CHICO CARUSO: As reações contra a sua charge sobre a tragédia de Santa Maria/RS

 

publicado em 28 de janeiro de 2013 às 14:32

Gilson Caroni Filho, no Facebook

Esta é a charge da primeira página de hoje de O Globo. Uma total afronta aos mortos e ao sentimento de seus parentes e amigos. Para travar a luta política, o jornal da família Marinho não faz humor; produz escárnio, ódio, desrespeito. Quem é pior? O jornal que publica ou o chargista que se dispõe a fazer o serviço sujo? Se você tem assinatura desse pasquim de direita, cancele. Se o compra nas bancas, deixe de fazê-lo. Amigos, não houve falhas ou gafes. A ” gracinha” do Caruso é a ilustração da linha editorial do jornalismo de esgoto.

*****

Rudá Ricci, em seu blog

Será que qualquer discussão política em nosso país tem que vir acompanhada deste infantilismo bestial? Não dá para elevar um pouco o nível, até atingir o nível da humanidade?

Cancelei minha assinatura do jornal O Globo porque, nas eleições presidenciais, os editores transformaram o jornal num panfleto eleitoral. Liguei informando (sei que foi ingênuo, mas meu fígado pedia) o motivo: se for para contribuir com alguma campanha, faço doação direta, sem intermediários. Vejo que a opinião de um assinante conta pouco, hoje, na trilha da difamação a qualquer custo, com ares de crítica. Não dá. É o abandono de tudo o que parece mais caro à quem tem alma. Mesmo para aqueles que desprezam ou nem sabem que têm alma.

*****

Renato Rovai, em seu blog

Esse jornalismo urubu perdeu completamente a capacidade de enxergar limites e de buscar alguma razoabilidade para a sua ação. Vale tudo para agradar aos que lhes pagam o soldo. Vale tudo para construir um discurso de ódio contra as posições políticas das quais não compartilham. Sinceramente, achei que só no limbo dos comentários anônimos fosse possível encontrar algo do nível desta charge do Chico Caruso publicada por Noblat. Sou um ingênuo. Esse pessoal que já havia transformado o acidente da TAM em um evento político, quer fazer o mesmo com Santa Maria. São carniceiros que evocam o que chamam de liberdade de imprensa para esse tipo de coisa.

*****

Gerson Carneiro, em comentário aqui

Charge de mau gosto sobre a tragédia em Santa Maria, de autoria de Chico Caruso, publicada na seção “Humor” no blogue do Ricardo Noblat. São esses aí os que “são sempre do contra” que a Dilma falou.

POEMA – de mario quintana / porto alegre.rs

 

 

Um poema é como um gole d´água bebido no escuro

Como um pobre animal palpitando ferido.

Como pequenina moeda de prata perdida para sempre

Na floresta noturna.

Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa

Condição de poema.

Triste.

Solitário. Único.

Ferido de mortal beleza.

Leandro Fortes: Nota de falecimento – por leandro fortes /são paulo.sp

A reação formal do PSDB ao pronunciamento da presidenta Dilma Rousseff sobre a redução nos preços das tarifas de energia elétrica, em todo o país, é o momento mais lamentável do processo de ruptura histórica dos tucanos desde a fundação do partido, em junho de 1988.

A nota, assinada pelo presidente da sigla, deputado Sérgio Guerra, de Pernambuco, não vale sequer ser considerada pelo leandro fortesque contém, mas pelo que significa. Trata-se de um amontoado de ilações primárias baseadas quase que exclusivamente no ressentimento político e no desespero antecipado pelos danos eleitorais inevitáveis por conta da inacreditável opção por combater uma medida que vai aliviar o orçamento da população e estimular o setor produtivo nacional.

Neste aspecto, o deputado Guerra, despachante contumaz dessas virulentas notas oficiais do PSDB, apenas personaliza o ambiente de decadência instalado na oposição, para o qual contribuem lideranças do quilate do senador Agripino Maia, presidente do DEM, e o deputado Roberto Freire, do PPS. Sobre Maia, expoente de uma das mais tristes oligarquias políticas nordestinas, não é preciso dizer muito. É uma dessas tristes figuras gestadas na ditadura militar que sobreviveram às mudanças de ventos pulando de conchavo em conchavo, no melhor estilo sarneysista. Freire, ex-PCB, transformou a si mesmo e ao PPS num simulacro cuja fachada política serve apenas de linha auxiliar ao pior da direita brasileira.

O PSDB surgiu como dissidência do PMDB que já na Assembleia Constituinte de 1986 caminhava para se tornar nisto que aí está, um conglomerado de políticos paroquiais vinculados a interesses difusos cujo protagonismo reside no volume, a despeito da qualidade de muitos que lá estão. A revoada dos tucanos parecia ser uma lufada de ar puro na prematuramente intoxicada Nova República de José Sarney. À frente do processo, um grande político brasileiro, Mário Covas, que não deixou herdeiros no partido. De certa forma, aquele PSDB nascido sob o signo da social democracia europeia, morreu junto com Covas, em 2001. Restaram espectros do nível de José Serra, Geraldo Alckmin e Álvaro Dias.

Aliás, o sonho tucano só não morreu próximo ao nascedouro, em 1992, porque Covas impediu, sabiamente, que o PSDB se agregasse ao moribundo governo de Fernando Collor de Mello, às vésperas do processo de impeachment. A mídia, em geral, nunca toca nesse assunto, mas foi o bom senso de Covas que barrou o movimento desastrado liderado por Fernando Henrique Cardoso, que pretendia jogar o PSDB na fossa sanitária do governo Collor em troca de assumir o cargo de ministro das Relações Exteriores. FHC, mais tarde chanceler e ministro da Fazenda de Itamar Franco, e presidente da República por dois mandatos, nunca teria chegado a subprefeito de Higienópolis se Covas não o tivesse impedido de aderir a Collor.

Fala-se muito da extinção do DEM, apesar do suspiro do carlismo em Salvador, mas essa agremiação dita “democrata” é um cadáver insepulto há muito tempo, sobre o qual se debruçam uns poucos reacionários leais. É no PSDB que as forças de direita e os conservadores em geral apostam suas fichas: há quadros melhores e, apesar de ser uma força política decadente, ainda se mantém firme em dois dos mais importantes estados da federação, São Paulo e Minas Gerais.

E é justamente por isso que a nota de Sérgio Guerra, um texto que parece ter sido escrito por um adolescente do ensino médio em pleno ataque hormonal de rebeldia, é, antes de tudo, um documento emblemático sobre o desespero político do PSDB e, por extensão, das forças de oposição.

Essas mesmas forças que acreditam na fantasia pura e simples do antipetismo, do antilulismo e em outros venenos que a mídia lhes dá como antídoto ao obsoletismo em que vivem, sem perceber que o mundo se estende muito além das vontades dos jornalões e da opinião de penas de aluguel que, na ânsia de reproduzir os humores do patrão, revelam apenas o inacreditável grau de descolamento da realidade em que vivem.

Provações – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

Apresentou-se para tirar sangue. Apresentou documentos, carteiras, cartões, fotos e comprovantes. Ninguém haveria de tolerar que se passasse por quem não é. Mas tirar sangue não é só chegar e dizer, Amilcar Nevesvim aqui para tirar sangue. Exige-se requisição de médico competente, isto é, credenciado. Exige-se alguém doente ou, pelo menos, um sujeito passível de adoentar-se. Desde que identificado por impressões digitais digitalizadas, quer dizer, eletrônicas, e coisas assim.

 

Passada toda a provação, ou melhor, superadas todas as provas a que se teve que submeter, após formulários e assinaturas, refugiou-se no assento da cadeira mais discretamente afastada de tudo, ignorou a tela tagarela de televisão à sua frente, às suas costas e aos seus lados, selou os ouvidos e abriu o livro que trazia, um pequeno volume em edição de bolso, pondo-se, alheio, a lê-lo.

 

Livro de bolso só faz sentido em terras frias, habitadas por gente que não tira um sobretudo, sobretudo na rua e no metrô, o que não é o caso, supõe-se, quando o cara vai fazer amor com sua legítima senhora e, especialmente, quando se vai banhar. Sobretudos costumam ter, acima de tudo, vastos bolsos onde se podem acomodar com prazer e conforto um ou mais livros de bolso, sem qualquer incômodo para ditos livros nem para os seus felizes (e eventualmente cultos) portadores.

 

Nos trópicos, tal costume não pode mesmo vingar. Como portar nos bolsos – em quais bolsos? – qualquer tamanho de livro? Se muita gente já acha estranho que alguém use camisa polo com bolsinho do lado esquerdo, onde mal cabe uma caneta esferográfica de feira e no qual dinheiro e documentos encharcam-se de suor mal ameaçam despontar os primeiros calores do verão (que costumam insinuar-se, precoces, já em pleno inverno), o que dirá de um pobre mortal que carregue livros nos bolsos? Livros serão sempre objetos de biblioteca até o dia em que algum cupim deles inevitavelmente dê cabo, como mandam os usos e os costumes.

 

Ainda assim, aquela pessoa que saiu de casa disposta a tirar sangue sentou-se surda no banco mais distante e abriu o livro de bolso que trazia na mão (à falta sobretudo de bolsos adequados, como cá já se demonstrou à exaustão) e pôs-se a ler por escassos minutos até que a moça de guarda-pó branco tocou-lhe o ombro e, em tom admoestatório, perguntou-lhe se não sabia que, para ser atendido, deveria ter deixado no guichê apropriado o papelucho que lhe entregaram.

 

Ante suas negativas, ela lhe disse, a fim de evidenciar o prejuízo que tivera em não atentar para as orientações recebidas, que devia estar ali, estupidamente, esperando há muito tempo. Nada disso, respondeu, não deu tempo de ler nem mesmo uma única página do livro. E que livro é esse, ela perguntou, espiando a capa e interessando-se pelo título. É um romance. Humm, ainda está no início do livro, já apareceu o casal? Casal? É, não é um romance? Sim. Então, todo romance tem um casal, de que trata esse? De um cara que decide matar o pai. Que horror, como alguém pode pensar em tirar a vida de quem lhe deu a vida? Isso às vezes acontece. E é um romance, hein, imagine se fosse uma tragédia: seria uma catástrofe, um dilúvio, o fim do mundo! Bem, o pai passou a vida toda tentando acabar com a vida do filho. Isso não justifica, me desculpe.

 

Terminou o seu trabalho e disse, vou procurar e ler esse romance, mas se não gostar, para o seu próprio bem: não me apareça na minha frente pra eu lhe tirar sangue de novo. Sabe como é, quem avisa amiga é.

A PINTURA E A VIDA DE VAN GOGH – por almandrade / salvador.ba

“Ai, ai, as pinturas mais belas são as que sonhamos deitados na cama, fumando um cachimbo, mas nunca pintamos.” Van Gogh

Uma vida curta e conturbada para uma longa biografia de mais de mil
páginas, Van Gogh, filho de pastor, depois de fracassar em tudo que
Almandrade 1
tentou fazer, decidiu ser pintor. Um pintor também “fracassado”, ou
melhor incompreendido pelo seu tempo, cuja obra imensa e invejável que
construiu em sua rápida existência penosa e turbulenta, vem
inquietando e provocando as gerações posteriores. O livro escrito por
Steven Naifeh e Gregory White Smith, é uma das biografias mais
extensas e completas de um artista que se tornou um mito da arte
moderna. Do nascimento do pintor à sua morte aos trinta e sete anos,
os autores vasculharam a vida de um navegante solitário, remando
sempre contra a correnteza.

A biografia de um artista não explica, nem justifica sua obra, mas
elas se comunicam, diria o filósofo francês Merleau-Ponty. Em se
tratando de Van Gogh e sua vida difícil, com episódios trágicos, é
possível ver uma relação estreita entre sua obra e o modo como viveu.
Mesmo com todas as dificuldades não desistiu da ilusão de ser pintor.
Desde a infância com um olhar desconfiado sobre o mundo, crises de
raivas, caminhadas solitárias por lugares distantes, quem sabe para
distanciar-se de tudo e de todos. Criado num ambiente religioso,
protegido dos excessos do pecado, privado de emoção e cor, criou um
mundo colorido e emotivo como meio de transgressão.

Uma vida que colecionava infelicidades, zombarias e desafetos, buscava
encontrar na arte o que não via na vida. Talvez o mais deprimido dos
artistas, mas com uma produtividade incansável, como se estivesse
sublimando na tela a infância não vivida e as emoções reprimidas.
Ariscou a vida no trabalho da pintura, produziu como um louco mas sem
perder a razão, indispensável ao ofício de pintor, “dedico-me a minhas
telas com toda a minha mente”, escreveu para o irmão Theo. Acrescentou
ao mundo a verdade da pintura.

Tinha um único amigo, confidente, incentivador e responsável pelo seu
sustento, com quem se correspondia e também tinha atritos, o irmão
mais novo, Theo. Sem negar a rivalidade familiar, Theo era o filho que
deu certo, tinha profissão, ajudava no sustento da família, tinha uma
vida correta dentro do esperado nos padrões da classe média. Van Gogh
era o contrário, com sua pintura ridicularizada pelos seus
contemporâneos, desprovidos de informações para compreendê-las, sem
aceitação no mercado. Quanta aflição. Somente mais de cinco anos
depois de sua morte é que veio a ser reconhecido e celebrado.

Queria pintar o que via, mas via o que pintava. Uma pintura de uma
força irresistível, cor firme, céu agitado, uma forma particular de
ver as coisas e a paisagem. Vida e obra se misturavam, o temperamento
rebelde do artista, diagnosticado com várias enfermidades, – entre
elas esquizofrenia, – desentendimentos, crises existenciais, a amizade
tumultuada com Paul Gauguin, amputação da orelha, até a morte trágica,
reavaliada no livro. Os autores descartam a hipótese, mais conhecida,
de suicídio do pintor. Com um inventário de provas, acreditam em
assassinato acidental. Com base em laudos médicos, que informam que a
arma do crime foi disparada de certa distância do corpo, declaração do
próprio artista que achava o suicídio “uma covardia moral” etc. Um
crime misterioso, sem testemunha e sem o local exato do disparo, que
até a arma desapareceu, mas não tão misterioso quanto a sua arte.

Suicídio ou assassinato? Longe de mim de tomar partido, não sou
advogado nem perito criminal. As condições precárias em que viveu numa
sociedade hostil contribuíram, sem dúvida, para o final brutal, por um
ferimento de bala na parte superior do abdômen. Mas de uma coisa
ninguém duvida, da fascinação e da certeza de sua pintura que muitoVincent_van_Gogh
acrescentou à história da arte. Uma obra inquestionável que ultrapassa
os acidentes da vida. Quantos artistas na história viveram à margem do
sistema social, com uma vida pouco digna e construíram uma obra que
sensibiliza gerações.

O livro faz uma revelação importante, a meu ver, para o meio de arte,
hoje em dia, recheado de qualquer coisa e sintomas culturais. Os
autores mostram um Van Gogh com uma sólida formação cultural, leitor e
freqüentador de museus, reflexivo, que planejava suas telas antes de
realizá-las e as pintava na mais plena lucidez. “Chamam um pintor de
louco se vê as coisas com olhos diferentes dos deles,” dizia nas suas
correspondências para Theo. Sua pintura não era obra do acaso ou da
loucura, cada gesto, cor e pincelada eram a manifestação de um
pensamento.

A problemática e a ambígua relação entre arte e loucura vem à tona. Um
artista que passou temporadas internado num abismo moderno chamado
hospício, nos últimos anos de sua vida, onde a liberdade humana é
restrita, nos deixou uma experiência artística longe do estado de
loucura. Através da arte Van Gogh escorregou da psicose, a sua
pintura, se nasceu na angústia pessoal, a realidade foi transformada a
partir da vontade consciente de um sujeito.

É quase impossível a compreensão da vida humana sem a presença da
arte, a irracionalidade está presente na estrutura interna da obra de
arte, nos adverte o filosofo alemão Heidegger. Até mesmo a pintura de
uma visualidade racional, como a de um Mondrian, não deixa de ser um
fenômeno irracional. A suposta loucura na arte de Van Gohg é
perfeitamente reconhecida e apreendida em nosso mundo racional.

Se contemplamos nas suas telas paisagens, retratos, campos de trigo,
girassóis, corvos, é um problema nosso. Ele fez apenas pintura e por
isso nos inquieta até hoje e vai inquietar muitas gerações enquanto a
arte existir. Se os autores dedicaram dez anos para escrever esta
biografia é porque o seu personagem se entregou ao mundo para
transformá-lo em pintura. Lembrei-me de Paul Valery. Van Gogh sabia o
que estava pintando e para isso ele precisava não só de telas, tintas
e pincéis; precisava também da razão e da imaginação.

Almandrade

(artista plástico, poeta e arquiteto)

————————————————

VAN GOGH – A VIDASteven Naifeh e Gregory White Smith

Trad: Denise Bottmann

São Paulo: Companhia das Letras, 2012

DILMA FALA SOBRE 2014: “MEU MANDATO É DE OITO ANOS”

DILMA FALA SOBRE 2014: “MEU MANDATO É DE OITO ANOS”

:  

Presidente elimina dúvidas a respeito da corrida ao segundo mandato no momento em que se especula sobre a candidatura do ex-presidente Lula e sua volta ao poder; declaração de Dilma Rousseff foi dada a um interlocutor que recebeu no Palácio do Planalto

24 DE JANEIRO DE 2013 ÀS 09:43

 

247 – Uma declaração dada a um interlocutor recebido no Palácio do Planalto revela a primeira reação da presidente Dilma Rousseff diante da dúvida sobre a candidatura do PT em 2014. “Meu mandato é de oito anos”, disse ela, de acordo com reportagem do jornal Valor Econômico desta quinta-feira 24. A declaração reafirma o que declararam nesta semana vários líderes do PT durante evento com intelectuais latino-americanos no Instituto Lula, como o presidente da entidade e braço direito de Lula, Paulo Okamotto, que disse ao 247: “Nossa candidata é a Dilma”.

 

A partidarização da imprensa – por venício a. de lima / são paulo.sp

Se o leitor (a) ainda precisa de alguma comprovação sobre o comportamento partidário dos jornalões brasileiros, sobretudo nos períodos eleitorais, recomendo a leitura do excelente A Ditadura Continuada – Fatos, Factoides e Partidarismo da Imprensa na Eleição de Dilma Rousseff, resultado de uma cuidadosa pesquisa realizada por Jakson Ferreira de Alencar, recentemente publicado pela editora Paulus.

O livro se concentra na cobertura política oferecida pelo jornal Folha de S.Paulo e parte da divulgação da falsa ficha Folha3“criminal” dos arquivos do Dops da militante da VAR-Palmares Dilma Rousseff, em 4 de abril de 2009, então pré-candidata à Presidência da República.

Jakson Alencar faz um acompanhamento minucioso de todo o caso, ao longo dos três meses seguintes, registrando a “semirretratação” do jornal, em matéria antológica para o estudo da ética jornalística, na qual se reconhece como erro “tratar como autêntica uma ficha cuja autenticidade, pelas informações hoje disponíveis, não pode ser assegurada – bem como não pode ser descartada” (p. 67).

Chama a atenção no episódio a “condução”, pela repórter da Folha, da entrevista – que mais parece um interrogatório – realizada com Dilma. Há uma indisfarçável tentativa de comprovar a hipótese do jornal de envolvimento da entrevistada não só com o sequestro (não realizado) do então ministro Delfim Netto, mas também com a luta armada. A entrevista de outro militante, Antonio Espinosa, usada como suporte à tese do jornal, jamais foi publicada na íntegra, apesar de os trechos publicados haverem sido reiteradamente desmentidos pelo entrevistado.

Jakson Alencar mostra, com riqueza de detalhes, o comportamento arrogante do jornal, ao tempo em que a própria Dilma tratava de comprovar a falsidade da ficha, além do descumprimento sistemático de seu próprio Manual de Redação. Fica clara a “tese central de toda a reportagem, segundo a qual a resistência à ditadura é criminosa, e não o regime totalitário e violento, implantado de maneira ilegal” (p. 95) e, mais ainda, que essa tese “continuou sendo difundida em muitos veículos da imprensa brasileira durante todo o período da campanha eleitoral de 2010”.
A segunda parte do livro trata do período da campanha eleitoral, de abril a agosto de 2010. Aqui o ponto de partida é o globo11º Fórum Democracia e Liberdade de Expressão, promovido pelo Instituto Millenium, em março. Como se sabe, essa ONG é um dos think tanks da direita conservadora brasileira, financiado, entre outros, pelos principais grupos da grande mídia. Segundo Jakson Alencar, teria surgido nesse fórum a “Operação Tempestade no Cerrado”, que orientaria a cobertura política dos jornalões e teria como objetivo impedir a eleição de Dilma Rousseff (p.105).

Concentrado na Folha de S.Paulo, o livro mostra o então esforço cotidiano para ressuscitar escândalos passados e a busca de novos escândalos do governo do PT, além de tropeços e temas negativos relativos a Dilma. Paralelamente, o tratamento leniente e omisso dispensado ao candidato do PSDB.

Na terceira e última parte, o livro aborda a Operação segundo turno e cobre o período que vai de 26 de agosto a 3 de outubro. A partir do momento em que as pesquisas de intenção de voto confirmam a tendência de eleição de Dilma, tem início “uma maciça ação da imprensa contra a candidata às vésperas da eleição e uma chamada ‘bala de prata’, com o intuito de alterar os rumos da campanha” (p. 145).

Destacam-se nesse período “acusações, ilações e insinuações que viraram condenações sumárias” (p. 147), sobretudo o caso do suposto “dossiê” preparado pelo PT sobre dirigentes tucanos, com dados fiscais sigilosos, e o “escândalo” envolvendo a então substituta de Dilma na Casa Civil (registro: o Tribunal Regional Federal da 1ª Região arquivou o processo contra Erenice Guerra por suposto tráfico de influência, depois de acatar recomendação do Ministério Público Federal e por decisão do juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10ª Vara Federal, em 20 de julho de 2012).

OESPNas suas conclusões, Jakson Alencar afirma que “a cobertura (da Folha de S. Paulo) (…) misturou frequentemente fatos com opiniões e boatos, somando-se a isso outros elementos, como torcida, manifestação de desejos travestidos de informação, argumentação frágil e com pouca lógica, estratégias óbvias e já desgastadas pelo uso repetitivo em diversas eleições, incapacidade de analisar processos econômico-sociais para construir posicionamentos e críticas com um mínimo de sofisticação; teses e hipóteses furadas; narrativas e entrevistas enviesadas; fontes de baixíssima credibilidade” (p. 252).

Curiosamente (ou não?), na mesma época em que a Paulus publicava o livro de Jakson Alencar, a PubliFolha lançava na Coleção “Folha Explica” o livro sobre a própria Folha, escrito por Ana Estela de Souza Pinto, ela mesma jornalista da casa desde 1988. Neste, o “erro” do episódio da ficha falsa de Dilma no Dops merece registro em função do “fato de a Folha ter voltado sua bateria investigativa para todos os governantes, de diferentes partidos”. Segue-se um parágrafo que reproduz a “retratação” que a Folha ofereceu, já citada, na qual, apesar de todas as evidências em contrário, se afirma que a autenticidade da ficha do Dops “não pode ser assegurada – bem como não pode ser descartada”. Nem uma única observação sobre a cobertura partidária das eleições de 2010.

O resultado de tudo isso, como se sabe, é que Dilma Rousseff – apesar da grande mídia e do seu partidarismo – foi eleita presidenta da República.

A Ditadura Continuada – Fatos, Factoides e Partidarismo da Imprensa na Eleição de Dilma Rousseff, de Jakson Alencar, demonstra e confirma o que já sabemos: os jornalões brasileiros, além de partidarizados, não têm compromisso nem mesmo com seus manuais de redação.

