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UMA DESCOMPOSTURA EM DIÓGENES – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

 Uma descompostura em Diógenes

Útil, a arte não deve ser útil,

são os utensílios que deveriam ter inutilidades.

Que se faça em tudo que é útil,

belas inutilidades.

Um caixa eletrônico aonde o extrato venha dobrado em origamis em forma de peixe

e  talheres com lente de aumento para examinarmos

com mais riqueza de detalhes como é belo o azeite

sobre a salada.

Que façam

estradas com aquelas descidas que causam inércia

e dão um friozinho na barriga

que as crianças gostam tanto .

E os navios cargueiros em formato de patinho de banheira,

ou contêineres em legos gigantes.

Tirem das prisões,

o minimalista reto e objetivo das grades,

que sejam substituídas por grades barrocas e exageradas,

grades cinzeladas, folheadas a ouro,

reproduzindo querubins com safiras nos olhos, grades que elevem.

Porque o útil é uma mentira.

É uma mentira.

A utilidade das fábricas, é uma mentira,

e do aço da máquinas,

das precisas correntes, dos processos, da estrutura das linhas de produção,

é uma mentira a utilidade da automação.

Útil é a água, transformá-la em refrigerante, dar sabores, uma doce inutilidade.

Útil e a água, transformá-la em cerveja, dar-lhe o reconfortante álcool

é uma inutilidade prazerosa.

São inúteis as grandes fábricas de tecidos,

o que move a indústria de roupas não é a utilidade, mas a criativa moda.

E a utilidade das colheitadeiras,

também  é uma mentira.

A utilidade das plantações, dos rebanhos,

a utilidade da soja é uma mentira, a utilidade do trigo é uma mentira.

Útil é o trigo, mas em donuts, em brioches e croissant,

são todos uma gostosa inutilidade.

É uma mentira a utilidade da medicina, uma mentira.

Mas com que coragem

enfrentam com suas insignificantes armas,

seus avanços postergadores, com suas  máquinas

ineficazes, seus pequenos bisturis e analgésicos,

o inevitável.

Como é bonito

ver um corpo  em uma oferenda inversa

e os ritos das operações,dos tratamentos,das quimioterapias,

tentando retirar o homem da morte.

É uma mentira a medicina,

mas como são destemidas,

como são renitentes  e sábias

suas utópicas e caras  tentativas heróicas de vencer  o inevitável

sem nunca ter conseguido, uma só vitória.

É uma mentira a utilidade

das minas de aço, da extração do petróleo,do cobre, do ouro,

todos retirados para fazer mover a magnífica futilidade dos homens.

Sim, Sim.

É a inutilidade que move os trens, os caminhões, os aviões,os navios

que abre novas rodovias,

e nos trazem e levam ao lixo,

os  magníficos eletrodomésticos descartáveis, os lindos sapatos fúteis,

os supermercados cheios de alimentos tão saborosos

com seus indispensáveis

e atávicos sais e calorias,

os computadores

com sua grande quantidade de espaço para a deliciosa pornografia,

sexo virtual e música,

As televisões e seus jogos de futebol e filmes violentos, panis et circus virtuais,

notícias quase sempre irrelevantes e entediantes novelas.

E o concreto,

o concreto

que constrói as casas,os edifícios, os shoppings

todos valorizados se excessivos e luxuosos

e desvalorizados se essencial.

É Verdade,é verdade  existe o útil

Mas o útil é sempre  primitivo e  rude,

existe ou existiu,

é seu pé e sua mão, seus instintos,

a fruta colhida,

a carne crua.

Já a inutilidade foi descoberta junto com fogo, com a primeira semente plantada

com as lanças.

nasceu junto com a inteligência ,

com a  inteligência,

que é a única inutilidade da natureza

e evoluíram juntos

descobriram metais, impérios ,calendários

e foram à lua.

Sim, foram à lua, a mais obscena loucura, a mais linda loucura da humanidade,

que magnífico excesso

bilhões e bilhões para nos trazerem uma dúzia de pedras.

E as religiões desde os primórdios tão desnecessárias e ricas,

com seus sempre poderosos sacerdotes,seus deuses e ritos surreais.

Oh!   A inútil fé, obrigado ,muito obrigado

por decoraram cavernas e fazerem monólitos,

por  construírem  as  ociosas pirâmides

e catedrais com vitrais.

Ah, o inútil, a quem devemos toda a civilização,

Todos os avanços,

dói,mas é

preciso desmascará-lo

quando  pedante e pretensioso,

quando  finge-se necessário,

e  engana os crentes há tantos milênios.

e  se auto-engana há tantos milênios,

que acredita-se imprescindível

e legisla,cria países e exércitos, veste togas e crenças

é cheia de funcionários,de parques industriais, de salas comerciais,

de ritos de poder

mostra-se arrogante

com a leveza delicada da arte,

que é puramente desnecessária,

quando é áspera com o sorriso,com as férias e os jogos eletrônicos.

Mas o inútil, o verdadeiro inútil, como é poderoso,

é mais indispensável que o útil.

Sim.Sim. Mais imprescindível que o útil.

Diógenes!

Diógenes!

Diógenes!

Como  estava enganado Diógenes!

Quando menosprezou o belo, o exuberante inútil

e se voltou para o tão primitivo necessário.

Devia ter acumulado inutilidades,

devia  ter feito muitas inutilidades,

estátuas, por exemplo ou mesmo poemas.

Acharia com mais facilidades os

verdadeiros homens  que com sua ineficaz lanterna.

Porque estátuas,

porque poemas,

são mais eficazes armas que lanternas.

Há em frente aos quadros, em frente aos livros

mais homens bons ,que na frente dos cofres e agências bancárias.

PREFIRO – de omar de la roca / são paulo

Coisas

Não quero me acostumar a certas coisas

a ficar sob constante anestesia.

Não sentir na carne a dor das coisas,

o sabor agridoce da poesia

das coisas.

Coisas demais.

Quero a luminosidade, a luz

e sua súbita cegueira.

Que dure um momento, ou a vida inteira.

Sem me poupar de mim mesmo.

Sem me acostumar com a rotina.

Sem que a violência seja banal, carnal, bem-vinda.

Assumida ou disfarçada, delicada, infinda.

Prefiro a dor da claridade na retina.

Prefiro escolher a cor viva sem ansiedade.

Nada de cantos escondidos, de maldade.

A dor sofrida da solidão.

Que todos saibam que prefiro a luz.

Que as vezes só me resta escolher

Entre a sombra e a escuridão.

Que me protege,

De mim mesmo e dos outros.

Que me sufoca, aperta,seduz.

Na área cinzenta, a qual pertenço,

aspiro ao ar transparente, iluminado.

Roto de cansaço.

Juntando os pedaços,

Ainda íntegro, uma coisa só.

Peregrino de incontáveis sóis,

Que a lua vem iluminar.

Pessoa ou coisa,

Ainda não sei.

CLAREIRAS – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

O sol estilhaçou-se em estrelas

     houve um cheiro de cio

naquele início de noite quente, embalsamada.

Os grilos retiniam cios

   pavoneavam suas orgulhosas caudas sonoras.

  E eu

  estava todo concentrado nos meus olhos

    eles escutavam os sons

      e tocavam as bromélias.

Estes meus pássaros castanhos

porque o resto de mim

é casulo.

A única parte visível do meu corpo

        meus braços brancos

                      eram objetos cruzados

por sobre a cerca de velhas tábuas cinzentas.

E acima deles via

os cimos com poucas folhas do outono

    os galhos negros como sombra

transpassados por estrelas

pareciam ter floração de estrelas.

A íris

passeava dos cimos à clareira,

   ia de uma constelação à outra

   (um beija-flor de estrelas).

Aspirava à movimentação silenciosa de

                                      Ursas, Zodíacos, Cruzeiro

quase sem quebrá-la com o mastigar das pálpebras.

Essas imagens eram musicadas por

                                       sentimentos

em uma composição que misturava em meu interior

antagônicas emoções

de paz, angústia, alegria, comunhão e solidão.

SETE CENÁRIOS DO BAILE DE MÁSCARAS – de zuleika dos reis / são paulo


                                             

1.

Se tivesses tido

com as mulheres

comigo

a mesma coragem

com que caminhas

nos outros todos campos

da tua vida

a minha vida

não se teria tornado

esta Mascarada

esta Inexistência.

2.

No baile de máscaras

eu, com a cara limpa,

sou uma aberração.

3.

Vesti também

as máscaras obrigatórias.

Como Fernando Pessoa

na Tabacaria

“Quando quis tirar a máscara

estava pegada à cara.”

 

4.

A velhice

nos chegou a todos

de chofre

no meio do baile.

Fomos para a praça

nesta quarta-feira de cinzas

para sempre.

5.

Em verdade

quem aprendeu com quem

a Mascarada

a Inexistência

o Teatro de Sombras?

6.

No meio da noite

o espelho do sonho

nos assombra a todos

mascarados

a dormir no vestiário.

7.

Assombrada

vagueio pelas salas

na procura inútil

do Mascarado que amo

com a sua eterna fala em meus ouvidos:

“Eu não te conheço.”

CANTO DE SEREIA – de joão felinto neto / mossoró

 

 

Como um canto de sereia

de belíssima harmonia,

letra correta, verdadeira poesia

e melodia

que eterniza nossa alma.

Por onde anda

a sereia encantada

nas profundezas desse mar de ignorância?

Letra incorreta com falta de concordância

e melodia

que nos faz perder a calma.

Só na lembrança,

o teu canto nos enleva

na emoção que tua voz nos faz sentir

e na saudade, o nosso coração desperta

pra realidade,

não há nada mais pra ouvir.

 

“ESTÂNCIA DA POESIA CRIOULA” a Academia Xucra do Rio Grande, lançou sua “ANTOLOGIA 2011″, está nas livrarias / porto alegre

PELE – de edu hoffmann / curitiba

Pele

 

 

 

 

 

a pele dorme sua derme

a pele colhe a que nos demos

 

igual se fosse vela

que vacila

à sombra dos Anjos

desvendando véus

das faces veladas

 

mas agora, aqui

parece até coisa de novela

nós debaixo desse céu

numa imensa azulada umbrela

 

nosssa mãos

haicai

feito uma luva

 

nossos pelos

a   flor

da pele

 

EDU HOFFMANN faz poesia para o artista visual HÉLIO LEITES / curitiba

Hélio Leites

Pega o pinhão pra Cristo

e faz da latinha de sardinha

um presépio

faz dos ramos rimas

da colher de pau um remo

que conduz pássaros, peixes

serra-acima

caixinha de fósforo sua alma anima

liliputiando sua imensa ternura

criador, criatura – única pantomima

Hélio faz em seu mundo de miniaturas

o anjo dormir no avesso das coisas

do material inútil nasce a beleza

Helioterapia faz dançar a periquita

na poesia de mais uma Heliogravura

Hélio e a sua sustentável leveza

.

HÉLIO LEITES trabalhando.

.

A CASA

fotos de BRUNA BAZZO.

EDU HOFFMANN e sua poesia IV / curitiba

Quarto Crescente

 

 

 

ah, minha sinhazinha

como é bom ouvir um blusão

tirando sua blusinha

 

poeta nua

sua boca me kiss

no moon da lua

 

o céu já me dizia

o céu já me falava

que você era o sol

que me faltava

 

 

 

 

 

 

 

  Buenos Aires

 

 

 

 

 

 

seu corpo tango

 

me veio vinho

 

 

 

beijos

 

o coração na boca

 

 

eu nunca assim sabia

 

 

negras meias

 

se despindo inteira

 

 

 

 

 

 

 

Perfume

 

chove chuva de chuveiro

é uma lisonja ensaboar

a quem a mui lejos foi monja

ela me disse que tudo passa

- passe bem de leve a esponja

 

melodias realejo

ambígua língua dançando

distraída no seu umbigo

 

blues no azul do azulejo

 

 

 

 

 

 

 

Gomos

feche os olhos ela me disse

assim assim, no boca-a-boca

e qual dicionário saberia

explicar coisa tão louca ?

eu tateava feito cego

perdido num braile de rimas

ah, música sempre ajuda

sol embaixo lua em cima

dois gomos abertos

suas coxas

afluentes

quentes lágrimas sem culpa

Amélias, Madalenas

quero dos seus travesseiros

que voem

tuas penas

 

VERSOS À BRIZOLA – de ademar adams / cuiabá

Leonel de Moura Brizola,
Legenda do meu Brasil,
Que nunca aceitou canzil,
Nem canga, maneia ou freio,
E agora te homenageio
De coração contristado,
Já que fostes pro outro lado,
Lá pro céu parar rodeio.

Foi prefeito, deputado,
Três vezes governador,
Um tribuno pajador,
Dos que não dão touceira,
E se lutou a vida inteira,
Pelo povo desta terra,
Sua morte não encerra,
A peleia na trincheira.

Enfrentou perseguição,
Da pátria foi exilado,
Por jamais fazer costado,
A patrão de além fronteira,
Pois, sua fé altaneira,
No brio da gente Brasil,
E enfrentou até fuzil
Com tiro de boleadeira.

Ao governar o Rio Grande,
Vejam a visão do Brizola,
Fez mais de seis mil escolas,
Pra ensinar o piazedo,
A aprender desde cedo,
O valor da educação;
E também fez revolução,
Iniciando a reforma agrária,
Contra uma elite, refratária
Que nunca reparte o pão.

Lutava por igualdade,
E tinha razão o paisano,
Que nunca jogou de mano,
C’ o capital estrangeiro,
Ele encampou altaneiro,
A energia e o telefone,
E então marcou seu nome,
De grande herói brasileiro.

