O PÔSTER NA PAREDE – por olsen jr / ilha de santa catarina.sc

Recebo poucas visitas aqui em casa. Não é que esteja me tornando (as)social ou misantropo. Ou então, pior, em uma ação premeditada tentando “criar” um tipo mais ou menos como o do escritor Dalton Trevisan ou J. D. Salinger, porque a imaginação aguça a curiosidade e assim se pode mitificar o desconhecido tornando, quem sabe, a obra mais interessante.

A verdade é que pretendo deixar o “mundanismo” lá fora mesmo. Para se discutir obviedades há os botecos da vida. Claro que se pode fazer de qualquer canto uma espécie de taberna privilegiada, ou como disse outro dia, bem anotado pelo Horácio Braun em seu eclético cardápio “sou um boêmio, está certo, mas adoro minha casa, para mim é o meu segundo bar”. Não escondo o riso, assim posto, tudo parece muito simples.

Portanto, quando o meu sobrinho ligou indagando se podia me visitar porque tinha um trabalho para fazer na universidade e precisava discutir algumas idéias comigo, assenti. Costumava brincar afirmando que ele era o meu sobrinho favorito, o que era verdade. Inteligente, educado, com interesse igual por literatura, música, artes. De certa forma me enxergava nele quando tinha a sua idade.

No começo falou rapidamente sobre a importância das bebidas para a formação e consagração de talentos (ou não) desde o café e o álcool, passando pelo renascimento até nossos dias. Disse que era um ponto de vista interessante e tinha muito material. Mas percebi que não era bem aquilo que ele pretendia falar comigo, parecia ser mais um aquecimento antes de entrar no busílis (gostaram? Sempre quis usar esta palavra em algum lugar) da questão.

Depois o surpreendo em frente de um pôster na parede, representando num bico de pena, o Cavern Club, lugar onde os Beatles tocavam quando foram descobertos por Brian Epstein que viria a ser o seu primeiro empresário.

O quadro tinha uma história, aliás, como tudo ali. Fora presente de um marujo inglês que o trouxera de Londres e dado a Trude, proprietária de um bar à beira do cais na cidade de Itajaí. O bar era todo decorado com bandeiras de navios de dezenas de países. O pôster do Cavern Club era uma raridade e ficava em frente do balcão. Várias pessoas tinham tentado comprá-lo, inclusive eu, na primeira vez em que lá estive. A proprietária era inflexível, “não estava à venda e pronto”.

— Como ele veio parar aqui, então? Quis saber.

— Explico: o bar era freqüentado por médicos, advogados, prostitutas, gente do lugar, estrangeiros, turistas e a marujada que batia ponto ali. No dia em que pretendi comprar o dito, diante da negativa, pus-me a falar dos Beatles para o amigo que me acompanhava, ali mesmo no balcão, bebericando cerveja, olhando para o pôster na nossa frente e monologando sobre os Beatles. Falei, acredito, durante mais de duas horas sobre o assunto. Parecia que estava conversando sobre a minha própria família, tal a intimidade com fatos e coisas deles. Enquanto falava, percebi que a Trude estava sempre nas proximidades, ouvia o que estava dizendo, e para surpresa de todos ali presentes, quando terminei, ela foi até a parede, tirou o quadro, passou um pano devagar, com carinho, como se estivesse em uma cerimônia de adeus, e me deu de presente. “Toma, é teu!”. Não acreditei. “A senhora sabe o que está me dando? Questionei”. “Sim, é teu”. Um médico que estava vendo tudo me disse, “não sei o que você fez, mas meus parabéns fazem mais de três anos que venho tentando comprar este quadro”.

Depois da história sobre o pôster, a conversa se descontraiu um pouco, mas ele não dizia a verdadeira razão para estar ali, o que queria comigo? Também, não sabia como podia ajudá-lo. Nisso toca o celular, ele atende, afirma que a sua mãe veio buscá-lo e ele não pode perder a carona. Combinamos então, para hoje, a tal conversa, daqui a pouco ele deve estar chegando, penso!

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NOTAS:

A música é esta “Im My Life”, do disco “Rouber Soul” (1965) dos Beatles…

John Lennon a considerava “sua” primeira obra-prima…

Refere-se as perdas que vamos acumulando na vida (amigos, pessoas que amamos) e também aos lugares que vão sendo desfigurados, das nossas referências que são alteradas… Nem sempre para melhor…

Mas, de tudo sempre resta algo, talvez aquele amor, você, ele ou ela… Que não se esquece…

Embora a via continue e no fundo, continuamos também, sempre sozinhos…

É uma das minhas canções (dos Beatles) favoritas…

DA UTOPIA E DO CRIME – por jorge lescano / são paulo


 

Para Urda Klueger

 

Não há nada de quixotesco nem romântico em querer mudar o mundo.

É possível. É o ofício ao qual a humanidade se dedicou desde sempre.

 Não concebo melhor vida que uma dedicada à efervescência, às ilusões,

à teimosia que nega a inevitabilidade do caos e à esperança.

Gioconda Belli

Em termos gerais concordo com o pensamento da escritora nicaragüense, de quem conheço apenas esta frase, remetida por uma companheira de utopia. O que me motivou a escrever a nota são os conceitos quixotesco e romântico, citados por ela como pejorativos, ao gosto da mentalidade liberal burguesa.

Nada mais humano que o homicídio premeditado, o matricídio, o parricídio, o fratricídio, o latrocínio e a tortura. Nenhuma outra espécie comete estes crimes em sã consciência, eles são atributos exclusivamente humanos. O que um homem fez, a espécie faz. Nenhum indivíduo pode se declarar isento das características da manada humana. Nada mais humano, também, que o anseio de conhecimento, de liberdade, de justiça, de felicidade.

A sombra de Hitler nunca ofuscará a luminosidade de Mozart, a inquietante clarividência de Kafka. A prepotência de Mussolini não apagou a alegria de Vivaldi. Os crimes de Stalin só ressaltam a verdade da obra de Dostoievski que denuncia o absurdo da violência dos homens. O obscurantismo de Franco nunca empanou a lucidez de Cervantes. A desfaçatez de Obama que pretende justificar guerras injustificáveis, não perturba o reconhecimento das românticas viagens de Poe à região nebulosa da mente, não pode ocultar a melancolia dos quadros de Hopper nem o bom humor da música de Cage. É óbvio que tais nomes não esgotam o elenco de protagonistas da eterna luta entre a luz e as trevas. Eles perambulam anônimos ao nosso redor.

Toda revolução é romântica porque pretende mudar o mundo, realizar a utopia.

É revolucionário – não importa qual seja o teor da atividade nem o volume de sua tarefa – todo aquele que sonha com a justiça plena, isto é: os mesmos direitos para todas as diferenças. Muda-se o mundo menos pela gestão política que pela consciência individual que obrigará o político a obedecer.

Descreio de instituições cuja única função é disputar cargos públicos. A diferença entre um partido político e o movimento político é que aquele concorre ao governo do Estado (entidade semidivina na atualidade) e este educa, forma as pessoas para a autogestão. Em geral é trabalho realizado individualmente porque o poder político sempre acaba institucionalizando (entenda-se encampando, neutralizando e manipulando) os frutos da tarefa coletiva.

Se não podemos mudar de mundo, mudar o mundo é a única alternativa, única utopia válida. Deve-se pretender o máximo para conseguir o mínimo. Assim funciona a sociedade humana.

O Quixote era uma sátira na época de Cervantes, tornou-se paradigma moral e moralista por algum tempo, volta a ser exemplo de estupidez, de ingenuidade e loucura (?) nos tempos que correm porque não produz lucros monetários, valor máximo da comunidade ocidental e cristã.

A arte, por revolucionária que seja, não muda o mundo, apenas ilustra a doutrina de que a pensamento não deve ficar preso a preceitos estabelecidos pela “autoridade”. Isto é válido em todos os ramos, para todas as categorias. O conhecimento científico também caminha assim, desrespeitando a autoridade estabelecida pelo poder político das academias. O pensamento deve ser campo aberto para o cultivo. Somente os dogmas afirmam possuir verdades imutáveis.

Reivindico para mim os motes de romântico e quixotesco pelo que eles têm de inconformismo, e não é preciso que ninguém aprove ou adira à minha escolha. Tenho o mau costume de ver a realidade pelo avesso. Não fosse assim e teria me dedicado a vender apólices de seguros de vida e estaria em paz com os deuses (todos eles!) e com o mundo.

Atribuem-me a (má?) fama de iconoclasta. Não sei se isto é verdadeiro, sei sim que nunca pactuei com o culto à personalidade de nenhum ídolo, que sempre acaba servindo ou criando seitas, clubes, partidos apenas diferentes nas cores e tamanhos. Isto não impede que reconheça o valor de pessoas e obras sem que, necessariamente, deva render-lhes culto.

Em meus rascunhos abundam nomes de artistas. Suas obras, de diversos modos, moldaram a minha escrita. Também Natividad Cardozo, minha mãe e lavadeira analfabeta, colaborou com ela; e se não deixou frase memorável para ser citada formou o homem que sou hoje, com todos meus defeitos.

Talvez o sentido da vida de cada um seja procurar a perfeição (?), esta a utopia individual. Nisto acreditam diversas seitas de todas as latitudes. Eu me reservo o direito à dúvida.

Hora de sair pra pescar ou apertar o parafuso? – por alceu sperança/cascavel.pr


Houve um tempo em que os utópicos pregadores de um novo mundo eram uma minoria de doidos varridos. De vez em sempre até prendiam os mais ousados e sinceros, chamados de “comunistas” mesmo que fossem apenas reformistas superficiais.

Banqueiros que financiavam operações para apanhá-los hoje imploram pelo mesmo que esses elementos perigosos queriam: a intervenção do Estado para custear as despesas dos incapazes de arcar com elas.

Agora, depois da rendição de um alto executivo da General Eletric aos argumentos dos “subversivos” que eram castigados com prisão, tortura e morte, será que já seria a hora desses velhos utópicos da paz sair para pescar?

O CEO (manda-chuva, numa tradução horrível para o Português) da GE, Jeffrey Immelt, disse em Nova Iorque, em fins de 2008, que em um período de seis a nove meses as noções de poder e riqueza das nações “vão mudar muito”. De fato, mudaram tanto que o planeta virou de cabeça pra baixo.

Immelt é considerado um dos administradores mais capazes do mundo. E ele diz, simplesmente, o seguinte: aqueles que não entenderem o atual momento de “reorganização emocional, social e econômica” têm poucas chances de ver seus negócios vingarem no futuro.

Ele acredita, em suma, que o capitalismo vai ser substituído por algo novo. Nesse novo, a responsabilidade social da empresa, vai casar com o papel do Estado em áreas como a da saúde, que está uma zona. Com isso, aquela baboseira de “Estado mínimo” será simplesmente atirada na lata do lixo, por estar caduca.

Um bocado de idéias criptomarxistas para um capitalista-mor, que comanda uma cadeia enorme de interesses econômicos, cujos 327 mil funcionários dão a seus negócios US$ 180 bilhões de faturamento por ano.

Ele acha que já passou o tempo dos “fazendeiros que se transformaram em industriais e que migraram para a área de serviços”, pois isso deu na joça que aí está. Agora, diz o guru capitalista, é preciso olhar para as pessoas.

Com gente assim tão qualificada repetindo os recados que estamos transmitindo a vida inteira, o jeito não é sair pra pescar?

Na verdade, não! Ainda há muita canalhice neste mundo e a pescaria relaxante vai ter que aguardar. Nota-se que os grandes responsáveis pela crise estão querendo se fingir de bonzinhos. Vão maquiar tanto a cara que ninguém vai reconhecê-los como os autores dessa catástrofe capitalista.

Se acharem bom para o marketing, eles próprios vão editar tiragens fantásticas de O Capítal. E se, contra toda lógica, Barack Obama realmente cumprir o que prometeu – carregar os ricos de impostos e aliviar para os pobres –, o outrora simpatizante da Ku Klux Klan vai descobrir sangue negro em seu DNA e anunciará amplamente no horário nobre: “Sou negão e provo no cartório!”

Eles são malandros. Não é sem motivo que não resolvem nenhum dos problemas relevantes das famílias e do planeta (paz, habitação, renda, ambiente), mas vencem todas as eleições. A operação que se seguirá à atual tentativa de salvar o capitalismo será ocultar os verdadeiros responsáveis e as causas reais da crise.

Será manipular a propaganda de tal forma que as massas se convençam que elas, mesmo sendo exploradas vilmente pela ideologia, têm culpa por tudo, terão que pagar a conta e não, como seria justo, virar tudo pelo avesso.

Com esse pacto, “uma nova ordem mundial”, ficará entendido que os ricos vão dar aos pobres a chance de pagar os custos da crise. Em troca haverá uma refundação do capitalismo, mas sem alterações de fundo nas políticas que alimentaram a especulação e a exploração desenfreadas, que são a origem da crise.

Por isso, a pescaria fica adiada sine die.

Chefe do FMI alerta que economia global está em perigo / paris.fr

25/12/2011 – 13h55

 DA REUTERS, EM PARIS

A diretora-gerente do FMI (Fundo Monetário Internacional), Christine Lagarde, afirmou que a economia mundial está em perigo e pediu a união dos europeus diante da crise da dívida que tem ameaçado o sistema financeiro global.

Na Nigéria, na semana passada, a diretora do FMI disse que a previsão do Fundo de 4% de crescimento mundial em 2012 poderia ser revista para baixo, mas não deu nenhum novo número.

“A economia mundial está numa situação perigosa”, afirmou ela a um jornal francês, em entrevista publicada neste domingo.

A crise da dívida, que entra em 2012 depois que uma cúpula europeia no início do mês acalmou apenas temporariamente os mercados, “é uma crise de confiança na dívida pública e na solidez do sistema financeiro”, declarou Lagarde.

Líderes europeus planejam um novo tratado para aprofundar a integração econômica na zona do euro, mas não é certo que o novo acordo irá conter a crise, que começou em 2009 na Grécia e agora ameaça a França e mesmo a poderosa Alemanha.

“A cúpula de 9 de dezembro não alcançou termos financeiros detalhados o suficiente e foi muito complicada nos princípios fundamentais”, afirmou Lagarde.

“Seria bom se os europeus falassem como uma só voz e anunciassem um cronograma simples e detalhado”, completou. “Os investidores estão esperando. Grandes princípios não impressionam”.

Parte do problema, segundo ela, têm sido as reivindicações protecionistas nos países, tornando “difícil formar uma estratégia internacional contra isso”.

De acordo com Lagarde, “os parlamentos reclamam de usar dinheiro público ou garantir o apoio do seu Estado para outros países. O protecionismo está sendo debatido, e o cada um por si está ganhando terreno.” Ela não especificou a que países se referia.

Países emergentes, que tinham sido os motores da economia mundial antes da crise, também estão sendo afetados, disse Lagarde, citando China, Brasil e Rússia. “Esses países vão sofrer com a instabilidade”.

ELIANA CALMON: Juízes defendem corregedora do CNJ e expõem racha da categoria / são paulo

Um grupo de juízes federais começou a coletar ontem assinaturas para um manifesto público condenando as críticas feitas pela Ajufe (Associação dos Juízes Federais do Brasil) à atuação da corregedora nacional de Justiça, ministra Eliana Calmon.

“Entendemos que a agressividade das notas públicas da Ajufe não retrata o sentimento da magistatura federal. Em princípio, os juízes federais não são contrários a investigações, promovidas pela corregedora. Se eventual abuso investigatório ocorrer é questão a ser analisada concretamente”, afirma o manifesto, para realçar que “não soa razoável, de plano, impedir a atuação de controle da corregedoria”.
Varredura em 217 mil nomes motivou guerra no Judiciário

Ministro do Supremo beneficiou a si próprio ao paralisar inspeção

Adriano Vizoni – 17.out.2011/Folhapress
No auditório da *Folha*, Corregedora do CNJ, Eliana Calmon, durante debate sobre poder de investigação do conselho
No auditório da Folha, Corregedora do CNJ, Eliana Calmon, durante debate sobre poder de investigação do conselho

A ideia surgiu em lista de discussão de magistrados federais na internet. Foi proposta pelo juiz federal Rogério Polezze, de São Paulo.

Ganhou adesões após a manifestação do juiz Sergio Moro, do Paraná, especializado em casos de lavagem de dinheiro, não convencido de que houve quebra de sigilo de 200 mil juízes.
“Não estou de acordo com as ações propostas no STF nem com as desastradas declarações e notas na imprensa”, disse Moro. “É duro como associado fazer parte dos ataques contra a ministra.”

“Não me sinto representado pela Ajufe, apesar de filiado”, afirmou o juiz federal Jeferson Schneider, do Paraná, em mensagem na lista de discussão dos juízes. Marcello Enes Figueira disse que “assinava em baixo do que afirmou o colega Sergio Moro”.

O juiz federal Odilon de Oliveira, de Campo Grande (MS), também aderiu, afirmando que “entregar” a ministra era um “absurdo” que a Ajufe cometia. “A atitude da Ajufe, em represália à ministra é inaceitável”, diz o juiz Eduardo Cubas, de Goiás.

O juiz Roberto Wanderley Nogueira, de Pernambuco, criticou as manifestações das entidades. E disse que “a ministra não merece ser censurada, e tanto menos execrada pelos seus iguais, pois seu único pecado foi ser implacável contra a corrupção”.

O presidente da Ajufe, Gabriel Wedy, atribuiu a iniciativa à proximidade das eleições para renovação da diretoria da Ajufe, em fevereiro. “É um número bastante pequeno, diante de 2.000 juízes federais”, disse. “São manifestações democráticas e respeitamos o direito de crítica.”

A Ajufe e outras duas associações de juízes entraram ontem com representação na Procuradoria-Geral da República contra Calmon, para que seja investigada sua conduta na investigação sobre pagamentos atípicos a magistrados e servidores.

Para os juízes, a ministra quebrou o sigilo fiscal dos investigados, ao pedir que os tribunais encaminhassem as declarações de imposto de renda dos juízes.

“Não se pode determinar ou promover a ‘inspeção’ das ‘declarações de bens e valores’ dessas pessoas, porque tais declarações são sigilosas e não poderiam ser objeto de qualquer exame por parte da corregedora nacional de Justiça”, diz a representação.

Calmon não comentou a representação dos juízes. Anteontem, a ministra disse que os magistrados e servidores são obrigados a entregar aos tribunais todo ano a declaração de Imposto de Renda.

Segundo Calmon, os dados são entregues aos tribunais justamente para que a corregedoria tenha acesso, e não para “ficarem dentro de arquivos”.

O objetivo da corregedora é cruzar as informações com levantamento do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), que apontou 3.438 juízes e servidores com movimentações atípicas.

A polêmica começou quando o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Ricardo Lewandowski mandou parar a investigação no Tribunal de Justiça de São Paulo, primeiro alvo da corregedoria do CNJ.

Os juízes então passaram a acusar a ministra Eliana Calmon de quebrar o sigilo de todos os magistrados e servidores que foram alvo da varredura do Coaf, um total de mais 200 mil pessoas.

A ministra rebateu e disse que as acusações são uma maneira de tirar o foco da investigação do CNJ.

 

FREDERICO VASCONCELOS
DE SÃO PAULO
FILIPE COUTINHO
DE BRASÍLIA

MINISTRA ELIANA CALMON, todo apoio e solidadriedade – por sonia amorim / são paulo

Todo apoio e solidariedade

Desde que a ministra Eliana Calmon, Corregedora Nacional de Justiça, no final de setembro último denunciou publicamente a existência de “bandidos de toga” infiltrados no Judiciário, o ABC! vem quase que diariamente publicando posts a respeito, informando, emitindo opinião, trazendo pontos de vista de juristas e outros estudiosos e fornecendo apoio à ministra guerreira.

Semanas atrás, pedi aqui neste espaço que construíssemos uma Corrente de Solidariedade em volta da aguerrida ministra e forneci seus endereços eletrônicos no Conselho Nacional de Justiça e também no Superior Tribunal de Justiça, para que todos enviassem mensagens de apoio. 


O momento é preocupante: forças do atraso e da iniquidade, que esbulham este País também na esfera do Judiciário, não querem perder seus privilégios e sua tradicional impunidade.

O que vem acontecendo nos últimos dias tem indícios fortes de “coisa orquestrada”. Esperaram a última semana antes das festas de fim de ano, quando grande parte das pessoas está desmobilizada, desatenta, para desferir um ataque contra a destemida ministra-corregedora, anulando procedimentos investigativos que estavam em curso, destruindo o trabalho de Eliana Calmon à frente da Corregedoria. Alguns, mais atrevidos, vêm a público para disparar ataques pessoais contra a ministra, tentando denegrir sua imagem.

Isso é gravíssimo.

Não podemos permitir isso! Há três meses a Adin impetrada pela Associação dos Magistrados Brasileiros para restringir os poderes do CNJ encontra-se “estacionada” no STF. E no último dia do ano judiciário duas liminares – do ministro Marco Aurélio e do ministro Lewandowski – são concedidas e suspendem as investigações de fatos gravíssimos, inclusive no Tribunal de Justiça de São Paulo? O que é isso?

O Povo Brasileiro, nós todos, cidadãs e cidadãos, muitos vítimas deste Judiciário fechado, arcaico, elitista e antidemocrático, não podemos nos calar diante deste descalabro de impunidade que se esboça.