João Ubaldo Ribeiro completa hoje 72 anos – 23/01/2013

23.01 .13

(escritor, jornalista, roteirista e professor brasileiro)

ubaldo

“Se não entendo tudo, devo ficar contente com o que entendo. E entendo que vejo estas árvores e que tenho direito a minha língua e que posso olhar nos olhos dos estranhos e dizer: não me desculpe por não gostar do que você gosta; não me olhe de cima para baixo; não me envergonhe de minha fala; não diga que minha fala é melhor do que a sua; não diga que eu sou bonito, porque sua mulher nunca ia ter casado comigo; não seja bom comigo, não me faça favor; seja homem, filho da puta, e reconheça que não deve comer o que eu não como, em vez de me falar concordâncias e me passar a mão pela cabeça; assim poderei matar você melhor, como você me mata há tantos anos.”

.

- João Ubaldo, in Vila Real.

As ligações de atores com policiais do porão da ditadura – por euler de frança belém

euler
Euler de França Belém
.
Lúcio Mauro: ator da Globo que era amigo dos militares
do porão

“Memórias de uma Guerra Suja”, depoimento do delegado Cláudio Guerra aos repórteres Marcello Neto e Rogério Me­deiros, conta que os militares do porão articulavam no restaurante Angu do Gomes, no Rio de Janeiro. Lá, com anuência dos proprietários, o coronel Freddie Perdigão e o comandante Antônio Vieira “decidiam” os caminhos da repressão e quem ia morrer.

“O Angu do Gomes fazia parte de um complicado esquema que arrecadava fundos para as nossas atividades. Ali aconteceram vários encontros da nossa irmandade, manipulados habilmente pelo coronel Freddie Perdigão. Ali conspiramos contra [o presidente Ernesto] Gei­sel, Golbery [do Couto e Silva] e [João] Figueiredo. No restaurante foram planejados assassinatos comuns e com motivações políticas, e discutidos os vários atentados a bomba que tinham como objetivo incriminar a esquerda e dificultar, ou impedir, a redemocratização do país”, historia o livro.

Há informações sobre contatos de atores com figuras da repressão, infelizmente mal exploradas por Cláudio Guerra e pelos repórteres. O ator Lúcio Mauro, da TV Globo, “participava dos encontros” com militares e chegava a cozinhar para eles. O delegado não avança sobre qualquer relacionamento mais sério entre o humorista e a ditadura. O ator Jece Valadão “saía em operações” com os policiais, mas não em missões políticas. “Gostava de ver a execução de bandidos e Mariel Mariscot o levava.” Carlos Im­perial, Oswaldo Sargentelli, Ciro Batelli e José Bonifácio de Oli­veira Sobrinho, o Boni, frequentavam o Angu do Gomes. Batelli seria ligado aos bicheiros Castor de Andrade e Ivo Noal. Os bicheiros apoiavam, com logística e dinheiro, as ações dos homens do porão.

O apresentador de TV Wagner Montes também mantinha ligações com os homens do porão, notadamente àqueles ligados ao delegado Fleury, como Fininho, Joe e Mineiro. “Eram inseparáveis.” O cantor, ator e comediante Moacir Franco também “cooperava”.

Curiosamente, ao resenhar o livro, a maioria das publicações ignorou as ligações dos atores, jornalistas e jornais com militares ligados à tortura de militantes da esquerda. Cláudio Guerra declara: “A ‘Folha de S. Paulo’ apoiou informalmente as ações da Oban. Os carros que distribuíam jornais eram usados em campanhas pela prisão de comunistas. Esses carros eram muito úteis porque disfarçavam bem, ninguém suspeitaria que membros da Oban estivessem ali dentro preparados para agir”. Os repórteres Marcelo Netto e Rogério Medeiros apressam-se, numa nota de rodapé, a defender o jornal: “A direção da ‘Folha’ sempre negou ter conhecimento do uso de seus carros para isso”. Na verdade, Octávio Frias de Oliveira, o falecido publisher, admitiu, sim, que o uso dos veículos era (é) um fato, mas garantiu ao filho, Otavio Frias Filho, que não tinha participação pessoal nenhuma com os militares. A história está registrada na biografia de Frias pai e no livro “História da Imprensa Paulista”, de Oscar Pilagallo. Supostamente, não havia como reagir. Mas os carros do “Estadão” não foram utilizados.

Outra história não mereceu registro nas resenhas: “A bomba que explodiu na casa do dono das Organizações Globo foi, na verdade, parte de uma estratégia formulada por ele mesmo — Roberto Marinho. Foi simulado. A ordem partiu do coronel Perdigão, e eu mesmo coloquei a bomba, mas tudo foi feito a pedido do empresário, para não complicá-lo com os outros veículos de comunicação, para se defender da desconfiança de suas relações com os militares. Para todo mundo ele foi a vítima. Roberto Marinho estava ficando muito visado pela esquerda e pela própria imprensa. Achavam que ele apoiava a ditadura”. Cláudio Guerra contou com o apoio do sargento Jair, de um tenente e do policial civil Zé do Ganho.

Cientistas criam revestimento que repele líquido e não molha

Do café ao ácido sulfúrico, material é resistente a quase cem líquidos.
Descoberta pode levar a desenvolvimento de tecido que nunca mancha.

 

Pesquisadores da Universidade de Michigan desenvolveram um revestimento que repele uma ampla variedade de líquidos, que vão do café ao ácido sulfúrico, fazendo-os saltar para fora da superfície tratada. A descoberta foi publicada na última edição do “Journal of the American Chemical Society”.

Composta por pelo menos 95% de ar, a cobertura foi desenvolvida em nanoescala (um nanômetro é um bilionésimo de metro).

De acordo com os cientistas, gotículas de soluções que normalmente danificariam uma camisa e até mesmo machucariam a pele são repelidas quando tocam a superfície. “Praticamente qualquer líquido que você jogue no revestimento salta direito para fora sem molhar”, explicou o professor Anish Tuteja, coautor do artigo.

Cientistas descobrem revestimento que repele líquidos (Foto: Reprodução/ University of Michigan )Cientistas descobrem revestimento que repele líquidos (Foto: Reprodução/ University of Michigan )

Além de ser super-resistente a manchas, o revestimento pode ter diversas aplicações como., por exemplo, tornando roupas impermeáveis para proteger soldados ou cientistas que lidam com produtos químicos. A descoberta também traz implicações para a fabricação de avançadas tintas à prova d’água, visando reduzir os danos que a umidade provoca em nas estruturas de navios, por exemplo.

Anish Tuteja e seus colegas testaram mais de cem líquidos e só encontraram dois capazes de penetrar o revestimento: os clorofluorcarbonetos químicos, utilizados em refrigeradores e condicionadores de ar.

Em laboratório, os cientistas observaram a superfície revestida repelir café, molho e óleo vegetal, além de ácido clorídrico e ácido sulfúrico tóxico que podem queimar a pele. De acordo com Tuteja, o revestimento também é resistente à gasolina e a vários álcoois.

Cientistas testeram mais de 100 líquidos e somente dois deles conseguriram perfurar revestimento (Foto: Divulgação/University of Michigan)Revestimento é resistente a café e ácido sulfúrico
(Foto: Divulgação/University of Michigan)

Composição
Para aplicar o revestimento às superfícies, os cientistas utilizaram uma técnica chamada de “electrospinning” (deposição eletrostática). Até agora, eles revestiram pequenos pedaços de tela e faixas de tecido do tamanho de um selo postal.

O revestimento é uma mistura de partículas plásticas de um tipo específico de borracha e cubos resistentes a líquido, desenvolvidos em nanoescala pela Força Aérea, contendo carbono, flúor, silício e oxigênio.

De acordo com o estudo, o revestimento “abraça” os poros da superfície em que é aplicado e cria uma teia mais fina com esses poros. “Isso significa que entre 95% e 99% do revestimento é, na verdade, formado por bolsas de ar, de modo que qualquer líquido que entre em contato com o revestimento praticamente nem está tocando uma superfície sólida”, diz o estudo.

Cientistas testeram mais de 100 líquidos e somente dois deles molharam as telas e tecido (Foto: Divulgação/University of Michigan )Cientistas testeram mais de 100 líquidos e somente
dois deles molharam as telas e tecidos
(Foto: Divulgação/University of Michigan )

“Normalmente, quando os dois materiais se aproximam, eles transferem uma pequena carga positiva ou negativa sobre o outro, e logo que o líquido entra em contato com a superfície sólida, ele começar a espalhar-se,” explica Tuteja. “O que nós fizemos foi reduzir drasticamente a interação entre a superfície e a gota”.

Com quase nenhum incentivo para propagação, as gotículas permanecem intactas, interagindo apenas com as suas próprias moléculas, mantendo uma forma esférica, e literalmente quicando no revestimento.

 

.

Do G1, em São Paulo

ENTREVISTA DE FREI BETTO: ‘É ingenuidade pensar que tudo acabou’, sobre espiões da ditadura

‘É ingenuidade pensar que tudo acabou’, diz Frei Betto sobre espiões da ditadura

18 de janeiro de 2013

Um dos principais nomes da Igreja Católica na luta contra o regime militar e ex-assessor da Presidência diz que tem certeza que o MST está entre os alvos dos militares hoje

do iG

“É muita ingenuidade nossa pensar que tudo acabou”. A frase é do escritor Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, um dos principais nomes da Igreja Católica brasileira na resistência à ditadura militar (1964-1985).

Preso entre 1969 e 1974, acusado de integrar a Ação Popular ao lado do guerrilheiro Carlos Marighella, Frei Betto está convencido de que os militares ainda agem nos bastidores do Planalto espionando as mais altas autoridades do país, inclusive a Presidência da República.

Em entrevista ao iG, Frei Betto, que foi assessor especial da Presidência no primeiro governo Lula, disse ter alertado o então chefe de gabinete Gilberto Carvalho sobre a possibilidade de escutas telefônicas no Palácio do Planalto. “Estou convencido de que isso existe até hoje. Não que eles (militares) estejam me seguindo ou espionando. Mas tenho certeza que o MST e até a Presidência da República, sim”, afirmou.

iG – Como era a atuação da Igreja na proteção dos perseguidos pela repressão? Registros mostram que até bispos de direita como d. Eugênio Sales ajudavam a esconder alvos da ditadura.

Frei Betto – A minha pergunta é por que o d. Eugênio (morto no último dia 9, aos 91 anos) fez isso para estrangeiros e não fez para brasileiros? Essa é a minha pergunta.

iG – Existia uma rede de solidariedade na Igreja, uma rota de fuga com conexões no exterior?

FB – Meu trabalho principal foi organizar essa rota de fuga. Mandei umas 10 pessoas. Em geral, sequestradores do embaixador americano (Charles Elbrick). Ninguém acredita, a repressão muito menos, mas a verdade é que eu nunca fui na fronteira. No entanto, eu dominava o esquema da fronteira porque o (Carlos) Marighella tinha me passado como funcionava. Só tinha que receber as pessoas em Porto Alegre e dar a dica. Tinha duas passagens. Uma em Santana do Livramento com Rivera, no Uruguai, e outra em Passo de Los Libres, na Argentina. Então eu tinha que dar as coordenadas e passar um telegrama em código para a pessoa que ia ficar lá esperando e já sabia que alguém ia chegar lá com uma revista na mão, aquelas coisas. E passava. Alguns voltaram. Outros foram presos no Uruguai, Mas havia muita solidariedade em igrejas, conventos etc.

iG – Protestantes e outros grupos religiosos participavam dessa rede de solidariedade?

FB – Muito. O pastor Jamie Wright, por exemplo. O irmão dele foi assassinado, Paulo Wright, líder da AP (Ação Popular). Geralmente em Igrejas históricas como a Batista, Luterana, Presbiteriana, Metodista, judeus. Naquela época quase não existiam as neopentecostais. E todos eles divididos a exemplo da Igreja Católica.

iG – Como era lidar com os infiltrados?

FB – Era muito difícil. Quando estávamos presos no Dops, em 1969, havia lá o delegado Alcides Cintra Bueno que era chamado “delegado do culto” por ser especializado em religiões. Era um homem de formação católica meio carola, mas torturador. Como ele conhecia muito a mecânica das Igrejas era o que mais interrogava religiosos. Nós vimos frades de hábito que eram agentes dele e iam lá dar informação sobre subversão na Igreja. Além do Lenildo Tabosa que era do Jornal da Tarde, assistiu ao interrogatório do Frei Fernando e a vida inteira carregou esta cruz fazendo de tudo para negar. Mas nunca conseguiu convencer, Fernando viu.

iG – Até descobrirem a existência de infiltrados muitas pessoas caíram?

FB – Sim. Era muito difícil descobrir infiltrados. Muitos a gente detectou, mas tem gente que colaborou com a ditadura e vai morrer incólume. A não ser que tenha dado uma mancada. Tem um seminarista dominicano que a gente não sabe se ele já era colaborador quando entrou. Depois, na USP, descobriram que ele era agente da repressão. Ele sumiu do mapa durante uns cinco anos e então recebemos informação de que ele tinha sido levado para um treinamento na escola da CIA no Panamá. Quando eu saí da prisão ele reapareceu todo amiguinho dizendo que estava com saudade e falei para ele, cara a cara, “não sei se você é ou não é, mas não tenho a menor confiança em você e por favor não me apareça mais”.

iG – Essa paranoia durou até depois do fim da ditadura, não?

FB – Quando saí da prisão fui morar numa favela em Vitória e fiquei lá de 1974 a 1979. Já em 1977 comecei a voltar a São Paulo para trabalhar com educação popular. Quando Fernando Henrique, Almino Afonso e Plínio de Arruda Sampaio voltaram para o Brasil eles vieram com a ideia de fundar um partido socialista. Eu, naquele momento, estava no auge da mobilização pelas CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) e eles me convocaram para uma reunião na casa de um jornalista, cujo nome não vou citar pois estou subjetivamente convencido que esta pessoa era da repressão mas não tenho prova. Sei que me estranhou o fato de ele ser um repórter e ter um padrão de vida tão alto. E tome vinho, tome vinho, conversamos, eles tentavam me convencer que tinham a forma, um partido socialista, e eu entrava com a massa, as CEBs. Eu respondi que ia surgir um partido de baixo para cima, isso em 1978, por intuição, e depois surgiu o PT em 1980. Marcamos outra conversa, o jornalista insistiu para que fosse novamente na casa dele e isso acabou num impasse. Até que um frade daqui, depois de muitos anos, me perguntou se eu havia participado de uma reunião na casa de fulano, com Fernando Henrique (Cardoso, ex-presidente) e Plínio (de Arruda Sampaio) etc. Perguntei como ele sabia daquilo e o frade respondeu que um general amigo dele ligado ao SNI foi quem contou. Aí caiu a ficha. Tinha muito esse tipo de coisa. Recentemente peguei no arquivo público nacional todo meu dossiê. Ele vai até 1992. E tem coisas absolutamente inverossímeis.

iG – O senhor ainda toma algum cuidado especial?

FB - Estou convencido de que isso existe até hoje. Não que eles (militares) estejam me seguindo ou espionando. Mas tenho certeza que o MST e até a Presidência da República, sim. Seria muita ingenuidade nossa achar que o Planalto não é espionado. É o centro, o coração do poder. Quando trabalhei no Planalto (no primeiro governo Lula) duas coisas me chamaram atenção. Primeiro que todos os garçons eram das Forças Armadas. E o garçom é a pessoa que entra no meio da reunião, que enquanto está servindo o cafezinho fica escutando tudo, fica amigo das secretárias, tem trânsito livre até na sala do presidente. Não entra o ministro, mas entra o garçom. E outra coisa foi num dia em que o Lula estava viajando, subi na sala do Gilberto Carvalho (então chefe de gabinete da Presidência) e vi um pessoal na sala do Lula cheio de equipamentos. Perguntei o que era aquilo e o Gilberto disse que era o pessoal da varredura do Exército. Eu perguntei para o Gilberto qual a garantia de que eles não tiram um equipamento de gravação e colocam outro. Gilberto disse que nunca tinha pensado nisso.

iG – Mas seriam os militares?

FB – Sim. Os militares.

iG – Com qual objetivo?

FB – O objetivo é simples. Informação é poder.

iG – O que se sabe é que existe uma grande rede de espionagem em Brasília mas por razões econômicas, chantagem etc.

FB – Os militares neste ponto são mais… é como nos EUA. A CIA não prende ninguém. Ela só trabalha com informação. Quem prende é o FBI. É muita ingenuidade nossa pensar que tudo acabou.

iG – Os militares teriam um projeto de retomar o poder?

FB – Não. Eles têm o projeto de não serem surpreendidos e eventualmente até de manipular.

iG – Eles são movidos pelo medo?

FB – Não. É uma questão de inteligência militar mesmo.

O LOBO – de zuleika dos reis / são apaulo.sp

    O LOBO

                                                             Zuleika dos Reis

 

 

O lobo perdeu

a vez

a voz

o uivo.

 

 

O lobo se lembra da mata

não se lembra  mais de si

ao ouvir o uivo do vento

que lhe penetra os ouvidos

pelas grades da jaula.

 

 

O lobo

perdeu o uivo a voz a vez

perdeu-se de si

 

 

De si resta-lhe a jaula

que ele não reconhece como sua

 

 

de si resta o uivo do vento

lá fora

mas ele não mais o ouve

o lobo triste

que  um dia

foi  lobo livre

foi lobo feliz.

 

Velhinhos não merecem Cultura? – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

A presidenta Dilma Rousseff sancionou na última semana do ano passado a lei que cria o Vale-Cultura,
no valor de 50 reais, destinado a trabalhadores que ganham até cinco salários mínimos. Desde ontem, este teto é de R$ 3.390,00, o que certamente abrange expressiva parcela da mão de obra assalariada no Brasil; no caso dos aposentados do setor privado, o limite alcança praticamente todas as pessoas com direito ao benefício. Entre estas não há aposentadorias de 25 ou 28 mil mensais, como aquelas que pagamos com o nosso imposto a servidores públicos graduados que, muitas vezes, pouco tempo contribuíram e menos tempo ainda trabalharam pelo bem público, pelo interesse coletivo – e ainda não estamos, aqui, falando de corrupções, prevaricações e crimes que tais.

 

Antes, porém, que vozes encrenqueiras se alevantem para tudo questionar e denunciar submissões servis até no uso de uma vírgula, imploro-lhes que me permitam dizer que o substantivo feminino presidentaé termo antigo do nosso vernáculo, vem lá do século XIX (embora, em pleno século XXI, alguns iluminados achem que foi “inventado” pela nossa mandatária maior, eleita por um partido do qual têm verdadeiro pavor como se a vontade do povo brasileiro só tenha de ser respeitada caso coincida com os interesses desses esclarecidos), registrado já no dicionário de Cândido Figueiredo nos idos de 1899, dez anos apenas após a proclamação da República.

 

Aliás, para fins de reflexão geral, dentro do mesmo capítulo das “intromissões por decreto” na língua portuguesa falada no Brasil, cabe aqui, aproveitando os parêntesis abertos, uma pequena informação: “A lei federal 2.749, de 1956, do senador Mozart Lago (1889-1974), determina o uso da forma feminina para referir-se a cargos públicos ocupados por mulheres“. Isto foi há 57 anos, quando Juscelino estava iniciando o seu mandato presidencial.

 

Assim, Dona Dilma tem todo o direito de pedir para ser tratada de presidenta e de determinar que, no âmbito do governo, seja este o tratamento a lhe dispensar.

 

Mas voltemos ao Vale-Cultura antes que ele esfrie de vez. Trata-se de incentivo fiscal, ao qual empresa ou pessoa alguma é forçada a aderir. Vai funcionar assim: a empresa entra com 45 reais por trabalhador todo mês e desconta o total dos impostos federais a pagar, enquanto o empregado contribui com os outros cinco reais, os quais também abaterá do imposto de renda. Assim, todos os envolvidos naquilo que os economistas gostam de chamar de “cadeia produtiva”, neste caso da Cultura, serão diretamente beneficiados por esses recursos: o escritor, o pintor, o fabricante do papel para o livro, o fabricante de molduras, o ator, o teatro, o laboratório de processamento das imagens. O incentivo não pode valer para a pirataria, situação em que todos perdem e supostamente ganha apenas o pirata, que surrupia obras alheias.

 

Então vem a pergunta, como muito se diz atualmente, “que não quer calar”: por que aposentados e pensionistas não são favorecidos por essa benfazeja legislação? O governo, via INSS, renunciaria a 45 reais e o beneficiário da Previdência que desejasse contribuiria com os outros cinco paus. Se fosse comigo, eu sairia correndo para abraçar a oportunidade: poderia comprar, todo mês, um livro de 38 e um filme em DVD de 12 reais, por exemplo. Todo mês!

 

Aliás, cada auxílio-moradia de 4,3 mil reais pago em Santa Catarina poderia ser convertido em vales-cultura para 95,5 aposentados – sem prejuízo para ninguém.

A maior ameaça à paz mundial / por simon jenkis / londres.england

Drones são como ouro de tolo: prolongam guerras que não conseguimos vencer

Nomeações da Casa Branca indicam a era da guerra por controle remoto, que não traz vitória, mas retaliação

 

jenkisA maior ameaça à paz mundial não são as armas nucleares e sua possível proliferação. São os aviões não-tripulados e sua garantida proliferação.

As bombas nucleares são armas inúteis, brincadeira de poderosos ou dos que aspiram ao poder. Os drones estão tomando conta dos mercados globais de armas.

Existem 10 mil em serviço, dos quais mil armados, a maioria dos Estados Unidos. Alguns relatórios dizem que os drones já mataram mais civis não combatentes que os atentados de 11 de setembro.

Não li nenhum estudo independente das guerras por controle remoto no Afeganistão, Paquistão e no chifre da África que diga que estas armas sirvam a algum objetivo estratégico. Seu “sucesso” é expresso apenas pela contagem dos mortos, o número dos assim-chamados “comandantes ligados à al-Qaeda” que foram abatidos. Se a contagem dos mortos representasse vitória, os alemães teriam ganho em Stalingrado e os norte-americanos no Vietnã.

Nem a legalidade nem a ética justificam os ataques com aviões não tripulados. O exaustivo estudo do ano passado feito por advogados das universidades de Stanford e Nova York concluiu que houve muitos ataques ilegais, que mataram civis e que são contraproducentes. Entre os mortos há 176 crianças. Tal matança levaria uma unidade de infantaria à corte marcial. As forças aéreas tem tanto prestígio que as mortes de civis são consideradas um preço a pagar para não colocar em risco a vida de pilotos.

Esta semana o presidente Obama nomeou dois “entusiastas”  dos drones como secretário de Defesa — Chuck Hagel — e chefe da CIA — John Brennan. A guerra dos não-tripulados é o sabor do momento e o complexo industrial militar está lambendo os beiços. Se Obama, que é advogado, tinha qualquer dúvida sobre a legalidade do uso destas armas, com certeza a superou.

Além das questões da ética e da lei, acho impossível descobrir a contribuição destas armas à vitória. A morte de combatentes leva à substituição deles por outros, que buscam vingança. O Predator original, destinado à vigilância, foi adaptado para fazer bombardeios especificamente para matar Osama bin Laden. Quando Osama foi finalmente encontrado, o drone foi considerado um aparelho muito impreciso e as velhas botas-com-armas foram despachadas para fazer o serviço.

Quanto à morte inevitável de civis, por menor que for o número, isso não é apenas “dano colateral”, mas uma questão crítica para a vitória ou a derrota. Os drones não ocupam ou asseguram território, mas devastam corações e mentes. Os bombardeios aéreos sempre foram uma arma de guerra questionável. Não levam à derrota do inimigo, mas à retaliação.

Na segunda-feira um documentário da BBC sobre o cerco de Malta analisou o devastador ataque aéreo alemão, o mais intenso da segunda guerra mundial. Embora tenha causado danos à infraestrutura da ilha, não freou a resistência. A crença no bombardeio e o fracasso em invadir Malta custaram à Alemanha a campanha da África. Uma arma de terror aéreo que não acovarda o inimigo mas apenas convida ao desafio não é eficaz. Três quartos dos paquistaneses podem agora ser considerados inimigos dos Estados Unidos.