Lembremos sessenta e um,
Quando levantou o Rio Grande,
Num grito que se expande,
Pra imensa brasilidade,
E no brado: “legalidade”!
A força da lei garantiu,
E João Goulart assumiu,
Pra nossa felicidade.

Na quartelada sanguinária,
De abril de sessenta e quatro,
A traição falou mais alto:
Derrubaram João Goulart,
Um homem bom, um baluarte,
E que faria a reforma,
Mas rasgaram toda norma,
U’a Milicada sem quilate…

O Brizola tentou resistir,
Foi levantar o Rio Grande,
Mas o Jango não quis sangue,
Tomou o rumo do exílio,
E morreu como andarilho,
Esperando sempre o levante,
Chorando a pátria distante,
Um Brasil fora do trilho.

Quinze anos desterrado,
Mas o Brizola sobreviveu,
Voltou para o povo seu,
Para cumprir o seu destino,
E derrotar o tal malino,
O capital estrangeiro,
Que no solo brasileiro,
Diz a missa e bate o sino.

Por isso lá nas estranja,
Tinham a grande temência,
O Brizola na presidência,
Faria levantar poeira,
E acabar com bandalheira,
Com coragem e qualidade,
Iria gritar: Liberdade!
Para a nação brasileira.

De tudo que produzimos,
O lucro vai pro exterior,
Nosso povo sofredor,
Sem saúde e moradia,
Vive em eterna agonia,
Nesse modelo que estiola,
Que sempre o velho Brizola
Combateu com galhardia.

Na luta pra presidente,
Enfrenou mal o cavalo,
E foi golpeado de estalo,
Para o mal desta nação,
Usaram a televisão,
Pra fazer daquela figura,
O Filhote da Ditadura,
Um presidente ladrão.

A marca de estância velha,
Que colaram no patriota,
Dizendo que era lorota,
A sua forte pregação,
E honesto por religião,
Dizia que todo o mal,
A perda internacional,
Era o câncer da nação.

Mas não parou de pelear,
Mesmo depois dos oitenta,
Ele tinha fogo na venta,
Maragato de qualidade,
Padrão de moralidade,
Neste país que é sem sorte,
E foi-se pra outros norte,
Deixando enorme orfandade.

Foi se encontrar c’o Getúlio,
Com Jango e dona Neusa,
Aquela que foi sua Deusa,
No inverno e no outono;
Mas no pago do eterno sono,
Tem outro encontro de fé,
Para gritar com o Sepé,
Que “esta terra tem dono”!

Ademar Adams – junho 2005

Final de tarde – de tonicato miranda – curitiba

 

para Helena Kolody

 

felizes os que morrem com a tarde

finando seu ciclo de claridade e luz

felizes daqueles diante de um copo

a mirar a própria lágrima derretida

 

felizes os seres estes que mugem

vejo o azul cobalto na flor do maracujá

vejo um prego coberto de ferrugem

e belezas na luz da tarde a soçobrar

 

felizes os que sabem um sopro soprar

beijando no lábio a musa tão querida

ah esta tarde derramando-se na noite

leva-me contigo onde outras tardes há

 

feliz aquele que perdoa sua tristeza

nada mais vejo agora no céu a chorar

a folha da palmeira antes pura beleza

foi a casa sonora de um pio de sabiá

 

não há mais felicidade morando aqui

saudade da janela e de um pé de piqui

arrastando folhas a murmurar: estou aqui

minha cara boba a dizer: eu vi o piqui cantar

 

o cinza já derreteu todas belezas do ar

e a cor é somente luz, já disse Helena

sinto a lavanda dela a pairar no ar, a pairar

e sua alegria dos dentes à mais longa melena

 

feliz você que já partiu, não viu esta tarde

onde me ponho a chorar como chaleira velha

saiba, mesmo cinza a tarde é linda como árvore

qual aquela no terreno ao lado a me namorar

VASO GREGO de alberto de oliveira / niterói.rj

Esta de áureos relevos, trabalhada
De divas mãos, brilhante copa, um dia,
Já de aos deuses servir como cansada
Vinda do Olimpo, a um novo deus servia.

Era o poeta de Teos que a suspendia
Então, e, ora repleta ora esvasada,
A taça amiga aos dedos seus tinia,
Toda de roxas pétalas colmada.

Depois… Mas o lavor da taça admira,
Toca-a, e do ouvido aproximando-a, às bordas
Finas hás-de lhe ouvir, canora e doce,

Ignota voz, qual se da antiga lira
Fosse a encantada música das cordas,
Qual se essa voz de Anacreonte fosse.

A CANÇÃO DO RELÓGIO – de zuleika dos reis / são paulo


                          

Hora vai

Hora vem

ora vais

ora vens.

No vão dos dias

o pêndulo

vai-e-vem

não vais nem vens.

O pêndulo

entre teu vai e teu vem

entre teu não vai e teu não vem.

Os ponteiros do relógio

só vão

nunca vêm.

Viajante só de vai

nunca de vem

o tempo

passa o tempo

o tempo

nem ri de nós

só se esvai

sem saber de ninguém.

O trem que nos leva – de edu hoffmann / curitiba


Antes do pio dos pardais o trem apitava

sua locomotiva puxando VAGÕES VAGÕES VAGÕES VAGÕES … …

que não acabavam mais…

 

o trem cruzava a padre Germano Mayer

fazendo a manhã correr seu trilho, afugentando neblinas.

 

Ôrra meu, são seis horas, me enrosco no cobertor e

re-durmo no aguardo do amadurecer do dia.

 

No café, bolo de fubá mimoso, com bastante manteiga Aviação.

O café com leite, pra variar, pelando de quente. Só depois descascava

mimosa, fazendo companhia ao guapeca que festejava devorando o resto da vina de ontem.

 

Como todo piá pançudo, saía com a gurizada ranhenta, atravessando a quadra depois do sinaleiro, catando bolotas pra atirar com a cetra nos focos dos postes.

 

Sempre guardávamos algumas moedinhas pra comprar dolé.

Depois desse intervalo, íamos jogar betes ou soltar raia, já quase meio-dia, quando o sol já se alaranjava.

 

Tudo isso era louco de bom, quando nossas vidas ainda vestiam calça-curta

e qualquer ki-chute calçava nosso caminhos.

 

A benção, nossa senhora dos Pinhais !

 

EM BUSCA DA MORTE – de alcione boaventura / rio de janeiro

 “Onde estás Oh! Morte, que näo me encontras?

Te busco vezes sem conta e me entregas à sorte.

Mata-me a sede de encontrar-te

antes que me encontre este punhal em minhas mäos,

no impulso violento da razäo

e Deus, por FIM, de mim se afaste.

Onde estás Oh! Morte, que me feres e me assombras

como morta viva em meio as sombras?

Te deleitas em saber que näo sou forte.

Estou faminto de anseios de te ver.

Traga a paz que esta vida näo me deu!

Traga as rosas que os espinhos levo eu;

levo a dor e a amargura de viver.”

SEPULTAMENTO – de joão felinto neto / mossoró.rn

 

 

Os meus olhos pregados

no infinito

como os pregos nas tábuas

cravejados,

e de pontas viradas,

redobrados,

sustentados e fixos

numa curva.

No aconchego da madeira macia,

minhas costas

nos ossos da bacia

consolam meu corpo

tão curvado.

Pelo tempo que tenho acumulado,

a ferrugem do mundo

me comeu,

e a tampa que pregam

me prendeu

para sempre num rito consumado.

Por debaixo da terra

condenado

a ser parte da mesma

e não ser eu.

“MILONGA PARA UM POBRE NEGRO” – letra e música de luiz roberto conrad / porto alegre

 

POBRE NEGRO….GESTA DO POBRERIO

      FALAM TANTO EM IGUALDADE

      MAS NAS VEIAS DA VERDADE

      NÃO É ISSO QUE SE VIU….

 

      POBRE NEGRO…..

      CAPITÃO SEM NAVIO

      Á DERIVA PELO MUNDO….

      NO BUCHO, UM BURACO FUNDO….

      A FOME TRAZ O VAZIO.

 

     ” POBRE NEGRO,,,

        VOCÊ PODIA SER EU…

        EU PODIA SER VOCÊ,

        MAS A  VIDA MELHOR ME DEU…

        POBRE NEGRO..,

 

        POBRE NEGRO…

        QUE ENTRE OS SONHOS,,,,SE PERDEU…

        EU PODIA SER  VOCÊ….

        MAS A HISTÓRIA,,,SE INVERTEU.”

 

                                     

 

SAKURA – de omar de la roca / são paulo

Sakura

O ramo partido

da cerejeira,

aponta a sombra da Lua

no regato adormecido.

O coração, como o ramo partido

Se espelha na árvore nua.

O ramo florido

Da cerejeira,

Pesa no coração do amante

a ter distante a estrela

e não perto, como quisera.

Desperta da quimera o coração

solitário.

A última corda ainda treme,

Cai mais uma folha no vazio.

A paisagem vermelha freme.

Cai a neve alva e branca.

( Chuva mansa cai no mar.

E a maré vira a concha ).

Chovem pétalas de cerejeira

nos pinheiros,nos trigais

no samurai que dança ao vento

na gueixa que  esconde o rosto, ri e vai.

Dure o sonho enquanto durar o momento.

OFERENDA – zuleika dos reis / são paulo

 

Falas como sempre da morte falas como sempre

desde os primórdios desde os prenúncios

das tuas falas primeiras e também dela sempre

continuam as palavras quando te calas quando

em mim se calam os sentidos e os silêncios dela

a morte sempre a morte fundamento

da tua linguagem

 

mas a vida a espreitar a espreitar-te sempre

no centro da ponte na ponta da outra ponta

da linguagem.

 

Sonhei quanto sonhei com a tua incoerência

com a tua traição ao tema da tua pena em tua boca

com os desvios de presença da morte sempre jovem

nos mares de navegar sempre este destino

de incessante a cantares. As perdas achados pérolas

as cruzes de a calares no mais fundo o teu pisar

na terra observando dela as pegadas teu mergulho

nas águas conchas desta morte sempre-viva

 

e sempre, a estreitar-te sempre,

a vida-que-não-morre, sempre a vida,

no centro mesmo da amada em teus dizeres

no centro mesmo da amada em teus calares

 

sempre a estreitar-te, no centro

da fonte da vida-linguagem

linhagens…

Anotações para a semana – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr


 

- Lembrar de usar o som de pombas voando

como percussão em uma musica.

 

- Olhar a linha da vida de meu filho.

 

- Aprender a fazer arco-íris domésticos

com a mangueira ao regrar o jardim.

 

- Criar um abaixo-assinado para

mudar o nome do poeta Manuel de Barros

para Manuel de Cerâmica.

 

-Adquirir um método de piano imaginário

Para poder aprender musica no escritório.

 

-Comprar ração para o pavão.

 

-Mandar restaurar as fotos rasgadas na separação.

 

-Dobrar origamis com os extratos bancários

e notas fiscais.

 

-Pagar a prestação do telescópio.

 

-Baixar um screensavers de caleidoscópio em 3D

 

-Enviar meu currículo para um parque

de diversões itinerante.

 

-Mudar escrivaninha para perto da janela.

 

CANÇÃO PARA ADÉLIA PRADO – de julio saraiva / são paulo

“O céu estrelado
vale a dor do mundo.”

- Adélia Prado -


Adélia, empresta-me um pouco
Teus olhos muito vivos
E teus cabelos brancos desgrenhados
Pra que eu me lave todo
Das cores dos meus pecados.

Adélia, empresta-me um poema,
Que eu aqui já me vou tão velho.
Me empresta um pouco da tua igreja,
Do contrário, no céu eu não entro.
Dá-me as tuas mãos,
Cheirando a verso e coentro.

Adélia, faz-me ouvir um toque de sinos,
Que ele venha na tua pureza de anjo.
Dá-me um gole da tua poesia.
Depois por mim mesmo eu me arranjo.

Empresta-me o fogo doido,
Que tira o pecado do mundo.
Empresta-me teus santos altares
Pra que eu volte à meninice,
Quando eu ainda cria nos santos.

(Briga comigo não, Dona Doida,
Que a vida não me dá mais encantos.
Não demora me leva em segundos,
Náufrago em meu mar de prantos.)

DOAR-SE de mônica caetano / curitiba


DOAR-SE EM ESSÊNCIA É INCOMENSURÁVEL .

DOAR-SE EM ESSÊNCIA É SER…

É DEIXAR-SE ENXERGAR…

E ENTREGAR-SE AO EXISTIR…

E DESSE DOAR-SE, ESTAR SEMPRE, A CADA MOMENTO VIVENDO -“SE”…

NA PRESENÇA…

NA EXISTÊNCIA…

NA DÚVIDA…

NA PALAVRA…

NO SILÊNCIO…

A ESSENCIA DE SER IMPEDE QUE O DOAR-SE LÁ NÃO ESTEJA PRESENTE…

SÃO UM EM SI…

NÃO HÁ COMO ENCONTRAR O LIMITE “ENTRE”…

MISTURAM-SE, E ESTAO PRESENTES…

SÃO PRAZER NA AÇÃO, NA CONDUÇÃO, NA REALIZAÇÃO.

DOAR-SE EM ESSÊNCIA, SOBREPÕE-SE À POSSIBILIDADE OU NECESSIDADE DE DEFINIÇÃO LÉXICA,

ESTÁ ALÉM DO CONTEXTO.

DOAR-SE EM ESSÊNCIA…… É SER.

RESULTA TÃO SOMENTE E, COMPLETAMENTE, DE UM ATO INFINITO: “E ASSIM SE FEZ.”

NO DOAR-SE, A BELEZA ESTÁEM QUE NÃO HÁPERDAS…,NÃO HÁ GANHOS….

