A LEITURA NÃO É UM HÁBITO – por jorge lescano / são paulo


 

 

Hábito, subs. Masc: disposição duradoura adquirida

pela repetição freqüente de um ato; uso; costume.

Novo Dicionário Aurélio.

 

Eu sou afeiçoado a ler até os papéis rasgados das ruas

Miguel de Cervantes: Don Quixote

 

Hábito é enfiar o dedo no nariz,

a leitura é um trabalho intelectual.

Livro das cinzas e do vento

Sem pretensões de escrever uma tese acadêmica, uma vez que estas estão viciadas pelas normas do discurso universitário, das quais afortunadamente estou livre, gostaria de expor a minha visão do ato da leitura.

Atualmente conto mais de meio século de leituras anárquicas, isto é, livres de qualquer controle e direção a não ser o meu interesse e o meu gosto. Assim que fui alfabetizado descobri a leitura e o livro que se tornaram meus companheiros pela vida afora. Se a escrita-leitura está condicionada pelo entorno social, não se pode negar que também o indivíduo leitor, com todas as suas particularidades, físicas inclusive, faz parte do processo que denominamos leitura e que vai muito além da decodificação de signos gráficos.

Através do texto dois sujeitos se defrontam. O autor, que também é um leitor, e o leitor-autor de novos e imprevistos significados. Duvido que exista leitura errada, no máximo poderá haver leitura deficiente, leitura que não atinge todo o conteúdo do texto.

Ler é como andar, como falar. Quando a criança começa a falar e não consegue pronunciar como os adultos, se diz que fala errado. Grande injustiça! Quando anda feito um palmípede porque o tamanho do pé não permite a flexão e ainda estende os braços como asas para manter o equilíbrio, ninguém diz que anda errado. Todos reconhecem que anda segundo as suas possibilidades e até festejam cada nova conquista de terreno.

O meu campo de experimentação, por assim dizer, é o texto ficcional. A arte é de um modo geral um campo de experimentação. Nela podemos vivenciar idéias sentimentos e sensações de forma explícita sem correr qualquer risco. Interpretar “mal” uma situação ou um personagem literário não põe em risco a vida de ninguém, já ler deficientemente uma fórmula de química pode fazer a casa voar. A releitura do bom texto literário sempre acrescerá novas informações, interpretações e sentidos.

Confunde-se muitas vezes a quantidade com a qualidade. Um bom leitor é, para a maioria das pessoas, alguém que lê muito (?), que possui vasta biblioteca, real ou virtual em tempos de internet. Creio que um grande leitor pode ser o leitor de um único livro durante toda a vida. Alguns exemplos literários podem ilustrar esta idéia.

No romance L’Étranger, de Albert Camus, traduzido como O estrangeiro (deveria se chamar O estranho: a obra trata do estranhamento do protagonista em relação a si mesmo e não há qualquer estrangeiro na história, mas isto é tema para outra nota), Meusrault, seu protagonista, preso por haver matado um homem, encontra na cela uma folha de jornal na qual se narra a morte de um homem por sua mãe e irmã. Devo ter lido esta história milhares de vezes, diz. O caso o leva a refletir profundamente sobre a falta de sentido da vida e chega à conclusão de que bastaria viver um dia para ocupar o resto da vida com as lembranças. O próprio Camus deve ter pensado muito nisso, a notícia deu origem a sua peça dramática O mal entendido. Se Meusrault tivesse mais material de leitura talvez se distraísse e o seu pensamento poderia vagar sem rumo; nunca saberemos, a obra não nos dá qualquer pista a respeito.

Yannes, garimpeiro grego na Amazônia venezuelana, carrega como único pertence um exemplar da Odisséia, este é suficiente para preencher suas necessidades intelectuais. Isto acontece em Os passos perdidos, romance do cubano Alejo Carpentier. O autor não dá informações sobre o resultado dessas leituras e garante que o personagem é real. Real também é o fato mencionado por Camus.

Pierre Menard, autor do Quixote, de Jorge Luis Borges, é obra exemplar sobre a leitura. O personagem, leitor de Cervantes e poeta simbolista, decide escrever (não reescrever) o Don Quixote. Não queria compor outro Quixote – o que é fácil – mas o Quixote. Borges ilustra a idéia de que o leitor pode (talvez deva) ser o verdadeiro autor da obra. A leitura, diz, é um trabalho mais demorado, mais intelectual que a escrita.

Costumo dividir a leitura em três estágios básicos: o informativo, no qual o texto revela seu conteúdo imediato, seu significado semântico; o estrutural ou crítico, onde o leitor lê o corpo do texto, não apenas o nível gramatical ou sintático, mas onde reconhece outros elementos, tais como a ação, tempo, lugar e personagem, elementos básicos de qualquer narração e sem os quais nada pode ser narrado; finalmente o nível criativo, aqui o leitor mudou a sua natureza, ele é co-autor do texto. Ler é recriar o texto. É lugar comum dizer que um livro sem leitura é letra morta. Nada mais verdadeiro. Cada leitor recria o texto com suas próprias experiências, projeta sobre a obra o seu repertório único, intransferível, neste sentido ele já está escrevendo, já é um escritor. Pierre Menard é o paradigma deste estágio.

Mais de uma vez vi andarilhos parando para ler uma folha de papel jogada na rua. (Não devia haver muitas na época de Cervantes.) O caso é intrigante: o que procura esse leitor? Creio que não seja informação. Provavelmente não se importou em verificar a data de publicação. Penso que está exercendo o famigerado hábito da leitura preconizado por editores, críticos, professores, livreiros, jornalistas, curadores de feiras de livros e eventos afins e até escritores. Sim, uma vez superado o estágio de leitura com os lábios, surge o hábito de leitura, isto é, um reconhecimento compulsório do texto. Nos grandes centros urbanos é fácil verificar que lemos de forma impensada, contínua, quando andamos pela rua. Todo texto é reconhecido automaticamente, sem crítica e dificilmente fica registrado na memória. Isto é um hábito, será uma leitura?

Incentivar o hábito da leitura não será reforçar o hábito de consumo, substituir a qualidade pela quantidade? Se assim for, pode-se dizer que o hábito da leitura é bom para os negócios.

Estas são observações avulsas de um autodidata sem qualquer repertório epistemológico, como o leitor atento pode perceber, mas que não se considera vítima do hábito da leitura.

Dor em salva – de omar de la roca / são paulo

 

 

A líquida curva cristalina,

o céu azul de mar ascenso

presenciam tudo.O encontro,a ameaça.

A neblina na alma, pé no chão descalço.

O mar profundo e o céu profundo se encontram

dentro de mim e me esvaziam de toda possibilidade.

A impossível possibilidade,

a impassível  passividade.

Pedras cortando, fio de prata zunindo.

O esquecimento da euforia ,

a despedida das lembranças.

A impotência de nada fazer.

Nada poder fazer senão aceitar.

Aceitar tudo.Esperar tudo.

A esperança, a espuma que volta,

o som das ondas que cessa,

Aceitar a água alta que bate forte por dentro.

Cumprir o ritual, linha a linha,

sem retorno.

Ainda a esperança que aos poucos se esvai.

A areia fofa,as pedras,a onda quebrando a pedra,

A tempestade que dilui todo o cinza em mais cinza

A névoa que encobre tudo e tudo revela

Mãos que trazem conchas, algas,veneno e cura.

A dor em salva.

fitas coloridas, roupas brancas,

a dor que nada poupa.

Segredos,religião única ,

o ar que falta.

Ardor que a nada salva.

A luz do farol que nada ilumina.

Múltiplos credos, sabores, cores vibrantes, Bonfim,

fontes e fortes.

Nada mais importa.Tudo importa .Tudo passa.

Mas tudo fica,que a imaginação não para.

A imaginação segue seu caminho.

Sem rumos, sem freios e sem fronteiras.

Ad infinitum.

Querendo voltar ao abismo solar, amarelo,límpido.

Querendo voltar no tempo, impossível tempo,

que a tudo vê,sempiterno.Sempre vivo.

Mas que inexiste quando os segundos congelam.

 

Regina Braga: “Somos todos bissexuais”


Casada há trinta anos com o médico Dráuzio Varella e mãe de Gabriel Braga Nunes, atriz conta que “se envolve com mulheres todos os dias”

Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro 28/07/2011 11:40


O que para alguns é polêmica, para Regina Braga é assunto corriqueiro. Não só porque ela está em cartaz há dois meses em São Paulo com uma peça que aborda a vida da poetisa americana Elizabeth Bishop, lésbica assumida. Para a atriz, a opção sexual não é tabu. “Eu acho que nós somos, o ser humano em geral, somos bissexuais. Eu sou bissexual, qual é o problema?”, afirma ela.

Casada há trinta anos com o médico Dráuzio Varella, ela não vê problema algum em lidar com isso. “Eu vivo com ele. Eu não escolhi viver com uma das minhas amigas. E ele está feliz com isso. E eu também”, diz, categórica.

A atriz está em cartaz em São Paulo com a peça “Um porto para Elizabeth Bishop”, sobre a estadia da poetisa americana por longos quinze anos no Brasil. Mesmo texto que ela apresentou, com igual sucesso, dez anos atrás. Em novembro, estréia no Solar de Botafogo, no Rio. Em breve volta à TV (sua última participação foi em “Tititi”), como uma fazendeira viúva na série “As Brasileiras”, na qual viverá um romance contra a aceitação da filha, interpretada pela Sandy Lima.

Em conversa exclusiva com o iG, Regina também comentou que não assiste às maldades do seu filho,Gabriel Braga Nunes, em “Insensato Coração”. “Me senti mal muitas vezes vendo esta novela”, diz.

iG: Elizabeth Bishop, ao chegar ao Brasil, tem uma visão meio Carlota Joaquina de tudo que vê. Como ela muda de ideia e se apaixona pelo País?
Regina Braga:
 Carlota Joaquina dos nossos tempos (risos)! Ela chega no porto de Santos, em dezembro, e acha tudo horrível. Tem um poema no qual ela descreve aqueles morros todos. Come um caju em Petrópolis e fica doente, pega uma alergia, e se interna no Rio. Fica apavorada, acha tudo corrupto, desorganizado, feio, provisório… Mas aí ela sente nosso calor humano, começa a tomar banhos de cachoeira, e aí se tornou uma poeta muito melhor.


“Depende das circunstâncias, a gente pode ser expressamente gay ou não”

iG: Qual é o grau de importância, a seu ver, de Elizabeth na poesia americana? 
Regina Braga: Só os mais intelectuais a conheciam. Mas ultimamente teve milhares de livros sendo lançados pelo mundo, tudo sobre ela… Teve um americano que esteve na Flip, o Michael Sledge, Ele lançou “A arte de perder”, baseado na vida e obra dela. Elizabeth foi amiga pessoal de Vinicius de Moraes e Manoel Bandeira. Adorava Drummond, conhecia João Cabral de Melo Neto. Ela era poeta revolucionária nos Estados Unidos.

“Se quisesse viver com uma mulher, poderia”

iG: E como é sua ligação com a poesia?
Regina Braga:
 Elizabeth me aproximou mais desse universo. Gosto dessa estranheza que ela tinha ao descrever o que via. “Eis uma costa/ Eis um porto…”. Ela te pega pela mão e começa a mostrar o que está vendo.

iG: O público expressa alguma reação negativa pelo fato de a personagem da peça ser lésbica?
Regina Braga: 
Há dez anos trás, era muito pior, sabia? As pessoas vinham me perguntar: ‘como é que você faz para fazer uma gay?”. Gente, como se isso fosse de um universo tão distante! Eu falava ‘mas que isso. Você está falando do quê?’. Como se fosse um ser diferente, sabe? Eu sinto que, pela reação de vários casais, a maioria sendo casais de mulheres, que vinham me procurar depois da apresentação, dizendo ‘muito obrigada pelo respeito que você está lidando com este tema’. Respeito? Então quer dizer que as pessoas não estavam acostumadas a serem tratadas com respeito.

iG: Você ainda sente a sociedade careta em relação a este assunto?
Regina Braga:
 Tem nichos caretas. Mas quanto mais se discutir, melhor.

iG: Onde o público lida melhor com esta temática: na TV ou no teatro?
Regina Braga:
 Tem que ser falado em geral. Tem que ser levado a sério. Tinha uma época que só aparecia gay no Brasil para fazer piada sexual, totalmente caricatura, um deboche. Para fazer rir os imbecis. Piada de sexo é para imbecil.


“Eu vivo com ele (Dráuzio). Eu não escolhi viver com uma das minhas amigas. E ele está feliz com isso. E eu também”

iG: Como quebrar este tabu? 
Regina Braga: Quebrar? Este termo dá ideia de bater e quebrar, no sentido de ser uma coisa agressiva. Talvez não seja quebrando, mas abrindo para conversas. Quanto mais informação as pessoas tiverem, mais educação e pensamentos ela terá para contrapor a realidade e rever a história.

iG: O que te leva a declarar a sua opção sexual?
Regina Braga: 
Sinceridade. Eu acho que nós somos, o ser humano em geral, bissexual. Eu sou bissexual, qual é o problema? Depende das circunstâncias, a gente pode ser expressamente gay ou não. Mas que todo mundo tem isso dentro da gente, ah, isso tem.

iG: Como você se deu conta disso?
Regina Braga:
 Temos que falar mais abertamente dessas coisas, tem que se tornar mais público. Não pode ficar só nestas coisas rasas. Achei importante ser sincera. Sinto isso em geral nas pessoas, tem que se desenvolver mais isso. Todo mundo é bissexual. E pode ficar homo ou não. Isso é secundário.

iG: Como sua bissexualidade aflora? Já se envolveu com mulheres?
Regina Braga:
 Eu me envolvo todos os dias. Todos os dias tenho várias paixões na minha vida. Tenho muitas amigas íntimas. Tenho esta sensação de que posso escolher o que eu quiser. Se eu quisesse viver com uma mulher eu poderia.

iG: O que o Dráuzio acha disso?
Regina Braga: 
Ele sabia desde sempre… Eu vivo com ele. Eu não escolhi viver com uma das minhas amigas. E ele está feliz com isso. E eu também.

iG: Você sofreu preconceito em algum momento da vida, por pensar e falar disso abertamente?
Regina Braga:
 Para falar a verdade, não (pausa). Ao contrário, sinto que as pessoas estão ávidas por quererem se ampliar. É claro que eu devo frequentar ambientes bem mais abertos que muita gente. De forma geral, em relação a esta questão gay, tão enraizada na humanidade, quando converso com as pessoas sobre isso, elas percebem como é normal. Mas tem casos lamentáveis, sempre.


“Me senti mal muitas vezes vendo Gabriel em ‘Insensato Coração’”

iG: Como quais, por exemplo? 
Regina Braga: Como aquele em que pai e filho foram confundidos com casal homossexual e foram agredidos. Isso é grupo terrorista!

iG: Você está com 62 anos. Sua relação com o sexo mudou depois dos 60?
Regina Braga:
 Sexo na terceira idade? (risos) Olha, aqui em casa está sendo possível (risos). É normal quando as pessoas estão em boa saúde. O sexo fica com elas até o fim.

A atriz diz que não gosta de assistir ao sofrimento do personagem do filho na novela

iG: Há quanto tempo está casada?
Regina Braga:
 Há trinta anos. Muito tempo, né? É bom, bom mesmo! Meu segundo casamento. No primeiro, fiquei dez anos casada com o pai do Gabriel e da Nina, que é fisioterapeuta. Ela tem duas crianças pequenas. Gabriel é um ano mais velho que ela.

iG: Tem acompanhado as cenas do Gabriel em “Insensato Coração”?
Regina Braga:
 Me senti mal muitas vezes vendo esta novela. Quando ele está por cima, costumo assistir melhor. Aquele jeito psicopata de ser é interessante. Mas agora, que ele tem sofrido, não gosto de ver, não. Logo no começo da novela tinha um acidente de moto, fiquei com as imagens na cabeça. É o meu filho, é a cara dele ali. Evito ver.

iG: Já teve pesadelo com o Léo (personagem do Gabriel)?
Regina Braga: 
Pesadelo ainda não. Mas olha só, Dráuzio uma vez viu alguém apontando o revólver na cabeça dele, numa dessas cenas da novela. De noite, ele não conseguiu dormir. Só pensando no Gabriel com o revólver mirado na cabeça. A gente fica com estas imagens, isso não é bom. Me incomoda muito este tipo de cena.

JESUS APARECIDO DA SILVA, EM AÇÃO – de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

JESUS APARECIDO

DA SILVA, EM AÇÃO

 

 

Estive com Jesus

na Assembléia dos Sábios

Consagrados pelo Governo

Jesus em pé encostado

numa coluna dórica

ouvia à todos em silêncio

:no silêncio mais profundo: 

opfshneoim

Jhejkfdnj

após todas as falas

Jesus :lux em esplendor:

tomou a tribuna e

sua voz fez-se presença

nos espaços lídimos do templo

Jesus vestia uma túnica de

juta branca pontilhada de finos

bordados e grossos remendos que lembravam

manchas pictóricas fauves

Jesus estava magro muito magro

acometido de gastrite

mas doce e manso como

sói poderia ser Jesus naquele dia

engoliu um comprimido

de leite de magnésio ellephilips

para alívio da dor na boca

do duodeno

a voz comum de Jesus

emanava altissonante      

primeiro falou das sementes

dos brotos das folhas

dos frutos tenros

da grande árvore da sabedoria

e deu pra ver as oliveiras

      cheias de olivas

      pingentes de maduras

:caminhantes noctívagos: saciados e adormecidos sob os galhos das ditas árvores imaginadas e que se podiam ver

após partilhou Jesus os pães e

os peixes com os presentes

:visão premonitória de Jesus:

da futura sociedade

que habitaríamos

visão de fartura exposta

                                      Jesus era realidade

                                      e era sonho era

                                      objetividade plena

e metáfora poética incorporada

:fluído simbólico apto a dizer

e denotar o mundo:

Jesus falou da vida

e da morte falou de fatos

atos trabalho saúde

alimento transporte educação

salário linguagem e pensamento

Jesus declamou poemas

cheirando à couro e deserto

poemas de estar na terra e no céu poemas de mansidão e conflitos                                                       alegria e tristeza                                                      Jesus decodificou hieróglifos nas pedras que trazia

pedras que o enganaram muitas

vezes pedras que o enganariam

para sempre e Jesus ainda não sabia 

depois descreveu os oceanos abissais e os rios

até o nosso :superamazonas:

  enfocou rio tomado de verde pra todos os lados falou dos peixes que os habitam peixes peixes muitos peixes :escamas-vidas:

peixes sempre multiplicados em míriades de incalculáveis cardumes

                                             contares infinitos:

   Jesus dispensou

o ábaco ou a máquina de somar com pedras pedrilhos

pois os números ficaram imensuráveis

tantos os peixes existidos no mar

e nos rios que falara mas que

o deserto não oferecia senão gafanhotos

pequenos gafanhotos lêmptos de cor amarelo-cinza gafanhotos que na véspera alimentaram São João Batista

Jesus não tinha mesmo muita fome

que a vida a ideologia pregada

o consumia no amar no pensar orientar e subverter o superpoder

estabelecido

Jesus absolutamente não

tinha muita fome

não se preocupe fora de tempo

Jesus nunca teve fome

a louca fome que sempre tivemos temos

Jesus orou com a

leveza de anjos azuis

 como pescador como operário de chãos  arenosos e de cal pedras britas carvões em minas

 ferros e cimentos

 Jesus expôs sentenças

 que a todos pareciam conhecidas e no entanto nunca as tinham ouvido lido nos papyros seculares

Jesus escondia as pequenas

pedras-eclipsemas mais

importantes sob a túnica

numa espécie de bolso

onde algumas moedas

                                     repousavam inúteis

Jesus falou com as

palavras-lagartas vivas que sabia

palavras simples tiradas

do dicionário do deserto

dicionário

de tempos de cogito solitário

nos amplos espaços de vento e areia

ventos e areias

Jesus suspenso no ar

em andaímes descomunais

tapumes cordas

ou cipós-açus

Jesus tinha os cabelos thurvos de areias pós brancos de cal

e cimento :resíduos

de britadeira: e ventos

o corpo suado e sujo das andanças e labores

no transfim a esmo

ou a conduzir magistrtal os rebanhos orientados pelo amor 

Jesus lívido etéreo

os olhos fixos num ponto acidental nas amplas

paredes como se

não enxergasse as pessoas

que na Assembléia dos Sábios Consagrados pelo Governo

os lábios de Jesus no

sadio movimento da fala tresandados tresandando Jesus semiótico Jesus poeta de cristal Jesus arauto dos novos tempos Jesus singelo adornado de precioso saber Jesus filósofo Jesus teólogo Jesus pai Jesus filho Jesus Maria Jesus irmão Jesus ideólogo Jesus messiânico Jesus político Jesus líder sindical Jesus professor Jesus enfermeiro Jesus advogado

:não: Jesus legisferante

Jesus cristão Jesus profano

Jesus Jesus

sua voz crescia

nos largos espaços do Templo Consagrado

à Sabedoria e ao Espírito Elevado os sábios no

máximo

assentiam com as cabeças

nenhum

importuno a contraditar alucinado as preleções

inusitadas de Jesus os vendilhões do templo

cairam em si e armaram feiras à beira dos caminhos depois da última que Jesus lhes aprontou 

impávido Jesus tratou das   relações dos homens entre homens sistemas e organismos

da sobriedade das estruturas frias da matéria do essencial do lixo

das mãos estendidas do amor em todas suas variantes:

amor dos beats amor hippie amor dândi amor business amor vertigem amor platônico amor nativo amor a deus amor proletário amor fraterno amor paterno amor materno

amor de   ficar amor de amar amor do amor em si

Jesus calou os sábios o canto hipnótico que

a cigarra funda: eu ali

high tec assim senti o saber

no espírito dos tempos a voz

do espírito santo o pathos do

canto o transe da voz inaugural dos novos tempos

um tempo de mãos unidas na

mesma senda de viver a vida

amar e laboriar para o futuro

:futuro o que persigo como poeta:

arrisquei um aparte na fala de Jesus ‘Jesus… sou poeta e os pulhas…

‘todos são

filhos de deus’ corrigiu-me impiedoso Jesus

e completou que esperasse paciente ‘o beijo do tempo’

que

‘nada era

de se antecipar’ nas

minhas tolas pretensões de ser

mais blasfemei sobre tantas

coisas

por não ter conseguido isso

e aquilo

Jesus

comiserado outra vez negou  minhas vãs pretensões de ser

‘mas Jesus Jesus…’

e Jesus ‘o filho do pai

que não acata a lição dos tempos não

merece sonhar não merece crescer

tua voz aparecerá quando for preciso

não corra na frente do signo

não adiante o pensamento

sem necessidade. A flor nasce

e morre no tempo certo

o vento espalha pétalas nos

espaços arbitrários

quando há nathural exigência

tens signos interiores de luz signos

ainda contidos que

devem ficar contigo no rebanho in constructo

da grande obra

dê tempo ao tempo

tempo aos ventos do

espalhar de pétalas da flor-

poética bruta que és’.

Tive que sair às pressas

antes que a turba me agredisse.

De fora do templo ainda ouvi Jesus finalizar

seu discurso dizendo que era ‘Jesus Aparecido da Silva

sindicalizado pedreiro alagoano desempregado

analfabeto sete filhos RG n.º 1880.521-4 IIDF

CTPF n.º 15582 série 276, residente em Estripulândia

cidade satélite de Brasília’.

A Justiça Brasileira! – de naldo souza / ilha de santa catarina.sc

 

Isso foi exibido em todos os telejornais noturnos na quinta feira.
Paulo, 28 anos, casado com Sônia, grávida de 04 meses, desempregado há dois meses, sem ter o que comer em casa foi ao rio Piratuaba-SP a 5km de sua casa pescar para ter uma ‘misturinha’ com o arroz e feijão, pegou 900gr de lambari, e sem saber que era proibido a pesca, foi detido por dois dias, levou umas porradas. Um amigo pagou a fiança de R$ 280,00 para liberá-lo e terá que pagar ainda uma multa ao IBAMA de R$ 724,00. A sua mulher Sônia grávida de 04 meses, sem saber o que aconteceu com o marido que supostamente sumiu, ficou nervosa e passou mal, foi para o hospital e teve aborto espontâneo. Ao sair da detenção, Ailton recebe a noticia de que sua esposa estava no hospital e perdeu seu filho, pelos míseros peixes que ficaram apodrecendo no lixo da delegacia.

Quem poderá devolver o filho de Sônia e Paulo?

Henri Philippe Reichstul, de origem estrangeira, Presidente da PETROBRAS. Responsável pelo derramamento de 1 milhão e 300 mil litros de óleo na Baía da Guanabara. Matando milhares de peixes e pássaros marinhos. Responsável, também, pelo derramamento de cerca de 4 milhões de litros de óleo no Rio Iguaçu, destruindo a flora e fauna e comprometendo o abastecimento de água em várias cidades da região. Crime contra a natureza, inafiançável.

Este camarada encontra-se em liberdade e pode ser visto jantando nos melhores restaurantes do Rio e de Brasília.

CHINA COMUNISTA, vira DITADURA de partido único CAPITALISTA. QUEM DIRIA!

11/12/2011 - 08h04

China pede para ser reconhecida como economia de mercado

 

DA EFE, EM PEQUIM

 

O presidente da China, Hu Jintao, pediu neste domingo que o mundo reconheça o país plenamente como economia de mercado e relaxe as restrições na exportação de alta tecnologia ao país, durante um discurso para comemorar o décimo aniversário do ingresso de Pequim na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Hu ressaltou que a entrada da China no bloco, a sexta maior economia mundial em 2001 e segunda na atualidade, “foi um marco no processo de reforma e abertura” do regime comunista, iniciando “uma nova etapa histórica” para a potência asiática.