Ainda assim, toda semana Obama aparentemente consulta a “lista de morte” dos muçulmanos que pretende eliminar, sem processo judicial e com uma identificação que se baseia na palavra meia boca de um espião em solo. Pelo menos os drones britânicos em Helmand [província do Afeganistão], nos dizem, são usados apenas para dar apoio aéreo a tropas em solo.

Desde que a guerra dos não-tripulados começou para valer, em 2008, houve um declínio na atividade do Talibã e da al-Qaeda. Qualquer redução de recrutamento está apenas esperando a saída da Otan. O presidente afegão, Hamid Karzai, descreve os ataques como “injustificáveis”. O governo do Paquistão, contra o qual os ataques tem sido crescentemente direcionados, retirou qualquer permissão para o uso dos drones.

O jovem escritor iemenita Ibrahim Mothana protestou no New York Times contra a carnificina que os drones estão promovendo na política de seu país, apagando “anos de progresso na construção de confiança entre as tribos”. Os iemenistas agora encaram recrutadores da al-Qaeda com fotos de mulheres e crianças destroçados. O número de integrantes da al-Qaeda no Iêmen triplicou desde 2009. Jimmy Carter declarou que “as violações dos direitos humanos internacionais pelos Estados Unidos reforçam nossos inimigos e alienam nossos amigos”.

A guerra dos drones parece sem sentido, mas impossível de deter. O apelo deles para os líderes ocidentais se baseia parcialmente na novidade e parcialmente na esperança de que as derrotas pareçam menos ruins. São como o bombardeio do USS New Jersey contra as montanhas Chouf do Líbano, em 1984, uma demonstração de força sangrenta para dar cobertura à retirada. Os drones não ajudam na vitória, facilitam a derrota que seu uso tornou mais provável.

O Tabilã no Waziristão não é uma ameaça para Londres ou Washington. A al-Qaeda não tem mais capacidade de solapar um estado, a não ser com a bomba ocasional, que pode ser evitada com inteligência doméstica. As “guerras de escolha” de hoje refletem um aspecto sinistro da democracia. Líderes eleitos parecem buscá-las, desafiando todos os alertas de como é difícil acabar com uma guerra. Hipnotizados pela vitória de Margaret Thatcher nas Malvinas, todos buscam uma boa guerra.

Nisso, os drones são o ouro de tolo. Guiados pela pressão dos vendedores de armas, Obama (e David Cameron) são informados de que os drones representam a guerra à distância, do futuro, segura, fácil, limpa, “com alvos precisos”. Ninguém do nosso lado se fere. Terceiros podem fazer o trabalho sujo em solo.

A legalidade tênue desta forma de combate requer que o agressor “declare guerra” contra outro estado. Mas a al-Qaeda não é um estado. Como resultado, estes ataques em solo estrangeiro não são apenas guerras de nossa escolha, são guerras auto-inventadas. Quanto tempo vai demorar até que os Estados Unidos “se achem” em guerra com o Irã e a Síria e despachem os drones? Quando isso acontecer e a matança começar, não terão como reclamar se as vítimas retaliarem com ataques suicidas.

Mas não apenas com suicidas. Os aviões não tripulados são baratos e fáceis de proliferar. Onze estados já os utilizam. Os Estados Unidos vendem drones para o Japão, para ajudá-lo com a China. A China está construindo 11 bases para seus drones Anjian na costa. O Pentágono agora treina mais operadores de drones que pilotos. O que vai acontecer quando toda nação com uma força aérea fizer o mesmo e todas as fronteiras combustíveis estiverem cheias deles?

Nunca temi proliferação nuclear por acreditar que tais bombas são aquisições de prestígio, tão horríveis que nem lunáticos as usariam. Os drones são diferentes. Quando eram chamados de mísseis teleguiados, eram governados em certo grau por protocolos e leis internacionais, assim como era a prática de assassinatos.

Obama rejeita tudo isso. Ele e os Estados Unidos estão ensinando ao mundo que uma aeronave não tripulada é auto-justificável, auto-desculpável, uma arma legal e eficaz de guerra. Por mais que um drone seja contraproducente do ponto de vista da estratégia, tem glamour com os eleitores em casa. Difícil imaginar algo mais perigoso para a paz mundial.

A arte do trambique e da enganação – por alberto dines / são paulo.sp

O mundo de hoje pode ser avaliado sem grande esforço ou complicados equipamentos, basta que o internauta examine o conteúdo da sua própria caixa postal. De cada conjunto de dez mensagens de spam, pelo menos três são trambiques. E alberto dinesalguns perigosos. Significa que um terço das mensagens de remetentes desconhecidos é constituído por fraudes ou falsificações, algumas delas disfarçadas em serviço público.

Comunicados da Receita Federal, do Ministério Público, polícias, fóruns judiciais, Detrans e bancos são armadilhas montadas por habilidosos hackers com as piores intenções. Loterias internacionais comunicam fabulosos prêmios, escritórios de advocacia dão notícia de incríveis heranças, entidades filantrópicas pedem contribuições, sheiks e emires querem os préstimos do destinatário, mulheres maravilhosas lhe oferecem suas virtudes – a Spamosfera é um gigantesco conto do vigário, ou lupanar, pronto a agarrar os distraídos, incautos, onanistas e também os espertinhos.

A constatação não visa a engrossar qualquer dos partidos, seitas ou irmandades que se digladiam em torno do acesso à internet. Esse é um debate imperecível, interminável, alheio aos marcos regulatórios e aos códigos internacionais, sempre bem-vindos embora sempre insuficientes.

As venenosas cartas anônimas de outrora, os abomináveis trotes telefônicos ou os incômodos volantes enfiados debaixo de portas não puderam ser evitados nem extintos. Os pasquins no Renascimento ou os sórdidos panfletos distribuídos antes, durante e depois da Revolução Francesa também não conseguiram ser proibidos. Simplesmente cansaram.

Contrafação, bastardia, travestismo e apocrifia existem desde que o ser humano descobriu a liberdade de burlar. Criatividade e enganação são limítrofes, o parentesco é complicado. Marcel Duchamps com o seu famigerado urinol “artístico” teria muito a dizer nesta matéria.

Não existem mídias organicamente desonestas; a internet neste momento é a mais vulnerável porque é a mais nova, não desenvolveu os mecanismos de autoimunização e autopreservação. Ao longo de quatro séculos a impressa depurou-se – o processo é lento, seguro e, sobretudo, endógeno. O que não significa o fim da compulsão trapaceira.

Quando a Amazon, o poderoso entreposto global de produtos culturais, decidiu moralizar as “resenhas” de livros, CDs e DVDs que publicava em seu site para enganar os trouxas, não o fez obrigada por uma sentença judicial. Nem por uma encíclica do Opus Dei. O rigor foi voluntário, autoimposto. A produção de resenhas favoráveis ficara tão acintosa que os executivos da empresa moralizaram o processo para preservar a credibilidade do negócio inteiro. Spams, assim como o telemarketing, vão cansar. O efeito bumerangue é inevitável.

Onde entram os contágios

A depuração e o saneamento da mídia impressa são visíveis, porém até os anos 1960 eram comuns os espaços designados como “A pedidos”, velho truque para disfarçar matérias pagas e republicar insultos originalmente inseridos em boletins de pequena circulação. Hoje, os “informes publicitários” começam a ficar visíveis e os magistrados mais atentos às calúnias.

Mas a crise que atormenta a mídia impressa está produzindo efeitos colaterais perniciosos que precisam ser rapidamente corrigidos, sob pena de apressar e tornar irremediável o fim do jornalismo em papel.

Num feriadão ou fim de semana prolongado nos Estados Unidos ou na Europa seria impensável a supressão de cadernos por conta da diminuição da circulação nas bancas e a desatenção dos assinantes. No Brasil, com a pletora de feriados no meio da semana e as indefectíveis “pontes”, criou-se o costume de suprimir cadernos. Economiza-se papel, o leitor não tem onde reclamar e fica tudo por isso mesmo.

Este Observatório tem protestado contra a agressão aos direitos do consumidor que paga o preço inteiro do produto, porém só recebe parte dele. A Folha de S.Paulo percebeu a procedência da reclamação e, sempre muito inventiva e mais sujeita às tentações, inventou uma emenda – como de costume, pior do que o soneto.

Nos esticados feriadões de Natal e Ano Novo, o jornal saiu com um sinete no alto da primeira página – “Edição de Feriado” –, sinal evidente de que o jornal estaria irreconhecível. De sábado a terça (22 a 25/12 e de 28/12 a 1/1) as edições foram massacradas sem piedade: cadernos combinados e esmagados, suplementos suprimidos, uma Folha ersatz (sucedâneo minimizado). Isso não se faz com o leitor que pagou por antecipação e lê o jornal mesmo quando seus acionistas acham que não vale a pena.

A publicidade também se impregnou com o Espírito Spam, a enganação massificada: a série de anúncios testemunhais da NET veiculada em alguns dos seus canais é uma aberração. São depoimentos fictícios, repetidos ad nauseam,que o telespectador acaba incorporando como verdadeiros. O Conar devia proibir esses falsos testemunhos em defesa da credibilidade da propaganda, já que não lhe cabe preocupar-se com a credibilidade dos meios que veiculam a propaganda.

O vírus do trambique merece combate implacável.

HISTÓRIA DO BACALHAU 1. NÃO EXISTE PEIXE CHAMADO BACALHAU. BACALHAU É APENAS O PROCESSO DE SALGA E SECAGEM PARA A CONSERVAÇÃO DE PEIXES (…ESSE PROCESSO INCLUSIVE JÁ ERA CONHECIDO DOS FENÍCIOS QUE NAVEGAVAM O MEDITERRÃNEO NA ANTIGUIDADE…); 2. COM O PASSAR DOS SÉCULOS DESCOBRIU-SE QUE OS PEIXES QUE MAIS SE ADAPTAVAM AO PROCESSO BACALHAU ERAM ESPECTIVAMENTE: O COD GADUS MORHUA, O COD GADUS MACROCEPHALUS, O LING, O ZARBO E O SAITHE; 3. A CIDADE DO PORTO É FAMOSA TAMBÉM POR SE HAVER TORNADO UM GRANDE ENTREPOSTO DE INDUSTRIALIZAÇÃO E DISTRIBUIÇÃO (VENDAS) DOS REFERIDOS PEIXES, PESCADOS NO CHAMADO MAR DO NORTE, PRÓXIMO DO CÍRCULO POLAR ÁRTICO, SUBMETIDOS AO PROCESSO BACALHAU, OU SEJA, NÃO EXISTE O BACALHAU DO PORTO.

bacalhau01

A moral de velhas prostitutas – por leandro fortes / são paulo.sp

 

Aos poucos, sem nenhum respeito ou rigor jornalístico, boa parte da mídia passou a tratar Rosemary Noronha como amante do ex-presidente Lula. A “namorada” de Lula, a acompanhante de suas viagens internacionais, a versão tupiniquim de Ana Bolena, quiçá a reencarnação de Giselle, a espiã nua que abalou Paris.

Como a versão das conversas grampeadas entre ela e Lula foi desmentida pelo Ministério Público Federal, e é pouco provável que o submundo midiático volte a apelar para grampos sem áudio, restou essa nova sanha: acabar com o casamento de Lula e Marisa.

Já que a torcida pelo câncer não vingou e a tentativa de incluí-lo no processo do “mensalão” está, por ora, restrita a umas poucas colunas diárias do golpismo nacional, o jeito foi apelar para a vida privada.

Lula pode continuar sendo popular, pode continuar como referência internacional de grande estadista que foi, pode até eleger o prefeito de São Paulo e se anunciar possível candidato ao governo paulista, para desespero das senhoras de Santana. Mas não pode ser feliz. Como não é possível vencê-lo nas urnas, urge, ao menos, atingi-lo na vida pessoal.

Isso vem da mesma mídia que, por oito anos, escondeu uma notícia, essa sim, relevante, sobre uma amante de um presidente da República.

Por dois mandatos, Fernando Henrique Cardoso foi refém da Rede Globo, uma empresa beneficiária de uma concessão pública que exilou uma repórter, Míriam Dutra, alegadamente grávida do presidente. Miriam foi ter o filho na Europa e, enquanto FHC foi presidente, virou uma espécie de prisioneira da torre do castelo, a maior parte do tempo na Espanha.

Não há um único tucano que não saiba a dimensão da dor que essa velhacaria causou no coração de Ruth Cardoso, a discreta e brilhante primeira-dama que o Brasil aprendeu desde muito cedo a admirar e respeitar. Dona Ruth morreu com essa mágoa, antes de saber que o incauto marido, além de tudo, havia sido vítima do famoso “golpe da barriga”. O filho, a quem ele reconheceu quando o garoto fez 18 anos, não é dele, segundo exame de DNA exigido pelos filhos de Ruth Cardoso. Uma tragicomédia varrida para debaixo do tapete, portanto.

O assunto, salvo uma reportagem da revista Caros Amigos, jamais foi sequer aventado por essa mesma mídia que, agora, destila fel sobre a “namorada” de Lula. Assim, sem nenhum respeito ao constrangimento que isso deve estar causando ao ex-presidente, a Dona Marisa e aos filhos do casal. Liberados pela falta de caráter, bom senso e humanidade, a baixa assessoria de tucanos, entre os quais alguns jornalistas, tem usado as redes sociais para fazer piadas sobre o tema, palhaços da tristeza absorvidos pela vilania de quem lhes confere o soldo.

Esse tipo de abordagem, hipócrita sob qualquer prisma, era o fruto que faltava ser parido desse ventre recheado de ódio e ressentimento transformado em doutrina pela fracassada oposição política e por jornalistas que, sob a justificativa da sobrevivência e do emprego, se prestam ao emporcalhamento do jornalismo.

 

A PRISÃO DE LUPICÍNIO RODRIGUES por josé ribamar bessa freire / manaus.am

A Comissão da Verdade não sabe, mas depois do golpe militar de 1964, o compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues (1914-1974) foi preso e permaneceu vários meses trancafiado, primeiro no Quartel da PE, no centro de Porto Alegre e, depois, luprodriguesno presídio da Ilha da Pintada, apesar de nunca ter tido qualquer atividade política. Lá, foi humilhado, espancado e torturado, teve a unha arrancada para não tocar mais violão e contraiu uma tuberculose agravada pelo vento frio do rio Jacuí.

Quem me confidenciou isso foi um dos filhos de Lupicínio, Lôndero Gustavo Dávila Rodrigues, também músico, 67 anos, que hoje trabalha como motorista na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). O fato é pouco conhecido, pois Lupicínio não gostava de tocar no assunto. Preferiu silenciá-lo. Morria de vergonha. “E a vergonha é a herança maior que meu pai me deixou”, cantava ele em “Vingança”, um grande sucesso dois anos antes de sua morte.

Pra quem tem dinheiro ou diploma, a prisão política pode até ser uma medalha, tem algo de heroico. Mas para as pessoas humildes, como ele, que não se metia em política, a prisão é sempre uma humilhação, algo que deve ser escondido, esquecido - conta o filho de Lupicínio, a quem conheci recentemente, quando ele, dirigindo o carro da Universidade, veio me buscar para participar de uma banca de mestrado lá em Seropédica.

A viagem de ida-e-volta durou mais de cinco horas. Nos primeiros cinco minutos, eu já havia lhe contado que era amazonense, do bairro de Aparecida e, quando deu brecha, mostrei-lhe fotos da minha neta. Nos cinco minutos seguintes, ele já tinha me falado de Lupicínio, seu pai, de dona Emilia, sua mãe, de sua infância em Rio Pardo (RS) e de suas andanças como músico por 29 países. Quando nos despedimos, já éramos amigos de infância.

Nervos de aço

Lôndero tem memória extraordinária e admirável dom de narrar. Suas histórias, que jorraram aos borbotões, podem ocupar várias crônicas dominicais. Ele próprio é um personagem, suas andanças dariam um livro. Mas o que ele viveu com seu pai, boêmio e mulherengo, dá outro livro. Não sei nem por onde começar. Talvez por onde já comecei: a prisão do pai, que teria provocado uma reação até mesmo em “pessoas de nervos de aço, sem sangue nas veias e sem coração”.

Nós, da família, sofremos muito com a injustiça da prisão. Sabíamos que Lupicínio não se metia em política - contou seu filho, informando ainda que antes da prisão, o pai havia feito uma versão musical – quanta ironia! – para aquela letra da “oração do paraquedista” encontrada com um militar francês morto em 1943 no norte da África. Lôndero recita:

Dai-me Senhor meu Deus o que vos resta /Aquilo que ninguém vos pede / Dai-me tudo o que os outros não querem / a luta e a tormenta / Dai-me, porém, a força, a coragem e a fé.

Lupicínio precisou mesmo de muita coragem e fé para amargar a prisão, onde em vez de tainha na taquara ou peixe assado no espeto de bambu, comeu foi o pão que o diabo amassou. Tudo isso por causa de uma ligação pessoal dele com Getúlio Vargas, relação que acabou sendo herdada, posteriormente, por Jango e Brizola.

Segundo Lôndero, Lupicínio, que já era um compositor consagrado em 1950, fez um jingle para a volta de Getúlio Vargas, com aquela marchinha de carnaval de Haroldo Lobo, que foi também gravada por Francisco Alves: “Bota o retrato do velho outra vez / Bota no mesmo lugar / o sorriso do velhinho / faz a gente trabalhar”.

Pede deferimento

Vargas já gostava das músicas de Lupicínio antes de ele ser sucesso nacional. Por isso, decidiu bancar a entrada do compositor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Lupicínio, que havia cursado só até o 3º primário, foi nomeado bedel da Faculdade de Direito, onde trabalhou também como porteiro.

Um belo dia – conta Lôndero – Lupicínio caiu na farra, virou a noite e saiu direto dos bares para a Universidade. O reitor deu um flagrante nele, quando o encontrou bêbado na portaria. Deu-lhe um esporro, publicamente, humilhando-o na frente de alunos, professores e colegas. No dia seguinte, Lupicínio entrou com um requerimento com letra de samba, que seu filho sabe de cor:

- Magnífico Reitor, que a tua sabedoria e soberba não venha a ser um motivo de humilhação para o teu próximo. Guarda domínio sobre ti e nunca te deixes cair em arrogância. Se preferires a paz definitivamente, sorri ao destino que te fere. Mas nunca firas ninguém. Nestes termos, pede deferimento. Assinado: Lupicínio Rodrigues, porteiro.

Não sabemos se o reitor deferiu o requerimento e a partir de então passou a sorrir ao destino sem ferir ninguém. O certo é que Lupicínio deixou o emprego na Universidade e foi cantar em outra freguesia, em bares, restaurantes e churrascarias, onde aliava trabalho com boemia.

Foi ele, Lupicínio, quem compôs o hino tricolor do Grêmio, do qual era um fanático torcedor, ganhando com isso um retrato no salão nobre do clube. Depois do suicídio de Vargas, em 1954, Lupicínio, já consagrado nacionalmente, continuou mantendo relações amistosas com Jango e Brizola, que também admiravam sua música. Por conta disso, foi preso e torturado, segundo seu filho.

Autor de grandes sucessos como “Felicidade foi se embora”, “Vingança”, “Esses moços”, “Nervos de aço”, “Caixa de Ódio”, “Se acaso você chegasse”, “Remorso” e dezenas de outros, Lupicínio compôs “Calúnia”, cuja letra pode muito bem ter outra leitura, quando sabemos de sua prisão e a forma como foi feita:

- Você me acusa / Mas não prova o que diz / Você me acusa / De um mal que eu não fiz/ A calúnia é um crime / que Deus não perdoa / Você vai sofrer / aqui neste mundo.

A letra de “Calúnia”, gravada por Linda Batista em 1958, termina com Lupicínio rogando: “Eu não quero vingança / A vingança é pecado / Só a Justiça Divina / Pode seu crime julgar”. Mas se prevalecer a letra de “Vingança”, cantada também por Linda Batista e depois por Jamelão, os torturadores da ditadura não terão paz e serão punidos pela Justiça: “Você há de rolar como as pedras que rolam na estrada, sem ter nunca um cantinho de seu pra poder descansar”.

EUA: Um registro raro e cruel – por jimmy carter* / usa

Revelações de que altos funcionários do governo dos Estados Unidos decidem quem será assassinado em países distantes, inclusive cidadãos norte-americanos, são a prova apenas mais recente, e muito perturbadora, de como se ampliou a lista das violações de direitos humanos cometidas pelos EUA.

Esse desenvolvimento começou depois dos ataques terroristas de 11/9/2001; e tem sido autorizado, em escala Jimmy+Cartercrescente, por atos do executivo e do legislativo norte-americanos, dos dois partidos, sem que se ouça protesto popular. Resultado disso, os EUA já não podem falar, com autoridade moral, sobre esses temas cruciais.

Por mais que os EUA tenham cometido erros no passado, o crescente abuso contra direitos humanos na última década é dramaticamente diferente de tudo que algum dia se viu. Sob liderança dos EUA, a Declaração Universal dos Direitos do Homem foi adotada em 1948, como “fundamento da liberdade, justiça e paz no mundo”. Foi compromisso claro e firme, com a ideia de que o poder não mais serviria para acobertar a opressão ou a agressão a seres humanos. Aquele compromisso fixava direitos iguais para todos, à vida, à liberdade, à segurança pessoal, igual proteção legal e liberdade para todos, com o fim da tortura, da detenção arbitrária e do exílio forçado.

Aquela Declaração tem sido invocada por ativistas dos direitos humanos e da comunidade internacional, para trocar, em todo o mundo, ditaduras por governos democráticos, e para promover o império da lei nos assuntos domésticos e globais. É gravemente preocupante que, em vez de fortalecer esses princípios, as políticas de contraterrorismo dos EUA vivam hoje de claramente violar, pelo menos, 10 dos 30 artigos daquela Declaração, inclusive a proibição de qualquer prática de “castigo cruel, desumano ou tratamento degradante.”

Legislação recente legalizou o direito do presidente dos EUA, para manter pessoas sob detenção sem fim, no caso de haver suspeita de ligação com organizações terroristas ou “forças associadas” fora do território dos EUA – um poder mal delimitado que pode facilmente ser usado para finalidades autoritárias, sem qualquer possibilidade de fiscalização pelas cortes de justiça ou pelo Congresso (a aplicação da lei está hoje bloqueada, suspensa por sentença de um(a) juiz(a) federal). Essa lei agride o direito à livre manifestação e o direito à presunção de inocência, sempre que não houver crime e criminoso determinados por sentença judicial – mais dois direitos protegidos pela Declaração Universal dos Direitos do Homem, aí pisoteados pelos EUA.

Além de cidadãos dos EUA assassinados em terra estrangeira ou tornados alvos de detenção sem prazo e sem acusação clara, leis mais recentes suspenderam as restrições da Foreign Intelligence Surveillance Act, de 1978, para admitir violação sem precedentes de direitos de privacidade, legalizando a prática de gravações clandestinas e de invasão das comunicações eletrônicas dos cidadãos, sem mandato. Outras leis autorizam a prender indivíduos pela aparência, modo de trajar, locais de culto e grupos de convivência social.

Além da regra arbitrária e criminosa, segundo a qual qualquer pessoa assassinada por aviões-robôs comandados à distância (drones) por pilotos do exército dos EUA é automaticamente declarada inimigo terrorista, os EUA já consideram normais e inevitáveis também as mortes que ocorram ‘em torno’ do ‘alvo’, mulheres e crianças inocentes, em muitos casos. Depois de mais de 30 ataques aéreos contra residências de civis, esse ano, no Afeganistão, o presidente Hamid Karzai exigiu o fim desse tipo de ataque. Mas os ataques prosseguem em áreas do Paquistão, da Somália e do Iêmen, que sequer são zonas oficiais de guerra. Os EUA nem sabem dizer quantas centenas de civis inocentes foram assassinados nesses ataques – todos eles aprovados e autorizados pelas mais altas autoridades do governo federal em Washington. Todos esses crimes seriam impensáveis há apenas alguns anos.