Todo o apoio e solidariedade à Grande Mulher da Justiça, ministra-corregedora ELIANA CALMON, pedra no sapato da bandidagem togada e Orgulho da Magistratura Brasileira !

a neta da vovó disse…
A Justiça no Brasil esta seqüestrada pela banda podre do judiciário ,são centenas de processos sendo literalmente vendidos para beneficiar as empreiteiras do esquema,juntamente com inventariantes judiciais ,partidores ,cartórios montando documentação fraudada ,perdigueiros infiltrados na sociedade para descobrir famílias que tenham terras ,imóveis de grande proporção que tenham mortos e inventários abertos ,verdadeiros freqüentadores de velório ,para se infiltrar na família ,leilões de imóveis já pré vendidos para gangue ,imóveis sendo retirados através de documentações falsas de seus espólios ,numa duplicação de documentos ,para que os herdeiros não se dêem conta de que o mesmo já foi vendido ,colocam laranjas como posseiros para tomar na mão grande os imóveis ,fazendas ,provocam brigas entre herdeiros ,que estejam sob a tutela de algum inventariante judicial ,para que através desta briga ,minem os imóveis ,deixam lacrados ,para depois tomarem por dívidas já pré montadas pela gangue , agora para se ter justiça no pais ,só encaminhando seus processos para INTERPOL e toda a mídia internacional ,direitos humanos e OEA por que aqui a situação esta seriíssima ,estamos realmente na mão de bandidos ,alguns de Toga outros de Gravata
VAMOS JUNTAR TODOS OS PROCESSOS ENCAMINHADOS AO CNJ E TODA A CPI DAS VENDAS DE SENTENÇAS NA ALERJ E VAMOS PROVAR QUE EXISTEM SIM BANDIDOS DE TOGA ,POR QUE SÃO CENTENAS DE PESSOAS SENDO ROUBADAS DIARIAMENTE EM SEUS DIREITOS CONSTITUCIONAIS POR ESSA GANGUE QUE SEDIOU O JURIDICO DO BRASIL !
VAMOS APOIAR ESTA REESTRUTURAÇÃO DOS DIREITOS DO CNJ ,NÃO PODE A POPULAÇÃO FICAR A MERCE DE BANDIDOS DE TOGA ,VENDENDO SENTENÇAS JUDICIAIS PARA FAVORECER GLOBAIS E GRILEIROS DE TERRAS PARTICULARESA POPULAÇÃO BRASILEIRA VAI AS RUAS PARA EXIGIR SEUS DIREITOS ,NÃO PODEMOS MAIS ESTAR A MERCE DE SERMOS DIARIAMENTE ROUBADOS POR UM GOVERNO DE ESCANDALOS COM AS VERBAS FEDERAIS E AGORA ESTARMOS SITIADOS NOS DIREITOS FUNDAMENTAIS OS JURIDICOS ,SÃO CENTENAS DE PROCESSOS SENDO VENDIDOS NO VERDADEIRO BALCÃO QUE SE TRANSFORMOU O JUDICIARIO E ESTA DECISÃO TEM HAVER COM A AÇÃO QUE TEM COMO REU LUIZ ZVEITER ,POIS E FATO NOTORIO QUE O ESCRITORIO DA FAMILIA DO DESEMBARGADOR ATUA NA DEFESA DE CONSTRUTORAS A MUITO METIDAS EM FATOS OBSCUROS

21 de dezembro de 2011 18:21

O SIGNIFICADO DO NATAL – por manoel de andrade / curitiba.pr

 

          Nestes dias que precedem o Natal, ocorre-me pensar nas tantas portas que se fecham para o seu real significado, mascarado por estranhas personagens natalinas e maculado por poderosos interesses mercadológicos. Ocorre-me também pensar que se o Cristianismo fosse verdadeiramente interpretado não haveria tantos sectarismos e o simbolismo da manjedoura de Belém seria fraternalmente reverenciado no mundo inteiro, além da barreira das religiões.

 

Jesus não fundou nenhuma igreja, nem dogmatizou nenhuma religião. Trouxe-nos a imagem de Deus como um pai, mostrou a importância da religiosidade e nos revelou o significado incondicional do amor. Não escreveu nada, mas deixou, na memória de seus discípulos, a sabedoria de suas parábolas e, no Sermão da Montanha, toda a essência do cristianismo, falando do amor aos inimigos, do perdão das ofensas e da importância de dar a outra face como um caminho aberto para a reconciliação. Resumindo, quis dizer-nos que ser cristão é saber transformar o orgulho em humildade e o egoísmo em amor.

 

A ênfase de sua filosofia propunha a redenção humana pela educação e não pelo constrangimento. Embora abominasse o pecado, Ele amava o pecador e acreditava que educar é despertar o senso da justiça, do amor e da beleza moral que existe, potencialmente, em cada ser humano. Nesse sentido, entre tantos fatos de sua vida pública, exemplificou sua tolerância e sua caridade diante da mulher adúltera e do bom ladrão, no alto do Calvário.

 

Passados vinte séculos hoje perguntamos qual o significado do seu nascimento para cada um de nós. Sobretudo perguntamos quantos já leram e estudaram o seu Evangelho. Nesse singelo banco escolar que é o planeta,  — onde ainda somos espiritualmente crianças  — seu conteúdo é uma cartilha insubstituível para soletrarmos o beabá do amor, da paciência e do perdão. Diante das sabatinas diárias da vida é imprescindível aprendermos o que significa “orar e vigiar” e não fazer a ninguém o que não queremos que nos façam. Quantos são capazes de vivenciar suas lições e seus exemplos, ante as provas e os embates do dia a dia, oferecendo a outra face ante o agressor e perdoando sempre? Se já começamos a ensaiar essa difícil conduta então Jesus já nasceu para nós e temos um Natal para comemorar. Mas muitos ainda trazemos o coração fechado a essa realidade, tais como as estalagens de Belém, cujas portas se fecharam ao seu nascimento.

 

Se perguntássemos a Paulo de Tarso onde nasceu Jesus, ele certamente diria que foi diante das Portas de Damasco, onde chegou para aprisionar alguns cristãos da cidade. Se perguntássemos a Maria Madalena onde Ele nasceu, com certeza, responderia que Jesus nasceu para ela na casa de Simão, o fariseu. Foi ali que depois de lavar e enxugar seus pés ela ouviu sua voz compassiva perdoando-lhe os pecados.

Onde predomina o orgulho e o egoísmo — essas patologias crônicas da alma humana — Ele não poderá renascer, ainda que invocado em rituais e ladainhas. É imprescindível que façamos do coração uma manjedoura humilde para que Jesus possa renascer em nossas vidas. Caso contrário, além da beleza sentimental da fraternidade e o significado envolvente do Natal no seio da família, temos apenas uma data histórica para comemorar, com muitos presentes, a figura patética de um Papai Noel, um banquete de sabores e aparências e o apego às ilusões do mundo.

 

 

 

CRÔNICA DO MENINO DEUS – por vera lucia kalahari / lisboa.pt

 

 

Nasceste. Chegaste num dia frio de sol cadente. Dormiras sobre
estrelas e trazias no cabelo o ouro que tiraras delas. Nas mãos, um
tesouro: O peso assustador, esmagador, do mundo… Nos olhos, a pureza
duma açucena, o brilhar de prantos que jamais choraste.
Nasceste. Não vieste para reinar entre pratas, ouro e pedras, como
aqueles que se intitulam teus seguidores.  Chegaste só, com a chuva
que tombava num telhado em ruinas. Agora, dormes num monte de feno
quente, cheirando a campo. Perto, tua ma~e vela docemente com o peso
dum filho que é seu mas que o mundo roubará. Nasceste, menino,
Homem-Deus, mas não ficaste. Encontraste em cada esquina, um Judas
para te trair e uma coroa de espinhos para te ferir com o peso dos
pecados a curvar-te, a enterrar-se até ao fundo do teu coração. Estás
em tudo, Menino-Deus… Pena teres partido. Não teres mantido o teu
reinado, Tua humildade imensa de cordeiro, entre os homens.
Porque então, Menino-Deus, esta não seria a terra de rios entumescidos
de prantos e de gemidos.
E nós, não seriamos estes vermes rastejantes, de olhos suplicantes
virados para Ti, numa ânsia agónica de Te tocar, sem termos forças
para Te alcançar.

SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL E SEUS TOGADOS SE BATENDO EM MEIO A FORTES INDÍCIOS DE CORRUPÇÃO

Peluso, que recebeu R$ 700 mil do TJ-SP, defende Lewandowski

O presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Cezar Peluso, fez uma nota para defender a decisão do ministro Ricardo Lewandowski, que suspendeu inspeção feita pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça) na folha de pagamento do Tribunal de Justiça de São Paulo.

Lewandowski recebeu pagamentos sob investigação, feitos a todos os desembargadores da corte por conta de um passivo trabalhista da década de 90.

Leia a íntegra da nota em que Peluso defende decisão de Lewandowski
Ministro do Supremo beneficiou a si próprio ao paralisar inspeção

O próprio ministro Peluso, que, como Lewandowski, foi desembargador do TJ paulista, recebeu recursos desse passivo.

Ele recebeu R$ 700 mil. Peluso considera que, apesar dos recebimentos, nem ele nem Lewandowski estão impedidos de julgar ações sobre o tema porque os ministros do STF não se sujeitam ao CNJ.

Portanto, não seria possível falar que agem em causa própria ou que estão impedidos quando julgam a legalidade de iniciativas daquele órgão, já que não estão submetidos a ele, e sim o contrário, de acordo com a Constituição e com decisão do próprio STF.

A corregedoria do CNJ iniciou em novembro uma inspeção no Tribunal de Justiça de São Paulo para investigar pagamentos que magistrados teriam recebido indevidamente junto com seus salários e examinar a evolução patrimonial de alguns deles, que seria incompatível com sua renda.

Um dos pagamentos que estão sendo examinados é associado à pendência salarial da década de 90, quando o auxílio moradia que era pago apenas a deputados e senadores foi estendido a magistrados de todo o país.

Em São Paulo, 17 desembargadores receberam pagamentos individuais de quase R$ 1 milhão de uma só vez, e na frente de outros juízes que também tinham direito a diferenças salariais.

Tanto Peluso quanto Lewandowski dizem ter recebido menos do que esse valor.

Lewandowski afirmou ontem, por meio de sua assessoria, que se lembra de ter recebido seu dinheiro em parcelas, como todos os outros.

O ministro disse que o próprio STF reconheceu que os desembargadores tinham direito à verba, que é declarada no Imposto de Renda. Ele afirmou que não entende a polêmica pois não há nada de irregular no recebimento.

A corregedoria tem deixado claro desde o início das inspeções que não está investigando ministros do STF, e sim procedimentos dos tribunais no pagamento dos passivos da década de 90. Ou seja, quem está sob investigação são os tribunais, e não os magistrados, que eventualmente se beneficiaram dos pagamentos.

O órgão afirmou ontem ainda, por meio de nota, que não quebrou o sigilo dos juízes e informou que em suas inspeções “deve ter acesso aos dados relativos à declarações de bens e à folha de pagamento, como órgão de controle, assim como tem acesso o próprio tribunal”. Disse também que as informações coletadas nunca foram divulgadas.

No caso de São Paulo, a decisão do Supremo de esvaziar os poderes do CNJ suspendeu investigações sobre o patrimônio de cerca de 70 pessoas, incluindo juízes e servidores do Tribunal de Justiça.

Liminar concedida anteontem pelo ministro Marco Aurélio Mello impede que o conselho investigue juízes antes que os tribunais onde eles atuam analisem sua conduta –o que, na prática, suspendeu todas as apurações abertas por iniciativa do CNJ.

No caso de São Paulo, a equipe do conselho havia começado a cruzar dados da folha de pagamento do tribunal com as declarações de renda dos juízes. O trabalho foi paralisado ontem.

MÔNICA BERGAMO
COLUNISTA DA FOLHA

foto livre do site.

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COMENTÁRIO DO LEITOR:

21/12/2011 – 09h33

Para leitor, decisão do STF sobre o CNJ favorece a corrupção

LEITOR CRISTIANO REZENDE PENHA
DE CAMPINAS (SP)

Ao reduzir o poder do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) de investigar juízes, o STF (Supremo Tribunal Federal) sinalizou a todos os corruptos que continuem com suas roubalheiras, desvios, superfaturamentos, fraudes, vendas de sentenças e diversos outros crimes que sugam dinheiro de áreas prioritárias.

Peluso diz que não revisará sozinho decisão do Supremo sobre CNJ
Associações divergem sobre decisão que esvazia poderes do CNJ
Em decisão liminar, ministro do STF esvazia poderes do CNJ

Sinalizou mais uma vez a todos brasileiros que aqui é o país da impunidade, que o crime compensa e o combate à corrupção não é prioridade da Justiça e dos governantes.

Sérgio Lima – 19.dez.2011/Folhapress
O ministro Marco Aurélio Mello no Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília
O ministro Marco Aurélio Mello no Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília

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COMENTÁRIO  (oportuno) DO LEITOR:
Na primeira foto, a Comissão de Frente se retira ou está chegando ao sambódromo? Tanto faz! Samba do crioulo doido? Nada disso, damas e cavalheiros, é a Escola Democracia Compulsória Brasileira. Na segunda foto Destaque do enredo Todo mundo Dança e Ninguém Vai Preso. Nota 10 (dez) para o figurino que imita à perfeição a toga da Justiça. VIVA!!!

Jorge Lescano

NATAL – por zuleika dos reis / são paulo


O Natal nos liga à origem do Tempo Sagrado, onde está o Ser a Quem pertencemos, o Ser de Quem somos parte, independente do fato de termos clara em nós tal Ciência.

A manifestação da Criança Sagrada nos vem todo ano como Recordação e Presença; vem para nos lembrar que a Vida não tem fronteiras, nem de espaço, nem de tempo.

A manifestação da Criança Sagrada nos vem todo ano para nos mostrar que a Vida apenas É, a iluminar-nos desde Sempre, desde o Âmago, desde o Centro.

A manifestação da Criança Sagrada nos vem todo ano para nos incinerar das nossas misérias, por segundos que seja; para nos Iluminar, por segundos que seja; é preciso Coragem Desmedida para nos deixarmos incinerar, por segundos que seja, para nos deixarmos Iluminar, por segundos que seja; é preciso Desmedida Coragem, para que ousemos duvidar do brilho mais do que nunca ofuscante do Imediato Real, dos presentes sem Presença, do brilho que, se descuidarmos, nos fará passar totalmente em branco este Tempo de Recordação e de Presença da Criança Sagrada, que vem para nos Lembrar. Que vem para nos Lembrar, para nos lembrar de Nós.

 

 

Morre a cantora africana Cesária Évora: calou-se “a grande voz” de Cabo Verde. – por regina bostulim / coimbra.pt


 

Portugal chora a morte da “Diva dos Pés Descalços”.


 

A cantora cabo-verdiana Cesária Évora, conhecida como Rainha da Morna, tipo de música que a popularizou, faleceu no dia 17 de Dezembro, aos 70 anos. Os telejornais portugueses já vinham dedicando várias reportagens à cantora desde que se ausentou dos palcos em 22 de Outubro. Na ocasião a cantora anunciou ao jornal francês Le Monde o fim da carreira devido a problemas de saúde, e retornou à sua ilha natal, São Vicente, para morrer.

Radicada na França há cerca de 20 anos, Cesária havia recebido em 2009 do presidente Nicolas Sarkozy a medalha da Legião de Honra. Mas amava o Brasil: em 1999 gravou em duo com Marisa Monte a canção É Doce Morrer no Mar, de Dorival Caymmi.

                                                 Pés descalços

A pior fase da vida da cantora no ano de 1975, ano da independência de Cabo Verde. As tremendas dificuldades econômicas  por que passava o país a forçaram a parar de cantar para dedicar-se ao sustento da família. Frustrada, a cantora caiu no alcoolismo, prolongando seus anos de inferno por 10 anos, a que chamou  dark years (anos negros).

Sua volta triunfal aconteceu em Portugal, incentivada por Bana, cantor e empresário cabo-verdiano radicado no país. Um francês chamado José da Silva a persuadiu a ir a Paris, onde grava em 1988 o álbum La diva aux pied nus (a diva de pés nus), forma como se apresentava nos palcos.

O álbum foi aclamado pela crítica, e em 1992 gravou Miss Perfumado, e passou a morar na França. Tornou-se uma estrela internacional aos 47 anos. Em 2004 recebeu um Grammy, de melhor álbum de world music contemporânea. Foi a cantora que recebeu maior reconhecimento internacional na história da música cabo-verdiana.

Morre o líder ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-il

Comentário:

Morre mais um ditador. Que lembranças leva? Que recordações deixa? Não ter alcançado os seus ideais de socialismo? Ter deixado a Coréia do Norte afastada do mundo, durante 17 anos, em continuidade ao período também ditatorial de seu pai, por 46 anos? Kim Jong-il governou a chama República Democrática Popular da Coréia com a mesma mentalidade autocrática de seu antecessor e foi mais longe ainda: tornou-se conhecido em todo o mundo como o mais totalitário chefe de estado do planeta. Governou o país sem liberdade de imprensa ou religião, sem liberdades políticas (como todo ditador, detestava a oposição – consta que manteve nada menos que 200 mil prisioneiros políticos durante seu governo) e com baixos índices de educação e de proteção à saúde, em contraste com sua eterna inimiga-irmã, a Coréia do Sul. Mas sempre preocupado em continuar com a mesma linha ideológica de culto à personalidade criada por seu pai (seus epítetos preferidos eram “Líder Supremo”, “Querido Líder”, “Camarada Comandante Supremo” e “Nosso Pai”), característica narcisista também própria aos ditadores.  Deixa sue filho Kim Jong-nam como sucessor. Também se fala de um cunhado seu, Kim Jong-nam, como outro possível sucessor. Tudo em família, numa nação que se diz república, democrática e popular. Mas lembremos de outro líder, também falecido no último domingo: Václav Havel, ex-presidente da República Tcheca, antípoda político do líder coreano. Dramaturgo, escritor, ensaísta, poeta e dissidente político, lutou, com suas peças teatrais, contra o regime totalitário que então Tchecoslováquia, o que lhe valeu bons anos de prisão, com a debilitação de sua saúde, o que colaborou para apressar sua morte. Este, sim, deixa uma obra digna de ser chamada de humana. Em 75 anos de vida, publicou seis livros de poemas, 22 peças teatrais, um livro de ficção e nove não ficcionais, além de um filme. Havel será sempre lembrado como o bardo que devolveu a liberdade a seu povo, num ato histórico chamado de Revolução de Veludo. Mas ele tinha os pés no chão. Dizia que não havia nada mais significativo, durante os acidentes da história, do que as vozes dos poetas que se opõe a impérios e regimes militares. “As vozes de aviso de poetas – dizia ele –  devem ser cuidadosamente ouvidas e levadas muito a sério, talvez até mais sério do que as vozes dos banqueiros ou dos corretores bolsas. Mas, ao mesmo tempo, não podemos esperar que o mundo nas mãos dos poetas possa, repentinamente, ser transformado em um poema.” Cleto de Assis

ASSIM DEVE AGIR A HUMANIDADE – editoria / ilha de santa catarina

UM clique no centro do vídeo:

VIDA APÓS O NASCIMENTO OU MORTE? – autor não identificado / ilha de santa catarina

No ventre de uma mulher grávida estavam dois bebês. O primeiro pergunta ao outro:
– Você acredita na vida após o nascimento?
– Certamente. Algo tem de haver após o nascimento. Talvez estejamos aqui principalmente porque nós precisamos nos preparar para o que seremos mais tarde.
– Bobagem, não há vida após o nascimento. Como verdadeiramente seria essa vida?
– Eu não sei exatamente, mas certamente haverá mais luz do que aqui. Talvez caminhemos com nossos próprios pés e comeremos com a boca.
- Isso é um absurdo! Caminhar é impossível. E comer com a boca? É totalmente ridículo! O cordão umbilical nos alimenta. Eu digo somente uma coisa: A vida após o nascimento está excluída. O cordão umbilical é muito curto.
– Na verdade, certamente há algo. Talvez seja apenas um pouco diferente do que estamos habituados a ter aqui.
– Mas ninguém nunca voltou de lá, depois do nascimento. O parto apenas encerra a vida. E afinal de contas, a vida é nada mais do que a angústia prolongada na escuridão.
– Bem, eu não sei exatamente como será depois do nascimento, mas com certeza veremos a mamãe e ela cuidará de nós.
– Mamãe? Você acredita na mamãe? E onde ela supostamente está?
– Onde? Em tudo à nossa volta! Nela e através dela nós vivemos. Sem ela tudo isso não existiria.
– Eu não acredito! Eu nunca vi nenhuma mamãe, por isso é claro que não existe nenhuma.
– Bem, mas às vezes quando estamos em silêncio, você pode ouvi-la cantando, ou sente, como ela afaga nosso mundo. Saiba, eu penso que só então a vida real nos espera e agora apenas estamos nos preparando para ela…

JOÃOZINHO TRINTA entregou as moedas para o barqueiro, hoje / são luis.ma

“Carnaval é o único momento de realidade. Vá você fazer o carnaval de uma escola de samba no morro e pedir pro crioulo sair de escravo, ele te manda a pu… Porque escravo ele já é o tempo todo. Ele gosta é do luxo, ele quer ser príncipe e princesa, que na verdade, ele é e foi e tem o direito de continuar a ser” –  Joãosinho Trinta

AS MULHERES AO REDOR – por olsen jr / ilha de santa catarina.sc

Estou na cama. As dores provocadas por uma crise de gota não se justificam, uma vez que sequer estou bebendo, mas o médico me irá esclarecer. O que importa agora é a constatação de que os meus atos passaram a ser pautados pela presença invisível de várias mulheres…

Batem à porta. Vou manquitolando atender pensando que o médico chegou cedo. Para surpresa minha, recebo a visita do jornalista, Valdir Alves. Chega com duas garrafas de vinho. Um dos meus poucos amigos, o Valdir “é da casa” como se diz, explico a situação e volto para o quarto. Ele aparece em seguida, puxa uma cadeira e senta-se ao lado da cama. Vai bebendo o seu “Cassillero Del Diablo” enquanto relato o que me atormentava antes dele chegar: as mulheres!

Ele escuta com um sorriso malicioso e certo brilho no olhar, percebo que está interessado e exponho o tal assédio. “Veja o caso da Dolores, por exemplo, vem aqui em casa, é metódica, fica ali no pé da cama, à minha direita, quase imperceptível, preciso me esforçar por dar por ela; depois tem as gêmeas, Janice e Janete, são tímidas, me lembra a minha infância, quando chegavam pessoas estranhas, a gente corria para se esconder, pois bem, elas ficam ali atrás daquela porta de vidro, espiam, fazem algum ruído e crêem que me divirto com isso, não digo que não, mas é curioso; tem a Gioconda, mais pretensiosa, metida a intelectual, ela prefere aquele nicho entre o balcão e a escrivaninha, já a surpreendi bisbilhotando os meus escritos, faço que não sei, mas sei. Não gosto quando vem acompanhada das três filhas, que já apelidei de Lalá, Lelé e Lili, uma alusão às sobrinhas do Pato Donald, porque são enxeridas, ficam bulindo os tabuleiros de xadrez, aquele de vidro (que ganhei do Horácio Braun) e aquele artesanal (presente do artista Telomar Florêncio), preciso intervir, quando então “as queridinhas” se contentam em pular em cima do tapete aqui em frente da minha cama…”

O Valdir continua sorrindo e esperando para ver onde aquela conversa iria dar. Como não diz nada, continuo: “Aí vem a Domitila, caseira, prefere ficar lá na cozinha, não sai da frente do fogão, tudo bem se gosta disso, penso; mas a mais terrível é a Claudia Castañeda, não precisa rir, porque parece que ela está sempre “chapada”, demorei em entender que aquele era o “seu jeito”, e com todo o respeito, há muito deixei de pretender reformar o mundo, mas o “duro” são as amigas, a trupe quando resolve reunir-se em frente da televisão. Abstraindo a Dulcinéia que prefere a permanência ao lado da escultura do Dom Quixote na sala, as outras tartamudeiam todas ao mesmo tempo sem o menor decoro; a Angélica prefere o espaldar do sofá, esbaforida e barulhenta, a Genoveva, aristocrática só no nome, foi reprimida em outros tempos, mas ali se esbalda e parece que se multiplica; A Christininha, uma incógnita porque a chamo no diminutivo, parece três e açambarcar toda a mesa de centro quando resolve se manifestar. Quer saber? Parece um bando de peruas planejando um assalto…”

Nesse ínterim, a chuva recrudesce, ouvimos um estalo seco ao lado da cama. O Valdir indaga: “o que foi isso?”. Digo que é apenas o espraiar guloso de uma gota de água estatelando-se num pote de sorvete que ele não pode ver e concluo: “esta é a Dolores, de quem já falei, e que acaba de chegar”.

