Morre poeta peruano Antonio Cisneros

Cisneros era considerado um dos mais importantes poetas da América Latina

06/10/2012 | 14:10 | AFP

O poeta peruano Antonio Cisneros, vencedor do Prêmio Iberoamericano de Poesia Pablo Neruda 2010 e uma das mais importantes vozes de língua espanhola dos últimos anos, faleceu neste sábado em Lima aos 69 anos em consequência de um câncer pulmonar, informaram seus familiares.

Cisneros era considerado um dos mais importantes poetas da América Latina e sua obra também foi reconhecida com o prêmio Poeta do Mundo Latino Víctor Sandoval no México, com o prêmio Gabriela Mistral da OEA e com o prêmio Rubén Darío na Nicarágua, entre outros.

O poema “Canto ceremonial contra un oso hormiguero”, com o qual obteve em 1968 o prêmio Casa de Las Américas, o catapultou ao pódio latino-americano das letras, a partir do qual conquistou um reconhecimento internacional.

Uma de suas filhas informou à AFP que Cisneros morreu ao amanhecer na casa onde vivia em Lima, rodeado por seus três filhos e por sua esposa.

A espetacularização e a ideologização do Judiciário – por leonardo boff / são paulo.sp

A ideologia que perpassa os principais pronunciamentos dos ministros do STF parece eco da voz de outros, da grande imprensa empresarial que nunca aceitou que Lula chegasse ao Planalto. Ouvem-se no plenário ecos vindos da Casa Grande, que gostaria de manter a Senzala sempre submissa e silenciosa.

 

É com muita tristeza que escrevo este artigo no final da tarde desta quarta-feira, após acompanhar as falas dos ministros do Superemo Tribunal Federal. Para não me aborrecer com e-mails rancorosos vou logo dizendo que não estou defendendo a corrupção de políticos do PT e da base aliada, objeto da Ação Penal 470 sob julgamento no STF. Se malfeitos foram comprovados, eles merecem as penas cominadas pelo Código Penal. O rigor da lei se aplica a todos.

Outra coisa, entretanto, é a espetacularização do julgamento transmitido pela TV. Ai é ineludível a feira das vaidades e o vezo ideológico que perpassa a maioria dos discursos.

Desde A Ideologia Alemã, de Marx/Engels (1846), até o Conhecimento e Interesse, de J. Habermas (1968 e 1973), sabemos que por detrás de todo conhecimento e de toda prática humana age uma ideologia latente. Resumidamente, podemos dizer que a ideologia é o discurso do interesse. E todo conhecimento, mesmo o que pretende ser o mais objetivo possível, vem impregnado de interesses.

Pois, assim é a condição humana. A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. E todo o ponto de vista é a vista de um ponto. Isso é inescapável. Cabe analisar política e eticamente o tipo de interesse, a quem beneficia e a que grupos serve e que projeto de Brasil tem em mente. Como entra o povo nisso tudo? Ele continua invisível e até desprezível?

A ideologia pertence ao mundo do escondido e do implícito. Mas há vários métodos que foram desenvolvidos, coisa que exercitei anos a fio com meus alunos de epistemologia em Petrópolis, para desmascarar a ideologia. O mais simples e direto é observar a adjetivação ou a qualificação que se aplica aos conceitos básicos do discurso, especialmente, das condenações.

Em alguns discursos, como os do ministro Celso de Mello, o ideológico é gritante, até no tom da voz utilizada. Cito apenas algumas qualificações ouvidas no plenário: o mensalão seria “um projeto ideológico-partidário de inspiração patrimonialista”, um “assalto criminoso à administração pública”, “uma quadrilha de ladrões de beira de estrada” e um “bando criminoso”. Tem-se a impressão de que as lideranças do PT e até ministros não faziam outra coisa que arquitetar roubos e aliciamento de deputados, em vez de se ocuparem com os problemas de um país tão complexo como o Brasil.

Qual o interesse, escondido por detrás de doutas argumentações jurídicas? Como já foi apontado por analistas renomados do calibre de Wanderley Guilherme dos Santos, revela-se aí certo preconceito contra políticos vindos do campo popular. Mais ainda: visa-se a aniquilar toda a possível credibilidade do PT, como partido que vem de fora da tradição elitista de nossa política; procura-se indiretamente atingir seu líder carismático maior, Lula, sobrevivente da grande tribulação do povo brasileiro e o primeiro presidente operário, com uma inteligência assombrosa e habilidade política inegável.

A ideologia que perpassa os principais pronunciamentos dos ministros do STF parece eco da voz de outros, da grande imprensa empresarial que nunca aceitou que Lula chegasse ao Planalto. Seu destino e condenação é a Planície. No Planalto poderia penetrar como faxineiro e limpador dos banheiros. Mas nunca como presidente.

Ouvem-se no plenário ecos vindos da Casa Grande, que gostaria de manter a Senzala sempre submissa e silenciosa. Dificilmente, se tolera que através do PT os lascados e invisíveis começaram a discutir política e a sonhar com a reinvenção de um Brasil diferente. Tolera-se um pobre ignorante e mantido politicamente na ignorância. Tem-se verdadeiro pavor de um pobre que pensa e que fala. Pois, Lula e outros líderes populares ou convertidos à causa popular como João Pedro Stedile, começaram a falar e a implementar políticas sociais que permitiram uma Argentina inteira ser inserida na sociedade dos cidadãos.

Essa causa não pode estar sob juízo. Ela representa o sonho maior dos que foram sempre destituídos. A Justiça precisa tomar a sério esse anseio a preço de se desmoralizar, consagrando um status quo que nos faz passar internacionalmente vergonha. Justiça é sempre a justa medida, o equilíbrio entre o mais e o menos, a virtude que perpassa todas as virtudes (“a luminossísima estrela matutina” de Aristóteles). Estimo que o STF não conseguiu manter a justa medida. Ele deve honrar essa justiça-mor que encerra todas as virtudes da polis, da sociedade organizada. Então, sim, se fará justiça neste país.

 

Leonardo Boff é teólogo e escritor.

HOMENAGEM FINAL à GAUCHADA PELAS COMEMORAÇÕES DA REVOLUÇÃO FARROUPILHA – por arnaldo barbosa brandão / brasilia.df

Uma cortesia dos Torpedos ao facebook.

Pois é meus amigos, temos que aceitar a situação, o mundo não é mais de professores, muito menos dos políticos, e olha que eles se esforçam. E muito menos de escritores, filósofos ou de artistas plásticos ou de músicos ou poetas. De economistas, de sociólogos, antropólogos? Nem pensar. Já foi tempo em que até arquitetos ficavam famosos, cansei de dar entrevistas no Correio e na Tv, nos anos 70 e 80. Isso tudo já era. O mundo agora é dos jogadores de futebol, dos cantores populares, dos atores de Tv e das chamadas celebridades, uma profissão nova que circula por aí e acumula funções com as outras, inclusive com a mais antiga de todas. Pra vocês verem, até uns programinhas bem discretos sobre literatura que havia na Tv a cabo, de repente foram tomados pelos Caetanos, Gils e Chicos e Martinhos, etc. É a Tv em busca de audiência. Até o Paulo Coelho, que veio da canção popular (fazia letras pras maluquices do Raulzito), e diz ter sido escritor, está tendo que dizer umas coisas de quando ele se internava no Pinel, pra tentar atrair o olhar da mídia.

Então, nesta última homenagem, me desculpem os gaúchos mais letrados, mas vou ter que apelar. Vou falar um pouco de um grande cantor popular do Rio Grande. Vou logo avisando: não é o Lupicínio, muito menos Kleiton e Kleidir, que têm sotaque dos Beatles, que, como vocês sabem, iniciaram o processo de aveadagem do rock, com aquelas franjinhas e terninhos abichalados, cantando, “deu pra ti, baixo astral, Ciao”. Devem ser de Pelotas, não sei não.
O cara a que me refiro, começou com um “tiro ao alvo” em Passo Fundo, tinha um programa de rádio por lá, foi passear em Porto Alegre, voltou, vendeu o “tiro ao alvo”, gravou “Coração de Luto” que o pessoal mais refinado, fã dos Beatles e do Michael Jackson, chamava pejorativamente de “churrasco de mãe”. Teixeirinha comprou uma produtora de cinema, e fez doze filmes, felizmente ainda não vi nenhum. Bem, Teixeirinha foi o sujeito que mais vendeu discos no Brasil, e quiçá no mundo, vendeu mais do que o Michael e a Madona. Falam em 120 milhões de cópias, sabem como são os gaúchos. Pois é, entre ele e o Michael e a Madona, fico com Teixeirinha. Quer dizer, sugiro que a gauchada fiquem com Teixeirinha, porque eu fico mesmo é com a Angelina Jolie.

 

Helena Kolody: Biblioteca Pública promove atividades pelos 100 anos

Biblioteca Pública do Paraná (BPP) promove, de segunda (8) a quinta-feira (11), a Semana Helena Kolody 100 anos, com atividades grátis para celebrar o centenário do nascimento da autora, comemorado em 12 de outubro. No hall térreo e nas escadarias do prédio, até o dia 26, estarão expostas fotografias, poemas e depoimentos da autora. Durante toda a semana, o elenco do Grupo Delírio Cia de Teatro fará leituras de poemas da autora em diversas salas da biblioteca, em horários variados.

Serviço: Semana Helena Kolody 100 anos. De 8 a 11 de outubro. Diversas atividades com entrada franca. Biblioteca Pública do Paraná – Rua Cândido Lopes, 133. Curitiba. Horário: 2.ª a 6.ª, das 8h30 às 20 horas. Sábado, das 8h30 às 13 horas. Mais informações: (41) 3221-4900 ou

EM TEMPO DE ELEIÇÕES – por paulo timm / portugal.pt

 

Em tempo de eleições, candidatos e eleitores ficam de olho nas pesquisas eleitorais. Elas reinam   soberanas nas campanhas. Depois são esquecidas, como são esquecidos os números da própria eleição.  Lá ficam eles arquivados nos sites da Justiça Eleitoral, como meras estatísticas, desprovidas de encanto. Mas agora é campanha e pesquisa eleitorais…

Muitos têm se debruçado ao estudo da importância das pesquisas eleitorais. Um sociólogo francês , Patrick Champagne, costumava  dizer que  estávamos diante de  grave inversão no processo político, como se fosse o rabo a abanar o cachorro e não vice-versa:  “ As pesquisas de opinião passaram a ser divulgadas como se fossem a própria opinião pública e substituíram a opinião qualitativa dos acadêmicos” (Cesar Maia,Newsletter). Os próprios analistas políticos, de formação jornalística, senhores das colunas nobres em todos os níveis da imprensa, do nacional ao local, desaparecem nesse processo e acabam rendendo-se à análise dos números das pesquisas. Muitos acabam chegando à conclusão de que, no futuro, nem haverá mais necessidade de se fazer eleições diretas, secretas e universais. Basta aplicar pesquisas, cada vez mais refinadas. Será..? Não acredito. De qualquer forma é importante se discutir um pouco sobre como se forma a opinião pública sobre um candidato. Mais do isso: Como se forma o estado de espírito do eleitor no processo eleitoral?

O ponto de partida é a cultura política e a confiança nas instituições a ela associadas: Partidos, Congresso e Camaras legislativas , políticos etc.

Uma cultura política não se constrói de uma hora para outra. Ela responde pelo longo processo através do qual os mecanismos de poder se constituem, ou seja, da forma como uma comunidade se organiza para formular , implantar a Lei e produzir resultados sociais comuns. Outro sociólogo, alemão, Max Weber, muito mais agudo no estudo dos sistemas de dominação política do que seu conterrâneo mais famoso – Karl Marx – , nos deixou o entendimento deste processo, que vai do  encantamento com o líder carismático ao desencanto racional, embora institucionalizado ,  do Estado Moderno. Permeando este trânsito, as próprias transformações de uma sociedade tradicional, pouco desenvolvida em termos de produtividade econômica e complexidade social, rumo à modernidade. Ou seja, a cultura política numa sociedade tribal  será inevitavelmente diferente da política numa sociedade industrial pós-moderna, onde aliás, se incorpora à agenda dos espetáculos.

Mas tanto numa sociedade tradicional como numa sociedade contemporânea a Política terá seus valores, seus rituais, seus mecanismos de realimentação e até mudança. Mesmo nos modelos hierárquicos de inspiração divina, por exemplo, como as monarquias chinesas antigas, os Reis eram obrigados a interpretar os desígnios insondáveis à luz das necessidades terrenas, sob pena de serem sumariamente destituídos diante de catástrofes e grandes dificuldades sociais. A flexibilidade para a destituição do líder diante da frustração dos liderados é, aliás, uma das chaves principais na construção de uma vontade popular no processo político, sendo uma das vantagens apontadas pelos parlamentaristas sobre os presidencialistas.  A rotatividade, enfim, dos representantes dos eleitores, é também um indicador da permeabilidade do sistema político à novos agentes no processo político, sejam por classes , gênero ou idade. Um sistema político que eterniza, por exemplo, grandes proprietários que se profissionalizam e se encastelam em posições políticas, impedindo a renovação de lideranças, será, fatalmente, fadado ao fechamento de seus horizontes de mudança.

Tudo isto se reflete, por fim, nos índices de confiança nas instituições políticas de um país.

As pesquisas, no Brasil, a este respeito são preocupantes. Há um descrédito muito grande das instituições políticas e este descrédito pode levar ao desinteresse da cidadania pelas eleições e pelo futuro da coisa pública. Basta, aliás, consultar as Redes Sociais e se perceberá o que estou dizendo. Políticos e instituições como Congresso Nacional e até o Judiciário são verdadeiramente achincalhados. Veja-se, pois, o último resultado de uma Pesquisa Datafolha, divulgada pela Folha de Sáo Paulo no último dia 12 e que evidencia o descrédito da opinião pública sobre o Congresso e os Partidos Políticos:

Pela ordem: Confia Muito x Confia um Pouco x NãoConfia.

a) Presidência da Republica 33% x 52% x 15%

b)Imprensa: 31% x 51% x 18%

c) Supremo Tribunal Federal 16% x 51% x 32%

d) Congresso Nacional 8% x 40% x 52%

e) PartidosPolíticos 7% x 41% x 52%.

Preocupante…

 

 

“Um País justo e desenvolvido” – por Dilma Rousseff / brasilia.df

Presidenta Dilma Rousseff.

O Brasil de 2030 estará entre os países mais desenvolvidos e mais democráticos do mundo. Será mais justo e menos desigual, como nunca antes em sua história. 

Na última década, adotamos um modelo de desenvolvimento baseado no crescimento, na estabilidade e na inclusão social. Hoje somos a sexta economia mundial e estamos nos tornando um país de classe média, oferecendo oportunidades para todos os brasileiros. O Brasil de 2030 será a tradução de todo esse esforço que temos feito.

Não haverá pessoas vivendo em extrema pobreza no Brasil de 2030. Desde 2003 perseguimos radicalmente esse objetivo. Por meio do crescimento consistente da economia, da geração de empregos e de instrumentos efetivos de distribuição de renda, estamos chegando lá. Começamos com o Bolsa Família, no governo Lula, que abriu caminho para o Brasil sem Miséria. Elevamos 40 milhões de pessoas à classe média e continuamos, a cada dia, superando metas e desafios para garantir a inclusão dos que ainda vivem na extrema pobreza.

O Brasil de 2030 será um país que cuida de todas as suas crianças. Para isso, demos um grande passo com a criação do Brasil Carinhoso, que complementa a renda das famílias que tenham crianças até 6 anos de idade e uma renda menor que 70 reais per capita.

O Brasil de 2030 será também o país que garante acesso à creche, à educação em tempo integral, à formação técnica e superior a todos os brasileiros. Certamente, farão parte desse futuro os estudantes brasileiros que, por meio do programa Ciência sem Fronteiras, terão ampliado seus conhecimentos nas melhores universidades do mundo.

No Brasil de 2030, qualquer cidadão terá acesso a bons serviços e a um atendimento ágil na rede pública de saúde. Com mais recursos e investimentos numa gestão eficiente, estamos aprimorando e fortalecendo o SUS, um dos maiores sistemas públicos de atendimento universalizado do mundo.

Daqui a 18 anos, o Brasil será um país inovador e tecnologicamente desenvolvido, e também o país do pleno emprego e do empreendedorismo.

Manterá o ritmo de sua evolução nesta primeira década do século, quando foram criados mais de 19 milhões de empregos e formalizados mais de 2 milhões de microempreendedores.

Conseguimos antever também um Brasil mais moderno e competitivo na área de infraestrutura, na qual estamos investindo fortemente. O Plano de Investimento em Logística nas áreas de ferrovias, rodovias, portos e aeroportos dará ao Brasil uma infraestrutura compatível com o seu tamanho e com as necessidades de sua população. Sem abrir mão de seu papel de planejamento e fiscalização, o Estado continuará, em parceria com a iniciativa privada, executando as medidas necessárias para sustentar o crescimento da economia, do emprego e da renda de todos os brasileiros.

O Brasil de 2030 estará colhendo os frutos da opção pela sustentabilidade. Crescer, incluir, proteger e preservar continuará sendo a base de nosso modelo de desenvolvimento. Ainda seremos um país com grandes reservas naturais, que explora racionalmente a sua biodiversidade e tem a matriz energética mais limpa e eficiente do mundo. Ao mesmo tempo, nas próximas décadas, o Brasil alimentará o mundo como maior produtor agropecuário do planeta.

Mantido o ritmo do nosso crescimento, a pujança da nossa democracia e a constante evolução social e econômica do nosso povo – e não vejo motivo para que essa trajetória venha a ser interrompida -, tenho certeza de que no Brasil de 2030 viverão os filhos da igualdade, da inclusão e da justiça social. Uma geração preparada para assumir as rédeas do seu país e viver os benefícios de uma era de prosperidade.

E assim que vejo o país do meu neto. Olho para o Gabriel com um misto natural de curiosidade e preocupação, como acontece com todos os avós. E toda vez que tento imaginá-lo com 20 anos, iniciando a sua vida adulta, começando a lutar para construir sua história pessoal, sou otimista. Eu o vejo, como a milhões de jovens de sua geração, vivendo bem em um Brasil feliz, generoso e justo com todos os seus cidadãos e cidadãs. Um Brasil orgulhoso de ser o que é: um grande país.

Catarinense de 19 anos se destaca com texto montado pelo Club Noir – curitiba.pr

“A obra de Martina Sohn Fischer avança em direções até agora não trilhadas pela dramaturgia, ampliando a experiência estética do nosso tempo, através da invenção de outras linguagens, isto é: de outras formas de vida.”

Crítica: “Aqui” é um acontecimento extraordinário na dramaturgia

Receber um elogio desses de um dos mais importantes diretores teatrais do Brasil atualmente, Roberto Alvim, não é pouca coisa. Ainda mais para quem tem apenas 19 anos e, até um ano e meio atrás, levava uma vida tranquila em uma cidade do interior de Santa Catarina.

Nascida em Porto União, descendente de família alemã, Fischer viu muita coisa mudar em sua vida após se transferir para Curitiba em 2011 e, principalmente, ter sua peça “Aqui” montada neste ano pelo Club Noir (grupo de Alvim e Juliana Galdino) –como parte da Mostra Brasileira de Dramaturgia Contemporânea.

“Bah, foi lindo demais. Tudo isso aconteceu muito rápido e, quando o Roberto me deu a notícia de que tinham selecionado o meu texto, foi realmente uma surpresa!”, escreve ela em entrevista feita através do Facebook, ao qual está sempre conectada.

Guilherme Pupo/Folhapress
A dramaturga Martina Sohn Fischer em sua casa em Curitiba
A dramaturga Martina Sohn Fischer em sua casa em Curitiba

INFÂNCIA

Revezando seu tempo entre a vida em casa, a escola, as brincadeiras nas ruas e as leituras por todos os cantos, Fischer conta que cresceu tomando gosto por manipular as palavras, o que relaciona com o próprio modo de vida que levava no interior.

“Sempre fui uma criança muito livre. Lembro que, desde que comecei a escrever, o que eu mais gostava era de ter essa liberdade. Essa mesma liberdade infantil, de inventar coisas e viver nelas.”

A escrita, naquele momento, surgiu ainda sem relação direta com a dramaturgia, já que a maior escola era a literatura, não o teatro. “Eu até frequentei algumas aulas de atuação, mas nunca levei jeito para a coisa”, conta.

Na leitura, por outro lado, Fischer partiu logo cedo dos livros de Júlio Verne e dos romances policiais para seguir pelos mundos de Bukowski, Jack Kerouac, John Fante, Faulkner e Kafka.

Foi em 2010, através de um projeto oferecido por sua escola, que acabou caindo “por total acaso” em um núcleo de dramaturgia desenvolvido na cidade vizinha (União da Vitória), onde assistiu a uma palestra de Roberto Alvim.

Quando se mudou para Curitiba, em 2011, Fischer passou a frequentar o curso quinzenal que o diretor ministra na cidade. Em contato cada vez maior com o mundo teatral –e com as obras de Heiner Müller, Strindberg, Sarah Kane, Beckett etc.–, a nova dramaturga começou a “parir” suas primeiras peças, entre elas “Aqui”.

PERDER O CONTROLE

“Eu sentava para escrever e eu era mil coisas, menos a Martina”, conta. “Começo a escrever por pulsões desconhecidas e, quando vejo, sinto que sou parasita da obra. Eu peço mais a ela e ela me dá. Esse tipo de relação é uma loucura, perder o controle da própria obra é uma experiência que também está ligada com a liberdade.”

Questionada sobre o temor de perder algo dessa liberdade após o reconhecimento precoce e com a expectativa que pode se criar em torno de seu nome, Fischer responde:

“A responsabilidade é da obra, então, depois de terminada, eu só tenho que continuar escrevendo. E as obras se criam sozinhas, só preciso parir. Não que seja fácil! Mas esse ‘fazimento’ acontece em um lugar desconhecido, onde não é nem possível pensar na recepção que a obra vai ter, ela simplesmente se dá, é imprevisível e instável.”

Preocupação maior, por enquanto, é se preparar para prestar o vestibular no fim do ano, para entrar no curso de filosofia na Universidade Federal do Paraná.

 

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MARCOS GRINSPUM FERRAZ
COLABORAÇÃO DE

ERIC HOBSBAWN, UM DOS MAIORES HISTORIADORES DO SÉCULO XX, MORRE AOS 95

Mente brilhante e autor do clássico “A era dos extremos”, ele foi um dos principais observadores do século XX; sua morte foi anunciada nesta manhã em Londres, pela filha Julia

1 DE OUTUBRO DE 2012 ÀS 07:40

247 – Acaba de ser anunciada a morte de Eric Hobsbawn, um dos maiores historidadores de todos os tempos, autor do clássico “A era dos extremos”.Marxista, Hobsbawn influenciou uma longa geração de historiadores e políticos e teve sua morte anunciada nesta manhã pela filha Julia, em Londres.

De acordo com o também historiador Nial Ferguson, os livros de Hobsbawn são o melhor ponto de partida para qualquer pessoa disposta a conhecer o que foi o século XX, marcado por guerras e revoluções.

Nascido em Alexandria, no Egito, e filho de uma família judia, ele foi criado em Viena e Berlim e se mudou para Londres em 1933, ano em que Hitler chegou ao poder. Desde 1978, ele era membro da British Academy.

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Veja os livros de Eric Hobsbawm publicados no Brasil

01 de outubro de 2012 

Eric Hobsbawn, um dos maiores historiadores do último século, em foto de 2008. Foto: EFE
Eric Hobsbawn, um dos maiores historiadores do último século, em foto de 2008
Foto: EFE

Falecido nesta segunda-feira em Londres aos 95 anos, o historiador britânicos Eric Hobsbawm é referência unânime para o estudo da história moderna e o marxismo. Confira abaixo algumas suas obras publicadas no Brasil:

A era das revoluções – 1789-1848 (2009, Paz e Terra)

A era do capital – 1848-1875 (2009, Paz e Terra)

A era dos impérios – 1875-1914 (2009, Paz e Terra)

A era dos extremos – O breve século XX (1995, Cia. das Letras)

História do marxismo – 12 volumes (1985-1989, Paz e Terra)

Estratégias para uma esquerda racional – Escritos políticos – 1977-1988 (1991, Paz e Terra)

A revolução francesa (1996, Paz e Terra)

História social do jazz (1990, Paz e Terra)

Ecos da Marselhesa – Dois séculos reveem a Revolução Francesa (1996, Cia. das Letras)

Pessoas extraordinárias – Resistência, rebelião e jazz (1998, Paz e Terra)

Sobre história (1998, Cia. das Letras)

Mundos do trabalho (2000, Paz e Terra)

O novo século – Entrevista a Antonio Polito (2000) – também em edição de bolso (2009, Cia. das Letras)

Tempos interessantes – Uma vida no século XX (2002, Cia. das Letras)

Revolucionários – Ensaios contemporâneos (2003, Paz e Terra)

A transição do feudalismo para o capitalismo – Um debate (com outros autores) (2004, Paz e Terra)

Depois da queda – O fracasso do comunismo e o futuro do socialismo (com outros autores) (2005, Paz e Terra)

Globalização, democracia e terrorismo (2007, Cia. das Letras)

A invenção das tradições (2008, Paz e Terra)

Nações e nacionalismo desde 1780 (2008, Paz e Terra)

Da revolução industrial inglesa ao imperialismo (2009, Forense Universitária)

Bandidos (2010, Paz e Terra)

Os trabalhadores – Estudos sobre a história do proletariado (2010, Paz e Terra)

Como mudar o mundo – Marx e o marxismo 1840-2011 (2011, Cia. das Letras)

AO PÉ do TÚMULO – auta de souza / natal.rn

Ao Pé do Túmulo 

 

 

 

 

Eis o descanso eterno, o doce abrigo
Das almas tristes e despedaçadas;
Eis o repouso, enfim; e o sono amigo
Já vem cerrar-me as pálpebras cansadas.

Amarguras da terra! eu me desligo
Para sempre de vós… Almas amadas
Que soluças por mim, eu vos bendigo,
Ó almas de minh’alma abençoadas.

Quando eu d’aqui me for, anjos da guarda,
Quando vier a morte que não tarda
Roubar-me a vida para nunca mais…

Em pranto escrevam sobre a minha lousa:
“Longe da mágoa, enfim, no céu repousa
Quem sofreu muito e quem amou demais”.

TÔ NEM AÍ PRO PORTUGUÊS ! – por renoir pereira da silva

Aquela Feijoada Baiana estava cheirosa, aquele feijão estava gostoso, aquele feijão estava charmoso, aquele feijão estava uma uva. Não era qualquer feijão. Aquele feijão tinha cheiro de quê? Aquele feijão é para quem gostava de feijão, é para convencer quem não gostava. A feijoada passou, mas na memória ficou. Só 1 kg de Feijão Mulatinho? Um bocadinho mais. Não coma quaisquer feijões, coma com folhas de coroas olímpicas. O Manuel pôs só cinco folhinhas? Um bocadinho mais. Aquele feijão estava um arco-íris, em cores, aquele feijão estava a cores. O pessoal comeu bem, à custa do trabalho do Manuel, que além de cozinheiro é um belo advogado, que ganhou um bom dinheiro com as custas de um processo e pagou a bebida. Só 700g de charque? Eu disse “um bocadinho mais”. Ai! Que saudade da feijoada, saudades da cenoura e da linguiça e do último prato. 200g de toucinho salgado? Hum! Um bocadinho mais. Eu, que voltei a estudar, pedi um prato de Phaseolus vulgaris, Manuel se confundiu, depois de eu explicar, todo mundo riu. 500g de carne bovina? Um bocadinho mais. Em vez de uma cabeça de alho amassado, foi posta inteira, ele disse que é melhor. Mas só uma cabeça? Ao invés de cair os preços, com a chegada da safra, os preços aumentaram. Bela desculpa para o pão duro, que é o Manuel. Manuel escreveu para mim: “Minha namorada, que mora em Joinville, virá amanhã”. Sábio Manuel, que pôs “que mora em Joinville” entre vírgulas, caso ao contrário ele teria várias namoradas, e só viria aquela que mora em Joinville, ai ele se complicaria. Só 1 kg de Feijão Mulatinho? Depois não reclama. Perguntei: Posso vir aqui pegar mais, Manuel? E ele disse: se eu vir tu não pagarás. Sem ele ver… mais do mesmo. 400g de rabo de porco? Olha! 300g de orelha de porco? Mais pares. 600g de pernil de porco? Logo pernil. 600g pé de porco? Mais pares. 600g de costela de porco defumada? Logo costela. Vai faltar porco. Numa provável sobra fiquei rodeando. Numa eventual mudança do mau humor do cozinheiro, eu pensava em pegar mais. Que feijão! Manuel prefere fazê-lo a comê-lo. Vai entendê-lo. Eu, já prefiro comê-lo que fazê-lo. Manuel pediu-me para ser discreto, agir com discreção, ir devagar, mas sou indiscreto, agi naturalmente, com discrição. Era um prato atrás do outro. Nem dei bola para o Manuel. A bagunça? Não foi culpa minha. Foram eles quem fez. Eu nem havia saído da mesa, ainda. 400g de paio? Um bocadinho mais. 200g de tomate picado? Depois não reclama. 250g de cebola picada? Põe 500g. São indescritíveis os cheiros por que tive de cheirar. Por que aquele feijão é tão cheiroso? Aquele feijão é tão gostoso por quê? Até ali, ninguém sabia o porquê daquele gosto. Eu fui perguntar àquele homem o motivo do feijão ser tão gostoso. Manuel não revelou o porquê. Ninguém sabia por que ele não explicou. Ninguém sabia porque ele não explicou. Chamaram-me. Hum! Não fui porque estava comendo. A minha tia não veio, porque estava doente, e, como ela come três pratos, mas três sobraram, e sobraram para mim. Eu toda hora ia aonde a feijoada estava e ficava ali onde a feijoada estava. E ficava ali à-toa. Dito assim parece à toa. 5 ramos de hortelã? Um bocadinho mais. 2 colheres de coentro picado? Põe três. Aquele era o feijão ao qual me refiro. A feijoada do Manuel. A todo poderosa feijoada dele tem feitiço, aquilo não era panela, era um caldeirão. Aquele é o feijão que eu gosto. Manuel é o cozinheiro de quem lhes falo. Ele é brabo, pois tem brabeza. Ele é bravo, pois tem bravura. Manuel, quem faz um ótimo feijão. 10g de pimenta do reino moída? Põe 15g. A féria do final do dia, ou seja, o acumulado no final do dia foi um cansaço enorme do Manuel. Ele já estava pensando nas férias. 4 colheres de extrato de tomate? Que estranho!Mas põe seis. O sal é a gosto. Há bastantes razões para se comer mais de um prato, tais como, o cheiro, a textura, o segredo principal. Há razões bastante irresistíveis para se comer mais de um prato, tais como, o cheiro, a textura, o segredo principal. Meu caro leitor, a feijoada de sua mãe não chega perto da feijoada daquele cara. A dele seguem anexas linguiças temperadas, seguem anexos segredos, seguem, em axexo, as especiarias do gajo. Após muita insistência, Manuel explicou como se faz: deixe as carnes de molho de um dia para o outro, trocando a água para retirar o sal. Refogue as carnes no toucinho, acrescentando o feijão e a água necessária. Tempere com tomate, cebola, alho, hortelã, pimenta do reino, extrato de tomate e louro. Retire as carnes que forem amolecendo até que o feijão fique cozido. Faltou feijoada, eu bem disse. Comi tanto, que fui processado por Manuel a limpar as panelas. Limpei só uma e fui embora. Tô nem ai pro português.

LULA – antonio delfim netto / são paulo.sp

Desde a Constituição de 1988, as instituições vêm se fortalecendo e o poder incumbente tem, com maior ou menor disposição, obedecido aos objetivos nela implícitos: primeiro, a construção de uma República onde todos, inclusive ele, são sujeitos à mesma lei sob o controle do Supremo Tribunal Federal; segundo, a construção de uma sociedade democrática com eleições livres e à prova de fraudes; terceiro, a construção de uma sociedade em que a igualdade de oportunidades deve ser crescente, por meio de um acesso universal e não oneroso de todo cidadão à educação e à saúde, independentemente de sua origem, cor, credo ou renda.
Vivemos um momento em que se acirram as legítimas disputas para estabelecer a distribuição do poder entre as várias organizações partidárias e que é propício aos excessos verbais, às promessas irresponsáveis e à agressão selvagem.
Afrouxam-se e liquefazem-se os compromissos com a moralidade pública, revelados no universo da “mídia”. Esta também, legitimamente, assume o partido que melhor reflete sua “visão do mundo”.
A situação é, agora, mais crítica porque a campanha eleitoral se processa ao mesmo tempo em que o Supremo Tribunal Federal julga um intrincado processo que envolve o PT e, em breve, vai fazê-lo em outro, da mesma natureza, que envolve o PSDB.
O que alguma mídia parece ignorar é que o uso abusivo do seu poder é corrosivo e ameaçador à necessária e fundamental liberdade de opinião assegurada no artigo 220 da Constituição, onde se afirma que “a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição”.
Primeiro, porque o parágrafo 5º do mesmo dispositivo previne que “os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio”. E, segundo, porque no art. 224 a Constituição fecha o ciclo: “Para os efeitos do disposto nesse capítulo, o Congresso Nacional instituirá, como seu órgão auxiliar, o Conselho de Comunicação Social, na forma da lei”. Dois dispositivos suficientemente vagos que podem acabar criando problemas muito delicados no futuro.
Um exemplo daquele abuso é a procura maliciosa de alguns deles de, no calor da disputa eleitoral, tentar destruir, com aleivosias genéricas, a imagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ignorando o grande avanço social e econômico por ele produzido com a inserção social, o fortalecimento das instituições, a redução das desigualdades e a superação dos constrangimentos externos que sempre prejudicaram o nosso desenvolvimento.
agencia folha.

REVOLUÇÃO FARROUPILHA -HOMENAGEM NÚMERO 2 – à GAUCHADA e ALAGOANOS, PERNAMBUCANOS, BAIANOS E PARAENSES – por arnaldo barbosa brandão / brasilia.df

 

Uma “nova” interpretação para a Revolução Farroupilha, menos Marx e mais Weber e Freire.