Essas políticas têm efeito evidente e grave sobre a política exterior dos EUA. Altos funcionários da inteligência e oficiais militares, além de defensores dos direitos das vítimas nas áreas alvos, afirmam que a violenta escalada no uso dos drones como armas de guerra está empurrando famílias inteiras na direção das organizações terroristas; enfurece a população civil contra os EUA e os norte-americanos; e autoriza governos antidemocráticos, em todo o mundo, a usar os EUA como exemplo de nação violenta e agressora.

Simultaneamente, vivem hoje 169 prisioneiros na prisão norte-americana de Guantánamo, em Cuba. Metade desses prisioneiros já foram considerados livres de qualquer suspeita e poderiam deixar a prisão. Mas nada autoriza a esperar que consigam sair vivos de lá. Autoridades do governo dos EUA revelaram que, para arrancar confissões de suspeitos, vários prisioneiros foram torturados por torturadores a serviço do governo dos EUA, submetidos a simulação de afogamento mais de 100 vezes; ou intimidados sob a mira de armas semiautomáticas, furadeiras elétricas e ameaças (quando não muito mais do que apenas ameaças) de violação sexual de esposas, mães e filhas. Espantosamente, nenhuma dessas violências podem ser usadas pela defesa dos acusados, porque o governo dos EUA alega que são práticas autorizadas por alguma espécie de ‘lei secreta’ indispensável para preservar alguma “segurança nacional”.

Muitos desses prisioneiros – mantidos em Guantánamo como, noutros tempos, outros inocentes também foram mantidos em campos de concentração de prisioneiros na Europa – não têm qualquer esperança de algum dia receberem julgamento justo nem, sequer, de virem a saber de que crimes são acusados.

Em tempos nos quais o mundo é varrido por revoluções e levantes populares, os EUA deveriam estar lutando para fortalecer, não para enfraquecer cada dia mais, os direitos que a lei existe para garantir a homens e mulheres e todos os princípios da justiça listados na Declaração Universal dos Direitos do Homem. Em vez de garantir um mundo mais seguro, a repetida violação de direitos humanos, pelo governo dos EUA e seus agentes em todo o mundo, só faz afastar dos EUA seus aliados tradicionais; e une, contra os EUA, inimigos históricos.

Como cidadãos norte-americanos preocupados, temos de convencer Washington a mudar de curso, para recuperar a liderança moral que nos orgulhamos de ter, no campo dos direitos humanos. Os EUA não foram o que foram por terem ajudado a apagar as leis que preservam direitos humanos essenciais. Fomos o que fomos, porque, então, andávamos na direção exatamente oposta à que hoje trilhamos.

*Jimmy Carter é Prêmio Nobel e ex-presidente dos EUA. Matéria publicada no New York Times

‘Pequeno Almanaque do Reacionário de Sofá’ – por pedro munhoz

 

As redes sociais proporcionam meios rápidos e eficientes para toda e qualquer pessoa expor, rapidamente, de forma descompromissada e atingindo um público cada vez mais amplo, suas opiniões. Isso não é algo negativo, pelo contrário, é uma das coisas que mais me fascina no mundo virtual. Os comentários e opiniões resultantes dessa liberdade retratam, porém, uma realidade das mais preocupantes e que, para além do ambiente virtual, dizem muito sobre a nossa sociedade.

Se não há como discordar do fato de que ninguém é obrigado a conhecer razoavelmente um assunto qualquer, acho especialmente alarmante o número de pessoas que, sem se debruçarem um segundo sequer sobre temas polêmicos e delicadíssimos, expressam suas opiniões pré-moldadas com a desenvoltura de quem sabe realmente do que está falando. Pois bem: opiniões pré-moldadas existem em todos os espectros ideológicos e, para além do campo político propriamente dito, atingem inclusive campos do conhecimento técnico, como o direito, a medicina e a economia. Vou abordar, porém, durante esta coluna, apenas uma classe de comentários: os dos reacionários de sofá.

Os reacionários de sofá são aqueles que, preguiçosamente, no conforto de suas residências, absorvem passivamente as opiniões vociferadas pela grande mídia contra toda e qualquer posição política que possa implicar uma mudança positiva para um grupo com o qual ele não se identifica. Outras vezes, eles não precisam nem mesmo recorrer à mídia para terem uma opinião qualquer sobre um assunto com o qual ele não tem o mínimo de contato: basta recorrer aos preconceitos que lhe foram incutidos na infância.

São quase sempre individualistas, pois não conseguem cogitar a defesa de um interesse qualquer que não seja o seu próprio. Também gostam de pautar os seus discursos por alarmismos apocalípticos, derivando conseqüências genéricas gravíssimas de medidas que muitas vezes têm um escopo bastante restrito. Ressentem-se ferozmente de terem nascido no Brasil e odeiam os brasileiros, a quem, do sofá de suas casas ou da cadeira de suas escrivaninhas, taxam de passivos, indolentes, comodistas e estúpidos.

Pois bem: essa é uma pequena coletânea de conceitos caros a esse tipo de usuário das redes sociais que pretende ser uma modesta contribuição para estudos posteriores dessas mentalidades tão peculiares. Separei alguns verbetes sobre os quais nossos reacionários adoram opinar. Estou aberto a contribuições.

Atenção: as opiniões abaixo não retratam a opinião deste colunista. Na verdade, são o seu oposto.

Cotas Raciais – 1-Vão instaurar o racismo no Brasil. 2-Racismo contra brancos. 3- Tem que melhorar a educação pública. 4- Trabalhei para pagar o cursinho dos meus filhos e querem dar as vagas deles para quem não pagou. 5-São inúteis, pois o Brasil não é racista. 7- Sou contra, pois minha bisavó era negra e nasci branco. 8- E a igualdade, coméquifica? 9- Governo premiando a vagabundagem. 10- Meu vizinho é negro e é mais rico do que eu. 11. Meu cunhado é negro e trabalhou honestamente pra pagar o cursinho dos filhos.

Racismo – 1- Não existe no Brasil. 2- O racismo dos negros contra os brancos é maior do que o dos brancos contra negros. 3- Se eu andar com uma camisa escrita 100% branco eu vou preso. 4-Tenho vários amigos negros, mas [preencher com conclusão preconceituosa a sua escolha]. 5- Deveria ter o dia do Orgulho Branco. 6- Todo mundo protesta contra o racismo, mas ninguém protesta contra a corrupção.

Homossexualidade - (pronunciar “homossexualismo”)- 1 Doença que precisa de tratamento. 2- Falta de vergonha na cara. 3- Homossexuais querem ter mais direitos do que eu. 4- Abominação aos olhos de Deus. 5- Imoralidade. 6- Falta de “couro” na infância. 7- Homossexuais querem converter as crianças ao homossexualismo. 8 – Homossexuais são pedófilos. 9 – Eles querem ser respeitados, mas não se dão o respeito. 10-É por isso que o Brasil não vai pra frente.

Movimento gay- 1- Prega a promiscuidade. 2- Daqui a pouco vai ser proibido ser hetero. 3-  Quer acabar com a religião. 4- Quer acabar com a família. 5- Daqui a pouco não vou poder dizer aos meus filhos que é errado ser gay. 6- Sinônimo de ditadura gay. 7- Quer converter as crianças ao homossexualismo (sic). 8- Por que eles não lutam contra a corrupção? Lamentável! 10- É por isso que o Brasil não vai pra frente.

Feminismo - 1- Chamar de feminazis. 2- Preconceito contra homens. 3- E a igualdade,coméquifica? 4- Quer desestabilizar a família. 5- Falta de sexo. 6-Falta de louça pra lavar.7- Feministas são feias. 8-Feministas são lésbicas. 9- Não sou feminista, sou feminina. 10- Por que elas não lutam contra a corrupção? Lamentável.

Marcha das Vadias - 1-Dizem que são vadias e depois não querem ser estupradas. Absurdo! 2- Comeria todas elas. 3 – Só tem gorda mostrando os peitos. 4- Não se dão o respeito. 5- Não respeitam nossas crianças. 6- Querem arrumar um macho. 7- Falta de louça pra lavar. 8- Atrapalha o trânsito. 9- Deviam protestar contra a corrupção. 10- É por isso que o Brasil não vai pra frente.

Marcha da Maconha- 1-Querem drogar as nossas crianças. 2- Afronta à moral. 3-Bando de vagabundos. 4-Daqui a pouco vão vender crack na porta da igreja. 5- Polícia neles. 6-Atrapalha o trânsito. 7- Está tudo invertido. 8- Saudades da ditadura. 9- Falta de lote pra capinar. 10- Deviam protestar contra a corrupção.

Ditadura Militar – 1- Naquele tempo não existia corrupção. 2- Naquele tempo não existia maconha. 3-Naquele tempo não existia homossexualismo. 4- Naquele tempo não existia violência. 5- Naquele tempo as escolas eram de primeiro mundo. 6- É uma coisa boa, pois brasileiro não sabe votar. 7- Salvou o Brasil da ditadura comunista. 8- Poucas pessoas foram mortas e torturadas e quem foi morto ou torturado mereceu. 9- Saudades daquela época! 10- Todo mundo critica a ditadura no Brasil, mas ninguém critica Cuba. Lamentável!

Direitos Humanos – 1- Chamar de “direito dos manos” e se achar genial. 2- Direito dos vagabundos. 3- Direitos Humanos para humanos direitos. 4- Ninguém defende os direitos humanos das vítimas. 5- Defensor dos direitos humanos devia ter sua filha estuprada. 6- Está tudo invertido. 7- A culpa da violência é desse pessoal que defende os direitos humanos. 8- Um cidadão de bem não pode nem espancar e torturar um vagabundo que tentou roubar seu tablet. 9-Na época da ditadura não existia isso e era tudo muito melhor. 10- Ficam defendendo bandido, mas deviam lutar contra a corrupção. Acorda Brasil!

Povo Brasileiro- 1- Não gosta de trabalhar. 2- Não sabe votar. 3- Tem o governo que merece. 4- É ladrão. 5- Não tem cultura. 6- Só pensa em futebol, carnaval e cerveja. 6- É o povo brasileiro que estraga o Brasil. 7- Só sabe reclamar. 8- Mudei para Miami por causa do povinho que vive no Brasil. 9- Não tem moral. 10- Não luta contra a corrupção! Acorda Brasil!

Corrupção- 1- Culpa do brasileiro que não sabe votar. 2- Pena de morte para políticos corruptos. 3- Culpa do PT. 4- Não existia na época da ditadura. 5- Todos os brasileiros são corruptos (menos eu). 6- Não existe nos Estados Unidos. 7- Não existe na Europa. 8- Está tudo invertido. 9- Ninguém luta contra a corrupção. 10- Como todo mundo é corrupto e não sabe votar, ninguém tem o direito de reclamar da corrupção, pois o Brasil tem o governo que merece.E por ora encerro esse pequeno almanaque. Se essas são as suas opiniões, parabéns: você é um perfeito reacionário de sofá que, surfando no mais rasteiro senso comum, não contribui em nada para o avanço da discussão desses temas. Se não, você talvez pudesse pensar em adotar esses conceitos para você. É certeza de aplausos nos ambientes virtuais e vai te poupar muitas infindáveis discussões via facebook com outros reacionários de sofá que constituem, com certeza, o tipo mais teimosamente imune à argumentação da internet.

Se vocês se recusam a adotar os conceitos acima colocados, deixo para vocês uma dica: porque vocês não lutam contra a corrupção? ACORDA BRASIL!!!!

 

EDITOR DE FÉRIAS. ANO NOVO COMO QUEREMOS! ATÉ LÁ!

JB VIDAL - DE FÉRIAS COM LAPTOP - sem título

A BONECA DE NATAL – de jorge lescano / são paulo.sp

In Memoriam Luanda.

As lojas tentavam a população com seus produtos estrategicamente expostos nas vitrines para criar a ilusão de que todos podiam proporcionar alegria ao levar para casa o objeto desejado por aquela pessoa querida. Tal, mais ou menos, a linguagem utilizada nos anúncios.

Mesmo nos bairros mais afastados do centro comercial, as lojas acenavam com um esboço de felicidade pré-datada até para o mais necessitado ou imprevidente dos mortais. Os preços e as facilidades do crédito convidavam a se endividar, e a data justificava o endividamento.

Postado ao lado da porta de uma destas lojas da rua Butantã, encontrava-se um homem magro, modestamente vestido, carregando uma espécie de valise com fecho de zíper, que ele fazia correr num sentido e noutro. Difícil dizer se experimentava o seu funcionamento ou se a ação correspondia a nervosismo.

Várias caixas com brinquedos de plástico se encontravam na entrada do estabelecimento. O preço – módico – unificava os objetos. Cada caixa ostentava uma placa com o valor genérico. Pelo valor de cinco reais podia-se adquirir tanto um trenzinho como uma boneca de plástico marrom vestida com um macacão vermelho e um lenço na cabeça, amarrado à moda africana.

Por duas vezes, nas lojas populares da rua Direita, vira a conseqüência do furto. A primeira, duas moças que haviam furtado peças de lingerie, a segunda, uma boneca dentro de uma caixa.

O caso das moças se deu esquina da praça Clóvis Beviláqua. Ele viu no momento em que o empregado da loja fez que elas abrissem as bolsas e de lá retirassem as peças furtadas. Alguns curiosos pararam para olhar. Uma das moças abaixou cabeça e deixou a mão escorregar ao longo do rosto, ocultando-o. Era metade da tarde e nessa hora a multidão se apinhava no local.

O homem que se apropriara da boneca era magro como ele. Pelo que havia podido observar, enquanto circulava pela loja entre as mesas de exposição, o homem cometeu o erro de prestar atenção excessiva ao brinquedo, chamando a atenção do funcionário encarregado da segurança. O movimento rápido que fez a caixa desaparecer no interior da sacola, provocou um deslocamento sincrônico do empregado, e apesar do homem ganhar a rua em alta velocidade, sem correr, contudo, para não chamar excessivamente a atenção, porém a passos mais rápidos que os usuais nessa rua, permitidos porque nessa hora o comércio já começara a abaixar as portas, foi alcançado pelo segurança e outro funcionário, que devia servir-lhe de escudeiro. Sem resistência, o homem entregou a boneca. Isto não satisfez os guardiões da ordem comercial, que fizeram questão de levar o larápio para os fundos da loja.

A testemunha ainda teve tempo de ouvir o comentário de um passante Sujar-se por pouca coisa não vale a pena! Ele pensou na filha do homem, que inutilmente esperaria seu presente.

O homem magro não deixaria que sua criança pensasse haver sido esquecida por Papai Noel. Com passo firme entrou na loja

CONTO DE NATAL ou: Demitir em dezembro é muito mais gostoso – por roberto prado / curitiba.pr

Já pressentindo o tamanho do peru de Natal, a extensão da ressaca em Matinhos e a dureza do ano novo, o Coitado é repentinamente chamado à salinha para uma conversa.

- Você pode dar um pulinho aqui um instantinho?

Pelos diminutivos, percebe que boa coisa não é. No país da cordialidade todos aprendem rapidinho que as grandes desgraças corporativas costumam rimar com “inho”. Com trêmula tentativa de vã dignidade ele caminha da mesa de trabalho ao matadouro em câmera lenta, um jeito infantil de retardar o abate que só serve para aumentar insuportavelmente o conteúdo dramático da cena.

Reengenhariazinha. Reduçãozinha. Adequaçãozinha. Enxugadinha. E o empreguinho garantido depois que passasse a crisezinha. Sei! Entre um passo e outro ele lamenta não ter aderido prontamente à Revolução Bolivariana e seguido o seu profeta local na ocasião da histórica Abertura do Mar Vermelho de Curitiba. Os colegas acompanham seu desfile, tensos, mas sem excessos que possam ser interpretados como solidariedade, pois, em tempos de crise, o Vírus Degola é ainda mais contagioso.

O Coitado devolve os olhares bovinos com um olho da rua, vendo que é peixe fora da água, desprezado em silencioso uníssono pelas piranhas, traíras, tubarões, robalos, trutas e lambaris de valeta do escritório. Neste momento o coitado se transforma em coitadinho e acelera em direção ao golpe fatal. A portinha à sua frente não esconde, certamente, o cenário adequado para cheques de bônus, prêmios por produtividade, medalhas por serviços prestados, promoção por méritos ou algo do gênero. Ali era a entrada para a clássica “salinha”, rampa de lançamento em forma de escorregador de parquinho infantil que leva direto para a rua da amargura. Ele mete a mão na maçaneta com decisão: seja como for, mas que seja rápido. Depois, sentado na calçada, observando a água da sarjeta, ele pensaria na volta por cima, na vingança contra aqueles imundos porcos capitalistas.

- Um minutinho. Senta aí, serve um cafezinho pra nós.

À sua frente, gingando na poltrona executiva com amortecedores hidráulicos, a hiena sorridente ao celular, antegozando o prazer de uma legítima demissão em dezembro, decretada depois que o Coitado já esmerilhou o cartão de crédito, vaporizou o 13º e desintegrou a parcela do terço das férias que vendeu. “Definitivamente o Chaves tinha razão, ele e aquele outro, o índio”, matutava, coitadinho, já começando a considerar razoáveis, inclusive, os argumentos daquele esquisitão da Coréia do Norte. De quando em quando o algoz do outro lado da mesa mostra os dentes de crocodilo e agita a mão cheia de bichos pedindo um pouquinho mais de paciência. Finalmente, depois de um sonoro “tá combinado então, cachorrão, passa aqui pegar seu uísque”, larga o telefone, não sem antes dar uma conferida em alguma coisa na tela imensa e reclamar que ganhou o aparelho da mulher, mas não tem a mínima idéia de como atualizar a porcaria de um número. A criatura lupina, finalmente, olha nos olhos do Coitado, pigarreia, apanha a caneta, separa uns papéis, confere alguma coisa com fingida distração, faz o seu famoso silêncio preparatório e dispara:

- Você sabe que tem essa crisezinha aí… … tá ruim pra todo mundo… o trem tá feio, companheiro…

O coitado concorda com a cabeça e acrescenta mentalmente: “bem feito, quem mandou não escutar o Chaves e o Kim Jong II”. O outro continua, girando a cadeira para lá e para cá.

- Vou ser franco… Eu pessoalmente não concordo, mas é coisa do patrão, tá tudo aqui, ó. – A cascavel chacoalha os papéis. – Coisa de chefe, entende? Uma reduçãozinha de despesas.

O escorpião deixa o suspense no ar e o Coitado suspende a respiração.

- Vou ser bem direto. É o seguinte… – prossegue a besta do apocalipse – …neste fim de ano a firma não vai bancar a confraternização… eu achei isso uma tremenda sacanagem e estou propondo que a gente faça uma vaquinha…

O mente do Coitado paralisa, seus olhos esbugalham.

- Calma, rapaz, não precisa se assustar… já fiz até as contas… tá tudo aqui… se você concordar é trintão por cabeça para cerveja, refrigerante, churrasco, salada, uma linguicinha. Vamos fazer lá em casa mesmo, assim a gente fica mais à vontade. Só não me vá entrar de cueca na piscina, olhe lá, hem…

A mão trêmula do Coitado estende as notas amassadas, assina ao lado do seu nome na lista e vai saindo lentamente, mas sua vontade é correr, ir direto ao refúgio do carro com 56 prestações em aberto e voar até a segurança do apartamento financiado em 20 anos. Abre a porta e já está acelerando quando ouve a vozinha vindo do interior da salinha.

- Ah… só mais uma coisinha…

Sua espinha congela, o celular do outro toca o hino do Atlético.

- Avisa a macacada pra ninguém sair sem acertar comigo, que eu ainda tenho que encomendar a carne!

O FIM DO MUNDO ou a explosão global de 21 / 12 / 2012

 

a explosão

 

“Para encontrar a alma é necessário perdê-la”. (Alexander Luria, neuropsicólogo russo)

Segundo muitos exotéricos que interpretam tragicamente o calendário maia, produto de uma avançada civilização pré-colombiana da América Central, o mundo terá – ou teria ! – explodido no dia 21 de dezembro de 2012. No mundo inteiro há quem leve a sério esses maus presságios e locupletam algumas cidades, consideradas à salvo da apocalipse, congestionando estradas e devorando os escassos mantimentos que seus modestos estabelecimentos comerciais dispõem.  Uma delas aqui no Brasil, em Goiás: Alto Paraíso. Trata-se de uma bela cidade situada a nordeste do Estado de Goiás, a 230 km de Brasília, na Chapada dos Veadeiros, numa região rude e violenta que serviu de inspiração aos melhores contos e romances regionais do escritor Bernardo Ellis, o melhor deles “O Tronco”, levado às telas por J.Batista de Andrade.  Prova disso foi o assassinado do Prefeito da cidade há dois anos. Não obstante, situada sobre uma plataforma de cristal de rocha, no ponto mais alto do Planalto Central, Alto Paraíso há muitos anos atrai místicos do mundo inteiro que ali semeiam templos, tribos ou oficinas individuais dando um colorido diferente à pacata sociedade local. Lá encontrei, também,  em minhas inúmeras viagens,  vários gaúchos que povoam  o Centro Oeste lavrando o cerrado e contribuindo para fazer do Brasil o celeiro do mundo. Bom para o agro-business, ruim para a natureza, que se molda à mão do homem.

Para a Ciência, avessa às superstições e especialmente à Astrologia, o que haverá na fatídica data é apenas um mero alinhamento sideral. Entre os dias 21 e 23 de dezembro, com  ápice entre 11:16 hs e 11:26 hs da manhã do dia 22/12. nosso planeta Terra, a Lua e o Sol estarão alinhados com Alcyone, a estrela maior da Via Láctea, fato que ocorre a cada 25 mil anos. Mas , para os místicos, este seria um momento especial porque as energias planetárias estariam  se reorganizando  levando-nos à possibilidade de vivenciar  um momento cósmico  especial, com uma suposta extraordinária ortunidade para que muitos se iluminem passando  a vibrar em outras dimensões. “É esperado que milhões de almas se beneficiem desta oportunidade espiritual única”afirmam.

As religiões monoteístas firmemente estabelecidas também refutam essas proclamações de uma Nova Era e a condenam , tanto quanto a Astrologia, como mera superstição.  Alguns Governos laicos, como o da China, vai mais longe e está perseguindo com severidade as seitas que divulgam os prognósticos do fim do mundo.

Ciência, Governos laicos e Igrejas se unem, portanto, na reafirmação do destino não como fatalidade, mas como possibilidade, ou seja,  como resultado de  complexos fatores biológicos , ambientais e psicológicos sobre os quais se interpõe o livre arbítrio. Não fora isto, como julgar as ações humanas? Os filósofos vão mais longe: A condição humana assinalaria o aparecimento da consciência mediada pelo desejo, cuja raiz etimológica – de-sidere – marcaria a afirmação da vontade livre frente aos desígnios siderais, ou seja, a idéia mesma  de destino.   Para o Iluminismo, enfim,  sob cujas luzes ainda nos “ iludimos “, o homem é um ser moral dotado de plena capacidade para legislar com  autonomia sobre suas ações. A pós-modernidade já sepultou esta crença na capitulação do sujeito. Mas não capitulou à astrologia… E um novo fisicismo científico, igualmente pós-moderno, descrito como “tumor metafísico”por Eduardo Gianetti em seu livro “A Ilusão da Alma”, Cia. Das Letras. e cantado em verso  por Fernando Chuí, relança o tema da pré-destinação, mas mais  como determinação bio-genética do que rastro estelar  :

A Invenção da Alma

                                                                                                                                              Fernando chuí

                                                                                                    

 

Certa vez, um amontoado de átomos

adquiriu inexplicavelmente o desejo

de ser mais do que matéria em movimento.

.

O criador, curioso ao perceber tal rebeldia

submergindo da luz e do caos,

decidiu, quase em um tom lúdico,

enviar àquela manifestação sete fadas

para lhe presentearem com dotes que o auxiliassem

na engenharia daquele novo e improvável universo.

.

Voz, a primeira fada,

voou por entre os orifícios da cabeça

e soprou-lhe o dom de inventar sentidos próprios

nos sons que era capaz de emitir.

.

Mãos, a segunda fada,

atravessou seus poros até atingir seus ossos,

seguindo os braços até as suas extremidades

e lá deixou a habilidade de transformar as formas à sua volta

apenas pelo contato com seus dedos.