E TUDO PERMITE CONTEMPLAR-SE EM ESSÊNCIA…

EDU HOFFMANN e sua poesia III / curitiba

RENDAS

Que a sina do amor nos prenda

e que se renda a vida a nos ensinar

que se nos teça a tesa trama

no prazer do eterno namorar

-

Corvo

A vida é um doce bom demais

que nós gulosamente provamos

agora, que só nos resta um pouco

ai ai ai mamãe, eu quero mais !

tempo sábio, tempo murrinha

o qual joga areia nos meus olhos

com o mesmo vento que levanta

a saia esvoaçante da mocinha

o corpo já exige remédios: meus sais !

esqueça as farras das noites de longas horas

esqueça do fogo do corpo das senhoras

que o maldito corvo já grita: nunca mais !

A TRIGÉSIMA MULHER de zuleika dos reis / são paulo


                                   

a morte

em cada xícara

a face sem face

da trigésima mulher

árvore ave canção

sussurro das coisas mortas

em vão

a trigésima mulher

a derradeira

estrelas que estalam

noite que se quebra

cai

fragmentos

de nós

a dançar

ao redor de nós

ao redor de nós

as palavras sonhadas

as palavras sagradas

a morte que te quer

esta rival

teu grito

em mim

meu grito

em ti

os tempos de nós

que tento segurar

as xícaras

a porcelana da tarde

a tarde

vaso a se partir

o meu amor

partido

em ti

em ti

em mim

cacos de nós

o primeiro homem

a trigésima mulher

QUIRERA COM POESIA de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr


O milho amareliz amarelizarino sempre presente na minha vida de poeta do mato. Ontem colhemos duas carroçadas. O milho fica agora no galpão em espiga até secar bem, pra só após alguns dias ser quirerado. O milho novo pode dar garrotilho nos cavalos e é bom evitar o trato equino, nesses dias. As espigas tombadas no interior do galpão, pálidas estruturas envolvidas em palha, parecem corpos de seres de outro mundo. Amareliz amarelizarino o milho. Visitantes alienígenas vez por outra comparecem pra conhecer re-conhecer o milho, provar do seu amarelíssimo amido, sentir a textura de seus grãos como pepitas de ouro enchendo baldes, cestos trançados de taquara, carroças e caminhões no granel. Vi alguns seres refestelados no milho em noites altas de inverno. A luz forte da navemãe alumbrava a paisagem no entorno do velho galpão de madeira, onde o milho fica estocado. Os olhos do dono do milharal deixam o milho mais bonito, hígido nos grãos, pujante nas espigas. Nas colheitas, chego a deitar no meio do milho. Sentir o tépido e áspero das espigas dispostas irregularmente em montículos pelo chão da terra fresca. O milho amareliz amarelizarino milhante felizino cálido. Lanço poemas novos de cabeça. Eclipsemas fáceis de se entender e arranjar significação. Fugi da escola, me desinteressei pela gramática. Um poeta livre é de tecer sua própria linguagem/linguagens, regras de bem dizer e assim fiz, faço. A multidão de vozes prometida de vir não veio, não vem. A multidão de interlocutores que iria conhecer o meu verbo, debater contemporâneo e futuro da arte que penso, acho domino. As espigas vão sendo tombadas da carroça para o piso de cimento do galpão. Os corpos rolam pelo chão, amontoam-se, em composições aleatórias. Os corpos pálidos na tez pálida da palha seca do milho recém colhido. Entro pra dentro dos grãos amarelizes amarelizarinos do milho e sinto o protéico de sua razão de ser-estar no mundo como alimento primordial. O milho escorre pelas canaletas, distribui-se no recinto. Seus grãos de ouro indo pra maquininha de quirerar, saltitantes, felizarinos, amarelizarinos. A máquina quirera os grãos chegantes, como manda a peneira, se fina ou grossa. A quirera fumaceia, pó de milho no ar. A quirera quentinha saída da máquina, fumaceando o pó do milho, solar, solaríssimo. Na enteléquia da proselitílica conheci você. Ainda não existia o milharal o milho milho moído cangicado moído farinhado em minha vida de poeta. Vagava por avenidas de grandes cidades. E muitas vias passei, estrelas, estrelários conquistei e perdi. Muitas viagens interplanetárias no meu destino de tricoteiro de nuvens. Nem só de milho se vive vivo poemeio eclipsemo. Podia ter feito um colar de milho na safra passada com aqueles grãos maiores. Perfurar grão por grão até atingir as cento e tantas contas/miçangas de um razoável colar. Poemas fiz mais de setenta e manuscritos com caneta Pilot. Meus Ergochãs Espaciais saíram assim correndo da toca, como roedores espantados por algum animal perigoso. Em garranchos fui colocando as formigas pra fora do formigueiro. As formigas vinham manchadas de sol e espaço sideral, crispadas de musgos e alentadas de terra. Sei que isso nada tem a ver com o milho. Sei. Não sei. Também traziam uma carapaça de luz espelhar dourada. Não precisa ninguém vituperar vituperino nas minhas obsessões. Gosto disso dos grãos caídos ao chão, rolando despenhadeiros. Os grãos amareliz amarelizarinos do milho. Como da sua carne fresca ainda no pé, milho verde, ou em casa, pamonhado, ou mais tarde de colhido e seco quirerado na panela de ferro. O pó do milho em polenta, em broa, sempre servido na minha vida, como consagração da vida rural que levamos. Certo dia pisei no farelo de milho e saí pelo chão escuro do pátio, em noite minguante, deixando marcas douradas pelo caminho. O milho, esquenta parece, a quem se aproxima, seja homem, criação, cobra, rato, cães e gatos. No meu galpão uma vez um gato foi achado preso dentro duma bolsa de juta, quase meia de milho. O gato amareliz amarelizarino sobreviveu no dourado de sua pele, olhos, boca, patas. Noutra vez uma urutu preta daquelas encardidas e fétidas, saiu do paiol amarelizarina de pó do ouro de minha terrinha. O milho aquece as criaturas. Escreva aí. O milho sacia a fome e rebate o frio da vida. Meus cavalos babam o ouro do milho que os alimenta. Meus cavalos famintos de grãos amareliz amarelizarinos. No choque contra os dentes, os grãos de milho transformam-se milagrosamente, em líquido dourado. Meus cavalos que reverentes ou nem tanto, escutam meus longos monólogos sobre semiótica, philosophia, esthética principalmente e poesia. Meus cavalos diante de um louco milharante milharino comendo potes de cangica e operariando construções abstratas. Um louco-bom atirado na poeira amarela do milho. O milho entra pelas narinas, amarela os cabelos, os pés, os olhos, o milho, e numa mijada qualquer comparece também no sexo, o pó finíssimo do seu esmerilado, o milho entrando pelos poros, sujando de amarelo amareliz amarelizarino os pelos do corpo. O milho. mIlHo milhAnTE milHaRiNO. O milho já vi isso não se mistura com sangue. Certa vez tivemos que sacrificar uma galinha preta presa nuns ferros dentro do galpão. O pobre bicho entre a vida e a morte sangrava sangrava num membro dilacerado. O sangue escorria pelo chão mas não maculava o milho milharino que alimentou aquele bicho por tanto tempo. O sangue escorria sobre a quirera e a farinha de milho mas não incrustava não colava não adstringia de vermelho o amarelo vivatriz vivalhino do milho. Aquele poema que fiz aquela vez prenunciava minha vivência no pó amarelo vegetal. Minha vivência de verdes e amarelos, manchados de terra. Minha vivência de mato, jaracatiás, uvaias e guavirovas, pés nos chão e olhos/sentidos nas estrelas, pensamento no criado, criante e incriado. Os pirilampos lembram do milho, voante brilharino, pisquepiscante em noites de verão. Cogito, terço, enveredo agora pra eclipsemas difíceis de se entender e arranjar significação. Assim foi que no simplório orei ao milho milharino milhoz milhante milhoardeluzerino:

ELOGIO DO MILHO

 

A primeira vez que te vi:

milho

ouro vegetal em espiga em grão

moído cangicado

moído farinhado

milho ouro vegetal

no prato nosso de cada dia

quirera

teus microgrãos triturados

de mão em mão

brilham na louça

ouro em pó

vegetal na palma de minha mão

um comedor de quirera

vivo na contramão

do tempo e da história

os bolsos cheios do pó dourado

de minhas roças

milho: triturados grãos

falso ouro dos que pedem

consolo dos desolados

na louça branca

na mesa improvisada

na cumbuca do bóia-fria

sob a lona do sem-terra

amo a nathura

onde vivo e trabalho

um comedor de quirera

nasce a cada minuto

:também nasci assim:

um comedor de quirera

minha voz entalou no muro

esse grão que se habilita

a matar todas as fomes

não tem pai nem sobrenome

é milho só em espiga em grão

moído cangicado

moído farinhado

crescido sempre na luta

das mãos que o semeam e colhem

:quirera: teus microgrãos

triturados de mão em mão

brilham na louça branca

ouro em pó

vegetal

na palma de minha mão.

 

Terminei o poema e vi a poeta quituteira que mais que ninguém escreveu sobre o milho o ouro vegetal: Cora Coralina. Estava em brancas vestes adornada de grãos de milho, amareliz amarelizarinos. Uma aura douratriz milhatriz milhante entornava-a. Assim como surgiu a imagem desapareceu, deixando odor de milho quente, passado em tacho, panela de ferro, feito cuizcuz, bijú, pamonha… Os ratos no canto do paiol roíam o resto de grãos que ficaram do transporte. Cora Coralina deixou uma cesta cheia de quitutes de milho encima da velha tulha de madeira de lei. Agradeci, dizendo como meu tio Nenê caboclinho de sepa do Riograndópolis do Sul, não carecia Dona Cora, não carecia. E me fartei dos quitudes amareliz amarelizarinos túmidos do amido de ouro. Evoquei kaingangues roçadas de milho no toco. Fogo e fumaça, naqueles fins de mundos. Verdes sobre verdes esmeraldados com clareiras plantadas de milho milharino. Evoquei tribos nômades transportando lavouras de milho dum lugar para outro. Tribos grandes. Curumins caras amarelas amarelizarinas do milho fresco comido em gula. Os cavalos corriam pensamentos bons pelos meus campos da Fazenda Poema, e furões e iraras adentraram nos montes de milho roendo a palha e os grãos. A terra joga pra fora as pequenas hastes verdes verdeforescentes do milho plantado a poucos dias. Mais tarde os pendões como pênis juvenis estiram-se pra fora do invólucro verde. O milho é valente e floresce, põe barbas de milho pra fora, avoluma-se na maturidade. Ficamos todos (homens e bichos) rondando o milharal anuviado de verdes, maturar o ouro do seu ser. E assim é, sempre será em nossa vida cabocla, quirera com poesia todo santo dia.

 

O RASTRO DUMA ESTRELA – de vera lucia kalahari / portugal

Como as ondas que nunca param,

Como as flores que sempre nascem,

Os anos rolaram, passaram e mataram

Esses dias, essas horas da minha infância.

Meu cavalinho de pau que voava rasgando os céus

Entre rosas e açucenas, onde estás?

Já não vejo as tuas crinas, revoltas,

Voando o vento.

Meus cabelos soltos, como nuvens esvoaçantes,

Que vos fizeram?

Porque cortaram os meus cabelos?

Porque cortaram as minhas asas

E não deixaram a menina, continuar a ser menina?

Despiram minhas vestes rotas, sujas de menina,

E envolveram-me em roupas de senhora.

Deceparam minhas asas que me levavam para o Além

E deixaram-me de rastos, como tantos vermes.

Já não sou eu mesma…

Eu fiquei no jardim ensolarado com buganvílias  de sangue.

Eu, fiquei nas margens do rio,

Na Ilha do Tesouru,

Na Terra da Fada Bela,

Na cozinha da Cinderela.

Esta que por aqui erra, amortalhada

Em vestes enriquecidas,

É a sombra daquela que lá ficou.

Era pura como a rola que cantava no alto das  romanzeiras…

Era livre como o rio que corria no mangueiral verdejante

Minhas tranças negras saltavam, saltavam mais…

E eu pulava ao sol ardente nesses dias quentes d’estio selvagem.

-‘’Abram alas, a mim. Eu quero espaço… Espaço…’’

E corria como uma flecha a subir ao céu, rasgando um traço.

E um pássaro na romanzeira:-‘’Voa, menina, voa mais alto que hás-de cair…’’

Mas eu corria, voava mais, sem o auxílio de nenhum braço,

Rompendo o azul dos espaços, os pés descalços brilhando…

-Que triste é esta chuva caindo no telhado…-

Ah…Não. Não queiram que eu deixe de ser Eu…

Não queiram roubar-me ao mundo do meu passado.

A estrada é só uma, cheia de escombros e ruínas.

O princípio, já não se avista.

O fim? É mais além, para lá…

Mas seja qual for a magia, seja qual for a beleza,

Deste dia do presente, eu volto sempre ao princípio,

Ao dia do meu passado.

E por muito que rebusque, por muita força que faça,

Não consigo esquecer o mundo dos dias d’ontem.

Lá, há oásis verdejantes onde eu tinha a minha casa.

Era um palácio divino com amor por todo o lado

E estrelas a cintilar.

O vento trazia odores de rosas e maresia.

Os criados eram gnomos e as cortinas de luar.

Que horas de fantasia em noites de lua cheia…

Do palácio encantado que em sonhos construí

Fiz uma linda guarida para os sonhos que teci.

- E esta chuva tão triste a gotejar do telhado-

Mar imenso rugindo ao longe, risos de crianças em correria louca…

E no meio de verdes ondas, a Ilha maravilhosa do Tesouro.

