O Rio de Janeiro de antes do choro e do samba – por claudio caldas / ilha de santa catarina

Fiquei pensando aqui com os meus botões, meu caro leitor, se é possível imaginar uma cidade como o Rio, nos tempos em que nem samba e nem chorinho ainda existiam…pesquisando aqui e acolá, cheguei a um quadro interessante, mas que confesso, não é tão fácil de “sentir” depois de tantos anos….os textos sobre Chiquinha Gonzaga e Joaquim Calado, nos ajudam um pouco.
Vamos nos situar no tempo e no espaço. O período a que me refiro é mais ou menos o compreendido entre o final da Guerra do Paraguai e a Proclamação da República, algo entre 1870 e 1889. Nos livros de história ficamos sabendo que os gastos com a Guerra do Paraguai tinham aumentado, de forma considerável, a nossa dívida externa. As fazendas de café do Estado do Rio de Janeiro e de São Paulo, responsáveis pela maior exportação brasileira, agora sofriam com a queda vertiginosa dos preços do grão no mercado internacional.
O Rio de 1885, segundo Marc Ferrez
O Rio tinha , em 1872, segundo o primeiro senso realizado no Brasil, uma população de 274.972 pessoas. Era o Brasil Imperial ainda e em plena utilização do trabalho escravo, especialmente nestas regiões produtoras de café. Um época de muita efervescência política na cidade e de discussões de questões que culminaram com a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República, fatores geradores de movimentos migratórios para o Rio de Janeiro, que, já em 1890, na aferição do segundo senso, contou 522.651 habitantes.
Era o tempo da criação dos grêmios políticos e literários, das associações recreativas que intensificaram a vida urbana. O carioca passa a ter hábitos mais sociais e logo são abertas várias confeitarias, propiciando que instrumentistas realizassem apresentações e saraus aqui e ali, para mostrar suas polcas. Creio que estas condições fizeram com que a organização do tipo patriarcal, familiar, fosse substituída pelas sociedades civis, não ligadas ao governo, que promoviam encontros, discussões, audições de piano e a apresentação de peças teatrais.
É neste ambiente que surge uma mulher que não reconhecia limites de participação e que queria mostrar seu trabalho, suas criações musicais. Chiquinha Gonzaga que já havia passado por dificuldades por conta de seu temperamento, separada inclusive dos filhos, frequenta confeitarias e lança em 1877 a sua polca “Atraente”, com um sucesso que obteve 15 edições de sua partitura.
O Rio passa a ter vida noturna e surge a figura do seresteiro, primeiro isoladamente, com seu violão a apresentar modinhas. As confeitarias multiplicam-se, agora até com a presença de senhoras, que sentam-se às mesas e pedem seus sorvetes, doces e pastéis, licores e cervejas. Os artistas passam a marcar ponto na Confeitaria Castellões, na Rua do Ouvidor. Carlos Gomes, quando ia ao Rio, por lá passava para encontrar o pessoal do Teatro e da Música. São também deste tempo a Confeitaria Paschoal, na Rua do Ouvidor, nr. 128, muito frequentada pelo abolicionista José do Patrocínio e a Colombo, que ainda hoje tem grande simpatia do carioca.

Os café-cantantes também foram instalados neste início de boêmia carioca e neles rolavam apresentações de cançonetas maliciosas de duplo sentido. O bonde surgia pra facilitar a movimentação deste  novo público e a Rua do Ouvidor era o “must”, o “point” da cidade.

Rua do Ouvidor 1890
Uma rua estreita e cheia de elegantes lojas, cujos donos eram predominantemente franceses, ditava a moda, costumes e fofocas. O escritor Machado de Assis a descreve em vários de seus contos e romances, dizendo que ela era o paraíso dos boatos. Por isso mesmo, quando cogitaram alargar a rua, ele preocupou-se em frisar que “o boato precisa de aconchego, do ouvido à boca para murmurar depressa e  baixinho…”
Este era o Rio que proporcionou que o choro surgisse e que tivesse um interesse grande do público. O mesmo ambiente que, um pouco mais tarde, foi forjando as condições para o surgimento do samba…mas aí já vale uma outra postagem…
A recomendação pra quem quiser saber mais sobre o tema, vai para “História Social da Música Popular Brasileira”, de José Ramos Tinhorão e “Chiquinha Gonzaga, uma história de vida”, de Edinha Diniz. Boa leitura e até a próxima.

ESCRAVOS – de fabio pereira

Ó república escravizada
Donde escuto escravos
Em murmúrio açoitados
Ao pelourinho indouto.

Encilham-nos o intelecto
A cabresto e a chibata,
Lampejos incultos fustigam
Nas tezes calejadas.

Sob a tenda do Pão e Circo armada,
Ali as massas anestesiadas,
Tementes à desvairada
Ditadura Midiática.

Ó república escravizada,
Toda a vida anoitecida,
Sem uma lua ou ponto de luz,
Restrita à noite desculta!

Por um 13 de Maio novo,
A alforriar mentalidades,
Libertando e nutrindo-as
A banquetes de crítica e cultura.

DOM GERALDO MAJELA: Papa corria risco de vida – por gerson camarotti / brasilia.df

Para cardeal brasileiro, Papa corria risco de vida

Na terceira reportagem da série especial do Jornal das Dez, os cardeais brasileiros que participarão do Conclave analisam os escândalos recentes na Igreja. A decisão de enfrentar os problemas foi um ato de coragem – dizem eles. Mas já há análise de que esse enfrentamento colocou em risco não só o pontificado, como também a vida de Bento XVI. Veja reportagem:

Ao falar nesta quarta-feira pela última vez em público, Bento XVI afirmou que enfrentou “águas agitadas” durante o papado. Uma referência aos escândalos e polêmicas que marcaram o curto pontificado – que começou em 2005.

Para dom Geraldo Majella, Bento XVI foi corajoso ao mudar a atitude da Igreja em relação aos casos de pedofilia. “Ele já colocou: não pode haver  convivência. Uma vez que tenha o caso, ele deve ser tratado  assim drasticamente. Imediatamente tem que  ser deposto da sua função e deposto totalmente, não pode assumir mais nenhum exercício da sua missão como sacerdote”, observou o cardeal emérito de Salvador.

Uma orientação simples. Mas de aplicação complexa. O cardeal emérito de Los Angeles, Roger Mahony,  é acusado de ter protegido padres que abusaram sexualmente de crianças. Mas, pelas regras da Igreja, nada impede que ele participe do Conclave que escolherá o próximo papa.

“Pelo direito canônico ele tem menos que 80 anos e tem direito de participar”, disse dom Raymundo Damasceno.

“Eu penso que tudo isso é da responsabilidade dele. Ele que terá que resolver isso em consciência”, completou dom Cláudio Hummes.

Até o início do ano passado, o fantasma da pedofilia atormentava o Vaticano. De lá pra cá, surgiram novos escândalos. O jornal italiano Il Fatto Quotidiano, revelou que havia um complô para assassinar Bento XVI.  A informação foi atribuída ao cardeal de Palermo, Paolo Romeo. O Vaticano negou. Mas foi a partir daí, que as intrigas internas da Santa Sé ficaram expostas.

Em fevereiro, foi denunciado o vazamento de documentos sigilosos que apontavam corrupção nos negócios da Igreja. O mordomo Paolo Gabrielle foi apontado como culpado.

Ao Jornal das Dez, o cardeal de Salvador admite, pela primeira vez, que o escândalo que ficou conhecido como Vatileaks colocou a vida do Papa em risco.

J10 – O senhor acha que o Papa Bento  XVI, ao tocar o dedo na  ferida desses dossiês, desse escândalo do mordomo, ele corria risco de vida?

Dom Geraldo Majella - Continuava a correr.

Meses depois, a demissão do presidente do Banco do Vaticano foi mais uma pedra no sapato vermelho de Bento XVI.

“O Papa Bento XVI foi muito corajoso.  Tomou decisões rigorosas. O presidente chegou a ser demitido, por razões que eu não saberia dizer. Mas ele quis, e ordenou que o banco obedecesse todas as normas da Comunidade Européia”, disse o cardeal de Aparecida.

J10 – O próximo papa terá que colocar o dedo na ferida para resolver essas questões?

Dom Cláudio Hummes - Com certeza. Isso sim. Isso será um desafio muito grande.

 

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Para bispo, cardeal italiano se disse convicto de complô para matar Papa

 

qui, 28/02/13
por Gerson Camarotti |

 

Apesar de negado publicamente, o próprio cardeal de Palermo, Paolo Romeo, chegou a relatar para alguns bispos próximos de que estava convencido da existência de um complô para matar Bento XVI. O Blog apurou que esse relato chegou a ser feito pessoalmente pelo purpurado italiano para um influente bispo da América Latina.

Há um ano, o jornal italiano Il Fatto Quotidiano revelou que haveria um complô para matar o Papa  e que o sucessor seria o cardeal de Milão, Angelo Scola. Segundo a reportagem, a revelação teria sido feita pelo cardeal de Palermo numa conversa reservada, durante visita à China.

O relato dessa conversa teria sido entregue ao Papa num documento confidencial escrito em alemão pelo cardeal colombiano Dario Castrillón Hoyos. Prefeito emérito da Congregação do Clero, o colombiano é um grande amigo do Papa.

“O Papa não foi assassinado. Mas renunciou ao cargo e agora Scola aparece como favorito. Isso tem sido comentado no Vaticano”, ressaltou ao Blog um importante prelado brasileiro, preocupado com o clima de beligerância na Cúria Romana.

Quando a notícia foi publicada, o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi disse que a informação estava “tão fora da realidade e tão pouco séria” que não podia ser levada em consideração. “Parece incrível e não quero nem comentar”, acrescentou Lombardi, na ocasião.

Já o cardeal de Palermo, Paolo Romeo, negou as informações e disse que não havia qualquer fundamento na reportagem. Romeo admitiu ter ido à China, mas disse que foi “uma viagem particular” e “de curta duração, limitada só à cidade de Pequim.

“1964 – Um golpe contra o Brasil” estreia no sábado / são paulo

Lançamento acontece no Memorial da Resistência de São Paulo, às 14h

O documentário “1964 – Um golpe contra o Brasil”, de Alipio Freire, será lançado no próximo sábado, 2 de março, no Memorial da Resistência de São Paulo (Largo General Osório 66, próximo ao Metrô Luz).

Feito a partir de depoimentos de personagens que viveram, como militantes, aquele período, o filme discute as razões que levaram ao golpe civil e militar que derrubou o governo do presidente João Goulart.

Almino Affonso, à época deputado federal e ministro do Trabalho do governo Jango, Rafael Martinelli, dirigente do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), a socióloga Maria Victoria Benevides, o médico Reinaldo Murano, o então presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes), Aldo Arantes, e o coordenador nacional do MST João Pedro Stedile estão entre os personagens ouvidos.

A sessão começará às 14 horas, no auditório do Memorial da Resistência de São Paulo. Após a exibição do docuemntário será realizado um debate com o diretor.

O filme é uma produção do Núcleo de Preservação da Memória Política e da TVT – Televisão dso Trabaladores, com apoio do Memorial da Resistência de São Paulo e da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo.

Leonardo Boff: A Igreja age como uma “casta meretriz”

Quem acompanhou o noticiário dos últimos dias acerca dos escândalos dentro do Vaticano, trazidos ao conhecimento pelos jornais italianos “La Repubblica” e o “La Stampa”, referindo um relatório com trezentas páginas, elaborado por três Cardeais provectos sobre o estado da cúria vaticana deve, naturalmente, ter ficado estarrecido. Posso imaginar LEONARDO BOFFnossos irmãos e irmãs piedosos que, fruto de um tipo de catequese exaltatória do Papa como “o doce Cristo na Terra” devam estar sofrendo muito, pois amam o justo, o verdadeiro e o transparente e jamais quereriam ligar sua figura a notórios malfeitos de seus assistentes e cooperadores.

O conteúdo gravíssimo destes relatórios reforçaram, no meu entender, a vontade do Papa de renunciar. Aí se comprovava uma atmosfera de promiscuidade, de luta de poder entre “monsignori”, de uma rede de homossexualismo gay dentro do Vaticano e desvio de dinheiro do Banco do Vaticano. Como se não bastassem os crimes de pedofilia em tantas dioceses que desmoralizaram profundamente a instituição-Igreja.

Quem conhece um pouco a história da Igreja – e nós profissionais da área temos que estudá-la detalhadamente – não se escandaliza. Houve épocas de verdadeiro descalabro do Pontificado com Papas adúlteros, assassinos e vendilhões. A partir do Papa Formoso (891-896) até o Papa Silvestre (999-1003) se instaurou segundo o grande historiador Card. Barônio a “era pornocrática” da alta hierarquia da Igreja. Poucos Papas escapavam de serem depostos ou assassinados. Sergio III (904-911) assassinou seus dois predecessores, o Papa Cristóvão e Leão V.

A grande reviravolta na Igreja como um todo, aconteceu, com consequências para toda a história ulterior, com o Papa Gregório VII em 1077. Para defender seus direitos e a liberdade da instituição-Igreja contra reis e príncipes que a manipulavam, publicou um documento que leva este significativo título “Dictatus Papae” que literalmente traduzido significa “a Ditadura do Papa”. Por este documento, ele assumia todos os poderes, podendo julgar a todos sem ser julgado por ninguém. O grande historiador das idéias eclesiológicas Jean-Yves Congar, dominicano, considera a maior revolução acontecida na Igreja. De uma Igreja-comunidade passou a ser uma instituição-sociedade monárquica e absolutista, organizada de forma piramidal e que vem até os dias atuais.

Efetivamente, o cânon 331 do atual Direito Canônico se liga a esta compreensão, atribuindo ao Papa poderes que, na verdade, não caberiam a nenhum mortal, senão somente a Deus: ”Em virtude de seu ofício, o Papa tem o poder ordinário, supremo, pleno, imediato, universal” e em alguns casos precisos, “infalível”.

Esse eminente teólogo, tomando a minha defesa face ao processo doutrinário movido pelo Card. Joseph Ratzinger em razão do livro “Igreja:carisma e poder” escreveu um artigo no “La Croix” (8/9/1984) sobre o “O carisma do poder central”. Aí escreve: “O carisma do poder central é não ter nenhuma dúvida. Ora, não ter nenhuma dúvida sobre si mesmo é, a um tempo, magnífico e terrível. É magnífico porque o carisma do centro consiste precisamente em permanecer firme quando tudo ao redor vacila. E é terrível porque em Roma estão homens que tem limites, limites em sua inteligência, limites em seu vocabulário, limites em suas referências, limites no seu ângulo de visão”. E eu acrescentaria ainda limites em sua ética e moral.

Sempre se diz que a Igreja é “santa e pecadora” e deve ser “sempre reformada”. Mas não é o que ocorreu durante séculos nem após o explícito desejo do Concílio Vaticano II e do atual Papa Bento XVI. A instituição mais velha do Ocidente incorporou privilégios, hábitos, costumes políticos palacianos e principescos, de resistência e de oposição que praticamente impediu ou distorceu todas as tentativas de reforma.

Só que desta vez se chegou a um ponto de altíssima desmoralização, com práticas até criminosa que não podem mais ser negadas e que demandam mudanças fundamentais no aparelho de governo da Igreja. Caso contrário, este tipo de institucionalidade tristemente envelhecida e crepuscular definhará até entrar em ocaso. Os atuais escândalos sempre houveram na cúria vaticana apenas que não havia um providencial Vatileaks para trazê-los a público e indignar o Papa e a maioria dos cristãos.

Meu sentimento do mundo me diz que estas perversidades no espaço do sagrado e no centro de referência para toda a cristandade – o Papado – (onde deveria primar a virtude e até a santidade) são consequência desta centralização absolutista do poder papal. Ele faz de todos vassalos, submissos e ávidos por estarem fisicamente perto do portador do supremo poder, o Papa. Um poder absoluto, por sua natureza, limita e até nega a liberdade dos outros, favorece a criação de grupos de anti-poder, capelinhas de burocratas do sagrado contra outras, pratica largamente a simonía que é compra e venda de vantagens, promove adulações e destrói os mecanismos da transparência. No fundo, todos desconfiam de todos. E cada qual procura a satisfação pessoal da forma que melhor pode. Por isso, sempre foi problemática a observância do celibato dentro da cúria vaticana, como se está revelando agora com a existência de uma verdadeira rede de prostituição gay.

Enquanto esse poder não se descentralizar e não outorgar mais participação de todos os estratos do povo de Deus, homens e mulheres, na condução dos caminhos da Igreja o tumor causador desta enfermidade perdurará. Diz-se que Bento XVI passará a todos os Cardeais o referido relatório para cada um saber que problemas irá enfrentar caso seja eleito Papa. E a urgência que terá de introduzir radicais transformações. Desde o tempo da Reforma que se ouve o grito: ”reforma na Cabeça e nos membros”. Porque nunca aconteceu, surgiu a Reforma como gesto desesperado dos reformadores de fazerem por própria conta tal empreendimento.

Para ilustração dos cristãos e dos interessados em assuntos eclesiásticos, voltemos à questão dos escândalos. A intenção é desdramatizá-los, permitir que se tenha uma noção menos idealista e, por vezes, idolátrica da hierarquia e da figura do Papa e libertar a liberdade para a qual Cristo nos chamou (Galatas 5,1). Nisso não vai nenhum gosto pelo Negativo nem vontade de acrescentar desmoralização sobre desmoralização. O cristão tem que ser adulto, não pode se deixar infantilizar nem permitir que lhe neguem conhecimentos em teologia e em história para dar-se conta de quão humana e demasiadamente humana pode ser a instituição que nos vem dos Apóstolos.

Há uma longa tradição teológica que se refere à Igreja como casta meretriz, tema abordado detalhadamente por um grande teólogo, amigo do atual Papa, Hans Urs von Balthasar (ver em Sponsa Verbi, Einsiedeln 1971, 203-305). Em várias ocasiões o teólogo J. Ratzinger se reportou a esta denominação.

A Igreja é uma meretriz que toda noite se entrega à prostituição; é casta porque Cristo, cada manhã se compadece dela, a lava e a ama.

O habitus meretrius da instituição, o vício do meretrício, foi duramente criticado pelos Santos Padres da Igreja como Santo Ambrósio, Santo Agostinho, São Jerônimo e outros. São Pedro Damião chega a chamar o referido Gregório VII de “Santo Satanás” (D. Romag, Compêndio da história da Igreja, vol 2, Petrópolis 1950,p.112). Essa denominação dura nos remete àquela de Cristo dirigida a Pedro. Por causa de sua profissão de fé o chama “de pedra”mas por causa de sua pouca fé e de não entender os desígnios de Deus o qualificou de “Satanás”(Evangelho de Mateus 16,23). São Paulo parece um moderno falando quando diz a seus opositores com fúria: “Oxalá sejam castrados todos os que vos perturbam”(Gálatas 5.12).

Há portanto, lugar para a profecia na Igreja e para a denúncias dos malfeitos que podem ocorrer no meio eclesiástico e também no meio dos fiéis.

Vou referir outro exemplo tirado de um santo querido da maioria dos católicos brasileiros, por sua candura e bondade: Santo Antônio de Pádua. Em seus sermões, famosos na época, não se mostra nada doce e gentil. Fez vigorosa crítica aos prelados devassos de seu tempo. Diz ele: “os bispos são cachorros sem nenhuma vergonha, porque sua frente tem cara de meretriz e por isso mesmo não querem criar vergonha”(uso a edição crítica em latim publicada em Lisboa em 2 vol em 1895). Isto foi proferido no sermão do quarto domingo depois de Pentecostes ( p. 278). De outra vez, chama os prelados de “macacos no telhado, presidindo dai o povo de Deus”(op cit p. 348). E continua:” o bispo da Igreja é um escravo que pretende reinar, príncipe iniquo, leão que ruge, urso faminto de rapina que espolia o povo pobre”(p.348). Por fim na festa de São Pedro ergue a voz e denuncia:”Veja que Cristo disse três vezes: apascenta e nenhuma vez tosquia e ordenha… Ai daquele que não apascenta nenhuma vez e tosquia e ordena três ou mais vezes…ele é um dragão ao lado da arca do Senhor que não possui mais que aparência e não a verdade”(vol. 2, 918).

O teólogo Joseph Ratzinger explica o sentido deste tipo de denúncias proféticas:” O sentido da profecia reside, na verdade, menos em algumas predições do que no protesto profético: protesto contra a auto-satisfação das instituições, auto-satisfação que substitui a moral pelo rito e a conversão pelas cerimônias” (Das neue Volk Gottes, Düsseldorf 1969, p. 250, existe tradução português).

Ratzinger critica com ênfase a separação que fizemos com referência à figura de Pedro: antes da Páscoa, o traidor; depois de Pentecostes, o fiel. “Pedro continua vivendo esta tensão do antes e do depois; ele continua sendo as duas coisas: a pedra e o escândalo… Não aconteceu, ao largo de toda a história da Igreja, que o Papa, simultaneamente, foi o sucessor de Pedro, a “pedra” e o “escândalo”(p. 259)?

Aonde queremos chegar com tudo isso? Queremos chegar ao reconhecimento de que a igreja- instituição de papas, bispos e padres, é feita de homens que podem trair, negar e fazer do poder religioso negócio e instrumento de autosatisfação. Tal reconhecimento é terapêutico, pois nos cura de toda uma ideologia idolátrica ao redor da figura do Papa, tido como praticamente infalível. Isso é visível em setores conservadores e fundamentalistas de movimentos católicos leigos e também de grupos de padres. Em alguns vigora uma verdadeira papolatria que Bento XVI procurou sempre evitar.

A crise atual da Igreja provocou a renúncia de um Papa que se deu conta de que não tinha mais o vigor necessário para sanar escândalos de tal gravidade. “Jogou a toalha” com humildade. Que outro mais jovem venha e assuma a tarefa árdua e dura de limpar a corrupção da cúria romana e do universo dos pedófilos, eventualmente puna, deponha e envie alguns mais renitentes para algum convento para fazer penitência e se emendar de vida.

Só quem ama a Igreja pode fazer-lhe as críticas que lhe fizemos, citando textos de autoridade clássicas do passado. Quem deixou de amar a pessoa um dia amada, se torna indiferente à sua vida e destino. Nós nos interessamos à semelhança do amigo e de irmão de tribulação Hans Küng, (foi condenado pela ex-Inquisição) talvez um dos teólogos que mais ama a Igreja e por isso a critica.

Não queremos que cristãos cultivem este sentimento de descaso e de indiferença. Por piores que tenham sido seus erros e equívocos históricos, a instituição-Igreja guarda a memória sagrada de Jesus e a gramática dos evangelhos. Ela prega libertação, sabendo que geralmente são outros que libertam e não ela.

Mesmo assim vale estar dentro dela, como estavam São Francisco, dom Helder Câmara, João XXIII e os notáveis teólogos que ajudaram a fazer o Concílio Vaticano II e que antes haviam sido todos condenados pela ex-Inquisição, como De Lubac, Chenu, Congar, Rahner e outros. Cumpre ajudá-la a sair deste embaraço, alimentando-nos mais do sonho de Jesus de um Reino de justiça, de paz e de reconciliação com Deus e do seguimento de sua causa e destino do que de simples e justificada indignação que pode cair facilmente no farisaísmo e no moralismo.

Mais reflexões desta ordem se encontram no meu Igreja: carisma e poder (Record 2005) especialmente no Apêndice com todas a atas do processo havido no interior da ex-Inquisição em 1984.

Arnaldo Jabor : Um Magnífico Vendilhão – por miguel dias

 
Sim, o cara escreve muito bem, do alto de seu pedestal, sabe escrachar como poucos, ou seja, é expert na arte de ridicularizar a quem lhe convier. Escreveu uma quase pomposa crônica criticando o que redundou na tragédia da Boate Kiss. Pra melhorar sua imagem, fez uns floreios culturais a cerca do que seriam as baladas. O homem tem cultura, reconheço.
Volteou, foi, voltou; como esperto jogador, preparando o blefe escreveu algumas verdades e, no fim, ficou com uma meia acusação aos jovens que rotineiramente frequentam tais ambientes; refiro-me a quando ele pergunta o que leva tais jovens àqueles ambientes. Inteligente e ardilosamente, ele não responde, por exemplo, que a Rede Globo, sua empregadora, é uma das principais responsáveis por tal comportamento. Com sua programação intencionalmente voltada para estupidificar o povo brasileiro, é talvez a maior produtora desse aculturamento musical a que ele se refere.
Após este “fechamento” manhoso, onde leva os trouxas a achar que ele está falando de forma magnífica, aproveita o ápice emocional atingido para, lá de cima de sua tribuna privilegiada – sim, ele tem acesso a toda imprensa, a tal imprensa que acusa nossa presidente de censura e que, no entanto… mas vejamos o que ele aprontou – lá decima de sua excelsa tribuna aproveita que todos já quase o estão aplaudindo seu brilhante discurso e descarrega sua fuzilaria na Presidente Dilma, como se o problema que redundou em tantas mortes fosse coisa desses últimos dez anos. Vá ser hipócrita na PQP!
O aculturamento do brasileiro já vem de décadas, será que nosso magnífico vendilhão não sabe? Sabe e até melhor do que eu, só que não lhe convém admitir, pois é comprometido com essa TV corrupta. Joga uma “tirada” e sai fazendo pose. Acusa a presidente de estar faturando com a tragédia… Ora, quem mais do que a imprensa, da qual este engraçadinho faz parte, está tirando proveito? Só mesmo um tolo não vê: é um prato cheio para estes oportunistas de redação.
Inteligente o cara é, já quanto ao caráter, é lamentável dizer, fede. Fede a jogo sujo, corrupção: não necessariamente corrupção de suborno – esta é apenas a mais conhecida – a corrupção da palavra, o uso pernicioso desta com a finalidade de tentar perpetuar no poder uma elite – esta sim – sabidamente corrupta na acepção mais comum; uma elite que se locupletou com a miséria de milhões de brasileiros, que, agora, estão saindo desse patamar humilhante, e pondo em cheque a estabilidade de um sistema que começa a desmoronar a olhos vistos. Isto assusta os confortavelmente instalados nas tetas da grana pública.
Cristo teria dito “Amai-vos uns aos outros!” Um canalha destes ama alguém? Duvido!
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Os serviços de Marina Silva – por luiz manfredini / curitiba.pr

Nos anos 90, a direita dispunha de um programa para o Brasil: o programa neoliberal. Beneficiária da atmosfera regressiva criada pela queda do Muro de Berlin e dissolução da União Luiz ManfrediniSoviética, no curso de uma ampla crise do socialismo e de um notável avanço do capital, ela sensibilizou o eleitorado brasileiro com suas propostas aparentemente inovadoras de privatizações, Estado mínimo e outros quejandos.

E indicou para representá-la um egresso da esquerda, o então senador Fernando Henrique Cardoso, que cumpriu dois mandatos presidenciais. Digamos assim: a direita estava com tudo.

Mas o modelo neoliberal sofreu reveses decisivos no Brasil e no mundo. A partir de 2003 o Governo Lula inaugurou um novo modelo que, a despeito de equívocos e limitações, confrontou-se com o receituário neoliberal, vitaminou o crescimento econômico com justiça social e soberania nacional e, assim, ganhou a alma da maioria dos brasileiros. A Presidente Dilma se elegeu no bojo desse movimento para a esquerda. E a direita ficou sem programa e, portanto, órfã de propostas para o Brasil. Nos últimos anos, amparada em seu vasto poderio midiático, restou-lhe atacar o governo a partir do velho cantochão do moralismo e de pontos isolados que estão longe de se constituírem uma alternativa à plataforma da esquerda.

Mas isto não basta para a direita vislumbrar alguma perspectiva, que não a derrota, nas eleições de 201. Assim, procura construir ou ajudar a construir cenários adicionais que, mesmo indiretamente, a favoreçam. Um desses cenários é o da fragmentação do quadro partidário e de alianças eleitorais, na esperança de evitar a vitória da Presidente Dilma já no primeiro turno, como apontam as pesquisas. Daí a grande mídia privada e mesmo próceres da direita saudarem o lançamento, no dia 16 de fevereiro, em Brasília, do partido da ex-senadora Marina Silva, a tal Rede Sustentabilidade, ou simplesmente Rede.

Marina não dispõe mais dos 20 milhões de votos que auferiu em 2010 em circunstâncias políticas irrepetíveis. Mas seu capital eleitoral – ali pelos 9%, segundo estimam pesquisas atuais – ainda é respeitável. A direita conta com eles para tentar impedir a vitória de Dilma já no primeiro turno. E se esforça para isso, inclusive oferecendo quadros ao novo partido. O deputado federal paulista Walter Feldman, por exemplo, um tucano histórico e sempre muito bem votado, é apontado como um dos fundadores da agremiação de Marina. Claro que não será fácil amealhar, até outubro, as 500 mil adesões necessárias para legalizar o partido, mas a direita certamente vai ajudar.

Mas o partido da ex-senadora pelo Acre, além dos serviços que prestará à direita, ainda que indiretamente, contém singularidades que não passaram desapercebidas. A primeira, nas palavras da própria Marina: “Estamos na época ao paradoxo, nem situação, nem oposição a Dilma. Precisamos de posição”. Nem oposição, nem situação, mas posição? O que é isso? Parece tiradinha de publicitário. E mais: “Nem direita, nem esquerda. Estamos à frente”. Mas onde está o partido, em que galáxia? Isso me cheira à senha para o oportunismo, pois numa agremiação que assim se define, cabe todo mundo. Também a afirmação de Marina de que o Rede vai romper com “a lógica de partidos a serviços de pessoas” soa como embuste. Não está a serviço de pessoas, mas só ela é quem aparece.

Não vai o partido de Marina aceitar contribuições de empresas de cigarro, armas, agrotóxicas e bebidas alcoólicas. Mas nada fala a respeito das doações de bancos e empreiteiras. Uns, como o deputado Walter Feldman, falam que a agremiação só aceitará dirigentes e candidatos com ficha limpa, regra que não vale para filiados em geral. Outros, como um dos fundadores, João Paulo Capobianco, asseguram que a legenda vai “coibir a entrada de ficha suja”. Ingressa ficha suja ou não? A confusão está precocemente formada, o que não soa estranho a um partido que não possui carta programática, no qual metade dos filiados poderá ter a opinião que desejar, à margem das orientações partidárias.

Tais orientações foram coletadas entre os primeiros aderentes. No evento de lançamento, em Brasília, os participantes – alguns deles se denominam “sonháticos” – relataram sonhos ao microfone ou por escrito. Como notou, em artigo recente, o biólogo e professor Pedro Luiz Teixeira de Camargo, “as ideias eram as mais divergentes possíveis, passando pelo mote ‘mais Joaquim Barbosa, por favor’, até a palavra mágica “amor”. Para ele, “a partir do momento em que metade dos filiados não precisa seguir um programa partidário, busca-se o enfraquecimento dos partidos políticos”. E aí está um ponto crucial nessa iniciativa, a primeira que busca desclassificar a instituição partido como instrumento primordial da política. Diz Marina: . “Estamos num processo de desconstrução de que o partido tem monopólio da política, queremos quebrar isso”. É a ação declarada contra os partidos, a tentativa de despolitização da sociedade.

Em seu oportuno artigo, Pedro Luiz Teixeira de Camargo conclui:

“É fundamental mostrar a toda a sociedade a verdadeira faceta de Marina Silva e de sua Rede: servir de legenda para deputados insatisfeitos em seus partidos, garantir um partido para a realização pessoal da ex-senadora e, principalmente: servir de sublegenda para a direita neoliberal. Desgastada devido aos bons governos de Lula e Dilma, a direita tradicional precisa se repaginar, e nada melhor que usar uma ex-militante de esquerda, ainda mais se puderem pintar o tucano de verde, que pode deixar de ser a cor da esperança para passar a ser a cor da preocupação”.

Gelatinoso como é, o partido da ex-senadora mereceu definição antológica do jornalista Cláudio Gonzalez: “Não é um partido, é uma ONG que receberá dinheiro do fundo partidário”. Ou, como afirmou o impagável José Simão, dia desses: a Rede de Marina “é o PSD que não come carne”.

 

Nelson Rodrigues – a última entrevista

Nelson Rodrigues, por Tito Oliveira

Entrevista de Nelson Rodrigues, concedida em outubro de 1980, ao jornalista Tom Murphy, do jornal “Latin American Daily Post”. O dramaturgo morreria dois meses depois.

