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FLORESTAS na LÍNGUA poema de jairo pereira

 

 

tenho florestas na língua florestas muitas florestas cipós limos liquens hastes folharéu ditos trançados no espaço da razão e da des-razão

caminho do sem-caminho destino do sem-destino trabalho do sem-trabalho cavalo do sem-cavalo espírito do sem-espírito ruidosos os redemoinhos da memória sonoros os ventos ventados em círculos ciscos crescidos no vendaval ciscos poeira do passado objetos vencidos idéias jogadas fora projetos esquecidos folhas de poemas maldormidos com limo nos títulos óxido nos versos enzimas raros na epiderme

uma noite muitas noites sem meus filhos-poemas libélulas asadas pra longe

meus animais de estima canto & alucinação

florestas na língua tenho florestas na língua e no pensamento florestas florestas pássaros verdes negros vermelhos azuis brancos nos acidentes da fala tenho provisões de palavras recém-nascidas frutos saborosos na aba do chapéu

tenho ócio & aventura na floresta das idéias retorcidas.

 

DIREITOS e DEVERES poema de deborah de o’lins de barros

 

 

Você tem o dever de, caso homem,

servir às forças armadas.

Você tem o dever de pagar impostos.

Você tem o dever de declarar o que ganha.

Você tem o dever de eleger seu representante.

Você tem o dever de respeitar o próximo.

 

- Mas e os meus direitos?

Você tem o direito de permanecer calado

 

STALIN era ESPIÃO do CZAR – por ubirajara passos

 ESCRITO NA NOVA ORTOGRAFIA REVOLUCIONÁRIA DA LÍNGUA PORTUGUESA

O PT, kuando de sua fundasão, já posuía nesesariamente matizes ke antesipavam as karakterístikas atuais do governo Lula. Fundado por padres vermelhos (ke, apezar de vermelhos, não deixaram de ser padres, e, portanto, totalitários) estudantes universitários e intelektuais pekeno-burgeses de eskerda (ke podiam ser de “eskerda”, mas kontinuavam a pertenser a uma pretensa “elite” kultural arrogante, kom ábitos e ideolojia identifikados à klase dominante) e por sindikalistas, posuía nos seus kuadros a perfeita reseita de bolo do fasismo vermelho ke pouzaria seus pés no Palásio do Planalto em 2003 kom uma kara kada vez mais prósima a de seus konjêneres da direita formal. Entretanto, não fose o Inásio dos Nove Dedos, seu líder maior, um sindikalista pelego treinado na eskola yankee do Iadesil (”Instituto Amerikano de Sindikalismo Livre”, patrosinado pela ajênsia sekreta do imperialismo amerikano, a CIA) e não viveríamos, hoje, no Brazil, a perfeita réplika, modernizada e em rejime formalmente demokrátiko, da polítika sosial, ekonômika e internasional da velha ditadura militar fasista e pró-imperialismo.

Pois komo na istória nada é kazual, o fato é ke, apezar do perfil um tanto autoritário da proposta sosialista de Marx e Lênin, o “sosialismo real” ou fasismo vermelho só se transformou na mais burokrátika, kontroladora e butral opresão da umanidade trabalhadora, sob o pretesto paternalista de sua própria defeza, grasas ao karáter, ao pasado e à formasão do sujeito ke konsolidou-o na antiga União Soviétika, o kamarada Josef Stalin, ke sofistikou seus métodos e refinou sua ideolojia komo ajente provokador infiltrado e espião da polísia sekreta polítika do Kzar (o monarka ruso), ke no grande império não atendia pelo nome de DOPS, Doi-Codi ou CCC, mas por Okhrana.

A koiza está esplikada na revista História Viva (de ke os artigos estranjeiros konstituem a edisão brazileira da franseza História) de marso pasado, kuja matéria sita, entre outros itens de bilbliografia, o livro “Rabotchëie dvjenie i sotsial-demokratia na Kavkzie”, de S. T. Arkhomed (Genebra, 1910!) e o artigo “Stalin i tsarkaia okhranka”, publikado no Sovierchenno Sekretno nº 7, de 1990, por Z. Serebriakova. O ke elimina kualker posibilidade de mera espekulasão sensasionalista ou difamasão direitoza deskabelada, a moda das reportajens publikadas pela brazileira Veja, no último ano, sobre Che Guevara e Fidel Castro.

Iossif (Josef) Vissarionovitch Djougachivili, nascido na Jeórjia (então provínsia do Império Ruso) em 21 de dezembro de 1879, era rapazote ainda kuando estreou a série de traisões ke akabariam-no konduzindo ao komando da futura União Soviétika e da lideransa de partidos e governos komunistas mundo a fora até o meio do sékulo XX. O seminarista (koinsidênsia, não?) Zezinho do Aso, lá pelos seus vinte anos, em 1899, andava um tanto entediado, apezar de ter se filiado a um sírkulo revolusionário sosial-demokrata (nome por atendia, na époka, o marxismo em jeral nos países não-latinos – só kom a revolusão de 1917 os sosialistas marxistas da ala eskerda pasarão a se auto-denominar komunistas). E, kansado de dar o ku (não konsta da matéria, mas ele estudava em um seminário, né…), rezolveu fazer koiza mais rentoza: eskondeu os panfletos subversivos ke resebia no partido entre os objetos pesoais de seus kompanheiros internos e depois dedurou todo mundo komo komunista komedor de kriansinhas  pro reitor do seminário. O rezultado foi a espulsão de 45 pobres estudantes (já ke eskola relijiosa era uma rara posibilidade de aprendizado para os mizeráveis proletários rusos).

Daí por diante, até sua prizão na Sibéria em 1913, ensetará a mais fantástika eskalada de sinismo e disimulasão, ke kulminará numa das mais fulminantes karreiras polítikas da istória. Em 1901 vamos enkontrá-lo trabalhando komo kontador no observatório da kapital de sua provínsia natal, Tífilis, e imprimindo e distribuindo tresloukadamente seus panfletos rebeldes, em sosiedade kom um bandido armênio xamado “Kamo”, kom o kual montara uma tipografia klandestina. Já então seus dirijentes sosial-demokratas konstatam sua vokasão de futuro “Kabo Anselmo” da Rúsia: os panfletos dão mais pau nas lideransas do partido operário ke nas autoridades do kzarismo imperial opresor. E Koba, apelido ke adotara e ke bem poderia ser “Kobra”, ajuda a konvokar e organizar uma manifestasão de 1.º de maio arkitetada pelo DOPS ruso, kuja pauleira dezenfreada rezulta na prizão do enviado lokal de Lênin, Victor Kournatovski. A reperkusão foi tamanha ke o Ministro do Interior (ao kual era subordinada a Okhrana) determinou investigasões sobre as orijens da manifestasão e o xefe lokal da polísia sekreta não teve outra saída, para disfasar, ke não fose akusar o Zezinho do Aso. Ke espertamente foi se eskonder na sua sidade natal, Gori, no interior da provínsia. Mas, komo kara de pau konvensido ke era, voltou à Tífilis uns sinko mezes depois e tentou se elejer komo líder dos poukos revolusionários ke aviam eskapado ao masakre. Os sosial-demokratas de lá não eram, entretanto, tão imbesis kuanto Lênin, e o mandaram pastar, espulsando-o do partido, em 11 de novembro de 1901, por unanimidade votos!

Três anos depois, entre prinsípio de 1904 e meados de 1905, Koba e seu amigo Kamo se dedikam à nobre arte do asalto nos arrabaldes tifilienses, além de se distraírem nas reuniões da faksão bolxevike do Partido Sosial-Demokrata lokal, ke não konhesia o epizódio do Zezinho do Aso entre os menxevikes. E não é por akazo ke o xefe jeorjiano dos bolxevikes, Stepan Chaoumian, ouve dos polisiais, kuando de sua prizão em 1905, estatelado, o seu endereso sekreto, ke só era konhesido de um inosente kamarada: o noso amigo Ko(br)a!

Mas o mais sensasional veio a segir: nakele ano, na Finlândia, o Zezinho, ke agora uzava o nome falso de Ivanovitch, konhese a besta Valdimir Ilitch Ulianov (Lênin), ke, impresionado kom sua perísia profisional, o dezigna komo “espropriador ofisial’ do Partido Bolxevike e ainda o leva konsigo em uma viajem sekreta a Berlim, kapital do Império Alemão. Não é presizo mensionar ke a Okhrana fika sabendo de kada paso dado por Lênin, através de um relatório asinado kazualmente por um tal de de “Ivanov”. O Zezinho, então, estava no auje de sua karreira de dedo-duro e komparese ao Kongreso Social-Demokrata de Estokolmo em 1906 e de Londres em 1907, ambos minusiozamente relatados ao Doi-Codi ruso, kom o kodinome sekreto de Ivanov. Entre uma e outra okazião é prezo por seus kolegas da Okhrana, em abril de 1906, kuando tratava de rekrutar espropriadores bolxevikes ausiliares, mas logo é solto, após revelar o endereso da tipografia menxevike klandestina de Avlabar, ke é empastelada pelos kosakos e pela polísia em 15 de abril de 1906.

Em 1908, porém, o seu xefe maior, o Ministro do Interior, rezolve tirá-lo de sirkulasão , determinando sua prizão, por dekreto espesial, em Vologda. Nove meses depois, a própria Okhrana trata de ausiliar a sua fuga a fim de infiltrá-lo entre os nasionalistas e sindikalistas revolusionários armênios de Baku, dando-lhe um pasaporte kom o nome Totomiantz, “armênio de Tífilis”. Lá o noso “erói”, porém, komesaria a se dar mal. Primeiro por ke tem o azar de dar pela frente kom seu es-xefe bolxevike de Tífilis, Chaoumian, ke traíra deskaradamente, e segundo porke seu ímpeto arrogante e direitozo o leva a ser akuzado abertamente de “ajente provokador” pelo prezidente do sindikato dos tipógrafos. Chaoumian konfirma as suspeitas e o Zezinho está pra ser julgado pelo komitê do partido sosial-demokrata de Baku em fins de marso de 1910, kuando a polísia invade a reunião e prende todo mundo. Sem mais nenhuma serventia, o futuro Stalin é enviado pela Okhrana de volta a Vologda para terminar de kumprir sua pena, o ke se dá em 1911.

 

 

 

Nakele ano, no Kongreso Pan-Ruso de Praga (kapital da Boêmia, então provínsia do Império Austro-Úngaro, e oje Repúblika Txeka), em junho, o Zé do Aso pensou ke estava por sima da karne seka e akabou kometendo sua kagada fatal komo ajente sekreto do poder imperial. Tinha sido eskolhido pelo asno Lênin komo ajente do komitê sentral , mas não gostou muito, porke outro kolega seu do DOPS ruso (o infiltrado Roman Malinovski, keridinho do Ulianov, ke, pelo visto, ou era kompletamente imbesil ou gostava de tranzar kom os ajentes kzaristas) foi nomeado pelo xefe Vladimir para membro do dito komitê. Kom a vaidade ferida, e vingativo ke era, o Ivanov/Zé do Aso tratou de dedar o Malinovski, deskrevendo-o, em karta ao Vise-Ministro do Interior do Império, Zolotarev, komo algém ke “de fato era um partidário de Lênin e trabalhava mais asiduamente pela kauza bolxevike ke pela polísia”. O Vise-ministro, nada trouxa, mandou-o kurtir uma grade na Sibéria, na prizão de Tourokhansk, nas prosimidades do sírkulo polar ártiko, para onde o velho Ko(br)a, ke agora uzava o kodinome de Vasili, foi enviado em 23 de fevereiro de 1913, e donde somente sairia às vésperas da glorioza revolusão de outubro de 1917.

Desde então, ao ke parese, o Zezinho se kansou de seus afazeres komo espião do Kzar e resolveu uzar suas abilidades de intrigueiro e puxa-sako no próprio Partido Komunista, onde, apezar de konstar seu kodinome Vasili komo um dos doze prinsipais ajentes da Okhrana infiltrados, em lista publikada logo após a revolusão bolxevike, lambeu tanto as bolas de Lênin ke susedeu-o, após sua morte em 1924, no komando da União Soviétika, kuando adotou seu kodinome defintivo: Stalin (omem de aso).

Instalado no poder ditatorial e supremo, o es-seminarista, e agora metalúrjiko onorário (não era o omem de aso, afinal?) podia realizar a grande obra pela kual sempre lutara. Após ezilar e/ou eliminar fizikamente seus adversários (komo o es-jornalista e komandante do Ezérsito Vermelho, o revolusionário Leon Trotsky) e todos os revolusionários komunistas lejítimos, ke kontrariaram sua tirania dezumana, após matar milhões de kamponezes ke se negaram à koletivizasão forsada, pariria a mais abjeta das kriasões umanas: a transformasão do komunismo marxista em fasismo vermelho e a redusão das masas de trabalhadores a gado asustado, sob um poder diskrisionário ke não lhes regrava a vida sósio-ekonômika apenas, mas lhes vijiava kada paso e kada pensamento em kada eskina.

 

Em 1939 Stalin konsagraria o seu proverbial sinismo, fexando um pakto kom seu arki-rival, e kompanheiro de peste emosional, o ditador fasista Adolfo (Htiler), kom kem invadiria e repartiria a Polônia, dando inísio à Segunda Guerra Mundial. Seis anos depois, atakadas pelo es-aliado, as tropas rusas tomariam Berlim, estingindo a tirania nazista. Pelo kaminho, entre Moskou e a kapital alemã, uma dúzia de nasões konkistadas pelas armas e submetidas à kondisão de kolônia do imperialismo soviétiko.

Kontam as más línguas ke, kuando Stalin morreu, em 1953, vieram à tona os arkivos ke komprovavam sua longa karreira de espião do rejime kzarista. Mas seu susesor, Nikita Krushev, teria ergido as mãos para o alto e bradado: “É impossível! Iso signifikaria ke noso país foi dirijido durante 30 anos por um ajente da polísia sekreta do kzar!”

No Brazil de oje, kazualmente, o governo mais anti-trabalhador e anti-nasionalista já visto, é dirijido, desde 2003, já kom 2 mandatos e aspirando ditatorialmente a um terseiro, por um es-metalúrjiko sindikalista, treinado na eskola da CIA (Sentral de Intelijênsia) norte-amerikana, ke era prezo e solto todo dia, durante a faze de kriasão de seu partido (o PT), pelos jenerais gorilas, para kriar as kondisões de, finjindo-se vermelho, kumprir o papel de suseder os erdeiros da antiga ditadura militar fasista de 1964. E impedir ke revolusionários nasionalistas e sosialistas autêntikos komo Leonel Brizola e Luiz Carlos Prestes xegasem ao poder e derrubasem a elite infekunda ke nos submete, a nós povo brazileiro, à triste e vil kondisão de gado umano, a mourejar na mizéria e na opresão kuotidiana, para propisiar o luxo vadio e fútil de burgezes amerikanos, europeus, japonezes e outros tantos senhores do imperialismo ekonômiko multinasional.

 

A INSTRUÇÃO dos AMANTES e FAZES-ME FALTA de INÊS PEDROSA/PORTUGAL – por helena sut

“Não se consegue amar completamente senão na memória.”
Fazes-me Falta, Inês Pedrosa.

A Instrução dos Amantes, lançado em 1992 em Portugal, é uma obra literária sobre descobertas. O período dos primeiros amores, das decepções, das idealizações. A protagonista Claudia é uma jovem bonita e desejada e namora o líder do grupo de adolescentes, uma relação instituída nas gravidades do poder e que determina os papéis sociais assumidos pelos personagens.

Contudo, Claudia encontra os olhos dourados de Diniz e se apaixona perdidamente no enterro de Mariana, jovem que caiu ou se jogou da varanda. A proximidade das emoções descobertas no auge da vida e na pungência da morte não é uma mera coincidência. Claudia busca o homem de sua vida, Diniz a quer apenas como mais uma amante. Uma relação que irá marcar profundamente todo o grupo e será a primeira e inesquecível cicatriz da mulher.

“Talvez seja ele, ainda, o segredo do riso dela. Não há memória mais terrível do que a da pele; a cabeça pensa que esquece, o coração sente que passou, e a pele arde, invulnerável ao tempo.”

Fazes-me falta, lançado em 2002, é uma narrativa densa em duas perspectivas distintas do mesmo momento. A morte precoce da protagonista descortina a intensa relação entre um homem e uma mulher. No limiar entre a amizade e a paixão, os dois não suportam a separação definitiva e, em paralelos, costuram seus encontros e desencontros, afinidades e divergências, silêncios e desabafos.

Uma história absoluta. Uma jovem professora idealista que se envolve na política em busca da realização do mundo mais justo; um homem maduro que vê o mundo a partir de suas vivências no salazarismo, em Portugal pós-revolução e nas guerras no continente africano. A mulher, marcada por um amor não cicatrizado e por diversas relações interrompidas, morre de repente e condena o homem que passou por alguns casamentos e manteve a sensação de incompletude projetada na ausência de filhos a uma estranha viuvez.

“Demasiado tarde. São estas as palavras mais tristes de qualquer língua.”

Dois seres dissecam os sentimentos humanos entre a vida e a morte. Iluminam as carências que geram a profusão dos sonhos, focalizam as presenças que salientam as conseqüências da morte real e da sobrevida desprovida de desejo.

“Arrumei os amores, é a primeira regra da vida – saber arquivá-los, entendê-los, contá-los, esquecê-los. Mas ninguém nos diz como se sobrevive ao murchar de um sentimento que não murcha. A amizade só se perde por traição – como a pátria. Num campo de batalha, num terreno de operações. Não há explicações para o desaparecimento do desejo, última e única lição do mais extraordinário amor. Mas quando o amor nasce protegido da erosão do corpo, apenas perfume, contorno, coreografado em redor dos arco-íris dessa animada esperança a que chamamos alma – porque se esfuma? Como é que, de um dia para o outro, a tua voz deixou de me procurar, e eu deixei que a minha vida dispensasse o espelho da tua?”

A Instrução dos Amantes e Fazes-me falta são obras da escritora portuguesa Inês Pedrosa, publicadas no intervalo de uma década. Dois grandes romances que mostram o amadurecimento dos personagens em trajetórias humanas intensas e envolvem os leitores nas vivências universais do amor, da amizade, do desamor, do ser no mundo, do mundo em si, do ser…

 

tela de mazé mendes.

CERTEZA poema de marcos fontinelli (black)

quando das trevas
que cobrem esta nação
brotarem as flores
resultantes de metamorfoses
de pranto e sangue
de solidão e desespero
os trovões hão de ecoar
os raios hão de reluzir
e as flores hão de crescer
como mutantes e transformadoras
fazendo com que tudo se torne
um imenso jardim

CIDADE em CRISE por walmor marcellino

Num certo sentido, as coisas estão sempre em crise, porque enfrentando contradições em seu desenvolvimento. Porém cidades como Brasília, Belo Horizonte e Curitiba foram sempre “belacaps”, louvadas e enaltecidas. Assim, o que diabos está acontecendo que pegou de surpresa o desatento?
De repente, a planura curitibana, com dois ou três morrinhos serrinhas que a presunção gramatical elevou a cerros, por causa das brenhas do Barão , chegou a termo de ocupação. Isto é, a cidade bucólica de nossos avoengos tinha trilhas que viraram ruas, caminhos que foram feitos avenidas, e circunspectos cidadãos que se tornaram grileiros e ladrões institucionalizados na prefeitura, na câmara, nos cartórios e no judiciário. Então, íamos como vamos indo assim ao Deus dará.
É uma tragicomédia: a Câmara Municipal tem 25 funcionários de ouro que ganham mais do que o prefeito; e os vereadores também, se quiserem, ganham vários guinéus a mais como “despachantes dos próprios interesses em conluio de malandros contra os cidadãos que pagam impostos e taxas”. Manobrando essa bela locomotiva desgovernada, o doutor-vereador Cláudio Derosso mostra para nós por que a democracia não pode funcionar com a ausência de uma imprensa democrática e popular; afinal essa que conhecemos está associada a toda essa bandalheira, tudo isso, com seus tipologistas entre os que ganham antes e depois do piquenique eleitoral.
Segurança, saúde, habitação, emprego, educação e lazer, é o de minimus que pedem o curitibano e o terráqueo aos céus, como recompensa por sua estada neste vale de lágrimas. Só que o canalha lhe reconhece a necessidade e o direito; o patife faz o discurso da necessidade e do merecimento, e o filho-da-puta afirma que é “seu irmão” e que está aí na mesma batalha.
E como todo mundo diz que ele precisa, que é seu direito e que somos uma fraternidade eleitoral, ele vota em quem arrota alho mais grosso. Nem sabe perguntar qual segurança comunitária, qual plano de saúde, qual preparação e estabilidade no emprego, qual tipo de educação e por que “lazer” (que é proposta de espaço público e programas de atendimento sociocultural) e não apenas “cultura” (que é, hoje, sinônimo apenas do reles mercado). E quem, como vai criar e/ou facilitar tudo isso?
Se ele não sabe e os candidatos elegíveis também não conseguem discernir o ponto de vista do poder, da burocracia, da quadrilha da habitação, da saúde, da educação, da segurança e da cultura numa perspectiva democrática, popular e nacional, como se enfrentará essa crise social, política, urbanística sem o “crivo de Eratóstenes”? Muitos me têm procurado, poucos serão os eleitos. De qualquer forma só conto como se faz se me pagarem o cafezinho.

GIZ RENDADO poema de bárbara lia

O que a onda diz
ao cão sentado
babando moluscos
e saudades?
Como rasgar a onda
sem cicatrizar em azul?
Beber a ardência seminal
de amantes afogados
como quem engole
segredos guardados
entre debruns
de ondas
em seu giz rendado.

TROVINHAS e TROVÕES na terceira idade – de josé zokner (juca)

Curtir a Terceira Idade
Exige sabedoria,
Doses de serenidade
E razoável alegria.

Dessa maneira é possível
Viver com intensidade
Cada momento passível
De rara felicidade.

Mas, nesta Terceira Idade
– E quase sempre há um mas –
Ocorre contrariedade
O que, realmente, não apraz.

Exemplos dá pra citar.
São muitos em profusão.
Pretendo, aqui, relatar
Os que me trazem aflição.

Quando tentei me empregar,
Ouvi desculpa qualquer.
Aquela vaga a ocupar
Não se fazia mister.

Obter emprego, hoje em dia ?
Está escasso pra caramba.
Menos pra quem negocia
No mercado da muamba.

Será a globalização
A mais culpada de tudo,
Que deixa o pobre “povão”
Sofrendo dum mal agudo ?

Retorno a minha desdita,
Vou a história prosseguir,
Não deixando gente aflita
Eu parando de seguir.

Esqueço sempre onde deixei
O meu carro estacionado.
O meu cérebro embotei ?
Me pergunto apavorado.

No banco, a morosa fila
Do meu i, ene, esse, esse
Resulta numa quizila,
Fruto dum enorme estresse.

Lá procuro, com ansiedade,
Como alcançar o banheiro
Naquela eventualidade
Dum imprevisto traiçoeiro.

Meus óculos eu procuro.
Nenhum canto já não resta!
Estou ficando casmurro:
Não é que estavam na testa ?

Troco nomes das pessoas,
Cometendo muitos lapsos.
Não se pode cantar loas
Com tais tipos de colapsos.

Quero mostrar competência
E chegar às conclusivas:
Sobrevém a desistência,
Depois de três tentativas.

Não posso fazer mais isso,
Não posso fazer aquilo.
No cômputo total disso,
Resta saudade daquilo…

Enfermidade tratada,
Por melhor que tenha sido,
Deixa a gente amedrontada
E o médico enriquecido.

Tomo chuveiro sentado,
Difícil ser de outro jeito.
Fica tudo bem lavado,
Incluso costas e peito.

À jovem, chamo guria;
Pra gata, digo brotinho;
Tia, só mesmo pra tia.
Pareço falar sozinho.

Visto só boné de orelha
Pra me proteger do frio
O pessoal me olha de esguelha
Meu gosto, meu alvedrio.

Barriguinha virou charme;
Cabelos brancos, também.
Contudo, soa o alarme:
“Ali vai Matusalém”.

Tomo dois medicamentos,
Sempre depois de comer
Para evitar sofrimentos
E, assim, me fortalecer.

Quase sempre me emociono,
Até por qualquer besteira,
Como se fosse patrono
De famosa carpideira.

Cochilo no noticiário
E desperto assaz ansioso.
É realmente necessário
Aquele caso escabroso ?

Me inteiro de religião,
De que eu nunca quis saber.
Pelo sim, ou pelo não
Preciso me precaver.

Abordo minha vizinha,
Que me dá a contestação,
Após minha ladainha:
“E os seus netos como vão ?”

Quero ter vitalidade:
Caminho desatinado.
Refreio a velocidade:
Fico, de cara, esfalfado.

Falo – só – gesticulando.
E se me chamam a atenção
Digo que estava treinando
A letra duma canção.

Em um astral elegíaco,
Procuro me interessar
Por qualquer afrodisíaco,
Que digo não precisar.

Na escola de natação
A professora é querida.
Mas na piscina um senão:
Parece só ter subida.

Ganhei uma boa dica
Para usar lente de aumento
Já que todo texto fica,
Numa leitura, um tormento.

Quando na provecta idade,
Centenas ficam azedos.
Pensar nessa atrocidade
Me leva a ter muitos medos.

Receio ser apodado
De longevo, de caquético,
“Por fora”, ultrapassado
E, até, de velho patético.

Perda de musculatura
Redunda numa constante
Que molda a minha figura
De modo deselegante.

Lembro uma verde azeitona
Com palitos espetados.
Me refiro à “barrigona”,
Pernas e pés afinados.

Rememoro com amigos,
Em sessão de nostalgia,
De um rol de causos antigos
Que o pessoal já conhecia.

Reitero que o carnaval,
Naqueles tempos bem idos,
Não era tão artificial,
Com bailes mais divertidos.

Defensor dos argumentos,
Com certo calor vetusto,
Na discussão, por momentos,
Sou acusado de injusto.

Depois das contrariedades,
Passamos a outra questão:
Os de elevadas idades
O que possuem de bom ?

Encantos, em quantidade,
É válido não esquecer,
Gente com maturidade
Tem um mundo a oferecer.

Um deles, a tolerância;
A paciência, também é;
Não apelar pra ignorância;
Não se meter em banzé.

Brincar com os netos levados
E clamar com convicção:
“São filhos açucarados
Nessa Idade da Razão”.

Desfrutar samba e chorinho,
Talento tupiniquim.
Num volume bem baixinho;
Jamais um “rock” chinfrim.

Não precisar de conselho,
Nem óculos pras leituras,
Nunca meter o bedelho,
A fim de não ter agruras.

Evitar os desperdícios,
Lembrança dos tempos duros.
Eram tantos os suplícios;
Eram tantos os apuros…

Aqui deixo minha homenagem
Ao idoso – tão benquisto –
Essa grande personagem
Me incluo, pois não resisto.

Também à minha companheira,
Que já passou dos cinqüenta,
Sensível mulher guerreira
Que nesses anos me agüenta.

Cá termino de trovar,
Feliz e bem-humorado.
Quero a todos desejar:
Saúde e Paz. Obrigado!
E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

Entrevista de JACQUES LACAN a emilio granzotto

ENTREVISTA INÉDITA DE JACQUES LACAN A REVISTA ITALIANA PANORAMA
Publicada por Magazine Littéraire, Paris, n.428, fev/2004.

Nesta entrevista concedida em 1974, Jacques Lacan alerta sobre os perigos do retorno da religião e do cientificismo: a psicanálise é para ele o único baluarte aceitável contra as angústias contemporâneas.
EG – Fala-se cada vez mais freqüentemente de crise da psicanálise. Sigmund Freud, dizem, está ultrapassado, a sociedade moderna descobriu que sua obra não seria suficiente para compreender o homem nem para interpretar a fundo sua relação com o mundo.
JL – São histórias. Em primeiro lugar, a crise. Ela não existe, não pode existir. A psicanálise não encontrou exatamente seus próprios limites, ainda não. Ainda há tanto a descobrir na prática e no conhecimento. Em psicanálise, não há solução imediata, mas somente a longa e paciente busca das razões. Em segundo lugar, Freud. Como julgá-lo ultrapassado se nós ainda não o compreendemos inteiramente? O que é certo, é que ele nos fez conhecer coisas extremamente novas, que não poderíamos nem imaginar antes dele. Desde os problemas do inconsciente à importância da sexualidade, do acesso ao simbólico ao assujeitamento às leis da linguagem. Sua doutrina colocou em questão a verdade, é algo que concerne a todos e cada um pessoalmente. Uma crise é outra coisa. Eu o repito: estamos longe de Freud. Seu nome serviu para cobrir muitas coisas, houve desvios, os epígonos nem sempre seguiram fielmente o modelo, confusões foram criadas. Após sua morte em 1939, alguns de seus alunos também pretenderam exercer a psicanálise de maneira diferente, reduzindo seu ensinamento a alguma fórmula banal: a técnica como ritual, a prática como restrita ao tratamento do comportamento, e como meio de readaptação do indivíduo a seu meio social. É a negação de Freud, uma psicanálise de conforto, de salão. Ele próprio o havia previsto. Há três posições insustentáveis, dizia ele, três tarefas impossíveis: governar, educar e exercer a psicanálise. Atualmente, pouco importa quem assume a responsabilidade de governar, e todo o mundo se pretende educador. Quanto aos psicanalistas, graças a Deus, eles prosperam, como os magos e curandeiros. Propor às pessoas ajudá-las significa um sucesso assegurado, e a clientela se acotovelando na porta. A psicanálise é outra coisa.

