elizabeth Bishop, ao chegar ao Brasil, tem uma visão meio Carlota Joaquina de tudo que vê. Como ela muda de ideia e se apaixona pelo País?
Regina Braga:
 Carlota Joaquina dos nossos tempos (risos)! Ela chega no porto de Santos, em dezembro, e acha tudo horrível. Tem um poema no qual ela descreve aqueles morros todos. Come um caju em Petrópolis e fica doente, pega uma alergia, e se interna no Rio. Fica apavorada, acha tudo corrupto, desorganizado, feio, provisório… Mas aí ela sente nosso calor humano, começa a tomar banhos de cachoeira, e aí se tornou uma poeta muito melhor.


“Depende das circunstâncias, a gente pode ser expressamente gay ou não”

iG: Qual é o grau de importância, a seu ver, de Elizabeth na poesia americana? 
Regina Braga: Só os mais intelectuais a conheciam. Mas ultimamente teve milhares de livros sendo lançados pelo mundo, tudo sobre ela… Teve um americano que esteve na Flip, o Michael Sledge, Ele lançou “A arte de perder”, baseado na vida e obra dela. Elizabeth foi amiga pessoal de Vinicius de Moraes e Manoel Bandeira. Adorava Drummond, conhecia João Cabral de Melo Neto. Ela era poeta revolucionária nos Estados Unidos.

“Se quisesse viver com uma mulher, poderia”

iG: E como é sua ligação com a poesia?
Regina Braga:
 Elizabeth me aproximou mais desse universo. Gosto dessa estranheza que ela tinha ao descrever o que via. “Eis uma costa/ Eis um porto…”. Ela te pega pela mão e começa a mostrar o que está vendo.

iG: O público expressa alguma reação negativa pelo fato de a personagem da peça ser lésbica?
Regina Braga: 
Há dez anos trás, era muito pior, sabia? As pessoas vinham me perguntar: ‘como é que você faz para fazer uma gay?”. Gente, como se isso fosse de um universo tão distante! Eu falava ‘mas que isso. Você está falando do quê?’. Como se fosse um ser diferente, sabe? Eu sinto que, pela reação de vários casais, a maioria sendo casais de mulheres, que vinham me procurar depois da apresentação, dizendo ‘muito obrigada pelo respeito que você está lidando com este tema’. Respeito? Então quer dizer que as pessoas não estavam acostumadas a serem tratadas com respeito.

iG: Você ainda sente a sociedade careta em relação a este assunto?
Regina Braga:
 Tem nichos caretas. Mas quanto mais se discutir, melhor.

iG: Onde o público lida melhor com esta temática: na TV ou no teatro?
Regina Braga:
 Tem que ser falado em geral. Tem que ser levado a sério. Tinha uma época que só aparecia gay no Brasil para fazer piada sexual, totalmente caricatura, um deboche. Para fazer rir os imbecis. Piada de sexo é para imbecil.


“Eu vivo com ele (Dráuzio). Eu não escolhi viver com uma das minhas amigas. E ele está feliz com isso. E eu também”

iG: Como quebrar este tabu? 
Regina Braga: Quebrar? Este termo dá ideia de bater e quebrar, no sentido de ser uma coisa agressiva. Talvez não seja quebrando, mas abrindo para conversas. Quanto mais informação as pessoas tiverem, mais educação e pensamentos ela terá para contrapor a realidade e rever a história.

iG: O que te leva a declarar a sua opção sexual?
Regina Braga: 
Sinceridade. Eu acho que nós somos, o ser humano em geral, bissexual. Eu sou bissexual, qual é o problema? Depende das circunstâncias, a gente pode ser expressamente gay ou não. Mas que todo mundo tem isso dentro da gente, ah, isso tem.

iG: Como você se deu conta disso?
Regina Braga:
 Temos que falar mais abertamente dessas coisas, tem que se tornar mais público. Não pode ficar só nestas coisas rasas. Achei importante ser sincera. Sinto isso em geral nas pessoas, tem que se desenvolver mais isso. Todo mundo é bissexual. E pode ficar homo ou não. Isso é secundário.

iG: Como sua bissexualidade aflora? Já se envolveu com mulheres?
Regina Braga:
 Eu me envolvo todos os dias. Todos os dias tenho várias paixões na minha vida. Tenho muitas amigas íntimas. Tenho esta sensação de que posso escolher o que eu quiser. Se eu quisesse viver com uma mulher eu poderia.

iG: O que o Dráuzio acha disso?
Regina Braga: 
Ele sabia desde sempre… Eu vivo com ele. Eu não escolhi viver com uma das minhas amigas. E ele está feliz com isso. E eu também.

iG: Você sofreu preconceito em algum momento da vida, por pensar e falar disso abertamente?
Regina Braga:
 Para falar a verdade, não (pausa). Ao contrário, sinto que as pessoas estão ávidas por quererem se ampliar. É claro que eu devo frequentar ambientes bem mais abertos que muita gente. De forma geral, em relação a esta questão gay, tão enraizada na humanidade, quando converso com as pessoas sobre isso, elas percebem como é normal. Mas tem casos lamentáveis, sempre.


“Me senti mal muitas vezes vendo Gabriel em ‘Insensato Coração’”

iG: Como quais, por exemplo? 
Regina Braga: Como aquele em que pai e filho foram confundidos com casal homossexual e foram agredidos. Isso é grupo terrorista!

iG: Você está com 62 anos. Sua relação com o sexo mudou depois dos 60?
Regina Braga:
 Sexo na terceira idade? (risos) Olha, aqui em casa está sendo possível (risos). É normal quando as pessoas estão em boa saúde. O sexo fica com elas até o fim.

A atriz diz que não gosta de assistir ao sofrimento do personagem do filho na novela

iG: Há quanto tempo está casada?
Regina Braga:
 Há trinta anos. Muito tempo, né? É bom, bom mesmo! Meu segundo casamento. No primeiro, fiquei dez anos casada com o pai do Gabriel e da Nina, que é fisioterapeuta. Ela tem duas crianças pequenas. Gabriel é um ano mais velho que ela.

iG: Tem acompanhado as cenas do Gabriel em “Insensato Coração”?
Regina Braga:
 Me senti mal muitas vezes vendo esta novela. Quando ele está por cima, costumo assistir melhor. Aquele jeito psicopata de ser é interessante. Mas agora, que ele tem sofrido, não gosto de ver, não. Logo no começo da novela tinha um acidente de moto, fiquei com as imagens na cabeça. É o meu filho, é a cara dele ali. Evito ver.

iG: Já teve pesadelo com o Léo (personagem do Gabriel)?
Regina Braga: 
Pesadelo ainda não. Mas olha só, Dráuzio uma vez viu alguém apontando o revólver na cabeça dele, numa dessas cenas da novela. De noite, ele não conseguiu dormir. Só pensando no Gabriel com o revólver mirado na cabeça. A gente fica com estas imagens, isso não é bom. Me incomoda muito este tipo de cena.

O poeta JAIRO PEREIRA entrevista o poeta MANOEL DE ANDRADE / curitiba

ENTREVISTA COM O POETA MANOEL DE ANDRADE PARA A REVISTA CLIC MAGAZINE:

 

 

  1.        O poeta Manoel de Andrade, sempre foi um poeta participante? Vida e poesia são indissociáveis?

R. Aos vinte anos eu tinha uma visão muito intelectual do processo poético. Era o início da década de sessenta, época em que o dadaísmo propunha desconstruir a construção poética e o concretismo, pelo contrário, impunha uma excessiva preocupação teórica sobre como construir a poesia. É dessa fase o Poema Brabo com o qual ganhei, em 1964, um primeiro lugar num concurso de poesia moderna instituído pelo Centro de Letras do Paraná e o jornal “O Estado do Paraná”. Mas a influência concretista foi  efêmera. O golpe militar de 1964 me induziu a fazer uma rápida autocrítica e minha condição de poeta participante começa já em 1965, quando ao participar no Teatro Guaíra,  da Noite da Poesia Paranaense, ao lado de  João Manuel Simões, Helena Kolody, Leopoldo Scherner, Hélio de Freitas Puglielli, Paulo Leminski, Sônia Regis Barreto e outros, fui o único a apresentar no poema A Náusea, versos politicamente explícitos contra a Ditadura, como os deste fragmento:

(…) E tu, entre tantos,

saberás conter essa indignação

somente no lirismo dos teus versos,

ou irás colar teu escarro no pátio sangrento dos quartéis?

 

Vida e poesia devem ser indissociáveis, contudo, e infelizmente, passei 30 anos distante da poesia, não como leitor, mas como escritor.

 

Sua poesia é mais discursiva… Você acredita nos prodígios da simples palavra poética?

R. A poesia é um prodígio quando se encontra a palavra certa. A palavra essencial, na expressão de Antonio Machado. Ousadia e encanto integram o mistério desse prodígio. Se a poesia social realmente é mais discursiva é porque está identificada com o tempo histórico em que vive o poeta. Seu propósito social, seu pendor libertário exige essa implícita oralidade, esse tom discursivo. Creio que é missão dos poetas semear a esperança e denunciar as injustiças, sobretudo em tempos de crueldade. Por isso caíram Garcia Lorca, Otto René Castillo, Javier Heraud, Ariel Santibanhez. Contudo esse engajamento, essa preocupação com os fatos sociais não deve e não pode ofender a tessitura poética, pois sem lirismo não há poesia.

       Ação política e ação poética, podem convergir para um mesmo ideal ou utopia?

  1. Esses dois fatores dependem das circunstâncias históricas para se armarem na mesma trincheira. Escrevi poesia política nas décadas de 60/70, período em que no Brasil foram silenciadas todas as expressões da cultura ideológica e na América Latina as bandeiras de uma sociedade socialista estavam hasteadas na consciência das classes oprimidas e nas vanguardas revolucionáriasem luta. Esseideal de um mundo novo e essa utopia com que tantos sonharam era o sublime conteúdo dos meus versos.

  1. O signo verbal, a seu ver, será sempre o instrumento mais forte de comunicação do poético?

R. Tenho na mídia eletrônica um artigo chamado “Poesia e Oralidade”, onde escrevi sobre a importância do verso pronunciado sem desmerecer a poesia escrita. O signo verbal tanto pode ser oral como escrito, mas é no tom declamatório que o poema está realmente “vivo”. Creio que a magia da poesia está na sua oralidade, mas essa estesia  foi se perdendo com a indigesta presença da modernidade,  que amordaçou o lirismo. Felizmente os grandes festivais de poesia têm mantido acesa esta chama.

  1. O poeta pode ser o rapsodo reinventando o mundo pelas linguagens?

R. Isso tem muito a ver com uma parte de minha vida, quando eu era um bardo errante ao longo dos caminhos da América. Naqueles anos ‘o mundo tinha o tamanho dos nossos sonhos’ e tudo estava sendo reinventado com tantas formas de linguagens. A poesia buscava a sua verdade na história e tinha plena cidadania no coração dos jovens. Hoje, nós, os poetas, somos seres desgarrados. E, contudo,  a poesia segue impassível seu caminho,  sublimada em sua própria transcendência. É ela que liberta a palavra nessa angustiante crise da expressão humana. Sempre foi e segue sendo uma operação mágica. Uma alquimia em busca do nobre metal do encanto.

  1. Conte-nos um pouco da sua trajetória poética e de vida.

Minha real trajetória poética aconteceu fora do Brasil. Deixei o país em março de 1969 e meu primeiro livro, Poemas para la libertad,  foi publicado no ano seguinteem La Paz, com varias edições posteriores no Continente. Nessa época minha vida e minha poesia eram indissociáveis. Foram 16 países percorridos, denunciando a opressão, dando nome aos tiranos, declamando a liberdade e pronunciando a esperança. Fugas, prisões e expulsões marcaram minha vida com a sublime cumplicidade de meus versos. Escrevo, atualmente, um livro de memórias sobre aos anos que passei na América Latina e é onde espero contar a história libertária da América, colhida nos passos de minha trajetória poética.

  1. Como você vê as novas mídias hoje? Algum palpite sobre o futuro do poema feito com palavras? 
  2. R-Vejo-as com muito interesse porque praticamente só publico na internet e já não leio jornais impressos. Contudo, das mídias tradicionais só não abro mão do rádio.  Também já não faço nenhuma questão que meus poemas ou artigos sejam publicados na imprensa porque o jornal é flor de um dia. Ter um texto publicado na web é uma expectativa permanente de interação com o mundo. Tenho alguns blogs onde publico normalmente e uma revista eletrônica bilíngue onde assino uma coluna trimestral. Além de suas inumeráveis utilidades, creio que a internet é uma agenda diária imprescindível para um intelectual.

Completando a resposta,  não consigo imaginar um futuro em que um poema não seja feito com palavras.

  1. Das suas obras, quais as que mais o projetaram como poeta?

R. Tenho três livros de poesia publicados e co-autoria em outros.  Publiqueidois no exterior e dois no Brasil, sendo um destes uma reedição brasileira de Poemas para la libertad, editado há 40 anos na Bolívia.  Poemas para a liberdade, que somente foi publicado no Brasil em 2009, numa edição bilíngue pela Editora Escrituras, foi o livro que mais dimensão deu a minha poesia. Alguns dos seus poemas foram escritos no Brasil mas, sua maior parte nasceu no exílio e se me projetaram como poeta é porque nasceram na imensa trincheira de luta que foi a América Latina nos anos 70. Começaram sua trajetória em edições e reedições panfletárias no Peru, espalharam-se pelo Continente através de mochileiros de muitas nacionalidades  e foram lidos em teatros, galerias de arte, sindicatos, minas, reuniões públicas e clandestinas, congresso de poetas, festivais de cultura  e para muitos milhares de estudantes das maiores universidades latino-americanas.

  1. Pra finalizar: o público de poesia, a seu ver, melhorou ou piorou nos últimos tempos?

R. Esta é uma pergunta que eu também gostaria de fazer a quem realmente soubesse responder. Creio que a poesia tem a sua linguagem e são tão poucos os que realmente  falam, leem e escrevem esse idioma… Todos sabemos que hoje a poesia é uma nobre mendiga, rogando quem a escute. É muito triste tudo isso para nós, os poetas, que ansiamos partilhar com todos o nosso lirismo e o nosso encantamento. Já disse algures que a poesia é o patinho feio da literatura, desprezada pelas editoras e “escondida” nas livrarias. Creio que são os sinais dos tempos. Vivemos num mundo ética e esteticamente falido e onde a cultura da aparência é a própria expressão da mediocridade. Creio que tudo isso há de passar. Que há de vir um tempo em que a poesia volte a palpitar no coração dos homens, por ser a mais bela expressão de sua alma e porque, pelo seu mistério e seu encanto, a poesia é imperecível.

1. Como foi a repercussão na mídia da sua edição de CANTARES, 2007, editora escrituras?

R. Foi muito boa e a edição está praticamente esgotada. Esse livro marcou, em 2002, meu retorno à poesia depois de 30 anos de total afastamento da literatura. Voltei ao Brasil em meados de 72, numa fase aguda da repressão política, obrigando-me a ficar muitos anos no total anonimato social e literário. Tudo isso me desmotivou a escrever e somente voltei à poesia na primavera de 2002. provocado por um fato meramente circunstancial. Cinco anos depois lancei o livro Cantares, retratando na sua primeira parte a importância que o mar teve em minha infância, um lírico resgate de uma fase extraordinária de minha vida. Voltando à pergunta quero dizer que sua repercussão na mídia foi a melhor possível, seja pela credibilidade dos comentários, entrevistas e resenhas, mas sobretudo porque todos os poemas do livro estão publicados em vários blogues nacionais e alguns internacionais.

 


Dr. PAULO HOFF: Incidência de câncer vai aumentar no País / são paulo

Envelhecimento fará número aumentar nos próximos anos, afirma o oncologista Paulo Hoff, diretor do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo e médico do ex-presidente Lula

Ele nasceu em Paranavaí (PR), viveu em Passo Fundo (RS), graduou-se em Brasília e foi médico residente na Universidade de Miami e em Houston. Paulo Marcelo Gehm Hoff, 43 anos, é hoje uma das principais autoridades brasileiras em câncer, professor da USP, e está encarregado de cuidar da saúde do ex-presidente Lula, que trata de um tumor na laringe. Diretor do hospital Sírio Libanês e do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), tem entre seus pacientes a presidente Dilma, além do ex-vice-presidente José Alencar, que lutou contra a doença até março.

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Na última sexta-feira, um dia após a divulgação da estimativa do Inca (Instituto Nacional de Câncer) de um aumento no número de casos da doença no país em cerca de 1 milhão de novos pacientes nos próximos dois anos, Hoff disse que a estimativa é conservadora. “Temos no Brasil ainda uma falta de dados exatos do número de câncer, mas acredita-se que a estimativa do Inca esteja muito próxima da realidade”, afirma.

Ele explica que o envelhecimento da população deve levar o quadro da doença a níveis dramáticos nos próximos anos. Para combater isso, segundo Hoff, é preciso investir agora em prevenção e conscientização dos jovens sobre hábitos saudáveis de vida. “A conta será cobrada daqui a algumas décadas”. Ele afirma que 60% dos pacientes com câncer têm cura, que há medicamentos para reduzir o desconforto da quimioterapia, e critica a Resolução 196, que restringe a pesquisa científica no Brasil desde a gestão do ex-ministro Adib Jatene. “A agenda da pesquisa é dependente da indústria. É preciso mudar isso”, diz.

Após ter administrado a segunda sessão de quimioterapia ao ex-presidente Lula, no começo da semana passada – a última está prevista para janeiro -, Hoff afirma que o paciente reage bem ao tratamento do câncer na laringe. O prognóstico do ex-presidente, segundo o médico, “é bom” e que as informações sobre o tratamento são “absolutamente transparentes”.

Filho de um ex-dono de laboratório de análises clínicas em Paranavaí, o oncologista é casado com uma médica, tem três filhas, torce para o Internacional (RS) e é um apaixonado por assuntos de defesa, como aviões e navios de guerra. Perguntado se aceitaria ser ministro da Saúde, responde: “Eu? Nunca fui convidado”.

Abaixo, os principais trechos da entrevista no Icesp.

O Inca diz que há uma estimativa de um milhão de novos casos de câncer nos próximos dois anos no País. O que significa do ponto de vista da saúde pública?
O Inca talvez seja hoje uma das instituição mais sólidas em termos de estudos e investigação epidemiológia do câncer na América Latina. Então nós temos de acreditar nesses dados. Se nós quisermos ter alguma dúvida em relação a esses números é que eles podem ser até um pouco conservadores. Temos no Brasil ainda uma falta de dados exatos do número de câncer, mas acredita-se que a estimativa do Inca esteja muito próxima da realidade. Os números liberados agora têm algumas nuances importantes. No ano passado, o número da estimativa era de 500 mil casos. Neste ano, 520 mil. Um aumento substancial. Infelizmente a expectativa sobre esse número é de que continue a aumentar. Na pergunta foi mencionado qual era a expectativa de um milhão de casos nos próximos dois anos. Eu iria mais longe: nos Estados Unidos haverá um milhão e meio de casos em um ano – e o Brasil tem um terço da população americana. Se nós seguirmos nesta projeção ascendente, que se confirmou entre as estimativas de 2011 para 2012, nós teremos no futuro um número muito maior de casos. Não é impossível que cheguemos a ter um milhão por ano, quando a nossa população realmente atingir seu estado mais maduro e tivermos uma população elevada acima dos 60 anos.