Quando penso no Rio Grande do Sul, por incrível que pareça, penso em Alagoas. Destes dois lugares, aparentemente tão díspares, saíram os homens que moldaram o Brasil moderno. Para os menos informados, basta lembrar Floriano, Hermes da Fonseca, Getúlio e Prestes, mas, se preferirem podem ficar com Corisco (que Glauber imortalizou no seu “Deus e o Diabo…”) e um certo Capitão Rodrigo Cambará(que Érico Veríssimo tornou real). Há alguma dúvida sobre os homens citados, ou preciso explicar? Podem não gostar deles, mas isso é outra história. Há dúvidas sobre a importância de Prestes? Sem a chamada “Intentona” o Brasil seria outro, porque a partir dali o exército mudou, e o exército talvez seja a mais importante das nossas instituições, qualquer tre-le-lé: chama o exército. Quando digo aparentemente dispares, me referindo a Alagoas e Rio Grande, é porque há algo em comum de grande importância: são lugares de gente áspera, basta ler os dois grandes escritores representativos destes lugares. Se vissem um gaúcho cavalgando em alta velocidade tentando capturar uma rês, como eu vi certa vez em Dom Pedrito, ou um boiadeiro alagoano rasgando a caatinga, na tentativa de garantir sua “carne de sol” cotidiana, como vi em Palmeiras dos Índios, iriam entender bem o que estou dizendo. Parece que estou ouvindo alguém dizer: “não é mais assim”. Entendo.
Dizem que a Revolução Farroupilha tem a ver com Carne de Sol, ou de Charque. Eu, como baiano não aceito uma explicação simplista desta, isso é reduzir a heroica Guerra do Farrapos a “pó de traque”. Não aceito. Seria reduzir o Rio Grande a um digamos, Goiás, que alguém divide ao meio e ninguém fala nada. Primeiro porque nunca acho que as coisas são simples e se forem, trato de torná-las complicadas. Quem me explicou há muito tempo, em 1985, como funcionava a produção e exportação de charque, foi o Roberto Cavalcanti, até então imaginava que a carne de sol era coisa nascida e criada no Nordeste e sequer supunha que um nordestino transferiu a tecnologia para os gaúchos que passaram a dominar a produção. Nunca soube que exportavam charque há tanto tempo e pra tão longe, e que o produto representava tanto para a economia do Rio Grande. Pois bem, é comum que os historiadores afirmem, com certa convicção, que a causa da revolução farroupilha foi a entrada do charque argentino e Uruguaio no Brasil, tirando o mercado dos estancieiros gaúchos, e que a revolução interessava apenas aos estancieiros. É uma explicação excessivamente materialista, coisa do pessoal que reza pela bíblia marxista, e não condiz com as tradições gaúchas, nem baianas, nem pernambucanas, vou explicar por quê.
Quem dera que as coisas fossem assim tão simples. Se assim fosse, a Revolução dos Farrapos não teria levado 10 anos, não teria mobilizado tanta gente e tampouco alcançaria a extensão territorial que alcançou. Ocorre que a Região Sul do Brasil sempre foi instável sob o ponto de vista político e militar, devido a muitos fatores, entre os quais, a formação política do Rio Grande (que só recentemente, com Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros, tornou-se um estado da Federação, de fato), a questão do Uruguai (criação da Província Cisplatina que mexeu com o Rio Grande), a Guerra do Paraguai, que contou com 1/4 de soldados do Rio Grande e portanto mobilizou militarmente o Estado, isto sem mencionar os problemas do Brasil com a Argentina, que é um país instável e beligerante desde sua criação. Vou contar um segredinho pra vocês: quando estive na ESG em 85, soube que a ordem de Guerra nº 1 do Brasil era contra a Argentina. Sabem o que isso significava? Nosso principal inimigo não eram os ingleses ou americanos como os intelectuais marxistas achavam, eram os argentinos e isso implicava que nossa “máquina de guerra” estava virada para o Sul o tempo todo, pra invadir a Argentina. Daí veio o Mercosul que matou vários coelhos(melhorou a economia do Sul, integrou a Argentina, etc.) e antes, veio Itaipu que nos vinculou ao Paraguai para o bem ou para o mal, mais para o bem. E, devido às circunstâncias, nós deveríamos pagar muito bem ao Paraguai pela energia, porque como todos sabemos desde o Beira-Rio até o Maracanã, não dá pra confiar nos portenhos.
Daí quando o Grêmio ou Internacional joga contra o Penarol ou o Boca, o pau quebra. Por que? São povos belicosos. Coloque no caldeirão: cavalos (a verdadeira felicidade está no coração das mulheres e no lombo dos cavalos, sei que a maioria dos meus leitores jamais montou, a não ser nos parquinhos, portanto, não têm a menor ideia), sangue espanhol, distância de centros civilizados, desleixo do governo central, clima hostil (frio infernal e calor infernal), deixe cozinhar ao sol e veja o resultado. Mas ainda não chegamos na questão central das causas da Guerra dos Farrapos, e ela pode ser resumida numa palavra, e que palavra, vão saber daqui a pouco.
Em 1985, fui assistir uma palestra do Gilberto Freire na casa dele em Apipucos, no Recife, onde tomei um licor de pitanga do quintal. Estava arrastando os pés, mas lúcido como sempre. Anotei várias coisas, uma delas nunca tinha cogitado. Ele disse textualmente: “Nordeste faz fronteira com a África”. Fronteira? Pois é, recente, lendo os livros do Costa e Silva é que fui entender bem, mas já desconfiava (“eu quase não sei de nada, mas desconfio de muita coisa”). Pois é, meus amigos, FRONTEIRA é uma palavra muito complexa. Na Fronteira (como vocês devem ter notado no texto anterior que publiquei aqui), você tem que estar preparado pra o que der e vier. E lá no Sul são três. Por isso, os gaúchos, assim como os nordestinos, assim como os paraenses, são tão briguentos, ou melhor, beligerantes. Se não tem ninguém pra brigar, brigam contra eles mesmos. Lembrem-se da Revolução Federalista, foram mais de 10 mil mortos, isso no final do século XIX.
Todos sabemos que o Rio Grande sempre teve uma tradição separatista, que diferentemente dos pernambucanos, baianos, maranhenses e paraenses, era mais fácil de ser insuflada, seja pela geografia, pela cultura, e até pela língua (lembrei do Dicionário Farroupilha do Vidal) e sobretudo pela beligerância e também, porque não, pelo caráter fanfarrão, que depois, a migração europeia tratou de acalmar. Lembro sempre da história do gaúcho que se afogava no Guaíba e berrou: “sai da frente Guaíba, senão te engulo todo”.
Voltando à Guerra dos Farrapos, seria mais pertinente dizer que houve um conjunto de causas, não saberia dizer qual a mais importante (ou estrutural, concedendo alguma coisa à Marx), contudo é bom considerar que o Brasil viveu o “período regencial”, quando o poder central estava enfraquecido e o exército fraturado por facções, dai a ocorrência, não somente da Revolução Farroupilha, mas também da Sabinada, Balaiada, Cabanagem, Revolta dos Malês, etc. Vejam que, quando o país se reorganizou, Caxias foi lá e acabou com o bafafá. É, meus amigos, quando até baiano faz revolução é porque a coisa estava esculhambada, mas isso não é novidade.

A REPETIÇÃO DA HISTÓRIA – por luis nassif e COMENTÁRIO de paulo timm / são paulo.sp e portugal.pt

São significativas as semelhanças entre os tempos atuais e o período pré-64, que levou à queda de Jango e ao início do regime militar e mesmo o período 1954, que levou ao suicídio de Getúlio Vargas.

Os tempos são outros, é verdade, e há pelo menos duas diferenças fundamentais descartando a possibilidade de um mesmo desfecho: uma  economia sob controle e uma presidência exercida na sua plenitude, sem vácuo de poder.

***

Tirando essas diferenças, a dança é a mesma.

A falta de perspectivas da oposição em assumir o poder, ou em desenvolver um discurso propositivo, leva-a a explorar caminhos não-eleitorais.

Parte-se, então, para duas estratégias de desestabilização  – ambas em pacto com a chamada grande mídia.

Uma, a demonização dos personagens políticos. Antes do seu suicídio, Vargas foi submetido a uma campanha implacável, inclusive com ataques à sua honra pessoal – que, depois, revelaram-se falsos.

No quadro atual, sem espaço para criticar a presidente Dilma Rousseff, a mídia – especialmente a revista Veja – move uma campanha implacável contra Lula. Chegou  ao cúmulo de ameaçar com uma entrevista supostamente gravada (e não divulgada) de Marcos Valério, como se Valério tivesse qualquer credibilidade.

Surpreendente foi a participação de FHC, em artigo no Estadão, sustentando que o julgamento do “mensalão” marca uma nova era na política. Até agora, o único caso documentado de compra de votos foi no episódio da votação da emenda da reeleição – que beneficiou o próprio FHC.

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A segunda estratégia tem sido a de levantar o fantasma da guerra fria. Mesmo sabendo que Jango jamais foi comunista (aliás, o personagem que mais admirava era o presidente norte-americano John Kennedy) durante meses e meses levantou-se o “perigo vermelho” como ameaça.

Grande intelectual, oposicionista, membro da banda de música da UDN, em 1963 Afonso Arino escreveu um artigo descrevendo o momento. Nele, mencionava o anacronismo de (em 1963!) se falar de guerra fria, logo depois de Kennedy e Kruschev terem apertado as mãos. E dizia que, mesmo sendo anacronismo, esse tipo de campanha acabaria levando à queda do governo pelo meio militar, devido à falta de pulso de Jango, na condução do governo.

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O modelo de atuação da velha mídia é o mesmo de 1964, com a diferença de que hoje em dia não há vácuo de poder, como com Jango.

Primeiro, buscam-se personalidades, pessoas que detenham algum ativo público (como jornalistas, intelectuais, artistas etc.). Depois, abre-se a demanda por comentaristas ferozes. Para se habilitar à visibilidade ofertada, os candidatos precisam se superar na ferocidade dos ataques.

Poetas esquecidos, críticos de música, acadêmicos atrás de visibilidade, jornalistas, empenham-se em uma batalha similar às arenas romanas, onde a vitória não será do mais analítico, ponderado, sábio, mas do que souber melhor agredir o inimigo. É a grande noite do cachorro louco, uma selvageria sem paralelo nas últimas duas décadas.

Com sua postura de não se restringir ao julgamento do “mensalão” em si, mas permitir provocações à presidente da República e a partidos, o STF não cumpre seu papel.

Aliás, o STF do pós-golpe foi muito mais democrático do que o atual Supremo.

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COMENTÁRIO:  de PAULO TIMM

O artigo é digno de reflexão. Afinal, vive-se uma espécie de SETEMBRO NEGRO, com sinais de tensões políticas e “irritação” conjuntural, agudizadas, quer pela crise econômica internacional, com reflexos na perda de dinamismo da nossa economia interna, quer pela crise política deflagrada, sem entrar no mérito, pelo julgamento do “Mensalão”.

Tenho vários reparos a fazer ao texto do NASSIF.

Acho que em 64 não havia nenhum vácuo de poder. Isso foi desculpa dos golpistas para derrubarem o Governo Goulart . E, independentemente do que Afonso Arinos dizia, estávamos, sim no Auge da Guerra Fria. Recém saídos da Crise dos Mísseis em Cuba. O golpe de 64 tinha apoio efetivo dos Estados Unidos. Hoje, a Guerra é Cambial, como diz nosso Ministro MANTEGA. E, embora os Estados Unidos estejam reagindo ao nosso suposto protecionismo, nada indica que estará financiando a derrubada de Dilma Roussef.

Isso significa, pois, que a atual CRISE tem origem interna.

E, à diferença de 1954 e 1964, tem um caráter não de LUTAS DE CLASSES, mas da consequência de elas se terem deslocado do campo POLITICO ( praças e Congresso) , para o INSTITUCIONAL (Justiça) . Aliás, uma consequência do que se tem denominado JUDICIALIZAÇÃO da LUTA DE CLASSES, ou LUTA POLÍTICA. Um grande perigo.

Getúlio, severamente combatido pela Imprensa que o acusava de estar mergulhado num MAR DE LAMA, refugiou-se no suicídio e deixou uma CARTA TESTAMENTO que entrou para a História como o testemunho das causas reais da crise: a defesa da economia nacional com respeito à soberania e direitos dos trabalhadores. Jango, reflugiou-se no exílio e deixou à História sua presença altiva no Comício da Central do Brasil no dia 13 de março, quando promulgou a REFORMA AGRÁRIA, no contexto das Reformar de Base, plataforma de seu Governo. Nos dois casos, o que estava em jogo náo era nem um Presidente, muito menos seus aliados, nem um Partido, mas uma Instituição: a Presidência da Republica.

Nos dois casos, contrariamente ao que afirma NASSIF havia Governos democraticamente eleitos, institucionalmente funcionando, sem qualquer vazio de Poder, nem ambiguidades. O que sim, havia, era uma forte Oposição aos respectivos Governos no Congresso Nacional, o que hoje não existe, em função, até, da habilidade da CONCERTAÇAO da Governabilidade pela cúpula dos Partidos. Nos casos de JANGO, VARGAS e DILMA é certo, porém, que a grande imprensa OPERA COMO PARTIDO POLÍTICO jogando pesado a favor do conservadorismo. . O próprio NASSIF , entretanto, ressalta a diferença: O alvo, agora, náo é nem a Presidente, nem seu Governo. O alvo agora é o PT, portanto, o jogo não tem caráter propriamente GOLPISTA, mas político. Pretende debilitar o PT, atingir algumas de suas mais importantes figuras e o próprio LULA, que , aliás, încovenientemente, a meu juízo, procura se defender em campo aberto, coordenando o apoio de setores da sociedade não em apoio ao Governo, que náo está em causa, mas a acusados em um processo em curso. Tem todo o direito, mas é um jogo extremamente perigoso porque cria, sim, uma fratura na autoridade da Presidente da República. Fica evidente que há um PODER FORMAL no Planalto, com grande prestígio de Opiniáo Pública e respeitabilidade da Imprensa e até Oposiçao e OUTRO PODER, DE FATO, no Ex-Presidente, já visivelmente desgastado, seja pela doença, seja pelo afastamento do Poder, seja até pela própria insistência em se manter no HIT PARADE, seja, enfim, pelo efeito da mídia. Isto, sim, cria um vazio de Poder que o autor náo assinala.

O cachorro louco de agosto, parece, pois, que continua solto pelas veredas de setembro. Esperemos outubro…

 

Para que escrever poesia? Para quem? – LES MURRAY

Reprodução/Internet/Rogério Galindo.
Reprodução/Internet / Les Murray.
Les Murray.

O blog traduz mais um poema de Les Murray, torcendo para na semana que vem ele ser anunciado como o vencedor do Nobel…

O instrumento

Quem lê poesia? Não nossos intelectuais;
eles querem controlá-la. Não os amantes, não os combativos,
não os examinadores. Eles também roçam-na em busca de bouquets
e trunfos mágicos. Não os alunos pobres
que peidam furtivamente enquanto criam imunidade contra ela.

A poesia é lida pelos amantes da poesia
e ouvida por mais uns que eles levam ao café
ou à biblioteca local para uma leitura bifocal.
Os amantes de poesia podem somar um milhão
no planeta todo. Menos do que os jogadores de skat.

O que lhes dá prazer é um roçar nunca-assassino
destilado, principalmente versado, e suspenso em êxtase
calmo na superfície de papel. O resto da poesia
de que isso uma vez já foi parte ainda domina
os continentes, como sempre fez. Mas sob a condição hoje

de que seu nome nunca seja dito: construções, poesia selvagem,
o oposto mas também o secreto do racional.
E quem lê isso? Ah, os amantes, os alunos,
debatedores, generais, mafiosos, todos leem:
Porsche, plástica, Gaia, Bacana, patriarcal.

Entre as estrofes selvagens há muitas que exigem tua carne
para incorporá-las. Só a arte completa
livre de obediência a seu tempo pode te fazer dar piruetas
ao longo e através dos poemas maiores em que você está.
Estar fora de toda poesia é um vazio inalcançável.

Por que escrever poesia? Pelo estranho desemprego.
Pelas dores de cabeça indolores, que devem ser aproveitadas para atacar
por meio de seu braço que escreve no momento acumulado.
Pelos ajustes posteriores, alinhando facetas em um verbo
antes que o transe te deixe. Para trabalhar sempre além

de sua própria inteligência. Para não precisar se erguer
e trair os pobres para fazê-lo. Por uma fama não-devoradora.
Pouca coisa na política lembra isso: talvez
os colonizadores australianos reinventando o falso
e muito adotado voto secreto, no qual a deflação podia se esconder

e, como um portador do bem-estar, envergonhar as Revoluções da vala-comum.
Tão cortada a machado, tão cônsul-ar.
Foi essa uma brilhante vitória mundial da covardia moral?
Respirar em ritmo de sonho quando acordado e longe da cama
revela o dom. Ser trágico com um livro na sua cabeça.

hoje completa três anos que nosso amigo, filósofo, ideólogo, jornalista, poeta e escritor WALMOR MARCELLINO deixou de conviver conosco.

colaborador assíduo deste sitio com seus textos críticos, substantivos , contundentes e se por melhor pudéssemos afirmar os seus POEMAS atraíram milhares de leitores que até hoje lhe visitam. como lembranças de WALMOR postamos, abaixo, um texto que refere-se a uma eleição dado ao momento e um de seus poemas.

VAMOS ASSIM, rapaziada

Manipulei um convite de contribuição no valor de R$1.000,00 (ao dia 2 de setembro, às 19h30min, no Buffet du Batel) para participação no “Jantar dos Amigos do Beto” e compreendi como o “trabalho continua” com a Coligação Curitiba, sob entusiasmo de quem teve registrados 70% nas pesquisas de “intenção de voto”, e que procura perder pouco dessa “fofura” até as eleições. Para quem está habituado a ver uma “fezinha” de R$10,00 a R$50,00 em colaboração para algum candidato sinistróide, essa “espontaneidade” de milão dá coceiras.

Mais ainda sabendo que se trata de um plus arrecadante de um amplo grupo de amigos de prefeito, em que empreiteiros de obras e empresários notáveis “por sua contribuição à nunca suficientemente louvada democracia representativa” já definiram participações (de pars, partis, a parte) muito mais significativas na campanha ‑ e que a escória “socialista de gaveta” do PSB, do PDT e do PPS se tem alinhado pela direita e agora faz seu pule no capão mais habilitado ‑ enquanto suas lideranças já dividiram os bônus do processo eleitoral. Aqui me quedo abismado.

Entretanto, não devemos ficar discutindo fundos e apoios políticos, e sim a forma e o estilo, que são o busílis ideológico-político. Claro está que as eleições não são lugar específico para assertivas ideológicas e pregações de doutrina, já que o “anuente” se submete a regras de disputa de funções político-administrativas, para as quais, pensa-se, terá alguma contribuição objetiva além de retórica. Quando muito, poderá vincular suas propostas objetivas a uma visão político-administrativa e urbanística.

Além do discurso verde do PV e do discurso vermelho do PSOL-PSTU-PCB, que no geral  só convocam atenção dos próprios simpatizantes, e de que Fábio Camargo é um livre-atirador a serviço da candidatura Beto Richa (e de seu próprio prestigiamento, é óbvio), a candidatura Gleise Hoffmann estranhamente afirma “eles estão cansados e pouco criativos”: como elogios à privatização das áreas municipais e à criação do sistema de transporte para a Volvo, para o “pool”empresas de transporte coletivo e para fabricantes de equipamentos urbanos; e também aos urbanistas e arquitetos associados na cópia de obras existentes no exterior ‑ sempre, lembremos, com aviso para os amigos do IPPUC e do prefeito de quais áreas urbanas irão valorizar ‑. Tudo como se fosse um fulgurante sistema de planejamento urbano em declínio!

A sua vez, bem articulado em sugestões democráticas e de repercussão pública, o candidato do PMDB consegue fazer propostas incisivas e razoáveis, mas que não conseguirão ultrapassar o nível de falas ocasionais. Simplesmente porque o processo eleitoral entre nós começaria logo após as eleições, com necessária formatação de críticas passo a passo e extrapolação delas como constante informação pública. Todavia, o contexto de delirantes e espaventados que o cerca diminui a credibilidade do ex-reitor da UFPR.

 Poemática

Ao inventor do quadrado de quatro pontas

José Luiz Gaspar

Xamãs tupiniquins alvoroçados

‑ cada qual com seu fado ‑

vão denotando como que se faz

‑ um pouco na frente, outro atrás ‑

espetar pelo ramos as rosas

‑ galhofando-as nas glosas ‑

de raspar seu lápis na lousa

‑ para extrair enfim outra coisa.

Apenas um som não faz sentido

seu sentido é que procura o som.

como criança brinca de bandido

enquanto o ególatra tasca seu tom.

Todas palavras gozam à ideofrenia

arritimando-se pelos batecuns,

sempre desiguais como um +um.

O coração despulsa nessa sangria

ensandecido numa feroz dislalia

em que coaxaria refaz sua cultura.

Aí, a bilurribina exsuda acumputura;

a pele triscada, um calor à mente

e no verbo um som intermitente:

Batecum! Batecum, mais um.

PARA A GAUCHADA NA SEMANA FARROUPILHA – HOMENAGEM 1 – TRECHO DO ROMANCE “ENCAIXOTANDO BRASÍLIA” – por abelardo barbosa brandão / brasilia.df

…Boato do dia: “Pimenta fugiu”. “Vamos ver, se ele conseguir, quem sabe, nós fazemos o mesmo”, disse o Gaúcho esfregando as mãos. Pelo que vi no mapa, vai virar almoço de onça, isto se não morrer afogado, pegar malária ou outra doença pior, comentei pessimista como sempre. De boatos em boatos íamos levando a vida. Continuamos com nosso joguinho de vôlei de manhã, à tarde consertávamos as casas, o muro e limpávamos o Igarapé da Bosta. O Gaúcho, como “comandante dos presos”, dirigia as operações. Quando chegava no dístico “Aqui Defendemos a Fronteira do Brasil”, eu costumava fazer uma piadinha, quase sempre sobre a capacidade daquela meia dúzia de soldados que tomavam conta da prisão, serem capazes de defender alguma fronteira. O Gaúcho retrucava professoral: “É simbólico, igual quando a gente faz uma cerca na fazenda, avisando ao vizinho: daqui para dentro a terra é minha”. É preciso ver se o vizinho vai respeitar, pensei na Segunda Guerra, todos fizeram suas cerquinhas, os alemães vieram com tanques e aviões e passaram por cima de tudo. “Vizinhos sempre se respeitam”, disse o Gaúcho, pensando em fazendeiros.

Estava arrumando um telhado, do alto da escada avistei um grupo de índios trazendo um homem numa rede. Era o Pimenta. O indivíduo ficou magro, magérrimo, em menos de um mês a Terçã deixou-o irreconhecível, do rosto redondo sobrou uma cara esquelética assustadora, amarela. Tudo nele ficou amarelo, a pele, os lábios, o branco dos olhos, as unhas, tudo. Quando o vi de perto pensei que já estava morto, mas os índios faziam sinais dizendo que não. Os Juminás viviam numa aldeia ali perto e encontraram o Pimenta a uns oitenta quilômetros ao Norte, próximo de um lugar chamado Ponta dos Índios, perto do Cabo Orange. Ia na direção do mar, devia ter um plano, não sei se contaria, era calado, quieto. No momento não conseguia falar nada, mesmo que quisesse. O comandante mandou os cozinheiros arranjarem comida, montaram um prataço de quatro andares: o primeiro andar só com feijão enlatado, o segundo, inhame com linguiça de lata, o terceiro de farinha derramando pelas bordas, e lá no alto, como se fosse o atrativo principal, uma banana cozida, gentileza do cozinheiro. Imaginei que aquela comidaria ia acabar de matá-lo, mas não, quando viu a comida ficou mais animado, mas não conseguiu engolir três colheradas, só comeu a banana. “Dê-lhe água, muita água, está desidratado”, recomendou o enfermeiro, ao mesmo tempo enfiou-lhe dois comprimidos de Aralen na boca. Deixamos que tentasse comer em paz, depois iríamos ver se dizia algo de útil para uma fuga mais concatenada. O Periquito, como o Gaúcho chamava o comandante, botou-lhe uma semana atrás das grades e mandou aumentar a comida e o Aralen. Quando saiu, pouco falava, mesmo diante da insistência do Gaúcho. “Por que foste na direção Norte, rapaz?” Insistiu o Gaúcho. “Não sei, Queria chegar no mar, no Atlântico. É muito longe, só andava de dia, orientado pelo sol, não levei bússola. Ainda bem que os índios apareceram, senão morria de fome e da malária.”
O Gaúcho tentava conversar com os índios, saber mais sobre a região, difícil, não falava a língua deles e depois havia um problema sério, falavam sem parar, todos de uma vez, acho que gostavam do som de suas próprias vozes. Não eram como nós, que esperamos o outro acabar e respondemos. Não, eles falavam, falavam e falavam, às vezes todos juntos uma confusão danada. A chamada da manhã era a melhor parte do dia, repetindo o próprio nome, como se estivesse reconhecendo a veracidade da situação. “É. Sou eu mesmo e estou aqui, vivo”. Em três meses, tínhamos pintado as casas e consertado as instalações de água e luz. Começamos a construir uma fossa enorme, na tentativa de salvar o Igarapé da Bosta que agora era chamado Igarapé do Lacerda, homenagem ao governador do Rio. O comandante mandou, e a maioria de nós tratamos de cumprir, não tinha queixa dele, diferente do Gaúcho, que o considerava, no mínimo um reacionário e de vez em quando comentava entre brincalhão e irônico: “Bem que podíamos tomar este quartel vagabundo, botamos o Papagaio na gaiola e nos declaramos rebelados”. Não é Papagaio, é Periquito. E fazer o quê depois, embrenhar-se na mata por mais de quatrocentos quilômetros e pedir asilo ao Governo da Guiana? Do jeito que são as coisas por lá, mandariam nos fuzilar na hora, só para ficar com as armas e as botas. “Papagaio ou Periquito, que diferença faz”. Pra você nenhuma, só entende de cavalos. “Companheiro, podemos tentar sair por mar, teve um francês que fugiu de uma prisão na Guiana e ninguém sabe como, chegou na França, o nome me escapa agora, mas é chamado de borboleta em francês, li algo sobre ele, pena não ter trazido o livro, ia facilitar”. Você deve ter lido algum romance francês, isso sim, vai ver o cara saiu borboleteando mar adentro até chegar em Paris, depois deu uma volta em torno da Torre Eiffel, tipo Santos Dumont. “Tchê, tu és muito jovem, não sabe nada, é inculto como uma boceta, age por impulso. Já percebi que estás querendo dizer que nosso pai da aviação era viado. Quando sairmos daqui vou te levar na Livraria Civilização Brasileira do meu amigo Ênio da Silveira, o livro está na prateleira, aí tu vais ver”.
Com o tempo fiquei amigo do Gaúcho, sentávamos juntos no almoço, jantar e café da manhã e passei até a responder seu “buenos dias garoto” com outro “buenos dias, tchê”. Até hoje, passados mais de quarenta anos, ainda respondo cumprimentos matutinos com um “buenos dias” para espantar o mau humor, e não há como deixar de lembrar do Gaúcho. Dizia ter quarenta anos (quase o dobro da minha idade), baixinho, pernas curtas, cabelo avermelhado cortado rente, voz ranheta e a calça sempre abaixo da linha da cintura, querendo cair, mas suspensa de vez em quando em um movimento automático. Do que sente mais falta? “Primeiro, da mulher e da filharada, segundo, do frio que permitia lagartear de manhã, em terceiro lugar, do chimarrão. Do meu cavalo não vou sentir tanta falta, por aqui tem uns pangarés, mas vi também um Frontino e um Gateado muito bonito. Bem que tentava substituir sua bebida predileta, produzindo um chá forte de mate queimado, que conseguia às escondidas com o cozinheiro. O frio podia esquecer, estávamos em cima da linha do Equador, o calor era alarmante, só diminuía quando desabava o temporal. Nem sei como fiquei amigo do Gaúcho, éramos tão diferentes, além de que eu detestava o frio, gostava de café e não era chegado a cavalos, preferia gatos com sua costumeira independência. Ele poderia passar horas, como às vezes passava, falando de cavalos. “Você sabe tchê, que existem mais de cinqüenta cores de cavalos? Alazão, Argel, Arminado, Estrelado, Prateado, Quatralvo…
Ele tinha uma expressão favorita: “a concha é uma adaptação ao animal que vive nela”. Eu insistia que era o inverso e argumentava que a selva não era um mundo adaptado aos índios, eles é que se adaptaram a selva. Ele contra argumentava explicando que na selva viviam milhares de animais e “eles é que fizeram da selva, a selva. Sem pessoas ou animais não há selva. Assim como sem o ser humano não há terra”. Íamos nos infiltrando por discussões intermináveis, resultante da falta do que fazer. Algumas sobre prisão, é claro. Eu insistia que todos ali, incluído o comandante, estavam tão presos quanto nós, com a diferença que podiam comunicar-se com as famílias ou até trazê-las. Retrucava didaticamente, para que eu pudesse entender, que a liberdade não era um substantivo concreto, mas abstrato, que nossos guardas tinham a perspectiva e a sensação que estavam livres, nós não, isto é que fazia a diferença. Na dúvida, consultávamos os livros dele: Kant, Hegel e até Aristóteles, que nunca consegui compreender. “Marx não tem, os militares confiscaram”. Ainda bem, só serve para iludir os meninos. O Gaúcho discordava irritado e bramia todas aquelas frases prontas do Manifesto Comunista, do tipo “vós não tendes nada a perder além de teus grilhões”, referindo-se aos pobres. Eu sabia, por experiência própria, que era o contrário: os pobres têm tão pouco, que quando perdem, perdem tudo, acho que por isso, as revoluções sempre veem de cima, dos que tem a perder. Argumentar contra Marx era bobagem. Para o Gaúcho, ele se assemelhava a Deus, estava muito acima de qualquer mortal, e não sei como depois de passar por tantas revistas, conseguiu chegar ao Oiapoque com uma pequena foto de seu ídolo…. Era um sujeito culto e de posição ideológica inflexível, acreditava que a solução para o Brasil era uma revolução que implantasse aqui o Marxismo-Leninismo. Hoje isto pode parecer a muita gente uma heresia, mas aqueles eram tempos de mudanças, tudo parecia possível aos olhos de pessoas como o Gaúcho… “Conheces alguma coisa da história do Brasil, tchê?”
Bem, mais ou menos, Pedro Álvares Cabral, Tiradentes, Pedro I, Princesa Isabel, Floriano Peixoto. “Não! Estou falando da história recente, não dessas pessoas que a gente nem sabe direito se existiram mesmo, da história como um conjunto de fatos articulados com causas e efeitos”. Nunca pensei muito nisso, só sei que somos um país explorado, primeiro por Portugal, depois pelos ingleses e agora, os americanos. “É, mas não se esqueça que começamos nossa caminhada como um país que produzia o que se toma depois da sobremesa, uma semente que era posta ao sol para secar, depois torrada, depois esmigalhada, depois virava pó e levada a água fervente resultava num líquido feio e amargo que só descia garganta abaixo se botássemos açúcar. Então trocávamos essa semente seca e queimada por outros produtos, e assim íamos avançando, mas como queríamos tomar café, começamos a produzir o açúcar, como era muito amargo mesmo assim, começamos a produzir leite. A partir desse produtozinho vagabundo conseguimos criar uma nação. Para que isso fosse possível, tivemos uma política construída por algumas pessoas de visão. Anote aí na tua cabeça oca, o nome dessa política é o nacional-desenvolvimentismo”.
Tá, mas e os ciclos do açúcar, do ouro?
“Não interessa agora, já passou, já era, agora o que interessa é como sair do líquido preto e feio e produzir outras coisas, além de dar empregos, saúde e educação para o povo. O nacional-desenvolvimentismo vinha tentando manter alguma independência e promover o desenvolvimento com a grana do próprio governo, ou seja, dos impostos que arrancam de todos nós. Só que essa política está esgotada, entende tchê, esgotada. Temos que partir para uma atitude mais ousada, nos libertarmos por completo dos gringos, adotar outro regime político, fazer uma ruptura com o passado anacrônico, modernizar o Brasil”.

A RECUPERAÇÃO MORAL – por mauro santayana / brasilia.df

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse em São Paulo, em um  encontro com artistas e intelectuais, que esse é o momento de “recuperação moral” da política brasileira. Ele pode ter razão, e a terá ainda mais se, depois do escrutínio judicial da Ação 470, o exame de outras ações pendentes no STF e nos tribunais dos Estados, abrir o véu que cobre o período de 1995 a 2003. Seria importante saber como se deu a privatização da Companhia Vale do Rio Doce, uma empresa construída por mineiros. E seria também importante verificar, em sua intimidade, o processo de privatização da Telebrás e suas subsidiárias.

Estamos submetidos a um péssimo serviço, quase todo ele explorado por empresas estrangeiras. Segundo o PROCON, as reclamações contra os serviços telefônicos celulares batem o recorde naquele órgão. Enquanto isso, algumas empresas, como a Telefônica, continuam se valendo do nosso dinheiro, via BNDES, para financiar sua expansão no país, enquanto os lucros são enviados a Madri, e usados para a compra de empresas no resto do mundo.

Será, da mesma forma, necessária à recuperação moral da política brasileira saber quais foram as razões daquela medida, e como se desenvolveu o processo do Proer e da transferência de ativos nacionais  aos bancos estrangeiros, alguns deles envolvidos em negócios repulsivos, como a lavagem de dinheiro do narcotráfico.

Quem fala em recuperação moral estuprou a Constituição da República com a emenda da reeleição, recomendada pelo Consenso de Washington, uma vez que aos donos do mundo interessava a continuidade governamental nos países periféricos, necessária à queda das barreiras nacionais e à brutal globalização da economia, com os efeitos nefastos para os nossos países. Seria, assim, também importante, no processo histórico da “recuperação moral”, saber se houve ou não houve compra de votos para a aprovação do segundo mandato de Fernando Henrique, como se denunciou na época, e com algumas confissões conhecidas.

Tivemos oito anos sem  crescimento do ensino universitário público no Brasil, enquanto se multiplicaram os centros privados de ensino superior, que formam, todos os anos, bacharéis analfabetos, médicos açougueiros, sociólogos inúteis.

Para essa “recuperação moral” conviria ao ex-presidente explicar por que, no apagar das luzes de seu governo, recebeu, para um jantar a dois, o banqueiro Daniel Dantas, acusado de desviar dinheiro de seu fundo de investimentos para os paraísos fiscais, violando a legislação brasileira. Seria também importante reexaminar a súbita prosperidade dos jovens gênios que serviram à famosa “equipe econômica” em seus dois mandatos.

Se a “recuperação moral” for mesmo para valer, o ex-presidente não tem como eludir às suas responsabilidades. Para começar, se alguém se habilitar a investigar – e julgar ! – basta o seu diálogo gravado com o pessoal do BNDES no caso da privatização das telefônicas.

INEDITORIAL – por paulo timm / portugal.pt

 

 

Gaúcho que é gaúcho é assim:  maula, mas sensível à poesia, hiperbólico mas llano,  como o pampa que lhe faz morada. Mesmo que pareça para muitos,  ”Para Nada”, como vaticinou Ascenso Ferreira em seus versos satíricos. O gaúcho é grande:

 

“Eu sou maior do que História Grega, Eu sou gaúcho e me basta…”

 

Por via das dúvidas, estamos no dia 20 de setembro, data máxima do civismo rio-grandense. Haverá, além do Acampamento Farroupilha, no Parque da Harmonia, em Porto Alegre,  muita cavalgada pelo interior, muita discurseira, tanto de palanque , quanto de beira de chão, e fortes doses de folclore. Alguns, como o cientísta politico Dilan Camargo, ridicularização mais um vez os feitos de 35;  Juremir Machado reiterará seu ceticismo diante de qualquer Revolução, Farrapa ou não;  um ou outro historiador lembrará Bento Gonçalves. Mas, curiosamente, há pouco debate sério sobre o 20 de setembro.

 

Ah que falta faz o Décio Freitas! Ele alíás, sentenciou : “A historiografia dos Farrapos não é crítica. Há uma massa enorme de documentos que nunca foi utilizada pelos historiadores. Por quê? Porque os historiadores têm medo de mexer em verdades estabelecidas” – DÉCIO FREITAS, NA APLAUSO 46 (2003) . Nos falta também o Joaquim Felizardo, tanto ou mais iridescente do que o Décio, mas também fumante inveterado e senhor de papos homéricos. Resta-nos, pois, na data, o regozijo com o folclore, farto por todo o Rio Grande e até na China, com a proliferação de CTGs, ficando a lacuna da reflexão.

 

Por certo, náo é este o lugar para teses aprofundadas. Mas pior é a omissão.

 

Comecemos por separar o que é tradição – e aí se enquadra o movimento propriamente chamado de “Tradicionalista”, cuja maior expressão sáo exatamente os CTGs, do que é cultura riograndense, aí situando a questão do separatismo .

 

Há uma confusão muito grande entre o FOLCLORE gaucho, que acabou se concentrando na valorização da Revolução Farroupilha e a questão do sentimento separatista do gaucho.

O folclore é e sempre será RETROSPECTIVO  e nisso ele cumpre – e cumpriu-  importantes papeis. Não fora ele, nós seríamos identificados, no sul, como fazem os australianos, pelo canguru, ou canadenses, por uma árvore. Os paranaenses, aqui ao lado padecem do mesmo estigma. São simbolizados por um pinheiro… O folclore, principalmente depois dos grandes esforços de Paixão Cortes , deu-nos uma expressão antropológica. Forçou a barra. Mas reconstruiu um modelo típico ideal do gaúcho – não o inventou – e o propôs como paradigma no meio de um processo da formação multicultural, que a geografia e a economia só  acentuaram entre 1824 e meados do século XX.  . Funcionou! Aí está. Não foi imposto por nenhum Partido Político ou Igreja sectária. Rebrotou naturalmente do ventre do pampa para a sociedade gaúcha como um Manifesto. E se instalou definitivamente como um dado da cultura.

 

Eu tive minha infância em Santa Maria entre 1945 e 1955, vindo depois para Porto Alegre, filho de um militar de origem alemã e uma prendada professora. Todos de cultura eminente urbana. Nunca montei num cavalo- as tentativas de meu avô, fazendeiro em Tupanciretá, foram desastrosas…- nem me adentrei nas profundezas do sertão pampeano. Sou, rigorosamente, um europeu: branco, supereducado, louco por livros e cinema, socialista. Nem sequer chimarrão se via nas nossas tertúlias portoalegrinas nos anos 60. Às vezes pintava um João, asmático e gauchesco,  de cuia na mão nas rodas da Livraria do Arnaldo,  na Praça da Alfândega. Mas era raro. Mesmo os que chegavam do interior e ganhavam alguma projeção, como um dos melhores tribunos daquela época, vindo de Quaraí, onde fez política, logo se socializavam na cultura eminente urbana de Porto Alegre. E víamos, sempre, a movimentação tradicionalista, cujo epicentro era exatamente no “Julinho”, onde eu estudei e de onde provinha grande parte da elite da época, com distanciamente e até preconceito. – “Era a indiada”, como se dizia. Hoje, malgrado a globalização, o gauchismo foi entronizado pelas elites como um dado da cultura riograndense. E basta ir à Redenção para ver a infinidade de gente de cuia na mão. Até bombacha…Vitória do “tradicionalismo”…

 

Mas é claro que o tradicionalismo, para se firmar, apoiou-se mais no feito da Revolução Farroupilha, que pouco conhece em profundidade, sendo até suspeito para fazê-lo porque o toma como ato de fé ,  do que no próprio folclore. Acabou nesta sobrevalorização do 20 de Setembro, quando, se tivesse sido mais cuidadoso com a História,  teria valorizado mais o 11 de setembro, data da fundação da República Riograndense. A tarefa, porém, de pesquisa cuidadosa no terreno sobre música, danças, indumentária e estilos de vida antigas , são dignas de um prêmio de Antropologia. Eles não revelaram apenas formas de uma outra era, mas a própria alma de um povo rústico em sua formação.