Um tesouro de ouro e prata que procurei e nunca achei.

-Nele me falara a velha Jaja numa noite de lua cheia-.

Tesouro que povoou as minhas noites com sonhos de grandeza e majestade…

Um tesouro…Muito ouro…Muita prata…Que bom, Deus, será achá-lo.

Daria um barco pesqueiro, uma rede resistente, ao velho Manuel do Forte.

E uma blusa de chita, à Maria, que era doida,

E que toda a garotada  afugentava à pedrada.

À minha avó, coitadinha, dava-lhe um lindo rosário,

Com contas lindas de prata e uma cruz de marfim.

E àquele menino pobre que chorava pelas ruas

Dava-lhe um carro de corda e um soberbo pião.

À Joana a pobre noiva que perdera o seu amor,

Um valente pescador, dava-lhe um vestido de renda,

Alvo como a espuma do mar.

A Ilha do Tesouro… Até hoje, nunca a achei.

Vieram noites amenas, noites de estrelas e luar,

Em que o mar era sereno e o deserto crescia em flor.

Mas a minha ilha que havia de encontrar

Em alvorada radiosa, feita de todos os anseios,

Plena de toda a beleza, magnífica,  resplendorosa

Perdeu-se na imensidão do presente e do futuro.

-A chuva continua, chove lá fora-

A minha casa era o mundo, minha família era o mundo,

Todas as estrelas eram minhas e eu morava em cada rua.

Corria por todos os campos, banhava-me em todos os rios,

Sorria à noite p’ra lua, que um dia seria minha.

Cresci e nada tenho…Não tenho casa nem ruas,

Nem campos, rios ou sebes.

Sou irmã de todo o mundo e não sou irmã de ninguém…

Cansada de vaguear, agitada pela vida, sacudida por vendavais,

Quero voltar outra vez, a ser menina, a ser crente.

Deitei às ondas do mar a caravela dos sonhos…

Sem nunca achar o seu porto, perdeu-se no mar revolto.

Mas já voguei num barco negro, dum velho pirata,

Que me levava refém, para a praia da Rocha Verde.

Espada de pau de caixote, chapéu dum velho jornal,

E o meu primo Jajão, um terrível capitão,

Lá partia à disparada, em heróica cavalgada, p’ra salvar à paulada

A princesa Magalona…

E era ver a chegada , estóica e triunfal, entre risos e gritaria,

Numa carroça bizarra em tremenda algazarra.

Que belo calor me prende, nestas asas dum sonho vão…

Que lentas asas me levam p’ra longe, p’rá solidão…

Algemas de medo prendem-me as mãos.

Porque eu quero ser eu… Quero marchar para a vida

E deixar a ilha dos sonhos perdidos…

Quero que as minhas mãos não sejam mais,

Mãos de estrelas mortas, sem terem jamais uma chama de luz…

Quero ser Povo…Quero ser mundo e não mais ser poeta,

Vagando apenas nas nuvens…

Com o choro do meu Povo, construirei a minha lira…

Com a dor e com a fome, cantarei os versos que trago dentro de mim.

Porque da minha infância, não posso, nem poderei fazer um só poema.

Não poderei desvendar tantos sonhos, sem enganar tanta beleza ,tanta imensidão.

Não…Não poderei falar da menina de sacola , de sorriso ingénuo e confiante,

Seguindo para a escola…O seu livro era a Esperança, e o seu sonho, a Felicidade.

Na volta à tardinha, embora suja e rota, pisava as pedras cantando,

Sem pensar por um momento que o Mundo era mais além.

-E esta chuva tão triste que continua a cair-

Eu era rosa resplendorosa, coberta toda de orvalho…

Chorava sempre à vontade e sempre o sol da saudade vinha o orvalho secar…

Tocaram, sem pejo, na rosa e a flor se desfolhou, sangrando o chão de vermelho…

Triste coração duma rosa, desfolhada ao sol do tempo…

Levantava-me com o dia, brilhando como os brilhantes,

Cheirando como os junquilhos, como as flores de laranjeira…

Hortênsias e margaridas eram as minhas companheiras.

O meu mais lindo chapéu era a papoila encarnada.

E sentada ao pé da estrada, esperava a bela fada que me traria de presente,

Felicidade e Bondade…

Triste menina louca, alegre por ser menina,

Com alma toda florida pelos caminhos da vida…

Certa vez, ao despontar do sol, o meu primo Jajão companheiro das folias,

Acordou-me me mansinho: ‘’Anda, vem ver o que vi…Imagina tu, um ninho’’…

Eu era nesse tempo, uma simples garotinha…E vi:

Na bela romanzeira, em botão, toda florida, lá estava pendurado,

Um ninho de sabiás…

-‘’Levamo-los e trancamo-los na minha gaiola nova’’…

E eu, sem ter compaixão, ajudei-o na brincadeira.

Mas um dia, com piedade, vi que os meigos sabiás,

Ansiosos, a revoar, atiravam-se contra as grades

Tristonhos, dolorosos, para achar a liberdade…

Abri a porta e ei-los voando, contentes, rumo ao céu…

-Que grande tareia me deu o Jajão-

Alma sem alma, irrequieta, assim estou eu agora,

Numa gaiola dourada, a envelhecer, envelhecer…

A Primavera chegava… E a menina em botão,

Crescia, desabrochava, no olhar brilhante os mil anseios de jovem…

Como louca andorinha, girava no turbilhão de róseas visões.

-Tão longe ficou  a saia de chita-

Sob vestes faustosas de fina seda, passava para o mundo,

Rica, formosa, invejada porém mendiga d’amor…

Depois lá vieram os sonhos, as ilusões, o vestido de branca renda,

A capelinha singela…

Quero olhar para trás… Numa curva do caminho, uma casa abandonada,

Pedras, ruínas, tristeza, e uma saudade sem fim.

Mais perto a encruzilhada, que leva ao bem e ao mal…

P’ró mal, estrada florida,  p’ró bem, espinhos e dor.

Agora, mais para a frente, o trilho nunca pisado.

Quando o sino da minha terra tocar às Ave Marias

As seis notas mensageiras da noite que vai chegar,

A rosa já desfolhada virá reverdecer  a terra,

Nascerão novos botões.

As aves cantarão, os campos florescerão…

E o sol espalhará luz por toda a terra.

A morte é vida…

Se o fruto tombou amadurecido,

Dele virão sementes que em breve, serão flores.

Ah…Não…Mil vezes não…

Não creio que a morte será o fim…

E se desta mulher quebrada o Inverno secou as folhas,

A seiva florescerá em botões….

E a alma da menina reencarnará novamente

Noutra menina traquina, que crê ainda em fadas,

Que encerra o mundo nas mãos

E que será muito mais pura

Que a menina que já cresceu.

DESPEJO de julio saraiva / são paulo

fogão    fogareiro
geladeira   colchão
papagaio
gaiola    galinha
cachorro    criança
madeira no chão

foto de casamento
lembrança de aparecida
dia santo   folhinha
prato   panela
penico
piolho    piorra
madeira no chão

um poster do time
uma faca sem crime
a ferrugem nos olhos
uma rosa de pano
vela de 7 dias
madeira no chão

uma lata   um luto
uma lua de lama
relógio parado
carrinho de mão
madeira no chão

madeira   madeira
madeira   madeira
madeira   madeira
madeira
no
chão

madeira   madeira
conflito   confronto
comando   comício
polícia    polícia
madeira   madeira
madeira   caixote
caixote    caixão

um rosário  uma reza
vinte salve-rainhas
slve-se-quem-puder
um tiro   outro tiro
cem tiros talvez

um soluço    um silêncio
cinco corpos no chão

chão

CORPOREIDADE SEDENTA – de joão batista do lago / curitiba

Sobre a cidade

E sobre os cálidos dias

Vê-se, hoje, apenas

Nuvens de névoas.

A brisa é fria!

E, a garoa bate gelada

No meu corpo;

Sangrando de agonia

Pelos teus cálidos

Argumentos de amor

Na partitura de uma sinfonia

Eufórica e deslumbrante,

Que me vai desfolhando

Numa prece de primavera.

TORRE DE BABEL – de joão felinto neto / mossoró.rn

O juiz do supremo,

Jeová,

se irrita e sai do sério,

quando seu filho Jesus

vai à noite, ao cemitério.

No boteco do Davi,

onde quem manda

é o Golias,

não há funda,

quem afunda

na cachaça, é o Isaías.

No salão do senhor Sansão,

quem faz o cabelo

é sua mulher Dalila.

As mulheres de Salomão,

o cafetão lá da vila,

choram e sentem solidão

quando estão de barriga.

Lúcifer anda arrasado,

o seu mundo virou trevas,

por ter visto abraçados,

Adão e a senhora Eva.

Noé, o velho barqueiro,

não gosta de animais.

No entanto, adora um peixe-frito

no barzinho lá do cais.

Essa torre de Babel

é o mundo em que vivemos,

onde não há inocência.

Se algum nome ou fato ofender,

é mera coincidência.

PRIMEIRO DE MAIO: Operário em construção – de vinícius de morais / rio de janeiro

foto livre.

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as asas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato como podia
Um operário em construção
Compreender porque um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia

Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento

Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse eventualmente
Um operário em construcão.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.

De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma subita emoção
Ao constatar assombrado
que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão
Era ele quem fazia
Ele, um humilde operário
Olhou em torno: a gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Nao sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua propria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro dessa compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração

E como tudo que cresce
Ele nâo cresceu em vão
Pois além do que sabia
– Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.
E um fato novo se viu
Que a todos admirava:

O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edificio em construção
Que sempre dizia “sim”
Começou a dizer “não”

E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uisque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava

Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução

Como era de se esperar
As bocas da delação
Comecaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação.
“Convençam-no” do contrário
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isto sorria.

Dia seguinte o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu por destinado
Sua primeira agressão
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras seguiram
Muitas outras seguirão
Porém, por imprescindível
Ao edificio em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo contrário
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário

Fez-lhe esta declaração:
Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher
Portanto, tudo o que ver
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse e fitou o operário
Que olhava e refletia

Mas o que via o operário
O patrão nunca veria
O operário via casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! – gritou o patrão
Nao vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martirios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão!

Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido.
Razão porém que fizera
Em operário construido
O operário em construção

Meus arames farpados de molho em um amaciante – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

Vou recolocar o mesmo som.

Virar do avesso um rosnado
e por meus arames farpados de molho em um amaciante. 

Com esculturas diluíveis na boca
mudar seu nome para maça
e encaixar a eternidade dentro de um segundo, 
então contemplar minha obra, 
bela e frágil como o dedo mindinho de um bebê.

E pensar no maior volume que conseguir pensar
uma canção: 
Nas vendas negras coloquei algumas estrelas, 
Nas mordaças um sabor de mirtilos,
E dancei com os ouvidos acariciados por sinfonias
E dancei 
com ao meu corpo sensível como um falo
no cosmos tão feminino.

O ATOR – de plínio marcos / são paulo


Por mais que as cruentas e inglórias
Batalhas do cotidiano
Tornem um homem duro ou cínico
O suficiente para fazê-lo indiferente
Às desgraças e alegrias coletivas,
Sempre haverá no seu coração,
Por minúsculo que seja,
Um recanto suave
Onde ele guarda ecos dos sons
De algum momento de amor já vivido.

Bendito seja
Quem souber dirigir-se
A esse homem
Que se deixou endurecer,
De forma a atingi-lo
No pequeno porém macio
Núcleo da sua sensibilidade.
E por aí despertá-lo,
Tirá-lo da apatia,
Essa grotesca
Forma de auto-destruição
A que por desencanto
Ou medo se sujeita.
E por aí inquietá-lo
E comovê-lo para
As lutas comuns da libertação.

O ator tem esse dom.

Ele tem o talento de atingir as pessoas

Nos pontos onde não existem defesas.

O ator, não o autor ou o diretor,

Tem esse dom.

Por isso o artista do teatro é o ator.

O público vai ao teatro por causa dele.

O autor e o diretor só são bons na medida

Em que dão margem a grandes interpretações.

Mas o ator deve se conscientizar
De que é um cristo da humanidade:
Seu talento é muito mais
Uma condenação do que uma dádiva.
Ele tem que saber que para ser
Um ator de verdade, vai ter que fazer
Mil e uma renúncias, mil e um sacrifícios.
É preciso coragem,
Muita humildade e, sobretudo,
Um transbordamento de amor fraterno
Para abdicar da própria personalidade
Em favor de seus personagens,
Com a única intenção de fazer
A sociedade entender
Que o ser humano não tem
Instintos e sensibilidades padronizados,
Como pretendem os hipócritas
Com seus códigos de ética.

Amo o ator
Nas suas alucinantes variações de humor,
Nas suas crises de euforia ou depressão.
Amo o ator no desespero de sua insegurança,
Quando ele, como viajor solitário,
Sem a bússola da fé ou da ideologia,
É obrigado a vagar pelos labirintos de sua mente
Procurando, no seu mais secreto íntimo,
Afinidades com as distorções de caráter
De seu personagem.

Amo o ator
Mais ainda quando,
Depois de tantos martírios,
Surge no palco com segurança,
Oferecendo seu corpo, sua voz,
Sua alma, sua sensibilidade
Para expor, sem nenhuma reserva,
Toda a fragilidade do ser humano
Reprimido, violentado.
Amo o ator por se emprestar inteiro
Para expor à platéia
Os aleijões da alma humana,
Com a única finalidade
De que o público
Se compreenda, se fortaleça
E caminhe no rumo
De um mundo melhor,
A ser construído
Pela harmonia e pelo amor.