Hoje temos no mundo em torno de 25, 26 milhões de casos.
Mas esse número vai aumentar bastante. E o número que é dramático é que até 2030 esta incidência deve aumentar em mais 15 milhões. E esse aumento se dará predominantemente em países em desenvolvimento cujas populações estão envelhecendo agora. Nos Estados Unidos, Europa etc, esta fase de amadurecimento já aconteceu há alguns anos. A pirâmide populacional mudou e as incidências subiram muito em anos passados e agora começam a estabilizar. Para nós, as curvas ainda são ascendentes.

O envelhecimento projeta um aumento importante dos casos.
A maior parte dos tumores tem mais de um fator que leva à formação da doença. Mas entre todos os fatores de risco o que é mais comum a todos os tumores é o envelhecimento. Porque o envelhecimento faz com que as células tenham mais tempo expostas a fatores que possam transformar as células normais em cancerosas. O envelhecimento faz com que haja mais pessoas sob risco, e consequentemente um aumento na incidência. Mas gostaria de dizer que se abrem oportunidades. O câncer não é doença que se forma do dia para a noite. As pessoas têm a impressão de que o câncer se forma de um ano para o outro. Na realidade, o processo é muito longo, com exceção dos tumores associados a síndromes familiares, que são muito rápidos, em geral os tumores levam de uma a duas décadas para se instalar. Então, se nós já sabemos que a estimativa atual é que haverá um envelhecimento da população e que essas pessoas terão um risco maior, nós temos a oportunidade de atuar na juventude agora para fazer com que ela minimiza a exposição. Você nunca vai conseguir eliminar o risco. Mas voce pode reduzir a chance. Mais ou menos como alguém que está dirigindo a 140/150 quilômetros um carro e baixa essa velocidade para 80 quilômetros por hora. Ele ainda tem o risco de um acidente, mas é menor do que se ele continuasse naquela velocidade.

Daí a iniciativa do trabalho com escolas do Icesp.
Justamente. Temos uma preocupação muito grande de como nós, no Icesp, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, podemos colaborar na redução dos casos de câncer a longo prazo. É importante não só se pensar no tratamento e diagnóstico precoce, que são soluções a curto prazo, mas nas soluções a longo prazo. Sabendo do tempo de formação do tumor, nós achamos que o momento no qual teríamos mais impacto é a conscientização do jovem. O jovem sempre pensa que é invulnerável, que não tem alta incidência de câncer, de outras doenças, e tende a ser um pouco mais solto em relação a hábitos. No entanto, o que ele faz agora vai cobrar a conta daqui a algumas décadas. Nossa iniciativa visa a conscientizá-lo de que hábitos saudáveis agora podem evitar que ele enfrente esse problema daqui 20 anos.

Doutor, o que é o câncer?
O câncer, na realidade, não é uma doença. Há centenas de doenças que têm características similares, que agrupamos com nome de câncer. Hoje a gente sabe que mesmo câncer de um órgão específico são doenças diferentes. Por exemplo: você pode ter duas mulheres com câncer de mama e um tumor não ter nada a ver com o tumor da outra. O que leva a nós chamarmos de câncer são algumas características em comum. Primeira delas: o câncer é doença que advém de alteração no código genético de uma célula afetada. Isso é comum a todas elas. Aconteceu alguma alteração naquele código que rege as funções e o desenvolvimento da célula fez com que ela se tornasse anormal. Segundo ponto: ele tem a capacidade de invadir estruturas adjacentes e mais, ele consegue viajar e se instalar a longa distância. A junção dessas características é o que nos leva a chamar uma doença de câncer.

O que é apoptose?
É um mecanismo que o organismo tem de eliminar células defeituosas ou que já tenham cumprido sua missão. Seria, entre aspas, o suicídio da célula. Por exemplo: se você tem um indivíduo que pega bastante sol e uma dessas exposições a radiação solar causou uma alteração numa célula da pele, esta célula pode vir potencialmente a se transformar em um câncer. Dentro da própria célula ela tem mecanismos que fazem com que se ative a apoptose, e ela morre. Geralmente isso acontece quando há um defeito no código genético que não pode ser reparado. A célula vem e tenta reparar o problema. Não conseguiu, então, ela instruiu a célula para morrer para que não cause câncer. Muitas vezes o câncer acontece porque temos defeitos nesses mecanismos de gerar apoptose.

O que é angiogênese?
Angiogênese é um termo bastante antigo. Foi cunhado por um cientista britânico chamado John Hunter, no Século 18, estudando feridas cirúrgicas. É a formação de novos vasos sanguíneos. Porque é importante em termos de câncer: o câncer precisa de oxigênio , precisa de uma via para receber alimentação e eliminar os produtos nocivos que são gerados pelo metabolismo. Então, se a célula cancerosa não conseguir fabricar um novo vaso, ela não consegue crescer. Se você consegue bloquear a angiogênese dentro do tumor você faz com que o tumor pare de crescer ou até regrida.

Esse seria um ponto fraco da doença.
É um dos pontos que têm sido explorados nos tratamentos. É um dos pontos fracos do tumor.

O senhor tratou do ex-presidente José Alencar, da presidente Dilma e do ex-presidente Lula. Qual deles foi melhor paciente?
Todo paciente é especial.

O senhor votou em Lula?
O voto é secreto.

O caso de Lula é relacionado ao fumo, câncer de laringe. Qual é o prognóstico?
O câncer de laringe tem sido bastante estudado. E o tratamento tem evoluído bastante nos últimos anos. Diria nas últimas décadas. Hoje a chance de sucesso de um câncer de laringe é bastante alto, especialmente se ele é descoberto no momento em que ele está confinado na região onde se iniciou. No caso do nosso ex-presidente, justamente se identificou que a lesão estava localizada, ainda, não havia disseminação do tumor. Então, o prognóstico é bom. Mas eu diria, se você me permitir, que mesmo instituições que trabalham com o Sistema Único de Saúde (SUS) têm a possibilidade de oferecer quimio e radioterapia que levam a uma chance de sucesso bastante alta. Em diversas regiões do Brasil. É um dos tumores com taxas de sucesso bastante boa.

Ele fez duas sessões, vai fazer mais uma. Isso é o mais indicado para o caso dele, ou é procedimento para todo paciente desse tipo de caso?
Não. Nós temos hoje em dia um interesse muito grande em individualizar a terapia. Os tratamentos para os diversos tipos de tumores são padronizados de acordo com o tipo de tumor a sua apresentação e a condição do paciente. Se você imaginar, são três grandes áreas que você trata a intersecção dessas três áreas. Tumor, paciente e o seu tratamento. Esse tipo de tratamento oferecido ao nosso ex-presidente foi desenhado especificamente para a situação dele. Existem tratamentos em que há cirurgia imediata, outros em que há cirurgia, seguida de quimio e radioterapia, e outros ainda quimio e radioterapia inicialmente. Esse foi o escolhido para ele.

Uma das queixas do paciente com a doença, nesta fase do tratamento, é o desconforto. Como fazer para reduzir os danos da quimio?
Nós evoluímos muito em termos de controle de sintomas no tratamento nos últimos 20 anos. Quando eu comecei a tratar pacientes com câncer não era incomum que no dia do tratamento o paciente ficasse fechado num quarto tomando soro, com as luzes apagadas, ar condicionado ligado. O paciente vomitava, um desconforto excessivo. É claro que o tratamento oncológico continua sendo um tratamento difícil. Mas evoluímos muito. Hoje nós temos medicações que permitem que o paciente tenha qualidade de vida aceitável. Ainda haverá dias em que os efeitos colaterais afetarão as atividades normais do pacientes. Particularmente quando você está fazendo um tratamento em áreas mais delicadas do organismo. como por exemplo a laringe, uma área extremamente nobre do organismo, o que nós comemos, respiramos, bebemos passa por essa região do pescoço. Mas existem outras áreas que são igualmente delicadas e, de novo, os esforços têm sido não só em melhorar o tratamento, mas também em diminuir o desconforto do paciente. Nós vamos evoluir eventualmente para tratamentos muito mais específicos, que pouparão muito mais as células normais e atuarão muito mais sobre as células cancerosas. Isso já está acontecendo, mas nem sempre é possível.

Já há drogas específicas e disponíveis?
Temos a primeira geração dessas medicações. No entanto, elas não estão disponíveis para todos os tipos de câncer. O mesmo essas drogas ainda não são perfeitas. Um cientista alemão, do final do século 19, início do século 20, chamado Paul Ehrlich, cunhou um termo ‘bala mágica’, uma bala que quando fosse disparada e só acertaria o bandido, poupando as outras pessoas ao redor. A ideia dele é que se pudesse desenvolver um tratamento que matasse só a célula cancerosa sem atingir as demais. Ainda não chegamos na ‘bala mágica’ de Paul Ehrlich, mas já andamos nesta direção. Eu tenho muita convicção de que vamos chegar nesse ponto porque o tratamento mais moderno já está muito mais próximo disse do que era. Novamente: infelizmente ainda não é perfeito e nem está disponível para todos os tipos de tumores. Novas gerações desses remédios terão de ser desenvolvidas para se atingir esse objetivo.

Com o que se tem hoje, o câncer tem cura?
Hoje nós conseguimos curar mais de 60% dos pacientes com câncer.

Quando o senhor fala de cura é eliminar completamente? A pessoa vai morrer idosa ou de uma outra doença?
Exatamente. Alguns tumores têm mais chance de sucesso. Por exemplo: dos que temos grande chances, pacientes com tumor de testículos, que é tumor importante porque atinge homens jovens. Nós temos a chance acima de 90% de curar. Mesmo quando ela está mais avançada. Maior exemplo é o ciclista americano Lance Armostrong, que teve um câncer de testículo com metástase no cérebro, foi tratado e ficou não só curado como ganhou o Tour de France várias vezes depois do tratamento. Um sucesso. Outros têm taxa menor em termos de cura. Mas mesmo assim temos evoluído. Há um sarcoma, incomum, chamado Gist, tumor do sistema gastro intestinal. Esses tumores tinham expectativa de vida, quando já avançados, de menos de um ano. Hoje, quando não é curável, a expectativa de vida é de mais de cinco anos. E vem aumentando ano a ano. Graças a essas moléculas específicas que a gente chama de terapia Alfa. Temos tido avanços, não na velocidade que gostaríamos, mas hoje em muitas apresentações é curável.

Um médico salva muita gente, mas também convive com as perdas. Como é perder um paciente?
É uma experiência muito difícil. Ninguém aceita isso. O médico aprende a conviver com a perda, porque se não ele teria de abandonar a profissão, especialmente um oncologista, porque o número de pacientes que acaba falecendo da doença é muito grande. É um momento de dor para todos os envolvidos. O tratamento oncológico é intenso. Nós trabalhos com o paciente lutando juntos, com frequência grande, períodos longos. Você vê o paciente muito. Se formam vínculos de amizade. Por outro lado, procura-se ver o sucesso, aqueles que se curam. E mesmo aqueles que não conseguem sobreviver nós procuramos ver se conseguimos fazer com que esse paciente vivesse mais tempo, tivesse oportunidade de ver a formatura de um filho, assistir a um casamento, coisas importantes para ele. E se a qualidade de vida foi mantida da melhor forma possível até o fim.

Os médicos fazem estatísticas desse sucesso? O senhor mede?
individualmente, não. Não tenho esse hábito. Como instituição, acho muito válido e necessário que façam suas estatísticas de sucesso. Para ter certeza de que está fazendo o melhor.

O senhor fez medicina nos EUA. O que diria a um jovem que pretende cursar medicina no Brasil?
Eu sempre tive muito orgulho da minha formação no Brasil. Os médicos brasileiros com os quais convivi nos Estados Unidos sempre foram muito respeitados nos grupos. Eu diria a um aluno que depende muito de seu esforço. Acho que no Brasil há todas as condições de formarmos médicos excelentes, mas é necessário esforço pessoal. No passado, quando eu fui aos Estados Unidos, havia uma discrepância muito grande entre a infraestrutura disponível aqui e a de lá. A primeira vez que cheguei na Universidade de Miami coloquei o jaleco e comecei a caminhar na direção do hospital, foi um choque. Era muito diferente do que eu estava acostumado a ver. Hoje não é tão diferente. Visitei recentemente a Universidade de Miami, visitei as clínicas, e não há mais diferença. Em muitos aspectos o Icesp tem uma estrutura mais acolhedora. Mas há que ter cuidado. O Brasil teve um aumento muito grande no número de escolas médicas. Nem todas estão preparadas para formar um médico que nós precisamos. É importante que haja um controle da qualidade dos médicos que estão se formando.

É possível fazer boa medicina com a pressão de custos do sistema hospitalar?
A pressão é nos médicos e hospitais mundiais. Nos Estados Unidos, o presidente Obama passou lei de atenção à saúde que está sendo questionada. É possível que ela seja desfeita. A pressão de custos é universal. Se podemos fazer boa ciência? Podemos. Boa medicina? Podemos. Mas vamos ter de aprender a racionalizar os recursos. Há, às vezes, a impressão de que é possível se fazer tudo para todos sendo estabelecido, experimental etc. Infelizmente a realidade não é essa. Há limitações. Deveríamos ter mais verbas? Gostaria que tivéssemos. Mas também ficar só mencionando isso é complicado. Acho que sim, temos que lutar por mais verbas, mas temos que racionalizar o uso do que temos também.

O senhor dirige o Sírio Libanês, privado, e o Icesp, público. Qual é a maior dificuldade na questão da gestão?
São mundos bastante distintos, mas que estão se aproximando. Acho que o sistema público, pelo menos as instituição de mais qualidades, estão se aproximando mais do sistema privado. mas sempre haverá diferenças, como entre dois hospitais privados. Aqui, no Icesp, público, temos a dificuldade de financiamento da saúde maior do que o que você tem numa instituição privada. O salário dos médicos não são exatamente o que nós gostaríamos que fosse. É natural a dicotomia. Uma pergunta importante, que ainda não foi feita, é qual seria o grande problema do atendimento oncológico hoje no Brasil? Nós discutimos muito o acesso a novas drogas, a novos equipamentos. É importante. Mas o grande problema é o acesso aos serviços. Você precisa fazer com que o paciente que tem suspeita de câncer tenha seu tratamento iniciado mais rápido. Como fazer? De duas maneiras: aplicando na infraestrutura e racionalizando o uso do que você já tem. Por que há filas e o paciente reclama? É importante esclarecer à população que não é um porque os médicos do hospital x,y,z não estão atendendo, ou o hospital está de má vontade. É que a demanda é maior do que o que os hospitais têm. Se tenta fazer o melhor. O que precisamos é de um sistema que redistribua melhor essa demanda.

Doutor, o senhor aceitaria ser ministro da Saúde?
Eu? Nunca fui convidado.

É possível fazer boa formação sem o apoio das corporações e indústria que financiam pesquisa?
No Brasil, nós tínhamos uma falta de arcabouço jurídico da pesquisa clínica que estava sendo realizada. Na gestão do ministro Adib Jatene, da Saúde, se criou um sistema nacional de controle ético de pesquisa e se regulamentou como seriam as relações entre pacientes, médicos, prestadores e patrocinadores. A espinha dorsal é a Resolução 196 da Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisas). Temos que reconhecer que a Resolução 196/96 foi um grande avanço. Regulamentou o que era feito sem controle adequado. E estabeleceu marcos importantes em defesa dos pacientes. No entanto, a Resolução 196 e as que se seguiram a ela criaram uma situação em que a pesquisa clínica no Brasil ficou extremamente restritiva e extremamente cara. Se você seguir ao pé da letra, fica quase impossível fazer pesquisa que não seja patrocinada por indústria farmacêutica. Os tratamentos padronizados tem de ser cobertos por alguém que não seja o SUS, seguros ou pacientes. Quem é que tem dinheiro para pagar? A grande indústria. Hoje, a agenda da pesquisa ficou altamente dependente da indústria farmacêutica.

Mas isso não gera uma questão ética para o médico?
Depende de como ele se relaciona. Gera é uma questão maior. Uma questão de desenvolvimento de conhecimento para o país. É do nosso interesse que a pesquisa médica do país seja dominada só pela indústria farmacêutica? Eu não sou contra a indústria. Sou totalmente a favor do relacionamento com a indústria dentro de normas éticas. Mas acho que deve existir outras formas de pesquisa. Mesmo porque existem pesquisas clínicas relativamente simples que não são do interesse da indústria. Um exemplo: se eu imaginar um tratamento com a droga Y e a dose é de 100 ml de aplicação e eu, estudando, imagino que 50 ml seja suficiente, para fazer um estudo tenho de achar alguém que pague os 100 ml do braço de controle e os 50 ml do experimental. Embora os 100 ml seja padronizado e se eu for tratar o paciente, o que farei, será coberto. Pela lei atual tenho que achar alguém que pague os dois braços. Será que a indústria vai ter interesse em patrocinar um estudo que vai levar à venda da metade do que ela vende atualmente? Difícil.

Qual a solução?
É você pensar melhor a questão. Drogas novas têm de ter seu desenvolvimento patrocinado totalmente pela indústria, sem dúvida. Mas acho que te de haver flexibilidade para instituições acadêmica, quando estiverem avaliando protocolos padronizados possam fazer a cobrança na fonte usual. Não é aumento de despesa. Fico feliz que a Resolução 196 tenha sido colocada em discussão agora. Estão recebendo no Ministério comentários da comunidade científica para tentar aperfeiçoar a resolução. Queremos manter a ética da pesquisa. É importante que o que for experimental seja coberto por quem eventualmente vá lucrar, mas temos que ter cuidado para não jogar o nenê junto com a água do banho. Temos que separar o que tem de ser patrocinado pela indústria e o que tem de ser acadêmico, que vai beneficiar o SUS, inclusive. Outro ponto é que o Brasil só perde em tempo de aprovação de pesquisa para a China. Hoje nosso tempo médio é muito longo, que faz com que sejamos excluídos de estudos importantes. Não queremos diminuir a avaliação ética dos projetos. Mas precisa ser mais célere. Hoje temos duas instâncias: a maior parte dos países tem uma instância de aprovação e uma de supervisão.

por Pablo Pereira.

CINEASTA OLIVER STONE: “Não há democracia nos EUA, mesmo com Obama”

DA FRANCE PRESSE, EM ARGEL

 

O cineasta americano Oliver Stone, 65, declarou neste sábado, em Argel, Argélia, que os Estados Unidos não vivem na democracia, mesmo sob a presidência de Barack Obama, eleito em 2008, e criticou Wall Street, a atitude bélica americana e a indiferença de seus compatriotas com relação ao resto do mundo.