Ele começa a rir… Digo que todas as goteiras aqui em casa têm nome de mulheres…

Está rindo é? A coisa é séria. Dia desses uma amiga esteve aqui com o filho, e quando soube disso, pediu para ser homenageada. Pensei na goteira na sala que cai em cima de uma cadeira de couro e faz um som diferente. Disse a ela e que seria a primeira batizada com o nome de alguém conhecida: Georgia! Que bom afirma, assim você pode pensar em mim, lembrei do Ray Charles,e tasquei, claro, sempre: “Georgia on my Mind”!

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NOTAS:

A canção é essa, “Georgia on my Mind”,

Música de Hoagy Carmichael com letra de Gorvel Stuart (1930) que escreveu-a para a irmão de Hoagy, chamada Georgia Carmichael…

A letra, no entanto, foi suficientemente ambígua para se reportar tanto ao Estado da Georgia (USA) como a mulher chamada Georgia, que foi a homenageada pelo compositor…

Ray Charles a gravou em 1960.

A canção também foi reverenciada pelos Beatles em “Back in the USSR”, com o verso “A Georgia está sempre em nossa mente”, alusão ao RSS, da Georgia (Georgia Soviética)…

Muitos intérpretes gravaram a música, Billy Holiday, Aretha Franklin, Willie Nelson…

A minha versão favorita é a de um grupo sul-africano que fez muito sucesso na década de 1970, chamado “The Square Set”, gravou “Georgia on my Mind” em ritmo de rock… Eles também ganharam notoriedade pela canção “That’s what I want”… Infelizmente, por razões que desconheço, não consigo encontrar a dita cuja no Google… Tenho o compacto simples aqui comigo, uma preciosidade, mas é outra história…

Fica a versão do soul man, Ray Charles, clássica, se vocês me entendem…

http://www.youtube.com/watch?v=_3clBZqaA54&feature=related

 

OLSEN JR  é membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS.

Cultura: do pensamento para o entretenimento – por almandrade / salvador.ba

Nada mais desprezível e repetitivo do que certas falas sobre cultura que jorram nos congressos, seminários, na mídia, hoje em dia. A impressão é que houve uma perda da capacidade de produzir pensamento e a ausência de platéias seduzidas pela reflexão. Não se interroga a produção simbólica, faz-se reivindicações, relatos, comentários para animar um auditório acostumado ao olhar da televisão. Se algum dia na história, o filósofo, o intelectual, o crítico, o artista, o poeta ocupavam o lugar privilegiado de formar opinião, hoje, esse lugar é ocupado pelo produtor, o empresário cultural, o profissional de marketing. E a cultura é vista apenas como um agente de estímulo da economia de uma sociedade em declínio.

 

O discurso fica na superficialidade. Que a cultura é um bem de consumo, ninguém duvida, gera emprego, garante retornos significativos para a economia de uma cidade. Mas os profissionais do marketing, os políticos e os empresários ignoram na cultura a sua lógica: a do sentido, que ela é uma dimensão da existência do homem. “O que chamamos ‘cultura’, portanto é a ciência e a consciência com que o homem ocupa o espaço e o tempo de sua morada histórica. E o homem culto é aquele que cultiva essa ciência e essa consciência.” (Gerardo Mello Mourão). A cultura é um conjunto de práticas por onde transitam uma autonomia, a experiência de uma saber e uma política específica. O patrocínio, que substituiu o antigo mecenato, reduziu os problemas da cultura às leis da economia e o poder do patrocinador acabou decidindo sobre padrões estéticos ou linguagens. Há uma valorização arbitrária de um produto cultural em detrimento de outro e a divulgação fica submetida a um jogo de poder de quem manipula direta ou indiretamente com os mídias e o mercado.

 

Somente com talento e invenção é difícil competir no mercado. Os profissionais que ganharam celebridade através do marketing cultural animam o espetáculo que faz da cultura um supermercado de entretenimentos. “Nos meios de comunicação, a confusão que se estabelece entre o princípio tradicional de celebridade baseado nas obras, e o princípio midiático baseado na visibilidade da mídia é cada vez maior.” (Pierre Bourdieu). A cultura passa a ser apenas o que ela representa no campo da economia e da diversão. Enquanto se discute as leis de incentivo à cultura, não se discute a idéia de cultura e as instituições culturais não cumprem o papel de difundir um princípio de cidadania cultural. Uma política cultural indecisa, calcada em princípios pouco profissionais que desprezam ou desconhecem o fazer e suas materialidades específicas. E sem trabalhos, sem críticas, sem um suporte que sustente a formação e a divulgação da informação não vamos construir nenhuma credibilidade cultural. “A arte age e continuará a agir sobre nós enquanto houver obras de arte” (Merleau-Ponty). E não discursos sobre as obras.

 

Uma cidade, um Estado, um País passam a ter uma existência cultural e conquistam um reconhecimento no futuro quando aprendem a respeitar seus artistas e intelectuais, quando aprendem a conviver e garantir as disparidades culturais. Entendemos que as instituições culturais como fundações, universidades, museus etc. têm um papel importante a cumprir na produção e divulgação da informação dos produtos artísticos acima de compromissos pessoais e políticos que ignoram a natureza das linguagens artísticas. “No curso de grandes períodos históricos, juntamente com o modo de existência das comunidades humanas, modifica-se também seu modo de existir e perceber” (Walter Benjamin). A produção cultural participa dessas mudanças com a tarefa de transformar a realidade dentro de um território determinado da sociedade e do pensar onde a cultura age.

 

 

Almandrade

(artista plástico, poeta e arquiteto)

ETTA JAMES interpreta seu sucesso AT LAST

UM clique no centro do vídeo:

 

“PRIVATARIA TUCANA” esgota-se em 4 dias, é o best seller de 2011/12. Veja a entrevista de AMAURY RIBEIRO JR

o jornalista AMAURY RIBEIRO JUNIOR concede entrevista ao jornalista PAULO HENRIQUE AMORIM, veja:

UM clique no centro do vídeo:

A LEITURA NÃO É UM HÁBITO – por jorge lescano / são paulo


 

 

Hábito, subs. Masc: disposição duradoura adquirida

pela repetição freqüente de um ato; uso; costume.

Novo Dicionário Aurélio.

 

Eu sou afeiçoado a ler até os papéis rasgados das ruas

Miguel de Cervantes: Don Quixote

 

Hábito é enfiar o dedo no nariz,

a leitura é um trabalho intelectual.

Livro das cinzas e do vento

Sem pretensões de escrever uma tese acadêmica, uma vez que estas estão viciadas pelas normas do discurso universitário, das quais afortunadamente estou livre, gostaria de expor a minha visão do ato da leitura.

Atualmente conto mais de meio século de leituras anárquicas, isto é, livres de qualquer controle e direção a não ser o meu interesse e o meu gosto. Assim que fui alfabetizado descobri a leitura e o livro que se tornaram meus companheiros pela vida afora. Se a escrita-leitura está condicionada pelo entorno social, não se pode negar que também o indivíduo leitor, com todas as suas particularidades, físicas inclusive, faz parte do processo que denominamos leitura e que vai muito além da decodificação de signos gráficos.

Através do texto dois sujeitos se defrontam. O autor, que também é um leitor, e o leitor-autor de novos e imprevistos significados. Duvido que exista leitura errada, no máximo poderá haver leitura deficiente, leitura que não atinge todo o conteúdo do texto.

Ler é como andar, como falar. Quando a criança começa a falar e não consegue pronunciar como os adultos, se diz que fala errado. Grande injustiça! Quando anda feito um palmípede porque o tamanho do pé não permite a flexão e ainda estende os braços como asas para manter o equilíbrio, ninguém diz que anda errado. Todos reconhecem que anda segundo as suas possibilidades e até festejam cada nova conquista de terreno.

O meu campo de experimentação, por assim dizer, é o texto ficcional. A arte é de um modo geral um campo de experimentação. Nela podemos vivenciar idéias sentimentos e sensações de forma explícita sem correr qualquer risco. Interpretar “mal” uma situação ou um personagem literário não põe em risco a vida de ninguém, já ler deficientemente uma fórmula de química pode fazer a casa voar. A releitura do bom texto literário sempre acrescerá novas informações, interpretações e sentidos.

Confunde-se muitas vezes a quantidade com a qualidade. Um bom leitor é, para a maioria das pessoas, alguém que lê muito (?), que possui vasta biblioteca, real ou virtual em tempos de internet. Creio que um grande leitor pode ser o leitor de um único livro durante toda a vida. Alguns exemplos literários podem ilustrar esta idéia.

No romance L’Étranger, de Albert Camus, traduzido como O estrangeiro (deveria se chamar O estranho: a obra trata do estranhamento do protagonista em relação a si mesmo e não há qualquer estrangeiro na história, mas isto é tema para outra nota), Meusrault, seu protagonista, preso por haver matado um homem, encontra na cela uma folha de jornal na qual se narra a morte de um homem por sua mãe e irmã. Devo ter lido esta história milhares de vezes, diz. O caso o leva a refletir profundamente sobre a falta de sentido da vida e chega à conclusão de que bastaria viver um dia para ocupar o resto da vida com as lembranças. O próprio Camus deve ter pensado muito nisso, a notícia deu origem a sua peça dramática O mal entendido. Se Meusrault tivesse mais material de leitura talvez se distraísse e o seu pensamento poderia vagar sem rumo; nunca saberemos, a obra não nos dá qualquer pista a respeito.

Yannes, garimpeiro grego na Amazônia venezuelana, carrega como único pertence um exemplar da Odisséia, este é suficiente para preencher suas necessidades intelectuais. Isto acontece em Os passos perdidos, romance do cubano Alejo Carpentier. O autor não dá informações sobre o resultado dessas leituras e garante que o personagem é real. Real também é o fato mencionado por Camus.

Pierre Menard, autor do Quixote, de Jorge Luis Borges, é obra exemplar sobre a leitura. O personagem, leitor de Cervantes e poeta simbolista, decide escrever (não reescrever) o Don Quixote. Não queria compor outro Quixote – o que é fácil – mas o Quixote. Borges ilustra a idéia de que o leitor pode (talvez deva) ser o verdadeiro autor da obra. A leitura, diz, é um trabalho mais demorado, mais intelectual que a escrita.

Costumo dividir a leitura em três estágios básicos: o informativo, no qual o texto revela seu conteúdo imediato, seu significado semântico; o estrutural ou crítico, onde o leitor lê o corpo do texto, não apenas o nível gramatical ou sintático, mas onde reconhece outros elementos, tais como a ação, tempo, lugar e personagem, elementos básicos de qualquer narração e sem os quais nada pode ser narrado; finalmente o nível criativo, aqui o leitor mudou a sua natureza, ele é co-autor do texto. Ler é recriar o texto. É lugar comum dizer que um livro sem leitura é letra morta. Nada mais verdadeiro. Cada leitor recria o texto com suas próprias experiências, projeta sobre a obra o seu repertório único, intransferível, neste sentido ele já está escrevendo, já é um escritor. Pierre Menard é o paradigma deste estágio.

Mais de uma vez vi andarilhos parando para ler uma folha de papel jogada na rua. (Não devia haver muitas na época de Cervantes.) O caso é intrigante: o que procura esse leitor? Creio que não seja informação. Provavelmente não se importou em verificar a data de publicação. Penso que está exercendo o famigerado hábito da leitura preconizado por editores, críticos, professores, livreiros, jornalistas, curadores de feiras de livros e eventos afins e até escritores. Sim, uma vez superado o estágio de leitura com os lábios, surge o hábito de leitura, isto é, um reconhecimento compulsório do texto. Nos grandes centros urbanos é fácil verificar que lemos de forma impensada, contínua, quando andamos pela rua. Todo texto é reconhecido automaticamente, sem crítica e dificilmente fica registrado na memória. Isto é um hábito, será uma leitura?

Incentivar o hábito da leitura não será reforçar o hábito de consumo, substituir a qualidade pela quantidade? Se assim for, pode-se dizer que o hábito da leitura é bom para os negócios.

Estas são observações avulsas de um autodidata sem qualquer repertório epistemológico, como o leitor atento pode perceber, mas que não se considera vítima do hábito da leitura.

Dor em salva – de omar de la roca / são paulo

 

 

A líquida curva cristalina,

o céu azul de mar ascenso

presenciam tudo.O encontro,a ameaça.

A neblina na alma, pé no chão descalço.

O mar profundo e o céu profundo se encontram

dentro de mim e me esvaziam de toda possibilidade.

A impossível possibilidade,

a impassível  passividade.

Pedras cortando, fio de prata zunindo.

O esquecimento da euforia ,

a despedida das lembranças.

A impotência de nada fazer.

Nada poder fazer senão aceitar.

Aceitar tudo.Esperar tudo.

A esperança, a espuma que volta,

o som das ondas que cessa,

Aceitar a água alta que bate forte por dentro.

Cumprir o ritual, linha a linha,

sem retorno.

Ainda a esperança que aos poucos se esvai.

A areia fofa,as pedras,a onda quebrando a pedra,

A tempestade que dilui todo o cinza em mais cinza

A névoa que encobre tudo e tudo revela

Mãos que trazem conchas, algas,veneno e cura.

A dor em salva.

fitas coloridas, roupas brancas,

a dor que nada poupa.

Segredos,religião única ,

o ar que falta.

Ardor que a nada salva.

A luz do farol que nada ilumina.

Múltiplos credos, sabores, cores vibrantes, Bonfim,

fontes e fortes.

Nada mais importa.Tudo importa .Tudo passa.

Mas tudo fica,que a imaginação não para.

A imaginação segue seu caminho.

Sem rumos, sem freios e sem fronteiras.

Ad infinitum.

Querendo voltar ao abismo solar, amarelo,límpido.

Querendo voltar no tempo, impossível tempo,

que a tudo vê,sempiterno.Sempre vivo.

Mas que inexiste quando os segundos congelam.

 

Regina Braga: “Somos todos bissexuais”


Casada há trinta anos com o médico Dráuzio Varella e mãe de Gabriel Braga Nunes, atriz conta que “se envolve com mulheres todos os dias”

Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro 28/07/2011 11:40


O que para alguns é polêmica, para Regina Braga é assunto corriqueiro. Não só porque ela está em cartaz há dois meses em São Paulo com uma peça que aborda a vida da poetisa americana Elizabeth Bishop, lésbica assumida. Para a atriz, a opção sexual não é tabu. “Eu acho que nós somos, o ser humano em geral, somos bissexuais. Eu sou bissexual, qual é o problema?”, afirma ela.

Casada há trinta anos com o médico Dráuzio Varella, ela não vê problema algum em lidar com isso. “Eu vivo com ele. Eu não escolhi viver com uma das minhas amigas. E ele está feliz com isso. E eu também”, diz, categórica.

A atriz está em cartaz em São Paulo com a peça “Um porto para Elizabeth Bishop”, sobre a estadia da poetisa americana por longos quinze anos no Brasil. Mesmo texto que ela apresentou, com igual sucesso, dez anos atrás. Em novembro, estréia no Solar de Botafogo, no Rio. Em breve volta à TV (sua última participação foi em “Tititi”), como uma fazendeira viúva na série “As Brasileiras”, na qual viverá um romance contra a aceitação da filha, interpretada pela Sandy Lima.

Em conversa exclusiva com o iG, Regina também comentou que não assiste às maldades do seu filho,Gabriel Braga Nunes, em “Insensato Coração”. “Me senti mal muitas vezes vendo esta novela”, diz.

iG: Elizabeth Bishop, ao chegar ao Brasil, tem uma visão meio Carlota Joaquina de tudo que vê. Como ela muda de ideia e se apaixona pelo País?
Regina Braga:
 Carlota Joaquina dos nossos tempos (risos)! Ela chega no porto de Santos, em dezembro, e acha tudo horrível. Tem um poema no qual ela descreve aqueles morros todos. Come um caju em Petrópolis e fica doente, pega uma alergia, e se interna no Rio. Fica apavorada, acha tudo corrupto, desorganizado, feio, provisório… Mas aí ela sente nosso calor humano, começa a tomar banhos de cachoeira, e aí se tornou uma poeta muito melhor.


“Depende das circunstâncias, a gente pode ser expressamente gay ou não”

iG: Qual é o grau de importância, a seu ver, de Elizabeth na poesia americana? 
Regina Braga: Só os mais intelectuais a conheciam. Mas ultimamente teve milhares de livros sendo lançados pelo mundo, tudo sobre ela… Teve um americano que esteve na Flip, o Michael Sledge, Ele lançou “A arte de perder”, baseado na vida e obra dela. Elizabeth foi amiga pessoal de Vinicius de Moraes e Manoel Bandeira. Adorava Drummond, conhecia João Cabral de Melo Neto. Ela era poeta revolucionária nos Estados Unidos.

“Se quisesse viver com uma mulher, poderia”

iG: E como é sua ligação com a poesia?
Regina Braga:
 Elizabeth me aproximou mais desse universo. Gosto dessa estranheza que ela tinha ao descrever o que via. “Eis uma costa/ Eis um porto…”. Ela te pega pela mão e começa a mostrar o que está vendo.

iG: O público expressa alguma reação negativa pelo fato de a personagem da peça ser lésbica?
Regina Braga: 
Há dez anos trás, era muito pior, sabia? As pessoas vinham me perguntar: ‘como é que você faz para fazer uma gay?”. Gente, como se isso fosse de um universo tão distante! Eu falava ‘mas que isso. Você está falando do quê?’. Como se fosse um ser diferente, sabe? Eu sinto que, pela reação de vários casais, a maioria sendo casais de mulheres, que vinham me procurar depois da apresentação, dizendo ‘muito obrigada pelo respeito que você está lidando com este tema’. Respeito? Então quer dizer que as pessoas não estavam acostumadas a serem tratadas com respeito.

iG: Você ainda sente a sociedade careta em relação a este assunto?
Regina Braga:
 Tem nichos caretas. Mas quanto mais se discutir, melhor.

iG: Onde o público lida melhor com esta temática: na TV ou no teatro?
Regina Braga:
 Tem que ser falado em geral. Tem que ser levado a sério. Tinha uma época que só aparecia gay no Brasil para fazer piada sexual, totalmente caricatura, um deboche. Para fazer rir os imbecis. Piada de sexo é para imbecil.


“Eu vivo com ele (Dráuzio). Eu não escolhi viver com uma das minhas amigas. E ele está feliz com isso. E eu também”

iG: Como quebrar este tabu? 
Regina Braga: Quebrar? Este termo dá ideia de bater e quebrar, no sentido de ser uma coisa agressiva. Talvez não seja quebrando, mas abrindo para conversas. Quanto mais informação as pessoas tiverem, mais educação e pensamentos ela terá para contrapor a realidade e rever a história.

iG: O que te leva a declarar a sua opção sexual?
Regina Braga: 
Sinceridade. Eu acho que nós somos, o ser humano em geral, bissexual. Eu sou bissexual, qual é o problema? Depende das circunstâncias, a gente pode ser expressamente gay ou não. Mas que todo mundo tem isso dentro da gente, ah, isso tem.

iG: Como você se deu conta disso?
Regina Braga:
 Temos que falar mais abertamente dessas coisas, tem que se tornar mais público. Não pode ficar só nestas coisas rasas. Achei importante ser sincera. Sinto isso em geral nas pessoas, tem que se desenvolver mais isso. Todo mundo é bissexual. E pode ficar homo ou não. Isso é secundário.

iG: Como sua bissexualidade aflora? Já se envolveu com mulheres?
Regina Braga:
 Eu me envolvo todos os dias. Todos os dias tenho várias paixões na minha vida. Tenho muitas amigas íntimas. Tenho esta sensação de que posso escolher o que eu quiser. Se eu quisesse viver com uma mulher eu poderia.

iG: O que o Dráuzio acha disso?
Regina Braga: 
Ele sabia desde sempre… Eu vivo com ele. Eu não escolhi viver com uma das minhas amigas. E ele está feliz com isso. E eu também.

iG: Você sofreu preconceito em algum momento da vida, por pensar e falar disso abertamente?
Regina Braga:
 Para falar a verdade, não (pausa). Ao contrário, sinto que as pessoas estão ávidas por quererem se ampliar. É claro que eu devo frequentar ambientes bem mais abertos que muita gente. De forma geral, em relação a esta questão gay, tão enraizada na humanidade, quando converso com as pessoas sobre isso, elas percebem como é normal. Mas tem casos lamentáveis, sempre.


“Me senti mal muitas vezes vendo Gabriel em ‘Insensato Coração’”

iG: Como quais, por exemplo? 
Regina Braga: Como aquele em que pai e filho foram confundidos com casal homossexual e foram agredidos. Isso é grupo terrorista!

iG: Você está com 62 anos. Sua relação com o sexo mudou depois dos 60?
Regina Braga:
 Sexo na terceira idade? (risos) Olha, aqui em casa está sendo possível (risos). É normal quando as pessoas estão em boa saúde. O sexo fica com elas até o fim.