EG – O que exatamente?

JL – Eu a defino como sintoma – revelador do mal-estar da civilização na qual vivemos. Certo, não é uma filosofia. Detesto a filosofia, há tanto tempo ela não diz nada de interessante. A psicanálise também não é uma fé, e não me agrada chamá-la de ciência. Digamos que é uma prática e que ela se ocupa do que não está funcionando. Terrivelmente difícil porque ela pretende introduzir na vida do dia-a-dia o impossível, o imaginário. Ela obteve alguns resultados até o presente, mas ainda não tem regras e se presta a toda sorte de equívocos. É preciso não esquecer que se trata de algo totalmente novo, seja do ponto de vista da medicina, seja do da psicologia e seus anexos. Ela também é muito jovem. Freud morreu há apenas trinta e cinco anos. Seu primeiro livro, A interpretação dos sonhos, foi publicado em 1900 com muito pouco sucesso. Foram vendidos, creio, trezentos exemplares em alguns anos. Ele tinha poucos alunos, tomados por loucos e nem mesmo de acordo com a maneira de colocar em prática e de interpretar o que tinham aprendido.

EG – O que não funciona hoje no homem?

JL – É essa grande lassidão, a vida como conseqüência da corrida pelo progresso. Através da psicanálise, as pessoas esperam descobrir até onde podemos ir carregando essa lassidão.

EG – O que empurra as pessoas a se fazer analisar?

JL – O medo. Quando lhe acontecem coisas, mesmo desejadas por ele, coisas que ele não compreende, o homem tem medo. Ele sofre por não compreender, e pouco a pouco cai num estado de pânico. É a neurose. Na neurose histérica, o corpo fica doente de medo de estar doente, e sem estar na realidade. Na neurose obsessiva, o medo coloca coisas bizarras na cabeça, pensamentos que não podemos controlar, fobias nas quais as formas e os objetos adquirem significações diversas, e que dão medo.

EG – Por exemplo?

JL – Acontece ao neurótico se sentir pressionado por uma necessidade assustadora de ir dezenas de vezes verificar se uma torneira está realmente fechada, ou se uma coisa está no lugar correto, sabendo entretanto com certeza que a torneira está como deve estar e que a coisa está no lugar onde ela deve se achar. Não há pílulas para curar isso. É preciso descobrir porque isso acontece conosco, e saber o que isso significa.

EG – E o tratamento?

JL – O neurótico é um doente que se trata com a palavra, e acima de tudo, com a dele. Ele deve falar, contar, explicar-se a si próprio. Freud define a psicanálise como a assunção da parte do sujeito de sua própria história, na medida em que ela é constituída pela palavra endereçada a um outro. A psicanálise é a rainha da palavra, não há outro remédio. Freud explicava que o inconsciente não é tão profundo quanto inacessível ao aprofundamento consciente. E ele dizia que nesse inconsciente, aquele que fala é um sujeito dentro do sujeito, transcendendo o sujeito. A palavra é a grande força da psicanálise.

EG – Palavra de quem? do doente ou psicanalista?

JL – Em psicanálise os termos “doente”, “médico”, “remédio” não são mais justos que as fórmulas no passivo que adotamos comumente. Dizemos: se fazer psicanalisar. É um erro. Aquele que faz o verdadeiro trabalho em psicanálise, é aquele que fala, o sujeito analisante. Mesmo se ele o faz da maneira sugerida pelo analista, que lhe indica como proceder e o ajuda por suas intervenções. Lhe é também fornecida uma interpretação. À primeira vista, ela parece dar um sentido ao que o analisante diz. Na realidade, a interpretação é mais sutil, tendendo a apagar o sentido das coisas pelas quais o sujeito sofre. O objetivo é mostrar-lhe através de sua própria narrativa que o sintoma, a doença digamos, não tem nenhuma relação com nada, que ela é privada de qualquer sentido que seja. Mesmo se na aparência ela é real, ela não existe. As vias pelas quais esse ato da palavra procede, reclamam muita prática e uma infinita paciência. A paciência e a medida são os instrumentos da psicanálise. A técnica consiste em saber medir a ajuda que damos ao sujeito analisante. Em conseqüência, a psicanálise é difícil.

EG – Quando falamos de Jacques Lacan, associamos inevitavelmente esse nome a uma fórmula, o “retorno a Freud”. O que isso significa?

JL – Exatamente o que é dito. A psicanálise é Freud. Se queremos fazer psicanálise, é necessário voltar a Freud, a seus termos e a suas definições, lidos e interpretados no sentido literal. Fundei em Paris uma Escola freudiana precisamente com esse objetivo. Há vinte anos ou mais que exponho meu ponto de vista: retornar a Freud significa simplesmente tirar o terreno dos desvios e dos equívocos da fenomenologia existencial por exemplo, como do formalismo institucional das sociedades psicanalíticas, retornando a leitura do ensinamento de Freud segundo os princípios definidos e enumerados a partir de seu trabalho. Reler Freud quer dizer somente reler Freud. Quem não faz, em psicanálise, utiliza uma fórmula abusiva.

EG – Mas Freud é difícil? E Lacan, dizem, o torna completamente incompreensível. A Lacan repreende-se falar e sobretudo escrever de tal maneira que somente muito poucos adeptos podem esperar compreender.

JL – Eu sei, tornam-me por um obscuro que esconde seu pensamento em cortinas de fumaça. Eu me pergunto por que. A propósito da análise, repito com Freud que é “o jogo intersubjetivo através do qual a verdade entra no real”. Não está claro? Mas a psicanálise não é um negócio para crianças. Meus livros são definidos como incompreensíveis. Mas para quem? Eu não os escrevi para todo o mundo, para que sejam compreendidos por todos. Ao contrário, nunca me ocupei minimamente de qualquer leitor que seja. Eu tinha coisas a dizer e as disse. É me suficiente ter um público que leia. Se ele não compreende, paciência. Quanto ao número de leitores, tive mais sorte que Freud. Meus livros são mesmo muito lidos, fico surpreso com isso. Também estou convencido de que em dez anos no máximo, aquele que me lerá me achará extremamente transparente, como um belo copo de cerveja. Talvez até se diga então: “Esse Lacan, que banalidade!”

EG – Quais são as características do lacanismo?

JL – É um pouco cedo para dizê-lo, no momento em que o lacanismo ainda não existe. Sentimos dele apenas o cheiro, como pressentimento. Lacan, em todos os casos, é um senhor que pratica a psicanálise há pelo menos quarenta anos, e que há tantos anos a estuda. Eu creio no estruturalismo e na ciência da linguagem. Escrevi em meu livro que “aquilo a que nos leva a descoberta de Freud é à enormidade da ordem na qual entramos, na qual nascemos, se podemos nos exprimir assim, uma segunda vez, saindo do estado chamado a justo título infans, sem palavra”. A ordem simbólica sobre a qual Freud fundou sua descoberta é constituída pela linguagem como momento do discurso universal concreto. É o mundo da palavra que cria o mundo das coisas, inicialmente confusas em tudo aquilo que está em devir. Há somente as palavras para dar um sentido completo à essência das coisas. Sem as palavras, nada existiria. O que seria o prazer sem o intermediário da palavra? Minha opinião é que Freud, enunciando em suas primeiras obras – A interpretação dos sonhos, Além do princípio do prazer, Totem e tabu – as leis do inconsciente, formulou, como precursor, as teorias com as quais alguns anos mais tarde Ferdinand de Saussure teria aberto a via à lingüística moderna.

EG – E o pensamento puro?

JL – Ele está submetido como todo o resto às leis da linguagem. Somente as palavras podem engendrá-lo e dar-lhe consistência. Sem a linguagem a humanidade não daria um passo adiante nas pesquisas / buscas do pensamento. É o caso da psicanálise. Qualquer que seja a função que possamos lhe atribuir, agente de cura, formação ou de sondagem, há apenas um meio do qual nos servimos: a palavra do paciente. E toda palavra merece resposta.

EG – A análise como diálogo, portanto. Há pessoas que a interpretam mais como um sucedâneo da confissão.

JL – Mas que confissão? Ao psicanalista confessamos um belo nada. Deixamo-nos ir a lhe dizer simplesmente tudo que se passa pela cabeça. Palavras, precisamente. A descoberta da psicanálise é o homem como animal falante. Cabe ao analista ordenar as palavras que ele ouve e dar-lhes um sentido, uma significação. Para fazer uma boa análise, é necessário o acordo, o entendimento entre o analisante e o analista. Através do discurso de um, o outro procura imaginar do que se trata, e encontrar além do sintoma aparente o nó difícil da verdade. A outra função do analista é explicar o sentido das palavras para fazer compreender ao paciente o que se pode esperar da análise.

EG – É uma relação de extrema confiança.

JL – Mais uma troca, na qual o importante é que um fala e o outro escuta. Também o silêncio. O analista não faz pergunta e não tem idéias. Ele só dá as respostas que ele quer realmente dar às questões que sua vontade suscita. Mas ao final, o analisante vai sempre aonde seu analista o leva.

EG – O senhor acaba de falar do tratamento. Há possibilidade de curar? Sai-se da neurose?

JL – A psicanálise tem sucesso quando ela limpa o terreno, sai do sintoma, sai do real. Quer dizer quando ela chega à verdade.

EG – O senhor pode enunciar o mesmo conceito de uma maneira menos lacaniana?

JL – Eu chamo sintoma tudo aquilo que vem do real. E o real tudo aquilo que não vai bem, que não funciona, que se opõe à vida do homem ao afrontamento de sua personalidade. O real volta sempre ao mesmo lugar. Você sempre encontrará lá, com os mesmos semblantes. Por mais que os cientistas digam que nada é impossível no real. É preciso ter um grande topete para afirmar coisas desse gênero, ou então, como eu suspeito, a total ignorância do que se faz e diz. O real e o impossível são antitéticos, eles não podem caminhar juntos. A análise empurra o sujeito para o impossível, ela lhe sugere considerar o mundo como ele é realmente, isto é, imaginário, sem significação. Enquanto que o real, como um pássaro voraz, só faz se alimentar de coisas sensatas, de ações que têm sentido. Ouve-se repetir que é preciso dar um sentido a isso e a aquilo, a seus próprios pensamentos, a suas próprias aspirações, aos desejos, ao sexo, à vida. Mas da vida não sabemos nada de nada. Os sábios perdem o fôlego a nos explicar. Meu medo é que por seus erros, o real, essa coisa monstruosa que não existe, acabe por conseguir, por levar a melhor. A ciência é substituída pela religião, e ela é de outra maneira mais despótica, obtusa e obscurantista. Há um deus-átomo, um deus-espaço, etc. Se a ciência ganha ou a religião, a psicanálise está acabada.

EG – Atualmente, que relação existe entre a ciência e a psicanálise?

JL – Para mim a única ciência verdadeira, séria, a ser seguida, é a ficção científica. A outra, a oficial, que tem seus altares nos laboratórios, avança às cegas, sem meio correto. E ela até começa a ter medo de sua sombra. Parece que chegou o momento da angústia para os sábios. Em seus laboratórios assépticos, alinhados em seus jalecos engomados, esses velhos bambinos que brincam com coisas desconhecidas, fabricando aparelhos cada vez mais complicados e inventando fórmulas cada vez mais obscuras, começam a se perguntar o que poderá acontecer amanhã, o que essas pesquisas sempre novas acabarão por trazer. Enfim! Digo. E se fosse muito tarde? Os biólogos se perguntam agora, ou os físicos, os químicos. Para mim, eles são loucos. Já que eles já estão mudando a face do universo, vem-lhes ao espírito somente agora se perguntar se por acaso isso pode ser perigoso. E se tudo explodisse? Se as bactérias criadas tão amorosamente nos brancos laboratórios se transformassem em inimigos mortais? Se o mundo fosse varrido por uma horda dessas bactérias com toda a merda que o habita, a começar por esses sábios dos laboratórios? Às três posições impossíveis de Freud, governo, educação, psicanálise, eu acrescentaria uma quarta, a ciência. Ademais, que os sábios não sabem que sua posição é insustentável.

EG – Eis uma versão bastante pessimista do que chamamos progresso.

JL – Não, é algo completa-mente diferente. Eu não sou pessimista. Nada acontecerá. Pela simples razão de que o homem é uma porcaria, nem mesmo capaz de destruir a si próprio. Pessoalmente, acharia maravilhoso um flagelo total produzido pelo homem. Isso seria a prova de que ele conseguiu fazer alguma coisa com suas mãos, sua cabeça, sem intervenções divina, natural ou outros. Todas essas belas bactérias superalimentadas para a diversão, espalhadas através do mundo como os gafanhotos da Bíblia, significariam o triunfo do homem. Mas isso não acontecerá. A ciência atravessa felizmente essa crise de responsabilidade, tudo entrará na ordem das coisas, como se diz. Eu anunciei: o real levará vantagem, como sempre. E nós estaremos como sempre ferrados.

EG – Outro paradoxo de Jacques Lacan. Censuram-lhe, além da dificuldade da língua e a obscuridade dos conceitos, os jogos de palavras, os gracejos de linguagem, os trocadilhos à francesa, e justamente, os paradoxos. Aquele que escuta ou que lê o senhor tem o direito de se sentir desorientado.

JL – De fato eu não brinco, digo coisas muito sérias. Eu apenas me sirvo da palavra como os sábios de que falei de seus almanaques e de suas montagens eletrônicas. Eu procuro me referir sempre à experiência da psicanálise.

EG – O senhor diz: o real não existe. Mas o homem médio sabe que o real é o mundo, tudo que o cerca, que ele vê a olho nu, toca.

JL – Livremo-nos também desse homem médio que, em primeiro lugar, não existe. É apenas uma ficção estatística. Existem indivíduos, é tudo. Quando ouço falar do homem da rua, de pesquisas de opinião, de fenômenos de massa e de coisas desse gênero, penso em todos os pacientes que vi passar pelo divã em quarenta anos de escuta. Nenhum, em qualquer medida, é semelhante ao outro, nenhum tem as mesmas fobias, as mesmas angústias, o mesmo modo de contar, o mesmo medo de não compreender. O homem médio, quem é? Eu, o senhor, meu zelador, o presidente da República?

EG – Nós falávamos de real, do mundo que todos nós vemos.

JL – Justamente. A diferença entre o real, isto é, o que não vai bem, e o simbólico, o imaginário, isto é, a verdade, é que o real é o mundo. Para constatar que o mundo não existe, que ele não está aqui, é suficiente pensar em todas as banalidades que uma infinidade de imbecis acreditam ser o mundo. E convido meus amigos da Panorama, antes de me acusarem de paradoxo, a refletirem bem sobre o que leram apenas.

EG – Dir-se-ia que o senhor está cada vez mais pessimista.

JL – Não é verdade. Não me enquadro nem entre os alarmistas nem entre os angustiados. Infeliz do psicanalista que não tiver ultrapassado o estádio da angústia. É verdade, existem à nossa volta coisas horripilantes e devoradoras, como a televisão pela qual uma grande parte de nós é fagocitada. Mas isto é apenas porque existem pessoas que se deixam fagocitar, que até inventam um interesse para aquilo que elas vêem. E depois há outras coisas monstruosas devoradoras de outra maneira: os foguetes que vão à lua, as pesquisas no fundo dos oceanos, etc. Todas as coisas que devoram. Mas não há porque se fazer um drama disso. Estou certo de que assim que estivermos de saco cheio de foguetes, da televisão e de todas suas malditas pesquisas no vazio, encontraremos outra coisa com a qual nos ocuparmos. É uma revivescência da religião, não é? E que melhor monstro devorador do que a religião? É uma festa contínua com a qual se divertir por séculos, como isso já foi demonstrado. Minha resposta a tudo isso é que o homem sempre soube se adaptar ao mal. O único real que podemos conceber, ao qual temos acesso, é justamente este, será preciso se fazer uma razão: dar um sentido às coisas, como dizíamos. De outra forma, o homem não teria angústia, Freud não teria se tornado célebre, e eu seria professor de segundo grau.

EG – As angústias são toda dessa natureza ou existem angústias ligadas a certas condições sociais, a certa época histórica, a certas latitudes?

JL – A angústia do sábio que tem medo de suas descobertas pode parecer recente. Mas o que sabemos nós do que aconteceu em outros tempos? Dos dramas de outros pesquisadores? A angústia do operário escravo da cadeia de montagem como de um remador de galera, é a angústia de hoje. Ou, mais simplesmente, ela está ligada às definições e palavras de hoje.

EG – Mas o que é a angústia para a psicanálise?

JL – Algo que se situa fora de nosso corpo, um medo, mas de nada, que o corpo, espírito incluído, possa motivar. O medo do medo, em suma. Muitos desses medos, muitas dessas angústias, no nível em que os percebemos têm a ver com o sexo. Freud dizia que a sexualidade é sem remédio e sem esperança. Uma das tarefas do analista é encontrar na palavra do paciente a relação entre a angústia e o sexo, esse grande desconhecido.

EG – Agora que se distribui sexo em todas as curvas, sexo no cinema, sexo no teatro, na televisão, nos jornais, nas canções, nas praias, ouve-se dizer que as pessoas estão menos angustiadas com os problemas ligados à esfera sexual. Os tabus caíram, dizem, o sexo não dá mais medo.

JL – A sexomania invasora é apenas um fenômeno publicitário. A psicanálise é uma coisa séria que diz respeito, repito-o, a uma relação estritamente pessoal entre dois indivíduos: o sujeito e o analista. Não existe psicanálise coletiva assim como não existe angústias ou neuroses de massa. Que o sexo seja colocado na ordem do dia e exposto na esquina das ruas, tratado como um detergente qualquer nos carrosséis televisivos, não comporta nenhuma promessa de algum benefício. Não digo que isso seja ruim. Não é suficiente certamente para tratar as angústias e os problemas particulares. Faz parte da moda, dessa fingida liberalização que nos é fornecida, como um bem dado de cima, pela dita sociedade permissiva. Mas não serve ao nível da psicanálise.”

Tradução: Marcia Gatto

EPIFANIAS poema de joão batista do lago

Meus espelhos são reveladores:
Todos são peças do escárnio
São formas de um fundo vazio
Nascendo a cada dia no silêncio do nada
Gerados no ventre do nunca alvorecer
Em cada qual há uma só revelação:
Maldito e sagrado; azeite e mel
Escorrendo pelos degraus do fel da sagração
Vou-me revelando em cada cais – mortais! –
Velhos repositórios de águas sem sais
Múltiplo da imanência do ser não-ser:
Representação da existência dos meus fins
Ora demônios, ora serafins – deus e diabo! –
Vago a diáspora do sujeito sem casca
Fruto maldito da árvore sem laços
De todos os espelhos um é revelação:
Sou arte da dicotomia na dupla face do ser
Representação final da arte da natureza
Sou corpo… Sou alma!
Além disso, mumificação de nadas

UM EMAIL e UMA REVELAÇÃO – por ricardo boessio dos santos

“Meu nome é Fulano (vou preservar o nome do ‘artista’) e vou estar fazendo Engenharia da Computação neste ano então dicidi perguntá como é. Lhi que é um curso legau i da p/ ganhar uma grana. Cerá que preciza ler muito livros? Agente vamos mexer c/ games?”

Esse foi o e-mail que recebi de um futuro universitário.

Antes de qualquer coisa vamos a alguns esclarecimentos: não sou revisor de texto, não sou Pasquale Cipro Neto, nem tenho a pretensão de ser e, principalmente, sei que meu português não é dos melhores. Cometo erros crassos a torto e a direito. Alguns erros por descuido ao revisar um texto ou por simplesmente esquecimento de fazer a revisão, outros tantos por pura ignorância mesmo.

Em suma, não sou perito na nossa língua, porém não posso deixar passar um e-mail desta magnitude vindo de um futuro universitário.

Eu gostaria muito de entender porque se “está fazendo” um uso do gerúndio desta forma hoje em dia. Claro que é um reflexo da tentativa de se falar (ou escrever) “bonito” que acaba por levar a este tipo de equivoco que está cada vez mais recorrente.

O difícil para eu entender é que esta prática de “gerundiar” foi tão difundida, considerando que temos (todos os seres humanos) o costume de abreviar palavras, diminuí-las para facilitar nossa comunicação no dia-a-dia. E isso não é coisa nova, de gerações atuais.

Veja um simples exemplo que é a palavra “Circo”, que veio de “Circlo”, que por sua vez derivou de “Círculo”. Fomos abreviando até chegar em “Circo”. Outro exemplo é “você”, que derivou de “vossa mercê”. O curioso, pelo menos para mim, é este caso do gerúndio. Simplesmente porque ocorre o inverso, acabamos por aumentar a frase para tentar torná-la “erudita”, “culta” ou mais bela.

“… vou esta fazendo”? “Farei” não seria mais simples, mais fácil, além de ser correto? Você elimina o uso indiscriminado de três verbos por um único verbo. Fora o fato de o universitário ter engolido um erre em “esta”.

Pularei o “dicidi perguntá”. Não “mereci comentá”. Tão pouco comentarei a falta que faz um simples virgula em uma frase.

O segundo parágrafo, confesso, foi uma incógnita por um bom tempo para mim. Ficava me indagando sobre o que ele queria dizer. Comecei a duvidar da minha capacidade de abstração e adivinhação até que a luz se fez e consegui decifrar a afirmação. O universitário, futuro do país, disse que leu em algum lugar que o curso é legal. Ele precisava “lher um polco” mais para “estar se fazendo” entender.

Ignorarei a ortografia (cerá, preciza e muito livros é de doer) da pergunta seguinte. Assim como ignorarei o “agente vamos” que veio a seguir.

… Ok! Não resisto a pelo menos um comentário: vocês não acham fácil perceber a preocupação do rapaz com a possibilidade de ter que ler livros (que coisa mais horrível!)?

Em um primeiro momento eu ri da mensagem, mas logo em seguida o riso deu lugar à preocupação. É preocupante ler algo dessa natureza partindo de um universitário.

Vou repetir, ou melhor, esclarecer bem que não sou um erudito na língua portuguesa (que, aliás, acho que deveria ser chamada de língua brasileira, dadas as diferenças que já existem, mas não é uma discussão que caiba neste momento), não acho que todos devam escrever sob a mais rígida regra, nem que devam escrever palavras “difíceis”, porém um universitário não pode escrever desta forma.

Tem uma coisa que eu aprendi e me ajudou muito a entender algumas coisas. É ser curioso como uma criança. Se você diz algo a uma criança, fatalmente ela devolverá com uma pergunta: por quê?

A criança é um ser em formação que tem curiosidade sobre tudo (reparem que um bebê normalmente arregala os olhos e olha bastante para tudo a sua volta) e não aceita qualquer coisa que tentam empurrar-lhe goela a baixo. Ela quer saber o porquê disso.

É o que eu chamo de “brincadeira do por quê” e me ajuda a não aceitar uma observação somente ou uma resposta simples.

Como diria um conhecido: sim, e daí?

E daí que a observação que fiz sobre o e-mail muitos já devem ter feito, outros tantos já devem ter recebido um e-mail semelhante e alguns partiam de universitários. É neste momento que entra a “brincadeira”. Por que isto tem sido tão comum? Por que alguém que escreve “preciza” conseguiu passar incólume pelos ensinos básico e médio?

Uma resposta: o que importa no ensino público, hoje em dia, são os números, as estatísticas para os políticos usarem ao seu favor nas eleições.

Paga-se uma miséria ao profissional mais importante de qualquer país, o professor, e contrata-se profissionais desqualificados para ensinar os estudantes. Os melhores professores acabam em escolas particulares e acabam restando alguns profissionais completamente despreparados no ensino público. Sim, é lógico que existem exceções, mas elas são, como já disse, exceções.

Para completar enchem-se as salas de crianças para que virem números para uso político e acaba por não haver professor, qualificado ou não, que dê conta de ensinar qualquer coisa em um ambiente destes.

É só isso (como se fosse pouco)?

Não.

Ao mesmo tempo criam-se pessoas que não conseguem se expressar, que têm verdadeiras ojerizas aos livros (tudo o que o ser humano não consegue entender, ele abomina), que aprendem mal e porcamente a montar palavras (“b com a = ba”, “b com e = be”…), mas não conseguem montar frases inteligíveis. Podem ser simples, mas que sejam pelo menos inteligíveis.

Por quê?

Desta forma não vão ler, nem falar, ou seja, não conseguirão se expressar. Cala-se o povo dentro da sua própria ignorância estabelecida.

Por quê?

Para continuar a achar que política não é interessante, que é coisa chata. Como se tudo o que acontece a sua volta não envolvesse política.

Por quê?

Enquanto o povo (quando falo “povo” estou me referindo à maioria, não a todos) se distancia da política por achá-la chata e desinteressante, os políticos corruptos e manipuladores (claro, não são todos) podem fazer o que bem entenderem. Estou falando de políticos de todos os âmbitos, federal, estadual ou municipal.

Por quê?

“Cerá” que eu “precizo” responder esta?

“A mídia deveria denunciar isto e cobrar dos governos melhoras”, poderia bradar o incauto. E a mídia não denuncia.

Por quê?

Para poder continuar a empurrar jornais, revistas e programas de televisão de qualidade duvidosa.

Por quê?

Como diria o imperador (sempre confundo se quem criou a política foi Otávio Augusto ou Tibério, porém foi um imperador romano): Panis et circenses. E para o povo: Pão e Circo. Vamos distraí-los para continuarem a não perceber o que acontece a sua volta.

Agora eu é que pergunto: até quando?

Como diz a letra da música do Gabriel, o Pensador, até quando você vai levando porrada? Até quando vai ficar aí sem fazer nada? Até quando você vai ser saco de dar pancada?

PS1: até hoje quando recebia os e-mails do tipo “Pérolas do ENEM” (o Exame Nacional do Ensino Médio), em alguns eu até acreditava, mas tinha outros que eu cheguei a duvidar que fosse verdade. Imaginava que não poderia haver uma situação tão esdrúxula quanto aquelas descritas nos e-mails. Agora eu acredito em todos!

PS2: um exemplo de como eu não escrevo bem vocês podem encontrar no uso incorreto que faço do “porque”. Nunca sei quando se deve usar por que, porque, porquê ou por quê.

TRAVESSÃO poema de osvaldo wronski

incontidas no contexto
as palavras encontram-se vivas 
entre pontos e vírgulas 
 
a sombra instantânea deste momento
altera o sentido da frase
revertendo o movimento
 
palavras espalhadas no céu da página
buscam a linha do firmamento
sem cessar o parágrafo
 
o sujeito solta o verbo no elemento
substantivo atingido em cheio pelo adjetivo
ninguém escapa do acento  

SER MULHER poema de gilka machado

Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida; a liberdade e o amor;
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior…

Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor;
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um senhor…

Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais…

Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!

Gilka Machado In: Cristais partidos (1915).

DESAFIO poema de ezequiel andrade batista

 
ainda que eu tenha a sorte
de ir para o norte
antes que me achem perigoso
e me ofertem um caminho
mais rápido para a morte
digo mais algumas palavras
que com certeza
mexem com a moldura dos quadros
 

O blogueiro ZÉ BETO comenta em DARC…aqui no site

ZÉ BETO

 

 

Darci Ribeiro é tanta energia falando e escrevendo que nos deixa sem fala, sem texto. Brasileiro até o talo, sendo brasileiro o fruto dessa misturança, essa bagunça, essa esperança, essa força, estranha, como na letra de música, mas que vai, aos trancos e barrancos, como o título de outro livro do professor, depurando, enxergando o lado falso, o lado podre, o lado mentiroso, que comanda essa imensidão de luz que teve nele, Darci, um intelectual que soube enxergar de dentro. Ele conhecia bem essa gentalha que arrebenta o povo sabendo disso, mas se lixando porque é seduziada pelo poder de roubar sob o manto da impunidade. São mais coitados do que a ninguenzada que não tem nada, mas é honesta, toma cachaça, vibra com o gol do time, samba no pé, faz sexo com o maior tesão do mundo, cria os filhos com nada de dinheiro, mas ensina a ser gente. Saravá, Darci! Que não está apenas nas bibliotecas. É presença nas florestas, nas selvas de pedra, no mar, nos rios, nos lagos, no céu azul, nas montanhas, nas pedreiras, no sorriso deste povo lindo, feio, vivo, que vai dando de leve o pé na bunda dos escrotos.

 

veja AQUI.