Em entrevista coletiva em francês, intercalada por algumas expressões em inglês, Stone, cuja mãe é francesa, disse que os “indignados” americanos que protestam contra Wall Street deveriam deslocar seu movimento de protesto contra o sistema financeiro “a Washington e não a Nova York, para ter maior impacto”.

Segundo o diretor de filmes como “Wall Street, poder e cobiça” (1987) e “Wall Street: o dinheiro nunca dorme” (2010), é assim que as pressões sobre os políticos para sanear o sistema financeiro serão “eficazes”.

Francisco Guasco – 12.nov.2011/Efe
Oliver Stone criticou os americanos em entrevista
Oliver Stone criticou os americanos em entrevista

O cineasta, cujo pai é um ex-operador financeiro de Wall Street, foi convidado ao festival de cinema autoral de Argel, que começa no próximo dia 29. Ele se disse “consternado de ver como o dinheiro é venerado pelos americanos” e com os efeitos da crise econômica.

“A classe média (americana) é a primeira vítima, mas nada consegue mexer com o sistema” americano, ao qual qualificou de “não-democrático, mesmo depois da chegada de Obama” ao poder.

O cineasta denunciou “30 anos de mentiras” contadas nos Estados Unidos, e mencionou a guerra do Vietnã, que o inspirou a dirigir “Platoon” (1986). Segundo ele, os americanos viveram com a ideia de que “o comunismo vai dominar o mundo”, enquanto ele caiu em 1989.

Interrogado sobre o apoio americano a Israel, Stone afirmou que “não se pode falar disso nos Estados Unidos. Há um poder tal, o dinheiro, a imprensa e o lobby são tais que os fatos, a verdade, não aparece”, disse.

Stone julgou seus compatriotas com severidade.

“Os americanos não estão tão interessados nos problemas do exterior”, disse. “Não têm empatia por eles”, acrescentou.

José Sarney parte para o ataque – entrevista ao congresso em foco / brasilia.df.br

Para o presidente do Senado, oposição não tem proposta nem discurso, partidos viraram “cartórios que registram candidatos” e Congresso perdeu a legitimidade

Sarney brinca com as críticas seguidas que recebe: “Virou moda bater no Sarney” – Paulo Negreiros

Aos 81 anos, o ex-presidente da República e atual presidente do Senado e do Congresso Nacional, José Sarney (PMDB-AP), não é homem de passar recibo. Destratado por um coro de 100 mil vozes no Rock in Rio, saiu-se com esta: “A contestação está no DNA do rock”.

Sarney sobreviveu a tudo. À crise dos atos secretos, a denúncias de problemas administrativos no Senado e à repercussão causada pelo envolvimento do seu filho Fernando em uma investigação da Polícia Federal. Alheio à pressão popular, o Senado, que na legislatura anterior havia arquivado as denúncias feitas contra ele, no início deste ano o reconduziu à presidência.

Nada mais parece abalar Sarney. Ele diz estar acostumado a apanhar. “É bom bater no Sarney”, ironiza. Fala em aguardar o julgamento da história. Mas o homem que cultiva a fama de conciliador também sabe atirar.

Ao receber em seu gabinete a Revista Congresso em Foco, para a qual esta entrevista foi feita originalmente, disparou contra a oposição, os partidos políticos e o próprio Legislativo. Leia aqui a íntegra da entrevista.

Congresso em Foco – Nesses seus quase 60 anos de vida política, qual foi o setor, na sua opinião, em que o Brasil mais avançou e qual aquele em que ainda há maiores dificuldades a serem superadas?
José Sarney –
 Se fizermos uma análise na história do Brasil, chegaremos à conclusão de que o Brasil é um país que sempre deu certo. Saímos da independência sem nenhuma luta, ao contrário do que ocorreu na América Espanhola. A república – um golpe militar a que o povo assistiu bestificado, como disse Aristides Lobo – também se instaura sob o poder civil. Ruy Barbosa, o grande civilista, estabelece a nova Constituição, moldada na americana. Os próprios militares estavam submetidos e querendo instaurar um regime democrático e de liberdades públicas. Por isso o Brasil deu certo. Dentro do Congresso se fez o país. Não foi em batalhas. Saímos dos barões do café, entramos nos bacharéis. A partir de então, tivemos quase todas as classes representadas no poder. Chegamos ao fim do primeiro século da República tendo um operário no poder e depois uma mulher na presidência, uma mudança de gênero, o que é extraordinário. Hoje somos a quinta economia do mundo. Como tivemos tempos dourados dos Estados Unidos, da Europa e dos tigres asiáticos, hoje a África e a América do Sul estão despertando. Não temos motivos para pessimismo. Estamos no caminho de crescimento constante. Até censuramos nosso excesso de leis. Estive na França uns cinco anos atrás, criticava-se o fato de terem votado durante a Assembleia Nacional 23 leis. No Brasil temos mais de 350 mil leis.

Essa espécie de fúria legiferante é o maior defeito do Congresso?
Criou-se a mentalidade de que tudo se resolve com uma lei. Ela vem para assegurar direitos e quase que costumes. Mas há um fato mais importante. Como a Constituição de 1988, colocaram funções do Congresso no Executivo, e do Executivo no Congresso. O Executivo passou a ser o maior legislador do Brasil. Essa deformação vem da Constituição de 1988.

O senhor mantém a opinião de que o Brasil é um país ingovernável?
Logo que assumi a Presidência da República, poucos meses depois, convoquei a Constituinte. Minha visão era de abrir imediatamente todos os espaços para que as forças vindas da clandestinidade tivessem espaço para exercer, dentro da democracia, seu desejo de participação. Precisávamos atualizar o Brasil em matéria de direitos sociais porque nossas constituições tinham sempre predominância da visão econômica. O Brasil precisava se modernizar também em relação a direitos sociais e civis, porque vínhamos de um regime autoritário. Esses dois capítulos são excepcionais, tanto que devemos a eles o mais longo período de tranquilidade institucional. Como a Constituição é híbrida, ela transformou o país em ingovernável. Tem se mantido a governabilidade à custa do sentimento de unidade e conciliação que o Brasil sempre teve.

Ingovernável por quê?
O Congresso está, de certo modo, com suas funções deformadas pelas medidas provisórias. A iniciativa legislativa passou a ser do Executivo, que comanda o processo legislativo. O Congresso perdeu o poder de criatividade, em que se aprofunda a democracia. Quem toma conta da pauta do Legislativo é o Executivo. Por outro lado, o Legislativo chega e assimila ações que eram do Executivo. Culpo muito esse sistema ao fato de o Congresso ter se desviado de suas funções e, ao mesmo tempo, perdido força, substância e prestígio perante o poder público. Votamos coisas que não deveríamos votar. Organização e criação de cargos, remanejamento de créditos, coisas da administração diária que passam a ser obrigatoriamente vindas do Executivo. Até a fixação do salário mínimo. Durante toda a vida, o presidente fazia um decreto com o novo salário mínimo. Agora temos de fazer uma lei todo ano. Passamos um mês ou dois aqui no Congresso discutindo o assunto.

Por isso o Congresso tem uma imagem tão desgastada?
Isso é um fenômeno mundial. É a crise da democracia representativa. Ela está no mundo inteiro. No Brasil, o Congresso tem 38% de aprovação. O Congresso do Chile está com 23% de aprovação e o dos Estados Unidos, com 27%. Isso é um fenômeno que enfrenta a democracia representativa. Ela foi instituída para que os eleitos representassem o povo, num prazo certo, em eleições periódicas. Mas as novas tecnologias fizeram com que a vontade do povo se expressasse em tempo real. A substituição que houve é saber quem representa o povo. É um Congresso eleito de quatro em quatro anos e que envelhece rapidamente diante da velocidade dos fatos ou aqueles que falam diariamente em nome da opinião pública? Esse é o grande choque da crise da democracia representativa. É um outro mundo, que não corresponde àquele em que se criou a democracia representativa, ainda no tempo da carta do rei João na Inglaterra. Outro dia até fui mal interpretado. Analisando isso, eu disse que, quando os Congressos foram feitos, deram aos parlamentares ainda na Inglaterra prerrogativas para que eles não fossem objeto de dependência do rei. Para isso, havia algumas garantias chamadas de prerrogativas. Quando a gente analisa isso, interpretam como se estivéssemos falando das vantagens que os parlamentares têm. Falo isso do ponto de vista teórico, de quem estudou a história da construção da democracia representativa.

 

“Estamos marchando para a democracia direta”, acredita Sarney, ao associar a velocidade das redes sociais à crise do Legislativo – Paulo Negreiros

Como superar essa crise?
Estamos marchando para um tipo de democracia direta. Hoje, 30 dias depois da eleição, o eleitor já não sabe por que votou em determinada pessoa, nem o eleito sabe por que foi votado. Desapareceram os programas e as ideologias. Ficou uma atividade pragmática do dia da eleição. O Congresso foi ficando um poder – que hoje já se pensa que ele é anacrônico – que não representa nada. Mas é muito melhor você viver com um Congresso dessa natureza do que viver sem nenhum Congresso.

Muitos brasileiros canalizam contra o Congresso o incômodo causado hoje no Brasil por temas como corrupção e falta de serviços públicos de qualidade. É visão errada dessas pessoas ou há falhas graves no Congresso e nos políticos?
É muito compreensível que as pessoas tenham visão crítica e insatisfação, embora as pesquisas apontem grau de satisfação do povo brasileiro bastante alto em relação ao país. Acreditava-se, até a queda do mundo de Berlim, que através da utopia você podia mudar o mundo. E isso criou sociedades muito questionadoras no mundo inteiro. Não é um fenômeno brasileiro, até aqui é menor, por exemplo, se compararmos com o movimento dos indignados na Europa e nos Estados Unidos. Eles têm uma insatisfação pessoal muito grande e isso também se reflete sobre o Congresso. Por quê? Por que o Congresso é o coração da democracia. É onde o povo tem a oportunidade de falar, protestar e opinar. O que moveu a política do mundo inteiro foi a utopia. E, de repente, percebemos que a ciência e a tecnologia foram capazes de fazer muito mais que do que fizemos todos nós com as ideias políticas ao longo do século. Por exemplo, o Alexander Fleming, que descobriu a penicilina, fez de bom para o povo e para o mundo muito mais que qualquer ideologia política. Agora, a vontade do homem de cometer desvios vem desde o princípio do mundo. A corrupção está no âmago das ideias políticas do mundo ocidental, até como desqualificadora dos adversários. Acredito que o Brasil hoje seja menos corrupto do que foi no passado. E é mais corrupto do que será no futuro, porque no futuro ele será bem melhor.

Por que o PT se tornou tão forte no Brasil? Até que ponto vai essa força?
O Lula desencadeou um processo da ascensão dos operários ao poder. A partir daí ele representa uma ideia-força que é extraordinária, porque ele levou a classe operária ao poder. Com ele, a sociedade brasileira passou a ser menos injusta. A liderança de Lula não é horizontal como as outras, que com um vento caem. Sua liderança é vertical, não é qualquer ventania que pode destruí-la.

O senhor quer dizer que a força não é do PT, mas do Lula?
A história sempre se conduz de um homem, de um grande líder, algumas ideias básicas. E o Lula é justamente a síntese dessas ideias, que ele representa pessoalmente. Ele passou de um homem a símbolo desse processo.

E há algo que as oposições pudessem ter feito na história recente do país, ou que possam fazer hoje pra contrapor a essa enorme força?
Em princípio, acho que a oposição perdeu ideias. Ela não tem propostas. Qual é a proposta da oposição pra isso? Ela adotou o discurso “nós somos responsáveis por tudo isso”. Ora, isso não cabe na cabeça de ninguém, porque a legitimidade do Lula é de ser operário. Como é que uma área nascida da elite paulista pode dizer que ela é que representa essas idéias? É uma coisa que não pega. A mudança de gênero, com Dilma, também é um avanço. Dilma é uma continuidade sem continuísmo, embora ela também represente essas ideias.

Esse discurso da oposição de que o PT se apropriou de seu programa não pega por que a ideia é falsa, ou não pega por que a população não acredita?
Isso é falso, não existe. O Lula é resultado de um processo histórico, que vem da República até aqui. Não há a mesma coisa em relação à oposição. A oposição existe e deve existir, porque a pior coisa seria uma sociedade unânime. Nós temos uma oposição com nomes brilhantes, ativos, mas falta proposta, uma ideia-chave que seja a motriz desse processo.

A oposição tem condições de reverter esse processo até as próximas eleições presidenciais daqui a três anos?
Acho que não. Num horizonte médio, enquanto não se esgotar esse processo de participação do social como principal na nossa forma de governo, o Lula, com esse conjunto de forças que se agregaram a ele, ainda tem tempo. Não vejo um horizonte de perda de substância disso. Essa aliança em torno de Lula vai ter futuro ainda durante muito tempo. Ela pode ter defecções, mas a linha básica será mantida.

Não há espaço nem mesmo para outros partidos hoje aliados ao PT?
Todo partido tem forças de direita, de centro e de esquerda. Lula é um grande político, não só representou uma ideia. Se fosse só uma ideia, ele seria combatido. Como grande político, reuniu toda a sociedade, um segmento que estava em torno também desse mesmo processo.

 

O senhor acha que o PSD pode virar um novo PMDB, ou seja, um partido com muitas lideranças regionais fortes, mas sem uma uniformidade ideológica, programática?
Enquanto tivermos o voto proporcional uninominal, não teremos partidos políticos. No caso do Brasil, não existe partido, porque o inimigo está dentro da legenda. O candidato tem de vencer não é o adversário, mas o seu companheiro de partido para se eleger. Não tendo partidos, as pessoas passaram a ficar desconfortáveis nessas agremiações, que não são partidos. São cartórios que reúnem políticos e registram candidatos nas vésperas das eleições. Muita gente estava insatisfeita e agora apareceu uma janela e todo mundo pulou fora.

O senhor acredita que a reforma política sairá?
A reforma política é muito difícil. Luto por ela há mais de 40 anos. Apresentei, em 1971, o primeiro projeto instituindo o voto distrital. Mas a verdade é que o Congresso, por viver tantos anos sob determinadas regras, tem receio de mudá-las. Os parlamentares receiam perder as eleições.

O senhor diria que a solução pra esse problema da falta de identidade dos partidos seria o voto distrital, seria lista fechada?
Não podemos inventar a roda. O sistema político no mundo inteiro é feito à base do voto distrital, puro ou misto. Só existe no Brasil o voto proporcional ou uninominal. Na Finlândia também existe, mas é uma coisa diferente, porque é um voto proporcional dentro do próprio partido. Não podemos inventar que vamos ser o único país do mundo a descobrir um sistema de governo baseado no voto proporcional. Temos de fazer o voto distrital, o distrital misto.

O senhor concorda com o financiamento público?
É um grande avanço, embora eu não acredite que o financiamento público evite a participação do poder econômico, que sempre vai influir em todas as eleições em todos os lugares do mundo. Essa bagunça que existe aí, da empresa privada contribuir para as eleições, não é uma forma que tenha dado certo, porque obriga os políticos a serem pedintes, que vão com uma sacola na mão. São 500 mil candidatos atrás de recurso para fazer eleição.

Qual o legado que o senhor acredita que deixará nas suas gestões à frente do Senado?
Minha participação dentro do Senado sempre foi procurando buscar a modernidade. Levantei a ideia da informatização em 1972. Forcei naquela época para que fosse criada uma comissão da qual saiu o Prodasen. Depois, quando fui presidente da Casa, a minha primeira providência foi justamente a de dar transparência para ajudar o povo brasileiro a acompanhar mais. Montei todo um sistema de informatização do Congresso, com televisão, rádio e agências de notícias. Fiz naquela vez a primeira reforma administrativa. Na segunda também procurei fazer a reforma administrativa. Acho que o Senado é muito mais enxuto, melhorou bastante. Agora estamos trabalhando numa outra etapa de futuro, que é justamente de gestão de programas estratégicos. Não devemos esquecer que, pela própria singularidade da máquina administrativa do Congresso, temos 81 repartições periféricas da administração central, que são os gabinetes dos senadores. Eles têm independência para nomear, admitir e administrar.

Na área legislativa, o que o senhor acha que deixa de mais importante?
Primeiro, a reformulação dos nossos códigos, que também é uma ideia de modernidade. Nós estabelecemos comissões com juristas. Já saímos com o Código Civil e  o Código de Processo Penal. Estamos trabalhando no Código de Defesa do Consumidor, que está terminando agora. Vamos partir para a Lei das Execuções Penais, que é uma coisa que o Brasil está devendo. Nosso sistema penitenciário é uma coisa trágica. Minha ideia é constituir uma comissão de grandes experts para analisar a federação. Hoje a federação é uma ficção e uma palavra dentro da Constituição, mas na realidade ela não está estruturada em termos modernos.

Há temas que estão sendo debatidos há muito tempo, mas sempre com dificuldade para se chegar a um desfecho. O senhor acredita que se avance, por exemplo, na reforma tributária este ano?
A reforma tributária é uma necessidade, porque realmente temos um verdadeiro pandemônio na legislação fiscal, com a superposição de atribuições. E, para fazer uma reforma fiscal, temos de mexer com grandes interesses. É uma reforma de difícil formulação.

O senhor não acredita que se consiga avançar nessa área? 
Acredito que se possa avançar pouco a pouco em partes tópicas. Por exemplo, estamos com uma lei que mexe no ICMS sendo votada. Também estamos discutindo certa redistribuição de renda entre os estados, aproveitando o problema dos royalties do petróleo. São alguns avanços.

Muitos críticos do senhor fazem referência ao fato de seu grupo político exercer um longo domínio no estado do Maranhão, e aquele estado não ter se desenvolvido nesse período tanto quanto outros. Como o senhor enfrenta essa crítica?
De certo modo, essa crítica é nova.  Passou a existir depois que perdemos a eleição no Maranhão. Uma maneira de desqualificar a minha participação na vida pública nacional era desqualificar o estado. Então venderam ao Brasil essa ideia de que o Maranhão é um estado miserável, quando na realidade o IBGE tem 3 mil índices. Nós temos alguns índices que são péssimos, também os outros estados têm índices péssimos. Mas quero dizer que o Maranhão é o 16º estado do Brasil em PIB [Produto Interno Bruto], está na frente do Mato Grosso. Fala-se que o IDH [Índice de Desenvolvimento Humano] do Maranhão é baixo. É realmente baixo, muito baixo. Agora, o Brasil é a 7º economia do mundo. E qual a posição dele no IDH? Está na 81ª posição. Nem por isso se vai dizer que o Brasil é um país miserável. O Maranhão, pelo contrário, é um estado que hoje tem as maiores possibilidades naquela região. A infraestrutura que nós criamos no Maranhão é a melhor dos estados do Nordeste. Tiramos ele do século XIX. Esse foi um processo político que foi assimilado pela grande mídia porque é bom bater no Sarney, dá visibilidade isso, pela minha longa vida política, em que sempre atuei como um conciliador nos momentos mais difíceis da história do Brasil. Fui um homem que procurou ajudar o país na transição democrática, o colar social dentro da Constituição foi feito por mim. Sempre procurei influenciar essa visão social e solucionar crises. Minhas escolhas aqui dentro da Casa também têm sido neste sentido, do homem  tranquilo, do homem prudente, do homem paciente.

