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A INTUIÇÃO e a INSPIRAÇÃO por ademário da silva

 

 

A intuição é o atributo do espírito, enquanto potencial adquirido ao longo das experiências milenares realizadas nas mais variadas dimensões existenciais. É o que permite essa troca de impressões, informações e práticas singulares, no cotidiano das relações imortais, que não acontecem apenas na faixa das percepções mediúnicas, mas, se manifesta também enquanto “voz da consciência”, no campo das nossas preocupações espirituais.

 

A intuição é o resultado das nossas aquisições sensitivas, que pode e é perfeitamente utilizada por nossos protetores e amigos espirituais, no prisma de relações fraternas que a interação existencial nos permite, segundo a faixa das nossas próprias vibrações morais. O que nos põe em alerta quanto aos cuidados com os nossos próprios pensamentos. Então o que inadvertidamente classificamos de “presença de espírito” em circunstâncias significativas da nossa vida, são na verdade o resultado dessas trocas mentais realizadas por nós, mesmo inconscientemente.

 

Trocas mentais neste caso significa visitas instantâneas (insights) nos escaninhos mais profundos da consciência, numa velocidade imperceptível aos sensores físicos, por isso não há registro consignado de ida e volta, do tipo viagem ao litoral e volta programada.

 

Não podemos e nem devemos confundir intuição com inspiração. São dois fenômenos distintos entre si. Como toda modalidade mediúnica tem por base a telepatia, enquanto recurso de comunicação, nos fenômenos de intuição e inspiração o pensamento também é o veículo principal de acesso as informações colhidas em âmbito mediúnico e anímico.

 

Na inspiração a moldura mediúnica está na razão de que o pensamento não nos pertence. E para reconhecer essa condição basta verificarmos e analisar nosso modo de pensar diário, vocabulário, modo de expressão mental, maior ou menor capacidade de exposição redativa, estilo de enfoque e de enquadramento da exposição oral ou escrita e assim por diante… Na verdade a fonte de inspiração é o éter universal, que se encontra permanentemente impregnado dos pensamentos dos espíritos superiores e também dos inferiores. O que se nos exige cuidado com as próprias vibrações e emanações mentais. A Doutrina Espírita afirma que o espírito sopra onde, e como toda ação gera uma reação, ele também recolhe onde quer. Ou seja, onde está seu coração, aí está o seu tesouro, nas vias saudáveis ou insalubres da afinidade.

 

A intuição se configura qual talento adquirido nos véus dos tempos vividos. De conformidade com a capacidade que se alcança de emancipação da própria alma, mais facilidade se encontra pra recolher da própria palma, pedras polidas ou puídas, preciosas ou enganosas no garimpo nas jazidas interiores, que cada um de nós carrega no torço da própria responsabilidade espiritual.

 

Em ambos os casos a mediunidade enquanto alça da caridade universal tem peso específico e distinto. Na inspiração a afinidade moral como que determina a subjetividade das relações do médium com os espíritos, dificultando inclusive o discernimento sobre o que pertence a cada um. Na intuição a ação dos desencarnados se limita a circunstâncias e injunções momentâneas, por quanto o ser encarnado mesmo sendo médium tem maior liberdade de escanear a memória de experiências já vividas por ele, em tempos, condições, culturas, religiões e países e idiomas os mais diversos, como que criando imagens e ambiências que facilitem ao intuitivo, encontrar o objeto de suas buscas.

 

Inspirar-se é buscar em referências externas, os exemplos, os ensinos e ajudas que componham um conjunto de recursos de ajuda, explicações, orientações e instruções que configurem caridade, fraternidade e solidariedade no colo do tempo e nos braços do amor universal.

Intuir-se é provar por instantes o sal dos mares navegados e temperar com sabor antigo o alimento atualizado. De tal modo que o designer da experiência não desminta o valor da convivência.

 

No livro dos Médiuns, Kardec nos demonstra com sua peculiaridade pedagógica, os riscos e escolhos da mediunidade e no Evangelho espíritos maiores se nos instruem quanto ao mal e o remédio. Esses dois pontos, científico e filosófico são os caminhos da oração e da vigília.

 

Desde que não mais se acredite que o silêncio (humano) seja prece, por que o pensamento em nosso interior efervesce, o equilíbrio que é esperado estremece e o médium inspirado envaidece, pondo em risco toda benesse, é neste momento que a humildade a gente esquece.

 

Inspiração é opção que afinidade e a conduta oferecem, requerendo responsabilidade e preces.

Intuição é atitude sensitiva, leitura dinâmica de antigas missivas, que exige interpretação lúcida e transparente, tendo a simplicidade qual lâmina damocliniana na pauta de responsabilidades imortais.