.

Paixão, a terceira fada,

rasgou-lhe o peito para lhe enfiar sua adaga

que continha o poder de se entorpecer e se entregar à cegueira

diante de um outro ser.

.

Conhecimento, a quarta fada,

nadou por toda a sua carne

espalhando por todo o corpo

a capacidade de salvar a sua história

por meio de escritos, imagens e objetos.

.

Política, a quinta fada,

mergulhou em seu sangue

e lhe inoculou a aptidão de se organizar socialmente

em sistemas, classes e disciplinas.

.

Karma, a sexta fada

(que também respondia pelo nome de Neurose),

escorregou pelo couro cabeludo para lhe derramar

a capacidade de lutar contra a própria felicidade.

.

Dor, a sétima e última fada,

beijou seus olhos

e lhe ofertou a capacidade de chorar.

.

Feliz com seu feito, o criador agradeceu

e despediu-se das fadas.

Porém, temeroso de ser alcançado

pelos poderes concedidos àquela nova criatura,

o criador lançou àquele ser um feitiço:

Não teria jamais a certeza de coisa alguma.

.

Feito isto, pôs-se a dormir, invisível.

.

E aquele ser que acordava

e já não aceitava mais a sua pureza atômica,

passava seus dias a inventar, tal qual vício ou peste,

novas estruturas lingüísticas, estéticas, políticas e tecnológicas

para a dominação de seu povo e da natureza à sua volta.

Estas que, via de regra,

sempre geravam indefectíveis desastres

faziam-no passar todo o tempo buscando novas invenções

para consertar os próprios erros de outrora.

.

E mesmo se multiplicando em ritmo absurdamente acelerado,

o ser inventou a solidão.

Sentia-se agora tão só

que inventou em si um novo talento,

o dom de inventar deuses.

.

Da voz, compôs uma reza.

Das mãos, moldou o altar.

Da paixão, lançou-se ao culto.

Do conhecimento e da política, teceu a religião.

Da neurose, fez a culpa, a vergonha e o castigo.

.

O ser derramou assim

sobre a terra azul e seca,

de alegria e melancolia,

a primeira e doída lágrima,

junto à primeira prece.

.

.

Elas, que aí estão;

Elas, que não têm mais fim.

Entre crenças, princípios científicos e vã filosofia enfrentemos, pois, o 21 de dezembro. E, se o mundo sobreviver e nós com ele, preparemo-nos para a boa semana de celebrações que lhe seguirá.

ARTISTAS E VACAS – por jorge lescano / são paulo.sp

O analista revelara à paciente que ela sofria de falsa identidade – ou como esses profissionais da escuta esotérica chamem esta perturbação da personalidade –: era uma vaca presa num corpo de mulher. Ela decidiu assumir seu verdadeiro EU. Começou a mugir e se fazer tatuar grandes manchas negras na pele branca.

Sem que se conhecessem, ela vivia a metamorfose almejada pelo poeta. Este, em protesto pelo descaso da plebe ignara com a ninfa Eco, sonhava ser uma vaca, malhada, de nome Gertrudes, como os irlandeses chamam as fêmeas do seu gado bovino, segundo James Joyce num romance do argentino Ricardo Piglia

 

O pintor Paul Klee, nascido na Suíça, herdou do pai a nacionalidade alemã e só recebeu a cidadania do seu país natal, solicitada sete anos antes, um dia depois de sua morte.

Alguém comentou – talvez seja apenas uma boutade, com esta ressalva figura numa biografia do artista – que a demora teve origem em um quadro no qual o pintor retratou um rebanho de vacas empilhadas, sugerindo que o país não tinha espaço suficiente para sua pecuária. Isto numa nação que se orgulha da qualidade do seu queijo e criou um gênero de canções dedicadas a este ruminante.

 

O romancista acordou e deu pela falta do seu manuscrito. O jornal não fornecia o título do romance. Um pouco afastada da árvore sob a qual o escritor dormira sua sesta de verão, uma vaca ruiva ruminava a sua merenda.

Tarde demais ele ficou sabendo que os nutrientes que este animal encontra no capim também estão no papel.

 

Com o passar das gerações a anedota ficou mais ou menos assim:

A senhora interrogava Claude Debussy sobre o método utilizado para suas composições.

- É muito fácil, eu pego todos os sons e retiro aqueles que não desejo usar – teria respondido o músico.

- Confesso que não entendo as suas melodias – disse a dama. – Eu apenas sei do que gosto e do que não gosto.

E o compositor:

- Como as vacas, minha senhora!

 

 

O ator dirigia a sua motocicleta em alta velocidade quando o ruminante estacionou no meio da estrada. Não houve tempo para desviar ou frear. O veículo bateu em cheio na massa de carne que na hora do impacto ganhou solidez de concreto.

A polícia rodoviária contou com a serra e a habilidade de um magarefe para extrair a cabeça e os ombros do motoqueiro do flanco da vaca.

Aquela noite foi de consagração do ator substituto. Em turnê pelo interior do estado, a companhia representava Androcles e o leão, de George Bernard Shaw.

 

Como descrever o assombro da vaca solitária ao contemplar com seu olhar bovino o jovem negro atravessar a cerca, armar seu saxofone e totalmente concentrado improvisar alguns compassos na sua frente e para seu exclusivo prazer, enquanto seus colegas, não menos surpresos que ela, esperavam o final do breve concerto à beira da estrada?

Quem disse que as vacas gostam de música?, deve ter pensado o animal ao ver o carro se afastar levantando uma nuvem de poeira.

A cena foi narrada por um integrante da banda de Charlie Parker presente na ocasião.

TENTATIVA DE GOLPE: “Oligopólio midiático quer que Dilma banque abismo fiscal para salvar oligopólio bancário”

GRANDE MÍDIA BRASILEIRA QUER JOGAR DILMA NUMA FRIA MAIS TERRÍVEL QUE A GEADA DE MOSCOU, DESTRUINDO A POPULARIDADE DELA QUE ALCANÇOU 78%. Os ataques coordenados pela grande midia brasileira contra a política econômica nacionalista adotada pela presidenta Dilma Roussef, de combate à especulação financeira, por intermédio da redução continuada dos juros, configuram crime de lesa pátria, porque eles significam favorecimento à sobrevalorização da moeda nacional, cujas consequências representam aumento do endividamento público e desindustrialização nacional. Ou seja, pintaria o abismo fiscal, também, no Brasil, como acontece nos Estados Undios. No momento em que o Banco Central americano decide continuar com a expansão monetária – guerra cambial – para combater a onda de desemprego na América , se Dilma segue a orientação pregada pelo poder midiático oligopolizado brasileiro, porta-voz dos interesses do poder financeiro, igualmente, olipolizado, deixando a economia sem proteção, detona, consequentemente, o mercado interno, que a política nacionalista lulista-dilmista controi como arma contra a crise global, a fim de favorecer as estratégias adotadas pelos governos dos países ricos, ameaçados por ondas deflacionárias. A grande mídia tupiniquim, anti-nacionalista, expressa a insatisfação da bancocracia patrocinadora da agiotagem, considerando Dilma intervencionista, responsável por um mal gerenciamento econômico que impediria os investimentos produtivos. Ou seja, uma construção mental distorcida, ideologicamente traidora, que, se implementada, trabalharia a favor dos interesses do capitalismo cêntrico, às voltas com excesso de produção, que precisa ser desovado na periferia por meio de ofertas monetárias excessivas, como as que estão sendo implementadas pelo governo Obama, de modo a desvalorizar o dólar e sobrevalorizar as moedas dos outros concorrentes. O mesmo fazem Europa e Japão. Dilma resiste e busca fazer igual ao que eles, lá fora, estão fazendo, isto é, jogando duro contra os especuladores, reservando a estes juro zero ou negativo para suas aplicações especulativas. O exemplo dado, durante a semana, pelo Banco Central Europeu, de supervisionar, de agora em diante, os bancos, cujas estratégias especulativas, desregulamentadoras, oligopolizadas, levaram o capitalismo ao colapso financeiro, coloca em xeque o discurso neoliberal, anti-nacional, abraçado pelo poder mídiático brasileiro, colocado a serviço do poder bancário olipolizado no Brasil, inconformado com a política nacionalista dilmista, decidida a estabelecer para os bancos uma outra possibilidade, ou seja, a de ganharem dinheiro, de agora em diante, não mais na especulação, mas na aposta na produção, coisa que, ao longo da história da Nova República, eles não fizeram. A reação do poder midático oligopolizado à presidenta da Argentina, Cristina Kirchner, também, se explica por ai, porque ao abrir possibilidades para outros grupos midiáticos surgirem, democratizando a oferta de informação, uma outra fonte informativa, nacionalista, entraria em cena. Certamente, onda sul-americana, nese sentido, tende a ampliar-se. Tem lógica uma Rede Globo, por exemplo, deter, em território nacional, mais de 120 empresas associadas, para sintonizar o discurso global anti-nacionalista, configurando crime de lesa pátria? O pder midiático que vive de concessão patrocinada pelo Estado nacional se coloca contra o próprio Estado nacional sob impacto da orientação econõmica nacionalista. Um novo tempo está chegando, minha gente.
CIC.

Ceia de Natal – de gilda kluppel / curitiba.pr

 

 

A mesa está posta

toalha e guardanapos

em tons vermelhos

para saudar aquele…

senhor das barbas brancas

ao invés de reis magos

somente os convidados.

Para seguir outra estrela

distante de Belém

e que conduz aos excessos

ao invés do perfume de mirra

o cheiro da comida.

Ele, de roupa pesada

torturado pelo calor de dezembro

largo cinturão preto

afrouxado para a ceia

os presentes no grande saco

as tantas quinquilharias

para alegrar uma noite

e talvez mais algumas horas

de fervoroso consumo

ao invés de Feliz Natal

agora se diz apenas Boas Festas.

Maria e José do lado de fora

espiam pela janela

procurando por Jesus querem saber

a cruz ainda pregada na parede da sala

alguém lembra do aniversário?

 

 

O CHAMADO DAS PEDRAS de CORA CORALINA

CORALINA  NAS PEDRAS

O chamado das Pedras

A estrada está deserta.
Vou caminhando sozinha.

Ninguém me espera no caminho.
Ninguém acende a luz.
A velha candeia de azeite
de lá muito se apagou.

Tudo deserto.
A longa caminhada.
A longa noite escura.
Ninguém me estende a mão.
E as mãos atiram pedras.
Sozinha…

Errada a estrada.
No frio, no escuro, no abandono.
Tateio em volta e procuro a luz.
Meus olhos estão fechados.
Meus olhos estão cegos.
Vêm do passado.

Num bramido de dor.
Num espasmo de agonia
Ouço um vagido de criança.
É meu filho que acaba de nascer.

Sozinha…
Na estrada deserta,
Sempre a procurar
o perdido tempo que ficou pra trás.

Do perdido tempo.
Do passado tempo
escuto a voz das pedras:

Volta…Volta…Volta…
E os morros abriam para mim
Imensos braços vegetais.

E os sinos das igrejas
Que ouvia na distância
Diziam: Vem… Vem… Vem…

E as rolinhas fogo-pagou
Das velhas cumeeiras:
Porque não voltou…
Porque não voltou…
E a água do rio que corria
Chamava…chamava…

Vestida de cabelos brancos
Voltei sozinha à velha casa deserta.

- Cora Coralina, “Meu Livro de Cordel”, 8°ed., 1998.

DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS / O N U

DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS

Adotada e proclamada pela resolução 217 A (III)
da  Assembleia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948

Preâmbulo

        Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo,
Considerando que o desprezo e o desrespeito pelos direitos humanos resultaram em atos bárbaros que ultrajaram a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que os homens gozem de liberdade de palavra, de crença e da liberdade de viverem a salvo do temor e da necessidade foi proclamado como a mais alta aspiração do homem comum,
        Considerando essencial que os direitos humanos sejam protegidos pelo Estado de Direito, para que o homem não seja compelido, como último recurso, à rebelião contra tirania e a opressão,
Considerando essencial promover o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações,
Considerando que os povos das Nações Unidas reafirmaram, na Carta, sua fé nos direitos humanos fundamentais, na dignidade e no valor da pessoa humana e na igualdade de direitos dos homens e das mulheres, e que decidiram promover o progresso social e melhores condições de vida em uma liberdade mais ampla,
Considerando que os Estados-Membros se comprometeram a desenvolver, em cooperação com as Nações Unidas, o respeito universal aos direitos humanos e liberdades fundamentais e a observância desses direitos e liberdades,
Considerando que uma compreensão comum desses direitos e liberdades é da mais alta importância para o pleno cumprimento desse compromisso,

A Assembleia  Geral proclama

        A presente Declaração Universal dos Diretos Humanos como o ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações, com o objetivo de que cada indivíduo e cada órgão da sociedade, tendo sempre em mente esta Declaração, se esforce, através do ensino e da educação, por promover o respeito a esses direitos e liberdades, e, pela adoção de medidas progressivas de caráter nacional e internacional, por assegurar o seu reconhecimento e a sua observância universais e efetivos, tanto entre os povos dos próprios Estados-Membros, quanto entre os povos dos territórios sob sua jurisdição.

Artigo I

        Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão  e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.

Artigo II

        Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua,  religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.

Artigo III

        Toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.

Artigo IV

        Ninguém será mantido em escravidão ou servidão, a escravidão e o tráfico de escravos serão proibidos em todas as suas formas.

Artigo V

        Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante.

Artigo VI

        Toda pessoa tem o direito de ser, em todos os lugares, reconhecida como pessoa perante a lei.

Artigo  VII

        Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.

Artigo VIII

        Toda pessoa tem direito a receber dos tributos nacionais competentes remédio efetivo para os atos que violem  os direitos fundamentais que lhe sejam reconhecidos pela constituição ou pela lei.

Artigo IX

        Ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado.

Artigo X

        Toda pessoa tem direito, em plena igualdade, a uma audiência justa e pública por parte de um tribunal independente e imparcial, para decidir de seus direitos e deveres ou do fundamento de qualquer acusação criminal contra ele.

Artigo XI

        1. Toda pessoa acusada de um ato delituoso tem o direito de ser presumida inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa.
2. Ninguém poderá ser culpado por qualquer ação ou omissão que, no momento, não constituíam delito perante o direito nacional ou internacional. Tampouco será imposta pena mais forte do que aquela que, no momento da prática, era aplicável ao ato delituoso.

Artigo XII

        Ninguém será sujeito a interferências na sua vida privada, na sua família, no seu lar ou na sua correspondência, nem a ataques à sua honra e reputação. Toda pessoa tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques.

Artigo XIII

        1. Toda pessoa tem direito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado.
2. Toda pessoa tem o direito de deixar qualquer país, inclusive o próprio, e a este regressar.

Artigo XIV

        1.Toda pessoa, vítima de perseguição, tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países.
2. Este direito não pode ser invocado em caso de perseguição legitimamente motivada por crimes de direito comum ou por atos contrários aos propósitos e princípios das Nações Unidas.

Artigo XV

        1. Toda pessoa tem direito a uma nacionalidade.
2. Ninguém será arbitrariamente privado de sua nacionalidade, nem do direito de mudar de nacionalidade.

Artigo XVI

        1. Os homens e mulheres de maior idade, sem qualquer retrição de raça, nacionalidade ou religião, têm o direito de contrair matrimônio e fundar uma família. Gozam de iguais direitos em relação ao casamento, sua duração e sua dissolução.
2. O casamento não será válido senão com o livre e pleno consentimento dos nubentes.

Artigo XVII

        1. Toda pessoa tem direito à propriedade, só ou em sociedade com outros.
2.Ninguém será arbitrariamente privado de sua propriedade.

Artigo XVIII

        Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular.

Artigo XIX

        Toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.

Artigo XX

        1. Toda pessoa tem direito à  liberdade de reunião e associação pacíficas.
2. Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação.

Artigo XXI

        1. Toda pessoa tem o direito de tomar parte no governo de seu país, diretamente ou por intermédio de representantes livremente escolhidos.
2. Toda pessoa tem igual direito de acesso ao serviço público do seu país.
3. A vontade do povo será a base  da autoridade do governo; esta vontade será expressa em eleições periódicas e legítimas, por sufrágio universal, por voto secreto ou processo  equivalente que assegure a liberdade de voto.

Artigo XXII

        Toda pessoa, como membro da sociedade, tem direito à segurança social e à realização, pelo esforço nacional, pela cooperação internacional e de acordo com a organização e recursos de cada Estado, dos direitos econômicos, sociais e culturais indispensáveis à sua dignidade e ao livre desenvolvimento da sua personalidade.

Artigo XXIII

        1.Toda pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego.
2. Toda pessoa, sem qualquer distinção, tem direito a igual remuneração por igual trabalho.
3. Toda pessoa que trabalhe tem direito a uma remuneração justa e satisfatória, que lhe assegure, assim como à sua família, uma existência compatível com a dignidade humana, e a que se acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social.
4. Toda pessoa tem direito a organizar sindicatos e neles ingressar para proteção de seus interesses.

Artigo XXIV

        Toda pessoa tem direito a repouso e lazer, inclusive a limitação razoável das horas de trabalho e férias periódicas remuneradas.

Artigo XXV

        1. Toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência fora de seu controle.
2. A maternidade e a infância têm direito a cuidados e assistência especiais. Todas as crianças nascidas dentro ou fora do matrimônio, gozarão da mesma proteção social.

Artigo XXVI

        1. Toda pessoa tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentais. A instrução elementar será obrigatória. A instrução técnico-profissional será acessível a todos, bem como a instrução superior, esta baseada no mérito.
2. A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. A instrução promoverá a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos, e coadjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz.
3. Os pais têm prioridade de direito n escolha do gênero de instrução que será ministrada a seus filhos.

Artigo XXVII

        1. Toda pessoa tem o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar do processo científico e de seus benefícios.
2. Toda pessoa tem direito à proteção dos interesses morais e materiais decorrentes de qualquer produção científica, literária ou artística da qual seja autor.

Artigo XVIII

        Toda pessoa tem direito a uma ordem social e internacional em que os direitos e  liberdades estabelecidos na presente Declaração possam ser plenamente realizados.

Artigo XXIV

        1. Toda pessoa tem deveres para com a comunidade, em que o livre e pleno desenvolvimento de sua personalidade é possível.
2. No exercício de seus direitos e liberdades, toda pessoa estará sujeita apenas às limitações determinadas pela lei, exclusivamente com o fim de assegurar o devido reconhecimento e respeito dos direitos e liberdades de outrem e de satisfazer às justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar de uma sociedade democrática.
3. Esses direitos e liberdades não podem, em hipótese alguma, ser exercidos contrariamente aos propósitos e princípios das Nações Unidas.

Artigo XXX

        Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpretada como o reconhecimento a qualquer Estado, grupo ou pessoa, do direito de exercer qualquer atividade ou praticar qualquer ato destinado à destruição  de quaisquer dos direitos e liberdades aqui estabelecidos.

Oscar Niemeyer, a Veja online e o Escaravelho – por leonardo boff / são paulo.sp

Com a morte de Oscar Niemeyer aos 104 anos de idade ouviram-se vozes do mundo inteiro cheias de admiração, respeito e reverência face a sua obra genial, absolutamente inovadora e inspiradora de novas formas de leveza, simplicidade e elegância na arquitetura. Oscar Niemeyer foi e é uma pessoa que o Brasil e a humanidade podem se orgulhar.

LEONARDO BOFFE o fazemos por duas razões principais: a primeira, porque Oscar humildemente nunca considerou a arquitetura a coisa principal da vida; ela pertence ao campo da fantasia, da invenção e do lúdico. Para ele era um jogo das formas, jogado com a seriedade com que as crianças jogam.

A segunda, para Oscar, o principal era a vida. Ela é apenas um sopro, passageira e contraditória. Feliz para alguns mas para as grandes maiorias cruel e sem piedade. Por isso, a vida impõe uma tarefa que ele assumiu com coragem e com sérios riscos pessoais: a da transformação. E para transformar a vida e torná-la menos perversa, dizia, devemos nos dar as mãos, sermos solidários uns para com os outros, criarmos laços de afeto e de amorosidade entre todos. Numa palavra, nós humanos devemos aprender a nos tratar humanamente, sem considerar as classes, a cor da pele e o nível de sua instrução.

Isso foi que alimentou de sentido e de esperança a vida desse gênio brasileiro. Por aí se entende que escolheu o comunismo como a forma e o caminho para dar corpo a este sonho, pois, o comunismo, em seu ideário generoso, sempre se propôs a transformação social a partir das vítimas e dos mais invisíveis. Oscar Niemeyer foi um fiel militante comunista.

Mas seu comunismo era singular: no meu modo de ver, próximo dos cristãos originários pois era um comunismo ético, humanitário, solidário, doce, jocoso, alegre e leve. Foi fiel a esse sonho a vida inteira, para além de todos os avatares passados pelas várias formas de socialismo e de marxismo.

Na medida em que pudemos observar, a grande maioria da opinião pública mundial, foi unânime na celebração de sua arte e do significado humanista de sua vida. Curiosamente a revista VEJA de domingo, dedica-lhe 10 belas páginas. Outra coisa, porém, é a revista VEJA online de 7 de dezembro com um artigo do blog do jornalista Reinado Azevedo que a revista abriga.

Ele foi a voz destoante e de reles mau gosto. Até agora a VEJA não se distanciou daquele conteúdo, totalmente, contraditório àquele da edição impressa de domingo. Entende-se porque a ideologia de um é a ideologia do outro. Pouco importa que o jornalista Azevedo, de forma confusa, face às críticas vindas de todos os lados, procure se explicar. Ora se identifica com a revista, ora se distancia, mas finalmente seu blog é por ela publicado.

Notoriamente, VEJA se compraz em desfazer as figuras que melhor mostram nossa cultura e que mais penetraram na alma do povo brasileiro. Essa revista parece se envergonhar do Brasil, porque gostaria que ele fosse aquilo que não é e não quer ser: um xerox distorcido da cultura norte-americana. Ela dá a impressão de não amar os brasileiros, ao contrário expõe ao ridículo o que eles são e o que criam. Já o titulo da matéria referente a Oscar Niemeyer da autoria de Azevedo, revela seu caráter viciado e malevolente: “Para instruir a canalha ignorante. O gênio e o idiota em imagens”. Seu texto piora mais ainda quando, se esforça, titubeante, em responder às críticas em seu blog do dia 8/12 também na VEJA online com um título que revela seu caráter despectivo e anti-democrático:”Metade gênio e metade idiota- Niemeyer na capa da VEJA com todas as honras! O que o bloco dos Sujos diz agora?” Sujo é ele que quer contaminar os outros com a própria sujeira de uma matéria tendenciosa e injusta.

O que se quer insinuar com os tipos de formulação usados? Que brasileiro não pode ser gênio; os gênios estão lá fora; se for gênio, porque lá fora assim o reconhecem, é apenas em sua terceira parte e, se melhor analisarmos, apenas numa quarta parte. Vamos e venhamos: Quem diz ser Oscar Niemeyer um idiota apenas revela que ele mesmo é um idiota consumado. Seguramente Azevedo está inscrito no número bem definido por Albert Einstein: “conheço dois infinitos: o infinito do universo e o infinito dos idiotas; do primeiro tenho dúvidas, do segundo certeza”. O articulista nos deu a certeza que ele e a revista que o abriga possuem um lugar de honra no altar da idiotice.

O que não tolera em Oscar Niemeyer que, sendo comunista, se mostra solidário, compassivo com os que sofrem, que celebra a vida, exalta a amizade e glorifica o amor. Tais valores não cabem na ideologia capitalista de mercado, defendida por VEJA e seu albergado, que só sabe de concorrência, de “greed is good” (cobiça é coisa boa), de acumulação à custa da exploração ou da especulação, da falta de solidariedade e de justiça em nível internacional.