Amo o ator
Consciente de que
A recompensa possível
Não é o dinheiro, nem o aplauso,
Mas a esperança de poder
Rir todos os risos
E chorar todos os prantos.
Amo o ator consciente de que,
No palco, cada palavra
E cada gesto são efêmeros,
Pois nada registra nem documenta
Sua grandeza.

Amo o ator e por ele amo o teatro.
Sei que é por ele que
O teatro é eterno
E jamais será superado
Por qualquer arte que
Se valha da técnica mecânica.

MOTIVO – de cecilia meireles / rio de janeiro



Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
Não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
– não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
– mais nada.

O ESPELHO E AS TAÇAS – de zuleika dos reis / são paulo


A criatura no umbral de si mesma

que não ousa nem sabe o que protege

se o que está dentro, se ao outro fantasma

este que a olha e que a nada reage.

.

Medusa petrificada, o espelho

para sempre a olhá-la, em mudez mútua,

ambos suspensos no tempo, este velho

com a arca trancada, e nós na árdua

.

labuta inútil por achá-la, a chave

da arca, do Graal santo… As taças

de todo o prazer a mover o mundo.

.

Tu, meu amor, se o teu amor me enlaça,

sabes-me inteira, que a mim descongelas,

e em meu corpo conhece-te a ternura.

Ex-ministro CAPUTO BASTOS, defende decisão sobre a Ficha Limpa e publica sua opinião em versos na revista CONSULTOR JURÍDICO – CONJUR que se negou a publicar a resposta de ADEMAR ADAMS, também em versos, agora publicados aqui.

Conjur – Texto publicado quarta, dia 30 de março de 2011

 

Em meio à incompreensão de grande parcela da sociedade em relação à decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a impossibilidade de aplicação da Lei da Ficha Limpa nas eleições do ano passado, há espaço para enfrentar o tema com bom humor. Foi o que fez o advogado e ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral, Carlos Eduardo Caputo Bastos.

O ex-ministro enviou à revista Consultor Jurídico um texto em forma de versos no qual lembra que quando o assunto é segurança jurídica, a Justiça não pode tergiversar. Caputo Bastos ressalta que a aplicação da lei é apenas uma questão temporal e que é importante que todos respeitem a decisão do Supremo de forma incondicional.

Leia os versos

Cada um tem uma maneira de pensar
Por isso, meu caro amigo, eu digo
Para a segurança jurídica preservar
A norma da Constituição há de imperar

Mesmo sem aos meus filhos consultar
Mas com a outorga uxória a sustentar
Se achar oportuno e gostar
Pode, sem dúvida, publicar

Na questão da ficha limpa
É importante e necessário ressaltar
Trata-se de norma desejada e aplaudida
Porém, de compreensão e aceitação pendular

É difícil pra sociedade separar o direito da moral
Mesmo para os bacharéis, convenhamos, isso não se faz de maneira linear
A política e a moral, perdoe-me, devem ceder ao preceito constitucional
Pois, em face da segurança jurídica, é convir, não se pode tergiversar

Não deve de forma alguma haver frustração
Pode até não ser o caso de celebração
Mas não é pesadelo, nem motivo de tristeza fatal
Pois a aplicação da lei é apenas uma questão temporal

Juiz conservador, técnico, protagonista ou liberal
Expressar convicção no argumento é condição vital
Para ele o que importa definitivamente é o compromisso constitucional
Devemos todos, portanto, respeitar a decisão de maneira incondicional

RESPOSTA DE ADEMAR ADAMS

Senhores:

Para contrapor os versos do Dr. Caputo Bastos no CONJUR sobre os Fichas Sujas, mando abaixo e anexo o seguinte cordel.

Ademar Adams

65-8124-8150

ademar.adams@gmail.com

Fiat lux

Aqui está a resposta

Da trova que li outro dia,

E se verso é o que o povo gosta,

Faço o meu que é de porfia,

Respondendo a um advogado,

Que ficha suja defende,

Mesmo sabendo que depende,

Nem me faço de rogado,

Pois, permitir a eleição,

De tanto rato ladrão,

É papel de cabra safado.

Nem me fale de moral,

Dotô que já foi ministro,

Tire do olho este cisco,

Que está te fazendo mal.

A nossa Constituição,

Se não serve pro povão,

Pode rasgar que não presta,

Pois lei é que nem balaio,

Que para cada tipo lacaio,

Sempre se acha uma fresta.

A carta republicana,

Que guia esta nação,

É sagrada e é profana,

Depende a interpretação.

Por isso jurar por ela,

É cair numa esparrela,

Fazer papel de bufão.

Julgar limpo tanto canalha,

É transformar em mortalha,

Nosso santo pavilhão.

Se tem primados de pedra,

Que não podem fazer-se rotos,

Por que então certos escrotos,

Juram esse amor de Fedra?

Caolhos, só vêem o que querem,

Pra atender a impostura,

E na maior cara dura,

Segurança jurídica, sugerem.

Quando eu vi o resultado

Da dita corte suprema,

Por justo fiquei irado,

Igual quando li o poema.

Pra não blasfemar resoluto,

Não rimei c’o doutor Caputo,

Segurei a minha brida.

É irmão do Guilherme Augusto,

Jurista distinto e justo,

Digo, fiquei “p” da vida.

Mas a tal suprema corte,

Tem no elenco um mesquinho,

Um enjoado que vôte!

Lá posto por um priminho,

Político que foi cassado,

Do Planalto escorraçado,

Pegando o boné de fininho.

Te outro um coronel,

Do Amapá e do Maranhão,

Corrupto por profissão,

Foi quem lhe deu o laurel.

Um dia o intermediário,

Arrancou-lhe o escapulário,

E lhe chamou de juizinho.

Tem outro que lá foi posto,

Pelo Farol de Alexandria,

Que num ato de mau gosto,

Deu toga a tal porcaria.

Diz que tem muito capanga,

E que por qualquer pitanga,

Livra um rico da enxovia.

Mein Campf, o livro de cabeceira,

Deste bedel perdulário,

De manicômio judiciário,

Xingou a justiça inteira.

E o mecânico torneiro,

Que Deus deu o dom e o dever,

De mandatário primeiro,

Pra o bem ao povo fazer,

Lá colou uma figura,

Quem nem sobre sol fulgura,

Tal a insignificância.

Mas vota só com o casco,

Que me causa até asco,

Ser chamado de excelência.

O quinto roto do cortejo,

Dos fichas sujas padrinho,

Um bigode de ratinho,

Seu futuro eu antevejo.

Vai ser o pior capitão,

Do sodalício de oitão,

O bico de percevejo…

O sangue da gente que luta,

Por uma justiça impoluta,

Jorra a cada decisão.

Um dia o povo, hoje gado,

Vai romper o alambrado,

E mudar esta Nação.

Depois de longa embromação,

La chegou o doutor Flux.

Gritaram “fiat lux”!

Acabou-se a escuridão.

Quem pensou no céu agora,

Pegou o boné, foi embora,

Depois do voto pagão.

Todas aleluias e hosanas,

Foi entregue aos ratazanas,

Pelo filho de Abraão.

Foi embora a esperança,

De um Supremo de pé,

Por que tem uma lambança,

Que vem logo de tropel.

Diz que o doutor da Judéia,

Vai pisar na patuléia,

E em toda sociedade.

Trazendo tese bem canalha,

Que de uma vez emporcalha,

A tal lei de improbidade.

Cuiabá, abril de 2011.

Aos Poetas Clássicos – de patativa do assaré / assaré.ce


Poetas niversitário,
Poetas de Cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia;
Se a gente canta o que pensa,
Eu quero pedir licença,
Pois mesmo sem português
Neste livrinho apresento
O prazê e o sofrimento
De um poeta camponês.

Eu nasci aqui no mato,
Vivi sempre a trabaiá,
Neste meu pobre recato,
Eu não pude estudá.
No verdô de minha idade,
Só tive a felicidade
De dá um pequeno insaio
In dois livro do iscritô,
O famoso professô
Filisberto de Carvaio.

No premêro livro havia
Belas figuras na capa,
E no começo se lia:
A pá — O dedo do Papa,
Papa, pia, dedo, dado,
Pua, o pote de melado,
Dá-me o dado, a fera é má
E tantas coisa bonita,
Qui o meu coração parpita
Quando eu pego a rescordá.

Foi os livro de valô
Mais maió que vi no mundo,
Apenas daquele autô
Li o premêro e o segundo;
Mas, porém, esta leitura,
Me tirô da treva escura,
Mostrando o caminho certo,
Bastante me protegeu;
Eu juro que Jesus deu
Sarvação a Filisberto.

Depois que os dois livro eu li,
Fiquei me sintindo bem,
E ôtras coisinha aprendi
Sem tê lição de ninguém.
Na minha pobre linguage,
A minha lira servage
Canto o que minha arma sente
E o meu coração incerra,
As coisa de minha terra
E a vida de minha gente.

Poeta niversitaro,
Poeta de cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia,
Tarvez este meu livrinho
Não vá recebê carinho,
Nem lugio e nem istima,
Mas garanto sê fié
E não istruí papé
Com poesia sem rima.

Cheio de rima e sintindo
Quero iscrevê meu volume,
Pra não ficá parecido
Com a fulô sem perfume;
A poesia sem rima,
Bastante me disanima
E alegria não me dá;
Não tem sabô a leitura,
Parece uma noite iscura
Sem istrela e sem luá.

Se um dotô me perguntá
Se o verso sem rima presta,
Calado eu não vou ficá,
A minha resposta é esta:
— Sem a rima, a poesia
Perde arguma simpatia
E uma parte do primô;
Não merece munta parma,
É como o corpo sem arma
E o coração sem amô.

Meu caro amigo poeta,
Qui faz poesia branca,
Não me chame de pateta
Por esta opinião franca.
Nasci entre a natureza,
Sempre adorando as beleza
Das obra do Criadô,
Uvindo o vento na serva
E vendo no campo a reva
Pintadinha de fulô.

Sou um caboco rocêro,
Sem letra e sem istrução;
O meu verso tem o chêro
Da poêra do sertão;
Vivo nesta solidade
Bem destante da cidade
Onde a ciença guverna.
Tudo meu é naturá,
Não sou capaz de gostá
Da poesia moderna.

Dêste jeito Deus me quis
E assim eu me sinto bem;
Me considero feliz
Sem nunca invejá quem tem
Profundo conhecimento.
Ou ligêro como o vento
Ou divagá como a lêsma,
Tudo sofre a mesma prova,
Vai batê na fria cova;
Esta vida é sempre a mesma.

 

Penélope e Ulisses – de zênite / portugal


muito cedo anoiteceu aquele dia.
era inverno em ítaca, e todavia
eram incêndios as suas bocas.
dir-se-ia que a febre os consumia
e no entanto
era um amor de mil sóis
que enfebrecia
por entre o azul da noite
e a alvura dos lençóis.

e de tal maneira a paixão
tal como dantes
tanto e tanto escandecia
que acendia de brilhos a escuridão
na silente geometria do seu manto.
entretanto, por decisão de eros e afrodite,
muito tarde raiou a manhã do novo dia.

[num tempo inteiro de espera e de silêncio
sob os pórticos de um palácio envelhecido,
jamais da longa ausência o desleal olvido.
mais do que um manto
era o fogo do amor que entretecias;
mais do que flecha
era a chama da paixão que arremetia.

 

 

ARROZ de CARRETEIRO – de iberê machado / porto alegre

Prato simples que sustenta,
O arroz de carreteiro
É rude manjar campeiro
Com sabor tradicional.
Esta iguaria bagual,
Dos tempos de antigamente,
Ganhou fama e, de repente,
É prato tradicional.

Arroz gaúcho, amarelo.
Charque gordinho, cebola
Daquela roxa, crioula
E o verde é salsa picada.
Panela preta areiada,
Água quente na cabona,
Colher de pau, mangerona,
Parece não faltar nada.

Charque picado a capricho
Tem que ser bem escaldado,
Escorrido e colocado
Na panela novamente.
Quando corar, simplesmente
Bote a cebola picada,
Quando esta ficar dourada
Ponha um pouco de água quente.

Baixe o fogo e bote a tampa
Enquanto o charque cozinha.
De vez em quando, uma agüinha
Pra que não fique queimado.
Aí, o arroz é lavado
E a mangerona tem vez.
Mais uma agüinha, talvez,
Garantindo o cozinhado.

Estando o charque macio,
Bote o arroz pra que se aquente.
Revive continuamente
Com calma e muita paciência.
Baixe o fogo, por prudência.
Bote água da cambona,
Prove o sal e a manjerona
Que são, do gosto, a essência.

Quando o arroz ficar cozido
E ainda estiver molhado,
Tire a panela de lado,
Ponha a salsa e deixe estar.
Chame a turma pra almoçar
E sirva até o bem do fundo
Pra contentar todo mundo
Com delicioso manjar.

 

 

SEM TITULO – de omar de la roca /são paulo

Nesse mundo de desesperança
de desilusão,mágoa,tristeza
tudo fere,matrata e cansa
palavras tortas,mortas,frieza

tudo enjoa,cansa,maltrata
ate o mar,que joga, sacode
tempestade,calmaria retrata
escondendo,que furia não pode.

até o dia em que possa tudo
derrubar o que estiver a frente
espumar ate ficar fervente
afogar,o torpe atual conteudo.

até o dia em que possa
a luz do sol da tarde
mansamente espraiar a aguas
na praia que ainda não existe
podendo sorrir sem chiste
levando embora toda mágoa
que a todos encharque
com uma salobra poça.

e só então sorrindo
possa voltar ao leito
num murmurar infindo
no infinito peito.