No discurso, o líder destacou que o país continuará a reforma e abertura de sua economia e porá em prática estratégias mais ativas para promover os intercâmbios com o resto do mundo.

A China ingressou na OMC no dia 11 de dezembro de 2001, o mesmo dia em que também o fez seu histórico rival Taiwan, e após um árduo processo de 15 anos de negociações.

PRIVATARIA TUCANA: LIVRO-DENÚNCIA TRAZ BASTIDORES ESPANTOSOS DE UMA ERA DE ESCÂNDALOS E CORRUPÇÃO


Com 200 páginas e 16 capítulos que jamais deixam cair seu contundente interesse, PRIVATARIA TUCANA é o resultado final de anos de investigações do repórter Amaury Ribeiro Jr. na senda da chamada Era das Privatizações, promovida pelo governo Fernando Henrique Cardoso, por intermédio de seu ministro do Planejamento, ex-governador de São Paulo, José Serra. A expressão “privataria”, cunhada pelo jornalista Elio Gaspari e utilizada por Ribeiro Jr., faz um resumo feliz e engenhoso do que foi a verdadeira pirataria praticada com o dinheiro público em benefício de fortunas privadas, por meio das chamadas “offshores”, empresas de fachada do Caribe, região tradicional e historicamente dominada pela pirataria.

Essa “privataria” toda foi descoberta num vasto novelo cujo fio inicial foi puxado pelo repórter quando ele esteve a serviço de uma reportagem investigativa, encomendada pelo jornal “Estado de Minas”, sobre uma rede de espionagem estimulada pelo ex-governador paulista José Serra para levantar um dossiê contra o ex-governador mineiro Aécio Neves, que estaria tendo romances discretos no Rio de Janeiro. O dossiê teria a finalidade de desacreditar o ex-governador mineiro na disputa interna do PSDB pela indicação ao candidato à Presidência da República, e levou Ribeiro Jr. a uma série de investigações muito mais amplas, envolvendo Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-tesoureiro das campanhas de José Serra e Fernando Henrique Cardoso, o próprio Serra e três de seus parentes: Verônica Serra, sua filha, o genro Alexandre Bourgeois e o primo Gregório Marín Preciado. Serra e seu clã são o assunto central do livro, mas as ramificações e consequências sociais e políticas das práticas que eles adotam são vastas e fazem com que o leitor comum fique, no mínimo, estupefato.

Sem dúvida, o brasileiro padrão, mediano, que paga seus impostos, trabalha dignamente e luta pela vida com dificuldades imensas estará longe de compreender o complexo mundo de aparências e essências, fachadas e bastidores da corrupção política e empresarial, e toda a sofisticação desses crimes públicos que passam por “lavanderias” no Caribe, e, neste caso, o estilo objetivo e jornalístico de Amaury Ribeiro Jr. é de grande ajuda para que as ações pareçam inteligíveis para qualquer pessoa mais instruída.

Um dos principais méritos do livro é descrever toda a trajetória que o dinheiro ilícito faz, das “offshores” a empresas de fachadas no Brasil, e da subsequente “internação” desse dinheiro nas fortunas pessoais dos envolvidos. Neste ponto, o livro de Ribeiro Jr., embora não tenha nada de fictício, segue a trilha de livros policiais e thrillers sobre corrupção e bastidores da política, já que o leitor pode acompanhar o emaranhado e sentir-se recompensado pelo entendimento. O livro, aliás, tem um início que de cara convida o leitor a uma grande jornada de leitura informativa e empolgante, revelando como Ribeiro Jr., ao fazer uma reportagem sobre o narcotráfico na periferia de Brasília, a serviço do “Correio Braziliense”, sofreu um atentado que quase o matou e, descansando desse atentado, voltou tempos depois a um jornal do mesmo grupo, “O Estado de Minas”, para ser incumbido de investigar a rede de espionagem estimulada por Serra, mencionada no início. É o ponto de partida para tudo.

O que este PRIVATARIA TUCANA nos traz é uma visão contundente e realista como poucas dos bastidores do Brasil político/empresarial. O desencanto popular com a classe política, nas últimas décadas, acentua-se dia após dia, e um livro como este só faz reforçá-lo. Para isso, oferece todo um manancial de informações e revelações para que o leitor perceba onde foi iludido e onde pode ainda crer na humanidade, pois, se a classe política sai muito mal, respingando lama, dessas páginas, ao menos o jornalismo investigativo, honesto e necessário, prova que os crimes de homens públicos e notórios não ficam para sempre convenientemente obscurecidos. Há quem os desvende. E quem tenha coragem de revelá-los.

A ARTE DE ALMANDRADE É TEMA DE EXPOSIÇÃO NA CAIXA CULTURAL DE SÃO PAULO


 

Mostra documenta cerca de 40 anos de arte do artista plástico baiano


Entre os dias 03 de dezembro de 2011 e 26 de fevereiro de 2012 estará em exposição na Caixa Cultural SP a mostra “Almandrade – esculturas, objetos, pinturas, desenhos, instalação e poemas visuais”. Esta exposição tem caráter comemorativo e documenta cerca de 40 anos de arte do artista plástico Almandrade. A entrada é franca.

Esta exposição é um recorte do seu trabalho elaborado em mais de três décadas de utilização do objeto de arte para estimular o pensamento e provocar a reflexão, segundo critério fundamentados na racionalidade, na materialidade e, não por acaso, na economia de dados, sem deixar que conceitos sobreponham ao fazer artístico. Almandrade compromete-se com a pesquisa de linguagens artísticas que envolve artes plásticas, poesia e conceitos. No percurso do artista, destaca-se a passagem pelo concretismo e a arte conceitual, nos anos 70, o que contribuiu fortemente com a incessante busca de uma linguagem singular, limpa, de vocabulário gráfico sintético. De certa forma, um trabalho que sempre se diferenciou da arte produzida na Bahia.

O trabalho de Almandrade, tanto pictórico quanto linguístico, vem se impondo, ao longo de todos esses anos, como um lugar de reflexão, solitário e à margem do cenário cultural baiano. Depois dos primeiros ensaios figurativos, no início da década de 70, conquistando uma Menção Honrosa no I Salão Estudantil, em 1972, sua pesquisa plástica se encaminha para o abstracionismo geométrico e para a arte conceitual. Como poeta, mantém contato com a poesia concreta e o poema/processo, produzindo uma série de poemas visuais. Com um estudo mais rigoroso do construtivismo e da Arte Conceitual, sua arte se desenvolve entre a geometria e o conceito. Desenhos em preto-e-branco, objetos e projetos de instalações, essencialmente cerebrais, calcados num procedimento primoroso de tratar questões práticas e conceituais, marcam a produção deste artista na segunda metade da década de 70.

 

Redescobre a cor no começo dos anos 80 e os trabalhos, quer sejam pinturas ou objetos e esculturas, ganham uma dimensão lúdica, sem perder a coerência e a capacidade de divertir com inteligência.

 

Um escultor que trabalha com a cor e com o espaço e um pintor que medita sobre a forma, o traço e a cor no plano da tela. A arte de Almandrade dialoga com certas referências da modernidade, reinventando novas leituras.

 

ALMANDRADE

(Antônio Luiz M. Andrade)

Artista plástico, arquiteto, mestre em desenho urbano e poeta. Participou de várias mostras coletivas, entre elas: XII, XIII e XVI Bienal de São Paulo; “Em Busca da Essência” – mostra especial da XIX Bienal de São Paulo; IV Salão Nacional; Universo do Futebol (MAM/Rio); Feira Nacional (S.Paulo); II Salão Paulista, I Exposição Internacional de Escultura Efêmeras (Fortaleza); I Salão Baiano; II Salão Nacional; Menção honrosa no I Salão Estudantil em 1972. Integrou coletivas de poemas visuais, multimeios e projetos de instalações no Brasil e exterior. Um dos criadores do Grupo de Estudos de Linguagem da Bahia que editou a revista “Semiótica” em 1974. Realizou cerca de vinte exposições individuais em Salvador, Recife, Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo entre 1975 e 1997; escreveu em vários jornais e revistas especializados sobre arte, arquitetura e urbanismo. Prêmios nos concursos de projetos para obras de artes plásticas do Museu de Arte Moderna da Bahia, 1981/82. Prêmio Fundarte no XXXIX Salão de Artes Plásticas de Pernambuco em 1986. Editou os livretos de poesias e/ou trabalhos visuais: “O Sacrifício do Sentido”, “Obscuridades do Riso”, “Poemas”, “Suor Noturno” e Arquitetura de Algodão”. Prêmio Copene de cultura e arte, 1997. Tem trabalhos  em vários acervos particulares e públicos, como: Museu de Arte Moderna da Bahia e Pinacoteca Municipal de São Paulo.

 

SERVIÇO:

Exposição: A Arte de Almandrade

Abertura e visita guiada pelo artista: dia 03 de dezembro, a partir das 11h

Visitação: de 03 de dezembro de 2011 a 26 de fevereiro de 2012

Horário de visitação: de terça-feira a domingo, das 9h às 21h.

Local: CAIXA Cultural São Paulo (Sé) – Praça da Sé, 111 – Centro – São Paulo/SP

Informações, agendamento de visitas mediadas e translado (ônibus) para escolas públicas:            (11) 3321-4400      

Acesso para pessoas com necessidades especiais

Entrada: franca
Recomendação etária: Livre
Patrocínio: Caixa Econômica Federal

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AS ESCULTURAS DE ALMANDRADE


Cada uma das peças compõem-se de duas placas encaixadas que foram colocadas diretamente sobre o chão. As placas são recortadas e vazadas e não se empregam pregos, colas ou emendas.


Para se traçar um paralelo dentro da arte contemporânea dessas peças com objetos de outros artistas, seria interessante dizer que as esculturas de Almandrade mantém uma certa identidade com as de Franz Weissman e Amílcar de Castro. O construtivismo, a economia material e a escolha de cores simples são conceitos presentes na obra dos três artistas. No entanto, há elementos de distinção. Franz Weissman e Amílcar de Castro usam solda ou dobra na confecção de seus objetos.


Almandrade usa como procedimento de montagem o encaixe direto, onde os planos de madeira laminada se interpenetram e se apoiam mutuamente.


O fato de não haver dobra nas peças de Almandrade é um índice importante para a análise de sua obra. Almandrade intencionalmente mantém uma distância do barroquismo, do expressionismo e de outras tendências do tipo sensual muito recorrentes na arte baiana e brasileira.


O barroco tem muitas seduções. A dobra que vai ao infinito é um artifício barroco que ultrapassa sua própria moda e seus limites históricos (ver Deleuze em A Dobra, Leibnitz e o Barroco). Com a dobra, a escultura ganha uma vibração especial, estendendo-se à arquitetura e alcança espaços cada vez mais amplos. Trata-se de uma ilusão de ótica que realmente abre um campo de significados.


As peças de Almandrade não possuem a dobra, evitando o seu ilusionismo. A dobra na escultura permite a mudança de plano sem rupturas de continuidade. O olhar que acompanha um plano ao passar pela dobra aceita a mudança de direção e é convidado a avançar sucessivamente até deslizar em uma outra dobra. A dobra provoca um despistamento que, se por um lado seduz, por outro distrai o expectador. Pode-se dizer, além disso que a ambivalência da dobra percorre uma espiral que vai do desejo à melancolia. Ao suprimir a dobra Almandrade parece estar procurando evitar a dispersão intelectual e o efeito de superfície.


Curiosamente, nos retábulos barrocos brasileiros, no entanto, as peças de madeira que sustentavam as dobras e curvas das superfícies ornamentadas, eram montadas com encaixes. Esses encaixes tinham que ser perfeitos em sua geometria. O barroco recorreu em suas bases construtivas a técnica do ensamblamento. Ensamblar significava, no dicionário de arquitetura e ornamentação, reunir, juntar, encaixar peças de diversos materiais. Um glossário do barroco mineiro traz uma referência documental, datada de 1771, referente à construção de uma igreja em Sabará, de um “ensamblamento” de pedras, com ferro e chumbo.


As peças reunidas nos retábulos de madeira das igrejas barrocas deviam ser ensambladas, quer dizer, encaixadas uma nas outras, sem a necessidade de recorrer-se a pregos ou colagens.


Nesse sentido as peças de Almandrade contém um ar clássico que, pode-se afirmar, continua atravessando até hoje, energicamente, o mundo material das artes plásticas. Esse trabalho parece estar respondendo a pergunta fundamental, o que assegura a expansão expressiva infinita (da arte, da imaginação, das dobras) em relação ao portador finito (a madeira, o ferro, a pedra)? Qual é estrutura construtiva, quais são os encaixes e as articulações que permitem a realização de uma obra?


Francisco Antônio Zorzo

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Bibliografia

Ávila, Affonso et. Al. Barroco Mineiro Glossário de Arquitetura e Ornamentação

ADEUS EUROPA – por frei betto / são paulo


Lembram-se da Europa  resplandecente dos  últimos 20 anos, do luxo das avenidas do  Champs-Élysées, em Paris, ou da  Knightsbridge, em Londres? Lembram-se  do consumismo exagerado, dos eventos da  moda em Milão, das feiras de  Barcelona e da sofisticação dos carros  alemães?

Tudo isso  continua lá, mas já não é a mesma coisa. As  cidades europeias são,  hoje, caldeirões de etnias. A miséria empurrou milhões  de africanos  para o velho continente em busca de sobrevivência; o Muro de  Berlim,  ao cair, abriu caminho para os jovens do Leste europeu buscarem, no   Oeste, melhores oportunidades de trabalho; as crises no Oriente Médio   favorecem hordas de novos imigrantes.

A crise do  capitalismo,  iniciada em 2008, atinge fundo a Europa Ocidental.  Irlanda, Portugal e Grécia,  países desenvolvidos em plena fase de  subdesenvolvimento, estendem seus pires  aos bancos estrangeiros e se  abrigam sob o implacável guarda-chuva do  FMI.

O trem  descarrilou. A locomotiva – os EUA – emperrou, não  consegue retomar  sua produtividade e atola-se no crescimento do desemprego. Os  vagões  europeus, como a Itália, tombam sob o peso de dívidas astronômicas. A   festa acabou.

Previa-se que a economia global cresceria,  nos  próximos dois anos, de 4,3% a 4,5%. Agora o FMI adverte:  preparem-se, apertem  os cintos, pois não passará de 4%. Saudades de  2010, quando cresceu  5,1%.

O mundo virou de cabeça pra  baixo. Europa e EUA, juntos,  não haverão de crescer, em 2012, mais de  1,9%. Já os países emergentes deverão  avançar de 6,1% a 6,4%. Mas não  será um crescimento homogêneo. A China, para  inveja do resto do mundo,  deverá avançar 9,5%. O Brasil,  3,8%.

Embora o FMI evite  falar em recessão, já não teme admitir  estagnação. O que significa  proliferação do desemprego e de todos os efeitos  nefastos que ele  gera. Há hoje, nos 27 países da União Europeia, 22,7 milhões  de  desempregados. Os EUA deverão crescer apenas 1% e, em 2012, 0,9%. Muitos   brasileiros, que foram para lá em busca de vida melhor, estão de   volta.

Frente à crise de um sistema econômico que  aprendeu a  acumular dinheiro mas não a produzir justiça, o FMI, que  padece de crônica  falta de imaginação, tira da cartola a receita de  sempre: ajuste fiscal, o que  significa cortar gastos do governo,  aumentar impostos, reduzir o crédito etc.  Nada de subsídios, de  aumentos de salários, de investimentos que não sejam  estritamente  necessários.

Resultado: o capital volátil, a  montanha de  dinheiro que circula pelo planeta em busca de multiplicação   especulativa, deverá vir de armas e bagagens para os países  emergentes.  Portanto, estes que se cuidem para evitar o  superaquecimento de suas  economias. E, por favor, clama o FMI, não  reduzam muito os juros, para não  prejudicar o sistema financeiro e os  rendimentos do cassino da  especulação.

O fato é que a  zona do euro entrou em pânico. A  ponto de os governos, sem risco de  serem acusados de comunismo, se prepararem  para taxar as grandes  fortunas. Muitos países se perguntam se não cometeram  uma monumental  burrada ao abrir mão de suas moedas nacionais para aderir ao  euro.  Olham com inveja para o Reino Unido e a Suíça, que preservam suas   moedas.

A Grécia, endividada até o pescoço, o que fará?  Tudo  indica que a sua melhor saída será decretar moratória (afetando  diretamente  bancos alemães e franceses) e pular fora do  euro.

Quem cair fora  do euro terá de abandonar a União  Europeia. E, portanto, ficar à margem do  atual mercado unificado. Ora,  quando os primeiros sintomas dessa deserção  aparecerem, vai ser um  deus nos acuda: corrida aos saques bancários, quebra de  empresas,  desemprego crônico, turbas de emigrantes em busca de, sabe Deus  onde,  um lugar ao sol.

Nos anos 80, a Europa decretou a morte do   Estado de bem-estar social. Cada um por si e Deus por ninguém. O  consumismo  desenfreado criou a ilusão de prosperidade perene. Agora a  bancarrota obriga  governos e bancos a pôr as barbas de molho e  repensar o atual modelo econômico  mundial, baseado na ingênua e  perversa crença da acumulação  infinita.

Frei  Betto é escritor, autor do romance “Minas  do ouro” (Rocco), entre  outros livros.  twitter:@freibetto.

Paisagens partidas – por amilcar neves / ilha de santa catarina


 

Tinha a cidade aos pés desde a noite anterior, uma cidade sobre rodas motorizadas (não se via uma bicicleta sequer, somente rodas ou os pés da gente que anda a pé). Ao fundo, barcos: lanchas, veleiros e um iate fundeados no Iate Clube Veleiros da Ilha, uma ou outra lancha pequena passando preguiçosa a longos intervalos no mar cinzento, reflexo de um céu forrado de nuvens escuras e varrido por um nordeste que mexia o ar mais do que esquentava, um clima ótimo para deixar toda arrepiada na beira da praia uma mulher de biquíni.

 

Apesar do ângulo aberto contado a partir do morro, nas encostas do Menino Deus, não via tudo o que havia: o prédio ao lado obstruía-lhe a visão das pontes e suas circunvizinhanças. Espiar a Hercílio Luz, então, só na imaginação: como o fazem há tempos aqueles que um dia a conheceram como ponte que suporta o trânsito cotidiano da cidade e como o farão, daqui a pouco, aqueles que chegaram a conhecê-la como monumento em acelerada decrepitude por obra da omissão de vários governantes, cujos nomes deverão ser gravados a fogo num monumento que se erguerá no lugar da estrutura metálica pênsil, e por desobra de muito dinheiro que, endereçado à HL, nunca chegou ao destino, como se a ponte já não houvesse mais e, portanto, nada nem ninguém pudesse chegar ao destino, sequer o dinheiro destinado a salvá-la (quando, antes, bastava mantê-la).

 

Diz o Houaiss que, em Estatística, dá-se à “falta de atividade, de trabalho; inércia, inatividade” o nome de desobra. Estatisticamente a Ponte cairá um dia, e nossos governos têm trabalhado arduamente para antecipar o quanto possam tal data fatal. Esquecem que, quando a queda da Ponte acontecer, ela deixará de lhes ser um valioso pretexto para, digamos assim, canalizar verbas e recursos outros.

 

À esquerda, o que resta de Mata Atlântica ao redor da subida do Senhor dos Passos bloqueia a visão das bocas Oeste do túnel duplo que liga a Prainha ao Saco dos Limões, desprezando o José Mendes à sua direita, para quem vai do Centro para o Sul da Ilha, para satisfação e tranquilidade do Júlio de Queiroz, que mora de frente para o mar sem o barulho contínuo e irritante de cidade em seu portão. Alguém teve a inspiração de dar ao caminho pelas entranhas do Mocotó o nome de Antonieta de Barros, uma mulher bem negra que foi professora respeitadíssima (quando se respeitavam os professores, para não dizer mais) por seu trabalho no magistério durante a primeira metade do século passado, mas o corporativismo da Assembleia Legislativa resolveu puxar um pouco a si a homenagem, batizando o túnel como Deputada Antonieta de Barros – ainda que ela tenha sido eleita a primeira deputada de Santa Catarina, sua obra mais significativa foi a de professora.

 

Restaria o mar à frente, com a Baía Sul toda desdobrada aos olhos – desde que o Fórum e o Tribunal de Justiça, de alturas excessivas, não fragmentassem de novo a paisagem, ladeados por construções mais humildes que afastam o mar de quem está em terra, a pé ou mesmo motorizado: uma passarela do samba, de costas para o mar, que não para de crescer cada vez mais feia, tendo já atropelado o local em que um papa rezou missa, e uma imensa caixa de sapatos toda fechada, de tampa verde, a que se dá o nome de centro de convenções ou algo similar. Na borda do mar desenhada já por aterros, construções desnecessárias para o local bloqueiam a simples visão do mar; em paralelo a elas, pistas de alta velocidade bloqueiam o mero acesso ao mar.

 

O poeta JAIRO PEREIRA entrevista o poeta MANOEL DE ANDRADE / curitiba

ENTREVISTA COM O POETA MANOEL DE ANDRADE PARA A REVISTA CLIC MAGAZINE:

 

 

  1.        O poeta Manoel de Andrade, sempre foi um poeta participante? Vida e poesia são indissociáveis?

R. Aos vinte anos eu tinha uma visão muito intelectual do processo poético. Era o início da década de sessenta, época em que o dadaísmo propunha desconstruir a construção poética e o concretismo, pelo contrário, impunha uma excessiva preocupação teórica sobre como construir a poesia. É dessa fase o Poema Brabo com o qual ganhei, em 1964, um primeiro lugar num concurso de poesia moderna instituído pelo Centro de Letras do Paraná e o jornal “O Estado do Paraná”. Mas a influência concretista foi  efêmera. O golpe militar de 1964 me induziu a fazer uma rápida autocrítica e minha condição de poeta participante começa já em 1965, quando ao participar no Teatro Guaíra,  da Noite da Poesia Paranaense, ao lado de  João Manuel Simões, Helena Kolody, Leopoldo Scherner, Hélio de Freitas Puglielli, Paulo Leminski, Sônia Regis Barreto e outros, fui o único a apresentar no poema A Náusea, versos politicamente explícitos contra a Ditadura, como os deste fragmento:

(…) E tu, entre tantos,

saberás conter essa indignação

somente no lirismo dos teus versos,

ou irás colar teu escarro no pátio sangrento dos quartéis?

 

Vida e poesia devem ser indissociáveis, contudo, e infelizmente, passei 30 anos distante da poesia, não como leitor, mas como escritor.

 

Sua poesia é mais discursiva… Você acredita nos prodígios da simples palavra poética?

R. A poesia é um prodígio quando se encontra a palavra certa. A palavra essencial, na expressão de Antonio Machado. Ousadia e encanto integram o mistério desse prodígio. Se a poesia social realmente é mais discursiva é porque está identificada com o tempo histórico em que vive o poeta. Seu propósito social, seu pendor libertário exige essa implícita oralidade, esse tom discursivo. Creio que é missão dos poetas semear a esperança e denunciar as injustiças, sobretudo em tempos de crueldade. Por isso caíram Garcia Lorca, Otto René Castillo, Javier Heraud, Ariel Santibanhez. Contudo esse engajamento, essa preocupação com os fatos sociais não deve e não pode ofender a tessitura poética, pois sem lirismo não há poesia.

       Ação política e ação poética, podem convergir para um mesmo ideal ou utopia?

  1. Esses dois fatores dependem das circunstâncias históricas para se armarem na mesma trincheira. Escrevi poesia política nas décadas de 60/70, período em que no Brasil foram silenciadas todas as expressões da cultura ideológica e na América Latina as bandeiras de uma sociedade socialista estavam hasteadas na consciência das classes oprimidas e nas vanguardas revolucionáriasem luta. Esseideal de um mundo novo e essa utopia com que tantos sonharam era o sublime conteúdo dos meus versos.

  1. O signo verbal, a seu ver, será sempre o instrumento mais forte de comunicação do poético?

R. Tenho na mídia eletrônica um artigo chamado “Poesia e Oralidade”, onde escrevi sobre a importância do verso pronunciado sem desmerecer a poesia escrita. O signo verbal tanto pode ser oral como escrito, mas é no tom declamatório que o poema está realmente “vivo”. Creio que a magia da poesia está na sua oralidade, mas essa estesia  foi se perdendo com a indigesta presença da modernidade,  que amordaçou o lirismo. Felizmente os grandes festivais de poesia têm mantido acesa esta chama.

  1. O poeta pode ser o rapsodo reinventando o mundo pelas linguagens?

R. Isso tem muito a ver com uma parte de minha vida, quando eu era um bardo errante ao longo dos caminhos da América. Naqueles anos ‘o mundo tinha o tamanho dos nossos sonhos’ e tudo estava sendo reinventado com tantas formas de linguagens. A poesia buscava a sua verdade na história e tinha plena cidadania no coração dos jovens. Hoje, nós, os poetas, somos seres desgarrados. E, contudo,  a poesia segue impassível seu caminho,  sublimada em sua própria transcendência. É ela que liberta a palavra nessa angustiante crise da expressão humana. Sempre foi e segue sendo uma operação mágica. Uma alquimia em busca do nobre metal do encanto.