Mas não nos causa surpresa; a revista assim fez com Paulo Freire, Cândido Portinari, Lula, Dom Helder Câmara, Chico Buarque, Tom Jobim, João Gilberto, frei Betto, João Pedro Stédile, comigo mesmo e com tantos outros. Ela é um monumento à razão cínica. Segue desavergonhadamente a lógica hegeliana do senhor e do servo; internalizou o senhor que está lá no Norte opulento e o serve como servo submisso, condenado a viver na periferia. Por isso tanto a revista quanto o articulista revelam um completo descompromisso com a verdade daqui, da cultura brasileira.

A figura que me ocorre deste articulista e da revista semanal, em versão online, é a do escaravelho, popularmente chamado de rola-bosta. O escaravelho é um besouro que vive dos excrementos de animais herbívoros, fazendo rolinhos deles com os quais, em sua toca, se alimenta. Pois algo semelhante fez o blog de Azevedo na VEJA online: foi buscar excrementos de 60 e 70 anos atrás, deslocou-os de seu contexto (ela é hábil neste método) e lançou-os contra Oscar Niemeyer. Ela o faz com naturalidade e prazer, pois, é o meio no qual vive e se realimenta continuamente. Nada de surpreendente, portanto.

Paro por aqui. Mas quero apenas registrar minha indignação contra esta revista, em versão online, travestida de escaravelho por ter cometido um crime lesa-fama. Reproduzo igualmente dois testemunhos indignados de duas pessoas respeitáveis: Antonio Veronese, artista plástico vivendo em Paris e João Cândido Portinari, filho do genial pintor Cândido Portinari, cujas telas grandiosas estão na entrada do edifício da ONU em Nova York e cuja imagem foi desfigurada e deturpada, repetidas vezes, pela revista-escaravelho.

Casa Branca: ” Legado de Niemeyer inspirará gerações “

enquanto isso a REVISTA VEJA chama-o de  ” …..meio gênio e meio IMBECIL…”. pois é…

 

08/12/2012 | 16:51 | AGÊNCIA ESTADO

O legado de Oscar Niemeyer vai ficar vivo na beleza de suas obras e inspirar gerações, afirmou a Casa Branca em um comunicado em que lamenta a morte do arquiteto brasileiro, na noite da última quarta-feira (5). “Os Estados Unidos estendem suas profundas condolências ao povo do Brasil pelo falecimento do lendário arquiteto Oscar Niemeyer”, destaca a nota à imprensa divulgada neste Sábado.

A nota ressalta que Niemeyer foi inovador e mestre em criatividade, deixando sua marca em várias obras pelo mundo e ajudando a moldar a identidade única da nação brasileira. “Ele transpôs as curvas naturais da antiga capital, Rio, para os prédios e monumentos de Brasília.”

O comunicado ressalta a contribuição do arquiteto para desenhar a sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, e o fato de Niemeyer ser considerado membro honorário do Instituto Americano de Arquitetos desde 1963.

Ex-general argentino é condenado a prisão perpétua pela oitava vez por crimes na ditadura

Em sua defesa, Luciano Benjamín Menéndez repetiu o discurso de combate à subversão da esquerda

Wikicommons

O ex-general Luciano Benjamín Menéndez (direita) justificou seus atos pelo combate à “subversão marxista internacional”

O ex-general Luciano Benjamín Menéndez foi condenado, nesta sexta-feira (07/12), pela oitava vez, a prisão perpétua por crimes cometidos durante a ditadura argentina (1976-1983), quando cerca de 30 mil pessoas foram assassinadas ou desapareceram, segundo organizações de direitos humanos.

Condenado na província de La Rioja como coautor na prisão ilegal e homicídio triplamente qualificado de dois sacerdotes – ações classificadas pelo tribunal como “crime contra a humanidade”-, o ex-comandante do Terceiro Corpo do Exército, hoje com 85 anos, cumprirá suas sentenças na penitenciária de Ezeiza, na região metropolitana de Buenos Aires.

Menéndez foi o comandante máximo das atividades do Exército em dez províncias argentinas durante o período de repressão, fato pelo qual acumula, além das sete sentenças perpétuas atuais, numerosas acusações por violações aos direitos humanos.

O ex-vice-comodoro, Luis Fernando Estrella, e o ex-delegado de polícia Domingo Benito Vera também foram condenados a prisão perpétua pelos mesmos crimes. Ambos cumprirão a sentença no serviço penitenciário de La Rioja. Ao fim do julgamento, ativistas, membros de organizações de direitos humanos e de comunidades cristãs celebraram a decisão do tribunal.

Durante a leitura da sentença, o juiz responsável pelo caso teve que gritar repetidas vezes, de forma brusca, a ordem de “silêncio na sala”, frente à manifestação dos presentes, que comemoravam as sentenças perpétuas “por unanimidade” e a revogação do pedido de prisão domiciliar a Menéndez e aos demais condenados. Antes mesmo do fim da leitura, alguns dos presentes invocaram o nome dos sacerdotes, ao que respondiam “presente!”.

Segundo a imprensa local, Menéndez fez seu último pronunciamento por vídeoconferência, na qual afirmou que o julgamento de “supostos culpados de supostos crimes” é “inconstitucional”. O ex-general voltou a repetir o discurso sustentado pela cúpula da ditadura, da existência de uma “guerra contra a subversão marxista internacional”, que justificaria seus atos.

Ao serem sequestrados em julho de 1976, na província de La Rioja, os sacerdotes Carlos de Dios Murias e Gabriel Longueville foram interrogados e torturados em uma base da Força Aérea Argentina. Seus corpos foram encontrados com vendas nos olhos e marcas de torturas um mês depois.

Segundo parentes dos sacerdotes, uma das características da repressão na região foi a perseguição de religiosos comprometidos com o movimento rural, que reivindicavam o direito dos camponeses à terra. De acordo com a secretaria de Direitos Humanos, dependente do Ministério de Justiça, há numerosas provas que atestam a perseguição a sacerdotes pelos repressores.

VEJA reinaldo azevedo, O TECLADO DE ALUGUEL PARA OS CORRUPTOS, o que escreve na VEJA sobre OSCAR NIEMAYER. reinaldo recebeu seus dinheirinhos em dia!

 

06/12/2012

às 5:03

Morre Oscar Niemeyer, metade gênio e metade idiota

Morreu o arquiteto Oscar Niemeyer, aos 104 anos. Pensava e escrevia coisas detestáveis. Dele se pode dizer o que disse Millôr Fernandes sobre um colega seu de Pasquim: “Metade é gênio, e metade é idiota”.

Não tenho nada a acrescentar ao que escrevi sobre ele, neste blog, quando fez 99 anos – teve tempo de escrever e de dizer muitas tolices depois. Mas nada disso, acho, macula a sua obra. Reproduzo aquele texto. Volto para encerrar.
*
Um homem não é sua obra. Céline — Louis-Ferdinand Céline — era um idiota político e um antissemita delirante. E, no entanto, escrevia como um príncipe. Cumpre não usar o seu belo texto para justificar seu cretinismo. Ezra Pound era um fascistoide do miolo mole, mas um poeta admirável (embora não do meu gosto pessoal) e um homem de cultura. Os textos sobre política de Fernando Pessoa não servem nem para catar cocô. E foi, a meu ver, um dos maiores poetas de todos os tempos em qualquer língua. A lista seria gigantesca. Há cretinos políticos de esquerda também. O meu romancista predileto no Brasil, Graciliano Ramos, era comunista, mas São BernardoAngústiaVidas Secas ou mesmo Memórias do Cárcere — relato de quando foi preso pela ditadura de Getúlio justamente porque era comunista — não são.

Os meus amigos sabem o que penso: artistas jamais deveriam se ocupar de política — não em sua arte. Não acredito em obra engajada, a não ser naquela que expressa melancolia, desespero e saudosismo. A boa arte política é sempre reacionária, voltada para o passado. Artistas que se dobram a utopias finalistas se transformam em prosélitos. Desconheço se Churchill escreveu algum verso ou disse algo relevante sobre a condição humana. Mas, em política, foi o maior entre os, chamemo-lo ainda assim, contemporâneos. Cada coisa em seu lugar. É típico do obscurantismo e da burrice — fascista ou leninista — satanizar a obra deixada por um artista por conta do seu alinhamento ideológico. Seria como censurar Churchill porque mau poeta.

Respeito, como quase sempre, opiniões contrárias e até entendo a natureza da crítica. Pessoalmente, no entanto, acho Oscar Niemeyer um gênio, embora deplore as suas escolhas políticas e enxergue em sua trajetória de vida o principal desvio de caráter dos comunistas: o oportunismo nos meios com o totalitarismo no fim. Mas e daí? Vou dizer, por isso, que não vislumbro no seu trabalho a centelha do gênio? Vislumbro. Não sei quanto tempo ainda dura esta nossa aventura. Pelo tempo que durar, o seu trabalho restará como bom exemplo do que pode produzir o gênio humano.

Assim como, sei lá eu, o gótico foi a expressão material do espírito de um tempo, acho que Niemeyer conseguiu dar forma à cultura moderna, com a leveza do seu concreto, o que já é quase um clichê. A Catedral de Brasília, templo de oração projetado por um ateu militante, consegue a síntese perfeita entre o mundo horizontal e igualitário — o espírito do tempo moderno — e o apelo ao divino, a memória cultural que uma igreja, qualquer uma, evoca. Acho descabidas as críticas a seus prédios brasilienses — “desconfortáveis”, “ignoram a natureza”, sei lá o quê… Mas tudo bem: essa crítica é pertinente e aceitável.

O que censuro mais em Juscelino Kubitschek do que nele, aí, sim, é a vocação para achar que a sociedade obedece a regras que cabem num projeto. Brasília foi, em muitos aspectos, um delírio caro, desnecessário e megalômano, que, ademais, afastou a política da vida dos cidadãos comuns. A concepção, em si, é autoritária, menos pelo que possa haver de “comunismo” embutido do que de descolamento de certa elite da realidade do país. Cidades só nasciam por atos administrativos na vontade de imperadores e déspotas. Elas são construções coletivas, como, aliás, a Brasília cheia de defeitos de hoje prova à farta.

Voltei
A estupidez política de Niemeyer, que defendia regimes homicidas, não condena a sua obra. Mas a sua obra também não absolve a sua estupidez política.

NIEMEYER : A VIDA É UM MINUTO…

 

Morreu, aos 104 anos, às 21:55 do dia 05 do mês de novembro do ano da graça de 2012 um dos grandes gênios da inteligência brasileira: Oscar Niemeyer. O arquiteto, com mais de cem grandes obras revolucionárias construídas no niemeyermundo inteiro e que teve nos monumentos  de Brasília um de seus momentos culminantes, não foi apenas um homem da prancheta. Foi um humanista, voltado à afirmação da vida, na incansável tentativa de juntar os céus à terra, a imaginação à razão, os ideais ao real. A Presidente Dilma Roussef  ofereceu o Palácio do Planalto para as cerimônias fúnebres de Niemeyer e emitiu Nota que sintetiza o sentimento de todos os brasileiros diante da grande perda:

 PRESIDENCIA DA REPUBLICA

A gente tem que sonhar, senão as coisas não acontecem”, dizia Oscar Niemeyer, o grande brasileiro que perdemos hoje. E poucos sonharam tão intensamente e fizeram tantas coisas acontecer como ele

A sua história não cabe nas pranchetas. Niemeyer foi um revolucionário, o mentor de uma nova arquitetura, bonita, lógica e, como ele mesmo definia, inventiva.

Da sinuosidade da curva, Niemeyer desenhou casas, palácios e cidades. Das injustiças do mundo, ele sonhou uma sociedade igualitária. “Minha posição diante do mundo é de invariável revolta”, dizia Niemeyer. Uma revolta que inspira a todos que o conheceram.

Carioca, Niemeyer foi, com Lúcio Costa, o autor intelectual de Brasília, a capital que mudou o eixo do Brasil para o interior. Nacionalista, tornou-se o mais cosmopolita dos brasileiros, com projetos presentes por todo o país, nos Estados Unidos, França, Alemanha, Argélia, Itália e Israel, entre outros países. Autodeclarado pessimista, era um símbolo da esperança.

O Brasil perdeu hoje um dos seus gênios. É dia de chorar sua morte. É dia de saudar sua vida.

Brasília, 05 de dezembro de 2012 – Dilma Roussef – Presidente da República

 

 

Niemeyer , o Poeta –  Poema das Curvas, 1988

Não é o ângulo reto que me atrai.
Nem a linha reta, dura, inflexível,
criada pelo homem.
O que me atrai é a curva livre e
sensual.
A curva que encontro nas
montanhas do meu país,
no curso sinuoso dos seus rios,
nas nuvens do céu,
no corpo da mulher amada.
De curvas é feito todo o universo.
O universo curvo de Einstein.

 

Niemeyer, o arquiteto da modernidade
“A técnica de defender os monumentos não é copiar, é fazer o contraste. Todo mundo gosta da arquitetura colonial. Mas a gente sabe perfeitamente que ela é mais portuguesa que brasileira. Eu quando vou a Europa e passo por uma cidade antiga eu me sinto melhor. Passar por Portugal naquelas velhas aldeias portuguesas que a gente parece estar no Brasil né ? Eu me lembro que na Europa, às vezes eles diziam: O passado arquitetônico de vocês é pobre, é mais português do que brasileiro. E eu dizia: isso é muito bom para nós, porque vocês vivem circulando entre monumentos, e nós estamos livres pra fazer hoje o passado de amanhã.”

 

Niemeyer, o político: O importante é protestar
“A minha arquitetura não é uma solução pra arquitetura, é a minha arquitetura. Assim como na pintura a gente tá de acordo de que não existe a pintura antiga e moderna, existe a boa e a má pintura. Na arquitetura é a mesma coisa. O ideal é cada um procurar o seu caminho e fazer o que gosta. Eu confesso a você que eu tô um pouco cansado de falar de arquitetura. Porque as coisas se repetem, a conversa é a mesma, as perguntas são as mesmas. Mais importante do que a arquitetura é estar pronto pra protestar e ir na rua, isso que é importante, é o sujeito se sentir bem, sentir que não é um merda, que ele tá ali pra ser útil…”

Autoajuda. Está tudo resolvido – por luiz fernando pereira / curitiba.pr

Nunca tinha me dado conta do incrível avanço das publicações de livros de autoajuda (sim, aqui a reforma, sob meu protesto, sacou o hífen). Especialmente nas livrarias mais modernosas, há sempre um enorme departamento luiz-fernando-pereiraespecialmente dedicado. Não é o caso do nosso Chain, livreiro que ainda resiste um pouco ao subproduto. Chain vende autoajuda – é inevitável -, mas os livros estão um pouco escondidos, revelando saudável constrangimento.

Achei alguns números. Há dez anos a revista Veja já mostrava que a publicação de obras do gênero havia tido um crescimento de mais de 700% nos últimos oito anos, contra um aumento de 35% do mercado geral de livros. Dez anos depois e os livros de autoajuda tomaram conta do mercado. Notem que as listas de mais vendidos estão divididas em três categorias: ficção, não ficção e autoajuda. Por que atraem tanto? É simples: prometem resolver tudo de forma rápida e simples.

Dizem que foi o americano Dale Carnegie que deu início ao gênero. E convenhamos: faz todo o sentido que tenha começado no fértil ambiente dos americanos. Nos anos 30 Carnegie publicou Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas. Vendeu mais de cinquenta milhões de exemplares. É muita coisa. Nemesis, livro de despedida de Philip Roth, tem uma tiragem de sete mil exemplares aqui no Brasil. Carnegie vende muito mais porque sabe simplificar. Costuma dizer: “Acredite que você pode mudar sua vida, e isso se concretizará”. Fascina multidões.

Bem analisado o fenômeno, autoajuda faz em boa medida o que a religião sempre fez. Confira comigo: Quando você diz que é impossível, Deus observa: “tudo é possível” (Lucas – capítulo 18, versículo 27). Quer mais? Quando você diz: Eu não posso, Deus discorda: “tudo podes” (Filipenses 4:13). Não por acaso a bíblia vende ainda mais do que Dale Carnegie. É auto-ajuda do início ao fim. Os budistas criaram o mesmo papinho cinco séculos antes de Cristo e os muçulmanos cinco séculos depois. Na essência é tudo autoajuda.

Não tenho capacidade e não quero fazer análise sociológica do fenômeno, é claro. A curiosidade dos títulos é o que me motiva. Já pensando em escrever o artigo, anotei alguns bem interessantes. Como são incontáveis as publicações, se você tiver tempo ou dinheiro para apenas um, sugiro Como Conquistar Tudo o que Você Deseja mais Rápido do que Jamais Imaginou. Conquistar tudo que deseja. E rápido. Esse é perfeito.

Entre os mais focados, estão os orientados para o assim chamado mundo corporativo. Lançado em 2011, o título (sempre autoexplicativo) é Consiga um aumento e seja promovido com rapidez. Se você leu, entendeu e seguiu os conselhos, mas não foi promovido e muito menos conseguiu aumento, não se preocupe. Tente Como se destacar em seu ambiente de trabalho, de Joe Calloway. Novo insucesso? Aí é o caso de apelar para um tal John Hoover e culpar o chefe: Como trabalhar para um idiota, já na décima primeira edição pela Saraiva. E se você por acaso for o próprio chefe, Bruce Tulgan lançou título encorajador: Não tenha medo de ser chefe.

Gosto muito dos que tratam das questões de alcova, a começar por um clássico: Tudo o que Você Queria Saber Sobre Sexo… Mas Tinha Medo de Perguntar. Leu e está sabendo tudo, mas perdeu um pouco o entusiasmo na relação? Pamela Lister, pela Editora Gente, tem a solução: Sexo no casamento: dez segredos para manter viva a atração. De acordo com a autora, “o desejo a longo prazo está ao alcance de todos os que se empenharem”. Como não pensamos nisso antes? A mulher já não é mais tão nova? Sem problemas. Gail Sheehy, agora pela Rocco, explica tudo em O sexo e a mulher madura. Bem, se eventualmente os livros anteriores não ajudaram, resta gastar um pouco mais com o livro de Rosaura Rodriguez: Bem-vinda ao clube do divórcio. Li a contracapa. Rosaura explica que “não se deve confiar em conselhos estapafúrdios de amigas solteiras”. No final a incrível conclusão: “é possível ser feliz sozinha ou acompanhada”. Genial a Rosaura.

Com o crescimento do mercado, é natural que aumente o grau de especialidade dos títulos. Gostei de alguns realmente bem direcionados. Antônio Fonseca Jr., orientado pelo aumento do percentual de obesos, publicou: Tudo que um gordo deveria saber (atitudes de um gordo). No anúncio promete uma visão holística da matéria. Fico a pensar: o que pode ser uma visão holística do gordo? Você não é gordo, mas se acha muito tímido e introvertido, ponha sua vida nas mãos de Susan Cain e seu novo livro: O poder dos quietos. A autora critica “o ideal da extroversão do século XX” (?!) e, também como está na síntese apresentada, “oferece inestimáveis conselhos sobre como os tímidos podem tirar vantagem das suas características”. Para os não raros casos de gordos tímidos a saída é ler os dois livros. Até pelo menos que alguém lance algo mais específico: “sucesso total ao alcance imediato dos gordos tímidos” (fica minha singela sugestão de título).

No fundo eu desconfio que todos os livros são escritos por heterônimos de um mesmo autor – que só muda um pouco a ordem das palavras. Viva o Chain – que ainda mantém intacta a vergonha e quase esconde os livros de autoajuda.

ROSA DE SOUZA e FUNDAÇÃO CATARINENSE DE CULTURA convidam: ilha de santa catarina

Oito_Cães_e_uma_vida

ENTREVISTA ABRE JANELA PARA IMPEACHMENT DE FUX.

fux
                                                                                                                     LUIZ FUX.Depoimento desastroso à jornalista Mônica Bergamo aponta sinais de quebra de decoro por parte do ministro Luiz

Fux, do Supremo Tribunal Federal. Ele revela que como fez lobby explícito para chegar à suprema corte e confessa que usou decisões judiciais que tomou para se promover. No Brasil, nunca houve um impeachment de ministro do STF e a decisão compete ao Senado Federal. Qualquer cidadão pode propor a ação.
A ENTREVISTA:
02/12/2012 - 04h30

Em campanha para o STF, Luiz Fux procurou José Dirceu

MÔNICA BERGAMO
COLUNISTA DA FOLHA

O ministro Luiz Fux, 59, diz que desde 1983, quando, aprovado em concurso, foi juiz de Niterói (RJ), passou a sonhar com o dia em que se sentaria em uma das onze cadeiras do Supremo Tribunal Federal (STF).

Quase trinta anos depois, em 2010, ele saía em campanha pelo Brasil para convencer o então presidente Lula a indicá-lo à corte.

Fux era ministro do STJ (Superior Tribunal de Justiça), o penúltimo degrau na carreira da magistratura. “Estava nessa luta” para o STF desde 2004 –sempre que surgia uma vaga, ele se colocava. E acabava preterido. “Bati na trave três vezes”, diz.

‘Pensei que não tinha provas; li o processo do mensalão e fiquei estarrecido’, diz Fux

Sérgio Lima/Folhapress
Ministro Luiz Fux no prédio do Supremo Tribunal Federal, em Brasília
Ministro Luiz Fux no prédio do Supremo Tribunal Federal, em Brasília

AVAL

Naquele último ano de governo Lula, era tudo ou nada.

Fux “grudou” em Delfim Netto. Pediu carta de apoio a João Pedro Stedile, do MST. Contou com a ajuda de Antônio Palocci. Pediu uma força ao governador do Rio, Sergio Cabral. Buscou empresários.

E se reuniu com José Dirceu, o mais célebre réu do mensalão. “Eu fui a várias pessoas de SP, à Fiesp. Numa dessas idas, alguém me levou ao Zé Dirceu porque ele era influente no governo Lula.”

O ministro diz não se lembrar quem era o “alguém” que o apresentou ao petista.

Fux diz que, na época, não achou incompatível levar currículo ao réu de processo que ele poderia no futuro julgar. Apesar da superexposição de Dirceu na mídia, afirma que nem se lembrou de sua condição de “mensaleiro”.

“Eu confesso a você que naquele momento eu não me lembrei”, diz o magistrado. “Porque a pessoa, até ser julgada, ela é inocente.”

Conversaram uma só vez, e por 15 minutos, segundo Fux. Conversaram mais de uma vez, segundo Dirceu.

A equipe do petista, em resposta a questionamento da Folha, afirmou por e-mail: “A assessoria de José Dirceu confirma que o ex-ministro participou de encontros com Luiz Fux, sempre a pedido do então ministro do STJ”.

Foram reuniões discretas e reservadas.

CURRÍCULO

Para Dirceu, também era a hora do tudo ou nada.

Ele aguardava o julgamento do mensalão. O ministro a ser indicado para o STF, nos estertores do governo Lula, poderia ser o voto chave da tão sonhada absolvição.

A escolha era crucial.

Fux diz que, no encontro com Dirceu, nada disso foi tratado. Ele fez o seguinte relato àFolha:

Luiz Fux - Eu levei o meu currículo e pedi que ele [Dirceu] levasse ao Lula. Só isso.

Folha – Ele não falou nada [do mensalão]?

Ele falou da vida dele, que tava se sentindo… em outros processos a que respondia…

Tipo perseguido?

É, um perseguido e tal. E eu disse: “Não, se isso o que você está dizendo [que é inocente] tem procedência, você vai um dia se erguer”. Uma palavra, assim, de conforto, que você fala para uma pessoa que está se lamentando.

MATO NO PEITO

Dirceu e outros réus tiveram entendimento diferente. Passaram a acreditar que Fux votaria com eles.

Uma expressão usual do ministro, “mato no peito”, foi interpretada como promessa de que ele os absolveria.

Fux nega ter dado qualquer garantia aos mensaleiros.

Ele diz que, já no governo Dilma Rousseff, no começo de 2011, ainda em campanha para o STF (Lula acabou deixando a escolha para a sucessora), levou seu currículo ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Na conversa, pode ter dito “mato no peito”.

Folha – Cardozo não perguntou sobre o mensalão?