 

Outra confusão do tradicionalismo foi misturar folclore com ideologia. Antes de 64 o Movimento era francamente “trabalhista”e deixou não raros registros desse alinhamento em suas canções. Depois… Melhor nem falar…

 

Mas voltemos ao  separatismo, muitas vezes suscitado no 20 de Setembro.

 

Se ele ocorreu no passado, ou não, cabe aos historiadores comprová-lo. O que é certo é que , quando a Independencia foi feita, em 1822, o Rio Grande era uma vastidão incerta, com uma população muito pequena e, certamente, poucas convicções nativistas. O resto do Brasil, nesta época, com mais de três séculos de vida, já tinha desenvolvido seus próprios interesses, contrários ao domínio colonial, do qual padeciam severas discriminações. O Rio Grande, porém, ocupado por militares portugueses retirados do serviço militar, com epicentro (deslocado) ainda na cidade de Rio Grande, estava longe de participar ativamente, como Minas, Rio de Janeiro e o Nordeste todo, do estado de espírito que levou à Independência. Desconheço como se deu, ela, aqui no Rio Grande, e estranho que, tal como houve  em outros pontos do país, a guarnição lusitana não tenha tomado os brios de quem lhe pagava os soldos…: a Coroa Portuguesa.

 

De qualquer forma, o SEPARATISMO no Rio Grande, se tem um olho no passado, o outro será sempre  PROSPECTIVO, embora , inevitavelmente recorra ao FOLCLORE como justificação e propaganda. . Assim fazem aqui na Europa catalães, bascos , escoceses e todos os demais povos que se separaram , não sem dores, da antiga YUGOSLAVIA.  E também os que se separaram da Uniáo Soviética. Um olho no padre, outro na missa. Porque o projeto POLITICO de emancipação é eminentemente  IDEOLÓGICO, e deve nutrir –se de sólidas  razões para a construção de um futuro independente  melhor.

 

Discutir o separatismo não é também mover uma guerra pela independência do Rio Grande do Sul, tout court. Trata-se, na verdade, de se discutir o federalismo no Brasil. E se ele , tal como está implantado, é bom ou mau para os gaúchos. Nessa discussão, temos que entrar com argumentos e determinação. Não será um convite para um jantar, nem um piquenique, ao qual levamos sanduíches. Trata-se de levantar argumentos e entrar de sola para rediscutir várias questões do federalismo no Brasil: a representação parlamentar no Congresso Nacional, o sistema tributário, o regime de subsídios ao capital e ao trabalho, segundo as regiões do país, os critérios de redistribuição do produto da arrecadação da União no Estado, os meios de comunicação e a industrial cultural, a importância dos resultados na educação , o balanço de produtos estratégicos , como petróleo e outros do subsolo, etc. Daí poderá até haver uma nova concertação federal. Mas se não houver conserto (…) a atual deve ser veemente combatida, nem que seja através de uma luta pela autonomia riograndense. Vivo , aliás, em Portugal, um país “pequeno, mas muito grande”, como lembra José Saramago , em “Viagem a Portugal” e com uma qualidade de vida exemplar, apesar da Crise.  Pois bem, o Rio Grande é até maior do que Portugal, em população, em diversidade geográfica, em PIB industrial , em tecnologia e até em exportações. Só não é  maior em glórias, apesar do Movimento Tradicionalista…

A data do 20 de setembro, portanto, deve nos resgatar parte destas glórias do passado, mas deve, sobretudo, lançar-nos com o olhar para o futuro de forma a nos perguntarmos: O que queremos do Rio Grande. Um Novo Nordeste, como profetizou em série de reportagens memoráveis Franklinde Oliveira, nos anos 1960, mercê da perda de substância no processo econômico em curso no país? Ou ficar a Pátria Livre, e morrer … pelo Rio Grande, senão independente, autônomo.

Por que a reeleição de FHC nunca chegou ao STF? – por laurez cerqueira / são paulo.sp

A campanha à reeleição de Fernando Henrique Cardoso é considerada por especialistas a mais cara da história do país e nasceu contaminada. Segundo denúncia publicada na época pela Folha de S. Paulo, a aprovação da emenda que possibilitou a reeleição contou com a compra do voto de vários parlamentares na Câmara dos Deputados, por R$ 200 mil cada um.

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Quem não sabe como são feitas as salsichas, as leis e as eleições? A novidade é que parte do Ministério Público e parte do Supremo Tribunal Federal resolveram julgar o “caixa dois”, feito para as eleições municipais de 2004, curvando-se à versão sobre o “mensalão” criada por Roberto Jefferson, pela oposição e por parte da imprensa que sempre tratou o PT como um intruso na política brasileira. Um precedente perigoso que coloca o STF acima dos demais poderes da República. O alvo é o PT. Destruir o PT.

Afinal, a elite não acreditava que os de baixo fossem capazes de se organizar num partido politico de massa para fazer a luta social e eleitoral no país das desigualdades. Naquela eleição, em 2004, apesar de tudo, a esquerda cresceu eleitoralmente e em seguida reelegeu Lula.

Agora, como num delírio narcísico diante do espelho (câmeras de tv, internet) ministros do STF, enrolados nas suas capas pretas, parecem fazer o jogo de setores da imprensa, que querem fazer valer a todo custo a versão do “Mensalão” e patrocinam um triste espetáculo. A hipocrisia, o cinismo, aparecem reluzentes nas faces de alguns inquisidores como se o financiamento de campanhas eleitorais por meio de “caixa dois” fosse uma invenção do PT. As câmeras têm revelado com riqueza de detalhes aspectos sombrios do caráter de personagens centrais do julgamento no STF.

As investigações foram cirúrgicas e não foram além da superfície do sereno mar que encobre o financiamento das campanhas eleitorais de todos os partidos políticos.
 Não há nenhum questionamento sobre os demais partidos, como se os de oposição (PSDB, DEM, PPS) tivessem financiado as eleições de 2004 na mais perfeita ordem.

Especialistas da Universidade de São Paulo (USP) calcularam que nas eleições municipais de 2004 cerca de 400 mil políticos empregaram algo em torno de 12 milhões a 16 milhões de trabalhadores, para disputar 55 mil vagas de vereador e 5.600 cargos de prefeito no país.

A infra-estrutura das campanhas eleitorais municipais de 2004 – propaganda dos candidatos veiculada pelos mais variados meios de comunicação – comícios, shows, alugueis, equipamentos de comitês eleitorais, assessores, enfim, custou cerca de 5 bilhões de reais. O total gasto atingiu a cifra de 41 reais por eleitor. 
Especialistas estimam que, por baixo, mais da metade do dinheiro envolvido em campanhas não aparece nas prestações de contas.

Cerca de 70% a 80% das despesas dos candidatos não foram registradas como manda a lei. O que daria em média geral 1 real para o caixa oficial e 3 reais para o caixa dois. Quem adota o caixa dois costuma dizer que as contribuições sem registro são feitas a pedido dos contribuintes que não querem se expor como se o problema fosse a Lei Eleitoral.

O professor David Samuels, da Universidade de Minnesota, pesquisador do processo eleitoral no Brasil, analisou o perfil de doadores oficiais a partir dos registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e chegou a conclusão que as candidaturas a presidência da República são financiadas com maior volume de recursos do setor financeiro e da indústria pesada, como a de aço e a petroquímica. Isso porque a Presidência da República é quem responde pela macroeconomia (juros, tarifas, câmbio e política de exportação). Além disso, lida com marco regulatório e concessão de subsídios. Os setores financiadores das campanhas à presidência da República costumam ser os mesmos das candidaturas ao Senado Federal e à Câmara dos Deputados porque os assuntos tratados no Senado e na Câmara são também do âmbito da União; já as candidaturas a governador recebem mais recursos de empreiteiras, isso porque as grandes obras estão mais concentradas nos Estados; os candidatos a prefeito e vereador recebem mais recursos das empresas de transporte e de coleta de lixo.

A campanha à reeleição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é considerada por especialistas a mais cara da história do país e nasceu contaminada. Segundo denúncia publicada na época pelo jornal Folha de São Paulo, assinada pelo repórter Fernando Rodrigues, a aprovação da emenda que possibilitou a reeleição contou com a compra do voto de vários parlamentares na Câmara dos Deputados, por R$ 200 mil cada um.

Naquele momento, Sérgio Motta, ministro das Comunicações havia declarado que o projeto dos tucanos era permanecer no poder por no mínimo 20 anos. Disse isso depois das privatizações dentre outras áreas, a de telecomunicações.

No início da campanha presidencial de 1998, o comitê eleitoral responsável pelas articulações da reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso elaborou um orçamento minucioso de gastos e concluiu que, para cobrir todas as despesas do pleito, seria necessário R$ 73 milhões. Esse orçamento prévio foi comunicado ao Tribunal Superior Eleitoral.

Passadas as eleições o comitê fez as contas e encaminhou a declaração oficial de doações ao TSE, informando que o total arrecadado e gasto na campanha foi de R$ 43,022 milhões. 
A revista Época, de 30 de novembro de 1998, informou que a equipe que cuidou das finanças, coordenada pelo ex-ministro Bresser Pereira, dias depois do envio da lista ao Tribunal, refez as contas e concluiu que os gastos foram R$ 45,931 milhões, uma quantia muito superior ao total declarado ao TSE.

Esse desencontro de valores, entre o que se arrecadou, o que se gastou e o que se declarou ao TSE jamais foi explicado pelos coordenadores. Paira sobre esse assunto uma nuvem de mistério. Curioso é que na campanha de 1998 o candidato Fernando Henrique Cardoso viajou menos, fez menos comícios do que em 1994, mas gastou R$ 10 milhões a mais. 
Bresser Pereira conta que, diante do volume das dívidas deixadas pelo comitê, ele foi obrigado a reunir a equipe financeira e colocá-la de novo em campo para arrecadar mais dinheiro dos empresários para cobrir o rombo.

A revista Época informou ainda que as solicitações foram deliberadamente concentradas nos grupos empresariais que compraram as estatais. Na segunda quinzena de outubro daquele ano (período proibido pela lei) foram arrecadados R$ 8,2 milhões. Essa decisão foi absolutamente ilegal e contrariou a legislação eleitoral, mas mesmo assim a arrecadação de recurso foi feita.

Dentre as empresas que doaram recursos após o pleito, constam a Vale do Rio Doce, Companhia Petroquímica do Sul (Copesul) e Telebras. As subsidiárias da Vale do Rio Doce doaram R$ 1,5 milhão. Os donos da Copesul, R$ 1 milhão e os grupos La Fonte/Jereissati/Andrade Gutierrez e Inepar, que haviam comprado as empresas do sistema Telebras, doaram R$ 2,5 milhões. No final da ofensiva dos coletores, os dirigentes do comitê disseram que ficou faltando R$ 2,9 milhões para liquidar as contas.

Na mesma matéria, a Época destacou o setor financeiro como o que mais contribuiu para a campanha à reeleição de Fernando Henrique Cardoso. Em 1994, os banqueiros deram R$ 7,1 milhões. De cada R$ 10,00 que entraram no caixa da campanha, R$ 4,30 originaram do setor financeiro. Em 1998, a aposta do setor no candidato à reeleição atingiu 43% (R$ 18,6 milhões) mais que o dobro da campanha anterior. Apenas cinco conglomerados financeiros contribuíram com quase R$ 10 milhões. Somados, responderam por 66,1% das doações feitas pelo setor financeiro e 28,6% do total de contribuições declaradas na campanha presidencial, informou a revista.

As controvérsias sobre o financiamento da milionária campanha à reeleição de Fernando Henrique Cardoso não pararam por aí. Para complicar ainda mais a vida do tucanato a Folha de São Paulo, de 12 de novembro de 2000, publicou uma vasta matéria com informações comprometedoras, obtidas de planilhas eletrônicas datadas de 30 de setembro de 1998, vazadas do comitê eleitoral do candidato tucano. Essas planilhas revelam a existência de uma contabilidade paralela de arrecadações e gastos da campanha. 
O jornal informou que pelo menos R$ 10,120 milhões deixaram de ser declarados ao TSE e que, de cada R$ 5,00 arrecadados R$ 1,00 era desviado para uma contabilidade particular desconhecida.

Além dos R$ 10,120 milhões não declarados oficialmente ao Tribunal, feitos os cálculos, tomando por base a planilha completa, ficou de fora R$ 4,726 milhões, doados por empresas que constam da lista do TSE, com valores menores do que os da planilha, que aparecem sob a rubrica de uma associação de classe de empreiteiros.
O dinheiro arrecadado pelo comitê financeiro, descrito em 34 registros na planilha principal obtida pelo jornal, totalizara R$ 53,120 milhões. Vale lembrar que na data constante da planilha, a qual os repórteres tiveram acesso, o comitê ainda não havia registrado todas as contribuições o que leva a crer que o volume de recursos não declarados devia ser muito maior, levando em consideração que o orçamento estimado inicialmente pelo comitê para os gastos, e comunicado ao TSE, era de R$ 73 milhões.

Nota-se que havia margem suficiente para declarar os recursos constantes na contabilidade paralela em questão e a equipe financeira não o fez. As razões não foram esclarecidas à imprensa, que insistentemente tentou sem sucesso obter explicações dos responsáveis pelas contas. Toda essa história acabou envolta num manto de mistério.

A imprensa, na época da divulgação das planilhas pelo jornal, andou escarafunchando a lista de contribuintes da campanha da reeleição e trouxe à baila informações preciosas. Os colaboradores ao ver seus nomes e os nomes de suas empresas publicados nos jornais não conseguiram esconder o constrangimento. Muitos deles acabaram dando informações contraditórias. A lista mais parecia um condomínio de interesses escusos. 
A maior doação constante na planilha publicada foi de R$ 3 milhões e não está registrada no TSE.

O jornal atribuiu à época essa contribuição ao então ministro da Secretaria de Comunicação da Presidência, Andrea Matarazzo. Ele negou dizendo que não participou do grupo de arrecadadores e que apenas realizou alguns jantares com empresários. Mas, membros da equipe financeira como Bresser Pereira e o publicitário Luiz Fernando Furquim afirmam que Andrea Matarazzo fazia parte sim do grupo de coletores. Um detalhe: na planilha não consta registro da procedência do dinheiro.

O publicitário Roberto Duailibi, dono da agência DPZ, em entrevista à Folha de São Paulo, disse no primeiro momento que havia contribuído com R$ 7.500 mil. Quando ficou sabendo que a sua doação não estava registrada no TSE ligou para o jornal e disse que a empresa dele não havia contribuído com a campanha. Porém, consta na planilha que a DPZ contribuiu com R$ 200 mil. Outro publicitário, Geraldo Alonso, da agência Publicis Norton disse ao jornal que contribuiu para a campanha com serviços de publicidade. O valor do trabalho prestado pela agência dele registrado na planilha foi de R$ 50 mil. Em seguida ele negou que havia prestado serviços.

A empresa Atlântica Empreendimentos Imobiliários, da banqueira Kátia Almeida Braga, (Grupo Icatu), uma das coletoras de recursos, disse que contribuiu com R$ 100 mil e que tinha recibo emitido pelo PSDB. Esse valor aparece na planilha e não foi registrado na contabilidade oficial. Numa investida no Rio de Janeiro, Kátia Almeida Braga procurou dezoito empresários. Uma das empresa da lista era a Sacre, de Salvatore Cacchiola, aquele banqueiro do caso Marka e FonteCindan, que fugiu para a Itália depois do escânddalo financeiro. Kátia Braga conseguiu que a empresa dele doasse R$ 50 mil para a campanha.

Outra empresa que chamou atenção na lista de contribuintes da campanha de Fernando Henrique Cardoso foi a Vasp, de Wagner Canhedo, um dos acusados de integrar o esquema PC no governo Collor e que responde até hoje vários processos na justiça. A empresa de Canhedo era devedora na época de mais de R$ 3 bilhões ao governo. Canhedo doou R$ 150 mil e não consta na declaração do TSE. No caso da Vasp a lei proíbe doações, mas a direção da empresa confirmou a doação à Folha de São Paulo.

Além desses casos existem muitas outras irregularidades reveladas pela imprensa, como por exemplo, doações feitas por universidades e escolas privadas. A legislação proíbe instituições de ensino de participar de financeiramento de campanhas eleitorais, mas o presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), Edson Franco, confirmou a jornalistas que diversas instituições foram procuradas pelo ex-ministro Bresser Pereira e que várias delas fizeram doações. Ele citou a Unip, de João Carlos Di Gênio e a Faculdade Anhembi-Morumbi. Todos esses casos nunca foram investigados, o Minitério Público e o STF não se interessam por esse assunto.

A diferença do caixa dois da reeleição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso do caixa dois das eleições municipais de 2004 é que o PT dançou, foi investigado e está sendo julgado, enquanto os tucanos e o PFL flanam na desgraça do PT. 
O deputado José Dirceu, em seu depoimento no Conselho de Ética, lembrou que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse certa vez que não admitiu a instalação de CPIs durante seu governo porque sabia que uma CPI o derrubaria.

Portanto, o financiamento de campanhas eleitorais por meio de caixa-dois é uma prática conhecida e só veio a público porque parte da cúpula do PT resolveu participar da festa e se deu mal. Agora o partido está sendo ridicularizado como se fosse um penetra.

Financiamento público já!

 

(*) Jornalista e escritor, autor, entre outros trabalhos de Florestan Fernandes – vida e obra, Florestan Fernandes – um mestre radical e O Outro Lado do Real, em parceria com o deputado Henrique Fontana.

SENTINELA DAS LIBERDADES – 20 de SETEMBRO

MORRE SANTIAGO CARRILLO, HERDEIRO DA PASSIONÁRIA., MENTOR DE MONCLOA – paulo timm / portugal.pt

Morreu dia 18 passado, sem que se saiba a hora, mas à sagrada séstia ibérica,   aos 94 anos, o líder comunista espanhol Santiago Carrillo, verdadeira legenda da esquerda européia.  Carrillo nasceu no início do “Século dos Direitos” , como Norberto Bobbio se refere ao Século XX, e o acompanhou enquanto teve lucidez.  Entrou jovem para o Partido Comunista Espanhol, fez a Guerra Civil (1936/39) , entrou para uma longa clandestinidade da qual emergiu na Europa nos anos 70 como um dos arautos do “Eurocomunismo”, protagonizou o Pacto de Moncloa, que redemocratizou a Espanha pós-Franco e comandou o comunismo espanhol nos anos seguintes, até 1982, sucedendo Dolores Ibarruri, La Passionaria. 

 Velho e enfermo, recolheu-se, logo depois,  até o anuncio de sua morte, sempre escrevendo artigos e proferindo palestras, com grande reconhecimento por todas as lideranças espanholas. Politicamente, pode-se dizer que transitou da ortodoxia leninista da vanguarda como instrumento do assalto ao poder para uma concepção do socialismo como resultado de um longo processo de rupturas pactuadas, para o qual o conceito de hegemonia se revela cada vez mais importante.
Duas passagens, contraditórias, mas intrinsecamente ligadas à sua militância e forte caráter, são hoje lembradas: sua suposta participação no assassinato de prisioneiros franquistas na Batalha de Madrid, em 1936,  e sua bravura, em 1981, quando um alucinado coronel fascista adentrou a Câmara dos Deputados em Espanha, tentando, de arma em punho,  impedir a redemocratização em curso.
Sobre este último fato,  um colunista do Diário de Notícias de Portugal, assim se refere, hoje:

“Ele há homens e ele há homens

por FERREIRA FERNANDES

É conhecido o verso do poema de Lorca dedicado ao toureiro Ignacio Sánchez Mejías: “Eran las cinco en punto de la tarde.” Menos conhecido, até porque não há, é o verso: “Eran las seis y veinte y dos en punto de la tarde.” Não há mas devia haver. Por essa exata hora do dia 23 de fevereiro de 1981, em Madrid, o Parlamento foi invadido por um bando e o chefe deste, um tenente-coronel bigodudo, subiu à tribuna e gritou: “Quieto todo el mundo!” Assistiu-se à humilhação: todos os deputados (quer dizer, toda a nação) encafuaram-se que nem coelhos sob as cadeiras e o tampo das mesas. Um militar na tribuna com uma pistola na mão – cujo disparo para o teto convenceu os hesitantes – dominava a casa dos representantes do povo. Mas quer a história que por vezes haja uns mais representantes do que outros. Três homens não obedeceram: um velho general, então ministro da Defesa, Gutiérrez Mellado, um homem de direita, o chefe do Governo demissionário, Adolfo Suárez, e um homem de esquerda, o comunista Santiago Carrillo. O general levantou-se para interpelar o bando e foi agredido, Suárez e Carrillo mantiveram-se sentados, soberbos. O general morreu em 1995, Suárez perdeu a lucidez e vive retirado eSantiago Carrillo morreu ontem. O último verso de Lorca diz: “Eran las cinco en sombra de la tarde.” No poema que não foi escrito, o das seis e vinte e dois de 23 de fevereiro de 1981, a palavra não seria sombra, mas luz. Graças a três homens”

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As “Matanzas de Paracuellos.” se constituíram num episódio insólito e ainda pouco elucidado sobre o assassinato de cerca de 2.500 prisioneiros políticos  , pelos Republicanos, no controle de Madrid, entre 7 de novembro e 4 de dezembro de 1936 . A responsabilidade destas matanzas ainda é um ponto obscuro entre historiadores.  Ian Gibson, irlandês, que escreveu sobre o insólito assunto, atribui clara responsabilidade ao Partido Comunista,  visto ser, à época a força hegemônica na  Madrid republicana , junto ao Conselho Geral de Segurança da  Consejería de Ordem Público , o qual, sob estrita vigilancia de um agente do COMINTERN, Mijail Koltsov , implantara um verdadeiro sistema de terror e morte na cidade. Não era frequente o recurso à liquidação de prisioneiros, mas quando Franco sitia Madrid e a submete a severo bombardeio, as pressões para o exterminio de prisioneiros ter-se-a se tornado irresistível.

A verdade é que , com erros e acertos, Santiago Carrillo foi um homem do seu tempo, imbuído dos ideais de heroísmo como resultado não só de palavras, mas de ações. Ainda assim, teve tempo para refletir – e conducir – , junto com outro ilustre español, Fernando Claudim,  sobre os caminhos do comunismo no final do século XX. Na minha juventude tinha estes dois nomes , reverenciados pelos cânones da rebeldía da época, como verdadeiros faróis de Alexandria. Sempre que  ia à Europa, no final dos anos 70, empenhado num Doutorado na Sorbonne para o qual o antigo SNI jamais me autorizou, como punição à uma ficha considerada “suja”,  fazia questão de parar em Madrid para adquirir seus libros, ainda desconhecidos no Brasil. Eles, Enrico Berlinger e, em menor escala Georges Marchais, líderes dos Partidos Comunistas de Espanha, Itália e França, sacudiram a ortodoxia marxista muito antes da queda do Império Soviético. Com isso, faziam coro aos líderes comunistas rebeldes da Primavera de Praga e da Polônia invadida,  abrindo novas fronteiras para a esquerda. A questão central: a democracia como valor universal e a questão da liberdade como seu maior ingrediente  .

Tais ideias podem soar “revisionistas” nestes días de crise sombria do capitalismo, quando se percebe um renascimento do Marx radical como profeta do Socialismo. É natural. Principalmente quando a abertura crítica  do marxismo coincidiu, nos anos 70/80, com o Consenso de Washington, vindo a dobrar   as melhores inteligências do mundo occidental aos imperativos do neoliberalismo desenfreado.  Nem mesmo o trabalhismo inglês, o socialismo europeu, o peronismo, e a ilustração brasileira escaparam. Chega a ser inacreditável que Sergio Paulo Rounet foi Ministro da Cultura do Governo Collor e que Francisco Weffort o tenha sucedido no Governo FHC, dois dos melhores intelectuais críticos  que já produzimos.  Tudo mostra do capitulacionismo ideológico do final do século, quando se confundiu o monolitismo da Pax Americana no processo de globalização com uma Nova Era de Paz e Prosperidade para o mundo inteiro.

Mas não se confunda a venda das coisas sagradas com os fundamentos da doutrina, como fez Lutero na Reforma Religiosa. Se há algo de podre no Reino de Dinamarca a salvação nunca estará num passo atrás, na Teologia de Revolução, mas um passo adiante, na Epifania da Liberdade.

O Maestro Waltel Branco receberá título de Doutor “Honoris Causa” na Universidade Federal do Paraná – 19 de setembro de 2012

Waltel Branco receberá o título de “doutor honoris causa” pela UFPR. Uma justa homenagem ao músico e compositor.

Waltel Branco: maestro, compositor, arranjador e professor – Foto: Rodrigo Juste Duarte

O renomado maestro Waltel Branco vai receber da UFPR o título de Doutor Honoris Causa em reconhecimento a sua vida dedicada ao estudo da música. O maestro, que está com 82 anos, começou seu aprendizado quando criança e desde então nunca parou. Receberá o título durante um dos eventos mensais que a universidade celebra em comemoração ao seu centenário, marcado para 19 de setembro.

Nascido em Paranaguá, Waltel Branco começou a estudar em Curitiba. Entre os muitos instrumentos que aprendeu a tocar, o violão sempre foi seu favorito. De Curitiba, viajou para diversos países como Estados Unidos, Cuba, Espanha, Itália, fosse pelo aprendizado, ou pela oportunidade de tocar e trabalhar com grandes nomes da música, como Nat King Cole, Dizzy Gillespie, Perez Prado, Mongo Santamaria, Quincy Jones e Henry Manciny (com este, trabalhou como arranjador da música tema do filme “A Pantera Cor de Rosa”). No Brasil, compôs e arranjou diversas trilhas sonoras para novelas entre as décadas de 60 a 90. Foi arranjador de álbuns de artistas dos mais diversos, como Elis Regina, Gal Costa, Tim Maia, Cazuza, Astor Piazzola, Tom Jobim, Roberto Carlos, Zé Ramalho, entre tantos outros.

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atualizado em 19/09/2012 às 22:06

Waltel Branco recebe homenagem da UFPR por vida dedicada à música

Músico e compositor paranaense é considerado um dos precursores do jazz-fusion nos Estados Unidos e da bossa nova no Brasil

19/09/2012 | 18:39 | GAZETA DO POVO 

O maestro paranaense Waltel Branco recebeu nesta quarta-feira (19) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) o título de Doutor Honoris Causa em reconhecimento à vida dedicada à música. Filho de um maestro, ele começou na área do pai ainda criança e nunca mais parou, tornando-se uma referência em todo o país e até no exterior. A premiação fez parte das comemorações do centenário da UFPR, que será comemorado em 19 de dezembro.

Walter Alves/ Gazeta do Povo

Walter Alves/ Gazeta do Povo / Maestro recebeu o título da UFPR em cerimônia nesta quarta-feiraAmpliar imagem

Maestro recebeu o título da UFPR em cerimônia nesta quarta-feira

Com 82 anos de idade, Waltel nasceu em Paranaguá, em 22 de novembro de 1929, Dia da Música. Atuou no Brasil, em Cuba, nos Estados Unidos, na Espanha e na Itália. Tem uma obra extensa, com mais de 20 discos autorais e participação em cerca de mil discos importantes da música brasileira como instrumentista, regente ou arranjador.

Nesta quarta, com um sorriso no rosto o tempo todo, mesmo com a saúde frágil e amparado por uma bengala, Waltel agradeceu o reconhecimento do povo do Paraná pelos seus acordes. O músico se disse satisfeitíssimo com o título da UFPR. “É ótimo receber um prêmio como esse em vida, já que é algo concedido geralmente depois da morte”, declarou, pedindo desculpas pela voz rouca. Por fim, dedicou o título à mulher e às duas filhas.

Entre os artistas com os quais Waltel estabeleceu parcerias estão Elizeth Cardoso, Altamiro Carrilho, João Bosco, Tim Maia e João Gilberto — todos os arranjos de Chega de Saudade são do maestro paranaense. É considerado um dos precursores do jazz-fusion nos Estados Unidos e da bossa nova no Brasil.

FACEBOOK – por arnaldo barbosa brandão / brasilia.df

FACEBOOK. O veículo desgovernado vai passando, entra o Leonardo com o adágio do dia (hoje ele abriu o baú e mostrou o peitão da Ella). Benício entrou pautando com um link, pra variar. Entrou o Ribondi com uma mulher nua do Ingres, acho que é a Dominique, atrás uma centena de seguidores, o ônibus passa debaixo dos Ipês (azuis, amarelos, brancos), todo mundo curte, e tome cervejas, depois o Bolivar

 com a política e a musica, ultimamente dá pra ouvir a risada dele. Nem parece o cara que citei na minha tese há 30 anos. O Cassio deve estar doente, não botou nada, logo entra no ônibus o pessoal do amor romântico: pelos cachorrinhos, gatinhos, leõezinhos. Finalmente a Silvia aparece, acompanhada pelo Flósculo, sai fora Silvia. O Walter reapareceu. A Silvia curtiu uma flor branca. Ah, o Luis Áquila, volto, Proust. A Gauchada chegou, entra o Vidal, e o Timm direto de Torres. Ishh, baixou o pessoal das músicas. Douglas entrou com suas orações, botou um Cristo do Mantegna, ainda bem. O Bruno e Prdl Saldanha a essa hora? Devem ter caído da cama. Tadeu aparece de boné correndo a maratona do Texas, e o Torelly, onde andará? O Evangelos ativa os neurônios dos arquitetos, aí entra minha filha e diz pra eu parar de falar palavrões. Agora tu vê. Dalvinha e Lee dos EUA e suas meninas lindas. João e sua paixão: MENGOOO. Giselle Moll hoje está curtindo adoidado, e a Patricia Melasso mostra mais uma vez o belo rosto com sardas, no espelho. Patricia Doyle compareceu discretamente com a trilha dos “intocáveis”, Toledo sai do Sarah-Rio e nos bombardeia com uns desenhos fantásticos e uma foto do sítio Alecrim(fui Papai Noel numa festa lá).Instituto Moreira Sales diz que falta sexo, aqui em casa acho que não. Giselle Mancini em inglês, nossa! Como diria o Ribondi. Paulo Cesar da UnB quer um dia mundial sem carro, faz isso não Paulo. Timothy reaparece. Carlos Fernando, que não vejo há um tempão, curtiu “La Règle de Jeu”, está passando em Paris, de graça. Aí entram uns garotos, já chegam kkkkkk. O pessoal do Rio deve estar na praia. Rochana Rams entrou com um ditado indiano. Estou sentindo falta da piada do Fabiano. Aí entra outra carrada de cervejas e logo a seguir o time da política, Rollemberg quer regular o uso da rocha moída. Imagine que até FHC me aparece recebendo alguém no seu Cafofo, será que é candidato? Eu entro com uma historinha do Marquês, ninguém curtiu, pesada demais. O veículo é desgovernado, mas nem tanto. E tome cerveja. Vou pro Badoo.

O que está por trás dos protestos no mundo islâmico?

Filme que satiriza o Islã e seu profeta Maomé parece ter sido somente estopim para manifestações
Agência Efe (17/09/12)


Manifestante atira bomba de gás lacrimogêneo de volta contra polícia no Paquistão

De turbantes e véus, milhares de muçulmanos e muçulmanas tomaram as ruas de suas cidades, queimaram bandeiras dos Estados Unidos e invadiram sedes diplomáticas norte-americanas. O motivo parecia comum: o filme A Inocência dos Muçulmanos, que satiriza o Islã e seu profeta, Maomé.

Foi assim, como fundamentalistas fanáticos e irracionais, que aqueles que protestaram contra o vídeo norte-americano, no qual Maomé aparece fazendo sexo oral e seus fieis são comparados a um burro, foram classificados. “A raiva muçulmana” diz a capa da revista semanal norte-americana NewsWeek, enquanto a CNN questiona se “a Primavera Árabe valeu a pena?”.

A grande mídia ocidental – e boa parte de seus articulistas – voltou a ecoar o raciocínio de “choque entre civilizações” como se a questão por trás dos protestos dos últimos dias pudesse ser explicada pela religião islâmica. O argumento central é que os muçulmanos não conseguem conviver com a liberdade de expressão norte-americana e respondem violentamente.

Agência Efe (17/09/12)

Manifestação contra o filme reuniu centenas de pessoas em Beirute, no Líbano, depois de convocação do Hezbollah

Longe de respostas simples e rápidas, essas manifestações, na verdade, oferecem muitas interrogações. Quem saiu às ruas para manifestar? Por que muitos protestos foram marcados em frente a sedes diplomáticas dos EUA? Quais as consequências destas manifestações? Quem será favorecido e quem pode perder com isso?

Os protestos estão envolvidos em uma miscelânea de atores, interesses e motivações, que incluem indivíduos, organizações políticas e Estados, e exigem um olhar crítico, distante de estereótipos ou preconceitos.

“A Inocência dos Muçulmanos” pode ter funcionado como uma faísca em um campo de trigo seco, onde grande parte da população está descontente com a política norte-americana para a região e organizações disputam o poder.

Anti-americanismo

Uma pesquisa do Instituto Zogby, de 2007, mostra que 88% dos moradores do Egito, Jordânia, Líbano, Marrocos, Arábia Saudita e Emirados Árabes se opõem às medidas dos EUA.

Entre os fatos apontados estão a invasão do Afeganistão, em 2001, e do Iraque, em 2003; as políticas em apoio a Israel; a instalação de bases militares em diversos países da Ásia, África e Oriente Médio; a ocorrência de abusos e tortura em Abu Graib, Guantánamo e nas prisões afegãs; e a presença de forças de segurança privada.

Agência Efe (14/09/12)Bandeira dos Estados Unidos foi queimada durante manifestação contra o filme no Paquistão

Além disso, soldados norte-americanos no Afeganistão queimaram centenas de cópias do Alcorão e não foram sequer penalizados; muitas vezes nos discursos de autoridades, o Islã foi mencionado como uma parte importante da guerra contra o terror; em Nova Iorque, a população proibiu a construção de um centro cultural muçulmano perto das torres gêmeas; civis muçulmanos não recebem visto de entrada para os EUA.

Estes fatos apenas alimentaram a percepção dos muçulmanos de que a sociedade, o governo e as forças armadas dos EUA desrespeitam sua religião e querem interferir em seus países. “Nós nunca insultamos nenhum profeta – nem Moisés nem Jesus – então por que não podemos pedir que Maomé seja respeitado?”, questiona o egípcio Ali ao jornal New York Times.

Quebra-cabeças

Outros analistas explicam também que organizações isoladas durante os processos de transformação da Primavera Árabe podem ter se aproveitado do vídeo para incitar a população a ir para as ruas e desestabilizar a situação política. Este é o caso, por exemplo, dos salafistas na Líbia, na Tunísia e no Egito que inflamaram os manifestantes.

Muitos também apontam que as manifestações podem atender aos interesses dos EUA. Sob o argumento de que estes países estão “instáveis”, o governo norte-americano consegue justificar – e possivelmente, aumentar – a sua presença na região.

Além disso, os protestos podem afetar a percepção da sociedade norte-americana e de outros países sobre a Primavera Árabe: será que o processo revolucionário, que tirou do poder ditadores laicos, deu espaço para islâmicos radicais?

Ainda é cedo para qualquer resposta, mas as peças deste quebra-cabeça já estão postas na mesa.