Os poetas TONICATO MIRANDA e ZULEIKA dos REIS comentam em MAIÊUT… aqui no site

  1. Zuleika dos Reis Silva

Desdobrável, para ser desdobrado, desventrado, esse poema-viagem alucinógeno, pelos múltiplos concretos-intangíveis gregos parâmetros sem acesso a conceitos gerais para esse eu-poético assim a buscar uma tão impossível contemporaneidade de tais deuses e monstros e bacanais; assim condenado a voltar, a voltar, a voltar sempre ao Agora, ao Agora, ao Agora, com as mãos vazias de deuses e do que os meninos amantes da sabedoria julgavam saber enquanto, astutamente, firmavam, através dos séculos, saberem coisa nenhuma.
Amigo Vidal, mas que viagem! Valha-nos deuses!

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TONICATO MIRANDA

Prezado Vidal,

Nem Baco, nem JB, nem Vidal, de dez palavras do seu poema, na sonoridade umas seis já tinha guardado o sabor nos meus ouvidos, umas três nem pensar, não sei do que se trata, meu latim não vai a tanto, meu grego é menos do que pelego, não me cobre nem o frio dos pés.

Uma única palavra duvidosa, talvez “zeugma”, talvez “divisos”, por sonoridade não tão próxima mas por elipse da estétiva. Mas sobre um poema tão hermético assim, lembro de Leminski dizendo

” um poema que não se entende é assim como um transatlântico perdendo a rota”.

Mesmo com tais dúvidas entendi que você queria ser, ao menos por um momento, um Deus, mesmo que apenas Olimpíco, e menos onipresente, apenas para visitar o Olimpo, conhecer Afrodite e alguns dos convivas de Zeus.

Muito bem, valeram por tantas palavras novas, mesmo que à margem do meu dicionário ou léxico embutido na memória.

Grande Abraço!
Tonicato Miranda

veja AQUI.

O poeta JOÃO BATISTA do LAGO, comenta em A NOSSA IMPRENSA… aqui no site

JOÃO BATISTA DO LAGO

 

Meu caro Vidal.
Bom dia.

Se esta configuração se desse como verdadeira eu me sentiria plenamente realizado.
Por que? Por quê veríamos aí a diversidade do noticiário.

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Aos meus olhos este texto deveria servir como aula para os alunos de jornalismo. Mas não só isso! Deveria ser discutido dentro das redações de jornais, rádios e televisões. Contudo deveria ser lido e discutido não a partir do conjunto humorístico que nele está implícito, mas a partir do conteúdo metafórico que nele há.
A imprensa nacional, meu caro, aos meus olhos, é hoje um grandiosíssimo pastel que é empurrado goela abaixo do brasileiro. Se olharmos com os olhos de ver percebemos, claramente que, simetricamente, todas as redações parecem que obedecem a uma única pauta. Em geral não vemos no noticiário enfoques diferentes e diferenciados. Em muitos casos a composição do noticiário chega a ser o mesmo… Mesmíssimo mesmo! Sem tirar nem por.
Ocorre-me, meu caro, com a devida licença dos “palavreiros” indicar autores que já escreveram sobre essa pasteurização da mídia: a) Alba Zaluar; b) Zuenir Ventura; c) Pierre Bourdieu; d) Giovanni Sartori; e) Dominique Wolton…

Um grande abraço.
João Batista do Lago

 

veja: AQUI.

 

ABAIXO a CENSURA!! por dani morreale

 

 

Que toda manipulação existe desde as extremidades esquerdistas e direitistas, neste mundinho múltiplo capitalista, é óbvio. Não há margem que somos o tempo todo, monitorados e também direcionados à inexistência de um porta-voz verdadeiramente ativo com interesses iguais a todos. Não sei quando nem como muito menos aonde vamos encontrar um apoio sólido que defenda em primeiríssimo lugar nosso meio ambiente (sem preservação e auto-sustentação há quem diga e as evidências indicam que ao passar dos anos a água será escassa como muitos animais hoje estão extintos, os ares poluídos e a degradação vista simplesmente como uma transformação natural – isso mesmo, referente à própria natureza). Que defenda a liberdade de sensos – que a “geléia geral” tenha em suas mentes instruções a manter um posicionamento crítico, sem discurso marcado de interesses miseráveis – dou-lhe uma e dêem-me algumas.

Que defenda a contra censura, isso mesmo a CONTRA CENSURA. Nos tempos dois mil e bolinhas assistimos sentados no sofá a saúde nos bolsos de magnatas e uma defesa fantasiada de seu reino. Os quais tapam os olhos da classe majoritária que não concluem os passos levados ao calabouço através de meios de comunicação abertas e BEM PAGAS. Na divisão das águas, dos que puderam à oportunidade de estudos e dos que não puderam, dos que podem aos acessos das novas tecnologias e dos que não podem, há uma incompatibilidade em números, falo principalmente aqui, no Brasil, dos que aceitam e que não aceitam calados. Penso como alastrarmos a voz fora dos meios baratos e arrancarmos estas vendas vendidas dos pobres manipulados. Não temos um sistema firme para criarmos movimentos revolucionários, este tempo já era. Seremos massacrados pelos poderes. Entraremos no bolo daqueles formadores de opiniões que foram demitidos dos grandes veículos de comunicação, apenas por expressar VERDADES. Até mesmo os críticos, neste instante de tensão, se calam por excitação de seus aconchegos. Pra quê enfiar a boca no trombone? Ah não, dá muito trabalho… Poderão perder suas reputações na sociedade. E amanhã? Vão tomar cafezinhos, lerem os jornais e rirem com deboche das falcatruas finais das CPIs sempre terminadas em pizza. Confesso, também sinto receios, mas não posso calar diante de minha indignação. Nem cito a criminalidade nos morros, muitos vitimados e orientados pela própria corrupção que sai da base do planalto.

Salvo aqui, não tenho interesse político, não levanto bandeira de nenhum partido que abasteça uns e abortam outros. Também não sou isenta do meu posto, nem sigo o fluxo conforme o tráfego. Pudera eu ter àquela voz que cito ali em cima, de orientar e defender o que nos parece ser mais justo/evidente. Fico apenas inconformada com toda esta manipulação que a mídia faz sempre em cima da balança, com o peso bruto do dinheiro. É o que movimenta o mundo sem medo de o mundo parar de movimentar.

Segue abaixo o link do vídeo sobre a CENSURA no governo de Minas Gerais. Como disse minha amiga Brena Braz, assistam logo, antes que o governo mande/pague o youtube tirar fora do ar…

http://www.youtube.com/watch?v=R4oKrj1R91g&eurl

 

Abraços e boa semana pra nós – com sensos e sem censos.

 

 

DIRETOR do TEATRO POSITIVO QUESTIONA GOSTO do CURITIBANO

Diretor do Teatro Positivo “alfineta” concorrência e questiona gosto curitibano

Marcelo Franco admitiu ainda que lucro com atrações internacionais é modesto

 

Joss Stone canta em Curitiba no próximo dia 18.

Às vésperas de receber Joss Stone no Teatro Positivo (18/6), o diretor da casa de espetáculos Marcelo Franco comunicou que os preços cobrados pela apresentação da cantora inglesa (entre R$ 200 e R$ 400) são definidos pela produção do show, e não pelo próprio teatro. “O valor de locação do espaço para shows internacionais é inferior que o cobrado pelo Teatro Guaíra (com 2173 lugares, 227 a menos o Positivo). Nossos preços não são maiores que os que acontecem lá”, falou.

Para ele, o público contesta o valor do ingresso porque “não entende que o cachê é em dólar”. “O preço de uma atração internacional é extremamente caro. Os contratos internacionais exigem inúmeras taxas”, garantiu.

Franco contou que o lucro do Positivo para receber uma apresentação internacional é modesto. Mas garante que a ação é uma boa estratégia de marketing para o grupo. “São atrações de risco. Ganhamos mais nome do que dinheiro.”

O diretor garantiu ainda que o valor cobrado para ver Joss Stone não é o mais “salgado” do ano. Em abril passado, o paranaense precisou desembolsar de R$ 300 a R$ 400 para ver o britânico Seal. Detalhe: Seal contava com patrocínio do Banco HSBC. “A Joss Stone chega ao Brasil sem nenhum incentivo ou patrocínio de peso”, contou Franco, que segundo ele poderia encarecer a apresentação.

Gosto duvidoso?

Marcelo Franco criticou ainda o gosto curitibano. Segundo ele, o público gasta “muito dinheiro com atrações que não têm qualidade”. “As pessoas pagam muito para ver coisas que não são tão boas”, disparou ele, que diz ter ficado entristecido por ver a pouca procura pelo americano Billy Paul.

“Estava vazio. Me arrependo por não ter mais público do que tinha”, disse ele sem revelar a lotação do espetáculo, que custava R$ 160.

O diretor também reclamou da fraca procura pela premiada companhia norte-americana de dança contemporânea Parsons Dance, que se apresentou no local na última terça-feira (10), com pouco interesse do público apesar do preço baixo (R$ 80). “Oferecemos várias apresentações. São peças e shows que o público em geral pode pagar, mas certas atrações realmente não conseguem ser tão acessíveis por conta do peso do artista”, reclamou.

“Não tenho como dar acessibilidade total à cultura, seja ela no teatro ou em qualquer outro ramo. Isso não existe”, finalizou Franco.

 gazeta on-line.por angela antunes.

CHINA é quem mais polui! pela editoria

Usinas termelétricas ineficientes a carvão tornarão a China o maior emissor de CO2 em 2009-2010

A estimativa é muito mais precisa do que a previsão anterior da AIE, de novembro passado, alertando que na tendência atual a China iria superar os Estados Unidos antes de 2010.

‘Neste ano ou no próximo’, disse Birol à Reuters ao responder a pergunta sobre quando a China vai superar os EUA.

A AIE é conselheira para questões de energia de 26 países desenvolvidos e Birol é responsável pelo relatório anual da entidade sobre o setor (World Energy Outlook).

O fato de liderar o ranking dos maiores emissores de carbono poderá pressionar Pequim a ser mais ativa na questão da mudança climática.

Dados recentes mostram que a China está construindo usinas termelétricas alimentadas com carvão à média de 1 a cada 4 dias, disse John Ashton, funcionário de alto escalão do Ministério de Relações Exteriores britânico.

A energia gerada por fontes fósseis, como o carvão, é um dos fatores que aumentam o efeito estufa.

O governo chinês tem a difícil missão de ajustar um crescimento de 10 por cento ao ano com preocupações ambientais e necessidades de aumento de energia.

Birol afirmou que o rápido crescimento da China coloca em suspenso os esforços do Ocidente em combater as mudanças climáticas.

‘O que fazemos na Europa é feito com boas intenções, uma coisa ética, mas se você coloca essas ações em termos de números seu impacto é muito limitado’, disse Birol.

A China, por ser um país em desenvolvimento, ficou de fora da lista de países que se comprometeram no Protocolo de Kyoto a reduzirem as emissões de gases causadores do efeito estufa, assim como outros países emergentes.

Os EUA possuem uma meta de redução, mas se recusaram a assinar o protocolo, que já está em vigor.

Há pressão dos países desenvolvidos para que as nações em desenvolvimento como a China, a Índia e o Brasil participem com metas de redução de emissões da próxima rodada de metas, ainda em discussão.

KONPLIKASÃO ORTOGRÁFICA – por eno teodoro wanke

Ningén ignora, todos senten na pele: a ortografia do Brazil está muito konplikada atualmente. Ningén konsege aprendê-la por konpleto. E os ke aprenden kon serta dezenvoltura fikan uzando iso para demonstrar status e sabedoria – mas kuando akaba, terminan senpre por nesesitar de ir ao disionário de vez em kuando para tirar dúvidas ortográfikas. Mesmo profisionais da palavra kalejados, komo os revizores, tên o disionário komo instrumento de trabalho.

Perdemos uma longa parte de nosso tenpo e de nosas enerjias eskolares estudando ke tal ou kual palavra se esckreve kon “x“ e não kon “z“, kon “ss“ e não kon “c”, kon “j” e não kon “g”. E -pior- akabamos não aprendendo nunka. Uma konplikasão!

Tudo iso por ke? Tudo devido a uma tal “ortografia etimolójika” ke andava en moda na Fransa do fin do sékulo 19- e ke os portugezes adotaran ao fazer sua reforma ortográfica em 1911. A mesma ortografia ke, kon pekenas modifikasões, foi adotada pelo Brazil em 1945 e uzamos oje.

A etimolojia, todos saben, ningén duvida, é uma siênsia muito interesante, fasinante mesmo, ke estuda a istória e a origem das palavras. Mas não konfundamos as koizas. A orotografia etimolójika não estuda koiza nenhuma, apenas atrapalha o estudo. Ou seja: etimolojia é uma siênsia, ortografia etimolójica não.

Porke ortografia kualker ke ela seja – é senpre e apenas uma konvensão, a maneira konvensional de se pasar do kódigo falado ao kódigo eskrito da língua. Deve ser o mais sinples e direto posível.

Kon efeito -pergunto eu- por ke diabos deverian as palavras fikar demonstrando de onde vieran kada vez ke são eskritas? Ke “mesa” se eskreva kon “s” (embora se pronunsie “z”) porke vem do latin “mensan”.

E ke, ao kontrário, “razão” (kujo “z” pronunsiamos igual ao “s” de “mesa” se eskreve kon “z” porke vem do latin “rationen”_e se konvensionou (veja bem: se konvensionou!) ke o ke en latin se eskrevia kon “t” deve em portugês ser eskrito kon “z” …E asin por diante em milhares de palavras.

(Afinal, kuando falamos, não presizamos demonstrar a orijen de palavra nenhuma no son da fala…)

E o pior ainda não é isso. Animados kon sua pretensa siênsia, os pretensos sientistas da língua inventaran etimolojias! Estabeleseran, por ezenplo, ke kuando uma palavra ven de línguas nativas de negros afrikanos ou índios brazileiros, o son “j” é eskrito kon “j” mesmo e não kon “g”: “jiló”, “canjica”. Mas akontese, ke não é só a origem ke konta. A istória da palavra tanbén! Asin, a palavra “girafa”, ke é de origem afrikana, e deveria, pela própia konvensão dos “sientistas ortográfikos” ser eskrita “jirafa” não é, porke antes de vir para o portugês, pasou pelo italiano “girafa”!

Iso é sério? Isso é sientífico?

Siênsia não é brincadeira, jente! Siênsia é para sinplifikar, e não para konplikar! Se os sientistas de verdade fosen konplikados komo eses tais “siêntistas ortográfikos”, jamais o omen teria seker inventado a roda, kuanto mais pizado na Lua !

Ainda ben ke eziste a proposta fonétika kujo lema é a biunivosidade entre letras e sons: “Os mesmos sons as mesmas letras; as mesmas letras os mesmos sons”. Tudo aplikado sobre uma língua padrão média do falar dos brazileiros.

Sonho inposível? Utopia? Não.

Os de língua alemã tên ortografia fonética perfeita, bazeada na língua padrão kuja origem foi a tradusão feita por Lutero da Bíblia: o hochdeutsch. Os xinezes bazearam a fonetizasão de sua eskrita no mandarin falado em Pekin. E línguas bem prósimas à nosa, komo o kasteliano e o italiano, são línguas fonétikas.

Por ke não deskonplikarmos tanbén nós, a nosa eskrita?

Regra únika – “Kada letra só tem un son e vise-versa”

Rumorejando (Possibilidade de novo imposto, lamentando). – por josé zokner (juca)

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

Rico materializa lindos sonhos; pobre, acumula pesadelos medonhos.

Constatação II (De demonstrações de “afeto”, ouvidas de um cara, dizendo pra uma viúva, inspiradas no tratamento entre os meninos em Capitães de Areia do mestre Jorge Amado).

“Se você tem conversado com o teu marido, durante as sessões espíritas que você costuma freqüentar, diga pra ele que ele é um grande filho daquilo por ter nos abandonado tão cedo. Não se esqueça de dar o meu recado, viu!”

Constatação III (Passível de mal-entendido e/ou má interpretação).

“Vá até lá, ali no pote que partiu”.

Constatação IV

Não se pode confundir engraçado com engraxado, até porque ninguém achou engraçado deputado ser engraxado com o mensalão. Exceto, naturalmente o próprio deputado. A recíproca pode ser verdadeira como no caso do cara querer dar uma de mecânico e se meter a arrumar o carro e ficar com o rosto sujo de graxa e a mulher achar graça. E, ele, ficar sem graça, com cara de cachorro que lambeu graxa.

Constatação V

Deu na mídia: “Eddie Murphy é o pai da filha de Spice Girl”. Taí uma notícia de transcendental importância para o futuro da Humanidade…

Constatação VI

Tem deputado e senador que consegue explicar o inexplicável e, pior, consegue convencer alguns inocentes anjos não incrédulos.

Constatação VII (Teoria da Relatividade para principiantes).

É muito melhor o atacante do nosso time fazer um golaço do que o goleiro do nosso time engolir um frangaço. Elementar minha gente!

Constatação VIII

Não se deve confundir caricatura com cara-dura, muito embora os cartunistas sempre estejam fazendo caricatura de tanto cara-dura que viceja por este nosso sofrido país. A recíproca pode até ser verdadeira, mas Rumorejando admite que jamais conheceu cara-dura se dedicando a fazer caricatura. Podem até falsificar nota de R$50,00 reais, como, por exemplo, mostrado no filme O homem que copiava, mas caricatura…

Constatação IX

O presidente* pegou o palimpsesto** do seu antecessor e escreveu uma nova lei que beneficiava a si próprio e aos seus amigos e parentes.

*Não ficou muito claro se foi o presidente da República, ou do Senado, ou da Câmara dos Deputados, ou ainda de um time de futebol. Tampouco em que país tal ocorreu. Se alguém souber, por favor, cartas à coluna. Obrigado.

** Palimpsesto = “papiro ou pergaminho cujo texto primitivo foi raspado, para dar lugar a outro”.

Constatação X

O Oswaldo,

Depois de outras e umas,

Chegou ao doce lar,

Pisando leve,

Quais penas e plumas

Se apoiando no espaldar

Das cadeiras

E nos caixilhos das janelas.

De cara, virou

Uma delas.

“Você é um marido

Ribaldo”*,

Vituperou

A coitada da mulher,

Acordando com o barulho,

Ferida no seu orgulho.

“Faz-se mister

Que você saia já daqui”,

Ela gritou

Desarticulada.

“Vá dormir ali

No banco da praça

Seu desalmado,

Você me dá engulho,

Você só me trouxe desgraça.

Coitado!

Coitada!

Coitado?

*Ribaldo = “que ou aquele que usa de fraude; velhaco, patife”. (Houaiss).

Constatação XI (Dúvida crucial via pseudo-haicai).

Destempero

Prum ditador

Não é exagero?

Constatação XII (De fatos do cotidiano).

Na sala de espera,

Do dentista,

Ou do médico cirurgião,

Portanto de um especialista

Onde fica sentada a enfermeira,

O garoto, mostra sua educação

Pondo os pés na cadeira.

Merece levar um cascudo,

Mas os pais não chamam sua atenção.

“Nosso filho, por ser nosso, pode tudo”.

Sem dúvida, quando crescer será um testudo,

Mais que um pentelho, um pentelhudo,

Ou como diriam nossos hermanos: “un bundudo”.

Constatação XIII (Rico é sincero; pobre é inventador).

“Sou um sujeito atrabiliário*

Quando não faturo horrores”,

Disse o sincero miliardário**

Sem resquícios de falsos pudores.

*Atrabiliário = “que ou aquele que vive tomado pela cólera; irascível” (Houaiss).

**Miliardário = “que ou aquele que possui bilhões, que é riquíssimo” (Houaiss).

Constatação XIV

Quando o obcecado convencido leu na mídia que “Estudo sugere que mulheres são mais espertas na paquera, já que os homens têm mais dificuldade em identificar sinais não-verbais na hora da sedução”, deu um sorriso de mofa, de escárnio, de superioridade e proclamou: “Comigo não acontece isso. Todas elas, sem exceção, sempre querem me seduzir. E, claro, conseguem”.

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

 

 

                               área de fumantes. foto sem crédito. ilustração do site.

DEBAIXO DO TAPETE IMORTAL… – por ademário da silva

As relações humanas retidas na transitoriedade, grafadas pela história, é só um pedaço rasgado da fotografia da vida. É como se num dado momento, alheio a nossa vontade, algo se nos tira de cena e a foto fica sem sentido. Olhar uma foto batida numa reunião de família e descobrir em sua imagem, fisionomias de pessoas desencarnadas, deve ser uma coisa muito triste e pesada para aqueles que teimam que a vida é só isso que se vê…

Sabe, eles têm saudade, de quem e como e que não sabem explicar, mas, acreditam piamente na eternidade. Afinal de contas uma verdade apregoada por esses milênios de que nos damos conta, ao menos historicamente, por que não acreditar. Ainda que seja um trauma imposto e mal explicado por quem de direito; um condicionamento religioso existencial, do tipo é melhor acreditar pra não ficar fora da maioria ou da moda.

As filosofias e as psicologias insistem em que o homem já foi o centro da vida, e que, a religião por ganância, por ambição ao poder e as finanças se auto elegeu a dona do mundo, representante das vozes divinas e são tantas, junto aos destinos humanos; e foram se lambuzando pelo tempo a frente de corrupções e conluios, de obscuridades e desmandos a tal ponto que hoje o ser humano, dito pensante, quase nem pensa, segue “feito penitente, carregando pedras (dores e sofrimentos) pelo continente, erguendo estranhas catedrais” O Chico Buarque meteu o dedo na ferida, mas, ninguém comenta, afinal de contas o povo é desletrado e cobrado na hora de eleger políticos, esquisito isso…

Por razões como essas e tantas outras, a criatura humana segue pro desconhecido, sem saber de onde veio e à que veio como se viajasse num carrego alegórico (já vi essa descrição hein…) pra algum lugar no meio do nada, afinal até hoje só cobram pedágio pra ir aos céus e aos infernos, mas o roteiro, ou melhor, o itinerário ainda é milenarmente desconhecido. Só divulgam os pacotes e as saunas conforme a opção “escolhida” pelo cliente desavisado das funerárias de plantão. Até por que a pia batismal só funciona quando aqui se chega e na hora da saída é só dor e lágrima de despedida…

Mas, todos nós sabemos de antemão, ou será na contramão, que a vida é eterna. De algum modo isso é um consolo.

E nós desencarnamos, morremos, falecemos ou fomos para os céus, e que todas as ladainhas digam amém…

Mas a dor da separação parece ter prazo de validade, provoca espasmos, desequilíbrios, delírios, arroubos, espetáculos tais que parece infernais, por aqui, não pode ser, afinal quem morre parece carregar uma culpa por não ter conseguido sobreviver ao câncer ou ao acidente, que dirá então da velhice, hoje extremamente desvalorizada, até aviltada, desmerecida estação reflexa… E perplexa ou será aturdida a população segue sua vida, isso é no planeta inteiro, mesmo com essa fantasia de 1º, 2º e 3º mundos. A religião A ou B e talvez, quem sabe a C e provavelmente mais uma boa quantidade fonemas representativos de adorações irrelevantes, dizimáticas, não conseguem sequer esclarecer por que é sempre assim…

E o tempo escoa na ampulheta e a dor vai sendo lenta e gradualmente arquivada, até que a história daquele ou daquela que se foi, vai se esfumaçando nos horizontes da memória cansada da lida da vida e sua dores, então aceita essa separação mais por imposição inalienável da natureza do que por consciência…

E ainda, desde muito tempo atrás, tudo é tão misterioso, sobrenatural, frutos híbridos da alucinação, que nenhuma alquimia ou vara de condão, ou será de duende, que não se “consegue explicação”. Mas, é batismo pra chegar e extrema-unção pra voltar. O que será que e a quem se encomenda, se a vida é uma só, mas, diante do mistério é melhor ficar sério e cumprir o mandamento, ou melhor o sacramento, afinal, todos temos igual chance.

O Cristianismo aviltado pela política imediatista e pelos oportunismos clericais, não se fez de rogado, muito menos melindroso, ou achacado em seus dons naturais, e até na verdade nem ficou chocado. O Cristianismo reencarnou como Espiritismo. O Cristo Redivivo nos postulados imortais.

Como numa transgenia em que se eliminam os focos bactericidas, a condição viral vai sendo combatida pela interferência dos espíritos superiores e principalmente do Espírito da Verdade, traduzido então como o Consolador Prometido, então crendices e lendas, mitos e ritos, aos gritos saem do cenário de luz engendrado pelos maiores pensadores já sediados em mundos melhores e que vão sendo, seus pensamentos e informações e esclarecimentos, codificados pelo mestre em pedagogia, realmente o bom senso reencarnado o Sr. Hipolitte Léon Denizard Rivail, que utilizou antigo nome de batismo druida como pseudônimo e lançou aos olhos da ciência, da literatura, da filosofia, da religião e principalmente dos detratores de plantão, um novo e mais abrangente conceito de religião acrescido de uma filosofia irretocável, e, aspecto importantíssimo, desenvolve os princípios da ciência do espírito, exarados de um modo insofismável em o Livro de A Gênese. E todo essa avalanche de informações e esclarecimentos codificados em o Pentateuco Espírita, ou seja os cinco livros da Obra Básica, somando ainda os livros: O que é o Espiritismo, Iniciação Espírita, O Espiritismo em Sua Expressão mais Simples e mais um conjunto de 12 livros que constituem O Jornal de Estudos Psicológicos ou simplesmente as Revistas Espíritas.

Esse esforço, esse trabalho para dar a criatura humana em qualquer latitude ou longitude terrena, a oportunidade igual de descobrir causas e efeitos, origem e finalidades da vida, sob a lente da lucidez e do bom senso, desassistida dos rituais e crendices. Como ensinou Jesus “em Espírito e Verdade”…

Aqui o grande segredo do aprendizado. “Cada consciência evolui por si”. Ensinou Kardec. Ah! Ele disse também que aprender Doutrina Espírita exige-nos um esforço de no mínimo com tempo e dedicação, dez anos humanos da nossa vida.

Mas a imortalidade enquanto Lei Divina e Natural, não esconde seus objetivos. E se quisermos encontramos com eles diuturnamente. Basta colocarmos a serviço do aprendizado existencial enquanto espírito imorredouro, a observação atenta e a intuição, a luz do aprendizado espírita e poderemos inclusive conduzirmos melhor a nossa vida. É claro que isso requer bom senso e lógica, pra não nos deixarmos impressionar por ideoplastias psicológicas que formatamos em nossa mente, buscando atender ou solucionar coisas e fatos que escapam ao nosso entendimento, de uma maneira meio que fantasiosa.

Na verdade as desigualdades, os desencontros, as afinidades ou a ausência delas, os aleijões, a saúde completa e toda gama de mutilações que temos isto em a natureza humana, não decorrem de punições de um ‘deus’ vingativo, mas, são mecanismos de ajustes para a manutenção da harmonia da vida e as leis que a regem.

O que denominamos aqui de personalidades “fortes”, “bem dotados”, “deslembrados”, “gênios”, “idiotas” e outros gêneros que parecem por em cheque a Bondade Divina, são apenas os efeitos de causas estranhas a harmonia da vida, que nós burlamos.

Então irmãos, enquanto fugirmos de nós na caminhada que a evolução obriga, só causamos efeitos contrários aos “pretendidos”. Viver em paz e harmonia exige-nos a educação e o desenvolvimento da moral espiritual, que se baseia no amor e no respeito ao próximo. Por isso Jesus afirmou com conhecimento de causas e conseqüências para nós outros, o que seria o descumprimento das leis:

 

‘Amai a Deus acima de qualquer coisa e ao próximo como a si mesmo.” Eis toda a Lei e os Profetas. Nenhuma outra lei ou religião são capazes de superar em obrigações, objetivos e benefícios o alcance eterno desse ensinamento.

Hoje enquanto espíritas, já se faz tempo de entender que não mais adianta esconder sob o tapete da vida os nossos erros, por quanto esse tapete é imortal. E nós, aqui ou acolá somos o que pensamos, o que sentimos e principalmente o que aprendemos. Cada encarnação é oportunidade na medida em que é aproveitada. Aí se o ambiente familiar está carregado de problemas, de dores e sofrimentos, é tempo de se curvar as evidências e gostar um pouco mais dos desafetos, compreender um pouco mais que orgulho e fantasia são empecilhos desnecessários que só atrasam-nos os passos.

Se quisermos, por que não adianta apenas sonhar, uma vida em melhores condições na erraticidade, temos que levar em nosso modo de ser essas condições.

O episódio dos dois ladrões condenados a morte junto ao Cristo nos mostra espelho excessivamente transparente, não mais para meditar ou refletir, mas, para seguir as palavras de Jesus, enquanto alertas e não como promessa. Pois seria contraditório imaginar que Ele facilitaria o ingresso do irmão em questão simplesmente por que apresentou arrependimento de última hora. O lado direito que Jesus se refere é o lado de uma nova oportunidade, que combina em gênero, número e grau com o ensinamento anterior: “Aquele que não nascer de novo não verá o Reino dos Céus”.

Assim, higienizemos o ambiente espiritual de nossas vidas com a conduta renovada pela compreensão e a vivência do aprendizado dessa Doutrina de Luz que na Verdade é o Cristianismo Redivivo, que não há mais o que acrescentar é só aprender e vivenciá-lo, sem mais demoras ou desculpas…

                          de antonio real

CAMARÕES e SIRIS de NATAL poema de tonicato miranda

   

                                                   para meu pai Antonio, igual a mim

 

1.