Tom Murphy:
Fui recebido por um homem pálido, até mais alto do que eu imaginava, de calça azul mal ajustada pelos largos e famosos suspensórios; um homem lento no andar e na fala. Lento de dar pena. Anos depois conheci Alfredo Machado, dono e cabeça da Editora Record, a quem relatei a experiência daquele dia: “Entrevistei o Nelson Rodrigues dois meses antes da morte dele; ele já estava doente, muito mal mesmo”. O grande mentor de tantos escritores brasileiros riu: “Nelson estava muito mal sempre”. Naquele ensolarado outubro de 1980, tive o privilégio de conversar durante uma hora e pouco — sentado, como tantos de seus personagens, diante da simples mesa de cozinha — com Nelson Rodrigues. O cenário era bem Nelson: um apartamento escuro e assombroso na beira da alegre praia carioca do Leme, um cheiro leve, não do mar, mas de desinfetante. Na época eu trabalhava para o “Latin American Daily Post”, jornal de língua inglesa, que publicou a entrevista dias depois. Foi só em dezembro que eu soube da real dimensão da doença de Nelson, quando ele deu entrada num hospital. No mesmo mês, dia 21, ele morreu, aos 68 anos.

A partir da morte dele, a entrevista, que permanecia inédita em português, virou, para mim, uma grande curiosidade, quase um talismã. Eu fui um dos últimos a falar com Nelson Rodrigues, o famoso e, para tantos, infame e tarado homem das letras — o par de Tennessee Williams e Jean Genet da dramaturgia brasileira. Já no fim, já enfartado e safenado, mas nada manso, era lúcido e atuante, o maior dramaturgo nacional.

Qual é sua visão sobre o papel dos intelectuais no Brasil?
Os intelectuais brasileiros não têm nenhuma importância. Há algumas exceções, como o grande sociólogo Gilberto Freyre, mas estes constituem um grupo seleto.

Os escritores brasileiros, pelo menos, conseguem mostrar a realidade brasileira?
A cultura brasileira não é uma cultura escrita. O pouco que existe hoje da cultura brasileira é estéril. Não se escrevem romances, poemas e ensaios como antes. E só é assim que o escritor tem possibilidade de tocar nos assuntos mais profundos. O que falta entre os intelectuais brasileiros de hoje é paixão. Não dá nem para ler os jornais. As notícias são velhas! Antigamente, até os jornais eram mais dinâmicos. Um jornal como “A Noite” saía com as notícias do mesmo dia! E com muito espírito. Do ponto de vista da cultura, o Brasil hoje vive uma fase de transição. Existe uma literatura aguardando para nascer. Vai nascer cedo ou tarde, pelo menos eu espero. A literatura brasileira aguarda um gênio para tirá-la do tédio. Por enquanto, porém, não há gênio à vista. (Em 1980, os escritores e intelectuais brasileiros pareciam confundir-se com políticos, num país que corria para a mudança do regime militar para a democracia. Nelson Rodrigues criticava essa posição. Ao mesmo tempo, dizia que o mundo estava sendo dominado pelos “idiotas”.)

Qual sua opinião sobre intelectual e política na atualidade brasileira?
O intelectual que entra na política não faz nenhum bem para ninguém. Em primeiro lugar, não entende nada da política. Antigamente, a política era uma profissão para pessoas com determinados conhecimentos e hábitos. Era um dom. Todo mundo virar político é ridículo. Mas, hoje, os intelectuais vão aos comícios. Para quê? Para aparecer, tirar foto e vê-la nos jornais. Para o artista, a melhor maneira de servir a pátria é servindo arte.

Qual é sua avaliação do Brasil de hoje como sociedade?
A verdadeira história do Brasil só vai começar com a chegada em cena de uma grande figura, um Napoleão. Os Estados Unidos tiveram George Washington, a França, Napoleão. Nós tivemos Juscelino Kubitschek, um grande homem, de certa forma, com grandes qualidades, mas quando eu falo de um Napoleão, eu me refiro a algo muito maior do que um Juscelino. A China, por exemplo, teve Mao [Tsé-tung] e Chiang Kai-Shek, homens que correspondiam às necessidades da época.

E o Brasil de hoje?
Antigamente, todos eram idiotas e o sabiam. O mundo tinha milhões de idiotas, todos humildes. Muito sabiamente, eles se consideravam idiotas. Mas hoje em dia, quase todas as pessoas se consideram competentes. Os idiotas querem ser professores, ministros, presidentes. O nosso mundo é dominado pelos idiotas. A única maneira de combater essa onda de idiotice é através de um homem com o magnetismo de um Napoleão. O problema do Brasil é o mesmo de todos os países subdesenvolvidos: a falta de autoestima. Quando um povo não acredita em si mesmo, não acredita em nada. Bom exemplo disso é a mania do povo brasileiro  de massacrar a seleção de futebol. Isso me irrita profundamente. É só a seleção errar em uma coisa e todo o País vem em cima. O brasileiro só sabe torcer pela seleção quando ela está ganhando. Quando perde, vem em cima com chicote.

O sr. disse que o homem competente não tem vez. E o artista brasileiro?
Não. Eu, por exemplo, sempre tive de trabalhar como jornalista. Não que eu  despreze a profissão. Mas, nos Estados Unidos, um escritor lança um best-seller e já pode se aposentar. No Brasil, você tem de trabalhar até o fim da vida. Se eu tivesse escrito tudo nos Estados Unidos que eu escrevo aqui, eu hoje seria um homem milionário. Mas em vez disso, eu ainda tenho de trabalhar para comer.

Eu gostaria que o sr. falasse um pouco sobre a censura e o modo como ela afetou sua carreira.
Tenho muito a falar sobre censura. Sou autoridade no assunto. Nos últimos 35 anos eu tenho sido o autor brasileiro mais censurado. Censura é uma barbaridade, uma monstruosidade. O único papel legítimo para a censura é classificatório, ou seja: pode somente limitar certas coisas para certas faixas etárias. Não pode limitar, de maneira alguma, a criatividade do artista.

O sr. falou de faixas etárias. A propósito, qual a sua opinião sobre a juventude hoje?
Fui recentemente a um programa de televisão e me perguntaram se eu tinha alguma coisa a dizer aos jovens brasileiros, ao que respondi: “Que deixem de ser infantis”, somente. Nunca a juventude foi tão pouco generosa, tão pouco heroica, tão pouco humana. Espero que um dia a juventude tenha um grande renascer. É necessário. Os jovens da França praticamente tomaram o poder em 1968. Deram as costas a De Gaulle. Mas, uma vez no controle das universidades, eles não fizeram absolutamente nada. Descobriram que não tinham nada a dizer. Era tudo puro exibicionismo. Afinal, o que tem a dizer um jovem de 17 ou 18 anos? Nada. São os velhos que detém a sabedoria e que podem assumir a liderança. De Gaulle era velho. Mao era velho. Chiang era velho.

Suas peças foram sempre polêmicas. Por que escolheu temas relacionados ao sexo e à violência, tão controvertidos?
Nas minhas obras eu tento transmitir algo que vem de dentro de mim. É trabalho duro, um sacrifício. E acho que, para escrever bem, o escritor precisa de algumas obsessões, algumas ideias fixas, que sustentam a sua obra. Sem isso, o trabalho vira um caos. Um dos meus temas preferidos é a violência humana. O ser humano é um assassino natural. O ser humano é feroz. É somente isso, uma verdade e, portanto, uma obsessão.

Qual é a avaliação que faz do teatro brasileiro hoje?
Era muito melhor antigamente. Hoje todo autor virou demagogo.

Quais os seus autores favoritos? Brasileiros e estrangeiros.
Meus autores brasileiros prediletos são Gilberto Freyre, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Machado de Assis e Euclides da Cunha. Gosto muito de Dostoiévski. Gosto dele desde jovem. E gosto de Tolstói. A Rússia tem, ou tinha, uma literatura de boa qualidade. Um país onde um escritor pode ser internado num hospital para doentes mentais porque escreveu algo contra o governo não pode ter uma literatura importante. Os Estados Unidos tem um dos maiores dramaturgos do século 20, Eugene O’Neill. Também tem Faulkner e Hemingway. Da França, eu gosto de Gide, Albert Camus e alguns outros. Não suporto Sartre. Ele traiu a condição de escritor quando virou político. Não me entusiasmo muito com Borges. Hoje em dia, eu estou na fase de ler os clássicos de novo. Um livro bom é sempre novo.
____
Fonte: Entrevista publicada pelo jornal “Latin American Daily Post”, em outubro de 1980. E republicada no jornal “O Estado de São Paulo”, em julho de 2002.

Caneta permite fazer desenhos em 3D no ar

Produto pode ser usado sem qualquer conhecimento técnico de software ou computadores

Caneta permite fazer desenhos em 3D no ar 3Doodler/Divulgação

Desenho se solidifica na sua frenteFoto: 3Doodler / Divulgação

Já pensou em tirar seus desenhos do papel? Pois agora isso é possível a com caneta 3Doodler. Ela dá a impressão de terceira dimensão e pode ser usada em poucos minutos, sem necessidade de qualquer conhecimento técnico de software ou computadores. O projeto é do estúdio Artisan Asylum e pertence a start-up WoobleWorks.

Enquanto você rabisca, o plástico – chamado ABS – sai da caneta, é resfriado por um ventilador integrado. O desenho se solidifica na sua frente. Você pode desenhar no ar ou em qualquer superfície para criar seus próprios objetos 3D. O produto precisa ser ligado na tomada antes do uso.

A 3Doodler está em fase de produção. A marca lembra que ela não é um brinquedo para as crianças já que é preciso ter cuidado ao manuseá-la. A caneta tem uma ponta de metal que pode atingir a temperatura de 270°Cao ser usada, o que exige algumas precauções.

HORA DE SANTA CATARINA

FATMA em SC: “Pelo menos 1600 casos de crimes ambientais estão represados”

Sem punição21/02/2013 | 20h26

Pelo menos 1600 casos de crimes ambientais estão represados na Fatma em SC

Fundação deixa de arrecadar cerca de R$ 50 milhões, segundo ex-presidente

Pelo menos 1600 casos de crimes ambientais estão represados na Fatma em SC DAniel Conzi/Agencia RBS

Casan teve 22 autuações em 2012, uma delas por causa da Estação de Tratamento de Esgoto no Centro de Florianópolis.Foto: DAniel Conzi / Agencia RBS
Gisele Krama 

Por causa de uma mudança no rito de análise dos processos da Fundação Estadual de Meio Ambiente (Fatma), algumas empresas ou pessoas que cometiam crimes ambientais não estão sendo punidas desde 2010. Há exatos três anos que o órgão estadual não emite uma multa, a não ser em casos de grande repercussão. Nas regionais espalhadas por Santa Catarina, acumulam-se pelo menos 1.670 pastas a espera por serem analisadas.

O motivo da paralisação total das análises se deu em janeiro de 2010, quando o então governador Luiz Henrique da Silveira alterou a logística ao publicar o decreto 2.954 em 20 de janeiro. Até então, apenas o coordenador poderia avaliar a infração cometida e aplicar a multa. Atualmente, precisa de pelo menos três técnicos: um representante da Fatma, um da Polícia Militar Ambiental e outro da Secretaria de Desenvolvimento Regional. Como se tornou quase impossível juntar todas essas pessoas para reuniões semanais de análises, tudo ficou parado.

Mas o sinal é de alerta para técnicos e Fatma. Segundo o procurador da Fundação, Alexandre Waltrick Rates, os processos expiram em três anos caso não sejam movimentados ou em cinco anos, com movimentação. Alexandre não sabe dizer quantos procedimentos estão em véspera de serem anulados por ficarem muito tempo parados.

Um ofício foi enviado para cada regional esta semana e deve ser respondido em até 30 dias com o levantamento completo dos processos parados. A partir disto, a Fatma espera rever o modelo e agilizar a aplicação das multas.

— Vamos tentar fazer um mutirão para até julho ter todos processos julgados. Até porque o Estado deixa de arrecadar—, destaca o diretor de fiscalização da fundação André Ricardo de Oliveira Amaral.

O ex-presidente da Fatma, Murilo Flores, comenta que a fundação deixa de arrecadar R$ 50 milhões por ano por causa destes processos parados.

Dos pelo menos 1.670 processos que estão estocados nas regionais da Fatma à espera de análise, a maior parte é por falta de documentação de alguma empresa, como licença ambiental. Alexandre Waltrick Rates estima que mais de 80% estejam nesta situação. Os outros 20% eram de pessoas ou empresas que causaram poluição ou cometeram crime contra a fauna e flora.

Números continuam a crescer

No ano passado, praticamente dobrou o número de processos na Fatma. Vários  motivos levaram os números às alturas. Enquanto em 2010, ficaram em 308, em 2011 passou para 405 e em 2012 saltou para 841. Neste ano, até o dia 19 de fevereiro, eram 116.

Segundo o gerente de tecnologia de informação da Fatma, André Adriano Dick, algumas medidas garantiram o controle dos processos. Com isso, houve uma precisão de informações.

— Muitas vezes os autos eram cancelados por falta de dados, de descaracterização. Por isso, o número no sistema cresceu.

Na outra ponta, pelo menos 50 novos funcionários foram contratados também ano passado. Foram novos fiscais e técnicos que agilizaram a coleta de informações nos locais dos possíveis crimes ambientais.

Mas, mesmo com maior número e com mais gente, os processos continuaram parados. Para Alexandre Waltrick Rates, tudo está próximo de sair do papel. Um novo decreto está sendo montado e deve ser redigido ainda esta semana. A ideia é de criar uma comissão apenas com a Polícia Ambiental e a Militar. Se der certo, a expectativa da fundação é conseguir até julho liberar estes mais de 1.670 processos parados.

Casan lidera notificações

A Companhia Catarinense de Águas e Saneamento Básico (Casan) foi a campeã de processos no ano passado. Em apenas 12 meses, conseguiu ter 22 autuações. Todas por administração ambiental.

Um dos mais conhecidos casos é da estação de tratamento insular no Centro de Florianópolis. Em junho do ano passado, técnico estiveram no local e apontaram dez falhas. A principal delas era a operação sem licença ambiental.

Também foi encontrado contaminação no solo por efluente não tratado, falta de manutenção, armazenamento inadequados de resíduos entre outros problemas.
Nenhum representante da companhia se manifestou ontem sobre as autuações.

Conforme assessoria de imprensa, o funcionário que está centralizando as informações só estaria disponível para dar entrevista nesta sexta-feira.

Número de processo parados
2010 – 308
2011-405
2012 – 841
2013 – 116

Como deveria ser

Num modelo ideal de julgamento da multa, em até 30 dias o valor deveria ser estipulado. A partir daí, a empresa ou pessoa teria mais um mês para pagar com até 30% de desconto. Ou ofertar, em segunda instância, um plano de recuperação. Se a área comprometida for recuperada, a multa cai para 10% do valor.

Entenda o que é
Notificação: quando alguma pessoa, empresa ou órgão faz alguma coisa e é alertado do problema.
Autuação: quando é constatado o crime.
Multa: é a punição pelo crime.

Passo a passo
::O fiscal faz a inspeção e localiza o crime ambiental.
::É criado um processo administrativo que é analisado pela comissão regional, que estipula a multa.
::Se a pessoa ou a empresa não aceitar a decisão ou valor, pode recorrer para a sede da Fatma.
::Se a sede entender que a multa precisa ser mantida, cabe a quem cometeu o crime ambiental levar o caso para o Conselho Estadual de Meio Ambiente, que também tem o poder de derrubar o valor.
::Terminado este caminho, só cabe ao multado recorrer à Justiça, que também tem três instâncias.

Entrevista com Murilo Flores Ex-presidente da Fatma

DC – Como surgiu o decreto que mudou o modo de autuação da Fatma em 2010?
Murilo Flores _ Antes o técnico ia a campo. No campo, ele tinha que preencher  o formulário que era o auto de infração. Ele tinha que descrever qual era o crime percebido, tentar identificar a responsabilidade e ao fim dar um indicativo de valor da multa. Ele acabava se preocupando mais com a valorização da multa do que materialização do crime  e da identificação do autor. Boa parte das multas terminava na Justiça e as pessoas ganhavam.
O segundo problema era impossível, em muitos casos, o técnico em campo, ali no meio do mato, definir esse valor. Como o valor era indicativo, o gerente poderia mudar. Imagine que você indica que o valor da multa é R$ 1 milhão. Quando chega na regional, vê que a multa não deveria passar de R$ 100 mil. Como é que se reduz de R$ 1 milhão para R$ 100 mil sem parecer que é um ato de corrupção? Por essas razões, se levou a mudar. Só que esta mudança não funcionou.

DC _ Por que não funcionou?
Murilo _ Porque a gente criou uma comissão interinstitucional. Deveriam ser três pessoas: uma da Fatma, outra do órgão que mais autua, que é a Polícia Ambiental, e um terceiro, para ser um número ímpar, escolhemos a Secretaria Regional. Não funcionou porque essas coisas interinstitucionais nem sempre funcionam. As divergências locais dos agentes eram grandes.

DC _ Que divergências eram essas?
Murilo _ Forma de compreender, de atuação da polícia. A polícia tem uma linha de atuar, a Fatma tem outra. A Fatma tem técnicos mais preparados, mas a polícia ambiental é quem mais vai a campo. Um é policial, outro é um técnico. Acabou que isso não funcionou. Por mais de ano não funcionou direito por um erro meu, que eu já assumi várias vezes em palestras que eu faço, de ter imaginado que uma comissão interinstitucional funcionaria. E não funcionou.

DC _ E por que a decisão em 2010 de suspender todas as análises?
Murilo _ Os técnicos continuavam querendo fazer no modelo velho. Então, a determinação  foi que passasse a fazer no modelo novo, apenas quando se constituíssem as comissões.

DC _ E por que não foi pensado num plano B já em 2010?
Murilo _ Ficou-se tentando o tempo todo fazer reunião com a cúpula da Polícia Ambiental. Chegava lá embaixo e não fazia. Tinha má vontade de gente da polícia, tinha má vontade de gente da Fatma. Isso foi se arrastando.

Opinião do DC:

Somente agora a sociedade catarinense tomou conhecimento que, desde 2010, empresas responsáveis por agressões ao ambiente no Estado, exceto em alguns casos mais graves – como o recente vazamento de óleo, pela Celesc-, têm ficado impunes.A Fundação Estadual do Meio Ambiente (Fatma) deixou de fazer as análises das notificações. E a explicação para tanto é inaceitável, se não absurda: não as fez porque os núcleos regionais não conseguiam reunir seus grupos multidisciplinares para tanto.
Beira a desídia. A não aplicação das multas configura a impunidade, e esta, a impunidade, sempre estimula a transgressão. No período, entre 2010 e o dia 19 deste mês, segundo informações, quase 1,7 mil processos ficaram parados por este motivo. A quem responsabilizar?
Cabe esperar que, agora com novo presidente, o organismo responsável pela proteção e fiscalização do patrimônio natural catarinense investigue as responsabilidades, preste contas à opinião pública, coloque o serviço em dia, e cumpra suas funções com presteza, exação e transparência.

O sorriso de Mona Lisa – por jorge lescano / são paulo.sp

© Lescano

 

Mona Lisa deixou de ser apenas o quadro mais famoso do mundo para ser tema de escritos e pesquisas as mais disparatadas.

Na década de 1970 um médico japonês, utilizando os mais recentes recursos tecnológicos detectou na esclerótica do olho esquerdo da matrona – talvez fosse nos dois olhos – uma tonalidade esverdeada que denunciaria alguma afecção biliar. Concluía com seriedade científica: Algo muito perigoso numa mulher de sua idade.

Além de não se ter certeza se a obra retrata alguém – alguns a consideram uma espécie de equação matemática – o quadro foi pintado entre 1503-1506, uns 470 anos antes de este arguto médico ter nascido.

O interessante é que por um dia – e nisto refutava Andy Warhol – sua descoberta circulou por todo o mundo.

 

Já no início do século XXI, ou seja, 500 anos depois da feitura do quadro, dois pesquisadores italianos “descobriram” onde se localiza a paisagem que aparece no fundo da obra. O nome do lugar já esqueci. Grande erro de minha parte!

 

Em 2012 veio à luz outra Mona Lisa pintada por Leonardo. Qual é a réplica? Parece que os mistérios se acumulam à medida que vão sendo desvendados. Paradoxos das grandes obras.

 

Há também duas Mona Lisa “de Duchamp”. São reproduções em ofsete adquiridas em papelarias, uma delas mostra a matrona italiana com bigode, a outra, barbeada, isto é, como saiu da gráfica.

 

Nos últimos séculos por várias vezes o quadro ocupou as páginas policiais, fosse por agressões ou roubo, mas como boa filha adotiva sempre voltou ao Museu do Louvre, sua residência oficial, virgo intacta.

 

O romancista francês Pierre La Mure, que cultivava o subgênero histórico, publicou nos Estados Unidos, em 1975, A vida Privada de Mona Lisa, no qual a personagem título não é a mais interessante. Pessoalmente prefiro seu retrato do fanático monge dominicano Girolamo Savonarola:

Savonarola era realmente feio e fraco do peito, com uma testa baixa e um nariz enorme, curvado, que mergulhava sobre lábios grossos e úmidos. Sua feiúra era espantosa, inesquecível, e se tornava ainda mais impressionante por causa dos olhos brilhantes, profundamente recuados, que podiam ser os de um louco ou de um santo.

A descrição sugere um personagem dos Caprichos de Goya, se não um de Arcimboldo, ou mesmo uma das figuras grotescas dos cadernos de esboços do próprio Leonardo.

 

Em 1961 o pintor colombiano Fernando Botero vendeu ao Museu de Arte Contemporânea de Nova Iorque sua obra Mona Lisa aos doze anos. Na época o mundo não vivia ainda a psicose da obesidade – quem escreve isto segue todas as dicas de alimentação, usos e costumes errados porque teoricamente engordam, e não consegue aumentar 100 gr. à sua esquálida figura de cavaleiro sedentário. A pintura de Botero foi vista com condescendência bem humorada e em conseqüência deu ao artista excessiva fama internacional. Dentre suas figuras infláveis, a mais conhecida é a caricatura da obra de Leonardo da Vinci.

 

Alguém batizou o quadro de La Gioconda – a sorridente, em italiano – e aditou ao sorriso o epíteto de misterioso. Os séculos não passam em vão. Quem se atreveria, hoje, a negar-lhe tal qualidade?

Circulam diversas versões sobre o significado do sorriso de Mona Lisa – se pressupõe que o sorriso não signifique apenas sorriso.  Especula-se que o artista teria contratado bufões para entreter a modelo e lhe fixar os músculos faciais na posição exibida no quadro. Também se diz que a ela faltariam alguns dentes.

Em 2006, cientistas canadenses utilizaram alta tecnologia para descobrir que a modelo vestia roupas usadas unicamente por mães renascentistas e italianas. Segundo estes pesquisadores o mistério do sorriso se deve à gravidez de Lisa Gherardini, esposa de um abastado comerciante de Florença e provável modelo do quadro. Se ela não estava prenhe, diz a pesquisa, teria acabado de dar a luz o seu segundo filho. Neste caso a obra poderia ter sido encomendada para comemorar a efeméride familiar.

A Comunidade Internacional, com sua autoridade imanente, opina que nem a família Gherardini nem o próprio Leonardo podem ser responsabilizados pelo estardalhaço do retrato nos séculos seguintes. Não cabe a eles o mérito nem a culpa, conclui o relatório sobre o assunto.

Os Teóricos dos Astronautas do Passado suspeitam que o sorriso de la gioconda oculte sorrateiramente conhecimentos interplanetários confiados em sigilo ao pintor. Isto explicaria o ricto levemente irônico da matrona.

Talvez Mona Lisa, premonitoriamente, sorria da ingenuidade das massas que se aglomeram na sua frente em postura ritual de contemplação devota, alheias ao fato de estarem cumprindo um ato regido pela alma do negócio. De qualquer modo ela faz tanto sucesso quanto Madonna.

 

Na última exposição de Mona Lisa nos Estados Unidos, o número de visitantes foi extremamente alto. Alguém dividiu este número pelo tempo de exibição. O resultado é alarmante: cada espectador ficou diante do quadro – separado por um cordão de isolamento a mais de um metro de distância, com a obra protegida por um vidro a prova de balas que, previsivelmente, devia refletir as luzes da sala – entre seis e sete segundos. Cabe a pergunta:

– O quê foi que viram estas pessoas?

 

De Washington, DC, recebo este e-mail de um leitor:

hehe, exatamente isso… eu tive oportunidade de ir até o Louvre, e na sala da Mona Lisa tinha tanto, mas tanto coreano louco tirando fotos que eu resolvi ir comer uma baguete…

Um abraço, Manuel.   

 

Não quero finalizar a minha crônica – almejo que ela tenha divertido o meu leitor sequer secretamente, como a Mona Lisa se diverte – sem aportar ao tema o meu modesto descobrimento: O sorrir, como todas as coisas do universo, é tudo aquilo que não é outra coisa.

RAFAEL CORREA: “Problema da América Latina sempre foi a elite, que nunca trabalhou para o bem comum”

Um dia depois de ser reeleito, presidente do Equador traça suas principais metas para seu próximo mandato

Agência Efe

Rafael Correa pretende deixar a vida pública após 2017 para se dedicar à sua família

Ainda antes de ser reeleito como presidente do Equador, Rafael Correa definiu a consolidação de sua Revolução Cidadã como seu principal objetivo para os próximos quatro anos.

Vencedor do pleito do último domingo com mais de 55% dos votos e sem a necessidade de disputar um segundo turno, Correa coloca a elite dominante e a imprensa do país como os maiores adversários de seu governo. “Eles nunca trabalharam para o bem comum.”

Em entrevista realizada um dia depois das eleições, o presidente equatoriano também analisa a situação política da América Latina, critica a política externa de Barack Obama para a região e fala sobre seus planos para 2017, quando pretende deixar a vida pública.

Russia Today (RT): Para começar, gostaria de saber como passou a noite de sua vitória. Teve tempo para dormir o descansar um pouco?
Rafael Correa: Nesse trabalho, não há muito tempo para descansar. Chegamos em casa à 1h da manhã. Faço o possível para não perturbar a vida cotidiana de minha família. Então, às 7h levo meus filhos à escola e dali vou para o Palácio, continuar trabalhando. Temos cansaço acumulado. Já estamos habituados.

RT: As pesquisas previam 60% dos votos. Acertaram (com 70% das urnas apuradas, Correa tem 57% dos votos).
RC: É, foram bem precisas, porque havia indecisos. Temos alguma experiência… Tínhamos 62-61%, mas havia cerca de 20% de indecisos, os que não se haviam decidido por proposta forte como a nossa; o mais provável é que escolhessem outros setores políticos. Assim, sabíamos que os números poderiam ser menores. Seja como for, começamos a campanha com 52%. Nosso objetivo era não perder nenhum desses votos. Começamos a subir e chegamos a 57-58%. Só tenho a agradecer ao povo equatoriano.

RT: Mas não houve nervosismo… 
RC: Algum nervosismo sempre há. Trabalhamos, na campanha, como se não tivéssemos nenhum voto. Foram 32 dias muito intensos, fiquei sem voz, mas foi uma bela campanha, bastante bem coordenada, com mensagem profunda. Tudo funcionou quase perfeitamente: equipe de campanha, organização política, autoridades, militantes, os comitês da Revolução Cidadã, que são grupos de cidadãos que se organizam para dar apoio a essa revolução. E aí estão os resultados. São resultados contundentes. E insisto: só tenho a agradecer ao nosso povo. Claro, também, que mantenho o compromisso de não falhar com os equatorianos.

RT: O senhor diz que foi uma bela campanha. Mas o senhor criticou os meios eletrônicos e há boatos de que a CIA prepara um golpe para desestabilizar o Equador. De que se trata, exatamente?
RC: Foi uma bela campanha, de nossa parte, porque foi com alegria, música, um programa muito bem elaborado de governo, resumido em 10 eixos, com 35  propostas muito concretas. Sinceramente, é o melhor plano de governo da história do Equador.

Mas, sim, enfrentamos campanha suja, na qual intervieram serviços de inteligência daqui e do exterior. Alguns dos nossos opositores, os menos éticos, são militares da reserva, com experiência em inteligência, os quais, quando não conseguem vencer nas urnas, trabalham para destruir a moral, agridem a família, agridem a honra de amigos nossos. Tivemos, sim, algumas dessas patrañas e, sim, foram organizadas, principalmente, pelas redes sociais. Graças a Deus o povo equatoriano soube ignorá-las. A CIA também… falou-se, mas nada foi provado, que haveria 87 milhões de dólares para financiar a oposição, com o objetivo de desestabilizar o governo, para impedir que vencêssemos e, no caso de vencermos, como aconteceu, para nos desestabilizar. Não se pode nem confirmar nem desmentir essas denúncias gravíssimas, sem investigação muito mais profunda.

RT: Sua imagem não foi abalada durante a campanha?
RC: Não. Mas sem dúvida houve campanha suja. E a campanha de sempre, de alguns veículos que tomam partido e não fazem o trabalho de informar.

RT: Em 2010, houve aqui uma tentativa de golpe de Estado que ninguém previu naquele momento. Deve-se esperar algo parecido agora? Provocação semelhante?
RC: Não se pode excluir completamente o risco. Olhe à volta: o contexto daquele golpe de Estado foi a imprensa desinformando… E os membros da oposição política, que se diz democrática, foram os primeiros a apoiar os golpistas, pediram a renúncia do presidente – o mais violentamente agredido. Tomaram medidas para desestabilizar o governo. E agora, na campanha, proclamavam o quanto respeitam a Constituição.

Evidentemente, não se pode excluir o risco da imprensa corrupta – porque também há melhor imprensa –, a imprensa que nada tem de ética, a mesma imprensa que já não tem poder para impor e derrubar presidentes. Ontem, ficou demonstrado. Mas, sim, aquela imprensa corrupta ainda tem capacidade para provocar grande dano. Sempre podem difundir alguma outra mentira, que, sim, pode nos prejudicar muito. Por isso, não se exclui essa possibilidade. Temos de nos manter muito atentos, sempre, a essas tentativas de desestabilizar governos eleitos.

Grande parte do que houve dia 30/9/2010 aconteceu porque a imprensa informou mal, disse aos policiais e militares que perderiam benefícios, salários, até as medalhas… De fato, foram canceladas várias dessas coisas, que, em seguida, foram unificadas em salário muito maior. Mas isso, precisamente, a imprensa não informou. Enganaram muita gente. E, sim, podem criar outra vez clima semelhante. É preciso atenção extrema.

RT: Seu opositor nessas eleições, Guillermo Lasso, que alcançou 24% dos votos, disse que o senhor é o presidente dos ricos.
RC: Eu?! Considero Guillermo Lasso homem inteligente e não acredito que tenha dito tal coisa. Até que o ouça dele mesmo, dou-lhe o benefício da dúvida, porque seria a maior tolice que Lasso jamais disse. E, afinal, não chegará aos 24%. Faltam alguns votos.

RT: Mas há quem diga também que algumas reformas feitas no país, reformas tributárias, por exemplo, funcionam em benefício só dos ricos. O que o senhor tem a dizer?
RC: Que reforma tributária beneficiou só os ricos? [risos]

RT: Foi o que disseram os opositores.
RC: A única proposta de todos os demais candidatos foi reduzir impostos. Porque, pela primeira vez no Equador, os ricos pagam impostos. A evasão ficou impossível. Antes, eles nem se preocupavam se os impostos eram altos ou baixos, porque não pagavam imposto algum, sonegavam e nada lhes acontecia. Por isso, agora que a sonegação e a evasão ficaram impossíveis, a proposta de eliminar todos os impostos foi derrotada nas urnas, já duas vezes. Mas os ricos nunca pagaram impostos e agora pagam. Duvido, sinceramente, que Guillermo Lasso, pessoa inteligente, tenha dito tal barbaridade. Em todo o caso, é extremamente claro quem é o candidato das elites no Equador.