A atriz diz que não gosta de assistir ao sofrimento do personagem do filho na novela

iG: Há quanto tempo está casada?
Regina Braga:
 Há trinta anos. Muito tempo, né? É bom, bom mesmo! Meu segundo casamento. No primeiro, fiquei dez anos casada com o pai do Gabriel e da Nina, que é fisioterapeuta. Ela tem duas crianças pequenas. Gabriel é um ano mais velho que ela.

iG: Tem acompanhado as cenas do Gabriel em “Insensato Coração”?
Regina Braga:
 Me senti mal muitas vezes vendo esta novela. Quando ele está por cima, costumo assistir melhor. Aquele jeito psicopata de ser é interessante. Mas agora, que ele tem sofrido, não gosto de ver, não. Logo no começo da novela tinha um acidente de moto, fiquei com as imagens na cabeça. É o meu filho, é a cara dele ali. Evito ver.

iG: Já teve pesadelo com o Léo (personagem do Gabriel)?
Regina Braga: 
Pesadelo ainda não. Mas olha só, Dráuzio uma vez viu alguém apontando o revólver na cabeça dele, numa dessas cenas da novela. De noite, ele não conseguiu dormir. Só pensando no Gabriel com o revólver mirado na cabeça. A gente fica com estas imagens, isso não é bom. Me incomoda muito este tipo de cena.

JESUS APARECIDO DA SILVA, EM AÇÃO – de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

JESUS APARECIDO

DA SILVA, EM AÇÃO

 

 

Estive com Jesus

na Assembléia dos Sábios

Consagrados pelo Governo

Jesus em pé encostado

numa coluna dórica

ouvia à todos em silêncio

:no silêncio mais profundo: 

opfshneoim

Jhejkfdnj

após todas as falas

Jesus :lux em esplendor:

tomou a tribuna e

sua voz fez-se presença

nos espaços lídimos do templo

Jesus vestia uma túnica de

juta branca pontilhada de finos

bordados e grossos remendos que lembravam

manchas pictóricas fauves

Jesus estava magro muito magro

acometido de gastrite

mas doce e manso como

sói poderia ser Jesus naquele dia

engoliu um comprimido

de leite de magnésio ellephilips

para alívio da dor na boca

do duodeno

a voz comum de Jesus

emanava altissonante      

primeiro falou das sementes

dos brotos das folhas

dos frutos tenros

da grande árvore da sabedoria

e deu pra ver as oliveiras

      cheias de olivas

      pingentes de maduras

:caminhantes noctívagos: saciados e adormecidos sob os galhos das ditas árvores imaginadas e que se podiam ver

após partilhou Jesus os pães e

os peixes com os presentes

:visão premonitória de Jesus:

da futura sociedade

que habitaríamos

visão de fartura exposta

                                      Jesus era realidade

                                      e era sonho era

                                      objetividade plena

e metáfora poética incorporada

:fluído simbólico apto a dizer

e denotar o mundo:

Jesus falou da vida

e da morte falou de fatos

atos trabalho saúde

alimento transporte educação

salário linguagem e pensamento

Jesus declamou poemas

cheirando à couro e deserto

poemas de estar na terra e no céu poemas de mansidão e conflitos                                                       alegria e tristeza                                                      Jesus decodificou hieróglifos nas pedras que trazia

pedras que o enganaram muitas

vezes pedras que o enganariam

para sempre e Jesus ainda não sabia 

depois descreveu os oceanos abissais e os rios

até o nosso :superamazonas:

  enfocou rio tomado de verde pra todos os lados falou dos peixes que os habitam peixes peixes muitos peixes :escamas-vidas:

peixes sempre multiplicados em míriades de incalculáveis cardumes

                                             contares infinitos:

   Jesus dispensou

o ábaco ou a máquina de somar com pedras pedrilhos

pois os números ficaram imensuráveis

tantos os peixes existidos no mar

e nos rios que falara mas que

o deserto não oferecia senão gafanhotos

pequenos gafanhotos lêmptos de cor amarelo-cinza gafanhotos que na véspera alimentaram São João Batista

Jesus não tinha mesmo muita fome

que a vida a ideologia pregada

o consumia no amar no pensar orientar e subverter o superpoder

estabelecido

Jesus absolutamente não

tinha muita fome

não se preocupe fora de tempo

Jesus nunca teve fome

a louca fome que sempre tivemos temos

Jesus orou com a

leveza de anjos azuis

 como pescador como operário de chãos  arenosos e de cal pedras britas carvões em minas

 ferros e cimentos

 Jesus expôs sentenças

 que a todos pareciam conhecidas e no entanto nunca as tinham ouvido lido nos papyros seculares

Jesus escondia as pequenas

pedras-eclipsemas mais

importantes sob a túnica

numa espécie de bolso

onde algumas moedas

                                     repousavam inúteis

Jesus falou com as

palavras-lagartas vivas que sabia

palavras simples tiradas

do dicionário do deserto

dicionário

de tempos de cogito solitário

nos amplos espaços de vento e areia

ventos e areias

Jesus suspenso no ar

em andaímes descomunais

tapumes cordas

ou cipós-açus

Jesus tinha os cabelos thurvos de areias pós brancos de cal

e cimento :resíduos

de britadeira: e ventos

o corpo suado e sujo das andanças e labores

no transfim a esmo

ou a conduzir magistrtal os rebanhos orientados pelo amor 

Jesus lívido etéreo

os olhos fixos num ponto acidental nas amplas

paredes como se

não enxergasse as pessoas

que na Assembléia dos Sábios Consagrados pelo Governo

os lábios de Jesus no

sadio movimento da fala tresandados tresandando Jesus semiótico Jesus poeta de cristal Jesus arauto dos novos tempos Jesus singelo adornado de precioso saber Jesus filósofo Jesus teólogo Jesus pai Jesus filho Jesus Maria Jesus irmão Jesus ideólogo Jesus messiânico Jesus político Jesus líder sindical Jesus professor Jesus enfermeiro Jesus advogado

:não: Jesus legisferante

Jesus cristão Jesus profano

Jesus Jesus

sua voz crescia

nos largos espaços do Templo Consagrado

à Sabedoria e ao Espírito Elevado os sábios no

máximo

assentiam com as cabeças

nenhum

importuno a contraditar alucinado as preleções

inusitadas de Jesus os vendilhões do templo

cairam em si e armaram feiras à beira dos caminhos depois da última que Jesus lhes aprontou 

impávido Jesus tratou das   relações dos homens entre homens sistemas e organismos

da sobriedade das estruturas frias da matéria do essencial do lixo

das mãos estendidas do amor em todas suas variantes:

amor dos beats amor hippie amor dândi amor business amor vertigem amor platônico amor nativo amor a deus amor proletário amor fraterno amor paterno amor materno

amor de   ficar amor de amar amor do amor em si

Jesus calou os sábios o canto hipnótico que

a cigarra funda: eu ali

high tec assim senti o saber

no espírito dos tempos a voz

do espírito santo o pathos do

canto o transe da voz inaugural dos novos tempos

um tempo de mãos unidas na

mesma senda de viver a vida

amar e laboriar para o futuro

:futuro o que persigo como poeta:

arrisquei um aparte na fala de Jesus ‘Jesus… sou poeta e os pulhas…

‘todos são

filhos de deus’ corrigiu-me impiedoso Jesus

e completou que esperasse paciente ‘o beijo do tempo’

que

‘nada era

de se antecipar’ nas

minhas tolas pretensões de ser

mais blasfemei sobre tantas

coisas

por não ter conseguido isso

e aquilo

Jesus

comiserado outra vez negou  minhas vãs pretensões de ser

‘mas Jesus Jesus…’

e Jesus ‘o filho do pai

que não acata a lição dos tempos não

merece sonhar não merece crescer

tua voz aparecerá quando for preciso

não corra na frente do signo

não adiante o pensamento

sem necessidade. A flor nasce

e morre no tempo certo

o vento espalha pétalas nos

espaços arbitrários

quando há nathural exigência

tens signos interiores de luz signos

ainda contidos que

devem ficar contigo no rebanho in constructo

da grande obra

dê tempo ao tempo

tempo aos ventos do

espalhar de pétalas da flor-

poética bruta que és’.

Tive que sair às pressas

antes que a turba me agredisse.

De fora do templo ainda ouvi Jesus finalizar

seu discurso dizendo que era ‘Jesus Aparecido da Silva

sindicalizado pedreiro alagoano desempregado

analfabeto sete filhos RG n.º 1880.521-4 IIDF

CTPF n.º 15582 série 276, residente em Estripulândia

cidade satélite de Brasília’.

A Justiça Brasileira! – de naldo souza / ilha de santa catarina.sc

 

Isso foi exibido em todos os telejornais noturnos na quinta feira.
Paulo, 28 anos, casado com Sônia, grávida de 04 meses, desempregado há dois meses, sem ter o que comer em casa foi ao rio Piratuaba-SP a 5km de sua casa pescar para ter uma ‘misturinha’ com o arroz e feijão, pegou 900gr de lambari, e sem saber que era proibido a pesca, foi detido por dois dias, levou umas porradas. Um amigo pagou a fiança de R$ 280,00 para liberá-lo e terá que pagar ainda uma multa ao IBAMA de R$ 724,00. A sua mulher Sônia grávida de 04 meses, sem saber o que aconteceu com o marido que supostamente sumiu, ficou nervosa e passou mal, foi para o hospital e teve aborto espontâneo. Ao sair da detenção, Ailton recebe a noticia de que sua esposa estava no hospital e perdeu seu filho, pelos míseros peixes que ficaram apodrecendo no lixo da delegacia.

Quem poderá devolver o filho de Sônia e Paulo?

Henri Philippe Reichstul, de origem estrangeira, Presidente da PETROBRAS. Responsável pelo derramamento de 1 milhão e 300 mil litros de óleo na Baía da Guanabara. Matando milhares de peixes e pássaros marinhos. Responsável, também, pelo derramamento de cerca de 4 milhões de litros de óleo no Rio Iguaçu, destruindo a flora e fauna e comprometendo o abastecimento de água em várias cidades da região. Crime contra a natureza, inafiançável.

Este camarada encontra-se em liberdade e pode ser visto jantando nos melhores restaurantes do Rio e de Brasília.

CHINA COMUNISTA, vira DITADURA de partido único CAPITALISTA. QUEM DIRIA!

11/12/2011 – 08h04

China pede para ser reconhecida como economia de mercado

 

DA EFE, EM PEQUIM

 

O presidente da China, Hu Jintao, pediu neste domingo que o mundo reconheça o país plenamente como economia de mercado e relaxe as restrições na exportação de alta tecnologia ao país, durante um discurso para comemorar o décimo aniversário do ingresso de Pequim na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Hu ressaltou que a entrada da China no bloco, a sexta maior economia mundial em 2001 e segunda na atualidade, “foi um marco no processo de reforma e abertura” do regime comunista, iniciando “uma nova etapa histórica” para a potência asiática.

No discurso, o líder destacou que o país continuará a reforma e abertura de sua economia e porá em prática estratégias mais ativas para promover os intercâmbios com o resto do mundo.

A China ingressou na OMC no dia 11 de dezembro de 2001, o mesmo dia em que também o fez seu histórico rival Taiwan, e após um árduo processo de 15 anos de negociações.

PRIVATARIA TUCANA: LIVRO-DENÚNCIA TRAZ BASTIDORES ESPANTOSOS DE UMA ERA DE ESCÂNDALOS E CORRUPÇÃO


Com 200 páginas e 16 capítulos que jamais deixam cair seu contundente interesse, PRIVATARIA TUCANA é o resultado final de anos de investigações do repórter Amaury Ribeiro Jr. na senda da chamada Era das Privatizações, promovida pelo governo Fernando Henrique Cardoso, por intermédio de seu ministro do Planejamento, ex-governador de São Paulo, José Serra. A expressão “privataria”, cunhada pelo jornalista Elio Gaspari e utilizada por Ribeiro Jr., faz um resumo feliz e engenhoso do que foi a verdadeira pirataria praticada com o dinheiro público em benefício de fortunas privadas, por meio das chamadas “offshores”, empresas de fachada do Caribe, região tradicional e historicamente dominada pela pirataria.

Essa “privataria” toda foi descoberta num vasto novelo cujo fio inicial foi puxado pelo repórter quando ele esteve a serviço de uma reportagem investigativa, encomendada pelo jornal “Estado de Minas”, sobre uma rede de espionagem estimulada pelo ex-governador paulista José Serra para levantar um dossiê contra o ex-governador mineiro Aécio Neves, que estaria tendo romances discretos no Rio de Janeiro. O dossiê teria a finalidade de desacreditar o ex-governador mineiro na disputa interna do PSDB pela indicação ao candidato à Presidência da República, e levou Ribeiro Jr. a uma série de investigações muito mais amplas, envolvendo Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-tesoureiro das campanhas de José Serra e Fernando Henrique Cardoso, o próprio Serra e três de seus parentes: Verônica Serra, sua filha, o genro Alexandre Bourgeois e o primo Gregório Marín Preciado. Serra e seu clã são o assunto central do livro, mas as ramificações e consequências sociais e políticas das práticas que eles adotam são vastas e fazem com que o leitor comum fique, no mínimo, estupefato.

Sem dúvida, o brasileiro padrão, mediano, que paga seus impostos, trabalha dignamente e luta pela vida com dificuldades imensas estará longe de compreender o complexo mundo de aparências e essências, fachadas e bastidores da corrupção política e empresarial, e toda a sofisticação desses crimes públicos que passam por “lavanderias” no Caribe, e, neste caso, o estilo objetivo e jornalístico de Amaury Ribeiro Jr. é de grande ajuda para que as ações pareçam inteligíveis para qualquer pessoa mais instruída.

Um dos principais méritos do livro é descrever toda a trajetória que o dinheiro ilícito faz, das “offshores” a empresas de fachadas no Brasil, e da subsequente “internação” desse dinheiro nas fortunas pessoais dos envolvidos. Neste ponto, o livro de Ribeiro Jr., embora não tenha nada de fictício, segue a trilha de livros policiais e thrillers sobre corrupção e bastidores da política, já que o leitor pode acompanhar o emaranhado e sentir-se recompensado pelo entendimento. O livro, aliás, tem um início que de cara convida o leitor a uma grande jornada de leitura informativa e empolgante, revelando como Ribeiro Jr., ao fazer uma reportagem sobre o narcotráfico na periferia de Brasília, a serviço do “Correio Braziliense”, sofreu um atentado que quase o matou e, descansando desse atentado, voltou tempos depois a um jornal do mesmo grupo, “O Estado de Minas”, para ser incumbido de investigar a rede de espionagem estimulada por Serra, mencionada no início. É o ponto de partida para tudo.

O que este PRIVATARIA TUCANA nos traz é uma visão contundente e realista como poucas dos bastidores do Brasil político/empresarial. O desencanto popular com a classe política, nas últimas décadas, acentua-se dia após dia, e um livro como este só faz reforçá-lo. Para isso, oferece todo um manancial de informações e revelações para que o leitor perceba onde foi iludido e onde pode ainda crer na humanidade, pois, se a classe política sai muito mal, respingando lama, dessas páginas, ao menos o jornalismo investigativo, honesto e necessário, prova que os crimes de homens públicos e notórios não ficam para sempre convenientemente obscurecidos. Há quem os desvende. E quem tenha coragem de revelá-los.

A ARTE DE ALMANDRADE É TEMA DE EXPOSIÇÃO NA CAIXA CULTURAL DE SÃO PAULO


 

Mostra documenta cerca de 40 anos de arte do artista plástico baiano


Entre os dias 03 de dezembro de 2011 e 26 de fevereiro de 2012 estará em exposição na Caixa Cultural SP a mostra “Almandrade – esculturas, objetos, pinturas, desenhos, instalação e poemas visuais”. Esta exposição tem caráter comemorativo e documenta cerca de 40 anos de arte do artista plástico Almandrade. A entrada é franca.

Esta exposição é um recorte do seu trabalho elaborado em mais de três décadas de utilização do objeto de arte para estimular o pensamento e provocar a reflexão, segundo critério fundamentados na racionalidade, na materialidade e, não por acaso, na economia de dados, sem deixar que conceitos sobreponham ao fazer artístico. Almandrade compromete-se com a pesquisa de linguagens artísticas que envolve artes plásticas, poesia e conceitos. No percurso do artista, destaca-se a passagem pelo concretismo e a arte conceitual, nos anos 70, o que contribuiu fortemente com a incessante busca de uma linguagem singular, limpa, de vocabulário gráfico sintético. De certa forma, um trabalho que sempre se diferenciou da arte produzida na Bahia.

O trabalho de Almandrade, tanto pictórico quanto linguístico, vem se impondo, ao longo de todos esses anos, como um lugar de reflexão, solitário e à margem do cenário cultural baiano. Depois dos primeiros ensaios figurativos, no início da década de 70, conquistando uma Menção Honrosa no I Salão Estudantil, em 1972, sua pesquisa plástica se encaminha para o abstracionismo geométrico e para a arte conceitual. Como poeta, mantém contato com a poesia concreta e o poema/processo, produzindo uma série de poemas visuais. Com um estudo mais rigoroso do construtivismo e da Arte Conceitual, sua arte se desenvolve entre a geometria e o conceito. Desenhos em preto-e-branco, objetos e projetos de instalações, essencialmente cerebrais, calcados num procedimento primoroso de tratar questões práticas e conceituais, marcam a produção deste artista na segunda metade da década de 70.

 

Redescobre a cor no começo dos anos 80 e os trabalhos, quer sejam pinturas ou objetos e esculturas, ganham uma dimensão lúdica, sem perder a coerência e a capacidade de divertir com inteligência.

 

Um escultor que trabalha com a cor e com o espaço e um pintor que medita sobre a forma, o traço e a cor no plano da tela. A arte de Almandrade dialoga com certas referências da modernidade, reinventando novas leituras.

 

ALMANDRADE

(Antônio Luiz M. Andrade)

Artista plástico, arquiteto, mestre em desenho urbano e poeta. Participou de várias mostras coletivas, entre elas: XII, XIII e XVI Bienal de São Paulo; “Em Busca da Essência” – mostra especial da XIX Bienal de São Paulo; IV Salão Nacional; Universo do Futebol (MAM/Rio); Feira Nacional (S.Paulo); II Salão Paulista, I Exposição Internacional de Escultura Efêmeras (Fortaleza); I Salão Baiano; II Salão Nacional; Menção honrosa no I Salão Estudantil em 1972. Integrou coletivas de poemas visuais, multimeios e projetos de instalações no Brasil e exterior. Um dos criadores do Grupo de Estudos de Linguagem da Bahia que editou a revista “Semiótica” em 1974. Realizou cerca de vinte exposições individuais em Salvador, Recife, Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo entre 1975 e 1997; escreveu em vários jornais e revistas especializados sobre arte, arquitetura e urbanismo. Prêmios nos concursos de projetos para obras de artes plásticas do Museu de Arte Moderna da Bahia, 1981/82. Prêmio Fundarte no XXXIX Salão de Artes Plásticas de Pernambuco em 1986. Editou os livretos de poesias e/ou trabalhos visuais: “O Sacrifício do Sentido”, “Obscuridades do Riso”, “Poemas”, “Suor Noturno” e Arquitetura de Algodão”. Prêmio Copene de cultura e arte, 1997. Tem trabalhos  em vários acervos particulares e públicos, como: Museu de Arte Moderna da Bahia e Pinacoteca Municipal de São Paulo.

 

SERVIÇO:

Exposição: A Arte de Almandrade

Abertura e visita guiada pelo artista: dia 03 de dezembro, a partir das 11h

Visitação: de 03 de dezembro de 2011 a 26 de fevereiro de 2012

Horário de visitação: de terça-feira a domingo, das 9h às 21h.

Local: CAIXA Cultural São Paulo (Sé) – Praça da Sé, 111 – Centro – São Paulo/SP

Informações, agendamento de visitas mediadas e translado (ônibus) para escolas públicas:            (11) 3321-4400      

Acesso para pessoas com necessidades especiais

Entrada: franca
Recomendação etária: Livre
Patrocínio: Caixa Econômica Federal

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AS ESCULTURAS DE ALMANDRADE


Cada uma das peças compõem-se de duas placas encaixadas que foram colocadas diretamente sobre o chão. As placas são recortadas e vazadas e não se empregam pregos, colas ou emendas.


Para se traçar um paralelo dentro da arte contemporânea dessas peças com objetos de outros artistas, seria interessante dizer que as esculturas de Almandrade mantém uma certa identidade com as de Franz Weissman e Amílcar de Castro. O construtivismo, a economia material e a escolha de cores simples são conceitos presentes na obra dos três artistas. No entanto, há elementos de distinção. Franz Weissman e Amílcar de Castro usam solda ou dobra na confecção de seus objetos.


Almandrade usa como procedimento de montagem o encaixe direto, onde os planos de madeira laminada se interpenetram e se apoiam mutuamente.


O fato de não haver dobra nas peças de Almandrade é um índice importante para a análise de sua obra. Almandrade intencionalmente mantém uma distância do barroquismo, do expressionismo e de outras tendências do tipo sensual muito recorrentes na arte baiana e brasileira.


O barroco tem muitas seduções. A dobra que vai ao infinito é um artifício barroco que ultrapassa sua própria moda e seus limites históricos (ver Deleuze em A Dobra, Leibnitz e o Barroco). Com a dobra, a escultura ganha uma vibração especial, estendendo-se à arquitetura e alcança espaços cada vez mais amplos. Trata-se de uma ilusão de ótica que realmente abre um campo de significados.


As peças de Almandrade não possuem a dobra, evitando o seu ilusionismo. A dobra na escultura permite a mudança de plano sem rupturas de continuidade. O olhar que acompanha um plano ao passar pela dobra aceita a mudança de direção e é convidado a avançar sucessivamente até deslizar em uma outra dobra. A dobra provoca um despistamento que, se por um lado seduz, por outro distrai o expectador. Pode-se dizer, além disso que a ambivalência da dobra percorre uma espiral que vai do desejo à melancolia. Ao suprimir a dobra Almandrade parece estar procurando evitar a dispersão intelectual e o efeito de superfície.


Curiosamente, nos retábulos barrocos brasileiros, no entanto, as peças de madeira que sustentavam as dobras e curvas das superfícies ornamentadas, eram montadas com encaixes. Esses encaixes tinham que ser perfeitos em sua geometria. O barroco recorreu em suas bases construtivas a técnica do ensamblamento. Ensamblar significava, no dicionário de arquitetura e ornamentação, reunir, juntar, encaixar peças de diversos materiais. Um glossário do barroco mineiro traz uma referência documental, datada de 1771, referente à construção de uma igreja em Sabará, de um “ensamblamento” de pedras, com ferro e chumbo.


As peças reunidas nos retábulos de madeira das igrejas barrocas deviam ser ensambladas, quer dizer, encaixadas uma nas outras, sem a necessidade de recorrer-se a pregos ou colagens.


Nesse sentido as peças de Almandrade contém um ar clássico que, pode-se afirmar, continua atravessando até hoje, energicamente, o mundo material das artes plásticas. Esse trabalho parece estar respondendo a pergunta fundamental, o que assegura a expansão expressiva infinita (da arte, da imaginação, das dobras) em relação ao portador finito (a madeira, o ferro, a pedra)? Qual é estrutura construtiva, quais são os encaixes e as articulações que permitem a realização de uma obra?