Que imagem o senhor acredita que o brasileiro, de maneira geral, tem do senhor?
Não sou a pessoa certa pra julgar. A história é que vai me julgar. No contingente, cada um de nós sofre os problemas diários. Como não se pode falar mal do Lula, porque o Lula já não está presente, não se pode falar mal da Dilma, porque é a nossa presidente, restou Sarney para ser o ponto de crítica nacional.

Teve algum momento em que o senhor ficou particularmente indignado ou particularmente atingido por críticas ao longo desses quase 60 anos de vida pública?
Na Presidência da República, sofri um combate muito grande. No meu discurso de saída, fiz uma avaliação em que digo que o tempo corrige até as críticas mais violentas feitas. Todos os excessos são corrigidos. Quando leio a história do Brasil, vejo a proporção que ela vai construindo e a possibilidade que a pessoa tem dentro da sua vida política. Também me vejo assim. Um dia o Chico Caruso me perguntou como eu via as charges dele. Respondi: como se eu fosse uma terceira pessoa.

O senhor acredita que sua imagem como homem público será revista no futuro?
Não tenho dúvida de que serei julgado pelo que fiz e não pelo que não fiz. Eu gosto de um verso do Miguel Torga, sobre o Afonso de Albuquerque, que foi vice-rei das Índias. “Do que fiz e do que não fiz, não cuido agora; as Índias todas falarão por mim.”

 

POR SYLVIO COSTA E EDSON SARDINHA

O poeta e webeditor J B VIDAL é entrevistado pelo poeta JAIRO PEREIRA na Ilha de Santa Catarina.

ENTREVISTA PARA A REVISTA  ‘CLIC MAGAZINE':

o poeta declama seus poemas na PRIMEIRA SEMANA DA POESIA PARANAENSE. CURITIBA. foto do jorn. Gustavo H. Vidal.

1. J B Vidal, a quantas anda a sua poesia, uma vez que você se dedica muito ao Site Palavras, Todas Palavras?

- Me considero um poeta que não tem compromisso com a produção em termos quantitativos, portanto, não tenho que estar criando poemas para atender as vontades do editor – que não tenho. Não sou poeta de escrever por “encomenda” ou de escrever por escrever, fazer da poesia uma maratona – quem escreve menos é mulher do padre – deste tipo de “poeta”, tu sabes bem, estão cheios o país e o mundo. Respondendo, então, a tua pergunta – que coisa horrível – a minha produção poética está onde deve estar, na placa mãe, na quantidade diretamente ligada às minhas emoções, sentimentos, racionalismos e devaneios que realmente vivi nem que tenha sido por segundos de medo e continuo a  escrever quando dessas ocorrências. O  site, você é um dos responsáveis pela criação, tornou-se um espaço onde me exteriorizo através das publicações selecionadas – sem censura- considerando conteúdo e o que pode atingir o público para retirá-lo do seu abestalhamento. Eu converso com os leitores através deles. Continuo publicando os “sem mídia”, “sem editores” e, raramente, publico, alguns dos mortos meus preferidos.

2. O Site Palavras, Todas Palavras, é um dos mais visitados do país, e publica não só poemas, contos, literatura em geral, mas também ensaios, artigos, vídeos… como foi chegar a tanto?

- Está com pouco mais de três anos e senti que precisava “abrir”- era só poesia, contos e crônicas, um que outro artigo – ampliar o leque de abrangência em termos literários e do cultural quotidiano. Os leitores começaram a exigir, e foram excelentes nas exigências. Cedi. Hoje a média é de 2.000 acessos/dia. Sem mulher pelada, sem piada sem graça, sem vender nada. Não busquei isso – acessos – veio naturalmente, através do nível cultural do nosso povo, e comprova que as pessoas querem ler e buscam ler, querem saber. Na maioria das vezes é um vôo cego, claro. Só é lamentável que eu não consiga alcançar as
suas expectativas. Dá muito trabalho realmente, mas, como disse, me comunico através da produção dos demais autores, e os comentários (mais de 5.000 até agora) são uma prova disso. Acredito que seja uma modesta contribuição a arte e a cultura brasileira – através desse mundo novo das comunicações – que, diga-se, andam numa pobreza criativa como há muito não se via. Eu visito em torno de 150 a 200 sites/blogs por semana, menos de dez por cento pode-se aproveitar alguma coisa, o resto é lixo! E pior, o lixo é que faz sucesso, ganha adeptos e multiplicadores. Deve ser sinais dos tempos rsrsrsrsrsrs a humanidade genérica sempre frequentou os lixões das prateleiras, e agora, os “aterros sanitários” da virtualidade. A intelectualidade brasileira evaporou-se com a ditadura e não conseguiu recompor-se porque é de uma mediocridade a qualquer prova, oriunda das universidades que proliferaram vendendo diplomas e contratando esses diplomados, assim segue. Hoje o grande tema em discussão é descobrir qual o melhor meio de transportar dinheiro para liberar meias e cuecas. A nossa intelectualidade não sabe dizer, ao presidente do momento, “quando” é necessário defender-se a paz ou os direitos humanos. Ela ainda não se convenceu de que é sempre. Para ela paz e direitos humanos são relativos. Ora, por favor! Como alguém, não lembro quem, já disse: “…são um bando de hienas pós-graduadas em esnobismo.” E, por força da atividade, temos de enfrentar esse lixo que roda no mundo virtual dos emails, sites, blogs e filmecos. Na literatura, então, o que dizer? O que é isso que estão publicando e premiando? Aonde querem levar o público leitor? Aonde querem levar a nossa literatura?  Há dois ou tres anos iniciei a leitura de um livro de autor brasileiro, premiadíssimo, havia ganhado todos os grandes prêmios do ano, não consegui passar das primeiras páginas, ilivel. Sucesso fabricado pelo grande “mercado editorial”. É a máfia do livro impresso. Mesmo  com toda a badalação dos críticos de aluguel, o publico não respondeu favoravelmente. Às vezes o povo reage, timidamente. Veja a ABL em que se transformou? Não opina mais sobre os grandes temas nacionais, como antes. Quando a ABL se posicionava o país parava para ouvi-la. Hoje não serve para nada. Desmoralizada e ridícula.

Se transformarem-na em um bloco carnavalesco para a terceira idade será um final feliz.

3. Os livros inéditos de poesia, do poeta J B Vidal serão publicados em livro, impressos?

-Tenho material para seis livros, bem, dependendo do número de páginas de cada volume, são em torno de 860 poemas publicáveis, sem contar outro tanto renegados a segundo plano. Os filhos que decidam rsrsrsrs, sempre disse que do ponto de vista da poesia eu nasci póstumo rsrsrsrsrs talvez publique OFERTÓRIO em vida. Uma pequena traição a eles rsrsrsrs.

4. Em Ofertório, série de poemas de livro inédito, você se joga de corpo e alma aos ímpios? Isso é provocação?

Na verdade, OFERTÓRIO é um tipo de confissão, aberta, pública. E toda confissão é provocadora em algum grau, principalmente as publicadas. Rigorosamente, eu não tenho mais aptidão para as provocações que fazia alguns anos atrás. Cansei pela falta total de resultados. Está  cheio de gente se auto proclamando poeta e escrevendo só droga, porcaria, lixo. Como não teem o talento, tentam copiar o Bukowski, o Beaudelaire, com uma desfaçatez incrível e, lógico, sem nenhuma qualidade. Só me obrigo a ler esse lixo justamente para não publicá-lo, distraidamente. –  Escrevê-lo – o OFERTÓRIO – não foi fácil. As condições subjetivas existiam – sentimentos e outras cositas – a questão é escrever a verdade sobre si próprio, é muito difícil. A vontade de omitir ou mentir é enorme. É preciso um grande esforço para que isso não ocorra. Mesmo que em determinado aspecto você não tenha nenhuma culpa, admitir isto torna-se ingênuo, babaca, aí você se tranca, não aborda, omite ou mente.  Mas enfim, consegui escrevê-lo são 12 poemas orientados pelos sentidos e alguns sentimentos. Durou quatro anos esse processo. Há muito não se lê autores com esse realismo (isto, é cabotinismo, antes que alguém pense), acham antigos, ultrapassados, mofentos,  rsrsrsrs… não sabem de nada. Para mim, foi muito bom ter escrito OFERTÓRIO, melhorei, cresci, para a poesia não sei e também não estou interessado; a poesia existirá com ou sem os meus poemas ou os desses bandos de imbecis que saem espalhando lama pela cidade chamando de poesia. Não há poesia no mal nem no inferno.

o poeta JAIRO PEREIRA  entrevista o poeta J B VIDAL em sua residência.

5. São muitos os Vidais, o poeta, o contista, o agitador cultural, num dos sites mais badalados do Brasil. É a execução de um projeto cultural, existencial… que está dando certo?

O poeta, o contista, o agitador cultural, o marido, o pai, o avô, o político, o trabalhador, enfim, entendo que tudo o que fazemos com esforço, com dedicação e vontade faz parte do topo do nosso processo existencial. Se está dando certo, não sei, acredito que sim pois já tem muita gente me odiando! rsrsrs. Meu caro amigo, não busco louros nem reconhecimentos, busco fazer a  parte que me cabe nesse mar de ausências.

6. Numa época, dá pra se dizer não-literária, onde a juventude perde-se nos links na Web, você acha que a literatura, a poesia, ainda terão futuro?

- É fato que temos futurólogos de todo tipo e para qualquer assunto, a grande maioria atletas da imaginação na busca da verdade que sequer sonham o que é e onde pode estar. Sem dúvida que a internet abriu caminhos para a democratização do saber, da informação, do conhecimento, foi a revolução da comunicação, sem dúvida, agora, daí dizer-se que a literatura, a poesia está com os dias contados é de uma mulice extraordinária; a literatura, a poesia são o que mais se lê no meio virtual! Estão aí as pesquisas informando: o que se lê na internet brasileira? Em primeiro lugar: noticias, em segundo lugar: poesia! Poesia meu caro, poesia! Ela é uma forma elevada de comunicação entre os homens, sempre existirá.

7. Essa pode lhe deixar nervoso. O Senhor é humilde na sua apreensão da vida pelos signos. Ou expande-se, ou pouco mais, quando interessa?

Você não pode viver falseando consigo mesmo, isto é autodestruição. Você é  sua vida. Fora disso não existe nada. Tudo é morto, e você não é. Portanto meu amigo, sempre tudo me interessa.

8. Há algo de novo no front, ou… a diluição e repetição de formas e conteúdos é o lugar comum?

Acredito que sempre tem alguém criando alguma coisa para benefício de todos. Acho que brevemente teremos uma grande mexida na internet em termos tecnológicos. Ela irá ao cosmos no sentido do aprimoramento da criação de conjunto.

9. O homem J B Vidal, interfere no social, buscando o literário, o crítico, ou o quê? Fale-nos sobre isso.

A minha intervenção no social é decorrente do meu quotidiano, nada tem de especial ou de objetivo porquanto não manipulo nem me deixo manipular. O literário, o critico e o “o quê” surgem no Vidal como consequência da sua interagência humana e sensível com o ser coletivo, naturalmente, sem estudos prismáticos.

o poeta declamando seus poemas no HERMES BAR. Curitiba. 2009. foto do jorn. Gustavo H. Vidal

10. O poeta J B Vidal, gosta de oralizar sua poesia, em bares… Ação poética é fundamental? Ou o poeta, deve ser o fantasma do livro impresso, aquele que não aparece?

Nem uma nem outra. Na poesia o fundamental é a poesia. Ponto final. Há quem te ofereça um tratado sobre ela como a mais cristalina das verdades. Lixo. Oralizar – declamar, para mim, – poemas em bares é muito mais prazeroso porquanto estão todos bêbados, nenhum presta atenção e todos aplaudem ao final  rsrsrsrs

Carlos Vereza: ‘Vi discos voadores e eles sabiam que eram vistos’ / rio de janeiro

Ator, que é espírita, diz sentir energia das pessoas, escreve livro e cede ao iG vídeo em que avista supostos OVNIs no Rio.

Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro 01/11/2011 07:00

Carlos Vereza concede a entrevista a seguir em seu apartamento, no 13º andar de um prédio cuja varanda tem ampla vista para a praia da Barra da Tijuca e a Pedra da Gávea, no Rio. É desta mesma varanda que o ator diz já ter avistado diversos discos voadores. Com ajuda do assessor pessoal, Roberto Ricardo, filmou pelo celular o que seriam alguns deles e cedeu ao iG as imagens. “Os extraterrestres estão limpando a crosta terrestre das explosões atômicas que acontecem no sul do oceano pacífico”, diz, enfático.

Leia também: ‘Não é nada que a gente conheça’, diz astrônoma sobre vídeo

Ator contratado da TV Globo – vai fazer a próxima novela das 6 -, prestes a completar 53 anos de carreira, com prestígio nacional construído a partir de memoráveis papéis na televisão, premiado no teatro e com atuação marcante também no cinema, Vereza pretende lançar até março, quando completa 71 anos, o livro “Efeito Especial – Estilhaços Biográficos. Vida Privada de Karl Marx”.

Seu contato com o espiritismo, religião que segue até hoje, surgiu a partir de um incidente ocorrido durante a gravação do seriado “Delegacia de Mulheres”, da TV Globo, há 22 anos. “Explodiu pólvora no meu ouvido esquerdo e, por causa disso, fiquei três anos em depressão e internado em vários sanatórios”, conta. O episódio é relatado com detalhes em seu livro.

Divorciado, Vereza mora sozinho com uma empregada. Na sala do apartamento, entre outras, há imagens de Nossa Senhora da Conceição, de uma figura indiana, uma estátua de São Jorge. Pede para que nenhuma das imagens seja fotografada, “em respeito a elas”.

Entre uma xícara de café e outra, Vereza conta que é médium intuitivo. Relata que espíritos batem a sua porta, o chamam pelo seu nome, acendem e apagam a luz, ligam o computador. “Não tenho medo de que me achem louco”, diz o ator. Ele tem muita fé em sua religião, mas diz que não pede ajuda para compor seus personagens. “Aí é o talento que Deus me deu”.

Foto: Selmy Yassuda

Carlos Vereza, 70 anos

iG: Por que detalhar em um livro o episódio que afetou sua audição?
CARLOS VEREZA:
 O acidente mudou minha vida. Ouvia um zumbido fortíssimo que me causou depressão, labirintite, insônia. Acabou meu casamento de 15 anos (com a artista plástica Delma de Oliveira Godoy). Ficava só deitado, igual a um vegetal. Foi quando minha tia falou para eu ir ao Lar do Frei Luiz (centro espírita na zona oeste do Rio), que tinha curado meu primo de leucemia.

iG: Qual é a relação da sua depressão com a “vida privada de Karl Marx”, subtítulo do livro?
CARLOS VEREZA:
 Fui do Partido Comunista por 15 anos, mas nunca fui ateu, por não acreditar no mundo como obra do acaso. Ia às reuniões do partido com a medalhinha de São Jorge. Gosto da história de vida do Marx que, ao contrário dos comunistas amigos do Lula, morreu na miséria e teve duas filhas que se suicidaram. Faço um paralelo da utopia dele, contando o ser humano que ele foi.

iG: Mas o senhor trocou o comunismo pelo espiritismo?
CARLOS VEREZA:
 Deixei de ser comunista quando a União Soviética invadiu a Hungria. Me tornei espírita quando me curaram, sem me cobrarem absolutamente nada. Ciência, filosofia e religião são o tripé do espiritismo, que foi decodificado por um cético chamado Alan Kardec. Os fenômenos paranormais existem desde que o mundo é mundo. A primeira psicografia do mundo foi a tábua dos Dez Mandamentos.

iG: Já presenciou algum fenômeno paranormal?
CARLOS VEREZA: 
Vários, vários, vários. Lá no Frei Luiz temos a sessão de materialização. O médico deita numa cabine, expele um ectoplasma e, dele, se forma um espírito materializado. Em carne e osso. Este espírito traz do plano astral aparelhos de laser para o tratamento de quase 40 pessoas em cerca de uma hora. O médico fica em transe. O ectoplasma é composto por gás carbônico, hidrogênio, oxigênio…

iG: Sei.
CARLOS VEREZA:
 O espírito vem com uma capa branca que parece de algodão. Teve um dia em que ele deixou a capa branca para a gente. Já tive um pedacinho desse pano, mas é que aqui em casa tudo some… É uma tolice achar que só existe a matéria. Taí a física quântica para mostrar que passado, presente e futuro estão num só plano.

iG: Tem algum poder sobrenatural?
CARLOS VEREZA
: Todo mundo tem mediunidade, só que nem todos desenvolvem. Tem o vidente, o audiente (que ouve vozes de espíritos), o psicógrafo, o “vista dupla” (que vê pessoas ao seu lado que você não enxerga)… Todos nós somos videntes. Dizem que sou médium intuitivo. Eu pressinto, mas não sou nenhum profeta.

iG: Explique melhor.
CARLOS VEREZA
: Sinto a vibração das pessoas que entram na minha casa.

iG: E o que sentiu quando chegamos?
CARLOS VEREZA:
 Boa, boa, boa… Muito boa.

Foto: Selmy Yassuda

“Nunca vi nenhum espírito, mas já senti. Às vezes escuto o meu nome, ‘Caaarlos’, bem nitidamente”

iG: O senhor vê pessoas mortas?
CARLOS VEREZA:
 Nunca vi nenhum espírito, mas já senti. Às vezes escuto o meu nome, “Caaarlos, Caaarlos”, bem nitidamente. Às vezes eles batem na minha porta. Quando vejo, não tem ninguém. Já nem abro mais a porta, já estou acostumado de tanto que batem. Eles queimam interruptores, acendem a luz do nada… Mas isso não é todo dia. Queria falar também que tenho uma relação muito forte com ufologia.

iG: É?
CARLOS VEREZA:
 Já vi vários discos voadores que saem da Pedra da Gávea. Eu lhe mostro agora no meu laptop o vídeo que fiz quando dois discos apareceram aqui perto.

iG: Qual é a relação da ufologia com a mediunidade?
CARLOS VEREZA: 
Total. Perguntei a um espírito qual é a diferença entre um alienígena e um espírito. Ele falou “nenhuma”. Os extraterrestres do bem estão limpando a crosta terrestre das bombas atômicas que explodem no sul do oceano Pacífico. Depois reclamam que as placas tectônicas estão se batendo no fundo do mar.

iG: As placas tectônicas se movem desde que o planeta foi formado.
CARLOS VEREZA: 
Elas se movem sempre, mas não a ponto de provocar terremotos que matam 300 mil pessoas e formar ondas de tsunami que matam outras milhares de pessoas. Com suas naves, eles limpam a crosta terrestre e mandam advertências seriíssimas para a gente.

iG: Como quais?
CARLOS VEREZA: 
Com estas explosões, o eixo da Terra se verticalizou. Houve a mudança do eixo da Terra. Tudo é quântico, mexe com a cabeça da humanidade. Pai que mata filho, garoto de dez anos que atira na professora… Essa loucura do planeta que a gente vive… Tudo é ligado às placas tectônicas e ao universo. Não é preciso ver para saber. Tenho certeza de que nossos anjos da guarda e outros espíritos estão aqui agora ouvindo nossa conversa. Tenho certeza como eu me chamo Carlos.

iG: Esses espíritos são os mesmos que acendem a luz e batem à porta?
CARLOS VEREZA:
 Dependendo da visita, até o computador liga sozinho. Isso tudo é trabalho científico, que está sendo estudado por acadêmicos. Sonia Rinaldi, da USP, grava vozes de espíritos pelo rádio, é a transcomunicação. Coloca isso, porque senão vão dizer “Vereza está maluco, só fala besteira”.