MUSEU DE HOLOGRAFIA por flávio calazans


 

                                         

           

            Dia 11 de julho de 1995, terça-feira, Paris amanheceu ensolarada e feliz.

            Em uma caminhada sem destino pelas ruas da Cidade-Luz, bebericando nos cafés, visitando as livrarias, cheguei à uma praça arborizada e aprazível, que impressiona pelo edifício em cuja entrada empilham-se como que dançando letras gigantescas coloridas, as Vogais com as cores alquímicas atribuídas pelo poeta Arthur Rimbaud ( para quem, na Alquimia do Verbo, “O Poeta se faz vidente por meio de um longo, intenso e racional dersregramento de todos os sentidos”) , é  o “Forum des Halles-Grand Balcon” , dentro deste prédio encontrei o Museu da Holografia, aberto de segunda a sábado das 10 às 19 horas.

            A holografia é um processo de registro de dados ou gravação de imagens em uma matriz tridimensional que emprega o cruzamento de raios LASER e uma placa sensibilizada.

            A holoarte mantida neste museu é típica “obra de arte na era da reprodutibilidade técnica” como dizia Benjamim, brinda o fruidor com um tipo diferente de sentimento estético, diferente da pintura e da escultura, diferente da videoarte, é uma forma de expressão plástica pouco estudada e menos explorada pelos artistas e até mesmo ignorada pelos críticos de arte tradicionais.

Os hologramas coloridos impressionam pela qualidade e tridimensionalidade, não vou tentar descrever em palavras o indescritível, faltam conceitos verbais para tanto, a Holoarte transcende as palavras, é poesia e escultura em luz, eixos X. Y e Z da tridimensionalidade.

O Processo da Holografia e seu produto final- Holograma, foram criados por Dennis Gabor em 1947, valendo-lhe o Prêmio Nobel de Física pela criação deste novo gênero de imagens técnicas, uma nova tecnologia de registro de dados em suporte luz, empregando a luz condensada do raio Laser.

Lloyd Cross desenvolveu o holograma composto, ou holograma cinético, gerando uma segunda geração de imagens, agora com movimento, superando em muito o “trompe d’oeil” da perspectiva renascentista, imegens pós-fotográficas.

Segundo p Ph.D. David Bohn (Inglaterra) e o Ph.D. Carl Priban (USA), o novo paradigma holográfico propicia uma ruptura epistemológica com consequências imprevisíveis no estudo do pensamento visual, ambos aplicam os conceitos de Jung de sincronicidade aos hologramas.

A estas pesquisas de ponta acrescentam-se as considerações do artista plástico brasileiro Eduardo Kac, com sua Holografia Digital, empregando a computação gráfica para uma intersemiose das imagens virtuais, sintéticas, com modelos biológicos, analogias entre a Geometria fractal de Mandelbrot da IBM (Auto-similaridade de cada parte com o todo nela contido do holograma e dos fractais) com paradigmas como a Morfogêneses de Kawagushi no Japão.

Peças de Holoarte do artista australiano Alexander chegam a alcançar preço de mercado de 20 mil dólares, sendo o custo unitário de produção técnica em cerca de um dólar de despesas .

A holoarte, se insipiente no final do Século XX, pode estabelecer-se como signagem-linguagem plástica na era das tecnologias da luz, fibras opticas e CDRoms do Século XXI.

Vale a pena visitar este Museu indescritível e também o prédio de cristal que abriga a exposição de Holografias do Futuroscope em Poitiers.

Estranho que tão pouca gente o inclua nos roteiros turísticos, e tao poucos o visitem…

 

O MAR: ENTECRIÔNICO poema de jairo pereira

 

 

 

 

um mar presidir o encontro dos espírithos

o mar levantado em azul frente aos corpos-micros

o mar com seus palimpsestos papiros

tábuas inscrições céleres nas águas

o mar com sua vastíssima erudição

o mar versado em miles de artes disciplinas

o mar autoritário artífice de pródigas criações

o mar com sua língua superafiada

em consturas intransigentes

o mar uma língua-ciência maior

q. o mundo azul do mar

o mar levantado em azulmar sob azul cerúleo

o mar hipertrançado de destinos

o mar como uma colcha transfulgente

no espaço térreo

cosmogônica composição animovente

o mar Senhor dos signos-búzios

atirados à praia

o mar criônico-ente na escuridão estelar.

 

 

SOBRE A MENTIRA por ballone g j (psiquiatra)


 

 

 

A Mentira
A mentira não deve ser entendida como uma espécie de contrário da verdade. Ética e moralmente a mentira está muito mais relacionada à intenção de enganar do que ao teor de deturpação da verdade e, juridicamente, a mentira está relacionada ao dolo ou prejuízo que causa a outra pessoa.