Não. Ele perguntou como era o meu perfil. Havia causas importantes no Supremo para desempatar: a Ficha Limpa, [a extradição de Cesare] Battisti. Aí eu disse: “Bom, eu sou juiz de carreira, eu mato no peito”. Em casos difíceis, juiz de carreira mata no peito porque tem experiência.

Em 2010, ainda no governo Lula, quando a disputa para o STF atingia temperatura máxima, Fux também teve encontros com Evanise Santos, mulher de Dirceu.

Em alguns deles estava o advogado Jackson Uchôa Vianna, do Rio, um dos melhores amigos do magistrado.

Evanise é diretora do jornal “Brasil Econômico”. Os dois combinaram entrevista “de cinco páginas” do ministro à publicação.

Evanise passou a torcer pela indicação de Fux.

Em Brasília, outro réu do mensalão, o deputado João Paulo Cunha (PT-SP), articulava apoio para Fux na bancada do PT.

A movimentação é até hoje um tabu no partido. O deputado Cândido Vacarezza (PT-SP) é um dos poucos que falam do assunto.

Vacarezza - Quem primeiro me procurou foi o deputado Paulo Maluf. Eu era líder do governo Lula. O Maluf estava defendendo a indicação e me chamou no gabinete dele para apresentar o Luiz Fux. Tivemos uma conversa bastante positiva. Eu tinha inclinação por outro candidato [ao STF]. Mas eu ouvi com atenção e achei as teses dele interessantes.

Folha – E o senhor esteve também na casa do ministro Fux com João Paulo Cunha?

Eu confirmo. João Paulo me ligou dizendo que era um café da manhã muito importante e queria que eu fosse. Eu não te procurei para contar. Mas você tem a informação, não vou te tirar da notícia.

O mensalão foi abordado?

Não vou confirmar nem vou negar as informações que você tem. Mas eu participei de uma reunião que me parecia fechada. Tinha um empresário, tinha o João Paulo. Sobre os assuntos discutidos, eu preferia não falar.

Fux confirma a reunião. Mas diz que ela ocorreu depois que ele já tinha sido escolhido para o STF. Os petistas teriam ido cumprimentá-lo.

Na época, Cunha presidia comissão na Câmara por onde tramitaria o novo Código de Processo Civil, que Fux ajudou a elaborar.

Sobre Maluf, diz o magistrado: “Eu nunca nem vi esse homem”. Maluf, avisado do tema, disse que estava ocupado e não atendeu mais às chamadas da Folha. Ele é réu em três processos no STF.

CHORO

No dia em que sites começaram a noticiar que ele tinha sido indicado por Dilma para o STF, “vencendo” candidatos fortes como os ministros César Asfor Rocha e Teori Zavascki, também do STJ, Fux sofreu, rezou, chorou.

Luiz Fux - A notícia saiu tipo 11h. Mas eu não tinha sido comunicado de nada. E comecei a entrar numa sensação de que estavam me fritando. Até falei para o meu motorista: “Meu Deus do céu, eu acho que essa eu perdi. Não é possível”. De repente, toca o telefone. Era o José Eduardo Cardoso. Aí eu, com aquela ansiedade, falei: “Bendita ligação!”. Ele pediu que eu fosse ao seu gabinete.

No Ministério da Justiça, ficou na sala de espera.

Luiz Fux - Aí eu passei meia hora rezando tudo o que eu sei de reza possível e imaginável. Quando ele [Cardozo] abriu a porta, falou: “Você não vai me dar um abraço? Você é o próximo ministro do Supremo Tribunal Federal”. Foi aí que eu chorei. Extravasei.

De fevereiro de 2011, quando foi indicado, a agosto de 2012, quando começou o julgamento do mensalão, Fux passou um período tranquilo. Assim que o processo começou a ser votado, no entanto, o clima mudou.

Para surpresa dos réus, em especial de Dirceu e João Paulo Cunha, ele foi implacável. Seguiu Joaquim Barbosa, relator do caso e considerado o mais rigoroso ministro do STF, em cada condenação.

Foi o único magistrado a fazer de seus votos um espelho dos votos de Barbosa. Divergiu dele só uma vez.

Quanto mais Fux seguia Barbosa, mais o fato de ter se reunido com réus antes do julgamento se espalhava no PT e na comunidade jurídica.

Advogados de SP, Rio e Brasília passaram a comentar o fato com jornalistas.

A raiva dos condenados, e até de Dilma, em relação a Fux chegou às páginas dos jornais, em forma de notas cifradas em colunas –inclusive da Folha.

Pelo menos seis ministros do STF já ouviram falar do assunto. E comentaram com terceiros.

Fux passou a ficar incomodado. Conversou com José Sarney, presidente do Senado. “Sei que a Dilma está chateada comigo, mas eu não prometi nada.” Ele confirma.

Na posse de Joaquim Barbosa, pouco antes de tocar guitarra, abordou o ex-deputado Sigmaringa Seixas, amigo pessoal de Lula. Cobrou dele o fato de estarem “espalhando” que prometera absolver os mensaleiros.

Ao perceber que a Folha presenciava a cena, puxou a repórter para um canto. “Querem me sacanear. O pau vai cantar!”, disse. Questionado se daria declarações oficiais, não respondeu.

Dias depois, um emissário de Fux procurou a Folha para agendar uma entrevista.

RAIO X – LUIZ FUX, 59

Origem
Rio de Janeiro (RJ)

Família
Casado com Eliane Fux, tem dois filhos: Rodrigo e Marianna, ambos advogados

Formação
Bacharel em direito pela Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). Concluiu doutorado em processo civil, também pela Uerj

Carreira
Atuou por 18 anos no Ministério Público do Rio. Foi juiz em para Niterói (RJ). Passou a desembargador do TJ-RJ em 1997 e, em 2001, foi nomeado pelo então presidente FHC para o STJ. Está no Supremo desde 2011, indicado por Dilma

DITADURA ARGENTINA: Pela primeira vez, pilotos e tripulantes dos “voos da morte” serão julgados.

A prática era utilizada por militares para o desaparecimento de pessoas, que eram sedadas e jogadas do alto de aviões

O maior julgamento por violações aos direitos humanos perpetradas durante a ditadura argentina (1976-1983) terá início nesta quarta-feira (28/11), em Buenos Aires. Ao todo, 68 acusados de assassinatos, torturas e desaparecimentos na ESMA (Escola de Mecânica da Armada), onde funcionou o maior centro clandestino de prisão do país na época da repressão, sentarão no banco dos réus.

Divulgação

Presos políticos desaparecidos durante a ditadura militar na Argentina. Responsáveis por “voos da morte” serão julgados

Entre os acusados, estão pela primeira vez oito pilotos e tripulantes acusados de 50 homicídios nos emblemáticos “voos da morte”, prática utilizada por militares para o desaparecimento de pessoas, que eram sedadas e jogadas do alto de aviões no mar ou no Rio da Prata. No julgamento, que deve durar aproximadamente dois anos, cerca de 900 testemunhas devem ser escutadas sobre casos de 789 vítimas, das quais cerca de um terço é sobrevivente.

O maior julgamento por crimes na ditadura até então foi realizado em Tucumán, com 41 acusados no banco dos réus. O que começa nesta quarta-feira inclui acusados da Marinha, Exército, Polícia Federal, Prefeitura naval e do Serviço Penitenciário, e dois civis: um advogado acusado de participar de torturas e de pelo menos um voo da morte e um ex secretário de Fazenda de José Alfredo Martínez de Hoz, ministro de Economia entre 1976 e 1981.

Dos 68 réus, 16 já foram condenados, no ano passado, por crimes cometidos na ditadura. Jorge “Tigre” Acosta, por exemplo, soma penas de 30 anos e perpétua, por atrocidades como o roubo sistemático de bebês nascidos em prisões clandestinas; Antonio Pernías, também condenado a perpétua, encarregado do “aquário”, um setor da ESMA onde os presos faziam trabalho escravo; e Alfredo Astiz, condenado na França e na Argentina pelo assassinato das freiras francesas Alice Domon e Léonie Duquet.

ESMA

Administrada pela Marinha na época da ditadura, a ex-ESMA, localizada no bairro de Núñez, em Buenos Aires é um dos maiores símbolos do terror vivido no país durante o regime imposto após o golpe de Estado contra María Estela Martínez de Perón, em março de 1976. Segundo estimativas, cinco mil pessoas passaram por suas celas e salas de tortura, e cerca de 100 sobreviveram.

Maior prisão clandestina do país durante os anos de chumbo, o local teve dupla função durante a ditadura militar: prisão de oposicionistas e formação de novos militares. A investigação sobre os crimes cometidos na ESMA foi aberta nos anos 1980, após a redemocratização do país. O inquérito foi depois arquivado com as leis do Ponto Final (1986) e da Obediência Devida (1987).

Em outubro do ano passado, 12 repressores foram condenados à prisão perpétua pelo sequestro, tortura e assassinato de 86 pessoas no local. Outros quatro condenados receberam penas de 18 a 25 anos e dois dos réus foram absolvidos, mas continuaram presos à espera de mais julgamentos.

A ESMA ficou nas mãos das Forças Armadas até 2007, três anos depois de o ex-presidente Néstor Kirchner ordenar o desalojamento dos militares. Hoje, o local funciona como um “centro cultural e de memória”. Algumas dependências da ex-prisão clandestina podem ser visitadas, como o Cassino dos Oficiais (área onde mantinham e torturavam os presos) e a maternidade clandestina, onde se realizavam partos de presas grávidas. Muitos bebês nascidos no edifício foram sequestrados e ilegalmente adotados por outras famílias.

DANTE MENDONÇA e LIVRARIAS CURITIBA convidam: curitiba.pr

Curitibas 2

Que le vayas bién, L.F. Veríssimo! – por paulo timm / torres.rs

 

Não fora a querela entre ele e Juremir Machado da Silva, há cerca de 16 anos, poder-se-ia dizer que Luiz Fernando Veríssimo é unanimidade nacional. Algo extremamente difícil de conseguir, em se tratando de um gaúcho, cujo estilo franco e direto, além de cheio de razão, choca os “brasileiros” . Mas Veríssimo, apesar da brutalidade de  seu PAULO TIMMpersonagem clássico, o “Analista de Bagé”, é um homem doce, de hábitos simples e estilo quase “mineiro”.  Ele esteve conosco, aqui em Torres, no sábado anterior à sua internação em Porto Alegre,  no último dia 21, e semeou entre todos os que estiveram na apresentação de seu Sexteto (de cinco figuras) um pouco desta  empatia. Dava para notar, porém, seu abatimento físico. Felizmente, as notícias sobre seu estado de saúde são alvissareiras: o processo inflamatório está sob controle, está livre dos aparelhos e quase pronto para retomar suas atividades. Em boa hora, em sua coluna de hoje, no Correio do Povo, Juremir rememora sua polêmica com Veríssimo, penintencia-se por alguns excessos e, sem cair no pieguismo próprio destes momentos, revela sentimentos nobres. Parabéns, Juremir!

Luis Fernando Verissimo nasceu em Porto Alegre em 26 de setembro de 1936), filho do grande escritor Érico Verissimo, tendo passado parte da infância e adolescência nos Estados Unidos, onde apaixonou-se pelo jazz.  Ele próprio costuma dizer que custou muito a se encontrar no mundo e, especialmente, na literatura. Aos 75 anos, porém, tornou-se um dos mais conhecidos escritores brasileiros, com mais de 60 livros publicados. Suas s crônicas e textos de humor, com de sátiras de costumes, publicados diariamente em vários jornais brasileiros são tão apreciadas que até estimulam plagiadores a multiplicá-las apocrifamente pela Internet…Sãos os famosos hoaxes  criados e divulgados à sua revelia.  Verissimo é considerado o autor brasileiro mais citado nesse gênero. Ele é também cartunista e tradutor, além de roteirista de televisão, autor de teatro eromancista bissexto. Já foi publicitário e copy desk de jornal. É ainda músico, tendo tocado saxofone em  conjuntos que fizeram época em Porto Alegre. Um intelectual, enfim, no que isso tem de afinidade com as formas expressão da alma humana, avesso às incursões mais intrincadas das teorias e filosofias que tentam explicá-la.

Isso fica patente, numa  lembrança de seu primeiro jornalzinho infantil em família -     “O patentino” – nos personagens que criou e que cativaram o público: Ed Mort , Velhinha de Taubaté , Analista de Bagé , As Cobras , Família Brasil , Dorinha. E também nas suas tiradas, que, de tão felizes e prolíficas, ficam difíceis de serem selecionadas. De qualquer forma, almejando o pronto retorno de Veríssimo ao nosso convívio – e Torres lhe espera no veraneio ! – eis algumas, pinçadas, aliás, da rede:

1. Uma pessoa que é boa com você, mas grosseira com o garçom, não pode ser uma boa pessoa.

2. As pessoas que querem compartilhar as visões religiosas delas com você, quase nunca querem que você compartilhe as suas com elas.

3. Ninguém liga se você não sabe dançar. Levante e dance.

4. A força mais destrutiva do universo é a fofoca.

5. Não confunda nunca sua carreira com sua vida.

6. Jamais, sob quaisquer circunstâncias, tome um remédio para dormir e um laxante na mesma noite.

7. Se você tivesse que identificar, em uma palavra, a razão pela qual a raça humana ainda não atingiu (e nunca atingirá) todo o seu potencial, essa palavra seria “reuniões”.

8. Há uma linha muito tênue entre “hobby” e “doença mental”.

9. Seus amigos de verdade amam você de qualquer jeito.

10. Nunca tenha medo de tentar algo novo. Lembre-se de que um amador solitário construiu a Arca. Um grande grupo de profissionais construiu o Titanic.

Governo é derrotado na Câmara e dinheiro do petróleo não vai para educação

Câmara aprova royalties sem dinheiro para educação. União dos estados que não produzem petróleo imprime derrota ao governo da presidente Dilma Rousseff, que queria exclusividade das verbas do petróleo destinadas para a educação

Os deputados dos estados não produtores conseguiram fazer valer sua força na Câmara e derrubaram a proposta avalizada pelo governo para um novo modelo de partilha do petróleo no país. Os parlamentares aprovaram o texto que veio do Senado, que beneficia as unidades da federação que não produzem o combustível, em detrimento dos estados produtores, como Rio de Janeiro e Espírito Santo. Com a decisão, a educação não vai mais receber 100% dos lucros dos futuros contratos. O projeto agora segue para sanção presidencial.

VEJA AQUI COMO VOTOU CADA DEPUTADO

petróleo educação congresso

Marco Maia preside a sessão. União dos não produtores de petróleo leva o governo Dilma a sofrer derrota e dinheiro não irá para a educação. Presidente poderá vetar o projeto.

A previsão de destinar os lucros para a educação ficou definida na semana passada. O ministro da Educação, Aloizio Mercadante, ficou responsável pela articulação com parlamentares da base. Em reuniões com as bancadas do PT e aliadas, ele transmitiu a sugestão da presidenta Dilma Rousseff. O deputado Carlos Zarattini (PT-SP), relator do texto na Câmara, acolheu a sugestão.

Se o texto de Zarattini fosse aprovado, o dinheiro dos futuros contratos estariam carimbados, podendo ser usados por municípios, estados e União unicamente para educação. No entanto, para parlamentares contrários à proposta, acabou valendo mais o peso das alianças municipais dos deputados com prefeitos. “Pesa mais o corporativismo do que a vinculação para a educação. A discussão tem que começar do zero”, lamentou o líder em exercício do Psol, Ivan Valente (SP).

Em outubro, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara aprovou o Plano Nacional de Educação (PNE). Entre outras previsões, está a destinação de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) para a educação. O governo, então, viu nos lucros vindos da extração do petróleo a forma de aumentar o financiamento para a área.

Reviravolta

Porém, a sessão desta terça-feira (6) foi palco de uma reviravolta contra o governo. O DEM apresentou um requerimento de preferência de votação do projeto aprovado pelo Senado em outubro. Com apoio de deputados dos estados não produtores – que passariam a ter liberdade para usar como bem quisessem o dinheiro que vão receber, sem ficarem obrigados a fazer vinculações -, houve uma vitória apertada. Depois, ao ser colocado em votação, o projeto teve mais apoio. Somente PT e Psol se posicionaram contra.

“Até hoje, às 13h, não havia um consenso. Me parece que não foi maturado suficientemente na consciência dos deputados. Por isso estamos votando o texto do Senado”, analisou o líder do PSB na Câmara, Givaldo Carimbão (AL). Para deputados da base, houve falta de articulação, assumida na última semana pelo ministro da Educação, Aloizio Mercadante. Até então, era a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, a responsável pela articulação política.

“Esse projeto do Senado foi mais estudado do que esse daqui da Câmara. É o melhor para os municípios, para os estados, para o meio ambiente, é o projeto do Senado”, afirmou o líder do PV, Sarney Filho (MA). Em fevereiro, o presidente da Câmara instalou uma comissão formada por 12 deputados para elaborar um novo texto. A comissão era coordenada por Zarattini e tinha ainda a presença de cinco parlamentares dos estados produtores e cinco dos não produtores.

O líder do PPS, Rubens Bueno (PR), elogiou o trabalho feito pelo grupo de trabalho comandado por Zarattini para tratar dos royalties. Porém, ele ressaltou que o substitutivo não passou por nenhuma comissão temática da Casa. Por isso, não foi discutido de forma ampla, “mais bem discutida”. “Tratar da forma que tratamos colocou em pânico vários deputados. Muitos não sabiam o que estavam votando. Decidimos pelo menos pior”, analisou.

Golpe contra o governo Dilma

Parlamentares dos estados produtores lamentaram a decisão da Câmara. O deputado Anthony Garotinho (PR-RJ) lembrou que o governo tinha fechado um acordo com a base, e os parlamentares desrespeitaram. “Na política, o combinado não custa caro. O que houve aqui foi um golpe. Depois de oito meses, o resultado foi jogado no lixo”, disse Garotinho, pedindo que Dilma Rousseff vete o projeto. “Estou há 34 anos nesta casa, nunca vi isso. Parecia o programa do Silvio Santos: quem quer dinheiro?”, disparou Simão Sessim (PP-RJ).

O projeto aprovado no Senado tem poucas diferenças nos percentuais previstos no substitutivo de Zarattini. Como os dois destaques foram rejeitados pelo plenário, a proposta do senador Vital do Rêgo (PMDB-PB) prevaleceu na íntegra. A maior diferença é sobre o fundo criado para receber parte dos lucros. No texto do petista, os royalties seriam divididos entre todos os estados. Já no do peemedebista, a divisão de 54,25% é só para os não produtores.

Dois destaques foram rejeitados. O primeiro foi apresentado pelo PSC. A emenda pedia que os royalties da exploração mineral tivessem os mesmos critérios de distribuição dos royalties do petróleo. O outro, apresentado pelo deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), queria excluir do texto o artigo que faz as mudanças na distribuição dos royalties nos contratos de concessão. A intenção era garantir que os valores repassados no ano passado não mudassem até 2023.

CÂNCER: “As farmacêuticas bloqueiam medicamentos que curam, porque não são rentáveis”

“As farmacêuticas bloqueiam medicamentos que curam, porque não são rentáveis”

O Premio Nobel da Medicina Richard J. Roberts denuncia a forma como funcionam as grandes farmacêuticas dentro do sistema capitalista, preferindo os benefícios economicos à saúde, e detendo o progresso científico na cura de doenças, porque a cura não é tão rentável quanto a cronicidade.

Richard J. Roberts: “É habitual que as farmacêuticas estejam interessadas em investigação não para curar, mas sim para tornar cronicas as doenças com medicamentos cronificadores”. Foto de Wally Hartshorn

Há poucos dias, foi revelado que as grandes empresas farmacêuticas dos EUA gastam centenas de milhões de dólares por ano em pagamentos a médicos que promovam os seus medicamentos. Para complementar, reproduzimos esta entrevista com o Prémio Nobel Richard J. Roberts, que diz que os medicamentos que curam não são rentáveis e, portanto, não são desenvolvidos por empresas farmacêuticas que, em troca, desenvolvem medicamentos cronificadores que sejam consumidos de forma serializada. Isto, diz Roberts, faz também com que alguns medicamentos que poderiam curar uma doença não sejam investigados. E pergunta-se até que ponto é válido e ético que a indústria da saúde se reja pelos mesmos valores e princípios que o mercado capitalista, que chega a assemelhar-se ao da máfia.

UM NOVO CICLO? – por paulo timm / torres.rs

 

Falta muito para as próximas eleições à Presidência da República. Dilma, afinal, está no meio da viagem. Mas se as eleições fossem hoje, ela seria uma  séria candidata à reeleição. Para um “poste”, como  diziam ela ser, sem luz própria,  chegou muito longe. O IBOPE acaba de divulgar uma prévia de preferência eleitoral,  publicado no Estado de São Paulo no último dia 25, que pouca gente notou. Vejamos:

    PESQUISA IBOPE PARA PRESIDENTE: NOVEMBRO-2012
1. Se a eleição para presidente fosse hoje, em quem votaria (espontânea):

Não sabe/não respondeu 40%,

Dilma 26%, Lula 19%, Serra 4%,

Branco/Nulo 4%,

Aécio 3%, Marina 2%, outros 2%.

2. Pesquisa Ibope (estimulada): Dilma 58%, Marina 11%, não sabe/não respondeu 11%, Aécio 9%, branco/nulo 8%, Eduardo Campos 3%.

Na verdade, esta pesquisa lança mais lenha no fogo das “veleidades” dentro do PT. Diz-se que algumas lideranças superiores do Partido não estão muito satisfeitas com as evasivas da Presidenta diante do “Mensalão”, agravadas com a vacilação dela em se envolver mais a fundo na campanha de Haddad para a Prefeitura de São Paulo. As tensões não teriam alcançado, ainda, as relações de Dilma com Lula, aparentemente inabaláveis. Mas o futuro, diz o povo, a Deus pertence.

O que é real, mesmo, é que a História, como a vida, vem em ondas, como o mar. E a grande onda que se seguiu à redemocratização, cujo epicentro pode ser localizado no remoto ano de 1978, está chegando ao fim. Naquele ano, enquanto o regime militar dava sinais de recuo, num lento, seguro e gradual processo de distensão controlada, emergiam três grandes atores da renovação: Fernando Henrique Cardoso, Leonel Brizola e Lula, cada qual com seu cacife, defeitos e virtudes.

FHC era o mais visível: um intelectual de esquerda prestigiado pelas elites, com um grande capital na inteligência e mortal  pecado na vaidade.

Brizola em andanças pela Europa, reapresentava-se como herdeiro do trabalhismo tolhido pelo Golpe de 64, com grande experiência e potencial eleitoral, embora marcado pelo estilo excessivamente autoritário para a conjuntura pós-moderna que então se abria.

Lula era um enigma  que resplandecia  na crista do novo sindicalismo do ABC, com forte apoio da Igreja e insondável magnetismo, que era, ao mesmo tempo, sua virtude e vício.

Ao final de 1979, promulgada a Anistia, todos já estavam em campo,  com seus Projetos alinhavados: FHC, que alimentara a ilusão de liderar um novo Partido Socialista refluira  para o MDB, ao preço de uma espécie de suplência (sublegenda) de Franco Montoro para o Senado, nas eleições de 1978, registrando o recuo da esquerda para os liberais no clássico “O caminho das Oposições”.  Daí assumirá, em 82, o Senado, dando o salto, “à esquerda” (!), para o PSDB, levando junto combativos e insuspeitos quadros como João Gilberto , Euclides Scalco e Sigmaringa Seixas, todos deputados federais. Brizola havia lançado o PTB em junho de 1979 na famosa Carta de  Lisboa, da qual, aliás, sou dos últimos signatários. A seu pedido, a propósito, passei as Festas de Natal e Reveillon de 1980 às portas do Tribunal Superior Eleitoral, em Brasília, com toda a papelada do registro do PTB para garantir a primazia no Protocolo, tal como, aliás, registrou em primeira página a foto do JB do dia 03 de janeiro de 1980. Não adiantou, perdeu a sigla para Ivete, chorou a rasgar as letras históricas e lançou-se à dura fundação do PDT. Lembro tais fatos apenas como depoimento, visto não ter encontrado nas últimas biografias do Velho Caudilho apropriadas informações.