  1. Conte-nos um pouco da sua trajetória poética e de vida.

Minha real trajetória poética aconteceu fora do Brasil. Deixei o país em março de 1969 e meu primeiro livro, Poemas para la libertad,  foi publicado no ano seguinteem La Paz, com varias edições posteriores no Continente. Nessa época minha vida e minha poesia eram indissociáveis. Foram 16 países percorridos, denunciando a opressão, dando nome aos tiranos, declamando a liberdade e pronunciando a esperança. Fugas, prisões e expulsões marcaram minha vida com a sublime cumplicidade de meus versos. Escrevo, atualmente, um livro de memórias sobre aos anos que passei na América Latina e é onde espero contar a história libertária da América, colhida nos passos de minha trajetória poética.

  1. Como você vê as novas mídias hoje? Algum palpite sobre o futuro do poema feito com palavras? 
  2. R-Vejo-as com muito interesse porque praticamente só publico na internet e já não leio jornais impressos. Contudo, das mídias tradicionais só não abro mão do rádio.  Também já não faço nenhuma questão que meus poemas ou artigos sejam publicados na imprensa porque o jornal é flor de um dia. Ter um texto publicado na web é uma expectativa permanente de interação com o mundo. Tenho alguns blogs onde publico normalmente e uma revista eletrônica bilíngue onde assino uma coluna trimestral. Além de suas inumeráveis utilidades, creio que a internet é uma agenda diária imprescindível para um intelectual.

Completando a resposta,  não consigo imaginar um futuro em que um poema não seja feito com palavras.

  1. Das suas obras, quais as que mais o projetaram como poeta?

R. Tenho três livros de poesia publicados e co-autoria em outros.  Publiqueidois no exterior e dois no Brasil, sendo um destes uma reedição brasileira de Poemas para la libertad, editado há 40 anos na Bolívia.  Poemas para a liberdade, que somente foi publicado no Brasil em 2009, numa edição bilíngue pela Editora Escrituras, foi o livro que mais dimensão deu a minha poesia. Alguns dos seus poemas foram escritos no Brasil mas, sua maior parte nasceu no exílio e se me projetaram como poeta é porque nasceram na imensa trincheira de luta que foi a América Latina nos anos 70. Começaram sua trajetória em edições e reedições panfletárias no Peru, espalharam-se pelo Continente através de mochileiros de muitas nacionalidades  e foram lidos em teatros, galerias de arte, sindicatos, minas, reuniões públicas e clandestinas, congresso de poetas, festivais de cultura  e para muitos milhares de estudantes das maiores universidades latino-americanas.

  1. Pra finalizar: o público de poesia, a seu ver, melhorou ou piorou nos últimos tempos?

R. Esta é uma pergunta que eu também gostaria de fazer a quem realmente soubesse responder. Creio que a poesia tem a sua linguagem e são tão poucos os que realmente  falam, leem e escrevem esse idioma… Todos sabemos que hoje a poesia é uma nobre mendiga, rogando quem a escute. É muito triste tudo isso para nós, os poetas, que ansiamos partilhar com todos o nosso lirismo e o nosso encantamento. Já disse algures que a poesia é o patinho feio da literatura, desprezada pelas editoras e “escondida” nas livrarias. Creio que são os sinais dos tempos. Vivemos num mundo ética e esteticamente falido e onde a cultura da aparência é a própria expressão da mediocridade. Creio que tudo isso há de passar. Que há de vir um tempo em que a poesia volte a palpitar no coração dos homens, por ser a mais bela expressão de sua alma e porque, pelo seu mistério e seu encanto, a poesia é imperecível.

1. Como foi a repercussão na mídia da sua edição de CANTARES, 2007, editora escrituras?

R. Foi muito boa e a edição está praticamente esgotada. Esse livro marcou, em 2002, meu retorno à poesia depois de 30 anos de total afastamento da literatura. Voltei ao Brasil em meados de 72, numa fase aguda da repressão política, obrigando-me a ficar muitos anos no total anonimato social e literário. Tudo isso me desmotivou a escrever e somente voltei à poesia na primavera de 2002. provocado por um fato meramente circunstancial. Cinco anos depois lancei o livro Cantares, retratando na sua primeira parte a importância que o mar teve em minha infância, um lírico resgate de uma fase extraordinária de minha vida. Voltando à pergunta quero dizer que sua repercussão na mídia foi a melhor possível, seja pela credibilidade dos comentários, entrevistas e resenhas, mas sobretudo porque todos os poemas do livro estão publicados em vários blogues nacionais e alguns internacionais.

 


OS MALABARISMOS DE UMA CONSCIÊNCIA INTENSAMENTE LÍRICA – por alexandre bonafim / são paulo.sp

A poesia de Almandrade faz-se, antes de tudo, daqueles temas
essenciais da condição humana, tão preciosos para os homens do nosso
tempo, distanciados da razão de existir. Uma perplexidade em constante
estado de nascimento acorda, aos olhos do leitor, uma realidade
múltipla e absurda. Ao lermos os textos do poeta baiano, deparamo-nos
com a densidade do real e com todos os seus limites e frustrações:
“cidade perplexa/ embalagem hostil/ inútil divertimento”. O eu lírico
dos poemas de Almandrade gasta-se nas arestas do mundo, rasga-se nos
ângulos dessa realidade limitada, em um viver de raríssimas
possibilidades de salvação ou transcendência (encontradas, como
veremos a seguir, apenas no erotismo e na epifania da palavra lírica):
“O andarilho inocente/ repete o caminho/ sem encontrar/ uma saída”.
Esse esgotamento das possibilidades do real lembra-nos dos angustiosos
labirintos Kafkianos, em que todas as direções nos encaminham, na
verdade, para lugar nenhum. O mesmo clima de abafamento, de
aprisionamento, entrevisto na ficção de Kafka, pode ser percebido
nesses poemas de agudeza existencial. Drummondiano, sem deixar de
possuir uma voz própria e peculiar, Almandrade recria, portanto,
aquele clima claustrofóbico da poesia do autor itabirano, tão bem
expresso pela persona inventada por Drummond, ou seja, o seu famoso
José.

Essa é uma poesia que, antes de instaurar a segurança,
desalenta-nos com as incertezas, com as dúvidas. Já na antiguidade,
Sócrates alardeava a importância do questionamento, em detrimento das
respostas. Pois bem, na poesia de Almandrade, temos a mesma sede de
indagação, a mesma escavação feita por perguntas que não se findam,
que instauram uma perpétua pesquisa do viver: Pensar é/ abrir portas,/
migrar/ para o desconhecido”. Em versos sucintos, verdadeiras farpas
de auto-iluminação, o poeta de Malabarismos das Pedras amplia a
potência do signo poético, como se a palavra funcionasse como um
verdadeiro golpe a acordar o leitor de sua letargia, de seu
sedimentado hábito de simplesmente estar no mundo: “Dormir,/ pode ser
uma covardia/ diante das circunstâncias/ e suas incertezas”. Essa
vigília em perene estado de exacerbação, funciona, portanto, como um
farol a desmascarar as farsas dessa nossa realidade tão estigmatizada
pela mídia e pela ideologia do consumo. Ao lermos Almandrade,
sublinhamos, em nosso âmago, a força da consciência e a sua capacidade
de detonar as verdades estereotipadas de nossa era pós-moderna.

Essa mesma consciência, vibrante, intensa, também vasculha a própria
fuga do tempo, e a revela, sem nos poupar e sem nos iludir: “a vida
quando vazia/ é um acúmulo de rugas”. Somos seres irremediavelmente
efêmeros e passageiros e, diante dessa situação existencial, resta-nos
somente a epifania da própria poesia, teia a nos interligar a um
eterno agora (apenas retido pela memória), momento pulsante,
orgiástico e, por isso, intensamente vivo mesmo em face da dissolução
do existir: “as coisas retidas na memória/ acariciam a eternidade”. É
dessa revelação da palavra, feita de som e fúria, que nasce um doce
erotismo, um terno desvelo pelo corpo feminino: “Em silêncio/ a
intimidade feminina/ acende o mistério/ que faz lembrar/ o aroma dos
devaneios/ que transporta/ o fim da tarde”. Dessa forma, diante das
amarras impostas pelo destino e pela realidade, nasce a iluminação do
desejo, energia a latejar o corpo, a incendiar a graça de ser: “Nem
mesmo/ a musicalidade dos pelos/ é maior que o apelo/ da cicatriz do
nascimento”.

A poesia de Almandrade, portanto, recorda-nos o mito de
Sísifo. O homem contemporâneo, acossado, muitas vezes, pelo vazio e
pela alienação, típicos em um tempo de consumismo desenfreado, está
condenado a rolar, em infinitas vezes, uma pedra ao topo de um monte.
Todavia, resta a esse homem, ao descer, de mãos vazias, a mesma
colina, a visão pródiga de um mar, feito de intenso azul, prazer e
glória a saciar-nos com o milagre da poesia: “Agora é dia, o sol
queima a letra”.

Alexandre Bonafim - Nasceu em Belo Horizonte. É mestre em literatura brasileira, poeta e professor universitário.

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A  RAZÃO  EM  COMA

Pobres bibliotecas vazias
sem títulos e sem Borges,
O tempo, indiferente
ao jogo dos relógios,
não é mais dos livros.
O saber é um desconforto
de uma civilização
que vive ao redor do imediato
e humilha a memória.

ALMANDRADE

O general Pedro Aguerre, Comandante do Exército Uruguaio: “Quem nega o passado é covarde”

O general Pedro Aguerre, comandante do Exército uruguaio mandou suspender qualquer pacto de silêncio em torno de crimes praticados na ditadura. Aguerre disse que o Exército que comanda não encobrirá delinqüentes e homicidas em suas fileiras, e ordenou que seja posta à disposição da Justiça toda informação possível para esclarecer os crimes de terrorismo de Estado. Quer que a Justiça estabeleça a responsabilidade material do Exército em casos de assassinato, seqüestro e tortura de presos políticos.

Eric Nepomuceno

“Não sei de nenhum pacto de silêncio para acobertar crimes dentro da Força que comando. E, mesmo desconhecendo se existiu ou se ainda existe esse pacto, neste momento dou a ordem de sua suspensão imediata”.

A frase, sonora e contundente, surpreendeu. Ela foi dita pelo general Pedro Aguerre, comandante do Exército uruguaio, durante uma entrevista coletiva em que se falou da identificação dos restos do jornalista e professor Júlio Castro, desaparecido em agosto de 1977. Por mais que, justamente por ser de silêncio, esse pacto jamais seria admitido em público, e por mais inócua que seja a frase de Aguerre – afinal, ninguém decreta o fim de um pacto secreto diante de jornalistas – ficou claro que existe a determinação de mudança drástica na atitude dos militares no Uruguai diante do passado e da recuperação da verdade e da memória.

Aguerre disse que o Exército que ele comanda não encobrirá delinqüentes e homicidas em suas fileiras, e ordenou que seja posta à disposição da Justiça toda informação possível para esclarecer os crimes de terrorismo de Estado praticados pela ditadura. Quer que a Justiça estabeleça a responsabilidade material do Exército em casos de assassinato, seqüestro e tortura de presos políticos.

Essa virada radical surge à raiz da mudança na legislação uruguaia, que significou, de fato, o fim da anistia que existiu até há pouco e assegurou a impunidade de um número indeterminado de membros das forças armadas e da polícia. Assim que a nova lei entrou em vigor, vários parentes de desaparecidos e assassinados recorreram à Justiça, e abriu-se a caixa de segredos tenebrosos guardados desde os tempos de breu.

Os restos de Julio Castro foram descobertos graças à investigação judicial pedida pelo poeta argentino Juan Gelman, um dos mais prestigiados do idioma castelhano, e por sua neta, Macarena Gelman. Eles querem saber o que houve com Maria Claudia García de Gelman, nora do poeta e mãe de Macarena. Seqüestrada grávida em Buenos Aires, em 1976, junto com Marcelo, seu companheiro e filho de Juan, Maria Claudia foi levada para Montevidéu durante a Operação Condor. Marcelo foi morto em seguida. Ela deu à luz num quartel uruguaio. Sua filha foi doada a um chefe de polícia.

Maria Claudia foi morta. Macarena teve sua identidade recuperada aos 24 anos de idade, quando soube enfim quem era de verdade, e qual o destino atroz de seus pais. Desde então, leva adiante, na companhia do avô, uma cruzada para encontrar os restos da mãe e estabelecer as condições em que foi morta.

Procurando os restos de Maria Claudia, encontraram os ossos de Julio Castro, mestre-escola rural, um dos fundadores do mítico semanário ‘Marcha’. Seqüestrado no dia primeiro de agosto de 1977, nunca mais se soube dele. Um dos últimos, talvez o último, a ver Julio Castro com vida foi o jornalista brasileiro Flávio Tavares, preso naquele mesmo ano pela ditadura uruguaia.

Até agora, dava-se por certo que Castro havia morrido na tortura, dois dias depois de ter sido preso no centro de Montevidéu. Seus restos desapareceram, e acreditou-se que, a exemplo de outros mortos pela ditadura, tivessem sido jogados no rio da Prata. Isso, aliás, foi o que o próprio Exército admitiu perante a Comissão de Paz que funcionou durante os governos dos presidentes Jorge Battle e Tabaré Vázquez. Está provado que mentiram pelo menos duas vezes.

Primeiro, Julio Castro não morreu durante uma sessão de tortura. Foi executado. E, segundo, seus restos não foram jogados em rio algum: estavam enterrados, cobertos de cal, numa cova aberta num rochedo, dentro do terreno ocupado pelo 14º Batalhão do Exército, em Canelones, a 45 quilômetros da capital uruguaia. Os legistas descobriram que o que matou Julio Castro foi um tiro disparado contra a sua cabeça. Os militares sempre insistiram, mentindo e mentindo, que jamais houve uma só execução de presos políticos durante a ditadura.

Castro é uma das vítimas que o Uruguai mais lamentou, pela sua trajetória de professor e de jornalista. A identificação de seus restos mortais sacudiu o país, deixando entrever o que virá pela frente, à medida em que o que restou de outros desaparecidos apareça.

Há uma frase do general Pedro Aguerre que deve ter deixado muitos de seus colegas de farda com a alma gelada, principalmente ao norte da fronteira uruguaia. Disse ele: “Quem nega o passado diante de uma desgraça presente manifesta covardia.” Militar algum aceita ser chamado de covarde, mesmo quando não passam disso na hora de se enfrentar com a memória, como o passado, com a verdade.

POR QUE O NATAL ME DÓI? – por olsen jr / ilha de santa catarina.sc

(Para Itamar e Marcelina, Luis e Carmem).


 Em uma tarde destas, logo após as chuvas, estava num mercado aqui na Lagoa, buscava um tipo de requeijão que meus avós faziam. Uma maneira creio, de estreitar minhas saudades com um passado de quando tudo ia bem. Ao meu lado um casal procura algo na mesma gôndola. Não pude deixar de ouvir o comentário que o marido fez para a mulher, “essas músicas de natal são um saco”. Presto atenção e ouço uma versão em português, muito ruim da música “Happy Xmas (War is Over)”, do John Lennon. A letra era mais longa que a melodia, doía mesmo ouvir aquilo.

Tinha uma versão audível com a Simone. Melhor mesmo era ouvir o original com o ex-beatle. Caso raro de uma música de natal que ainda faz sucesso fora da data para a qual foi composta.

Lembro de um mês de dezembro, entre 1966 e 1969, em Chapecó em que ficava em uma sala lendo a obra infantil (17 volumes) de Monteiro Lobato enquanto a minha mãe arrumava a casa e ouvia músicas de natal. De tal maneira isso ficou no inconsciente que, todas às vezes que pego a literatura infantil do Monteiro Lobato já começo a ouvir “…Eu pensei que todo mundo fosse filho de papai-noel”…   As músicas eram brasileiras, muito boas. Versos simples de grande apelo aos sentimentos. Li em algum lugar um ensaio crítico sobre o tema do natal, e as nossas composições sobressaiam-se sobre os outros países, notadamente os Estados Unidos, que era o referente com o indefectível “Jingle Bells”.

Meus avós, Eugênio Harald e Rosa Cabral eram católicos praticantes. Acreditavam em Deus e na unidade familiar. O natal, portanto, era uma data celebrada com todo o ritual que a ocasião exigia. Uma árvore era cortada no campo (já era plantada para essa finalidade), enfeitada com velas, algodão, bolinhas, anjos, estrelas, barba de velho tirada no mato, e embaixo, um presépio com a manjedoura, a criança recém nascida, Maria e José, os reis magos, enfim, tudo lembrando o que deveria ter sido quando o filho de Deus veio ao mundo.

O papai-noel chegava, fazia sua prédica, as orações de praxe, minha tia começava a cantar “Noite Feliz”, quem sabia a letra acompanhava e só mais tarde os presentes eram distribuídos. Depois, uma ceia, também precedida de agradecimentos e uma oração, e a festa que ia até o amanhecer.

No dia seguinte havia um churrasco de ovelha, e apareciam outros membros da família, chegavam para confraternizar. Era um clã numeroso, unido, feliz. Os almoços não tinham fim, o velho gene viking, ou nórdico recessivo, aflorava. Os adultos passavam o dia à mesa, bebendo cerveja, comendo, conversando… Vinha o café… Chegava o jantar e ninguém tinha arredado o pé ainda do lugar. Música contemplando vários gostos, mas imperava o velho nativismo gaúcho.

Bem, como nada dura para sempre, aquela tertúlia familiar também não durou. Estávamos saindo da adolescência quando meus avós morreram… Nunca mais foi a mesma coisa. Tentamos prosseguir com o ritual, mas parece que a essência tinha esvaído… A família foi se distanciando… Depois os meus pais também morreram… Foi então que eu me tornei arredio porque a reunião significava prantear os ausentes, na cabeça de um poeta isso é uma tortura… Olhar aquela mesa na sala, onde várias gerações tinham passado à cabeceira ninguém mais para agradecer o pão em nome de todos, ninguém mais para apaziguar a nossa ansiedade diante da franqueza do bom velhinho que parecia conhecer todas as nossas travessuras, e daquele coração gigante que nos compreendia sempre, desde que prometêssemos não reincidir nos erros… Prometíamos claro, mas sempre fazíamos tudo de novo, e éramos perdoados novamente com a vigilância bondosa e serena do meu avô.

É por isso que o natal me dói… Porque já não posso dizer para aqueles que me amaram, de verdade, que também os amava do meu jeito tímido, como são os poetas!

 NOTAS:

A música poderia ser “Happy XMas”, do John Lennon,  mas por razões de direitos autorais (com a gravadora EMI) foi tirada do Google, no Brasil…

Se alguém preferir “matar a saudade” da melodia, a versão brasileira interpretada pela Simone ainda é a melhor, fácil de encontrá-la…

Mas em épocas de “amor”, “fraternidade”, “compartilhamento”, “humanidades”… Lembrar da Utopia também é válido…

http://www.youtube.com/watch?v=fAOjvL3C_QM&feature=related

Mesmo um tanto cético, nessa época abrimos a guarda, acreditamos, eu também…

Por questões contratuais, os Beatles se separaram (oficialmente) em 1972… Desde 1969 viviam às turras, John Lennon foi o primeiro a gravar um disco independente do quarteto…

A música “Imagine” foi gravada em disco de igual nome, em 1971… Em 1972 só dava “ela” em qualquer lugar que se fosse, o que demonstra, no fundo, que todos gostam de acreditar em uma Utopia…

olsen  jr.

DILMA ROUSSEFF: ESTA FOTO CORRE O MUNDO – UM OLHAR SEM MEDO E OS JULGADORES COM VERGONHA DE MOSTRAREM “A CARA”!

UMA FOTO E TRILHÕES DE PALAVRAS!

A RÉ DILMA
Dilma na sede da Auditoria Militar no Rio de Janeiro, em novembro de 1970. Ao fundo, os oficiais que a interrogavam sobre sua participação na luta armada escondem o rosto com a mão (Foto: Reprodução que consta no processo da Justiça Militar)

.

Foto inédita mostra a presidente Dilma Rousseff durante um interrrogatório em novembro de 1970, na sede da Auditoria Militar, no Rio de Janeiro. Na época, Dilma tinha 22 anos de idade.

As pessoas que escondem o rosto, ao fundo, são os oficiais que questionavam a então guerrilheira sobre sua participação na luta armada que ocorria no País.

Fotografia faz parte do livro A vida quer coragem, que será lançado neste mês pelo pelo jornalista Ricardo Amaral.

JORGE LUIZ BALBYNS e JORGE LESCANO conviadam: em São Paulo

 

O   C A N T O   D O   C I S N E

 

 

O canto do cisne é uma das peças curtas de Anton Tchekhov escrita em 1897.

 

No desenrolar do texto, surgem os dois únicos personagens: Vânia e Nikita, ator e o ponto do teatro, respectivamente. Vânia, ator-personagem de 68 anos, traz em si questionamentos que revelam profunda solidão e angústia humanas. Por outro lado, como uma visão “sobrenatural”, surge o ponto, personagem esse que reforça a metalinguagem teatral, servindo de apoio para os devaneios histriônicos e autobiográficos da personagem central, Vânia.

 

Do camarim, embriagado, surge o personagem Vânia, em conflito com sua própria história de ator de 68 anos, mergulhado na sua realidade decadente e vil. A chegada de Nikita (o ponto) instiga (o ator) Vânia, carente e desiludido, abandonado a sua própria sorte, a representar, de maneira eloquente sua vida através de trechos de espetáculos e personagens supostamente vividos por ele em sua trajetória, tais como Rei Lear, Hamlet e Otelo e recita trechos de poesia de Boris Godunov, obra prima do maior poeta romântico russo, Alexander Puchkin. Esses momentos se confundem e tornam o texto cada vez mais denso e intrigante.

 

“Testar” a atualidade do teatro de Tchekhov através da leitura segundo Brecht e Beckett. O distanciamento do alemão e a identificação da decrepitude, característica dos personagens do irlandês. Seria possível esta leitura? Tal o desafio proposto.

 

A pesquisa sobre o texto incluiu o reconhecimento do momento histórico em que a obra foi escrita. Tratava-se de um momento de transição tanto estética quanto política na Rússia tzarista. Em verdade, a mudança estética retratava o momento político. Nesse contexto surgem os personagens decadentes, niilistas, anarquistas, e também os humilhados e ofendidos, os marginados, os esquecidos, retratados tanto por Tchekhov quanto por Turgueniev, Dostoievski, Tolstoi e Máximo Gorki, último escritor russo e primeiro soviético. Todos eles, nas palavras de Dostoievski, surgidos do Capote de Gógol, texto fundador da literatura russa associada ao realismo.

 

Talvez a característica que diferencie Tchekhov dos seus contemporâneos seja o humor particular, irônico e melancólico a um só tempo. Esta característica o aproxima dos vagabundos e despojados de Beckett, espécie de clowns sem circo. Seres exilados da vida sem sair do palco da realidade cotidiana. Também a permanência dos seus problemas permite que sejam representados e assimilados pelo público com a mesma atualidade de sua estréia no século XIX.

 

Parece não haver contradição ou traição ao autor ao relacioná-lo com as atuais poéticas teatrais. Antes, trata-se de atualizar também a pesquisa, que no momento da estréia obrigava Stanislavski a criar novos métodos de atuação. A pertinência desta escolha fica clara pelo resultado obtido.

CURITIBA, pastelão e chuva – por wagner de oliveira mello / curitiba.pr

Mentira é tudo mentira! Nunca tive uma estante, cama, mesa ou quarto; desde que fralda era um pedaço de pano que segurava minha merda presa à bunda eu divago por ai, sem burro, sem alça, às vezes um tênis, em outras uma calça. À merda com essa rima estúpida, ta pensando que tua vida é a Odisséia rapá.
• Acordei atrasado como sempre, sai apressado sem nem escovar os dentes ou dizer bom dia pro espelho; chegando à portaria fui invadido pela mesma duvida que me assombra todas as manhãs, então voltei tropeçando escada acima conferir se tinha trancado a porta,  -É claro que trancou, complexado idiota -. Tomei um cafezinho com pastel podre no china koreano e corri pra estação tubo porque além de tudo chovia pra caralho naquela hora. Incrível como todo usuário de guarda-chuva insiste em andar embaixo das marquises obrigando quem esta sem a desviar? Gente ignorante! Bem curitibana mesmo. Prefiro andar na sarjeta, até porque na calçada tem aquelas pedras soltas que quando você pisa jogam lama nos calçados, nas calças, podendo subir até a camiseta dependendo da intensidade da pisada e como eu sou azarado é melhor prevenir. Mas enfim, chegando semi ensopado no tubo, advinha? “O palerma aqui esqueceu o cartão de transporte e obvio que estava duro. O cobrador que já me conhece bem olhou pros dois lados antes de liberar.” Entra pela portinha lateral, da nada não, você ta sempre ai, outro dia me paga um café e ta tudo certo. “Porra cara, valeu, valeu mesmo.” Às vezes encontramos gente santa, e geralmente são as mais simples. Eu no seu lugar teria mandado o sujeito passear. O mundo não é bom, as pessoas não são boas e quando são acabam se fudendo, ou acha que se o fiscal da URBS, escondido atrás de um poste lá do outro lado da rua visse essa ação não teria delatado o pobre coitado; ai já era rapá! Não faz dessas coisas não filho, que Deus não abençoa!
Transito parado, ônibus lotado, cheio de gente encasacada, molhada, empunhando guarda chuva com olhar ameaçador como quem diz: esse canto é meu, não chega perto que te bato com isso na cabeça! E eu numa ressaca infernal, sonhando com minha cama, uma garrafa de água com gás e possíveis falecimentos que impedissem o expediente. Nada! A porta se abriu e, com muito custo consegui sair do coletivo, na verdade não sai, fui expelido porta a fora com a pressão dos que entravam pela outra. Alivio e desconcerto juntos. Mal desci do ônibus, um carro buzina ao meu lado, haha advinha quem era? Meu chefe é claro, e nem pra me dar carona o maldito, jamais daria, esporro sem platéia não é esporro.