A mentira não é apenas invenção deliberada, uma ficção, pois nem toda ficção ou fábula é sinônimo de mentira. Não pode ser mentira a literatura, a arte ou mesmo a demência (sintoma da confabulação). A intencionalidade é que define a mentira, estabelece o dano ou dolo.

Assim sendo, não mente quem acredita naquilo que diz, mesmo que isto seja falso. Santo Agostinho declara que “Quem enuncia um fato que lhe parece digno de crença ou acerca do qual forma opinião de que é verdadeiro, não mente, mesmo que o fato seja falso”.

Considerarmos todas as formas de mentira, desde a mentira convencional de dizer Bom Dia às pessoas sem que, necessariamente, ansiamos para que ela tenha realmente um bom dia, passando pela mentira humanitária de consolar o moribundo, pela mentira carinhosa de achar que aquele vestido ficou muito bem na pessoa amada, o Papai Noel, ou a mentira por omissão, seja ela médica, política ou policial, enfim, todas essas maneiras de dissimular a verdade, entendemos melhor as pesquisas que mostram a mentira presente em todas as pessoas.

Mas, é o propósito com que falamos alguma coisa que definirá a mentira. Mentir seria dirigir a outro um enunciado falso, cujo mentiroso sabe conscientemente dessa falsidade, e o faz com objetivo de enganar, de levar esse outro a crer naquilo que é dito, dando a entender que diz a verdade.

Como dissemos, para mentir o que conta é a intenção e, voltando a Santo Agostinho, “não há mentira, apesar do que se diz, sem intenção, desejo ou vontade de enganar”. É a intenção que define se o que foi dito, verdadeiro ou falso, teve ou não o propósito de enganar. Aliás, excluindo-se o aspecto intencional de enganar que caracteriza a mentira, é mesmo muito difícil argüir se uma verdade é mais ou menos verdadeira, de forma a aceitarmos com facilidade a expressão “a verdade de cada um”. Isso é bem comentado quando estudamos as maneiras pessoais de representar a realidade, quando vimos o termo procepção.

Muitas vezes levadas pela insegurança de ser aceitas tal como são, as pessoas podem cair na tentação de enriquecer suas histórias e enaltecer suas habilidades de forma a causar uma impressão mais favorável em outras pessoas.

É assim, por exemplo, que um ladrão atribui-se mais roubos do que realmente tenha cometido para melhorar sua imagem diante dos companheiros de cadeia, ou o jovem que se vangloria de proezas sexuais muito além do que tenha feito, superando a insegurança de sentir-se pouco viril, ou a mãe que aumenta um pouco o desempenho escolar de seu filho, compensando assim o sentimento de inferioridade diante de outras mães satisfeitas com o rendimento dos filhos delas…

Além de atender diretamente as aspirações próprias, a mentira satisfaz também interesses de maneira indireta. É o caso, por exemplo, dos falsos rumores que diminuem, comprometem, execram pessoas que, de uma forma ou outra, nos ameaçam (às vezes ameaçam apenas nosso bem estar emocional). Mentir é um recurso fácil de se recorrer, sem necessidade de se passar por esforços ou penúrias, ainda que haja o permanente risco de ser descoberto.

O Mentiroso
Aprendemos desde cedo as vantagens da mentira. Ainda crianças aprendemos a dizer que a mãe não está em casa, quando ela quer evitar atender ao telefone. Cedo aprendemos os benefícios de um atestado médico forjado para comodidade de poder faltar às aulas de ginástica, e assim por diante. Ah! Não esquecendo das mentiras a que se obrigam os netos, quando os avós perguntam de quais avós gostam mais…

Mas o mentiroso também passa por dificuldades, e quanto mais cai na tentação de mentir, tanto mais difícil vai ficado controlar a abundante base de dados das versões de suas mentiras, mais difícil vai ficando garantir a coerência de suas estórias, mais necessidade de novas mentiras para encobrir as antigas…. a farsa cresce em progressão geométrica.

Não é possível para a psiquiatria estabelecer o estereótipo do mentiroso; cada caso é um caso. A maioria das pessoas se encaixa nos mentirosos fisiológicos, e a mais fisiológica das mentiras são os falsos elogios – “ora, você está sempre igual,  parece não envelhecer…”. Esses mentirosos fisiológicos se servem das mentiras também para a elaboração das mais esfarrapadas desculpas – “não pude comparecer ao enterro porque uma tia minha teve que ser internada…” E o interessante é que o outro, igualmente mentiroso fisiológico, também mente, fingindo acreditar.