Os apuros de Kevin – por omar de le roca / são paulo/sp

 

O dia amanhecera daquele jeito que só quem mora em São Paulo sabe. Nem quente e nem frio. Se colocasse agasalho, Kevin sentiria calor. Se tirasse sentiria frio. Optou por sentir calor e abrandar o passo. Estava preocupado pois  hoje era sexta feira. Tinha visitas para fazer no Tatuapé. Mas não eram as visitas que o preocupavam. Havia combinado com Omar e Sergio aquela famosa cervejinha no final do dia. Pegou o metro no Jabaquara até o escritório. Tentou ler mas não conseguiu se concentrar no livro. Seus amigos o haviam intimado. Hoje era o dia dele contar uma estória . “ Tenho vontade de contar tudo,mas tudo é muita coisa.Mas se não contar tudo como poderão entender o contexto ? “ Ficava se questionando sobre qual a melhor abordagem,que palavras iria usar,até onde poderia ir sem perder a amizade que tanto prezava ? “ Bom , posso contar sobre a violência sexual sofrida quando criança.Mas será que não iriam ter suas próprias idéias e desvirtuar tudo ? Será que a própria menção da agressão sofrida não iria desencadear uma série de dúvidas  ou pena que não preciso? Não, isso é coisa de minha cabeça. Nos damos muito bem e com certeza não os iria perder.” Passou mais uma estação e o metro estava superlotado. Por sorte havia conseguido se sentar. Pegou novamente o livro mas O Silmarillion de Tolkien estava recheado  por demais com personagens que iam mudando de nome durante a estória e precisava de muita atenção para acompanhar. “ Não , isso não posso contar.” Lembrando-se de quando entrou na empresa há seis anos atrás e havia um rapaz que o interessara. Ele até evitava de falar com ele de medo que percebesse o seu interesse. Na primeira vez que conversaram, o coração dele começou a bater com força e ele teve dificuldade de conversar. O condutor do metro avisava para não segurar as portas. Abaixou a cabeça embaraçado ao lembrar daquele dia em que se encontraram por acaso na hora do almoço. Omar e Sergio tinham saído para ir ao banco e Kevin havia atrasado devido a um problema no seu computador. Ele tinha acabado de se sentar quando o rapaz o viu e veio com abandeja em sua direção. “ E ai cara ? Tudo bem. “ “ Tudo na paz.” Costumava responder Belê mas ficou com vergonha. O rapaz sentou-se em frente dele.Era uma mesa apenas para dois naquele restaurante por quilo ao qual iam de vez em quando. Hoje tinha salmão que por coincidência os dois gostavam. Kevin estava meio sem jeito e precisava se esforçar para sentir o sabor do peixe.O rapaz falou bastante sobre si próprio e sorria com freqüência. Em determinado ponto,o rapaz ainda rindo, tocou o braço de Kevin. O garfo caiu no prato, ele teve um pequeno tremor e tossiu para disfarçar. Sem querer que ninguém percebesse  a  pequena mancha que is se espalhando por sua calça. Por sorte estava de paletó e conseguiu ir ao banheiro sem chamar atenção.    ” Não cara, você esta louco ? Não poderá contar isso a ninguém . “ Então pensou em contar sobre a adolescência. Os anos de sofrimento, entre querer contato masculino e a vergonha de querer. O sexo sempre fora estigmatizado na família dele. Tudo relacionado a ele era doentio e sujo.Tudo era errado. E ele foi crescendo entre o freio e a espora. Ser veado, que era como se dizia na época, era a vergonha das vergonhas. Eram pessoas que ficavam sempre a margem. Lógico que havia os exageros, os exibicionismos. Moravam perto da Record e um ramo da família tinha contato com algum artista. Que se comprazia em dizer quem era e quem não era. E ele não sabia o que. Nada era conversado nada era esclarecido. Na família era assunto tabu e pelo que ele já vivenciara, sabia que nunca poderia abordar suas dúvidas. “ Pô cara, primeiro eles nem vão ouvir. E depois o que iriam falar ? e pensar ? “ Desceu em sua estação e seguiu para o escritório. “ Poderia falar de quando comecei a ter ereções nos lugares mais incômodos e ficava aterrorizado que alguém visse. E que recorri aos livros para aprender alguma coisa e abrandar meus conflitos.E quando aprendi com amigos de classe o que era masturbação e a experimentei, cheio de culpa no banheiro de casa.  Mas acho que não iriam se interessar. Ou quando descobri aquele livrinho que falava sobre a vida sexual da Belinha, escondido de meu pai. Ou quando, cedendo ao desejo, comecei a usar objetos. Puta merda cara ! Não tem mais nada que você possa pensar?” Depois de abrir seus e-mails, pegou os endereços que precisava e saiu para as visitas. O sol não havia saído,mas não estava frio. Pegou o metro, folheou a revista que pegara emprestada e falava sobre combinações de alimentos. Chegou ao Tatuapé e fez as visitas. Gostava de conversar com o gerente de uma das agências, que lhe lembrava daquele rapaz. Mas ele havia saído para tomar café e ele não conseguiu motivo para prolongar a conversa. Voltando a rua, passou por um sebo e procurou entre os livros em inglês. Acho um de Anais Nin e abrindo ao acaso achou a passagem que ela dava um tratamento manual ao outro personagem. Lembrou-se do trecho de  Quarenta tons de cinza . E saiu rápido da livraria com culpa de imaginar-se na posição dos personagens. Fez mais uma visita, e depois outra. Sem problemas. Seguiu para o shopping pensando que alguma coisa poderia acontecer no banheiro de lá. “ Acho que não interesso a mais ninguém.” Pensava quando cruzava com alguém e espichava o olho. “ Poderia falar do tormento de querer e não poder por vergonha ou por ser considerado errado. De sonhar acordado sem poder concretizar o sonho,por medo de ofender aos outros , com vergonha de não ser normal. Repetiu para si mesmo a mesma frase que dizia a uma amiga “ Não nascemos para ser normais.” E lembrou-se que ela questionara na época sobre o que é ser normal ? Pelo caminho ia pensando no almoço. Queira uma massa.A menos que tivesse Pizza Hut. Havia e ele pediu. Passou pelo banheiro para escovar os dentes mas estava vazio. “ Os bons peixes já foram fisgados”. Era um pensamento recorrente. Mas procurava manter o otimismo.Vou continuar tentando.Com certeza acharei alguém. “ Só gostaria de ter contato com alguém que fosse decente.Não precisava ser nenhum monumento.” Mas é claro que queria sim,um corpo bem desenhado. Mas alguém que não fosse vazio. E pensava nas inúmeras pessoas com quem havia cruzado durante a vida e que,apesar de terem uma aparência interessante, ao abrirem a boca, estavam automaticamente desclassificadas de seu interesse. Dependendo da época, até procurava puxar conversa com alguém sabendo que ira desencanar da pessoa na sequência. Voltou ao escritório. Havia alguns e-mails ainda por responder. Um relatório para atualizar. Algumas ligações. Quando olhou no relógio, já estava na hora de sair. As sextas saiam meia hora mais cedo. Omar lhe mostrou o pulso com o dedo, como se dissesse ‘ É hoje’. Sergio foi ao banheiro. Kevin respirou fundo, arrumou a papelada,desligou o computador. Com a mão mesmo ajeitou o cabelo. Assoou o nariz ali mesmo, com uma toalha de papel que havia trazido do banheiro do shopping, quando o faxineiro não estava olhando. Pegou sua valise, acenou para a loira da contabilidade, que lhe mandou um beijo. Sentou-se na poltrona giratória do hall dos elevadores para esperar seus amigos. Eles não demoraram. Mas demorou o elevador, que descia sempre cheio. Enfim acharam lugar. O sol estava se pondo. O céu estava imenso a seus olhos.Foram caminhando para o bar na prainha ( que de praia não tinha nada, era tipo um calçadão a que davam este nome para ficar mais atraente).Pediram uma mesa abrigada, que nunca se sabe quando pode chover. Sentaram-se e começaram a conversar.Então  Kevin, criando coragem, limpou a garganta e começou com Era uma vez…

Era um amanhecer daqueles, em que o céu acabara de se separar do mar e tingia-se das cores mais suaves de uma aquarela. Daquelas manhãs que o tempo parecia um tempo entre os tempos e que os sonhos  sonhavam com sonhadores de olhos abertos. Eu havia passado a noite observando as estrelas cadentes que sempre apareciam naquela praia deserta. Não havia a sensação nem de frio e nem de calor, a brisa soprava tranqüila e meus sentidos estavam aguçados. Pisquei os olhos para ter certeza do que estava vendo. Era um barco?      Sim , mas mal se destacava entre as ondas.Observando melhor ele se aproximava rápido como se deslizasse sobre elas firme e inabalável. Era de madrepérola e as velas, mostravam cores que eu não conhecia, mas sempre suaves. Pássaros marinhos faziam o cortejo, e os golfinhos saltavam ao redor. A praia era como uma meia lua de areia cercada por penhascos altos e o acesso era difícil. O barco agora diminuia a velocidade aos poucos e foi chegando na areia enquanto os pássaros se afastavam brincando com os golfinhos.Uma figura se destacava na proa. Ela tinha olhos verdes que brilhavam com as estrelas de Órion e cabelos pretos e curtos e vestia um longo vestido lilás que tremeluzia como se milhares de pequenos  pontos  acendessem e apagassem  captando os primeiros raios de sol.O barco parou e uma passarela foi descida, com cuidado para não ferir as estrelas do mar que levantavam suas cabeças em saudação ,para que ela chegasse na areia sem molhar os pezinhos. Começou a andar em direção a parede rochosa. A cada passo que ela dava, brotavam de suas pegadas  pocinhas de água  onde minúsculos peixinhos cor de cobre polido brincavam e pulavam de uma pegada a outra seguindo-a. Continuou na direção do penhasco. Quando estava a poucos passos, a rocha se transformou em uma parede de cristal liso e transparente e uma pequena porta abriu-se para o interior luminoso. Um pequenino pássaro cinzento sobrevoou e ela estendeu a mão para que ele pousasse nela. Atravessou o portal cristalino e saiu do outro lado que eu ainda desconhecia. O pássaro cinzento havia se transformado num beija flor branco com rabo longo que mostrava todas as cores do topázio. Havia mais um trecho de areia e logo mais a frente uma ponte de pedra, mais antiga que o tempo, levava ao outro lado também de areia. Quando  ela atravessou a ponte e pisou no chão, a areia ia se transformando num gramado verdejante com florzinhas azuis e as rochas no fundo em árvores muito verdes com frutos dourados e prateados. No meio da clareira mágica, ela fez um lento rodopio . Então, de seu vestido ( que era verde azulado ,ou azul esverdeado ou turquesa, ainda não sei ) voejaram milhares de borboletas lilases que pararam por um segundo ao redor dela, brilhando intensamente  e que seguiram como uma nuvem de lavanda para as árvores próximas . Ela fez  uma pequena mesura, e traçou  um sinal secreto no ar ao qual um pégaso fantástico, com asas de  penas muito brancas  atendeu, permitiu que ela subisse nele e partiram para onde o céu encontra o mar,onde o fogo encontra o ar e a água encontra a terra. E eu fiquei ali. Sem ter certeza do que se passara. Sem saber do tempo que era. Olhei para trás e só vi minhas pegadas que o vento forte ia apagando na areia.

Kevin ficou encabulado com os aplausos das mesas próximas.Não havia percebido que chamara tanto a atenção.Omar e Sergio levantaram-se para abraça-lo. Curvou-se meio de brincadeira para agradecer o carinha enquanto sua mão subia ao rosto para espantar uma lágrima.

 

 

O FURTO DO ALECRIM – por olsen jr / rio negrinho.sc

O FURTO DO ALECRIM

Olsen Jr.

   A garagem tinha sido adaptada para receber as celebrações de aniversário do primogênito da casa que estava comemorando 13 anos. Os balões coloridos (mobilizaram a família toda na tarefa de enchê-los) estavam onde deveriam estar. Uma plotagem meticulosamente realizada felicitava publicamente o dono da festa. Antes que me perguntem, sim tinha os indefectíveis “brigadeiros” e os indispensáveis “canudinhos recheados com maionese” o que, sem isso, nenhuma comemoração é digna de nota. Aos refrigerantes tradicionais somava-se a coqueluche do lugar, a famosa “Gengibirra” uma bebida cujo ingrediente principal é o gengibre e é muito apreciada.

O dono da festa está como gosta, ora compartilhando os seus jogos eletrônicos com alguns convidados, ora animando pequenos grupos de amigas onde pontifica como o centro das atenções.

Observo o vizinho da casa em frente que acaba de chegar. A residência possui um jardim bem organizado mesclando plantas ornamentais e também outras de utilidades domésticas. Tudo bem cuidado e deixando claro que o morador do lugar é alguém com mentalidade prática e bem determinado.

Depois de cumprimentar a todos enquanto experimenta um canudinho de maionese, fica prestando a atenção no que diz uma das convidadas da festa exibindo dois belos ramos de alecrim… “Olhem só que coisa mais linda, nunca vi um alecrim tão bonito, viçoso, com estas folhas verdes brilhantes… Já tentei de tudo lá em casa e não consigo fazer eles vingarem, deve haver algum segredo, afinal sei que se dão bem em solos mais secos e nem precisam de tantos cuidados”… “E onde você achou estes?” Indaga outra convidada interessada naquela planta… “Ali no jardim daquela casa em frente” – responde ingênua e prontamente…

Foi quando o dono do jardim onde a planta fora retirada resolveu intervir, depois de limpar a boca com um guardanapo, dar uma pigarreada chamando a atenção para si, timidamente, mas seguro do que estava fazendo, afirmar “então a senhora gostou do meu alecrim”… Um breve silêncio açambarcou o grupo de mulheres, e antes que alguém se manifestasse, continuou “o alecrim já era cultivado pelos romanos que o chamavam de rosmarinus, nome em latim e que significa “orvalho da noite” e além de servir de tempero também era usado para fins medicinais, religiosos e até em perfumaria… E não se confunda com o rosmaninho que é outra coisa de gênero bem diferente”…  Aquela breve intervenção deu tempo da mulher que segurava os ramos de alecrim cair em si, e levemente sem graça confessar “olha só e eu me exibindo com a beleza da planta que peguei do teu jardim sem pedir autorização”… Não terminou o pensamento e todos a estas alturas começaram a rir… “Não tem importância – disse o homem – eu sempre distribuo para quem gosta e sabe dar valor e depois, considero um grande elogio para mim que estas coisas (referia-se ao furto), às vezes, aconteçam…

Depois, a mulher se desculpou e tudo acabou em gargalhadas… ”Quem iria supor, brincava ela, que logo o proprietário daquele belo jardim fosse aparecer e me flagrar em uma confissão dessas?”…

Mais tarde pouco antes de ir embora, pensei que alguns pés de alecrim poderiam ficar bem lá em frente da minha casa, para isso deveria esperar o dono das plantas se retirar, então, sem que percebesse, me apropriar de alguns ramos de alegrim… Claro, como bem lembrou, seria mais um grande elogio ao bom gosto e a excelência de seu jardim!

Aquelas circunstâncias me fizeram lembrar um conto “Os Crisântemos”, de John Steinbeck onde a planta é usada como um símbolo que codifica o amor de sua cultivadora para compensar a ausência deste sentimento entre ela e o marido, mas é outra história…

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NOTAS:

A música poderia ser esta…

Composta por Horace Ott…

Tem a letra de Bennie Benjamin, Gloria Caldwell (mulher de Horace) e Marcus Sun…

Foi concebida para a cantora Nina Simone que a gravou em 1964…

Uma versão lenta e introspectiva bem ao seu jeito, aliás uma artista muito visada por ser considerada uma “ativista” pelos direitos civis, etc, etc…

A Novela que já se conhece…

Mas quem “matou a pau” foi o grupo “The Animals”…

A revista Rolling Stone inclui esta “Please don’t let me be misunderstood” entre as 500 melhores músicas de todos os tempos…

Muitos artista já fiseram versões dela…

Santa Esmeralda, Joe Cocker, Moody Blues, Cyndi Lauper, Elvis Costello, Dire Straits… Entre outros…

Vai com o carinho do poeta, sempre!

http://www.youtube.com/watch?v=HHjKzr6tLz0&feature=related

“NOITES ANTIGAS” de NORMAN MAILER. 3ª EDIÇÃO, 950 PÁGINAS – resenha de arnaldo brandão

 

É óbvio que os dois competiam, Criação é de 1981, Noites Antigas é de 83, a temática é semelhante. O Mailer entrou em Harvard aos 16 pra fazer engenharia, depois abandonou. Foi boxeur, entre outras coisas. Descendia de outro macaco. Escrevia livros enormes, este, “Noites Antigas” bate de longe “Criação” do Gore Vidal. Não bate só em tamanho, mas também, em qualidade. Os caras trabalhavam duro e subiam o morro até os píncaros, mas as editoras americanas bancavam. É uma boa oportunidade pra se observar como o mundo mudou. Outro dia me vem o Paulo Coelho, aquele escritorzinho bem ruinzinho, que pertence a Academia Brasileira de Letras só porque vende livros, e propõe botar o “Ulisses” em 14 caracteres no twiter, ele queria nos lembrar que estamos na era do quanto menor o biquíni, melhor, isso já sabemos desde que o Gabeira voltou com sua tanga, mas com um livro interessante debaixo do braço.

E o Paulo Coelho escreve o que: umas bobagens que misturam auto-ajuda com misticismo barato. É por essas e outras que a literatura no Brasil chegou onde chegou, e um autor como o Jonhatan Frazen, que não se pode dizer que seja um bam-bam-bam, fica esnobando os brasileiros na Feira de Paraty, é claro que ele percebeu de cara que não se tratava propriamente de um evento literário, tinha virado um mafuá, por essas e outras não fui lá receber meu prêmio. Como ele pretende ser levado a sério, assim como eu, pulamos fora. A entrevista do pessoal da Veja com o Gore em 1987 foi a mesma coisa, o cara ficava fazendo gozações. Ainda bem que existem os leitores do Facebook e dos Torpedos que leem estas resenhas e ficam sabendo das coisas. Quer dizer, só uma meia-dúzia de contar nos dedos, mas como diz o ditado: “de grão em grão a galinha enche o papo” e depois que estiver bem gordinha vai pra panela, ou então vai ser exposta naquelas televisões de cachorros de porta de padaria.  É claro que o cara não precisa escrever um livrão enorme pra produzir uma obra-prima, vide meu texto favorito: “O Coração das Trevas”, se quiserem um brasileiro, tem o Raduan Nassar, que abandonou o ringue e foi criar coelhos. Às vezes, o cara precisa de 1.000 páginas pra dar seu recado, é o caso do Mailer, talvez o melhor escritor da segunda metade do século XX.  Ele não era tão famoso quanto o Gore Vidal, embora tão polêmico quanto. Nasceu pobre, morava no Brooklin. Os dois disputavam o título de maiores escritores do EUA e certamente do mundo. Se eu puder opinar diria que ele é o melhor. Com este livro ganhou mais uma vez o Premio Pulitzer, isto foi em 1980. O que tenho em mãos é a terceira edição brasileira, tradução de Aulide  Rodrigues. É um livro que pode até ser colocado na estante de “romances históricos”, o que não significa absolutamente nada. Segundo Mailer, falando dos livros de história, mas dando um “jab”, (tipo aqueles que o Muhamad Ali dava) no queixo do Gore: “o que circula por aí não é história, é uma série de romances extremamente sóbrios, escritos por homens que geralmente não tem vastos talentos literários, tem muito menos a dizer sobre o mundo real que os romancistas”. Assino embaixo, embora ele tenha lido dezenas de livros de história para escrever este. O Mailer não escreveu apenas um livro sobre o Egito Antigo, no fundo a obsessão dele é, como sempre foi, os EUA e o totalitarismo, que ele analisa através de um olhar prolongado sobre a superfície irregular das vidas de um tal Manhenhetet. Ele certamente é da estirpe do Gorvaidal, Guimarães Rosa e outros, que viveram várias vidas, uma só não seria suficiente para entenderem o que queriam entender.

O livro começa com um prólogo do W.B. Yeats, grande poeta irlandês: “creio na pratica e na filosofia do que se convencionou chamar de magia e no que devo chamar de invocação dos espíritos…”. Se Yeats e Mailer acreditavam, porque eu não acreditaria. O texto se divide em 7 livros, ou melhor, 7 capítulos. E estes capítulos são subdivididos em subcapítulos, como se quisesse dar, a nós leitores, um tempo para respirar. O livro se passa entre a 19ª e 20ªdinastias, 1290 a 1100 aC. O narrador é um tal Manhenhetet que durante as suas vidas encarna e reencarna várias vezes e passa a se chamar Manhehetet I, II e assim sucessivamente. Neste périplo ele convive com deuses, faraós e principalmente com Nefertiti, e como vocês podem imaginar, toda vez que ela aparece, eu não durmo direito, situação muito parecida quando o Gore Vidal falava de Babilônia. Ela costumava usar uma espécie de blusa que deixava um dos seios de fora. Era lindíssima, nada a ver com Cleópatra, que não era essas coisas que Roliude disse. Vamos ao que interessa, o texto do Mailer.

“A escuridão era profunda. No entanto agora eu sabia. Estava em uma câmara subterrânea de dez passos de comprimento por cinco de largura, e percebi (com a rapidez de um morcego) que o compartimento estava vazio…No escuro meus dedos encontraram um nicho entre dois blocos de pedras, não maior que uma  cabeça humana. Pelo hálito fresco devia conduzir à noite lá fora.” Pelo texto já devem ter percebido, que o estilo é muito diferente do Gore, muito mais poético, mais dentro da tradição inglesa e eventualmente americana, mais caprichado, mais tudo. Notem que a descrição alude a um morcego, só pra criar um ambiente mais assustador. O personagem acaba de reencarnar e começa a entender que tinha um corpo, e ele tinha a memória do que havia vivido, e então vai andando pelo que se chama hoje de “Vale dos Mortos”. Então ele se lembra do pai dele, que era ”superintendente do estojo de cosméticos” diz ele, o Manhenhetet, que preferia morrer de novo a ambicionar um título como aquele. Estão rindo, vocês não fazem ideia, mas tive um grande amigo que era uma figura lendária (participou diretamente da construção do Alvorada e era amigo do Plínio Salgado) e por acaso, meu ex-sogro. Ele me contou que mesmo os militares tinham a disposição uma maquiadora 24 horas por dia. Jango e a Maria Teresa eram clientes constantes, assim como JK. Daí podem fazer ideia da importância da coisa, para os egípcios a maquiagem era tão importante quanto a alimentação. Por falar em JK, quando comecei a escrever o romance “Encaixotando Brasília”, cogitei seriamente em contar a história de Brasília a partir da tumba de JK, que seria o protagonista (Benício registra a ideia, por favor). Não desisti ainda. Para concluir, vamos ao texto altamente poético do Mailer e vejam se ele não é muito melhor que o Gore: “…pois agora um cometa se aproxima. Sou açoitado por um vento terrível…Navegamos através de domínios vagamente avistados, afagados pelas ondas do tempo. Aramos campos de magnetismo. Passado e futuro se unem em tempestades e nossos corações mortos vivem como o relâmpago nos ferimentos dos deuses.”

 

Mais de Eyjafjallajokull – Islândia

Mais de Eyjafjallajokull

Como cinzas do vulcão da Islândia Eyjafjallajokull continuava a manter o espaço aéreo europeu fechado no fim de semana, afetando milhões de viajantes de todo o mundo, algumas agências governamentais e companhias aéreas discordaram sobre as proibições de voo. Alguns espaço aéreo restrito agora está começando a se abrir e alguns voos limitados estão sendo autorizados agora como as companhias aéreas estão pressionando para que a capacidade de julgar as condições de segurança para si. O vulcão continua a Rumble e lançar cinzas para o céu, se a uma taxa ligeiramente diminuída agora, como a nuvem de cinzas dispersar caiu mais perto da terra, e da Organização Mundial de Saúde emitiu um alerta de saúde para os europeus com problemas respiratórios. Reunido aqui estão algumas imagens da Islândia ao longo dos últimos dias. ( 35 total de fotos)

Estrias relâmpagos no céu como fluxos de lava de um vulcão Eyjafjallajokul em 17 de abril, 2010. (REUTERS / Lucas Jackson)

O vulcão Eyjafjallajokull no sul da Islândia geleira envia cinzas para o ar pouco antes do pôr do sol ON sexta-feira, 16 de abril, 2010. Trações grossas de cinzas vulcânicas cobriu partes da Islândia rural na sexta-feira como uma pluma, vasto e invisível do grão pairava sobre a Europa, esvaziando os céus de aviões e enviando centenas de milhares de pessoas em busca de quartos de hotel, bilhetes de trem ou aluguel de carros. (AP Photo / Brynjar Gauti) #

Vista lente longa de fazenda perto do vulcão Eyjafjallajokull, uma vez que continua a billow fumaça e cinzas durante uma erupção final em 17 de abril de 2010.(Halldor KOLBEINS / AFP / Getty Images) #

Um carro é visto dirigindo perto Kirkjubaejarklaustur, Islândia, através das cinzas da erupção do vulcão sob a geleira Eyjafjallajokull na quinta-feira 15 de abril de 2010. (AP Photo / Omar Oskarsson) #

Pedaços de gelo de uma inundação glacial desencadeada por uma mentira erupção vulcânica na frente do vulcão em erupção perto ainda Eyjafjallajokul em 17 de abril de 2010. (REUTERS / Lucas Jackson) #

Ash cobre vegetação em Eyjafjallasveit, no sul da Islândia abril 17, 2010. (REUTERS / Ingolfur Juliusson) #

Esta foto aérea mostra o vulcão Eyjafjallajokull billowing fumaça e cinzas em 17 de abril de 2010. (Halldor KOLBEINS / AFP / Getty Images) #

Uma mulher está perto de uma cachoeira que foi sujo pelas cinzas que tem acumulado a partir da pluma de um vulcão em erupção perto de Eyjafjallajokull, na Islândia em 18 de abril de 2010. (REUTERS / Lucas Jackson) #

Cavalos luta perto da cidade de Sulfoss, a Islândia como um vulcão em Eyjafjallajokull entra em erupção em 17 de abril de 2010. (REUTERS / Lucas Jackson) #

Agricultor Thorarinn Olafsson tenta atrair seu cavalo de volta para o estábulo como uma nuvem de cinza negra paira em cima Drangshlid em Eyjafjöll em 17 de abril de 2010. (REUTERS / Ingolfur Juliusson) #

Um avião de pequeno porte (superior esquerdo) voa fumaça e cinzas passado ondulando de um vulcão em Eyjafjallajokul, na Islândia em 17 de abril de 2010.(REUTERS / Lucas Jackson) #

Fumaça ondas de um vulcão em Eyjafjallajokull em 16 de abril de 2010. (Halldor KOLBEINS / AFP / Getty Images) #

O sol se põe em um céu salpicado com cinzas, sobre o Lago Genebra, como visto a partir dos vinhedos de Lavaux, pela UNESCO, na Suíça, em 17 de abril de 2010. (FABRICE COFFRINI / AFP / Getty Images) #

O vulcão Eyjafjallajokull no sul da Islândia geleira envia cinzas para o ar sábado, 17 de abril de 2010. (AP Photo / Brynjar Gauti) #

Agricultores se unem para salvar o gado da exposição ao cinza tóxica vulcânica em uma fazenda em Nupur, Islândia, como o vulcão Eyjafjallajokull no sul da Islândia geleira envia cinzas para o ar sábado, 17 de abril de 2010. (AP Photo / Brynjar Gauti) #

Uma equipe de resgate ajuda a proprietários de terras para limpar cinzas vulcânicas de um telhado em Seljavellir, Islândia em 18 de abril de 2010. (Halldor KOLBEINS / AFP / Getty Images) #

Sheep agricultor Thorkell Eiriksson (R) e seu irmão-de-lei Petur trabalho Runottsson para selar um celeiro de ovelhas, em turno caso ventos e cinzas de um vulcão em erupção através das terras do vale em sua fazenda, em Eyjafjallajokull 17 de abril de 2010. A atual temporada é quando os cordeiros primavera nascem e tais animais jovens são especialmente suscetíveis a cinza vulcânica em seus pulmões para que eles devem ser guardados no interior. (REUTERS / Lucas Jackson) #

A nuvem de cinzas escura paira sobre o sul da Islândia costa 17 abr, 2010. (REUTERS / Ingolfur Juliusson) #

Fumaça relâmpago, e lava acima vulcão Eyjafjallajokul Islândia em 17 de abril de 2010. (REUTERS / Lucas Jackson) #

Ver visto de uma estrada que leva ao vulcão Eyjafjallajokull, uma vez que continua a billow fumaça e cinzas durante uma erupção em 17 de abril de 2010.(Halldor KOLBEINS / AFP / Getty Images) #

Um homem corre ao longo da estrada, tirando fotos do vulcão Eyjafjallajokull, uma vez que continua a billow fumaça e cinzas durante uma erupção em 17 de abril de 2010. (Halldor KOLBEINS / AFP / Getty Images) #

Uma enorme nuvem de cinzas se arrasta sobre o sul da Islândia costa 16 de abril de 2010. (REUTERS / Ingolfur Juliusson) #

Usando uma máscara e óculos de proteção contra a fumaça, fazendeiro Berglind Hilmarsdottir de Nupur, Islândia, olha para o gado perdidas em cinzas nuvens, sábado 17 de abril, 2010. (AP Photo / Brynjar Gauti) #

Um agricultor verifica cinzas vulcânicas lamacenta em sua terra na Islândia em 18 de abril de 2010. (Halldor KOLBEINS / AFP / Getty Images) #

Esta imagem aérea mostra a cratera expelindo cinzas e nuvens de areia no cume do vulcão Eyjafjallajokull na Islândia sul geleira Sábado Abril 17, 2010. (AP Photo / Arnar Thorisson / Helicopter.is) #

Um piloto tira fotos do vulcão Eyjafjallajokull fumaça ondulante e cinzas durante uma erupção em 17 de abril de 2010. (Halldor KOLBEINS / AFP / Getty Images) #

As equipes de construção reparar uma estrada danificada pelas cheias do derretimento glacial causada por um vulcão em Eyjafjallajokull, na Islândia 17 de abril, 2010. (REUTERS / Lucas Jackson) #

Cavalos pastam em um campo perto do vulcão Eyjafjallajokull, uma vez que continua a billow fumaça escura e cinzas durante uma erupção na noite de 17 de abril de 2010. (Halldor KOLBEINS / AFP / Getty Images) #

Ingi Sveinbjoernsso leva seus cavalos em uma estrada coberta de cinzas vulcânicas volta a seu celeiro em Yzta-baeli, Islândia em 18 de abril de 2010. Eles vêm a galope para fora da tempestade vulcânica, cascos abafados nas cinzas, crinas voando. 24 horas antes, ele havia perdido os cavalos islandeses shaggy em uma nuvem de cinzas que se transformou o dia em noite, cobrindo a paisagem de lama cinza pegajoso. (Halldor KOLBEINS / AFP / Getty Images) #

A nuvem de cinzas do Eyjafjallajokull córregos sudoeste da Islândia vulcão ao sul do Oceano Atlântico Norte em uma fotografia de satélite feitas 17 de abril de 2010. O vulcão em erupção na Islândia enviou tremores novos em 19 de abril, mas a nuvem de cinzas que provocou caos aéreo na Europa baixou a uma altura de cerca de 2 km (1,2 milhas), o Instituto de Meteorologia disse. (REUTERS / NERC Estação de Satélites Receber, Universidade de Dundee, Escócia) #

Uma mulher faz uma chamada de telefone no hall de entrada vazia do Aeroporto de Praga, Ruzyne, após todos os vôos foram cancelados devido a cinzas vulcânicas nos céus provenientes da Islândia 18 abr 2010. As viagens aéreas na maior parte da Europa estava paralisada pelo quarto dia no domingo por uma enorme nuvem de cinzas vulcânicas, mas voos de teste holandeses e alemães realizado sem danos aparentes parecia oferecer esperança de trégua.(REUTERS / David W Cerny) #

Lava e luz relâmpago a cratera do vulcão Eyjafjallajokul em 17 de abril de 2010. (REUTERS / Lucas Jackson) #

O primeiro de três fotos por Olivier Vandeginste, tomada 10 km a leste de Hvolsvollur em uma distância de 25 km a partir das crateras Eyjafjallajokull em 18 de abril de 2010. Relâmpago e movimento turva cinzas aparecem nesta exposição de 15 segundos. (© Olivier Vandeginste ) #

O segundo de três fotos por Olivier Vandeginste, tomada a 25 km das crateras Eyjafjallajokull em 18 de abril de 2010. A pluma de cinzas está iluminado por dentro por flashes de raios em várias esta exposição 168 segundo. (© Olivier Vandeginste ) #

O terceiro dos três fotos por Olivier Vandeginste, tomada 10 km a leste de Hvolsvollur Islândia em 18 de abril de 2010. Relâmpagos e lava incandescente iluminar partes da pluma de cinzas Eyjafjallajokull maciço neste exposição de 30 segundos. (© Olivier Vandeginste ) #

OS BRASILEIROS NO CHILE DE ALLENDE – por paulo timm / portugal.pt

 

Enquanto o regime militar se estabilizava no Brasil em 1970, não só pela repressão amparada no AI-5 , mas também mercê dos êxitos econômicos inesperados,  aumentava, dia a dia, o número de exilados brasileiros em Santiago. Teriam chegado a dez mil.  Lá encontraram, no ano de 70, uma fase de grande euforia, marcada  pela vitória da Unidade Popular que elegeria o primeiro Presidente marxista na América Latina, em plena Guerra Fria e contra os interesses dos Estados Unidos;  o  ano seguinte foi de esperança, ao se conhecerem os primeiros indicadores de desempenho da economia divulgados pelo Ministro Pedro Vuskovic e de aceitação do Governo Allende; o terceiro, 1972, de mãos à obra, com intensa mobilização de toda a comunidade exilada nos trabalhos voluntários, de forma a compensar a boicote de setores empresariais, e de incorporação em ações estatais ou político-partidárias; e o ano de 73, até o dia 11 de setembro, dia do golpe,  de grandes apreensões .

“Em 1973, a inflação chegou a cifras de 381,1%, os produtos básicos de consumo desapareceram das prateleiras, o desemprego crescia assustadoramente e a produção e o valor da moeda de então, o Escudo Chileno, em proporção inversa, caíam de forma vertiginosa.”

                                              (wiki)

 

Os brasileiros, mergulhados na vida cotidiana do Chile, iam aprendendo melhor a língua, os costumes, as variantes culturais e, sobretudo, a especificidade da via chilena. Alguns casamentos. Todo o começo é sempre difícil. Mas havia as compensações: A paisagem fascinante, a vida organizada, as comidas – o pastel de choclo, as empanadas, os “locos” – e muita poesia musical, estimulada pela presença de Pablo Neruda nas manifestações e espetáculos.

Politicamente,  foi muito difícil entender aquela obstinação que tinham os chilenos com a estabilidade institucional do país. Ela fora convertida em mito pela esquerda chilena. Ela confiava pia e sagradamente que a profissionalização de suas forças armadas, há 40 anos distante de qualquer intervenção, jamais seria capaz de fazer o que fizeram em outros países do continente. A via chilena, enfim, era um dogma, que o Presidente Allende, levou, coerentemente, às últimas conseqüências.  Anos mais tarde, indaguei, em Porto Alegre, numa Mesa Redonda sobre Economia, na Assembléia Legislativa,   em que participava com Pedro Vuskovic, se Allende, enfim, não sabia do golpe. Ele, Ministro, confiou-me que sim, Allende pressentia, e que chamara as lideranças que o sustentavam advertindo-as para o imperativo de uma ação revolucionária das instâncias Partidárias, vez que ele, jamais o faria, pelo juramento à Constituição. Não houve resposta. O mito da estabilidade as paralisara totalmente. Um pequeno mas atuante grupo, à esquerda da Unidade Popular, o MOVIMIENTO DE IZQUIERDA REVOLUCIONÁRIA – MIR-  , altamente consciente da gravidade da situação política que se deteriorava ao longo de 1973, comprometendo a sobrevivência do Governo, em decorrência de boicotes empresariais,  greves nos transportes e “acaparamientos”, que consistiam em retiradas de produtos básicos das prateleiras e seu depósito em “escondites”, tentava , em vão, uma mudança de rumos. Mas poucos lhes davam ouvidos. A “via chilena”se consagrara , acima de qualquer questionamento. Insólita, como a qualificou Fidel Castro, em visita – incômoda- ao país. Mas imperativa.

Toda esta trajetória da Paixão e Morte da Via Chilena , não foi apenas vivenciada pelos brasileiros que lá estavam. Hoje ela está fartamente avaliada em diversos livros e Teses acadêmicas, como,por exemplo,  “ Salvador Allende e o mito da estabilidade chilena”, de Ana Cristina Augusto de Souza -http://www.revistaintellector.cenegri.org.br/ed2007-06/anacristina-2007.pdf , na qual se pode encontrar farta indicação bibliográfica. Naquela época, porém, cada grupo a avaliava segundo sua ótica política própria.

A “aristocracia” exilada, mais antiga e acomodada nos órgãos internacionais sediados em Santiago ou na Universidade , quando não no próprio Governo, como Conceição Tavares, José Serra, Fernando Henrique Cardoso, pactuou firmemente com o mito da estabilidade. Todos eles tiveram um papel importantíssimo na colônia pela crítica ao regime militar no Brasil e apoio à “Caixinha”. Creio que um dos últimos responsáveis por ela , aliás,  foi o nosso saudoso conterrâneo Paulo Renato,  funcionário da OIT, cuja temperança política não fazia par com o destemor e espírito de solidariedade que demonstrou nos dias cruciais do Golpe. Muitos lhe devem a vida. Eu lhe devo a fidalguia de ter acompanhado minha segunda esposa, chilena, acusada pelo ex-marido como terrorista e seqüestradora de uma filha, a um Tribunal.

Outros segmentos dos brasileiros, enfim,  acomodavam-se em seus respectivos grupos políticos. E com a quantidade de gente que já lá estava em 1973, era impossível fazer qualquer classificação. Uma coisa, porém, é certo: Tirávamos lições.

A primeira lição que aprendemos no Chile foi sobre a importância da democracia. A esquerda brasileira vinha de uma formação estalinista, propensa a descartar qualquer importância às Instituições e ao Estado, tomados como burgueses. Mesmo com as tensões da Via Chilena e seu posterior fracasso, começamos a dar um valor crescente à construção da democracia como um valor universal. E ao Estado como instrumento social. Pouco depois, Carlos Nelson Coutinho nos brindaria como um artigo, no Brasil, com este título e que inauguraria o arejamento da esquerda com o contributo gramsciano da  importância da hegemonia e não apenas do Poder para o socialismo.