Lá em baixo o Brasil

reticulado de fazendas e propriedades

nos ouvidos um tango faceiro.

Estou no ar junto a Deus e seus convidados

viajando nas nuvens estou dependente do piloto

sou natalense, curitibano, carioca, brasileiro.

 

2.

Passando sobre uma área instável

mandam apertar o cinto de segurança.

O tango aperta a lágrima que não salta

aprisiona-me docemente triste

logo me pondo solitário

qual roupa dependurada no armário

à espera da mão libertadora

para sair a um largo passeio

 

3.

Preso à janela do avião

fecho os olhos para abri-los

em outra janela.

Dedilhando velha emoção

surfando sobre as nuvens, vou

ao sabor de um bandoleão.

 

E você está aqui

perto da minha alma voadora

junto ao meu pé de pequi

e às araras da paisagem

somente minha

aquela que carrego na memória

livro sem letras, livro da minha

própria história.

 

4.

Pela minha janela passam

mulheres gentis, morenas e louras

algumas mulheres azuis,

cozinheiras e enigmáticas

mulheres cor-de-rosa e perfumadas

outras muito ensaboadas

algumas trabalhadoras, um tanto suadas

 

A todas mulheres eu canto

às gordas, às magras e às torneadas

assim quis Deus que elas fossem

variadas em seus caules e folhagens.

A tudo se pode perdoar numa mulher

até mesmo o pouco caso com seu corpo

apenas não perdôo aquelas

que não carregam um sorriso nos lábios.

 

5.

Venho de Natal, terra duplamente santa.

Santa no nome e por ter gerado meu pai.

Menos de duas horas que a deixei

e a saudade já se instalou como teia grossa

não porque as mulheres da cidade sejam gentis

as praias faceiras e a areia nos domina.

A saudade se instalou, sim,

por ser o povo simpático e acolhedor

onde até os camarões e siris

antes de morrerem

costumam dar Bom Dia!

 

O BURGOMESTRE e TESOUROS AO MAR – dois mini contos de raimundo rolim

O Burgomestre

 

Sentado à mesa, o prefeito era um tipo de coronel forjado nas mais renhidas intransigências. O pároco local pouco ou quase nada conseguia com o mesmo, ainda que vez por outra o ameaçasse com o inferno, a caldeirinha, o purgatório e afins. Em suma: para o prefeito, o pároco correspondia à sua divina tortura aqui na terra. Amiúde, este invocava e demitia o demônio e com ele não tinha esse negócio de pedir licença. E pra não perder o costume, chapéu na mão, atiçava o coronel-prefeito para que doasse algum, pois o mesmo já havia passado por vários mandatos e gestões políticas mal explicadas e nada da igrejinha ficar pronta. O prefeito-coronel, olhos semicerrados, sonolento, mãos enfiadas por dentro das calças, barriga volumosíssima de cachaça e arrumadinhos e buchadas de bode, solicitara veemente à sua ajudante que trouxesse água gelada pra ele e o padre – (era o tempo de que precisava pra dar uma pensadinha) -. O calor era grande e o tempo abafado pra chover. A mocinha, hum, que o coronel empregava para pequenos servicinhos, hum, (de bundinha arrebitada e sainha curta), ficava naquelas andanças pra lá e pra cá pelos cômodos da casa do senhor coronel-prefeito e acabava por arrastar também os olhos do padre que se remexia na cadeira sentindo certo tipo de desconforto interior. Aquele ir e vir da serviçalzinha interrompia a todo o momento o lascado do coronel que esquecia daquele negócio que tava conversando com o diabo do padre e pra compensar, soltava esses grunhidinhos, esses ‘huns’! E a mocinha que era prima de um conhecido que devia favores ao prefeito-coronel – e esse cabra devedor de favores, tinha lá uma encrenca antiga de pistolagens -. Boato, muito boato, pois a coisa iria muito longe se começassem a investigar. Então, como paga, arrumou essa prima pra dar uma mãozinha nas coisinhas que o coronel precisasse. E pra mal dos pecados, nesse ir e vir, a dondoquinha do coronel deu uma escorregadela e quase caiu quando a saia justa e curta demais lhe subiu até as ancas e a calcinha de algodão alva e cavadinha que devia estar ali, encaixadinha, não apareceu. O padre ficou vermelho e o prefeito pigarreou grosso e curto que era pra mostrar autoridade também, ainda que excomungado fosse. Aproveitando-se da oportunidade, o padre esbravejou ameaçador que se não saísse a verba desta vez, relataria ao povo na missa do domingo, tim tim por tim tim, o que andava acontecendo na sala de sua excelência. O prefeito levantou-se de um salto, talão de cheques na mão. E tascou feio: – Não meu padim, meu padroeiro, diga nada não! Vou erguer esse diabo de capela já. E numa última tentativa de demover o padre das suas intenções, confidenciou-lhe que faria também uma capela na sede da prefeitura, e que ele, o padre, fosse lá confessá-lo, pois não poderia perder tempo indo à missa, já que tinha sempre muito trabalho a fazer, muito trabalho. Aquelas obras contra a seca eram intermináveis e tomava-lhe todo o tempo disponível e era por isso que precisava da ajudazinha daquela mocinha ali, nos servicinhos de uma aguinha aqui, outra coisinha ali e tal, e por fim deixou escapar sonoro “hum” absolutamente cheio de excitação ! O padre fechou os olhos, fez o sinal da cruz, espargiu uma água benta imaginária no recinto, disse algumas palavras em latim e mostrou ao coronel com o dedo indicador em riste, o exato lugar que correspondia geograficamente onde ficava a igrejinha. E saiu rezando uma Salve Rainha, Mãe de Misericórdia.  

 

               

 

                Tesouros ao mar

 

Os piratas estavam prontos e ávidos para atacar e saquear. Canhões apontados de miras certeiras para a caravela que lhes aparecera na linha do horizonte, por detrás de ondas bravias e que achava-se carregada de ouro e comida e mulheres pegas à força, que seriam levadas como suvenir das terras novas à presença de El Rei. O capitão dos piratas, o Bucaneiro-Mór, cabelos revoltos, olhos vermelhos de rum, ousadia e água salgada, estava entregue à faina da ambição, e o mar não lhe dera tréguas por muitas noites e dias. A tormenta desdenhava o pequeno batel de bandeira negra encimada por uma caveira e o impelia irremediável de encontro ao mar alto e encapelado. Os piratas (que não se sabe o porquê, eram lusitanos), empunharam com a ferocidade dos bravos as suas espadas e o mar se agitou ainda mais, muito mais que na antevéspera, pois sabia muito bem, o mar, que iria conhecer a um dos saques mais bem feitos e espetaculares de que se teria notícias. A um sinal do capitão, o canhão deu o primeiro tiro de advertência para que a caravela que lhe vinha a estibordo com brancas velas enfunadas e cruzes e credos, lançasse âncoras e se rendesse incondicionalmente. Os bravos da outra caravela (que também eram lusitanos – senão provavelmente seria um Galeão) ungiam-se de mesmo e igual afã para a peleja, já que havia um grande prêmio instituído pela Coroa para quem levasse piratas vivos e mortos. Os de bandeira negra desconheciam o tal decreto, pois que há muito andavam a navegar, pois que navegar era mais preciso que estar ao mar e trataram logo de dar um segundo tiro, sem caprichar tanto na pontaria. Contou-se depois – não se tem certeza -, de que havia muito, muito, muito rum a bordo e acertaram adequadamente com esta feita o grande mastro da caravela que balançou feio e fez um pouco de água. Isto feito, obrigou aos da caravela de cruzes e credos, a responder imediatamente com igual e certeiro canhonaço. Bem no meio do batel, que jogou horrivelmente e fez despencar a bandeira encimada com a caveira negra, que até então, tremulara livre pelos muitos e corsários oceanos. Ambos somaram-se às águas e ao fundo ao mesmo tempo -, sem que daquela vez, Coroa ou bucaneiros obtivessem lucros. Debitou-se mais tarde a esta pequena tragédia, como perdas normais e adquiridas ao excesso de zelo na hora dos tirambaços, aos que se sujeitam aos pequenos deslizes, estando a tomar muito rum e a navegar. Pois!

 

 

de josé luis mendes

BRASIL um poema em homenagem – de rosa cecília abril guzmán

Cómo no saberte, Brasil:
canela, galolopante,
alta en tus cortinas.

Sé, que eres potranca mágica,
de cadera bamboleante
y falda enorme.
Sé, de tus cejas morenas
y de tus sesgos albos.

Te conozco, por tus colores
de lentejuela y zamba,
tus sensuales luciérnagas
y tu danzante noche.

Sé, lo de: (exacta a hada),
tu enagua dulce
y tus simbreantes senos.

¡Cómo, no saberte, con tu vestido
de inquieto canario
y esbelta gacela!

Punto, y aparte.
No sé, de tus tardes.
¿Son tus tardes de acuerela y espuma?
¿Cierto, que tu crepúsculo es de beso?

Brasil: en tu coreografía de lirio y garza
tienes al mundo, y desnudo lo acunas,
tienes cuánta luna y un cántaro eterno.

Sé, de tu viento lila.
Sé, que tienes piel de lluvia.

FERNANDO PESSOA, aniversário de nascimento hoje (13/06/1888)

 Todas as cartas de amor são
Ridículas.

Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
 

 

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

 

NÃO precisa casar. SÓZINHO é melhor. – entrevista com o psicanalista flávio gikovate.

O psiquiatra decreta a morte do amor romântico e diz que
a vida de solteiro é um caminho viável para a felicidade


Duda Teixeira

 

“Para os meus pacientes, eu sempre digo: se você tiver de escolher entre o amor ea individualidade, opte pelo segundo.”

Com 41 anos de clínica, o médico psiquiatra Flávio Gikovate acompanhou os fatos mais marcantes que mudaram a sexualidade no Brasil e no mundo. Por meio de mais de 8.000 pessoas atendidas, assistiu ao impacto da chegada da pílula anticoncepcional na década de 60 e a constituição das famílias contemporâneas, que agregam pessoas vindas de casamentos do passado. Suas reflexões sobre o amor ao longo de esse tempo foram condensadas no seu 26º livro, Uma História de Amor… com Final Feliz. Na obra, a oitava sobre o tema, Gikovate ataca o amor romântico e defende o individualismo, entendido não como descaso pelos outros e sim como uma maneira de aumentar o conhecimento de si próprio. Tendo sido um dos primeiros a publicar um estudo no país sobre sexualidade, atuou em diversos meios de comunicação, como jornais e revistas e na televisão. Atualmente, possui um programa na rádio, em que responde perguntas feitas por ouvintes. Aos 65 anos, ele atendeu a reportagem de Veja em seu consultório no elegante bairro dos Jardins, em São Paulo.

 

“Os solteiros que estão mal são os que ainda sonham com o amor romântico. Pensam que precisam de outra pessoa para se completar. Como Vinicius de Moraes, acham que que ‘é impossível ser feliz sozinho’. Isso caducou. Daí, vivem tristes e deprimidos.”


Veja – O senhor diria para a maioria das pessoas que o casamento pode não ser uma boa decisão na vida?
Gikovate – Sim. As pessoas que estão casadas e são felizes são uma minoria. Com base nos atendimentos que faço e nas pessoas que conheço, não passam de 5%. A imensa maioria é a dos mal casados. São indivíduos que se envolveram em uma trama nada evolutiva e pouco saudável. Vivem relacionamentos possessivos em que não há confiança recíproca nem sinceridade. Por algum tempo depois do casamento, consideram-se felizes e bem casados porque ganham filhos e se estabelecem profissionalmente. Porém, lá entre sete e dez anos de casamento, eles terão de se deparar com a realidade e tomar uma decisão drástica, que normalmente é a separação.

Veja – Ficar sozinho é melhor, então?
Gikovate – Há muitos solteiros felizes. Levam uma vida serena e sem conflitos. Quando sentem uma sensação de desamparo, aquele “vazio no estômago” por estarem sozinhos, resolvem a questão sem ajuda. Mantêm-se ocupados, cultivam bons amigos, lêem um bom livro, vão ao cinema. Com um pouco de paciência e treino, driblam a solidão e se dedicam às tarefas que mais gostam. Os solteiros que não estão bem são geralmente os que ainda sonham com um amor romântico. Ainda possuem a idéia de que uma pessoa precisa de outra para se completar. Pensam, como Vinicius de Moraes, que “é impossível ser feliz sozinho”. Isso caducou. Daí, vivem tristes e deprimidos.

Veja – Por que os casamentos acabam não dando certo?
Gikovate – Quase todos os casamentos hoje são assim: um é mais extrovertido, estourado, de gênio forte. É vaidoso e precisa sempre de elogios. O outro é mais discreto, mais manso, mais tolerante. Faz tudo para agradar o primeiro. Todo mundo conhece pelo menos meia-dúzia de casais assim, entre um egoísta e um generoso. O primeiro reclama muito e, assim, recebe muito mais do que dá. O segundo tem baixa auto-estima e está sempre disposto a servir o outro. Muitos homens egoístas fazem questão que a mulher generosa esteja do lado dele enquanto ele assiste na televisão os seus programas preferidos. Mulheres egoístas não aceitam que seus esposos joguem futebol. Consideram isso uma traição. De um jeito ou de outro, o generoso sempre precisa fazer concessões para agradar o egoísta, ou não brigar com ele. Em nome do amor, deixam sua individualidade em segundo plano. E a felicidade vai junto. O casamento, então, começa a desmoronar. Para os meus pacientes, eu sempre digo: se você tiver de escolher entre amor e individualidade, opte pelo segundo.

Veja – Viver sozinho não seria uma postura muito individualista?
Gikovate – Não há nada de errado em ser individualista. Muitos dos autores contemporâneos têm uma postura crítica em relação a isso. Confundem individualismo com egoísmo ou descaso pelos outros. São conceitos diferentes. Outros dizem que o individualismo é liberal e até mesmo de direita. Eu não penso assim. O individualismo corresponde a um crescimento emocional. Quando a pessoa se reconhece como uma unidade, e não como uma metade desamparada, consegue estabelecer relações afetivas de boa qualidade. Por tabela, também poderá construir uma sociedade mais justa. Conhecem melhor a si próprio e, por isso, sabem das necessidades e desejos dos outros. O individualismo acabará por gerar frutos muito interessantes e positivos no futuro. Criará condições para um avanço moral significativo.

 

“As colunas e programas de rádio que eu faço não me trazem clientes. Às vezes, só atrapalham. Em 1982, aceitei trabalhar com o Corinthians. Era a democracia corinthiana. Foi um balde de água fria na clínica.”


Veja – Por que os casamentos normalmente ocorrem entre egoístas e generosos?
Gikovate – A idéia geral na nossa sociedade é a de que os opostos se atraem. E isso acontece por vários motivos. Na juventude, não gostamos muito do nosso modo de ser e admiramos quem é diferente de nós. Assim, egoístas e generosos acabam se envolvendo. O egoísta, por ser exibicionista, também atrai o generoso, que vê no outro qualidades que ele não possui. Por fim, nossos pais e avós são geralmente uniões desse tipo, e nós acabamos repetindo o erro deles.

Veja - Para quem tem filhos não é melhor estar em um casamento? E, para os filhos, não é melhor ter pais casados?
Gikovate – Para quem pretende construir projetos em comum – e ter filhos é o mais relevantes deles – o melhor é jogar em dupla. Crianças dão muito trabalho e preocupação. É muito mais fácil, então, quando essa tarefa é compartilhada. Do ponto de vista da criança, o mais provável é que elas se sintam mais amparadas quando crescem segundo os padrões culturais que dominam no seu meio-ambiente. Se elas são criadas pelo padrasto, vivem com os filhos de outros casamentos da mãe, mas estudam em uma escola de valores fortemente conservadores e religiosos, poderão sentir algum mal-estar. Do ponto de vista emocional, não creio que se possa fazer um julgamento definitivo sobre as vantagens da família tradicional sobre as constituídas por casais gays ou por um pai ou mãe solteiros. Estamos em um processo de transição no qual ainda não estão constituídos novos valores morais. É sempre bom esperar um pouco para não fazer avaliações precipitadas.

Veja – Que conselhos você daria para um jovem que acaba de começar na vida amorosa?
Gikovate – É preciso que o jovem entenda que o amor romântico, apesar de aparecer o tempo todo nos filmes, romances e novelas, está com os dias contados. Esse amor, que nasceu no século XIX com a revolução industrial, tem um caráter muito possessivo. Segundo esse ideal, duas pessoas que se amam devem estar juntas em todos os seus momentos livres, o que é uma afronta à individualidade. O mundo mudou muito desde então. É só olhar como vivem as viúvas. Estão todas felizes da vida. Contudo, como muitos jovens ainda sonham com esse amor romântico, casam-se, separam-se e casam-se de novo, várias vezes, até aprender essa lição. Se é que aprendem. Se um jovem já tem a noção de não precisa se casar par ser feliz, ele pulará todas essas etapas que provocam sofrimento.

Veja – As mulheres são mais ansiosas em casar do que os homens? Por quê?
Gikovate – As mulheres têm obsessão por casamento. É uma visão totalmente antiquada, que os homens não possuem. Uma vez, quando eu ainda escrevia para a revista Cláudia, o pessoal da redação fez uma pesquisa sobre os desejos das pessoas. O maior sonho de 100% das moças de 18 a 20 anos de idade era se casar e ter filho. Entre os homens, quase nenhum respondeu isso. Queriam ser bons profissionais, fazer grandes viagens. Essa diferença abismal acontece por razões derivadas da tradição cultural. No passado, o casamento era do máximo interesse das mulheres porque só assim poderiam ter uma vida sexual socialmente aceitável. Poderiam ter filhos e um homem que as protegeria e pagaria as contas. Os homens, por sua vez, entendiam apenas que algum dia eles seriam obrigados a fazer isso. Nos dias que correm, as razões que levavam mulheres a ter necessidade de casar não se sustentam. Nas universidades, o número de moças é superior ao de rapazes. Em poucas décadas, elas ganharão mais que eles. Resta acompanhar o que irá acontecer com as mulheres, agora livres sexualmente, nem sempre tão interessadas em ter filhos e independentes economicamente.

Veja – Como será o amor do futuro?
Gikovate – Os relacionamentos que não respeitam a individualidade estão condenados a desaparecer. Isso de certa forma já ocorre naturalmente. No Brasil, o número de divórcios já é maior que o de casamentos no ano. Atualmente, muitos homens e mulheres já consideram que ficarão sozinhos para sempre ou já aceitam a idéia de aguardar até o momento em que encontrarão alguém parecido tanto no caráter quanto nos interesses pessoais. Se isso ocorrer, terão prazer em estar juntos em um número grande de situações. Nesse novo cenário, em que há afinidade e respeito pelas diferenças, a individualidade é preservada. Eu estou no meu segundo casamento. Minha mulher gosta de ópera. Quando ela quer ir, vai sozinha. E não há qualquer problema nisso.

Veja - Quando duas pessoas decidem morar juntas, a individualidade não sofre um abalo?
Gikovate – Não necessariamente elas precisarão morar juntas. Em um dos meus programas de rádio, um casal me perguntou se estavam sendo ousados demais em se casar e continuarem morando separados. Isso está ficando cada dia mais comum. Há outros tantos casais que moram juntos, mas em quartos separados. Se o objetivo é preservar a individualidade, não há razão para vergonha. O interessante é a qualidade do vínculo que existirá entre duas pessoas. No primeiro mundo, esse comportamento já é normal. Muitos casais moram até em cidades diferentes.

Veja – É possível ser fiel morando em casas ou cidades diferentes?
Gikovate – A fidelidade ocorre espontaneamente quando se estabelece um vínculo de qualidade. Em um clima assim, o elemento erótico perde um pouco seu impacto. Por incrível que pareça, essas relações são monogâmicas. É algo difícil de explicar, mas que acontece.

Veja – Com o fim do amor romântico, como fica o sexo?
Gikovate – Um dos grandes problemas ligados à questão sentimental é justamente o de que o desejo sexual nem sempre acompanha a intimidade efetiva, aquela baseada em afinidade e companheirismo. É incrível como de vez em quando amor e sexo combinam, mas isso não ocorre com facilidade. Por outro lado, o sexo com um parceiro desconhecido, ou quase isso, é quase sempre muito pouco interessante. Quando acaba, as pessoas sentem um grande vazio. Não é algo que eu recomendaria. Hoje, as normas de comportamento são ditadas pela indústria pornográfica e se parece com um exercício físico. O sexo então tem mais compromisso com agressividade do que com amor e amizade. Jovens que têm amigos muito chegados e queridos dizem que transar com eles não tem nada a ver. Acham mais fácil transar com inimigos do que com o melhor amigo. Penso que, com o amadurecimento emocional, as pessoas tenderão a se abster desse tipo de prática.

 

“As razões que levavam as mulheres a ter necessidade de casar não se sustentam mais. Nas universidades, o número de moças é superior ao de rapazes. Em poucas décadas elas ganharão mais
que eles.”

 


Veja – As desilusões com o primeiro casamento têm ajudado as pessoas a tomar as decisões corretas?
Gikovate – No início da epidemia de divórcios brasileira, na década de 70, as pessoas se separavam e atribuíam o desastre da união a problemas genéricos. Alguns diziam que o amor acabou. Outros, o parceiro era muito chato. Não se davam conta de que as questões eram mais complexas. Então, acabavam se unindo à outras pessoas muito parecidas com as que tinham acabado de descartar. Hoje, os indivíduos estão mais críticos. Aceitam ficar mais tempo sozinhos e fazem autocríticas mais consistentes. Por causa disso, conseguem evoluir emocionalmente e percebem que terão que mudar radicalmente os critérios de escolha do parceiro. Se antes queriam alguém diferente, hoje a tendência é buscarem uma pessoa com afinidades.

Veja – O senhor já escreveu colunas para jornais, revistas, atuou na televisão e agora tem um programa na rádio. O senhor se considera um marqueteiro?
Gikovate – Sempre gostei de trabalhar com os meios de comunicação. Psicologia não é assunto para especialistas, mas de todo mundo. Faço essas coisas também porque é uma forma de entrar em contato com um público diferente do que eu encontro normalmente. Na rádio, respondo perguntas de gente tacanha, que jamais teriam condição de pagar uma consulta. Estão em um outro patamar financeiro. Mas o que dizem, é ouro puro. As colunas e programas de rádio que eu faço não me trazem clientes. Às vezes, só atrapalham. Em 1982, aceitei trabalhar com o Corinthians. Era a democracia corinthiana. Foi um balde de água fria na clínica. Imagine só, o Corinthians! Não foi o tipo de notícia que meus pacientes gostaram de ouvir. Eu fiquei lá dois anos. Meu pai ficava chocado com essas coisas, porque naquele tempo médico de bom nível não fazia essas coisas. Não estava nem aí. Quando eu me interesso por alguma coisa, eu vou. No mais, se eu fosse um simples marqueteiro, não teria durado 41 anos.

Veja – Apesar de todo esse tempo de clínica, o senhor atuou sozinho, longe das universidades. Por quê?
Gikovate – O mundo acadêmico está cheio de papagaios, que repetem fórmulas prontas. Citam sempre outros pensadores, mas nunca vão a lugar algum. Não têm coragem para disso. Esse universo, do qual eu acabei me afastando, é extremamente conservador. Não são eles que produzem as novas idéias. Muitos fingem que eu não existo. Diziam à pequena que eu era um cara muito pragmático, que levava em conta muito os resultados, o que é verdade. Os que mais gostam do que eu faço não são da minha área. São os filósofos, como o Renato Janine Ribeiro e a Olgária Matos. De minha parte, eu sempre fugi dos rótulos. Não me inscrevi membro da Sociedade de Psicanálise. Não sou membro de qualquer sociedade dogmática. Não sou sócio de nenhum clube. Sou uma pessoa de mente aberta. Nunca quis discípulos. Os meus discípulos, se um dia existirem, pensarão por conta própria. Se tiverem um monte de opiniões diferentes das minhas, seria ótimo.

 

revista veja on-line.

É “PRECISO” EXCLUIR O AMOR? por flávia albuquerque (psicanalista)

 

 

Com o título: NÃO precisa casar. SÓZINHO é melhor, o site da Revista Veja veicula esta semana uma entrevista com o Psiquiatra Flávio Gikovate. Num primeiro momento, encarei este título com uma certa desconfiança a respeito do conteúdo que seria encontrado ali partindo do princípio que a imprensa faz alarde do quê e da maneira que bem entende.

Um Gikovate posando com uma expressão de um ceticismo cruel ilustra a entrevista que ao ser lida confirma o chamariz. Bastante curioso e providencial uma matéria on-line sobre o amor (ou a ausência dele) vinculada à Edição da Revista que chega às bancas na véspera do Dia dos Namorados. Ao contrário do que se poderia supor pretender, não me parece que as palavras do Psiquiatra confortem os corações aflitos do solitários de plantão. Pelo contrário! Acaba por arrasar qualquer intenção (e intensão) de uma vida que se inclua o amor. 

Logo ao lado da foto, a citação: “Para os meus pacientes, eu sempre digo: se você tiver que escolher entre o amor e a individualidade, opte pelo segundo.” O choque não foi suficiente no título. Agora temos uma declaração bombástica de uma conduta terapêutica que serviria à ‘todos’ como se o sujeito pudesse ser visto, escutado e orientado de uma maneira padronizada. Não foi Freud, o pai da Psicanálise, que de uma forma pontual a todo momento em sua obra disse para tomarmos cada caso como único? E ele dizia do lugar de quem descobriu o Inconsciente, descoberta esta que tem valor de uma ferida narcísica por revelar que ‘o ser humano não é senhor de sua própria casa’. Há algo que nos escapa. Não há padrão! 

É claro que o casamento pode não ser uma boa escolha na vida. O que serve a uns, não necessariamente serve a outros. Uma coisa é achar que um caminho é bom, outra coisa é achar que este caminho é o único. Portanto essa constatação não pode nos fazer excluir toda e qualquer possibilidade de uma relação amorosa. É pelo e para o amor que se vive. Sem medo de ser piegas com essa frase, a questão é que: é em referência ao amor ofertado – ou não – por aqueles que cuidaram daquela criança que ela dará todos os passos na sua subjetividade. Sabemos por Lacan que toda demanda, em ultima instância, é demanda de amor. 

Falar por uma via estatística de que apenas 5% de sua clientela que é casada é feliz é colocar cálculo onde ele não cabe. E se coubesse, 5% já seria um dado enganoso, porque ouso dizer que nem 5% o são. Não há felicidade garantida numa relação amorosa, ela se trata de um encontro necessariamente faltoso! Momentos felizes certamente, mas… felicidade?!

Relatando ‘as diferenças’, entre dois que constituem um casal, como as vilãs de um relacionamento não me parece que Gikovate tenha feito uma grande descoberta. E ainda dizer que os solitários ‘levam uma vida serena e sem conflitos’ por ‘resolverem a questão sem ajuda’ mantendo-se ‘ocupados, cultivando bons amigos, lendo um bom livro, indo ao cinema’ me parece auto-ajuda demais! Os ‘acompanhados’ também estão bastante ocupados respondendo a uma exigência de ‘fazer tudo pra ontem’ da modernidade, em chopps com os amigos, lendo maravilhosos livros e freqüentando muito cinema por aí… além de ter um tom a mais na vida com alguém por quem e em quem pensar, se dedicar e compartilhar inclusive os efeitos de toda essa ‘ocupação’. 

Tomar a solidão como a melhor maneira de se viver é anular a própria condição humana que consiste em reconhecer e encarar que algo nos falta. E poder investir num outro como se apostasse que ele tem o que nos completa – não sem se dar conta, até dolorosamente, que isso não é realizável – é delicioso! Dá muito trabalho – é bem verdade! – causa sofrimento, mas é bem mais visceral do que se guardar num mundinho fechado para não ter que se esbarrar com o complicado que é conviver com um outro. 

O amor de filmes, romances e novelas não está com os dias contados, ele é impossível mesmo! Desde sempre e pra sempre. Mas é vital que o sujeito possa realizar algo possível no impossível que é o amor.

 

Portanto, não só hoje (pelo Dia dos Namorados), mas sempre que for viável se permitir, divirta-se em boa companhia!

 

  Flávia Albuquerque – Psicanalista – (21) 9792-8326

foto sem crédito. 

BRIGITTE BARDOT multada por tribunal francês por incitação ao ódio

Um tribunal francês multou a atriz Brigitte Bardot em US$ 24 mil (R$ 38,9 mil) por incitação ao ódio contra a comunidade muçulmana da França.

A pena se refere a uma carta que Bardot escreveu em 2006 ao então ministro do Interior francês Nicolas Sarkozy, e posteriormente publicou em seu website.

Na carta, a atriz, que se tornou ativista pelos direitos dos animais, criticava os muçulmanos por “atordoarem” os bichos antes de sacrificá-los para as festividades do Eid ul-Adha.

“Estamos cansados de ser manipulados por toda esta população que nos destrói e destrói nosso país ao impor seus costumes”, disse a atriz na carta.