RT: No ano passado, houve muita polêmica em torno do caso de Julian Assange. Quais os objetivos do Equador, quando decidiu dar-lhe asilo?
RC: Que polêmica? Por que teria havido polêmica? Da próxima vez que a Suécia, onde vivem muitos asilados latino-americanos, decidir dar asilo a alguém, também haverá ‘polêmica’? Na minha opinião, há, nessa história, muito de neocolonialismo. Este governo, este presidente e este país não aceitarão essas manobras. Não temos de pedir licença a ninguém para exercer nossa soberania. É figura definida, bem claramente, no direito internacional. O Equador exerceu a própria soberania, nos termos do Direito Internacional, e não devemos explicações a ninguém, nem temos de pedir desculpas, nem de pedir autorização a seja quem for.

Agência Efe
Na prática, toda a solução da questão Julian Assange depende hoje da Europa. Se, amanhã, a Grã-Bretanha lhe dá o salvo conduto, acaba o problema. Se a Suécia o interrogar, como a lei sueca admite, por vídeo, como pode fazer ou enviando um Promotor à Embaixada do Equador em Londres, como também pode fazer, acaba a confusão. Assange foi convocado para interrogatório. Não há nem sequer acusação formal contra ele, de coisa alguma. Se o advogado do Sr. Assange nas cortes europeias, o Dr. Baltasar Garzón, obtiver autorização para que o asilado deixe a Embaixada do Equador em segurança, acaba-se a questão. Agora, tudo depende da Europa. O Equador fez o que tinha de fazer, no exercício de sua soberania. Não pedimos nem vamos pedir licença a seja quem for. Não devemos desculpas a ninguém, nem explicações. País algum jamais pediu desculpas a alguém, por exercer a própria soberania.

RT: E quando o senhor supõe que se resolverá isso?
RC: Amanhã, se a Grã-Bretanha quiser resolver. Mas há aí muita soberba, muita arrogância, muito de neocolonialismo. Querem de nós explicações por conceder um asilo? Como assim? O que significa isso E querem também que revertamos decisão já tomada. Não o faremos. Nunca.

RT: O senhor acredita, como o próprio Julian  Assange, que pode acontecer de ele ser extraditado para os EUA, não para a Suécia?
RC: Bem… Havia alta probabilidade. O caso do Sr. Assange foi estudado detidamente, durante várias semanas, aqui no Equador. Entendemos que aquele pedido de asilo tinha fundamento e concedemos o asilo.

RT: Digamos que, ontem, não foi noite só de sua vitória, que foi uma pequena vitória também para Hugo Chávez, que voltou à Venezuela. O senhor foi dos primeiros a visitá-lo em Cuba e dedicou sua vitória também a ele. O que sabe de seu estado de saúde e quando imagina que possa voltar às suas funções?
RC: Bem, estive com ele antes da operação, sem dúvidas operação delicada, mas quem o visse, sem saber da doença, diria que estava perfeitamente normal, com bom ânimo, muito bom aspecto. Mas, sim, que se tratava de operação delicada, todos sabíamos. A notícia que temos é de que se está recuperando. Excelente notícia, que tenha podido voltar à sua amada Venezuela. Ama Cuba, mas a Venezuela é sua pátria, a terra natal, e estou certo de que estar em casa será o melhor remédio para a rápida recuperação de Hugo. Desejo-lhe rápida recuperação. Que não seja cabeça dura. Das primeiras coisas que fez, depois de agradecer à Venezuela, foi mandar-me felicitações… Ele agora tem de não pensar, por uma semana, no que acontece na América Latina e concentrar-se na recuperação.

RT: O senhor acredita que a recuperação seja possível?
RC: Não sei. São desejos. Não sei se realizarão.

RT: Digamos, no caso de que Hugo Chávez não possa voltar às funções de antes. O senhor está disposto a assumir papel mais importante na América Latina?
RC: Sempre me fazem essa pergunta e, com todo o respeito, o que mostra é desconhecimento do que se passa na América Latina. Quem aqui está buscando algum protagonismo? Hugo tem liderança natural.

RT: Mas a questão existe, na arena internacional. Vê-se como…
RC: Há alguns fatos, há práticas, mas ninguém busca ascensão continental. Essas coisas não funcionam assim, entre nós: se vou ser novo líder depois de Hugo, mas Hugo está aí e continua. Então eu seria o vice-líder. Nada disso funciona assim, aqui. Estamos aqui para servir o povo, ninguém está procurando… E falo por mim, por Cristina, por Evo, por Hugo, por Dilma, por todos os coordenadores desse processo de mudança histórica na nossa América Latina. Nenhum de nós busca poder para si, nada queremos para nós; queremos tudo para os nossos povos. Estaremos onde o povo mais necessite de nós, como o mais humilde dos cidadãos, como qualquer operário que constrói a pátria todos os dias, o camponês ou o presidente da República, mas sempre para servir ao povo, sem ambições pessoais.

RT: Barack Obama foi reeleito. Hugo Chávez  e o senhor, também. Todos os atores chaves nesse hemisfério mantêm as respectivas posturas. Até que ponto, com os mesmos jogadores, pode mudar a situação no continente?
RC: Mudar em que sentido?

RT: No sentido das mudanças que esse bloco queria. Para a Revolução Cidadã, por exemplo.
RC: Entendo que o presidente Obama seja boa pessoa, mas infelizmente nada mudou na política externa dos EUA. A moral dupla prossegue. Insistem em dar-nos aulas de Direitos Humanos e tal, e mantêm as torturas em Guantánamo. Se os grandes ditadores por aqui, os mesmos que massacram sua gente, se são aliados incondicionais dos EUA, viram grandes democratas, e são promovidos, dão-lhes emprego e os põem a dar aulas em Washington. E presidentes totalmente democráticos, você viu, ontem, como esse que aqui lhe fala, que dá a vida em defesa dos direitos humanos de seus cidadãos, se não somos seguidores incondicionais de Washington, somos nós os ditadores, os que atentamos diariamente contra a liberdade de imprensa, contra as liberdades fundamentais. Isso, infelizmente, não mudou.

Repito que o presidente Obama parece ser bom ser humano, boa pessoa, mas a política externa dos EUA, sobretudo para a América Latina, absolutamente não mudou. E tem de mudar, porque essa dupla moral é inaceitável.

RT: Depois de vencer as eleições, o senhor disse que sua meta é que a Revolução Cidadã seja irreversível. Mas que passos devem ser tomados para que assim seja?
RC: Temos de acabar de consolidar a nova instituição do Estado. O ponto de partido é mudar as relações de poder. O problema da América Latina sempre foi as elites dominantes. Nunca foram elites progressistas, modernizadoras, que trabalhassem para o bem comum. Foram elites que se apropriaram dos frutos do progresso técnico e apropriaram-se deles de forma excludente, para ter seus bairros exclusivos – em um dos quais mora o Sr. Lasso, que diz que eu representaria as elites.

A senhora, se quiser entrar no condomínio onde mora o Sr. Lasso, onde há lagos artificiais, precisa ter um cartão magnético de identificação. Eu não entro, porque sou escurinho. Para ter esses bairros exclusivos, emparedados, para ter suas escolas exclusivas que nem por isso são as que dão melhor educação, mas são tão caras que só os ricos podem frequentá-las… E os ricos casam-se entre os ricos. Para casar ‘bem’ também os filhos e perpetuar a linhagem e a dominação. Eles têm seus clubes exclusivos…

Esse é o tipo de elite que manobrou a América Latina. São os poderes que manobraram nossos países, que se traduziram em estados aparentemente burgueses, de fato, aristocráticos, que representam uns poucos, bem poucos, excluindo as grandes maiorias. A Revolução Cidadão implica, basicamente, mudar essa relação de poderes com vistas a atender os cidadãos, em função das imensas maiorias, em função do ser humano, antes do capital. Porque o capital também nos dominou como está dominando na Europa, vale lembrar. E converter esses estados só aparentemente burgueses em estados integrais, populares, que nos represente todos e todas.

Já avançamos muitíssimo, mas tudo ainda pode ser perdido. Essa é a mensagem do povo equatoriano, nesta reeleição. Temos de tornar irreversíveis as mudanças que já alcançamos nas relações de poder, para que, no Equador, os cidadãos continuem a governar como governam hoje. Para que nunca mais voltem a governar, aqui, os banqueiros, os meios corruptos de comunicação, os países hoje hegemônicos, as burocracias internacionais como o FMI e, ainda pior, o capital financeiro – todos os agentes que dominavam e governavam o Equador, antes da Revolução Cidadã.

RT: Trata-se também de mentalidade. Quanto mudou a mentalidade das pessoas, nesse sentido?
RC: Mudou muitíssimo. A senhora dizia, antes da entrevista, que não conhecia o Equador, que só conheceu o país este ano. Mas se tivesse vindo há seis anos, não havia estradas, não havia bons serviços públicos, não havia nada. Recebemos um país destroçado. Mas, mais importante que as estradas, as escolas, os hospitais, as represas, os portos e aeroportos, é a mudança na mentalidade dos equatorianos. Nos haviam castigado tanto, uma oposição com líder político medíocre, uma imprensa que, para nos controlar, roubava-nos qualquer esperança, nos convencia de que éramos os mais inúteis, mais corruptos, mais preguiçosos seres do planeta. Tanto nos bombardearam com esse discurso, que se pode definir a situação, antes, como o país da desesperança.

Essa é a maior mudança que observo: vê-se que as pessoas estão motivadas, orgulhosas do que se faz em sua terra, sentem-se representadas pelo próprio governo, recuperaram a autoconfiança. É o essencial para seguir adiante, mais importante que as estradas e a infraestrutura reconstruída: a atitude das pessoas. E essa atitude mudou radicalmente. Mudança de 180 graus.

RT: Mas  eles têm também muita confiança no senhor e em seu governo. Sua popularidade é incrível e continua crescendo. A que se deve isso, depois de tantos anos de governo?
RC: É como diz Cristina Kirchner [presidente da Argentina]: são processos inéditos na América Latina. Antes, um governo vencia eleições com 52% dos votos. Em um ano, o apoio popular despencava para 15%, quer dizer, o desgaste no exercício do poder era muito rápido. Agora é o contrário: o apoio popular consolida-se. Uma das explicações, de nossa querida amiga Cristina é que, afinal, os governos se parecem com o povo. Antes, eram governos que queriam imitar estrangeiros, obedeciam a interesses estrangeiros falavam espanhol, mas pensavam em inglês, quando pensavam. Hoje temos governos honestos, que trabalham, que cometem erros, mas são dedicados, sacrificam-se, amam o país como o amam os que os elegem para representá-los. As pessoas, afinal, sentem-se representadas pelos governos.

RT: Que visão o senhor tem para o Equador dentro de quatro anos? Como vê o país?
RC: Quando sair, quero deixar um país. Obviamente, não conseguiremos resolver todos os problemas. Mas somos o país que mais reduz a pobreza na América Latina; somos o país que mais reduz a desigualdade, e a América Latina é a região mais desigual do mundo. Somos uma das três economias que mais crescem. Somos a economia com menor taxa de desemprego, 4,1%. Mas, apesar de todos esses sucessos, não conseguiremos, nos próximos quatro anos, resolver todos os problemas. Ainda haverá pobreza, desemprego, desigualdade.

O importante é deixar o país posto, irreversivelmente, na trilha rumo à justiça social, ao desenvolvimento, na trilha desse conceito que propusemos ao mundo – o conceito do buen vivir, do bom viver. Para isso, como já disse, o básico é mudar as relações de poder: que o Equador seja governado pelo povo do Equador, não por banqueiros, não por empresas jornalísticas, não por países estrangeiros. Que, no Equador, o ser humano domine. Não o capital.

RT: Senhor presidente, há também quem discorde que a pobreza aumentou, pois há mais gente que recebe a ‘bolsa pobreza’. Queria, por favor, que o senhor explicasse.
RC: É o argumento que a imprensa inventou. É tão infantil. Quem diz que o Equador é o país que mais reduziu a pobreza não é o meu governo: é a ONU. Não são indicadores locais. São números da Comissão Econômica para a América Latina, CEPAL, da ONU. Para desmentir esses números, inventaram um argumento infantil.

Hoje transferimos dinheiro para os mais pobres, principalmente para mães que trabalham em casa, as mais pobres da população. Quando chegamos ao governo, eram 1.200.000; hoje, são cerca de 1.900.000. A imprensa olha esses números e conclui: a pobreza aumentou… Ninguém jamais considera que as estatísticas eram precárias, que a base era errada. Nós corrigimos a base. Incluímos cerca de 400 mil mães excluídas e retiramos da base 200 mil que não deviam estar lá. De fato, foram incluídos novos 200 mil que recebem o auxílio-pobreza. Nos depuramos, corrigimos a base.

A imprensa ‘interpreta’ que há, hoje, mais pobres… Dia seguinte, não há estatísticas de tuberculose. Construímos a pesquisa e a estatística. Descobre-se que há 20 casos de tuberculose. A imprensa ‘noticia’: “Aumentou a tuberculose”. Nada disso. Hoje já temos estatísticas.

Antes, o auxílio-pobreza não era dado aos portadores de necessidades especiais. Agora, com as políticas de vanguarda que se desenvolvem no Equador, cerca de 150 mil deles já recebem essa transferência monetária, que é de 50 dólares. Antes, os idosos não recebiam o auxílio, nem tinham direito a aposentadoria. Dos 700 mil idosos sem aposentadoria que temos no Equador, 500 mil já recebem a transferência monetária.

Some tudo e terá os quase 2 milhões de auxílios que distribuímos. Para os gênios da mídia, significa que a pobreza aumentou. Merecem o Prêmio Nobel de Economia. Veja o nível de oposição e os jornais, jornalistas e redes comerciais de comunicação que temos de enfrentar aqui… A pobreza, aí sim, parece, sem remédio: pobreza intelectual e ética.

RT: O senhor disse também que é seu último mandato. Que se vai, depois desses quatro anos. Não imagino uma pessoa como o senhor, deixando serviço por terminar. Mas é impossível terminar todas essas mudanças em quatro anos.
RC: Sim, mas também há outros que podem continuar construindo a patria nueva. Antes de ser presidente, estive, toda a vida, na Universidade. Era feliz dando aulas, de tênis, jeans, camiseta. E também fui muito feliz na presidência, cuidando de fazer o melhor possível pelo meu povo. Quando me aposentar, se Deus quiser, também serei feliz com minha família. Devo muito à minha família, cuja vida familiar foi muito gravemente perturbada, porque, eu na presidência, minhas filhas perderam privacidade, têm de andar com seguranças, recebem ameaças, ouvem campanhas horrendas de difamação, realmente repugnantes. Então, devo esse tempo à minha família.

E também, como a senhora já disse, minha presença é forte demais. Com certeza não perturbarei a existência de quem venha depois de mim, se continuar na política. É o que menos desejo.

Temos sido muito cuidadosos na preparação de quadros, que venham os novos quadros. Depois desses quatro anos, penso retirar-me, não só da presidência, mas também da vida pública.

RT: O senhor mencionou sua família. Dizem que leva seu filho à escola.
RC: Sim. Hoje cedo, deixei os dois na escola.

RT: Hoje, um dia depois da reeleição? E como encontra tempo para…
RC: Sou rápido. Retomar a vida normal, na medida do possível. Porque, não se engane, tudo isso altera a vida. Minha família não mora aqui no Palácio. Continuamos na mesma casa de classe média, ao norte de Quito. Mas foi preciso instalar segurança, sistemas de vigilância… Tudo isso atrapalha. Há quem goste, mas, para mim, essa é uma das partes mais difíceis da presidência: ter de viver cercado de seguranças, a sensação de perigo sempre iminente, nenhuma privacidade. Além dos que vivem para justificar o próprio ódio: “Correa, odeio você.” E põe-se a inventar ataques, até que … “Ah, já entendi porque odeio você: porque você fez tal coisa…” Têm sempre de provar algum mal, para justificar o ódio. Nada é mais terrível que isso!

MAL DE PARKINSON: descoberta a CURA em CUBA.

 

 Clinica De Armonizacion Natural.
¡Felicitaciones CUBA!

EN CUBA DERROTARON AL MAL DE PARKINSON

Investigadores cubanos desarrollaron una técnica de implantes de células nerviosas vivas en lo profundo del cerebro que cura la enfermedad de Parkinson.

El Dr. Julián Alvarez Blanco, director del Centro Internacional de Restauración Neurológica (CIREN), explicó que este logro de la medicina cubana se debe al desarrollo de un procedimiento quirúrgico de avanzada llamado cirugía estereotáxica, o cirugía de mínimo acceso,…junto con novísimas técnicas de mapeo computarizado del cerebro y registros superficiales y profundos de la actividad eléctrica cerebral.

“Esto nos permite hoy colocar con precisión las células generadoras e implantarlas exactamente en las áreas afectadas -a través de una cánula de pequeñísimo diámetro- y con un mínimo riesgo para la vida del paciente”, precisó el Dr. Alvarez.

“Es decir, se ha logrado establecer trayectorias muy certeras para llegar a estructuras profundas del cerebro.
Nos enorgullecemos ciertamente de ser uno de los centros más avanzados del mundo en esta actividad de las neurociencias”, dijo el especialista cubano.

El CIREN también da esperanzas a quienes han sufrido daño y muerte de células cerebrales que les ha producido afasias (dificultades de expresión y comprensión) a causa de accidentes encefálicos, trombosis, traumas cráneo-encefálicos y hemiplejías.
 Clinica De Armonizacion Natural.
Investigadores cubanos desarrollaron una técnica de implantes de células nerviosas vivas en lo profundo del cerebro que cura la enfermedad de Parkinson.
El Dr. Julián Alvarez Blanco, director del Centro Internacional de Restauración Neurológica (CIREN), explicó que este logro de la medicina cubana se debe al desarrollo de un procedimiento quirúrgico de avanzada llamado cirugía estereotáxica, o cirugía de mínimo acceso, junto con novísimas técnicas de mapeo computarizado del cerebro y registros superficiales y profundos de la actividad eléctrica cerebral.
“Esto nos permite hoy colocar con precisión las células generadoras e implantarlas exactamente en las áreas afectadas -a través de una cánula de pequeñísimo diámetro- y con un mínimo riesgo para la vida del paciente”, precisó el Dr. Alvarez.“Es decir, se ha logrado establecer trayectorias muy certeras para llegar a estructuras profundas del cerebro.
Nos enorgullecemos ciertamente de ser uno de los centros más avanzados del mundo en esta actividad de las neurociencias”, dijo el especialista cubano.
El CIREN también da esperanzas a quienes han sufrido daño y muerte de células cerebrales que les ha producido afasias (dificultades de expresión y comprensión) a causa de accidentes encefálicos, trombosis, traumas cráneo-encefálicos y hemiplejías.
Los pacientes tratados en el CIREN recuperan muchas de las funciones perdidas al aplicárseles nuevos métodos neuro-restaurativos.
Milagros médicos María José (Pepi) es una joven hispana que hace cuatro años quedó postrada, sin poder comer ni hablar, después de un accidente de automóvil.
Su madre consiguió trasladarla al CIREN, donde logró aprender de nuevo a deglutir y a conectarse con el mundo exterior.
Pepi mejoró así su calidad de vida. Héctor, empresario minero chileno que sufrió un accidente vascular encefálico, fue llevado a Cuba en camilla y al término del tratamiento regresó caminando.
El hijo de un conocido político de la derecha chilena que padeció un grave accidente neurológico mejoró notablemente su calidad de vida tras su tratamiento en el CIREN. Cuando falleció, de vuelta en Chile, por otros motivos de salud, el joven pidió que sus restos fueran trasladados a Cuba, deseo que la familia cumplió.
El CIREN es un centro de restauración neurológica que también ha tenido interesantes resultados en la lucha contra el mal de Alzhaimer.
En el instituto utilizan la capacidad del propio sistema nervioso para regenerar algunas células dañadas. Así lo explicó su director, el médico Julián Alvarez Blanco*:
-Los principios de la restauración neurológica se sustentan en la reconocida capacidad del sistema nervioso central y periférico de reparar, en aras de la funcionalidad, los daños que se puedan ocasionar.
En general, el sistema nervioso contiene una cantidad de tejidos y células superiores a los que utiliza habitualmente, por lo que cualquier afectación parcial que sufra es posible suplirla mediante un trabajo sistemático de reactivación y lograr con ello, en un alto porcentaje, su funcionalidad.
Existen evidencias científicas de que el daño neuromotor ocasionado por una lesión cerebral de determinada magnitud, puede reducirse notablemente estimulando los elementos supletorios del tejido subyacente.
En otras palabras, puede lograrse la restauración neurológica causada por accidentes cerebrales encefálicos, trombosis, traumas cráneo-encefálicos y hemiplejías, estimulando las funciones supletorias del tejido y las células mediante fármacos, estímulos psicológicos y psicométricos y activación muscular o del sistema osteomioarticular, explicó el Dr. Alvarez.
Con representaciones en diferentes países, el CIREN ofrece sus servicios internacionalmente, compitiendo con centros médicos como Houston, pero sus tarifas son más bajas que las de sus competidores.
El instituto selecciona previamente a los pacientes, es decir, no recibe a enfermos considerados “casos perdidos” sólo para sacarles dinero a sus angustiadas familias, como suele estilarse en la llamada “industria de la salud”.
Quizás la única excepción sea el caso de la española Pepi, rechazada varias veces previamente, precisamente como “caso perdido”, cuya madre abordó al Dr. Alvarezen un congreso médico para obtener la oportunidad de terapia para su hija. Cubatambién ofrece salud gratuita en Latinoamérica y otros lugares del planeta.
Por ejemplo en Chile, 60 jóvenes becarios pobres viajarán este año a comenzar a estudiar gratis en la Escuela Latinoamericana de Medicina en el próximo curso que comienza en septiembre.
Treinta hombres y otras tantas mujeres fueron seleccionados equitativamente en todas las regiones del país, para completar un total de 400 alumnos chilenos que gratuitamente cursan medicina en Cuba, con una beca que incluye los estudios, el hospedaje, la alimentación y materiales de estudio.
Hasta ahora 80 jóvenes chilenos se han graduado de médicos en la Isla. Derrota del Parkinson El CIREN se ha especializado en atacar la enfermedad de Parkinson.
Esa fue la línea de trabajo en restauración neurológica que formó el núcleo original del centro. “Mediante cirugía estereotáxica -o de mínimo acceso-realizamos implantes en zonas profundas del cerebro de células de tejido embrionario, productoras de dopamina”, explicó el Dr. Alvarez. 
“Es un hecho demostrado que el Parkinson se produce por una inadecuada producción de dopamina, imprescindible sustancia para el control de los movimientos del ser humano”, añadió el galeno.
“En esta investigación sólo se incluye a los portadores de un Parkinson primario, cuya causa no sea secundaria a problemas vasculares o de otra índole, y en los cuales el tratamiento medicamentoso no surta los debidos efectos o sea el causante de trastornos tóxicos secundarios”, precisó el Dr. Alvarez.
Los pacientes sometidos a esta técnica están comprendidos en un protocolo de investigación llamado CAPIT donde participan varios países que compatibilizan internacionalmente sus resultados.
El Dr. Alvarez explicó que el CIREN ha desarrollado procedimientos quirúrgicos de avanzada, como la cirugía estereotáxica (de mínimo acceso), técnicas de mapeo computarizado del cerebro y registros superficiales y profundos de la actividad eléctrica cerebral.
“Esto permite hoy colocar con precisión las células generadoras e implantarlas exactamente en las áreas afectadas –a través de una cánula de pequeñísimo diámetro–, y con un mínimo riesgo para la vida del paciente”, precisó Alvarez.
“Es decir, se ha logrado establecer trayectorias muy certeras para llegar a estructuras profundas del cerebro. Nos enorgullecemos, ciertamente, de ser uno de los centros más avanzados en el mundo en esta actividad de las neurociencias”, dijo el especialista cubano.
Los neurotrasplantes aplicados a enfermos de Parkinson han tenido éxitos indiscutibles.
Se aplican cuando el paciente ya no responde a los tratamientos medicamentosos.
‘Es un hecho comprobado que estos trasplantes disminuyen considerablemente el consumo de fármacos y mejoran también la calidad de vida de estos pacientes, los que pueden de inmediato incorporarse a sus actividades habituales sin las grandes limitaciones que produce la enfermedad”, indicó Alvarez.
Los éxitos en neurotrasplantes a enfermos de Parkinson se deben también al empleo de la cirugía estereotáxica (de mínimo acceso) y al perfeccionamiento logrado en Cuba de la tecnología de mapeo computarizado del cerebro y el registro y digitalización de las señales eléctricas de las zonas profundas del cerebro.
Otras cirugías anti-Parkinson 
Los pacientes de Parkinson también tienen alivio con las técnicas llamadasSubtalamotomía selectiva, Palidotomía y Talamotomía, destinadas a eliminar los temblores en exceso o la rigidez de movimiento que manifiesta habitualmente esta afección, sin que ninguna técnica sea excluyente de otras, explicó el Dr. Alvarez.
En 1995, los investigadores del CIREN aplicaron por primera vez en el mundo una nueva técnica para el tratamiento quirúrgico del Parkinson, que en lenguaje médico se denomina ‘subtalamotomía dorso-lateral selectiva’.
La técnica ‘consiste básicamente en ‘lesionar’ el núcleo subtalámico, una estructura neuronal, localizada en la profundidad del cerebro y que desempeña un papel fundamental en el control de los movimientos”, explicó el Dr. Alvarez. 
En los ‘90 se realizaron experimentos para conocer el rol del subtálamo en la disfunción del circuito motor en la enfermedad de Parkinson y el posible efecto terapéutico si se lo ‘lesiona’ para controlar los síntomas motores que produce elParkinson.
“El estado del conocimiento actual de los mecanismos que originan los signos cardinales de la enfermedad de Parkinson -lentitud del movimiento, rigidez, temblor y alteraciones de los reflejos posturales- han permitido un renacer de las técnicas quirúrgicas para su tratamiento, apoyado en el desarrollo tecnológico”, señaló el Dr. Alvarez. 
La hipótesis de que una lesión parcial en la estructura del núcleo subtalámico pudiera revertir los síntomas principales de la enfermedad de Parkinson y las experiencias en primates, más el conocimiento de casos clínicos en que una lesión hemorrágica espontánea de esa estructura modificó favorablemente las manifestaciones clínicas de la enfermedad, condujeron a los cubanos a proponer un protocolo de investigación conjunta entre el CIREN y expertos españoles de laClínica Quirón, de San Sebastián, para evaluar la eficacia de esta nueva técnica en pacientes con Parkinson avanzado.
Desde 1987 Cuba utiliza la técnica del neurotrasplante y métodos de cirugía funcional estereotáxica (de mínimo acceso) como la Palidotomía y la Talamotomía.
Numerosos estudios experimentales habían sugerido que el núcleo subtalámico podría constituir una estructura crucial en las manifestaciones motoras de la enfermedad.
Otra línea de investigación clínica del quehacer científico del CIREN es la cirugía de las distonías, considerada uno de los cuatro temas principales que ocupan a las neurociencias del siglo 21, junto al Parkinson, demencias y enfermedades neuromusculares
. En general, el Centro dispone de servicios especializados para la atención de otras enfermedades degenerativas.
Además del Parkinson, las distonías, el mal de Alzheimer, la esclerosis múltiple y el envejecimiento cerebral, el CIREN también atiende las lesiones de la médula espinal, nervios periféricos y enfermedades neuromusculares.
Asimismo, trata enfermedades cerebrovasculares oclusivas como los infartos del cerebro.
Además del tratamiento de traumatismos cráneo-encefálicos, ofrece un servicio de neuropediatría dedicado a la recuperación de niños con lesiones estáticas del sistema nervioso. Tratamientos multidisciplinarios
Los tumores cerebrales se tratan con un enfoque neurobiológico que da resultados muy positivos, indicó Alvarez.
Según el médico cubano, en los medios científicos existe aún cierto escepticismo sobre las posibilidades de restablecimiento de personas con traumas de la médula espinal (paraplejias, cuadriplejias).
Alvarez acepta que la recuperación es difícil para quienes sufren sección o lesiones medulares, pero afirma que para su mejoramiento resulta indispensable una acción integral y mancomunada de especialistas en rehabilitación, defectología, logopedia, psicología y electroestimulación, entre otras disciplinas.
Según el Dr. Alvarez, el CIREN cuenta con un colectivo de profesionales que trabajan multidisciplinariamente, con programas diseñados para cada paciente. “No recibe el mismo tratamiento un paciente con lesión medular completa, sin conductividad eléctrica, que quien sufre de una lesión raquimedular y mantiene la conductividad”, dijo.
“Y aquellos que presentan lesión con espasticidad (rigidez) recibirán un tratamiento diferenciado de quienes su trastorno les produzca flacidez.
Ello hace posible programar objetivos a alcanzar durante el tratamiento, en correspondencia con las posibilidades reales del paciente. Para ello existe un esfuerzo de todo el colectivo de la institución, que viene logrando importantes éxitos en esta labor”.
En el Centro laboran 259 trabajadores profesionales, entre neurólogos, neurocirujanos y otras especialidades.
El Dr. Alvarez insistió que “en nuestra institución no se brinda tratamiento a los pacientes como es tradicional en la medicina sintomática.
Los especialistas del Centro abordan la terapéutica de manera multidisciplinaria, con un diseño especial para cada paciente, que abarca desde la administración de medicamentos de última generación hasta la cirugía más especializada, con aplicación de técnicas para la rehabilitación y corrección de defectos físicos e intelectuales y otras terapias dirigidas a la actividad psíquica, intelectual, sensitiva y motora.
Por ello, se produce una incorporación social más rápida y efectiva de nuestros pacientes.
Prueba fehaciente de ello es la opinión de miles de enfermos atendidos en la institución”.
Testimonios:
Carlos Torres“Buenos días… Soy Carlos Torres y quiero dar testimonio de la mejoría de mi esposa a quien hace 5 años le diagnoticaron el Mal de Parkinson. Su enfermedad fué acrecentando y era dificil controlar sus movimientos involuntarios, aun con el tratamiento que llevaba, indicado por el neurologo que la asistía. 
Sin embargo yo no dejaba de buscar ayuda en otros medio y fué cuando leí a travez de esta pagina la recomendaciones del uso de la Terapia Célular. 
A partir del día 5 de Mayo del año 2011, se inyectó la primera ampolla de HP y desde esa fecha para acá, gracias a Dios sus temblores desaparecieron y hoy en día lleva una vida normal, aunque mantiene su tratamiento paralelo. 
El tratamiento con las ampollas HP ha sido por 8 meses y ha sido suspendido hasta tener resultados de una resonancia magnética cerebral. Doy fé del resultado positivo del tratamiento con Terapia Célular HP.”
Sr. Carlos Pastor Torres
Barquisimeto, Venezuela

A história secreta da renúncia de Bento XVI – por eduardo febbro / paris.fr

Mais do que querelas teológicas, são o dinheiro e as contas sujas do banco do Vaticano os elementos que parecem compor a trama da inédita renúncia do papa. Um ninho de corvos pedófilos, articuladores de complôs reacionários e ladrões sedentos de poder, imunes e capazes de tudo para defender sua facção. A hierarquia católica deixou uma imagem terrível de seu processo de decomposição moral. O artigo é de Eduardo Febbro, direto de Paris.

Eduardo Febbro
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 Os especialistas em assuntos do Vaticano afirmam que o Papa Bento XVI decidiu renunciar em março passado, depois de regressar de sua viagem ao México e a Cuba. Naquele momento, o papa, que encarna o que o diretor da École Pratique des Hautes Études de Paris (Sorbonne), Philippe Portier, chama “uma continuidade pesada” de seu predecessor, João Paulo II, descobriu em um informe elaborado por um grupo de cardeais os abismos nada espirituais nos quais a igreja havia caído: corrupção, finanças obscuras, guerras fratricidas pelo poder, roubo massivo de documentos secretos, luta entre facções, lavagem de dinheiro. O Vaticano era um ninho de hienas enlouquecidas, um pugilato sem limites nem moral alguma onde a cúria faminta de poder fomentava delações, traições, artimanhas e operações de inteligência para manter suas prerrogativas e privilégios a frente das instituições religiosas.Muito longe do céu e muito perto dos pecados terrestres, sob o mandato de Bento XVI o Vaticano foi um dos Estados mais obscuros do planeta. Joseph Ratzinger teve o mérito de expor o imenso buraco negro dos padres pedófilos, mas não o de modernizar a igreja ou as práticas vaticanas. Bento XVI foi, como assinala Philippe Portier, um continuador da obra de João Paulo II: “desde 1981 seguiu o reino de seu predecessor acompanhando vários textos importantes que redigiu: a condenação das teologias da libertação dos anos 1984-1986; o Evangelium vitae de 1995 a propósito da doutrina da igreja sobre os temas da vida; o Splendor veritas, um texto fundamental redigido a quatro mãos com Wojtyla”. Esses dois textos citados pelo especialista francês são um compêndio prático da visão reacionária da igreja sobre as questões políticas, sociais e científicas do mundo moderno.