Outra lição importante, para todos nós, foi a compreensão das alianças, corolário do anterior, na montagem de estratégias de Poder. Pudemos perceber, na experiência chilena, que numa sociedade moderna a classe média e suas representações políticas têm um papel importantíssimo, que pode ou não viabilizar estratégias de mudança. Digo até, que essa foi uma lição decisiva para pensadores marxistas ortodoxos, como Emir Sader e Marco Aurélio, na montagem de estratégias de governabilidade do Governo do PT no Brasil, a partir de 2004.

Decisivo foi também o entendimento de uma dialética interna da esquerda, quando,  dentro e fora de um Governo , há fronteiras a serem respeitadas. Muitos até debitam o enfraquecimento de Allende às divergências internas da UNIDADE POPULAR ou à existência de uma ultra-esquerda, o MIR, que lhe teria solapado o vigor ideológico. Ledo engano! As divergências internas foram extremamente salutares ao  regime e o MIR, conquanto de extrema esquerda, e fora do Governo, jamais abriu baterias contra a pessoa do Presidente Allende. Pelo contrário, conta-se que a Guarda Pessoal de Allende era feita por militantes do MIR. Nada parecido com o que hoje presenciamos na cena brasileira, na qual  , a cada defecção escorre um filamento de ódios incontidos.

Finalmente, os tempos idos e vividos no Chile realimentaram a esquerda brasileira de um elemento decisivo na sua decantação humana: a solidariedade. Talvez até pela necessidade. Mas foi um fato, talvez extraviado.   As portas se abriam a cada um que chegava, amizades se fortaleciam no apoio a pessoas que deixavam para trás família, maridos ou pais presos, empregos, estabilidade. Refinava-se o ingrediente básico de uma visão de mundo mais fraterna, curiosamente destacado sempre pelo próprio Allende, ao  frisar, incansavelmente,  que tudo deveria começar no coração de cada chileno. Tenho o orgulho de ter, nesse processo, aberto não só nossa casa a muitos camaradas, maioria gaúchos exilados, com os quais me reaproximei,  não tanto em obediência à fórmulas doutrinárias de socialismo, mas ao reconhecimento de valores humanos como caráter, coragem , determinação e amizade.

No dia 11 de setembro de 1973, tudo acabou. Nas cinzas do La Moneda , Palacio Predencial bombardeado,  as últimas palavras del “Chicho” , testemunhando a barbárie :http://www.youtube.com/watch?v=g1QJ-y_xUmk  E o paradoxo de ter, com o fracasso da “Via Chilena”, enterrado a ilusão militarista e condoreira da esquerda do assalto ao Poder. A partir de então, surgia na América Latina uma nova esquerda, francamente aberta a comprometida com a democracia, só tática, mas estrategicamente.

Paulo Timm é economista.

TARSO GENRO (*): O “novo” (velho) conglomerado / porto alegre.rs

A tentativa de separar Lula e Dilma, como se o projeto de governo da presidenta fosse uma ruptura com tudo que Lula representou para o país, nos seus dois governos, redundou num fracasso completo. Só quem não conhece Dilma poderia achar que ela embarcaria nesta armadilha primária. Mas a tática da direita e da centro-direita brasileira, no contexto político que vive o país e a América Latina, não foi ingênua. Ela revela uma estratégia bem concebida para restaurar a hegemonia do “conglomerado” centro-direitista que já reinou no país.

 

O julgamento do chamado “mensalão” e o esforço que vem sendo feito pela mídia, sustentado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, de separar a presidenta Dilma do presidente Lula, configura um novo momento da luta política no país e exige uma nova atitude da esquerda para disputar os rumos da revolução democrática em curso no Brasil.

A tentativa de separar Lula e Dilma, como se o projeto de governo da presidenta fosse uma ruptura com tudo que Lula representou para o país, nos seus dois governos, redundou num fracasso completo. Só quem não conhece Dilma poderia achar que ela embarcaria nesta armadilha primária. Mas a tática da direita e da centro-direita brasileira, no contexto político que vive o país e a América Latina, não foi ingênua. Ela revela uma estratégia bem concebida para restaurar a hegemonia do “conglomerado” centro-direitista que já reinou no país.

Os protagonistas desta estratégia têm uma visão voltada, não somente para as próximas duas eleições presidenciais, mas também para o esfacelamento do principal partido de massas da esquerda brasileira. Com seus acertos, erros, desvios e crises -que de resto atingem toda esquerda mundial no “pós muro”- o PT vem mudando a estrutura de classes da sociedade brasileira e reorganizando os interesses destas classes no cenário da “grande política”, aquela que decide os rumos da democracia e dos modelos de desenvolvimento.

O PT, através dos nossos governos de “coalizão”, vem promovendo uma ascensão extraordinária das classes populares, no plano social e também no universo da política. O “incômodo PT”, formado por Lula, é o suporte principal, com seus aliados de esquerda, das mudanças na letárgica desigualdade social que imobilizava o país. O ascenso social de dezenas de milhões, conjugado com as novas perspectivas para uma parte do empresariado compartilhar de um novo projeto de nação – cooperativa, soberana e interdependente na globalização – pode abrir um novo ciclo de mudanças.

A espetacularização do julgamento do “mensalão”, colocado como marco “inaugural” da corrupção no Brasil e os vínculos deste processo manipulado com o PT, como instituição; a insistência dos vínculos do “mensalão” com a figura do ex-Presidente Lula; a demonização da política e a glorificação da gestão pública “técnica”, isenta de “política”, que passa a ser sinônimo de pureza institucional (tática sempre praticada pelo fascismo em momentos de crise); a “revisão” do governo Lula, especialmente promovida por manifestações do principal líder da oposição (FHC, o único que restou em avançada idade), tudo isso aclara a tentativa de reorganização de um bloco político e social, neoconservador e neoliberal, que já havia colocado o país numa situação dramática. Como já registrou um editorial da Carta Maior:

“Para ficar apenas no alicerce fiscal/monetário: em dezembro de 2002 – último mês do PSDB na Presidência da República – a relação dívida/PIB atingia estratosféricos 63,2%, praticamente o dobro dos 30,2% existentes no início do ciclo tucano, em 1994. Anote-se: isso, depois de um salto da carga fiscal, que passou de 28,6% para 35% no período. Hoje a relação dívida/PIB é de 35%; a previsão para 2013 é de 32,7%” – (03/09/2012 – Saul Leblon).

Este bloco organiza a direita intelectual de corte liberal e neoliberal, com o apoio ideológico dos grandes meios de comunicação (que jamais engoliram Lula e o PT), visando recuperar o partido tucano. Arruinado pelas suas lutas internas e fracionado pelos seus interesses regionais e empresariais divergentes, é preciso dar ao PSDB algum novo conteúdo para que ele possa renascer. Os Democratas não conseguiram cumprir esta função, o PMDB está dividido segundo os seus interesses regionais fracionários e o PSDB é o único sobrevivente autêntico do projeto representado pelos dois governos de FHC.

A tática supostamente renovadora deste “novo“ conglomerado não leva em consideração, porém, três mudanças fundamentais, que o país sofreu nos últimos dez anos. Estas mudanças possivelmente impeçam a restauração neoliberal:

Primeiro, o país já tem um universo empresarial novo, que se fortaleceu nos governos Lula, ao qual não mais interessa o projeto neoliberal em crise. Novos processos de acumulação “via” mercado interno, pré-sal, construção civil pesada e habitacional, setor de fabricação de máquinas e equipamentos, produção de bioenergia, produção de alimentos para consumo interno, negócios originários das políticas de cooperação e construção de infraestrutura – tudo orientado por ações normativas do Estado – afastaram amplos setores burgueses (tradicionalmente submissos à ideia de uma nação “associada e dependente”) dos seus antigos comandantes. Agora estes setores vinculam a reprodução do seu capital e dos seus negócios a outro modelo de desenvolvimento, ao qual o neoliberalismo só atrapalha.

Segundo, como o projeto pretendido pelo “novo” conglomerado não difere muito daquele do presidente FHC, e é uma restauração, ele tem impedimentos sociais de monta. A combinação ousada de reorganização financeira do Estado, com investimentos em infraestrutura, políticas de inclusão produtiva e educacional voltadas para as comunidades de baixa renda e, ainda, a incidência soberana do país no cenário internacional, constituíram bases populares fortes no país, em defesa do projeto comandado por Lula. Os governos Lula recuperaram a nossa autoestima, reduziram as desigualdades sociais e regionais, que sempre marcaram a história do Brasil e promoveram dezenas de milhões a condições de mínima dignidade. Ao não levar em consideração estas mudanças, o “novo” conglomerado tucano, mais a mídia e a intelectualidade liberal e neoliberal, descolam-se do sentimento popular e não conseguem promover o seu “novo” projeto.

Terceiro, a organização do “novo” conglomerado não leva em consideração, também, a existência nos dias de hoje das redes sociais, das novas tecnologias de informação, das redes de comunicação e informação alternativas, que formam núcleos de resistência e de produção de uma opinião pública livre. São os novos espaços autônomos que não estão subordinados aos velhos métodos de manipulação que permeiam a maior parte da grande imprensa. O controle da produção e formação da opinião não é mais aquele legado pela ditadura, já que há um amplo espaço autônomo de promoção da circulação da informação e da opinião, que é impossível de controlar.

Concordemos ou não com as sentenças que advirão do “mensalão”, elas deverão ser respeitadas por todos e por nós. É o Estado de Direito funcionando. Especialmente nós, do Partido dos Trabalhadores, devemos tirar lições políticas e jurídicas do episódio. Analisar todas as causas que abriram as maiores feridas na nossa história não significa inculpar pessoas ou buscar bodes expiatórios, pois a função de um partido político socialista não é a de ser sucursal de um Tribunal ou de uma Delegacia de Polícia. A função de um partido como o nosso é promover a condução intelectual e moral de um contingente do povo para levá-lo a melhores níveis de emancipação política e social.

O nosso patrimônio é maior do que este legado do “mensalão”. O nosso dever, agora, é compreender que se abre um novo cenário na luta política do Brasil e que devemos compor uma força política orgânica e plural, que amarre fortemente as convicções da esquerda democrática e socialista com os ideais progressistas da centro-esquerda e do centro-democrático. É um novo patamar de unidade política que deve ser pautado pelos partidos de esquerda, em conjunto, para organizar e dirigir esses novos contingentes sociais, que se organizaram na estrutura de classes da sociedade e cujo futuro não tem chances de ser beneficiado pelo “novo” e velho conglomerado.

(*) Governador do Estado do Rio Grande do Sul.

REVOLUÇÃO FARROUPILHA : Zero Hora visitou lugares mitológicos da Revolução Farroupilha, palcos da guerra contra o Império. Assista ao documentário e saiba o que eles guardam na memória.

veja os dez principais palcos da REVOLUÇÃO FARROUPILHA (1835 – 1845)

CLIQUE AQUIREVOLUÇÃO FARROUPILHA

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A Revolução Farroupilha, também é chamada de Guerra dos Farrapos ou Decênio Heróico ( 1835 – 1845), eclodiu no RS e configurou-se, na mais longa revolta brasileira.

Foram diversas as causas que levaram os farroupilhas a atacarem Porto Alegre, no dia 20 de setembro de 1835, dando início a Revolução Farroupilha, que estendeu-se, até o dia 11 de setembro de 1836, quando Antônio de Souza Neto, proclamou a República Riograndense. Após esta data, iniciou-se então, uma guerra que durou até 28 de fevereiro de 1845.

Muitos fatos aconteceram, várias pessoas morreram, e quase dez anos depois de muitas lutas e combates, houve a pacificação.

Os problemas econômicos que atingiam as classes dominantes, figuram entre as principais causas da revolução. Os poderosos estancieiros gaúchos, queriam que o governo imperial, protegesse a pecuária do RS e dificultasse a entrada do charque argentino e uruguaio no Brasil, que devido o baixo imposto de importação, fazia concorrência desleal, arruinando a economia gaúcha. Essa mesma elite dos grandes fazendeiros, também lutava junto ao governo imperial, por uma maior liberdade administrativa para o RS.

A revolução farroupilha não foi portanto, uma revolta do povo pobre, e sim, uma rebelião dos ricos estancieiros que lutavam pelos seus interesses econômicos e políticos. O povo só participou do movimento, sob o controle dos fazendeiros. Não existia entre os líderes, o desejo de libertar o povo da exploração social, da escravidão ou da vida miserável.

Entre os principais líderes, destacam-se: Bento Gonçalves, Davi Canabarro, José Garibaldi, Antônio de Souza Neto, Gomes Jardim e Lucas de Oliveira.

O momento máximo da expansão do movimento, deu-se em 1839, com a fundação da República Juliana, na cidade de Laguna em Santa Catarina, sob comando de Canabarro e Garibaldi.

As capitais da República Riograndense, foram Piratini, Caçapava e Alegrete.

Os oficiais farroupilhas, reuniram-se nos Campos de Ponche Verde, e discutiram as questões do tratado de paz. Ocorreu então, um tratado entre duas nações: Rio Grande do Sul e Brasil. Assinou o tratado representando os farroupilhas, Davi Camabarro e pelos imperiais, Duque de Caxias, no qual não houve vencedores ou vencidos.

REVOLUÇÃO FARROUPILHA

ANTECEDENTES

              No Brasil, estávamos no período das Regências, duas correntes políticas existiam: Corrente Liberal Moderada – Chimangos que desejavam modificação do regime através de leis, e a Corrente Liberal Escoltada – Farroupilhas, que apontava como a solução a resolução.

Em 1833, quando Bento Gonçalves foi chamado ã Corte, (RJ), entrou em contato com Evaristo da Veiga e com o Padre Diogo Antonio Feijó, (futuro regente), e indica Antônio Rodrigues Braga, um moderado republicano, para o cargo de presidente da província, que por influência de seu irmão, passou para o partido conservador, rompendo com Bento Gonçalves.

Foram geradas as divergências entre o poder executivo (Fernandes Braga) e o poder legislativo; que era em sua maioria formado por deputados liberais, que acusaram Fernandes Braga de déspota por que havia mudado de partido.

CAUSAS

- Idéias de liberdade política
- Desejo de implantação do sistema republicano no Brasil com a federação das províncias;
- O descontentamento reinante aqui, pelos desastrosos e não contentáveis governos da província que eram orientados pelo império. Era o caso de Fernandes Braga.
- Um regime iníquo com excessivos impostos e taxas, cobradas pelo poder central, o Império, sobre nossa principal economia o Charque.
- Faltam de estradas, pontes e escolas;
- Dificuldades para o registro das pessoas físicas
- O desgosto do soldado gaúcho, pelo revés sofrido nos campos da Cisplatina, cuja culpa era atribuída aos comandos escolhidos, cuja culpa era atribuída aos comandos escolhidos pelo império;
- Os gaúchos já haviam participado a lança e a espada em mais de uma campanha não queriam se deixar dominar e oprimir pela corrupção imperial brasileira.

ÉPOCA 1835/1845

TEATRO DE OPERAÇÕES Província do Rio Grande do Sul e parte de Santa Catarina

INÍCIO 20/09/1835 com a entrada em Porto Alegre de Gomes Jardim e Onofre Pires.

A primeira fase do Movimento Farroupilha contou com o apoio de todas as correntes liberais. Esta fase caracterizou-se pela deposição do presidente Fernandes Braga.

PRINCIPAIS EVENTOS

Ano de 1835

19/setembro , um grupo de 400 revolucionários reuniu-se nos arredores de Porto Alegre, e nas 1ªas da madrugada de 20/09 – junto à ponte da Azenha, ocorria a 1ª escaramuça com os Imperiais, visando a ocupação da capital. Bento Gonçalves Chega a 21.os farroupilhas eram comandados por Onofre Pires e Vasconcelos Gomes Jardim, enquanto a defesa da capital estava confinada a Gaspar Mena Barreto.

DR, Fernandes Braga, foge para a cidade do Rio Grande, de barco pela Laguna dos Patos. Bento Gonçalves segue para Rio Grande, ã frente de um pequeno destacamento, para enfrentar o Presidente deposto, porém, Fernandes Braga já havia fugido para a corte do Rio de Janeiro.

Entre as cidades que não aderem a causa estão : Rio Grande, Pelotas, e São José do Norte.

08.setembro – Entrada dos Farrapos em Piratini.
09.setembro – Os Farroupilhas apoderam-se de Rio Pardo.
13.setembro – Os revolucionários são derrotados em Arroio Grande.

Ano de 1836

07 de abril – Entrada dos Farroupilhas em Pelotas.

15 de junho – Restauração de Porto Alegre pelos imperiais.

10 de setembro – , no Campo dos Menezes a Batalha do Seival, onde ocorre a maior vitória das forças Farroupilhas, as tropas do Cel. Antonio de Souza Netto derrotaram as do Cel. João da Silva Tavares.

Na noite de 10 para 11 de setembro de 1836 chimarreando ao redor do fogo e ainda comemorando a brilhante vitória, Lucas de Oliveira e Joaquim Pedro Soares deram a idéia da Proclamação da República Rio Grandense. Na manhã seguinte as tropas foram perfiladas em ordem e o General Netto faz um pronunciamento.

12 de setembro – Proclamação da República Rio-Grandense por Souza Netto, nos Campos dos Menzes, pontas do Jaguará Chico, afluente do rio Jaquarão.

04 de outubro – Bento Gonçalves é derrotado e preso na Ilha do Fanfa (Rio Jacuí- proximidades de Rio Pardo). É enviado para a Corte e daí para o Forte do Mar na Bahia.

10 de novembro – Piratini torna-se a primeira Capital da novel Republica.

Ano de 1837

09 de março – Tomada de Lages (Santa Catarina) pelos farroupilhas.

07 de abril – Os republicanos tomam Caçapava.

10 de setembro – Fuga de Bento Gonçalves do Forte do Mar, na Bahia.

Ano de 1838

17 de março – Os imperiais retomam Rio Pardo

06 de maio – Rio Pardo volta ao poder dos revolucionários.

12 de setembro – Lages (santa Catarina) pela 2ª vez, é tomada pelos farroupilhas.

Ano de 1839

14 de fevereiro – A Capital da República é transferida para Caçapava, instalando-se o governo no dia 24.

06 de junho – Garibaldi inicia sua memorável travessia por terra com seus lanchões Seival e Rio Pardo, conduzindo os do Capivari até o Tramandaí.

22 de julho – Combate e tomada de Laguna (Santa Catarina)

25 de julho – Proclamação da República Juliana.

15 de novembro – Restauração de Laguna pelos imperiais após o combate naval desse dia.

Ano de 1840

03 de maio – Combate de Taquari, de resultados indecisos.

16 de julho Ataque a São José do Norte, de conseqüências desastrosas para os Farrapos. São José do norte recebe o Título de “Mui heróica Vila”. E Ajuda os feridos das tropas farrapas.

Cerco de Porto Alegre.

Ano de 1841

Continua Porto Alegre cercada
19 de outubro – Porto Alegre recebe o título de “Mui Leal e valorosa” pela resistência à revolução.

Ano de 1842

Inicia o declínio da revolução. Divergências entre os revolucionários. É assassinado o vice-presidente Antonio Paulino da Fontoura. Bento Gonçalves é acusado de autor intelectual. Duelo entre Bento Gonçalves e Onofre Pires, resultando a morte deste.
09 de novembro – Caxias assume a presidência e o comando das armas legais.

01 de dezembro – Alegrete torna-se a sede do governo republicano.

Ano de 1843

26 de maio – Combate de Ponche Verde, de resultados indecisos.

Vantagens dos legalistas em todo o território. A revolução começa e perder terreno.

Ano de 1844

Início das conversações de paz.

14 de novembro – Surpresa de Porongos. Canabarro é derrotado pro Chico Pedro.

29 de dezembro – Combate de Quero (afluente do quarai) último da Revolução.

Ano de 1845 – Final da Guerra – Inicio da Paz.

28 de fevereiro – Assinatura da paz no acampamento de Ponche Verde, município de D.Pedrito.

01 de março – Caxias, nos campos de Alexandre Simões, proclama a anistia do Rio Grande do Sul, declarando pacificada a província.

CAPITAIS FARROUPILHAS

Piratini 10.11.1836 a 14.02.1839

Caçapava – 14.02.1839 ã 22.03.1840

Alegrete – 22.03.1840 ao término da Revolução

VULTOS EMINENTES

Imensa é a galeria do relevo nos fatos da memorável EPOPÉIA

Destacam-se, de parte dos farrapos:

Bento Gonçalves da Silva; Antonio de Souza Neto; David Canabarro; Domingos José de Almeida; Onofre Pires; Silva Jardim.

Junto aos imperiais:

Caxias; J.J.de Andrades Neves; João de Deus Mena Barreto; Silva Tavares; Francisco Pedro de Abreu.

Bento Manuel Ribeiro teve destacada atuação quer ao lado dos farrapos, quer dos imperiais

Condições da Paz
Os rio-grandense indicariam o nome para assumir a presidência da província
A dívida revolucionária seria paga pelo governo imperial.

O PÓS-GUERRA

Tempo de Construir – com a economia e a administração pública desorganizada por quase dez anos de guerra., a província tenta recuperar o tempo perdido;
Reinício da Imigração;
Dois partidos 1848 –Partido Conservador – Partido Liberal
18 de julho de 1847 – Morre Bento Gonçalves
1852 – rearticulação partidária , liga partidária, e contra liga.
Antonio de Souza Neto – vai para o Uruguai- se reconcilia com o Governo brasileiro 1864
David Canabarro – Morre em 1867
Da contra liga – origina-se o Partido Liberal Progressista.
1868 – Partenon Literário

Bibliografia : Lessa, Barbosa-Projeto Pró-memória farroupilha. 1985 Filho, Artur Ferreira – Rio Grande Heróico e Pitoresco- 1985 História Ilustrada do Rio Grande do Sul – 1998 Quevedo, Julio – José C.Tamanquevis. Rio Grande do Sul Aspectos da História Freitas, Sebastião Rodrigues de, Estudos Rio-Grandenses.

Kevin Richardson en el Parque de León de Gauteng, Sudáfrica

Kevin Richardson
(nacido en 1974) es un conductista animal, y ha realizado una amplia investigación sobre losanimales nativos de África . Ha sido reconocido en una manada de hienas manchadas y el orgullo de los leones . Él trabaja con las hienas y grandes felinos, como guepardos y leopardos . Se ha especializado con los leones y se ejecuta el Reino de la instalación de White Lion en el Parque de León en provincia de Gauteng, Sudáfrica . Conocido en todo el mundo como el “hombre que susurraba a León,” Richardson es también un autor y productor de cine.



 

VEJA O VÍDEO:

dê UM clic no centro do vídeo:

Carlos Heitor Cony faz uma revisão amarga e irônica da vida, aos 86 anos

Às vésperas de lançar ‘JK e a ditadura’, o autor de ‘Quase memória’ critica o político mineiro, compara a ABL a um ‘jardim de infância ao avesso’ e se diz cansado da ficção

 

 

Com as pernas enfraquecidas pelo câncer, Cony acaba de ir a Nova York

RIO – Os passeios na Lagoa acabaram: um câncer linfático crônico, considerado terminal há 11 anos, e que afetou a força de suas pernas, o obriga a passeios modestos, dentro de casa, com fisioterapeutas. Mas quando vai à rua, na condição de cadeirante, Carlos Heitor Cony, 86 anos, não vê limites: viaja para palestras, vai a Nova York e visita o Marco Zero. E não descarta futuras viagens de navio. Fumante de quatro charutos por dia, lê, escreve suas crônicas para a “Folha de S. Paulo” e participa de debates matinais com Artur Xexéo na CBN. Há um ano, não vai à Academia Brasileira de Letras (ABL) e não pretende voltar à ficção, como tantos fãs esperam. O que não o impede de dissertar, horas seguidas, sobre o relançamento de “Memorial do exílio” (Bloch Editores, 1982), com novo título, “JK e a ditadura”, agora pela Editora Objetiva. Nesta entrevista, o ceticismo de sempre dá espaço a sorrisos entre o diabólico e o abençoado que o tornam uma das figuras mais carismáticas da literatura brasileira.

O GLOBO – Por ser uma espécie de autobiografia em terceira pessoa, “JK e a ditadura” é carente de um viés crítico. Ele existe?

Deveria ser o terceiro volume de sua autobiografia, mas ele morreu. Sim, tenho minhas restrições a Juscelino, em que pese o carinho e a admiração por sua obra. Ele se vendeu como democrata irredutível, mas pressionava o Congresso. Por exemplo, quando pediu licença para processar Carlos Lacerda por vazar informações do Itamaraty, jogou pesado para cima da Câmara na intenção de cassar o adversário. Não conseguiu. Mas comprou voto, constrangeu a imprensa, o diabo a quatro, como todo mundo faz, na base do fisiologismo. Politicamente, errou feio ao apoiar Humberto Castelo Branco em troca da promessa de respeitar o pleito de 1965, o que não aconteceu. A jogada de mestre teria sido renunciar à candidatura em favor do (general Eurico Gaspar) Dutra, um pessedista de 90 anos que estava na lista dos preferidos dos militares e lhe era leal. Dutra ia corrigir os rumos e acalmar os radicais. Uma vez ele me perguntou onde foi que pegou a curva errada, e eu disse isso.

Mas isso seria suficiente para neutralizar a hidra da ditadura?

Seria a chance de evitar um quadro tão violento. Além disso, uma falta menos grave: JK mentia sobre a idade. Dizia, no primeiro volume das memórias, que nasceu em Diamantina em 1902. Tenho a certidão de nascimento: o ano correto é 1900. O então repórter Roberto Muggiati chegou a ser demitido por ter publicado na “Manchete” a idade certa: JK reclamou com o patrão. Interferi a seu favor e ele acabou “exilado” atrás de uma coluna da redação. Dois anos depois, virou diretor da revista.

E o aspecto programático?

A questão de JK sempre foi mesmo a indústria. Getúlio Vargas fez legislação trabalhista sem um tiro e a sociedade, inclusive o empresariado, aceitou. Mas Getúlio não menciona a questão da terra. Se mexesse na terra, seria deposto. JK também foi avesso a essa questão. Mas, com o que fez, transformou a sociedade brasileira e a levou a outro patamar.

A segunda parte do livro, espécie de apêndice, reedita trechos de “O Anjo da Morte”, reforçando a tese de assassinato de Juscelino. Você realmente acredita nisso?

Os indícios são todos nesse sentido. Guilherme Romano, braço direito de Golbery (do Couto e Silva), foi o primeiro a aparecer no local. O pouso onde ele parou pertencia a militares e JK vivia sendo seguido. A notícia da morte por acidente correu dias antes. E, em telegrama ao general (João Batista) Figueiredo, o chefe da Dina, o SNI chileno, equipara Letelier, assassinado pela CIA, a JK, como “um problema para o Brasil”, num tempo em que o presidente Jimmy Carter ouviu de (Ernesto) Geisel que, antes da redemocratização, ainda estava em vias uma “limpeza de terreno”. Sei que indícios não são provas, embora tenha ouvido o (ex-ministro do STF Cezar) Peluso dizer que existe a “prova indicial”. Miro Teixeira chegou a criar uma comissão para apurar as circunstâncias. Todos os depoentes afirmaram isso. O último foi Miguel Arraes, grande articulador da resistência à Operação Condor, que assim se pronunciou: “JK foi assassinado.”

Em 1968, você foi preso na mesma leva que deteve JK. O que guarda desse episódio?

Foi na noite de 3 de dezembro, até depois do carnaval. Três meses. Quando fui sequestrado, ouvi que naquela noite iam fuzilar JK. Incomunicável, acreditei, aquele tempo todo, que havia um paredão. Não fui torturado, mas em muitas noites vomitei ao ouvir berros e pancadas das outras celas. Fiquei numa cela miserável, com um cano de água, que usava para escovar os dentes, e um vaso sanitário. Esta foi a segunda prisão. No total, foram seis. Em 1965, quando ainda havia legalidade, fui processado por (Artur da) Costa e Silva, que, pela Lei de Segurança Nacional, queria me botar 30 anos em cana. O STF transferiu para Lei de Imprensa e peguei seis meses. Cumpri três: foi a única vez na vida que tive bom comportamento. Os militares ainda eram educados. Invoquei a convenção de Genebra e a comida melhorou, ganhei banho de sol e lençóis, e, no Natal, um coronel nos mandou peru, vinho, farofa e castanhas, da casa do comandante.

Você foi muito atacado quando recebeu benefícios como reparação aos danos. Isso o magoou?

Vou contar só um episódio. Quando, em abril de 1964, escrevi, no “Correio da Manhã”, o artigo “A revolução dos caranguejos”, que atacava violentamente o movimento militar, tive que me esconder. No dia da publicação, três sujeitos foram à escola de minhas filhas, que tinham 12 e 8 anos, e disseram à professora que vinham buscá-las, que eram amigos dos pais e precisavam protegê-las pois estavam sob ameaça de sequestro. À saída, a dona do colégio, ao ver duas alunas com três homens estranhos à paisana, pediu documentos. Eles se recusaram a mostrar e puseram minhas filhas num carro. A mulher anotou a placa e nos procurou. Ênio Silveira, que tinha contatos, fez a coisa circular em meios militares e descobriu-se que o carro servia a um oficial da Marinha. Elas foram soltas aos empurrões. Durante o sequestro, haviam sido ameaçadas e insinuaram que tirariam, naquela noite, a sua virgindade. O resto são tecnicalidades que nem preciso mencionar, além do fato de os desembargadores nem terem lido o processo por serem contemporâneos e saberem o que passei. Mas nem se me dessem a Petrobras eu me sentiria compensado. Nem a Amazônia pagaria todo o meu sofrimento.

Por que sua aversão a livros inéditos de ficção? Você desistiu?

Olha, com “Pilatos”, livro da década de 1970, eu disse tudo o que queria dizer. Thomas Mann, depois de escrever “Doutor Fausto”, pensou em não escrever mais. E disse: “Infelizmente, vivi mais que minha obra.” Teve que escrever ainda três ou quatro livros, tudo porcaria, pois precisava de dinheiro. Quando fiz “Pilatos” foi isso: fiquei 23 anos sem escrever. Aí veio o computador, e a doença de minha cadela Mila, eu escrevi “Quase memória” para suportar o sofrimento de ouvir seus gemidos.

“Quase memória” não é bom?

É um desabafo. O que escrevi depois foi por pura pressão comercial. Nada desse período interessa.

Como é sua rotina hoje?

Tenho um câncer linfático e estou em estado terminal há 11 anos. É o mesmo câncer da Dilma e do (Reynaldo) Gianecchini. Não perdi o cabelo, mas o tratamento enfraqueceu minhas pernas. O câncer, porém, não é mais a tal da insidiosa moléstia. Todo mundo tem um. A Hebe, a Ana Maria Braga, todos os líderes do Cone Sul, Lula, Fidel, Chávez, Cristina! Há 12 dias não saio de casa. Meses atrás fui a Nova York. Para visitar os museus, ser cadeirante é bom: fui tratado como príncipe, uma maravilha. No Marco Zero me puseram de cuecas para entrar.

Em “JK e a ditadura” você diz que, com a Frente Ampla, JK, (Carlos) Lacerda e Jango (João Goulart) provaram, tardiamente, que a Humanidade pode ser melhor desde que cada homem procure, no outro, o seu melhor. Você acredita nisso? Precisamos de homens cordiais, como JK?

Não. Em “O ventre”, aos 32 anos, eu digo que só creio naquilo que pode ser atingido pelo meu cuspe. Como disse no meu discurso de posse na ABL, não tenho convicções firmes para ser de direita, disciplina para ser de esquerda nem a imobilidade do centro, que é oportunista. Sou um anarquista inofensivo.

A Academia foi uma concessão, em vistas desse ceticismo?

Entrei com 74 anos, idade com que morreu o JK. Desde 1964 já me haviam convidado. Acabaram me convencendo num movimento para legitimar a candidatura paralela, para outra vaga, de Roberto Campos, que até o Celso Furtado queria. Acabei cedendo, sob a condição de não fazer campanha. A Academia é um ambiente de cordialidade. Resumindo, porém, eu diria que é uma espécie de jardim de infância às avessas. No jardim de infância você não tem passado mas um futuro o espera, com relações novas e amigos vindouros. Na academia, não temos futuro. Temos todos um passado, se é que temos, bom, brilhante ou medíocre, mas 90% dos que lá estão não têm mais nada para fazer na vida. O futuro é o mausoléu.

Você tem medo da morte?

Não, a não ser do ritual da morte. Não quero velório. Nem quero ir para o mausoléu da Academia. Serei cremado. Toda a liturgia da morte hoje é uma contrafação, fria, impessoal. Já conquistei o que queria. Só me restam o Nobel e a morte. Como o Nobel não virá…

O Globo / Ana Branco

NEM SEMPRE FREUD EXPLICA por olsen jr / rio negrinho.sc

Estou no consultório odontológico esperando a minha vez. Procuro ler alguma coisa (qualquer coisa) para aliviar a tensão. Pego uma revista “Status” (remake)… Na década de 1970 uma publicação com este nome era o melhor que se tinha para a satisfação do público masculino. Guardo um exemplar temático (só Drinks) daquela época. Agora, a edição que tenho em mãos é uma pálida evocação do que a memória ainda retém.

Não deveria ter mais “certas” preocupações, mas tenho… Vejo a senhora que sai do gabinete, caminha lentamente em minha direção… Afirmo para descontrair “não doeu nada, certo?”… Ela parece surpresa com a minha observação, afinal tudo ali é asséptico e sério… “Não, meu filho, não doeu”…

Digo para ela que certos “traumas” ou “má vontade” se preferir, com algumas situações a gente leva da infância e não muda mais… A ela junta-se a atendente e ficam me ouvindo… Continuo, “dentista, cortar cabelo e comprar roupas sempre foram questões a serem resolvidas para mim”. O primeiro por não suportar o ruído que a broca faz (e a gente não vê o que ela está fazendo), o segundo porque nunca me deixaram ter o cabelo comprido na época em que isso era moda (na década de 1960 quando os Beatles mandavam na música pop) e por último, se antes era porque a minha mãe escolhia o que iria vestir, agora simplesmente porque não suporto a constatação sempre quando me vejo num provador de que preciso perder peso, e todo o drama continua…”

A mulher e a recepcionista começam a rir e naquele momento esqueço que sou o próximo a ser atendido. Ela concorda comigo e lembra que na sua infância a broca nos consultórios era acionada por pedais e claro, dependia das flutuações da energia do dentista despendidas no ato… Penso que as alterações de rotação da dita cuja deveriam provocar “dores” de intensidades variadas em curto espaço de tempo… E, “quanto aos provadores, acrescentou ela, tenho verdadeiro pavor… Menos porque não goste de comprar roupas, porque gosto, mas não sou compulsiva como uma amiga que já deve ter perdido a conta de quantos sapatos tem em casa”…

Intervenho e afirmo que deve ser algo no componente genético das mulheres porque não conheço uma que não goste de sapatos…

Ela assente com a cabeça e continua a história afirmando que sua amiga teve de ir a uma festa e comprou uma sandália para combinar com a roupa… Quando já em casa foi procurar a peça descobriu que tinha guardada outra sandália, da mesma cor e modelo… Mas eu estava falando dos provadores, porque os detesto… Algum tempo atrás fui provar uma roupa… Estava lá dentro me preparando para vestir a roupa que pretendia comprar quando escorreguei e tentei me apoiar no que eu pensava ser uma parede daquela cabine… Para minha surpresa, levei um susto, eram apenas cortinas dispostas em “U” e caí de costas no provador ao lado… Naquele momento havia um homem só de cuecas que iria também vestir alguma roupa… Caí por cima dele e foi um “Deus nos acuda!”…

Aí foi a minha vez de juntar-me as gargalhadas da recepcionista… A mulher pareceu não se abalar, disse já ter superado o “trauma”, mas não esquecia o caso… Alguém avisou que o motorista dela já estava esperando e ela saiu, não sem antes abraçar a secretária e a atendente do gabinete… Depois olhou para mim e afirmou “não se preocupe, meu filho, não vai doer nada!”

Agradeci aquele conforto moral e depois que ela saiu fiquei imaginando que nada é melhor que o bom humor para encorajar um homem recalcitrante (sem nenhuma vocação para herói) num gabinete de dentista!

NOTAS:

O cantor e ator Ricky Shane é um mistério…

Filho de pai libanês e mãe francesa…

Foi para Paris com 15 anos…

Gravou  “Mamy Blue” em 1971 e literalmente “matou a pau”…

Depois sumiu… Dedicou-se ao cinema e teatro…

Casou, teve filhos…

Nunca mais ouvi falar dele… Uma pena!

Tinha talento, esta composição é um exemplo, vai…

http://www.youtube.com/watch?v=-lgpC4NTr0Y

A“INVENÇÃO” DO 7 DE SETEMBRO – por paulo timm / portugal.pt

 

 

Culminando a  Semana da Pátria, neste 7 de setembro, quecelebra o aniversário da Independência do Brasil, tropas militares, estudantes,organizações cívicas e alguns poucos  remanescentes vivos da Força ExpedicionáriaBrasileira – FEB- na II Guerra Mundial desfilarão pelas ruas de cidades de todoo país. Neste dia, em 1822, o Príncipe Regente de Portugal, indo ao encontro dos anseios da nação teria dado o famoso Grito do Ipiranga, que nos separou dePortugal.  Isso posto,  o 7 de setembro, está inscrito, hoje, como adata da Independência do Brasil. Não obstante, esta é apenas parte da verdade,senão, segundo alguns pesquisadores mais críticos, pura invenção. Por quê? Porque, na História, os acontecimentos passados são sempre pensados e transmitidos pelos recursos de cada época e, a partir destas redefinições, se renaturalizam, como se tivessem ocorrido exatamente como são contados.