 

 

A odisséia ou o erro do pavão – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

O pavão

de olhinhos nervosos

irrequieto bípede

tirou dolorosamente

suas queridas penas

uma a uma

e colou

em folhas de papel sulfite.

Despiu-se de suas jóias

transgrediu o pudor

sentiu frio

ficou só

sua família não agüentou

a verdade nua.

Não satisfeito

regurgitou a pouca quirela

do jantar

e vendo o vômito convulso e amarelo

lembrou-se de Van Gogh

e chorou.

Colou sua bile no sulfite

e com as folhas e penas e vômitos

profissionalmente encadernados,

a pobre ave implume

saiu a procura de editor.

Seria mais fácil, pássaro

achar editor

se deixasse as penas no corpo

e levasse as folhas em branco

profissionalmente encadernadas

sempre

profissionalmente encadernadas.

STF e STJ: Empresários pagam encontro de juízes em resort na Paraíba – por frederico vasconcelos / são paulo

29/11/2011 - 09h08

Ministros do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça participaram, no último fim de semana, de evento fechado em um resort na Paraíba com despesas pagas pela Fetronor (Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Nordeste)

Seguradoras bancam evento para cúpula da Justiça em resort no Guarujá

O “Terceiro Encontro Jurídico de Transportes Públicos do Nordeste” foi realizado no Mussulo Resort, que fica no litoral do Estado. A diária do hotel custa R$ 609 (quarto para duas pessoas).

Além dos ministros, participaram do encontro juízes e advogados, que também tiveram suas despesas pagas.

O evento teve o apoio da Petrobras, que ofereceu patrocínio de R$ 50 mil.

OUTRO LADO

Para o presidente da AMB, Henrique Nelson Calandra, o evento teve finalidade acadêmica. “Não vejo por que censurar. Significa que entidades da iniciativa privada acreditam que juízes podem dizer coisas importantes e investem para ouvir teses que podem ser contrárias às suas.”

A Petrobras atribui o patrocínio ao encontro à “política comercial e de relacionamento com grandes clientes da Petrobras Distribuidora”.

Leia mais na edição da Folha desta terça-feira.

Editoria de Arte/Folhapress  

Brasil tem 19 novos milionários por dia, diz estudo – por silvio guedes crespo / são paulo

29 de novembro de 2011 | 11h17

O crescimento econômico faz com que, desde 2007, 19 pessoas se tornem milionárias a cada dia no Brasil, tendência que deve continuar por mais três anos, segundo um estudo apresentado na conferência Private Banking Latin America 2011, realizada em Miami (EUA). Os dados foram divulgados em blog da revista americana “Forbes“.

A pesquisa define como milionários aqueles cujas riquezas chegam a 1 milhão de reais (não de dólares), incluindo investimentos, propriedades, poupança e outros ativos.

Guilhermo Morales, um executivo da Millennium BCP que estava na conferência, disse que o ritmo de crescimento do número de milionários deve se reduzir daqui a três anos – “para tudo há limites”, afirmou.

O motivo de haver cada vez mais pessoas ricas está, segundo os autores do estudo, na expansão do PIB (produto interno bruto) e particularmente, na do consumo, o que impulsiona a fortuna nos setores varejista, bancário e em alguns ramos da indústria.

Os altos executivos têm se beneficiado com o “boom” econômico. Segundo Morales, é comum, no Brasil, profissionais de bancos de investimento ganharem um bônus anual de R$ 1 milhão.

Para Emerson Pieri, que apresentou as estatísticas, o País proporciona uma “enorme oportunidade” para atividades de private banking para atender as demandas da “crescente comunidade de milionários”.

Brasil tem atualmente 137 mil milionários e 30 bilionários, segundo a “Forbes”, com 70% da riqueza concentrada em São Paulo e no Rio de Janeiro.

RESTOS MORTAIS – por olsen jr / ilha de santa catarina.sc

 

Tinha 14 anos quando tomei conhecimento da existência do poeta Cruz e Sousa. Estava na Escola Agro-Técnica  Lysímaco Ferreira da Costaem Rio Negro, no Paraná e o livro era da editora Nova Aguillar, obras completas. Fiquei só na poesia: Broquéis, Faróis, Últimos Sonetos e o Livro Derradeiro.

Foi amor à primeira vista. Todo o meu tempo livre era dedicado a ler e reler aqueles poemas… Até o professor Venceslau Muniz me por nas mãos o “Eu”, de Augusto dos Anjos (assunto para outro dia).

Dois anos depois, em 1972 já em Curitiba prestando vestibular para arquitetura, na prova de português caiu uma interpretação do soneto “Vida Obscura”, do livro “Últimos Sonetos”. Acertei a questão relativa ao texto e me senti orgulhoso por ser catarinense e por perceber que todos os meus colegas tinham feito uma leitura equivocada do poema. O poeta faz a descrição do sofrimento de alguém e através de uma metáfora remetendo, no paroxismo, a crucificação de cristo, descreve os seus últimos momentos… Ele se referia (e foi a resposta certa) a um amigo… Na condição de artífice sei que ele estava imaginando a própria morte, claro, se esta alternativa estivesse nas respostas teria criado um impasse. A maioria dos candidatos foi ludibriada pelo verso “sei que cruz infernal prendeu-te os braços” e assinalou a resposta que aludia a Jesus Cristo…

Em 1994 fiz uma ponta no filme “Alva Paixão”, da diretora Maria Emília em que trata da vinda do corpo de Cruz e Sousa, que morreuem Minas Gerais, para o Rio de Janeiro num vagão de trem de transporte de animais. A mulher Gavita veio junta.

Faço o fiscal da estação ferroviária que recebe o corpo do poeta. Aquela cena me marcou, não só pelo fato de quase ter perdido a falange do polegar da mão direita prensado na porta emperrada de um vagão de trem no interior de Rio Negrinho onde as locações se deram, mas pela interpretação da Zezé Mota (assunto para outro dia) que fez Gavita, a mulher de Cruz e Sousa, também pelo realismo da situação. Hoje podemos ver com a clareza facultada pelo distanciamento histórico, um dos maiores poetas brasileiros, seu maior simbolista, morto com tuberculose na mais completa miséria que sofreu durante toda a sua vida a discriminação de seus contemporâneos, que foi protelado em cargos públicos e até da Academia Brasileira de Letras por um mestiço chamado Machado de Assis, que a história lhe faça justiça longe da literatura, trasladado num vagão de transporte de animais é dose. Nem na morte lhe deram compaixão, foi um maldito até o fim.

No dia 29 de novembro de 2007, depois de uma batalha que levou mais de 30 anos, finalmente o governo do Estado de Santa Catarina consegue resgatar os restos mortais do Sr. João da Cruz e Sousa.

Trazido agora de avião e depois por um caminhão do corpo de bombeiros, uma mala de aço contendo uma urna de madeira com os restos mortais do poeta que finalmente volta para casa, recebidos no Palácio Cruz e Sousa, bela construção arquitetônica com o seu nome, com direito a um coral entoando música clássica, louvado por autoridades acadêmicas e políticas, a promessa de um grande Memorial em sua homenagem onde se possam recitar poemas, onde sua obra nunca será esquecida e onde as lembranças de seu calvário serão sepultadas junto.

Foi diferente hoje, não era mais a cena de um corpo chegando em situações precárias numa estação do interior, era o poeta mesmo, mais de 100 anos depois, recebido em sua terra natal, o filho de escravos alforriados, o  “ser humilde entre humilde seres”…  Aquele para quem o “… mundo foi negro e duro”… O cidadão que chegou “… Ao saber de altos saberes”, “tornando-te mais simples e mais puro”…

Estive lá num canto observando tudo a distância, não suporto que me vejam emocionado em público, de poeta para poeta com a mesma dor, estava precisando de um trago, saí dali rumo ao mercado público, “… E neste conciliábulo mundano/ Pelos botecos da vida, confesso:/É solitário que eu me sinto humano!”.

Requiescat in pace!

SAUDADES DE TI DIANTE DE TI – de zuleika dos reis / são paulo

 

Saudades de ti diante de ti

eu a olhar-te de leve

meu olhar sobre ti asas

a roçarem folhas, de passagem,

sem pouso permitido

asas a perderem o rumo

asas a perderem o prumo

asas num voo vertigem

direto  ao chão.

 

Saudades de ti diante de ti

eu a receber e a guardar

olhares de todos os cantos

canto chão

cantochão

no tempo sempre a escoar

sempre em fuga de nós

e do nosso outro tempo

aquele eterno, imóvel,

que nos cravou no mostruário

as asas de borboleta

para sempre em oculta exposição.

 

Saudades de ti diante de ti

esta história, nossa história

suspensa nos galhos da árvore

a perder de vista

a tocar o céu

no bico das aves

sempre a partir

nossa história

que não podemos tocar

a cintilar provisória

nos olhos destas pessoas

que também nunca a conhecerão.

 

Saudades de ti diante de ti

e em breve, muito em breve

nós, a circular em fotos

diante do mundo

e enquanto estas não nos chegam

volto para a casa

onde minha mãe me habita

onde não me habito há mundos

e vou-me, a ler teu livro

que não nos conta, mas nos diz

nos desdizendo

assim, nesta Dor que nos corrói,

para sempre,  assassinando.

 

Saudades de ti

e eu me dissipo

 

como se dissipam

 

ventos…

 

nas mãos

 

nossos fiapos…

Senador ALOYSIO NUNES FERREIRA (psdb): Escândalo da Controlar já atinge senador – 247 / são paulo

Escândalo da Controlar já atinge senador Aloysio

Escândalo da Controlar já atinge senador AloysioFoto: DIVULGAÇÃO

ALÉM DO PREFEITO GILBERTO KASSAB E DO EX-GOVERNADOR JOSÉ SERRA, ALOYSIO NUNES FERREIRA TAMBÉM ESTÁ ATORDOADO COM A PRISÃO DE JOÃO FAUSTINO (ESQ.), EX-SUBCHEFE DA CASA CIVIL DE SÃO PAULO, NA OPERAÇÃO SINAL FECHADO; FAUSTINO ERA TÃO FORTE QUANTO PAULO PRETO NO RODOANEL

27 de Novembro de 2011 às 10:03

247 - A informação mais revelante da Folha de S. Paulo deste domingo, um catatau que circula com centenas de páginas nos fins de semana, está escondida em três pequenas notas, sem chamada na primeira página. Publicadas na coluna Painel, de Renata Lo Prete, elas tratam do escândalo Controlar, empresa de inspeção veicular que provocou o bloqueio dos bens do prefeito Gilberto Kassab, e suas conexões com o Palácio dos Bandeirantes. Aqui, no 247, noticiamos que um dos homens fortes de José Serra, João Faustino, está preso desde a última quinta-feira em Natal, no Rio Grande do Norte, em razão da Operação Sinal Fechado (leia mais aqui).

Às notas de Renata Lo Prete:

Surpresa!

Quem acompanhou de perto o processo que levou a Prefeitura de São Paulo a validar o resultado de licitação para inspeção veicular realizada na gestão de Paulo Maluf (PP) atesta: a pressão sobre Gilberto Kassab (PSD) não vinha da Controlar, vencedora do questionado certame, e sim da CCR – que veio a adquirir o controle da Controlar pouco depois da assinatura do contrato com o município.

Conexões 1

Carlos Suarez, ex-sócio da construtora OAS acusado de improbidade administrativa pelo Ministério Público paulista no caso Controlar, tem ligação antiga e estreita com João Faustino (PSDB-RN), suplente do senador José Agripino (DEM-RN) preso na quinta-feira em operação que apura fraudes na inspeção veicular (entre outros serviços sob o guarda-chuva Detran) no Rio Grande do Norte.

Conexões 2

Tucanos graúdos se mobilizam intensamente nos bastidores para avaliar a situação e projetar os danos da prisão de Faustino, que foi o número dois do hoje senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) na Casa Civil durante o governo de José Serra.

Renata Lo Prete é uma das melhores jornalistas do Brasil. Daquelas que sabem das coisas. Foram dela, por exemplo, as entrevistas com Roberto Jefferson, que desencadearam o escândalo do Mensalão. Neste caso Controlar, ela vem publicando informações a contagotas. Por “tucanos graúdos”, leia-se José Serra e Aloysio Nunes. Isso porque João Faustino foi uma peça estratégica no governo Serra. Tão importante quanto outro assessor de Aloysio, conhecido no mercado como Paulo Preto.

Paulo Preto, engenheiro da Dersa e responsável pelas obras bilionárias do Rodoanel, foi o arrecadador, junto às empreiteiras, de recursos para a campanha presidencial de 2010. João Faustino, por sua vez, coordenava a campanha fora de São Paulo, inclusive no tocante à arrecadação.

A Operação Sinal Fechado e a ação do Ministério Público que bloqueou os bens de Kassab têm conexão direta — ocorreram simultaneamente. O elo entre as duas é a empresa Controlar, criada por Carlos Suarez, ex-dono da OAS.

Comentários para “Escândalo da Controlar já atinge senador Aloysio”

  1. Antonio S. Valentim 27.11.2011 às 19:13

    Xiiiiiii, A Elite politica honesta correta etc,etc,etc, não existe? Quero ver a cara do Agripino Maia,Gilberto Kassab,J. Serra e seu amigo Paulo Preto, Ahan, não é amigo, Foi? certo, e o Aloysio Nunes e João Faustino tabem foi não são mais, deixaram descobrir o desvio. Gente onde vamos parar?

  2. Maria Amélia Martins Branco 27.11.2011 às 18:57

    Era só uma guestão de tempo pra sujeira DEMOTUCANA vir à atona, demorou, mais o controle começa a sair das mãos do PIG, parabéns brasil247 pela imparcialidade, os éticos, os indignados que todo dia derrubam Ministros tem telhado de vidro, hoje é VIDRAÇA.

  3. André Oliveira 27.11.2011 às 10:18

    Olha só a malfeitoria chegando as portas do gabinete do Sr Senador Agripino Maia.!!!.Quem diria que a vestal seria flagrada remelenta, remelenta, nas lamas da desabonança..

  4. André Oliveira 27.11.2011 às 10:16

    O Pau que dá em Chico tem que dar no Francisco também..Boa Brasil 247.. Eu não defendo nem corrupto e nem corrupção, mas não admito esse substantivo que a direitalha criou chamado de “corrupção do PT”, como não concordo com o termo “tucanar” as coisas..Quanto mais decente for a imprensa melhor será o país…

  5. Joselito 27.11.2011 às 10:11

    O pau dá que dá em Chico tem que dá em Franscico,brasileiro é pobre mas é limpinho,já somos 80 por cento indignados com roubalheiras e acusações só de um lado como se eles fosse um exemplo para a sociedade,esqueceram dos 45 escandalos do FHC quando foi gov. que tinha uma imprensa a seu favor e uma Justiça que engavetava tudo,agora temos o Google e só perguntar e entrar pra saber tudo só é ignorante quem quiser,quando aparecer um politico cara de pau, entre no google e veja o curriculo dele,você não precisa esperar horario politico pra conhecer o candidato,agora eles não nos enganam mais fomos enganados por 500 anos chega,trabalhe para deixar um Pais melhor pros seus netos.Viu´só o Pais que os militares deicharam para nós.?200 anos de atrazo.Vote em quem está tirando o Brasil do Atrazo.

  6. Jofra 27.11.2011 às 09:22

    Parabéns a este JORNAL, bate nos dois lados! Acredito que seja o mais imparcial do Território Basileiro. Veremos como a TUCANADA vai justificar ( este caso deve entrar para o rol daqueles que foram atos enganosos do poder público – erros da Polícia Federal / Ministério Público etc…etc…a exemplo do caso Protógenes – o ótimo delegado federal que foi linchado até pela imprensa por ter mexido onde não devia). VIVA a DEMOCRACIA BRASILEIRA que está amparada em 90% pelas redes sociais e por jornais como este. Observem, isto só irá para os noticiários do PIG quando não houver mais jeito. Diferentemente do envolvido com o DETRAN de São Paulo, que deixou o DEM e, por isso, está estampado em todos os JORNALECOS tanto a sua foto como a história ( ou estória?) do ocorrido. Mas, este cara é TUCANO, não se deve fazer mau juízo dele! Eta Brasilzão daszelites…….

Dr. PAULO HOFF: Incidência de câncer vai aumentar no País / são paulo

Envelhecimento fará número aumentar nos próximos anos, afirma o oncologista Paulo Hoff, diretor do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo e médico do ex-presidente Lula

Ele nasceu em Paranavaí (PR), viveu em Passo Fundo (RS), graduou-se em Brasília e foi médico residente na Universidade de Miami e em Houston. Paulo Marcelo Gehm Hoff, 43 anos, é hoje uma das principais autoridades brasileiras em câncer, professor da USP, e está encarregado de cuidar da saúde do ex-presidente Lula, que trata de um tumor na laringe. Diretor do hospital Sírio Libanês e do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), tem entre seus pacientes a presidente Dilma, além do ex-vice-presidente José Alencar, que lutou contra a doença até março.

Veja também:
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Na última sexta-feira, um dia após a divulgação da estimativa do Inca (Instituto Nacional de Câncer) de um aumento no número de casos da doença no país em cerca de 1 milhão de novos pacientes nos próximos dois anos, Hoff disse que a estimativa é conservadora. “Temos no Brasil ainda uma falta de dados exatos do número de câncer, mas acredita-se que a estimativa do Inca esteja muito próxima da realidade”, afirma.

Ele explica que o envelhecimento da população deve levar o quadro da doença a níveis dramáticos nos próximos anos. Para combater isso, segundo Hoff, é preciso investir agora em prevenção e conscientização dos jovens sobre hábitos saudáveis de vida. “A conta será cobrada daqui a algumas décadas”. Ele afirma que 60% dos pacientes com câncer têm cura, que há medicamentos para reduzir o desconforto da quimioterapia, e critica a Resolução 196, que restringe a pesquisa científica no Brasil desde a gestão do ex-ministro Adib Jatene. “A agenda da pesquisa é dependente da indústria. É preciso mudar isso”, diz.

Após ter administrado a segunda sessão de quimioterapia ao ex-presidente Lula, no começo da semana passada – a última está prevista para janeiro -, Hoff afirma que o paciente reage bem ao tratamento do câncer na laringe. O prognóstico do ex-presidente, segundo o médico, “é bom” e que as informações sobre o tratamento são “absolutamente transparentes”.

Filho de um ex-dono de laboratório de análises clínicas em Paranavaí, o oncologista é casado com uma médica, tem três filhas, torce para o Internacional (RS) e é um apaixonado por assuntos de defesa, como aviões e navios de guerra. Perguntado se aceitaria ser ministro da Saúde, responde: “Eu? Nunca fui convidado”.

Abaixo, os principais trechos da entrevista no Icesp.

O Inca diz que há uma estimativa de um milhão de novos casos de câncer nos próximos dois anos no País. O que significa do ponto de vista da saúde pública?
O Inca talvez seja hoje uma das instituição mais sólidas em termos de estudos e investigação epidemiológia do câncer na América Latina. Então nós temos de acreditar nesses dados. Se nós quisermos ter alguma dúvida em relação a esses números é que eles podem ser até um pouco conservadores. Temos no Brasil ainda uma falta de dados exatos do número de câncer, mas acredita-se que a estimativa do Inca esteja muito próxima da realidade. Os números liberados agora têm algumas nuances importantes. No ano passado, o número da estimativa era de 500 mil casos. Neste ano, 520 mil. Um aumento substancial. Infelizmente a expectativa sobre esse número é de que continue a aumentar. Na pergunta foi mencionado qual era a expectativa de um milhão de casos nos próximos dois anos. Eu iria mais longe: nos Estados Unidos haverá um milhão e meio de casos em um ano – e o Brasil tem um terço da população americana. Se nós seguirmos nesta projeção ascendente, que se confirmou entre as estimativas de 2011 para 2012, nós teremos no futuro um número muito maior de casos. Não é impossível que cheguemos a ter um milhão por ano, quando a nossa população realmente atingir seu estado mais maduro e tivermos uma população elevada acima dos 60 anos.

Hoje temos no mundo em torno de 25, 26 milhões de casos.
Mas esse número vai aumentar bastante. E o número que é dramático é que até 2030 esta incidência deve aumentar em mais 15 milhões. E esse aumento se dará predominantemente em países em desenvolvimento cujas populações estão envelhecendo agora. Nos Estados Unidos, Europa etc, esta fase de amadurecimento já aconteceu há alguns anos. A pirâmide populacional mudou e as incidências subiram muito em anos passados e agora começam a estabilizar. Para nós, as curvas ainda são ascendentes.

O envelhecimento projeta um aumento importante dos casos.
A maior parte dos tumores tem mais de um fator que leva à formação da doença. Mas entre todos os fatores de risco o que é mais comum a todos os tumores é o envelhecimento. Porque o envelhecimento faz com que as células tenham mais tempo expostas a fatores que possam transformar as células normais em cancerosas. O envelhecimento faz com que haja mais pessoas sob risco, e consequentemente um aumento na incidência. Mas gostaria de dizer que se abrem oportunidades. O câncer não é doença que se forma do dia para a noite. As pessoas têm a impressão de que o câncer se forma de um ano para o outro. Na realidade, o processo é muito longo, com exceção dos tumores associados a síndromes familiares, que são muito rápidos, em geral os tumores levam de uma a duas décadas para se instalar. Então, se nós já sabemos que a estimativa atual é que haverá um envelhecimento da população e que essas pessoas terão um risco maior, nós temos a oportunidade de atuar na juventude agora para fazer com que ela minimiza a exposição. Você nunca vai conseguir eliminar o risco. Mas voce pode reduzir a chance. Mais ou menos como alguém que está dirigindo a 140/150 quilômetros um carro e baixa essa velocidade para 80 quilômetros por hora. Ele ainda tem o risco de um acidente, mas é menor do que se ele continuasse naquela velocidade.

Daí a iniciativa do trabalho com escolas do Icesp.
Justamente. Temos uma preocupação muito grande de como nós, no Icesp, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, podemos colaborar na redução dos casos de câncer a longo prazo. É importante não só se pensar no tratamento e diagnóstico precoce, que são soluções a curto prazo, mas nas soluções a longo prazo. Sabendo do tempo de formação do tumor, nós achamos que o momento no qual teríamos mais impacto é a conscientização do jovem. O jovem sempre pensa que é invulnerável, que não tem alta incidência de câncer, de outras doenças, e tende a ser um pouco mais solto em relação a hábitos. No entanto, o que ele faz agora vai cobrar a conta daqui a algumas décadas. Nossa iniciativa visa a conscientizá-lo de que hábitos saudáveis agora podem evitar que ele enfrente esse problema daqui 20 anos.

Doutor, o que é o câncer?
O câncer, na realidade, não é uma doença. Há centenas de doenças que têm características similares, que agrupamos com nome de câncer. Hoje a gente sabe que mesmo câncer de um órgão específico são doenças diferentes. Por exemplo: você pode ter duas mulheres com câncer de mama e um tumor não ter nada a ver com o tumor da outra. O que leva a nós chamarmos de câncer são algumas características em comum. Primeira delas: o câncer é doença que advém de alteração no código genético de uma célula afetada. Isso é comum a todas elas. Aconteceu alguma alteração naquele código que rege as funções e o desenvolvimento da célula fez com que ela se tornasse anormal. Segundo ponto: ele tem a capacidade de invadir estruturas adjacentes e mais, ele consegue viajar e se instalar a longa distância. A junção dessas características é o que nos leva a chamar uma doença de câncer.

O que é apoptose?
É um mecanismo que o organismo tem de eliminar células defeituosas ou que já tenham cumprido sua missão. Seria, entre aspas, o suicídio da célula. Por exemplo: se você tem um indivíduo que pega bastante sol e uma dessas exposições a radiação solar causou uma alteração numa célula da pele, esta célula pode vir potencialmente a se transformar em um câncer. Dentro da própria célula ela tem mecanismos que fazem com que se ative a apoptose, e ela morre. Geralmente isso acontece quando há um defeito no código genético que não pode ser reparado. A célula vem e tenta reparar o problema. Não conseguiu, então, ela instruiu a célula para morrer para que não cause câncer. Muitas vezes o câncer acontece porque temos defeitos nesses mecanismos de gerar apoptose.

O que é angiogênese?
Angiogênese é um termo bastante antigo. Foi cunhado por um cientista britânico chamado John Hunter, no Século 18, estudando feridas cirúrgicas. É a formação de novos vasos sanguíneos. Porque é importante em termos de câncer: o câncer precisa de oxigênio , precisa de uma via para receber alimentação e eliminar os produtos nocivos que são gerados pelo metabolismo. Então, se a célula cancerosa não conseguir fabricar um novo vaso, ela não consegue crescer. Se você consegue bloquear a angiogênese dentro do tumor você faz com que o tumor pare de crescer ou até regrida.

Esse seria um ponto fraco da doença.
É um dos pontos que têm sido explorados nos tratamentos. É um dos pontos fracos do tumor.

O senhor tratou do ex-presidente José Alencar, da presidente Dilma e do ex-presidente Lula. Qual deles foi melhor paciente?
Todo paciente é especial.

O senhor votou em Lula?
O voto é secreto.