O Monsenhor Georg Gänsweins, fiel secretário pessoal do papa desde 2003, tem em sua página web um lema muito paradoxal: junto ao escudo de um dragão que simboliza a lealdade o lema diz “dar testemunho da verdade”. Mas a verdade, no Vaticano, não é uma moeda corrente. Depois do escândalo provocado pelo vazamento da correspondência secreta do papa e das obscuras finanças do Vaticano, a cúria romana agiu como faria qualquer Estado. Buscou mudar sua imagem com métodos modernos. Para isso contratou o jornalista estadunidense Greg Burke, membro da Opus Dei e ex-integrante da agência Reuters, da revista Time e da cadeia Fox. Burke tinha por missão melhorar a deteriorada imagem da igreja. “Minha ideia é trazer luz”, disse Burke ao assumir o posto. Muito tarde. Não há nada de claro na cúpula da igreja católica.

A divulgação dos documentos secretos do Vaticano orquestrada pelo mordomo do papa, Paolo Gabriele, e muitas outras mãos invisíveis, foi uma operação sabiamente montada cujos detalhes seguem sendo misteriosos: operação contra o poderoso secretário de Estado, Tarcisio Bertone, conspiração para empurrar Bento XVI à renúncia e colocar em seu lugar um italiano na tentativa de frear a luta interna em curso e a avalanche de segredos, os vatileaks fizeram afundar a tarefa de limpeza confiada a Greg Burke. Um inferno de paredes pintadas com anjos não é fácil de redesenhar.

Bento XVI acabou enrolado pelas contradições que ele mesmo suscitou. Estas são tais que, uma vez tornada pública sua renúncia, os tradicionalistas da Fraternidade de São Pio X, fundada pelo Monsenhor Lefebvre, saudaram a figura do Papa. Não é para menos: uma das primeiras missões que Ratzinger empreendeu consistiu em suprimir as sanções canônicas adotadas contra os partidários fascistóides e ultrarreacionários do Mosenhor Levebvre e, por conseguinte, legitimar no seio da igreja essa corrente retrógada que, de Pinochet a Videla, apoiou quase todas as ditaduras de ultradireita do mundo.

Bento XVI não foi o sumo pontífice da luz que seus retratistas se empenham em pintar, mas sim o contrário. Philippe Portier assinala a respeito que o papa “se deixou engolir pela opacidade que se instalou sob seu reinado”. E a primeira delas não é doutrinária, mas sim financeira. O Vaticano é um tenebroso gestor de dinheiro e muitas das querelas que surgiram no último ano têm a ver com as finanças, as contas maquiadas e o dinheiro dissimulado. Esta é a herança financeira deixada por João Paulo II, que, para muitos especialistas, explica a crise atual.

Em setembro de 2009, Ratzinger nomeou o banqueiro Ettore Gotti Tedeschi para o posto de presidente do Instituto para as Obras de Religião (IOR), o banco do Vaticano. Próximo à Opus Deis, representante do Banco Santander na Itália desde 1992, Gotti Tedeschi participou da preparação da encíclica social e econômica Caritas in veritate, publicada pelo papa Bento XVI em julho passado. A encíclica exige mais justiça social e propõe regras mais transparentes para o sistema financeiro mundial. Tedeschi teve como objetivo ordenar as turvas águas das finanças do Vaticano. As contas da Santa Sé são um labirinto de corrupção e lavagem de dinheiro cujas origens mais conhecidas remontam ao final dos anos 80, quando a justiça italiana emitiu uma ordem de prisão contra o arcebispo norteamericano Paul Marcinkus, o chamado “banqueiro de Deus”, presidente do IOR e máximo responsável pelos investimentos do Vaticano na época.

João Paulo II usou o argumento da soberania territorial do Vaticano para evitar a prisão e salvá-lo da cadeia. Não é de se estranhar, pois devia muito a ele. Nos anos 70, Marcinkus havia passado dinheiro “não contabilizado” do IOR para as contas do sindicato polonês Solidariedade, algo que Karol Wojtyla não esqueceu jamais. Marcinkus terminou seus dias jogando golfe em Phoenix, em meio a um gigantesco buraco negro de perdas e investimentos mafiosos, além de vários cadáveres. No dia 18 de junho de 1982 apareceu um cadáver enforcado na ponte de Blackfriars, em Londres. O corpo era de Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano. Seu aparente suicídio expôs uma imensa trama de corrupção que incluía, além do Banco Ambrosiano, a loja maçônica Propaganda 2 (mais conhecida como P-2), dirigida por Licio Gelli e o próprio IOR de Marcinkus.

Ettore Gotti Tedeschi recebeu uma missão quase impossível e só permaneceu três anos a frente do IOR. Ele foi demitido de forma fulminante em 2012 por supostas “irregularidades” em sua gestão. Tedeschi saiu do banco poucas horas depois da detenção do mordomo do Papa, justamente no momento em que o Vaticano estava sendo investigado por suposta violação das normas contra a lavagem de dinheiro. Na verdade, a expulsão de Tedeschi constitui outro episódio da guerra entre facções no Vaticano. Quando assumiu seu posto, Tedeschi começou a elaborar um informe secreto onde registrou o que foi descobrindo: contas secretas onde se escondia dinheiro sujo de “políticos, intermediários, construtores e altos funcionários do Estado”. Até Matteo Messina Dernaro, o novo chefe da Cosa Nostra, tinha seu dinheiro depositado no IOR por meio de laranjas.

Aí começou o infortúnio de Tedeschi. Quem conhece bem o Vaticano diz que o banqueiro amigo do papa foi vítima de um complô armado por conselheiros do banco com o respaldo do secretário de Estado, Monsenhor Bertone, um inimigo pessoal de Tedeschi e responsável pela comissão de cardeais que fiscaliza o funcionamento do banco. Sua destituição veio acompanhada pela difusão de um “documento” que o vinculava ao vazamento de documentos roubados do papa.

Mais do que querelas teológicas, são o dinheiro e as contas sujas do banco do Vaticano os elementos que parecem compor a trama da inédita renúncia do papa. Um ninho de corvos pedófilos, articuladores de complôs reacionários e ladrões sedentos de poder, imunes e capazes de tudo para defender sua facção. A hierarquia católica deixou uma imagem terrível de seu processo de decomposição moral. Nada muito diferente do mundo no qual vivemos: corrupção, capitalismo suicida, proteção de privilegiados, circuitos de poder que se autoalimentam, o Vaticano não é mais do que um reflexo pontual e decadente da própria decadência do sistema.

Tradução: Katarina Peixoto

Carta Maior.

O simpático Olsen Jr. é o autor convidado desta semana da REVISTA VERÃO / santa catarina.sc

O simpático Olsen Jr. é o autor convidado desta semana Ana ¿Bacana¿ Silveira/Divulgação

Foto: Ana Bacana Silveira / Divulgação
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A simpatia em pessoa – Olsen Jr. – escreveu este conto só para a Revista de Verão. Mas quando rascunhava, lembrou de alguém e pediu para incluirmos a dedicatória: “Para Green Eyes, que sabe por que”. Além de escritor, é jornalista, formado em Direito e atual inquilino da cadeira 11 da Academia Catarinense de Letras. É o autor de Desterro, SC, livro finalista do Prêmio Jabuti de 2000, classificado pela Câmara Brasileira do Livro como um dos melhores livros de contos daquele ano. Vive atualmente em Rio Negrinho, que fica no Norte do Estado.A mulher do vizinho

O caso aconteceu assim…

Logo que me instalei na nova casa, “longe da multidão estulta”, diria Thomas Hardy, fui retomando velhos hábitos. Um deles era, nos finais de tarde, sentar num canto da varanda e cevar um mate solitário, como faz o índio mais empedernido. Num desses dias, faz algum tempo, foi que percebi uma silhueta feminina na casa em frente. Até aí nada demais, não fosse a distância de 300 metros entre nós e morarmos quase em frente um do outro, como se fosse um espelho e a mulher aparecer sempre nua, os cabelos soltos caídos nos ombros e um corpo de mexer com o instinto de qualquer caboclo menos civilizado.

A mulher ficava imóvel. À vezes, tinha a sensação de um leve balançar da cabeça, o que se denotava pelas flutuaçõs dos cabelos, em pé o corpo todo delineado em suas formas generosas e provocantes, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Percebi, porém, que ela aparecia todos os dias exatamente naquele horário em que o dia vai perdendo espaço para a noite. Depois sumia sem deixar vestígios. Várias vezes permaneci ali tentando captar os seus movimentos na hora de se ausentar daquele palco que me tinha como espectador aparvalhado e mudo e tentado a ir ao seu encontro. Durante muito tempo aquela imagem era um conforto para um homem solitário e meus finais de tarde eram bem recompensadores.

Um dia, movido por um desejo milenar, sem qualquer planejamento, chamo o meu cachorro Thor e decido na mesma hora que iria até lá, na casa próxima, conhecer aquela vizinha sensual e que já estava me tirando o sono e a paz, deixando em seus lugares apenas um desassossego infernal que me não permitia viver. Thor era um cusco obediente e me entendia ao menor sinal. Naquela tarde seguimos em silêncio dando uma imensa volta por dentro do mato, evitando as trilhas mais batidas e nos aproximando do nosso alvo. Cerca de 20 metros da casa, obedecendo a um mesmo ângulo de visão que dispunha quando estava em minha varanda, achei que era o lugar ideal e me agachei dentro de um capão bem camuflado onde dificilmente seria visto. Thor ficou ao meu lado, em posição de ataque, bastando um leve movimento das mãos para partir em cima do que quer que fosse.

A espera não me incomodava, tinha aprendido com meu pai (que aprendeu com meu avô) aquela técnica do caçador que sabe que o esforço terá sua recompensa. Final de tarde, aguardamos até chegar a hora… Mas o que é aquilo? Não acredito… A imagem vai se formando na varanda… Tenho vontade de gritar, um misto de histeria e desespero… Não pode ser, me recuso em crer no que os meus olhos vendo… Ela está lá, inteira, nua, cabelos vaporosos e flutuantes em seus ombros… Deus meu! Exclamo… Isto não está acontecendo… Vamos embora, Thor, grito, saindo do meu lugar e pegando a trilha… Para casa! — instigo o cachorro — e ele me ultrapassa e sou eu correndo atrás dele procurando sair logo dali.

Corremos pela trilha aberta já conhecida e só paramos quando estávamos próximos de casa… Pouco depois de jogar o meu corpo em cima de um pelego no banco da varanda e abraçar o pescoço do Thor é que comecei a rir e falar sozinho, ninguém vai acreditar… Boa essa… Durante alguns dias da minha vida estive apaixonado, como todo o poeta, por uma mulher que só existia em minha imaginação… A figura ia tomando forma na varanda do vizinho a partir da projeção da sombra de uma árvore com pequena galhada que mexia insuflada por qualquer brisa daquele verão… O tronco era curvilíneo, o sonho irrealizável e o desejo insatisfeito… Acendo a luz da sala e me detenho na fotografia que mandei emoldurar onde aparece o escritor William Faulkner em cima de um trator em uma terra que está sendo arada e me contento com a ideia de que não sou mais pioneiro e nesta fazenda onde me instalei ainda existe muita coisa para ser feita.

Vocábulos de uso gaúcho

Índio – homem do campo
Caboclo – indivíduo nativo
Cusco – cachorro sem uma raça definida
Capão – Área de mato no meio de um descampado
Pelego – Couro de carneiro ou de ovelha que serve para amaciar o acento

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do DC.

Ostravacância – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

Tio Otácio mora em São Ludgero desde que se entende por gente. As primeiras luzes do saber, como aprecia dizer, adquiriu-as no famoso Seminário da cidade. Aliás, o primeiro seminário do Estado. O Amilcar Nevesque ninguém sabe ao certo é até onde ele foi nos seus estudos teológicos nem até que ponto chegou na carreira eclesiástica, se é que a tenha iniciado algum dia. À força de tanta leitura saborosa servida pela vasta biblioteca do Seminário, veio a tornar-se um intelectual, ou seja, alguém que procura pensar pela própria cabeça. Era inevitável. Tio Otácio adora ler, a ponto de sentir-se mal, muito mal mesmo, quando passa um dia inteiro sem ler ao menos dez ou doze páginas de algum livro. Mas de livros que valham a pena, faz questão de completar. Tio Otácio também adora ostras, mas não chega ao exagero de passar mal se não conseguir deglutir dez ou doze desses saborosos moluscos bivalves num mesmo dia.

 

Para munir-se de ostras frescas, tio Otácio precisa deixar sua São Ludgero, onde é figura política influente e respeitada, e buscar uma beirada de mar. Muitas vezes Otacílio Osório, seu nome de batismo e de registro civil, aproveita para visitar a Capital, onde conta com o suporte logístico do sobrinho Manoel Osório, que muito aprecia os papos com o parente.

 

Tio Otácio aproveitou a primeira folga que teve no início do ano para conferir a situação, levado pela notícia de que 11,6 mil litros de óleo escorreram de dois transformadores de uma subestação desativada para as águas da Baía Sul no distante dia 16 de novembro de 2012, embora o vazamento só tenha sido descoberto e comunicado à Fundação do Meio Ambiente em 19 de dezembro. A Baía Sul, que vai da Ponte Hercílio Luz até o extremo sul da Ilha de Santa Catarina, é uma das duas maiores regiões produtoras de ostras e mariscos do Brasil. A outra é a Baía Norte. Nas duas baías há inúmeras fazendas marinhas que cultivam os moluscos e abastecem São Paulo e restaurantes no exterior, além de servirem ao consumo local. Nos restaurantes à beira-mar da Freguesia do Ribeirão da Ilha, no sul, e de Santo Antônio de Lisboa, no norte da Ilha, podes acompanhar o sujeito pegar o barco e retirar da água a ostra que te servirão em seguida.

 

- E o que diz a companhia de luz? – quer saber Otacílio Osório.

 

- Disse duas coisas – esclarece Manoel Osório. – Disse que o terreno da subestação já tinha sido repassado à Universidade Federal, a qual alega não ter ainda recebido a sua posse, e que o óleo derramado era inofensivo, praticamente inerte.

 

- E não era.

 

- Não, não era. Trata-se do Ascarel, marca comercial da notória Monsanto para um produto já proibido até no Brasil por ser altamente tóxico e cancerígeno, além de outras formidáveis propriedades negativas. Tão danoso quanto os mais deletérios pesticidas vendidos pelo mesmo fabricante.

 

Após circularem por um Ribeirão de casas todas em luto fechado, com bandeiras e faixas pretas, pessoas entristecidas pelas ruas e restaurantes entregues às moscas no auge do verão, pois a extração, o consumo e a reposição dos moluscos da região estão proibidos até a avaliação precisa do tamanho do estrago, tio Otácio apenas comenta:

 

- É obsceno, não? Quando o pessoal consegue desenvolver uma atividade econômica forte e sustentável, sem destruir a arquitetura do lugar, vem uma empresa do Estado e abandona na beira do mar equipamentos cheios de líquido mortífero. Então é isso que se vê, essa ostravacância, essa síndrome de restaurantes vazios por falta de ostras.

O QUE DIZEM AS FOTOS – por almandrade / salvador.ba

O acusado é proprietário de uma sentença, sem ser interrogado e
   sem as provas."  

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Eis a pena: 300 metros de distância entre pai e filho, 
impedidos de qualquer forma de comunicação.

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Nada demais nestas fotos, não são de um fotógrafo profissional, tiradas por um amador, sem qualquer preocupação Almandrade 1estética, apenas para registrar um momento, um encontro de fim de tarde de pai e filho depois do término das atividades escolares. Um acontecimento quase cotidiano que alegrava a criança. Essa estação de passagem entre a escola e a casa, é um lugar de trabalho, uma repartição pública, nada de especial. Mas, estas fotos registram algo extraordinário, uma despedida, impossível para uma criança de três anos, ter consciência. Mas as crianças têm pressentimentos: O que transmite o semblante da criança? O que diz o seu olhar? Um olhar triste, desconfiado, perdido, enigmático. Não são “os olhos que viram o imperador” nem é o olhar do rapaz que “aguarda o enforcamento”. Depois de Roland Barthes em a “Câmara Clara”, a fotografia é mais que uma reprodução da realidade. Ela explicita uma leitura e faz despertar sentimentos adormecidos dentro de nós.

A criança pensa com o olhar, com três anos o futuro é muito maior que o passado. Ela olha o futuro. Da Vinci, no quadro “A Santana”, uma, das mais belas e instigantes, composição plástica da história da arte: O menino Jesus de aproximadamente três anos, sai entre as pernas de Maria simbolizando o nascimento em direção a terra e abraça um cordeiro, como se estivesse olhando para o seu futuro, ele o cordeiro de Deus que veio ao mundo para salvar a humanidade. Depois de Da Vinci aprendemos a querer ver mais nas imagens. Um pormenor chama a atenção na foto, os lábios com um fragmento de biscoito, por um momento o garoto faz uma pausa, para de mastigar, com as mãos ocupadas cada uma com um biscoito, contempla o vazio, a câmara fotográfica ou o espectador. Para que essa pausa? Em que pensa? Eu vejo a solidão e a saudade. Pensei em Velásquez e “As Meninas”, quando ele para de pintar e olha para fora do quadro.

Na outra foto o sorriso desconcertado do pai, não consola a criança que olha para o chão, com as mãos no queixo e uma cara de choro e de desamparo. Será que ela imagina que vai separar-se do pai e tão cedo ou talvez nunca mais retorne a esse lugar de trabalho, um lugar sem nenhum atrativo para despertar a atenção infantil. Nessa sociedade da propriedade privada, nem as crianças escapam, deixam de ser filhos para ser coisas, animais de estimação de um dono e o outro é transformado em provedor econômico, garantido por lei que desconhece afetos e desejos. Questões aparte da imaginação do garoto. Esses mesmos olhos que da janela do apartamento um dia avistou o mar e gritou: “Papai, achei o mar”, o que viu desta vez para ficar assim tão aborrecido? Será o entardecer sombrio? Os poetas, as crianças e os loucos têm visões.

Na pintura de Pieter Brueghel, o maior observador em toda história da arte das brincadeiras infantis, mostra uma cidade como um grande playground, onde tudo nem sempre é fantasia e diversão. Num canto da tela, um lugar bem discreto, aparece a mascara da tragédia. No meio de tanta diversão, a triste realidade, a de que a humanidade segue o pior dos instintos. Não sabemos direito a mensagem de Brueghel como também não temos certeza do que diz o olhar desse garoto. Nos paraísos infantis nem tudo é tão inocente e maravilhoso, é preciso ser perspicaz e prestar atenção nos detalhes.

A foto é um registro histórico que fixa para sempre uma subjetividade, e sua interpretação reflete o ponto de vista e o desejo de quem olha. Ela tem muitas referências, cutuca o que está guardado no fundo da memória.

Almandrade

(artista plástico, poeta e arquiteto)

COMENTÁRIO recebido pelo site em “ROBERTO PRADO e sua poesia”

PALAVRAS, TODAS PALAVRAS <comment-reply@wordpress.com>
15:52 (2 horas atrás)

Novo comentário sobre seu post “ROBERTO PRADO e sua poesia / curitiba.pr”
Autor: ricardo crovador (IP: 200.189.118.90 , 200.189.118.90)
Email: r_crovador@hotmail.com
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Whois  : http://whois.arin.net/rest/ip/200.189.118.90
Comentário:

Muito bacana. Cheguei a esta página do Roberto através do link divulgado pelo Almir Feijó lá no facebook. Gostei demais dos poemas… e vou ficar freguês do site… aliás, aqui tem material para muitas e ótimas leituras.


Você pode ver todos os comentários sobre esse post aqui:
http://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2011/11/17/roberto-prado-e-sua-poesia-curitiba-pr/#comments

Link Permanente: http://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2011/11/17/roberto-prado-e-sua-poesia-curitiba-pr/#comment-12473

Lula traça estratégia para governo de SP

Sucessão no Estado em 2014 já é debatida por petistas; ministros do PT querem disputar, mas ex-presidente sugere chapa com PMDB

lula-Homenageado

O PT começou a montar a estratégia, considerada prioritária pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para tentar tirar o PSDB do Palácio dos Bandeirantes na eleição de 2014. A direção do partido debate internamente dois caminhos: fazer uma aliança com uma sigla aliada e tirar a cabeça de chapa do PT ou lançar um ministro da presidente Dilma Rousseff como candidato a governador de São Paulo.

As duas estratégias foram debatidas há dez dias em reunião com Lula, em São Paulo. Voltaram à pauta na segunda-feira em almoço em Brasília do qual participaram integrantes do partido.

O PT discute a possibilidade de apoiar o PMDB em São Paulo, num movimento em que lançaria o vice-presidente Michel Temer como candidato a governador. Essa solução daria à chapa o maior tempo de TV na disputa e abriria a vaga de vice de Dilma, facilitando a composição com o PSB, do governador Eduardo Campos (PE). O desenho com Temer na cabeça de chapa é visto pelos petistas como a única possibilidade de o PMDB abrir mão da vice-presidência – o pré-candidato peemedebista ao governo do Estado é o deputado Gabriel Chalita, que tem bom trânsito com o PT e deverá ser o novo ministro de Ciência e Tecnologia.

A operação de rifar a candidatura própria e apoiar um aliado reedita articulação de 2009 para tentar emplacar Ciro Gomes (PSB-CE), ex-ministro de Lula, candidato a governador de São Paulo. Na ocasião, o ex-ministro chegou a trazer o título eleitoral do Ceará para São Paulo, mas o plano naufragou diante da resistência do PT paulista – e da falta de entusiasmo do próprio Ciro.

Mas, como em 2009, o apoio a aliados encontra a resistência de setores do PT. O PMDB também não é grande entusiasta da articulação. Integrantes do partido ponderam que as chances de Temer se eleger governador numa disputa contra o tucano Geraldo Alckmin, pré-candidato à reeleição, são bem menores que as de se reeleger vice numa chapa de Dilma – isso se a economia melhorar, e a popularidade da petista não naufragar.

“Todas as soluções são possíveis. Lula já me disse que o fundamental é ganhar o governo do Estado. Vamos fazer um esforço muito grande para isso acontecer”, declarou o ex-prefeito de Osasco Emídio de Souza, cotado para presidir o PT paulista. “A nossa prioridade é derrotar os tucanos em São Paulo. Para isso se configurar, não vamos medir esforços”, completou.

Para o líder da bancada petista na Assembleia, Alencar Santana, o partido tem de lançar um quadro próprio. “O PMDB com certeza é um aliado forte, mas hoje defendemos a candidatura de alguém do PT”, afirmou. “Por enquanto, não está no nosso horizonte não ter essa candidatura.”

A operação tem outro agravante. O PT pretende se aliar em 2014 com o PSD, de Gilberto Kassab, que pode ficar com a vaga para o Senado. Haveria, portanto, outro desgaste interno, dessa vez ao rifar a candidatura de Eduardo Suplicy à reeleição no Senado para dá-la ao PSD. O PT indicaria um nome para vice-governador na chapa do PMDB.

Ministros. Diante da dificuldade de viabilizar a operação, a saída pode ser lançar candidato um ministro petista de Dilma. Aí entram o veterano em disputas Aloizio Mercadante (Educação) e o novato em eleições Guido Mantega (Fazenda), além de Alexandre Padilha (Saúde), que perdeu gás nos últimos meses por, segundo petistas, faltar uma marca em sua gestão ministerial.

Um dos ministros mais fortes de Dilma hoje, Mercadante quer a indicação. Contra ele pesam as duas últimas derrotas, em 2006 e 2010, para o PSDB. Além disso, depois da vitória de Fernando Haddad na eleição municipal paulistana, Lula está convicto de que, se o candidato for mesmo petista, o nome deve ser novo do ponto de vista eleitoral.

Assim, sobram Padilha e Mantega. Embora não tenha criado sua marca, o ministro da Saúde não está fora do páreo. A atuação na tragédia de Santa Maria foi elogiada pelos petistas.

Sem respaldo partidário, Mantega seria uma experiência à la Dilma e Haddad, ou seja, dependeria do esforço e articulação pessoal de Lula. A favor dele está o perfil de professor universitário, palatável à classe média paulista, e o apoio de setores do empresariado. A direção do PT está ciente de que a operação só funcionaria se a economia estiver bem – o PIB de 2012, ainda a ser calculado, não deve ir além de 1%, e a tendência é que os anos Dilma tenham crescimento inferior ao da era Lula. O lançamento de Mantega teria outra vantagem: abriria a vaga no ministério, potencial alvo de mudanças na gestão Dilma.

Correndo por fora há ainda outros dois ministros: José Eduardo Martins Cardozo (Justiça), próximo de Dilma, mas sem apoio de Lula, e Marta Suplicy (Cultura), preterida pelo ex-presidente na eleição para a Prefeitura em 2012, e que ainda enfrenta isolamento partidário.

Comando. Desde que Lula se elegeu presidente, a escolha dos candidatos do PT nas eleições mais estratégicas passou a ser feita por ele, o que levou ao abandono de práticas tradicionais, como as prévias. Na campanha de Haddad, Lula chegou a perguntar ao candidato se poderia ser o seu vice. A pergunta não foi em tom de brincadeira. Na ocasião, havia um impasse: Luiza Erundina (PSB) havia desistido da indicação em razão da aliança com Paulo Maluf (PP). Quando o assunto é eleição, o petista coloca todas as cartas na mesa.

 

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JULIA DUAILIBI, FERNANDO GALLO – O Estado de S.Paulo

ASSANGE: ” liberdade da NET está ameaçada”

Entrevista com Assange: “É bom que os governos tenham medo das pessoas”

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LONDRES – A Internet está se transformando no maior instrumento de vigilância já criado e a liberdade que ela representa estaria seriamente ameaçada. A avaliação é de Julian Assange, criador do Wikileaks e que, há sete meses, vive na embaixada do Equador em Londres. Para ele, a web redefiniu as relações de poder no mundo, se transformou no “sistema nervoso central hoje das sociedades” e chega a ser mais determinante que armas. O problema, segundo ele, é que esse poder está agora se virando contra as populações.

O australiano recebeu a reportagem do Estado para uma entrevista sobre seu livro “Cypherpunks, Liberdade e o Futuro da Internet”, que está sendo lançado no Brasil nesta semana pela Boitempo Editorial.

Apesar de aparentar relaxado, não escondia a palidez de sete meses dentro de um escritório. Em junho de 2012, ele optou por pedir asilo ao Equador, diante de sua iminente deportação para a Suécia, onde é acusado de assédio sexual. Segundo ele, sua decisão de pedir refúgio ao governo de Quito tem como meta evitar sua extradição da Suécia para os EUA, onde seria julgado pela difusão de documentos secretos. O Equador lhe concedeu asilo. Mas a polícia britânica indicou que, assim que ele pisar para fora da embaixada em direção ao aeroporto, seria detido. O resultado tem sido um confinamento sem data para acabar.

Mas essa situação não o deixou menos polêmico. Segundo ele, ao colocar informações em redes sociais, internautas pelo mundo estão fazendo um trabalho de graça para a CIA. “Hoje, o Google sabe mais sobre você que sua mãe”, disse. “Esse é o maior roubo da história”.

Assange ainda defendeu seu anfitrião, o presidente equatoriano Rafael Correa, diante de sua ação contra jornais no Equador e que chegou a ser criticado pela ONU.

Sobre o futuro do Wikileaks, Assange já prometeu que, em 2013, um milhão de novos documentos serão publicados. Ao Estado, ele garantiu: “haverá muita coisa sobre o Brasil””. Ao aparecer para a entrevista, Assange vestia uma camisa da seleção brasileira, num claro esforço de criar simpatia no Brasil e numa operação de imagem cuidadosamente trabalhada.

Eis os principais trechos da entrevista e as fotos de Joao Castelo Branco, as primeiras publicadas por um jornal brasileiro desde que o australiano pediu asilo ao Equador.

Chade – A Internet é o símbolo da emancipação para muitos e foi apresentada como a maior revolução já feita. Mas agora o sr. traz a ideia de que há uma contra-ofensiva a isso tudo. O sr. considera que a Internet está em uma encruzilhada ?

Assange – Diferentes tecnologias produzem mais poder para estruturas existentes ou indivíduos e isso tem sido a história do desenvolvimento tecnológico, ao ponto que podemos ver a história da civilização humana como a história do desenvolvimento de diferentes armas de diferentes tipos. Por exemplo, quando rifles, que podiam ser obtidos por pequenos grupos, eram as armas dominantes em seu dia, ou navios de guerra ou bombas atômicas. E isso define a relação de poder entre diferentes grupos de pessoas pelo mundo. Desde 1945, a relação entre as superpotências dominantes tem sido definida por quem tem acesso às armas atômicas. Mas o que ocorre agora é que Internet é tão significativa que está começando a redefinir as relações de força que antes eram definidas pelos diferentes sistemas de armas que um país tinha. Isso porque todas as sociedades que tem qualquer desenvolvimento tecnológico, que são as sociedades influentes, se fundiram totalmente com a Internet. Portanto, não há uma separação entre o que nós pensamos normalmente que é uma sociedade, indivíduos, burocracia, estados e internet. A internet é o alicerce da sociedade, suas artérias, os nervos e está conectando os estados por cima das fronteiras. A Internet é um centro, se não for o centro, da nossa sociedade. Ela está envolvida na forma que uma sociedade se comunica consigo mesmo, como se comunica entre elas. Não é só simplesmente um sistema de armas ou fonte energia. Não é certo pensar como se fosse o sangue da sociedade. É o sistema nervoso central da socidade. Portanto, se há um problema na Internet, há um problema com o sistema nervoso da sociedade. Agora, víamos antes a internet como uma força liberatadora, que garantia às pessoas que não tinham informação com informação e, mais importante ainda, com conhecimento. Conhecimento é poder. Outras coisas tambem são poder. Mas ela deu muito poder a pessoas que antes não tinham poder. E não apenas mudou a relação entre os que tem poder e aquelas que não tem, dando conhecimento àqueles que não tinham conhecimento. Mas também fez todo o sistema funcionar de forma mais inteligente. Todos passaram a poder tomar decisões mais inteligentes e puderam passar a cooperar de forma mais inteligente. Agindo contrário a essa força está a vigilância em massa criada por parte do estado.

Chade – De que forma estaria ocorrendo essa vigilância em massa?

Assange – As sociedades se fundiram com a internet, diante do fato de que comunicações entre os indivíduos ocorrem pela Internet, os sistemas de telefone estão na Internet, bancos e transações usam a Internet. Estamos colocando nossos pensamentos mais íntimos na Internet, detalhes de comunicações e mesmo entre marido e muher, nossa posição geográfica. Enfim, tudo está sendo exposto na Internet. Isso signifca que grupos que estão envolvidos em vigilância em massa tem conseguido realizar uma transferencia em massa de conhecimento em sua direção. Os grupos que já tinham muito conhecimento agora tem mais. Esse é o maior roubo que de fato já ocorreu na história. Essa transferência de conhecido, de todas as comunicações interceptadas para agências nacionais de segurança e seus amigos corporativos. A tecnologia está sendo desenvolvida para essa vigilância em massa está sendo vendida por empresas de países, como a França, que vendeu um sistema de vigilância para o regime de Kadafi. Na África do Sul, há um sistema desenhado para gravar de forma permanente todas as ligações que entram e saem do país e as estocam por apenas US$ 10 milhões por ano. Está ficando muito barato. A população mundial dobra a cada 20 anos. O custo de vigilância está caindo pela metade a cada 18 meses.

Chade – Mas, justamente o sr. citou Kadafi. Muito acreditam que a Primavera Árabe só ocorreu graças à Internet. Não teria sido esse o caso?