 

Diversos autores já discutiram a moldura geral da nossa Independência, que se consagrou mediante um pouco glorioso Tratado com a Potência Colonial, mediado pela Inglaterra, justo no dia 07 de setembro de1925.

 

Outros pesquisadores procuram precisar com mais rigor o efetivo significado desta data três anos antes, no suposto Grito da Independência de D.Pedro I.  Demonstram eles  que houve poucos registros do  ato. E pouco crédito sobre ele, embora sempre fosse registrado como um momento importante, mas não “o momento” da Independência. Datam de 1862, data em que se viria  inaugurar a estátua eqüestre de D.Pedro I na Praça da Constituição no Rio de Janeiro, então capital, os depoimentos do Coronel Marcondes e do Tenente Canto, testemunhas do feito, os quais reproduziram outro relatório, do Padre Belquior, de 1826, este considerado peça chave do  momento da fundação do Brasil.  A verdade, porém,  é que só por volta de 1830, no auge da crise do I Império, que resultaria na saída de Dom Pedro I do trono, o 7 de setembro se consolidaria como data nacional.  Foi  Gottfried Heinrich Handelmann quem observou em sua Historia do Brasil, publicada  em1860, este fato, destacando que  “a princípio não se lhe ligou tanta importância (…)”. Outra data, a da Proclamação do Imperador, em 12 de outubro, lhe ofuscava, embora tenha  suscitado preocupações na Europa, que temia, na época, os excessos populistas.

 

Até 1930 , pois,  duas  datas eram celebradas como fundadoras da nação, por ordem de importância: Dia 12 de outubro e o  07 de setembro .

 

Por trás destas duas datas, a tensão política que dividia as opiniões entre liberais e conservadores. Estes, sintonizados com a vaga conservadora do Congresso deViena, em 1815 – e provavelmente mais próximos dos interesses remanescentes da Coroa Portuguesa na Corte de Dom Pedro I, optavam pela cerimônia protocolar, de caráter mais palaciano e militar, preferiam o 7 de setembro. Os liberais,inflamados pelo jornal Aurora Fluminense, que depois de 1927 seria editado por Evaristo da Veiga, preferiam o 12 de outubro, data em que a população teria participado festivamente da independência.

 

As duas datas foram largamente celebradas na primeira década da Independência do Brasil como fundadoras da nação e  ambas eram igualmente  prestigiadas pelo Imperador, mas com distintos significados.  Não foi  por acaso que a celebração do Tratado da Independência, mediado pela Inglaterra, acabou sendo  firmado a 7 de setembro de 1825. Contra ele,  , aliás, levantaram-se indignadas muitas vozes liberais, vez que assinalava a concessão, à penas (!),  da Independência e não sua conquista como resultado de anseios populares. Mas Dom Pedro I soube administrar durante este tempo a controvérsia, não sem os desgastes que o levariam à abdicação. Firmemente, com medidas extremas como a dissolução da Constituinte, e a draconiana repressão à Confederação do Equador,  foi  impondo, não só os diktats do referido Tratado, como, também,  o 7 de setembro como data nacional, amplamente reconhecida em todo o território. Não por acaso, também, contrariamente à data nacional em outros países, bastante festivas, esta sempre foi tomada como festividade cívico-militar.

Chegada a Regência, enfim, já não havia o que discutir, embora nenhum documento, nenhum monumento, nenhum registro viesse a demarcar o 7 de setembro como DATA NACIONAL.

Nos últimos anos,soterrada a história sob o peso dos anos, Governo e Sociedade vêem procurando popularizar mais o 7 de setembro, retirando-o dos quartéis, para uma celebraçãode tipo mais festiva, como deveria ser. Mas a timidez das celebrações demonstra que o esforço ainda levará algum tempo. Até lá, o brado do cronista…

Rastro do Curiosity em Marte pode ser visto do espaço

Nasa divulgou novas fotos da missão de exploração ao planeta vermelho.

Pouso do robô completa um mês nesta quinta (6).

Do G1, em São Paulo

Ponto no centro da foto é onde o Curiosity pousou. A partir dali, ele partiu até a posição atual, à direita da foto, deixando seu rastro (Foto: Nasa/JPL-Caltech/Universidade do Arizona)
Rastros do Curiosity são vistos do espaço
(Foto: Nasa/ JPL-Caltech/Universidade do Arizona)

Os rastros deixados pelo robô Curiosity no solo marciano já podem ser vistos do espaço. A Nasa divulgou nesta quinta-feira (6) novas fotos relativas à missão, que foram tiradas tanto por satélites posicionados na órbita de Marte quanto pelo próprio robô.

Nesta semana, o robô percorreu uma distância de 30,5 metros – exatamente 100 pés, medida usada nos Estados Unidos – em sua rota mais longa até o momento. Nos próximos dias, o robô fica parado, enquanto a Nasa faz testes no braço robótico e nos instrumentos científicos.

Nesta quinta, o robô completa um mês exato desde o seu pouso no planeta vermelho. A distância total que ele já percorreu até o momento é de 109 metros.

Na foto feita pelo Mars Reconnaissance Orbiter, um satélite da Nasa que monitora a superfície marciana, o rastro do Curiosity é claramente visível. Os pontos mais escuros no centro da imagem são o ponto de pouso do robô. A partir dali, ele partiu até a posição atual, à direita da foto, deixando seu rastro pelo caminho.

As fotos abaixo também foram divulgadas nesta quinta. A primeira mostra o rastro do Curiosity registrado pelo próprio robô. Na segunda, uma câmera posicionada no mastro central tirou uma fotografia de alta resolução do braço robótico, onde fica outra câmera.

Rastro do Curiosity em Marte, registrado pelo próprio robô (Foto: Nasa/JPL-Caltech)
Rastro do Curiosity em Marte, registrado pelo próprio robô (Foto: Nasa/JPL-Caltech)
Foto em alta resolução do braço do Curiosity (Foto: Nasa/JPL-Caltech)
Foto em alta resolução do braço do Curiosity (Foto: Nasa/JPL-Caltech)

Assange afirma que EUA rastreiam usuários por meio do Google

O jornalista e fundador do Wikileaks, Julian Assange, concedeu, nesta quinta-feira (30), a primeira entrevista desde que fugiu de sua prisão domiciliar e pediu asilo político à Embaixada do Equador em Londres. Na conversa, Assange qualificou a decisão do Equador de conceder-lhe asilo como “correta”, porque é uma pessoa “perseguida política pelos Estados Unidos e seus aliados”.

Na conversa com o jornalista Jorge Gestoso, transmitida pelo Canal Multiestatal teleSur e pela equatoriana Gama TV, Assange afirmou que se uma pessoa fizer algo que “vai de encontro à vontade dos Estados Unidos, algo de mau vai acontecer com ela”.A entrevista aconteceu nas dependências da embaixada do Equador no Reino Unido, onde Assange está alojado desde 19 de junho, data na qual deixou a prisão domiciliar e pediu ao governo de Rafael Correa a concessão de um asilo político. A resposta positiva para o pedido veio no dia 16 de agosto, momentos após o chanceler equatoriano, Ricardo Patiño, alegar que o governo britânico pretendia invadir a representação diplomática para prender o jornalista. O governo britânico nega-se a conceder um salvo-conduto para o jornalista deslocar-se até o aeroporto e seguir para Quito. “Eles (EUA) já disseram em documentos oficiais que não se trata somente de acusar Julian Assange por espionagem, mas de parar as atividades do Wikileaks”, relatou Assange.

Em um dos momentos da entrevista, o ativista australiano afirmou que está em marcha uma espécie de “totalitarismo transnacional”, a partir da espionagem deliberada de todos os dados pessoais disponíveis na internet, assim como todas as ligações telefônicas. “Agora podem interceptar tudo, não é necessário preocupar-se com algum suspeito. Simplesmente interceptam-se todos e armazena-se tudo”, disse.

Ele afirmou que empresas de espionagem já possuem tecnologia para armazenar todos os dados pessoais e fornecer pesquisas cruzando informações. “O jogo novo é a interceptação, registra-se tudo, é mais barato registrar tudo desde os EUA e armazenar. Dentro de alguns anos, se te transformas em uma pessoa interessante para as agências dos EUA e seus amigos, dizem: revisemos o que estava fazendo o senhor Assange nestes últimos anos, quem são seus amigos, com quem ele se comunicou”, explicou o jornalista, denominado o tal “totalitarismo transnacional”, porque, para ele, não só os EUA estão praticando esse monitoramento, mas também Alemanha e outras importantes economias mundiais.

“Quando fazemos uma pesquisa no Google, ele registra tudo. O Google trabalha desde os EUA e te conhece melhor do que você mesmo. Se você não recorda o que buscava há dois dias, há três horas, o Google recorda. Conhece-te melhor que tua mãe. Essas informações são armazenadas pelo Google, mas também são interceptadas pelo Conselho Nacional de Segurança dos Estados Unidos”, contou.

No início do mês de agosto, o WikiLeaks publicou uma lista de 170 companhias de espionagem que atualmente já prestam estes serviços para diversos governos ocidentais. O jornal britânico MailOnlinepublicou reportagem em 14 de agosto onde descreve que, segundo e-mails de funcionários da empresa de espionagem Strator, vazados pelo Wikileaks, qualquer pessoa que aponte uma câmara para algum monumento em Nova Iorque será registrado como suspeito de terrorismo e será fotografado pela vasta rede de câmeras conectadas ao governo estadunidense. Segundo o e-mail, a empresa que fornece este serviço é a estadunidense Abraxas e o sistema, chamado TrapWire, já funciona no Reino Unido, Canadá e vários estados dos EUA.

América Latina

Nas últimas semanas, o Equador recebeu o apoio da Organização dos Estados Americanos (OEA), da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba) e da União de Nações Sul-americanas (Unasul) pela concessão do asilo à Assange. O jornalista elogiou e agradeceu a decisão dos países da América Latina em apoiar a decisão do Equador em conceder-lhe asilo político. “Penso que é importante essa solidariedade latino-americana”, disse. O jornalista vê a América Latina como um bloco alternativo a estes movimentos autoritários e de ameaças às liberdades individuais.

O entrevistador, Jorge Gestoso, também perguntou a Assange sobre a acusação que pesa sobre ele de “abuso sexual”. Ele lembra que nenhuma mulher compareceu a uma delegacia para apresentar queixa contra ele, mas apenas a própria polícia suíça. O jornalista não quis falar com mais detalhes sobre a acusação, afirmando que são esdrúxulas, e comparou o caso com os porcos. “Quando uma acusação como essa circula nos meios de comunicação, não se pode responder. Porque é como lutar com um porco, você se suja com lama, mas isso convém às pessoas que lançam a lama”, explicou.

Afirmando que acredita na diplomacia, Assange calcula que poderá sair da embaixada do Equador em “seis a doze meses”, dependendo dos acontecimentos internacionais. Diz também que deve continuar “a luta” de uma “organização que crê nos direitos humanos”, como descreveu o Wikileaks.

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Fonte: Brasil de Fato

Governo recupera R$ 2,2 mi dos R$ 124 bi desviados via Banestado

Esta será a terceira parcela repatriada dos recursos remetidos ilegalmente para o exterior, entre 1996 e 2002, no auge das privatizações tucanas. Mas as investigações sobre o caso continuam cercadas por uma cortina de fumaça. O Ministério da Justiça não divulga informações sobre os processos no exterior. No Judiciário brasileiro, as ações estão pulverizadas em diferentes varas e a maioria corre em segredo de justiça. No Legislativo, a CPI do Banestado (2003) terminou em pizza e a CPI da Privataria (2011) segue engavetada.

Najla Passos

Brasília - O governo brasileiro conseguiu recuperar R$2,2 milhões dos recursos públicos remetidos ilegalmente ao exterior via Banco do Estado do Paraná (Banestado), no esquema de corrupção que abalou o país entre 1996 e 2002, no auge das privatizações do governo Fernando Henrique Cardoso. De acordo com o diretor do Departamento Internacional da Advocacia Geral da União (AGU), Boni de Moraes Soares, a parcela que será repatriada já é a terceira relativa ao caso. As duas anteriores representavam valores equivalentes. Mas o percentual desviado é bem mais robusto: algo em torno de R$ 124 bilhões, conforme o deputado Protógenes Queirós (PCdoB), que é delegado da Polícia Federal (PF) e atuou no caso.

Soares conta que os R$ 2,2 milhões estavam bloqueados, desde 2005, em uma conta aberta nos Estados Unidos, por três brasileiros já condenados em primeira instância por envolvimento no caso Banestado. Para reaver o montante, não bastaram os pedidos de devolução feitos pelo Ministério da Justiça (MJ), com base em tratados de cooperação internacional. Foi necessário comprovar, na Corte Distrital de Nova York, que o dinheiro depositado no banco norte-americano era fruto de corrupção. Causa que a AGU assumiu em 2010, segundo ele.

O MJ, que é responsável pela repatriação, não divulga a identidade dos brasileiros e mesmo o nome da instituição financeira. Dez anos após o fim do governo que conduziu as grandes privatizações brasileiras, o escândalo do Banestado permanece cercado por uma cortina de fumaça. As ações contra executivos do banco, doleiros e usuários do sistema fraudulento do banco estão esparsas em diferentes varas da justiça brasileira, a maioria sob segredo de justiça, o que dificulta seu acompanhamento.

A reportagem de Carta Maior perguntou ao secretário nacional de Justiça, Paulo Abrão, quanto, exatamente, o Brasil já recuperou dos recursos desviados via Banestado, quanto resta bloqueado no exterior aguardando o curso dos processos legais e qual o andamento das ações penais relativas ao caso. “A maior parte dos processos corre em segredo de justiça. Como o MJ só atua quando acionado pelo Ministério Público ou pelos juízes responsáveis pelas ações, não nos cabe informar detalhes”, respondeu Abrão.

Uma CPI abortada e outra engavetada
No Legislativo, as investigações sobre o caso não tiveram êxito. A CPI do Banestado, aberta em 2003, terminou em pizza: um acordão indigesto entre PSDB e PT poupou das investigações uma farta carteira de clientes vips da “lavanderia”. Entre eles, alguns já comprovadamente culpados, como o deputado Paulo Maluf (PP-SP), o juiz Nicolau dos Santos Neto, e a fraudadora da Previdência, Jorgina de Freitas. E outros sob os quais pesavam graves indícios, como o publicitário Marcos Valério (que, à época, atendia o governo tucano de Minas Gerais), o ex-senador Jorge Bornhausen (do antigo PFL) e o candidato pelo PSDB à prefeitura de São Paulo, José Serra.

O deputado Protógenes Queirós não desiste de esclarecer os fatos. No final do ano passado, apresentou à mesa diretora da Câmara o pedido de abertura de uma nova comissão parlamentar de inquérito para investigar o caso, batizada de CPI da Privataria. Segundo ele, o lançamento do livro Privataria Tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Jr, em 2011, trouxe novas evidências da corrupção praticada no país pelo esquema ilícito do Banestado. E reascendeu o anseio por investigações.

Mesmo cumprindo todas as formalidades exigidas pela casa, a comissão, hoje, continua engavetada, enquanto a CPI do Cachoeira, proposta vários meses depois, já está caminhando para a conclusão. “O que os partidos alegaram, na época, é que era melhor esperar as eleições deste ano, para não parece que a CPI era uma armação política para minar a candidatura de Serra”, explicou. Esta semana, porém, ele vai voltar a cobrar a instalação da CPI da Privataria. Como o Serra despenca nas pesquisas eleitorais e pessoas ligadas ao PT estão sendo julgadas por crimes semelhantes no processo do “mensalão”, o deputado avalia que a conjuntura está mais favorável.

Se há participação de tucanos nos desvios do Banestado? Protógenes aposta que sim. Segundo ele, empresários interessados em proteger suas reservas da instabilidade fiscal dos anos 1990 também usaram a lavanderia, mas o grosso do dinheiro era proveniente dos recursos públicos desviados das privatizações do governo Fernando Henrique Cardoso. “Os personagens que encontrei na investigação coincidem com os retrados no livro Privataria Tucana, o que nos leva a crer que o esquema foi, sim, usado para lavar dinheiro do PSDB”, afirma.

Na obra, o jornalista comprova o envolvimento com o esquema de remessa ilegal de dinheiro para o exterior de dois parentes próximos de Serra: o primo Gregório Martin Preciado e a filha Verônica Serra. O relatório da PF sobre o caso Banestado indica também um possível envolvimento direto do próprio candidato à prefeitura paulistana: extratos fornecidos pelo banco norte-americano JP Morgan Chas apontam que Serra era uma das pessoas autorizadas a movimentar a conta denominada “tucano”, que teria recebido US$ 176,8 milhões, entre 1996 e 2000.

Avanços nas investigações de lavagem
A sofisticação do esquema fraudulento do Banestado prejudicou em muito as investigações iniciadas há uma década. Conforme o diretor do Departamento Internacional da AGU, o dinheiro desviado dos cofres públicos era remetido para uma agência do próprio Banestado nos Estados Unidos. Em Privataria Tucana, Amaury relata que, de lá, o dinheiro circulava em várias outras contas, de forma a despistar sua origem, para só depois ser depositado em paraísos fiscais ou retornar, já lavado, às mãos de seus verdadeiros donos.

Até 2003, o Brasil também não contava com dispositivos eficientes para combater a prática. Foi só após a posse do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva que os mecanismos destinados ao combate de crimes que resultam em evasão de divisas foram desenvolvidos. Segundo o secretário nacional de Justiça, a criação da Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro (Enccla) mudou a forma do país processar a investigação desses crimes. O fórum, que congrega 60 órgãos e entidades dos três poderes da República envolvidos com ao combate à lavagem, permitiu a troca de informações, dinamizando prevenção e investigação.

Abrão destaca também a implantação dos Laboratórios de Lavagem de Dinheiro (LABs) , classificados por ele de “escritórios de produção de informação estratégica”. Tratam-se de software e hardware que fazem processamento de dados em massa, indicando as relações que se estabelecessem entre as diversas contas em que os recursos ilícitos circulam. Permitem, portanto, estabelecer a origem e a destinação do dinheiro lavado que, por estratégia de ocultamento, costumam transitar em diferentes contas, de diferentes instituições, antes de chegarem às mãos dos seus verdadeiros destinatários.

O secretário afirma que, hoje, o Brasil possui R$ 3 bilhões de ativos ilícitos bloqueados em outros países, remetidos para o exterior tanto pelo Banestado quando por outros esquemas ilegais de evasão de divisas e lavagem. O montante processado pelos LABs, só de 2009 para cá, chega a R$ 11 bilhões, referentes a 600 casos. “Nossa capacidade de bloqueio de recursos é maior do que a de repatriação porque, no último caso, dependemos da tramitação dos processos aqui no país e nos países estrangeiros”, esclareceu.

O diretor da AGU também avalia que o país tem avançado muito na recuperação do dinheiro público desviado por corrupção. Ele lembra que, na semana passada, o órgão fechou um acordo que resultou na maior operação do gênero, que possibilitará o retorno aos cofres da União dos R$ 468 milhões destinados à construção do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo (TRT-SP), que haviam sido desviados pelo Grupo OK, do ex-senador Luís Estevão (PP-DF). Do total, R$ 80 milhões foram pagos à vista.

O restante foi parcelado em 96 prestações de R$ 4 milhões. E para garantir a recuperação do total do valor, o órgão mantém penhorados 1.255 imóveis de Estevão, com valor correspondente à 150% do que ele deve ao erário.

Epidemia de indiferença – por atila roque / brasilia.df

O Brasil convive, tragicamente, com uma espécie de “epidemia de indiferença”, quase cumplicidade de grande parcela da sociedade e dos governos, com uma situação que deveria estar sendo tratada como uma verdadeira calamidade social. Em 2010, 8.686 crianças e adolescentes foram vítimas de homicídio. Estamos falando ao equivalente a cerca de 43 aviões da TAM, como o do trágico acidente em 2007, lotados de crianças e adolescentes.

De 1981 a 2010, o país perdeu assassinadas 176.044 pessoas com 19 anos ou menos, sendo que meninos representam em torno de 90% do total. Esses dados horripilantes nos alcançaram mais uma em meados de julho, quando foi divulgado o “Mapa da Violência 2012 – Crianças e Adolescentes do Brasil”, do pesquisador Júlio Jacobo Waiselfisz, coordenador de Estudos sobre a Violência da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) no Brasil. Os dados e análises compilados sistematicamente nos últimos anos pelo Mapa revelam um cenário de dor e horror que não tem obtido a atenção que merece na sociedade brasileira.

Passados mais de uma década de governo do PT e mais de trinta anos de regimes democráticos a área de segurança pública permanece praticamente intocada. Arraigada em um modelo arcaico que não apenas relega aos Estados o grosso das responsabilidades com a implementação das políticas de segurança e que mantém um arcabouço institucional de polícia militarizado que penaliza a sociedade e, em última instância, os próprios profissionais do setor: mal remunerados, mal treinados e sistematicamente desvalorizados. Uma das consequências são os índices de violência e homicídios associados as más práticas da polícia. Somente no Estado de São Paulo, onde a taxa geral de homicídios voltou a subir depois de um período de queda, a polícia matou nos últimos cinco anos nove vezes mais que o total de mortes decorrentes da ação policial em todo os EUA.

A taxa de homicídios na população entre 0 e 19 anos em 1980 era de 3,1 para cada grupo de 100 mil. Em 2010, foi de 13,8

O exemplo mais recente desse descaso do Estado brasileiro em relação a gravidade do tema foi a notícia divulgado ao final do ano passado que o tão esperado Plano Nacional de Redução de Homicídios havia sido engavetado pelo Ministério da Justiça por orientação expressa da presidente Dilma, que preferia concentrar esforços na ampliação e modernização do sistema penitenciário, no combate ao crack e no monitoramento das fronteiras, adiando mais uma vez a abordagem integrada do problema. Em fevereiro deste ano o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, anunciou que a redução dos homicídios seria uma prioridade do novo Plano Nacional de Enfrentamento da Violência. Infelizmente muito pouco e muito tarde para um problema que se repete todos os anos e para o qual não faltam análises, diagnósticos e propostas colocadas em diferentes graus em debate e experimentadas em pequena escala ao longo das últimas duas décadas.

As chances de uma criança ou adolescente brasileiro morrer assassinado são maiores hoje do que eram há 30 anos, colocando o país na quarta pior colocação numa comparação com outros 91 países. Em 1980, a taxa de homicídios na população entre zero e 19 anos era de 3,1 para cada 100 mil pessoas. Pulou para 7,7 em 1990, chegou a 11,9 em 2000 e alcançou 13,8 em 2010. Um crescimento de 346,4% em três décadas, em contraste com a mortalidade provocada por problemas de saúde, que teve queda acentuada. Quando considerada toda a população, a taxa de homicídios em 2010 foi de 27 por 100 mil habitantes. Considera-se que há uma epidemia de homicídios quando a taxa fica acima de 10 por 100 mil.

 

De fato, o Brasil é o país com o maior número bruto de homicídios no mundo, ocupando o sexto lugar quando considerado a proporção em relação ao tamanho da população do país. E os jovens, em sua maioria crianças e adolescentes, meninos, ocupam uma parcela desproporcional dessas mortes, sem que isso vire um escândalo público nacional. Passado o momento da divulgação dos dados voltamos a situação de quase inércia em que as medidas tomadas não incorporam o sentido de urgência e emergência que a questão merece.

O fim trágico da vida desses jovens vem acompanhado da anulação simbólica de suas histórias, a dor das famílias e dos amigos ignorada, sonhos e trajetórias de vidas suprimidos. Isso ocorre devido à naturalização da violência e a um grau assustador de complacência em relação a essa tragédia. É como se estivéssemos dizendo, como sociedade e governo, que o destino deles já estava traçado. Estavam destinados à tragédia e à morte precoce, violenta, porque nasceram no lugar errado, na classe social errada e com a cor da pele errada, em um país onde o racismo faz parte do processo de socialização e do modo de estruturação do poder na sociedade.

São jovens submetidos constantemente a um processo que os transforma em ameaça, os desumaniza, viram “delinquentes”, “traficantes”, “marginais” ou, às vezes, nem isso, apenas “vítimas” de um contexto de violência e discriminação em relação ao qual a sociedade prefere virar às costas e olhar para o outro lado, com raras exceções.

É preciso quebrar esse padrão de violência e indiferença e compreender que o país está perdendo o melhor da sua juventude. Esses meninos não estavam destinados a morte violenta, mas sim a serem médicos, artistas, engenheiros, professores, filhos e pais, avôs e presidentes da República.

Precisamos criar alternativas, abrir canais de conversação na sociedade sobre essa tragédia, combater a violência armada, inclusive policial, estabelecer instrumentos de participação e controle cidadão sobre o desenho e implementação das políticas públicas de segurança. Reconhecer que isso é uma questão nacional, um problema do estado e central à consolidação da democracia. Precisamos quebrar a apatia, o silêncio e a cumplicidade passiva com o extermínio dos jovens brasileiros.

Atila Roque é diretor executivo da Anistia Internacional Brasil

Leitor e Chuva – por jorge lescano / são paulo.sp

Chovia com violência e as pessoas se recolhiam na entrada do banco. Esperavam impacientes que o temporal amainasse para ir embora rumo aos seus afazeres; aparentemente resignado ao capricho do clima, o homem tirou um livro de sua bolsa a tiracolo.

Chuva torrencial.

Sob a laje de concreto

um casal de pardais.

Um leve sorriso modificou-lhe as feições, a turma de garotos comemora a chuva dançando na tormenta entre gritos e gargalhadas. Mesmo interrompida no espaço por prédios, domesticada por encanamentos, civilizada, enfim, a chuva é uma festa da natureza. Repentinamente o leitor decidiu contemplar o primitivo espetáculo do aguaceiro.

A ventania cria vagas que desabam sobre as pessoas apinhadas no refugio acanhado. A rua alaga-se, os carros levantam pequenas ondas ao passar espirrando naqueles que se atrevem a andar no temporal. Os carros perfuram a tarde. A chuva é tão densa que se pode sentir os esforço do veículo para abrir caminho, e este espaço é quase visível quando o carro perfura a massa líquida que cede na parte anterior e vai se fechando novamente a medida que ele avança, de modo que se o carro não estivesse alguns metros adiante no momento seguinte se poderia pensar que é a massa de água que se movimenta em sentido contrário envolvendo o veículo do capô ao porta-malas. As vagas são oblíquas pela ação do vento, isto aumenta a sensação de imobilidade do trânsito de veículos. Tudo acontece em um instante, a sua percepção é simultânea a ponto de ser quase imperceptível no momento em que acontece, e só depois, ao lembrar o fato, é que a observadora toma ciência do fenômeno.

Na outra calçada, na janela de um primeiro andar, alguém está imóvel contemplando a rua. Talvez um homem atarefado que vê frustrar-se uma reunião importante para seus negócios – quando chove o trânsito na cidade vira um caos –, ou uma mãe preocupada com seu filho que ainda não chegou do colégio. Talvez uma criança que se maravilha ao perceber pela primeira vez que a chuva é um espetáculo musical de beleza mágica, embora preocupe o homem de negócios e a mãe do rapaz que demora em chegar.

A figura permanece imóvel além da densa cortina líquida, bem protegida pela vidraça. Não importa quem é. Faz parte da paisagem – monocromática agora – deste início de outono.

Árvores antigas balançam suas frondosas copas ao sabor da ventania, um arbusto baixo se sacode feito cachorro depois do banho.

O catador de papel, provável morador de rua, atrelado às barras de madeira, puxa sua carroça contra o vento, sob o veículo, seu cão de estimação de raça indefinida acompanha o passo lerdo do patrão. O chapéu do homem despeja grossos fios de água diante dos seus olhos. Todo seucorpo está encharcado, tomou banho em plena rua.

Um flash de luz celeste ilumina todo o cenário, por um instante a cena fica congelada, o espectador postado na janela tem uma instantânea do grupo.

O leitor conserva seu livro aberto e olha a chuva. A moça de vestido preto protege seu peito do vento com uma pasta branca. No horário do almoço a jovem havia consumido protetor solar e sabonete e dentifrício e talco para os pés e para o corpo e creme para as mãos e para prevenir rugas no rosto e xampus e tinturas para o cabelo e fixador e creme umectante e desodorante em pasta e aerossol e esmaltes para as unhas e batons para o dia e para a noite e sombra para os olhos e rímel para os cílios e supercílios, pois ela está ligeiramente acima do peso e é oportuno completar a ausência de gorduras na comida com cosméticos,mesmo quando se é apenas heroína de uma história literária. 

Um motociclista veste a brilhante roupa impermeável e as galochas para enfrentar a intempérie, deve entregar documentos ou mercadoria antes do fim do expediente comercial. Nada mais pode ser visto no lampejo do raio. O trovão estremece o ar, afasta-se ribombando em ziguezague.

A moça estica a mão espalmada para conferir se a chuva parou, como as horas, a água lhe escorre entre os dedos. Diminui a força d’água, ou é a fúria do vento que decresce e dá a sensação de que a chuva está amainando. Lentamente o grupo acorda. Em câmera lenta os personagens retornam à vida. De fato, a chuva está mais leve. A figura da janela desaparece.

Não havia o cheiro de terra molhada que tanto lhe agradava quando criança e ainda não era noite para contemplar o rastro lusco-fusco das rodas dos carros sobre o asfalto. Brilhos fugitivos, um dos prazeres visuais da chuva noturna na cidade. Os guarda-chuvas, apesar de perigosos para seus óculos, especialmente se portados por mulheres, sempre mais baixas que ele, também mereceriam a atenção do pintor. Amava a chuva e sabia que não poderia viver numa cidade dominada pelo sol. A chuva sempre lhe trazia lembranças de sua cidade que lhe parecia nórdica com o céu de nuvens baixas e escuras de abril e agosto,

No fim do outono a cidade vive sua época mais bela, com as árvores que perdem a folhagem enfeitando o chão com cores que vão do amarelo ao terra-sombra passando pelo ocre, o sépia, o laranja, e ouve-se o crepitar das folhas ao andar sobre elas. O sol pálido cria longos crepúsculos feéricos que convidam a passeios distraídos sem rumo, perambular a esmo até as luzes serem acesas. Quando o chuvisco apressa a noite, ele veste a sua velha capa de chuva e sai a vagar. Nesses anoiteceres sente-se na Londres dos romances de mistério do século XIX. Longe dela percebe que ama a sua cidade que provavelmente nunca mais verá. O homem fechou o livro, guardou-o na bolsa, levantou a gola do casaco, abaixou a cabeça e adentrou na massa líquida da tarde.

As árvores conservariam em suas copas agitadas os rastros da tempestade e por longas horas continuariam a despejar gotículas iridescentes de cores variegadas ao ritmo das luzes que aos poucos se acendem na cidade e dissolvem os objetos em massas indefinidas de cor pastel. O crepúsculo distribui seu cromatismo sobre formas evanescentes que aos poucos desaparecem pela invasão das sombras noturnas. À luz dos faróis, o chuvisco é um redemoinho de alfinetes.

CONTRA O ‘GAUCHISMO” IDIOTA – guilherme.f.x / porto alegre. rs

Quem vem a Porto Alegre e passa em frente ao acampamento farroupilha, vindo de fora do Rio Grande do Sul, não deve entender nada. Não basta permitir que se instalem as malocas da Vila do Chocolatão: os tradicionalistas brindam a cidade com um visual que rivaliza com os desvalidos e excluídos urbanos. É um imenso malocão (favela é termo carioca, considerado menos pejorativo – caiu no gosto da terra e está em franca substituição pelo politicamente correto comunidade; aqui é maloca mesmo e nada saudosa).

Não tenho mais paciência com este gauchismo idiota, com estas representações de farrapos usando bombacha em desacordo com a história. Os ‘’pantalones turcos’’ excedentes da guerra da Criméia só foram desovados pelos ingleses no Prata e caíram no gosto campeiro após as nossas façanhas. Não aguento aqueles que se transformam e passam a usar impostação vocal de Paixão Cortes quando setembro chega com barro e bosta de cavalo na mui leal e valerosa.

Esta cultura de CTG é muito esquisita mesmo. O alicerce de tudo, CTG com patrão, capataz, sota e primeira prenda, reproduz o modelo estancieiro de exploração do homem do campo. A grande virtude do gaúcho modelar é a lealdade à terra, entendida aí como propriedade do patrão ao qual o gaúcho devota uma fidelidade canina. Outro fato curioso é o grande numero de patrões de CTG com nome italiano, mesmo na campanha. O gringo trabalhador após descer a serra e prosperar no pampa está assumindo o seu lugar na ordem social nativista. Não vou nem comentar as primeira prendas Jeniffer anunciadas no sistema de som, deve ser a tal globalização no gauchismo.

Na minha geração fomos invadidos pelo Fogaço-Crioulismo (não é meu o conceito), movimento tradicionalista que trouxe para a juventude dos anos 80 o orgulho de tomar mate em público. Misturava, numa miríade de festivais quase semanais, gauchismo com Woodstock; bombacha e alpargatas com maconha e bebedeira. Aumentou o consumo de erva mate, o preço subiu e salvamos nossos ervais que estavam sendo dizimadas pela monocultura.

Voltando ao acampamento, aquilo que era alma popular está virando negocio pelas beiradas. O gauchinho da volta, que fazia do setembro seu carnaval de um mês, tirando férias do emprego para passar acampado com os amigos, de fordunço, já não tem mais espaço. Agora temos piquetes de empresas, entidades e associações de aquinhoados funcionários públicos. Estes senhores desvestem-se de gente e fantasiados a caráter botam o pé no barro (duplo sentido:lama e bosta). Mas eles não montam piquete, não fazem comida e não zelam pelo espaço nas madrugadas vazias. Aí o pobre gauchinho agora excluído do seu antigo piquete se emprega com os ‘’doutores’’ por algum cobre, voltando a reproduzir num círculo trágico o modelo de exploração pampeano que tão bem representa.

Antes que me sentem o mango devo dizer que tenho alguma vivência campeira e muita simpatia pelo modo de vida lá de fora. Seguidamente me perguntam de onde eu sou pois devo ter adotado sem saber modos que são estranhos a um porto alegrense urbano. Conheci o gaúcho campeiro da região central, aquele do modelo estancieiro do CTG. Tive contato com o gaúcho missioneiro da Bossoroca, os homens mais primitivos e rústicos que vi lá nos anos 70. Estive muito próximo do gaúcho da região sul dos banhados pra baixo da Quinta. Tenho alguma deficiência no gauchismo dos campos de cima da serra. Conheço de ouvir falar, de rica tradição tropeira.

Então senhores, cultivem suas tradições, não deixem tudo virar um carnaval espetaculoso com assessores cariocas e cavalos de isopor ridículos. Moralizem o acampamento, talvez reduzindo a densidade da costaneira, com mais coletividade associativa cultural e menos individualidades piqueteiras, empresas e associações. O Rio Grande Gaúcho é maior que isso, mais Rio Grande Castilhista positivista sem ode ao modelo oligárquico, que se vigesse ainda nos faria mais parecidos com os coronéis que criticamos para além do Mambituba.

Mulher de Cachoeira: ‘chefe da revista VEJA é empregado do meu marido’

 

Postado em: 31 ago 2012 às 11:36

 

Afirmação foi feita por Andressa, mulher de Cachoeira, ao juiz federal Alderico Rocha Santos. Se deu durante tentativa de chantagem sobre ele, para que tirasse o marido da penitenciária da Papuda. Santos registrou ameaça à justiça federal

andressa cachoeira veja

Andressa Mendonça, mulher de Cachoeira, finalmente admite relação de chefe da Veja com seu marido: ‘empregado e patrão’. Foto: divulgação

É muito mais surpreendente, perigosa e antiética a relação que une o contraventor Carlinhos Cachoeira e o jornalista Policarpo Júnior, editor-chefe e diretor da sucursal de Brasília da revista Veja, a julgar pela ameaça feita pela mulher de Cachoeira, Andressa Mendonça, ao juiz federal Alderico Rocha Santos.

Documento obtido com exclusividade por 247 contém o ofício à Justiça Federal de Goiás, datado de 26 de julho, assinado pelo juiz Rocha Santos, no qual ele relata como foi e quais foram os termos da ameaça recebida de Andressa. A iniciativa é tratada como “tentativa de intimidação“. Ele lembrou, oficialmente, que só recebeu Andressa em seu gabinete, na 5ª Vara Federal, em Goiânia, após muita insitência da parte dela.

Com receio do que poderia ser a conversa, Rocha Santos pediu a presença, durante a audiência, da funcionária Kleine. “Após meia hora em que a referida senhora insistia para que este juiz revogasse a prisão preventiva do seu marido Carlos Augusto de Almeida Ramos, a mesma começou a fazer gestos para que fosse retirada do recinto da referida servidora”.

P.P.