O caso de Lula é relacionado ao fumo, câncer de laringe. Qual é o prognóstico?
O câncer de laringe tem sido bastante estudado. E o tratamento tem evoluído bastante nos últimos anos. Diria nas últimas décadas. Hoje a chance de sucesso de um câncer de laringe é bastante alto, especialmente se ele é descoberto no momento em que ele está confinado na região onde se iniciou. No caso do nosso ex-presidente, justamente se identificou que a lesão estava localizada, ainda, não havia disseminação do tumor. Então, o prognóstico é bom. Mas eu diria, se você me permitir, que mesmo instituições que trabalham com o Sistema Único de Saúde (SUS) têm a possibilidade de oferecer quimio e radioterapia que levam a uma chance de sucesso bastante alta. Em diversas regiões do Brasil. É um dos tumores com taxas de sucesso bastante boa.

Ele fez duas sessões, vai fazer mais uma. Isso é o mais indicado para o caso dele, ou é procedimento para todo paciente desse tipo de caso?
Não. Nós temos hoje em dia um interesse muito grande em individualizar a terapia. Os tratamentos para os diversos tipos de tumores são padronizados de acordo com o tipo de tumor a sua apresentação e a condição do paciente. Se você imaginar, são três grandes áreas que você trata a intersecção dessas três áreas. Tumor, paciente e o seu tratamento. Esse tipo de tratamento oferecido ao nosso ex-presidente foi desenhado especificamente para a situação dele. Existem tratamentos em que há cirurgia imediata, outros em que há cirurgia, seguida de quimio e radioterapia, e outros ainda quimio e radioterapia inicialmente. Esse foi o escolhido para ele.

Uma das queixas do paciente com a doença, nesta fase do tratamento, é o desconforto. Como fazer para reduzir os danos da quimio?
Nós evoluímos muito em termos de controle de sintomas no tratamento nos últimos 20 anos. Quando eu comecei a tratar pacientes com câncer não era incomum que no dia do tratamento o paciente ficasse fechado num quarto tomando soro, com as luzes apagadas, ar condicionado ligado. O paciente vomitava, um desconforto excessivo. É claro que o tratamento oncológico continua sendo um tratamento difícil. Mas evoluímos muito. Hoje nós temos medicações que permitem que o paciente tenha qualidade de vida aceitável. Ainda haverá dias em que os efeitos colaterais afetarão as atividades normais do pacientes. Particularmente quando você está fazendo um tratamento em áreas mais delicadas do organismo. como por exemplo a laringe, uma área extremamente nobre do organismo, o que nós comemos, respiramos, bebemos passa por essa região do pescoço. Mas existem outras áreas que são igualmente delicadas e, de novo, os esforços têm sido não só em melhorar o tratamento, mas também em diminuir o desconforto do paciente. Nós vamos evoluir eventualmente para tratamentos muito mais específicos, que pouparão muito mais as células normais e atuarão muito mais sobre as células cancerosas. Isso já está acontecendo, mas nem sempre é possível.

Já há drogas específicas e disponíveis?
Temos a primeira geração dessas medicações. No entanto, elas não estão disponíveis para todos os tipos de câncer. O mesmo essas drogas ainda não são perfeitas. Um cientista alemão, do final do século 19, início do século 20, chamado Paul Ehrlich, cunhou um termo ‘bala mágica’, uma bala que quando fosse disparada e só acertaria o bandido, poupando as outras pessoas ao redor. A ideia dele é que se pudesse desenvolver um tratamento que matasse só a célula cancerosa sem atingir as demais. Ainda não chegamos na ‘bala mágica’ de Paul Ehrlich, mas já andamos nesta direção. Eu tenho muita convicção de que vamos chegar nesse ponto porque o tratamento mais moderno já está muito mais próximo disse do que era. Novamente: infelizmente ainda não é perfeito e nem está disponível para todos os tipos de tumores. Novas gerações desses remédios terão de ser desenvolvidas para se atingir esse objetivo.

Com o que se tem hoje, o câncer tem cura?
Hoje nós conseguimos curar mais de 60% dos pacientes com câncer.

Quando o senhor fala de cura é eliminar completamente? A pessoa vai morrer idosa ou de uma outra doença?
Exatamente. Alguns tumores têm mais chance de sucesso. Por exemplo: dos que temos grande chances, pacientes com tumor de testículos, que é tumor importante porque atinge homens jovens. Nós temos a chance acima de 90% de curar. Mesmo quando ela está mais avançada. Maior exemplo é o ciclista americano Lance Armostrong, que teve um câncer de testículo com metástase no cérebro, foi tratado e ficou não só curado como ganhou o Tour de France várias vezes depois do tratamento. Um sucesso. Outros têm taxa menor em termos de cura. Mas mesmo assim temos evoluído. Há um sarcoma, incomum, chamado Gist, tumor do sistema gastro intestinal. Esses tumores tinham expectativa de vida, quando já avançados, de menos de um ano. Hoje, quando não é curável, a expectativa de vida é de mais de cinco anos. E vem aumentando ano a ano. Graças a essas moléculas específicas que a gente chama de terapia Alfa. Temos tido avanços, não na velocidade que gostaríamos, mas hoje em muitas apresentações é curável.

Um médico salva muita gente, mas também convive com as perdas. Como é perder um paciente?
É uma experiência muito difícil. Ninguém aceita isso. O médico aprende a conviver com a perda, porque se não ele teria de abandonar a profissão, especialmente um oncologista, porque o número de pacientes que acaba falecendo da doença é muito grande. É um momento de dor para todos os envolvidos. O tratamento oncológico é intenso. Nós trabalhos com o paciente lutando juntos, com frequência grande, períodos longos. Você vê o paciente muito. Se formam vínculos de amizade. Por outro lado, procura-se ver o sucesso, aqueles que se curam. E mesmo aqueles que não conseguem sobreviver nós procuramos ver se conseguimos fazer com que esse paciente vivesse mais tempo, tivesse oportunidade de ver a formatura de um filho, assistir a um casamento, coisas importantes para ele. E se a qualidade de vida foi mantida da melhor forma possível até o fim.

Os médicos fazem estatísticas desse sucesso? O senhor mede?
individualmente, não. Não tenho esse hábito. Como instituição, acho muito válido e necessário que façam suas estatísticas de sucesso. Para ter certeza de que está fazendo o melhor.

O senhor fez medicina nos EUA. O que diria a um jovem que pretende cursar medicina no Brasil?
Eu sempre tive muito orgulho da minha formação no Brasil. Os médicos brasileiros com os quais convivi nos Estados Unidos sempre foram muito respeitados nos grupos. Eu diria a um aluno que depende muito de seu esforço. Acho que no Brasil há todas as condições de formarmos médicos excelentes, mas é necessário esforço pessoal. No passado, quando eu fui aos Estados Unidos, havia uma discrepância muito grande entre a infraestrutura disponível aqui e a de lá. A primeira vez que cheguei na Universidade de Miami coloquei o jaleco e comecei a caminhar na direção do hospital, foi um choque. Era muito diferente do que eu estava acostumado a ver. Hoje não é tão diferente. Visitei recentemente a Universidade de Miami, visitei as clínicas, e não há mais diferença. Em muitos aspectos o Icesp tem uma estrutura mais acolhedora. Mas há que ter cuidado. O Brasil teve um aumento muito grande no número de escolas médicas. Nem todas estão preparadas para formar um médico que nós precisamos. É importante que haja um controle da qualidade dos médicos que estão se formando.

É possível fazer boa medicina com a pressão de custos do sistema hospitalar?
A pressão é nos médicos e hospitais mundiais. Nos Estados Unidos, o presidente Obama passou lei de atenção à saúde que está sendo questionada. É possível que ela seja desfeita. A pressão de custos é universal. Se podemos fazer boa ciência? Podemos. Boa medicina? Podemos. Mas vamos ter de aprender a racionalizar os recursos. Há, às vezes, a impressão de que é possível se fazer tudo para todos sendo estabelecido, experimental etc. Infelizmente a realidade não é essa. Há limitações. Deveríamos ter mais verbas? Gostaria que tivéssemos. Mas também ficar só mencionando isso é complicado. Acho que sim, temos que lutar por mais verbas, mas temos que racionalizar o uso do que temos também.

O senhor dirige o Sírio Libanês, privado, e o Icesp, público. Qual é a maior dificuldade na questão da gestão?
São mundos bastante distintos, mas que estão se aproximando. Acho que o sistema público, pelo menos as instituição de mais qualidades, estão se aproximando mais do sistema privado. mas sempre haverá diferenças, como entre dois hospitais privados. Aqui, no Icesp, público, temos a dificuldade de financiamento da saúde maior do que o que você tem numa instituição privada. O salário dos médicos não são exatamente o que nós gostaríamos que fosse. É natural a dicotomia. Uma pergunta importante, que ainda não foi feita, é qual seria o grande problema do atendimento oncológico hoje no Brasil? Nós discutimos muito o acesso a novas drogas, a novos equipamentos. É importante. Mas o grande problema é o acesso aos serviços. Você precisa fazer com que o paciente que tem suspeita de câncer tenha seu tratamento iniciado mais rápido. Como fazer? De duas maneiras: aplicando na infraestrutura e racionalizando o uso do que você já tem. Por que há filas e o paciente reclama? É importante esclarecer à população que não é um porque os médicos do hospital x,y,z não estão atendendo, ou o hospital está de má vontade. É que a demanda é maior do que o que os hospitais têm. Se tenta fazer o melhor. O que precisamos é de um sistema que redistribua melhor essa demanda.

Doutor, o senhor aceitaria ser ministro da Saúde?
Eu? Nunca fui convidado.

É possível fazer boa formação sem o apoio das corporações e indústria que financiam pesquisa?
No Brasil, nós tínhamos uma falta de arcabouço jurídico da pesquisa clínica que estava sendo realizada. Na gestão do ministro Adib Jatene, da Saúde, se criou um sistema nacional de controle ético de pesquisa e se regulamentou como seriam as relações entre pacientes, médicos, prestadores e patrocinadores. A espinha dorsal é a Resolução 196 da Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisas). Temos que reconhecer que a Resolução 196/96 foi um grande avanço. Regulamentou o que era feito sem controle adequado. E estabeleceu marcos importantes em defesa dos pacientes. No entanto, a Resolução 196 e as que se seguiram a ela criaram uma situação em que a pesquisa clínica no Brasil ficou extremamente restritiva e extremamente cara. Se você seguir ao pé da letra, fica quase impossível fazer pesquisa que não seja patrocinada por indústria farmacêutica. Os tratamentos padronizados tem de ser cobertos por alguém que não seja o SUS, seguros ou pacientes. Quem é que tem dinheiro para pagar? A grande indústria. Hoje, a agenda da pesquisa ficou altamente dependente da indústria farmacêutica.

Mas isso não gera uma questão ética para o médico?
Depende de como ele se relaciona. Gera é uma questão maior. Uma questão de desenvolvimento de conhecimento para o país. É do nosso interesse que a pesquisa médica do país seja dominada só pela indústria farmacêutica? Eu não sou contra a indústria. Sou totalmente a favor do relacionamento com a indústria dentro de normas éticas. Mas acho que deve existir outras formas de pesquisa. Mesmo porque existem pesquisas clínicas relativamente simples que não são do interesse da indústria. Um exemplo: se eu imaginar um tratamento com a droga Y e a dose é de 100 ml de aplicação e eu, estudando, imagino que 50 ml seja suficiente, para fazer um estudo tenho de achar alguém que pague os 100 ml do braço de controle e os 50 ml do experimental. Embora os 100 ml seja padronizado e se eu for tratar o paciente, o que farei, será coberto. Pela lei atual tenho que achar alguém que pague os dois braços. Será que a indústria vai ter interesse em patrocinar um estudo que vai levar à venda da metade do que ela vende atualmente? Difícil.

Qual a solução?
É você pensar melhor a questão. Drogas novas têm de ter seu desenvolvimento patrocinado totalmente pela indústria, sem dúvida. Mas acho que te de haver flexibilidade para instituições acadêmica, quando estiverem avaliando protocolos padronizados possam fazer a cobrança na fonte usual. Não é aumento de despesa. Fico feliz que a Resolução 196 tenha sido colocada em discussão agora. Estão recebendo no Ministério comentários da comunidade científica para tentar aperfeiçoar a resolução. Queremos manter a ética da pesquisa. É importante que o que for experimental seja coberto por quem eventualmente vá lucrar, mas temos que ter cuidado para não jogar o nenê junto com a água do banho. Temos que separar o que tem de ser patrocinado pela indústria e o que tem de ser acadêmico, que vai beneficiar o SUS, inclusive. Outro ponto é que o Brasil só perde em tempo de aprovação de pesquisa para a China. Hoje nosso tempo médio é muito longo, que faz com que sejamos excluídos de estudos importantes. Não queremos diminuir a avaliação ética dos projetos. Mas precisa ser mais célere. Hoje temos duas instâncias: a maior parte dos países tem uma instância de aprovação e uma de supervisão.

por Pablo Pereira.

“O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.” – Chico Xavier

em 25/11/2011 as 20:10

recebi a FRASE ACIMA, de um leitor amigo e colaborador do site, há alguns meses, como sendo de CHICO XAVIER. entendi de publicar. não coloquei dúvida na autoria, até porque, o respeitável espírita jamais assumiria algo que não fosse seu ou dos seus mentores. agora, o meu amigo e brilhante escritor OLSEN JR, também colaborador do site, nos esclarece que se trata de uma frase/pensamento do não menos brilhante poeta/filósofo português FERNANDO PESSOA. sem, pessoalmente, saber da origem real, tomo posição  favorável ao alerta de OLSEN JR, a quem, de público, agradeço esta preciosa colaboração corretiva. é difícil de se compreender as pessoas por tais atitudes. modificar a autoria não melhora a imagem de ninguém, antes, pelo contrário, agride a moral do provável beneficiado. para que os comentários e esta observação tenham sentido, mantenho o post tal como está.

CHILE: Homenagens a assassinos e torturadores não são mais aceitas – por christian palma / santiago.ch

No Chile, a dor e as feridas causadas pela ditadura estão longe de fechar. Um exemplo desta situação foi protagonizado pelo próprio Piñera, pelo prefeito da acomodada e conservadora localidade de Providencia, o ex-coronel de Exército, Cristián Labbé, e seu ex-superior hierárquico, o brigadeiro reformado Miguel Krassnoff (foto), acusado, este último, de delitos de lesa humanidade nos tempos em que Pinochet governava o país. Uma homenagem a Krassnoff gerou forte reação popular.

No Chile, a dor e as feridas causadas pela ditadura estão longe de fechar. Ainda mais quando diversas autoridades, inclusive algumas de dentro do governo de direita de Sebastián Piñera, insistem em olhar para o lado e fazer de conta que não aconteceu nada.

Um exemplo desta situação foi protagonizado pelo próprio Piñera, pelo prefeito da acomodada e conservadora localidade de Providencia, o ex-coronel de Exército, Cristián Labbé, e seu ex-superior hierárquico, o brigadeiro reformado Miguel Krassnoff, acusado, este último, de delitos de lesa humanidade nos tempos em que Pinochet governava o país.

A indisposição cidadã começou na semana passada quando Labbé –reconhecido amigo do defunto ditador chileno- anunciou que faria uma homenagem à Krassnoff, o que foi valorizado e respaldado pelo palácio de La Moneda. A opinião pública levantou a voz por meio das redes sociais, pela qual Piñera se retratou alegando que uma colaboradora havia falado por ele. Sua mensagem foi via twitter e não de frente ao país como a situação merecia.

Ontem pela manhã, a poucas horas de que a homenagem dos militares começasse, pois não foi suspensa pelo governo, o ministro visitante da Corte de Apelações de Santiago, Alejandro Solís, abriu um processo contra quatro ex-integrantes da Direção de Inteligência Nacional (DINA – a temida polícia secreta de Pinochet) pelo sequestro qualificado de Newton Morales Saavedra, ocorrido a partir de 13 de agosto de 1974 em Santiago, na etapa mais sangrenta da ditadura (1973-1990).

Entre os acusados da autoria deste delito está o homenageado, o ex-brigadeiro Krassnoff, juntamente com o general (R) Manuel Contreras Sepúlveda, o coronel (R) Marcelo Moren Brito e o suboficial (R) Basclay Zapata Reyes, todos assassinos e torturadores consumados.

De acordo com os autos do processo, Morales, de 39 anos, foi detido sem nenhuma ordem judicial por volta das 21h15min em seu domicílio em Santiago, por três agentes da DINA, que o introduziram em um veículo de cor vermelha com antenas, foi conduzido até um quartel da agrupação de inteligência que se localizava no centro de torturas na rua Londres, nº38, no centro da cidade.

Os quatro processados foram notificados desta resolução nos recintos de detenção preventiva onde cumprem pena por outras causas vinculadas a violações de direitos humanos. No caso de Krassnoff, o trâmite se realizou em Punta Peuco onde cumpre 144 anos de pena como participante destes crimes de lesa humanidade. Mesmo assim, a homenagem continuou adiante.

A comunidade mostrou seu descontentamento. Não só nos cafés, nas esquinas ou nas praças públicas. Outra vez as redes ferveram repudiando a cerimônia. De fato se convocou uma “funa” (grupo de pessoas que se reúne para interpelar algum delinqüente) que irrompeu pela tarde na chique e facistóide localidade de Providencia.

Cerca de 500 pessoas, após saírem de seus trabalhos, chegaram até o Club Providencia para reclamar contra o violador de direitos humanos.
Os convidados para a cerimônia que chegaram até o recinto foram objeto de insultos, cuspidas e tentativas de agressão protagonizadas por alguns dos manifestantes. O grito de “assassinos, assassinos” foi escutado novamente em Santiago.

A polícia uniformizada, que estava de prontidão próximo ao local, atuou com força, com carros lança-água, bombas de gás lacrimogêneo e porretes. De fato, uma mulher sofreu um ferimento no rosto devido ao impacto de uma bomba de gás lacrimogêneo.

Em meio aos protestos, foi recebida pelo menos uma ameaça de bomba no lugar. Embora num primeiro momento se informasse de uma evacuação do Club Providencia, os convidados à homenagem continuaram ingressando ao centro de eventos e não se informou sobre a suspensão do evento.

“Este é um ato puramente militar. Que os políticos fiquem em suas casas” afirmou um coronel reformado, companheiro de promoção de Krassnoff e que parecia não se importar com os acontecimentos.

De fato, Labbé voltou às manchetes quando reprimiu os estudantes secundários em greve através da força policial.

A dirigente da Agrupação de Familiares de Detidos Desaparecidos (AFDD), Mireya García, criticou o trabalho policial frente às disputas ocorridas com os que compareceram à homenagem, assegurando “se manifestam com um grau de violência que realmente é abismal e os carabineros permanecem impávidos nestas circunstâncias”.

Disse ainda que o prefeito Cristián Labbé “não tem o direito de encabeçar uma cerimônia desta natureza, porque ele foi eleito por votação popular e, portanto, tem que representar todos os moradores de Providencia e não somente um setor. Eu acredito que o prefeito Labbé não pode continuar sendo prefeito, não pode continuar sendo representante de uma comunidade porque se colocou definitivamente do lado dos criminosos”.

“Esta é una atividade que nunca deveria ter sido realizada. O Presidente Piñera devia ter tido uma atitude de repúdio absoluto oficialmente”, sustentou a dirigente.

No final do dia, vários manifestantes foram detidos e feridos. Armaram-se barricadas nas proximidades, o que demonstra que as pessoas não tolerarão mais abusos ou lembranças daqueles que os praticaram. Ontem à noite no Chile a frase “nem perdão nem olvido”, se escutou com força.

Tradução: Libório Junior

BONDADE – de sergio bitencourt / curitiba.pr

Cada Ser Humano tem a uma Bondade, que é dele,
 E que lhe cabe.
É exercida com os seus que Ama,
E com outros que também Ama.
Ser Bom, é exercer a Bondade,
E não patrocinar a vontade dos seus ou fora deles.
Ser Bom é conhecer sem julgar,
Mas conhecer sem se arrepender,
É dar a cada qual o que lhe cabe naquele momento,
Bondade não tem Tempo.
A necessidade é de cada tempoi,
E irraigada com ele.
De modo que, a necessidade de cada qual,
Não tem vínculo com a Bondade se quer de um só.
A Bondade não é nem necessária,
Prescinde da necessidade,
E a necessidae não prescinde nem de sí.
Então, o que é Bom,
É Bom porque quer ser,
E fim.

UM POEMA – de gilda kluppel / curitiba.pr

Um Poema

Sou um ser estranho

ando pela cidade

encontro beleza no asfalto

em qualquer esquina,

numa rua, na sarjeta

exalo o cheiro de chuva na relva.

Sou um trovador

em versos e rimas

o motivo para um enredo,

experimento sensações

acalento sonhos, desvelo segredos

não uso disfarces, mas tenho muitas faces.

Sou uma saudade

quando os passos andam em desalento

amenizo as despedidas

entre tantas angústias

encontro o porto de chegada.

Sou um ser contraditório

caminho pela contramão

no sentido oposto da ambição

durmo ao relento

aprecio o brilho das estrelas

ou o céu lacrado, inviolável

canto felicidade, dores e mágoas

alegrias e tristezas da vida

as pequenas e as desmedidas

a perfeição me encanta

e também o mal acabado,

o desleixado, o jogado ao acaso.

Sou um abraço

sem amarras e cobranças

apenas afeto, o argumento convincente

meras palavras me realizam

entre tantas metáforas

tenho a força de um sentimento.

ESTOU APRENDENDO – de delinar pedrinho matuczak / quedas do iguaçu.pr


 

Eu pensei que a idade me trouxesse experiência.

Lembraram-me que na vida devesse pedir sapiência

Labutei pedindo experiência

Entendi depois de muito penar

Necessito sapiência, espero que esteja em tempo de aprender a ser sábio e a tentar ensinar isso a alguém.

cognita sum

Putabam me aetate usus.
Admonuit me sapientia vitam peterent
Vocatio experientiam laboraverunt
EGO animadverto multum laborem
Ut sapientiae sapere et spes discite tempus tellus sed do eiusmod aliqua.

O HOMEM E SEU DUPLO – por olsen jr / ilha de santa catarina.sc

   O que vou escrever não tem nada a ver com a obra “O Homem e o Seu Duplo”, de Alexandre Figueiredo, tampouco com “O Homem Duplo” (que originou o filme “A Scanner Darky”) de Philip K. Dick (o mesmo autor de Blade Runner) e menos ainda com “O Homem Invisível”, de H. G. Wells.

   O assunto aqui é mais leve.

É vox populi que todo o homem tem em algum lugar um sósia. Em outras palavras, alguém que é a sua imagem e semelhança, pelo menos no estereótipo.

Mas também não é isso do que pretendo tratar.

Só abrindo um parênteses, o escritor Christopher Lash (conhecido pela obra “A Cultura do Narcisismo”) escreveu uma espécie de continuação dela em outro livro “O Mínimo Eu” em que fala do narcisismo passivo e que o Paulo Francis emendava, referindo-se ao autor “acha que o mundo de hoje é dominado de tal forma por um complexo de burocracias todo poderosas que é difícil a alguém ganhar a individualidade”, mais “a vida é um constante comercial de TV ao qual o espectador tenta se segurar e tenta seguir, mas não consegue”, concluindo “ teme a idade e a morte de maneira infantil, nunca sai da infância”.

Começo por aí, pela infância. Quando éramos crianças, nós inventávamos um mundo de mentirinha e nos refugiávamos nele. A partir daí as brincadeiras faziam um sentido especial o que as tornavam necessárias. Nós não estávamos muito conscientes da duplicidade dos mundos, o que era “real” de onde provínhamos e do outro “imaginado” que acabávamos de criar. Os dois mundos até poderiam se confundir, embora sempre preferíssemos aquele outro o do faz de conta e sobre o qual tínhamos o domínio absoluto, inventando personagens e situações que parodiavam a vida adulta (ou não), mas nesse caso era apenas uma representação que poderia ser abandonada quando estivéssemos cansados dela.

O importante era ter uma ingerência na fantasia que criávamos diferente do mundo “real” onde aquelas aventuras oníricas não tinham guarida.

Nessa vida, dita adulta, o escritor que habita em mim está fazendo esse papel, o mesmo daquela criança que ontem fui e que ainda não me abandonou (porque sempre a tratei bem e nunca a deixei sozinha o suficiente a ponto de ela me ignorar como companheiro de viagem) o que permite a criação de um mundo paralelo aonde vou quando escrevo.

Ao contrário dessa criança, tenho consciência da fronteira entre ambos os mundos (um que eu suporto e o outro que criei) e o curioso agora é que nunca preciso cruzar a ponte de maneira clandestina, sei que consegui cobrir o trajeto quando essa solidão que me condena de um lado me absolve do outro, então escrevo, sozinho, mas livremente.

Agora, recebo um telefonema de uma amiga que está lendo os meus livros, e ela afirma: “não é justo… Assim não é justo”, repete e explica: “fico aqui lendo… Estou me apaixonando”…

Interrompo aquele monólogo e digo que ela pode se apaixonar pelo escritor, que está inteiro nas mãos dela, nas obras que lê, mas o homem por trás do autor é demasiadamente comum, não vale a pena alimentar um interesse por uma natureza humana que pode ser encontrada em cada esquina. Ela não se conforma, mas é a realidade, o escritor foi o sujeito que inventei para melhor suportar o homem comum que eu sou.