Direito de protestar

Bardot, que está com 73 anos e sofre de artrite, não esteve no tribunal para ouvir a sentença. Ela escreveu ao juiz dizendo que tinha “o direto de protestar pelo bem-estar dos animais”.

“Eu não vou me calar enquanto não conseguir banir o atordoamento dos animais”, disse a atriz em uma carta enviada ao tribunal.

Esta é quinta vez que a Brigitte Bardot, símbolo sexual nos anos 60, é punida por suas declarações contra a comunidade muçulmana na França.

Em 2004, Bardot foi multada em 5 mil euros por incitações racistas em seu livro Un Cri Dans le Silence (“Um Grito no Silêncio”, em tradução literal).

A França abriga a maior população muçulmana da Europa, com 5 milhões de habitantes.

 

BBC

COMO APRENDER A LER SONETOS por vicente martins

A leitura é uma habilidade complexa: o leitor tem diante de si um texto a ser decifrado, através da decodificação, através da soletração e da fluência verbal,  e em seguida, terá que atribuir sentido ao que é decantado ou lido. Esse conceito vale tanto para o texto em prosa como em verso. Mas como ler um poema ou um soneto clássico? No presente, artigo trataremos de mostrar as principais características da leitura literária e quais as estratégias para o aprendizado da leitura em versos.

Partirei, então e desde logo, do conceito de poesia. No campo da Literatura, poesia é a composição em versos (livres e/ou providos de rima) cujo conteúdo apresenta uma visão emocional e/ou conceitual na abordagem de idéias, estados de alma, sentimentos, impressões subjetivas, quase sempre expressos por associações imagéticas  

Por poesia também podemos entender também a  arte de excitar a alma com uma visão do mundo, por meio das melhores palavras em sua melhor ordem. Daí, entendê-la também todo texto com alto grau de poder criativo e inspiração e que desperta, no leitor ou ouvinte, o sentimento do belo.

A etimologia da palavra poesia é muito sugestiva para se compreender o seu verdadeiro sentido aos olhos do leitor de versos. A palavra poesia vem do latim  poésis,is ‘poesia, obra poética, obra em verso’,  derivado, por sua vez, do  grego  poíésis,eós ‘criação; fabricação, confecção; obra poética, poema, poesia’. A palavra chegou à língua portuguesa, por intermédio da palavra em  italiano  poesia entendida como “arte e técnica de exprimir em verso uma determinada visão de mundo”

Leiamos, então, um bela poesia de Vinicius de Moraes, :

Enjambement

Soneto de fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento


Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto


Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

 

Trata-se um soneto. Esta palavra aparece na Língua Portuguesa lá pela segunda metade do século XVI. Refere-se a uma  pequena composição poética composta de 14 versos, com número variável de sílabas, sendo o mais freqüente o decassílabo, e cujo último verso (dito chave de ouro) concentra em si a idéia principal do poema ou deve encerrá-lo de maneira a encantar ou surpreender o leitor. No caso do soneto de Vinicus, a chave de ouro é a definição de amor “ uma paixão imortal, posto que é chama, mas infinto enquanto dura”.

A palavra soneto entra no léxico português através do italiano  sonetto, no século XIII, entendida como “composição lírica formada de quatorze hendecassílabos, rimados variadamente, cujos oito primeiros formam duas quadras, e os outros formam dois tercetos’” No caso acima, trata-se de um soneto clássico ou italiano, porque é um soneto formado por dois quartetos e dois tercetos.

Para a leitura deste soneto de Vinicius de Moraes é necessário o leitor levar em conta o ritmo. Um dos traços do soneto é a musicalidade e o ritmo pertence ao mundo da música. A própria palavra ritmo, de origem latina  rhythmus,i  quer dizer “ movimento regular, cadência, ritmo”. Assim, deverá o leitor tomar por ritmo a cadência, o que acaba por caracterizar o soneto como um poema com padrão rítmico especial..  

         Vale lembrar aqui que todo soneto é um poema, mas nem todo poema é um soneto. Por poema, devemos entender, no campo da Literatura, obra de poesia em verso ou  uma composição poética em que há enredo e ação. A  epopéia é um exemplo de um poema. Há situações que o poema , no entanto, tem forma romanesca ou em prosa. É o que denominamos poema em prosa, em que a obra não é verso, mas é análoga a um poema pela inspiração, pelos temas e pelo estilo,  mas, diferente do poema, com estrutura menos formal.

Para o leitor, é importante que entenda que cada linha do poema é chamada verso. Assim, por verso, deve ser entendida a subdivisão de um poema, geralmente,  coincidindo com uma linha do mesmo, que obedece a padrões de métrica (pés) e de rima (variáveis no tempo e no espaço), ou prescinde deles (versos brancos e livres), caracterizando-se por possuir certa linha melódica ou efeitos sonoros, além de apresentar unidade de sentido

Esta noção de verso é fundamental para a leitura do soneto em voz alta. A essência da leitura do soneto  é que o leitor leia os versos com movimento compassado ou cadenciado como se fosse um passo de dança ou uma dança. Este “passo de dança” é garantido, durante a leitura, pelo enjambement, uma palavra de origem francesa.

Por enjambement, entendemos a partição de uma frase no final de um verso ou uma estrofe, sem respeitar as fronteiras dos sintagmas, colocando um termo do sintagma no verso anterior e o restante no verso seguinte. É o enjambement  que cria um efeito de coesão entre os versos, pois aquele onde começa o enjambement não pode ser lido com a habitual pausa descendente no final, e sim com entonação ascendente, que indica continuação da frase, e com uma pausa mais curta ou sem pausa.

 

 

Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), em Sobral, Estado do Ceará.

SÚPLICA poema de noémia de souza/moçambique


Tirem-nos tudo, 
Mas deixem-nos a música!Tirem-nos a terra em que nascemos,
Onde crescemos
E onde descobrimos pela primeira vez 
que o mundo é assim:
um tabuleiro de xadrez…

tirem-nos a luz do sol que os aquece,
a lua lírica do shingombela
nas noites mulatas 
da selva moçambicana
(essa lua que nos semeou no coração
a poesia que encontramos na vida)
tirem-nos a palhota – humilde cubata
onde vivemos e amamos,
tirem-nos a machamba que nos dá o pão,
tirem-nos o calor do lume
(que nos é quase tudo)
– mas não nos tirem a música!

Podem desterrar-nos,
Levar-nos
Para longes terras,
Vender-nos como mercadoria,
Acorrentar-nos
À terra, do sol à lua e da lua ao sol,
– mas seremos sempre livres
se nos deixarem a música!

Que onde estiver nossa canção,
Mesmo escravos, senhores seremos;
E mesmo mortos viveremos.
E no nosso lamento escravo
Estará a terra onde nascemos,
A luz do nosso sol,
A lua dos shingombelas,
O calor do lume,
A palhota onde vivemos,
A machamba que os dá o pão!

E tudo será novamente nosso,
Ainda que de cadeia nos pés
E azorrague no dorso…
E o nosso queixume
Será uma libertação
Derramada em nosso canto!

– por isso pedimos,
de joelhos pedimos:
tirem-nos tudo…
mas não nos tirem a vida,
não nos levem a musica!

L. Marques, 4/1/1949

Inédito

 

 

A FormaÇÃo HistÓrica da LÍngua Portuguesa – PerÍodo Galego-PortuguÊs – por francisco da silveira bueno

 

Angola
Brasil

Cabo Verde
Dadra / Damão / Diu / Goa / Nagar Haveli (Índia)
Guiné-Bissau
Macau (China)
Moçambique
Portugal
São Tomé e Príncipe
Timor Leste

 

A língua portuguesa é, com mais de 250 milhões de falantes nativos, a sexta língua materna mais falada no mundo e a terceira língua mais falada no mundo ocidental, sendo a língua oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.

É falada na antiga Índia Portuguesa: Goa, Damão, Diu e Dadra e Nagar Haveli; assim como em Macau na China

Também é oficial na Galiza, noroeste da Espanha, com a denominação histórica de galego-português e, agora, de galego. Neste caso, entretanto, o assunto é polêmico: os galegos nåo admitem a redução de sua língua ao português. E ao espanhol, língua da qual retiram suas regras ortográficas.

A língua portuguesa é também falada em comunidades de Paris (França), em cidades como Toronto, Hamilton, Montreal e Galineau (Canadá), em comunidades de Boston, New Jersey e Miami nos EUA, e em cidades como Nagoya e Hamamatsu no Japão.

 

A FormaÇÃo HistÓrica da LÍngua Portuguesa – PerÍodo Galego-PortuguÊs

O Condado Portucalense, embora tivesse o seu monarca próprio, Henrique de Borbota, continuava a fazer parte da Galiza. Em dois anos apenas, de 1095 a 1097, dilatara o Conde seus domínios para o sul, dando mostras de tornar-se independentes da suserania do primo Raimundo, fato que se consumou com a derrota deste, nas proximidades de Lisboa, infilgida pelo general almorávide Seyr. O Condado de Portucale passou então a fazer parte do reino de Leão. Falecido Dom Henrique, em Astorga, no ano 1114, governou o Condado a sua viúva Dona Teresa, com solércia política e firmeza guerreira, aumentando ainda mais os limites do futuro reino de Portugal. Passada a minoridade de Afonso Henriques, depois de várias dificuldades, viu-se este praticamente elevado à posição de monarca, embora combatido pelos partidários de Dona Teresa que tinham outros objetivos políticos. Vencidos estes na batalha do Campo de S. Mamede, em 1128, a unidade do Condado pareceu consolidar-se mormemente depois do exílio e morte de Dona Teresa, em 1130. Depois da batalha de Ouriques, 25 de julho de 1139, em que Afonso Henriques venceu maometanos e cristãos aliados contra ele, passou a usar o título de Rei de Portugal. Tal título, porém, somente em 1179 foi solenemente reconhecido pelo Papa Alexandre III. Estava definitivamente fundado o novo Estado e tomava fisionomia internacional o novo povo: Portugal, os portugueses.
 
Se assim se constituía o novo reino, a nova nacionalidade, continuava, porém, a unidade lingüística a ser a mesma com Galiza. É o grande traço de união entre as duas partes. O Minho, separando os territórios, começa a separar também a primeira unidade, criando o binômio galego-português que será, até o século XV, uma das expressões mais apreciadas do lirismo medieval. Entramos no período histórico da língua, no período por excelência arcaico. A produção lírica é a mais numerosa e a mais perfeita, moldada aos gêneros, temas e formas, que vêm da Provença. Aquelas incipientes imitações de quando romeiros provençais exibiam, em Compostela, os primores da sua arte poética, começam a aparecer com fisionomia própria desde o reinado de Sancho I, o segundo rei português.
 
Carolina Michelis de Vasconcelos faz iniciar as atividades trovadorescas no reinado de Sancho I: “Os cimélios da lírica, hoje subsistentes, são de perto de 1200: datei a mais arcaica de 1189; outra de 1199; mais outra de 1211. Foi,  portanto, no último quartel do século XII que a arte trovadoresca começou a dar os primeiros frutos de sementes lançadas em 1158, ou mesmo de 1135 em diante. Isto é, quando em Portugal reinava Sancho I; em Castela, Afonso VIII; em Leão, Fernando II” (Cancioneiro d’Ajuda -II – 755).

Esta cantiga datada por D. Carolina, de 1189, pertence a Pay Soares, poeta régio da corte de Sancho I. Encontra-se no Cancioneiro d’Ajuda, vol. I, nº 37, 38 :

           
37
“Eu sôo tan muit’amador
do meu linhagen, que non sei
al do mundo querer melhor
d’ũa mia parenta que ei.
E quen as linhagem quer bem,
tenh’eu que faz dereit’e sem;
t eu sempr’ o amarei.

E sempre serviç’e amor
eu a meu linhagen farei,
entanto com’eu vivo for’;  
esta parenta servirei,
que quero melhor d’outra ren,
e muito serviç’ em mi tem,
se eu poder’e poderei.

Pero nunca vistes molher
nunca chus pouc’(o) algo fazer 
a seu linhagen, ca non quer
em meu preito mentes meter:
e poderia me prestar
par Deus, muit’, e non lhe custar
a ela ren de seu aver

E veede, se mi-á mester
d’atal parenta bem querer:
que m’ei a queixar, se quiser’
lhe pedir algo, u a veer’.
Pero se me quisesse dar
algo, faria-me preçar
atal parenta e valer.
    
38
No mundo non me seu parelha
mentre me for’ como me vay,ca já moiré por vos-e ay,
mia senhor branca e vermelha,
quererdes que vos retraya
 
quando vus eu vi em saya !
mao dia me levantei,
Que vus enton non vi fea !

 

 

 

E, mia senhor, dês aquel di’ay !
me foi a mi muyn mal,
e vos, filha de don Paay
Moniz, a ben vus semelha
d’aver eu por vos guarvaya
pois eu, mia senhor, d’alfaya
nunca de vos ouve nen ey
valia d’ũa correa..

Como limite extremo desta lírica trovadoresca assinala a mesma erudita senhora o ano de 1334 ou 1340, metade do século XIV: “Fixando mais acertadamente para os nossos fins, como limites extremos os anos em que suponho compostas as mais temporãs e as mais seródias das cantigas que realmente possuímos, a época trovadoresca não chega a abranger centúria e meia: de perto de 1200 (talvez mesmo 1189) e 1334 (ou 1340). Cinco a seis gerações. Em Portugal desde Sancho I até a adolescência de Pedro, o Justiceiro. Em Leão, e Castela, de Alfonso IX de Leão até a morte de Alfonso XI, ou igualmente até a adolescência de Pedro, o Cru ( Opus citatum – 5863).

 

MULHERZINHA por may waddington

Ser mulherzinha é assim… 

querer ser doce, se entregar com amor, sem ter medo de deixar sair o sentimento junto com o afago…

 mistura de gueixa com escravinha, ser mulherzinha é receber seu carinho como uma benção, um gesto sagrado que me acolhe como quem colhe a água da fonte mais limpa e clara…

 ser mulherzinha é se abrir inteira, virando flor e querendo você adaga…

 é querer te ver sorrindo, lambuzado de doce,  é fazer o prato tão saboroso que te faz suspirar de saudades da terra em que nasceste
ao mesmo tempo em que desejas viajar comigo para bem longe…

 é virar a filha a quem você ensina todas as belezas da natureza como se fosse o filho homem que você não teve…

 ser mulherzinha não é ser dona, mas é ser sua. Pode ser o seu segredo ou uma lembrança escura e íntima.

 Mas este negócio de ser mulherzinha, só dá pra agüentar um pouquinho. Depois de um tempo a gente quer passar um dia inteiro sozinha, sentindo o vento batendo na cidade, e esquece de lembrar de você.

  A gente só se abre em flor-mulherzinha por breves momentos, do tipo daquele da primeira chuva no sertão que faz florescer as jitiranas pelo campo…

 Se nestes momentos você souber alimentar a mulherzinha, pode nascer uma aliada forte. Se a flor-mulherzinha murchar, é triste… ela resseca-se toda e vira semente, cai no chão até renascer um dia, mulherzinha novamente!

 

NORMA JEAN poema de kátia borges

Fosse menina,
desde sempre,
teria que arrumar os cabelos
louros, lisos, desli-z-antes.

Fosse menina,
desde sempre,
teria que fechar as pernas,
e usar calcinha.

Fosse menina,
lavaria o púbis, muito vermelho,
e não atiraria ao chão
restos de comida.

Fosse menina,
teria, desde sempre,
que usar um véu para cobrir o rosto.
Ou mais ainda

aprenderia todo dia
a ser menina um pouco.

BAR X ACADEMIA por berenice teodorovics

Por que será que é mais fácil freqüentar um bar do que uma academia? Para resolver esse grande dilema, foi necessário freqüentar os dois (bar e a academia) por uma semana. Vejam o resultado desta importante pesquisa:
 

 

Vantagem numérica: Existem mais bares do que academias. Logo, é mais fácil encontrar um bar no seu caminho. 1×0 pro bar.
 

 

Ambiente: No bar, todo mundo está alegre. É o lugar onde a dureza do dia-a-dia amolece no primeiro gole de cerveja. Na academia, todo mundo fica suando, carregando peso, bufando e  fazendo cara feia.  2×0. Amizade simples e sincera: – No bar, ninguém fica reparando se você está usando o tênis da moda. Os companheiros do bar só reparam se o seu copo está cheio ou vazio. 3×0.
 

 

Compaixão:Você já ganhou alguma saideira na academia? Alguém já te deu uma semana de ginástica de graça? – No bar, com certeza, você já ganhou uma cerveja ‘por conta’. 4×0.
 

Liberdade:Você pode falar palavrão na academia? 5×0.
 

 

 Libertinagem e democracia: – No bar, você pode dividir um banco com outra pessoa do sexo oposto, ou do mesmo sexo, problema é seu… – Na academia, dividir um aparelho dá até briga. 6×0.
 

 

Saúde: - Você já viu um ‘barista’ (freqüentador de bar) reclamando de dores musculares, joelho bichado, tendinite? 7×0.
 

 

Saudosismo: – Alguém já tocou a sua música romântica preferida na academia? É só ‘bate-estaca’, né? 8×0.
 

 

Emoção: – Onde você comemora a vitória do seu time? No bar ou na academia? 9×0.
 

 

Memória: - Você já aprontou algo na academia digno de contar para os seus netos? 10×0 pro BAR!!!
 

 

 Portanto, se você tem amigos na academia, repasse este e-mail para salvá-los do mau caminho!

 

PS: Você já fez amizade com alguém bebendo Gatorade??? ENTÃO, VAMOS PRO BAR!!!

Revista O CRUZEIRO de 8 de janeiro de 1955/ UM CAJUEIRO CRIOU UMA FLORESTA

 

Como a história da vassoura no aprendiz de feiticeiro, um cajueiro
desdobra-se formando uma verdadeira floresta
- Dois mil metros quadrados de área, quarenta e cinco mil frutos em cada safra -
Uma grande atração turística para o Nordeste…

Texto de ÍTALO VIOLA              

O Cajueiro de Pirangi já se consagrou como ponto obrigatório de visita dos que chegam à cidade de Natal. Pirangi é o nome de uma praia, na divisa dos municípios de Natal e Nísia Floresta, na qual o cidadão Sylvio Pedrosa possui um sítio, onde se encontra o cajueiro a que nos referimos e que os moradores do local denominam de O Polvo.

Êste cajueiro, segundo os mais velhos habitantes da região, tem aproximadamente uns quarenta anos de existência. Do seu tronco original (um tanto difícil de distinguir para quem o vê pela primeira vez) saíram dezenas de galhos que, por sua vez, transformaram-se em outros verdadeiros troncos, lançando centenas de galhos em tôdas as direções, numa progressão geométrica, numa sinfonia inacabada. Se emendássemos todos êstes galhos e troncos, cobriríamos, com a maior facilidade, a distância de um quilômetro. A área dêste cajueiro, verificada pelo seu proprietário, é de 2.000 m2. Quando chega a época de cajus, O Polvomostra a sua pujança e prodigalidade, oferecendo uma média de 500 cajus diários em uma safra de três meses, portanto 45.000 frutos.

Assis Chateaubriand, os Governadores Lucas Garcez, Juscelino Kubitschek, Amaral Peixoto, o escritor e sociólogo Gilberto Freyre, o ex-Embaixador da Espanha e inúmeras outras personalidades celebrizaram o cajueiro de Pirangi com suas visitas.

Num país que soubesse aproveitar as suas atrações naturais para fins turísticos, êste cajueiro estaria mundialmente conhecido, convergindo para êle uma legião de curiosos, tal a sua excentricidade, tal a sua beleza, tal o seu caráter de exemplar único em todo o mundo.

 

memória viva.

 

ENTREVISTA de IMANNUEL WALLERSTEIN da UNIVERSIDADE de YALE/USA sobre a crise econômico-política à jornalista elizabeth carvalho da globo news

       Em entrevista à jornalista Elizabeth Carvalho, da Globo News, Imannuel Wallerstein, um dos mais conceituados cientistas sociais contemporâneos e professor da Universidade de Yale, discutiu a crise econômico-política deste e dos últimos anos. Sua compreensão de que os Estados Unidos da América são um país em decadência, e temer os estertores desse líder global do imperialismo, causou apreensão a quantos se acostumaram a identificar “a civilização ocidental” com a ideologia nacionalista e imperialista daquele país, que dividiu o mundo em “o bem’: capitalista-liberal x ‘o mal’: sistema de governos pré-capitalistas e/ou pós capitalistas (socialistas)”.

       (Reportando-nos a Mao Tsé-tung, “o imperialismo é um tigre de dentes de papel” (perspectiva estratégica) mas taticamente é um tigre que acostumou a comer homens, embora venha perdendo seu habitat, a caminho do fim.)

       Nas formulações estratégico-políticas (desde sua “ciência das complexidades”) do professor Wallerstein estão em causa quatro questões da mais elevada importância: 1) Quais rumos políticos e conseqüências terão (nos próximos 10/15? anos) a agonia imperialista norte-americana e seus reflexos decadentes nos países como China e Japão e em blocos políticos como a União Européia, que se associaram em sua “globalização e pós-modernidade” política, econômica, militar e estratégica; a que se pretendeu caracterizar como “fim da História” ou “fim das ideologias”? 2) Como se colocarão perante essa transformação do capital e de seu poder as classes e forças sociais do trabalho e de sua organização? 3) Como decorrência do fim dessa hegemonia, o eixo determinante da organização mundial se deslocará para a ONU ou para um condomínio de blocos econômico-políticos diversos; os quais continuarão o atual processo econômico-político, para preservar sua exploração e domínio dos países atrasados? E 4) Que tipo de “sistema de mundo” poderá surgir na esteira do caos capitalista-imperialista, em que, possivelmente, o modo de produção e organização sociopolítica capitalista declinante deixará “um vazio”? 

       Repórter: A crise imobiliária que se alastrou dos Estados Unidos para todo o mundo tem sido revelada em seus sintomas, mas o risco de agravamento da doença permanece. Ao menos para esse ponto convergem as opiniões de teóricos das mais variadas tendências, debruçados sobre as causas e efeitos dos males econômicos do mercado nos dias atuais; porém alguns acreditam que não há mais remédio.

       O cientista político Imannuel Wallerstein, por exemplo, entende que o mundo está diante de um doente terminal. O velho professor da Universidade de Yale e autor de o “Sistema Mundial Moderno” – uma referência do mundo acadêmico em todos os países – acha que chegamos ao ponto de esgotamento da produção do capital e entramos numa era caótica, de incertezas, porque o sistema atual será forçosamente substituído por um outro, que não sabemos qual será; e, portanto, não sabemos se será pior ou melhor. Será, segundo ele, certamente anti-norte-americano.

       Este foi o tema da conferência “Um outro mundo” feita no Fórum Social Mundial em Porto Alegre, sobre o qual queremos conhecer melhor seu pensamento.

       Professor: Ajude-nos a entender melhor a recente crise financeira mundial sob a ótica de sua teoria sobre “O Sistema Mundial”, que prevê tempos assustadores nos próximos 50 anos.

       Como o sr. vê a crise nesse contexto do fim da acumulação de capital, do qual o sr. acredita que estejamos próximos?

       I. Wallerstein: Bem… podemos analisar o que ocorre nos mercados financeiros mundiais de vários modos, e diferentes. Primeiro, é bastante normal na história do capitalismo haver momentos em que as coisas vão mal e há recessão, depressão econômica ou diminuição dos lucros. Todo o processo do capitalismo, historicamente, tem sido cíclico. Há momentos de ascensão e momentos de queda. Isso é absolutamente normal.

       Por outro lado, temos atualmente uma situação específica, ligada ao declínio dos Estados Unidos da América. Uma das forças principais dos Estados Unidos é o fato de o dólar ainda ser a única moeda de reserva do mundo. Isso significa que o governo dos Estados Unidos é o único país que não precisa se preocupar com dívidas. Os Estados Unidos podem emitir dinheiro quando desejarem; não há o que fazer quanto a isso.

       Para além disso, a dívida dos Estados Unidos no momento é de um tipo bem característico. Ela está sendo financiada, basicamente, por alguns poucos países; principalmente pela China, Coréia até certo ponto, pela Índia e pela Noruega; países que compram títulos do tesouro dos Estados Unidos.

       O principal motivo é em parte por ser isso um bom investimento, já que as taxas de juro são boas. Mas é também porque esses países querem sustentar para os Estados Unidos o poder de importação. A China, em especial, quer sustentar o poder de compra dos Estados Unidos para que este país compre produtos chineses.

       NÃO SABEMOS COMO SERÁ O NOVO SISTEMA

       Mas hoje já há um novo contexto para se analisar isso. Nós estamos vivendo, segundo minha visão, uma grande transição da atual economia capitalista mundial para um novo sistema, cujo nome ainda não sabemos e cuja realidade ainda não podemos prever. O elemento principal dessa transição é a volatilidade; é essa situação caótica. Os preços sobem e descem muito rapidamente. Tudo é muito abrupto e incerto. É extremamente difícil para qualquer pessoa prever a curto prazo o que vai acontecer.

       Repórter: Fiz essa pergunta porque alguns especialistas denominaram o 9 de agosto – quando os bancos centrais tiveram de intervir no mercado para restaurar, pelo menos, uma aparência de estabilidade, operação essa que se repetiu – eles o denominaram “dia da debtonation”, baseados na palavra “debt”, dívida em inglês.

       Esse dia significaria o fim da desregulamentação e da privatização das finanças que marcam a “era da globalização”? O sr. concorda?

       I. Wallerstein: Eu concordo que a chamada globalização e a abertura dos mercados financeiros estão sendo muito questionadas na atualidade.

       Um dos fatores discutidos ultimamente na imprensa é a atitude cada vez mais freqüente dos principais governos no mundo todo – na Europa Ocidental, no Japão e assim adiante – de declarar que as decisões acerca das ações executadas pelos EUA não deveriam ser tomadas pelos EUA sozinhos, pois elas têm muito impacto; elas têm muita força na economia mundial.

       Esses governos querem ter participação nelas. Isso é um conceito terrivelmente novo pois, na verdade, eles estão sugerindo que os EUA têm de ser controlados pelos outros países.

       Sabemos que o Fundo Monetário Internacional controla os governos por todo o mundo. O único governo com o qual o Fundo não mexe é com o dos EUA. Precisamos saber se vai haver intervenções governamentais por parte de outros governos em relação aos EUA.

       No geral, você está certa, sim. Já existe um movimento em direção a um maior controle governamental nos mercados financeiros. O Estado acabou resolvendo a crise.

       Repórter: Exato…

       O ESTADO CAPITALISTA É CAPITALISTA E NÃO REPUBLICANO

       I.Wallerstein: Obviamente você sabe, nunca passou de mito que os mercados financeiros eram totalmente independentes, em qualquer momento, do Estado.

       Na verdade, eles não querem ser livres.

       O capitalismo funciona sob a premissa de que a intervenção do governo é ruim, exceto quando é boa pra alguém (Obs. WM: o “alguém” são as corporações econômicas decisórias-nacionais e/ou os oligopólios econômico-políticos que orientam e dirigem o Estado).

       É ruim quando é boa para outra pessoa, mas é boa quando é boa pra mim.

       Sendo assim, o capitalismo tem uma linguagem hipócrita em relação ao mercado.

       Na verdade, o mercado é, em geral, ruim para o capitalismo (Obs. A concorrência “pura ou ingênua” entre capitalistas coloca a tecnologia e o consumo mais ou menos espontaneísta como reguladores de mercado; o que está fora de cogitações nesse estágio econômico mundial)

       Repórter: O sr. acredita que estamos entrando em uma depressão longa e sem fronteiras?

       I. Wallertstein: Acho que isso pode vir a acontecer, em primeiro lugar. Em segundo, o período dos últimos 20 ou 30 anos foi voltado para um comércio relativamente livre e um mercado relativamente livre.

       Agora, estamos no começo de uma era protecionista: O Japão, até mesmo a China vão ficar muito protecionistas. Vamos ver enormes barreiras protecionistas pelo mundo todo.

       Francamente, a palavra “globalização” vai desaparecer do vocabulário de jornalistas, acadêmicos e políticos dentro de cinco anos. Ficará a lembrança histórica de que, um dia, houve pessoas que falaram sobre algo chamado globalização.

       Repórter: Quando o sr. fala do fim do sistema, eu sei que o sr. não é profeta, mas qual é o sistema que vai substituir este? Um sistema parecido, com desigualdade, hierarquia e polarização; ou um novo universalismo, que não seja apenas na retórica, como o sr. denuncia em seu último livro?

       O DESEQUILÍBRIO SISTÊMICO

       I. Wallertstein: Veja, nesse sentido, estou mais para defensor das chamadas “ciências da complexidade”.

       O que essas ciências afirmam sobre sistemas de todo tipo, físicos, químicos, biológicos, sociais, ou seja, de todo tipo, é que, primeiro, eles nunca são permanentes e, segundo, eles sempre se afastam do equilíbrio. Quando eles se afastam o suficiente do equilíbrio, eles se bifurcam.