Francisco Antônio Zorzo

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Bibliografia

Ávila, Affonso et. Al. Barroco Mineiro Glossário de Arquitetura e Ornamentação

ADEUS EUROPA – por frei betto / são paulo


Lembram-se da Europa  resplandecente dos  últimos 20 anos, do luxo das avenidas do  Champs-Élysées, em Paris, ou da  Knightsbridge, em Londres? Lembram-se  do consumismo exagerado, dos eventos da  moda em Milão, das feiras de  Barcelona e da sofisticação dos carros  alemães?

Tudo isso  continua lá, mas já não é a mesma coisa. As  cidades europeias são,  hoje, caldeirões de etnias. A miséria empurrou milhões  de africanos  para o velho continente em busca de sobrevivência; o Muro de  Berlim,  ao cair, abriu caminho para os jovens do Leste europeu buscarem, no   Oeste, melhores oportunidades de trabalho; as crises no Oriente Médio   favorecem hordas de novos imigrantes.

A crise do  capitalismo,  iniciada em 2008, atinge fundo a Europa Ocidental.  Irlanda, Portugal e Grécia,  países desenvolvidos em plena fase de  subdesenvolvimento, estendem seus pires  aos bancos estrangeiros e se  abrigam sob o implacável guarda-chuva do  FMI.

O trem  descarrilou. A locomotiva – os EUA – emperrou, não  consegue retomar  sua produtividade e atola-se no crescimento do desemprego. Os  vagões  europeus, como a Itália, tombam sob o peso de dívidas astronômicas. A   festa acabou.

Previa-se que a economia global cresceria,  nos  próximos dois anos, de 4,3% a 4,5%. Agora o FMI adverte:  preparem-se, apertem  os cintos, pois não passará de 4%. Saudades de  2010, quando cresceu  5,1%.

O mundo virou de cabeça pra  baixo. Europa e EUA, juntos,  não haverão de crescer, em 2012, mais de  1,9%. Já os países emergentes deverão  avançar de 6,1% a 6,4%. Mas não  será um crescimento homogêneo. A China, para  inveja do resto do mundo,  deverá avançar 9,5%. O Brasil,  3,8%.

Embora o FMI evite  falar em recessão, já não teme admitir  estagnação. O que significa  proliferação do desemprego e de todos os efeitos  nefastos que ele  gera. Há hoje, nos 27 países da União Europeia, 22,7 milhões  de  desempregados. Os EUA deverão crescer apenas 1% e, em 2012, 0,9%. Muitos   brasileiros, que foram para lá em busca de vida melhor, estão de   volta.

Frente à crise de um sistema econômico que  aprendeu a  acumular dinheiro mas não a produzir justiça, o FMI, que  padece de crônica  falta de imaginação, tira da cartola a receita de  sempre: ajuste fiscal, o que  significa cortar gastos do governo,  aumentar impostos, reduzir o crédito etc.  Nada de subsídios, de  aumentos de salários, de investimentos que não sejam  estritamente  necessários.

Resultado: o capital volátil, a  montanha de  dinheiro que circula pelo planeta em busca de multiplicação   especulativa, deverá vir de armas e bagagens para os países  emergentes.  Portanto, estes que se cuidem para evitar o  superaquecimento de suas  economias. E, por favor, clama o FMI, não  reduzam muito os juros, para não  prejudicar o sistema financeiro e os  rendimentos do cassino da  especulação.

O fato é que a  zona do euro entrou em pânico. A  ponto de os governos, sem risco de  serem acusados de comunismo, se prepararem  para taxar as grandes  fortunas. Muitos países se perguntam se não cometeram  uma monumental  burrada ao abrir mão de suas moedas nacionais para aderir ao  euro.  Olham com inveja para o Reino Unido e a Suíça, que preservam suas   moedas.

A Grécia, endividada até o pescoço, o que fará?  Tudo  indica que a sua melhor saída será decretar moratória (afetando  diretamente  bancos alemães e franceses) e pular fora do  euro.

Quem cair fora  do euro terá de abandonar a União  Europeia. E, portanto, ficar à margem do  atual mercado unificado. Ora,  quando os primeiros sintomas dessa deserção  aparecerem, vai ser um  deus nos acuda: corrida aos saques bancários, quebra de  empresas,  desemprego crônico, turbas de emigrantes em busca de, sabe Deus  onde,  um lugar ao sol.

Nos anos 80, a Europa decretou a morte do   Estado de bem-estar social. Cada um por si e Deus por ninguém. O  consumismo  desenfreado criou a ilusão de prosperidade perene. Agora a  bancarrota obriga  governos e bancos a pôr as barbas de molho e  repensar o atual modelo econômico  mundial, baseado na ingênua e  perversa crença da acumulação  infinita.

Frei  Betto é escritor, autor do romance “Minas  do ouro” (Rocco), entre  outros livros.  twitter:@freibetto.

Paisagens partidas – por amilcar neves / ilha de santa catarina


 

Tinha a cidade aos pés desde a noite anterior, uma cidade sobre rodas motorizadas (não se via uma bicicleta sequer, somente rodas ou os pés da gente que anda a pé). Ao fundo, barcos: lanchas, veleiros e um iate fundeados no Iate Clube Veleiros da Ilha, uma ou outra lancha pequena passando preguiçosa a longos intervalos no mar cinzento, reflexo de um céu forrado de nuvens escuras e varrido por um nordeste que mexia o ar mais do que esquentava, um clima ótimo para deixar toda arrepiada na beira da praia uma mulher de biquíni.

 

Apesar do ângulo aberto contado a partir do morro, nas encostas do Menino Deus, não via tudo o que havia: o prédio ao lado obstruía-lhe a visão das pontes e suas circunvizinhanças. Espiar a Hercílio Luz, então, só na imaginação: como o fazem há tempos aqueles que um dia a conheceram como ponte que suporta o trânsito cotidiano da cidade e como o farão, daqui a pouco, aqueles que chegaram a conhecê-la como monumento em acelerada decrepitude por obra da omissão de vários governantes, cujos nomes deverão ser gravados a fogo num monumento que se erguerá no lugar da estrutura metálica pênsil, e por desobra de muito dinheiro que, endereçado à HL, nunca chegou ao destino, como se a ponte já não houvesse mais e, portanto, nada nem ninguém pudesse chegar ao destino, sequer o dinheiro destinado a salvá-la (quando, antes, bastava mantê-la).

 

Diz o Houaiss que, em Estatística, dá-se à “falta de atividade, de trabalho; inércia, inatividade” o nome de desobra. Estatisticamente a Ponte cairá um dia, e nossos governos têm trabalhado arduamente para antecipar o quanto possam tal data fatal. Esquecem que, quando a queda da Ponte acontecer, ela deixará de lhes ser um valioso pretexto para, digamos assim, canalizar verbas e recursos outros.

 

À esquerda, o que resta de Mata Atlântica ao redor da subida do Senhor dos Passos bloqueia a visão das bocas Oeste do túnel duplo que liga a Prainha ao Saco dos Limões, desprezando o José Mendes à sua direita, para quem vai do Centro para o Sul da Ilha, para satisfação e tranquilidade do Júlio de Queiroz, que mora de frente para o mar sem o barulho contínuo e irritante de cidade em seu portão. Alguém teve a inspiração de dar ao caminho pelas entranhas do Mocotó o nome de Antonieta de Barros, uma mulher bem negra que foi professora respeitadíssima (quando se respeitavam os professores, para não dizer mais) por seu trabalho no magistério durante a primeira metade do século passado, mas o corporativismo da Assembleia Legislativa resolveu puxar um pouco a si a homenagem, batizando o túnel como Deputada Antonieta de Barros – ainda que ela tenha sido eleita a primeira deputada de Santa Catarina, sua obra mais significativa foi a de professora.

 

Restaria o mar à frente, com a Baía Sul toda desdobrada aos olhos – desde que o Fórum e o Tribunal de Justiça, de alturas excessivas, não fragmentassem de novo a paisagem, ladeados por construções mais humildes que afastam o mar de quem está em terra, a pé ou mesmo motorizado: uma passarela do samba, de costas para o mar, que não para de crescer cada vez mais feia, tendo já atropelado o local em que um papa rezou missa, e uma imensa caixa de sapatos toda fechada, de tampa verde, a que se dá o nome de centro de convenções ou algo similar. Na borda do mar desenhada já por aterros, construções desnecessárias para o local bloqueiam a simples visão do mar; em paralelo a elas, pistas de alta velocidade bloqueiam o mero acesso ao mar.

 

O poeta JAIRO PEREIRA entrevista o poeta MANOEL DE ANDRADE / curitiba

ENTREVISTA COM O POETA MANOEL DE ANDRADE PARA A REVISTA CLIC MAGAZINE:

 

 

  1.        O poeta Manoel de Andrade, sempre foi um poeta participante? Vida e poesia são indissociáveis?

R. Aos vinte anos eu tinha uma visão muito intelectual do processo poético. Era o início da década de sessenta, época em que o dadaísmo propunha desconstruir a construção poética e o concretismo, pelo contrário, impunha uma excessiva preocupação teórica sobre como construir a poesia. É dessa fase o Poema Brabo com o qual ganhei, em 1964, um primeiro lugar num concurso de poesia moderna instituído pelo Centro de Letras do Paraná e o jornal “O Estado do Paraná”. Mas a influência concretista foi  efêmera. O golpe militar de 1964 me induziu a fazer uma rápida autocrítica e minha condição de poeta participante começa já em 1965, quando ao participar no Teatro Guaíra,  da Noite da Poesia Paranaense, ao lado de  João Manuel Simões, Helena Kolody, Leopoldo Scherner, Hélio de Freitas Puglielli, Paulo Leminski, Sônia Regis Barreto e outros, fui o único a apresentar no poema A Náusea, versos politicamente explícitos contra a Ditadura, como os deste fragmento:

(…) E tu, entre tantos,

saberás conter essa indignação

somente no lirismo dos teus versos,

ou irás colar teu escarro no pátio sangrento dos quartéis?

 

Vida e poesia devem ser indissociáveis, contudo, e infelizmente, passei 30 anos distante da poesia, não como leitor, mas como escritor.

 

Sua poesia é mais discursiva… Você acredita nos prodígios da simples palavra poética?

R. A poesia é um prodígio quando se encontra a palavra certa. A palavra essencial, na expressão de Antonio Machado. Ousadia e encanto integram o mistério desse prodígio. Se a poesia social realmente é mais discursiva é porque está identificada com o tempo histórico em que vive o poeta. Seu propósito social, seu pendor libertário exige essa implícita oralidade, esse tom discursivo. Creio que é missão dos poetas semear a esperança e denunciar as injustiças, sobretudo em tempos de crueldade. Por isso caíram Garcia Lorca, Otto René Castillo, Javier Heraud, Ariel Santibanhez. Contudo esse engajamento, essa preocupação com os fatos sociais não deve e não pode ofender a tessitura poética, pois sem lirismo não há poesia.

       Ação política e ação poética, podem convergir para um mesmo ideal ou utopia?

  1. Esses dois fatores dependem das circunstâncias históricas para se armarem na mesma trincheira. Escrevi poesia política nas décadas de 60/70, período em que no Brasil foram silenciadas todas as expressões da cultura ideológica e na América Latina as bandeiras de uma sociedade socialista estavam hasteadas na consciência das classes oprimidas e nas vanguardas revolucionáriasem luta. Esseideal de um mundo novo e essa utopia com que tantos sonharam era o sublime conteúdo dos meus versos.

  1. O signo verbal, a seu ver, será sempre o instrumento mais forte de comunicação do poético?

R. Tenho na mídia eletrônica um artigo chamado “Poesia e Oralidade”, onde escrevi sobre a importância do verso pronunciado sem desmerecer a poesia escrita. O signo verbal tanto pode ser oral como escrito, mas é no tom declamatório que o poema está realmente “vivo”. Creio que a magia da poesia está na sua oralidade, mas essa estesia  foi se perdendo com a indigesta presença da modernidade,  que amordaçou o lirismo. Felizmente os grandes festivais de poesia têm mantido acesa esta chama.

  1. O poeta pode ser o rapsodo reinventando o mundo pelas linguagens?

R. Isso tem muito a ver com uma parte de minha vida, quando eu era um bardo errante ao longo dos caminhos da América. Naqueles anos ‘o mundo tinha o tamanho dos nossos sonhos’ e tudo estava sendo reinventado com tantas formas de linguagens. A poesia buscava a sua verdade na história e tinha plena cidadania no coração dos jovens. Hoje, nós, os poetas, somos seres desgarrados. E, contudo,  a poesia segue impassível seu caminho,  sublimada em sua própria transcendência. É ela que liberta a palavra nessa angustiante crise da expressão humana. Sempre foi e segue sendo uma operação mágica. Uma alquimia em busca do nobre metal do encanto.

  1. Conte-nos um pouco da sua trajetória poética e de vida.

Minha real trajetória poética aconteceu fora do Brasil. Deixei o país em março de 1969 e meu primeiro livro, Poemas para la libertad,  foi publicado no ano seguinteem La Paz, com varias edições posteriores no Continente. Nessa época minha vida e minha poesia eram indissociáveis. Foram 16 países percorridos, denunciando a opressão, dando nome aos tiranos, declamando a liberdade e pronunciando a esperança. Fugas, prisões e expulsões marcaram minha vida com a sublime cumplicidade de meus versos. Escrevo, atualmente, um livro de memórias sobre aos anos que passei na América Latina e é onde espero contar a história libertária da América, colhida nos passos de minha trajetória poética.

  1. Como você vê as novas mídias hoje? Algum palpite sobre o futuro do poema feito com palavras? 
  2. R-Vejo-as com muito interesse porque praticamente só publico na internet e já não leio jornais impressos. Contudo, das mídias tradicionais só não abro mão do rádio.  Também já não faço nenhuma questão que meus poemas ou artigos sejam publicados na imprensa porque o jornal é flor de um dia. Ter um texto publicado na web é uma expectativa permanente de interação com o mundo. Tenho alguns blogs onde publico normalmente e uma revista eletrônica bilíngue onde assino uma coluna trimestral. Além de suas inumeráveis utilidades, creio que a internet é uma agenda diária imprescindível para um intelectual.

Completando a resposta,  não consigo imaginar um futuro em que um poema não seja feito com palavras.

  1. Das suas obras, quais as que mais o projetaram como poeta?

R. Tenho três livros de poesia publicados e co-autoria em outros.  Publiqueidois no exterior e dois no Brasil, sendo um destes uma reedição brasileira de Poemas para la libertad, editado há 40 anos na Bolívia.  Poemas para a liberdade, que somente foi publicado no Brasil em 2009, numa edição bilíngue pela Editora Escrituras, foi o livro que mais dimensão deu a minha poesia. Alguns dos seus poemas foram escritos no Brasil mas, sua maior parte nasceu no exílio e se me projetaram como poeta é porque nasceram na imensa trincheira de luta que foi a América Latina nos anos 70. Começaram sua trajetória em edições e reedições panfletárias no Peru, espalharam-se pelo Continente através de mochileiros de muitas nacionalidades  e foram lidos em teatros, galerias de arte, sindicatos, minas, reuniões públicas e clandestinas, congresso de poetas, festivais de cultura  e para muitos milhares de estudantes das maiores universidades latino-americanas.

  1. Pra finalizar: o público de poesia, a seu ver, melhorou ou piorou nos últimos tempos?

R. Esta é uma pergunta que eu também gostaria de fazer a quem realmente soubesse responder. Creio que a poesia tem a sua linguagem e são tão poucos os que realmente  falam, leem e escrevem esse idioma… Todos sabemos que hoje a poesia é uma nobre mendiga, rogando quem a escute. É muito triste tudo isso para nós, os poetas, que ansiamos partilhar com todos o nosso lirismo e o nosso encantamento. Já disse algures que a poesia é o patinho feio da literatura, desprezada pelas editoras e “escondida” nas livrarias. Creio que são os sinais dos tempos. Vivemos num mundo ética e esteticamente falido e onde a cultura da aparência é a própria expressão da mediocridade. Creio que tudo isso há de passar. Que há de vir um tempo em que a poesia volte a palpitar no coração dos homens, por ser a mais bela expressão de sua alma e porque, pelo seu mistério e seu encanto, a poesia é imperecível.

1. Como foi a repercussão na mídia da sua edição de CANTARES, 2007, editora escrituras?

R. Foi muito boa e a edição está praticamente esgotada. Esse livro marcou, em 2002, meu retorno à poesia depois de 30 anos de total afastamento da literatura. Voltei ao Brasil em meados de 72, numa fase aguda da repressão política, obrigando-me a ficar muitos anos no total anonimato social e literário. Tudo isso me desmotivou a escrever e somente voltei à poesia na primavera de 2002. provocado por um fato meramente circunstancial. Cinco anos depois lancei o livro Cantares, retratando na sua primeira parte a importância que o mar teve em minha infância, um lírico resgate de uma fase extraordinária de minha vida. Voltando à pergunta quero dizer que sua repercussão na mídia foi a melhor possível, seja pela credibilidade dos comentários, entrevistas e resenhas, mas sobretudo porque todos os poemas do livro estão publicados em vários blogues nacionais e alguns internacionais.

 


OS MALABARISMOS DE UMA CONSCIÊNCIA INTENSAMENTE LÍRICA – por alexandre bonafim / são paulo.sp

A poesia de Almandrade faz-se, antes de tudo, daqueles temas
essenciais da condição humana, tão preciosos para os homens do nosso
tempo, distanciados da razão de existir. Uma perplexidade em constante
estado de nascimento acorda, aos olhos do leitor, uma realidade
múltipla e absurda. Ao lermos os textos do poeta baiano, deparamo-nos
com a densidade do real e com todos os seus limites e frustrações:
“cidade perplexa/ embalagem hostil/ inútil divertimento”. O eu lírico
dos poemas de Almandrade gasta-se nas arestas do mundo, rasga-se nos
ângulos dessa realidade limitada, em um viver de raríssimas
possibilidades de salvação ou transcendência (encontradas, como
veremos a seguir, apenas no erotismo e na epifania da palavra lírica):
“O andarilho inocente/ repete o caminho/ sem encontrar/ uma saída”.
Esse esgotamento das possibilidades do real lembra-nos dos angustiosos
labirintos Kafkianos, em que todas as direções nos encaminham, na
verdade, para lugar nenhum. O mesmo clima de abafamento, de
aprisionamento, entrevisto na ficção de Kafka, pode ser percebido
nesses poemas de agudeza existencial. Drummondiano, sem deixar de
possuir uma voz própria e peculiar, Almandrade recria, portanto,
aquele clima claustrofóbico da poesia do autor itabirano, tão bem
expresso pela persona inventada por Drummond, ou seja, o seu famoso
José.

Essa é uma poesia que, antes de instaurar a segurança,
desalenta-nos com as incertezas, com as dúvidas. Já na antiguidade,
Sócrates alardeava a importância do questionamento, em detrimento das
respostas. Pois bem, na poesia de Almandrade, temos a mesma sede de
indagação, a mesma escavação feita por perguntas que não se findam,
que instauram uma perpétua pesquisa do viver: Pensar é/ abrir portas,/
migrar/ para o desconhecido”. Em versos sucintos, verdadeiras farpas
de auto-iluminação, o poeta de Malabarismos das Pedras amplia a
potência do signo poético, como se a palavra funcionasse como um
verdadeiro golpe a acordar o leitor de sua letargia, de seu
sedimentado hábito de simplesmente estar no mundo: “Dormir,/ pode ser
uma covardia/ diante das circunstâncias/ e suas incertezas”. Essa
vigília em perene estado de exacerbação, funciona, portanto, como um
farol a desmascarar as farsas dessa nossa realidade tão estigmatizada
pela mídia e pela ideologia do consumo. Ao lermos Almandrade,
sublinhamos, em nosso âmago, a força da consciência e a sua capacidade
de detonar as verdades estereotipadas de nossa era pós-moderna.

Essa mesma consciência, vibrante, intensa, também vasculha a própria
fuga do tempo, e a revela, sem nos poupar e sem nos iludir: “a vida
quando vazia/ é um acúmulo de rugas”. Somos seres irremediavelmente
efêmeros e passageiros e, diante dessa situação existencial, resta-nos
somente a epifania da própria poesia, teia a nos interligar a um
eterno agora (apenas retido pela memória), momento pulsante,
orgiástico e, por isso, intensamente vivo mesmo em face da dissolução
do existir: “as coisas retidas na memória/ acariciam a eternidade”. É
dessa revelação da palavra, feita de som e fúria, que nasce um doce
erotismo, um terno desvelo pelo corpo feminino: “Em silêncio/ a
intimidade feminina/ acende o mistério/ que faz lembrar/ o aroma dos
devaneios/ que transporta/ o fim da tarde”. Dessa forma, diante das
amarras impostas pelo destino e pela realidade, nasce a iluminação do
desejo, energia a latejar o corpo, a incendiar a graça de ser: “Nem
mesmo/ a musicalidade dos pelos/ é maior que o apelo/ da cicatriz do
nascimento”.

A poesia de Almandrade, portanto, recorda-nos o mito de
Sísifo. O homem contemporâneo, acossado, muitas vezes, pelo vazio e
pela alienação, típicos em um tempo de consumismo desenfreado, está
condenado a rolar, em infinitas vezes, uma pedra ao topo de um monte.
Todavia, resta a esse homem, ao descer, de mãos vazias, a mesma
colina, a visão pródiga de um mar, feito de intenso azul, prazer e
glória a saciar-nos com o milagre da poesia: “Agora é dia, o sol
queima a letra”.

Alexandre Bonafim – Nasceu em Belo Horizonte. É mestre em literatura brasileira, poeta e professor universitário.

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A  RAZÃO  EM  COMA

Pobres bibliotecas vazias
sem títulos e sem Borges,
O tempo, indiferente
ao jogo dos relógios,
não é mais dos livros.
O saber é um desconforto
de uma civilização
que vive ao redor do imediato
e humilha a memória.

ALMANDRADE

O general Pedro Aguerre, Comandante do Exército Uruguaio: “Quem nega o passado é covarde”

O general Pedro Aguerre, comandante do Exército uruguaio mandou suspender qualquer pacto de silêncio em torno de crimes praticados na ditadura. Aguerre disse que o Exército que comanda não encobrirá delinqüentes e homicidas em suas fileiras, e ordenou que seja posta à disposição da Justiça toda informação possível para esclarecer os crimes de terrorismo de Estado. Quer que a Justiça estabeleça a responsabilidade material do Exército em casos de assassinato, seqüestro e tortura de presos políticos.