 

JAIRO PEREIRA e sua poesia II / quedas do iguaçu.pr

DEMÔNIO DOS RITUAIS DO SONO

.

fujo de teus patrocínios Senhor dos Precipícios

fujo me perco nos signos louco de tanto procurar

verdades de minhas verdades livros ásperos

inscrições no tempo nas pedras da memória

onde escrevi os multi-nomes iletradas vias

do chegar sempre onde não me querem

desdesejo revê-lo como as almas puras

intenciono (alma culta) superconvicta ignorá-lo

milhes de anjos no meu canto por mim só

prosperam em trigais de fartura

milhes de anjos te reprimem Senhor dos Precipícios

intenciono (com meus anjos)

vencer o não-vencido

teus intentos de acabar com meu trabalho

teus cornos negros

demônio dos rituais do sono.

 

.

ARAUTO:

AUTO-RETRATO EM CARVÃO

.

vejo lesmas límias na tua boca escura

como toca

sinto açoites de ventos

leio mandamentos sacramentais

onde queres chegar com isso epi-anphúsios

não me espantam teus pensamentos sem resposta

mas juro não abrirei a porta

em hipótese alguma em minha mesa

os teus talheres

tua presença alcoviteira no espelho do banheiro

costumo vencer o desvencido apenas

com um olhar poético

transcender a história do pensamento

eis a minha sina

philósopho de fundo de quintal

atiro setas de caules de couve

acerto alvos miúdos nos céus do indizível

e trago verdades novas pro teu olhar

de cobra

acrescentos de sóis inéditos

no jardim me confirmo:

arauto das novíssimas criações

nos campos do sensível.

PROTOPOEMA – de josé saramago / portugal

Do novelo emaranhado da memória, da escuridão dos
nós cegos, puxo um fio que me aparece solto.
Devagar o liberto, de medo que se desfaça entre os
dedos.
É um fio longo, verde e azul, com cheiro de limos,
e tem a macieza quente do lodo vivo.
É um rio.
Corre-me nas mãos, agora molhadas.
Toda a água me passa entre as palmas abertas, e de
repente não sei se as águas nascem de mim, ou para
mim fluem.
Continuo a puxar, não já memória apenas, mas o
próprio corpo do rio.
Sobre a minha pele navegam barcos, e sou também os
barcos e o céu que os cobre e os altos choupos que
vagarosamente deslizam sobre a película luminosa
dos olhos.
Nadam-me peixes no sangue e oscilam entre duas
águas como os apelos imprecisos da memória.
Sinto a força dos braços e a vara que os prolonga.
Ao fundo do rio e de mim, desce como um lento e
firme pulsar do coração.
Agora o céu está mais perto e mudou de cor.
É todo ele verde e sonoro porque de ramo em ramo
acorda o canto das aves.
E quando num largo espaço o barco se detém, o meu
corpo despido brilha debaixo do sol, entre o
esplendor maior que acende a superfície das águas.
Aí se fundem numa só verdade as lembranças confusas
da memória e o vulto subitamente anunciado do
futuro.
Uma ave sem nome desce donde não sei e vai pousar
calada sobre a proa rigorosa do barco.
Imóvel, espero que toda a água se banhe de azul e que
as aves digam nos ramos por que são altos os
choupos e rumorosas as suas folhas.
Então, corpo de barco e de rio na dimensão do homem,
sigo adiante para o fulvo remanso que as espadas
verticais circundam.
Aí, três palmos enterrarei a minha vara até à pedra
viva.
Haverá o grande silêncio primordial quando as mãos se
juntarem às mãos.
Depois saberei tudo.

(in PROVAVELMENTE ALEGRIA, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1985, 3ª Edição)

APELO À MISÉRIA – de joão felinto neto / mossoró.rn

 

 

Quem me dera, miséria,

eu fosse parte

de um baluarte de sonho e de quimera.

Pela boca mantém-se assim o povo,

a lavagem é a comida que a si, dera.

Na vergonha de reconhecer-se porco,

ter o rosto metido na sujeira,

enlameado atrás de uma porteira

seu anseio é mantido na espera.

 

Quem me dera, miséria,

eu me calasse

e ocultasse o meu rosto na janela.

Meus princípios mantêm-me assim exposto.

Sou mau gosto travado na goela.

Quem engole as palavras que eu digo

traz de volta a vontade de lutar,

elas tocam a ferida no umbigo

que o conformismo já ia cicatrizar.

 

Quem me dera, miséria,

quem me dera,

que de ti eu pudesse me livrar.

 

 

JAZZ SESSION – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

 

 

 

 

Minha alma

tem um revólver carregado

com seis peixes de prata

e toureia um Minotauro

e apanha pássaros com uma  rede de pesca

e vê guardas ingleses treinando

para serem homens estátuas nas praças.

 

E imagina árvores que no lugar de folhas

tem lambaris

brilhando ao sol.

e o vento e o vento

minha alma gosta de viajar

agarrado nas crinas do vento

de hoje até ontemotem

e grita.

Um corte no indicador de um escritor e como corte na língua.

 

Minha alma vai indo fluindo

fluindoevindo

 

Visita à lua crescente,

abre a boca e se amamenta

de um raio solar.

e viu Deus

e ele espalitava os dentes.

viu

marcianos e eles comem apenas

folhas de eucalipto como coalas

e também quis

brincar de moldar

genes de leões.

Leões em miniatura,

leões negros,

leões camaleônicos,

leões bioluminescentes,

leões coloridos,

mega-leãos,

leões malhados,

leões poodle.

 

 

Minha alma é errante toca em tudo.

 

Entra nas cobras,

entoca-se no cerne das árvores,

nos rios,

em balaios kaikanges,

dentro

de uma andorinha em migração,

dentro de um abutre

e consegue comer como carniça com gosto.

Minha alma entra

numa orquídea e explode em flor.

 

Cavalga no centauro Gerridae

pelos sete mares.

No grifo Actias Luna

que voou em torno do sol

até morrer.

 

Minha alma viu

o caçador levar a anta abatida

nas costas até o shopping center,

estaquear e a carnear e comer.

 

 

Minha alma sentiu

e gritou:

Beethoven, Beethoven!

como deve ter sido difícil

e pesado levar dentro

do peito a nona sinfonia,

deve ser como ter uma tempestade no peito

se debatendo dentro do útero,

chutando a barriga.

Que alivio quando finalmente nasceu.

 

Os olhos de minha alma.

Os olhos de minha alma.

Grudam nos livros,

tromba de pernilongo

sugando, sugando o sangue dos livros.

Mãos de carrapato grudam na capa dos livros e não querem mais soltar.

Hematófago,

o vampiro Desmundos lambe livros com sua anti-coagulante secreção,

suga, suga a essência dos livros,

seus eflúvios,

seu ectoplasma,

minha alma se alimenta dos livros

e passa para eles doenças sexualmente transmissíveis.

 

E os olhos de minha alma engolem

programas de televisão

revistas, viagens, seios,

e transformam tudo em poesia.

 

 

 

Minha alma tem sede de poder,

quer tudo o que é belo,

quer demarcar meu território com urina

em qualquer arvore bonita,

qualquer montanha elegante,

ou por de sol cor de rosa.

 

Minha alma sabe

de um boi que caçava galinhas.

Se uma galinha

passava perto dele

virava pasto.

 

E que o ditador Somoza

comprou uma estatua eqüestre de Mussolini,

em promoção depois da deposição do Duce.

retirou a cabeça de Mussolini da estátua

e colocou uma sua.

E acha que radiografia é pop

porque já olhou para radiografias

com garrafas de Coca-cola no reto,

com souvenir da torre Eiffel

e da torre de Dubai,

com casulos de cocaína,

com réplicas da Apolo 11,

e miniaturas de mísseis nucleares enfiados no intestino.

 

Minha alma sonha

que no Amazonas caçadores perseguem

onças e sucuris

com uma matilha de carrancas.

 

Minha alma inventa

um isqueiro com um dispositivo

que segure a chama e possa ser usado como vela.

 

E diz

que muitos problemas emocionais

acontecem  quando se tenta domar

a emoção pela brutalidade

e pela obediência cega a razão.

Às vezes temos que levar a emoção para passear

alimenta-lá bem, dar carinho.

Se a emoção ficar presa,

se você bater nela

e a deixar com sede de sexo,

sua emoção vai morder sua mão,

e morder seu cérebro macio,

arranhar seu coração

como um gato angustiado o sofá.

 

Minha alma pensa

em jazz enquanto como gabirova,

pensa em jaz enquanto chupo cana

e também consegue pensar em assobio

enquanto chupa cama

e afirma que lavagem intestinal cura disenteria.

 

Minha alma,

minha alma,

encosta o ouvido num cabo de aço que segurava um poste

e toca a corda como quem toca um contrabaixo

e escuta um som que parece um lazer

dos filmes ficção científica.

 

 

Minha alma gosta

de andar pelas ruas tocando harpa nas grades das casas

prrrrrrprrrrprrrrrrrrr pla pla pla pla.

 

Cada grade tem uma música diferente.

E também de

lamber pedaços de madeira.

Quer saber que gosto tem as árvores e não só os frutos.

sabe que o pinheiro tem gosto de resina,

guabriuva é amarga,

que cedro e marfim lembram palmito.

 

 

E o cheiro da folha de figo

e parecido com o gosto da fruta.

 

E flor de mamão tem um refinado perfume

cheiro de fruta e de flor juntos.

 

E acha

que joaninhas verdes metálicas

ficariam ótimos como brincos.

 

De repente minha alma

que estava pensando em joaninhas,

cria sabores de refrigerantes,

refrigerante sabor de folha de bergamotas,

refrigerante de pitanga,

refrigerante de guabiroba e araçá,

refrigerante de cidreira,

refrigerante de pequi,

de caraguatá,

 

E vai para qualquer

descaminho,

com as pernas na terra,

mas braços

sempre tentando alçar vôo

sem conseguir.

Porém os olhos,

sempre,

os olhos,

gostam de seguir aviões.

 

 

Minha alma,

minha alma,

quer fazer

um teatro em preto e branco

ou um filme colorido

onde o cenário, as pessoas, o figurino.

tudo

tudo

é preto e branco.

E ver

uma baleia azul cruzar a cidade

voando e cantando,

lenta como um zepelim.

 

Minha alma me pergunta

será?

será?

Se conseguirmos por uma cabeça de um velho

no corpo de um jovem,

será que o corpo vai envelhecer?

ou a cabeça vai rejuvenescer?

ou ambos vão continuar distintos?

 

Minha alma quer fazer parques temáticos.

 

A cidade de Pedrok, dos Jetsons, do Asterix.

A cidade dos super-heróis da Marvel, da DC Comics.

com vilões e heróis lutando nas ruas.

Cidade dos gangsteres, com bares de jazz

e um escritor beat escrevendo sem parar,

tocando sua maquina de escrever

como se fosse um piano.

Cidades romanas, com hotéis e bordeis, e luta de gladiadores.

Uma cidade submersa imitando uma quadra de Nova Iorque,

onde só se pode entrar com submarinos ou trajes de mergulho.

 

 

Nada de partenogênese hoje.

 

A alma quieta,

quieta,

nada, nada.

Fumo um cigarro e nada, nada.

partenogênese me vem esta palavra,

procuro metáforas e nada, nada.

saio, vejo o Beto, pensei em fazer poesia sobre o Beto,

mas não da,

Porque o Beto viu disco voador, mas não foi abduzido,

e ainda tenho que ir ao banco.

O Beto

parece um desses imitadores de Jesus.

Nada, nada,

poema sobre o Beto não da,

Beto é um nome que não cai bem para um poema.

Um gole de água,

sem sede, nada, nada.

Penso em cavalos, ventos, brincos, no Beto.

Nada,

nada,

estou seco, sem alma,

a alma deve ter ido brincar em alguma chuva distante.

A mão batuca a mesa,

cavalgo com os dedos,

Vou ao banheiro,

Sento novamente,

sinto dores na nuca, coceiras.

Nada,

nada,

o pensamento esta imerso na escuridão.

Coço as costas, acaricio a fronte,

mais um gole de água, ginástica facial,

Vou pegar um outro cigarro,

parece insônia

debato-me,

e nada, nada como falta de sono

nada se idéias,

nada de tema

nada

penso em avião, no Beto, não no Beto não adianta não dá poema.

O telefone toca,

O subconsciente não está para

peixes bioluminescentes.

Esta tedioso,

o milagre da multiplicação dos peixes profundos

não acontece,

raiva,

soco na mesa, coceira, dores,

Nada disso acontece quando

quando consigo escrever.

Sem alma

sinto-me um ídolo de pedra

e ninguém devia ler

o que um ídolo de pedra escreve,

seria idolatria.

Olho meu sapato,

preciso comprar outro

o tempo passou hora do almoço,

outro dia, minha alma foi passear sem mim.

Vi meus e-mails,

Estou perdido,

cérebro sem pensamentos

é um celebro com cegueira, é tudo escuro.

Acendo um cigarro,

sinais de fumaça para minha alma me localizar,

 

 

nada de idéias,

nada,

nada,

 

A minha garrafa ou mar foi engolida por uma baleia.

Jonas, Jonas volte para tua caverna estomacal

e leia esta mensagem.

 

O telefone grita como gato esfaqueado,

bebe com fome

e quer ser atendido,

procura as glândulas mamarias de minha orelha.

 

Minha alma voltou,

minhaalma voltou,

estou fluindo e vindo.

Minha alma me leva,

alimenta-me de estrelas,

de flores com néctar.

 

E me conta

Que a criação sempre surge antes da realização

portanto a criação esta sempre um passo a frente do real.

A criação é o objetivo do real.

E que as fantasias sexuais que um casal tem quando fazem sexo

é uma evolução da masturbação.