       Esse é um termo técnico que significa, simplesmente, que existem duas solluções possíveis para uma equação, em vez de uma única solução.

       Quando se bifurca, quando um sistema se bifurca, ele vai acabar optando por uma ou outra das duas soluções possíveis e vai se estabilizar novamente.

       Este período de transição no qual estamos é um período de bifurcação, que é caótico.

       Repórter: Então, ainda não estamos na estabilização?

       I. Wallertstein: Não. E, segundo as Ciências da Complexidade, não é possível. é intrinsecamente impossível prever qualquer das duas saídas, qual das duas alternativas será tomada.

       Não é questão apenas de falta de conhecimento. Não há como prover.

       Temos de passar pela experiência e descobrir, no fim, qual foi o caminho tomado.

       Em termos sociais, isso significa que o novo sistema será de um ou outro tipo. Terá uma estrutura diferente da do sistema capitalista, mas vai compartilhar as características básicas de hierarquia, exploração e polarização.

       A alternativa é um sistema relativamente democrático e igualitário.

       Não sei qual dos dois teremos.

       Repórter: O sr. tem algum palpite?

       I. Wallertstein: Não tenho, não. As chances são iguais.

       Entretanto a boa notícia é que você, eu e todos os outros podemos influenciar essa escolha. Toda pequena ação pode empurrar o sistema para uma ou outra direção.

       A questão não é preservar o capitalismo ou não, e sim se o que vai substituí-lo será um sistema melhor ou pior. Se quisermos um sistema melhor, vamos buscar isso.

       Essa é a motivação da minha atividade política e do que eu defendo para outras pessoas.

       Repórter: Estamos falando de um mundo pós-americano, como o sr. descreveu em sua palestra. O sr. descreveu a posição atual dos Estados Unidos como a de um tigre encurralado. O que o sr. quis dizer com isso?

       I. Wallertstein: A metáfora significa que o tigre, quando encurralado, quando não consegue sair de uma situação, tende a ficar feroz e atacar desesperadamente.

       A PERIGOSA AGONIA DOS EUA

       O verdadeiro perigo para o mundo e para os Estados Unidos é que as pessoas no poder, no governo dos Estados Unidos, ataquem furiosamente. Na verdade, a Guerra do Iraque foi um ataque desse tipo.

       Os EUA podem vir a atacar o Irã, o que seria uma loucura total do ponto de vista político e militar. Mas eles podem agir assim por estarem encurralados.

       Repórter: Mas o sr. afirmou que os EUA não têm interesse na invasão e que nem têm condições para isso.

       I. Wallertstein: Na situação atual dos EUA, o povo americano certamente não quer outra guerra. O exército e os fuzileiros navais também não, porque eles se sentem esgotados e em crise interior.

       Por outro lado, há elementos na Força Aérea que não se importam em mandar seus aviões ao céu para lançar bombas. Eles não podem ser atingidos. É para isso que existem.

       Há uma disputa interna aí. Há pessoas no governo que pensam que devem continuar com os esforços diplomáticos, pois agir de outro modo seria loucura e iria irritar o mundo inteiro.

       E há pessoas que dizem, como, por exemplo, um almirante americano durante a Guerra Hispano-Americana: “Danem-se os torpedos. Toda força à frente”. Ou seja, “Não se preocupem” Vamos com tudo.”

       Os EUA terão poder o bastante para fazer isso?

       Pode ser que sim. Não excluo essa opção.

       Seria irracional, insano e negativo para os EUA, para o Irã e para o mundo, mas eu não diria que isso não vai ocorrer.

       Repórter:O sociólogo e economista Giovanni Arrighi, seu colega, acredita que nós não estamos vendo apenas o fim da hegemonia americana, mas também o fim da era hegemônica. O sr. concorda com essa idéia?

       I. Wallertstein: Concordo, dependendo do que se quer dizer com isso.

       É claro, pois eu considero a hegemonia um fenômeno da economia capitalista mundial, do sistema do mundo moderno. Se esse sistema sobreviver por mais centenas de anos, haverá uma nova potência hegemônica. Tenho certeza disso.

       Mas como eu acredito que ele está em crise e vai ruir, que já está ruindo, acho que não haverá uma nova potência hegemônica.

       A ESQUERDA DE ESTRUTURA HORIZONTAL

       Repórter: Falando agora do segundo sistema possível, eu gostaria de revisar alguns de seus conceitos sobre os movimentos anti-sistêmicos, um termo que o sr. criou há bastante tempo.

       Em 2003, o sr. nos concedeu uma entrevista, na qual citou o Fórum Social Mundial como sendo a ascensão de uma nova esquerda, como uma estrutura horizontal, sem um movimento geral, sem hierarquia e assim por diante.

       Nós sabemos que, de fato, essa estrutura chegou a uma encruzilhada.

       Gostaria de saber como o sr. vê uma esquerda mundial em 2007 e nos próximos anos.

       I. Wallertstein: O Fórum Social Mundial ainda é, como se diria informalmente, “a única opção do cardápio”. Não há estrutura alternativa no momento.

       É verdade que o Fórum passa por uma crise de identidade. Dentro do Fórum Social Mundial sempre houve tensões em relação às prioridades.

       O brilho inicial desse novo elemento maravilhoso já está mais fraco. As pessoas estão se perguntando se aquilo é o que elas querem e se está funcionando bem.

       Eu não desconsideraria o Fórum Social Mundial ainda. O argumento que sustento desde 2002 é que existem formas de conciliar isso.

       Já existem estruturas em rede. Estruturas em rede das feministas, estruturas em rede dos trabalhadores rurais, estrutura em rede das organizações trabalhistas e outras estruturas em rede que têm crescido no ambiente do Fórum Social Mundial, que sempre será um espaço aberto, sem diretores, que nunca por si só toma ou emite decisões, nem faz tudo aquilo que, tradicionalmente, as organizações hierárquicas faziam, o que foi a causa da ruína delas.

       Repórter: Falando da América Latina, de uma época que pôs no poder tantos líderes de esquerda neste novo século. É fato que todos eles ainda parecem ter um apoio popular muito forte.

       Mas citando a definição do sr. sobre um certo estágio de alegria e felicidade, o povo não está mais “dançando nas ruas”.

       Eu gostaria de saber sua visão sobre esses governos latino-americanos, com tantas tendências diferentes e tantos problemas iguais.

       I. Wallertstein: Todos os governos da América Latina hoje, exceto o da Colômbia e, talvez, o do Peruo, podem ser considerados, pelo menos, de centro-esquerda, mas são muito diferentes.

       CHILE NUMA PONTA, VENEZUELA NA OUTRA 

       O do Chile não é igual ao da Venezuela. Entre eles, estão o do Brasil, o do Uruguai, o da Argentina, o da Bolívia e o do Equador.

       Alguns deles são mais centristas, outros são mais radicais. Alguns são mais ricos, outros são mais pobres.

       A riqueza possibilita liberdade de ação. A Venezuela tem muita liberdade de ação, na pessoa de Chávez, por causa do petróleo. O Brasil, relativamente, tem mais liberdade de ação do que a Argentina; com certeza, mais do que o Uruguai; e, certamente, mais do que a Bolívia. Apesar de a Bolívia também ter sua força.

       Há governos que têm uma característica indígena mais presente, como o da Bolívia, mas também o do Equador e mesmo o da Venezuela.

       Há disputas por liderança, porque o Brasil meio que se considera o líder natural.

       Chávez não se sente à vontade com isso, apesar de não ser contra o Lula. É muito interessante a relação entre Chávez e Lula. É uma relação cautelosa. De muitas formas, ambos sustentam essa relação. Mas eles têm diferenças no campo político.

       Os governos da América Latina têm muito mais espaço do que tinham mesmo há dez anos, devido à falta de capacidade dos EUA de investir energia emocional, política e financeira para controlar os governos latino-americanos, como fez no passado, pois estão ocupados com o Iraque. Eles têm outros problemas. Problemas mais sérios.

       É por isso que esses governos chegaram ao poder. Eles jamais chegariam ao poder há 10 ou 15 anos.

       Tenho uma opinião em relação aos governos. Para a esquerda, em geral, os governos são uma arena de defesa a curto prazo. A esquerda quer assegurar sua permanência no poder não porque vá mudar o mundo, mas para não deixar tudo piore. É uma ação de defesa.

       Se encararmos de modo realista, aceitando que isso não é uma revolução, que não pode ser, veremos que é a melhor opção.

       Repórter: Chávez acredita que está fazendo uma revolução à moda antiga.

       I. Wallertstein: Deixe que ele acredite.

       Há a questão dos movimentos sociais.

       A maior fraqueza de Chávez é que ele governa de cima para baixo e não de baixo para cima.

       No Brasil, na Argentina e, ainda mais evidentemente, na Bolívia, os governos chegaram ao poder devido à força de vários movimentos sociais.

       Eles podem não fazer o que os movimentos sociais querem, mas esses movimentos tinham força no Brasil, na Argentina e na Bolívia.

       Não há movimentos assim na Venezuela. Só existe Chávez. Se ele morrer amanhã, não sei o que vai ser da Venezuela.

       O HORIZONTE DOS MOVIMENTOS SOCIAIS

       Movimentos sociais têm de se preocupar com o médio prazo. Mas precisam ser realistas.

       Lula venceu a eleição. Venceu com grande vantagem da segunda vez. Mas ele nunca teve maioria em nenhuma das duas casas do Legislativo. É verdade. Isso é limitante. Isso pode tê-lo impedido de fazer o que queria.

       Entretanto Morales tem a maioria no Parlamento. Ele tem que se preocupar com o fato de não a ter em certas regiões do país, que estão constantemente…

       Repórter: Regiões importantes.

       I. Wallertstein: Exatamente. E que ameaçam se separar e tal…

       As políticas internas de cada país precisam ser analisadas Nenhum modelo serve para todos.

       O que Lula pode fazer, o que Kirchner pode, o que Chávez pode e o que Morales pode são possibilidades diferentes.

       Para lidar seriamente com os outros, cada um deve levar em conta o que é possível fazer, e entender e avaliar a situação política sob essa ótica.

       Repórter: Isso me lembra um aforismo que o sr. fez em uma de suas declarações: “A coisa mais certa é o futuro, já que o passado está sempre mudando”.

       I. Wallertstein: Isso está totalmente correto.

       Sabe, o passado é a nossa imaginação presente daquilo que se passou. Nós definimos o passado em termos do que necessitamos no presente.

       Isso vale para a América Latina e para qualquer outro lugar.

       Repórter: Professor, obrigada pela entrevista. Foi um prazer estar com o sr.

       I. Wallertstein: O prazer foi meu.

(NB, WM: O Chile e o Paraguai, mais do que o Uruguai, não conseguiram ultrapassar senão formal e precariamente a vigilante conformação pára-fascista militar que os controla desde os últimos anos de “democracia”. As concessões mineiras ao imperialismo no Chile de Bachelet e os grupos burocrático-militares de poder no governo de Nicanor Ramos são evidências)

(Entrevista concedida a Globo News, em setembro de 2007.)

LAÇOS DE FAMILIA por ana maria maruggi

Consta que Zé e Maria tiveram dois filhos, um casal, que ficou junto com eles até a adolescência e depois cada um procurou seu rumo.

 

Trilharam separadamente os caminhos que a vida lhes traçou. A menina casou cedo com um comerciante vermelho, e tão logo se uniram já veio o filhote. O casamento não demorou e foi  se desmantelando por conta do machismo do vermelhinho. E assim se deu a separação que rendeu à já senhora, um filho e nenhum lar, nenhuma pensão, nenhum afeto, nada. Mas com todos os atravancos da vida, ela não retornou aos braços paternos, ficou firme com seu bebê, ora aqui ora acolá tentando sobreviver.

 

Ele, o jovem filho do casal Zé e Maria, trabalhador, também imediatamente se casou, mas o casamento desmantelou-se depois de terem tido um menino que chamaremos de Hugo. O jovem descasado pai, não podia cuidar de Hugo por causa de sua labuta que o fazia ficar o dia todo no trabalho, então recorreu ao socorro dos braços maternais que o acolheu com carinho. Hugo então passou a ser criado pelos avós paternos. Era neto e filho querido, simultaneamente.

 

O tempo fez surgir  muitas cicatrizes nas vidas desses irmãos, mas lutaram sempre com altivez e muito riso.

 

Ele solitário logo  se engraçou com outra mulher,  também descasada e com duas filhas, que morava em Guaratinguetá. As crianças já estavam crescidinhas e não davam nenhum trabalho. O ex-marido dava-lhe uma gorda pensão para sustento das meninas, e ela então estava financeiramente tranqüila, o que dava ao nosso jovem mais confiança de ir ficando com a jovem senhora. Seu filho, Hugo passava as férias com a nova família em Guaratinguetá. A união estava durando mais de 10 anos já quando a crise conjugal começou a afetar o relacionamento. Ele então voltou para sua solidão.

 

Sua irmã continuava na labuta com o filho que já tinha uns doze anos de idade.

 

Hugo que morava os avós numa pequena cidade do interior paulista vinha passar as férias escolares com o pai num apartamento de um dormitório no centro de São Paulo.

 

Muito tempo se passou e um dia a campainha da casa de nosso jovem descasado soou numa noite fria de maio. Ele ficou surpreso quando deparou com uma moça e duas crianças, um casal, à sua porta. Ela foi explicando que era a filha da ex-mulher dele, aquela que morava em Guaratinguetá.

 

Perguntou se ele não a estava reconhecendo, no que ele respondeu que a reconhecia vagamente. Ela então disse que era a Juliana, a caçula. E ele se lembrou bem da criança bonita que ela era e observava com atenção a mulher madura e  muito charmosa que ela se tornou. Juliana pediu para entrar, e ficar por alguns dias pois o marido tinha se tornado muito  violento e os mandou embora de casa. Ela precisava de um teto e um trabalho para sustentar os filhos. Era madrugada  e ele não pode dizer não. Acolheu-os.

 

 

Na manhã seguinte ele se levantou e a mesa do café estava posta com pães, bolo de fubá e um suco de laranja para ele. Notou que ela se lembrou do suco de laranja que tomava todos os dias no café da manhã desde que ela era bem pequenina. Ficou surpreso com tudo. Gostou de ser esperado outra vez. Mas, após a reunião matinal ele iria falar com ela e pedir que  voltasse para a casa de sua mãe, mas ela foi antecipando que sua mãe morava com um homem sisudo e violento, e que ela jamais voltaria para sua casa. Sendo assim decidiu que os acolheria até que ela arranjasse um emprego e alugasse uma casinha.

 

À noite quando nosso jovem voltou do trabalho, sentiu o perfume de limpeza ao abrir a porta, o aroma da comida caseira que estava sendo preparada, e teve muito prazer de entrar em sua própria casa. Agora parecia até um verdadeiro lar, com mulher, crianças pela casa, comida fresca, roupa no varal, e cama arrumada. Ele ficou contente. Teve pena de ver a moça dormir no chão da sala, e as duas crianças empilhadas num sofá de dois lugares, enquanto ele dormia sozinho numa enorme cama de casal num quarto imenso e bem arejado, por isso na noite seguinte trouxe mais um colchão de solteiro e o colocou no chão para as crianças dormirem melhor. Foi assim que, aos poucos, Juliana e nosso protagonista passaram, estranhamente, a dormirem juntos. Ela, enteada dele, agora esposa. Ele, padrasto dela, e quase avô das crianças, agora marido. A que era sua esposa antes, mãe de Juliana, passou devagar a ser sua sogra. Os laços começaram a ficar confusos e difíceis de serem desatados.

 

Julho chegou rapidamente,  e Hugo veio passar uns dias com o pai. Reconheceu logo a irmã e estranhou tê-la  agora como sua madrasta, e  os sobrinhos como seus irmãos. Os enlaces familiares estavam cada vez mais atrapalhados, e até chegaram a achar que não poderia ficar pior.

 

Mas ficou. Alguns anos depois Hugo começou a demonstrar-se apaixonado por Grabriela, filha de Juliana. Sua sobrinha e também irmã, que poderia  passar a ser sua esposa. E Gabriela que era filha e neta de nosso jovem descasado, passaria a ser sua nora. E Hugo passaria a ser genro de Juliana, e também neto de sua mãe.

 

 

É melhor pararmos por aqui essa confusa árvore genealógica, pois as coisas podem ficar ainda mais atrapalhadas. Não sei não. Esses jovens que andam gostando das mulheres mais velhas…poderemos deparar logo mais adiante com o filho de Juliana se apaixonando pela avó de Hugo….sei lá. É melhor deixar estar..

 

Sobre a interessante reação das SENHORAS a um poema – poema de solivan brugnara

 

 

 

Batista entrou sem ser convidado

no sarau com chás, torradas e alguns maridos.

Terno amassado com cheiro de brechó,

camisa bege encardida.

Recusou o chá, procurou vinho

e como está acostumado a achar espaços

em ônibus lotados,

foi fácil subir ao palco.

Com a voz beirando o grito

iniciou o poema:

-A puta!

Soou como sirene com cárie.

Olhos voltaram-se, como girassóis raivosos

para a palavra, tão vermelha

que manchou de rubro a face das senhoras.

E o constrangimento se manteve

até o arremate de Batista:

-A puta, de Carlos Drummond de Andrade!

Alívio entre as senhoras, sorrisos, e mesmo aplausos.

É Batista, confirma-se a tese

que o maldito está no poeta

e não na poesia.

Tuas doces poesias são consideradas malditas

                                  só porque não lava as mãos antes de fazê-las.

POESIA DO FUTURO: PALAVRA & PODER – por jairo pereira

Poesia brasileira contemporânea: qual o futuro, quando se trata de seus aspectos formais e de conteúdo? O poeta paulista Cláudio Daniel, expressou com inteligência e amplo conhecimento dos fatos (poéticos) q. uma das hipóteses de evolução qualitativa dessa arte, ocorrerá quando houver plena interação entre o exercício do signo verbal (palavra) & tecnologia.(Site Cronópios/set. 2005 – Pensando a poesia brasileira contemporânea). Difícil a conciliação entre o elemento, simples palavra em estado nathural, e o signo verbal, expandido pelo esforço dos sentidos e a apreensão dos elementos signo-simbólicos produzidos pelo computador ou outros meios eletrônicos. A semiótica já deu grande salto nessa complexa relação. Sempre haverá os espertinhos, q. com maior destreza nos meios tecnológicos, se arrogarão em ícones poéticos, certamente incentivados por alguma mídia malandra. E, aí nesse particular as crianças, afeitas à positronia & afins, também levarão imensa vantagem em relação aos adultos. A mídia leiga, é facilmente aliciada pelos impostores poétics. Interessante questão, essa q. jamais será descartada quando se trata do advento da poesia do futuro. De minha parte, entendo q. a profusão sígnica, emitida em surtos descomunais pelo sujeito criador (o poeta) sempre será inusitada, imprevisível, e dentro do milagre da língua/palavra/linguagens, na sua infinitude de recursos ético/estéticos. Parir o novo, novíssimo, em total contrariedade à determinação ou sentença (eclesiástica) do nada de novo sobre a face da terra é tarefa pra poucos escolhidos. E nesse caso, prevalecerá sempre a vitalidade da palavra em consonância com a própria palavra, o espaço em branco da página, e o rigor mortis da execução poética. Da mente (intelecção, abstrações e imaginário) o signo simples, como água de fonte, alardeando significação, instituindo verdades, inaugurando espaços, sons, cores, um cosmos singular de tridimensionalidade semântica e concretude. Este o grande desafio nathural, ou melhor puxando pro meu ninho, protonathural, à criação poética. Uma analogia ou paralelo: a pintura. O eterno desafio da bidimensionalidade do suporte, as tintas, os pincéis, o sujeito criador, com a técnica pictórica, o domínio enfim dos meios à realização do ato pictórico. No caso o material (a tinta) por si só, traz nos pigmentos variados, a experiência dos tempos, a providência criativa, o acidente químico. O signo verbal, (a palavra) é corpo-vivo, agrega no seu DNA o fato estético, o fato philosóphico, o fato antropológico, ódio, inquietação, solitude, subversão, paradoxos de significação e miles de outros caracteres intrínsecos. Nós, os poetas e escritores em geral, operadores das linguagens é q. conseguimos restringir a força da palavra, e por vezes até anular ou destruir sua energia vito-nathural. O problema está mais no agente criador, na realidade, do q. no signo em si. Quando traímos o objetário (infância, trabalho, consciência, situação social, geofísica-política, condicionamentos raciais, espaço-tempo, conflitos em q. somos participes) traímos o esplendor do signo, porque primeiro nos traímos na postura. As espadas são as mesmas, mesmos os materiais fundidos e sua têmpera. O uso, o maistream é q. faz a diferença entre ação e resultado. Não quero fazer excessivo elogio ao milagre do signo em estado bruto, mas é dele q. toda obra poética futura, pelo transcorrer dos tempos, nascerá/renascerá. A palavra, a santa q. satisfaz, a insubordinada, a vã e tentadora, a anárquica, com seus veios subterrâneos de muitas minas, é q. se mantém no espaço e no tempo da criação poética. Louca, majoritária criadora, detém o milagre dos princípios, meios e fins da criação. Matriz esplendorosa dos signos, a linguagem e sua voz, a voz da linguagem e sua una condição de ente provedor/divino. Inexplicável o fenômeno do signo em si, nu e crucificado no tempo histórico. Nu e animal, na transcendência de seu transnacimento vida-morte. Nu e imprevisível na sua projeção (instalação) nos espaços futuros do pensar e ser pensado, do criar e ser criado. Apenas palavras, eu sei, de poeta falho, infinitamente menor q. a palavra em estado de graça do seu existir, como pó, água de córrego, semente de planta, inço de potreiro, inseto de estação e ao mesmo tempo, esphera positrônica, a emitir reflexos, sons, luzes, cores, emanações enfim, de significâncias matriciais, ainda não plenamente definidas (esclarecidas) pela plêiade de lingüistas & philósophos de linguagem, do passado ou de nosso tempo. Entrar pra dentro do signo verbal e descobrir esse milagre escondido, os conteúdos díspares, as antinomias, as crispações do espíritho, outro milagre, em séculos, milênios de futuros desafios ao homem. Pegar uma palavra ravalp lavrap apavral vralapa e medir suas superfícies amplas, seus objetos trançados, empilhados nas polissemias, os veios, canais de provocação dos sentidos, medir tudo, arar, lavrar aquelas terras, navegar os mares revoltos, subir suas montanhas, mergulhar nas abissais colônias de semas, semantemas, um desafio ad ethernum. O signo verbal, não esgota-se em si mesmo nunca. De sujeito pra sujeito, as ordens de significação. As significações determinadas pelo operador e sua pretensão lógico, estética, finalística. Ainda assim, o ente lêtrico, na sua simplitude crística, apronta e surpreende. O homem não detém o domínio pleno da palavra (e nunca deterá). Em sua polidimensionalidade de significação, o signo espectral, fático, ideológico, sempre irá impor acrescentos novos na criação humana. Importa reconhecer as transcendências, as projeções do bólido verbal, no tempo e no espaço. O signo irruptor de movimentos vida-morte, o signo acelerador das emoções, o signo providencial e consolador. O signo como ente vivo, vivíssimo, detrator cósmico, dínamo prospectivo, em transe na existência terrena dos homens. Deus e linguagem. DEUS e palavra. PALAVRA e deus. PALAVRA e poder. Simbiose estranha, q. a fala, os sentimentos, os atos dos homens, denunciam. Um dia a palavra tirar o máximo do PODER, traí-lo nos gabinetes do baixo-espíritho. A esphera positrônica e milagrosa em nossas mãos. O instrumento de poder nas mãos dos poetas. A palavra gloriosa, pastorear só a verdade, estender o bem aos pequeninos, contra toda torpeza organizada do PODER. Utopia, (o não-lugar) q. a palavra instituirá, só por prazer, como já deve ter ocorrido em épocas imemoriais. Ainda surprenderá muitos governos (a simples palavra), água de fontes desconhecidas, pródiga em seus desígnios. É tão feia a relação da palavra com o PODER q. até os ditos me saem transfusiados, na denúncia do fato. Viva e cresça, viva e expanda a POESIA feita só com a palavra. Um vaticínio falho, só por provocação: a santa milagrosa harmonizar elementos contrários. Vida x morte, sujeito x objeto, ação x omissão, verdade x mentira, contradição x identidade, razão x emoção, etc. Isso jamais, poderia ocorrer, pois anula o extrato rico da contradição. Finda com a dialética, q. a própria palavra é mantenedora.

Os compostos alucinados do alto espíritho, pelas criações teoréticas e práticas, nas artes e nas ciências, estarão sempre servis ao milagre da (aparentemente vã) palavra em ação. Os compostos destruidores da bela vida, (a palavra) mal usada pelos tiranos. A relação crucial do signo com o Poder. Uma língua, um composto singular de signos, um povo, muitas realidades, dentro e fora do divino-psiquismo, inexplicável da palavra em ação. Como poeta, posso dizer, q. estamos a mercê (não do poder dos homens e seus governos) e nem mesmo das criações tecnológicas, mas da palavra, a simples palavra q. encanta e ilumina. Trocar esse milagre, essa maravilha logótica, voz de Deus, por outro signo qualquer, criado & delimitado em sentido, pela intelecção humana, nibinem… nibinem. Toda mídia de acrescento, somatória, é bem vinda ao processo compositório (poético), mas nunca em poesia, o descarte da essência majoritária da razão e des-razão, o signo, simples palavra, a dormir conosco, levantar e partir para o trabalho de sobreviver e expandir a arte/poesia/ciência. Imagino um pastor simples de ovelhas (palavras), nos campos sublimes do conhecer, direcionando-as, no ditos singulares. Imagino o PODER conduzido espontaneamente pelo signo, e o pastor (não-dominador do milagre) servil aos desideratos nathurais da palavra. Tudo nos é permitido –no empírico e no teórico- com a catana da simples palavra. A palavra induz as práxis mais variadas e impõe determinações no espaço-tempo, nas mais diversas áreas. É ela a palavra q. erige as doutrinas, os corpus juris, os organons, os tratados éticos-estéticos, as divinas e (ou) místicas compilações. Ela a simples palavra, q. alimenta o espíritho tenso de gerações, com sua preciosa seiva. Ela a palavra forja philosophias, governa, guerreia e pacifica. Formigas corridas do formigueiro. Poeira cósmica com significante e significado nas partículas. Minha infância, minha razão, minha alma contrita, meu discurso, sua dinâmica projeção, tudo em íntima relação vida-morte com a simples palavra-lux. Pouco mais q. isso sei, e pouco me permite a vespa límia mais dizer. Viajei agora, sem sair do lugar, muitos dirão. E, viajei mesmo pelo milagre da provedora-palavra. A poesia futura virá nathuralmente, como inseto de estação, na pena de crianças, jovens e velhos. E sempre com a imposição da língua (sua mínima partícula: a palavra) dando as cartas de nosso destino. Amplos imaginários, variações infinitas de formas, conteúdos, estéticas como hastes novas crescidas no jardim e sem explicação crítico-científica. A poesia brasileira do futuro, beberá da melhor água, na sua fonte ontológica, na sua carnavalização do eu e das relações. Ações provisórias, a pau, pedra e sapé. Engenharia de barranca de rio. Movimento de quadris. Ginga de malandro. Feirão de rua. Samba, poesia, philosophia, psicologia de botequim, e tudo no mesmo prato de louça barato e sorriso largo. Pensar o signo hoje, é viver o futuro da palavra, o futuro da poesia, inquietação q. só faz bem ao processo. Felizes aqueles q. pensam a nathureza dos meios, pelos quais sua arte se realiza. Feliz, a busca, o desvelo pleno do pensamento no tempo. Com a palavra, anda a humanidade, avançam as ciências & as artes, no deliberado encontro com o pather macro-criador, q. é dúvida novamente, e reencontro, e partida, e revolução, e persecutiones, e nos faz solipsar com a própria palavra na sã contingência do existir.

Palavra de poeta:

quando MORRER, meus filhos

por favor, enterrem-me

na palavra VIDA.

hErMes lUcAs pErê

Autor de Poie-açu (poesia), Trançagem (poesia) e

Arroz, feijão e philosophia (multiprosa) inéditos.

A serem publicados por editora do Asteróide

ZPHIZQ 787, da Órbita Savagé, no ano 2010.

 

LIA e o POETA – poema de bárbara lia

     Choveu de noite até encostar em mim. O rio deve estar
     mais gordo. Escutei um perfume de sol nas águas.

     Manoel de Barros

 

O rio foi visitá-lo

seguindo o eco

das batidas do martelo

em código Morse

a delatar:

a – qui –

m o -  ra-

um –

po – e – ta!

 

 

 

O rio ergueu o manto verde

enfeitado de peixes prateados

Acercou-se da casa

do acorde rascante

da inseparável viola

O rio beijou os pés do poeta

na sola

 

Quando o rio voltar

a deitar-se à sua porta

envolva-me em lençóis

me leve ao colo

me apresente ao rio:

- Lia, este é o rio;

Rio, esta é a Lia

 

A verde mão líquida

tocará a minha

que escreve agora esta poesia

ao carpinteiro

jardineiro

violeiro

que me encanta,

assim como

encanta o rio.