O MAPA – de mario quintana / porto alegre.rs

 

 

Olho o mapa da cidade

Como quem examinasse

A anatomia de um corpo…

(E nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita

Das ruas de Porto Alegre

Onde jamais passarei…

Há tanta esquina esquisita,

Tanta nuança de paredes,

Há tanta moça bonita

Nas ruas que não andei

(E ha uma rua encantada

Que nem em sonhos sonhei…)

Quando eu for, um dia desses,

Poeira ou folha levada

No vento da madrugada,Serei um pouco do nada

Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar

Pareça mais um olhar,

Suave mistério amoroso,

Cidade de meu andar

(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu

VARGAS E A PRESENÇA DO ESTADO NA ECONOMIA – por mauro santayana

 

Este site se associa à homenagem que Santayana presta a Getúlio Vargas, o  Maior Estadista que este País já teve,  Mártir da nacionalidade, do Povo Brasileiro, e reproduz seu artigo.

 

 

(JB)- Em 24 de agosto de 1954, os homens de minha geração chegavam à maioridade. Naquele dia, pela manhã, cheguei ao Rio, enviado pelo Diário de Minas, de Belo Horizonte, a fim de cobrir o velório de Vargas e a reação do povo carioca ao suicídio do Presidente. A Presidente Dilma Rousseff era uma menina de seis anos. Não poderia saber o que significava aquele gesto de um homem que mal passara dos 70, e ocupara o centro da vida brasileira naqueles últimos 24 anos.

As jornadas anteriores haviam sido enganosas, o que costuma ocorrer na História, desde o episódio famoso da frustrada queda de Richelieu. Os meios de comunicação haviam ampliado o suposto atentado contra Carlos Lacerda – obscuro até hoje – e atribuído à responsabilidade ao Presidente, tentando fazer crer que o Palácio do Governo se transformara em valhacouto de ladrões e assassinos. Houve quase unanimidade contra Getúlio. Quando passei pela Praça 7, em Belo Horizonte, a caminho do aeroporto da Pampulha, entre manifestantes de esquerda, um jovem sindicalista, meu amigo, pedia aos gritos, pelo megafone, a prisão do Presidente. Desci do táxi e lhe dei a notícia, com os avisos de meu pressentimento: dissolvesse o grupo, antes que os trabalhadores, ao saber da morte do Presidente, reagissem na defesa do líder desaparecido.

Durante a viagem ao Rio, que durava hora e meia, organizei minhas idéias. Entendi, em um instante, que a ação coordenada contra Vargas nada tinha a ver com o assassinato de um oficial da Força Aérea, transformado em guarda-costas do jornalista Carlos Lacerda – isso, sim, ato irregular e punível pelos regulamentos militares. Lacerda, ferido no peito do pé, não permitiu que o revólver que portava fosse periciado pela polícia. Açulada e acuada pela grande imprensa, a polícia nunca investigou o que realmente houve na Rua Tonelero.

Vargas fora acossado pelos interesses dos banqueiros e grandes empresários associados ao capital norte-americano. Ao ouvir, pelo rádio, a leitura de sua carta, não tive qualquer dúvida: Getúlio se matara como ato de denúncia, não de renúncia. Morrera em defesa do desenvolvimento soberano de nosso povo.

Sei que não basta a vontade política do governante para administrar bem o Estado. Mas uma coisa parece óbvia a quem estuda as relações históricas entre o Estado e a Nação: o Estado existe para buscar a justiça, defender os mais frágeis, uma vez que não há igualdade entre todos. Por isso, algumas medidas anunciadas pelo governo inquietam grande parcela dos brasileiros bem informados. É sempre suspeito que os grandes empresários aplaudam, com alegria, uma decisão do governo. Posso imaginar a euforia dos lobos junto a uma ninhada de cordeiros. Quando os ricos aplaudem, os pobres devem acautelar-se.

O regime de concessões vem desde o Império. As vantagens oferecidas aos investidores ingleses, no alvorecer da Independência, levaram à Revolução de 1842, chefiada pelo mineiro Teófilo Ottoni e pelos paulistas Feijó e Rafael Tobias de Aguiar, e conhecida como a Revolução do Serro, em Minas, e de Sorocaba, em São Paulo. O Manifesto Revolucionário, divulgado em São João del Rei por Teófilo Ottoni, e assinado por José Feliciano Pinto Coelho, presidente da província rebelde, é claro em seu nacionalismo, ao denunciar que os estrangeiros ditavam o que devíamos fazer “em nossa própria casa”.

A presidente deve conhecer bem, como estudiosa do tema, o que foi a política econômica de Campos Salles e seu ministro Joaquim Murtinho, em resposta à especulação financeira alucinante do encilhamento. O excessivo liberalismo do governo de Prudente de Moraes e de seu ministro Ruy Barbosa, afundou o Brasil, fazendo crescer absurdamente o serviço da dívida – já histórica –, obrigando Campos Salles (que morreria anos depois, em relativa pobreza) a negociar, com notório constrangimento, o funding loan com a praça de Londres. O resultado foi desastroso para o Brasil. Os bancos brasileiros quebraram, um banco inglês em sua sucursal brasileira superou o Banco do Brasil em recursos e operações e, ainda em 1899, a Light iniciava, no Brasil, o sistema de concessões como o conhecemos. O Brasil perdeu, nos dez anos que se seguiram, o caminho de desenvolvimento que vinha seguindo desde 1870.

Durante mais de 50 anos, a energia elétrica, a produção e distribuição de gás e o sistema de comunicações telefônicas no eixo Rio-SP-BH foram controlados pelos estrangeiros. Ao mesmo tempo, os combustíveis se encontravam sob o controle da Standard Oil. A iluminação dos pobres se fazia com o Kerosene Jacaré, vendido em litros, nas pequenas mercearias dos subúrbios, cujos moradores não podiam pagar pela energia elétrica, escassa e muito cara. O caso das concessões da Light é exemplar: antes do fim do prazo, a empresa, sucateada, foi reestatizada, para, em seguida, ser recuperada pelo governo e “privatizada”. Como se sabe foi adquirida pela EDF, uma estatal francesa, durante o governo de Fernando Henrique. Novamente sucateada, foi preciso que uma estatal brasileira, a Cemig, associada a capitais privados nacionais, a assumisse, para as inversões necessárias à sua recuperação.

Vargas não tinha como se livrar, da noite para a manhã, dessa desgraça, mas iniciou o processo político necessário, ainda no Estado Novo, para conferir ao Estado o controle dos setores estratégicos da economia. Só conseguiu, antes de ser deposto em 1945, criar a CSN e a Vale do Rio Doce. Eleito, retomou o projeto, em 1951 e o confronto com Washington se tornou aberto. O capital americano desembarcara com apetite durante o governo Dutra, na primeira onda de desnacionalização da jovem indústria brasileira. Getúlio, na defesa de nossos interesses, decidiu limitar a remessa de lucros. Embora os banqueiros e as corporações estrangeiras soubessem muito bem como esquivar-se da lei, a decisão foi um pretexto para a articulação do golpe que o levaria à morte.

O Estado pode, e deve, manter sob seu controle estrito os setores estratégicos da economia, como os dos transportes, da energia, do sistema financeiro. Concessões, principalmente abertas aos estrangeiros, em quase todas as situações, são um risco dispensável. O Brasil dispõe hoje de técnicos e de recursos, tanto é assim que o BNDES vai financiar, a juros de mãe, os empreendimentos previstos. Se há escassez de engenheiros especializados, podemos contratá-los no Exterior, assim como podemos comprar os processos tecnológicos fora do país. Uma solução seria a das empresas de economia mista, com controle e maioria de capitais do Estado e a minoria dos investidores nacionais, mediante ações preferenciais.

Por mais caro nos custem, é melhor do que entregar as obras e a operação dos aeroportos, ferrovias e rodovias ao controle estrangeiro. O que nos tem faltado é cuidado e zelo na escolha dos administradores de algumas empresas públicas. Não há diferença entre uma empresa pública e uma empresa privada, a não ser a competência e a lisura de seus administradores. Entre os quadros de que dispomos, há engenheiros militares competentes e nacionalistas, como os que colaboraram com o projeto nacional de Vargas e com as realizações de Juscelino, na chefia e composição dos grupos de trabalho executivo, como o GEIA e o Geipot.

E por falar nisso, são numerosas e fortes as reações à anunciada nomeação do Sr. Bernardo Figueiredo, para dirigir a nova estatal ferroviária. Seu nome já foi vetado pelo Senado para a direção da Agência Nacional dos Transportes Terrestres. E o bom senso é contrário à construção do Trem Bala, que custará bilhões de reais. O senso comum recomenda usar esses recursos na melhoria das linhas existentes e na abertura de novos trechos convencionais. Não podemos entrar em uma corrida desse tipo com os países mais ricos. Eles podem se dar a esse luxo, porque já dispõem de armas atômicas enquanto nós não temos nem mesmo como garantir as nossas fronteiras históricas.

MARIANO MELGAR: o primeiro peruano na literatura indigenista – por manoel de andrade / curitiba.pr

RESUMO

 

Morrer aos 24 anos trazendo na alma o sonho da liberdade e o encanto da poesia… Como Castro Alves, no Brasil, assim também viveu e morreu Mariano Melgar, no Peru. Contudo, Melgar é a primeira referência latino-americana da palavra armada e desfraldada pelas convicções  libertárias. Com ele se inaugura a expressão poética contra a opressão colonial. É poeta por predestinação, é rebelde por natureza. Procér e mártir na luta pela Independência, foi executado em 1815.

Em janeiro de 1970, quando Manoel de Andrade chega em Arequipa, um dos locais onde é convidado a dizer seus
versos foi o Centro Cultural Mariano Melgar. A partir desse encontro passa a  estudar a obra do poeta dos yaravíes. Deslumbra-se com sua precocidade intelectual, com sua coragem libertária e por saber que Mariano Melgar é também o primeiro poeta peruano a expressar, na poesia,  todo o imaginário panteísta do sentimento indígena. Neste artigo o poeta brasileiro conta como a poesia de Melgar foi vista com desprezo em seu próprio país e do tardio reconhecimento de sua genialidade.

 

Mariano Melgar: o primeiro peruano na literatura indigenista[1]

 

                                                                                              

 

 

Conta-se que Arequipa nasceu sobre as ruínas de uma antiga cidade inca e que foi fundada em 1540 pelo próprio conquistador do Peru, Francisco Pizarro. Berço de notáveis nomes da política e da literatura peruana, nela nasceu Mario Vargas Llosa, no ano de 1936. Contudo sua celebridade literária, coroada com o Nobel em 2010, dispensa aqui qualquer comentário. Devo, entretanto dizer que quando por lá passei, na virada da década de sessenta, o nome de Vargas Llosa,  apesar de seus quatro livros já publicados, ainda não era tão comentado como o do poeta Mariano Melgar, um dos filhos mais queridos da cidade. Falo de um poeta libertário, combatente pela independência do Peru, com o qual se inicia o Romantismo e o Indigenismo na literatura peruana e, tal como o nosso Castro Alves, também libertário pelo abolicionismo, morre igualmente aos vinte e quatro anos.

Mariano Lorenzo Melgar Valdivieso, nasceu em Arequipa em 10 de agosto de 1790 e por sua precocidade foi um verdadeiro prodígio intelectual. Aos três anos já lia e escrevia, aos oito falava latim e aos nove anos dominava o inglês e o francês. Profundamente identificado com o povo na sua expressão indígena, encontrou no singelo lirismo das canções quechuas a motivação poética para grande parte de seus versos compostos em forma de yaravís, gênero musical de origem incaica, de composição breve e com um caráter elegíaco, amoroso e melancólico. É o que o poeta expressa neste seu poema chamado Yaraví:
¡Ay, amor!, dulce veneno,
ay, tema de mi  delírio,
solicitado martirio
y de todos males lleno.

 

¡Ay, amor! lleno de insultos,
centro de angustias mortales,
donde los bienes son males
y los placeres tumultos.

 

¡Ay, amor! ladrón casero
de la quietud más estable.
¡Ay, amor, falso y mudable!
¡Ay, que por causa muero!

 

¡Ay, amor! glorioso infierno
y de infernales injurias,
león de celosas furias,
disfrazado de cordero.

 

¡Ay, amor!, pero ¿qué digo,
que conociendo quién eres,
abandonando placeres.
soy yo quien a ti te sigo?
[2]

 

José Carlos Mariátegui, em seus Sete ensaios de interpretação da realidade peruana, ao analisar a poesia de Melgar ressalta inicialmente o “extremo centralismo” com que Lima dominou a literatura colonial, tida como um “produto urbano”, e acrescenta:

  (…)Por culpa dessa  hegemonia absoluta de Lima, nossa literatura não pode se  nutrir da seiva indígena. Lima foi primeiro a capital espanhola. Só foi a capital criolla depois. E sua literatura teve essa  marca.

      O sentimento indígena não careceu totalmente de expressão nesse período de nossa história literária. Quem primeiro o expressou com  categoria foi Mariano Melgar. (…)[3]

 

É esclarecedor colocar aqui o exemplo da poesia de Melgar, para avaliar, em dado momento histórico, os dois lados com que a crítica peruana encara a sua própria literatura: uma do ponto de vista colonialista e culturalmente preconceituosa e outra do ponto de vista legitimamente peruano, ou seja, indigenista, explicitados por duas figuras tão emblemáticas na história da intelectualidade peruana, como Mariátegui e o historiador José de la Riva Agüero (1885-1944), com opiniões tão diversas sobre a                                                           imagem literária de Melgar:

“Para Riva Agüero, o poeta dos yaravíes não passa de “um momento curioso da literatura peruana”. Retifiquemos esse julgamento, dizendo que é o  primeiro peruano dessa literatura.”.[4]

Comenta Mariáteguio desdém com que a crítica limenha tratou a poesia popular e indigenista de Melgar, num arraigado preconceito colonial que, um século depois, atingiria ainda, com o punhal da indiferença, o coração poético e indígena de Cesar Vallejo, a ponto de fazê-lo abandonar o Peru para nunca mais voltar. Vallejo é hoje reconhecido como o maior poeta do Peru e, como poeta universal, divide com Pablo Neruda a grandeza da poesia hispano-americana. Mariano Melgar teve sua imagem poética e libertária reconhecida oficialmente pelo governo peruano somente em junho de 1964. Apenas nos dois casos aqui citados essa é uma justa, necessária e tardia penitência, mas perguntamos se a cultura limenha já limpou a alma desse antigo pecado, porque continua, até os dias de hoje, ditando suas sentenças culturais no exercício de sua explícita hegemonia intelectual, em detrimento dos valores literários das províncias.

Mariátegui é o que melhor dá a dimensão do poeta de Arequipa, seja como mártir da independência, seja pela potencialidade de sua poesia, caso não houvesse morrido tão cedo. Abordando o lado romântico de Melgar, ressalta o grande despojamento do jovem poeta pela causa libertária, comparando-o ao cacique cusquenho Mateo Pumacahua, que em 1815 tornou-se um dos líderes da revolta contra os espanhóis, sendo preso e fuzilado pelas tropas coloniais.

      “Melgar é um romântico. Não apenas em sua arte, mas também em toda sua vida. O romantismo ainda não tinha oficialmente chegado a nossas letras. Em Melgar, portanto, não é, como será mais tarde em outros, um gesto de imitação, é um impulso espontâneo. E esse é o dado de sua sensibilidade artística. Já se disse que se deve à sua morte heróica uma parte de seu renome literário. Mas essa valorização dissimula mal a desdenhosa antipatia que a inspira. A morte criou o herói, frustrou o artista. Melgar morreu muito jovem. E mesmo que seja sempre um pouco aventureira qualquer hipótese sobre a trajetória provável de um artista prematuramente surpreendido pela morte, não é demais supor que Melgar, maduro, teria produzido uma parte mais purgada da retórica e do maneirismo clássicos e, por conseguinte, mais nativo, mais puro.(…)

        Os que se queixam da vulgaridade de seu léxico e de suas imagens partem de um preconceito aristocrático e academicista. O artista que escreve um poema de emoção perdurável na linguagem do povo vale, em todas as literaturas, mil vezes mais que aquele que, em linguagem acadêmica, escreve uma depurada peça de antologia. Por outro lado, como observa Carlos Octavio Bunge em um estudo sobre a literatura argentina, a poesia popular sempre precedeu a poesia artística. Alguns dos yaravíes de Melgar só vivem como fragmentos de poesia popular. Mas, com esse título,  adquiriram substância imortal”.[5]

Não é diferente a opinião do crítico italiano Giuseppe Bellini, tido como o mais qualificado estudioso europeu da literatura hispano-americana. Comentando a poesia gauchesca do poeta da independência uruguaia Bartolomé José Hidalgo (1788-1822), Bellini anota que:

          “Junto con Hidalgo cabe recordar a Mariano Melgar (1791-1815), cultivador también de la poesía popular  en los “yaravíes” y “palomitas”. El poeta peruano, sin duda más culto que Hidalgo, traductor e imitador de Horacio y de Virgilio, manifestó, tal vez por su carácter de mestizo, un profundo apego al elemento popular  quechua y a la naturaleza, antecipando un indigenismo que dará resultados consistentes durante el Romanticismo y en el siglo XX. [6]

Mariano Melgar une-se às tropas do cacique Mateo Pumacahua, que no passado fora aliado dos espanhóis, mas que a partir de 1814 empunhou a bandeira da independência em Cusco. Vencidos na batalha de Umachiri, o poeta é aprisionado e mantido em cativeito até o amanhecer do dia 12 de março de 1815, quando é executado. Ante o pelotão de fuzilamento Melgar escreveu num bilhete aos oficiais espanhóis, com as seguintes palavras:

          “Cubram seus olhos, já que vocês são os que necessitarão misericórdia porque a América será livre em menos de dez anos!”

 

          E assim aconteceu.

          Em 9 de dezembro de 1824, um exército de 6.879 patriotas de vários países hispanoamericanos, sob o comando do general venezuelano Antonio José Sucre, vence o exército espanhol de 10.000 soldados, selando em Ayacucho a independência do Peru e da América do Sul.


[1] Esse artigo integra o texto de um livro que o autor está escrevendo sobre os anos que passou na América Latina , nas décadas de 60/70. As notas e traduções são do autor.

[2] http://www.vivir-poesia.com/yaravi/ (acesso em 08/11/2011)

[3] MARIÁTEGUI, José Carlos. Sete ensaios de interpretação da realidade peruana. Trad. Felipe José Lindoso. São Paulo: Clacso, 2008, p. 252.

[4] MARIÁTEGUI. Op. cit. p.253.

[5] MARIÁTEGUI. Idem  pp. 252-253.

[6] BELLINI, Giuseppe. Nueva historia de la literatura hispanoamericana. Madrid: Editorial Castalia, 1997, p. 209.

Portugal e Brasil: apáticos ou tolerantes? Conclusão simplista: a apatia brasileira é filha da apatia portuguesa. – por graciano coutinho

Às indignidades de que são alvo diariamente, portugueses e brasileiros reagem com uma indolência irritante. Será isso necessariamente mau?

 

 

 A decisão do regulador das telecomunicações no Brasil, a Anatel, de proibir as operadoras Claro, TIM e Oi de vender novos chips de telemóveis deixou o país de boca aberta. Afinal, um órgão estatal enfrentar, em nome do bom serviço à população, o poder dos gigantes mexicano, italiano e brasileiro (com forte participação portuguesa) não acontece todos os dias. Na manhã seguinte à decisão já três delegações dos operadores, que, até há uma semana, dizia-se, faziam o que queriam do regulador, estavam à porta da Anatel para tentar minorar estragos.

Enquanto as três empresas (a Vivo escapou com advertência) não apresentarem um plano de investimento em antenas que melhore as condições de rede dos consumidores, a Anatel não permitirá a venda de mais uma linha sequer.

A propósito desta medida, um correspondente britânico no Brasil comentou que é uma medida histórica e necessária “porque o consumidor brasileiro é o mais maltratado do mundo”. “O brasileiro é de uma apatia incrível na defesa dos seus direitos”, acrescentou um jornalista americano. “E essa apatia alastra a tudo, incluindo, à política”, rematou uma correspondente francófona.

O correspondente português presente na conversa não disse nada. Mas pensou. Lembrou-se de duas fotos colocadas propositadamente lado a lado nesse mesmo dia nas redes sociais. Numa, via-se uma praça de Madrid invadida por manifestantes a protestar contra as medidas de Rajoy; noutra, uma praia da Costa de Caparica invadida por manifestantes a protestar contra a onda de calor. Os comentários às fotos eram de portugueses indignados com a “apatia” (a mesma palavra do americano e da francesa) dos compatriotas que não reagem à forma como são “maltratados” (a mesma palavra do britânico) pelos seus governantes.

Conclusão simplista: a apatia brasileira é filha da apatia portuguesa.

E segundo o Mahabharata, a Bíblia do hinduísmo e maior livro da história (200 mil versos, o equivalente a 20 Odisseias), a apatia é um dos piores defeitos do ser humano. Uma das conclusões do tratado filosófico indiano é que “os equilibrados elevam-se, os ativos ficam na região intermediária e os apáticos descem, envolvidos nas piores qualidades porque a preguiça, a ilusão e a ignorância nascem da apatia”.

Mas a fronteira entre uma qualidade e um defeito (persistência-teimosia, autoridade-violência) é muito mais ténue do que se supõe. Talvez a apatia seja apenas a face negativa da tolerância (e o protesto a face positiva da intolerância).

Os correspondentes em causa e os madrilenos em manifestação convivem ou conviveram com siglas e nomes como IRA, Ku Klux Klan, Le Pen ou ETA; Brasil e Portugal são dois países praticamente imunes a separatismos e em que os grupos radicais intolerantes são absolutamente residuais.

No Brasil, convivem nas mesmas cidades pretos e brancos, árabes e judeus, católicos e protestantes, sem sinais de violência por esse motivo – a violência é motivada quase exclusivamente pela desigualdade económica. Em Portugal,  demorou mas fez-se uma revolução após 50 anos de ditadura – uma revolução simbolizada por uma flor num cano de espingarda.

Os brasileiros e o portugueses são apáticos com as injustiças diárias mas talvez saibam reagir com firmeza no momento certo. Como a Anatel, que até à semana passada era considerada uma agência apática.

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Crónicas de um português emigrado no Brasil

DR. ZEQUINHA – resistiu a ditadura com um estilingue – 40 anos depois. – curitiba.pr

Dr. Zequinha, líder estudantil em 68, se emociona ao falar da tortura na prisão e do apoio familiar durante os ‘anos de chumbo’
A famosa foto: Dr. Zequinha enfrenta a cavalaria da polícia com um estilingue - e só

A famosa foto: Dr. Zequinha enfrenta a cavalaria da polícia com um estilingue – e só
LUCIANA GALASTRI

Dr. Zequinha em evento realizado no dia 14 de maio para relembrar os 40 anos de ocupação da Reitoria da UFPR

Dr. Zequinha em evento realizado no dia 14 de maio para relembrar os 40 anos de ocupação da Reitoria da UFPR

No ano de 1968, o então reitor da UFPR, Flávio Suplicy de Lacerda, tomou uma decisão: a Universidade Federal do Paraná, uma instituição pública, passaria a cobrar por seu ensino. Cursos noturnos, em teoria voltados para estudantes que trabalhavam durante o dia para se sustentar, passariam a ser pagos. Esse novo sistema começaria a vigorar quando os calouros daquele ano fossem aprovados.

No dia do vestibular de 68, os estudantes da Universidade, sob liderança do DCE (Diretório Central dos Estudantes), da UPE (União Paranaense de Estudantes) e da UPES (União Paranaense de Estudantes Secundaristas) impediram a realização da prova no Centro Politécnico com sucesso, adiando o concurso. Suplicy insistiu em manter sua decisão e realizar uma segunda prova. Novamente, os movimentos estudantis se mobilizaram para impedir o vestibular, mas a presença da polícia montada fez com que a operação falhasse.

Então, no dia 14 de maio daquele ano, há quarenta anos, os estudantes tomaram a Reitoria da UFPR, derrubaram o busto do reitor Suplicy e arrastaram a imagem pelas ruas em uma marcha contra a Universidade paga. A polícia recebeu ordens de não interferir e os estudantes foram poupados de mais violência. Esta última manifestação foi marcada pelo sucesso absoluto. “Dizíamos que a polícia também era gente! E os policiais choravam, comovidos pelo nosso movimento” declara Stênio Jacob, presidente da UPE na época.

A tomada da Reitoria tem uma enorme significância, pois foi realizada em um período de ditadura e opressão militar no Brasil. Em termos mundiais, o ano de 68 é emblemático: vários países testemunharam movimentos estudantis que pediam a reforma do ensino, a liberdade de expressão e davam visibilidade a uma nova espécie de jovem – questionador e rebelde.

Um dos líderes desses jovens que em 1968 tomaram a Reitoria da universidade mais antiga do país era o jovem José Ferreira Lopes, mais conhecido por Zequinha – pelos amigos e pelos algozes. Membro do DCE e da UPE naqueles anos, foi testemunha de sentimentos e atitudes antagônicas, a coragem dos estudantes e a covardia das autoridades, chegou a ser preso e torturado, viu colegas sucumbirem à violência do Estado e, anos depois, voltou a cursar a profissão que fora forçado a abandonar, a Medicina, tornando-se o Dr. Zequinha.

Dr. Zequinha, protagonista de uma fotografia que rendeu ao seu autor, Edson Jansen, o Prêmio Esso de Fotojornalismo – em que enfrenta a cavalaria da polícia com um estilingue –, voltou ao cenário de sua militância, o pátio da Reitoria da UFPR, 40 anos depois, para revisitar a memória e a mentalidade daqueles dias.

Pouco antes do evento, quando se sentou ao lado do reitor da instituição, Carlos Moreira Junior, e de amigos ‘de luta’ como Stênio Jacob, Luís Felipe Haji Mussi e Vitório Seratiuk, ele falou ao Comunicação sobre os tempos de militante, a clandestinidade, a tortura e as experiências de um jovem idealista em plena ditadura militar.

Comunicação – Como se deu o seu contato com o movimento estudantil?

Dr.Zequinha - Eu sou nascido em Marília, uma cidade de São Paulo, e lá, como estudante secundarista, tive meu primeiro contato com o movimento estudantil. Isso foi na década de 60, lembro muito bem da eleição de Jânio Quadros e da história da vassoura, que varria a corrupção. De lá, vim para Curitiba cursar medicina na UFPR. Iniciei o curso e, ao mesmo tempo, tive contato com a política universitária, em 65. A partir daí, entrei para o Diretório Acadêmico Nilo Cairo, para o DCE e para a UPE. O contato com todos esses órgãos me influenciou a ter uma militância mais ativa.

Comunicação – Houve alguma outra influência que o levou para a militância? Um professor, um livro?

Dr.Zequinha? - Tive influência de duas pessoas, no curso de medicina, e tenho um respeito muito grande por eles. Eles possuíam opiniões muito boas a respeito do próprio curso, da universidade, da reforma do ensino e também foram pessoas muito queridas para mim. O Dante Romanó Júnior, que acabou sendo reitor da UFPR, e o professor Paulo Barbosa, que tinha uma cadeira em medicina, na época. Ambos foram pessoas muito queridas e que tiveram muita influência em meus tempos de universitário.

Comunicação – Antes de entrar nos movimentos estudantis, você era um jovem muito politizado?

Dr.Zequinha - Acredito que havia uma vivência política já bem anterior na cidade de Marília. Meu pai não era militante, mas era um ser muito amplo no ponto de vista da aceitação das coisas. Eu lembro de ter um vizinho que pertencia ao Partido Comunista do Brasil. Também havia uma família, os Silva, que militavam pelo partido. Eram pessoas ‘de casa’, pessoas com quem convivi na minha juventude, era amigo de seus filhos. Existia também um alfaiate nordestino, uma pessoa muito legal, que possuía, no fundo de sua alfaiataria, uma biblioteca. Tive esse contato, meu pai sempre ajudou muito esse pessoal que era perseguido e acabei me envolvendo.

Comunicação – Como sua família e seus amigos viam essa atuação política militante? Eles o apoiavam?

Dr.Zequinha - Meu pai era semi-analfabeto, mas tinha uma preocupação básica: seus filhos deveriam estudar, portanto, deviam ter uma biblioteca em casa. Então ele comprava livros do Jorge Amado, Graciliano Ramos, entre outros. Acabamos tendo contato com essa literatura. Minha própria turma de adolescentes tinha esse hábito da leitura, ouvia muita música, além das estripulias que fazíamos como todo jovem (risos). Ao final do ano de 68 houve o Ato Constitucional nº5. Eu estava na iminência de ser preso – já havia sido preso algumas outras vezes em Curitiba, e também pertencia ao Ação Popular, o AP. E eu decidi que continuaria minha militância política, mas em caráter clandestino. Conversei com amigos da república em que morava, alguns me desencorajaram, outros disseram “você que decide, você sabe da sua vida”. Então saí de Curitiba e fui à cidade de meu pai, conversar com ele e com minha mãe. Lembro até hoje. Estávamos na varanda da casa deles e comentei o que eu iria fazer. A reposta deles foi assim: “é isso que você quer? Então seja feliz.” Quando fui preso, minha mãe percorreu céus e infernos à minha procura. Devo muito a ela o fato de não ter sido… não diria assassinado, mas eu estava em uma situação muito complicada na repressão da ditadura. E ela moveu céus e mares até me achar. Essa era a relação que eu tinha com minha família, e me deixa muito emocionado.

Comunicação – Você pode descrever o tempo em que ficou preso? Comentar alguma experiência que tenha passado?

Dr.Zequinha - Posso sim. Acho até importante comentar isso, para que não caiam no esquecimento as barbaridades feitas pela ditadura militar.

Fui preso pela primeira vez em 68, quando eu fazia a pichação de um muro no Batel, e eu pichava ‘abaixo a ditadura’. Fiquei detido na Carlos de Carvalho, que era a sede da Polícia Federal na época, e lá sofri uma amostra do que seria uma tortura. Deixaram-me nu, em cima de uma lata de cera, sem a tampa, e eu pisando com os dois pés na lata e me apoiando com as minhas mãos em uma parede. Às vezes me batiam no rim, que não deixa marca certo? Queriam que eu fizesse uma confissão, queriam que eu dissesse por que estava pichando ‘abaixo a ditadura’.

As outras duas vezes em que fui preso em Curitiba, foi nas passeatas. A polícia batia, prendia e soltava. Quando fui pra clandestinidade, foi, com certeza, o momento mais difícil. Saber o que era uma ditadura militar e sua repressão… Estava em Minas Gerais, trabalhava como operário metalúrgico e fui preso dentro da fábrica. No primeiro momento, não falei nada. Levaram-me para o DOPS, o Departamento de Ordem e Política Social. Aí sim, choque elétrico em todas as partes do corpo, afogamento, sempre querendo informações. Houve um período de sete ou dez dias, não posso dizer com clareza, em que eles não sabiam quem eu era, não sabiam que eu era o Zequinha do Paraná. Eles acharam que eu era um operário mesmo, Isaías José de Souza. Acharam que eu poderia estar envolvido com uma ‘subversão’ e com questões do partido. Mas eu sempre negava, até que um dia, depois de sessões de tortura me levaram aonde estava um coronel do exército brasileiro, um torturador, e ele me mostrou uma foto, minha foto. Disse que estavam procurando por mim, que eu era o Zequinha. Eu neguei. Precisava de tempo para organizar meus pensamentos, saber o que estava acontecendo, se alguém sob tortura falou que era eu na foto. Eu precisava de um momento. Até que, depois de muita insistência e muita tortura, eu decidi me identificar. Disse que era José Ferreira Lopes, o Zequinha, líder da UPE, estou preso por vocês e pronto! Não tinha mais nada o que falar, era isso. Fui transportado para o Rio de Janeiro, submetido a mais torturas. Até que apareceu uma especial, chamada ‘cabine de som’. Eles torturavam, torturavam… Deixavam você bem mal por uma noite, e de manhã cedo te jogavam em uma cabine pequena. Lá tinha um som muito alto, ondas supersônicas e temperatura altíssima. Depois variavam a temperatura até abaixo de zero e tudo ficava em absoluto silêncio. Abriam a porta e diziam “fala, fala, fala”! Fiquei muito tempo assim. Eles viram, depois, que eu não queria falar nada, que eu estava tranqüilo, ou melhor, consciente de que não ia entregar ninguém, não ia comprometer a vida de mais pessoas.

Depois fui levado novamente a Belo Horizonte. Continuaram as torturas e começaram a simular fuzilamentos. Levavam-nos para uma área, pegavam a metralhadora e diziam “apontar… fogo”! Não saía a bala, mas você já ficava assustado. E continuava a passar por afogamentos… Todas essas barbaridades. Algum tempo depois me entregaram um papel e uma caneta. Era uma declaração política em que eu assumia que eu era contra a ditadura militar, que eu era a favor da democracia e da liberdade. Mas nunca assumi que era de um partido político – que era o exatamente o que queriam saber, para me comprometer. Nessa trajetória vi assassinatos de companheiros meus, como José Carlos da Mata Machado, que foi vice-presidente da UNE, assassinado no Recife além de outros estudantes, barbaramente assassinados e torturados.

Comunicação – Você mantinha contato com outros grandes líderes estudantis, como o Vladimir Palmeira, o José Dirceu, o José Arantes entre outros?

Dr.Zequinha - Tínhamos contato, mas não éramos tão próximos. Participávamos de alas diferentes. O contato mais estreito que eu possuía, no caso, era com o Luís Travassos, presidente da UNE em 67 ou 68. O José Carlos da Mata Machado, que eu já citei. Principalmente porque vivemos juntos em uma república durante oito meses, morando clandestinamente.

Comunicação – Qual era o cenário político do Paraná no início da ditadura?

Dr.Zequinha - Depois do golpe, em 65, já havia uma repressão muito grande aos movimentos mais organizados, como os camponeses, os operários. Muitos foram submetidos a torturas e exilados na Argentina, no Paraguai, sofreram muitas dificuldades. Quando cheguei ao Paraná, existia a ditadura militar, mas não havia chegado ao extremo. Tínhamos aqui o Ney Braga que era governador, mas era indicado. Em 68 havia o Paulo Pimentel, que também foi indicado, não havia eleições. Ainda que não houvesse democracia, liberdade maior e que a censura estivesse presente, era possível se manifestar. Havia os diretórios, as reuniões, que foram extintos com o Ato Institucional nº5. Foi então que a coisa complicou, não havia liberdade nenhuma. As organizações políticas foram todas extintas, mesmo assim, eu fiz parte da AP, a Ação Popular, no início de minha carreira política mas ninguém sabia.

Comunicação – Sobre a famosa ‘foto do estilingue’, você sabia que estava sendo fotografado? Era uma combinação?

Dr.Zequinha - Não sabia. O fotógrafo, o Edson Jansen, acabou ganhando o Prêmio Esso de Fotojornalismo com ela. Ele estava estrategicamente posicionado acima da estradinha em que ocorreu o fato e registrou toda a cena.

Comunicação – Você já conhecia o Edson?

Dr.Zequinha - Não. Fui conhecer o Edson depois que eu saí da clandestinidade, quando voltei para Curitiba em 1980 e reiniciei o curso de medicina.

Comunicação – A foto o tornou mais visado pela polícia?

Dr.Zequinha - Com certeza. Eles passaram a me considerar perigosíssimo’. Tudo isso foi registrado nos arquivos. No arquivo do DOPS estavam coisas que nem eu me lembrava que havia feito. Que eu fui em uma reunião em tal hora,que eu estive em Apucarana em tal lugar. Eu era acompanhado.

Comunicação – Qual era sua posição em relação à luta armada?

Dr.Zequinha - Na época eu não concordava. Mas você tem que estar junto ao povo para organizar as reações. Mas as reações são construídas pela vida. Não podíamos prever. Por exemplo, no momento mais crítico da ditadura, o governo Médici, com as torturas. Não podemos nem comparar com a Argentina, dizendo que a ditadura lá foi pior. Acho que as ditaduras brasileira e argentina têm suas pequenas diferenças, mas são muito semelhantes. Não tínhamos como fazer política, quando começávamos algum movimento íamos presos. Foi então, quando o PCdoB, que havia se unido à AP, começou a organizar uma luta do campo – a guerrilha do Araguaia. Mas era um momento extremo, não havia mais o que fazer. Não tivemos tempo de preparar o povo, conversar, ganhar a sua confiança. Foram fatores externos. É o próprio momento que define se uma luta vai ser armada ou não.

Comunicação – E qual era a relação entre a mídia e o movimento dos estudantes? A imprensa realmente apresentava sua posição contra a ditadura, como é divulgado?

Dr.Zequinha - A imprensa nunca apoiou o movimento dos estudantes de modo aberto, objetivo. Havia casos isolados de jornalistas, mas nada a ver com a imprensa de modo geral.

Comunicação – Você estava em Curitiba na redemocratização do país? Como foi a experiência de ver essa ‘revolução’?

Dr.Zequinha - Sim, estava em Curitiba. Foi um complemento, embora não total, de toda aquela luta que nós fizemos. O movimento estudantil de 68, apoiado pelas primeiras greves operárias, teve a repercussão. Desde o AI-5 estava se concretizando um pensamento que culminou nas Diretas Já. Então, para mim, foi muito legal. Estive falando em palanques no movimento… Valeu a pena tudo o que fizemos. Temos que ter orgulho. Não ser prepotentes, nada disso, mas saber que tudo culminou para exterminar a ditadura que se abateu sobre o país.