Eric Nepomuceno

“Não sei de nenhum pacto de silêncio para acobertar crimes dentro da Força que comando. E, mesmo desconhecendo se existiu ou se ainda existe esse pacto, neste momento dou a ordem de sua suspensão imediata”.

A frase, sonora e contundente, surpreendeu. Ela foi dita pelo general Pedro Aguerre, comandante do Exército uruguaio, durante uma entrevista coletiva em que se falou da identificação dos restos do jornalista e professor Júlio Castro, desaparecido em agosto de 1977. Por mais que, justamente por ser de silêncio, esse pacto jamais seria admitido em público, e por mais inócua que seja a frase de Aguerre – afinal, ninguém decreta o fim de um pacto secreto diante de jornalistas – ficou claro que existe a determinação de mudança drástica na atitude dos militares no Uruguai diante do passado e da recuperação da verdade e da memória.

Aguerre disse que o Exército que ele comanda não encobrirá delinqüentes e homicidas em suas fileiras, e ordenou que seja posta à disposição da Justiça toda informação possível para esclarecer os crimes de terrorismo de Estado praticados pela ditadura. Quer que a Justiça estabeleça a responsabilidade material do Exército em casos de assassinato, seqüestro e tortura de presos políticos.

Essa virada radical surge à raiz da mudança na legislação uruguaia, que significou, de fato, o fim da anistia que existiu até há pouco e assegurou a impunidade de um número indeterminado de membros das forças armadas e da polícia. Assim que a nova lei entrou em vigor, vários parentes de desaparecidos e assassinados recorreram à Justiça, e abriu-se a caixa de segredos tenebrosos guardados desde os tempos de breu.

Os restos de Julio Castro foram descobertos graças à investigação judicial pedida pelo poeta argentino Juan Gelman, um dos mais prestigiados do idioma castelhano, e por sua neta, Macarena Gelman. Eles querem saber o que houve com Maria Claudia García de Gelman, nora do poeta e mãe de Macarena. Seqüestrada grávida em Buenos Aires, em 1976, junto com Marcelo, seu companheiro e filho de Juan, Maria Claudia foi levada para Montevidéu durante a Operação Condor. Marcelo foi morto em seguida. Ela deu à luz num quartel uruguaio. Sua filha foi doada a um chefe de polícia.

Maria Claudia foi morta. Macarena teve sua identidade recuperada aos 24 anos de idade, quando soube enfim quem era de verdade, e qual o destino atroz de seus pais. Desde então, leva adiante, na companhia do avô, uma cruzada para encontrar os restos da mãe e estabelecer as condições em que foi morta.

Procurando os restos de Maria Claudia, encontraram os ossos de Julio Castro, mestre-escola rural, um dos fundadores do mítico semanário ‘Marcha’. Seqüestrado no dia primeiro de agosto de 1977, nunca mais se soube dele. Um dos últimos, talvez o último, a ver Julio Castro com vida foi o jornalista brasileiro Flávio Tavares, preso naquele mesmo ano pela ditadura uruguaia.

Até agora, dava-se por certo que Castro havia morrido na tortura, dois dias depois de ter sido preso no centro de Montevidéu. Seus restos desapareceram, e acreditou-se que, a exemplo de outros mortos pela ditadura, tivessem sido jogados no rio da Prata. Isso, aliás, foi o que o próprio Exército admitiu perante a Comissão de Paz que funcionou durante os governos dos presidentes Jorge Battle e Tabaré Vázquez. Está provado que mentiram pelo menos duas vezes.

Primeiro, Julio Castro não morreu durante uma sessão de tortura. Foi executado. E, segundo, seus restos não foram jogados em rio algum: estavam enterrados, cobertos de cal, numa cova aberta num rochedo, dentro do terreno ocupado pelo 14º Batalhão do Exército, em Canelones, a 45 quilômetros da capital uruguaia. Os legistas descobriram que o que matou Julio Castro foi um tiro disparado contra a sua cabeça. Os militares sempre insistiram, mentindo e mentindo, que jamais houve uma só execução de presos políticos durante a ditadura.

Castro é uma das vítimas que o Uruguai mais lamentou, pela sua trajetória de professor e de jornalista. A identificação de seus restos mortais sacudiu o país, deixando entrever o que virá pela frente, à medida em que o que restou de outros desaparecidos apareça.

Há uma frase do general Pedro Aguerre que deve ter deixado muitos de seus colegas de farda com a alma gelada, principalmente ao norte da fronteira uruguaia. Disse ele: “Quem nega o passado diante de uma desgraça presente manifesta covardia.” Militar algum aceita ser chamado de covarde, mesmo quando não passam disso na hora de se enfrentar com a memória, como o passado, com a verdade.

POR QUE O NATAL ME DÓI? – por olsen jr / ilha de santa catarina.sc

(Para Itamar e Marcelina, Luis e Carmem).


 Em uma tarde destas, logo após as chuvas, estava num mercado aqui na Lagoa, buscava um tipo de requeijão que meus avós faziam. Uma maneira creio, de estreitar minhas saudades com um passado de quando tudo ia bem. Ao meu lado um casal procura algo na mesma gôndola. Não pude deixar de ouvir o comentário que o marido fez para a mulher, “essas músicas de natal são um saco”. Presto atenção e ouço uma versão em português, muito ruim da música “Happy Xmas (War is Over)”, do John Lennon. A letra era mais longa que a melodia, doía mesmo ouvir aquilo.

Tinha uma versão audível com a Simone. Melhor mesmo era ouvir o original com o ex-beatle. Caso raro de uma música de natal que ainda faz sucesso fora da data para a qual foi composta.

Lembro de um mês de dezembro, entre 1966 e 1969, em Chapecó em que ficava em uma sala lendo a obra infantil (17 volumes) de Monteiro Lobato enquanto a minha mãe arrumava a casa e ouvia músicas de natal. De tal maneira isso ficou no inconsciente que, todas às vezes que pego a literatura infantil do Monteiro Lobato já começo a ouvir “…Eu pensei que todo mundo fosse filho de papai-noel”…   As músicas eram brasileiras, muito boas. Versos simples de grande apelo aos sentimentos. Li em algum lugar um ensaio crítico sobre o tema do natal, e as nossas composições sobressaiam-se sobre os outros países, notadamente os Estados Unidos, que era o referente com o indefectível “Jingle Bells”.

Meus avós, Eugênio Harald e Rosa Cabral eram católicos praticantes. Acreditavam em Deus e na unidade familiar. O natal, portanto, era uma data celebrada com todo o ritual que a ocasião exigia. Uma árvore era cortada no campo (já era plantada para essa finalidade), enfeitada com velas, algodão, bolinhas, anjos, estrelas, barba de velho tirada no mato, e embaixo, um presépio com a manjedoura, a criança recém nascida, Maria e José, os reis magos, enfim, tudo lembrando o que deveria ter sido quando o filho de Deus veio ao mundo.

O papai-noel chegava, fazia sua prédica, as orações de praxe, minha tia começava a cantar “Noite Feliz”, quem sabia a letra acompanhava e só mais tarde os presentes eram distribuídos. Depois, uma ceia, também precedida de agradecimentos e uma oração, e a festa que ia até o amanhecer.

No dia seguinte havia um churrasco de ovelha, e apareciam outros membros da família, chegavam para confraternizar. Era um clã numeroso, unido, feliz. Os almoços não tinham fim, o velho gene viking, ou nórdico recessivo, aflorava. Os adultos passavam o dia à mesa, bebendo cerveja, comendo, conversando… Vinha o café… Chegava o jantar e ninguém tinha arredado o pé ainda do lugar. Música contemplando vários gostos, mas imperava o velho nativismo gaúcho.

Bem, como nada dura para sempre, aquela tertúlia familiar também não durou. Estávamos saindo da adolescência quando meus avós morreram… Nunca mais foi a mesma coisa. Tentamos prosseguir com o ritual, mas parece que a essência tinha esvaído… A família foi se distanciando… Depois os meus pais também morreram… Foi então que eu me tornei arredio porque a reunião significava prantear os ausentes, na cabeça de um poeta isso é uma tortura… Olhar aquela mesa na sala, onde várias gerações tinham passado à cabeceira ninguém mais para agradecer o pão em nome de todos, ninguém mais para apaziguar a nossa ansiedade diante da franqueza do bom velhinho que parecia conhecer todas as nossas travessuras, e daquele coração gigante que nos compreendia sempre, desde que prometêssemos não reincidir nos erros… Prometíamos claro, mas sempre fazíamos tudo de novo, e éramos perdoados novamente com a vigilância bondosa e serena do meu avô.

É por isso que o natal me dói… Porque já não posso dizer para aqueles que me amaram, de verdade, que também os amava do meu jeito tímido, como são os poetas!

 NOTAS:

A música poderia ser “Happy XMas”, do John Lennon,  mas por razões de direitos autorais (com a gravadora EMI) foi tirada do Google, no Brasil…

Se alguém preferir “matar a saudade” da melodia, a versão brasileira interpretada pela Simone ainda é a melhor, fácil de encontrá-la…

Mas em épocas de “amor”, “fraternidade”, “compartilhamento”, “humanidades”… Lembrar da Utopia também é válido…

http://www.youtube.com/watch?v=fAOjvL3C_QM&feature=related

Mesmo um tanto cético, nessa época abrimos a guarda, acreditamos, eu também…

Por questões contratuais, os Beatles se separaram (oficialmente) em 1972… Desde 1969 viviam às turras, John Lennon foi o primeiro a gravar um disco independente do quarteto…

A música “Imagine” foi gravada em disco de igual nome, em 1971… Em 1972 só dava “ela” em qualquer lugar que se fosse, o que demonstra, no fundo, que todos gostam de acreditar em uma Utopia…

olsen  jr.

DILMA ROUSSEFF: ESTA FOTO CORRE O MUNDO – UM OLHAR SEM MEDO E OS JULGADORES COM VERGONHA DE MOSTRAREM “A CARA”!

UMA FOTO E TRILHÕES DE PALAVRAS!

A RÉ DILMA
Dilma na sede da Auditoria Militar no Rio de Janeiro, em novembro de 1970. Ao fundo, os oficiais que a interrogavam sobre sua participação na luta armada escondem o rosto com a mão (Foto: Reprodução que consta no processo da Justiça Militar)

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Foto inédita mostra a presidente Dilma Rousseff durante um interrrogatório em novembro de 1970, na sede da Auditoria Militar, no Rio de Janeiro. Na época, Dilma tinha 22 anos de idade.

As pessoas que escondem o rosto, ao fundo, são os oficiais que questionavam a então guerrilheira sobre sua participação na luta armada que ocorria no País.

Fotografia faz parte do livro A vida quer coragem, que será lançado neste mês pelo pelo jornalista Ricardo Amaral.

JORGE LUIZ BALBYNS e JORGE LESCANO conviadam: em São Paulo

 

O   C A N T O   D O   C I S N E

 

 

O canto do cisne é uma das peças curtas de Anton Tchekhov escrita em 1897.

 

No desenrolar do texto, surgem os dois únicos personagens: Vânia e Nikita, ator e o ponto do teatro, respectivamente. Vânia, ator-personagem de 68 anos, traz em si questionamentos que revelam profunda solidão e angústia humanas. Por outro lado, como uma visão “sobrenatural”, surge o ponto, personagem esse que reforça a metalinguagem teatral, servindo de apoio para os devaneios histriônicos e autobiográficos da personagem central, Vânia.

 

Do camarim, embriagado, surge o personagem Vânia, em conflito com sua própria história de ator de 68 anos, mergulhado na sua realidade decadente e vil. A chegada de Nikita (o ponto) instiga (o ator) Vânia, carente e desiludido, abandonado a sua própria sorte, a representar, de maneira eloquente sua vida através de trechos de espetáculos e personagens supostamente vividos por ele em sua trajetória, tais como Rei Lear, Hamlet e Otelo e recita trechos de poesia de Boris Godunov, obra prima do maior poeta romântico russo, Alexander Puchkin. Esses momentos se confundem e tornam o texto cada vez mais denso e intrigante.

 

“Testar” a atualidade do teatro de Tchekhov através da leitura segundo Brecht e Beckett. O distanciamento do alemão e a identificação da decrepitude, característica dos personagens do irlandês. Seria possível esta leitura? Tal o desafio proposto.

 

A pesquisa sobre o texto incluiu o reconhecimento do momento histórico em que a obra foi escrita. Tratava-se de um momento de transição tanto estética quanto política na Rússia tzarista. Em verdade, a mudança estética retratava o momento político. Nesse contexto surgem os personagens decadentes, niilistas, anarquistas, e também os humilhados e ofendidos, os marginados, os esquecidos, retratados tanto por Tchekhov quanto por Turgueniev, Dostoievski, Tolstoi e Máximo Gorki, último escritor russo e primeiro soviético. Todos eles, nas palavras de Dostoievski, surgidos do Capote de Gógol, texto fundador da literatura russa associada ao realismo.

 

Talvez a característica que diferencie Tchekhov dos seus contemporâneos seja o humor particular, irônico e melancólico a um só tempo. Esta característica o aproxima dos vagabundos e despojados de Beckett, espécie de clowns sem circo. Seres exilados da vida sem sair do palco da realidade cotidiana. Também a permanência dos seus problemas permite que sejam representados e assimilados pelo público com a mesma atualidade de sua estréia no século XIX.

 

Parece não haver contradição ou traição ao autor ao relacioná-lo com as atuais poéticas teatrais. Antes, trata-se de atualizar também a pesquisa, que no momento da estréia obrigava Stanislavski a criar novos métodos de atuação. A pertinência desta escolha fica clara pelo resultado obtido.

CURITIBA, pastelão e chuva – por wagner de oliveira mello / curitiba.pr

Mentira é tudo mentira! Nunca tive uma estante, cama, mesa ou quarto; desde que fralda era um pedaço de pano que segurava minha merda presa à bunda eu divago por ai, sem burro, sem alça, às vezes um tênis, em outras uma calça. À merda com essa rima estúpida, ta pensando que tua vida é a Odisséia rapá.
• Acordei atrasado como sempre, sai apressado sem nem escovar os dentes ou dizer bom dia pro espelho; chegando à portaria fui invadido pela mesma duvida que me assombra todas as manhãs, então voltei tropeçando escada acima conferir se tinha trancado a porta,  -É claro que trancou, complexado idiota -. Tomei um cafezinho com pastel podre no china koreano e corri pra estação tubo porque além de tudo chovia pra caralho naquela hora. Incrível como todo usuário de guarda-chuva insiste em andar embaixo das marquises obrigando quem esta sem a desviar? Gente ignorante! Bem curitibana mesmo. Prefiro andar na sarjeta, até porque na calçada tem aquelas pedras soltas que quando você pisa jogam lama nos calçados, nas calças, podendo subir até a camiseta dependendo da intensidade da pisada e como eu sou azarado é melhor prevenir. Mas enfim, chegando semi ensopado no tubo, advinha? “O palerma aqui esqueceu o cartão de transporte e obvio que estava duro. O cobrador que já me conhece bem olhou pros dois lados antes de liberar.” Entra pela portinha lateral, da nada não, você ta sempre ai, outro dia me paga um café e ta tudo certo. “Porra cara, valeu, valeu mesmo.” Às vezes encontramos gente santa, e geralmente são as mais simples. Eu no seu lugar teria mandado o sujeito passear. O mundo não é bom, as pessoas não são boas e quando são acabam se fudendo, ou acha que se o fiscal da URBS, escondido atrás de um poste lá do outro lado da rua visse essa ação não teria delatado o pobre coitado; ai já era rapá! Não faz dessas coisas não filho, que Deus não abençoa!
Transito parado, ônibus lotado, cheio de gente encasacada, molhada, empunhando guarda chuva com olhar ameaçador como quem diz: esse canto é meu, não chega perto que te bato com isso na cabeça! E eu numa ressaca infernal, sonhando com minha cama, uma garrafa de água com gás e possíveis falecimentos que impedissem o expediente. Nada! A porta se abriu e, com muito custo consegui sair do coletivo, na verdade não sai, fui expelido porta a fora com a pressão dos que entravam pela outra. Alivio e desconcerto juntos. Mal desci do ônibus, um carro buzina ao meu lado, haha advinha quem era? Meu chefe é claro, e nem pra me dar carona o maldito, jamais daria, esporro sem platéia não é esporro.

 

 

A odisséia ou o erro do pavão – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

O pavão

de olhinhos nervosos

irrequieto bípede

tirou dolorosamente

suas queridas penas

uma a uma

e colou

em folhas de papel sulfite.

Despiu-se de suas jóias

transgrediu o pudor

sentiu frio

ficou só

sua família não agüentou

a verdade nua.

Não satisfeito

regurgitou a pouca quirela

do jantar

e vendo o vômito convulso e amarelo

lembrou-se de Van Gogh

e chorou.

Colou sua bile no sulfite

e com as folhas e penas e vômitos

profissionalmente encadernados,

a pobre ave implume

saiu a procura de editor.

Seria mais fácil, pássaro

achar editor

se deixasse as penas no corpo

e levasse as folhas em branco

profissionalmente encadernadas

sempre

profissionalmente encadernadas.

STF e STJ: Empresários pagam encontro de juízes em resort na Paraíba – por frederico vasconcelos / são paulo

29/11/2011 – 09h08

Ministros do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça participaram, no último fim de semana, de evento fechado em um resort na Paraíba com despesas pagas pela Fetronor (Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Nordeste)

Seguradoras bancam evento para cúpula da Justiça em resort no Guarujá

O “Terceiro Encontro Jurídico de Transportes Públicos do Nordeste” foi realizado no Mussulo Resort, que fica no litoral do Estado. A diária do hotel custa R$ 609 (quarto para duas pessoas).

Além dos ministros, participaram do encontro juízes e advogados, que também tiveram suas despesas pagas.

O evento teve o apoio da Petrobras, que ofereceu patrocínio de R$ 50 mil.

OUTRO LADO

Para o presidente da AMB, Henrique Nelson Calandra, o evento teve finalidade acadêmica. “Não vejo por que censurar. Significa que entidades da iniciativa privada acreditam que juízes podem dizer coisas importantes e investem para ouvir teses que podem ser contrárias às suas.”

A Petrobras atribui o patrocínio ao encontro à “política comercial e de relacionamento com grandes clientes da Petrobras Distribuidora”.

Leia mais na edição da Folha desta terça-feira.

Editoria de Arte/Folhapress  

Brasil tem 19 novos milionários por dia, diz estudo – por silvio guedes crespo / são paulo

29 de novembro de 2011 | 11h17

O crescimento econômico faz com que, desde 2007, 19 pessoas se tornem milionárias a cada dia no Brasil, tendência que deve continuar por mais três anos, segundo um estudo apresentado na conferência Private Banking Latin America 2011, realizada em Miami (EUA). Os dados foram divulgados em blog da revista americana “Forbes“.

A pesquisa define como milionários aqueles cujas riquezas chegam a 1 milhão de reais (não de dólares), incluindo investimentos, propriedades, poupança e outros ativos.

Guilhermo Morales, um executivo da Millennium BCP que estava na conferência, disse que o ritmo de crescimento do número de milionários deve se reduzir daqui a três anos – “para tudo há limites”, afirmou.

O motivo de haver cada vez mais pessoas ricas está, segundo os autores do estudo, na expansão do PIB (produto interno bruto) e particularmente, na do consumo, o que impulsiona a fortuna nos setores varejista, bancário e em alguns ramos da indústria.

Os altos executivos têm se beneficiado com o “boom” econômico. Segundo Morales, é comum, no Brasil, profissionais de bancos de investimento ganharem um bônus anual de R$ 1 milhão.

Para Emerson Pieri, que apresentou as estatísticas, o País proporciona uma “enorme oportunidade” para atividades de private banking para atender as demandas da “crescente comunidade de milionários”.

Brasil tem atualmente 137 mil milionários e 30 bilionários, segundo a “Forbes”, com 70% da riqueza concentrada em São Paulo e no Rio de Janeiro.

RESTOS MORTAIS – por olsen jr / ilha de santa catarina.sc

 

Tinha 14 anos quando tomei conhecimento da existência do poeta Cruz e Sousa. Estava na Escola Agro-Técnica  Lysímaco Ferreira da Costaem Rio Negro, no Paraná e o livro era da editora Nova Aguillar, obras completas. Fiquei só na poesia: Broquéis, Faróis, Últimos Sonetos e o Livro Derradeiro.

Foi amor à primeira vista. Todo o meu tempo livre era dedicado a ler e reler aqueles poemas… Até o professor Venceslau Muniz me por nas mãos o “Eu”, de Augusto dos Anjos (assunto para outro dia).

Dois anos depois, em 1972 já em Curitiba prestando vestibular para arquitetura, na prova de português caiu uma interpretação do soneto “Vida Obscura”, do livro “Últimos Sonetos”. Acertei a questão relativa ao texto e me senti orgulhoso por ser catarinense e por perceber que todos os meus colegas tinham feito uma leitura equivocada do poema. O poeta faz a descrição do sofrimento de alguém e através de uma metáfora remetendo, no paroxismo, a crucificação de cristo, descreve os seus últimos momentos… Ele se referia (e foi a resposta certa) a um amigo… Na condição de artífice sei que ele estava imaginando a própria morte, claro, se esta alternativa estivesse nas respostas teria criado um impasse. A maioria dos candidatos foi ludibriada pelo verso “sei que cruz infernal prendeu-te os braços” e assinalou a resposta que aludia a Jesus Cristo…

Em 1994 fiz uma ponta no filme “Alva Paixão”, da diretora Maria Emília em que trata da vinda do corpo de Cruz e Sousa, que morreuem Minas Gerais, para o Rio de Janeiro num vagão de trem de transporte de animais. A mulher Gavita veio junta.

Faço o fiscal da estação ferroviária que recebe o corpo do poeta. Aquela cena me marcou, não só pelo fato de quase ter perdido a falange do polegar da mão direita prensado na porta emperrada de um vagão de trem no interior de Rio Negrinho onde as locações se deram, mas pela interpretação da Zezé Mota (assunto para outro dia) que fez Gavita, a mulher de Cruz e Sousa, também pelo realismo da situação. Hoje podemos ver com a clareza facultada pelo distanciamento histórico, um dos maiores poetas brasileiros, seu maior simbolista, morto com tuberculose na mais completa miséria que sofreu durante toda a sua vida a discriminação de seus contemporâneos, que foi protelado em cargos públicos e até da Academia Brasileira de Letras por um mestiço chamado Machado de Assis, que a história lhe faça justiça longe da literatura, trasladado num vagão de transporte de animais é dose. Nem na morte lhe deram compaixão, foi um maldito até o fim.