E posições sexuais acrobáticas são para casais sem imaginação

é que seu melhor parceiro sexual

e aquele que você pode partilhar todas suas fantasias.

 

Minha alma assiste televisão

a lutas,

corridas,

feras,

panis et circus televisivos

 

Minha alma me diz enquanto vou comprar pão:

 

Não tenho medo de alturas,

temo é minha vontade de me jogar,

pareço estar sendo puxado por algo magnético,

sempre que fico perto de uma platibanda ou sacada.

 

 

 

 

Se temos o mesmo antecedente primata dos chipanzés

e os chipanzés têm apenas os pelos negros,

mas as peles deles não são apenas pretas,

pois há muitos chipanzés de pele branca,

então, teoricamente os primeiros homens africanos

também poderiam ser pretos e brancos e não só negros.

 

Minha alma pensa enquanto

olha as lajotas hexagonais,

lajotas quebradas por uma raiz de arvore,

cigarros mortos no caminho,

Minha alma se lembrou quando estava na praia

e fui a uma padaria.

Entra

e olho para os pães de queijo murcho como uma teta velha,

achar de asco,

pede 10 pães franceses,

troco em chicletes Plets tutti-frutti,

e volta olhando as lajotas hexagonais.

 

Minha alma pensa

 

em um tiro no coração que explode como um vaso com rosas.

 

Minha alma gosta

de ver atrás dos quadros,

olhar a armação da tela,

as madeiras, os pregos,

gosta de ver as costas dos quadros.

 

Quer fazer um a exposição com telas viradas.

pintar telas viradas.

E diz,

Louvre

já cansei de ver a cara de Rembrandt,

virem à tela de costas,

coloquem a Monalisa em decúbito ventral.

 

 

O olho cheio de alma

chega antes.

 

O Hubble,

olho da humanidade,

chegou antes em Andrômeda.

O olho passeou por super novas.

O olho, já viu galáxias.

O olho pode ver o centro do sol sem se queimar.

O olho pode rondar sobre um buraco negro.

Que os outros sentidos

morram de inveja.

E por causa dos oceanos e da terra

o nosso planeta deve ter

gosto de uma lágrima

de lavrador.

 

 

Minha alma,

minha alma,

sonha

dar movimentos a fotografia

e parar filmes,

pintar estátuas,

esculpir quadros e músicas.

Sim, minha alma já experimentou muita coisa,

entalhou ventos e mares,

moldou um raio de sol,

um canto de canário

e um grito de dor,

nadou no aço

e pescou peixes fossilizados dentro de pedras.

 

E descobriu

que todas as estátuas de santos

que choram e sangram

foram feitos de madeira

retirada

dos instrumentos da inquisição.

 

Então

tirou um galho de uma coroa de espinhos

e fez

uma caneta

com a qual escrevo todos os poemas

que me dita.

Sou o escriba

de minha alma.

 

 

 

 

 

Com minha alma

 

cavalguei em um casal de libélulas azuis

enquanto acasalavam.

 

Cavalguei

em um garanhão

enquanto montava uma égua.

 

Minha alma me mostrou

leões caçando

atuns em um recife de corais.

 

Tubarão branco matando

uma zebra na savana africana.

 

Golfinhos se alimentam

bandos de estorninhos em evolução.

 

Com minha alma sonhei

que meus dedos se multiplicavam e viravam teclas

de marfim,

e vísceras cordas e ossos engrenagem,

e meu corpo e corpo do piano.

Que reencarnei como um piano,

desses que ficam no canto de uma sala

sem serem tocados.

 

Minha alma

é livre e afaga cães

e diz o que pensa.

 

Poetas discutem nomes

numa guerra inútil de conhecimentos.

A criatividade é a espada do poeta,

não o conhecimento,

o conhecimento é sua faca.

E

O artista louco ganhou respeito

desde Van Gogh, Artaud.

O poeta que não deciframos,

a tela que não compreendemos

deixa-nos ansioso,

em duvida,

todos ficam sem saber se o que vem

é loucura ou genialidade.

Mas o artista louco é muitas vezes só um louco,

não um gênio louco.

O louco

também pode ser apenas um idiota

 

 

Vento, vento, vento,

minha alma quer ir com o vento,

o seguro com um cordão umbilical.

 

e com um óculo escuro

entardece o meio dia.

 

Minha alma

 

flutuando

gosta de ler                   pelo escritório.

E grita:

Ler um poeta e incorporar sua alma.

Vejo Minas com as mesmas retinas de Carlos

e recife com a mesma exatidão de Cabral.

 

Canta Patativa, canta,

que depois que te li, teu sertão é também o meu.

 

Quero quando me ler,

que as guaxunbas,

as gabirobas,

as casas azuis,

que as pingas com cidreiras nas bodegas,

as pingas com milome

sejam minhas.

E quando

cavalgar numa pedra de avalanche,

cavalgar num tsunami,

lembrem de mim.

 

 

Minha alma

notou

aquele que só consegue ser ele mesmo

disfarçado e com nome falso.

 

E como está cansada

inveja até

cobra morta que parece descansar

enrodilhada

dentro de um vidro de formol.

 

 

Minha alma

delfim gosta

de brincar na chuva,

se lambuzar de água-doce,

ver a cidade incrustada

e as ruas espelhando céus.

 

Minha alma gosta

de nadar entre os arabescos dourados das músicas de Bach.

 

Entre os corais na primavera

e depois fumar uma nebulosa.

 

Minha alma

mesclou-se com o vento

e brincou com uma folha no outono.

 

Contorceu-se em redemoinhos

atravessando um cemitério abandonado.

 

Em viagem astral

minha alma,

minha alma,

já foi pintar desertos americanos,

os creosotes e cactus

e ao fundo a parte de traz dos de motéis,

e depósitos com pneus velhos,

lanchonetes, postos de gasolina.

Pintava ouvindo os automóveis passar

e bebia sua areia com gelo

e sobrevoou com abutres a procura

de carniça no asfalto quente.

Morou em trailers prateados

escrevendo poemas tristes,

esvaziou uísque e jogou

as garrafas com mensagens

ao céu.

Tinha a geladeira cheia de cascavéis e enlatados

dormia sobre um sofá rasgado em

frente a uma TV preto e branco,

ouvindo apenas os pulsares.

De madrugada discos voadores

perturbam seu sono.

Andava pela noite ouvindo

o coração e dissecando

cada pedra do Mojave

e voltava pela manhã apenas música.

 

 

Viagem astral,

viagem astral,

minha alma,

minha alma passa

por distritos industriais com cheiro de cinzeiros,

com imensas catedrais de aço

ligadas por tobogãs com feridas de ferrugem.

Motores e máquinas que parecem

tubulações intestinais,

é possível ler a sorte

em suas vísceras expostas.

Alguns corvos sentam

em seus galhos metálicos.

Há apenas algumas árvores empoeiradas

como artefatos em uma tumba.

Sirenes uivam, gemidos

e ranger de dentes,

o choro das engrenagens, caldeiras e seus guizos.

Containeres como legos nos pátios.

Abutres que comem ferro podre

rondam a putrefação bio mecânica.

Telas eletrificadas como

velhas como meia-calças desfiadas,

como redes de pescas velhas e rasgadas.

 

 

Minha alma

continua,

minha alma não para.

 

Minha alma,

minha alma

joga uma pedra no ar

e a pedra se transformou em pomba

que continuou a voar

e fez ninho,acasalou,ensinou seus filhos a voar.

A pedra-pomba procurou frutas,

comeu milho nas praças

e restos de pipoca.

Minha pedra pousou nas platibandas

e num entardecer, caiu e morreu.

Sua carne e penas foram reaproveitadas

mas os ossinhos lindos ficaram em um canto da praça,

delicados em uma posição elegante de fossilizados,

Quem diria que uma pedra ia acabar assim,

porque geralmente uma pedra já nasce morta,

mas esta não, esta viveu e morreu.

 

 

Minha alma,

minha alma

procura os cantos,

olha cada canto da cidade

como quem procura,

um quadro bonito em uma galeria.

 

Minha alma

encantou-se com um pedacinho de mato

que cresceu sobre pedra brita

encostado em um muro velho de um estacionamento.

Cresceu silencioso, sem gritar flores,

certamente já gemeu algumas florzinhas

minúsculas em alguma primavera,

mas agora acho que não consegue mais florir.

Agora só tem algumas folhas envelhecidas,

empoeiradas

e alguns galhinhos ressequidos,

descarnados, ossinhos pretos e sem carne,

esqueletinhos secos de planta.

Nem insetos parecem se interessar por seus

galhinho.

Vejo formigas passarem displicentes.

Pode ate ter milhões de micróbios, mas

aparentemente não tem nada.

Tão lindo este cantinho de mato

enfeitado com embalagens de chicletes

e bitucas de cigarros.

Um lugarzinho belamente feio,

uma feiúra que causa comoção

de tão singela, feiúra que não pede atenção,

uma feiúra discreta,

que nem se percebe, escondida num canto,

tanto que o dono do estacionamento

nem a tira, nem a nota.

como certamente faria com uma feiúra vistosa.

Só minha alma perigosamente a notou

e as plantinhas pareceram amedrontadas

com os olhos de minha alma.

Este pedaçinho de mato

sempre esteve escondido dentro da discrição,

descrição era sua toca.

Parece que nunca tiveram

a atenção de um olhar,

por isto aterrorizo este pobre matinho

e ele se sente pela primeira vez

frente a frente com o perigo.

Tento o acalmar afagando suas folhas secas,

mas é melhor eu e minha alma irmos,

para não chamar a atenção do dono e sua enxada.

 

 

Minha alma

gosta de digressões.

 

A magia tem milênios e só muda de roupa e língua.

A magia sempre foi ligada a uma religião

e todas as religiões querem realizar prodígios

como prova de sua verdade.

Milagre é outro nome dado à magia.

Os magos modernos

pegam seu livro milenar

a Bíblia

e recitam seus encantamentos,

conclamam poderes superiores

e com gestos e palavras mágicas

chamados de oração

tentam curar doenças,

fazer paralíticos andar sobre as águas

 

 

 

A arte é uma invenção da religiosidade.

A arte esqueceu que nasceu como oferenda

para caçar mamutes.

Sim, sim sua origem é singela

e Michelangelo foi coveiro do Papa Julio II.

 

A arte faz

uma haste de ferro

florescer rosas vermelhas,

consegue fazer uma maçã

que não e uma maçã.

 

 

E o que é um poema?

 

O que é um poema?

 

A melhor definição de algo é sempre sua palavra,

fora a palavra toda a definição é incompleta.

 

Pode se dizer que um homem

é um bípede,

mas se alguém não anda

ele continua sendo humano.

Que são racionais

mas se alguém nasce sem cérebro

ele continua sendo humano,

Portanto bípede e racionais são em si conceitos falhos

que não servem para todos os humanos,

então a melhor definição para o que é homem

é a palavra homem.

 

Como a melhor definição para a poesia

é a palavra poesia.

E a melhor definição da uma árvore

é a palavra árvore,

e a melhor definição da palavra

pedra é a palavra pedra.

 

E uma pedra tem alma

e uma árvore também tem alma,

tudo tem alma,

porque, se olhássemos

as pedras

apenas como pedras

e as árvores

apenas como árvores

nos é que não teríamos alma.

Porque uma pedra

não olha a alma de outra pedra

nem uma árvore

olha para alma de outra árvore.

Apenas quem tem alma

consegue ver almas em coisas

inanimadas.

 

Minha alma,

Minha alma

curiosa,

curiosa

gosta de entrar em casas vazias.

Com jeito de arqueólogo,

de ladrão de tumbas,

entra nas casas a beira do asfalto

que vemos quando viajamos de carros.

Em casas que parecem casamatas.

Em casinhas azuis com portas abertas.

Minha alma

abre as geladeiras,

mexe em gavetas,

nos guarda-roupas, nos perfumes

vejo se usam xampu pra cabelos secos ou não.

Experimento todos os perfumes,

os sabores dos alimentos,

tomo os remédios,vejo as plantas,

leio as revistas e livros.

 

Minha alma

vai para a ilha de Utopia

e  lá fazem sexo como bonobos

e em toda a praça tem

uma estatua da Liza Simpson.

 

 

Minha alma explica

o porquê do homossexualismo entre os animais:

É porque o sexo é feito para o prazer e não para procriar.

Se o sexo não fosse delicioso, faríamos sexo apenas para procriar

como um sacrifício para a continuidade da espécie.

O prazer é uma isca atraente demais para ser evitada e a procriação a usa, então o homossexualismo existe entre os animais

porque o sexo existe para ser prazer.

Comer também é um prazer e se um alimento

não tem nenhum valor nutritivo,

mas é muito saboroso como o sal,

será consumido com avidez.

 

Minha alma vai fluindo indo,

sem lenço ou documento,

leve, leve descompromissada e diz o que quer.

E minha alma quer uma máquina que retrate cheiros,

que ao achar uma flor, possa levar seu perfume para casa.

Uma máquina para que eu possa me perfumar

com o cheiro da maçã,

com o cheiro de uma

manhã orvalhada.

Minha alma

quer uma máquina que retrate o sabor.

Telescópios que nos permitam lamber estrelas,

sentir o gosto de uma nebulosa,

Quero saber que gosto tem os confins do universo,

telescópios que nos permitam lamber estrelas,

sentir como seria fumar uma nebulosa.

Quero que seja possível

procurar no google um sabor e um cheiro.

 

 

 

Minha alma me diz:

 

Não se preocupe quando o inferno estiver cheio

os demônios podem colonizar

o sol,

este inferno que nos aquece no inverno.

 

Minha alma fala

que  dobras espaciais,

universos paralelos.

viagens no tempo

são besteiras.