Para as pessoas que se crêem normais é muito estranho fazer essa discriminação entre a criança, o homem e o escritor e constatei isso enquanto limpava uma coleção de soldadinhos de chumbo reproduzindo os templários e as cruzadas e comecei a perceber o fragor da luta entre sarracenos e cristãos e, palavra de escoteiro, naquela hora, juro, senti o zunido de flechas e as batidas secas de cimitarras nos escudos que tinham uma cruz pintada em vermelho, diante das muralhas castigadas por catapultas, enquanto uma lança me espetava e tombei ferido de morte antes de afirmar que aquelas distinções não faziam sentido e aquela carnificina era inútil!

 

Sem julgamento, ações contra juízes prescrevem / brasilia.df

Segundo a Corregedoria Nacional de Justiça, há casos abertos desde 2009; prazo de extinção dos processos varia de seis meses a cinco anos

BRASÍLIA – O processo administrativo aberto contra um magistrado do Maranhão por trabalho escravo está parado desde 2007. Em Minas, uma representação contra um juiz, suspeito de morosidade, arrasta-se desde 2005. No Tribunal de Justiça do Amazonas, 10% dos processos foram abertos há pelo menos quatro anos. Esses casos podem estar prescritos e mostram como funcionam as corregedorias de alguns tribunais. Órgãos que deveriam processar e punir juízes acusados de irregularidades retardam as investigações e contribuem para a impunidade.

Veja também:
link Peluso veta divulgação de iniciais de juízes e desembargadores processados
link Peluso divulga lista de processos administrativos contra juízes
link RELEMBRE: Fala de corregedora sobre ‘bandido de toga’ abriu crise no CNJ

Peluso defende investigações pelos próprios TJs - Andre Dusek/AE - 27/9/2011
Andre Dusek/AE – 27/9/2011
Peluso defende investigações pelos próprios TJs

Quando decidiu divulgar que as corregedorias locais têm 1.085 investigações contra magistrados em andamento, o presidente do Conselho Nacional de Justiça, Cezar Peluso, queria mostrar que os tribunais de Justiça fazem seu papel e que a Corregedoria Nacional de Justiça, comandada pela ministra Eliana Calmon, não precisaria intervir com frequência para coibir irregularidades.

Mas uma radiografia nos números mostrou que a intervenção da corregedoria nos tribunais, em muitos casos, tem razão de ser. Como são leves as punições administrativas para magistrados, o prazo de prescrição é curto – de seis meses a cinco anos.

A demora no julgamento desses processos, portanto, beneficia juízes responsáveis por diversas irregularidades, como morosidade e parcialidade no julgamento dos processos, passando por emissão seguida de cheques sem fundo, denúncias de trabalho escravo e atropelamento.

Por isso, Eliana Calmon pediu que as corregedorias expliquem por que há casos abertos antes de 2009 e que ainda não foram julgados. E, a depender do andamento desses casos, a corregedora pode avocar esses processos e julgá-los diretamente no CNJ.

Conflito. A divulgação dos números pelo CNJ serviria para mostrar que as corregedorias dos TJs são diligentes e punem magistrados que cometem irregularidades. Entretanto, os dados acabaram por dar subsídios à intervenção da corregedoria.

“Os números confirmam a veracidade das críticas que fiz, pois, além de revelar a existência de grande número de investigações e processos, mostram que em muitos casos a inoperância da corregedoria local ou do desembargador responsável pelo processo acarreta grande número de prescrições e consequente impunidade”, afirma a ministra.

21 de novembro de 2011 | 22h 40
Felipe Recondo, de O Estado de S.Paulo

“Copia Fiel” – Um Kiarostami original . Ou não? – por monica benavides / curitiba.pr

Assisti mais um filme iraniano.  Copia Fiel, de Kiarostami.

Se quando citei iraniano e Kiarostami, você se animou com imagens de areia, deserto, camelos e exóticas caravanas de beduínos; digo que infelizmente não, esse Kiarostami não vai lhe agradar. Diferente do filme que colocou o Irã na moda e transformou o diretor em queridinho do cinema mundial (Gosto da Cereja), aqui Abbas Kiarostami guarda de sua origem persa muito pouco, apenas um toque. Em todo o mais ele se aproxima totalmente da escola francesa de cinema.

Em Cópia Fiel, esse toque a que me referi fica muito evidenciado. Eu o descreveria  como uma capacidade herdada pela sua origem,  para enxergar uma diferença básica entre o sexo feminino e masculino, uma sutileza de compreensão da vida e relação com o desejo, por parte da mulher, um passar de tempo consciente para elas, que acredito fique  sem eco aos homens ocidentais nascidos após o vitoriano.

No filme, Juliette Binoche, madura, linda e como sempre hipnotizante, (prestem atenção na cena do brinco), apresenta uma forma de sedução velada, com gestos, meio-sorrisos (sua marca registrada), olhares e porque não dizeres, que poderia ser considerada o supra-sumo do uso da feminilidade em uma relação de conquista homem e mulher. Enlouquecendo aos poucos ou não, (aqui está a escola francesa), a personagem de Kiarostami apresenta toda a sua capacidade de fantasiar e brincar de faz-de-conta com o viver.  Isso se dá devagar, através dos diálogos e os famosos closes femininos do diretor, que se desenrolam e que aparentemente surreais, surpreendem o espectador pela carga dramatica, o levando a sem sentir, sofrer por ela em sua tentativa ingênua e constrangedora de cativar.
Willian Shimell, esta muito bem no papel, quase a altura de sua parceira de cena. Mas sua perplexidade soa um tanto falsa e forçada, o que para o clima correto que o roteiro exige, deixa a desejar.

É importante avisar que não existe explicação racional aqui, o expectador não verá uma história lógica com começo, meio e fim e com certeza sairá da experiência um tantinho atordoado.

Se essa era a intenção do diretor, não importa. Para mim, o que há de mais iraniano nesse filme é justamente a capacidade de Abba, como um excelente exemplo do artista originário do Oriente médio (quem já leu Mahfuz e Layla sabe), de contar uma bela história de amor do jeito certo. Dando valor aos detalhes,  às pequenas reações individuais, a dinâmica dos diálogos de quem quer amar e ao medo que provoca querer alguém que não se conhece. Ou conhece?

Aqui definitivamente a cópia é o original, quem ver o filme entenderá.

Enviado via iPad

O NOME DA DEUSA – por jorge lescano / são paulo.sp


Não há provas de que esta criatura constitua uma espécie. O exemplara que registramos é, conforme declaração textual, o único avistado pelo autor do manuscrito compilado e comentado, provavelmente, pelo ilustre bibliotecário cego; versão esta que ora apresentamos em tradução livre. Acreditamos que o leitor, por pouco erudito que seja, poderá identificá-la entre suas lembranças de juventude.

 

“Lucádia ou Dulcáia, a Princesinha, tal a estirpe, e a alcunha, pelas quais é conhecida entre os tcharooas, na terceira margem do rio Cunaimama. Todavia, por motivos que a história omite, os francos e certo autor hebreu-germano-sueco, a denominam Charlotte, a Coxa.

“Presume-se que seu nome, como o da América (Amerik: elevação de terreno não vulcânico na atual província de Chontales, Nicarágua), foi transferido para solo europeu por navegadores espanhóis do século XVI. Como Amerik, foi rebatizada e devolvida ao Novo Mundo com a função de vestal.

“Eis a descrição suscinta legada pela tradição:

Cor: mourisca; cheiro: de felino silvestre de pequeno porte; cabelos: liga de cobre e ouro velhos; nariz: cleopátrico; olhos: sarracenos; voz: damasco em salva de cobre.

“Dadas as referências orientais, é-nos lícito suspeitar que o Império Otomano não esteve ausente na sua reconstituição. Há quem insista no caráter esotérico (alquímico, cabalístico) da passagem citada. conjeturou-se que era uma versão abreviada do simurg proposto pelo persa Farid ud-Din Attar. Talvez fosse previsível que alguém associasse a Princesinha à Zoraida do capítulo XL, da primeira parte do Quixote.

“A antiguidade clássica guarda silêncio ao seu respeito. Platão não a menciona em suas obras, o que induz a não poucos helenistas apressados a adjudicá-la, de forma pueril, ao culto de Eros. Outros, não menos anacrônicos, optam por oferenda-la a Dionísio. Deve atribuir-se isto à sua tendência a pousar sobre as mesas na posição de flor de lótus? A imobilidade, contudo, não é sua característica principal.

“Um velho mendigo a quem consultamos, interrompe seu zazen para sussurrar,  olhando para os lados, que, ‘devido às suas minúsculas proporções e aos seus passos miúdos, quando surge no crepúsculo dos corredores dos teatros pode ser confundida com um castorzinho assustado. E ainda: ‘Recomenda-se ceder-lhe a passagem desviando os olhos, sua mirada tem poderes ígneos’.

“Os chineses a admitem como justa equivalência do atroz monstro Aqueronte, avistado apenas uma vez, no século XII, por Túndalo, jovem e dissoluto cavaleiro irlandês.

“Para os tcharooas personifica Oolan-Naooëv, a lua nova de sirënev (sexta-feira). Nessas ocasiões, genuflexos, entoam poemas para sua natureza úmida no leito do Cunaimama, pois o que está acima está embaixo, acreditam. Porém, se a divindade mostra a face na sétima noite (Oolan-Naël, a jornada vermelha das semanas de treze dias), seu sacerdote empreende o Caminho do Norte pela margem direita do rio. Solitário, chora ou canta em silêncio.”

Os bandidos que ninguém anda “pacificando” – por alceu sperança /cascavel.pr

Se alguém sujar a água da sua caixa-reservatório estará cometendo um crime,

não é? Um crime contra você e sua família.

Se alguém fizer fogueiras ao redor de sua casa, estará sujando o ar que você, sua família e seus vizinhos respiram. Não é um crime?

Deveria ser. Mas no Brasil estragar a água, a terra, o ar, a natureza para ganhar dinheiro e lucrar com a destruição, em prejuízo da natureza e das pessoas, não é considerado crime.

Não deveria ser? Parece tão claro isso, tão claro que é crime estragar a natureza, que não pensamos na verdade: os interesses egoístas, para não ter obstáculos à sua ação predatória, deram um jeito de destruir sem que essa destruição seja considerada crime.

O advogado criminalista Guilherme Nostre, em sua tese de doutorado “Direito Penal das Águas”, para a Faculdade de Direito da USP, pergunta por que não existe no Brasil uma lei que considere crime sujar a água.

Os donos de terra foram tão espertos que só se considera crime a água poluída se ela leva animais (seres humanos também) à morte.

Se não provar que foi a água que matou, enterra o falecido e tudo fica do mesmo jeito.

Um crime perfeito, não?

Mas não existe crime perfeito. Sujar a água é um crime, uma indecência, um desrespeito à vida.

Existe uma planta no Cerrado brasileiro que limpa o solo contaminado com metais pesados. Esses metais, que provocam terríveis prejuízos à saúde humana e ao equilíbrio da natureza, ficam escondidos nos descartes de produtos industriais.

A planta milagrosa, cujo nome científico é Galianthe grandifolia, pertence à família do nosso conhecido café.

Ela foi definida como uma faxineira de metais pesados no ambiente por uma tese de doutorado elaborada pela pesquisadora Divina Vilhalva, do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas,

Essa planta é a primeira conhecida que absorve grandes quantidades de cádmio, um metal muito perigoso para a vida, encontrado em baterias de telefones celulares e pilhas. Se ele contaminar o corpo humano, vai causar doenças renais, enfisemas pulmonares, osteoporose e vários tipos de câncer.

A descoberta da função de faxineira de metais pesados por parte dessa planta é da maior importância.

Hoje, os processos de fitorremediação – ou seja, a descontaminação do solo com plantas – são realizados, na maioria das vezes, com plantas geneticamente modificadas originárias de outros países.

Por aí percebemos que a natureza, quando consegue, encontra em si mesma os remédios para os nossos males.

Mas para isso precisamos estudá-la melhor e favorecer a ação dos vegetais capazes de fazer a faxina daquilo que sujamos sem pensar ou, no caso dos capitalistas gananciosos, de caso criminosamente pensado.

O que mais precisamos, no entanto, é deixar de causar danos à natureza para que ela depois tenha que se virar sozinha para resolver.

CINEASTA OLIVER STONE: “Não há democracia nos EUA, mesmo com Obama”

DA FRANCE PRESSE, EM ARGEL

 

O cineasta americano Oliver Stone, 65, declarou neste sábado, em Argel, Argélia, que os Estados Unidos não vivem na democracia, mesmo sob a presidência de Barack Obama, eleito em 2008, e criticou Wall Street, a atitude bélica americana e a indiferença de seus compatriotas com relação ao resto do mundo.

Em entrevista coletiva em francês, intercalada por algumas expressões em inglês, Stone, cuja mãe é francesa, disse que os “indignados” americanos que protestam contra Wall Street deveriam deslocar seu movimento de protesto contra o sistema financeiro “a Washington e não a Nova York, para ter maior impacto”.

Segundo o diretor de filmes como “Wall Street, poder e cobiça” (1987) e “Wall Street: o dinheiro nunca dorme” (2010), é assim que as pressões sobre os políticos para sanear o sistema financeiro serão “eficazes”.

Francisco Guasco – 12.nov.2011/Efe
Oliver Stone criticou os americanos em entrevista
Oliver Stone criticou os americanos em entrevista

O cineasta, cujo pai é um ex-operador financeiro de Wall Street, foi convidado ao festival de cinema autoral de Argel, que começa no próximo dia 29. Ele se disse “consternado de ver como o dinheiro é venerado pelos americanos” e com os efeitos da crise econômica.

“A classe média (americana) é a primeira vítima, mas nada consegue mexer com o sistema” americano, ao qual qualificou de “não-democrático, mesmo depois da chegada de Obama” ao poder.

O cineasta denunciou “30 anos de mentiras” contadas nos Estados Unidos, e mencionou a guerra do Vietnã, que o inspirou a dirigir “Platoon” (1986). Segundo ele, os americanos viveram com a ideia de que “o comunismo vai dominar o mundo”, enquanto ele caiu em 1989.

Interrogado sobre o apoio americano a Israel, Stone afirmou que “não se pode falar disso nos Estados Unidos. Há um poder tal, o dinheiro, a imprensa e o lobby são tais que os fatos, a verdade, não aparece”, disse.

Stone julgou seus compatriotas com severidade.

“Os americanos não estão tão interessados nos problemas do exterior”, disse. “Não têm empatia por eles”, acrescentou.

José Sarney parte para o ataque – entrevista ao congresso em foco / brasilia.df.br

Para o presidente do Senado, oposição não tem proposta nem discurso, partidos viraram “cartórios que registram candidatos” e Congresso perdeu a legitimidade

Sarney brinca com as críticas seguidas que recebe: “Virou moda bater no Sarney” – Paulo Negreiros

Aos 81 anos, o ex-presidente da República e atual presidente do Senado e do Congresso Nacional, José Sarney (PMDB-AP), não é homem de passar recibo. Destratado por um coro de 100 mil vozes no Rock in Rio, saiu-se com esta: “A contestação está no DNA do rock”.

Sarney sobreviveu a tudo. À crise dos atos secretos, a denúncias de problemas administrativos no Senado e à repercussão causada pelo envolvimento do seu filho Fernando em uma investigação da Polícia Federal. Alheio à pressão popular, o Senado, que na legislatura anterior havia arquivado as denúncias feitas contra ele, no início deste ano o reconduziu à presidência.

Nada mais parece abalar Sarney. Ele diz estar acostumado a apanhar. “É bom bater no Sarney”, ironiza. Fala em aguardar o julgamento da história. Mas o homem que cultiva a fama de conciliador também sabe atirar.

Ao receber em seu gabinete a Revista Congresso em Foco, para a qual esta entrevista foi feita originalmente, disparou contra a oposição, os partidos políticos e o próprio Legislativo. Leia aqui a íntegra da entrevista.

Congresso em Foco – Nesses seus quase 60 anos de vida política, qual foi o setor, na sua opinião, em que o Brasil mais avançou e qual aquele em que ainda há maiores dificuldades a serem superadas?
José Sarney –
 Se fizermos uma análise na história do Brasil, chegaremos à conclusão de que o Brasil é um país que sempre deu certo. Saímos da independência sem nenhuma luta, ao contrário do que ocorreu na América Espanhola. A república – um golpe militar a que o povo assistiu bestificado, como disse Aristides Lobo – também se instaura sob o poder civil. Ruy Barbosa, o grande civilista, estabelece a nova Constituição, moldada na americana. Os próprios militares estavam submetidos e querendo instaurar um regime democrático e de liberdades públicas. Por isso o Brasil deu certo. Dentro do Congresso se fez o país. Não foi em batalhas. Saímos dos barões do café, entramos nos bacharéis. A partir de então, tivemos quase todas as classes representadas no poder. Chegamos ao fim do primeiro século da República tendo um operário no poder e depois uma mulher na presidência, uma mudança de gênero, o que é extraordinário. Hoje somos a quinta economia do mundo. Como tivemos tempos dourados dos Estados Unidos, da Europa e dos tigres asiáticos, hoje a África e a América do Sul estão despertando. Não temos motivos para pessimismo. Estamos no caminho de crescimento constante. Até censuramos nosso excesso de leis. Estive na França uns cinco anos atrás, criticava-se o fato de terem votado durante a Assembleia Nacional 23 leis. No Brasil temos mais de 350 mil leis.

Essa espécie de fúria legiferante é o maior defeito do Congresso?
Criou-se a mentalidade de que tudo se resolve com uma lei. Ela vem para assegurar direitos e quase que costumes. Mas há um fato mais importante. Como a Constituição de 1988, colocaram funções do Congresso no Executivo, e do Executivo no Congresso. O Executivo passou a ser o maior legislador do Brasil. Essa deformação vem da Constituição de 1988.

O senhor mantém a opinião de que o Brasil é um país ingovernável?
Logo que assumi a Presidência da República, poucos meses depois, convoquei a Constituinte. Minha visão era de abrir imediatamente todos os espaços para que as forças vindas da clandestinidade tivessem espaço para exercer, dentro da democracia, seu desejo de participação. Precisávamos atualizar o Brasil em matéria de direitos sociais porque nossas constituições tinham sempre predominância da visão econômica. O Brasil precisava se modernizar também em relação a direitos sociais e civis, porque vínhamos de um regime autoritário. Esses dois capítulos são excepcionais, tanto que devemos a eles o mais longo período de tranquilidade institucional. Como a Constituição é híbrida, ela transformou o país em ingovernável. Tem se mantido a governabilidade à custa do sentimento de unidade e conciliação que o Brasil sempre teve.

Ingovernável por quê?
O Congresso está, de certo modo, com suas funções deformadas pelas medidas provisórias. A iniciativa legislativa passou a ser do Executivo, que comanda o processo legislativo. O Congresso perdeu o poder de criatividade, em que se aprofunda a democracia. Quem toma conta da pauta do Legislativo é o Executivo. Por outro lado, o Legislativo chega e assimila ações que eram do Executivo. Culpo muito esse sistema ao fato de o Congresso ter se desviado de suas funções e, ao mesmo tempo, perdido força, substância e prestígio perante o poder público. Votamos coisas que não deveríamos votar. Organização e criação de cargos, remanejamento de créditos, coisas da administração diária que passam a ser obrigatoriamente vindas do Executivo. Até a fixação do salário mínimo. Durante toda a vida, o presidente fazia um decreto com o novo salário mínimo. Agora temos de fazer uma lei todo ano. Passamos um mês ou dois aqui no Congresso discutindo o assunto.

Por isso o Congresso tem uma imagem tão desgastada?
Isso é um fenômeno mundial. É a crise da democracia representativa. Ela está no mundo inteiro. No Brasil, o Congresso tem 38% de aprovação. O Congresso do Chile está com 23% de aprovação e o dos Estados Unidos, com 27%. Isso é um fenômeno que enfrenta a democracia representativa. Ela foi instituída para que os eleitos representassem o povo, num prazo certo, em eleições periódicas. Mas as novas tecnologias fizeram com que a vontade do povo se expressasse em tempo real. A substituição que houve é saber quem representa o povo. É um Congresso eleito de quatro em quatro anos e que envelhece rapidamente diante da velocidade dos fatos ou aqueles que falam diariamente em nome da opinião pública? Esse é o grande choque da crise da democracia representativa. É um outro mundo, que não corresponde àquele em que se criou a democracia representativa, ainda no tempo da carta do rei João na Inglaterra. Outro dia até fui mal interpretado. Analisando isso, eu disse que, quando os Congressos foram feitos, deram aos parlamentares ainda na Inglaterra prerrogativas para que eles não fossem objeto de dependência do rei. Para isso, havia algumas garantias chamadas de prerrogativas. Quando a gente analisa isso, interpretam como se estivéssemos falando das vantagens que os parlamentares têm. Falo isso do ponto de vista teórico, de quem estudou a história da construção da democracia representativa.

 

“Estamos marchando para a democracia direta”, acredita Sarney, ao associar a velocidade das redes sociais à crise do Legislativo – Paulo Negreiros

Como superar essa crise?
Estamos marchando para um tipo de democracia direta. Hoje, 30 dias depois da eleição, o eleitor já não sabe por que votou em determinada pessoa, nem o eleito sabe por que foi votado. Desapareceram os programas e as ideologias. Ficou uma atividade pragmática do dia da eleição. O Congresso foi ficando um poder – que hoje já se pensa que ele é anacrônico – que não representa nada. Mas é muito melhor você viver com um Congresso dessa natureza do que viver sem nenhum Congresso.

Muitos brasileiros canalizam contra o Congresso o incômodo causado hoje no Brasil por temas como corrupção e falta de serviços públicos de qualidade. É visão errada dessas pessoas ou há falhas graves no Congresso e nos políticos?
É muito compreensível que as pessoas tenham visão crítica e insatisfação, embora as pesquisas apontem grau de satisfação do povo brasileiro bastante alto em relação ao país. Acreditava-se, até a queda do mundo de Berlim, que através da utopia você podia mudar o mundo. E isso criou sociedades muito questionadoras no mundo inteiro. Não é um fenômeno brasileiro, até aqui é menor, por exemplo, se compararmos com o movimento dos indignados na Europa e nos Estados Unidos. Eles têm uma insatisfação pessoal muito grande e isso também se reflete sobre o Congresso. Por quê? Por que o Congresso é o coração da democracia. É onde o povo tem a oportunidade de falar, protestar e opinar. O que moveu a política do mundo inteiro foi a utopia. E, de repente, percebemos que a ciência e a tecnologia foram capazes de fazer muito mais que do que fizemos todos nós com as ideias políticas ao longo do século. Por exemplo, o Alexander Fleming, que descobriu a penicilina, fez de bom para o povo e para o mundo muito mais que qualquer ideologia política. Agora, a vontade do homem de cometer desvios vem desde o princípio do mundo. A corrupção está no âmago das ideias políticas do mundo ocidental, até como desqualificadora dos adversários. Acredito que o Brasil hoje seja menos corrupto do que foi no passado. E é mais corrupto do que será no futuro, porque no futuro ele será bem melhor.

Por que o PT se tornou tão forte no Brasil? Até que ponto vai essa força?
O Lula desencadeou um processo da ascensão dos operários ao poder. A partir daí ele representa uma ideia-força que é extraordinária, porque ele levou a classe operária ao poder. Com ele, a sociedade brasileira passou a ser menos injusta. A liderança de Lula não é horizontal como as outras, que com um vento caem. Sua liderança é vertical, não é qualquer ventania que pode destruí-la.

O senhor quer dizer que a força não é do PT, mas do Lula?
A história sempre se conduz de um homem, de um grande líder, algumas ideias básicas. E o Lula é justamente a síntese dessas ideias, que ele representa pessoalmente. Ele passou de um homem a símbolo desse processo.

E há algo que as oposições pudessem ter feito na história recente do país, ou que possam fazer hoje pra contrapor a essa enorme força?
Em princípio, acho que a oposição perdeu ideias. Ela não tem propostas. Qual é a proposta da oposição pra isso? Ela adotou o discurso “nós somos responsáveis por tudo isso”. Ora, isso não cabe na cabeça de ninguém, porque a legitimidade do Lula é de ser operário. Como é que uma área nascida da elite paulista pode dizer que ela é que representa essas idéias? É uma coisa que não pega. A mudança de gênero, com Dilma, também é um avanço. Dilma é uma continuidade sem continuísmo, embora ela também represente essas ideias.

Esse discurso da oposição de que o PT se apropriou de seu programa não pega por que a ideia é falsa, ou não pega por que a população não acredita?
Isso é falso, não existe. O Lula é resultado de um processo histórico, que vem da República até aqui. Não há a mesma coisa em relação à oposição. A oposição existe e deve existir, porque a pior coisa seria uma sociedade unânime. Nós temos uma oposição com nomes brilhantes, ativos, mas falta proposta, uma ideia-chave que seja a motriz desse processo.

A oposição tem condições de reverter esse processo até as próximas eleições presidenciais daqui a três anos?
Acho que não. Num horizonte médio, enquanto não se esgotar esse processo de participação do social como principal na nossa forma de governo, o Lula, com esse conjunto de forças que se agregaram a ele, ainda tem tempo. Não vejo um horizonte de perda de substância disso. Essa aliança em torno de Lula vai ter futuro ainda durante muito tempo. Ela pode ter defecções, mas a linha básica será mantida.

Não há espaço nem mesmo para outros partidos hoje aliados ao PT?
Todo partido tem forças de direita, de centro e de esquerda. Lula é um grande político, não só representou uma ideia. Se fosse só uma ideia, ele seria combatido. Como grande político, reuniu toda a sociedade, um segmento que estava em torno também desse mesmo processo.