DESEMBESTO poema de altair de oliveira

 

 

Gosto do gosto dos gestos que te faço

Quando te aperto de perto, busto a busto

E cavalgando os teus mais castos pastos

Resfolegando, indomado, solto, às crinas…

Eu desamarro este teu tropel de sustos

Tino-lhe os sinos insanos com meus cascos!

 

Altair de Oliveira – In: O Lento Alento

A poesia de ANA CRISTINA CÉSAR por leonardo meimes

ANA CRISTINA CÉSAR – Sensibilidade feminina

 

            A poesia criada na década de 70 sentia ainda o punho forte da ditadura militar, que só daria fim a sua censura em 76, neste contexto conturbado uma geração de poetas surgiu fazendo sua poesia das ruas, distribuída na porta de bares e com muitos pontos de vista novos a serem descobertos. Poetas como Paulo Leminski e Chacal surgiram com suas poesias simples e contundente. A poetiza Ana Cristina César, a musa da poesia marginal, foi a criadora de poemas profundamente sensíveis à realidade da mulher moderna, que juntamente com suas traduções, artigos em revistas e jornais compuseram uma obra muitas vezes feminista, sensual e influente. Sua formação e família culta permitiram que a autora construísse uma obra importante em uma vida curta e que para ser analisada deve-se levar em consideração vários aspectos.

            O primeiro deles é talvez a forma de sua poesia, que se apresenta tanto em forma de versos como em prosa poética, em forma de diários com datas confusas e não lineares, portanto, é difícil determinar um padrão pelo qual a poetiza teve preferência, apesar do uso recorrente de alguns recursos poéticos. O conteúdo versado pela autora passa muito pelo mundo existencial da mulher, com algumas poesias sentimentalistas, amorosas e sensuais, sobre o cotidiano e com muitas referencias culturais. Seus “diálogos” com autores consagrados como Baudelaire (em Flores do mais), Fernando Pessoa (Psicografia) nos permite fazer relações diversas entre a obra da autora e a poesia em geral, deixando transparecer suas influências, e até as transformando em poesia como em Índice Onomástico poesia em que são listados nomes de poetas que influenciaram a autora.  Permeia a obra também uma poesia de metalinguagem de reflexão poética como o poema Poesia, que trabalha a linguagem de uma forma bem fragmentada, sem pontos e virgulas. A obra de Ana C. também intriga por outro motivo, a autora se matou aos 39, deixando uma carta à um poeta em que falava entre outras coisas sobre a poesia. Este fato criou uma motivação sombria para a leitura dos textos, que permeia a obra de autores suicidas, como Vladimir Mayakovsky e Ernest Hemingway, a busca na poesia da autora pelos motivos ou sentimentos que a levaram a se jogar de um prédio.

            Por todas essas características Heloísa Buarque de Holanda colocou poemas de Ana C. em sua compilação 26 Poetas de Hoje onde podemos ter um gostinho da obra desta autora, com poemas escolhidos que mostram as influências, as formas e os assuntos recorrentes. Esta compilação também é importante para a divulgação da autora, que não teve uma obra extensa e por isso, fora a dificuldade em publicar na época, ficou longe dos leitores por um bom tempo. Leitura obrigatória para qualquer proposta poética atual, Ana C. César deixou entre outros os livros A Teus Pés, Inéditos e Dispersos e Novas Seletas (Póstumo), todos percorrendo uma fina linha entre o autobiográfico e a reflexão ficcional.

 

Ana C.

 

A Ponto de Partir

 

A ponto de
partir, já sei
que nossos olhos
sorriam para sempre
na distância.
Parece pouco?
Chão de sal grosso, e ouro que se racha.
A ponto de partir, já sei que nossos olhos sorriem na distância.
Lentes escuríssimas sob os pilotis.

Um Beijo

 


que tivesse um blue.
Isto é
imitasse feliz a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso
do prazer.
Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra
desde a escolha
debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água
sem gás
de decolagem:
leitor embevecido
talvez ensurdecido
“ao sucesso”
diria meu censor
“à escuta”
diria meu amor

 

Psicografia

 

Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube e digo
da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto

 

Flores Do Mais

 

Devagar escreva
uma primeira letra
escreva
nas imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais

 

A febiana BETE, MENTES? por félix maier

Fernão Mendes Pinto, viajante e escritor português da época das navegações, contava histórias tão incríveis que tinha seu nome glosado para Fernão Mentes Pinto.

No Brasil temos esforçados aprendizes da mentira, especialmente entre a canhota, que foram fazer curso em Cuba para tentar implantar o comunismo no Brasil, ao mesmo tempo em que dizem que queriam a volta da democracia durante os governos dos militares… Dentre os pinóquios caboclos, distingue-se a Sra. Elizabeth Mendes de Oliveira, vulgo Bete Mendes das novelas da TV Globo. Quem é, afinal, Bete Mendes, ou melhor, Bete Mentes?

Na sopinha de letras em que se transformaram os grupos terroristas das décadas de 1960 e 70, Bete Mentes era uma “araponga” da Vanguarda Popular Revolucionária – Palmares (VPR-Palmares), que foi a fusão da VPR com o Comando de Libertação Nacional (Colina), em 1969. Na VPR, Bete Mentes tinha o codinome de “Rosa”, talvez uma referência a Rosa Luxemburgo, em quem provavelmente se espelhava. Antes de abordar as mentiras de Bete Mentes, convém lembrar algumas atividades da VPR.

A VPR teve como líder maior o ex-capitão do Exército, Carlos Lamarca, que desertou do 4º RI, em Quitaúna, Osasco, SP, em 1969, roubando 63 FAL, 5 metralhadoras INA, revólveres e muita munição da Companhia onde comandava.

No dia 22 Jul 1968, a VPR já havia roubado 9 FAL do Hospital Militar do Cambuci, em São Paulo. Em 26 Jun de 1968, a VPR explodiu um posto de sentinela do QG do então II Exército, em São Paulo, matando o sentinela, soldado Mário Kozel Filho. Em 12 Out 1968, a VPR assassinou o capitão do Exército dos EUA, Charles Chandler, projetando-se perante as organizações terroristas nacionais e internacionais. Em 1970, a organização terrorista seqüestrou diplomatas estrangeiros: o Cônsul-Geral do Japão em São Paulo, Nobuo Okuchi, no dia 11 Mar 1970, para libertação do terrorista “Mário Japa” o Embaixador da República Federal da Alemanha no Brasil, Ehrenfried Anton Theodor Ludwig von Holleben, no dia 11 Jun 1970; o Embaixador suíço no Brasil, Giovanni Enrico Bucher, em 07 Dez 1970, libertado em troca de 70 presos terroristas enviados ao Chile do Presidente marxista Salvador Allende (24 desses terroristas eram da VPR), onde foram recebidos de braços abertos no dia 13 Jan 1971.

Uma das ações mais covardes da VPR foi o assassinato a golpes de fuzil do tenente da PM/SP, Alberto Mendes Júnior, em Registro, SP, depois que o mesmo se entregou como refém a um grupo de terroristas, em troca da vida dos soldados de seu pelotão (10 Mai 1970). No mês de setembro, descoberto o crime, a VPR emitiu um comunicado “ao povo brasileiro”, onde tenta justificar o frio assassinato, no qual aparece o seguinte trecho: “A sentença de morte de um tribunal revolucionário deve ser cumprida por fuzilamento. No entanto, nos encontrávamos próximos ao inimigo, dentro de um cerco que pôde ser executado em virtude da existência de muitas estradas na região. O tenente Mendes foi condenado e morreu a coronhadas de fuzil, e assim o foi, sendo depois enterrado”.

No início de 1971, a VPR tinha mais militantes no exterior (Cuba, Chile e Argélia banidos e foragidos) do que no Brasil. Carlos Lamarca morreu em Brotas de Macaúbas, interior da Bahia, em 17 Set 1971, ao resistir à prisão. Como recompensa por estes e muitos outros atos criminosos, a família de Lamarca, embora já recebesse pensão do Exército Brasileiro, foi “presenteada” com uma indenização de mais de 100 mil dólares, doada pela famigerada “Comissão dos desaparecidos políticos”, no dia 11 Set 1996. Depois dessa ignomínia, o 11 de setembro deveria ser instituído no Brasil como o “Dia da Traição”, como já sugeriu o Deputado Jair Bolsonaro.

É nessa VPR-Palmares que “Rosa” foi se homiziar. Quais as atividades criminosas que Bete Mentes cometeu naquela organização? Ela nunca enumerou nenhuma. Não teve a coragem, p. ex., do terrorista Carlos Eugênio Sarmento da Paz, da Aliança Libertadora Nacional (ALN), que confessou ter praticado em torno de 10 assassinatos.

No dia 17 de agosto de 1985, os jornais de todo o País publicavam as acusações da deputada federal Elizabeth Mendes de Oliveira. Dizia a “atriz” global que havia se encontrado em Montevidéu com o homem que, 15 anos antes, a havia torturado. Como o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra havia sido integrante da Operação Bandeirantes (OBAN), organização que havia acabado com o terrorismo em São Paulo, a esquerda revanchista não deixou passar a oportunidade de ouro: na comitiva da visita do Presidente Sarney ao Uruguai, Bete Mentes foi estrategicamente incluída no grupo para caluniar o militar.

Imediatamente, parlamentares, movimentos de “direitos humanos”, associações, exigiram a volta imediata de Ustra ao Brasil, ao mesmo tempo em que antigos terroristas eram recebidos como heróis no retorno ao País.

Mesmo sem apresentar provas contra Ustra, Bete Mentes conseguiu seu intento, que foi denegrir a figura de um oficial de conduta ilibada, como atestam as condecorações recebidas. Apesar da pressão recebida, o Presidente Sarney manteve o coronel Ustra no Uruguai, prestigiando o General Leônidas Pires Gonçalves, Ministro do Exército, que não cooptou com a farsa armada o que não viria a ocorrer durante o caso do coronel Avólio, que foi corrido da Embaixada de Londres pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso, acusado de torturador, também sem provas.

Toda a verdade a respeito do caso Ustra, e da história da OBAN, pode ser vista no livro “Rompendo o Silêncio”, de autoria do próprio Ustra. Um excerto do assunto pode ser acessado no site Terrorismo Nunca Mais (Ternuma), http://www.ternuma.com.br/. O coronel Ustra, inúmeras vezes, solicitou uma acareação com a terrorista. Obviamente, nunca foi atendido.

Atualmente, além de “guerrear” em algumas novelas e seriados da TV Globo, como “Aquarela do Brasil”, Bete Mentes foi nomeada presidente da FUNARJ pelo Governador Antony Garotinho. Interessante a lógica de Garotinho: uma “araponga” de uma organização terrorista pode assumir cargo público, porém um antigo integrante do Serviço Nacional de Informações (SNI), Ministro Paulo Costa Leite, seu planejado candidato a vice, foi sumariamente defenestrado. Isso prova que a patrulha stalinista continua mais ativa hoje do que nunca. Jane Vieira de Souza, antiga “militante” da ALN, que participou do seqüestro de um avião, é hoje diretora do Arquivo Público do Rio de Janeiro. Como se vê, a alegre caravana dos terroristas anda tranqüilamente na casa de Garotinho.

O que eu não sabia é que Bete Mentes também é uma febiana. Se não combateu com a FEB na Itália, ao menos tem um grande apreço por nossos pracinhas. Sabem por quê? Por todas as suas atividades desenvolvidas esses anos todos na PAR-Palmares, ela foi convidada pelo Centro de Comunicação do Exército (C Com S Ex) para ser a apresentadora de um documentário, “Apresentação especial de documentário sobre a FEB”, que pode ser acessado no site do Exército, http://www.exercito.gov.br/.

Por mais esta, fica a palavra com o general Chefe do C Com S Ex, para explicar o inexplicável, pois, das duas, uma:

- ou os militares produtores do documentário do C Com S Ex são tão novos (ou tão ignorantes) que nunca ouviram falar da terrorista e pinóquio de saias; ou a canalhice também tomou conta do nosso glorioso Exército Brasileiro.

* O autor é ensaísta e militar de reserva. ttacitus@hotmail.com

A DITADURA CONTINUA: reposta ao sr. félix maier de pablo emmanuel

Prezado Sr.

Li seu texto na internet, cujo título é “A Febiana Bete, Mentes?”. Achei completamente sem fundamento e infantil a parte que o senhor diz sobre o Coronel Ustra assim: ” Mesmo sem apresentar provas contra Ustra, Bete Mentes conseguiu seu intento, que foi denegrir a figura de um oficial de conduta ilibada, como atestam as condecorações recebidas.”

Falando assim, parece até que condecorações militares são o cartão de visitas de caráter de um militar ou de qualquer uma pessoa. Os oficiais de Hitler também eram condecorados, e, depois das condecorações, iam para os pavilhões dos campos para decidir quem morreria. Sendo assim, condecorações militares só servem mesmo para aumentar a auto-estima do militar, para fazê-lo crer na sua carreira, para enfeitar a farda e fazer a esposa ter orgulho de estar casada com um militar.

O março de 64 teve conotação nitidamente terrorista, basta ver a ação de alguns implicados no evento, que tiveram participação no antigo Integralismo, movimento terrorista ideologico-militar dos anos 30 que era uma aberração. O Olimpio Mourão Filho era integralista. Quando sublevou as forças em Minas, cometeu um ato terrorista.

No RioCentro, em 81, terroristas do Exercito se deram mal. O artefato explodiu na cara deles, um foi embora e o outro, dia desse, foi flagrado pela TV fazendo compras num supermercado. Se o atentado desse certo, imagine a tragédia que seria. ISSO É TERRORISMO. Causar baixas em população civil, como queriam os terroristas dentro do carro Puma.

O Delegado Otavinho, descrito como um moço religioso no livro do Ustra, era do Comando de Caça aos Terroristas, participou da tortura, massacre e morte de Virgílio Gomes da Silva, da ALN, na OBAN. O Dr. Otavio foi fulminado em Copacabana. Era um terrorista, voluntário da OBAN.

Eu sei que a esquerda tem manias horriveis ate hoje, cometeu erros lamentáveis e ainda comete etc. Mas os militares nao fazem autocritica, permanecem no retrocesso conservador. Isso é prova de que nunca vão mudar. E tem uns que acham que o mundo ainda vivem na Guerra Fria.
Se permitiram a Bete Mendes apresentar um documentario para o Exercito, é porque a corporação deve ter gente disposta a injetar sangue novo lá dentro, abrir a janela pra sair o mofo podre, e tomara que as FAs mudem pelo menos um pouco, para poder afastar os fantasmas do passado que, alem de nao assumirem suas condutas, querem defender o indefensável: o ano de 1964.
Nunca Mais!

Dizem que as FAs sempre tiveram compromisso com a democracia. Que embuste! Tendo em vista as tentativas de golpe ao longo do seculo XX, confirma-se a mentira de que 64 foi uma revolução democrática. Acusam os comunistas de terroristas e assassinos, mas conspirar para impedir a posse de um presidente, como o JK na época, nao é terrorismo? Claro que é.

E outra: eu tenho o livro do Ustra. Alias, ele é uma sucessão de erros horriveis. Ele diz que James Allen Luz, da VAR, morreu num acidente de carro em outubro de 73, mas depois escreve que ele fez um assalto em dezembro do mesmo ano. Getulio de Oliveira Cabral, militante conhecido como “Gogó”, morto em 1972, aparece como sendo um dos que participaram da morte do Santo Delegado Otavinho em fevereiro de 73.

O livro do Ustra, se não me engano, é de 1986. De lá para cá, com as pesquisas que avançaram, o livro perdeu a pompa e foi desmentido totalmente. Tem pouco valor. E ainda assim é manual de cabeceira do TERNUMA. Virou um folhetim velho.
Não sou antimilitar, de jeito nenhum. Sou contra o militar teimoso e saudoso de 64, e que teima em querer pregar que as FAs devem se meter com politica nem que seja atraves de um golpe, se necessario, jogando, assim, no lixo a sua tradição profissional, para se aventurar a derrubar o poder constituido e defender uma classe. Isso sim é aventureirismo. E que acaba em desgraça.

Eu imagino o tanto que não foi roubado do povo brasileiro naquela época entre 64 e 84. Com a imprensa censurada, hein? Não há mensalão que chegue perto… O Brasil nunca foi tao desgraçado e pobre, e violentado, do que na ditadura militar. E a inflação? Foi o Sarney que pegou a bomba! Bela herança dos generais.

Obrigado, milagre econômico!

Nunca mais!

Subscrevo,

Pablo

***

Resposta de Félix Maier

Brasília, 22/02/2006

Sr. Pablo,

Inicialmente, quero agradecê-lo pela intervenção feita, em comentários a respeito de meu texto “Bete, Mentes?”. No entanto, não posso concordar com sua opinião a respeito de fatos históricos ocorridos recentemente no Brasil, de modo geral denotando ignorância pura ou má-fé extrema. Salvam-se poucas coisas nesse seu cipoal de “frases de pau”, de sotaque esquerdoso – o que é comum nestes tempos que vão da Nova República à República dos Bandidos.

Para melhor rebater suas posições e questionamentos, como diria o esquartejador, “vamos por partes”.

Não seria nem preciso dizer que os soldados de Hitler eram valentes, por certo mereceram as medalhas recebidas, assim como os soldados russos que defenderam heroicamente Stalingrado contra o cerco nazista. Normalmente, as medalhas são um reconhecimento da Força por atos heróicos ou bons serviços prestados em prol da Pátria. Não é o que acontece atualmente, quando tipos como José Genoíno e outros recebem a Medalha do Pacificador a troco de não sei o quê, pois nunca pregaram a pacificação nacional, pelo contrário, até promoveram uma guerrilha, a do Araguaia, que tinha por finalidade, não devolver a democracia “caçada” pelos militares, porém implantar outra ainda mais tenebrosa, aquela ainda hoje vigente em Cuba e na Coréia do Norte.

Os militares do Centro de Comunicação Social do Exército, sediado no “Forte Apache”, em Brasília, não estão de todo errados em “confraternizar” gravações de video tapes, digamos assim, com antigos guerrilheiros e terroristas, chamando alguns deles para gravações, como foi o caso de Bete, Mentes. E não é porque a turma hoje seja da nova guarda, de “sangue novo”, pretensamente mais democrática, como o senhor insinua. Sempre foi da índole militar pregar e praticar a anistia geral e irrestrita a revoltosos de todos os calibres, a começar pelo Duque de Caxias, que nunca humilhou seus adversários vencidos, pelo contrário, sempre conseguiu reintegrá-los à sociedade, a exemplo dos farroupilhas. Posteriormente, o Exército reintegrou antigos tenentes revoltosos da Coluna Juarez Távora (apelidada pelos comunistas de “Coluna Prestes” – como sempre, a ética, seja a petista ou a de qualquer outro grupo esquerdoso, como disse FHC, é a de “roubar” o que é direito de outros). Assim, se a “juventude militar” chamou Bete, Mentes? para uma gravação, não foi porque os atuais militares são diferentes daqueles que hoje vestem pijamas, porém provaram mais uma vez que, se dependesse deles, tudo o que ocorreu no passado já estaria totalmente esquecido. Em resumo, a anistia já estaria completamente implantada em nosso País. Infelizmente, a recíproca não é verdadeira. Observa-se, até hoje, um revanchismo cruel, sistemático e criminoso da esquerda contra as Forças Armadas que no passado tiraram o Brasil da anarquia gerada pela dupla carbonária Jango-Brizola, ao mesmo tempo em que concedem milionárias indenizações a terroristas e/ou familiares, uma vergonha nacional. Essa esquerda persegue as Forças Armadas que promoveram o maior desenvolvimento já havido em nosso País, que passou da 46ª economia para a 8ª mais rica do planeta. Lamentavelmente, muitos embusteiros, como o senhor, não conseguem ver o óbvio, por estultice ou má-fé.

Sobre integralistas, faltou o senhor se referir ao vaidoso Dom Élder Câmara, o “bispo vermelho” que trocou a camisa verde pela camisa da demagogia esquerdista, fazendo palestras mundo afora para denegrir sua própria pátria, defendendo comunas sem vergonha.

Embora a esquerda só fale em “tortura”, em “pau-de-arara”, há uma lista enorme de obras promovidas pelos militares: consolidação da nova capital, Brasília (antes, uma grande parte dos ministérios ainda se encontravam no Rio; e Jango, a reboque de Brizola, em vez de completar a mudança, ficava mais no Rio do que em Brasília, onde, em vez de governar, promovia arruaças com marinheiros insubordinados em comícios na Central do Brasil e no Clube do Automóvel), criação da Embraer, do Banco Central, de hidrelétricas monumentais (Itaipu, Sobradinho, Ilha Soleteira, Tucuruí etc.), da Usina Nuclear de Angra dos Reis, do sistema “brás” (Telebrás, Eletrobrás, Siderbrás, Portobrás etc.), da Embratel (antes, uma ligação telefônica do Rio a São Paulo, muitas vezes, levava até 2 dias para ser realizada), TV a cores (tecnologia desenvolvida por um oficial-engenheiro do IME), Ponte Rio-Niterói, metrôs do Rio e de São Paulo, de rodovias, de refinarias, do início de prospecção e produção de petróleo em águas profundas (Bacia de Campos), do Proálcool, etc. etc. etc., enfim, de toda uma infra-estrutura que fez, durante anos, o Brasil obter taxas de crescimento acima de 10% ao ano. Obviamente, nada disso informaram ao senhor na escola…

E por que foi abortado o “milagre” brasileiro? Simplesmente porque a esquerda asquerosa e nacionalisteiros burros inventaram na década de 1950 o slogam “o petróleo é nosso”, criando uma estatal, a Petrobrás, não permitindo que capitais nacionais e estrangeiros participassem da empreitada. O resultado aí está: até hoje não conseguimos a auto-suficiência em petróleo. A Argentina, que começou a explorar petróleo na mesma época, porém, não sofreu desse mal nacionalisteiro babaca, e em 5 anos passou de importador a exportador! Não fosse a burrice brasileira, até hoje exaltada por babacas de todos os matizes, desde os comunas salafrários até os milicos idiotas da atual ESG, provavelmente o Brasil teria se saído muito melhor nos dois choques violentos de petróleo ocorridos em 1973 e 1979. Não houvesse existido a burrice genuinamente brasileira, com certeza teríamos continuado a crescer dentro dos índices soberbos vistos no Governo Médici, quando era normal o Brasil crescer 13% ao ano. Esse enfoque, certamente, ainda não foi apresentado ao señor Pablo Emmanuel. Por isso escreveu tanta asnice no texto acima.

Señor Pablo: concordo que nem tudo o que os militares fizeram merece aplausos, como ocorre com qualquer governo. Nem JK agradou a todos, embora tenha sido o estadista número um do Brasil, seguido por Getúlio, Castello Branco e Médici, não necessariamente nessa ordem. No período militar, bons foram Castello e Médici; Costa e Silva foi medíocre; Geisel foi uma espécie de Lula fardado e sem barba, preferia ser o primeiro dos últimos (movimento dos “Não-alinhados”, à moda de Násser) em vez de tentar ser o último dos primeiros, o que seria mil vezes melhor para o Brasil; e Figueiredo um desastre geral. Aliás, o Governo Figueiredo acabou no exato momento em que explodiu a bomba no Rio Centro: em vez de mandar apurar seriamente o que houve, acobertou o crime mediante um IPM que foi uma farsa de tal tamanho que merece ir para o livro do Guinness. O coronel que inicialmente foi designado para presidir o IPM foi afastado por não aceitar o embuste proposto pela cúpula governamental. É a única coisa que concordo plenamente com o senhor, o episódio do Rio Centro foi um ato criminoso, perpetrado por militares que não aceitavam a “abertura, lenta e gradual” iniciada por Geisel. Só achei ridículo o senhor criticar que o oficial que quase também foi explodido naquele desastroso “acidente de trabalho” ocorrido no Puma não tenha o direito de ir a um supermercado. Para o señor Pablo os antigos terroristas de esquerda podem ser ministros (Aloysio Nunes “Ronald Biggs” Ferreira), parlamentares (José Genoíno), governadores, juízes, prefeitos etc. Os terroristas de outra mão (que não a inglesa) não têm sequer o direito de ir a um supermercado. Idiota, vá lá, porém não seja ridículo, Sr. Pablo!

Quanto aos possíveis erros cometidos pelo coronel Ustra em seu livro “Rompendo o Silêncio”, penso que, se houve, não foram feitos de má-fé. Elio Gaspari cometeu erros graves em sua trilogia “Ditadura”, não sei se de propósito, se de má-fé. Vários autores de esquerda também cometeram equívocos, propositados ou não. Porém, tenho uma certeza: acredito muito mais no que um coronel Ustra diz do que em mil Bete, Mentes?, uma antiga terrorista, depois deputada petista que, como todo esquerdista, nunca teve qualquer compromisso com a verdade. Aliás, em célebres citações Lênin diz que “a verdade é um preconceito pequeno-burguês” e “os fins justificam os meios”. É preciso dizer mais?

E para finalizar, señor Emmanuel, o movimento de 1964 não foi um ato terrorista, como o senhor afirma, demonstrando mais uma vez uma ignorância soberba ou uma má-fé sem limites. Foi um movimento democrático, alicerçado em entidades civis (IPES, CAMDE), que levaram multidões às ruas para exigir dos militares o fim da baderna da dupla maragata Jango-Brizola. Será que, para o senhor, somente meia dúzia de caras-pintadas é que tem o direito de ser a “voz rouca das ruas”, como no caso Collor? É só o senhor ir a uma biblioteca e ver os jornais da época, para comprovar que milhares de pessoas fizeram várias passeatas, uma chegou a 1 milhão de pessoas no Rio de Janeiro para agradecer os militares que desencadearam o movimento. Editoriais de vários jornais exigiam o fim da babúrdia, não só o do Roberto Marinho, é só o senhor conferir. O movimento foi vitorioso, os comunas foram presos ou fugiram, e, legalmente, foi constituído o governo Castello Branco, a quem JK deu seu voto. Foi legal, sim, senhor Pablo, assim como foram legais as revoluções russas e cubana, reconhecidas por todos os governos. Ou será que o senhor também nunca leu nossa constituição que diz que as Forças Armadas tem as prerrogativas de garantir a lei e a ordem, além dos poderes constituídos? Porém, se os governantes, como foi o caso de Jango, não têm nenhum compromisso com a paz social, nem com as leis em vigor, pelo contrário, permitem que baderneiros de esquerda promovam a subversão da ordem constituída, as Forças Armadas têm, sim, o poder de interferir e exigir que as leis sejam respeitadas. Nem por nada que a esquerda que participou da última Constituinte quis tirar tal prerrogativa das Forças Armadas, graças a Deus sem sucesso.

Quanto ao pretenso golpe contra JK, é bom lembrar que houve um ridículo “putsch” de oficiais da FAB, logo debelado pelo Exército, e seus integrantes anistiados pelo presidente. Quem queria impedir a posse de JK não eram os militares, porém políticos da UDN, especialmente o carbonário de direita chamado Carlos Lacerda. O general Lott, então ministro da Guerra, garantiu a posse de JK, embora tenha caído no canto da sereia populista e esquerdista, recebendo a famigerada “espada de ouro”, transformando-se posteriormente, durante o governo de João Goulart, num ridículo e prosaico “general do povo”. Coisas do Brasil.

O movimento de 64, melhor seria chamá-lo de “Contra-revolução de 1964”, pois já havia um processo revolucionário em andamento no Brasil, com ingerência soviética e cubana. Claro, o senhor mais uma vez vai dizer que nunca ouviu falar dos “Folhetos cubanos”, de armas contrabandeadas de Cuba para o Brasil, das “Ligas Camponesas” de Francisco Julião, nem que o traidor Luiz Carlos Prestes disse em Moscou, junto a seus chefes do Komintern, em janeiro de 1964, que “os comunistas já estão no governo, só falta tomar o poder”. A cartilha em que o senhor estudou eu sei qual é: é aquela escrita pela canalha comunista. Deixa de ser embusteiro, señor Emmanuel!

Com os protestos de

Félix Maier
Capitão QAO do Exército (Reserva), escritor e articulista de Mídia Sem Máscara.

***

De: Pablo Emmanuel
Enviado: quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006 00:01:01
Para: Félix Maier
Assunto: Re: Bete Mendes e outras coisas

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OLÁ CAPITÃO

ACABO DE RECEBER SUA MENSAGEM DE CONTRA-ATAQUE. TUDO BEM, LI COM RESPEITO TUDO O QUE O SENHOR ME DISSE.

AGORA DEIXE-ME DIZER SÓ UMA COISA, POIS NAO VOU ME ALONGAR MAIS EM CONVERSA NENHUMA PORQUE NUNCA NÓS NOS ENTENDEREMOS:

AS FORÇAS ARMADAS SÃO MUITO IMPORTANTES PARA O BRASIL, E É PRECISO QUE ELAS SAIBAM QUE OS COMUNISTAS NÃO SÃO INIMIGOS DO PAÍS NEM DOS MILITARES.