No dia 29 de novembro de 2007, depois de uma batalha que levou mais de 30 anos, finalmente o governo do Estado de Santa Catarina consegue resgatar os restos mortais do Sr. João da Cruz e Sousa.

Trazido agora de avião e depois por um caminhão do corpo de bombeiros, uma mala de aço contendo uma urna de madeira com os restos mortais do poeta que finalmente volta para casa, recebidos no Palácio Cruz e Sousa, bela construção arquitetônica com o seu nome, com direito a um coral entoando música clássica, louvado por autoridades acadêmicas e políticas, a promessa de um grande Memorial em sua homenagem onde se possam recitar poemas, onde sua obra nunca será esquecida e onde as lembranças de seu calvário serão sepultadas junto.

Foi diferente hoje, não era mais a cena de um corpo chegando em situações precárias numa estação do interior, era o poeta mesmo, mais de 100 anos depois, recebido em sua terra natal, o filho de escravos alforriados, o  “ser humilde entre humilde seres”…  Aquele para quem o “… mundo foi negro e duro”… O cidadão que chegou “… Ao saber de altos saberes”, “tornando-te mais simples e mais puro”…

Estive lá num canto observando tudo a distância, não suporto que me vejam emocionado em público, de poeta para poeta com a mesma dor, estava precisando de um trago, saí dali rumo ao mercado público, “… E neste conciliábulo mundano/ Pelos botecos da vida, confesso:/É solitário que eu me sinto humano!”.

Requiescat in pace!

SAUDADES DE TI DIANTE DE TI – de zuleika dos reis / são paulo

 

Saudades de ti diante de ti

eu a olhar-te de leve

meu olhar sobre ti asas

a roçarem folhas, de passagem,

sem pouso permitido

asas a perderem o rumo

asas a perderem o prumo

asas num voo vertigem

direto  ao chão.

 

Saudades de ti diante de ti

eu a receber e a guardar

olhares de todos os cantos

canto chão

cantochão

no tempo sempre a escoar

sempre em fuga de nós

e do nosso outro tempo

aquele eterno, imóvel,

que nos cravou no mostruário

as asas de borboleta

para sempre em oculta exposição.

 

Saudades de ti diante de ti

esta história, nossa história

suspensa nos galhos da árvore

a perder de vista

a tocar o céu

no bico das aves

sempre a partir

nossa história

que não podemos tocar

a cintilar provisória

nos olhos destas pessoas

que também nunca a conhecerão.

 

Saudades de ti diante de ti

e em breve, muito em breve

nós, a circular em fotos

diante do mundo

e enquanto estas não nos chegam

volto para a casa

onde minha mãe me habita

onde não me habito há mundos

e vou-me, a ler teu livro

que não nos conta, mas nos diz

nos desdizendo

assim, nesta Dor que nos corrói,

para sempre,  assassinando.

 

Saudades de ti

e eu me dissipo

 

como se dissipam

 

ventos…

 

nas mãos

 

nossos fiapos…

Senador ALOYSIO NUNES FERREIRA (psdb): Escândalo da Controlar já atinge senador – 247 / são paulo

Escândalo da Controlar já atinge senador Aloysio

Escândalo da Controlar já atinge senador AloysioFoto: DIVULGAÇÃO

ALÉM DO PREFEITO GILBERTO KASSAB E DO EX-GOVERNADOR JOSÉ SERRA, ALOYSIO NUNES FERREIRA TAMBÉM ESTÁ ATORDOADO COM A PRISÃO DE JOÃO FAUSTINO (ESQ.), EX-SUBCHEFE DA CASA CIVIL DE SÃO PAULO, NA OPERAÇÃO SINAL FECHADO; FAUSTINO ERA TÃO FORTE QUANTO PAULO PRETO NO RODOANEL

27 de Novembro de 2011 às 10:03

247 - A informação mais revelante da Folha de S. Paulo deste domingo, um catatau que circula com centenas de páginas nos fins de semana, está escondida em três pequenas notas, sem chamada na primeira página. Publicadas na coluna Painel, de Renata Lo Prete, elas tratam do escândalo Controlar, empresa de inspeção veicular que provocou o bloqueio dos bens do prefeito Gilberto Kassab, e suas conexões com o Palácio dos Bandeirantes. Aqui, no 247, noticiamos que um dos homens fortes de José Serra, João Faustino, está preso desde a última quinta-feira em Natal, no Rio Grande do Norte, em razão da Operação Sinal Fechado (leia mais aqui).

Às notas de Renata Lo Prete:

Surpresa!

Quem acompanhou de perto o processo que levou a Prefeitura de São Paulo a validar o resultado de licitação para inspeção veicular realizada na gestão de Paulo Maluf (PP) atesta: a pressão sobre Gilberto Kassab (PSD) não vinha da Controlar, vencedora do questionado certame, e sim da CCR – que veio a adquirir o controle da Controlar pouco depois da assinatura do contrato com o município.

Conexões 1

Carlos Suarez, ex-sócio da construtora OAS acusado de improbidade administrativa pelo Ministério Público paulista no caso Controlar, tem ligação antiga e estreita com João Faustino (PSDB-RN), suplente do senador José Agripino (DEM-RN) preso na quinta-feira em operação que apura fraudes na inspeção veicular (entre outros serviços sob o guarda-chuva Detran) no Rio Grande do Norte.

Conexões 2

Tucanos graúdos se mobilizam intensamente nos bastidores para avaliar a situação e projetar os danos da prisão de Faustino, que foi o número dois do hoje senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) na Casa Civil durante o governo de José Serra.

Renata Lo Prete é uma das melhores jornalistas do Brasil. Daquelas que sabem das coisas. Foram dela, por exemplo, as entrevistas com Roberto Jefferson, que desencadearam o escândalo do Mensalão. Neste caso Controlar, ela vem publicando informações a contagotas. Por “tucanos graúdos”, leia-se José Serra e Aloysio Nunes. Isso porque João Faustino foi uma peça estratégica no governo Serra. Tão importante quanto outro assessor de Aloysio, conhecido no mercado como Paulo Preto.

Paulo Preto, engenheiro da Dersa e responsável pelas obras bilionárias do Rodoanel, foi o arrecadador, junto às empreiteiras, de recursos para a campanha presidencial de 2010. João Faustino, por sua vez, coordenava a campanha fora de São Paulo, inclusive no tocante à arrecadação.

A Operação Sinal Fechado e a ação do Ministério Público que bloqueou os bens de Kassab têm conexão direta — ocorreram simultaneamente. O elo entre as duas é a empresa Controlar, criada por Carlos Suarez, ex-dono da OAS.

Comentários para “Escândalo da Controlar já atinge senador Aloysio”

  1. Antonio S. Valentim 27.11.2011 às 19:13

    Xiiiiiii, A Elite politica honesta correta etc,etc,etc, não existe? Quero ver a cara do Agripino Maia,Gilberto Kassab,J. Serra e seu amigo Paulo Preto, Ahan, não é amigo, Foi? certo, e o Aloysio Nunes e João Faustino tabem foi não são mais, deixaram descobrir o desvio. Gente onde vamos parar?

  2. Maria Amélia Martins Branco 27.11.2011 às 18:57

    Era só uma guestão de tempo pra sujeira DEMOTUCANA vir à atona, demorou, mais o controle começa a sair das mãos do PIG, parabéns brasil247 pela imparcialidade, os éticos, os indignados que todo dia derrubam Ministros tem telhado de vidro, hoje é VIDRAÇA.

  3. André Oliveira 27.11.2011 às 10:18

    Olha só a malfeitoria chegando as portas do gabinete do Sr Senador Agripino Maia.!!!.Quem diria que a vestal seria flagrada remelenta, remelenta, nas lamas da desabonança..

  4. André Oliveira 27.11.2011 às 10:16

    O Pau que dá em Chico tem que dar no Francisco também..Boa Brasil 247.. Eu não defendo nem corrupto e nem corrupção, mas não admito esse substantivo que a direitalha criou chamado de “corrupção do PT”, como não concordo com o termo “tucanar” as coisas..Quanto mais decente for a imprensa melhor será o país…

  5. Joselito 27.11.2011 às 10:11

    O pau dá que dá em Chico tem que dá em Franscico,brasileiro é pobre mas é limpinho,já somos 80 por cento indignados com roubalheiras e acusações só de um lado como se eles fosse um exemplo para a sociedade,esqueceram dos 45 escandalos do FHC quando foi gov. que tinha uma imprensa a seu favor e uma Justiça que engavetava tudo,agora temos o Google e só perguntar e entrar pra saber tudo só é ignorante quem quiser,quando aparecer um politico cara de pau, entre no google e veja o curriculo dele,você não precisa esperar horario politico pra conhecer o candidato,agora eles não nos enganam mais fomos enganados por 500 anos chega,trabalhe para deixar um Pais melhor pros seus netos.Viu´só o Pais que os militares deicharam para nós.?200 anos de atrazo.Vote em quem está tirando o Brasil do Atrazo.

  6. Jofra 27.11.2011 às 09:22

    Parabéns a este JORNAL, bate nos dois lados! Acredito que seja o mais imparcial do Território Basileiro. Veremos como a TUCANADA vai justificar ( este caso deve entrar para o rol daqueles que foram atos enganosos do poder público – erros da Polícia Federal / Ministério Público etc…etc…a exemplo do caso Protógenes – o ótimo delegado federal que foi linchado até pela imprensa por ter mexido onde não devia). VIVA a DEMOCRACIA BRASILEIRA que está amparada em 90% pelas redes sociais e por jornais como este. Observem, isto só irá para os noticiários do PIG quando não houver mais jeito. Diferentemente do envolvido com o DETRAN de São Paulo, que deixou o DEM e, por isso, está estampado em todos os JORNALECOS tanto a sua foto como a história ( ou estória?) do ocorrido. Mas, este cara é TUCANO, não se deve fazer mau juízo dele! Eta Brasilzão daszelites…….

Dr. PAULO HOFF: Incidência de câncer vai aumentar no País / são paulo

Envelhecimento fará número aumentar nos próximos anos, afirma o oncologista Paulo Hoff, diretor do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo e médico do ex-presidente Lula

Ele nasceu em Paranavaí (PR), viveu em Passo Fundo (RS), graduou-se em Brasília e foi médico residente na Universidade de Miami e em Houston. Paulo Marcelo Gehm Hoff, 43 anos, é hoje uma das principais autoridades brasileiras em câncer, professor da USP, e está encarregado de cuidar da saúde do ex-presidente Lula, que trata de um tumor na laringe. Diretor do hospital Sírio Libanês e do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), tem entre seus pacientes a presidente Dilma, além do ex-vice-presidente José Alencar, que lutou contra a doença até março.

Veja também:
link Câncer afetará 1 milhão de brasileiros nos próximos 2 anos, aponta Inca 

Na última sexta-feira, um dia após a divulgação da estimativa do Inca (Instituto Nacional de Câncer) de um aumento no número de casos da doença no país em cerca de 1 milhão de novos pacientes nos próximos dois anos, Hoff disse que a estimativa é conservadora. “Temos no Brasil ainda uma falta de dados exatos do número de câncer, mas acredita-se que a estimativa do Inca esteja muito próxima da realidade”, afirma.

Ele explica que o envelhecimento da população deve levar o quadro da doença a níveis dramáticos nos próximos anos. Para combater isso, segundo Hoff, é preciso investir agora em prevenção e conscientização dos jovens sobre hábitos saudáveis de vida. “A conta será cobrada daqui a algumas décadas”. Ele afirma que 60% dos pacientes com câncer têm cura, que há medicamentos para reduzir o desconforto da quimioterapia, e critica a Resolução 196, que restringe a pesquisa científica no Brasil desde a gestão do ex-ministro Adib Jatene. “A agenda da pesquisa é dependente da indústria. É preciso mudar isso”, diz.

Após ter administrado a segunda sessão de quimioterapia ao ex-presidente Lula, no começo da semana passada – a última está prevista para janeiro -, Hoff afirma que o paciente reage bem ao tratamento do câncer na laringe. O prognóstico do ex-presidente, segundo o médico, “é bom” e que as informações sobre o tratamento são “absolutamente transparentes”.

Filho de um ex-dono de laboratório de análises clínicas em Paranavaí, o oncologista é casado com uma médica, tem três filhas, torce para o Internacional (RS) e é um apaixonado por assuntos de defesa, como aviões e navios de guerra. Perguntado se aceitaria ser ministro da Saúde, responde: “Eu? Nunca fui convidado”.

Abaixo, os principais trechos da entrevista no Icesp.

O Inca diz que há uma estimativa de um milhão de novos casos de câncer nos próximos dois anos no País. O que significa do ponto de vista da saúde pública?
O Inca talvez seja hoje uma das instituição mais sólidas em termos de estudos e investigação epidemiológia do câncer na América Latina. Então nós temos de acreditar nesses dados. Se nós quisermos ter alguma dúvida em relação a esses números é que eles podem ser até um pouco conservadores. Temos no Brasil ainda uma falta de dados exatos do número de câncer, mas acredita-se que a estimativa do Inca esteja muito próxima da realidade. Os números liberados agora têm algumas nuances importantes. No ano passado, o número da estimativa era de 500 mil casos. Neste ano, 520 mil. Um aumento substancial. Infelizmente a expectativa sobre esse número é de que continue a aumentar. Na pergunta foi mencionado qual era a expectativa de um milhão de casos nos próximos dois anos. Eu iria mais longe: nos Estados Unidos haverá um milhão e meio de casos em um ano – e o Brasil tem um terço da população americana. Se nós seguirmos nesta projeção ascendente, que se confirmou entre as estimativas de 2011 para 2012, nós teremos no futuro um número muito maior de casos. Não é impossível que cheguemos a ter um milhão por ano, quando a nossa população realmente atingir seu estado mais maduro e tivermos uma população elevada acima dos 60 anos.

Hoje temos no mundo em torno de 25, 26 milhões de casos.
Mas esse número vai aumentar bastante. E o número que é dramático é que até 2030 esta incidência deve aumentar em mais 15 milhões. E esse aumento se dará predominantemente em países em desenvolvimento cujas populações estão envelhecendo agora. Nos Estados Unidos, Europa etc, esta fase de amadurecimento já aconteceu há alguns anos. A pirâmide populacional mudou e as incidências subiram muito em anos passados e agora começam a estabilizar. Para nós, as curvas ainda são ascendentes.

O envelhecimento projeta um aumento importante dos casos.
A maior parte dos tumores tem mais de um fator que leva à formação da doença. Mas entre todos os fatores de risco o que é mais comum a todos os tumores é o envelhecimento. Porque o envelhecimento faz com que as células tenham mais tempo expostas a fatores que possam transformar as células normais em cancerosas. O envelhecimento faz com que haja mais pessoas sob risco, e consequentemente um aumento na incidência. Mas gostaria de dizer que se abrem oportunidades. O câncer não é doença que se forma do dia para a noite. As pessoas têm a impressão de que o câncer se forma de um ano para o outro. Na realidade, o processo é muito longo, com exceção dos tumores associados a síndromes familiares, que são muito rápidos, em geral os tumores levam de uma a duas décadas para se instalar. Então, se nós já sabemos que a estimativa atual é que haverá um envelhecimento da população e que essas pessoas terão um risco maior, nós temos a oportunidade de atuar na juventude agora para fazer com que ela minimiza a exposição. Você nunca vai conseguir eliminar o risco. Mas voce pode reduzir a chance. Mais ou menos como alguém que está dirigindo a 140/150 quilômetros um carro e baixa essa velocidade para 80 quilômetros por hora. Ele ainda tem o risco de um acidente, mas é menor do que se ele continuasse naquela velocidade.

Daí a iniciativa do trabalho com escolas do Icesp.
Justamente. Temos uma preocupação muito grande de como nós, no Icesp, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, podemos colaborar na redução dos casos de câncer a longo prazo. É importante não só se pensar no tratamento e diagnóstico precoce, que são soluções a curto prazo, mas nas soluções a longo prazo. Sabendo do tempo de formação do tumor, nós achamos que o momento no qual teríamos mais impacto é a conscientização do jovem. O jovem sempre pensa que é invulnerável, que não tem alta incidência de câncer, de outras doenças, e tende a ser um pouco mais solto em relação a hábitos. No entanto, o que ele faz agora vai cobrar a conta daqui a algumas décadas. Nossa iniciativa visa a conscientizá-lo de que hábitos saudáveis agora podem evitar que ele enfrente esse problema daqui 20 anos.

Doutor, o que é o câncer?
O câncer, na realidade, não é uma doença. Há centenas de doenças que têm características similares, que agrupamos com nome de câncer. Hoje a gente sabe que mesmo câncer de um órgão específico são doenças diferentes. Por exemplo: você pode ter duas mulheres com câncer de mama e um tumor não ter nada a ver com o tumor da outra. O que leva a nós chamarmos de câncer são algumas características em comum. Primeira delas: o câncer é doença que advém de alteração no código genético de uma célula afetada. Isso é comum a todas elas. Aconteceu alguma alteração naquele código que rege as funções e o desenvolvimento da célula fez com que ela se tornasse anormal. Segundo ponto: ele tem a capacidade de invadir estruturas adjacentes e mais, ele consegue viajar e se instalar a longa distância. A junção dessas características é o que nos leva a chamar uma doença de câncer.

O que é apoptose?
É um mecanismo que o organismo tem de eliminar células defeituosas ou que já tenham cumprido sua missão. Seria, entre aspas, o suicídio da célula. Por exemplo: se você tem um indivíduo que pega bastante sol e uma dessas exposições a radiação solar causou uma alteração numa célula da pele, esta célula pode vir potencialmente a se transformar em um câncer. Dentro da própria célula ela tem mecanismos que fazem com que se ative a apoptose, e ela morre. Geralmente isso acontece quando há um defeito no código genético que não pode ser reparado. A célula vem e tenta reparar o problema. Não conseguiu, então, ela instruiu a célula para morrer para que não cause câncer. Muitas vezes o câncer acontece porque temos defeitos nesses mecanismos de gerar apoptose.

O que é angiogênese?
Angiogênese é um termo bastante antigo. Foi cunhado por um cientista britânico chamado John Hunter, no Século 18, estudando feridas cirúrgicas. É a formação de novos vasos sanguíneos. Porque é importante em termos de câncer: o câncer precisa de oxigênio , precisa de uma via para receber alimentação e eliminar os produtos nocivos que são gerados pelo metabolismo. Então, se a célula cancerosa não conseguir fabricar um novo vaso, ela não consegue crescer. Se você consegue bloquear a angiogênese dentro do tumor você faz com que o tumor pare de crescer ou até regrida.

Esse seria um ponto fraco da doença.
É um dos pontos que têm sido explorados nos tratamentos. É um dos pontos fracos do tumor.

O senhor tratou do ex-presidente José Alencar, da presidente Dilma e do ex-presidente Lula. Qual deles foi melhor paciente?
Todo paciente é especial.

O senhor votou em Lula?
O voto é secreto.

O caso de Lula é relacionado ao fumo, câncer de laringe. Qual é o prognóstico?
O câncer de laringe tem sido bastante estudado. E o tratamento tem evoluído bastante nos últimos anos. Diria nas últimas décadas. Hoje a chance de sucesso de um câncer de laringe é bastante alto, especialmente se ele é descoberto no momento em que ele está confinado na região onde se iniciou. No caso do nosso ex-presidente, justamente se identificou que a lesão estava localizada, ainda, não havia disseminação do tumor. Então, o prognóstico é bom. Mas eu diria, se você me permitir, que mesmo instituições que trabalham com o Sistema Único de Saúde (SUS) têm a possibilidade de oferecer quimio e radioterapia que levam a uma chance de sucesso bastante alta. Em diversas regiões do Brasil. É um dos tumores com taxas de sucesso bastante boa.

Ele fez duas sessões, vai fazer mais uma. Isso é o mais indicado para o caso dele, ou é procedimento para todo paciente desse tipo de caso?
Não. Nós temos hoje em dia um interesse muito grande em individualizar a terapia. Os tratamentos para os diversos tipos de tumores são padronizados de acordo com o tipo de tumor a sua apresentação e a condição do paciente. Se você imaginar, são três grandes áreas que você trata a intersecção dessas três áreas. Tumor, paciente e o seu tratamento. Esse tipo de tratamento oferecido ao nosso ex-presidente foi desenhado especificamente para a situação dele. Existem tratamentos em que há cirurgia imediata, outros em que há cirurgia, seguida de quimio e radioterapia, e outros ainda quimio e radioterapia inicialmente. Esse foi o escolhido para ele.

Uma das queixas do paciente com a doença, nesta fase do tratamento, é o desconforto. Como fazer para reduzir os danos da quimio?
Nós evoluímos muito em termos de controle de sintomas no tratamento nos últimos 20 anos. Quando eu comecei a tratar pacientes com câncer não era incomum que no dia do tratamento o paciente ficasse fechado num quarto tomando soro, com as luzes apagadas, ar condicionado ligado. O paciente vomitava, um desconforto excessivo. É claro que o tratamento oncológico continua sendo um tratamento difícil. Mas evoluímos muito. Hoje nós temos medicações que permitem que o paciente tenha qualidade de vida aceitável. Ainda haverá dias em que os efeitos colaterais afetarão as atividades normais do pacientes. Particularmente quando você está fazendo um tratamento em áreas mais delicadas do organismo. como por exemplo a laringe, uma área extremamente nobre do organismo, o que nós comemos, respiramos, bebemos passa por essa região do pescoço. Mas existem outras áreas que são igualmente delicadas e, de novo, os esforços têm sido não só em melhorar o tratamento, mas também em diminuir o desconforto do paciente. Nós vamos evoluir eventualmente para tratamentos muito mais específicos, que pouparão muito mais as células normais e atuarão muito mais sobre as células cancerosas. Isso já está acontecendo, mas nem sempre é possível.

Já há drogas específicas e disponíveis?
Temos a primeira geração dessas medicações. No entanto, elas não estão disponíveis para todos os tipos de câncer. O mesmo essas drogas ainda não são perfeitas. Um cientista alemão, do final do século 19, início do século 20, chamado Paul Ehrlich, cunhou um termo ‘bala mágica’, uma bala que quando fosse disparada e só acertaria o bandido, poupando as outras pessoas ao redor. A ideia dele é que se pudesse desenvolver um tratamento que matasse só a célula cancerosa sem atingir as demais. Ainda não chegamos na ‘bala mágica’ de Paul Ehrlich, mas já andamos nesta direção. Eu tenho muita convicção de que vamos chegar nesse ponto porque o tratamento mais moderno já está muito mais próximo disse do que era. Novamente: infelizmente ainda não é perfeito e nem está disponível para todos os tipos de tumores. Novas gerações desses remédios terão de ser desenvolvidas para se atingir esse objetivo.