Comunicação – Recentemente a Superinteressante publicou um artigo dizendo que a visão que temos de 68 é muito romântica. Que na verdade, os movimentos eram feitos por ‘filhinhos de papai’, burgueses, que haviam enriquecido com a Segunda Guerra Mundial. Qual é sua opinião sobre isso?

Dr.Zequinha - É difícil negar os fatos da história. Naquela época, os cursos universitários tinham uma característica mais elitista. É difícil negar isso. Mas mesmo que fôssemos de classe média, havia toda uma questão nacional e internacional que exerceu influência sobre os estudantes. As ditaduras da América Latina, Allende, a Revolução Cubana. Havia mitos, como Che Guevara, Ho Chi Mihn. Tínhamos acesso a livros de Marx, Engels, Mao Tse-Tung. Foi essa juventude que fez a Passeata dos Cem Mil, que foi pra cima da ditadura quando assassinaram o Edson Luís, no Rio de Janeiro. A classe cultural, poetas, músicos, atores, intelectuais de forma geral foram às ruas protestar. Não eram todos ‘filhinhos de papai’. Um ou outro podia ter sido, mas e daí? É uma posição política. E o idealismo próprio de ser jovem? Uma afirmação como essa renega até esse idealismo, a forma de questionar sistemas, inerente à juventude. Vejo os jovens de hoje lutando pelo acesso mais democrático à universidade. Isso é ser ‘filhinho de papai’?

Comunicação – Qual a sua opinião a respeito da atuação política de pessoas que sofreram nas mãos do regime ditatorial? Presos, perseguidos, exilados, torturados, como a Dilma Rousseff, o José Dirceu e mesmo o presidente Lula?

Dr.Zequinha - Eu vejo de forma muito positiva a participação deles. Tentam manter a política progressista. Obviamente, alguns cometem erros. Podem cometer erros, mas que não reneguem o passado. Vejo isso em alguns políticos, como o senador pelo Amazonas, Arthur Virgílio Neto. Alguns tomaram um posicionamento claramente conservador.

Comunicação – E sobre o Daniel Cohn-Benedit? Ele era um grande líder estudantil e símbolo dos movimentos de 68. Hoje, trabalha no Parlamento Alemão.

Dr.Zequinha - Não sei qual é a função dele no Parlamento. Mas, com certeza, é importante lembrar o grande papel dele naquela época, no meio daquela revolução cultural toda, na reforma de ensino, nas várias discussões, inclusive sobre liberdade sexual. Tudo se concentrou naqueles anos.

Comunicação – Qual é sua relação com o governo atual do país, com a política do Lula?

Dr.Zequinha – Participei da frente Brasil Popular, fui coordenador da campanha do Lula no Paraná, em 1989. Percorremos o estado todo, fizemos três comícios grandes. Apóio o governo do Lula, acho que ele tem tomado decisões muito importantes para a mudança da situação do povo brasileiro. Mas, ao mesmo tempo, sou crítico. Faço crítica à política econômica, que julgo, ainda, conservadora. O próprio presidente não toma uma posição mais altiva. No entanto, é um governo eleito, democrático, progressista e popular, então apóio, com certeza.

Comunicação – E quais as suas impressões sobre o governo do Requião no Paraná?

Dr.Zequinha - Apóio o governo avançado e democrático do Requião. Ele é taxado de louco, de chato, mas o que a mídia faz com ele é algo muito violento, a mídia o provoca. Ele é, também, sangue-quente, todos sabem disso, mas tem feito políticas sociais muito boas no Paraná. É um estado que se tornou referência. Há avanços na área de educação, de saneamento básico que eu, como médico, julgo imprescindível, assim como a distribuição de energia elétrica. Assim como no governo Lula, há o apoio à pequena e média empresa. Eu, particularmente, tenho esse senso crítico em relação a tudo. Observo e, se julgo errado, critico. Mas tanto o governo do Lula quanto o do Requião, são, em geral, bons governos, necessários para esse país.

Comunicação – Há boatos de que a UNE, atualmente, é muito ligada ao governo federal, defendendo mais seus interesses do que os dos estudantes. Como você encara a atuação, tanto da UNE quanto da UPE, atualmente?

Dr.Zequinha - Eu acho que a UNE não segue o governo do Lula, ela sempre manteve sua independência e tem como característica pensar na luta geral do povo. Questões como ‘o petróleo é nosso’ e a luta das Diretas Já. Evidentemente, a UNE tem uma visão positiva do governo federal, mas continua fazendo críticas ao presidente. Há grupos que se dizem esquerdistas ao extremo, mas quando são comparados os discursos desses grupos, com os grupos de direita, conservadores, eles são muito parecidos. A própria Heloísa Helena, na segunda eleição do Lula, acabou tendo uma postura mais conservadora. O fio entre esquerda e direita é muito tênue. Mas a postura independente, que nos permite fazer críticas nas horas certas é essencial para que haja a organização e a mudança.

Comunicação – E como o PC do B se situa hoje na política?

Dr.Zequinha - O meu partido está no governo. Mas apresentamos propostas para mudanças. Criamos um bloco unindo PC do B, PRB, PSB e PDT, que se situa à esquerda e apresentamos várias propostas para o governo Lula. Cinco reformas estruturais fundamentais, entre elas a Reforma Agrária, Reforma Urbana e a Reforma da Educação. Visamos envolver a participação popular para mudar a estrutura do país e permitir essas melhoras.

Comunicação – Como é seu trabalho na Comissão Especial de Indenização a Ex-Presos Políticos, sendo representante dos ex-presos políticos?

Dr.Zequinha - É a segunda vez que atuo na Comissão. Somos muito criteriosos na hora de conceder as indenizações. Existe um decreto que estabelece normas e regras que devemos seguir. Só tem direito à indenização quem esteve preso no estado do Paraná, e tiver provas concretas dos eventuais maus-tratos. Quem esteve preso um pequeno número de dias deve receber indenização proporcional ao período. Há muitos parentes de camponeses que foram presos, já falecidos, que não apresentam provas necessárias. Então as pessoas saem chateadas, mas são as normas estipuladas pelo governo estadual. O governo tem a ação louvável de reconhecer o seu erro, oferecendo uma quantia justa às pessoas. Obviamente, é impossível pagar ou repor doze anos de clandestinidade. É preciso retomar a vida. Eu, casado, com dois filhos, voltei da clandestinidade e me tornei novamente estudante, para concluir o curso de medicina. Eu podia ter me formado médico e exercido a profissão há anos, nenhuma quantia paga tudo isso. O que importa é ser reconhecido. Fui perseguido. Fui torturado. Fui preso político.

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Reportagem LUCIANA GALASTRI
Edição VANESSA PRATEANO
EDISON JANSEN

Conheça o garoto que pode mudar a história do câncer

Antes de tornar realidade um teste mais sensível, rápido e barato para detectar o câncer de pâncreas, Jack Andraka foi rejeitado por 199 pesquisadores

São Paulo -  Jack Andraka – guarde esse nome – tem 15 anos. Em maio deste ano ele venceu a Feira Internacional de Ciência e Engenharia da Intel com um projeto que pode mudar a história do câncer de pâncreas : um teste para detectar a doença 68 vezes mais rápido, 400 vezes mais sensível e 26 mil vezes mais barato que o padrão usado hoje para detectar a doença, inventado nos anos 50.

Jack com o sensor de nanotubos: potencial revolução no diagnóstico do câncer de pâncreas | Foto: Reprodução Internet

Jack com o sensor de nanotubos: potencial revolução no diagnóstico do câncer de pâncreas | Foto: Reprodução Internet

A doença que vitimou um familiar de Jack e inspirou o jovem a pesquisar uma forma de detectá-la antes que ela se espalhe para o resto do corpo, tem um prognóstico sombrio: menos de 2% dos diagnosticados em estágio avançado sobrevivem.

“Eu pensei: se fosse possível diagnosticar essa doença em estágios bem iniciais, as chances de sobrevivência aumentariam muito”, conta ele.

Munido de vontade, curiosidade e uma bagagem científica incomum para garotos da idade dele, Jack se embrenhou no tema e bolou o teste unindo conceitos estudados nas aulas de Biologia com o que havia lido em um artigo sobre nanotubos – estruturas milhares de vezes menores do que a espessura de um fio de cabelo.

“Eles têm propriedades incríveis, são como super-heróis da Ciência.”

Como ele conseguiu fazer isso? Filho mais novo de uma médica e um engenheiro civil, ele foi estimulado desde cedo a encontrar por si as respostas para as dúvidas que tinha sobre as coisas. Além de inteligente e esforçado, claro, Jack foi perseverante. Decidido a concretizar a ideia do teste, ele escreveu para nada menos que 200 pesquisadores norte-americanos apresentando o projeto de pesquisa e pedindo espaço em laboratório para trabalhar nele. Apenas um respondeu que sim. Ainda bem.

Jack conversou por telefone, do laboratório que aceitou abrigá-lo e incentivá-lo. Hoje, ele estuda meios de viabilizar comercialmente o teste. Jack Andraka – guarde esse nome – tem 15 anos. Veja a seguir a entrevista.

Quando você começou a se interessar por ciências?
Eu tinha uns três anos quando meu pai comprou para mim e para o meu irmão [ dois anos mais velho ] uma maquete de plástico de um rio, com água e tudo. Nós ficamos brincando com aquilo o dia inteiro, observando a corrente e colocando os mais diferentes objetos nela, para ver o que afundava, o que seguia o curso da água e o que mudava a corrente. A gente queria respostas. Queria entender como aquilo acontecia. Acho que o interesse despertou a partir daí.

Quanto tempo depois disso você começou a participar de competições de ciências?
A primeira competição foi na 6ª série, com 12 anos. Eu adaptei um dispositivo de segurança para evitar que o fluxo de água nas quedas d’água de pequenas represas cause afogamentos.

Você venceu?
Eu tinha 10 anos e como estava na 6ª série, não podia participar do prêmio da Intel, porque aqui nos EUA ele é apenas para estudantes de ensino médio. Mas tirei segundo lugar na versão internacional do mesmo prêmio com esse projeto.

Como você teve a ideia do projeto vencedor do prêmio internacional deste ano?
Eu escolhi um tema que me interessava na época. O câncer de pâncreas teve um impacto importante na minha família, nós perdemos um parente com a doença. Aí fui pesquisar sobre ela e descobri que 85% dos casos são diagnosticados em estágios avançados, quando o câncer já está espalhado pelo corpo e os pacientes em geral têm menos de 2% de chances de sobrevivência. Eu pensei: se fosse possível diagnosticar essa doença em estágios bem iniciais, as chances de sobrevivência aumentariam muito.

E você simplesmente decidiu fazer isso?
Bem, eu fui atrás de todas as formas conhecidas de diagnóstico desse tipo de câncer e descobri uma proteína chamada mesotelina, que está presente no câncer de pâncreas, assim como nos de ovário e pulmão. A ideia veio mesmo numa aula de biologia. Estávamos aprendendo sobre anticorpos, essas estruturas produzidas pelo sistema imunológico. No câncer que eu estava estudando, os anticorpos se ligavam apenas à mesotelina. Na mesma época, li um artigo muito legal sobre nanotubos de carbono. Você sabia que essas estruturas têm o diâmetro 150 mil vezes menor do que o de um fio do seu cabelo?

Nossa, não tinha ideia de que eram tão pequenas…
Sim, os nanotubos têm propriedades incríveis, são como super-heróis da Ciência. Ok, o que fiz foi meio que conectar essas duas ideias. Eu inventei um sensor de nanotubos de carbono e anticorpos capaz de identificar a presença da mesotelina e dizer, baseado no quanto dessa proteína se liga aos anticorpos, se a pessoa tem câncer de pâncreas.

Quanto tempo você levou para concretizar a ideia?
Foram ao todo 7 meses de muito trabalho.

Onde você trabalhou? Em casa? No laboratório da escola?
Não, eu contatei 200 pesquisadores na Universidade Johns Hopkins e nos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos pedindo espaço em laboratório e apoio para desenvolver a minha pesquisa. Apenas um me disse sim [ Anirban Maitra, professor de Patologia, Oncologia e Engenharia Química e Biomolecular da Escola de Medicina da Johns Hopkins ]. Uns me responderam que não tinham espaço, outros que não tinham o equipamento, outros simplesmente não responderam. Quando finalmente fui aceito, cumpri um rigoroso processo para me transformar em um pesquisador e iniciei o trabalho.

Durante a pesquisa, como ficou a escola? Você conseguia dar conta de tudo?
Normalmente eu consigo fazer todas as coisas da escola durante o período das aulas. Enquanto desenvolvia o projeto, eu ficava até tarde da noite no laboratório fazendo e refazendo os testes, então aproveitava o tempo entre eles para completar o dever de casa.

Os seus pais não reclamavam de você ficar até tarde da noite trabalhando?
Meus pais não reclamavam, pelo contrário. Eles sempre valorizaram o trabalho e o esforço. Acho que só consegui chegar até aqui porque como pais eles me ajudaram e me incentivaram.

Com todas essas atividades, você consegue passar algum tempo com os amigos e a família? Aliás, você tem namorada?
Não tenho namorada. Mas eu gosto de socializar sim. Este ano, com todo o trabalho no projeto, a minha vida social ficou um pouco comprometida, mas os meus amigos me apoiam e entendem isso. E continuam meus amigos.

Depois da vitória no prêmio da Intel você foi contatado por algum interessado em produzir e vender o seu teste?
Sim, já fui contatado por sete empresas de biotecnologia interessadas em produzir o teste. Estou aguardando a conclusão do processo de patente, ainda não decidi que direção quero tomar.

Além do câncer, quais outras áreas você ainda gostaria de pesquisar?
Eu definitivamente gosto de Biologia, mas também tenho interesses em Física e Química. Então venho tentando combinar essas três coisas nos meus próximos projetos.

Já pensou sobre a faculdade? O que pretende cursar e onde deseja estudar?
Hum…não tenho a mínima ideia de onde ou o que vou estudar. Há tantas opções hoje em dia e tanta gente com diploma. Não sei se quero seguir esse caminho.

O seu histórico e a sua mais recente invenção geraram uma grande expectativa em torno da sua performance no concurso do próximo ano. Como você lida com isso?
Acho que será um novo desafio. Quero participar do concurso do ano que vem e pretendo me divertir com isso. Só quero seguir pesquisando.

 Leoleli Camargo do iG

‘A pirataria online pode minar a produção do conhecimento’ – por roberto feith

Diretor da Objetiva diz que seu maior arrependimento foi deixar passar a edição de ‘Harry Potter’

24 de agosto de 2012 | 19h 30

Não, não é porque diz sentir falta da “adrenalina da TV” que o ex-repórter carioca Roberto Feith, diretor-geral da Objetiva, uma das maiores editoras de livros do País, pode ser considerado ainda jornalista, a despeito dos mais de 20 anos que deixou a profissão. Ex-correspondente da TV Globo na Europa e ex-editor chefe do Globo Repórter, Feith aceitou em 1991 a proposta de dois conhecidos e comprou 60% de uma editora inexpressiva – ela mesma, a Objetiva. Àquela altura, tocava uma produtora, a Metavídeo, após ter estado com Walter Salles na Intervídeo, que fazia trabalhos para a extinta TV Manchete. Não entendia nada de editora, mas como bom repórter diante de um furo em potencial, decidiu arriscar – seguindo critérios jornalísticos.

 

Viés jornalístico foi fundamental na trajetória da editora, diz - Clayton de Souza/AE
Clayton de Souza/AE
Viés jornalístico foi fundamental na trajetória da editora, diz

Começou mal. Apostou numa biografia de Boris Ieltsin – política internacional era sua especialidade -, que resultou num enorme fracasso. Aos poucos, porém, foi ajustando o foco. “Como correspondente e depois noGlobo Repórter, exercitei muito a função do editor e o trabalho em equipe. Nessas tarefas, você está sempre buscando uma abordagem original para contar determinada história. E o trabalho do editor de livro, principalmente do livro de não ficção, é muito próximo disso; as aptidões e os talentos são muito parecidos. A Objetiva evoluiu, principalmente na área da não ficção, em função dessas características”, diz ele na entrevista a seguir. Confortavelmente instalado num hotel da região da Avenida Paulista, Feith conversou com uma equipe do Estado: Rinaldo Gama, editor do Sabático; os repórteres Antonio Gonçalves Filho e Maria Fernanda Rodrigues, e Ubiratan Brasil, editor do Caderno 2.

Por três horas, seu raciocínio cristalino e a fala assertiva – educada pelos sinais elétricos dos microfones e uma longa convivência com a escrita – atravessaram um largo espectro de temas ligados ao livro: o dia a dia do processo editorial, os erros (Harry Porter lhe foi oferecido com insistência e ele deixou passar), os acertos (Inteligência Emocional, que vendeu meio milhão de exemplares), pirataria online (“o Google e o Yahoo são ‘sócios’ do Megaupload”, alfineta), o futuro do e-book no Brasil e da própria literatura brasileira, para o qual, aliás, ele acenou publicando novos talentos em um número especial da revistaGranta. Aos 60 anos, Roberto Feith não é mais majoritário na Objetiva: em 2005, vendeu 76% da empresa para a Santillana, que participou da criação do prestigioso jornal espanholEl País. Sim – mesmo sem a adrenalina da TV, Feith, de certo modo, está em casa.

Que interesse o senhor tinha no mercado editorial para entrar de sócio na Objetiva?

Um dos projetos importantes que fizemos na Metavídeo foi uma série de seis documentários sobre a história do cinema no Brasil. Produzimos tanto, que uma grande parte desse material fotográfico e de entrevista ficou inédito. Então, surgiu a ideia de fazer um livro usando esse conteúdo. A Nova Fronteira coeditou. Lá, o Alfredo Gonçalves e o Armando Campos tocaram o projeto comigo. Passou-se um tempo e nunca mais os vi, mas soube que seis meses depois eles saíram para criar uma editora, com o apoio de um investidor. A editora não conseguiu evoluir. Anos depois, esse sócio saiu e eles me procuraram. Foi assim que eu entrei no negócio. O meu sonho profissional era ser jornalista de imprensa escrita; entrei para a TV por mero acaso. Mas sempre fui um leitor voraz, rato de livraria. Minha mulher foi a única pessoa que me incentivou a investir numa editora. Todo mundo me dizia que eu estava maluco, que televisão era o veículo de maior poderio e projeção no Brasil, que aqui ninguém lê. Depois que entrei, continuei anos com a produtora enquanto tentava entender como funcionava o mercado e uma editora. (Gonçalves deixou a editora em 2004 e Campos, em 2006)

Quando o senhor fez o negócio, tinha um modelo de editor na cabeça?

Não. E não tinha por ignorância.

Alguma linha editoria em mente?

Hoje poderia falar sobre isso de um modo mais coerente. Na época, foi uma mistura de oportunidades que surgiam aleatoriamente com as minhas experiências pessoais. Eu me lembro de contratar direitos de tradução de muitos títulos sobre política internacional, um grave equívoco, nenhum deles vendeu nada. Era o assunto que eu conhecia e gostava. Um dos primeiros livros que compramos foi uma biografia do Boris Yeltsin. Imagine se alguém ia ler um livro do Yeltsin! Aprendi isso a duras penas. E o outro tipo de livro que a gente acabou trabalhando foram aqueles que surgiram por circunstâncias aleatórias. O Lair Ribeiro é um bom exemplo disso. Não me lembro como apareceu a oportunidade, mas aproveitamos e ele foi nosso primeiro best-seller.

Qual sua participação ao entrar na editora?

Se não me engano comprei 60% da empresa em 1991. O que veio a ser um investimento mais substantivo não foi a compra das cotas, mas sim a tentativa de fazer a editora decolar.

Quanto pagou?

Não tenho a menor ideia. Mas foi pouco. Talvez o valor de um carro usado.

Muitos editores dizem que publicam best-sellers para ter recursos que possibilitem vencer o leilão de um título de qualidade literária indiscutível. Essa também foi a estratégia da Objetiva a partir de sua entrada?

Havia a ideia de que publicando autores comercialmente potentes teríamos condições de desenvolver a editora na linha de um projeto mais consistente.

Ainda sobre best-sellers, o senhor criou a Plenos Pecados, uma série com autores de prestígio escrevendo a respeito de temas mais palatáveis. Como é a reação de autores consagrados quando se oferece a eles a oportunidade de escrever um livro para uma série como essa?

Uma das razões de montar esse projeto era atrair autores de renome para uma editora ainda sem grande visibilidade ou uma trajetória consolidada. Fiz o projeto com Isa Pessoa, que trabalhava na editora. Levou quase um ano para fecharmos a lista dos sete autores. Convidamos o Mario Vargas Llosa, e ele disse que escreveria contanto que fosse sobre a luxúria. Mas a luxúria já estava tomada pelo João Ubaldo. A coleção deu certo, trouxe autores de grande qualidade e sucesso comercial, e pudemos começar a montar a editora que sonhávamos.

E qual era essa editora?

Como disse antes, eu não tinha um modelo de editora – nem mesmo considerando as estrangeiras. Se olharmos a trajetória da Objetiva, veremos que ela não é igual a nenhuma outra. Acho que é um pouco pela experiência de vida das pessoas da equipe – havia muito o viés jornalístico.

De que modo ter atuado como jornalista contribui para o trabalho da editora?

Como repórter e correspondente internacional e depois no Globo Repórter, exercitei muito a função do editor e do trabalho em equipe. Nessas tarefas, você está sempre buscando uma abordagem original para um determinado tema, procurando como contar determinada história. Às vezes, você vê um assunto que tem consistência, que tem interesse ou relevância, mas precisa encontrar uma outra maneira de tratá-lo. E o trabalho do editor de livro, principalmente do livro de não ficção, é muito próximo disso; as aptidões e os talentos são muito parecidos. A Objetiva evoluiu, principalmente na área da não ficção, ou a da ficção dirigida, encomendada, em função dessas características.

O modelo do publisher americano parece que vingou no Brasil – e o europeu ficou um pouco esquecido. Filho de americano, o senhor acabou unindo as duas pontas: o pragmatismo de um publisher dos EUA, atento à performance de vendas, e uma visão europeia, marcada mais pela vontade de publicar qualidade literária, independentemente dos resultados financeiros. Como se deu isso?

Ser filho de americano não teve, na prática, nenhuma influência. Como mencionei, acredito que a vivência que mais marcou meu papel na editora foi a jornalística. Acho que há pessoas que tocam editoras lendo e editando e outras não. Sou editor-geral de uma editora que faz as duas coisas. Desde o início.

Sua editora cresceu muito. O senhor ainda consegue estar em todas as frentes?

Conciliar tudo tem sido um exercício. A palavra publisher evoca uma pessoa que não edita. Não me sinto totalmente encaixado nesse conceito porque não é bem esse o meu cotidiano. Continuo avaliando manuscritos, vou a feiras, converso com os agentes.

O senhor edita algum autor que não vende, mas dá prestígio ao catálogo da editora?

Naturalmente. Prestígio, prazer de publicar. Mas essa não é uma decisão puramente romântica, porque poder publicar grandes autores, ainda que comercialmente não sejam tão bem-sucedidos, é uma forma de você qualificar o selo e atrair outros escritores. Tem outro componente relevante no universo editorial brasileiro: esses grandes autores podem não vender muito, mas periodicamente são adotados num vestibular ou entram numa compra pública. Lobo Antunes é um exemplo disso. Os Cus de Judas foi um livro dele que vendeu mais de 20 mil exemplares por causa de um vestibular.

Qual foi o seu maior sucesso de vendas?

Comédias Para se Ler na Escola, do Verissimo. Mais de 1 milhão de exemplares.

Quando seguiu sua intuição na hora de adquirir um livro, qual foi seu maior equívoco e o maior êxito?

O maior equívoco é fácil. Tessie Barham, hoje uma importante agente literária, nos ajudava na avaliação de textos. Naquela época, ela ainda estava tateando e me propôs uma série juvenil maravilhosa, a Fronteiras do Universo, de Philip Pullman. Compramos, investimos pesado em marketing, e nada aconteceu. Paradoxalmente, anos depois vendeu mais de 100 mil exemplares.

E o arrependimento?

Foi nos anos 90. Um dia, Tessie me mandou um e-mail assim: “Roberto, tem aqui outro livro juvenil para você comprar. Muito bom, você tem de comprar. Chama-se Harry Potter.” E eu: “Olha, Tessie, me desculpe, mas não vou comprar.” Ela ficava mandando e-mail dizendo que eu iria me arrepender. E eu: “Tessie, lembra o que aconteceu com o Pullman?” Bem, ela estava certa, claro; eu me arrependi amargamente. Errei e continuo errando. Mas se o editor ficar desanimado quando errar, ele vai mudar de profissão.

Algum outro acerto?

Nessa linha um pouco anedótica da intuição e do imponderável, comprei os direitos de um livro que vendeu maravilhosamente bem (meio milhão de exemplares), que foi oInteligência Emocional, do Daniel Goleman. Li o informe do nosso scout e intuitivamente achei aquilo muito forte. Entrei no leilão em Frankfurt, suei, mas consegui.

Os grandes livros não são mais vendidos em Frankfurt, são? Perdeu-se um pouco do frenesi dos leilões?

Hoje, os agentes literários e as editoras que têm uma grande oferta de direitos autorais para tradução, deliberadamente, esperam até a véspera da feira para distribuir alguns de seus títulos mais potentes, porque eles compreendem que a dinâmica da pré-feira leva a uma disputa mais acirrada pelos editores de cada país por aqueles direitos.

Os brasileiros estão pagando valores irreais nos leilões?

Houve num passado recente e continua havendo uma exuberância irracional, para tomar emprestada uma expressão do Alan Greenspan, em relação à compra de direitos de tradução. Adquirir um livro que exija torná-lo um mega best-seller para recuperar esse investimento é um exercício perigoso. Isso é realidade e tem a ver com o aumento da concorrência.

Enquanto as grandes editoras criam selos para organizar melhor o catálogo, as de menor porte têm se especializado em determinado segmento. Isso terá lugar no futuro ou acha que as pequenas serão incorporadas por grandes grupos?

Sempre houve e haverá espaço para pequenas editoras focadas em determinados nichos. Isso não é novo. Novo são editoras importantes buscando diversidade de linhas de atuação criando novos selos, de uma forma semelhante ao que adotamos há cinco anos. Isso está acontecendo de forma sistemática. A tendência é que nenhuma editora se limite a atuar só num gênero.

O que leva a isso?

Hoje, a diversidade é um bem em si no mercado editorial, dado o grau de competição visto na última década.

No início do ano, o senhor escreveu um artigo investindo contra a campanha das gigantes da internet contra a lei antipirataria. Como vê o futuro do mercado digital, as leis antipirataria?

Fico feliz que tenham levantado esse assunto, que é importante. Vivemos a era do conhecimento. A produção do conhecimento é fundamental para o avanço de qualquer país. E esse tipo de produção tem de ser incentivada, e não minada. As empresas, ou pessoas, que defendem a pirataria online, ou a cópia irrestrita online, estão minando a produção do conhecimento nos seus respectivos países. Da mesma forma que não existe o milagre da multiplicação dos peixes, não existe o milagre da multiplicação do conhecimento. Sua produção exige formação, trabalho, investimento, e tudo isso tem de ser remunerado. Ninguém imagina que uma pessoa possa entrar numa livraria, pegar uma dúzia de livros e sair sem pagar. Mas algumas pessoas argumentam que na internet você pode e deve fazer isso.

A Objetiva sofre com a pirataria?

O Sindicato Nacional de Editores apoia um grupo de trabalho que identifica a oferta de conteúdo ilegal e pirata online. Em maio, no caso da Objetiva, havia 1.600 títulos oferecidos ilegalmente – 90% em um só site, o Fourshared. Esse site americano está ganhando dinheiro com escritores que publicamos, e alguns deles são brasileiros. Para isso as pessoas não atentam. O Fourshared e o Megaupload não têm estrutura para vender publicidade pelos quatro cantos. Eles usam estruturas criadas para esse fim por grandes corporações da internet, como o Google e o Yahoo. Então, o Google e o Yahoo são “sócios” do Megaupload e, indiretamente, se apropriam de obras dos escritores brasileiros para faturar milhões de dólares. E faturam literalmente milhões de dólares. Assim, quando uma grande corporação da web defende a pirataria na internet, argumentando que é uma questão de liberdade de expressão, estamos diante do mais puro oportunismo e demagogia. É preciso que a sociedade se conscientize, porque se a pirataria for consolidada como prática na web, a produção de conhecimento vai atrofiar aqui, e o brasileiro será obrigado a consumir conhecimento produzido nos países onde essa atividade é estimulada.

No momento em que o e-book se difundir efetivamente, o que o livro impresso precisará ter para não perder vendas?

O e-book é coisa do futuro e será uma coisa do presente. Mas eu não vejo o livro físico sendo a parte menor do mercado. Não vejo o digital ocupando a maior parte do mercado brasileiro no horizonte de uma década.

A Objetiva tem uma equipe focada na questão do livro digital?

Não, acho isso um erro. Todos têm de entender do digital para fazer seu trabalho. Mas uma das coisas que fiz tendo em vista essa transformação foi propor a criação da Distribuidora de Livros Digitais, que toma grande parte do meu tempo e tem como sócias as editoras Objetiva, Record, Sextante, Rocco, Planeta, L&PM e Novo Conceito.

Por que uma distribuidora?

Quando formamos a DLD, pretendíamos participar da definição de como o livro digital iria se consolidar e se implantar no Brasil. Essa preocupação se traduz em três objetivos. Primeiro, trazer para o consumidor brasileiro o que existe de melhor no exterior, em termos de experiência de consumo de livro digital, sem que isso signifique que empresas vindas de fora tenham condições de concorrência, no relacionamento com as editoras, superiores àquelas disputadas pelas empresas brasileiras que atuam no entorno digital. Segundo, garantir uma oferta diversificada e ampla de conteúdo. E terceiro, trabalhar com preços que sejam atraentes para o consumidor, mais baratos que o livro impresso, mas que remunerem o trabalho do escritor, da editora e da livraria.

De quanto é o desconto da DLD?

Nosso e-book tende a ser de 30% a 40% mais barato que o livro impresso; em julho, o preço médio do livro vendido pela DLD foi de cerca de R$ 16. Ou seja, menos que US$ 9.

Como estão as negociações com as empresas estrangeiras que querem atuar no País?

Estamos conversando com cinco empresas e muito perto de fechar acordos – acho que até o fim do ano teremos novidades. Para que o livro digital dê corda no Brasil, precisamos de três coisas: dispositivos de leitura bons e baratos, livrarias virtuais com facilidade de uso e oferta ampla e diversificada de títulos pelas editoras. A conclusão desse tripé é que teremos, ainda este ano, dispositivos de leitura lançados aqui, de primeira geração, a preços acessíveis. Penso que teremos o primeiro Natal digital.

Quais são as cinco estrangeiras que estão negociando para atuar aqui?

Amazon, Apple, Google, Kobo e nós, na Objetiva, estamos negociando com a Barnes & Noble, mas não para o Brasil.

Falamos em concorrência, em e-book, mas existe também a questão da territorialidade. Até pouco tempo atrás, era possível comprar um e-book de um autor português editado no Brasil pela Alfaguara diretamente da editora portuguesa desse autor.

Você está se referindo a um livro de António Lobo Antunes. Foi uma falha da editora portuguesa, já foi sanada. Isso se chama territorialidade. Hoje, quando você faz o upload de um título, tem de indicar para que países tem os direitos de venda.

Como fazer para que as pessoas leiam independentemente de obrigações escolares ou profissionais? Há, de modo recorrente, a queixa de que o livro no Brasil é caro.

O Snel e a Câmara Brasileira do Livro vêm contratando pesquisa de mercado há mais de uma década, que é feita pela Fipe. A última pesquisa, de 2011, identificou que no setor de obras gerais o número de lançamentos aumentou 8,6%, o número de exemplares vendidos aumentou 0,2%, e o faturamento, em reais, caiu 11%. Se considerar o acumulado de 2004 até 2011, em obras gerais, em valores nominais, a queda no preço médio foi de 26%. Em valores reais, compensados a inflação, 45% de redução. Eu pergunto: que outro produto teve uma queda de 45% no seu preço médio, real, nos últimos sete anos?

Por que o preço caiu?

Competição, competição. Há outros fatores: Avon, com vendas de porta em porta, os selos de bolso, a desoneração, no caso de livros de obras gerais.

Essa queda está chegando ao limite?

Sim. A criatividade dos editores está sendo cada vez mais exigida. Acredito que as margens têm sido comprimidas por esses processos. O que aconteceu de 2007 para 2011 não pode se repetir. A tendência é desacelerar, mas não posso afirmar que não haverá mais uma queda de preço.

A Alfaguara Brasil lançou recentemente uma edição da Granta com novos talentos do País. Essa seleção consolidou alguns autores que, nos últimos anos, começaram a se posicionar como promessas. O que sua editora, dentro ou não da Granta, faz para descobrir, de fato, novos valores na ficção?

A maioria das editoras que publicam ficção está sempre louca para encontrar jovens talentos. Eu sei que muita gente comenta que é difícil conseguir ser publicado, mas é difícil encontrar talento também. Temos conseguido atrair grandes autores da literatura brasileira, nomes como João Ubaldo, João Cabral de Melo Neto, e agora o Mário Quintana. Mas fiquei preocupado que o selo se tornasse clássico demais, com pouca vitalidade e criatividade. Por isso, temos feito grande esforço para encontrar e trazer jovens autores. Hoje em dia, temos quatro ou cinco novos escritores com muito potencial. Laura Erber é uma jovem que tem muito a dizer, domina a técnica da escrita. O Ricardo Lísias nem se fala, ele é completamente original, uma coisa difícil de encontrar.

Fazer uma seleção como a da Granta é uma experiência de risco.

Sim, dá dor de cabeça. Mas olhando em retrospecto, posso dizer que deu tudo certo. Estávamos preocupados. Quando anunciamos o projeto, não sabíamos se seria bem-sucedido. Era efetivamente um risco. A primeira coisa que nos tranquilizou foi a quantidade e a qualidade de textos submetidos. Depois, conseguimos montar um grupo de jurados de inegável qualidade e qualificação. O resultado da revista foi muito bom. Há desigualdades, diversidade. Alguns textos são melhores que os outros e nunca tive expectativa de achar que os 20 seriam extraordinários, isso não acontece em coletânea nenhuma. O resultado tem quantidade suficiente – na minha opinião pessoal – de escritores de talento para que se possa dizer: está justificado o esforço.

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Rinaldo Gama, Antonio Gonçalves Filho, Maria Fernanda Rodrigues e Ubiratan Brasil – O Estado de S. Paulo

EX-PRESIDENTE Getúlio Dornelles Vargas : 24/08/2012 aniversário de morte / rio dejaneiro.rj

19/4/1882 – São Borja, Rio Grande do Sul
24/8/1954 – Rio de Janeiro, RJ

Palácio do Planalto 

Getúlio Dornelles Vargas nasceu no dia 19 de abril de 1882, em São Borja, no Rio Grande do Sul. Alterou o ano de seu nascimento para 1883 por razões desconhecidas. O fato foi descoberto somente no ano do centenário de seu nascimento, quando a igreja onde havia sido registrado divulgou sua certidão verdadeira. A falsificação descoberta por estudiosos constava do atestado militar apresentado por ele à Faculdade de Direito de Porto Alegre.

Ingressou na política em 1909, como deputado estadual pelo PRP (Partido Republicano Rio-Grandense). De 1922 a 1926, cumpriu o mandato de deputado federal. Ministro da Fazenda do governo Washington Luís, deixou o cargo em 1928, quando foi eleito para governar seu Estado. Foi o comandante da Revolução de 1930, que derrubou o então presidente Washington Luís.

Ocupou a presidência nos 15 anos seguintes e adotou uma política nacionalista. Em 1934, promulgou uma nova Constituição. Em 1937, fechou o Congresso, prescreveu todos os partidos, outorgou uma Constituição, instalou o Estado Novo e governou com poderes ditatoriais. Nesse período, adotou forte centralização política e atuação do Estado.

Na área trabalhista, criou a Justiça do Trabalho (1930), o Ministério da Justiça e o salário mínimo (1940), a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) (1943), a carteira profissional, a semana de 48 horas de trabalho e as férias remuneradas. Na área estatal, criou a Companhia Siderúrgica Nacional (1940), a Vale do Rio Doce (1942), a Hidrelétrica do Vale do São Francisco (1945) e entidades como o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística -1938). Foi derrubado pelos militares em 1945.

Voltou à presidência na eleição de 1950, eleito pelo PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), que ajudou a fundar. No último mandato, criou a Petrobrás. O envolvimento do chefe de sua guarda pessoal no atentado contra o jornalista Carlos Lacerda levou as Forças Armadas a exigir sua renúncia no último ano do mandato.

Suicidou-se em meio à crise política, com um tiro no peito, na madrugada de 24 de agosto de 1954, dentro do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, deixando uma carta-testamento em que apontava os inimigos da nação como responsáveis por seu suicídio.

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