Assange – Há uma série de histórias tradicionais de um longo trabalho de ativistas, de sindicatos e até de clubes de futebol que tiveram um papel importante na Tunísia e no Egito, os Ultras. O que é realmente novo? Bom, algumas coisas: o ativismo pan-arábico é algo novo e potenciado pela web. Diferentes ativistas em diferentes países se conectaram entre si pela web, trocando dicas, identificando quem era bem e quem era mau. O movimento dos Ultras vieram da Itália para os clubes da Tunísia e Egito. Como? Pela Internet. E então há o Wikileaks, jogando muita informação e essa informação então foi atacada pelo regime na Tunísia e depois pelo Egito. Mas também sendo disseminada pelo Egito e Tunisia. Mais importante ainda, essa informação foi disseminada para fora desses países, a tal ponto que ficou difícil para os Estados Unidos e Europa defenderem seus tradicionais aliados.

Chade – O sr. aponta para o poder de redes como Facebook e Google. Confesso que não tenho certeza que Mark Zuckerberg (criador do Facebook) pensou nisso tudo quando estava criando o site. Como é que se tornaram tão poderosos e como é que são, como o sr. diz, usados contra civis?

Assange – Google, essencialmente, sabe o que você estava pensando. E sabe também (o que vc pensou) no passado. Porque quando você tem algum pensando sobre algo, quer saber algum detalhe, você busca no Google. Sites que tem Google Adds, que na verdade são todos os sites, registram sua visita. Portanto, Google sabe todos os sites que você visitou, tudo o que você buscou, se você usou gmail ou email. Então ele te conhece melhor que você mesmo. Um exemplo: você sabe o que você buscou há dois dias, há três meses? Não. Mas o Google sabe. Google conhece você melhor que sua mãe. Claro, mas alguém pode dizer: Google só quer vender publicidade. Portanto, quem se importa que eles estejam fazendo isso. Mas, na realidade, todas as agências de inteligência americana e de aplicação da lei tem acesso ao material do Google. Eles acessaram isso em nosso caso.

Chade – Como fizeram isso?

Assange – Eles usaram instrumentos como cartas da agência de segurança nacional e mandados para buscar os dados de email das pessoas envolvidas em nossa organização. Isso saiu do Google, da conta do Twitter, onde pessoas entraram para acompanhar a nossa conta. No caso do Facebook, é algo impressionante. As pessoas simplesmente estão fazendo bilhões de centenas de horas de trabalho gratuíto para a CIA. Colocando na rede todos seus amigos, suas relações com eles, seus parentes, relatando o que estão fazendo, dizendo que vi aquela pessoa naquela festa, aquela pessoa naquela loja. É um incrível instrumento de controle. Países como a Islândia tem uma penetração do Facebbok de 88%. Mesmo que você não esteja no Facebook, você pode ter certeza que teu irmão está e está relatando sobre você, ou sua namorada está relatando sobre você. Não há como escapar. Agora, quando uma organização como Facebook diz que as pessoas querem fazer isso…

Chade – Claro, essa é justamente a minha questão: como o sr. explica que pessoas de diferentes culturas e religiões estão dispostas a revelar suas vidas diante da web?

Assange – Claro, sobre o que é que você está paranoico. Você pode dizer: bom, estou fazendo isso de forma voluntária e é mais importante estabelecer conexões sociais que se preocupar com um aparato de um estado totalitário. O problema é que isso não é verdade. As pessoas dizem que querem compartilhar algo apenas com meus amigos e amigos de meus amigos, mas não com meus amigos e com a CIA. É uma decepção o que está ocorrendo. As pessoas estão sendo enganadas em desenvolver essa atividade.

Chade – Entendo esse ponto claramente. Mas estamos vendo também censura na China, no Irã e em Cuba, países que parecem estar de fato mais temerosos da Internet. Isso não mostraria que a web é mais ameaçadora para esses regimes que para os civis?

Assange – Acho que você não pode generalizar “esses regimes”. Temos de olhar cada um deles de forma apropriada. Pessoas censuram por um motivo. Censuram porque tem medo, ou porque querem ter mais poder. Normalmente, eles querem manter seu poder. Porque o Irã censura?Bom, porque teme que pessoas dentro do Irã sejam influenciadas por material em persa publicado fora do Irã. E quem publica isso? Bom, alguns são de dissidentes genuínos. Mas também há empresas de fachada, criadas pelos israelenses, pelos Estados Unidos. Isso é umm fato. Inclusive pela BBC em Persa. Denunciamnos essas empresas de fachada no Wikileaks e suas estruturas de financiamento, e mesmo empresas israelenses. Agora, é algo saudável que governos estejam temerosos do que as pessoas pensam. Estranhamente, é um sinal otimista que a China, com toda sua censura e vigilância, está com medo ainda do que sua população pense. Por exemplo, a China baniu o Wikileaks em 2007. Pelo que sabemos, foi o primeiro país a banir. Temos tido uma espécie de guerra para superar o firewall chinês. De alguma forma, é um sintoma positivo.

Chade – Porque? Esse raciocínio não vai contra seu princípio de liberdade no fluxo de informação?

Assange – Sim. Mas é um bom sintoma. Em um país onde as relações estão tão fiscalizadas e a vigilância está enraizada que o poder não precisa se preocupar com o que as pessoas pensam, esse é o maior problema.

Chade – Voltando à questão da liberdade do fluxo de informação. Wikileaks teve um imenso impacto em alguns países. Mas há quem ainda questione: bem, os documentos foram obtidos de forma ilegal. Qual sua avaliação sobre esse argumento de que, por eles terem sido obtidos de forma ilegal, não são informações legítimas?

Assange – Generais não definem a lei. Ou pelo menos não deveriam. Se falamos da situação ameriana, há toda uma série de leis se queremos falar de legislação e foi perfeitamente legal.

Chade – A obtenção dos documentos ?

Assange – Sim, a forma que foram obtidos. Militares americanos não tem direitos na lei americana de encobrir crimes. De fato, isso é algo explícito. Não se pode usar apenas a classificação de documentos para manter um crime sigiloso. Mas também podemos dizer: quem é que fez a lei ? Obviamente são os interesses militares. Nós, como editores, temos de levar essas leis à sério? Nós não levamos elas a sério. Quer dizer, é um conflito em relação a onde você estabelece uma linha. Muito foi dito sobre isso e muito do que foi dito está filosoficamente falido. Há uma forma simples de entender. Não é Deus que estipula essa fronteira para todos nós. Diferentes organismos tem diferentes responsabilidades. As vezes, entidades policiais tem a responsabilidade de manter algo secreto. Uma investigação sobre a Máfia, deve ser mantida em sigilo.Outras organizações, como editores e jornais, tem a responsabilidade perante o público, que é de publicar nformação que ajude o público a decidir e entender o mundo. Essas diferentes responsabilidades não devem ser contaminadas uma pela outra.

Chade – Trazendo esse debate para a América Latina, como o sr. avalia o comportamento de governos diante da Internet e da imprensa em geral ?

Assange – É bem variado e tem vários problemas. Acho que, comparado com o resto do mundo, comparado com Europa, EUA, Sudeste Asiático, a região está bastante bem.

Chade – Alguns dos críticos apontam para o fato de que o presidente (do Equador) Rafael Correa ataca a imprensa. Como o sr. se sente sobre isso, e porque escolheu essa embaixada (do Equador) para vir ?

Assange – Pelo amor de Deus. Eles deveriam ser atacados com muita frequência. A primeira responsabilidade da imprensa e em primeiro codifo de ética é acuracy. Tudo começa com você precisando dizer a verdade. Essa precisa ser a primeira coisa. E também ser representativa. Não é porque sua organização é de propriedade de alguma família. Há um grande problema na América Latina com a concentração na mídia. Ainda que, se há seis famílias que controlam 70% da imprensa no Brasil, o problema é muito pior em vários países. Na Suécia, 60% da imprensa é controlado por uma editora. Na Austrália é muito pior, 60% também da imprensa escrita é controlada por Murdoch. Portanto, quando falamos em liberdade de expressão, temos de incluir a liberdade de distribuição, uma distribição adequada e uma das coisas mais importantes que a Internet nos deu é a liberdade na prática de distribuição, se as pessoas estão interessadas no assunto. Não quer dizer que você pode levar algo a um milhão de pessoas com publicidade. Mas você pode montar um blog e, se as pessoas já estão interessados, podem ler.

Chade – Uma pergunta pessoal. Para alguns, o sr. é um herói, outros dizem que é um criminoso, uma ameaça internacional, outros dizem que o sr. é um ativista. Em suas próprias palavras, quem é o sr. ?

Assange – Sou apenas um cara. Todos nós vivemos só uma vez. Todos temos responsabilidades de viver nossas vidas de acordo com nossos princípios e não disperdiácas. Eu só estou tentando fazer isso. Não acho que é necessário que me defina. Na verdade, quando as pessoas se definem, na maioria das vezes estão mentindo. Mas, no lugar disso, devem olhar as ações de uma pessoa e ver se elas são consistentes no longo prazo.

Chade – Porque é que o sr. evita ir à Suécia (onde  a Justiça o busca por acusações de assédio sexual) ?

Assange – Porque eu seria extraditado aos EUA.

Chade – Por qual motivo exatamente ?

Assange – O EUA tem um procedimento contra minha pessoa e contra Wikileaks pelos últimos dois anos. O governo diz em seus próprios documentos internos que a investigação é de um tamanho e natureza “sem precedentes”, citando uma investigação “de todo o governo” americano. É algo sério e que envolve mais de uma dúzia de agências.

Chade – Quais são os próximos passos para o Wikileaks ? O sr. anunciou que vai publicar cerca de um milhão de documentos em 2013. Algo sobre o Brasil?

Assange – Sim. Publicaremos muito sobre o Brasil neste ano. Um material muito interessante.

Jamil Chade é correspodente do jornal O Estado de São Paulo na Europa desde 2000. Foi premiado como o melhor correspondente brasileiro no exterior em 2011, pela entidade Comunique-se. Com passagem por 67 países e mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Genebra, Chade foi presidente da Associação de Correspondentes Estrangeiros na Suíça entre 2003 e 2005 e tem dois livros publicados. « O Mundo Não é Plano » (2010) foi finalista do Prêmio Jabuti, categoria reportagem. Na Suíça, o livro venceu o prêmio Nicolas Bouvier. Em 2011, publicou “Rousseff”.

agência Estado.

A imbecilização do Brasil – por mino carta /são paulo.sp

 

Há muito tempo o Brasil não produz escritores como Guimarães Rosa ou Gilberto Freyre. Há muito tempo o Brasil não produz pintores como Candido Portinari. Há muito tempo o Brasil não produz historiadores como Raymundo Faoro. Há minomuito tempo o Brasil não produz polivalentes cultores da ironia como Nelson Rodrigues. Há muito tempo o Brasil não produz jornalistas como Claudio Abramo, e mesmo repórteres como Rubem Braga e Joel Silveira. Há muito tempo…

Os derradeiros, notáveis intérpretes da cultura brasileira já passaram dos 60 anos, quando não dos 70, como Alfredo Bosi ou Ariano Suassuna ou Paulo Mendes da Rocha. Sobra no mais um deserto de oásis raros e até inesperados. Como o filme O Som ao Redor, de Kleber Mendonça, que acaba de ser lançado, para os nossos encantos e surpresa.

Nos últimos dez anos o País experimentou inegáveis progressos econômicos e sociais, e a história ensina que estes, quando ocorrem, costumam coincidir com avanços culturais. Vale sublinhar, está claro, que o novo consumidor não adquire automaticamente a consciência da cidadania. Houve, de resto, e por exemplo, progressos em termos de educação, de ensino público? Muito pelo contrário.

Nossa vanguarda. Imbatíveis à testa da Operação Deserto

E houve, decerto, algo pior, o esforço concentrado dos senhores da casa-grande no sentido de manter a maioria no limbo, caso não fosse possível segurá-la debaixo do tacão. Neste nosso limbo terrestre a ignorância é comum a todos, mas, obviamente, o poder pertence a poucos, certos de que lhes cabe por direito divino. Indispensável à tarefa, a contribuição do mais afiado instrumento à disposição, a mídia nativa. Não é que não tenha servido ao poder desde sempre. No entanto, nas últimas décadas cumpriu seu papel destrutivo com truculência nunca dantes navegada.

Falemos, contudo, de amenidades do vídeo. De saída, para encaminhar a conversa. Falemos do Big Brother Brasil, das lutas do MMA e do UFC, dos programas de auditório, de toda uma produção destinada a educar o povo brasileiro, sem falar das telenovelas, de hábito empenhadas em mostrar uma sociedade inexistente, integrada por seres sem sombra. Deste ponto de vista, a Globo tem sido de uma eficácia insuperável.

O espetáculo de vulgaridade e ignorância oferecido no vídeo não tem similares mundo afora, enquanto eu me colho a recordar os programas de rádio que ouvia, adolescente, graciosas, adoráveis peças de museu como a PRK30, ou anos verdolengos habitados pelos magistrais shows de Chico Anysio. Cito exemplos, mas há outros. Creio que a Globo ocupe a vanguarda desta operação de imbecilização coletiva, de espectro infindo, na sua capacidade de incluir a todos, do primeiro ao último andar da escada social.

O trabalho da imprensa é mais sutil, pontiagudo como o buril do ourives. Visa à minoria, além dos donos do poder -real, que, além do mais, ditam o pensamento único, fixam-lhe os limites e determinam suas formas de expressão. O alvo é a chamada classe média alta, os aspirantes, a segunda turma da classe A, o creme que não chegou ao creme do creme. E classe B também. Leitores, em primeiro lugar, dos editoriais e colunas destacadas dos jornalões, e da Veja, a inefável semanal da Editora Abril. Alguns remediados entram na dança, precipitados na exibição, de verdade inadequada para eles.

Aqui está a bucha do canhão midiático. Em geral, fiéis da casa-grande encarada como meta de chegada radiosa, mesmo quando ancorada, em termos paulistanos, às margens do Rio Pinheiros, o formidável esgoto ao ar livre. E, em geral, inabilitados ao exercício do espírito crítico. Quem ainda o pratica, passa de espanto a espanto, e o maior, se admissível a classificação, é que os próprios editorialistas, colunistas, articulistas etc. etc. acabem por acreditar nos enredos ficcionais tecidos por eles próprios, quando não nas mentiras assacadas com heroica impavidez.

O deserto cultural em que vivemos tem largas e evidentes explicações, entre elas, a lassidão de quem teria condições de resistir. Agrada-me, de todo modo, o relativo otimismo de Alfredo Bosi, que enriquece esta edição. Mesmo em épocas medíocres pode medrar o gênio, diz ele, ainda que isto me lembre a Península Ibérica, terra de grandes personagens solitárias em lugar de escolas do saber. Um músico e poeta italiano do século passado, Fabrizio de André, cantou: “Nada nasce dos diamantes, do estrume nascem as flores”. E do deserto?

CHICO CARUSO: As reações contra a sua charge sobre a tragédia de Santa Maria/RS

 

publicado em 28 de janeiro de 2013 às 14:32

Gilson Caroni Filho, no Facebook

Esta é a charge da primeira página de hoje de O Globo. Uma total afronta aos mortos e ao sentimento de seus parentes e amigos. Para travar a luta política, o jornal da família Marinho não faz humor; produz escárnio, ódio, desrespeito. Quem é pior? O jornal que publica ou o chargista que se dispõe a fazer o serviço sujo? Se você tem assinatura desse pasquim de direita, cancele. Se o compra nas bancas, deixe de fazê-lo. Amigos, não houve falhas ou gafes. A ” gracinha” do Caruso é a ilustração da linha editorial do jornalismo de esgoto.

*****

Rudá Ricci, em seu blog

Será que qualquer discussão política em nosso país tem que vir acompanhada deste infantilismo bestial? Não dá para elevar um pouco o nível, até atingir o nível da humanidade?

Cancelei minha assinatura do jornal O Globo porque, nas eleições presidenciais, os editores transformaram o jornal num panfleto eleitoral. Liguei informando (sei que foi ingênuo, mas meu fígado pedia) o motivo: se for para contribuir com alguma campanha, faço doação direta, sem intermediários. Vejo que a opinião de um assinante conta pouco, hoje, na trilha da difamação a qualquer custo, com ares de crítica. Não dá. É o abandono de tudo o que parece mais caro à quem tem alma. Mesmo para aqueles que desprezam ou nem sabem que têm alma.

*****

Renato Rovai, em seu blog

Esse jornalismo urubu perdeu completamente a capacidade de enxergar limites e de buscar alguma razoabilidade para a sua ação. Vale tudo para agradar aos que lhes pagam o soldo. Vale tudo para construir um discurso de ódio contra as posições políticas das quais não compartilham. Sinceramente, achei que só no limbo dos comentários anônimos fosse possível encontrar algo do nível desta charge do Chico Caruso publicada por Noblat. Sou um ingênuo. Esse pessoal que já havia transformado o acidente da TAM em um evento político, quer fazer o mesmo com Santa Maria. São carniceiros que evocam o que chamam de liberdade de imprensa para esse tipo de coisa.

*****

Gerson Carneiro, em comentário aqui

Charge de mau gosto sobre a tragédia em Santa Maria, de autoria de Chico Caruso, publicada na seção “Humor” no blogue do Ricardo Noblat. São esses aí os que “são sempre do contra” que a Dilma falou.

POEMA – de mario quintana / porto alegre.rs

 

 

Um poema é como um gole d´água bebido no escuro

Como um pobre animal palpitando ferido.

Como pequenina moeda de prata perdida para sempre

Na floresta noturna.

Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa

Condição de poema.

Triste.

Solitário. Único.

Ferido de mortal beleza.

Leandro Fortes: Nota de falecimento – por leandro fortes /são paulo.sp

A reação formal do PSDB ao pronunciamento da presidenta Dilma Rousseff sobre a redução nos preços das tarifas de energia elétrica, em todo o país, é o momento mais lamentável do processo de ruptura histórica dos tucanos desde a fundação do partido, em junho de 1988.

A nota, assinada pelo presidente da sigla, deputado Sérgio Guerra, de Pernambuco, não vale sequer ser considerada pelo leandro fortesque contém, mas pelo que significa. Trata-se de um amontoado de ilações primárias baseadas quase que exclusivamente no ressentimento político e no desespero antecipado pelos danos eleitorais inevitáveis por conta da inacreditável opção por combater uma medida que vai aliviar o orçamento da população e estimular o setor produtivo nacional.

Neste aspecto, o deputado Guerra, despachante contumaz dessas virulentas notas oficiais do PSDB, apenas personaliza o ambiente de decadência instalado na oposição, para o qual contribuem lideranças do quilate do senador Agripino Maia, presidente do DEM, e o deputado Roberto Freire, do PPS. Sobre Maia, expoente de uma das mais tristes oligarquias políticas nordestinas, não é preciso dizer muito. É uma dessas tristes figuras gestadas na ditadura militar que sobreviveram às mudanças de ventos pulando de conchavo em conchavo, no melhor estilo sarneysista. Freire, ex-PCB, transformou a si mesmo e ao PPS num simulacro cuja fachada política serve apenas de linha auxiliar ao pior da direita brasileira.

O PSDB surgiu como dissidência do PMDB que já na Assembleia Constituinte de 1986 caminhava para se tornar nisto que aí está, um conglomerado de políticos paroquiais vinculados a interesses difusos cujo protagonismo reside no volume, a despeito da qualidade de muitos que lá estão. A revoada dos tucanos parecia ser uma lufada de ar puro na prematuramente intoxicada Nova República de José Sarney. À frente do processo, um grande político brasileiro, Mário Covas, que não deixou herdeiros no partido. De certa forma, aquele PSDB nascido sob o signo da social democracia europeia, morreu junto com Covas, em 2001. Restaram espectros do nível de José Serra, Geraldo Alckmin e Álvaro Dias.

Aliás, o sonho tucano só não morreu próximo ao nascedouro, em 1992, porque Covas impediu, sabiamente, que o PSDB se agregasse ao moribundo governo de Fernando Collor de Mello, às vésperas do processo de impeachment. A mídia, em geral, nunca toca nesse assunto, mas foi o bom senso de Covas que barrou o movimento desastrado liderado por Fernando Henrique Cardoso, que pretendia jogar o PSDB na fossa sanitária do governo Collor em troca de assumir o cargo de ministro das Relações Exteriores. FHC, mais tarde chanceler e ministro da Fazenda de Itamar Franco, e presidente da República por dois mandatos, nunca teria chegado a subprefeito de Higienópolis se Covas não o tivesse impedido de aderir a Collor.

Fala-se muito da extinção do DEM, apesar do suspiro do carlismo em Salvador, mas essa agremiação dita “democrata” é um cadáver insepulto há muito tempo, sobre o qual se debruçam uns poucos reacionários leais. É no PSDB que as forças de direita e os conservadores em geral apostam suas fichas: há quadros melhores e, apesar de ser uma força política decadente, ainda se mantém firme em dois dos mais importantes estados da federação, São Paulo e Minas Gerais.

E é justamente por isso que a nota de Sérgio Guerra, um texto que parece ter sido escrito por um adolescente do ensino médio em pleno ataque hormonal de rebeldia, é, antes de tudo, um documento emblemático sobre o desespero político do PSDB e, por extensão, das forças de oposição.

Essas mesmas forças que acreditam na fantasia pura e simples do antipetismo, do antilulismo e em outros venenos que a mídia lhes dá como antídoto ao obsoletismo em que vivem, sem perceber que o mundo se estende muito além das vontades dos jornalões e da opinião de penas de aluguel que, na ânsia de reproduzir os humores do patrão, revelam apenas o inacreditável grau de descolamento da realidade em que vivem.

Provações – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

Apresentou-se para tirar sangue. Apresentou documentos, carteiras, cartões, fotos e comprovantes. Ninguém haveria de tolerar que se passasse por quem não é. Mas tirar sangue não é só chegar e dizer, Amilcar Nevesvim aqui para tirar sangue. Exige-se requisição de médico competente, isto é, credenciado. Exige-se alguém doente ou, pelo menos, um sujeito passível de adoentar-se. Desde que identificado por impressões digitais digitalizadas, quer dizer, eletrônicas, e coisas assim.

 

Passada toda a provação, ou melhor, superadas todas as provas a que se teve que submeter, após formulários e assinaturas, refugiou-se no assento da cadeira mais discretamente afastada de tudo, ignorou a tela tagarela de televisão à sua frente, às suas costas e aos seus lados, selou os ouvidos e abriu o livro que trazia, um pequeno volume em edição de bolso, pondo-se, alheio, a lê-lo.

 

Livro de bolso só faz sentido em terras frias, habitadas por gente que não tira um sobretudo, sobretudo na rua e no metrô, o que não é o caso, supõe-se, quando o cara vai fazer amor com sua legítima senhora e, especialmente, quando se vai banhar. Sobretudos costumam ter, acima de tudo, vastos bolsos onde se podem acomodar com prazer e conforto um ou mais livros de bolso, sem qualquer incômodo para ditos livros nem para os seus felizes (e eventualmente cultos) portadores.

 

Nos trópicos, tal costume não pode mesmo vingar. Como portar nos bolsos – em quais bolsos? – qualquer tamanho de livro? Se muita gente já acha estranho que alguém use camisa polo com bolsinho do lado esquerdo, onde mal cabe uma caneta esferográfica de feira e no qual dinheiro e documentos encharcam-se de suor mal ameaçam despontar os primeiros calores do verão (que costumam insinuar-se, precoces, já em pleno inverno), o que dirá de um pobre mortal que carregue livros nos bolsos? Livros serão sempre objetos de biblioteca até o dia em que algum cupim deles inevitavelmente dê cabo, como mandam os usos e os costumes.

 

Ainda assim, aquela pessoa que saiu de casa disposta a tirar sangue sentou-se surda no banco mais distante e abriu o livro de bolso que trazia na mão (à falta sobretudo de bolsos adequados, como cá já se demonstrou à exaustão) e pôs-se a ler por escassos minutos até que a moça de guarda-pó branco tocou-lhe o ombro e, em tom admoestatório, perguntou-lhe se não sabia que, para ser atendido, deveria ter deixado no guichê apropriado o papelucho que lhe entregaram.

 

Ante suas negativas, ela lhe disse, a fim de evidenciar o prejuízo que tivera em não atentar para as orientações recebidas, que devia estar ali, estupidamente, esperando há muito tempo. Nada disso, respondeu, não deu tempo de ler nem mesmo uma única página do livro. E que livro é esse, ela perguntou, espiando a capa e interessando-se pelo título. É um romance. Humm, ainda está no início do livro, já apareceu o casal? Casal? É, não é um romance? Sim. Então, todo romance tem um casal, de que trata esse? De um cara que decide matar o pai. Que horror, como alguém pode pensar em tirar a vida de quem lhe deu a vida? Isso às vezes acontece. E é um romance, hein, imagine se fosse uma tragédia: seria uma catástrofe, um dilúvio, o fim do mundo! Bem, o pai passou a vida toda tentando acabar com a vida do filho. Isso não justifica, me desculpe.

 

Terminou o seu trabalho e disse, vou procurar e ler esse romance, mas se não gostar, para o seu próprio bem: não me apareça na minha frente pra eu lhe tirar sangue de novo. Sabe como é, quem avisa amiga é.

A PINTURA E A VIDA DE VAN GOGH – por almandrade / salvador.ba

“Ai, ai, as pinturas mais belas são as que sonhamos deitados na cama, fumando um cachimbo, mas nunca pintamos.” Van Gogh

Uma vida curta e conturbada para uma longa biografia de mais de mil
páginas, Van Gogh, filho de pastor, depois de fracassar em tudo que
Almandrade 1
tentou fazer, decidiu ser pintor. Um pintor também “fracassado”, ou
melhor incompreendido pelo seu tempo, cuja obra imensa e invejável que
construiu em sua rápida existência penosa e turbulenta, vem
inquietando e provocando as gerações posteriores. O livro escrito por
Steven Naifeh e Gregory White Smith, é uma das biografias mais
extensas e completas de um artista que se tornou um mito da arte
moderna. Do nascimento do pintor à sua morte aos trinta e sete anos,
os autores vasculharam a vida de um navegante solitário, remando
sempre contra a correnteza.

A biografia de um artista não explica, nem justifica sua obra, mas
elas se comunicam, diria o filósofo francês Merleau-Ponty. Em se
tratando de Van Gogh e sua vida difícil, com episódios trágicos, é
possível ver uma relação estreita entre sua obra e o modo como viveu.
Mesmo com todas as dificuldades não desistiu da ilusão de ser pintor.
Desde a infância com um olhar desconfiado sobre o mundo, crises de
raivas, caminhadas solitárias por lugares distantes, quem sabe para
distanciar-se de tudo e de todos. Criado num ambiente religioso,
protegido dos excessos do pecado, privado de emoção e cor, criou um
mundo colorido e emotivo como meio de transgressão.

Uma vida que colecionava infelicidades, zombarias e desafetos, buscava
encontrar na arte o que não via na vida. Talvez o mais deprimido dos
artistas, mas com uma produtividade incansável, como se estivesse
sublimando na tela a infância não vivida e as emoções reprimidas.
Ariscou a vida no trabalho da pintura, produziu como um louco mas sem
perder a razão, indispensável ao ofício de pintor, “dedico-me a minhas
telas com toda a minha mente”, escreveu para o irmão Theo. Acrescentou
ao mundo a verdade da pintura.

Tinha um único amigo, confidente, incentivador e responsável pelo seu
sustento, com quem se correspondia e também tinha atritos, o irmão
mais novo, Theo. Sem negar a rivalidade familiar, Theo era o filho que
deu certo, tinha profissão, ajudava no sustento da família, tinha uma
vida correta dentro do esperado nos padrões da classe média. Van Gogh
era o contrário, com sua pintura ridicularizada pelos seus
contemporâneos, desprovidos de informações para compreendê-las, sem
aceitação no mercado. Quanta aflição. Somente mais de cinco anos
depois de sua morte é que veio a ser reconhecido e celebrado.

Queria pintar o que via, mas via o que pintava. Uma pintura de uma
força irresistível, cor firme, céu agitado, uma forma particular de
ver as coisas e a paisagem. Vida e obra se misturavam, o temperamento
rebelde do artista, diagnosticado com várias enfermidades, – entre
elas esquizofrenia, – desentendimentos, crises existenciais, a amizade
tumultuada com Paul Gauguin, amputação da orelha, até a morte trágica,
reavaliada no livro. Os autores descartam a hipótese, mais conhecida,
de suicídio do pintor. Com um inventário de provas, acreditam em
assassinato acidental. Com base em laudos médicos, que informam que a
arma do crime foi disparada de certa distância do corpo, declaração do
próprio artista que achava o suicídio “uma covardia moral” etc. Um
crime misterioso, sem testemunha e sem o local exato do disparo, que
até a arma desapareceu, mas não tão misterioso quanto a sua arte.

Suicídio ou assassinato? Longe de mim de tomar partido, não sou
advogado nem perito criminal. As condições precárias em que viveu numa
sociedade hostil contribuíram, sem dúvida, para o final brutal, por um
ferimento de bala na parte superior do abdômen. Mas de uma coisa
ninguém duvida, da fascinação e da certeza de sua pintura que muitoVincent_van_Gogh
acrescentou à história da arte. Uma obra inquestionável que ultrapassa
os acidentes da vida. Quantos artistas na história viveram à margem do
sistema social, com uma vida pouco digna e construíram uma obra que
sensibiliza gerações.

O livro faz uma revelação importante, a meu ver, para o meio de arte,
hoje em dia, recheado de qualquer coisa e sintomas culturais. Os
autores mostram um Van Gogh com uma sólida formação cultural, leitor e
freqüentador de museus, reflexivo, que planejava suas telas antes de
realizá-las e as pintava na mais plena lucidez. “Chamam um pintor de
louco se vê as coisas com olhos diferentes dos deles,” dizia nas suas
correspondências para Theo. Sua pintura não era obra do acaso ou da
loucura, cada gesto, cor e pincelada eram a manifestação de um
pensamento.

A problemática e a ambígua relação entre arte e loucura vem à tona. Um
artista que passou temporadas internado num abismo moderno chamado
hospício, nos últimos anos de sua vida, onde a liberdade humana é
restrita, nos deixou uma experiência artística longe do estado de
loucura. Através da arte Van Gogh escorregou da psicose, a sua
pintura, se nasceu na angústia pessoal, a realidade foi transformada a
partir da vontade consciente de um sujeito.

É quase impossível a compreensão da vida humana sem a presença da
arte, a irracionalidade está presente na estrutura interna da obra de
arte, nos adverte o filosofo alemão Heidegger. Até mesmo a pintura de
uma visualidade racional, como a de um Mondrian, não deixa de ser um
fenômeno irracional. A suposta loucura na arte de Van Gohg é
perfeitamente reconhecida e apreendida em nosso mundo racional.

Se contemplamos nas suas telas paisagens, retratos, campos de trigo,
girassóis, corvos, é um problema nosso. Ele fez apenas pintura e por
isso nos inquieta até hoje e vai inquietar muitas gerações enquanto a
arte existir. Se os autores dedicaram dez anos para escrever esta
biografia é porque o seu personagem se entregou ao mundo para
transformá-lo em pintura. Lembrei-me de Paul Valery. Van Gogh sabia o
que estava pintando e para isso ele precisava não só de telas, tintas
e pincéis; precisava também da razão e da imaginação.

Almandrade

(artista plástico, poeta e arquiteto)

————————————————

VAN GOGH – A VIDASteven Naifeh e Gregory White Smith

Trad: Denise Bottmann

São Paulo: Companhia das Letras, 2012

DILMA FALA SOBRE 2014: “MEU MANDATO É DE OITO ANOS”

DILMA FALA SOBRE 2014: “MEU MANDATO É DE OITO ANOS”

:  

Presidente elimina dúvidas a respeito da corrida ao segundo mandato no momento em que se especula sobre a candidatura do ex-presidente Lula e sua volta ao poder; declaração de Dilma Rousseff foi dada a um interlocutor que recebeu no Palácio do Planalto

24 DE JANEIRO DE 2013 ÀS 09:43

 

247 – Uma declaração dada a um interlocutor recebido no Palácio do Planalto revela a primeira reação da presidente Dilma Rousseff diante da dúvida sobre a candidatura do PT em 2014. “Meu mandato é de oito anos”, disse ela, de acordo com reportagem do jornal Valor Econômico desta quinta-feira 24. A declaração reafirma o que declararam nesta semana vários líderes do PT durante evento com intelectuais latino-americanos no Instituto Lula, como o presidente da entidade e braço direito de Lula, Paulo Okamotto, que disse ao 247: “Nossa candidata é a Dilma”.