Einstein foi o gênio

que atrai uma legião de seguidores estúpidos,

como Leonardo da Vinci

atraem ocultistas.

e Duchamp  artistas idiotas,

Minha alma brinca

com fogo

e sopro de dragão não apaga velas.

 

 

Minha alma vai para onde quer,

vai para onde,

vai parar aonde?

 

Sentado em uma pedra com as mãos no queixo

pensa em  pavões cor de rosa,

agulhas para suturar líquidos,

cigarros feitos com água de mar,

 

Minha alma gosta de fumar um cigarro,

quando chega a uma  praia,a uma cidade,

gosta de sobrar sua fumaça  xamânica

em todo lugar bonito,

Gosta de passear

soltando pela boca a cada tragada

um ectoplasma

que me mescla

com as casas, rios,

une-me em ligação sensual com o todo.

 

Minha alma,

Minha alma

vendo uma imensidão

gritou do cume:

 

Eu sou tudo que minha visão alcança, sou enorme

sou ate aonde vai meu olhar.

Com meus olhos toco as nuvens e o céu,

com meus olhos sinto os pássaros,

com meus olhos apanho as frutas mais altas.

Sou uma redoma de olhar,

imenso,moldável,

em mim cabe uma parte de rua

com seus carros,

mas a massa de meu olhar para nos prédios.

Se num quarto,

acabo em suas paredes,

e em uma janela para a amplidão

sou até a linha do horizonte,

se vejo a noite vou até as estrelas.

A carne do meu olhar tem tato,

e sente os ventos.

A carne do meu olhar sente gosto,

com ele lambo a prateada lua,

A carne do meu olhar tem olfato

e cheira a primeira flor de

Andrômeda.

Meu olhar e tentáculo

vai ao longínquo,

e toca o fim visível do cosmos,

Meu olhar e língua de camaleão

e engole estrelas.

Por isto gosto de imensidões onde meu olhar cresce

e me estendo até o Máximo,

sem meu olhar me reduzo,

fico apenas do tamanho me meu tato,

do tamanho de meu gosto.

Só meu pensamento é ainda maior

que meu olhar

e vai ainda mais longe,

Meu pensamento é o olhar do meu olhar

e chega ate depois da linha do horizonte

e chega ao depois do Cosmos,

mas o pensamento

também tem seu final.

 

Minha alma

estava nas profundezas do oceano

assando um peixe bioluminescente,

olha para cima e vê um sol,

duas luas e um planeta anelado,

e grita:

Espero

que no próximo estado evolutivo

da humanidade os músculos

responsáveis pelas gargalhada se tornem mais fortes,

e os falos sejam mais sensíveis e as vulvas mais

receptivas.

Sim,sim e acredito no improvável,

porque se o aço levita,

se o aço flutua,

então posso ser ascendente, sempre ascendente,

pólen pronto para fecundar

e quero

um poema forte como uma oração,

um poema milagroso

que ao ser entoado faça

minha carne flutuar

quero cuspir tempestades,

inundar, irromper ,erupção

libertar sinfonias,

rasgar o peito e gritar mais forte ainda:

Voa meu coração com azas

está livre destas grades de ossos,

e gemer um gozo,

um êxtase eterno

que irá arrancar de mim

cachos de notas floridas perfumadas,

notas soltas com dente de leão ao ar.

Arrancar de mim

e rodar uma valsa do tornado

e vou

escrever na pele de meu amor uma ode a seu seio pequenino,

aranhando suas costas brancas uma ode a borboleta

pousada perto de seu ombro.

e na sua face um poema sobre seu olhar.

 

Minha alma,

minha alma

é onívora

e come todos os estilos de poemas,

alimenta-se de todas as músicas.

Mas colhe solitária

os cabelos da estátua de Davi

que estavam no meu travesseiro

pela manhã.

 

Minha alma,

minha alma

marcou a ferro quente o vento

e a primavera

marcou a ferro a poesia.

 

Minha alma

arrancou um pedaço de minha própria carne

e alimentou uma águia

para que pelo menos uma parte de mim seja livre.

Que parte de mim voe.

Que parte de mim saiba o que e ser águia.

 

E quer ser

Como certos pássaros quando se esquecem  que são pássaros e se  pensam vento.

Como certos pássaros se esquecem que são pássaros e vivem

como peixes.

Como certos pássaros se esquecem que são pássaros

e se deixam frutificar.

Como certos peixes quando se esquecem que são peixes

e se pensam oceano.

 

Minha alma diz:

Para rever a beleza de algo a tire do normal.

Se uma noite comum,

a mesma noite de sempre,

com as mesmas estrelas,

com a mesma lua.

Apenas florescesse em pleno meio dia,

todos olhariam novamente para a noite

com encantamento.

O olhar novo sempre rompe o hímem

que nasce entre a beleza e o cotidiano.

 

 

 

Minha alma

é entranhada com minha carne,

minha alma perde cabelo,

se me corto a minha alma também levará a cicatriz.

 

Minha alma grita:

Serei o que me falta?

o que não sou,

serei o que almejo?

Serei eu, a parte que não sou?

Serei eu, as azas que não tenho?

Serei eu as barbatanas que me foram amputadas

ou as guelras que não tive?

 

Sou o que desejo ou o que sou?

O que desejo ou o que faço?

Será este sonho eu,

Ou sou o que possuo,

meus braços e minhas pernas e o que tenho como meu,

Serei eu?

Serei eu insatisfação

e falta ou o excesso?

Então me falto ou me sobro?

Será que sou o terceiro olho que não tenho?

Será que ser é uma essência alimentada

pelo que não existe,

enraizada no nada e quando este nada

vai se transformando aos poucos

em substância,

a essência morre,

porque a essência  bebe seu néctar

nas inflorescências do nada.

 

Minha alma

não quer mais pensar.

Minha alma quer descansar,

voar no colo de

uma pomba sem cabeça.

 

POEMA I – de fernando monteiro / recife

“E para que ser poeta
em tempos de
penúria?”

Insepulta jaz a pergunta acima

e bem acima do motivo
supostamente íntimo

visto no verso de um dos últimos poemas de Roberto Piva.

A inquirição, franca, fende a fina porcelana de cera dos ouvidos.

Sabemos da penúria,

porém não queremos saber dela.

Plantamos a flor carnívora,

mas desviamos a vista

quando o jardim do pecado

castiga com isso:

indiferença, acídia, tédio mortal

no peito de avestruzes

(os do estômago forte

para literatura feita

com lixo).

FARINHA DO MESMO SACO – de edu hoffmann – curitiba

Eu que andava desse mundo

mais cheio que prato de caminhoneiro

sem rumo sem amor e sem dinheiro

 

talvez por ir com muita sede ao pote

comia o pão que o diabo amassou

pagava mico pagava o pato

até o meu retrato a outra queimou

 

andava mais quebrado

que arroz de terceira

amor, você me tirou da dieta

você é minha feijoada completa

 

agora choro de barriga cheia

você me lambuzou, você se regalou

você meu ante-pasto, minha ceia

 

nesse bolo todo você é a cereja

que fica comigo à esmo

tomando cerveja

comendo torresmo

 

 

SEM TÍTULO I – de ana vidal / portugal

 

 

 

Persigo sem descanso

um horizonte estranho

alheio a tudo o que já fui ou sou

Sei que os meus passos seguem um desenho

que não alcanço

mas que algo em mim já viu ou já sonhou

Desconheço a razão de cada avanço

Só sei que tenho de ir por onde vou…

 

 

.

do livro SEDA e AÇO.

 

 

Não Me Sinto Mudar – de pablo neruda / chile


Não me sinto mudar. Ontem eu era o mesmo.
O tempo passa lento sobre os meus entusiasmos
cada dia mais raros são os meus cepticismos,
nunca fui vítima sequer de um pequeno orgasmo

mental que derrubasse a canção dos meus dias
que rompesse as minhas dúvidas que apagasse o meu nome.
Não mudei. É um pouco mais de melancolia,
um pouco de tédio que me deram os homens.

Não mudei. Não mudo. O meu pai está muito velho.

As roseiras florescem, as mulheres partem
cada dia há mais meninas para cada conselho
para cada cansaço para cada bondade.

Por isso continuo o mesmo. Nas sepulturas antigas
os vermes raivosos desfazem a dor,
todos os homens pedem de mais para amanhã
eu não peço nada nem um pouco de mundo.

Mas num dia amargo, num dia distante
sentirei a raiva de não estender as mãos
de não erguer as asas da renovação.

Será talvez um pouco mais de melancolia
mas na certeza da crise tardia
farei uma primavera para o meu coração.

Pablo Neruda, in ‘Cadernos de Temuco’
Tradução de Albano Martins

 

 

EU VIM DA GERAÇÃO DAS CRIANÇAS TRAÍDAS – de lindolfo bell / timbó.sc


Eu vim de um montão de coisas destroçadas.

Eu tentei unir células e nervos, mas o rebanho morreu.

Eu fui à tarefa num tempo de drama.

Eu cerzi o tambor da ternura, quebrado.

Eu fui às cidades destruídas para viver os soldados mortos.

Eu caminhei no caos com uma mensagem.

Eu fui lírico de granas presas à respiração.

Eu visualizei as perspectivas de cada catacumba.

Eu não levei serragem ao corpo dos ditadores.

Eu recolhi as lágrimas de todas as mães numa bacia de sombra.

Eu tive a função de porta estandarte nas revoluções.

Eu amei uma menina virgem.

Eu arranquei das pocilgas um brado.

Eu amei os amigos de pés no chão.

Eu fui a criança sem ciranda.

Eu acreditei numa igualdade total.

Eu não fui canção, mas grito de dor.

Eu tive por linguagem materna, roçar de bombas, baionetas.

Eu fechei-me numa redoma para abrir meu coração triste.

Eu fui a metamorfose de Deus.

Eu vasculhei nos lixos para descobrir a pureza.

Eu desci ao centro da terra para colher o girassol que morava no eixo.

Eu descobri que são incontáveis os grãos no fundo do mar,

Mas são raros os que sabem o caminho da pérola.

Eu tentei persistir para além e aquém do ser humano, o que foi errado.

Eu procurei um avião liquidado para fazer a casa.

Eu inventei um brinquedo das molas de um tanque enferrujado.

Eu construí uma flor de arame farpado para levar na solidão.

Eu deixei um balde no poço para salvar o resto do mundo.

Eu nasci conflito para ser amalgama.

Eu sou da geração das crianças traídas.

Eu tenho várias psicoses que não me invalidam.

Eu sou o automóvel a duzentos quilômetros por hora

Com o vento a bater-me na cara

Na disputa da ultima loucura que adoeceu.

Eu sou o antimundo na medida em que se procura o não existir.

Eu faço de tudo a fonte para alimentar a não limitação.

Eu sei que não posso afastar o corpo que não transcende.

Mas sei que posso fazer dele a catapulta para sublimar-me.

Meu coração é um prisma.

Eu sou o que constrói porque e mais difícil.

Eu sou o que não é contra, mas o que se impõe.

Eu sou o que quando destrói, destrói com ternura.

E quando arranca, arranca até a raiz.

E põe a semente no lugar.

Meu coração é um prisma.

Eu sou o grande delta dos antros.

Os amigos mais atentos são as águas que me acorrem.

Eu sou o que está com você, solitário.

Quando evito a entrega, restrinjo-me.

Quando laboro a superfície é para exaurir-me.

Quando exploro o profundo é para encontrar-me.

Quando estribo os braços e pernas na praça o não é alterável.

É para andar a galope sobre a não liberdade.

Sem bandeiras que indiquem norte qualquer

Avanço das caliças.

Sem ponte fixo a espera, nem lar de maternas mãos,

Ou rua de reencontro

Instalo os meus adeuses.

Sem credo a não ser a humanidade dos que nos amam e desamam,

Anuncio a catarse numa sintaxe de construção.

Eu escreverei para um universo sem concessões.

Eu saberei que a morte não é esterco

Mas a infinita capacidade de colher no chão menos adubado,

Que poderei sorvê-la como laranja que esqueceu de madurar,

Que serei o alimento para o verme primeiro da madrugada,

Que a vida é a face que se incorpora em forma de espasmo,

Que tudo será diferente, que tudo será diferente, tão diferente…

Eu quero um plano de vida para conviver.

Ostentarei minha loucura erudita.

Eu manterei meu ódio a todos os cetros, cifras, tiranos e exércitos,

Eu manterei meu ódio a toda a arrogante mediocridade dos covardes.

Eu manterei meu ódio contra a hecatombe do pseudo-amor entre os homens.

Eu manterei meu ódio contra os fabricantes das neuroses de paz.

Eu direi coisas sem nexo em cada crepúsculo de lua nova

Eu denunciarei todas as fraudes da nossa sobrevivência.

Eu estarei na vanguarda para conferir esplendores.

Eu me abastardarei da espécie humana.

Mas eu farei exceções a todos aqueles que souberam amar.

 

 

Retrato falado de um velho japonês – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

 

 

Seus olhos são baços e pequeninos

delicadamente colocados

sobre a renda das rugas.

Mas seu olhar tem uma imensidão que

lembra o mar.

O ar de oitenta anos de sorrisos

desgastaram seus dentes

como o vento, uma rocha.

Ele tem um chuvisco com

arco-íris cada vez que fala contra o sol

e suas palavras rodam

nos cérebros como

folhas de outono

quando entram pela janela dos ouvidos.

 

LIBERDADE – de miguel torga / portugal

Liberdade

 

 

— Liberdade, que estais no céu…
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.

— Liberdade, que estais na terra…
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.

Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
— Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.

Miguel Torga, in ‘Diário XII’

 

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