Foto: Selmy Yassuda

“Tenho certeza de que nossos anjos da guarda e outros espíritos estão aqui agora ouvindo nossa conversa”

iG: O senhor pede ajuda espiritual para compor personagens?
CARLOS VEREZA:
 São 53 anos de carreira que vou fazer em dezembro, meu filho. Aí é o talento que Deus me deu, né? Para você cair logo desmaiado, leia esta mensagem em voz alta (Vereza entrega ao repórter um texto “psicografado”, atribuído por ele à autora de novelas Janete Clair, morta em 1983).

iG: Voltando à ufologia, como avistou OVNIs?
CARLOS VEREZA:
 O grande avistamento foi em 1997. Eu, minha filha Larissa, minha amiga médium Márcia Zenkye, o marido dela Josué, que é comissário de bordo, estávamos na varanda do apartamento, quando vimos mais de dez discos passando bem próximo, em velocidade inacreditável. Demorou mais de três horas. Eles vinham e iam, como se mergulhassem no mar.

iG: Foi só essa vez?
CARLOS VEREZA:
 Não. Há um ano e meio, o Roberto falou que estava vendo uma coisa na direção da Pedra da Gávea. Fui ver e falei: “Ih, Roberto. Aquilo está parecendo disco. Corre e pega seu celular”. Ele demorou a achar o celular. Os objetos não correram. Me deu a impressão de que eles sabiam que estavam sendo vistos e queriam que fossem registrados. Tem um mistério em torno da Pedra da Gávea.

iG: Diz a lenda que os fenícios…
CARLOS VEREZA
: Diz não, eles estiveram ali. Há 15 mil anos. O Brasil não começou agora (Vereza mostra o vídeo dos OVNIs no seu laptop).

iG: Não ficou com medo?
CARLOS VEREZA:
 Ficamos de mãos dadas chorando. Eles passam alguma coisa inexplicável de emoção. Se ampliar a imagem, você vê até a cabine deles. Calculo que estivessem a 40 km/h. Não é avião, sonda, nem helicóptero. Ia mandar para o Fantástico, mas não divulguei, porque sempre aparece alguém dizendo que é balão meteorológico. Mas autorizo você a divulgar, estou na vida para colocar a cara a tapa.

iG: As pessoas podem achá-lo louco.
CARLOS VEREZA:
 Já falei aqui para você muita coisa que as pessoas não vão acreditar. Falei de espírito, de ectoplasma, de materialização… Não tenho medo do que vão dizer. O lugar em que mais aparece disco é o México, é coisa impressionante. O Vaticano já chama os extraterrestres de irmãos. Você nunca ouviu falar nos tapetes voadores das “Mil e Uma Noites”? Então… Era o vocabulário da época.

Foto: Selmy Yassuda

O ator está preparando um livro de memórias. “São fragmentos”, explica

iG: Que outros fenômenos o senhor já presenciou?
CARLOS VEREZA:
 Meses depois deste vídeo, um colega meu dormia aqui, eram quase 6h, quando os discos passaram. O gravador ligou sozinho e começou a transmitir vozes. Passou do português ao castelhano, depois para inglês. Não deu para entender bem. O que me fez concluir que a velocidade deles é tão absurda que eles trocam de idioma conforme passam pelos países.

iG: Imagino.
CARLOS VEREZA:
 O mundo é muito complexo, rapaz. Não é só pegar o carro, ir trabalhar e voltar para casa, não. Os iogas levitam na água, na Índia. É o domínio de leis da natureza que foge do nosso conhecimento. Galileu quase foi queimado porque dizia que a Terra não era o centro do universo. Assim vai a vida.

iG: Há alguns meses, entrevistei o cantor João Bosco, que confessou morrer de medo do fim do mundo. Ele acredita que um meteoro vai se chocar com a Terra em 2029. Há motivos para tal pânico?
CARLOS VEREZA:
 Meu querido João Bosco, o mundo enquanto bola não vai acabar. Haverá uma transformação de dogmas e conceitos em 2012, porque estamos entrando na Era de Aquário. São mudanças para o bem, algumas até geográficas, mas a humanidade vai levar um susto para que tenhamos paz no futuro.

Foto: Selmy Yassuda

Vereza toca flauta transversa ao final da entrevista

” NOS MENTEM” livro de Olivier Pastré e Jean-Marc Sylvestre – entrevista de OLIVIER PASTRÉ / por eduardo febbro / paris.fr

Em seu livro “Nos mentem!”, os economistas franceses Olivier Pastré e Jean-Marc Sylvestre elaboraram uma espécie de catálogo da mentira em economia política ao mesmo tempo que evidenciam os erros monumentais dos organismos de crédito multilaterais, das agencias de qualificação e da mídia, que dão crédito às mentiras travestido-as de verdade. Em entrevista à Carta Maior, Pastré sustenta que, com o agravamento da crise, o sistema volta a reproduzir os mesmos problemas e as mesmas mentiras.

Conforme a hora do dia, o analista, o colunista ou o canal de televisão, os argumentos para explicar a crise mundial variam como a cor do céu. Qual é a verdade? Na realidade, a verdade é um acúmulo de mentiras que se disparam de todas as partes: o Fundo Monetário Internacional mente, as agencias de qualificação mentem, os analistas financeiros mentem, as instâncias de regulação mentem. A mentira, ou sua exposição, é a trama do ensaio dos economistas franceses Olivier Pastré e Jean-Marc Sylvestre. Em seu livro “Nos mentem!”, Pastré e Sylvestre elaboraram uma espécie de catálogo da mentira em economia política ao mesmo tempo que evidenciam os erros monumentais dos organismos de crédito multilaterais, das agencias de qualificação e da mídia, que dão crédito às mentiras travestido-as de verdade.
Não escapam às análises os dirigentes políticos e os grupos como o G20, todos amordaçados e paralisados até que o incêndio cerca a casa. Mas como destaca nessa entrevista o professor Olivier Pastré, uma vez que o incêndio se afasta, o sistema volta a reproduzir os mesmos problemas.

Seu livro é uma espécie de catálogo das mentiras que os atores econômicos expandem pelo mundo seja para explicar a crise, seja para ocultá-la. Por acaso pode se dizer que o capitalismo parlamentar nos mentiu para manter as coisas no mesmo lugar?

Como dizia Lampeduza, tem que mudar tudo para que nada mude! Mas acredito que não se deva ter visões simplificadoras. Com isso quero dizer que é muito provável que um segmento importante dos dirigentes não tenha nenhum desejo de que as coisas mudem. Sendo assim, mentem a si mesmos primeiro e depois mentem ao seu público. Contudo, para explicar a cegueira do sistema, também há que mencionar uma espécie de mecanismo de auto-sugestão. Há uma frase muito conhecida na bolsa que diz “as árvores não sobem até o céu”. Até há pouco, os dirigentes da economia de mercado acreditaram que as árvores subiam sim até o céu.

Lembro que existe uma referência recente desta com a bolha internet, a bolha das novas tecnologias. Em 2000, a valorização das empresas que operavam na rede chegou à loucura total. Contudo, os dirigentes políticos, os bancos, os analistas financeiros, os meios de comunicação, todo o mundo dizia que a internet havia criado um novo modelo e que uma empresa podia valer 500 vezes seus lucros anuais. Aqui está uma prova de inconsciência que foi sancionada pelos mercados. O mesmo acontece agora. A inconsciência de 2005, 2006 e 2007 está sendo agora sancionada pelos mercados, mas de uma forma muito mais grave. Hoje, diferente do que ocorreu com a bolha das novas tecnologias, todos os setores e todos os países estão envolvidos. Nisso radica a gravidade da crise atual.

Existem outros emissores de mentiras que detém um poder considerável: as estatísticas, as agências de qualificação e o FMI.

Se observarmos as previsões do FMI constatamos que desde muito tempo são errôneas. O FMI não antecipou a crise e hoje este organismo nos diz com certa dificuldade que a crise se instalou. E, contudo, apesar de que as previsões do FMI são largamente falsas, continuam considerando-as com uma devoção quase religiosa. E com as agencias de qualificação acontece exatamente a mesma coisa. Nenhuma agencia antecipou a crise. Quero lembrar que as agencias de qualificação haviam dado aos créditos sub prime um triple A, o que é muito preocupante. Aqui também se segue escutando as agencias de qualificação como se fossem uma Virgem Santa.

Mas a devoção e a idolatria não têm nenhuma justificativa. Se trata agora de saber a quem há que criticar: as estatísticas, as agências de qualificação, aqueles que lhe dão uma importância maior? Todo o mundo é responsável do que está acontecendo. Os bancos centrais são responsáveis, em particular o banco central norte americano, as autoridades bancárias são responsáveis, os bancos, as agências de qualificação, os analistas financeiros, os Estados são igualmente responsáveis. De fato, não há que destacar um culpável nem procurar um bode expiatório. A responsabilidade é global. A responsabilidade da crise não é só das estatísticas ou das agências de qualificação. A responsabilidade é inescapavelmente coletiva.

Outra das mentiras que você assinala e que se transformou num mito desde 2008 é o da regulação financeira. Você afirma que o G20 é em realidade papel molhado.

Sobre o G20 é preciso dizer três coisas. A primeira é que a criação do G20 foi uma muito boa idéia. Antes da criação do G20 a economia mundial estava governada pelos países mais endividados: Estados Unidos, França, etc. Além disso, haviam sido deixados de fora os países que criavam mais valores, ou seja, Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul. A criação do G20 é então, uma evolução extremamente positiva em matéria de governo econômico mundial.

Em segundo lugar, na cúpula do G20 que se celebrou em Londres em 2009 se tomaram decisões corretas no que concerne ao papel do FMI, os paraísos fiscais ou as bonificações dos traders. Mas em terceiro lugar, e aqui está o problema, desde esta cúpula de Londres o G20 deixou de tomar decisões. Por quê? Pois porque o G20, como todas as demais instâncias de regulação, só toma decisões quando se espalha o medo. Tem que acontecer o que vimos com Lehman Brothers para, seis meses depois, tomar as decisões necessárias.

O problema radica em que, uma vez que passou a tormenta, nos esquecemos de que tivemos medo e tudo volta a começar igual: a especulação, as bonificações surrealistas destinadas aos traders, etc., etc. Prova disso, foi necessário que explodisse a crise grega para que os reguladores tivessem medo e voltassem a regular. Por conseguinte, se pode dizer que o governo mundial só progride com a crise. Só quando os reguladores têm medo se botam a regular.

Mas como se pode explicar tal recurso à mentira em economia política. Economistas, dirigentes políticos, organismos internacionais, todos mentem.

É lamentável mas esta é a triste realidade. Há três tipos de mentiras: a mentira voluntária, esta que se apoia atrás do argumento segundo o qual esconder a realidade é um bom princípio; a mentira involuntária que se funda sobre uma análise errônea da situação e conduz a difundir falsas informações quase de boa fé: e a mentira que se conta a si mesmo, ou seja, quando se dispõe de uma boa análise da situação mas como não se quer reconhecer a validade da mesmo se acaba dissimulando a realidade.

Nos três casos se emitem enunciados falsos e quase ninguém questiona o discurso dominante. Há vários elementos para explicar isso. Um deles é o chamado pensamento único. Às pessoas gostam pensar o que pensam os demais. Na sociedade atual contar com um pensamento heterodoxo não é algo fácil. Por outra parte, os meios de comunicação têm uma marcada tendência a acentuar este fenômeno. Os meios se focalizam no instantâneo, no espetacular. Assim terminam difundindo a mesma análise sem profundidade.

Você é um dos poucos analistas econômicos que afirma sem ambiguidade que os Estados Unidos estão em processo de quebra.

Se os Estados Unidos fossem uma empresa já tinham declarado falência. Não há nenhuma dúvida a respeito. Os Estados Unidos viveram acima de seus meios, se endividando além do razoável e desindustrializando-se em excesso. Isso dura 20 anos! A situação norte americana é muito, muito má.

Entretanto, pese ao inocultável marasmo, você sugere que não tudo está perdido. Como se sai deste pântano? Por acaso há que terminar com a tão comentada globalização?

Eu sou um crítico das teses que propõem o fim da globalização. De fato, a globalização teve muitos defeitos, é obvio que aprofundou as desigualdades, mas, globalmente, a economia mundial nunca conheceu um crescimento tão forte como com o processo de globalização. Não há, então, que se jogar tudo no lixo. A desglobalização poderia acarretar uma perda dos benefícios adquiridos. Não quero dizer com isso que, por exemplo, a situação dos operários chineses que trabalham no setor industrial graças à globalização seja boa, não, nada disso. O que digo, sim, é que a globalização foi um fator de crescimento inquestionável, em particular para os países do sul.

Os excessos da globalização devem ser criticados. Nesse sentido, se continuo sendo otimista é precisamente porque se admitimos que todos somos responsáveis da situação atual, tanto as empresas, os bancos, os dirigentes políticos, as instâncias de regulação como as pessoas em geral, podemos mudar o curso das coisas. Se cada um destes atores econômicos se reforma é possível desembocar num governo econômico mundial mais satisfatório. Lamentavelmente, as reformas só se realizam quando não cabe outra saída. Provavelmente fará falta que a crise se agrave mais para que os dirigentes e os dirigidos aceitem as reformas.

Tradução: Libório Junior

C. M.

LAÍS MANN, cantora, atriz e profissional do rádio e TV concede entrevista – para aldrin cordeiro e érika busani / curitiba

A quem interessar possa

Seu nome é Laís. Afiada e divertida, bem podia ser Leila, Marieta, Dina, Sônia ou Beth, para citar algumas das mulheres solares que colocaram o Brasil da década de 1970 de canelas para o ar

foto de alexandre mazzo.

Loira, elegante, desbocada. Atriz, mãe, apresentadora, engraçada. Avó, impaciente, cantora, namorada. Hiperativa. Palavras para definir Laís Mann são limitações que não se enquadram na história da mulher que marcou época na vanguarda da tevê no Paraná. Uma eterna estudante de si mesma, a guria autodidata ultrapassou seis décadas de vida com uma certeza: quer descobrir ainda mais sobre a menina que nasceu na Água Verde.

Pouco antes dos 20 anos, Laís já era alvo fácil do imaginário masculino – e do ódio feminino – quando seu “boa noite” era entoado na TV Iguaçu, Canal 4. No célebre programa Show de Jornal, ao lado de Jamur Junior, João José de Arruda Neto (JJ) e Haroldo Lopes, a belle de nuit falava so­­bre política. As­­sunto que rendeu status de celebridade pelas ruas e salões de beleza – e que a levou diversas vezes à Polícia Federal, graças à ditadura militar.

Sem se levar a sério, foi catapultada à profissão de cantora, atriz e radialista – e com louvor. Entre uma mentirinha para fugir dos castigos da mãe e as festas na vida noturna curitibana, Laís se casou três vezes, teve quatro filhos e quatro netos. Com uma biografia que não caberia nesta página, uma verdade inconteste: Laís Mann permanece no posto de diva – ele lhe pertence.

Você é loira legítima?

[risos] Sou loira. É uma loucura. E sabe, né, qualquer mancada eu falo que sou loira. Ainda mais depois da música do Gabriel, O Pensador. Acho bárbaro.

Quando descobriu que era bonita?

Ah, desde pequena. Eu não sabia das diferenças sociais e lia as histórias das princesas. E a Cinderela sempre era linda. Sempre a pobre era linda e casava com o príncipe. Achava que eu era pobre porque era bonita e as ricas eram todas feias. Até quando comecei a ter contato com as meninas ricas e vi que elas eram muito bonitas. Aí não entendi mais nada. [risos]

Você tinha noção do que seria estar na televisão?

Não. Era mais um emprego. E eu só comecei lá após um trato com minha mãe. Trabalharia de manhã em uma loja de roupas femininas e à noite na tevê. Mas ninguém me levava a sério. Nem eu mesma. Aquilo era um trabalho qualquer. Não tinha vaidade.

Você estava interessada no dinheiro?

Mas é claro.

O que o dinheiro lhe deu?

Minha vida mudou. Ajudei minha família. Comprei uma casa. Um carro. Vivia bem com a família. Pagava os melhores médicos para meus irmãos. Tinha dinheiro para acudir meu pai com o problema da bebida.

Como era fazer parte do Show de Jornal?

A gente não podia sair na rua. Era um jornal político. Era tempo de ditadura e éramos celebridades. Nós trabalhávamos no canal do Paulo Pimentel, que ao lado do Cecílio Almeida derrubou o Arol­­do Leon Peres, que era o governador do estado. Um inferno. A gente ia todo dia para a Polícia Federal.

E no cotidiano?

Nem no salão conseguia ir. Até porque as mulheres não viam telejornal. Não queriam saber disso, mulher assistia à novela. Até aparecer uma menina de 19 anos que apresentava assuntos que os maridos gostavam.

Todos esperavam pelo seu “boa noite”.

Só para descobrir como eu iria falar o “boa noite” demorou uma semana na produção. Eu dava “tchau” e fazia algo com meu nariz e os homens gostaram. Virou até um fetiche.

Como lidava com o assédio num ambiente masculino?

Ah, me defendia legal. Isso sempre me incomodou muito. Eu me sentia diminuída e vulgar com o assédio masculino. Quando um ho­­mem vinha me cantar eu tratava logo de dizer uma grosseria.

Você também fez horóscopo no rádio. Fazia o texto?

Sim, fazia tudo. Ficava até as 3 horas da manhã com minha mãe escrevendo. Minha mãe era meio feiticeira e entendia desse assunto. Ela jogava búzios… E era tudo mentira. Tudo inventado. E o povo ainda falava que a gente tinha acertado as coisas.

Em que momento se descobriu cantora?

Quando estava na tevê, o Paulo Ví­­tola e o Adherbal Fortes escreveram uma peça de teatro chamada Ci­­dade sem Portas, em 1972, acho. E eles me convidaram para fazer. Cla­­ro, eu estava na moda e ia ga­­rantir bilheteria. Foi nela que co­­me­­cei a cantar. E eu adoro, mas é uma das coisas que mais me atemoriza. Morro de dor de barriga. Gente, é um inferno quando vou cantar. Porque não fiz escola. Te­­nho complexo. Estou contando is­­so pela primeira vez na minha vida.