 

A partidarização da imprensa – por venício a. de lima / são paulo.sp

Se o leitor (a) ainda precisa de alguma comprovação sobre o comportamento partidário dos jornalões brasileiros, sobretudo nos períodos eleitorais, recomendo a leitura do excelente A Ditadura Continuada – Fatos, Factoides e Partidarismo da Imprensa na Eleição de Dilma Rousseff, resultado de uma cuidadosa pesquisa realizada por Jakson Ferreira de Alencar, recentemente publicado pela editora Paulus.

O livro se concentra na cobertura política oferecida pelo jornal Folha de S.Paulo e parte da divulgação da falsa ficha Folha3“criminal” dos arquivos do Dops da militante da VAR-Palmares Dilma Rousseff, em 4 de abril de 2009, então pré-candidata à Presidência da República.

Jakson Alencar faz um acompanhamento minucioso de todo o caso, ao longo dos três meses seguintes, registrando a “semirretratação” do jornal, em matéria antológica para o estudo da ética jornalística, na qual se reconhece como erro “tratar como autêntica uma ficha cuja autenticidade, pelas informações hoje disponíveis, não pode ser assegurada – bem como não pode ser descartada” (p. 67).

Chama a atenção no episódio a “condução”, pela repórter da Folha, da entrevista – que mais parece um interrogatório – realizada com Dilma. Há uma indisfarçável tentativa de comprovar a hipótese do jornal de envolvimento da entrevistada não só com o sequestro (não realizado) do então ministro Delfim Netto, mas também com a luta armada. A entrevista de outro militante, Antonio Espinosa, usada como suporte à tese do jornal, jamais foi publicada na íntegra, apesar de os trechos publicados haverem sido reiteradamente desmentidos pelo entrevistado.

Jakson Alencar mostra, com riqueza de detalhes, o comportamento arrogante do jornal, ao tempo em que a própria Dilma tratava de comprovar a falsidade da ficha, além do descumprimento sistemático de seu próprio Manual de Redação. Fica clara a “tese central de toda a reportagem, segundo a qual a resistência à ditadura é criminosa, e não o regime totalitário e violento, implantado de maneira ilegal” (p. 95) e, mais ainda, que essa tese “continuou sendo difundida em muitos veículos da imprensa brasileira durante todo o período da campanha eleitoral de 2010”.
A segunda parte do livro trata do período da campanha eleitoral, de abril a agosto de 2010. Aqui o ponto de partida é o globo11º Fórum Democracia e Liberdade de Expressão, promovido pelo Instituto Millenium, em março. Como se sabe, essa ONG é um dos think tanks da direita conservadora brasileira, financiado, entre outros, pelos principais grupos da grande mídia. Segundo Jakson Alencar, teria surgido nesse fórum a “Operação Tempestade no Cerrado”, que orientaria a cobertura política dos jornalões e teria como objetivo impedir a eleição de Dilma Rousseff (p.105).

Concentrado na Folha de S.Paulo, o livro mostra o então esforço cotidiano para ressuscitar escândalos passados e a busca de novos escândalos do governo do PT, além de tropeços e temas negativos relativos a Dilma. Paralelamente, o tratamento leniente e omisso dispensado ao candidato do PSDB.

Na terceira e última parte, o livro aborda a Operação segundo turno e cobre o período que vai de 26 de agosto a 3 de outubro. A partir do momento em que as pesquisas de intenção de voto confirmam a tendência de eleição de Dilma, tem início “uma maciça ação da imprensa contra a candidata às vésperas da eleição e uma chamada ‘bala de prata’, com o intuito de alterar os rumos da campanha” (p. 145).

Destacam-se nesse período “acusações, ilações e insinuações que viraram condenações sumárias” (p. 147), sobretudo o caso do suposto “dossiê” preparado pelo PT sobre dirigentes tucanos, com dados fiscais sigilosos, e o “escândalo” envolvendo a então substituta de Dilma na Casa Civil (registro: o Tribunal Regional Federal da 1ª Região arquivou o processo contra Erenice Guerra por suposto tráfico de influência, depois de acatar recomendação do Ministério Público Federal e por decisão do juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10ª Vara Federal, em 20 de julho de 2012).

OESPNas suas conclusões, Jakson Alencar afirma que “a cobertura (da Folha de S. Paulo) (…) misturou frequentemente fatos com opiniões e boatos, somando-se a isso outros elementos, como torcida, manifestação de desejos travestidos de informação, argumentação frágil e com pouca lógica, estratégias óbvias e já desgastadas pelo uso repetitivo em diversas eleições, incapacidade de analisar processos econômico-sociais para construir posicionamentos e críticas com um mínimo de sofisticação; teses e hipóteses furadas; narrativas e entrevistas enviesadas; fontes de baixíssima credibilidade” (p. 252).

Curiosamente (ou não?), na mesma época em que a Paulus publicava o livro de Jakson Alencar, a PubliFolha lançava na Coleção “Folha Explica” o livro sobre a própria Folha, escrito por Ana Estela de Souza Pinto, ela mesma jornalista da casa desde 1988. Neste, o “erro” do episódio da ficha falsa de Dilma no Dops merece registro em função do “fato de a Folha ter voltado sua bateria investigativa para todos os governantes, de diferentes partidos”. Segue-se um parágrafo que reproduz a “retratação” que a Folha ofereceu, já citada, na qual, apesar de todas as evidências em contrário, se afirma que a autenticidade da ficha do Dops “não pode ser assegurada – bem como não pode ser descartada”. Nem uma única observação sobre a cobertura partidária das eleições de 2010.

O resultado de tudo isso, como se sabe, é que Dilma Rousseff – apesar da grande mídia e do seu partidarismo – foi eleita presidenta da República.

A Ditadura Continuada – Fatos, Factoides e Partidarismo da Imprensa na Eleição de Dilma Rousseff, de Jakson Alencar, demonstra e confirma o que já sabemos: os jornalões brasileiros, além de partidarizados, não têm compromisso nem mesmo com seus manuais de redação.

João Ubaldo Ribeiro completa hoje 72 anos – 23/01/2013

23.01 .13

(escritor, jornalista, roteirista e professor brasileiro)

ubaldo

“Se não entendo tudo, devo ficar contente com o que entendo. E entendo que vejo estas árvores e que tenho direito a minha língua e que posso olhar nos olhos dos estranhos e dizer: não me desculpe por não gostar do que você gosta; não me olhe de cima para baixo; não me envergonhe de minha fala; não diga que minha fala é melhor do que a sua; não diga que eu sou bonito, porque sua mulher nunca ia ter casado comigo; não seja bom comigo, não me faça favor; seja homem, filho da puta, e reconheça que não deve comer o que eu não como, em vez de me falar concordâncias e me passar a mão pela cabeça; assim poderei matar você melhor, como você me mata há tantos anos.”

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- João Ubaldo, in Vila Real.

As ligações de atores com policiais do porão da ditadura – por euler de frança belém

euler
Euler de França Belém
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Lúcio Mauro: ator da Globo que era amigo dos militares
do porão

“Memórias de uma Guerra Suja”, depoimento do delegado Cláudio Guerra aos repórteres Marcello Neto e Rogério Me­deiros, conta que os militares do porão articulavam no restaurante Angu do Gomes, no Rio de Janeiro. Lá, com anuência dos proprietários, o coronel Freddie Perdigão e o comandante Antônio Vieira “decidiam” os caminhos da repressão e quem ia morrer.

“O Angu do Gomes fazia parte de um complicado esquema que arrecadava fundos para as nossas atividades. Ali aconteceram vários encontros da nossa irmandade, manipulados habilmente pelo coronel Freddie Perdigão. Ali conspiramos contra [o presidente Ernesto] Gei­sel, Golbery [do Couto e Silva] e [João] Figueiredo. No restaurante foram planejados assassinatos comuns e com motivações políticas, e discutidos os vários atentados a bomba que tinham como objetivo incriminar a esquerda e dificultar, ou impedir, a redemocratização do país”, historia o livro.

Há informações sobre contatos de atores com figuras da repressão, infelizmente mal exploradas por Cláudio Guerra e pelos repórteres. O ator Lúcio Mauro, da TV Globo, “participava dos encontros” com militares e chegava a cozinhar para eles. O delegado não avança sobre qualquer relacionamento mais sério entre o humorista e a ditadura. O ator Jece Valadão “saía em operações” com os policiais, mas não em missões políticas. “Gostava de ver a execução de bandidos e Mariel Mariscot o levava.” Carlos Im­perial, Oswaldo Sargentelli, Ciro Batelli e José Bonifácio de Oli­veira Sobrinho, o Boni, frequentavam o Angu do Gomes. Batelli seria ligado aos bicheiros Castor de Andrade e Ivo Noal. Os bicheiros apoiavam, com logística e dinheiro, as ações dos homens do porão.

O apresentador de TV Wagner Montes também mantinha ligações com os homens do porão, notadamente àqueles ligados ao delegado Fleury, como Fininho, Joe e Mineiro. “Eram inseparáveis.” O cantor, ator e comediante Moacir Franco também “cooperava”.

Curiosamente, ao resenhar o livro, a maioria das publicações ignorou as ligações dos atores, jornalistas e jornais com militares ligados à tortura de militantes da esquerda. Cláudio Guerra declara: “A ‘Folha de S. Paulo’ apoiou informalmente as ações da Oban. Os carros que distribuíam jornais eram usados em campanhas pela prisão de comunistas. Esses carros eram muito úteis porque disfarçavam bem, ninguém suspeitaria que membros da Oban estivessem ali dentro preparados para agir”. Os repórteres Marcelo Netto e Rogério Medeiros apressam-se, numa nota de rodapé, a defender o jornal: “A direção da ‘Folha’ sempre negou ter conhecimento do uso de seus carros para isso”. Na verdade, Octávio Frias de Oliveira, o falecido publisher, admitiu, sim, que o uso dos veículos era (é) um fato, mas garantiu ao filho, Otavio Frias Filho, que não tinha participação pessoal nenhuma com os militares. A história está registrada na biografia de Frias pai e no livro “História da Imprensa Paulista”, de Oscar Pilagallo. Supostamente, não havia como reagir. Mas os carros do “Estadão” não foram utilizados.

Outra história não mereceu registro nas resenhas: “A bomba que explodiu na casa do dono das Organizações Globo foi, na verdade, parte de uma estratégia formulada por ele mesmo — Roberto Marinho. Foi simulado. A ordem partiu do coronel Perdigão, e eu mesmo coloquei a bomba, mas tudo foi feito a pedido do empresário, para não complicá-lo com os outros veículos de comunicação, para se defender da desconfiança de suas relações com os militares. Para todo mundo ele foi a vítima. Roberto Marinho estava ficando muito visado pela esquerda e pela própria imprensa. Achavam que ele apoiava a ditadura”. Cláudio Guerra contou com o apoio do sargento Jair, de um tenente e do policial civil Zé do Ganho.

Cientistas criam revestimento que repele líquido e não molha

Do café ao ácido sulfúrico, material é resistente a quase cem líquidos.
Descoberta pode levar a desenvolvimento de tecido que nunca mancha.

 

Pesquisadores da Universidade de Michigan desenvolveram um revestimento que repele uma ampla variedade de líquidos, que vão do café ao ácido sulfúrico, fazendo-os saltar para fora da superfície tratada. A descoberta foi publicada na última edição do “Journal of the American Chemical Society”.

Composta por pelo menos 95% de ar, a cobertura foi desenvolvida em nanoescala (um nanômetro é um bilionésimo de metro).

De acordo com os cientistas, gotículas de soluções que normalmente danificariam uma camisa e até mesmo machucariam a pele são repelidas quando tocam a superfície. “Praticamente qualquer líquido que você jogue no revestimento salta direito para fora sem molhar”, explicou o professor Anish Tuteja, coautor do artigo.

Cientistas descobrem revestimento que repele líquidos (Foto: Reprodução/ University of Michigan )Cientistas descobrem revestimento que repele líquidos (Foto: Reprodução/ University of Michigan )

Além de ser super-resistente a manchas, o revestimento pode ter diversas aplicações como., por exemplo, tornando roupas impermeáveis para proteger soldados ou cientistas que lidam com produtos químicos. A descoberta também traz implicações para a fabricação de avançadas tintas à prova d’água, visando reduzir os danos que a umidade provoca em nas estruturas de navios, por exemplo.

Anish Tuteja e seus colegas testaram mais de cem líquidos e só encontraram dois capazes de penetrar o revestimento: os clorofluorcarbonetos químicos, utilizados em refrigeradores e condicionadores de ar.

Em laboratório, os cientistas observaram a superfície revestida repelir café, molho e óleo vegetal, além de ácido clorídrico e ácido sulfúrico tóxico que podem queimar a pele. De acordo com Tuteja, o revestimento também é resistente à gasolina e a vários álcoois.

Cientistas testeram mais de 100 líquidos e somente dois deles conseguriram perfurar revestimento (Foto: Divulgação/University of Michigan)Revestimento é resistente a café e ácido sulfúrico
(Foto: Divulgação/University of Michigan)

Composição
Para aplicar o revestimento às superfícies, os cientistas utilizaram uma técnica chamada de “electrospinning” (deposição eletrostática). Até agora, eles revestiram pequenos pedaços de tela e faixas de tecido do tamanho de um selo postal.

O revestimento é uma mistura de partículas plásticas de um tipo específico de borracha e cubos resistentes a líquido, desenvolvidos em nanoescala pela Força Aérea, contendo carbono, flúor, silício e oxigênio.

De acordo com o estudo, o revestimento “abraça” os poros da superfície em que é aplicado e cria uma teia mais fina com esses poros. “Isso significa que entre 95% e 99% do revestimento é, na verdade, formado por bolsas de ar, de modo que qualquer líquido que entre em contato com o revestimento praticamente nem está tocando uma superfície sólida”, diz o estudo.

Cientistas testeram mais de 100 líquidos e somente dois deles molharam as telas e tecido (Foto: Divulgação/University of Michigan )Cientistas testeram mais de 100 líquidos e somente
dois deles molharam as telas e tecidos
(Foto: Divulgação/University of Michigan )

“Normalmente, quando os dois materiais se aproximam, eles transferem uma pequena carga positiva ou negativa sobre o outro, e logo que o líquido entra em contato com a superfície sólida, ele começar a espalhar-se,” explica Tuteja. “O que nós fizemos foi reduzir drasticamente a interação entre a superfície e a gota”.

Com quase nenhum incentivo para propagação, as gotículas permanecem intactas, interagindo apenas com as suas próprias moléculas, mantendo uma forma esférica, e literalmente quicando no revestimento.

 

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Do G1, em São Paulo

ENTREVISTA DE FREI BETTO: ‘É ingenuidade pensar que tudo acabou’, sobre espiões da ditadura

‘É ingenuidade pensar que tudo acabou’, diz Frei Betto sobre espiões da ditadura

18 de janeiro de 2013

Um dos principais nomes da Igreja Católica na luta contra o regime militar e ex-assessor da Presidência diz que tem certeza que o MST está entre os alvos dos militares hoje

do iG

“É muita ingenuidade nossa pensar que tudo acabou”. A frase é do escritor Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, um dos principais nomes da Igreja Católica brasileira na resistência à ditadura militar (1964-1985).

Preso entre 1969 e 1974, acusado de integrar a Ação Popular ao lado do guerrilheiro Carlos Marighella, Frei Betto está convencido de que os militares ainda agem nos bastidores do Planalto espionando as mais altas autoridades do país, inclusive a Presidência da República.

Em entrevista ao iG, Frei Betto, que foi assessor especial da Presidência no primeiro governo Lula, disse ter alertado o então chefe de gabinete Gilberto Carvalho sobre a possibilidade de escutas telefônicas no Palácio do Planalto. “Estou convencido de que isso existe até hoje. Não que eles (militares) estejam me seguindo ou espionando. Mas tenho certeza que o MST e até a Presidência da República, sim”, afirmou.

iG – Como era a atuação da Igreja na proteção dos perseguidos pela repressão? Registros mostram que até bispos de direita como d. Eugênio Sales ajudavam a esconder alvos da ditadura.

Frei Betto – A minha pergunta é por que o d. Eugênio (morto no último dia 9, aos 91 anos) fez isso para estrangeiros e não fez para brasileiros? Essa é a minha pergunta.

iG – Existia uma rede de solidariedade na Igreja, uma rota de fuga com conexões no exterior?

FB – Meu trabalho principal foi organizar essa rota de fuga. Mandei umas 10 pessoas. Em geral, sequestradores do embaixador americano (Charles Elbrick). Ninguém acredita, a repressão muito menos, mas a verdade é que eu nunca fui na fronteira. No entanto, eu dominava o esquema da fronteira porque o (Carlos) Marighella tinha me passado como funcionava. Só tinha que receber as pessoas em Porto Alegre e dar a dica. Tinha duas passagens. Uma em Santana do Livramento com Rivera, no Uruguai, e outra em Passo de Los Libres, na Argentina. Então eu tinha que dar as coordenadas e passar um telegrama em código para a pessoa que ia ficar lá esperando e já sabia que alguém ia chegar lá com uma revista na mão, aquelas coisas. E passava. Alguns voltaram. Outros foram presos no Uruguai, Mas havia muita solidariedade em igrejas, conventos etc.

iG – Protestantes e outros grupos religiosos participavam dessa rede de solidariedade?

FB – Muito. O pastor Jamie Wright, por exemplo. O irmão dele foi assassinado, Paulo Wright, líder da AP (Ação Popular). Geralmente em Igrejas históricas como a Batista, Luterana, Presbiteriana, Metodista, judeus. Naquela época quase não existiam as neopentecostais. E todos eles divididos a exemplo da Igreja Católica.

iG – Como era lidar com os infiltrados?

FB – Era muito difícil. Quando estávamos presos no Dops, em 1969, havia lá o delegado Alcides Cintra Bueno que era chamado “delegado do culto” por ser especializado em religiões. Era um homem de formação católica meio carola, mas torturador. Como ele conhecia muito a mecânica das Igrejas era o que mais interrogava religiosos. Nós vimos frades de hábito que eram agentes dele e iam lá dar informação sobre subversão na Igreja. Além do Lenildo Tabosa que era do Jornal da Tarde, assistiu ao interrogatório do Frei Fernando e a vida inteira carregou esta cruz fazendo de tudo para negar. Mas nunca conseguiu convencer, Fernando viu.

iG – Até descobrirem a existência de infiltrados muitas pessoas caíram?

FB – Sim. Era muito difícil descobrir infiltrados. Muitos a gente detectou, mas tem gente que colaborou com a ditadura e vai morrer incólume. A não ser que tenha dado uma mancada. Tem um seminarista dominicano que a gente não sabe se ele já era colaborador quando entrou. Depois, na USP, descobriram que ele era agente da repressão. Ele sumiu do mapa durante uns cinco anos e então recebemos informação de que ele tinha sido levado para um treinamento na escola da CIA no Panamá. Quando eu saí da prisão ele reapareceu todo amiguinho dizendo que estava com saudade e falei para ele, cara a cara, “não sei se você é ou não é, mas não tenho a menor confiança em você e por favor não me apareça mais”.

iG – Essa paranoia durou até depois do fim da ditadura, não?

FB – Quando saí da prisão fui morar numa favela em Vitória e fiquei lá de 1974 a 1979. Já em 1977 comecei a voltar a São Paulo para trabalhar com educação popular. Quando Fernando Henrique, Almino Afonso e Plínio de Arruda Sampaio voltaram para o Brasil eles vieram com a ideia de fundar um partido socialista. Eu, naquele momento, estava no auge da mobilização pelas CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) e eles me convocaram para uma reunião na casa de um jornalista, cujo nome não vou citar pois estou subjetivamente convencido que esta pessoa era da repressão mas não tenho prova. Sei que me estranhou o fato de ele ser um repórter e ter um padrão de vida tão alto. E tome vinho, tome vinho, conversamos, eles tentavam me convencer que tinham a forma, um partido socialista, e eu entrava com a massa, as CEBs. Eu respondi que ia surgir um partido de baixo para cima, isso em 1978, por intuição, e depois surgiu o PT em 1980. Marcamos outra conversa, o jornalista insistiu para que fosse novamente na casa dele e isso acabou num impasse. Até que um frade daqui, depois de muitos anos, me perguntou se eu havia participado de uma reunião na casa de fulano, com Fernando Henrique (Cardoso, ex-presidente) e Plínio (de Arruda Sampaio) etc. Perguntei como ele sabia daquilo e o frade respondeu que um general amigo dele ligado ao SNI foi quem contou. Aí caiu a ficha. Tinha muito esse tipo de coisa. Recentemente peguei no arquivo público nacional todo meu dossiê. Ele vai até 1992. E tem coisas absolutamente inverossímeis.

iG – O senhor ainda toma algum cuidado especial?

FB - Estou convencido de que isso existe até hoje. Não que eles (militares) estejam me seguindo ou espionando. Mas tenho certeza que o MST e até a Presidência da República, sim. Seria muita ingenuidade nossa achar que o Planalto não é espionado. É o centro, o coração do poder. Quando trabalhei no Planalto (no primeiro governo Lula) duas coisas me chamaram atenção. Primeiro que todos os garçons eram das Forças Armadas. E o garçom é a pessoa que entra no meio da reunião, que enquanto está servindo o cafezinho fica escutando tudo, fica amigo das secretárias, tem trânsito livre até na sala do presidente. Não entra o ministro, mas entra o garçom. E outra coisa foi num dia em que o Lula estava viajando, subi na sala do Gilberto Carvalho (então chefe de gabinete da Presidência) e vi um pessoal na sala do Lula cheio de equipamentos. Perguntei o que era aquilo e o Gilberto disse que era o pessoal da varredura do Exército. Eu perguntei para o Gilberto qual a garantia de que eles não tiram um equipamento de gravação e colocam outro. Gilberto disse que nunca tinha pensado nisso.

iG – Mas seriam os militares?

FB – Sim. Os militares.

iG – Com qual objetivo?

FB – O objetivo é simples. Informação é poder.

iG – O que se sabe é que existe uma grande rede de espionagem em Brasília mas por razões econômicas, chantagem etc.

FB – Os militares neste ponto são mais… é como nos EUA. A CIA não prende ninguém. Ela só trabalha com informação. Quem prende é o FBI. É muita ingenuidade nossa pensar que tudo acabou.

iG – Os militares teriam um projeto de retomar o poder?

FB – Não. Eles têm o projeto de não serem surpreendidos e eventualmente até de manipular.

iG – Eles são movidos pelo medo?

FB – Não. É uma questão de inteligência militar mesmo.

O LOBO – de zuleika dos reis / são apaulo.sp

    O LOBO

                                                             Zuleika dos Reis

 

 

O lobo perdeu

a vez

a voz

o uivo.

 

 

O lobo se lembra da mata

não se lembra  mais de si

ao ouvir o uivo do vento

que lhe penetra os ouvidos

pelas grades da jaula.

 

 

O lobo

perdeu o uivo a voz a vez

perdeu-se de si

 

 

De si resta-lhe a jaula

que ele não reconhece como sua

 

 

de si resta o uivo do vento

lá fora

mas ele não mais o ouve

o lobo triste

que  um dia

foi  lobo livre

foi lobo feliz.

 

Velhinhos não merecem Cultura? – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

A presidenta Dilma Rousseff sancionou na última semana do ano passado a lei que cria o Vale-Cultura,
no valor de 50 reais, destinado a trabalhadores que ganham até cinco salários mínimos. Desde ontem, este teto é de R$ 3.390,00, o que certamente abrange expressiva parcela da mão de obra assalariada no Brasil; no caso dos aposentados do setor privado, o limite alcança praticamente todas as pessoas com direito ao benefício. Entre estas não há aposentadorias de 25 ou 28 mil mensais, como aquelas que pagamos com o nosso imposto a servidores públicos graduados que, muitas vezes, pouco tempo contribuíram e menos tempo ainda trabalharam pelo bem público, pelo interesse coletivo – e ainda não estamos, aqui, falando de corrupções, prevaricações e crimes que tais.

 

Antes, porém, que vozes encrenqueiras se alevantem para tudo questionar e denunciar submissões servis até no uso de uma vírgula, imploro-lhes que me permitam dizer que o substantivo feminino presidentaé termo antigo do nosso vernáculo, vem lá do século XIX (embora, em pleno século XXI, alguns iluminados achem que foi “inventado” pela nossa mandatária maior, eleita por um partido do qual têm verdadeiro pavor como se a vontade do povo brasileiro só tenha de ser respeitada caso coincida com os interesses desses esclarecidos), registrado já no dicionário de Cândido Figueiredo nos idos de 1899, dez anos apenas após a proclamação da República.

 

Aliás, para fins de reflexão geral, dentro do mesmo capítulo das “intromissões por decreto” na língua portuguesa falada no Brasil, cabe aqui, aproveitando os parêntesis abertos, uma pequena informação: “A lei federal 2.749, de 1956, do senador Mozart Lago (1889-1974), determina o uso da forma feminina para referir-se a cargos públicos ocupados por mulheres“. Isto foi há 57 anos, quando Juscelino estava iniciando o seu mandato presidencial.

 

Assim, Dona Dilma tem todo o direito de pedir para ser tratada de presidenta e de determinar que, no âmbito do governo, seja este o tratamento a lhe dispensar.

 

Mas voltemos ao Vale-Cultura antes que ele esfrie de vez. Trata-se de incentivo fiscal, ao qual empresa ou pessoa alguma é forçada a aderir. Vai funcionar assim: a empresa entra com 45 reais por trabalhador todo mês e desconta o total dos impostos federais a pagar, enquanto o empregado contribui com os outros cinco reais, os quais também abaterá do imposto de renda. Assim, todos os envolvidos naquilo que os economistas gostam de chamar de “cadeia produtiva”, neste caso da Cultura, serão diretamente beneficiados por esses recursos: o escritor, o pintor, o fabricante do papel para o livro, o fabricante de molduras, o ator, o teatro, o laboratório de processamento das imagens. O incentivo não pode valer para a pirataria, situação em que todos perdem e supostamente ganha apenas o pirata, que surrupia obras alheias.

 

Então vem a pergunta, como muito se diz atualmente, “que não quer calar”: por que aposentados e pensionistas não são favorecidos por essa benfazeja legislação? O governo, via INSS, renunciaria a 45 reais e o beneficiário da Previdência que desejasse contribuiria com os outros cinco paus. Se fosse comigo, eu sairia correndo para abraçar a oportunidade: poderia comprar, todo mês, um livro de 38 e um filme em DVD de 12 reais, por exemplo. Todo mês!

 

Aliás, cada auxílio-moradia de 4,3 mil reais pago em Santa Catarina poderia ser convertido em vales-cultura para 95,5 aposentados – sem prejuízo para ninguém.

A maior ameaça à paz mundial / por simon jenkis / londres.england

Drones são como ouro de tolo: prolongam guerras que não conseguimos vencer

Nomeações da Casa Branca indicam a era da guerra por controle remoto, que não traz vitória, mas retaliação

 

jenkisA maior ameaça à paz mundial não são as armas nucleares e sua possível proliferação. São os aviões não-tripulados e sua garantida proliferação.

As bombas nucleares são armas inúteis, brincadeira de poderosos ou dos que aspiram ao poder. Os drones estão tomando conta dos mercados globais de armas.

Existem 10 mil em serviço, dos quais mil armados, a maioria dos Estados Unidos. Alguns relatórios dizem que os drones já mataram mais civis não combatentes que os atentados de 11 de setembro.

Não li nenhum estudo independente das guerras por controle remoto no Afeganistão, Paquistão e no chifre da África que diga que estas armas sirvam a algum objetivo estratégico. Seu “sucesso” é expresso apenas pela contagem dos mortos, o número dos assim-chamados “comandantes ligados à al-Qaeda” que foram abatidos. Se a contagem dos mortos representasse vitória, os alemães teriam ganho em Stalingrado e os norte-americanos no Vietnã.

Nem a legalidade nem a ética justificam os ataques com aviões não tripulados. O exaustivo estudo do ano passado feito por advogados das universidades de Stanford e Nova York concluiu que houve muitos ataques ilegais, que mataram civis e que são contraproducentes. Entre os mortos há 176 crianças. Tal matança levaria uma unidade de infantaria à corte marcial. As forças aéreas tem tanto prestígio que as mortes de civis são consideradas um preço a pagar para não colocar em risco a vida de pilotos.

Esta semana o presidente Obama nomeou dois “entusiastas”  dos drones como secretário de Defesa — Chuck Hagel — e chefe da CIA — John Brennan. A guerra dos não-tripulados é o sabor do momento e o complexo industrial militar está lambendo os beiços. Se Obama, que é advogado, tinha qualquer dúvida sobre a legalidade do uso destas armas, com certeza a superou.

Além das questões da ética e da lei, acho impossível descobrir a contribuição destas armas à vitória. A morte de combatentes leva à substituição deles por outros, que buscam vingança. O Predator original, destinado à vigilância, foi adaptado para fazer bombardeios especificamente para matar Osama bin Laden. Quando Osama foi finalmente encontrado, o drone foi considerado um aparelho muito impreciso e as velhas botas-com-armas foram despachadas para fazer o serviço.

Quanto à morte inevitável de civis, por menor que for o número, isso não é apenas “dano colateral”, mas uma questão crítica para a vitória ou a derrota. Os drones não ocupam ou asseguram território, mas devastam corações e mentes. Os bombardeios aéreos sempre foram uma arma de guerra questionável. Não levam à derrota do inimigo, mas à retaliação.

Na segunda-feira um documentário da BBC sobre o cerco de Malta analisou o devastador ataque aéreo alemão, o mais intenso da segunda guerra mundial. Embora tenha causado danos à infraestrutura da ilha, não freou a resistência. A crença no bombardeio e o fracasso em invadir Malta custaram à Alemanha a campanha da África. Uma arma de terror aéreo que não acovarda o inimigo mas apenas convida ao desafio não é eficaz. Três quartos dos paquistaneses podem agora ser considerados inimigos dos Estados Unidos.

Ainda assim, toda semana Obama aparentemente consulta a “lista de morte” dos muçulmanos que pretende eliminar, sem processo judicial e com uma identificação que se baseia na palavra meia boca de um espião em solo. Pelo menos os drones britânicos em Helmand [província do Afeganistão], nos dizem, são usados apenas para dar apoio aéreo a tropas em solo.

Desde que a guerra dos não-tripulados começou para valer, em 2008, houve um declínio na atividade do Talibã e da al-Qaeda. Qualquer redução de recrutamento está apenas esperando a saída da Otan. O presidente afegão, Hamid Karzai, descreve os ataques como “injustificáveis”. O governo do Paquistão, contra o qual os ataques tem sido crescentemente direcionados, retirou qualquer permissão para o uso dos drones.

O jovem escritor iemenita Ibrahim Mothana protestou no New York Times contra a carnificina que os drones estão promovendo na política de seu país, apagando “anos de progresso na construção de confiança entre as tribos”. Os iemenistas agora encaram recrutadores da al-Qaeda com fotos de mulheres e crianças destroçados. O número de integrantes da al-Qaeda no Iêmen triplicou desde 2009. Jimmy Carter declarou que “as violações dos direitos humanos internacionais pelos Estados Unidos reforçam nossos inimigos e alienam nossos amigos”.

A guerra dos drones parece sem sentido, mas impossível de deter. O apelo deles para os líderes ocidentais se baseia parcialmente na novidade e parcialmente na esperança de que as derrotas pareçam menos ruins. São como o bombardeio do USS New Jersey contra as montanhas Chouf do Líbano, em 1984, uma demonstração de força sangrenta para dar cobertura à retirada. Os drones não ajudam na vitória, facilitam a derrota que seu uso tornou mais provável.

O Tabilã no Waziristão não é uma ameaça para Londres ou Washington. A al-Qaeda não tem mais capacidade de solapar um estado, a não ser com a bomba ocasional, que pode ser evitada com inteligência doméstica. As “guerras de escolha” de hoje refletem um aspecto sinistro da democracia. Líderes eleitos parecem buscá-las, desafiando todos os alertas de como é difícil acabar com uma guerra. Hipnotizados pela vitória de Margaret Thatcher nas Malvinas, todos buscam uma boa guerra.