Com o que se tem hoje, o câncer tem cura?
Hoje nós conseguimos curar mais de 60% dos pacientes com câncer.

Quando o senhor fala de cura é eliminar completamente? A pessoa vai morrer idosa ou de uma outra doença?
Exatamente. Alguns tumores têm mais chance de sucesso. Por exemplo: dos que temos grande chances, pacientes com tumor de testículos, que é tumor importante porque atinge homens jovens. Nós temos a chance acima de 90% de curar. Mesmo quando ela está mais avançada. Maior exemplo é o ciclista americano Lance Armostrong, que teve um câncer de testículo com metástase no cérebro, foi tratado e ficou não só curado como ganhou o Tour de France várias vezes depois do tratamento. Um sucesso. Outros têm taxa menor em termos de cura. Mas mesmo assim temos evoluído. Há um sarcoma, incomum, chamado Gist, tumor do sistema gastro intestinal. Esses tumores tinham expectativa de vida, quando já avançados, de menos de um ano. Hoje, quando não é curável, a expectativa de vida é de mais de cinco anos. E vem aumentando ano a ano. Graças a essas moléculas específicas que a gente chama de terapia Alfa. Temos tido avanços, não na velocidade que gostaríamos, mas hoje em muitas apresentações é curável.

Um médico salva muita gente, mas também convive com as perdas. Como é perder um paciente?
É uma experiência muito difícil. Ninguém aceita isso. O médico aprende a conviver com a perda, porque se não ele teria de abandonar a profissão, especialmente um oncologista, porque o número de pacientes que acaba falecendo da doença é muito grande. É um momento de dor para todos os envolvidos. O tratamento oncológico é intenso. Nós trabalhos com o paciente lutando juntos, com frequência grande, períodos longos. Você vê o paciente muito. Se formam vínculos de amizade. Por outro lado, procura-se ver o sucesso, aqueles que se curam. E mesmo aqueles que não conseguem sobreviver nós procuramos ver se conseguimos fazer com que esse paciente vivesse mais tempo, tivesse oportunidade de ver a formatura de um filho, assistir a um casamento, coisas importantes para ele. E se a qualidade de vida foi mantida da melhor forma possível até o fim.

Os médicos fazem estatísticas desse sucesso? O senhor mede?
individualmente, não. Não tenho esse hábito. Como instituição, acho muito válido e necessário que façam suas estatísticas de sucesso. Para ter certeza de que está fazendo o melhor.

O senhor fez medicina nos EUA. O que diria a um jovem que pretende cursar medicina no Brasil?
Eu sempre tive muito orgulho da minha formação no Brasil. Os médicos brasileiros com os quais convivi nos Estados Unidos sempre foram muito respeitados nos grupos. Eu diria a um aluno que depende muito de seu esforço. Acho que no Brasil há todas as condições de formarmos médicos excelentes, mas é necessário esforço pessoal. No passado, quando eu fui aos Estados Unidos, havia uma discrepância muito grande entre a infraestrutura disponível aqui e a de lá. A primeira vez que cheguei na Universidade de Miami coloquei o jaleco e comecei a caminhar na direção do hospital, foi um choque. Era muito diferente do que eu estava acostumado a ver. Hoje não é tão diferente. Visitei recentemente a Universidade de Miami, visitei as clínicas, e não há mais diferença. Em muitos aspectos o Icesp tem uma estrutura mais acolhedora. Mas há que ter cuidado. O Brasil teve um aumento muito grande no número de escolas médicas. Nem todas estão preparadas para formar um médico que nós precisamos. É importante que haja um controle da qualidade dos médicos que estão se formando.

É possível fazer boa medicina com a pressão de custos do sistema hospitalar?
A pressão é nos médicos e hospitais mundiais. Nos Estados Unidos, o presidente Obama passou lei de atenção à saúde que está sendo questionada. É possível que ela seja desfeita. A pressão de custos é universal. Se podemos fazer boa ciência? Podemos. Boa medicina? Podemos. Mas vamos ter de aprender a racionalizar os recursos. Há, às vezes, a impressão de que é possível se fazer tudo para todos sendo estabelecido, experimental etc. Infelizmente a realidade não é essa. Há limitações. Deveríamos ter mais verbas? Gostaria que tivéssemos. Mas também ficar só mencionando isso é complicado. Acho que sim, temos que lutar por mais verbas, mas temos que racionalizar o uso do que temos também.

O senhor dirige o Sírio Libanês, privado, e o Icesp, público. Qual é a maior dificuldade na questão da gestão?
São mundos bastante distintos, mas que estão se aproximando. Acho que o sistema público, pelo menos as instituição de mais qualidades, estão se aproximando mais do sistema privado. mas sempre haverá diferenças, como entre dois hospitais privados. Aqui, no Icesp, público, temos a dificuldade de financiamento da saúde maior do que o que você tem numa instituição privada. O salário dos médicos não são exatamente o que nós gostaríamos que fosse. É natural a dicotomia. Uma pergunta importante, que ainda não foi feita, é qual seria o grande problema do atendimento oncológico hoje no Brasil? Nós discutimos muito o acesso a novas drogas, a novos equipamentos. É importante. Mas o grande problema é o acesso aos serviços. Você precisa fazer com que o paciente que tem suspeita de câncer tenha seu tratamento iniciado mais rápido. Como fazer? De duas maneiras: aplicando na infraestrutura e racionalizando o uso do que você já tem. Por que há filas e o paciente reclama? É importante esclarecer à população que não é um porque os médicos do hospital x,y,z não estão atendendo, ou o hospital está de má vontade. É que a demanda é maior do que o que os hospitais têm. Se tenta fazer o melhor. O que precisamos é de um sistema que redistribua melhor essa demanda.

Doutor, o senhor aceitaria ser ministro da Saúde?
Eu? Nunca fui convidado.

É possível fazer boa formação sem o apoio das corporações e indústria que financiam pesquisa?
No Brasil, nós tínhamos uma falta de arcabouço jurídico da pesquisa clínica que estava sendo realizada. Na gestão do ministro Adib Jatene, da Saúde, se criou um sistema nacional de controle ético de pesquisa e se regulamentou como seriam as relações entre pacientes, médicos, prestadores e patrocinadores. A espinha dorsal é a Resolução 196 da Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisas). Temos que reconhecer que a Resolução 196/96 foi um grande avanço. Regulamentou o que era feito sem controle adequado. E estabeleceu marcos importantes em defesa dos pacientes. No entanto, a Resolução 196 e as que se seguiram a ela criaram uma situação em que a pesquisa clínica no Brasil ficou extremamente restritiva e extremamente cara. Se você seguir ao pé da letra, fica quase impossível fazer pesquisa que não seja patrocinada por indústria farmacêutica. Os tratamentos padronizados tem de ser cobertos por alguém que não seja o SUS, seguros ou pacientes. Quem é que tem dinheiro para pagar? A grande indústria. Hoje, a agenda da pesquisa ficou altamente dependente da indústria farmacêutica.

Mas isso não gera uma questão ética para o médico?
Depende de como ele se relaciona. Gera é uma questão maior. Uma questão de desenvolvimento de conhecimento para o país. É do nosso interesse que a pesquisa médica do país seja dominada só pela indústria farmacêutica? Eu não sou contra a indústria. Sou totalmente a favor do relacionamento com a indústria dentro de normas éticas. Mas acho que deve existir outras formas de pesquisa. Mesmo porque existem pesquisas clínicas relativamente simples que não são do interesse da indústria. Um exemplo: se eu imaginar um tratamento com a droga Y e a dose é de 100 ml de aplicação e eu, estudando, imagino que 50 ml seja suficiente, para fazer um estudo tenho de achar alguém que pague os 100 ml do braço de controle e os 50 ml do experimental. Embora os 100 ml seja padronizado e se eu for tratar o paciente, o que farei, será coberto. Pela lei atual tenho que achar alguém que pague os dois braços. Será que a indústria vai ter interesse em patrocinar um estudo que vai levar à venda da metade do que ela vende atualmente? Difícil.

Qual a solução?
É você pensar melhor a questão. Drogas novas têm de ter seu desenvolvimento patrocinado totalmente pela indústria, sem dúvida. Mas acho que te de haver flexibilidade para instituições acadêmica, quando estiverem avaliando protocolos padronizados possam fazer a cobrança na fonte usual. Não é aumento de despesa. Fico feliz que a Resolução 196 tenha sido colocada em discussão agora. Estão recebendo no Ministério comentários da comunidade científica para tentar aperfeiçoar a resolução. Queremos manter a ética da pesquisa. É importante que o que for experimental seja coberto por quem eventualmente vá lucrar, mas temos que ter cuidado para não jogar o nenê junto com a água do banho. Temos que separar o que tem de ser patrocinado pela indústria e o que tem de ser acadêmico, que vai beneficiar o SUS, inclusive. Outro ponto é que o Brasil só perde em tempo de aprovação de pesquisa para a China. Hoje nosso tempo médio é muito longo, que faz com que sejamos excluídos de estudos importantes. Não queremos diminuir a avaliação ética dos projetos. Mas precisa ser mais célere. Hoje temos duas instâncias: a maior parte dos países tem uma instância de aprovação e uma de supervisão.

por Pablo Pereira.

“O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.” – Chico Xavier

em 25/11/2011 as 20:10

recebi a FRASE ACIMA, de um leitor amigo e colaborador do site, há alguns meses, como sendo de CHICO XAVIER. entendi de publicar. não coloquei dúvida na autoria, até porque, o respeitável espírita jamais assumiria algo que não fosse seu ou dos seus mentores. agora, o meu amigo e brilhante escritor OLSEN JR, também colaborador do site, nos esclarece que se trata de uma frase/pensamento do não menos brilhante poeta/filósofo português FERNANDO PESSOA. sem, pessoalmente, saber da origem real, tomo posição  favorável ao alerta de OLSEN JR, a quem, de público, agradeço esta preciosa colaboração corretiva. é difícil de se compreender as pessoas por tais atitudes. modificar a autoria não melhora a imagem de ninguém, antes, pelo contrário, agride a moral do provável beneficiado. para que os comentários e esta observação tenham sentido, mantenho o post tal como está.

CHILE: Homenagens a assassinos e torturadores não são mais aceitas – por christian palma / santiago.ch

No Chile, a dor e as feridas causadas pela ditadura estão longe de fechar. Um exemplo desta situação foi protagonizado pelo próprio Piñera, pelo prefeito da acomodada e conservadora localidade de Providencia, o ex-coronel de Exército, Cristián Labbé, e seu ex-superior hierárquico, o brigadeiro reformado Miguel Krassnoff (foto), acusado, este último, de delitos de lesa humanidade nos tempos em que Pinochet governava o país. Uma homenagem a Krassnoff gerou forte reação popular.

No Chile, a dor e as feridas causadas pela ditadura estão longe de fechar. Ainda mais quando diversas autoridades, inclusive algumas de dentro do governo de direita de Sebastián Piñera, insistem em olhar para o lado e fazer de conta que não aconteceu nada.

Um exemplo desta situação foi protagonizado pelo próprio Piñera, pelo prefeito da acomodada e conservadora localidade de Providencia, o ex-coronel de Exército, Cristián Labbé, e seu ex-superior hierárquico, o brigadeiro reformado Miguel Krassnoff, acusado, este último, de delitos de lesa humanidade nos tempos em que Pinochet governava o país.

A indisposição cidadã começou na semana passada quando Labbé –reconhecido amigo do defunto ditador chileno- anunciou que faria uma homenagem à Krassnoff, o que foi valorizado e respaldado pelo palácio de La Moneda. A opinião pública levantou a voz por meio das redes sociais, pela qual Piñera se retratou alegando que uma colaboradora havia falado por ele. Sua mensagem foi via twitter e não de frente ao país como a situação merecia.

Ontem pela manhã, a poucas horas de que a homenagem dos militares começasse, pois não foi suspensa pelo governo, o ministro visitante da Corte de Apelações de Santiago, Alejandro Solís, abriu um processo contra quatro ex-integrantes da Direção de Inteligência Nacional (DINA – a temida polícia secreta de Pinochet) pelo sequestro qualificado de Newton Morales Saavedra, ocorrido a partir de 13 de agosto de 1974 em Santiago, na etapa mais sangrenta da ditadura (1973-1990).

Entre os acusados da autoria deste delito está o homenageado, o ex-brigadeiro Krassnoff, juntamente com o general (R) Manuel Contreras Sepúlveda, o coronel (R) Marcelo Moren Brito e o suboficial (R) Basclay Zapata Reyes, todos assassinos e torturadores consumados.

De acordo com os autos do processo, Morales, de 39 anos, foi detido sem nenhuma ordem judicial por volta das 21h15min em seu domicílio em Santiago, por três agentes da DINA, que o introduziram em um veículo de cor vermelha com antenas, foi conduzido até um quartel da agrupação de inteligência que se localizava no centro de torturas na rua Londres, nº38, no centro da cidade.

Os quatro processados foram notificados desta resolução nos recintos de detenção preventiva onde cumprem pena por outras causas vinculadas a violações de direitos humanos. No caso de Krassnoff, o trâmite se realizou em Punta Peuco onde cumpre 144 anos de pena como participante destes crimes de lesa humanidade. Mesmo assim, a homenagem continuou adiante.

A comunidade mostrou seu descontentamento. Não só nos cafés, nas esquinas ou nas praças públicas. Outra vez as redes ferveram repudiando a cerimônia. De fato se convocou uma “funa” (grupo de pessoas que se reúne para interpelar algum delinqüente) que irrompeu pela tarde na chique e facistóide localidade de Providencia.

Cerca de 500 pessoas, após saírem de seus trabalhos, chegaram até o Club Providencia para reclamar contra o violador de direitos humanos.
Os convidados para a cerimônia que chegaram até o recinto foram objeto de insultos, cuspidas e tentativas de agressão protagonizadas por alguns dos manifestantes. O grito de “assassinos, assassinos” foi escutado novamente em Santiago.

A polícia uniformizada, que estava de prontidão próximo ao local, atuou com força, com carros lança-água, bombas de gás lacrimogêneo e porretes. De fato, uma mulher sofreu um ferimento no rosto devido ao impacto de uma bomba de gás lacrimogêneo.

Em meio aos protestos, foi recebida pelo menos uma ameaça de bomba no lugar. Embora num primeiro momento se informasse de uma evacuação do Club Providencia, os convidados à homenagem continuaram ingressando ao centro de eventos e não se informou sobre a suspensão do evento.

“Este é um ato puramente militar. Que os políticos fiquem em suas casas” afirmou um coronel reformado, companheiro de promoção de Krassnoff e que parecia não se importar com os acontecimentos.

De fato, Labbé voltou às manchetes quando reprimiu os estudantes secundários em greve através da força policial.

A dirigente da Agrupação de Familiares de Detidos Desaparecidos (AFDD), Mireya García, criticou o trabalho policial frente às disputas ocorridas com os que compareceram à homenagem, assegurando “se manifestam com um grau de violência que realmente é abismal e os carabineros permanecem impávidos nestas circunstâncias”.

Disse ainda que o prefeito Cristián Labbé “não tem o direito de encabeçar uma cerimônia desta natureza, porque ele foi eleito por votação popular e, portanto, tem que representar todos os moradores de Providencia e não somente um setor. Eu acredito que o prefeito Labbé não pode continuar sendo prefeito, não pode continuar sendo representante de uma comunidade porque se colocou definitivamente do lado dos criminosos”.

“Esta é una atividade que nunca deveria ter sido realizada. O Presidente Piñera devia ter tido uma atitude de repúdio absoluto oficialmente”, sustentou a dirigente.

No final do dia, vários manifestantes foram detidos e feridos. Armaram-se barricadas nas proximidades, o que demonstra que as pessoas não tolerarão mais abusos ou lembranças daqueles que os praticaram. Ontem à noite no Chile a frase “nem perdão nem olvido”, se escutou com força.

Tradução: Libório Junior

BONDADE – de sergio bitencourt / curitiba.pr

Cada Ser Humano tem a uma Bondade, que é dele,
 E que lhe cabe.
É exercida com os seus que Ama,
E com outros que também Ama.
Ser Bom, é exercer a Bondade,
E não patrocinar a vontade dos seus ou fora deles.
Ser Bom é conhecer sem julgar,
Mas conhecer sem se arrepender,
É dar a cada qual o que lhe cabe naquele momento,
Bondade não tem Tempo.
A necessidade é de cada tempoi,
E irraigada com ele.
De modo que, a necessidade de cada qual,
Não tem vínculo com a Bondade se quer de um só.
A Bondade não é nem necessária,
Prescinde da necessidade,
E a necessidae não prescinde nem de sí.
Então, o que é Bom,
É Bom porque quer ser,
E fim.

UM POEMA – de gilda kluppel / curitiba.pr

Um Poema

Sou um ser estranho

ando pela cidade

encontro beleza no asfalto

em qualquer esquina,

numa rua, na sarjeta

exalo o cheiro de chuva na relva.

Sou um trovador

em versos e rimas

o motivo para um enredo,

experimento sensações

acalento sonhos, desvelo segredos

não uso disfarces, mas tenho muitas faces.

Sou uma saudade

quando os passos andam em desalento

amenizo as despedidas

entre tantas angústias

encontro o porto de chegada.

Sou um ser contraditório

caminho pela contramão

no sentido oposto da ambição

durmo ao relento

aprecio o brilho das estrelas

ou o céu lacrado, inviolável

canto felicidade, dores e mágoas

alegrias e tristezas da vida

as pequenas e as desmedidas

a perfeição me encanta

e também o mal acabado,

o desleixado, o jogado ao acaso.

Sou um abraço

sem amarras e cobranças

apenas afeto, o argumento convincente

meras palavras me realizam

entre tantas metáforas

tenho a força de um sentimento.

ESTOU APRENDENDO – de delinar pedrinho matuczak / quedas do iguaçu.pr


 

Eu pensei que a idade me trouxesse experiência.

Lembraram-me que na vida devesse pedir sapiência

Labutei pedindo experiência

Entendi depois de muito penar

Necessito sapiência, espero que esteja em tempo de aprender a ser sábio e a tentar ensinar isso a alguém.

cognita sum

Putabam me aetate usus.
Admonuit me sapientia vitam peterent
Vocatio experientiam laboraverunt
EGO animadverto multum laborem
Ut sapientiae sapere et spes discite tempus tellus sed do eiusmod aliqua.

O HOMEM E SEU DUPLO – por olsen jr / ilha de santa catarina.sc

   O que vou escrever não tem nada a ver com a obra “O Homem e o Seu Duplo”, de Alexandre Figueiredo, tampouco com “O Homem Duplo” (que originou o filme “A Scanner Darky”) de Philip K. Dick (o mesmo autor de Blade Runner) e menos ainda com “O Homem Invisível”, de H. G. Wells.

   O assunto aqui é mais leve.

É vox populi que todo o homem tem em algum lugar um sósia. Em outras palavras, alguém que é a sua imagem e semelhança, pelo menos no estereótipo.

Mas também não é isso do que pretendo tratar.

Só abrindo um parênteses, o escritor Christopher Lash (conhecido pela obra “A Cultura do Narcisismo”) escreveu uma espécie de continuação dela em outro livro “O Mínimo Eu” em que fala do narcisismo passivo e que o Paulo Francis emendava, referindo-se ao autor “acha que o mundo de hoje é dominado de tal forma por um complexo de burocracias todo poderosas que é difícil a alguém ganhar a individualidade”, mais “a vida é um constante comercial de TV ao qual o espectador tenta se segurar e tenta seguir, mas não consegue”, concluindo “ teme a idade e a morte de maneira infantil, nunca sai da infância”.

Começo por aí, pela infância. Quando éramos crianças, nós inventávamos um mundo de mentirinha e nos refugiávamos nele. A partir daí as brincadeiras faziam um sentido especial o que as tornavam necessárias. Nós não estávamos muito conscientes da duplicidade dos mundos, o que era “real” de onde provínhamos e do outro “imaginado” que acabávamos de criar. Os dois mundos até poderiam se confundir, embora sempre preferíssemos aquele outro o do faz de conta e sobre o qual tínhamos o domínio absoluto, inventando personagens e situações que parodiavam a vida adulta (ou não), mas nesse caso era apenas uma representação que poderia ser abandonada quando estivéssemos cansados dela.

O importante era ter uma ingerência na fantasia que criávamos diferente do mundo “real” onde aquelas aventuras oníricas não tinham guarida.

Nessa vida, dita adulta, o escritor que habita em mim está fazendo esse papel, o mesmo daquela criança que ontem fui e que ainda não me abandonou (porque sempre a tratei bem e nunca a deixei sozinha o suficiente a ponto de ela me ignorar como companheiro de viagem) o que permite a criação de um mundo paralelo aonde vou quando escrevo.

Ao contrário dessa criança, tenho consciência da fronteira entre ambos os mundos (um que eu suporto e o outro que criei) e o curioso agora é que nunca preciso cruzar a ponte de maneira clandestina, sei que consegui cobrir o trajeto quando essa solidão que me condena de um lado me absolve do outro, então escrevo, sozinho, mas livremente.

Agora, recebo um telefonema de uma amiga que está lendo os meus livros, e ela afirma: “não é justo… Assim não é justo”, repete e explica: “fico aqui lendo… Estou me apaixonando”…

Interrompo aquele monólogo e digo que ela pode se apaixonar pelo escritor, que está inteiro nas mãos dela, nas obras que lê, mas o homem por trás do autor é demasiadamente comum, não vale a pena alimentar um interesse por uma natureza humana que pode ser encontrada em cada esquina. Ela não se conforma, mas é a realidade, o escritor foi o sujeito que inventei para melhor suportar o homem comum que eu sou.

Para as pessoas que se crêem normais é muito estranho fazer essa discriminação entre a criança, o homem e o escritor e constatei isso enquanto limpava uma coleção de soldadinhos de chumbo reproduzindo os templários e as cruzadas e comecei a perceber o fragor da luta entre sarracenos e cristãos e, palavra de escoteiro, naquela hora, juro, senti o zunido de flechas e as batidas secas de cimitarras nos escudos que tinham uma cruz pintada em vermelho, diante das muralhas castigadas por catapultas, enquanto uma lança me espetava e tombei ferido de morte antes de afirmar que aquelas distinções não faziam sentido e aquela carnificina era inútil!

 

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