Complexo do quê?

Quando vou cantar, qualquer insegurança em relação à música já me dá um complexo. Eu digo “tá vendo, imbecil, se fosse lá aprender a cantar ia saber o que é uma oitava, meia oitava, dois terços, não sei o que lá”. E penso nisso, que na verdade é uma bobagem. Porque se a gente vir as cantoras Angela Maria, Elis Regina e Elizete Cardoso, elas nunca fizeram escola. Elas foram a escola.

Você acompanha as novas cantoras que surgem na cena local?

Ah, sim. Adoro a Ana Cascardo, a Ro­­géria Holtz, a Gisele Oliveira. Es­­sa nova geração é um espetáculo.

O que diria para elas?

Cantem. Cantem muito na vida, se divirtam. Sem complexos. Acho que nesse ponto essa geração é muito bacana. Fazem legal. Nem vou falar da Thaís [Gulin], aquela desgraçada… [risos].

A Thaís Gulin…

Tá com o Chico [Buarque]. Será que tá mesmo? Que preguiça dessas meninas… O Chico é uma en­­ti­­dade. Sinceramente: se eu fos­­se uma cantora talentosa, bo­­nita… você acha que eu ia *** pro Chico? Ah, por favor, ela nem precisa disso. É rica e faz o que quer. Deve ser um horror, gente. Eu seria a última a ter preconceito de velho, mas não quero namorar velho [ri­­sos]. Porque eles tomam aqueles “viagras” e fica uma coisa tão es­­quisita [risos]. Tem gente que acha que ela está com o Chico por in­­teresse. Eu não acredito. Ele faz tudo porque está absolutamente apaixonado. A prova está aí, esse CD que fez agora. Está babando de amor. Nós temos que endeusar a Taís. A santa Taís, que contribuiu pro Chico fazer esse trabalho lindo.

Como foi sua infância?

Nasci em uma família muito pobre no bairro Água Verde. Meu pai era funcionário público e minha mãe dona de casa. Nossa vida era um horror, porque meu pai era alcoólatra. Mas a gente era feliz. E desde cedo minha mãe me fez estudar e trabalhar.

Gostava da escola?

Detestava. Reprovei 10 anos no ginásio. Tinha pavor daquilo. Era hiperativa e não conseguia ficar na sala de aula sem conversar. Achava tudo desinteressante. Que horror.

Como era a sua mãe?

Com ela era? “Escreveu, não leu, o pau comeu.” Uma sargentona. E eu mentia muito. Aprontava mesmo. O nome dela era Altina. Ela me chamava de “barata descascada”. [risos]

Essa é a mesma relação com sua filha?

Com minha filha há um diálogo absolutamente aberto. Ela sempre soube que o nome daquilo é vagina, não perereca. Minha mãe chamava de miçanga. E eu fui saber que miçanga não era vagina quando eu já era grande. Estava assistindo à televisão, um programa da Linda Saparoli, e ela falou que o vestido era todo bordado de miçangas e eu gritei “mãããee”. [risos]

E os seus netos…

É bárbaro. Eu tenho quatro netos. A minha neta com quem convivi mais foi um espetáculo na minha vida. Eu digo “foi” porque hoje ela é pré-adolescente e não quer saber de mim. A não ser pra levá-la à gi­­nástica. E eu aproveito para fazer uma chantagem danada. Digo “va­­mos jantar?”. “Não vovó, eu tenho que estudar”. “Gabriela, quer sa­­ber de uma coisa, vai ….” É uma de­­lícia essa relação.

E na sua juventude, Curitiba ti­­nha coisas melhores para se fazer?

Era uma maravilha. Tinha a Zim­­ba­­loo, a Gogó da Ema, a Jackie O. Eram boates bacanas. Hoje, frequento muito pouco a noite. Even­­tualmente, vou ao Kapelle, um bar que tem uns 200 anos – a minha idade [risos]. É mais um bar cabeça. Às segundas-feiras, vou ao Tatára, que é um hippie remanescente dos anos 70, compositor, cantor, um ma­­luco, um agitador cultural.

O que tem lá?

Às segundas tem a chamada “Se­­gunda Autoral”, quando os jo­­vens artistas, e velhos também, se reúnem para apresentar música. As pessoas estão aprendendo a cultuar os nossos artistas, o que não acontecia antes. Ninguém queria dizer que era fã do cara que morava em cima do seu apartamento. Curitibano é uma coisa absurda. Não adianta.

Mas você é curitibana…

Sou… Mas é por isso que eu falo. As pessoas dizem pra mim: “Mas você não é de Curitiba, né?”. Digo “ai, eu sou”. Porque tem autofagia mesmo. Curitiba tinha uma coisa muito cafona: só era bacana o que vi­­nha de fora. Mas está mudando. Es­­tou percebendo na música, por exemplo, essa coisa de ser bacana o que é daqui. “Você vai gravar um CD? Legal, o que você vai gravar?” “Vou gravar compositores curitibanos.” “Pô, que tesão.” É um as­­pecto bem positivo. A coisa está mudando porque hoje você nem acha mais curitibano. Não sei pra onde foram. Devem ter se desintegrado [risos]. Porque curitibano não sai daqui, né.

Como é envelhecer?

É difícil. Nosso país não está preparado para isso. Há muito preconceito. A vantagem está em ter mais conhecimento. A parte boa é a falta total de pudores e limites. “Não vou dizer isso porque vou ofender a pessoa”. Paciência… Pelos menos disse o que eu queria dizer. Não é uma coisa de querer agredir… O velho é cruel, gente. É como uma criança.

E a solidão…

Tem uma solidão vo­­luntária, porque apren­di a me gostar. Adoro a minha solidão, pois posso ficar mal-humorada quando quiser, dou risada de mim mesma… Já tive vários casamentos [três] e acho que não vim dotada deste talento de manter relacionamentos. Minha vida sentimental está uma porcaria. [risos]

E como é conviver contigo?

Sem bom humor não tem salvação. Adoro essa coisa de dar risada. Senão fica muito sem graça. E detesto pessoas mal-humoradas e pessoas mais ou menos. Tem de ser uma coisa ou outra. A base de todas as relações, profissionais, afetivas, conjugais é o bom humor.

Assista ao vídeo com Laís Mann

Confira os bastidores da entrevista

PRESIDENTA DILMA dá um PITO na atrevida jornalista da TV GLOBO (Fantástico de 11/09/2011)

UM clique no centro do vídeo.

O músico GUEGO FAVETTI entrevistado pelo poeta JAIRO PEREIRA: / quedas do iguaçu.pr

PINHA, PINHÃO DO PARANÁ

Compositor, cantor e instrumentista, formado pela Faculdade de Artes do Paraná -FAP

Licenciatura Plena em Música -1985, e atua como músico há mais de 30 anos.Iniciou sua carreira em 1976 em Curitiba apresentando-se no Teatro da Reitoria da Universidade Federal do Paraná.Participou do programa – Som Brasil de Rolando Boldrin em 1982 com Nice Luz.Fez parte do Grupo D´América de Música Latino americana de 1982 a 1986, apresentando-se em festivais importantes.

Fez show no Teatro Paiol de Curitiba em Abril de 2007 com o Trio Desidério Favetti, e também apresentou-se no Programa Sr. Brasil, de Rolando Boldrin na TV Cultura   de São Paulo, neste mesmo mês e ano.Show de lançamento do CD “Branco” no Teatro da Caixa em Novembro de 2007.Show-Guego Favetti convida Carlinhos Vergueiro, no Teatro Paiol em Agosto de 2008.Show com Nice Luz – Terça Brasileira no Teatro Paiol em Junho de 2009.  

CDs:   Noites Curitibanas – 1998 

Ensaio – 2001 – Experimental Bossa Nova e outros.

Sertão em Vozes – 2003 – Experimental de Clássicos Caipiras.

“Arretirança” – 2005, com o Trio D Favetti 

“Branco” – 2007 de sua autoria e outros autores locais.

1.       Pra começarmos… Como a música aconteceu em sua vida?

A música sempre me perseguiu e sempre esteve presente na minha vida através da família.Me perseguiu porque até a minha dolescência era algo um pouco distante das minhas coisas pessoais, apesar de ser muito presente, como já disse, na família.O meu Nono(avô) Pedro Favetti era maestro da igreja que frequentava nos anos 40, no Rio Grande do Sul e minha mãe Vitorina Bíscaro,  cantava afinadinho também.O meu pai Desidério, continuou o canto na família, que foi seguido pelos meus irmãos mais velhos, que cantavam lindamente e ainda cantam até hoje.A música sempre foi algo natural na minha casa.Lembro que quando criança, ainda no Rio Grande do Sul, nos anos cinquenta, ouvi Marina de Dorival Caymmi.

E disso posso dizer que sempre se ouviu de tudo, sem restrição.A seleção do que era bom também era natural.Daí saíram os grandes clássicos que perduram até hoje.As pessoas em geral e nós que sabíamos cantar, naturalmente mantínhamos canções sempre lembradas e tocadas nas rádios e propagadas ao longo do tempo.Então a música como canção ficou enraizada na gente.Após a adolescência, portanto, mesmo trabalhando em empresa familiar de vários ramos, é que fui me envolvendo mais com a música popular em geral.

Ouvi muito Nat King Cole, Louis Armstrong, Al Hirt, Bert Kaempfert, a música mexicana que influenciou enormemente a música da América Latina nos anos 50 e 60.Depois a música italiana, que dominava o cenário romântico dos anos sessenta e enfim a nossa música que é a tal de MPB, o samba que virou uma paixão, mas também a Bossa Nova, João Gilberto no começo dos anos 70, Chico e cia.Aí não parou mais o envolvimento, até que resolvi assumir essa paixão, que se me cobra uma realidade incansável e inconstante, também me dá muita alegria, prazer e amizades verdadeiras e algum dinheiro.

2.       O Guego Favetti é do samba, da modinha sertaneja, da MPB Cult… O que mais lhe atrai musicalmente?

Essa é uma questão interessante, não porque eu tenho as minhas “tempestades cerebrais”, como diz o Caetano Veloso, ou como diz James Joyce (escritor irlandês) sobre “o fluxo da consciência”, que é dado a todos nós pensar o tempo todo, quando acordados.E quando dormimos sonhamos explicações detonamos desejos do nosso eu profundo, como diz Freud.Quero dizer com isso, que não consigo separar as manifestações artísticas especialmente da canção(que compreende letra e música), então como que num tormento saboroso, me inspiro, me emociono, choro, grito, esperneio, se ouço ou canto por exemplo “Sobre todas as coisas”, do Edu Lobo e Chico Buarque(ouçam e verão), quando o Chico fala de que se Deus existe(?), é porque nos fez para o prazer e para a alegria também e que devemos e podemos “desfrutar dos vales onde jorra o leite e o mel”… .

Depois em seguida ouço Tonico e Tinoco sem medo, ouço Negros Mestizos y Blancos, do uruguaio Daniel Viglietti e mais depois volto a João Gilberto, me enleioem Noel Guaranie Noel Rosa com a mesma paixão, buscando compreender o lirismo a ironia, a crítica.Essa foi a minha formação musical e intelectual, sem preconceito, sem medo, sem exasperação, mas com muita beleza.E tendo vivido muitas experiências musicais como ouvinte e como produtor de cultura, estou sempre antenado nos movimentos subjacentes que acontecem na periferia da mídia e da vida cotidiana das pessoas.Existe uma inquietação a partir dessa linha de raciocínio, de que a canção tal como se conhece – letra e música, harmonia, melodia, está com os dias contados! É uma longa discussão.

Eu como um apaixonado pela harmonia, sinto um pouco que tudo se repete, tudo se requenta e compositores maravilhosos hoje amparam-se no “minimalismo harmônico”, ou a volta de dois, tres acordes que resultam em belas canções.Ou seja um cansaço e esgotamento de tudo o que se fez e faz.Claro que a coisa continuará por muito tempo, mas a ascensão do RAP(Rithm And Poetry – Ritmo e Poesia), por exemplo, se dá um pouco por isso.É a fala e as palavras que se sobressaem, não mais a melodia e a harmonia.Me fascina aliás, como as comunidades periféricas se levantaram e se levantam através do Hip Hop, um movimento que pretende aglutinar as forças, que não aceitam mais ficar à margem do processo civilizatório.Esse tipo de movimento me emociona, me encanta e tenho esperança que seja reconhecido.Hip Hop é estrangeiro?Sim, mas somos todos estrangeiros e bem brasileiros, não é mesmo.Sobre o que me atrai musicalmente, diria que é a harmonia da canções populares, as vezes simples, as vezes complexas.

Me atrai algo que aprendi em casa e de tão natural se torna uma “doença”, no bom sentido, que é sempre fazer uma outra voz além da voz que sola e faz a melodia.Me dá um prazer enorme e me deixa extremamente feliz, porque externa beleza e lirismo.É assim que acontece quando canto com meus irmãos Titi e Tita no Trio D Favetti e também quando cantamos em família ou com amigos.É uma terapia maravilhosa.Mas devo dizer que me fascina também a música erudita contemporânea(aquela que organiza em sinais e notas tradicionais, os sons de tudo, desde a natureza até o som de uma panela).Despertei para isso quando fazia faculdade de música nos anos 80, e sempre compreendi essa linguagem, também sem medo e sem pudor.Conheço obras belíssimas de Shoenberg, Berg, Boulez, Henry, o nosso Almeida Prado, Arrigo Barnabé, a música experimental contemporânea e das cores de Jorge Antunes e tantos mais, maravilhosos.

apresentação do TRIO FAVETTI em Florianópolis. foto de Rudi Bodanese.

3. Sua música de autoria, traz parceiros poetas (Reinoldo Atem e outros), além do próprio TRIO D FAVETTI? MPB e poesia são indissociáveis?

Pois é, é uma inquietação a autoria de canções.A gente faz por prazer e paixão e se espalha por aí.A amizade e parceria com Reinoldo Atem me foi muito prazeirosa e fascinante, pois ele também é uma pessoa inquieta com a cultura e as palavras.Fizemos também músicas em família e com o próprio Trio.Sobre a MPB, acredito que sua grandeza se deve a exuberância da nossa mistura de raças e ritmos.A poesia se mostrou vigorosa através das letras das músicas, quase que se bastando poeticamente mesmo como letra, porque levou às derradeiras consequências da manifestação bem brasileira e com muita novidade, nas criações de Chico Buarque, Paulo Cesar Pinheiro e Vinícius de Moraes, Aldir Blanc, Noel Rosa, Cartola e Dorival Caymmi, prá citar apenas alguns dos tantos e tantos craques das palavras para a canção popular.A poesia existe e vai muito bem sozinha.Mas quando usa o veículo brutal ( no bom sentido) da música, se transforma numa força e numa ameaça até, porém na verdade chega aos mais longínquos rincões do mundo, espraiando-se com uma força extraordinária, às vezes para o bem às vezes para o mal.

4.      Qual o problema de um possível mercado à música que se faz no Paraná?
Honestamente é a criatividade.Sei da quantidade enorme de obras criadas por paranaenses e tem muita, mas muita coisa boa.Nas várias linguagens musicais, mais acentuadamente no rock e na música popular moderna e contemporânea.Mas não nos iludamos, pois a avalanche do que é produzido nos mesmo lugares de sempre, São Paulo, Rio, Bahia, Minas, Rio Grande do Sul, Nordeste e até Centro-Oeste, têm um vigor e uma expressão estabelecida e consagrada.Nós, e nesse nós me incluo, estamos construindo uma obra, uma história.Tenho plena consciência disso.Não adianta esbravejar e iludir ninguém.Precisamos produzir mais e melhor.

Agora, se os paranaenses mesmos não reconhecem o que se faz aqui, com extremo bom gosto e qualidade, como fazem meus conterrâneos gaúchos, por exemplo, não mudará tão cedo.Nós mesmos precisamos sempre bater na tecla e difundir nossos compositores e poetas.Eu faço isso sempre.Às vezes até esqueço de mim, o que é um erro, mas procuro apostar na qualidade de quem está ouvindo, prá valer a pena, e canto coisas minhas, de Ronald Magalhães, Sidail César,Cláudio Menandro, Marcelo Sandmann e Benito Rodriguez, Etel Frota, Reinoldo Atem, Iso Fischer, Rosi Greca, Daniel Faria e outros.Mas temos que acreditar mais em nós mesmos e soltar o verbo e as notas.

5.       A experiência da noite… dos bares da vida, valeu muito na sua carreira? Fale nos sobre isso.
Valeu e vale.Adoro boteco, bar, Restaurante.É aquela balbúrdia, o fim do mundo para o músico, mas sempre alguém se interessa, pergunta, participa.E vale a pena.Estou um pouco afastado esse ano, porque fizemos muitos shows em teatros no norte do Paraná e aqui no Sesc da Esquina e também eventos.Mas a noite ensina muito.Pode derrubar a gente, se não tivermos atenção.É fascinante demais.Mas tenho alguma prática e me seguro no braço do violão.

6.     O amálgama de uma arte que nos identifique como paranaense é possível, a seu ver?
Esse amálgama está sendo construido, como falei.Parece uma eternidade o tempo que demora e que se possa perceber alguma estrutura e formato mais perceptíveis, daquilo que é feito para construir a identidade especificamente da música popular paranaense.As novas gerações têm avançado bastante e organizado movimentos bem densos e importantes.Único problema é que essas novas gerações, não ariscam nada ou quase nada e dependem quase que exclusivamente do poder público para se manter, com projetos e recursos públicos, sem passar pelo caminho que eu passei, muitos bons músicos passaram, como passaram tantos músicos consagrados da Música Popular Brasileira.Como diz a cantora baiana Rosa Passos, não se chega entendendo muito bem no final do alfabeto, sem tropeçar no ABC.É um pouco o que aconteceu com muito músico paranaense, que se escorou nos orgãos públicos para fazer sua carreira.Condeno isso!O Hermeto e outros sabem bem disso…?!
Quanto às outras artes, Curitiba e o Paraná vão muito bem, há muito tempo.E o amálgama é um pouco ensaduichado entre o extremo sul e o restante do Brasil.Mas tem muita coisa interessante acontecendo no cinema, na poesia.

7.       Você viveu um tempo no exterior… Como é, ver a música brasileira de fora do país, vivendo enfim, numa outra realidade social, política…?
Pois é, em 1987 e 1991, morei por duas vezes um tempo curto de tres meses em Genebra, na Suíça, que foi difícil e maravilhoso ao mesmo tempo.Mas é uma cidade encantadora e pequena e tem uma simplicidade e grandeza no ar, que é bem perceptível.Na época adoravam a música brasileira.Mas o jazz ainda era mais requisitado.Os europeus em geral, conhecem bem a nossa música e percebi que definitivamente, é a nossa maior força e expressão cultural.O futebol foi e já não é mais, pois ninguém é mais ingênuo e o futebol mundial cresceu e se desenvolveu, portanto é tudo muito parecido e não existem mais surpresas.Na música ainda encanta os estrangeiros o samba e as escolas, Tom Zé, Hermeto, Toninho Horta, Tom Jobim, e assim mantemos cada vez mais abrindo canais e portas.A capoeira tem dado uma contribuição extraordinária para divulgar o Brasil.