Nisso, os drones são o ouro de tolo. Guiados pela pressão dos vendedores de armas, Obama (e David Cameron) são informados de que os drones representam a guerra à distância, do futuro, segura, fácil, limpa, “com alvos precisos”. Ninguém do nosso lado se fere. Terceiros podem fazer o trabalho sujo em solo.

A legalidade tênue desta forma de combate requer que o agressor “declare guerra” contra outro estado. Mas a al-Qaeda não é um estado. Como resultado, estes ataques em solo estrangeiro não são apenas guerras de nossa escolha, são guerras auto-inventadas. Quanto tempo vai demorar até que os Estados Unidos “se achem” em guerra com o Irã e a Síria e despachem os drones? Quando isso acontecer e a matança começar, não terão como reclamar se as vítimas retaliarem com ataques suicidas.

Mas não apenas com suicidas. Os aviões não tripulados são baratos e fáceis de proliferar. Onze estados já os utilizam. Os Estados Unidos vendem drones para o Japão, para ajudá-lo com a China. A China está construindo 11 bases para seus drones Anjian na costa. O Pentágono agora treina mais operadores de drones que pilotos. O que vai acontecer quando toda nação com uma força aérea fizer o mesmo e todas as fronteiras combustíveis estiverem cheias deles?

Nunca temi proliferação nuclear por acreditar que tais bombas são aquisições de prestígio, tão horríveis que nem lunáticos as usariam. Os drones são diferentes. Quando eram chamados de mísseis teleguiados, eram governados em certo grau por protocolos e leis internacionais, assim como era a prática de assassinatos.

Obama rejeita tudo isso. Ele e os Estados Unidos estão ensinando ao mundo que uma aeronave não tripulada é auto-justificável, auto-desculpável, uma arma legal e eficaz de guerra. Por mais que um drone seja contraproducente do ponto de vista da estratégia, tem glamour com os eleitores em casa. Difícil imaginar algo mais perigoso para a paz mundial.

A arte do trambique e da enganação – por alberto dines / são paulo.sp

O mundo de hoje pode ser avaliado sem grande esforço ou complicados equipamentos, basta que o internauta examine o conteúdo da sua própria caixa postal. De cada conjunto de dez mensagens de spam, pelo menos três são trambiques. E alberto dinesalguns perigosos. Significa que um terço das mensagens de remetentes desconhecidos é constituído por fraudes ou falsificações, algumas delas disfarçadas em serviço público.

Comunicados da Receita Federal, do Ministério Público, polícias, fóruns judiciais, Detrans e bancos são armadilhas montadas por habilidosos hackers com as piores intenções. Loterias internacionais comunicam fabulosos prêmios, escritórios de advocacia dão notícia de incríveis heranças, entidades filantrópicas pedem contribuições, sheiks e emires querem os préstimos do destinatário, mulheres maravilhosas lhe oferecem suas virtudes – a Spamosfera é um gigantesco conto do vigário, ou lupanar, pronto a agarrar os distraídos, incautos, onanistas e também os espertinhos.

A constatação não visa a engrossar qualquer dos partidos, seitas ou irmandades que se digladiam em torno do acesso à internet. Esse é um debate imperecível, interminável, alheio aos marcos regulatórios e aos códigos internacionais, sempre bem-vindos embora sempre insuficientes.

As venenosas cartas anônimas de outrora, os abomináveis trotes telefônicos ou os incômodos volantes enfiados debaixo de portas não puderam ser evitados nem extintos. Os pasquins no Renascimento ou os sórdidos panfletos distribuídos antes, durante e depois da Revolução Francesa também não conseguiram ser proibidos. Simplesmente cansaram.

Contrafação, bastardia, travestismo e apocrifia existem desde que o ser humano descobriu a liberdade de burlar. Criatividade e enganação são limítrofes, o parentesco é complicado. Marcel Duchamps com o seu famigerado urinol “artístico” teria muito a dizer nesta matéria.

Não existem mídias organicamente desonestas; a internet neste momento é a mais vulnerável porque é a mais nova, não desenvolveu os mecanismos de autoimunização e autopreservação. Ao longo de quatro séculos a impressa depurou-se – o processo é lento, seguro e, sobretudo, endógeno. O que não significa o fim da compulsão trapaceira.

Quando a Amazon, o poderoso entreposto global de produtos culturais, decidiu moralizar as “resenhas” de livros, CDs e DVDs que publicava em seu site para enganar os trouxas, não o fez obrigada por uma sentença judicial. Nem por uma encíclica do Opus Dei. O rigor foi voluntário, autoimposto. A produção de resenhas favoráveis ficara tão acintosa que os executivos da empresa moralizaram o processo para preservar a credibilidade do negócio inteiro. Spams, assim como o telemarketing, vão cansar. O efeito bumerangue é inevitável.

Onde entram os contágios

A depuração e o saneamento da mídia impressa são visíveis, porém até os anos 1960 eram comuns os espaços designados como “A pedidos”, velho truque para disfarçar matérias pagas e republicar insultos originalmente inseridos em boletins de pequena circulação. Hoje, os “informes publicitários” começam a ficar visíveis e os magistrados mais atentos às calúnias.

Mas a crise que atormenta a mídia impressa está produzindo efeitos colaterais perniciosos que precisam ser rapidamente corrigidos, sob pena de apressar e tornar irremediável o fim do jornalismo em papel.

Num feriadão ou fim de semana prolongado nos Estados Unidos ou na Europa seria impensável a supressão de cadernos por conta da diminuição da circulação nas bancas e a desatenção dos assinantes. No Brasil, com a pletora de feriados no meio da semana e as indefectíveis “pontes”, criou-se o costume de suprimir cadernos. Economiza-se papel, o leitor não tem onde reclamar e fica tudo por isso mesmo.

Este Observatório tem protestado contra a agressão aos direitos do consumidor que paga o preço inteiro do produto, porém só recebe parte dele. A Folha de S.Paulo percebeu a procedência da reclamação e, sempre muito inventiva e mais sujeita às tentações, inventou uma emenda – como de costume, pior do que o soneto.

Nos esticados feriadões de Natal e Ano Novo, o jornal saiu com um sinete no alto da primeira página – “Edição de Feriado” –, sinal evidente de que o jornal estaria irreconhecível. De sábado a terça (22 a 25/12 e de 28/12 a 1/1) as edições foram massacradas sem piedade: cadernos combinados e esmagados, suplementos suprimidos, uma Folha ersatz (sucedâneo minimizado). Isso não se faz com o leitor que pagou por antecipação e lê o jornal mesmo quando seus acionistas acham que não vale a pena.

A publicidade também se impregnou com o Espírito Spam, a enganação massificada: a série de anúncios testemunhais da NET veiculada em alguns dos seus canais é uma aberração. São depoimentos fictícios, repetidos ad nauseam,que o telespectador acaba incorporando como verdadeiros. O Conar devia proibir esses falsos testemunhos em defesa da credibilidade da propaganda, já que não lhe cabe preocupar-se com a credibilidade dos meios que veiculam a propaganda.

O vírus do trambique merece combate implacável.

HISTÓRIA DO BACALHAU 1. NÃO EXISTE PEIXE CHAMADO BACALHAU. BACALHAU É APENAS O PROCESSO DE SALGA E SECAGEM PARA A CONSERVAÇÃO DE PEIXES (…ESSE PROCESSO INCLUSIVE JÁ ERA CONHECIDO DOS FENÍCIOS QUE NAVEGAVAM O MEDITERRÃNEO NA ANTIGUIDADE…); 2. COM O PASSAR DOS SÉCULOS DESCOBRIU-SE QUE OS PEIXES QUE MAIS SE ADAPTAVAM AO PROCESSO BACALHAU ERAM ESPECTIVAMENTE: O COD GADUS MORHUA, O COD GADUS MACROCEPHALUS, O LING, O ZARBO E O SAITHE; 3. A CIDADE DO PORTO É FAMOSA TAMBÉM POR SE HAVER TORNADO UM GRANDE ENTREPOSTO DE INDUSTRIALIZAÇÃO E DISTRIBUIÇÃO (VENDAS) DOS REFERIDOS PEIXES, PESCADOS NO CHAMADO MAR DO NORTE, PRÓXIMO DO CÍRCULO POLAR ÁRTICO, SUBMETIDOS AO PROCESSO BACALHAU, OU SEJA, NÃO EXISTE O BACALHAU DO PORTO.

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A moral de velhas prostitutas – por leandro fortes / são paulo.sp

 

Aos poucos, sem nenhum respeito ou rigor jornalístico, boa parte da mídia passou a tratar Rosemary Noronha como amante do ex-presidente Lula. A “namorada” de Lula, a acompanhante de suas viagens internacionais, a versão tupiniquim de Ana Bolena, quiçá a reencarnação de Giselle, a espiã nua que abalou Paris.

Como a versão das conversas grampeadas entre ela e Lula foi desmentida pelo Ministério Público Federal, e é pouco provável que o submundo midiático volte a apelar para grampos sem áudio, restou essa nova sanha: acabar com o casamento de Lula e Marisa.

Já que a torcida pelo câncer não vingou e a tentativa de incluí-lo no processo do “mensalão” está, por ora, restrita a umas poucas colunas diárias do golpismo nacional, o jeito foi apelar para a vida privada.

Lula pode continuar sendo popular, pode continuar como referência internacional de grande estadista que foi, pode até eleger o prefeito de São Paulo e se anunciar possível candidato ao governo paulista, para desespero das senhoras de Santana. Mas não pode ser feliz. Como não é possível vencê-lo nas urnas, urge, ao menos, atingi-lo na vida pessoal.

Isso vem da mesma mídia que, por oito anos, escondeu uma notícia, essa sim, relevante, sobre uma amante de um presidente da República.

Por dois mandatos, Fernando Henrique Cardoso foi refém da Rede Globo, uma empresa beneficiária de uma concessão pública que exilou uma repórter, Míriam Dutra, alegadamente grávida do presidente. Miriam foi ter o filho na Europa e, enquanto FHC foi presidente, virou uma espécie de prisioneira da torre do castelo, a maior parte do tempo na Espanha.

Não há um único tucano que não saiba a dimensão da dor que essa velhacaria causou no coração de Ruth Cardoso, a discreta e brilhante primeira-dama que o Brasil aprendeu desde muito cedo a admirar e respeitar. Dona Ruth morreu com essa mágoa, antes de saber que o incauto marido, além de tudo, havia sido vítima do famoso “golpe da barriga”. O filho, a quem ele reconheceu quando o garoto fez 18 anos, não é dele, segundo exame de DNA exigido pelos filhos de Ruth Cardoso. Uma tragicomédia varrida para debaixo do tapete, portanto.

O assunto, salvo uma reportagem da revista Caros Amigos, jamais foi sequer aventado por essa mesma mídia que, agora, destila fel sobre a “namorada” de Lula. Assim, sem nenhum respeito ao constrangimento que isso deve estar causando ao ex-presidente, a Dona Marisa e aos filhos do casal. Liberados pela falta de caráter, bom senso e humanidade, a baixa assessoria de tucanos, entre os quais alguns jornalistas, tem usado as redes sociais para fazer piadas sobre o tema, palhaços da tristeza absorvidos pela vilania de quem lhes confere o soldo.

Esse tipo de abordagem, hipócrita sob qualquer prisma, era o fruto que faltava ser parido desse ventre recheado de ódio e ressentimento transformado em doutrina pela fracassada oposição política e por jornalistas que, sob a justificativa da sobrevivência e do emprego, se prestam ao emporcalhamento do jornalismo.

 

A PRISÃO DE LUPICÍNIO RODRIGUES por josé ribamar bessa freire / manaus.am

A Comissão da Verdade não sabe, mas depois do golpe militar de 1964, o compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues (1914-1974) foi preso e permaneceu vários meses trancafiado, primeiro no Quartel da PE, no centro de Porto Alegre e, depois, luprodriguesno presídio da Ilha da Pintada, apesar de nunca ter tido qualquer atividade política. Lá, foi humilhado, espancado e torturado, teve a unha arrancada para não tocar mais violão e contraiu uma tuberculose agravada pelo vento frio do rio Jacuí.

Quem me confidenciou isso foi um dos filhos de Lupicínio, Lôndero Gustavo Dávila Rodrigues, também músico, 67 anos, que hoje trabalha como motorista na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). O fato é pouco conhecido, pois Lupicínio não gostava de tocar no assunto. Preferiu silenciá-lo. Morria de vergonha. “E a vergonha é a herança maior que meu pai me deixou”, cantava ele em “Vingança”, um grande sucesso dois anos antes de sua morte.

Pra quem tem dinheiro ou diploma, a prisão política pode até ser uma medalha, tem algo de heroico. Mas para as pessoas humildes, como ele, que não se metia em política, a prisão é sempre uma humilhação, algo que deve ser escondido, esquecido – conta o filho de Lupicínio, a quem conheci recentemente, quando ele, dirigindo o carro da Universidade, veio me buscar para participar de uma banca de mestrado lá em Seropédica.

A viagem de ida-e-volta durou mais de cinco horas. Nos primeiros cinco minutos, eu já havia lhe contado que era amazonense, do bairro de Aparecida e, quando deu brecha, mostrei-lhe fotos da minha neta. Nos cinco minutos seguintes, ele já tinha me falado de Lupicínio, seu pai, de dona Emilia, sua mãe, de sua infância em Rio Pardo (RS) e de suas andanças como músico por 29 países. Quando nos despedimos, já éramos amigos de infância.

Nervos de aço

Lôndero tem memória extraordinária e admirável dom de narrar. Suas histórias, que jorraram aos borbotões, podem ocupar várias crônicas dominicais. Ele próprio é um personagem, suas andanças dariam um livro. Mas o que ele viveu com seu pai, boêmio e mulherengo, dá outro livro. Não sei nem por onde começar. Talvez por onde já comecei: a prisão do pai, que teria provocado uma reação até mesmo em “pessoas de nervos de aço, sem sangue nas veias e sem coração”.

Nós, da família, sofremos muito com a injustiça da prisão. Sabíamos que Lupicínio não se metia em política – contou seu filho, informando ainda que antes da prisão, o pai havia feito uma versão musical – quanta ironia! – para aquela letra da “oração do paraquedista” encontrada com um militar francês morto em 1943 no norte da África. Lôndero recita:

Dai-me Senhor meu Deus o que vos resta /Aquilo que ninguém vos pede / Dai-me tudo o que os outros não querem / a luta e a tormenta / Dai-me, porém, a força, a coragem e a fé.

Lupicínio precisou mesmo de muita coragem e fé para amargar a prisão, onde em vez de tainha na taquara ou peixe assado no espeto de bambu, comeu foi o pão que o diabo amassou. Tudo isso por causa de uma ligação pessoal dele com Getúlio Vargas, relação que acabou sendo herdada, posteriormente, por Jango e Brizola.

Segundo Lôndero, Lupicínio, que já era um compositor consagrado em 1950, fez um jingle para a volta de Getúlio Vargas, com aquela marchinha de carnaval de Haroldo Lobo, que foi também gravada por Francisco Alves: “Bota o retrato do velho outra vez / Bota no mesmo lugar / o sorriso do velhinho / faz a gente trabalhar”.

Pede deferimento

Vargas já gostava das músicas de Lupicínio antes de ele ser sucesso nacional. Por isso, decidiu bancar a entrada do compositor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Lupicínio, que havia cursado só até o 3º primário, foi nomeado bedel da Faculdade de Direito, onde trabalhou também como porteiro.

Um belo dia – conta Lôndero – Lupicínio caiu na farra, virou a noite e saiu direto dos bares para a Universidade. O reitor deu um flagrante nele, quando o encontrou bêbado na portaria. Deu-lhe um esporro, publicamente, humilhando-o na frente de alunos, professores e colegas. No dia seguinte, Lupicínio entrou com um requerimento com letra de samba, que seu filho sabe de cor:

- Magnífico Reitor, que a tua sabedoria e soberba não venha a ser um motivo de humilhação para o teu próximo. Guarda domínio sobre ti e nunca te deixes cair em arrogância. Se preferires a paz definitivamente, sorri ao destino que te fere. Mas nunca firas ninguém. Nestes termos, pede deferimento. Assinado: Lupicínio Rodrigues, porteiro.

Não sabemos se o reitor deferiu o requerimento e a partir de então passou a sorrir ao destino sem ferir ninguém. O certo é que Lupicínio deixou o emprego na Universidade e foi cantar em outra freguesia, em bares, restaurantes e churrascarias, onde aliava trabalho com boemia.

Foi ele, Lupicínio, quem compôs o hino tricolor do Grêmio, do qual era um fanático torcedor, ganhando com isso um retrato no salão nobre do clube. Depois do suicídio de Vargas, em 1954, Lupicínio, já consagrado nacionalmente, continuou mantendo relações amistosas com Jango e Brizola, que também admiravam sua música. Por conta disso, foi preso e torturado, segundo seu filho.

Autor de grandes sucessos como “Felicidade foi se embora”, “Vingança”, “Esses moços”, “Nervos de aço”, “Caixa de Ódio”, “Se acaso você chegasse”, “Remorso” e dezenas de outros, Lupicínio compôs “Calúnia”, cuja letra pode muito bem ter outra leitura, quando sabemos de sua prisão e a forma como foi feita:

- Você me acusa / Mas não prova o que diz / Você me acusa / De um mal que eu não fiz/ A calúnia é um crime / que Deus não perdoa / Você vai sofrer / aqui neste mundo.

A letra de “Calúnia”, gravada por Linda Batista em 1958, termina com Lupicínio rogando: “Eu não quero vingança / A vingança é pecado / Só a Justiça Divina / Pode seu crime julgar”. Mas se prevalecer a letra de “Vingança”, cantada também por Linda Batista e depois por Jamelão, os torturadores da ditadura não terão paz e serão punidos pela Justiça: “Você há de rolar como as pedras que rolam na estrada, sem ter nunca um cantinho de seu pra poder descansar”.

EUA: Um registro raro e cruel – por jimmy carter* / usa

Revelações de que altos funcionários do governo dos Estados Unidos decidem quem será assassinado em países distantes, inclusive cidadãos norte-americanos, são a prova apenas mais recente, e muito perturbadora, de como se ampliou a lista das violações de direitos humanos cometidas pelos EUA.

Esse desenvolvimento começou depois dos ataques terroristas de 11/9/2001; e tem sido autorizado, em escala Jimmy+Cartercrescente, por atos do executivo e do legislativo norte-americanos, dos dois partidos, sem que se ouça protesto popular. Resultado disso, os EUA já não podem falar, com autoridade moral, sobre esses temas cruciais.

Por mais que os EUA tenham cometido erros no passado, o crescente abuso contra direitos humanos na última década é dramaticamente diferente de tudo que algum dia se viu. Sob liderança dos EUA, a Declaração Universal dos Direitos do Homem foi adotada em 1948, como “fundamento da liberdade, justiça e paz no mundo”. Foi compromisso claro e firme, com a ideia de que o poder não mais serviria para acobertar a opressão ou a agressão a seres humanos. Aquele compromisso fixava direitos iguais para todos, à vida, à liberdade, à segurança pessoal, igual proteção legal e liberdade para todos, com o fim da tortura, da detenção arbitrária e do exílio forçado.

Aquela Declaração tem sido invocada por ativistas dos direitos humanos e da comunidade internacional, para trocar, em todo o mundo, ditaduras por governos democráticos, e para promover o império da lei nos assuntos domésticos e globais. É gravemente preocupante que, em vez de fortalecer esses princípios, as políticas de contraterrorismo dos EUA vivam hoje de claramente violar, pelo menos, 10 dos 30 artigos daquela Declaração, inclusive a proibição de qualquer prática de “castigo cruel, desumano ou tratamento degradante.”

Legislação recente legalizou o direito do presidente dos EUA, para manter pessoas sob detenção sem fim, no caso de haver suspeita de ligação com organizações terroristas ou “forças associadas” fora do território dos EUA – um poder mal delimitado que pode facilmente ser usado para finalidades autoritárias, sem qualquer possibilidade de fiscalização pelas cortes de justiça ou pelo Congresso (a aplicação da lei está hoje bloqueada, suspensa por sentença de um(a) juiz(a) federal). Essa lei agride o direito à livre manifestação e o direito à presunção de inocência, sempre que não houver crime e criminoso determinados por sentença judicial – mais dois direitos protegidos pela Declaração Universal dos Direitos do Homem, aí pisoteados pelos EUA.

Além de cidadãos dos EUA assassinados em terra estrangeira ou tornados alvos de detenção sem prazo e sem acusação clara, leis mais recentes suspenderam as restrições da Foreign Intelligence Surveillance Act, de 1978, para admitir violação sem precedentes de direitos de privacidade, legalizando a prática de gravações clandestinas e de invasão das comunicações eletrônicas dos cidadãos, sem mandato. Outras leis autorizam a prender indivíduos pela aparência, modo de trajar, locais de culto e grupos de convivência social.

Além da regra arbitrária e criminosa, segundo a qual qualquer pessoa assassinada por aviões-robôs comandados à distância (drones) por pilotos do exército dos EUA é automaticamente declarada inimigo terrorista, os EUA já consideram normais e inevitáveis também as mortes que ocorram ‘em torno’ do ‘alvo’, mulheres e crianças inocentes, em muitos casos. Depois de mais de 30 ataques aéreos contra residências de civis, esse ano, no Afeganistão, o presidente Hamid Karzai exigiu o fim desse tipo de ataque. Mas os ataques prosseguem em áreas do Paquistão, da Somália e do Iêmen, que sequer são zonas oficiais de guerra. Os EUA nem sabem dizer quantas centenas de civis inocentes foram assassinados nesses ataques – todos eles aprovados e autorizados pelas mais altas autoridades do governo federal em Washington. Todos esses crimes seriam impensáveis há apenas alguns anos.

Essas políticas têm efeito evidente e grave sobre a política exterior dos EUA. Altos funcionários da inteligência e oficiais militares, além de defensores dos direitos das vítimas nas áreas alvos, afirmam que a violenta escalada no uso dos drones como armas de guerra está empurrando famílias inteiras na direção das organizações terroristas; enfurece a população civil contra os EUA e os norte-americanos; e autoriza governos antidemocráticos, em todo o mundo, a usar os EUA como exemplo de nação violenta e agressora.

Simultaneamente, vivem hoje 169 prisioneiros na prisão norte-americana de Guantánamo, em Cuba. Metade desses prisioneiros já foram considerados livres de qualquer suspeita e poderiam deixar a prisão. Mas nada autoriza a esperar que consigam sair vivos de lá. Autoridades do governo dos EUA revelaram que, para arrancar confissões de suspeitos, vários prisioneiros foram torturados por torturadores a serviço do governo dos EUA, submetidos a simulação de afogamento mais de 100 vezes; ou intimidados sob a mira de armas semiautomáticas, furadeiras elétricas e ameaças (quando não muito mais do que apenas ameaças) de violação sexual de esposas, mães e filhas. Espantosamente, nenhuma dessas violências podem ser usadas pela defesa dos acusados, porque o governo dos EUA alega que são práticas autorizadas por alguma espécie de ‘lei secreta’ indispensável para preservar alguma “segurança nacional”.

Muitos desses prisioneiros – mantidos em Guantánamo como, noutros tempos, outros inocentes também foram mantidos em campos de concentração de prisioneiros na Europa – não têm qualquer esperança de algum dia receberem julgamento justo nem, sequer, de virem a saber de que crimes são acusados.

Em tempos nos quais o mundo é varrido por revoluções e levantes populares, os EUA deveriam estar lutando para fortalecer, não para enfraquecer cada dia mais, os direitos que a lei existe para garantir a homens e mulheres e todos os princípios da justiça listados na Declaração Universal dos Direitos do Homem. Em vez de garantir um mundo mais seguro, a repetida violação de direitos humanos, pelo governo dos EUA e seus agentes em todo o mundo, só faz afastar dos EUA seus aliados tradicionais; e une, contra os EUA, inimigos históricos.

Como cidadãos norte-americanos preocupados, temos de convencer Washington a mudar de curso, para recuperar a liderança moral que nos orgulhamos de ter, no campo dos direitos humanos. Os EUA não foram o que foram por terem ajudado a apagar as leis que preservam direitos humanos essenciais. Fomos o que fomos, porque, então, andávamos na direção exatamente oposta à que hoje trilhamos.

*Jimmy Carter é Prêmio Nobel e ex-presidente dos EUA. Matéria publicada no New York Times

‘Pequeno Almanaque do Reacionário de Sofá’ – por pedro munhoz

 

As redes sociais proporcionam meios rápidos e eficientes para toda e qualquer pessoa expor, rapidamente, de forma descompromissada e atingindo um público cada vez mais amplo, suas opiniões. Isso não é algo negativo, pelo contrário, é uma das coisas que mais me fascina no mundo virtual. Os comentários e opiniões resultantes dessa liberdade retratam, porém, uma realidade das mais preocupantes e que, para além do ambiente virtual, dizem muito sobre a nossa sociedade.

Se não há como discordar do fato de que ninguém é obrigado a conhecer razoavelmente um assunto qualquer, acho especialmente alarmante o número de pessoas que, sem se debruçarem um segundo sequer sobre temas polêmicos e delicadíssimos, expressam suas opiniões pré-moldadas com a desenvoltura de quem sabe realmente do que está falando. Pois bem: opiniões pré-moldadas existem em todos os espectros ideológicos e, para além do campo político propriamente dito, atingem inclusive campos do conhecimento técnico, como o direito, a medicina e a economia. Vou abordar, porém, durante esta coluna, apenas uma classe de comentários: os dos reacionários de sofá.

Os reacionários de sofá são aqueles que, preguiçosamente, no conforto de suas residências, absorvem passivamente as opiniões vociferadas pela grande mídia contra toda e qualquer posição política que possa implicar uma mudança positiva para um grupo com o qual ele não se identifica. Outras vezes, eles não precisam nem mesmo recorrer à mídia para terem uma opinião qualquer sobre um assunto com o qual ele não tem o mínimo de contato: basta recorrer aos preconceitos que lhe foram incutidos na infância.

São quase sempre individualistas, pois não conseguem cogitar a defesa de um interesse qualquer que não seja o seu próprio. Também gostam de pautar os seus discursos por alarmismos apocalípticos, derivando conseqüências genéricas gravíssimas de medidas que muitas vezes têm um escopo bastante restrito. Ressentem-se ferozmente de terem nascido no Brasil e odeiam os brasileiros, a quem, do sofá de suas casas ou da cadeira de suas escrivaninhas, taxam de passivos, indolentes, comodistas e estúpidos.

Pois bem: essa é uma pequena coletânea de conceitos caros a esse tipo de usuário das redes sociais que pretende ser uma modesta contribuição para estudos posteriores dessas mentalidades tão peculiares. Separei alguns verbetes sobre os quais nossos reacionários adoram opinar. Estou aberto a contribuições.

Atenção: as opiniões abaixo não retratam a opinião deste colunista. Na verdade, são o seu oposto.

Cotas Raciais – 1-Vão instaurar o racismo no Brasil. 2-Racismo contra brancos. 3- Tem que melhorar a educação pública. 4- Trabalhei para pagar o cursinho dos meus filhos e querem dar as vagas deles para quem não pagou. 5-São inúteis, pois o Brasil não é racista. 7- Sou contra, pois minha bisavó era negra e nasci branco. 8- E a igualdade, coméquifica? 9- Governo premiando a vagabundagem. 10- Meu vizinho é negro e é mais rico do que eu. 11. Meu cunhado é negro e trabalhou honestamente pra pagar o cursinho dos filhos.

Racismo – 1- Não existe no Brasil. 2- O racismo dos negros contra os brancos é maior do que o dos brancos contra negros. 3- Se eu andar com uma camisa escrita 100% branco eu vou preso. 4-Tenho vários amigos negros, mas [preencher com conclusão preconceituosa a sua escolha]. 5- Deveria ter o dia do Orgulho Branco. 6- Todo mundo protesta contra o racismo, mas ninguém protesta contra a corrupção.

Homossexualidade - (pronunciar “homossexualismo”)- 1 Doença que precisa de tratamento. 2- Falta de vergonha na cara. 3- Homossexuais querem ter mais direitos do que eu. 4- Abominação aos olhos de Deus. 5- Imoralidade. 6- Falta de “couro” na infância. 7- Homossexuais querem converter as crianças ao homossexualismo. 8 – Homossexuais são pedófilos. 9 – Eles querem ser respeitados, mas não se dão o respeito. 10-É por isso que o Brasil não vai pra frente.

Movimento gay- 1- Prega a promiscuidade. 2- Daqui a pouco vai ser proibido ser hetero. 3-  Quer acabar com a religião. 4- Quer acabar com a família. 5- Daqui a pouco não vou poder dizer aos meus filhos que é errado ser gay. 6- Sinônimo de ditadura gay. 7- Quer converter as crianças ao homossexualismo (sic). 8- Por que eles não lutam contra a corrupção? Lamentável! 10- É por isso que o Brasil não vai pra frente.

Feminismo - 1- Chamar de feminazis. 2- Preconceito contra homens. 3- E a igualdade,coméquifica? 4- Quer desestabilizar a família. 5- Falta de sexo. 6-Falta de louça pra lavar.7- Feministas são feias. 8-Feministas são lésbicas. 9- Não sou feminista, sou feminina. 10- Por que elas não lutam contra a corrupção? Lamentável.

Marcha das Vadias – 1-Dizem que são vadias e depois não querem ser estupradas. Absurdo! 2- Comeria todas elas. 3 – Só tem gorda mostrando os peitos. 4- Não se dão o respeito. 5- Não respeitam nossas crianças. 6- Querem arrumar um macho. 7- Falta de louça pra lavar. 8- Atrapalha o trânsito. 9- Deviam protestar contra a corrupção. 10- É por isso que o Brasil não vai pra frente.

Marcha da Maconha- 1-Querem drogar as nossas crianças. 2- Afronta à moral. 3-Bando de vagabundos. 4-Daqui a pouco vão vender crack na porta da igreja. 5- Polícia neles. 6-Atrapalha o trânsito. 7- Está tudo invertido. 8- Saudades da ditadura. 9- Falta de lote pra capinar. 10- Deviam protestar contra a corrupção.

Ditadura Militar – 1- Naquele tempo não existia corrupção. 2- Naquele tempo não existia maconha. 3-Naquele tempo não existia homossexualismo. 4- Naquele tempo não existia violência. 5- Naquele tempo as escolas eram de primeiro mundo. 6- É uma coisa boa, pois brasileiro não sabe votar. 7- Salvou o Brasil da ditadura comunista. 8- Poucas pessoas foram mortas e torturadas e quem foi morto ou torturado mereceu. 9- Saudades daquela época! 10- Todo mundo critica a ditadura no Brasil, mas ninguém critica Cuba. Lamentável!

Direitos Humanos – 1- Chamar de “direito dos manos” e se achar genial. 2- Direito dos vagabundos. 3- Direitos Humanos para humanos direitos. 4- Ninguém defende os direitos humanos das vítimas. 5- Defensor dos direitos humanos devia ter sua filha estuprada. 6- Está tudo invertido. 7- A culpa da violência é desse pessoal que defende os direitos humanos. 8- Um cidadão de bem não pode nem espancar e torturar um vagabundo que tentou roubar seu tablet. 9-Na época da ditadura não existia isso e era tudo muito melhor. 10- Ficam defendendo bandido, mas deviam lutar contra a corrupção. Acorda Brasil!

Povo Brasileiro- 1- Não gosta de trabalhar. 2- Não sabe votar. 3- Tem o governo que merece. 4- É ladrão. 5- Não tem cultura. 6- Só pensa em futebol, carnaval e cerveja. 6- É o povo brasileiro que estraga o Brasil. 7- Só sabe reclamar. 8- Mudei para Miami por causa do povinho que vive no Brasil. 9- Não tem moral. 10- Não luta contra a corrupção! Acorda Brasil!

Corrupção- 1- Culpa do brasileiro que não sabe votar. 2- Pena de morte para políticos corruptos. 3- Culpa do PT. 4- Não existia na época da ditadura. 5- Todos os brasileiros são corruptos (menos eu). 6- Não existe nos Estados Unidos. 7- Não existe na Europa. 8- Está tudo invertido. 9- Ninguém luta contra a corrupção. 10- Como todo mundo é corrupto e não sabe votar, ninguém tem o direito de reclamar da corrupção, pois o Brasil tem o governo que merece.E por ora encerro esse pequeno almanaque. Se essas são as suas opiniões, parabéns: você é um perfeito reacionário de sofá que, surfando no mais rasteiro senso comum, não contribui em nada para o avanço da discussão desses temas. Se não, você talvez pudesse pensar em adotar esses conceitos para você. É certeza de aplausos nos ambientes virtuais e vai te poupar muitas infindáveis discussões via facebook com outros reacionários de sofá que constituem, com certeza, o tipo mais teimosamente imune à argumentação da internet.