 

O senhor acha que o PSD pode virar um novo PMDB, ou seja, um partido com muitas lideranças regionais fortes, mas sem uma uniformidade ideológica, programática?
Enquanto tivermos o voto proporcional uninominal, não teremos partidos políticos. No caso do Brasil, não existe partido, porque o inimigo está dentro da legenda. O candidato tem de vencer não é o adversário, mas o seu companheiro de partido para se eleger. Não tendo partidos, as pessoas passaram a ficar desconfortáveis nessas agremiações, que não são partidos. São cartórios que reúnem políticos e registram candidatos nas vésperas das eleições. Muita gente estava insatisfeita e agora apareceu uma janela e todo mundo pulou fora.

O senhor acredita que a reforma política sairá?
A reforma política é muito difícil. Luto por ela há mais de 40 anos. Apresentei, em 1971, o primeiro projeto instituindo o voto distrital. Mas a verdade é que o Congresso, por viver tantos anos sob determinadas regras, tem receio de mudá-las. Os parlamentares receiam perder as eleições.

O senhor diria que a solução pra esse problema da falta de identidade dos partidos seria o voto distrital, seria lista fechada?
Não podemos inventar a roda. O sistema político no mundo inteiro é feito à base do voto distrital, puro ou misto. Só existe no Brasil o voto proporcional ou uninominal. Na Finlândia também existe, mas é uma coisa diferente, porque é um voto proporcional dentro do próprio partido. Não podemos inventar que vamos ser o único país do mundo a descobrir um sistema de governo baseado no voto proporcional. Temos de fazer o voto distrital, o distrital misto.

O senhor concorda com o financiamento público?
É um grande avanço, embora eu não acredite que o financiamento público evite a participação do poder econômico, que sempre vai influir em todas as eleições em todos os lugares do mundo. Essa bagunça que existe aí, da empresa privada contribuir para as eleições, não é uma forma que tenha dado certo, porque obriga os políticos a serem pedintes, que vão com uma sacola na mão. São 500 mil candidatos atrás de recurso para fazer eleição.

Qual o legado que o senhor acredita que deixará nas suas gestões à frente do Senado?
Minha participação dentro do Senado sempre foi procurando buscar a modernidade. Levantei a ideia da informatização em 1972. Forcei naquela época para que fosse criada uma comissão da qual saiu o Prodasen. Depois, quando fui presidente da Casa, a minha primeira providência foi justamente a de dar transparência para ajudar o povo brasileiro a acompanhar mais. Montei todo um sistema de informatização do Congresso, com televisão, rádio e agências de notícias. Fiz naquela vez a primeira reforma administrativa. Na segunda também procurei fazer a reforma administrativa. Acho que o Senado é muito mais enxuto, melhorou bastante. Agora estamos trabalhando numa outra etapa de futuro, que é justamente de gestão de programas estratégicos. Não devemos esquecer que, pela própria singularidade da máquina administrativa do Congresso, temos 81 repartições periféricas da administração central, que são os gabinetes dos senadores. Eles têm independência para nomear, admitir e administrar.

Na área legislativa, o que o senhor acha que deixa de mais importante?
Primeiro, a reformulação dos nossos códigos, que também é uma ideia de modernidade. Nós estabelecemos comissões com juristas. Já saímos com o Código Civil e  o Código de Processo Penal. Estamos trabalhando no Código de Defesa do Consumidor, que está terminando agora. Vamos partir para a Lei das Execuções Penais, que é uma coisa que o Brasil está devendo. Nosso sistema penitenciário é uma coisa trágica. Minha ideia é constituir uma comissão de grandes experts para analisar a federação. Hoje a federação é uma ficção e uma palavra dentro da Constituição, mas na realidade ela não está estruturada em termos modernos.

Há temas que estão sendo debatidos há muito tempo, mas sempre com dificuldade para se chegar a um desfecho. O senhor acredita que se avance, por exemplo, na reforma tributária este ano?
A reforma tributária é uma necessidade, porque realmente temos um verdadeiro pandemônio na legislação fiscal, com a superposição de atribuições. E, para fazer uma reforma fiscal, temos de mexer com grandes interesses. É uma reforma de difícil formulação.

O senhor não acredita que se consiga avançar nessa área? 
Acredito que se possa avançar pouco a pouco em partes tópicas. Por exemplo, estamos com uma lei que mexe no ICMS sendo votada. Também estamos discutindo certa redistribuição de renda entre os estados, aproveitando o problema dos royalties do petróleo. São alguns avanços.

Muitos críticos do senhor fazem referência ao fato de seu grupo político exercer um longo domínio no estado do Maranhão, e aquele estado não ter se desenvolvido nesse período tanto quanto outros. Como o senhor enfrenta essa crítica?
De certo modo, essa crítica é nova.  Passou a existir depois que perdemos a eleição no Maranhão. Uma maneira de desqualificar a minha participação na vida pública nacional era desqualificar o estado. Então venderam ao Brasil essa ideia de que o Maranhão é um estado miserável, quando na realidade o IBGE tem 3 mil índices. Nós temos alguns índices que são péssimos, também os outros estados têm índices péssimos. Mas quero dizer que o Maranhão é o 16º estado do Brasil em PIB [Produto Interno Bruto], está na frente do Mato Grosso. Fala-se que o IDH [Índice de Desenvolvimento Humano] do Maranhão é baixo. É realmente baixo, muito baixo. Agora, o Brasil é a 7º economia do mundo. E qual a posição dele no IDH? Está na 81ª posição. Nem por isso se vai dizer que o Brasil é um país miserável. O Maranhão, pelo contrário, é um estado que hoje tem as maiores possibilidades naquela região. A infraestrutura que nós criamos no Maranhão é a melhor dos estados do Nordeste. Tiramos ele do século XIX. Esse foi um processo político que foi assimilado pela grande mídia porque é bom bater no Sarney, dá visibilidade isso, pela minha longa vida política, em que sempre atuei como um conciliador nos momentos mais difíceis da história do Brasil. Fui um homem que procurou ajudar o país na transição democrática, o colar social dentro da Constituição foi feito por mim. Sempre procurei influenciar essa visão social e solucionar crises. Minhas escolhas aqui dentro da Casa também têm sido neste sentido, do homem  tranquilo, do homem prudente, do homem paciente.

Que imagem o senhor acredita que o brasileiro, de maneira geral, tem do senhor?
Não sou a pessoa certa pra julgar. A história é que vai me julgar. No contingente, cada um de nós sofre os problemas diários. Como não se pode falar mal do Lula, porque o Lula já não está presente, não se pode falar mal da Dilma, porque é a nossa presidente, restou Sarney para ser o ponto de crítica nacional.

Teve algum momento em que o senhor ficou particularmente indignado ou particularmente atingido por críticas ao longo desses quase 60 anos de vida pública?
Na Presidência da República, sofri um combate muito grande. No meu discurso de saída, fiz uma avaliação em que digo que o tempo corrige até as críticas mais violentas feitas. Todos os excessos são corrigidos. Quando leio a história do Brasil, vejo a proporção que ela vai construindo e a possibilidade que a pessoa tem dentro da sua vida política. Também me vejo assim. Um dia o Chico Caruso me perguntou como eu via as charges dele. Respondi: como se eu fosse uma terceira pessoa.

O senhor acredita que sua imagem como homem público será revista no futuro?
Não tenho dúvida de que serei julgado pelo que fiz e não pelo que não fiz. Eu gosto de um verso do Miguel Torga, sobre o Afonso de Albuquerque, que foi vice-rei das Índias. “Do que fiz e do que não fiz, não cuido agora; as Índias todas falarão por mim.”

 

POR SYLVIO COSTA E EDSON SARDINHA

O rumo do meu barco – de jamil snege / curitiba.pr

Já inspecionei a proa,
amarrei a carga,
desatei a vela.
O vento sopra forte e
enfuna meu coração
de alegria.
Agora é contigo, Senhor.
Toma o leme e risca
o rumo do meu barco – não
penses que irei por
este mar sozinho.

LUIS FERNANDO VERÍSSIMO: “Penso em parar de escrever” – por ana rita martins / porto alegre.rs

Aos 75 anos de idade, o escritor Luis Fernando Verissimo diminui o ritmo e diz que está mais para depressivo que para bem humorado

 

O escritor Luis Fernando Verissimo é famoso por seus textos de humor e pelas sátiras de costumes que publica em jornais de grande circulação. Comédias da Vida Privada, uma antologia de crônicas engraçadíssimas, publicada em 1994, por exemplo, virou, inclusive, uma série da TV Globo em 1995. Por causa desse talento em fazer rir, fica difícil acreditar quando o próprio autor afirma que não tem vocação humorística. “O que eu tenho é a técnica para escrever textos divertidos”, diz. “Mas meu jeito de ver as coisas está mais para depressivo”, completa. De fato, esse lado do escritor não aparece em suas obras (são 500 mil exemplares vendidos no país).

Seu último livro, Em algum lugar do paraíso, é composto por 41 crônicas, a maioria delas publicadas nos últimos cinco anos, no Jornal Estado de São Paulo. Verissimo, aliás, vem diminuindo o ritmo de sua produção. Reduziu, já há alguns anos, o número de jornais para os quais escreve – se antes, chegou a publicar em dez periódicos, hoje concentra-se em três: O Globo, O Estado de São Paulo e Zero Hora. E pensa, inclusive, em se aposentar. “Penso em parar de escrever. O problema é que o dinheiro que ganho com os direitos autorais dos livros não é o suficiente para garantir minhas contas”, diz.

Os leitores, aliás, já podem notar sua ausência em eventos literários. “Vou a lançamentos mais por causa da editora. Não é por prazer, pois sou caseiro e evito badalações”, conta. E de onde vem então a inspiração para os textos se ele tem se mantido mais reservado? “Às vezes de um filme ou de uma música”, diz. “Aliás, eu preferiria ser músico a escritor”, revela. “Mas como eu escrevo melhor do que toco saxofone, vamos deixar as coisas como estão”, completa. Na casa do escritor, num porão de pedra, há vários instrumentos.

Curiosamente, apesar da paixão pelo jazz, não há sequer uma crônica em sua nova obra cujo tema seja a música. No livro Em algum lugar do paraíso, o autor repete a fórmula já consagrada em suas outras publicações, ou seja, a de abordar situações cotidianas e colocar personagens históricos em circunstâncias hilárias.

Vem dessa última abordagem um dos textos mais inspirados da obra. Em Cafarnaum fala do encontro entre Guizael – dono de uma taberna – e um homem capaz de multiplicar peixes e pães e transformar água em vinho. A história – contada em linguagem textual similar à bíblica – desenvolve-se quando Guizael tenta convencer o homem a fazer uma parceria financeira com ele.

Verissimo não se importa com a clara alusão a Jesus, que poderia gerar mal estar entre os leitores religiosos. “O politicamente correto limita o humorista”, fala. E diz mais: “Eu não me coloco rédeas quando estou escrevendo”.

Outro destaque é Microfone Escondido, em que o casal Leonor e Ataíde resolve esconder um aparelho desses no elevador do prédio só para descobrir o que os amigos pensam deles. Toda vez que fazem um jantar para um casal de convivas há uma nova descoberta, revelada pelo microfone antes destes chegarem ao apartamento ou quando estão descendo o elevador rumo à rua. O resultado é um sucessão de confusões e mágoas, temperada pelas construções simples (mas não simplistas) e certeiras do escritor.

Por meio do humor, o autor acaba desvelando as idiossincrasias humanas. Em Pato Donald, Sérgio e Dulce, casados há 25 anos, reveem suas vidas quando o homem conta que, apesar de ter rido a vida inteira das piadas do personagem norte-americano, admite que nunca entendeu patavinas do que este falava. A confissão ganha, então, ares de crise existencial. E, enquanto discutem, Dulce fica preocupada porque o zíper do vestido que sempre lhe coube está difícil de fechar.

Outro exemplo interessante de narrativa é Versões. No texto, um homem entra num bar e começa a imaginar o que teria sido de sua vida se ele tivesse feito um teste para jogar no Botafogo. De repente, lhe surge ao lado, uma versão de si mesmo que fez o tal teste. As perguntas se multiplicam e, consequentemente, mais versões dele aparecem.

Nessa crônica, Verissimo toca num de seus assuntos mais caros, o futebol. Torcedor do Internacional e da seleção, ele se preocupa com a Copa de 2014 no Brasil. “Espero que as obras fiquem prontas a tempo”, diz. E fala que irá aos jogos. Até lá, terá 78 anos. Vale torcer para o pique se estenda também a escrita. Ou a literatura ficará órfã do depressivo mais bem humorado de que se tem notícia.

ONU pede julgamento de violadores dos direitos humanos no Brasil / brasilia.br

France Presse

Alta comissária saudou a sanção da lei da Comissão da Verdade.

Mas disse que medida deveria incluir a revogação da Lei de Anistia.

Do G1, com AFP

A alta comissária dos Direitos Humanos da ONU, Navi Pillay, pediu nesta sexta-feira (18) “medidas adicionais para facilitar o julgamento dos supostos responsáveis por violações dos direitos humanos” durante a ditadura militar que governou o Brasil entre 1964 e 1985.

Pillay saudou a sanção pela presidente Dilma Rousseff, nesta sexta-feira, de uma comissão para investigar os crimes cometidos durante os governos militares, mas afirmou que essa medida “deveria incluir a promulgação de uma nova legislação para revogar a Lei de Anistia de 1979 ou para declará-la inaplicável por impedir a investigação e levar à impunidade (…) em desrespeito à legislação internacional de direitos humanos”.

Em comunicado, Pillay lembrou que começou a defender a necessidade dessa comissão em 2009, quando fez visita oficial ao Brasil.

“Eles e suas famílias estão esperando compensação pelas violações que sofreram por mais de quatro décadas, e têm direito a ver a justiça sendo feita”, disse Pillay sobre as vítimas da ditadura. “Além de iluminar a verdade sobre incidentes particulares, essas comissões investigam o padrão das violações no passado, suas causas e consequências.”

Ela acrescentou que o trabalho da comissão deve ajudar os brasileiros a entender e reconhecer sua própria história, que, até agora segundo ela, foi frequentemente contestada ou negada.

“Comissões da verdade também buscam evitar novos abusos, fazendo recomendações específicas sobre reformas institucionais e políticas públicas”, disse.

A presidente Dilma discursa em cerimônia de sanção da lei da Comissão da Verdade (Foto: Roberto Stuckert / Presidência)A presidente Dilma discursa em cerimônia de sanção da lei da Comissão da Verdade (Foto: Roberto Stuckert / Presidência)

Comissão
A Comissão da Verdade irá apurar violações aos direitos humanos entre 1946 e 1988 – período que inclui a ditadura militar – e terá dois anos para produzir um relatório com conclusões e recomendações sobre os crimes cometidos.

A Lei de Acesso à Informação acaba com o sigilo eterno de documentos públicos e estabelece prazo máximo de 50 anos para que as informações classificadas pelo governo como ultrassecretas sejam mantidas em segredo.

AI WEIWEI: China investiga dissidente por pornografia on-line / pequim.ch

China investiga dissidente Ai Weiwei por pornografia on-line

 

 DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

 

O artista chinês Ai Weiwei afirmou nesta sexta-feira que foi iniciada uma investigação por parte das autoridades chinesas sobre acusações de que ele teria ajudado a divulgar pornografia na internet. As novas suspeitas recaem sobre o dissidente após semanas de campanha contra uma multa milionária que o regime quer que ele pague.

Segundo Ai, policiais convocaram o cinegrafista Zhao Zhao, um dos assistentes do artista, para interrogatórios na quinta-feira. Ele foi questionado sobre fotos artísticas que tirou de Ai e quatro mulheres, nas quais todos apareciam pelados. A obra foi intitulada “Um tigre, oito seios”, em tradução livre.

As investigações parecem reacender uma acusação levantada contra o dissidente quando ele foi detido em abril. Havia relatos de que ele era investigado por evasão fiscal, bigamia e divulgação de pornografia on-line.

“Se eles entendem nudez como pornografia, então a China ainda está na dinastia Qing (1644-1911)”, disse Ai. As autoridades chinesas não se manifestaram sobre o assunto.

Zhao contou que policiais lhe disseram que procurariam acusações contra ele por conta das imagens caso elas fossem amplamente divulgadas por considera-las obscenas. Ele afirmou acreditar que as investigações fazem parte da empreitada chinesa em difamar Ai e calar suas críticas ao regime.

Ai Weiwei/France Presse
Fotografia mostra Ai Weiwei sem roupa com quatro mulheres; China investiga artista por pornografia
Fotografia mostra Ai Weiwei sem roupa com quatro mulheres; China investiga artista por pornografia

O artista, de 54 anos e famoso por seu trabalho “Ninho de Pássaro”, no Estádio Olímpico de Pequim, ficou preso sem acusação formal durante 81 dias este ano, medida que provocou críticas de governos ocidentais. Ele foi libertado em junho, após firmar um acordo –que já desrespeitou desde então– de que pararia com as críticas.

Nas últimas semanas, as autoridades chinesas estão cobrando dele uma quantia de 15 milhões de yuans (US$ 2,4 milhões) por suposta evasão fiscal. Ai teve que pagar quase metade desse valor como garantia para poder recorrer da multa.

Simpatizantes vêm fazendo doações ao dissidente. Na segunda-feira, uma voluntária da campanha de arrecadação, Liu Yanping, informou que receberam US$ 1,04 milhão para ajudar a pagar a multa que vence em 15 de novembro.

Ao todo, 24.130 pessoas enviaram quantias, tanto pelo Alipay, um sistema de pagamento on-line, quanto pelo cartão bancário, segundo Liu.

Andy Wong/Associated Press
Artista dissidente chinês Ai Weiwei chega a escritório para pagar garantia contra multa fiscal
Artista dissidente chinês Ai Weiwei chega a escritório para pagar garantia contra multa fiscal


DANTE MENDONÇA: “Nosso novo cidadão” – por adherbal fortes de sá júnior


O título é redundante.

Ninguém é mais curitibano que o Dante, co-fundador do verdadeiro Carnaval Curitibano, sócio atleta do Bar Botafogo e do Ao Distinto Cavalheiro, sem falar no apoio que nunca negou à feijoada do Bar do Pascoale.

Mas o bordão latino determina: quod abundat non nocet, o que abunda não prejudica.

Então ta. As abundâncias são o principal assunto do livro que Dante Mendonça acaba de concluir e está mostrando a alguns amigos.

Finalmente temos uma extensa, confiável e bem humorada pesquisa sobre a cidade, em seus três séculos de libidinagem. De dia e de noite.

Com o título de Maria Batalhão – Memórias Póstumas de uma Senhora Cafetina, o livro acompanha os passos de uma Messalina de dois continentes atravessando a cidade, do Beco do Inferno, atual Travessa Tobias de Macedo, às casas do Parolin, passando pelas bocas da Cabral e pela famosa Casa da Uda.

O romance é uma história sociológica e picaresca da Curitiba, percorrida por Saint-Hilaire e Debret, habitada por Dalton Trevisan, Wilson Martins e Poty Lazzarotto. E também da Curitiba de hoje, porque a Casa da Mile é recente, o Morguenau está lá, o Operario ganhou sobrevida.

E sobram pelas ruas senhores capazes de testemunhar sobre famosas profissionais do sexo que habitaram Curitiba e foram colegas de sua personagem Maria Batalhão. Desde Maria Sem Calça até Avila Quadros, dona de estabelecimento no Parolin e prima do ex-presidente Janio Quadros.

Dante especula sobre os Anais da Mirlei, dona da mal afamada chácara em Colombo. Até hoje nas mãos de um delegado, os Anais contém revelações capazes de derrubar gabinetes e abalar reputações.

Vocês verão que só esse livro justifica todas as homenagens que Dante Mendonça recebe dos vereadores. Adicione-se a isso os anos dedicados ao jornalismo no Estado do Paraná e na Tribuna do Paraná. E os trabalhos que fez pela cidade como escritor, cartunista e figura pública. O crédito é imenso.

Enfim, Dante é mais do que cidadão – é uma personalidade curitibana que merece busto na praça, nome na placa da esquina e samba enredo no próximo desfile da Banda Polaca, que ele ajudou a inventar e ainda há de ressuscitar.

o cartunista e escritor DANTE MENDONÇA com o TITULO DE CIDADÃO HONORÁRIO DE CURITIBA ao lado do ex prefeito e ex governador Jaime Lerner no dia da solenidade na Câmara de Vereadores da cidade, em 17/11/2011.

foto sem os créditos.

ENQUANTO OUÇO SEGÓVIA – por zuleika dos reis / são paulo.sp

       

O tempo em que todas as coisas já não são. O tempo em que todas as coisas estão fechadas dentro de si mesmas, elas próprias conteúdo e continente. O baú trancado do qual se perdeu a chave.

                Segóvia toca e a musica é perfume que entra pelas frestas do que fui. O tempo flor de metal mais que cristal ou sopro de vento. O tempo um calafrio entre os dedos.

                Alguns antigos sabiam de coisas que quase todos de nós perdemos há muito. Os dedos de Segóvia vão recuperando o possível disso, mas a hora é velha demais para qualquer descobrimento.

O gato tem sete fôlegos, sete vidas. Eu tenho só uma vida e nem esta é minha. O gato pisa manso, não desperdiça nada de suas sete vidas. Eu piso denso e vou perdendo cada passo da única que tenho.

Segóvia toca e o gato não compreende. Os pensamentos são as ondas de um mar inútil. A tarde também passa e desaparece todos os dias sem decifrar nada, porque não há nada a decifrar: não há qualquer fratura no cristal do tempo.

O tempo de uma vida… o que é o tempo de uma vida? Sabemos do mundo o universo de fantasmagorias chamado palavras. Nele matamos, morremos, nos perdemos do que julgamos nós mesmos, como se significasse alguma coisa perdermos isso.

Há os que meditam, há os que sempre buscaram e buscam e em todos os vindouros tempos continuarão a busca de escapatórias desta casca, desta crosta a que chamamos eu, este eu que é nada. Nomes e nomes e nomes para dizer algo desse OUTRO que buscam. Nomes e nomes e nomes para que algo deste OUTRO INDIZÍVEL INCOMUNICÁVEL seja o MESMO para os demais homens ou, pelo menos, a aspiração de cada um deles.

Segóvia para de tocar, a noite caiu há tempo, nada se quebrou nem se partiu. Tudo parece coeso onde o mundo é apenas uma infinita saudade do mundo; uma infinita e sem saída saudade de mim.

ROBERTO PRADO e sua poesia / curitiba.pr

A volta triunfal

aqui vamos fazer nossa casinha
ali a fábrica não ficará muito longe
uma escola com vista pra montanha
e o templo sem imagem nenhuma
desta vez não vamos sujar o rio
nem inventar leis desalmadas
apenas novamente simples heróis
descobrindo mundos, trocando fraldas
-.-
 
imperativo da primavera
humano, assuma o ar silvestre
época de amor conforme o calendário
flores façam tudo o que não digo
coração, aceite o eixo terrestre
ninho esta vida leve no bico
viva de brisa o papo sozinho
estações, aqueçam seu poeta
primaveras, passem com carinho
    -.-
 
 
dez mandamentos
delire na criança
não bula na flor
pense estrelas
não rele no bicho
gire o sol
não zombe do bem
sofra uma lua
não duvide do amor
acredite nos amigos
e não saia da sua
-.-
 
 
subtrações
que tal pegar tudo que temos
e deste todo fazer a grande falta
um salto que cai, uma queda que salta
essa soma assim sem mais nem menos?
por que não juntar o nosso nada
o eterno que move, o nunca que repousa
e fazer destas perdas somadas
o achado de alguma coisa?

BENETTON: Campanha causa polêmica ao mostrar líderes mundiais se beijando / italia.it

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Uma campanha publicitária lançada pela marca Benetton está causando polêmica ao exibir outdoors com fotomontagens de líderes mundiais se beijando. O objetivo da campanha –batizada da “Unhate”– seria protestar contra a “cultura do ódio”.

Entre os líderes retratados estão o presidente americano, Barack Obama, que aparece beijando o líder chinês, Hu Jintao. Em outra fotomontagem, Obama é visto dando um beijo no presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

O presidente da ANP (Autoridade Nacional Palestina) também aparece beijando o premiê israelense, Binyamin Netanyahu. A chanceler alemã, Angela Merkel, é retratada beijando o presidente francês, Nicolas Sarkozy, em outra imagem.

Já o papa Bento 16 dá um beijo em Ahmed Mohamed el Tayeb, imã da mesquita de Al Azhar no Cairo.

Veja algumas das fotomontagens:

Divulgação/Benetton
Papa Bento 16 dá um beijo em Ahmed Mohamed el Tayeb, imã da mesquita de Al Azhar no Cairo
Papa Bento 16 dá um beijo em Ahmed Mohamed el Tayeb, imã da mesquita de Al Azhar no Cairo
Divulgação/Benetton
Mahmoud Abbas, líder palestino, à esquerda, e Benjamin Netanyahu, premiê israelense
Mahmoud Abbas, líder palestino, à esquerda, e Benjamin Netanyahu, premiê israelense
Divulgação/Benetton
Chanceler alemã, Angela Merkel, e presidente francês, Nicolas Sarkozy
Chanceler alemã, Angela Merkel, e presidente francês, Nicolas Sarkozy
Divulgação/Benetton
Barack Obama, presidente americano, e Hugo Chávez, presidente da Venezuela
Barack Obama, presidente americano, e Hugo Chávez, presidente da Venezuela

O poeta e webeditor J B VIDAL é entrevistado pelo poeta JAIRO PEREIRA na Ilha de Santa Catarina.

ENTREVISTA PARA A REVISTA  ‘CLIC MAGAZINE’:

o poeta declama seus poemas na PRIMEIRA SEMANA DA POESIA PARANAENSE. CURITIBA. foto do jorn. Gustavo H. Vidal.