Morei por dois anos nos Estados Unidos e senti um pouco mais alheio, o interesse pela nossa música.É que a América tem toda aquela efervecência musical.Muito Rap, muito Flach Back e o mesmo que acontece no Brasil, o ostracismo dos grandes músicos que acompanharam estrelas.Parece uma praga do capitalismo.Apesar de que em Cuba também, grandes artistas foram lembrados no final de suas vidas, num trabalho do cineasta alemão Wim Wenders e o guitarrista Ry Cooder no show Buena Vista Social Club, (“…um amigo considera um filme desonesto com os cubanos…”)o que não é uma maldição só por aquelas bandas, mas aqui o nosso Mestre Cartola, chegou a lavar carros nas ruas do Rio de Janeiro para sobreviver.Então é uma praga do show biz, da falta de respeito e consideração por quem fez e faz a história da música em qualquer lugar.

8.       Música popular brasileira e o fazer propriamente…  Existe um caminho, um ideal estético a que o artista persegue?

Temos as referências, que são as mais diversas e diferentes possíveis, na criação estabelecida pelos compositores de música popular.Se sobressai a graça, a malemolência, o tempero, a elegância, muita força e muito vigor rítmico.A invenção é o ponto alto, ao lado do improviso.A música popular brasileira, traduz muito do que somos como nação, como bons improvisadores da sobrevivência, dando o famoso”jeitinho” de resolver os problemas.Por isso sai tanta música boa, nos nossos dias nem tanto, pelo esgotamento que falei anteriormente, mas ainda no campo do samba, são criadas verdadeiras obras.A gente se espelha nisso, claro que carregando as nuances da nossa terra, do sul do Brasil.Amo o samba, como amo a Bossa Nova, que afinal é um tipo de smaba, mas amo muito a canção de raiz rural e sertaneja.E embevecido nessas fontes murmurantes, como diz Ary Barroso na famosa Aquarela do Brasil, a gente produz e procura refletir e traduzir o que se vê e se sente ao redor, nesse Brasil grande de tantas contradições e belezas.

9.    Fale nos um pouco do TRIO D FAVETTI que está fazendo um trabalho que orgulha a música no Paraná, e que também como alguns intelectuais do Estado, forja na praxis uma identidade paranaense.
Pois então, disso que falava na pergunta anterior, procuramos traduzir o mundo que vemos, ouvimos e sentimos à nossa volta.Com as vozes nos referenciamos num grupo como MPB4, também Os Cariocas, mas bastante marcados pelas vozes do Quinteto Farroupilha, que do Rio Grande do Sul, nos anos 50, 60 e 70, ecoava canções das mais diversas linguagens, desde a Bossa Nova, até clássicos estrangeiros e muito a música regional gaúcha, mostrando lirismo, poesia, e beleza aos ouvintes dessa época.
Desde criança ouvíamos o Quinteto Farroupilha e nos marcou, pois sempre, como já disse anteriormente, foi natural na minha família, fazer vozes e mais vozes, das mais diversas formas e sonoridades.Então nesse quinteto nós bebemos e fomos bebendo e assim estamos agora deixando uma marca única, na vida das pessoas que nos escutam, pois a timbragem e as cores vocais se entrelaçam e permeiam todas a possíveis linguagens da música popular, que conhecemos até hoje, desde o samba até a guarânia, o chamamé, à bossa nova e a música moderna de José Miguel Wisnik, Luiz Tatit, Itamar Assumpção e porque não de Tom Zé, misturado num caldo de composições bem paranaenses, criadas a partir dessa expressão, pressionada entre o norte e o sul brasileiro.Estamos fazendo.Deixaremos nossas marcas!

General afirma que Jobim é prepotente e ‘já foi tarde’

A queda de Nelson Jobim do Ministério da Defesa, no último dia 4, trouxe à tona o ressentimento de oficiais das Forças Armadas com supostas humilhações impostas a militares pelo ex-chefe.

Um artigo do general reformado Luiz Gonzaga Schroeder Lessa, ex-presidente do Clube Militar, expõe mágoas da caserna e afirma que o ex-ministro tinha “psicótica necessidade de se fantasiar de militar” e “já vai tarde”.

O texto foi publicado no site da Academia Brasileira de Defesa e circula desde o fim de semana em blogs de militares. Escrito como desabafo dirigido a Jobim, sugere que parte da classe se sentiu vingada com sua demissão.

Caio Guatelli-13.jan.2010/Folha Imagem
O ex-ministro da Defesa Nelson Jobim durante visita a instalação brasileira no Haiti; ele deixou o cargo no início do mês
O ex-ministro da Defesa Nelson Jobim durante visita a instalação brasileira no Haiti; ele deixou o cargo no início do mês

“Como um dia é da caça e outro do caçador, o senhor foi expelido do cargo de forma vergonhosa, ácida, quase sem consideração a sua pessoa, repetindo os atos que tantas vezes praticou com exemplares militares que tiveram [...] a desventura de servir no seu ministério”, diz.

“Por tudo de mal que fez à nação, enganando-a sobre o real estado das Forças Armadas, já vai tarde. Vamos ficar livres das suas baboseiras, das suas palavras ao vento, das suas falácias.”

O general afirma que o perfil do ex-ministro publicado pela revista “Piauí” “retrata com fidelidade” o “seu ego avassalador, que julgava estar acima de tudo e de todos, a prepotência, a arrogância e a afetada intimidade com os seus colaboradores”.

Na reportagem, que precipitou a demissão do ex-ministro, Jobim chama a ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) de “fraquinha” e diz que Gleisi Hoffmann (Casa Civil) “nem sequer conhece Brasília”.

Em outro trecho, que irritou os militares, a repórter narra uma cena em que ele usa tom ríspido para dar ordens ao almirante José Alberto Accioly Fragelli, diante de outros oficiais e de civis.

O artigo critica o ex-ministro por posar de farda, “envergando uniformes que não lhe cabiam não apenas por seu tamanho desproporcional, mas, também, pela carência de virtudes básicas”.

 

BERNARDO MELLO FRANCO
DE SÃO PAULO

O TRATADO DE ZUGUEIB / curitiba


Jamil se pergunta o que leva os homens a se matarem por uma terra ou mesmo por um time de futebol. Para responder, subiu montanhas, cruzou oceanos e vasculhou a própria memória. Nela encontrou a “Guerra do Pente”, uma história curitibana que comoveu

 .

O fim do conflito entre árabes e judeus está longe de acabar. Mas na casa número 1 de uma pequena rua do Abranches, atrás da Pedreira Paulo Leminski, em Curitiba, a paz é possível. E não é de hoje. Ali mesmo, no quintal, debaixo de uma cerejeira e do latido da cachorrada, o psicólogo social Jamil Zugueib, 62 anos, já promoveu uns tantos colóquios sobre o Oriente Médio e outros embates da hora.

“Sou um libertário”, gaba-se entre baforadas de Marlboro o homem calvo de cabelos longos, em golas de padre, sotaque indecifrável – uma figura que parece saída dos livros de Milton Hatoum ou Raduan Nassar. É meio Che Guevara, meio monge João Maria, mas tão familiar quanto nosso vizinho árabe mais próximo, e não são poucos. O “turco” Jamil, como é chamado – sem se importar com o erro que costuma deixar sírios e libaneses a três palmos do chão – tem de fato um deserto e mais 1.001 histórias no currículo.

Professor do curso de Psi­co­logia da UFPR, pesquisador de comportamento em situações de conflito social, fez trabalhos em hospitais psiquiátricos e no Instituto Médi­co-Legal. Nos anos 90, iniciou um intercâmbio de estudos no Líbano, o que lhe permitiu proezas como subir a montanha e ter com os “drusos”, etnia “nada confiável” da qual tanto seu pai falava.

À moda árabe, em 2010 devolveu a hospitalidade brindando os conterrâneos com seus estudos sobre uma história que presenciou na infância, ocorrida em 1959, na Praça Tiradentes – a Guerra do Pente. “Foi uma manifestação de xenofobia, sim”, afirma, sobre o quebra-quebra iniciado num bazar libanês, mobilizando cerca de 2 mil manifestantes. Foram 181 casas comerciais. E um exemplo da bestialidade das massas.

Você já sofreu discriminação por ser árabe?

Não. Mas por ser um pouco diferente dos curitibocas, sim. [risos] A culpa de algum curitibano ser tão arredio deve ser do pinhão. Só pode ser isso. Tem alguma coisa ali…

O que significa seu nome em árabe?

Jamil quer dizer “bonito”, “gente boa”. Zugueib se refere às penas de um passarinho. Mas aqui sou o turco Jamil, o Turquinho. Acho carinhoso.

Já rolou algum conflito com as origens?

Bom, já fiz de tudo na vida. Fui, inclusive, jornalista em uma revista de turismo. Corria atrás de anúncios e falava com gente de todas as etnias. O árabe me parecia o mais pão-duro. Foi quando comecei a idealizar. Gostaria que fossem mais graduados. Acho que a gente podia ter representatividade cultural mais forte. Por exemplo, o nosso vice-presidente, Michel Temer. Ele é filho de libanês, mas o que ele tem de árabe? De quem mais dá para falar? Do Maluf? Nem pensar.

Como é uma casa libanesa?

A principal marca é a “anfitrionice”. As famílias são muito alegres e gostam de receber bem. A mulher, pelo menos em países como Síria, Egito e Jordânia, é muito forte e tem orgulho dos filhos. É parecida com a mãe italiana – histriônica, berra, chora, mas sempre está ali. Mas a família árabe, quando é um pouco mais intelectualizada, tem um quê de melancolia. Acho que é porque muitos vivem no sonho do despontar da cultura do ano 1000. O grande Salah Ad-Din [1138-1193] ainda é o paradigma do guerreiro valoroso e honrado. Foi um grande líder na luta contra os cruzados, retomou Jerusalém dos cristãos, sem matar ninguém por vingança, inclusive defendendo os judeus.

Como os árabes veem o Brasil?

Acham que é o Éden. Carnaval, caipirinha, churrasco e dinheiro para ganhar. Além do futebol. Na Copa do Mundo torciam pelo Brasil. Mas sempre criamos estereótipos, principalmente quando estamos muito longe. Aqui estamos no bairro Abranches, longe de tudo [risos].

Como seu pai reagiu ao saber que você iria estudar Psicologia?

O sonho do meu pai era que eu fosse para a Aeronáutica. Mas a leitura de Monteiro Lobato fez com que eu me interessasse pelo mundo grego, e, já no ginásio, pela Filosofia. Um dia falei com o padre Emir Calluf para saber a diferença entre Psicologia e Psiquiatria. Escolhi. Meu pai ficou triste: “O que é esse troço? Que coisa horrorosa. Vai ficar pobre” [risos]. Meu pai viveu 94 anos. Aos 90 ainda dirigia e batia o carro para burro.

Seu pai, enfim, foi determinante, como nos livros do Milton Hatoum e Raduan Nassar…

Tenho passaporte libanês, mas sou brasileiro. Meus pés estão aqui, nas várzeas do Rio Iguaçu. Tal qual o Caetano Veloso falou: pus os meus pés no riacho e acho que nunca os tirei. Meu pai colocava discos de música árabe aos domingos, comíamos kibe e ele se lembrava do Líbano. Falava muito da etnia drusa, que realmente era muito perigosa. Isso ficou gravado na minha memória. Mais tarde, para saber quem eram os drusos, fui até o Líbano e subi a montanha. Mas há um ditado: “Para comer, vá na casa de um druso. Para dormir, na casa de um cristão.” Um druso te trata muito bem, mas pode te matar à noite.

Você virou objeto da sua própria pesquisa?

Fiquei emocionado com minha pesquisa. Eu nem imaginava chegar lá. Depois, na Síria, onde tudo é esturricado, eu estava louco para vir embora. Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá. As aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá. Gosto muito de pássaros, e lá tinha só dois ou três passarinhos vagabundinhos.

Qual o lugar da loucura e da histeria no estudo?

Eu trabalhei muito em hospital psiquiátrico. Agora, pesquiso a resistência psíquica em tempos de guerra. O que faz alguém gostar tanto de uma terra a ponto de defendê-la com a própria vida? Sei lá: é como um torcedor do Coritiba e um atleticano. A camisa rubro-negra só se veste por amor. Atlético até morrer [risos]. Comecei essa história com o Lampião, lá na infância…

Conte para nós…

Minha avó materna, uma russa-prussiana, contava muitas aventuras do Lampião. Foi sobre ele o primeiro livro que comprei, aos 14 anos. Sempre fui fascinado por figuras marginais, na linha dos “rebeldes primitivos”, dos quais fala o historiador Eric Hobsbawm. São os bandidos de honra, como o Lampião e o Robin Hood.

Como você vê as revoltas da Primavera Árabe?

Formidável. Em Damasco floresceu porque o povo não aguentava mais o Bashar Assad. Claro que saem na imprensa mentiras sobre o mundo árabe, como na execrável Veja. Tem gente que manda dinheiro para o Hezbollah, claro, mas não há quem, morando aqui, vá servir o Exército em Israel?

Alguma rusga com os judeus?

Tenho amigos judeus, trabalho, estudo com eles. O que faz o homem é a palavra dele, a conduta. Em Jerusalém pedi informação na rua para um hassídico, que é bem radical. Ele não respondeu, cutuquei com o dedo. Ele quase cuspiu na minha cara. Se me desse um tapa, eu revidaria. Seria uma briga feia…

Seria uma Guerra do Pente em Israel…

[risos] Sim, mas lá o clima é muito mais pesado. As feridas estão abertas desde as Cruzadas…

Você pesquisou a Guerra do Pente. Essa história lhe pertence?

Lá pelas tantas, comecei a relembrar da minha infância no Uberaba, no meio de ucranianos. Eu escutava: “Ei, turquinho, veio roubar o Brasil?” A recordação da Guerra do Pente veio junto. Eu tinha uns 11 anos e estava na casa de uma tia. Lá pelas 6 horas da tarde, meu tio falou que estava comendo o pau na Tiradentes porque um turco vendeu um pente e o cara pediu a nota.

Como foi o conflito?

A Tiradentes era a Turcolândia [risos]. Havia a campanha “seu talão vale um milhão”. O pessoal pedia nota fiscal, valia uma fortuna. O cara pediu para o árabe, o Hajj, por causa de um pente, eles se estranharam e o sujeito falou um palavrão. Foi por causa disso que tudo começou. Mas tinha xenofobia. Tanto é que, no segundo dia da guerra, os manifestantes desceram a Praça Tiradentes, assustando os árabes da Casa 3 Irmãos. Um deles deu um tiro no chão. Foram dando murro no sujeito até a Praça Zacarias. Ele foi parar no hospital, em estado grave. Depois virou bagunça. Só parou quando a garoa veio [risos]. A massa não tem forma, vai pelo impulso.

O que mais surpreendeu na pesquisa?

Achava que o Hajj tinha ficado marcado. Imagine o que significou para um turco ter loja toda quebrada, ainda mais nas vésperas do Natal. Mas em três dias ele já estava trabalhando. O Ali, um dos filhos do Hajj, fala que havia inveja porque a loja estava crescendo, pagava caminhonete para fazer propaganda nos bairros. Outra hipótese é que o cliente do pente teria dito que foi na Casa da Pechincha, de um judeu, e que lá fora bem atendido. Uma provocação. Chegaram a dizer que tudo nasceu de uma orquestração do Partido Comunista.

Loucura…

Outra condicionante é que havia gente saindo do trabalho naquela hora. E um boteco do lado da loja. É o lúmpen proletariado de qual falo. Atrás vieram os desocupados, os loucos pirados de tudo que é espécie. Os abilolados são atraídos pela massa. A Maria do Cavaquinho estava lá. O Sacarrolha. O Chupeta.

Que interesse esse episódio despertou no Líbano?

Em 1959 saiu no jornal do Líbano algo como “quebra-quebra contra os libaneses em Curitiba”. Quando eu fui, contei a história para doutorandos. Falei da vontade de vencer, o que para o libanês é muito forte. Hajj partiu para frente, assimilou o Brasil, isso agradou muito, porque é um valor para os libaneses.

Estamos sempre à espre­i­­ta de uma guerra do pente…

A etnização do mundo está perigosa. O mundo está caminhando para uma agudização de sentimentos. E tem o individualismo. Hoje mesmo [dia 12 de julho] na CBN ouvia sobre o Dnit. Como o povo aceita isso, cadê a UNE? Os diretórios acadêmicos não fazem nada. No meu tempo era filme, debate, hoje fazem gincana. São crianças. Acho que estou velho.

por ROSANA FÉLIX E JOSÉ CARLOS FERNANDES.

MONIZ BANDEIRA: “Legalidade foi o primeiro levante civil a impedir um golpe”

Entrevista concedida a Eleonora de Lucena. /SÃO PAULO

 

A Campanha da Legalidade não deixou nenhum legado, pois o golpe frustrado em 1961 aconteceu em 1964. A avaliação é de Luiz Alberto Moniz Bandeira, 75. Como repórter, ele testemunhou, de Brasília, a crise da renúncia de Jânio Quadros e os debates para a implantação do parlamentarismo.

Historiador e cientista político, ele é autor de livros como “A Renúncia de Jânio Quadros e a Crise Pré-64″ [Brasiliense, 1989] e “O Governo João Goulart – As Lutas Sociais no Brasil (1961-1964)” [Civilização Brasileira, 1977].

Nesta entrevista, Moniz Bandeira analisa a crise militar desencadeada pela Campanha da Legalidade e a adesão do Terceiro Exército ao movimento contra o golpe.

Folha – Qual o significado político e militar da Campanha da Legalidade? Qual o seu legado?

Luiz Alberto Moniz Bandeira – A Campanha da Legalidade possibilitou que, pela primeira vez na história do Brasil, um levante civil, ao qual 3º Exército aderiu, impedisse um golpe de Estado. Não creio que tenha deixado nenhum legado pois o golpe militar, frustrado em agosto/setembro de 1961, foi consumado em 1° de abril de 1964.

O sr. concorda com a avaliação de que a campanha causou uma cisão inédita nas Forças Armadas brasileiras?

Sempre houve distintas tendências políticas nas Forças Armadas, porém os militares, na sua imensa maioria, tinham formação legalista e de respeito à hierarquia e à disciplina. Um dos pressupostos da Aliança para o Progresso, lançada pelos EUA há 50 anos, era não reconhecer governos que resultassem de golpes de Estado ou revoluções e não obedecessem às normas do regime democrático-representativo. Esse pressuposto colidia com a diretriz do Pentágono, que, considerando as Forças Armadas como a organização social mais estável e modernizadora na América Latina, promoveu a mutação na estratégia de segurança continental, com a doutrina da Civic Action (Ação Cívica). Essa doutrina incentivou os militares a participarem da política interna em seus respectivos países, a fim de conter um suposto avanço do comunismo.