Se vocês se recusam a adotar os conceitos acima colocados, deixo para vocês uma dica: porque vocês não lutam contra a corrupção? ACORDA BRASIL!!!!

 

EDITOR DE FÉRIAS. ANO NOVO COMO QUEREMOS! ATÉ LÁ!

JB VIDAL - DE FÉRIAS COM LAPTOP - sem título

A BONECA DE NATAL – de jorge lescano / são paulo.sp

In Memoriam Luanda.

As lojas tentavam a população com seus produtos estrategicamente expostos nas vitrines para criar a ilusão de que todos podiam proporcionar alegria ao levar para casa o objeto desejado por aquela pessoa querida. Tal, mais ou menos, a linguagem utilizada nos anúncios.

Mesmo nos bairros mais afastados do centro comercial, as lojas acenavam com um esboço de felicidade pré-datada até para o mais necessitado ou imprevidente dos mortais. Os preços e as facilidades do crédito convidavam a se endividar, e a data justificava o endividamento.

Postado ao lado da porta de uma destas lojas da rua Butantã, encontrava-se um homem magro, modestamente vestido, carregando uma espécie de valise com fecho de zíper, que ele fazia correr num sentido e noutro. Difícil dizer se experimentava o seu funcionamento ou se a ação correspondia a nervosismo.

Várias caixas com brinquedos de plástico se encontravam na entrada do estabelecimento. O preço – módico – unificava os objetos. Cada caixa ostentava uma placa com o valor genérico. Pelo valor de cinco reais podia-se adquirir tanto um trenzinho como uma boneca de plástico marrom vestida com um macacão vermelho e um lenço na cabeça, amarrado à moda africana.

Por duas vezes, nas lojas populares da rua Direita, vira a conseqüência do furto. A primeira, duas moças que haviam furtado peças de lingerie, a segunda, uma boneca dentro de uma caixa.

O caso das moças se deu esquina da praça Clóvis Beviláqua. Ele viu no momento em que o empregado da loja fez que elas abrissem as bolsas e de lá retirassem as peças furtadas. Alguns curiosos pararam para olhar. Uma das moças abaixou cabeça e deixou a mão escorregar ao longo do rosto, ocultando-o. Era metade da tarde e nessa hora a multidão se apinhava no local.

O homem que se apropriara da boneca era magro como ele. Pelo que havia podido observar, enquanto circulava pela loja entre as mesas de exposição, o homem cometeu o erro de prestar atenção excessiva ao brinquedo, chamando a atenção do funcionário encarregado da segurança. O movimento rápido que fez a caixa desaparecer no interior da sacola, provocou um deslocamento sincrônico do empregado, e apesar do homem ganhar a rua em alta velocidade, sem correr, contudo, para não chamar excessivamente a atenção, porém a passos mais rápidos que os usuais nessa rua, permitidos porque nessa hora o comércio já começara a abaixar as portas, foi alcançado pelo segurança e outro funcionário, que devia servir-lhe de escudeiro. Sem resistência, o homem entregou a boneca. Isto não satisfez os guardiões da ordem comercial, que fizeram questão de levar o larápio para os fundos da loja.

A testemunha ainda teve tempo de ouvir o comentário de um passante Sujar-se por pouca coisa não vale a pena! Ele pensou na filha do homem, que inutilmente esperaria seu presente.

O homem magro não deixaria que sua criança pensasse haver sido esquecida por Papai Noel. Com passo firme entrou na loja

CONTO DE NATAL ou: Demitir em dezembro é muito mais gostoso – por roberto prado / curitiba.pr

Já pressentindo o tamanho do peru de Natal, a extensão da ressaca em Matinhos e a dureza do ano novo, o Coitado é repentinamente chamado à salinha para uma conversa.

- Você pode dar um pulinho aqui um instantinho?

Pelos diminutivos, percebe que boa coisa não é. No país da cordialidade todos aprendem rapidinho que as grandes desgraças corporativas costumam rimar com “inho”. Com trêmula tentativa de vã dignidade ele caminha da mesa de trabalho ao matadouro em câmera lenta, um jeito infantil de retardar o abate que só serve para aumentar insuportavelmente o conteúdo dramático da cena.

Reengenhariazinha. Reduçãozinha. Adequaçãozinha. Enxugadinha. E o empreguinho garantido depois que passasse a crisezinha. Sei! Entre um passo e outro ele lamenta não ter aderido prontamente à Revolução Bolivariana e seguido o seu profeta local na ocasião da histórica Abertura do Mar Vermelho de Curitiba. Os colegas acompanham seu desfile, tensos, mas sem excessos que possam ser interpretados como solidariedade, pois, em tempos de crise, o Vírus Degola é ainda mais contagioso.

O Coitado devolve os olhares bovinos com um olho da rua, vendo que é peixe fora da água, desprezado em silencioso uníssono pelas piranhas, traíras, tubarões, robalos, trutas e lambaris de valeta do escritório. Neste momento o coitado se transforma em coitadinho e acelera em direção ao golpe fatal. A portinha à sua frente não esconde, certamente, o cenário adequado para cheques de bônus, prêmios por produtividade, medalhas por serviços prestados, promoção por méritos ou algo do gênero. Ali era a entrada para a clássica “salinha”, rampa de lançamento em forma de escorregador de parquinho infantil que leva direto para a rua da amargura. Ele mete a mão na maçaneta com decisão: seja como for, mas que seja rápido. Depois, sentado na calçada, observando a água da sarjeta, ele pensaria na volta por cima, na vingança contra aqueles imundos porcos capitalistas.

- Um minutinho. Senta aí, serve um cafezinho pra nós.

À sua frente, gingando na poltrona executiva com amortecedores hidráulicos, a hiena sorridente ao celular, antegozando o prazer de uma legítima demissão em dezembro, decretada depois que o Coitado já esmerilhou o cartão de crédito, vaporizou o 13º e desintegrou a parcela do terço das férias que vendeu. “Definitivamente o Chaves tinha razão, ele e aquele outro, o índio”, matutava, coitadinho, já começando a considerar razoáveis, inclusive, os argumentos daquele esquisitão da Coréia do Norte. De quando em quando o algoz do outro lado da mesa mostra os dentes de crocodilo e agita a mão cheia de bichos pedindo um pouquinho mais de paciência. Finalmente, depois de um sonoro “tá combinado então, cachorrão, passa aqui pegar seu uísque”, larga o telefone, não sem antes dar uma conferida em alguma coisa na tela imensa e reclamar que ganhou o aparelho da mulher, mas não tem a mínima idéia de como atualizar a porcaria de um número. A criatura lupina, finalmente, olha nos olhos do Coitado, pigarreia, apanha a caneta, separa uns papéis, confere alguma coisa com fingida distração, faz o seu famoso silêncio preparatório e dispara:

- Você sabe que tem essa crisezinha aí… … tá ruim pra todo mundo… o trem tá feio, companheiro…

O coitado concorda com a cabeça e acrescenta mentalmente: “bem feito, quem mandou não escutar o Chaves e o Kim Jong II”. O outro continua, girando a cadeira para lá e para cá.

- Vou ser franco… Eu pessoalmente não concordo, mas é coisa do patrão, tá tudo aqui, ó. – A cascavel chacoalha os papéis. – Coisa de chefe, entende? Uma reduçãozinha de despesas.

O escorpião deixa o suspense no ar e o Coitado suspende a respiração.

- Vou ser bem direto. É o seguinte… – prossegue a besta do apocalipse – …neste fim de ano a firma não vai bancar a confraternização… eu achei isso uma tremenda sacanagem e estou propondo que a gente faça uma vaquinha…

O mente do Coitado paralisa, seus olhos esbugalham.

- Calma, rapaz, não precisa se assustar… já fiz até as contas… tá tudo aqui… se você concordar é trintão por cabeça para cerveja, refrigerante, churrasco, salada, uma linguicinha. Vamos fazer lá em casa mesmo, assim a gente fica mais à vontade. Só não me vá entrar de cueca na piscina, olhe lá, hem…

A mão trêmula do Coitado estende as notas amassadas, assina ao lado do seu nome na lista e vai saindo lentamente, mas sua vontade é correr, ir direto ao refúgio do carro com 56 prestações em aberto e voar até a segurança do apartamento financiado em 20 anos. Abre a porta e já está acelerando quando ouve a vozinha vindo do interior da salinha.

- Ah… só mais uma coisinha…

Sua espinha congela, o celular do outro toca o hino do Atlético.

- Avisa a macacada pra ninguém sair sem acertar comigo, que eu ainda tenho que encomendar a carne!

O FIM DO MUNDO ou a explosão global de 21 / 12 / 2012

 

a explosão

 

“Para encontrar a alma é necessário perdê-la”. (Alexander Luria, neuropsicólogo russo)

Segundo muitos exotéricos que interpretam tragicamente o calendário maia, produto de uma avançada civilização pré-colombiana da América Central, o mundo terá – ou teria ! – explodido no dia 21 de dezembro de 2012. No mundo inteiro há quem leve a sério esses maus presságios e locupletam algumas cidades, consideradas à salvo da apocalipse, congestionando estradas e devorando os escassos mantimentos que seus modestos estabelecimentos comerciais dispõem.  Uma delas aqui no Brasil, em Goiás: Alto Paraíso. Trata-se de uma bela cidade situada a nordeste do Estado de Goiás, a 230 km de Brasília, na Chapada dos Veadeiros, numa região rude e violenta que serviu de inspiração aos melhores contos e romances regionais do escritor Bernardo Ellis, o melhor deles “O Tronco”, levado às telas por J.Batista de Andrade.  Prova disso foi o assassinado do Prefeito da cidade há dois anos. Não obstante, situada sobre uma plataforma de cristal de rocha, no ponto mais alto do Planalto Central, Alto Paraíso há muitos anos atrai místicos do mundo inteiro que ali semeiam templos, tribos ou oficinas individuais dando um colorido diferente à pacata sociedade local. Lá encontrei, também,  em minhas inúmeras viagens,  vários gaúchos que povoam  o Centro Oeste lavrando o cerrado e contribuindo para fazer do Brasil o celeiro do mundo. Bom para o agro-business, ruim para a natureza, que se molda à mão do homem.

Para a Ciência, avessa às superstições e especialmente à Astrologia, o que haverá na fatídica data é apenas um mero alinhamento sideral. Entre os dias 21 e 23 de dezembro, com  ápice entre 11:16 hs e 11:26 hs da manhã do dia 22/12. nosso planeta Terra, a Lua e o Sol estarão alinhados com Alcyone, a estrela maior da Via Láctea, fato que ocorre a cada 25 mil anos. Mas , para os místicos, este seria um momento especial porque as energias planetárias estariam  se reorganizando  levando-nos à possibilidade de vivenciar  um momento cósmico  especial, com uma suposta extraordinária ortunidade para que muitos se iluminem passando  a vibrar em outras dimensões. “É esperado que milhões de almas se beneficiem desta oportunidade espiritual única”afirmam.

As religiões monoteístas firmemente estabelecidas também refutam essas proclamações de uma Nova Era e a condenam , tanto quanto a Astrologia, como mera superstição.  Alguns Governos laicos, como o da China, vai mais longe e está perseguindo com severidade as seitas que divulgam os prognósticos do fim do mundo.

Ciência, Governos laicos e Igrejas se unem, portanto, na reafirmação do destino não como fatalidade, mas como possibilidade, ou seja,  como resultado de  complexos fatores biológicos , ambientais e psicológicos sobre os quais se interpõe o livre arbítrio. Não fora isto, como julgar as ações humanas? Os filósofos vão mais longe: A condição humana assinalaria o aparecimento da consciência mediada pelo desejo, cuja raiz etimológica – de-sidere – marcaria a afirmação da vontade livre frente aos desígnios siderais, ou seja, a idéia mesma  de destino.   Para o Iluminismo, enfim,  sob cujas luzes ainda nos “ iludimos “, o homem é um ser moral dotado de plena capacidade para legislar com  autonomia sobre suas ações. A pós-modernidade já sepultou esta crença na capitulação do sujeito. Mas não capitulou à astrologia… E um novo fisicismo científico, igualmente pós-moderno, descrito como “tumor metafísico”por Eduardo Gianetti em seu livro “A Ilusão da Alma”, Cia. Das Letras. e cantado em verso  por Fernando Chuí, relança o tema da pré-destinação, mas mais  como determinação bio-genética do que rastro estelar  :

A Invenção da Alma

                                                                                                                                              Fernando chuí

                                                                                                    

 

Certa vez, um amontoado de átomos

adquiriu inexplicavelmente o desejo

de ser mais do que matéria em movimento.

.

O criador, curioso ao perceber tal rebeldia

submergindo da luz e do caos,

decidiu, quase em um tom lúdico,

enviar àquela manifestação sete fadas

para lhe presentearem com dotes que o auxiliassem

na engenharia daquele novo e improvável universo.

.

Voz, a primeira fada,

voou por entre os orifícios da cabeça

e soprou-lhe o dom de inventar sentidos próprios

nos sons que era capaz de emitir.

.

Mãos, a segunda fada,

atravessou seus poros até atingir seus ossos,

seguindo os braços até as suas extremidades

e lá deixou a habilidade de transformar as formas à sua volta

apenas pelo contato com seus dedos.

.

Paixão, a terceira fada,

rasgou-lhe o peito para lhe enfiar sua adaga

que continha o poder de se entorpecer e se entregar à cegueira

diante de um outro ser.

.

Conhecimento, a quarta fada,

nadou por toda a sua carne

espalhando por todo o corpo

a capacidade de salvar a sua história

por meio de escritos, imagens e objetos.

.

Política, a quinta fada,

mergulhou em seu sangue

e lhe inoculou a aptidão de se organizar socialmente

em sistemas, classes e disciplinas.

.

Karma, a sexta fada

(que também respondia pelo nome de Neurose),

escorregou pelo couro cabeludo para lhe derramar

a capacidade de lutar contra a própria felicidade.

.

Dor, a sétima e última fada,

beijou seus olhos

e lhe ofertou a capacidade de chorar.

.

Feliz com seu feito, o criador agradeceu

e despediu-se das fadas.

Porém, temeroso de ser alcançado

pelos poderes concedidos àquela nova criatura,

o criador lançou àquele ser um feitiço:

Não teria jamais a certeza de coisa alguma.

.

Feito isto, pôs-se a dormir, invisível.

.

E aquele ser que acordava

e já não aceitava mais a sua pureza atômica,

passava seus dias a inventar, tal qual vício ou peste,

novas estruturas lingüísticas, estéticas, políticas e tecnológicas

para a dominação de seu povo e da natureza à sua volta.

Estas que, via de regra,

sempre geravam indefectíveis desastres

faziam-no passar todo o tempo buscando novas invenções

para consertar os próprios erros de outrora.

.

E mesmo se multiplicando em ritmo absurdamente acelerado,

o ser inventou a solidão.

Sentia-se agora tão só

que inventou em si um novo talento,

o dom de inventar deuses.

.

Da voz, compôs uma reza.

Das mãos, moldou o altar.

Da paixão, lançou-se ao culto.

Do conhecimento e da política, teceu a religião.

Da neurose, fez a culpa, a vergonha e o castigo.

.

O ser derramou assim

sobre a terra azul e seca,

de alegria e melancolia,

a primeira e doída lágrima,

junto à primeira prece.

.

.

Elas, que aí estão;

Elas, que não têm mais fim.

Entre crenças, princípios científicos e vã filosofia enfrentemos, pois, o 21 de dezembro. E, se o mundo sobreviver e nós com ele, preparemo-nos para a boa semana de celebrações que lhe seguirá.

ARTISTAS E VACAS – por jorge lescano / são paulo.sp

O analista revelara à paciente que ela sofria de falsa identidade – ou como esses profissionais da escuta esotérica chamem esta perturbação da personalidade –: era uma vaca presa num corpo de mulher. Ela decidiu assumir seu verdadeiro EU. Começou a mugir e se fazer tatuar grandes manchas negras na pele branca.

Sem que se conhecessem, ela vivia a metamorfose almejada pelo poeta. Este, em protesto pelo descaso da plebe ignara com a ninfa Eco, sonhava ser uma vaca, malhada, de nome Gertrudes, como os irlandeses chamam as fêmeas do seu gado bovino, segundo James Joyce num romance do argentino Ricardo Piglia

 

O pintor Paul Klee, nascido na Suíça, herdou do pai a nacionalidade alemã e só recebeu a cidadania do seu país natal, solicitada sete anos antes, um dia depois de sua morte.

Alguém comentou – talvez seja apenas uma boutade, com esta ressalva figura numa biografia do artista – que a demora teve origem em um quadro no qual o pintor retratou um rebanho de vacas empilhadas, sugerindo que o país não tinha espaço suficiente para sua pecuária. Isto numa nação que se orgulha da qualidade do seu queijo e criou um gênero de canções dedicadas a este ruminante.

 

O romancista acordou e deu pela falta do seu manuscrito. O jornal não fornecia o título do romance. Um pouco afastada da árvore sob a qual o escritor dormira sua sesta de verão, uma vaca ruiva ruminava a sua merenda.

Tarde demais ele ficou sabendo que os nutrientes que este animal encontra no capim também estão no papel.

 

Com o passar das gerações a anedota ficou mais ou menos assim:

A senhora interrogava Claude Debussy sobre o método utilizado para suas composições.

- É muito fácil, eu pego todos os sons e retiro aqueles que não desejo usar – teria respondido o músico.

- Confesso que não entendo as suas melodias – disse a dama. – Eu apenas sei do que gosto e do que não gosto.

E o compositor:

- Como as vacas, minha senhora!

 

 

O ator dirigia a sua motocicleta em alta velocidade quando o ruminante estacionou no meio da estrada. Não houve tempo para desviar ou frear. O veículo bateu em cheio na massa de carne que na hora do impacto ganhou solidez de concreto.

A polícia rodoviária contou com a serra e a habilidade de um magarefe para extrair a cabeça e os ombros do motoqueiro do flanco da vaca.

Aquela noite foi de consagração do ator substituto. Em turnê pelo interior do estado, a companhia representava Androcles e o leão, de George Bernard Shaw.

 

Como descrever o assombro da vaca solitária ao contemplar com seu olhar bovino o jovem negro atravessar a cerca, armar seu saxofone e totalmente concentrado improvisar alguns compassos na sua frente e para seu exclusivo prazer, enquanto seus colegas, não menos surpresos que ela, esperavam o final do breve concerto à beira da estrada?

Quem disse que as vacas gostam de música?, deve ter pensado o animal ao ver o carro se afastar levantando uma nuvem de poeira.

A cena foi narrada por um integrante da banda de Charlie Parker presente na ocasião.

TENTATIVA DE GOLPE: “Oligopólio midiático quer que Dilma banque abismo fiscal para salvar oligopólio bancário”

GRANDE MÍDIA BRASILEIRA QUER JOGAR DILMA NUMA FRIA MAIS TERRÍVEL QUE A GEADA DE MOSCOU, DESTRUINDO A POPULARIDADE DELA QUE ALCANÇOU 78%. Os ataques coordenados pela grande midia brasileira contra a política econômica nacionalista adotada pela presidenta Dilma Roussef, de combate à especulação financeira, por intermédio da redução continuada dos juros, configuram crime de lesa pátria, porque eles significam favorecimento à sobrevalorização da moeda nacional, cujas consequências representam aumento do endividamento público e desindustrialização nacional. Ou seja, pintaria o abismo fiscal, também, no Brasil, como acontece nos Estados Undios. No momento em que o Banco Central americano decide continuar com a expansão monetária – guerra cambial – para combater a onda de desemprego na América , se Dilma segue a orientação pregada pelo poder midiático oligopolizado brasileiro, porta-voz dos interesses do poder financeiro, igualmente, olipolizado, deixando a economia sem proteção, detona, consequentemente, o mercado interno, que a política nacionalista lulista-dilmista controi como arma contra a crise global, a fim de favorecer as estratégias adotadas pelos governos dos países ricos, ameaçados por ondas deflacionárias. A grande mídia tupiniquim, anti-nacionalista, expressa a insatisfação da bancocracia patrocinadora da agiotagem, considerando Dilma intervencionista, responsável por um mal gerenciamento econômico que impediria os investimentos produtivos. Ou seja, uma construção mental distorcida, ideologicamente traidora, que, se implementada, trabalharia a favor dos interesses do capitalismo cêntrico, às voltas com excesso de produção, que precisa ser desovado na periferia por meio de ofertas monetárias excessivas, como as que estão sendo implementadas pelo governo Obama, de modo a desvalorizar o dólar e sobrevalorizar as moedas dos outros concorrentes. O mesmo fazem Europa e Japão. Dilma resiste e busca fazer igual ao que eles, lá fora, estão fazendo, isto é, jogando duro contra os especuladores, reservando a estes juro zero ou negativo para suas aplicações especulativas. O exemplo dado, durante a semana, pelo Banco Central Europeu, de supervisionar, de agora em diante, os bancos, cujas estratégias especulativas, desregulamentadoras, oligopolizadas, levaram o capitalismo ao colapso financeiro, coloca em xeque o discurso neoliberal, anti-nacional, abraçado pelo poder mídiático brasileiro, colocado a serviço do poder bancário olipolizado no Brasil, inconformado com a política nacionalista dilmista, decidida a estabelecer para os bancos uma outra possibilidade, ou seja, a de ganharem dinheiro, de agora em diante, não mais na especulação, mas na aposta na produção, coisa que, ao longo da história da Nova República, eles não fizeram. A reação do poder midático oligopolizado à presidenta da Argentina, Cristina Kirchner, também, se explica por ai, porque ao abrir possibilidades para outros grupos midiáticos surgirem, democratizando a oferta de informação, uma outra fonte informativa, nacionalista, entraria em cena. Certamente, onda sul-americana, nese sentido, tende a ampliar-se. Tem lógica uma Rede Globo, por exemplo, deter, em território nacional, mais de 120 empresas associadas, para sintonizar o discurso global anti-nacionalista, configurando crime de lesa pátria? O pder midiático que vive de concessão patrocinada pelo Estado nacional se coloca contra o próprio Estado nacional sob impacto da orientação econõmica nacionalista. Um novo tempo está chegando, minha gente.
CIC.

Ceia de Natal – de gilda kluppel / curitiba.pr

 

 

A mesa está posta

toalha e guardanapos

em tons vermelhos

para saudar aquele…

senhor das barbas brancas

ao invés de reis magos

somente os convidados.

Para seguir outra estrela

distante de Belém

e que conduz aos excessos

ao invés do perfume de mirra

o cheiro da comida.

Ele, de roupa pesada

torturado pelo calor de dezembro

largo cinturão preto

afrouxado para a ceia

os presentes no grande saco

as tantas quinquilharias

para alegrar uma noite

e talvez mais algumas horas

de fervoroso consumo

ao invés de Feliz Natal

agora se diz apenas Boas Festas.

Maria e José do lado de fora

espiam pela janela

procurando por Jesus querem saber

a cruz ainda pregada na parede da sala

alguém lembra do aniversário?

 

 

O CHAMADO DAS PEDRAS de CORA CORALINA

CORALINA  NAS PEDRAS

O chamado das Pedras

A estrada está deserta.
Vou caminhando sozinha.

Ninguém me espera no caminho.
Ninguém acende a luz.
A velha candeia de azeite
de lá muito se apagou.

Tudo deserto.
A longa caminhada.
A longa noite escura.
Ninguém me estende a mão.
E as mãos atiram pedras.
Sozinha…

Errada a estrada.
No frio, no escuro, no abandono.
Tateio em volta e procuro a luz.
Meus olhos estão fechados.
Meus olhos estão cegos.
Vêm do passado.

Num bramido de dor.
Num espasmo de agonia
Ouço um vagido de criança.
É meu filho que acaba de nascer.

Sozinha…
Na estrada deserta,
Sempre a procurar
o perdido tempo que ficou pra trás.

Do perdido tempo.
Do passado tempo
escuto a voz das pedras:

Volta…Volta…Volta…
E os morros abriam para mim
Imensos braços vegetais.

E os sinos das igrejas
Que ouvia na distância
Diziam: Vem… Vem… Vem…

E as rolinhas fogo-pagou
Das velhas cumeeiras:
Porque não voltou…
Porque não voltou…
E a água do rio que corria
Chamava…chamava…

Vestida de cabelos brancos
Voltei sozinha à velha casa deserta.

- Cora Coralina, “Meu Livro de Cordel”, 8°ed., 1998.

DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS / O N U

DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS

Adotada e proclamada pela resolução 217 A (III)
da  Assembleia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948

Preâmbulo

        Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo,
Considerando que o desprezo e o desrespeito pelos direitos humanos resultaram em atos bárbaros que ultrajaram a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que os homens gozem de liberdade de palavra, de crença e da liberdade de viverem a salvo do temor e da necessidade foi proclamado como a mais alta aspiração do homem comum,
        Considerando essencial que os direitos humanos sejam protegidos pelo Estado de Direito, para que o homem não seja compelido, como último recurso, à rebelião contra tirania e a opressão,
Considerando essencial promover o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações,
Considerando que os povos das Nações Unidas reafirmaram, na Carta, sua fé nos direitos humanos fundamentais, na dignidade e no valor da pessoa humana e na igualdade de direitos dos homens e das mulheres, e que decidiram promover o progresso social e melhores condições de vida em uma liberdade mais ampla,
Considerando que os Estados-Membros se comprometeram a desenvolver, em cooperação com as Nações Unidas, o respeito universal aos direitos humanos e liberdades fundamentais e a observância desses direitos e liberdades,
Considerando que uma compreensão comum desses direitos e liberdades é da mais alta importância para o pleno cumprimento desse compromisso,

A Assembleia  Geral proclama

        A presente Declaração Universal dos Diretos Humanos como o ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações, com o objetivo de que cada indivíduo e cada órgão da sociedade, tendo sempre em mente esta Declaração, se esforce, através do ensino e da educação, por promover o respeito a esses direitos e liberdades, e, pela adoção de medidas progressivas de caráter nacional e internacional, por assegurar o seu reconhecimento e a sua observância universais e efetivos, tanto entre os povos dos próprios Estados-Membros, quanto entre os povos dos territórios sob sua jurisdição.

Artigo I

        Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão  e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.

Artigo II

        Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua,  religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.

Artigo III

        Toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.

Artigo IV

        Ninguém será mantido em escravidão ou servidão, a escravidão e o tráfico de escravos serão proibidos em todas as suas formas.

Artigo V

        Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante.

Artigo VI

        Toda pessoa tem o direito de ser, em todos os lugares, reconhecida como pessoa perante a lei.

Artigo  VII

        Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.

Artigo VIII

        Toda pessoa tem direito a receber dos tributos nacionais competentes remédio efetivo para os atos que violem  os direitos fundamentais que lhe sejam reconhecidos pela constituição ou pela lei.

Artigo IX

        Ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado.

Artigo X

        Toda pessoa tem direito, em plena igualdade, a uma audiência justa e pública por parte de um tribunal independente e imparcial, para decidir de seus direitos e deveres ou do fundamento de qualquer acusação criminal contra ele.

Artigo XI

        1. Toda pessoa acusada de um ato delituoso tem o direito de ser presumida inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa.
2. Ninguém poderá ser culpado por qualquer ação ou omissão que, no momento, não constituíam delito perante o direito nacional ou internacional. Tampouco será imposta pena mais forte do que aquela que, no momento da prática, era aplicável ao ato delituoso.

Artigo XII

        Ninguém será sujeito a interferências na sua vida privada, na sua família, no seu lar ou na sua correspondência, nem a ataques à sua honra e reputação. Toda pessoa tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques.

Artigo XIII

        1. Toda pessoa tem direito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado.
2. Toda pessoa tem o direito de deixar qualquer país, inclusive o próprio, e a este regressar.

Artigo XIV

        1.Toda pessoa, vítima de perseguição, tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países.
2. Este direito não pode ser invocado em caso de perseguição legitimamente motivada por crimes de direito comum ou por atos contrários aos propósitos e princípios das Nações Unidas.

Artigo XV

        1. Toda pessoa tem direito a uma nacionalidade.
2. Ninguém será arbitrariamente privado de sua nacionalidade, nem do direito de mudar de nacionalidade.

Artigo XVI

        1. Os homens e mulheres de maior idade, sem qualquer retrição de raça, nacionalidade ou religião, têm o direito de contrair matrimônio e fundar uma família. Gozam de iguais direitos em relação ao casamento, sua duração e sua dissolução.
2. O casamento não será válido senão com o livre e pleno consentimento dos nubentes.

Artigo XVII

        1. Toda pessoa tem direito à propriedade, só ou em sociedade com outros.
2.Ninguém será arbitrariamente privado de sua propriedade.

Artigo XVIII

        Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular.

Artigo XIX

        Toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.

Artigo XX

        1. Toda pessoa tem direito à  liberdade de reunião e associação pacíficas.
2. Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação.

Artigo XXI

        1. Toda pessoa tem o direito de tomar parte no governo de seu país, diretamente ou por intermédio de representantes livremente escolhidos.
2. Toda pessoa tem igual direito de acesso ao serviço público do seu país.
3. A vontade do povo será a base  da autoridade do governo; esta vontade será expressa em eleições periódicas e legítimas, por sufrágio universal, por voto secreto ou processo  equivalente que assegure a liberdade de voto.

Artigo XXII

        Toda pessoa, como membro da sociedade, tem direito à segurança social e à realização, pelo esforço nacional, pela cooperação internacional e de acordo com a organização e recursos de cada Estado, dos direitos econômicos, sociais e culturais indispensáveis à sua dignidade e ao livre desenvolvimento da sua personalidade.

Artigo XXIII

        1.Toda pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego.
2. Toda pessoa, sem qualquer distinção, tem direito a igual remuneração por igual trabalho.
3. Toda pessoa que trabalhe tem direito a uma remuneração justa e satisfatória, que lhe assegure, assim como à sua família, uma existência compatível com a dignidade humana, e a que se acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social.
4. Toda pessoa tem direito a organizar sindicatos e neles ingressar para proteção de seus interesses.

Artigo XXIV

        Toda pessoa tem direito a repouso e lazer, inclusive a limitação razoável das horas de trabalho e férias periódicas remuneradas.

Artigo XXV

        1. Toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência fora de seu controle.
2. A maternidade e a infância têm direito a cuidados e assistência especiais. Todas as crianças nascidas dentro ou fora do matrimônio, gozarão da mesma proteção social.

Artigo XXVI

        1. Toda pessoa tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentais. A instrução elementar será obrigatória. A instrução técnico-profissional será acessível a todos, bem como a instrução superior, esta baseada no mérito.
2. A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. A instrução promoverá a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos, e coadjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz.
3. Os pais têm prioridade de direito n escolha do gênero de instrução que será ministrada a seus filhos.

Artigo XXVII

        1. Toda pessoa tem o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar do processo científico e de seus benefícios.
2. Toda pessoa tem direito à proteção dos interesses morais e materiais decorrentes de qualquer produção científica, literária ou artística da qual seja autor.

Artigo XVIII

        Toda pessoa tem direito a uma ordem social e internacional em que os direitos e  liberdades estabelecidos na presente Declaração possam ser plenamente realizados.

Artigo XXIV

        1. Toda pessoa tem deveres para com a comunidade, em que o livre e pleno desenvolvimento de sua personalidade é possível.
2. No exercício de seus direitos e liberdades, toda pessoa estará sujeita apenas às limitações determinadas pela lei, exclusivamente com o fim de assegurar o devido reconhecimento e respeito dos direitos e liberdades de outrem e de satisfazer às justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar de uma sociedade democrática.
3. Esses direitos e liberdades não podem, em hipótese alguma, ser exercidos contrariamente aos propósitos e princípios das Nações Unidas.

Artigo XXX

        Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpretada como o reconhecimento a qualquer Estado, grupo ou pessoa, do direito de exercer qualquer atividade ou praticar qualquer ato destinado à destruição  de quaisquer dos direitos e liberdades aqui estabelecidos.

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