Lula preferiu o difícil caminho do Partido próprio, também, e andou pelo país inteiro à cata de movimentos sociais e lideranças populares emergentes para a fundação do PT.

Dos três, Brizola foi o grande perdedor, não em causas, mas em resultados. Veio a falecer em 2004 sem chegar à Presidência, já percebendo que seu Partido de desfibrava como mais uma legenda de aluguel. Lula, com o PT ocupou o espaço da esquerda, consagrando-se o condutor de uma era de mudanças modestas mas importantes, depois de 2003, ainda em curso, embora por mãos “alheias”. FHC, que fora perdendo espaço à esquerda ao longo da década de 80 para Lula e Brizola, travestiu-se em reformador do conservadorismo, desgastado pela ditadura, que lhe deu suporte e apoio eleitoral para dois mandatos na década de 90, vindo, entretanto,  a ser, até hoje, o  centro de referência da dita “direita”no país.

Evito referir-me a outros nomes, expressivos de tendências ideológicas àquela época, seja de Ulysses Guimarães, à testa dos liberais, ou Roberto Freire, herdeiro do glorioso Partidão, por uma única razão: ambos estavam mergulhados na tese da UNIDADE DAS OPOSIÇÕES, que os retiraria do proscênio como renovadores.

Enfim, o grande ciclo da Política Brasileira iniciado em 1978, que teve momentos marcantes nas eleições de 1982, na Constituinte, nas Diretas de 1989, na eleição de FHC em 1994 e 1998 e de Lula em 2002 e 2008, com repique em Dilma em 2010, está se esgotando. Dilma, aliás, é o último elo de ligação entre o tempo que se esvai  e outro que se anuncia. Brizola foi-se, sem deixar herdeiros. Poucos acreditam num agiornamento de FHC ou Lula, ambos, também, sem herdeiros “legítimos”. Ambos, acabarão, ainda, chamuscados pelos desdobramentos inevitáveis do “Mensalão”. As últimas eleições , com a diversidade de expoentes ao longo do país, parece indicar este novo tempo. Quem viver verá…

A UM POETA – de olavo bilac / rio de janeiro.rj

 

A um Poeta

 

.

Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!
Mas que na forma de disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua,
Rica mas sóbria, como um templo grego.

Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:
Porque a Beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.

- Olavo Bilac, in “Poesias”

 

CELULARES: “Os Riscos da Radiação Eletromagnética para a saúde humana”

« Celulares: Paris e Porto Alegre, cidades com legislações mais restritivas

Seminário

“Os Riscos da Radiação Eletromagnética para a saúde humana”

 

Palestrantes de seminário alertam para os riscos que uso do telefone celular traz à saúde

 

Médica associou o uso de celulares a diversas doenças

Os riscos da radiação utilizada para o funcionamento dos telefones celulares à saúde humana foi o tema do painel que abriu o Seminário Estadual sobre o assunto que ocorre ao longo dessa segunda-feira (12), na Assembleia Legislativa. A primeira palestrante foi a médica Geila Vieira, uma das colaboradoras da chamada “Lei das Antenas” de Porto Alegre, que restringe a instalação de estações de rádio base na capital. Comparada à legislação da Suíça, ela restringe a colocação de antenas junto a escolas e hospitais.

Geila lembra que, antigamente, a radiação não ionizante, utilizada pela telefonia móvel, era restrita a locais fechados. Ela chamou atenção ainda, para o fato dessa exposição ser considerada de insalubridade grau médio para efeitos trabalhistas. A médica associou o uso de celulares a diversas doenças, desde cefaleia e exaustão, até leucemia.

A médica cobrou da Assembleia uma legislação mais efetiva em relação ao tema dos celulares, considerando que o assunto é um caso de saúde pública e ambiental.

Casos de câncer aumentam para quem vive perto de antenas

A engenheira Adilza Dode realizou um estudo em Belo Horizonte, Minas Gerais, na qual constatou que pessoas moradoras ou que trabalham próximo a antenas de telefonia têm mais chance de desenvolverem câncer. “E quanto mais perto pior.” O problema só diminui a partir de 500 metros. “E no caso de sobreposição, o risco é ainda maior”, explica, no caso da pessoa estar exposta a mais de uma antena. Sua pesquisa comprova que nos locais onde há mais estações de rádio base, é maior o número de pessoas que morreram de câncer.

Ela criticou a legislação brasileira por defender o mercado da telefonia e não a saúde das pessoas. Adilza chamou a atenção para o fato da Suprema Corte italiana ter dado ganho de causa a um trabalhador que alegou ter desenvolvido um tumor em função do uso do celular por cerca de 5 a 6 horas por dia, durante 12 anos. “Foi o primeiro caso no mundo”, destacou.

A engenheira listou medidas para evitar os riscos causados pelo uso de celulares:

- Usar só em casos extremos;

- Dar preferência ao uso de mensagens de texto;

- Coibir o uso para crianças e adolescentes (como o cérebro está em desenvolvimento, a penetração da radiação é maior);

- Manter o aparelho afastado do corpo;

- Atender o telefone longe de grupos e pessoas;

- Não utilizar em hospitais (onde as pessoas já estão com a saúde debilitada);

- Não usar perto de doentes;

- Grávidas devem evitar o uso, principalmente próximo à barriga;

- Não usar em veículos fechados (ônibus, trem, etc);

- Desligar à noite e não deixar perto da cama;

- Manter o aparelho afastado de próteses metálicas

Abertura

A abertura do evento foi realizada pela presidente da Comissão de Saúde e Meio Ambiente, deputada Marisa Formolo. A parlamentar salientou o apoio da Comissão, mas frisou que esse debate “deve ter continuidade pela luta social”. As telefônicas querem alterar a legislação na capital gaúcha para que possam colocar mais antenas para a instalação da tecnologia 4G durante a Copa do Mundo de 2014.

Também participaram da abertura a promotora de Justiça Ana Maria Marchezan, os representantes da Agapan, Francisco Milanez, da OAB/RS, Alexandre Burmann, e da UFRGS, professora Anelise Dalmolin.

 

Cristiane Vianna Amaral – MTB 8685 | Agência de Notícias ALRS

EGITO HOJE 23/11/2012

 

Opositores do presidente do Egito, Mohamed Morsi, começaram nesta sexta-feira (23) uma vigília na Praça Tahrir, no Cairo, contra as medidas anunciadas pelo islamita na véspera, e que concentram poderes políticos na figura do presidente.

“Todas as forças políticas revolucionárias concordaram em começar uma vigília nesta sexta”, disse em comunicado a Corrente Popular, de Hamdin Sabahi, terceiro colocado nas eleições presidenciais de junho.

Durante o dia, a polícia usou gás lacrimogêneo contra manifestantes. O confronto ocorreu em uma rua que liga a praça ao gabinete presidencial e ao Parlamento.

Pouco antes, Morsi, em discurso, garantiu que o Egito está no caminho “da liberdade e da democracia”, apesar das acusações lançadas por opositores e das cobranças da União Europeia e dos Estados Unidos.

“A estabilidade política, a estabilidade social e a estabilidade econômica, é o que desejo e é o motivo pelo o qual trabalho”, declarou em um longo discurso proferido para seus partidários reunidos perto do Palácio Presidencial, no dia seguinte ao anúncio de medidas que reforçam seus poderes.

ABDIAS DO NASCIMENTO recebe homenagem poética de PAULO TIMM: “MISTÉRIO NEGRO” – torres.rs

no dia da CONSCIÊNCIA NEGRA,  o professror PAULO TIMM  homenageou o líder do MOVIMENTO NEGRO e SENADOR ABDIAS DO NASCIMENTO com este poema publicado em diversas mídias:

Mistério  negro

 

                                                           À Abdias do Nascimento

 

Meu país negro,

Tão cheio de cores,

Totalmente negro,

Desde a estupidez flutuante

Sobre tenazes de ferro,

Inspirando os salsos  tão brancos

Das montanhas de  açúcar,]

Dos fardos de algodão,

Dos punhos engomados da sociedade  ser-vil

 

Meu país negro

Tão cheio de dores

Totalmente negro,

Na insensatez hiante,

Sobre espirais de fumo,

Delirando ternuras brandas.

No auge de abolição.

No mito da integração.

Nos sulcos magoados da  república sutil.

 

Meu país negro,

Tão cheio de amores.

Totalmente negro,

Na tez dominante,

Sobre os corpos gemidos.

Inspirando suaves mentiras

Sobre a cordialidade,

Sobre a maldade,

Nos falsos argumentos de uma democracia senil

 

 

Meu país negro,

Sorrisos negros, negras em flor

Tão cheio deles por todas partes

Tão cheio deles por todas as artes

Cheio de negros em fétidas prisões

Cheio de negras na branca perdição

Cheio de meninos negros à espera da maldição

E só um carnaval para redimi-los.

Cumpri-los

 em sua impenetrável  ambição

PAULO TIMM é economista, professor da UNB e poeta.

DANTE MENDONÇA e BOX 32 convidam: ilha de santa catarina.sc

O SONHO DE BORGES – por jorge lescano / são paulo.sp

 

Si un hombre atravesara el Paraíso en un sueño,

y le dieran una flor como prueba de que había estado allí,

y si al despertar encontrara esa flor en su mano…

¿entonces, qué?

Samuel Taylor Coleridge,

 apud Jorge Luís Borges,

La flor de Coleridge

 

Eu tinha a certeza de que os misteriosos personagens eram anunciados durante uma entrevista das que Jorge Luís Borges concedeu a Osvaldo Ferrari e foram publicadas com o título de Diálogos pela editora Seix Barral, da Espanha. Com esta convicção fui à prateleira e com mão segura retirei o volume. Devia encontrar as páginas nas que apareciam o senhor ou a família Campbell; sabia que uma empregada ou secretária prestimosa os anunciava e reiterava sua presença em algum lugar da casa, na ante-sala, talvez na biblioteca. Nesta não, provavelmente é onde se davam os encontros entre o mestre e o entrevistador, gravador por meio.

Comecei a procurá-los no índice. Ingenuamente acreditava que os títulos poderiam me dar alguma orientação. Eu não lembrava qual era o tema tratado no caso. Confiando na intuição, pensei que relendo os títulos poderia ativar a memória e assim apressar meu encontro com o assunto procurado. Este tipo de pesquisa deu em nada, como é fácil prever. Apelei então para a memória visual.

Não é incomum reencontrar passagens de leitura ao percorrer as páginas de forma aleatória e vista panorâmica, guiado apenas pela lembrança da altura da linha e da posição da página na ordem das coisas, isto é páginas à destra ou sinistra. Novamente o resultado foi nulo. Então, já resignado a um trabalho mais minucioso, decidi encarar as 383 páginas do livro realizando algo que alguns chamam de leitura visual e que consiste em procurar palavras em negrito, em itálico ou simplesmente palavras que comecem com maiúscula. Não é necessário ser um Dupin para concluir que a letra impressa teimava em me ludibriar apesar de ter realizado a tarefa de trás para frente e em sentido inverso, e mais de uma vez, pois sabia que a citação estava ali, acaçapada mas não oculta na floresta de letras como a própria família Campbell em algum cômodo da casa. Após diversas tentativas de surpreender distraídos os escorregadios personagens, devolvi o livro à prateleira. Vi-me literalmente de mãos vazias e olhos em áscuas.

Sem dúvidas era em um livro de entrevistas e não em revista ou jornal onde havia lido o famoso nome dos Campbell. Existe na desordem de minha biblioteca algum outro volume de entrevistas?

Os djins que moram nas minhas prateleiras não só trocam os livros de lugar como, familiarizados com o ambiente e aproveitando meus lapsos de memória, vez por outra mudam a ordem dos assuntos dentro do volume e mais, transferem matérias e capítulos de um livro para outro.

Resmungando e de olhos fechados rememorei a sequência de obras que tratam de escritores: romances, contos, ensaios críticos, biografias, entrevistas. E eis que a minha memória, que já causou espanto nos amigos, mais uma vez serviu de trampolim para mergulhar no mar das belas letras.

Há na fileira de lombadas –a esta altura da crônica novamente estou de pé diante do vasto mundo do alfabeto– duas que prometem satisfazer a fome e a sede –a situação é deveras melodramática– se não do reencontro com a família Campbell, pelo menos a certeza de que a minha memória continua fiel ao seu desígnio.

Possuo os dois volumes de Os escritores, as históricas entrevistas da Paris Review, publicados pela Companhia das Letras em 1988. Peguei o primeiro volume com sofreguidão, ávido de verificar o índice dos entrevistados e ali estava ele. De pura satisfação dei um tapa na capa do livro. Devo dizer que a poeira me fez espirrar? Vá lá!, a narrativa é verídica.

Entre as páginas, uma anotação a respeito dos Campbell feita há quinze anos prova que estou no caminho certo. Mais calmo retomei –gostaria de escrever na minha poltrona preferida, infelizmente só tenho um sofá-cama e duas cadeiras desemparelhadas em minha mansarda que nem sequer foi projetada por Mansart, mas por Niemeyer e na Paulicéia desvairada–  a leitura da matéria procurando o famigerado sobrenome. E porque este relato estava no horizonte de minha procura, era imprescindível que relesse toda a entrevista para contextualizar motivo e tema, expressões com que gosto de confundir peritos em letra impressa.

O encontro acontece em julho de 1966. Partcipam da cena na sala da Direção da Biblioteca Nacional, em Buenos Aires, Jorge Luís Borges, diretor da instituição, a senhorita Susana Quinteros, secretária do diretor e o entrevistador Ronald Christ

A pequena figura do escritor apoiado na bengala, de boina e com um terno cinza pendurado no seu corpo parece ainda menor devido ao pé-direito alto da sala, típico das construções antigas. Decoram as paredes diversas águas-fortes de Piranesi. Acima da lareira há um retrato.

– Não importa. É uma reprodução de outra pintura –responde a secretária quando interrogada sobre a identidade do personagem retratado.

A ação sugere enredo teatral de sucesso, clássico e interessante triângulo amoroso: escritor célebre e idoso, secretária que por hábito cinematográfico imaginamos jovem, bela e loira, visitante alienígena que suspeitamos elegante e erudito. Contudo, o mundo nunca satisfaz todas as nossas esperanças. Milhões de pessoas jogam na mega-sena, apenas alguns felizardos levam a bolada.

No desconcerto do mundo não se deve esperar muito das personagens femininas. A senhorita Quinteros não ultrapassou as minhas expectativas.

 

Na página 207 de Diálogos lê-se:

SUSANA QUINTEROS (entrando): Desculpem-me. O sr. Campbell está esperando.

BORGES: Ah, por favor, peça-lhe que espere um momento. Bem, há um certo sr. Campbell esperando; os Campbell estão vindo.

PERGUNTA: Quando escrevia as suas histórias, o senhor as revisava muito?

            Na página 219 temos:

SUSANA QUINTEROS (interrompendo): Desculpe. Está esperando el señor  Campbell.

BORGES: Ah, por favor, peça-lhe que espere só um momento mais. Esses Campbell continuam a chegar.  

Na página 223:

PERGUNTA: E qual dos dois o senhor é?

BORGES: Penso que sou aristotélico, mas gostaria que fosse o contrário. Acho que é o sangue inglês que me faz pensar em determinadas coisas e pessoas como sendo reais, em vez das idéias gerais serem reais. Mas agora receio que os Campbell estejam vindo.

PERGUNTA: Antes que eu vá, o senhor se importaria de assinar o meu exemplar de Labyrintes?

Na página seguinte, última da entrevista, o escritor argentino comenta a pouca freqüência dos leitores norte-americanos a certos autores do seu próprio país:

PERGUNTA: Eles são lidos, mas mais nas escolas secundárias.

BORGES: E O. Henry?

PERGUNTA: Também, sobretudo nas escolas.

BORGES: E suponho que sobretudo por causa da técnica, do desfecho surpreendente. Não gosto desse truque, você gosta? Ah, funciona bem na teoria; na prática, é uma outra coisa. Você só pode lê-los uma vez, se houver apenas a surpresa. [...] Agora, nas histórias de detetives, é diferente. A surpresa está lá, sim, mas há também as personagens, o cenário ou a paisagem para nos satisfazer. Mas agora me lembro de que os Campbell estão vindo. Supõe-se que sejam uma tribo muito feroz. Onde estão eles?

Expectante, Ronald Christ se empina sobre seu cóccix. A porta abre-se lentamente. Aproveitando a brecha o entrevistador se esgueira pelo sul de Buenos Aires, Labyrintes autografado no sovaco.

Borges, como se soubesse do que se trata, ou quiçá totalmente inocente pela cegueira, relaxa-se na poltrona como quem se dispõe a tirar uma soneca. Após alguns segundos irrompe na sala Andy Warhol vestido de caubói. O rosto sarapintado torna-o parecido com um dos seus múltiplos auto-retratos em serigrafia; ostenta um enorme cocar na cabeça, as abas de plumas são tão longas que alguém fora da vista sustenta-as para que não arrastem no chão.

Quando Andy Warhol chega perto da lareira, os Campbell aparecem. São latas de sopa de vários sabores, têm o tamanho de um homem e marcham em fila indiana, séquito do artista pop. Batem na barriga com grandes colheres de metal. –Em alguma página transtrocada pelos meus djins familiares Estela Canto afirma que Georgie, nos restaurantes, só tomava sopa de arroz e bebia grandes quantidades d’água.– Enquanto Andy Warhol gargareja um som contínuo, sincopado, cobrindo e descobrindo a boca com a mão, Borges, de olhos fechados, a cabeça inclinada para trás no espaldar da poltrona, sorri beatificamente. Os Campbell dançam em círculo em volta dele como se rodeassem um grande caldeirão de água fervendo. Andy Warhol faz gestos rituais sobre o cocuruto do bibliotecário e o seu próprio. Borges balança a cabeça ritmicamente. Sob os auspícios de Coleridge, banqueteia-se com sopa de letras.

O RESSURGIMENTO DA ESQUERDA – por paulo timm / portugal.pt

 

Há poucos anos era comum ouvir-se, no mundo inteiro, que as diferenças ideológicas haviam desaparecido. Um autor famoso até arriscou: “É o fim da História”. Com isso queria ele  dizer dizer que, doravante, o mundo fluiria como uma nave no espaço, sem conflitos, sem guerras, ao sabor apenas da paz e do progresso. O grande fator de desestabilização política da modernidade, o comunismo, que rondou como um fantasma a Europa na segunda metade do séculoXIX e depois converteu-se em ameaça vermelha em países como União Soviética, China ou Cuba,  sucumbira nos escombros do Muro de Berlim, em 1989. Quem dera…!!! Nem 20 anos se passara e a Crise Econômica de 2008, nos Estados Unidos, reacenderia todo o debate de novo. Até o velho Profeta do socialismo moderno, Karl Marx, saiu das bibliotecas e começou , de novo, a povoar análises e prognósticos. E não só como inspiração, mas como doutrina ortodoxa.  Os primeiros sinais deste revival veio da América Latina. Chavez reinventou Bolívar como ideólogo de um novo tipo de socialismo, inspirando correntes e lideranças em vários países: Bolívia, Equador, alguns outros. Lula subiu ao poder em 2003, no Brasil, e fez Dilma sua sucessora. Os Kirchner reacenderam a fé e esperança peronista na Argentina, também no início da década passada e lá continuam, mesmo enfrentando panelaços de descontentamento social.  Mas a esquerda não cresceu apenas do lado de baixo do Equador. Nos Estados Unidos, Barack Obama, que é um liberal de esquerda, negro,  com vínculos com movimentos sociais, ganhou as eleições em 2008 e reelegeu-se, agora , de novo, enfrentando sérias acusações de seu oponente de que não só é socialista, como mantém vínculos com Fidel, Chavez e Lula… E a Europa, castigada pelo repique da crise financeira americana,  segue o curso. Elegeu, há pouco um novo Presidente da França, F. Hollande, do Partido Socialista e criou, com isso, uma nova polarização em todo o continente. Dentro de pouco tempo Espanha e Portugal devem , também, enfrentar eleições e tudo indica o retorno da esquerda ao Poder nesses países.  Enfim, a História revive em seu clássico confronto de idéias e interesses.

Mas, o que vem a ser exatamente o confronto esquerda x direita e , em que medida, se pode falar, hoje, numa “Nova Esquerda”?

Não há , aqui, espaço para grandes considerações filosóficas. Sejamos, pois, breves.

Há uma Lei Geral no Universo, sobre a qual não há controvérsias: a do Movimento. “E, no entanto, se move”, teria dito, entredentes, Galileu, ao enfrentar o Tribunal de Inquisição da Igreja de Roma, para o qual o mundo era estático, com a Terra no centro do sistema solar. Heráclito, filósofo grego, das calendas  clássicas, já havia advertido: “Tudo flui”.  Pode-se, até, discutir quem deu o pontapé inicial, mas, isso posto, o mundo gira e se expande. Não há ordem, neste processo. Reina a mais sublime anarquia, na qual resultam choques de estrelas e até Galáxias inteiras, num frenesi tão impressionante quanto sinistro. Enquanto isto, em outras partes do Universo, reina paz celestial. Graças a ela, deste lado do sol, estamos vivendo nosso doce e bela vida, embora expulsos do Paraíso e sujeitos ao suor para ganhar o pão de cada dia.

Criamo-nos, pois, e multiplicamo-nos, sobre a delicada pele do planeta que habitamos.  Constituímos sociedades, das primitivas às complexas; desenvolvemos crenças, instituições, uma cultura invejável; formamos, a partir de hordas e tribos, grandes Impérios Teocráticos, que deram lugar aos modernos regimes constitucionais ; e dominamos, como o conhecimento, a natureza, até castigá-la com o excesso de gentes e seus artefatos e rejeitos. Mas, como somos feitos da mesma matéria que as estrelas, tudo isto também ocorreu em meio à tormentos humanos, com flagelos de toda ordem. No início predominou nas sociedades a lei natural do mais fortes. E eles eram “escolhidos” pelas mulheres para formar suas proles. Criavam-se , assim, famílias poderosas, com grande capacidade de  impor sua vontade aos demais, daí resultando inevitáveis entrechoques de vontades. Era o começo da História. E da Política, pois o homem é um animal social que interage para viver e se reproduzir, jamais abdicando destes imperativos. E o faz “naturalmente”, sem qualquer recurso intelectual, como um pássaro, uma flor ou um dinossauro. Mas neste processo de se reproduzir em sociedade acabou substituindo a força pela Lei, de forma a reduzir a violência da dominação e a guerra de todos contra todos. Com isto “desnaturalizou” o seu próprio mundo. Fê-lo humano… E assim chegamos ao Estado Moderno, que necessita da força para se impor, por delegação pactuada de seus súditos, mas que subordina a força à Lei para se legitimar. E a Lei é para Todos, não só para os mais fortes, que no curso de seu poder acumulam privilégios, ou os transferem a grupos sociais sob seu estrito controle. Ou ainda cristalizam preconceitos, convenções discriminatórias e instituições em benefício próprio.  E desta forma emergem idéias divergentes sobre o conteúdo da Lei e sua abrangência como forma civilizada do ser social. Aqueles que se acham confortáveis numa situação histórica qualquer, serão conservadores, resistindo às mudanças que lhe poderão tolher benefícios. Os que se sentem desconfortáveis, perseguirão  mudanças.  E enquanto houver sociedade, haverá sempre este conflito, que levado ao extremo poderá gerar à exaltações como golpes “reacionários” e revoluções sangrentas. E aqui, a atualidade da esquerda contemporânea: Talvez tenha compreendido que melhor ir devagar com o andor, porque o santo é de barro…E que a utopia serve mais como uma bússola a indicar o caminho do que como paradigma de chegada. Mas não abdicará jamais de seu papel no fazer histórico, que é, fundamentalmente, a luta pela maior igualdade entre os homens que cultivam e almejam um mundo livre. Livre da fome, livre das diferenças , livre dos preconceitos…

PAULO TIMM é economista, professor da UNB e técnico em planejamento.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 345 outros seguidores