Como explicar a conduta do comandante do Terceiro Exército naquele momento?

O general Machado Lopes, comandante do 3º Exército, relutou a princípio em aderir ao movimento. Disse que era um soldado e que cumpriria ordens. Porém, tinha formação legalista e, com o levante popular promovido pelo governador Leonel Brizola e com a mobilização da Brigada, ele deve ter percebido a justa causa da campanha.

Jango e Brizola divergiram naqueles dias. Quem tinha razão? Como o sr. os define?

Divergências entre Jango e Brizola sempre ocorreram. Os dois tinham temperamento e estilo político diferentes. As variáveis são muitas e avaliar a razão de um ou de outro não passaria de especulação. Estou convencido, porém, de que a marcha sobre Brasília defendida por Brizola não seria simples passeata. Haveria luta armada. Carlos Lacerda, governador do Estado da Guanabara, tinha apoio militar e estava envolvido na articulação do golpe.

A mobilização, que incluiu a distribuição de armas à população, é comparável a outros episódios da história brasileira?

Brizola não distribuiu armas a toda a população. A Brigada Militar distribuiu apenas 2.000 revólveres, calibre 38, com uma caixa de balas, mediante recibo. E pediu à indústria Taurus que aumentasse sua produção de armas, inclusive metralhadoras leves. Foi um ato heroico, porém não haveria condições para um enfrentamento armado se o 3º Exército não aderisse à campanha.

Como o sr. acompanhou os fatos naquele momento?

Eu estava em La Paz, hospedado na residência do embaixador do Brasil, Mario Antônio de Pimentel Brandão, quando ele me mostrou telegramas do Itamaraty sobre o agravamento da crise política. Decidi regressar imediatamente ao Brasil. No dia 25 de agosto, tomei o avião para Santa Cruz de la Sierra, onde embarquei para o Brasil, em aparelho da companhia Cruzeiro do Sul. E, ao chegar a São Paulo, por volta das 14h, escutei a notícia de que Jânio Quadros renunciara à presidência da República, pois Carlos Lacerda, governador do Estado da Guanabara, havia denunciado pela televisão que ele estava a articular um golpe contra as instituições, a fim de adquirir poderes especiais, por meio do ministro da Justiça, Oscar Pedroso d’Horta. Com as informações que possuía, foi-me fácil concluir que Lacerda havia lancetado o tumor. Viajei então para o Rio, e João Dantas, o proprietário do “Diário de Notícias”, onde eu era editor político, mandou que fosse imediatamente para Brasília acompanhar a evolução da crise.

Acompanhei os acontecimentos de dentro da Câmara dos Deputados, pois o deputado Sérgio Magalhães, meu amigo pessoal e em cujo apartamento sempre me hospedava, assumira a presidência do Congresso quando o deputado Ranieri Mazzilli foi investido na presidência da República. Tinha muitas informações de bastidores e cujas fontes (muitas das quais militares) não podia revelar. Assim, dois meses após a renúncia, em novembro, publiquei o livro “O 24 de Agosto de Jânio Quadros”, no qual deslindei o enigma, ao mostrar que ele renunciou à Presidência da República esperando voltar ao governo com o apoio das multidões. O respeitável jornalista Carlos Castelo Branco, seu secretário de imprensa, ouviu-o dizer a Francisco Castro Neves, ministro do Trabalho: “Não farei nada por voltar, mas considero minha volta inevitável. Dentro de três meses, se tanto, estará na rua, espontaneamente, o clamor pela reimplantação do nosso governo”.

Como o sr. acompanhou Jânio Quadros?

Em janeiro de 1960, com 24 anos, eu era redator político do “Diário de Notícias”, e seu diretor determinou que eu acompanhasse Jânio na campanha eleitoral, que ele estava a começar. Nunca fui simpatizante, muito menos partidário de Jânio. Porém, não podia deixar de cumprir a ordem. Viajei com Jânio seis meses, durante todo o primeiro semestre de 1960. Na viagem, escutei diversas vezes Jânio declarar que processaria o Congresso perante o povo, promoveria sua responsabilidade, caso ele não lhe desse as leis que pedia, culpando-o pela situação do país. Jânio manifestava o inconformismo de ter de governar dentro dos marcos constitucionais. Repetia que não poderia governar “com aquele Congresso”.

A Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul, Jânio disse que, “com aquele Congresso”, dominado pelos conservadores, não poderia avançar para a esquerda, tomar iniciativas para reformar as instituições e promover a transformação da estrutura econômica e social do país, com a limitação das remessas de lucros para o exterior, a criação de uma lei antitruste e a implantação da reforma agrária. Precisava, portanto, de poderes extraordinários. Seduzido, Brizola comentou com o ex-presidente Juscelino Kubitschek o objetivo de Jânio Quadros e sua disposição de apoiá-lo.

Porém, com Carlos Lacerda, a conversa era diferente, embora a conclusão fosse a mesma. “Com aquele Congresso”, dentro do regime democrático, não poderia governar, sem fazer “concessões às esquerdas e apelar para elas”. Necessitava, em conseqüência, de poderes extraordinários. Percebi que sua pretensão era jogar a opinião pública contra o Legislativo e, provavelmente, dar um golpe de Estado sui generis. A deflagração da crise, portanto, não me surpreendeu.

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fotos do site.

A poeta Marilda Confortin entrevista o poeta J B Vidal / ilha de santa catarina

ENTREVISTA PUBLICADA INICIALMENTE NA:

Revista ContemporARTES – semanal

PEQUENA ENTREVISTA COM O POETA JB VIDAL


por Marilda Confortin

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Conheci João Bosco Vidal em Curitiba, no Café & Cultura, onde nasceu um movimento batizado de “Quinta dos Infernos” que reunia poetas, músicos, jornalistas, artistas plásticos e outros bichos grilos. Tanto o café quanto o movimento foram devorados em menos de três anos pela massa antropofágica curitibana que insiste em contradizer Lavoisier: Aqui, nada se cria, nada se transforma.

Gaucho  de Bagé, administrador por profissão, JB Vidal atuou no meio empresarial, político e artístico cultural da cidade de Curitiba e do estado do Paraná.  Muitos dos poetas jovens que freqüentam a noite curitibana, foram influenciados pelo seu jeito irreverente de ser. Irrequieto, questionador, dono de um texto contundente e de uma língua ferina, sua mãe costumava aconselhar “cuidado com as más companhias, Joãozinho”. Pessoalmente acho que o Vidal  conviveu consigo mesmo por um tempo muito longo e só recentemente compreendeu o que sua mãe dizia.

Tratou de se reinventar. Mudou de residência para Santa Catarina, sem avisar ninguém e agora vive com sua mulher Rosangela numa acolhedora casa em Florianópolis, na praia dos Ingleses, onde tem a piscina mais quente e a cerveja mais gelada do sul do Brasil.

Dedica-se ao seu blog cultural Palavras todas Palavras, escreve diariamente, está com o livro de poesias “Ofertório” no prelo e realiza uma pesquisa sobre personalidades catarinenses que resultará num documentário a  ser lançado ainda este ano.

Estou passando o carnaval em sua casa. Coisa que nunca pensei acontecer. Em outros tempos, já teríamos nos “matado”. Entre uma cerveja e outra, um amigo que chega outro que sai, uma música interpretada pelo violonista GG Felix, Vidal acaricia uma costela que assa na brasa “e não é de boi nelore”, previne ele, enquanto fala sobre as raças de gado mais indicadas para um legítimo churrasco gaucho e conversa sobre literatura, arte, vida.

Pegando emprestado um comentário do amigo escritor Ewaldo Scheleder que disse “ O Vidal está insuportavelmente melhor”, inicio a inquisição perguntando:

M: – Qual foi o motivo dessa transformação?

JB: – Não sei o que ele quis dizer com isso,eu era pior? Sob que ponto de vista? Melhorei, sob que ângulo? Criei barriga? Fiquei careca? me pareceu mais uma piada do que um pensamento filosófico. O homem nasce para evoluir em todos os sentidos. Nasce bebê e torna-se adulto. Nasce totalmente ignorante e torna-se culto. Evidentemente que é uma minoria, na questão do conhecimento…claro! a maioria continua como se fossem bebês, em razão dos sistemas em que vivem, “maria vai com as outras”, vaca de presépio. Arrastam-se pela vida sem saber do que se trata. Votam em ladrões e acham que eles são muito espertos, cultuam a beleza física como se isso fosse levar a algo mais que uma trepada. Enfim, a humanidade é uma lama que só serve ao banho de alguns poucos. Então, essa evolução do homem é que está me reinventando, me refazendo, imagino. Abandonando as carcaças do percurso, me afastando do que ou quem não me acrescenta nada, e aproximando-se mais de mim mesmo, agora, não antes como você afirmou na sua apresentação. Por fim, te digo que não foi a Ilha de Santa Catarina, foi a vida mesmo. Fiz um balanço muito dolorido, por longo tempo, acho que por três anos de crítica e autocrítica, e o resultado foi mais dolorido ainda, aí você tira lições e muda, ao mudar evolui. Nem toda mudança é crescimento, óbvio. Não foi amadurecimento, não, foi constatação da necessidade de dar um salto à frente, ascender na escala, tentar pelo menos. É mais ou menos isso, em resumo, para não ser chato. Aliás, acho que a maioria dos teus leitores, a esta altura, já clicaram noutros links rs rs

M: – Pode até ser, Vidal. Mas não vou fazer apresentação acadêmica dos poetas. Não sou crítica literária e nem escrevo para adoradores de poetas mortos. Escrevo sobre poetas vivos para pessoas que querem saber o que está acontecendo agora, nesse exato momento. Por falar nisso, como está indo o seu livro Ofertório? Conte-nos.

JB:- Esse conjunto de poemas que chamo de OFERTÓRIO, é, bem provável, o início dessa mudança. Marca um período de reflexões sobre o homem e seu mundo atual. E a partir do meu olhar, tento oferecer o que me vai na alma, ou seja ofereço as experiências dos meus sentidos e de alguns sentimentos. Sendo o mais honesto possível, ofereço-me, poeticamente é claro rs rs.

Do livro Ofertório, vou antecipar para os leitores, um poema visceral, sobre o qual o escritor João Batista do Lago teceu uma longa e rica análise:

OFERTÓRIO-DOR
.
a dor que ofereço não foi provocada
nem apascentada por mim e a solidão
veio com a chuva, c’os raios
com os anéis de saturno, na cauda do meteoro
fez poeira de lágrimas
e instalou-se nesta podridão
.
soube então da dor de parir
e parido fui,
da dor da fome e fome senti
da dor do sangue e o sangue correu
em minha’lma gnóstica
a dor assumiu e sobreviveu
.
quero então oferecer
esta dor maior que o corpo
mais que desprezo e humilhação
mais que guerras e exploração
mais que almas aleijadas
mais que humanos em farrapas degradação
.
ofereço a dor do amor que amei
da partida sem adeus
da saudade sem sentir
da espera inquietante
do futuro irrelevante
da ânsia divina de morrer
.
Poema de JB Vidal
.
(…) “em qual casa eles se encarna para construir o equilíbrio para poder deblaterar sua dor? Eis aqui a questão central: antes de ser “jogado no mundo”, somos “abrigados” na “casa”. Ou seja: antes de tudo – de tudo mesmo – somos “encarnados” na mundanidade das casas. Somente a “casa”, e em especial a “casa natal”, nos fornece os elementos essenciais para o processo de aprendizagem e de apreendidade do mundo. Que imagem fenomenal, caro leitor! Ao ponto de me fazer lembrar da Alegoria da Caverna, de Platão (e traçar uma analogia, aqui e agora, sobre isso tornaria este artigo muito extenso). Quem de nós, porventura, por um instante sequer, não já projetou ou projeta a “sua” casa como “campo de concentração de segurança”? Com certeza todos! Mas, qual é a “casa” dos “sujeitos” que falam nas poesias? É a casa primeira: o corpo. É no corpo que habita a poesia. É no corpo que habita o poeta. É no corpo que a poesia é encarnada. É no corpo que o poeta é encarnado.”
Trecho da análise de João Batista do Lago, publicada originalmente no site do poeta Vidal: http://palavrastodaspalavras.wordpress.com

Lá pelos idos de 2004, participei de um encontro de poesias no Uruguai. Levei comigo vários livros e poemas avulsos de escritores brasileiros para distribuir entre os poetas estrangeiros. Um deles foi um folder de poesias do JB Vidal, impresso especialmente para o evento e muito bem ilustrado pelo artista visual RETTA. Foi disputadíssimo. O poema COMA causou arrepios entre os participantes:

COMA

nasço e inauguro em mim a trajetória da morte,
início e fim, siameses do útero à campa,
como fonte, me insurjo, resisto,
consciente de sua presença, prossigo
sepultado vivo na matéria,
com a alma esgarçada na miséria
de um momento que ela mesma desconhece,

.

não há passado para o início não haverá futuro para o fim,

.
o que será dos meus pensares?
da razão? o que ficará dos sentidos?
das agonias, dos sofreres,
dos sentimentos, penso profundos,
o que será dos meus saberes?
não me falem de exemplos,
experiências, conhecimentos,
como óbolos para quem vem a seguir,
para eles há futuro, esquecer
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não me venham com alegorias cenobitas,
relações de fé-imagem, palavras-reveladoras,
crenças obtusas oferecidas em sacras mansões, não!
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digam apenas que estou louco,
que me debato em trevas,
que abreviei a trajetória,
que vivo morto por querer viver depois.
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Poema de JB Vidal
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M:- Vidal, me conte como foi escrito este poema?
JB:- Teria minha cara Marilda que contar minha vida, o que seria muito monótono e sem graça. Mas, para matar um pouco da curiosidade, foi escrito numa madrugada fria (curitibana) e não levou mais que 3 minutos. Não houve correções. Como nasceu ficou. Para sua composição não houve uma razão explícita.
É… Vidal é assim. Tem hora que não se consegue arrancar mais nenhuma palavra dele, exceto uma frase como essa que define sua personalidade: ”Me odeie e eu respondo. Me ame e eu me calo”.

Já meio incomodado com minha conversa, pergunta se estou com fome, se quero mais uma cerveja, se não quero dar um mergulho, se… Brinca com Lenon – seu enorme cão akita branco e simpático – que se debruça no parapeito da janela da cozinha com as patas uma sobre a outra, igual um bêbado pedindo uma pinga no balcão.

Lanço um osso para o Lenon e arrisco uma pergunta final.

M:- E agora, Vidal? Que tipo de poesia essa nova fase nos reserva? Pode mostrar pelo menos uma?

JB: – Ainda está cedo. Nem sei se já existe uma nova fase e se escrevo sob o império dela, mas realmente tenho escrito muito até porque, agora, tenho todo o tempo disponível para fazê-lo. De qualquer maneira o ambiente da Ilha me entusiasma para novas incursões, como você se referiu estou na fase de pesquisa sobre personalidades catarinenses que tenham sido, realmente, fundamentais para o desenvolvimento político, econômico e cultural do estado a partir de 1960 até os dias atuais. Penso, também, editar e jogar pelas praças e feiras, no chão evidentemente, meus 5 livros de poesia, 3 de contos e crônicas e um romance que pretendo finalizar aqui depois de 4 anos escrevendo…é pouco, mas já dá para os críticos se divertirem e manterem seus salários das editoras que compõem o famigerado “mercado editorial”.

Insisto para que me mostre uma poesia nova. Não mostra. É hora de parar com essa conversa. Convida-me para conhecer a poesia que salta aos olhos nos mares do sul de Florianópolis.

Depois, gentilmente manda-me alguns textos por email, dizendo que achou nossa conversa um tanto pobre. Deixo esses últimos textos aqui para que degustem e espero que discordem dele quanto a pobreza. Oxalá todos os poetas fossem tão ricos quanto você, Vidal.

era o tempo…

era o tempo em que eu voava, de folha para galho, sobre oceanos, rochedos, e os rochedos eram moles, era gelatina os mares, as árvores, eram de papel e o papel não se deixava escrever, a tinta só no mundo, na pata não, meus irmãos corriam, de uma sombra para outra, no solo, e o solo era de nuvens, brancas, e não faziam sombras, as sombras brincavam entre elas, e elas me assustavam quando caiam no precipício, de brincadeira, que susto, e o susto era bom e eu assustava também, e o também, também se repetia, e a repetição era voar no mesmo lugar, brincar na mesma nuvem, e as nuvens subiam e desciam, e descer era subir, subir no mais baixo possível, quando subiam, era descer no mais alto possível, e os que viviam nos mares andavam sobre fogo, e o fogo era bom, bom e frio, e o frio, bem não sei, nunca estive na gelatina, mas não era ruim, segundo sei, e saber era sentir, sentir era mudar de rumo, e o rumo voltava, e eu ia e voltava, quando voltava era outra paisagem, e a paisagem mudava e voltava, e eu ia só para a que mudava, e não era mais, mas não voltava, voltava voando para a frente, e para frente era atrás, e atrás não existia, existia o vento, e o vento era meu, e meu era de ninguém, mas era meu, e eu voava nele, e ele deixava, e eu dominava ele, ele sorria, e sorrir era também chorar, e chorava de alegria, e alegria era tristeza, e a tristeza era boa, porque era boa a gente sofria, e sofrer era ruim, mas o ruim pode ser bom, e o bom pode ser mau, e o mau, não sei nunca fui mau, mas eu voava sobre o mau e o mal, e o mal não existia, como o bem também não, e o não era perfume, e o perfume, bem…o perfume…era eu, e eu era o próximo, e o próximo era todos, e todos brincavam, e brincar era trabalhar, e trabalhar era fazer, e fazer era destruir, e destruir era preto, e preto era verde, e verde não tinha cor, porque a cor era o nada, e o nada era branco e tudo, como esta folha de papel.

ETERNO     

meu corpo no teu
acende a dúvida

ser ou estar

eu!? nós!?
gozo cósmico!?

prazer em deixar-me ir
onde estás ou sejas

sou inteiro em ti

estou metade

PRISIONEIRO

nas mãos
cartas
datas
tempos
épocas
coração rítmico
arritmico
desritmico

meus lábios esmagam versos.

SANTA BOEMIA

Deus!

és o mais sábio dos poetas
pois fizestes morada no cosmos
onde é sempre madrugada!

Poemas de J B Vidal

1 comentários:

Altair disse…
Grandioso feito, dona Marilda! Este JB Vidal é ótimo. Tenho visto-o impressionar profundamente aqueles que ouvem suas declamações, sobretudo os poemas desta peça intitulada “Ofertório”. Já ler seus textos é bem mais raro, o poeta parece um pouco avesso às publicações. Então conseguir esta entrevista, ainda que pequena e de viés, é uma coisa grande! Nunca soube que ele tivesse concedido entrevista a ninguém. Parabéns aos dois, pois!Os poemas são definitivos!Altair de Oliveira.
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