OS COMUNISTAS, PELO MENOS AQUELES QUE SÃO MAIS HONESTOS (PORQUE NA ESQUERDA HÁ SIM, CRÁPULAS TAMBEM) AMAM O PAÍS ASSIM COMO VCS, E LUTARIAM AO LADO DE VCS CASO A SOBERANIA FOSSE AMEAÇADA (VEJA O CASO DA AMAZONIA).

O ÓDIO QUE VCS TEM POR NÓS VEM DESDE 1935, COM O FRACASSO DA QUARTELADA DO PRESTES, ORIENTADO POR MOSCOU. SABEMOS QUE AQUILO FOI UM ERRO E OS COMUNISTAS ADMITEM ISSO. MAS ACREDITO QUE O ÓDIO QUE VCS TEM PELA ESQUERDA É ALGO QUE ME PARECE INCURÁVEL.

SAÚDE PARA O CAPITÃO E PARA O SENHOR USTRA

SUBSCREVO

PABLO

***

Resposta, em 23/02/2006, de Félix à tréplica do señor Pablito:

Tem razão, señor Pablo, quando diz que “o ódio que vcs têm pela esquerda é algo que me parece incurável”. Simplesmente, não se pode compactuar com o cérbero totalitário formado pelas bocarras do comunismo, do nazismo e do fascismo. Combater esse monstro horrendo é apenas defender a dignidade humana.

 

COMO TRABALHAR A POESIA EM SALA DE AULA – por luciana claudia de castro olímpio

 

“A poesia sensibiliza qualquer ser humano. É a fala da alma, do sentimento. E precisa ser cultivada.”

Afonso Romano de Sant’AnnaMesmo sabendo da importância da poesia na vida dos seres humanos como mostra acima Afonso Romano, muitas escolas esqueceram-na, principalmente nas séries iniciais, dando mais espaços, entre aspas, para coisas mais importantes e mais sérias, como também para textos em prosa, privando os alunos dessa “experiência inigualável”, conforme caracteriza Maria Helena Zancan Frantz (1998, p. 80)

Neste artigo, enfatiza-se a necessidade de educadores, principalmente nas séries inicias, pois o aluno só cria hábito se for iniciada desde muito cedo, trabalharem com poesia na sala de aula ou fora dela.

O objetivo não é transformar os discentes em grandes escritores de poemas, até porque se precisa ter dom para esta arte, mas sim transformá-los em leitores aptos a interpretar e compreender o que o poeta quis transmitir em meio aos versos, além de propor que os educandos não percam a poesia que nasce neles desde quando as mães cantavam cantigas de ninar para que dormissem e depois quando brincavam de cantigas de roda, adivinhas, trava línguas etc.

Com esse objetivo, proponho alternativas de trabalhos com poesia e didáticas para implantação tanto no Ensino Fundamental como para o Ensino Médio baseadas nas idéias dos escritores relacionados no parágrafo abaixo.

Vários autores vêm pesquisando as questões da leitura e de trabalhos de poesias em sala de aula como Pinheiro (2002), Micheletti (2001), Frantz (1997), Cunha (1986) e investigam as dificuldades que os alunos possuem de interpretar estes textos, não só pela falta do conhecimento prévio, mas também pelo pouco contato que eles têm com a poesia.

Metodologia
Atualmente, a prática da leitura de poesia está um pouco esquecida nas escolas. Isso ocorre devido ao pouco contato, desde os primórdios de sua formação, dos educadores de Língua Materna.

“Está claro que a personalidade do professor e particularmente, seus hábitos de leitura são importantíssimos para desenvolver os interesses e hábitos de leitura nas crianças, sua própria educação também contribui de forma essencial para a influência que ele exerce.” (Banberger, 1986)

Sem trair o escritor estudado, posso afirmar que se o professor não tiver um hábito de ler poemas e não se sensibilizar ao ler uma poesia, dificilmente conseguirá despertar esse interesse em seus alunos como afirma Cunha (1986, p. 95):

“… se o professor não se sensibilizar com o poema, dificilmente conseguirá emocionar seus alunos.”

Sabidos de que a poesia é um dos gêneros literários mais distantes da sala de aula, é preciso descobrir formas de familiarizar e de aproximar as crianças e os jovens da poesia. E essa forma de familiarização e aproximação deve ser feita com parcimônia e através de um planejamento para evitar as várias afirmações de que os poemas são de difíceis interpretações e entendimento.

Pinheiro (2002, p.23) afirma que “… a leitura do texto poético tem peculiaridades e carece, portanto, de mais cuidados do que o texto me prosa.”

Assim a poesia não é de difícil interpretação, apenas necessita de mais cuidado e atenção para que ocorra um entendimento da mesma. A aprendizagem da interpretação da poesia compreende o desenvolvimento de coordenar conhecimentos dos vários sentidos que um texto poético proporciona.

Uma forma para melhorar a aprendizagem é a aproximação constante da poesia, como também a utilização do conhecimento prévio. O conhecimento prévio engloba o conhecimento lingüístico, que abrange desde o conhecimento sobre pronunciar o português, passando pelo conhecimento de vocabulário e regras da língua, chegando até o conhecimento sobre o uso da língua. O conhecimento do texto, que se refere às noções e conceitos sobre o texto, e, por último, o conhecimento de mundo, que é adquirido informalmente através das experiências, do convívio numa sociedade, cuja ativação, no momento oportuno, é também essencial à compreensão de um poema.

Se estes conhecimentos não forem respeitados, o entendimento e a compreensão do poema podem ficar prejudicados, e assim, como foi dito anteriormente, de difícil interpretação.

Como exemplo do que foi exposto no parágrafo anterior, coloco excerto do poema “Balada do amor através das idades”, de Carlos Drummond de Andrade (Cinco Estrelas, 2001, p. 26).

“Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.
Eu era grego, você troiana
Troiana mas não Helena.
Saí do cavalo de pau
Para matar seu irmão.
Matei, brigamos, morremos.

(…)

Mas depois de mil peripécias,
Eu, herói da Paramount,
Te abraço, beijo e casamos.

A compreensão do poema acima pode ficar comprometida se o leitor não tiver um dos conhecimentos acima citado. A poesia de Drummond exige do discente um bom conhecimento de mundo e da história para que ele entenda a poesia, pois nela é citado, de certa forma, a Guerra de Tróia, os costumes romanos como também expõe o nome de um dos mais poderosos estúdios de Hollywood, dando referência aos finais felizes dos filmes.

Para amenizar os problemas do distanciamento, de interpretação e de compreensão poética, é necessário que o professor compreenda que o ato de interpretar um poesia não pode ficar restrito a sua forma de apresentação sobre uma página, ou seja, como ocorre a disposição das palavras, dos versos, das rimas e das estrofes, e nem somente pelos questionamentos apresentados nas atividades de interpretação propostas pelos livros didáticos, pois as perguntas são impressionistas. Assim afirma Micheletti (2001, p. 22):

“Freqüentemente a interpretação textual dadas nos livros e materiais afins tem um caráter ‘impressionista’, ou seja, o autor das questões propostas ou dos comentários, registram as suas intuições, as suas impressões sobre o texto.”

É necessário ressaltar que o professor deve partir de uma leitura poética do mundo, fazendo da poesia motivo de apreciação lúdica e de motivação para a produção de intertextualidade ( relação existente entre textos diversos, da mesma natureza ou de naturezas diferentes e entre o texto e contexto) e de muitas outras formas de criar com seriedade, mas brincando com palavras.

Segundo Elias José (2003, p. 11) , “vivemos rodeados de poesia”, ou seja, poesia é tudo que nos cerca e que nos emociona quando tocamos, ouvimos ou provamos, poesia é a nossa inspiração para viver a vida.

Conforme Elias José (2003, p. 101), “ser poeta é um dom que exige talento especial. Brincar de poesia é uma possibilidade aberta a todos.”. Então, se todos podemos brincar de poesia, por que não trabalharmos a poesia de forma lúdica? Assim proponho atividades que oportunizem momentos lúdicos aos alunos, tendo em vista exercícios de imaginação, de fantasia e de criatividade e ao mesmo tempo mostrar a vida de uma forma mais poética, com maior liberdade para construir seu conhecimento.

Todas as estratégias capazes de aguçar a sensibilidade da criança e do adolescente para a poesia são válidas. É interessante para isso, que a poesia seja freqüentemente trabalhada para que ocorra um interesse por ela.

Um dos processos para o educador iniciar este trabalho, é ele fazer uma sondagem para descobrir os temas de maior interesse dos alunos, proporcionando uma maior participação. Este levantamento pode ser de forma direta, através de pequenas fichas ou ouvindo e anotando as temáticas preferidas dos alunos. Outro método é descobrir os filmes, os programas de rádios e de televisão que mais gostam. Isso é necessário para o professor saber que tipo de poesia pode levar para a sala de aula. Vale ressaltar que cada sala tem um gosto diferente. No entanto não se pode prender-se somente aos temas escolhidos pelos discentes. A variedade e a novidade também são métodos eficazes para a aprendizagem.

Faz-se necessário, antes de iniciar as atividades poéticas, preparar um ambiente adequado, principalmente nas séries iniciais, para que os alunos sintam-se a vontade para recitar e interpretar os textos poéticos. Além de uma biblioteca agradável, ventilada, espaçosa e com um acervo bem variado para que os estudantes possam escolher livremente na prateleira o livro que quiser.

Trabalhar com poesia em pares é muito interessante. Este trabalho é realizado de duas maneiras: primeiro, através da leitura da poesia, depois são propostas as atividades interpretativas, nada de questões objetivas, já que cada pessoa interpreta um texto de forma diferente, mas de maneira coerente.As duplas conversam sobre o texto, analisam as possibilidades possíveis e escrevem o que foi apreendido.

É através das diferenças individuais que a troca de experiências vai sendo edificada, como também a partir da reflexão e da construção social do conhecimento sustentada pela interação dos indivíduos envolvidos. Essa interação entre os sujeitos é fundamental para o desenvolvimento pessoal e social, pois ela busca transformar a realidade de cada sujeito, mediante um sistema de trocas.

É proveitoso ressaltar também que construir um cantinho para fixar vários tipos de poesia é um método eficaz para o incentivo da leitura e interpretação poética, pois quanto mais se lê, mais se aprende e cria o hábito da leitura não só de poesia como de outros tipos de textos. Pinheiro (2002, p. 26) afirma que:

“Improvisar um mural, onde os alunos, durante uma semana, um mês, ou o ano todo colocam os versos de que mais gostam (…) de qualquer época ou autor, são procedimentos que vão criando um ambiente (…) em que o prazer de lê-la passa a tomar forma.”

Não satisfeita ainda com as metodologias apresentadas, proponho mais alguns métodos que são incentivadores para a prática da leitura de poesia, como o momento poético, a poesia e as datas comemorativas e a apresentação da poesia em forma de dança, desenho ou interpretação teatral.

 

O primeiro, momento poético, é um artifício aplicado em sala de aula, em que os estudantes, dispostos de forma bem a vontade, sentados no chão ou em almofadões, se a escola possuir, uma música suave ao fundo, recitam poesias de preferência pessoal, ligadas, de preferência ao momento literário estudado, buscando, junto aos colegas, descobrir a mensagem transmitida pelo autor da poesia. O segundo, a poesia e as datas comemorativas, apesar de ser bastante criticada, também é uma forma proveitosa de aprender a gostar e interpretar a poesia. Como é o caso do dia 07 de Setembro em que os brasileiros mostram seu patriotismo comemorando a independência do Brasil. O mestre pode trabalhar a poesia de Gonçalves Dias, “Canção do Exílio” , fazendo primeiramente uma leitura crítica, levando os discentes a observar a poesia e fazer um paralelo da época em que a canção foi feita e se a terra natal (Brasil) hoje é tão perfeita como apresenta Gonçalves Dias em sua poesia.Trabalhar a poesia ligada as datas comemorativas só se torna enfadonho, pouco proveitoso, sem criatividade e método empobrecido, quando a poesia só é lembrada nestas datas.

O último método citado neste artigo, é a apresentação da poesia em forma de dança, desenho ou interpretação teatral. Um exemplo do primeiro, a dança pode ser representada pela poesia “A Bailarina”, de Cecília Meireles, em que as crianças ou adolescentes podem formar um grupo de dança, todas vestidas de bailarina, para interpretar corporalmente a poesia abaixo que deve ser recitada por um outro estudante. Não é obrigatório o professor trabalhar com esta poesia, ela pode ser substituída por outra, tudo depende do docente ou dos alunos.

“Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Não conhece nem dó nem ré
Mas sabe ficar na ponta do pé.

Não conhece nem mi nem fá
Mas inclina o corpo para cá e para lá.

Não conhece nem lá nem si
Mas fecha os olhos e sorrir.

Roda, roda, roda com os bracinhos no ar
E nem fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu
E diz que caiu do céu.

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças,
E também quer dormir como as outras crianças.

No caso do desenho, ótimo método para se trabalhar tanto nas aulas de Língua Portuguesa como nas de Artes. Os alunos em grupo tentam interpretar a poesia lida através do desenho, para depois apresentar aos colegas de sala para também ser analisada por eles. Depois os desenhos podem ser colocados ao lado da poesia referente a cada um e exposto em um mural em toda a escola ou só na sala de aula.

O “Soneto”, de Álvares de Azevedo, pode ser um exemplo para ser apresentado em forma de teatro lido. O narrador representa o eu lírico, lendo a poesia enquanto uma aluna representa a mulher recitada nos versos.

“ Pálida, à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar! Na escuma fria.
Pela maré das águas embaladas,
Era um anjo entre nuvens d’alvorada
Que em sonhos se balançava e se esquecia!

Era mais bela! O seio palpitando…
Negros olhos as pálpebras abrindo…
Formas nuas no leito resvalando…

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti – as noites eu velei chorando;
Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!”

Estas aulas anteriormente citadas são bem lúdicas. Os alunos aprendem em grupo, de forma bem participativa, a interpretar e compreender as poesias tendo contato com as idéias dos amigos de sala.

As poesias também podem ser trabalhadas como ajuda para produções de textos, como é o caso das poesias de Manuel Bandeira, grande escritor do Modernismo brasileiro, “O Bicho” ( retrata a desigualdade social), “O Poema tirado de uma notícia de jornal (incentiva a produção de uma narração relatando o cotidiano humilde das pessoas desprestigiadas socialmente) e para finalizar, tem-se “Irene Preta” (retrata o preconceito racial).

Este trabalho exige que o aluno descubra qual o tema apresentado na poesia, para depois escrever, de acordo com o gênero exigido, o texto.

A poesia pode ser trabalhada não só nas aulas de Língua Portuguesa, mas também nas aulas de História, Geografia e outras como é o caso da poesia “A Rosa de Hiroxima”, de Vinícius de Moraes, que retrata o triste acontecimento da explosão da bomba atômica em Hiroxima.

“Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor, sem perfume
Sem rosa sem nada
Esta poesia, como foi dito acima, pode ser trabalhada numa aula de história, que o professor, através dos versos, pode explicar todo o conteúdo desse aterrorizante acontecimento. Pode explicar, por exemplo, por que o poema se chama A Rosa de Hiroxima, como também explicar que os escritores modernistas transplantavam o momento vivido para as poesias, como é o caso de Vinícius.

Conclusão

Os professores devem trabalhar poesias e textos poéticos com seus alunos pois estes vêm sendo indicados como um dos meios mais eficazes para o desenvolvimento das habilidades de percepção sensorial da criança e do adolescente, do senso estético e de suas competências leitoras e, conseqüentemente, simbólicas.

A interação com a poesia é uma das responsáveis pelo desenvolvimento pleno da capacidade lingüística da criança e do adolescente, através do acesso e da familiaridade com a linguagem conotativa, e refinamento da sensibilidade para a compreensão de si própria e do mundo, o que faz deste tipo de linguagem uma ponte imprescindível entre o indivíduo e a vida.

Referências Bibliográficas
AMARAL, Emília; ANTÔNIO, Severino; FERREIRA, Mauro; LEITE, Ricardo. Novas Palavras: Literatura Gramática, Redação e Leitura. São Paulo: FTD, 1997 – Coleção Novas Palavras, V.2, p. 60.
CUNHA, Maria Antonieta Antunes. Literatura Infantil: Teoria & Prática. 5ª ed. São Paulo: Ática, 1986.
FRANTZ, Maria Helena Zancan. O Ensino da Literatura nas séries iniciais. 2ª ed. Ijuí: Unijuí, 1997.
JOSÉ, Elias. A poesia pede passagem: um guia para levar a poesia às escolas. São Paulo: Paulus, 2003.
In: MACHADO, Ana Maria. Cinco estrelas. Literatura em minha casa. V.1. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
In: MICHELETTI, Guaraciaba (Coord.) Leitura e Construção do real: o lugar da poesia e da ficção. 2ª ed. São Paulo: Cortez, 2001. (coleção aprender e ensinar com textos, v. 4)
In: PINHEIRO, Helder; BANBERGER, Richard. Poesia na sala de aula. 2ª ed., João Pessoa: Idéia, 2002.

Meio ambiente: A CONTA QUE NÃO FOI FEITA – por joão suassuna

Na defesa do desenvolvimento a todo o custo, o governo federal já se engasgou com a espinha de um bagre do rio Madeira e se atolou na lama dos seus sedimentos. Enquanto isso, o país segue na rota da escuridão.

Quando não se quer que um determinado assunto prospere, ou quando os resultados de uma discussão não satisfazem as expectativas da sociedade brasileira, criam-se comissões. No nosso cotidiano, são vários os exemplos que mostram essa realidade e, não raro, têm envergonhado o povo brasileiro.

Quem não lembra das ações da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) criada para investigar o mensalão e que acabaram não chegando aos resultados esperados pela nação? A grande maioria dos envolvidos naquele caso foi inocentada e, o que é pior, continua legislando.

Agora, estamos diante da criação do Instituto Chico Mendes de conservação da biodiversidade, dentro do próprio Ibama, órgão que atuará no licenciamento ambiental dos projetos de hidrelétricas na região amazônica. Idealizado pela ministra Marina Silva para satisfazer as exigências do governo federal, quanto ao licenciamento ambiental das obras contidas no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), esse instituto já está sendo alvo de severas críticas, por ser considerado desnecessário, tendo em vista a sua atuação ir de encontro às ações que são de responsabilidade do próprio corpo técnico do Ibama. Esta ambigüidade de ações resultou em uma greve de grandes proporções no órgão.

A criação do instituto está parecendo um ato cujos resultados tendem a ser inócuos.Se essa moda pega, é de se supor que para o tratamento de assuntos relacionados à desertificação do Nordeste, o Ibama seja orientado a criar o Instituto Vasconcelos Sobrinho (ecólogo pernambucano que primeiro denunciou a formação de desertos no Nordeste), cujo desempenho também será duvidoso.

Na nossa ótica, o corpo técnico do Ibama tem toda a razão de estar desgostoso com a instituição, tendo em vista que há competência técnica interna para assumir e dar conta das questões ambientais do país, sem a necessidade de serem criados esses apêndices. Afirmo isso por experiência própria, pois iniciei a carreira profissional no órgão, em meados da década de 70, quando ele ainda era denominado Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF). Recordo do interesse e da preocupação da instituição em capacitar seus técnicos, levando sempre em consideração o binômio desenvolvimento versus custo ecológico.

Faz sentido colocarmos aqui essas questões, tendo em vista o atual dilema vivenciado pelo Ministério do Meio Ambiente na implementação do PAC: proporcionar o desenvolvimento do país com o menor custo ecológico possível. 

O fato preocupante é que o Ibama é um órgão de governo e, como tal, deve cumprir a lei e não a vontade do chefe da nação.

Militante nas questões ambientais há muitos anos, a ministra Marina vive momentos difíceis em sua pasta, principalmente ao defender a transposição do rio São Francisco – projeto que consta do PAC -, ao julgar suas ações ambientalmente seguras. Mas como conceder o licenciamento ambiental a um projeto polêmico, tecnicamente deficiente e ambientalmente impactante, sem que o mesmo seja precedido de uma ampla e profunda discussão junto a sociedade? E não é o único caso. As hidrelétricas do rio Madeira que irão alagar uma extensa área com rica biodiversidade na região amazônica quando prontas são outro bom exemplo que precisa ser discutido com a participação da sociedade.

A ministra já deu depoimentos favoráveis ao projeto da transposição, por entender que o mesmo não apresenta problemas técnicos, sendo, portanto, ambientalmente seguro. Ora, como acreditar na excelência técnica de um projeto demasiadamente caro, quando o rio a ser transposto já deu sinais de debilidade hídrica no ano de 2001, obrigando o governo federal a proceder ao racionamento de energia? Caso já existisse o projeto naquele ano, como ficaria a população que seria abastecida com as águas do Velho Chico, cujos volumes já eram insuficientes para garantir a geração e o pronto atendimento da demanda energética dos nordestinos? Nesse cenário, será que a ministra acredita piamente que esse rio tenha condições de abastecer 12 milhões de pessoas na região setentrional nordestina, sem antes pôr em risco todos os investimentos havidos ao longo da sua bacia?

A prioridade de uso das águas do São Francisco para o abastecimento humano é um assunto que merece reflexão. Entendemos que o maior opositor do projeto de transposição é o próprio governo federal, ao editar recentemente, pela Agência Nacional de Águas (ANA), o Atlas Nordeste de abastecimento urbano. Esse tabalho mostra que é possível abastecer, com as águas que já existem na região, um número três vezes maior de pessoas, com a metade dos recursos previstos no projeto da transposição. Ou seja, até o ano de 2010 serão gastos na transposição R$ 6,6 bilhões para o abastecimento de 12 milhões de pessoas, período no qual se prevê, no Atlas, que seria possível, com um gasto de R$ 3,3 bilhões, beneficiar cerca de 34 milhões de pessoas. Com essa informação, é de se supor que o problema de nossas autoridades passa, também, por deficiência matemática. 

Exemplos como esses têm se mostrado constantes no nosso cotidiano, o que torna cada vez mais evidente a assertiva de que a vontade política está sempre acima das possibilidades técnicas de se realizar as ações de desenvolvimento no país. O governo Lula não pode abrir mão da importância de se discutir essas questões junto ao setor técnico, valendo-se inclusive da participação da sociedade como um todo, sob pena de estar pondo em risco a governabilidade do país. 

É preciso entender, antes de tudo, que uma hidrelétrica construída na bacia do rio Madeira ou em qualquer outra bacia da região norte, por estar localizada numa área de planície, estará sempre sujeita a fortes inundações, com claras interferências no ecossistema. a pergunta que fica no ar é a seguinte: como atuar nessas áreas que afetarão o país e a vizinha Bolívia, mantendo-se a sustentabilidade ambiental local, com baixo custo ecológico, evitando a extinção de espécies de animais e plantas e tratando adequadamente os sedimentos acumulados no interior das represas?

Essas questões são pedras no sapato do governo federal, ao ponto dele ter se engasgado recentemente com a espinha de um bagre do Madeira e se atolado na lama dos seus sedimentos. Neste contexto o país segue na rota da escuridão, e já se comenta a possibilidade da construção de usinas termonucleares como alternativa para minimizar o problema elétrico que se avizinha.                    

Finalmente, entendemos que não pode haver desenvolvimento sem custo ecológico, por menor que seja. a participação técnica nestes casos se mostra importantíssima, pois cabe a ele, técnico, envidar esforços no sentido de minimizar tanto quanto possível esses problemas. essa é a nossa função. portanto vamos à luta.

João Suassuna é engenheiro agrônomo, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco e um dos maiores especialistas na questão hídrica nordestina.

DEDIC’AÇÃO! – por ademário da silva

Dedic’ação!

Crônicas, poesias, contos e romances, estudos e teses; toda história e a geografia, a ciência e a astronomia não surgem por encanto ou magia em cérebros privilegiados ou escolhidos. Aliás, nem nos cérebros mediúnicos, porquanto estes devem, porque a proteção e a solidariedade espiritual exigem, serem ricos mananciais de cultura geral, que propiciem aos amigos espirituais, condições adequadas à realização dos seus trabalhos. Em o Livro dos Médiuns, Kardec não deixa dúvidas quanto ao papel dos médiuns, no que tange as sua obrigações e qualidades, se quiserem abrigar em suas relações medianímicas, espíritos de maior esclarecimento, e veicular as idéias e pensamentos dos mesmos, requer vocabulário, conhecimento, discernimento, senso crítico e disponibilidade de tempo, emoção, idealismo e atitude. Porque a função básica do médium todos nós conhecemos é ser instrumento; e instrumento que  se preza deve estar sempre bem afiado, limpo, em condições plenas de uso.
Ou seja, o médium precisa dedicar tempo, ação e atitude ao seu compromisso e principalmente à oportunidade recebida.
Procurar na verdade tomar consciência de que: escritores, poetas, cientistas, compositores, letristas, artistas, atletas e todos aqueles que se dispõe a criar, fazer, realizar algo em todos os seguimentos das atividades humanas, o primeiro sacrifício que fazem é o da ilusão de que um acidente cósmico pode de repente trazer a solução.
A transpir’ação é caminho mais árduo que os realizadores percorrem no sentido da vitória sobre si mesmo. Primeiro por que sabem que sem suor e sacrifício o trabalho não sai dos sonhos. E sonho que não se realiza é como noite mal dormida que só traz pesadelos e insatisfações. Nós temos que saber que a riqueza das idéias e raciocínios está na intimidade da inteligência que só se desenvolve se posta em prática. Que o encanto e a profundidade de poesias e contos, romances e teses, mora no conhecimento que se busca das palavras, suas raízes e combinações. Por que são com estes instrumentos que se desenvolvem os nossos pensamentos e a nossa capacidade de compreensão, entendimento, apreensão e assimilação de estudos e informações que se nos chegam, ou que vamos em busca.
Essa conquista exige que realmente procuremos transgredir alguns condicionamentos humanos, tais como: a noite foi feita para dormir; se acreditamos na imortalidade e na vida do espírito após  morte do corpo, podemos sim usar pelo menos parte das horas noturnas para aprender e criar. Aliás, o talento nasce da inteligência madura e rica de quem ao trabalho se dedica. Tem um detalhe, se podemos caracterizá-lo assim, o trabalho mediúnico, intuitivo, de inspiração e os de estudo e pesquisas, se realizados por disciplina, depois que o povo dorme, ganha as benesses de convivências amigas, o desfraldar de cortinas fluídicas nos braços da harmonia que só silêncio propicia. Por que é no silêncio que ouvimos a voz da consciência que se faz muda na turbulência dos dias. Que sentimos uma brisa suave que emana de mentalidades fraternas, que põem lanternas em nosso modo de pensar e sentir. Que ampliam-nos o raciocínio e dilatam-nos a inteligência, fazendo-nos perceber que obstáculos e dificuldades são embaraços temporários, que só pedem paciência, esforço e dedic’ação!
E na verdade é o monge quem cria o hábito!
O médium precisa de estudos, disciplina e atitude
O espírito precisa de nossas palavras, compromisso e
Amplitudes sensoriais!
Para que juntos teçamos nossas relações, concluamos realizações e
Consigamos descobrir os caminhos siderais!

O VITRAL – por zuleika dos reis

“Depois da fissura permanecem as árvores, os rios, os animais, as nuvens brancas no azul sem rugas. Nada parece mais velho, justamente agora que o tempo existe. Também o mar se encapelava, havia relâmpagos azuis, as árvores se descarnavam, os animais fugiam dos grandes e vorazes quando o tempo, como os homens o aprenderam, ainda não existia. Nada parece mais velho”.

                   “Quando o paraíso deixou de existir, foi quase impossível notar seu eclipse porque o ser já estava semiconsciente de si desde os primórdios, ainda antes da grande ausência, já no pré-inaugurado mundo. No pensamento recém-vindo, entre as palavras-criança, grandes hiatos de silêncio onde a inocência ainda podia respirar, viver. Era tarde para o paraíso, cedo para a queda, quando o desejo do fruto surgiu e também a árvore do fruto. Mas, quando a  árvore do fruto e o fruto surgiram plenamente diante dos olhos, Adão e Eva já há muito haviam acordado para a insaciabilidade e a dor. O desejo de saber já era conhecimento, já era conhecimento e perda aquele primeiro olhar um para o outro antes, demasiado antes da presença da árvore do fruto, e do fruto. A fissura não foi o primeiro gesto gerador do tempo  nos homens. Quando da fissura, os muitos já se achavam espalhados por entre as diversas criaturas, e as diversas criaturas já eram servas. Quando da fissura, o corpo já há muito era um sobressalto, já haviam surgido as primeiras perguntas,  Narciso já perdera seu rosto nas águas, assim como os deuses primevos já haviam esquecido totalmente suas próprias origens e suas próprias hipóteses”.

                                                                                                     

 

                   As mãos tremem ligeiramente sobre o imemorial pergaminho ao mesmo tempo em que o vulto lá fora, iluminado pelo vitral, se dissolve na luz da manhã. Os olhos, no rosto talhado em pedra, musgo e neve, ainda presos ao texto, nada traem nem trairão do segredo, enquanto lá fora o apenas mundo permanece, em sua invisibilidade.

                    

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