1. J B Vidal, a quantas anda a sua poesia, uma vez que você se dedica muito ao Site Palavras, Todas Palavras?

- Me considero um poeta que não tem compromisso com a produção em termos quantitativos, portanto, não tenho que estar criando poemas para atender as vontades do editor – que não tenho. Não sou poeta de escrever por “encomenda” ou de escrever por escrever, fazer da poesia uma maratona – quem escreve menos é mulher do padre – deste tipo de “poeta”, tu sabes bem, estão cheios o país e o mundo. Respondendo, então, a tua pergunta – que coisa horrível – a minha produção poética está onde deve estar, na placa mãe, na quantidade diretamente ligada às minhas emoções, sentimentos, racionalismos e devaneios que realmente vivi nem que tenha sido por segundos de medo e continuo a  escrever quando dessas ocorrências. O  site, você é um dos responsáveis pela criação, tornou-se um espaço onde me exteriorizo através das publicações selecionadas – sem censura- considerando conteúdo e o que pode atingir o público para retirá-lo do seu abestalhamento. Eu converso com os leitores através deles. Continuo publicando os “sem mídia”, “sem editores” e, raramente, publico, alguns dos mortos meus preferidos.

2. O Site Palavras, Todas Palavras, é um dos mais visitados do país, e publica não só poemas, contos, literatura em geral, mas também ensaios, artigos, vídeos… como foi chegar a tanto?

- Está com pouco mais de três anos e senti que precisava “abrir”- era só poesia, contos e crônicas, um que outro artigo – ampliar o leque de abrangência em termos literários e do cultural quotidiano. Os leitores começaram a exigir, e foram excelentes nas exigências. Cedi. Hoje a média é de 2.000 acessos/dia. Sem mulher pelada, sem piada sem graça, sem vender nada. Não busquei isso – acessos – veio naturalmente, através do nível cultural do nosso povo, e comprova que as pessoas querem ler e buscam ler, querem saber. Na maioria das vezes é um vôo cego, claro. Só é lamentável que eu não consiga alcançar as
suas expectativas. Dá muito trabalho realmente, mas, como disse, me comunico através da produção dos demais autores, e os comentários (mais de 5.000 até agora) são uma prova disso. Acredito que seja uma modesta contribuição a arte e a cultura brasileira – através desse mundo novo das comunicações – que, diga-se, andam numa pobreza criativa como há muito não se via. Eu visito em torno de 150 a 200 sites/blogs por semana, menos de dez por cento pode-se aproveitar alguma coisa, o resto é lixo! E pior, o lixo é que faz sucesso, ganha adeptos e multiplicadores. Deve ser sinais dos tempos rsrsrsrsrsrs a humanidade genérica sempre frequentou os lixões das prateleiras, e agora, os “aterros sanitários” da virtualidade. A intelectualidade brasileira evaporou-se com a ditadura e não conseguiu recompor-se porque é de uma mediocridade a qualquer prova, oriunda das universidades que proliferaram vendendo diplomas e contratando esses diplomados, assim segue. Hoje o grande tema em discussão é descobrir qual o melhor meio de transportar dinheiro para liberar meias e cuecas. A nossa intelectualidade não sabe dizer, ao presidente do momento, “quando” é necessário defender-se a paz ou os direitos humanos. Ela ainda não se convenceu de que é sempre. Para ela paz e direitos humanos são relativos. Ora, por favor! Como alguém, não lembro quem, já disse: “…são um bando de hienas pós-graduadas em esnobismo.” E, por força da atividade, temos de enfrentar esse lixo que roda no mundo virtual dos emails, sites, blogs e filmecos. Na literatura, então, o que dizer? O que é isso que estão publicando e premiando? Aonde querem levar o público leitor? Aonde querem levar a nossa literatura?  Há dois ou tres anos iniciei a leitura de um livro de autor brasileiro, premiadíssimo, havia ganhado todos os grandes prêmios do ano, não consegui passar das primeiras páginas, ilivel. Sucesso fabricado pelo grande “mercado editorial”. É a máfia do livro impresso. Mesmo  com toda a badalação dos críticos de aluguel, o publico não respondeu favoravelmente. Às vezes o povo reage, timidamente. Veja a ABL em que se transformou? Não opina mais sobre os grandes temas nacionais, como antes. Quando a ABL se posicionava o país parava para ouvi-la. Hoje não serve para nada. Desmoralizada e ridícula.

Se transformarem-na em um bloco carnavalesco para a terceira idade será um final feliz.

3. Os livros inéditos de poesia, do poeta J B Vidal serão publicados em livro, impressos?

-Tenho material para seis livros, bem, dependendo do número de páginas de cada volume, são em torno de 860 poemas publicáveis, sem contar outro tanto renegados a segundo plano. Os filhos que decidam rsrsrsrs, sempre disse que do ponto de vista da poesia eu nasci póstumo rsrsrsrsrs talvez publique OFERTÓRIO em vida. Uma pequena traição a eles rsrsrsrs.

4. Em Ofertório, série de poemas de livro inédito, você se joga de corpo e alma aos ímpios? Isso é provocação?

Na verdade, OFERTÓRIO é um tipo de confissão, aberta, pública. E toda confissão é provocadora em algum grau, principalmente as publicadas. Rigorosamente, eu não tenho mais aptidão para as provocações que fazia alguns anos atrás. Cansei pela falta total de resultados. Está  cheio de gente se auto proclamando poeta e escrevendo só droga, porcaria, lixo. Como não teem o talento, tentam copiar o Bukowski, o Beaudelaire, com uma desfaçatez incrível e, lógico, sem nenhuma qualidade. Só me obrigo a ler esse lixo justamente para não publicá-lo, distraidamente. -  Escrevê-lo – o OFERTÓRIO – não foi fácil. As condições subjetivas existiam – sentimentos e outras cositas – a questão é escrever a verdade sobre si próprio, é muito difícil. A vontade de omitir ou mentir é enorme. É preciso um grande esforço para que isso não ocorra. Mesmo que em determinado aspecto você não tenha nenhuma culpa, admitir isto torna-se ingênuo, babaca, aí você se tranca, não aborda, omite ou mente.  Mas enfim, consegui escrevê-lo são 12 poemas orientados pelos sentidos e alguns sentimentos. Durou quatro anos esse processo. Há muito não se lê autores com esse realismo (isto, é cabotinismo, antes que alguém pense), acham antigos, ultrapassados, mofentos,  rsrsrsrs… não sabem de nada. Para mim, foi muito bom ter escrito OFERTÓRIO, melhorei, cresci, para a poesia não sei e também não estou interessado; a poesia existirá com ou sem os meus poemas ou os desses bandos de imbecis que saem espalhando lama pela cidade chamando de poesia. Não há poesia no mal nem no inferno.

o poeta JAIRO PEREIRA  entrevista o poeta J B VIDAL em sua residência.

5. São muitos os Vidais, o poeta, o contista, o agitador cultural, num dos sites mais badalados do Brasil. É a execução de um projeto cultural, existencial… que está dando certo?

O poeta, o contista, o agitador cultural, o marido, o pai, o avô, o político, o trabalhador, enfim, entendo que tudo o que fazemos com esforço, com dedicação e vontade faz parte do topo do nosso processo existencial. Se está dando certo, não sei, acredito que sim pois já tem muita gente me odiando! rsrsrs. Meu caro amigo, não busco louros nem reconhecimentos, busco fazer a  parte que me cabe nesse mar de ausências.

6. Numa época, dá pra se dizer não-literária, onde a juventude perde-se nos links na Web, você acha que a literatura, a poesia, ainda terão futuro?

- É fato que temos futurólogos de todo tipo e para qualquer assunto, a grande maioria atletas da imaginação na busca da verdade que sequer sonham o que é e onde pode estar. Sem dúvida que a internet abriu caminhos para a democratização do saber, da informação, do conhecimento, foi a revolução da comunicação, sem dúvida, agora, daí dizer-se que a literatura, a poesia está com os dias contados é de uma mulice extraordinária; a literatura, a poesia são o que mais se lê no meio virtual! Estão aí as pesquisas informando: o que se lê na internet brasileira? Em primeiro lugar: noticias, em segundo lugar: poesia! Poesia meu caro, poesia! Ela é uma forma elevada de comunicação entre os homens, sempre existirá.

7. Essa pode lhe deixar nervoso. O Senhor é humilde na sua apreensão da vida pelos signos. Ou expande-se, ou pouco mais, quando interessa?

Você não pode viver falseando consigo mesmo, isto é autodestruição. Você é  sua vida. Fora disso não existe nada. Tudo é morto, e você não é. Portanto meu amigo, sempre tudo me interessa.

8. Há algo de novo no front, ou… a diluição e repetição de formas e conteúdos é o lugar comum?

Acredito que sempre tem alguém criando alguma coisa para benefício de todos. Acho que brevemente teremos uma grande mexida na internet em termos tecnológicos. Ela irá ao cosmos no sentido do aprimoramento da criação de conjunto.

9. O homem J B Vidal, interfere no social, buscando o literário, o crítico, ou o quê? Fale-nos sobre isso.

A minha intervenção no social é decorrente do meu quotidiano, nada tem de especial ou de objetivo porquanto não manipulo nem me deixo manipular. O literário, o critico e o “o quê” surgem no Vidal como consequência da sua interagência humana e sensível com o ser coletivo, naturalmente, sem estudos prismáticos.

o poeta declamando seus poemas no HERMES BAR. Curitiba. 2009. foto do jorn. Gustavo H. Vidal

10. O poeta J B Vidal, gosta de oralizar sua poesia, em bares… Ação poética é fundamental? Ou o poeta, deve ser o fantasma do livro impresso, aquele que não aparece?

Nem uma nem outra. Na poesia o fundamental é a poesia. Ponto final. Há quem te ofereça um tratado sobre ela como a mais cristalina das verdades. Lixo. Oralizar – declamar, para mim, – poemas em bares é muito mais prazeroso porquanto estão todos bêbados, nenhum presta atenção e todos aplaudem ao final  rsrsrsrs

OS NOVOS BEATNIKS ‘Ou um elogio à liberdade’ – por olsen jr / ilha de santa catrina

Nos finais e começos de ano, é sempre assim, há um mecanismo inconsciente que faz com que abramos a guarda. De repente ficamos dóceis, ternos, receptivos. É uma constatação que faço e isso nada tem a ver com o cristianismo, apenas com a época, uma vibração diferente. A observação é uma das ferramentas de um escritor, já a sensibilidade para captar a nuance do que é observado pode ser atributo de um poeta. Se você conseguir reunir os dois quesitos em uma pessoa só, melhor. Mas isso ocorre o ano inteiro, então por que lembrar isso apenas agora?

Well, penso que ao afrouxar um pouco o ceticismo contemplativo com que a maioria das pessoas leva a vida, a realidade não parece ser tão soturna como imaginamos quando estamos mais pessimistas que o habitual. Percebi isso agora, vendo aquele grupo. Na verdade acompanho todos eles individualmente andando por aí, a esmo, sem destino e nem objetivos determinados.

Um grupo de pessoas, seis ao todo, lembra aquele livro “Cannery Row”, do John Steinbeck, escrito em 1945 e que integra uma saga do escritor norte-americano que já tinha publicado “Tortilla Flat”, em 1935 e prosseguiu com “Sweet Thursday”, em 1954.

Sim, foi um vislumbre da obra de Steinbeck, dadas as semelhanças, porque aqui na Lagoa da Conceição como lá em Monterey (na Califórnia) estes meio-habitats se parecem. Alguns indivíduos que estão unidos por laços comuns, quer dizer, nenhum deles tem um trabalho fixo, aliás, são os novos beatniks, agora os do século vinte e um. Todos têm certa habilidade em alguma área, seja carpintaria, artesanato, alvenaria e outras ocupações que exijam o emprego das mãos. Só o fazem, entretanto, quando não há mais alternativas para conseguirem o mínimo necessário para levar a vida numa boa.

Na última sexta-feira encontrei-os em um terreno gramado à beira da Lagoa. Na calçada mostravam o trabalho em jóias de arame, prata, bijuterias transformadas em brincos, braceletes, pingentes, camafeus, cordões, prendedores de cabelos, uma variedade de ornamentos capazes de satisfazer qualquer vaidade feminina menos sofisticada, mas de bom gosto para a simplicidade combinando sempre com o velho jeans de guerra. Também, o chimarrão passando de mão em mão enquanto alguém cuidava do fogo, sim, porque havia carne sendo assada, tudo isso ao lado de uma banca de revistas, embaixo de algumas árvores numa manhã de sol claro depois de toda a tragédia que se abateu sobre alguns lugaresem Santa Catarina.

Aspirei aquele odor de carne assada, me deu saudades de ver a família reunida, e aquele dolce far niente a que eventualmente dávamos ao luxo de nos entregar. O momento vivido era único. O futuro é um espaço que não existe. Caminho devagar quando passo por eles, também por momentos queria ter a sensação de viver aquela heresia, de não pensar no “depois”…  A despreocupação está nos rostos, pelo menos naquela hora.

Que País infernal é esse Brasil, penso.

Registro esse encantamento com a espontaneidade para celebrar a livre escolha, para eternizar a ação de se fazer o que se pode mesmo em uma situação que, muitas vezes, não deveria nem possibilitar esse “poder”: uma escolha apenas, mas vocês que estão chegando agora, que não precisaram viver o que nos foi imposto “como natural” durante o regime militar, leitores, não imaginam o que é viver essa liberdade, o que é desfrutá-la assim, como companheira de viagem, porque se não vamos chegar a lugar nenhum, então ela deve vir junto, afinal, de tudo o que nos podem “tirar” na vida: o vínculo com os nossos pais, o amor que se dizia eterno ou o que conseguimos com o nosso esforço, do homem revoltado às paixões inúteis, é a liberdade o único bem que não suportamos perder na vida… É por isso que todas as ditaduras caem, não importa por quanto tempo dissimulem ficar em pé!

Olsen Jr. é membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS

VIDA BREVE… – por joão bosco leal / são paulo

 

Ainda outro dia, depois das aulas e das tarefas feitas, jogava bolinhas de gude com amigos na calçada de casa…

No mês de agosto, os meninos faziam seus papagaios de papel de seda e goma arábica, tentando que fossem mais coloridos e com o rabo maior que o dos outros…

Ao anoitecer, os pais já cansados e querendo um pouco de sossego, nos davam algumas moedas para apanharmos vagalumes…

As brincadeiras mais comuns eram as de pega-pega, esconde-esconde, cabra cega, amarelinha e queimada…

Depois vieram os jogos de futebol e para meninas, outros tipos de brincadeiras, considerados mais apropriados…

Os pais que podiam, colocavam seus filhos no judô e na natação, as meninas no balé e piano, e ambos no inglês…

Como diversão, a grande novidade eram os patins, antecessor do skate…

As fanfarras treinavam o ano todo para raríssimas apresentações, no sete de setembro ou nos concursos estaduais, quando, as meninas faziam belíssimas apresentações de malabarismos…

Vieram as aulas de datilografia, que os mais novos sequer sabem do que se trata…

As brincadeiras dançantes em clubes eram destinadas aos menores de idade e animados com música ao vivo…

O limite de horário era sempre muito rígido, 22 horas, e queríamos envelhecer mais rapidamente…

Vieram os bailes, os carnavais, os cinemas e os namoros, todos muito diferentes dos atuais…

A cuba libre era a bebida da moda e alguns se embebedaram pela primeira vez…

Ouvíamos os Beatles, Creedence CR, Carpenters, Ray Charles, Cat Stevens, Aretha Franklin, Tina Turner e centenas de outros de elevado padrão musical, com músicas também muito diferentes das atuais…

Veio a faculdade, muitos estudos, músicas, namoradas e bailes, mas a sonhada formatura, só para a minoria…

Começou a vida de responsabilidades, trabalho, busca de renda, casamento, filhos…

A tensão era ser enorme, com muitas preocupações com a educação e saúde dos pequenos, seu futuro…

Agora são os filhos que passam pelas mesmas situações, nos alegrando ou preocupando…

Apareceram rugas e cicatrizes, muitas no corpo outras na alma…

Muitos cabelos caíram e outros ficaram brancos, os sonhos diminuíram e fiquei mais realista…

Os netos começam a crescer e de um modo ou de outro a viver tudo o que eu e seus pais vivemos…

Aos 60 anos, muitos nos acham quadrados, ultrapassados, com poucas idéias úteis, mas na sua idade, eu achava que uma pessoa com 35, 40 anos já era velha…

Realmente diminuíram minhas destrezas, estou cada vez mais lento, física e mentalmente, mas é uma fase maravilhosa, pois já aprendi e senti bastante, mas tenho fome de novos aprendizados e sentimentos…

Foi tudo muito rápido e o que mais quero agora, é que tudo demore muito…

“Brinquedos Proibidos” de René Clement – por monica benavides / curitiba

domingo, 20 de março de 2011 às 22:56

Hoje assisti ao belíssimo “Brinquedos Proibidos”, um filme de René Clement, com uma fantástica trilha de guitarra do Narciso Yepes.

Carregado em dramaticidade porém livre de pieguices, como a maior parte da escola realista francesa do pós-guerra, “Le Jeux Interdits” no original, conta a história de Paulette uma menininha francesa na época da ocupação alemã (1940).

Órfã, a menina vaga pela França carregando o corpo de seu cachorrinho morto, até ser encontrada por um menino, Michel Dolle, filho de uma rude e ignorante família camponesa. Apesar da intensa dificuldade de adaptação de Paulette, ela verá no novo amigo a possibilidade de entender e sobreviver ao desmoronamento de seu mundo.

O filme tem um final previsível, porém assustador, que faz pensar muito no que aconteceu com as crianças órfãs da segunda guerra, e na incrível e insuperável capacidade que a raça humana tem, de superar os momentos de mais completo desespero, através da simples esperança.

Clement conseguiu separar bem o mundo adulto, cheio de mesquinhez e ódio, do infantil carregado de ternura e inocência. Mesmo caricatural sua crítica social é tocante e a separação das crianças angustiante. Como se não bastasse, mesmo datada a interpretação dos pequenos é maravilhosa.

O filme, apesar de recusado por Cannes (absurdamente), ganhou o reconhecimento do mundo com um Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e com o Leão de Ouro em Veneza no ano de 1952 (merecidamente), suprema recompensa e menção especial do juri “…por ter elevado a uma singular pureza lírica a inocência da infância acima da desolação da guerra…”

Em tempos como o nosso de conflitos velados e pseudo guerras cirúrgicas, o filme realmente consegue a proeza de marcar nossa alma com um selo de intensa bondade e anti-belicismo.

Recomendadíssimo!!!!!

CULTURA DOS EDITAIS – O REMÉDIO AMARGO DOS ARTISTAS – por almandrade / salvador.ba

O artista que passa o tempo recluso na solidão do atelier, trabalhando, desenvolvendo sua experiência estética, como um operário da linguagem e do pensamento, está em extinção. É coisa de museu. Ou melhor, é raridade nos museus de arte, hoje em dia, que estão deixando de ser instituições de referência da memória para servir de cenários para legitimação do espetáculo. Às vezes com míseros recursos que ficamos até sem saber, quando deparamos com baldes e bacias nessas instituições, se são para amparar a pingueira do telhado ou se trata de uma instalação, contemplada por um edital para aquisição de obras contemporâneas. O que interessa na politica cultural nem sempre é a arte e a cultura, e sim, o glamour. Em nome da arte contemporânea faz-se qualquer coisa que dê visibilidade.

As políticas públicas foram relegadas às leis de incentivo à cultura e aos editais públicos. Nunca se fez tanto editais neste País, como atualmente, para no fim fazer da arte um suplemento cultural, o bolo da noiva na festa de casamento. Na fala do filósofo alemão Theodor Adorno: “As obras de arte que se apresentam sem resíduo à reflexão e ao pensamento não são obras de arte”. Do ponto de vista da reflexão, do pensamento e do conhecimento, a cultura não é prioridade. Na política dos museus, o objeto já não é mais o museu que se multiplicou, juntamente com os chamados centros culturais, nos últimos anos. Com vaidade de supermercado, na maioria das vezes eles disponibilizam produtos perecíveis, novidades com prazo de validade, para estimular o consumo vetor de aquecimento da economia. A qualificação ficou no papel, na publicidade do concurso.

Esses editais que bancam a cultura são iniciativas que vem ganhando força. Mostram ser um processo de seleção com regras claras para administrar o repasse de recursos, muito bem vendido na mídia, como um método de democratizar o acesso e a distribuição de recursos para as práticas culturais. Mas nem tão democrático assim. Podem ser um instrumento possível e eficiente em certos casos, mas não é a solução, é possível funcionar também, como escudo para dissimular responsabilidades pela produção, preservação e segurança do patrimônio cultural. Considerando-se ainda a contratação de consultorias, funcionários, despesas de divulgação, inscrição, o trabalho árduo e apressado de seleção , é um custo considerável, em último caso, gera serviços e renda.

O artista contemporâneo deixa de ser artista para ser proponente, empresário cultural, captador de recursos, um especialista na área de elaboração de projeto, com conhecimentos indispensáveis de processo público e interpretação de leis. Dedica grande parte de seu tempo nesse processo burocrático de elaboração e execução de projeto, prestação de contas, contaminado pela lógica do marketing, incompatível para o artista que aposta na arte como uma opção de vida e meio de conhecimento que exige uma dedicação exclusiva. Ou então, ele fica à mercê de uma produtora cultural, para quem essa política de editais e fomento à cultura é um excelente negócio.

Uma coisa é preocupante, se essa política de editais se estender até a sucateada área da saúde. Imaginem uma seleção pública para pacientes do Sistema Único de Saúde que necessitam de procedimentos médicos, os que não forem democraticamente contemplados, teriam que apelar para a providência divina, já engarrafada com a demanda de tantos pedidos. Nem é bom imaginar. Que esta praga fique restrita nos limites da esfera cultural, pelo menos é uma torneira que sempre se abre para atender parte de uma superpopulação de artistas / proponentes pedintes.

O artista, cada vez mais, é um técnico passivo com direito a diploma de bem comportado em preenchimento de formulário, e seu produto relegado ao controle dos burocratas do Estado e aos executivos de marketing das grandes empresas. Se o projeto é bem apresentado com boa justificativa de gastos e retornos, o produto a ser patrocinado ou financiado, mediano, não importa. O que importa é a formatação, a objetividade do orçamento, a clareza das etapas e a visibilidade, o produto final é o acessório do projeto. Claro, existem as exceções.

Almandrade

(artista visual, poeta e arquiteto)

AO LEITOR DO “NOTÍCIAS DO DIA”

Repito nestas primeiras linhas o que já disse em outros tempos, em outro lugar nas mesmas circunstâncias: “Francamente, não gosto de despedidas. Um adeus sempre sugere a hipótese de que seja definitivo. Foi assim quando minha mãe morreu e o fato se repetiu com o meu pai, do mesmo jeito: era para ser apenas um até breve, e acabou sendo um nunca mais.

   “Prefiro mil vezes os encontros. A aproximação possibilita uma expectativa, algo capaz de gerar uma esperança e essa, naturalmente, abre horizontes… Não restringe, amplia”.

 

Depois de ter morado em Chapecó, São Carlos, Rio Negro, Curitiba, Blumenau e finalmente em Florianópolis, quis acreditar que esta seria de fato, a minha última parada antes de partir “desta” para o oblívio, como diria o Paulo Francis.

 

O “destino” caprichoso, entretanto, ainda me reserva novas descobertas. Por razões estritamente profissionais devo estar mudando de domicílio em breve para Rio Negrinho, Norte do Estado de Santa Catarina e onde se encontra o berço da “Olsen’s Family”. Devo acreditar que a permanência por aquelas plagas não ultrapasse há dois anos, porém nunca se sabe. Como desde os nove anos de idade quando saí de casa pela primeira vez, sempre me senti um estrangeiro em qualquer lugar, tal determinismo passageiro não me incomoda. O homem é ele e sua memória, o restante é decorrência.

 

Com as atribuições inerentes ao ingresso na Academia Catarinense de Letras (Cadeira 11) devo visitar a Ilha pelo menos uma vez por mês, contingência que não abdicarei em hipótese alguma.

 

A primeira crônica publicada aqui foi no dia 11 de novembro de 2010, portanto, daqui a quatro dias fará um ano, período marcado por uma boa convivência neste espaço democrático e também gratificante.

 

Em retrospectiva, os textos publicados em que aludi à família foram os que encontraram maior receptividade. De resto, o mesmo sentimento que embalou minha participação em outro jornal já mencionado. A família ainda continua um forte sustentáculo social a quem as pessoas não transigem. Tal constatação não deixa de ser alvissareira.

 

Aos meus leitores, figuras enigmáticas e muitas vezes distantes, agradeço a atenção que me dedicaram durante este período que pode ter sido curto, mas foi produtivo e sempre rico em aprendizado, deixo o agradecimento sincero e também levo um sentimento de perda, o mesmo que carregam todos os que se ausentam.

 

Encerro da mesma maneira que a última vez “E como diria o poeta, vamos em frente e sejamos felizes, se pudermos: um bom final de ano para todos e até outro dia… Por aí!”.

Olsen Jr. é membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS.

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o PALAVRAS TODAS PALAVRAS irá se ressentir da ausência do grande escritor bem como, e principalmente, os milhares de leitores que colecionou ao longo do pouco tempo em que colaborou conosco. ficaremos aguardando o retorno  de suas crônicas amigo Olsen.

grande abraço e seja breve na ausência,

J B VIDAL

Editor

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