Diante dessa freqüência fisiologicamente humana há, naturalmente, uma tendência em banalizar a mentira, ou inocentemente classificar nossa mentirazinha cotidiana como sendo do tipo positiva, aquela que além de não prejudicar pode até ajudar pessoas (…o senhor me parece mais saudável hoje do que ontem… conheci seu filho, um jovem magnífico…), ou mentira negativa, aquela que prejudica.

Enfim, a mentira fisiológica pode até facilitar a integração social, e de tal forma que as pessoas com inata dificuldade para essas mentirinhas corriqueiras são tidas como ingênuas, socialmente pouco habilidosas, falta-lhes jeito ou, como se diz espertamente, não têm “jogo de cintura”.

Uma das razões interiores mais comuns para mentir é a insegurança ou baixa auto-estima. Como dissemos, a mentira passa ao outro uma imagem de nós próprios muito melhor do que de fato acreditamos ser. Mente-se também por razões externas, de acordo com as  pressões para sucesso na vida em sociedade, por razões políticas ou até econômicas, quando o prejudicado for o fisco.  

Finalmente há mentiras por razões patológicas, desde aquelas determinadas por uma personalidade problemática, até as outras, produzidas por neuroses francamente histriônicas, como é a Síndrome de Münchhausen e de Ganser.

Mentirosos contumazes, de dinâmica psíquica rica em conflitos e complexos, que representam personagens tal como fazem os atores, e refletem aquilo que gostariam de ser. Ao  perderem o controle  sobre o impulso de mentir o personagem criado suplanta o ego e a personalidade toda é tomada por um falso e inaltêntico ego.

PASSARINHO poema de joão batista do lago

 

 

Voas sobre mim

Aquém do tempo

Além do espaço

 

Voas sobre sonhos

Aquém das ilusões

Além do desejo

 

Em tuas asas de prata

Brilham meus sonhos:

Quimera de solidão

 

Em tuas asas de bronze

Reluzem meus desejos:

Utopia da visão

 

Em tuas asas de ferro

Cintilam meus devaneios:

Realidade e paixão

 

Dão-me as tuas asas?

Quero voá-las!

 

Ser real na ilusão dos meus desejos

Brilhante nos sonhos da minha solidão

Eterno na utopia da minha visão

 

Dão-me as tuas asas!

Saberei voá-las?

ILUSÕES DO AMANHÃ poema de alexandre lemos (aluno da APAE)

 ‘Por que eu vivo procurando um motivo de viver, se a vida às vezes parece de mim esquecer? 

Procuro em todas, mas todas não são você.

Eu quero apenas viver, se não for para mim que seja pra você .

Mas às vezes você parece me ignorar, sem nem ao menos me olhar, me machucando pra valer. 

Atrás dos meus sonhos eu vou correr. 
 
Eu vou me achar pra mais tarde em você me perder.

Se a vida dá presente pra cada um, o meu, cadê? 

Será que esse mundo tem jeito? Esse mundo cheio de preconceito. 

Quando estou só, preso na minha solidão, juntando pedaços de mim que caíam ao chão, juro que às vezes nem ao menos sei, quem sou. 

Talvez eu seja um tolo, que acredita num sonho. 

Na procura de te esquecer, eu fiz brotar a flor. 

Para carregar junto ao peito, e crer que esse mundo ainda tem jeito. 

E como príncipe sonhador… 

Sou um tolo que acredita, ainda, no amor.’ 

PRÍNCIPE POETA (Alexandre Lemos – APAE) 
Este poema foi  escrito  por  um  aluno  da  APAE, chamado, pela sociedade,de excepcional. 
Excepcional é a sua sensibilidade! 

Ele tem 28 anos, com idade mental de 15 e peço que divulguem  para prestigiá-lo. Se uma pessoa assim acredita tanto, porque as que se dizem normais não acreditam?

“LIMITE” poema de bárbara carvalho


 

No primeiro dia, a morte me rondava.

Não havia cor no céu, nem luz.

Não podia ouvir qualquer som,

além do abafado pranto em meu peito

teimando por sair.

 

No momento segundo, tomei-me de todos os objetos

que me te traziam à lembrança

e os fechei em uma caixa.

Fixei-a em terra, para que somente eu pudesse levá-la e

deixei a chave esquecida em um canto conhecido apenas por mim.

 

No momento seguinte, busquei arrancar da alma e do peito

as memórias boas e más, o que fora desbravado e o que fora escondido

- bem mais, ainda, da tua invasão avassaladora - 

- bem mais, ainda, de ti, inteiro.

 

Arranquei de mim os dias e as noites de amor e os de desespero,

as marcas de todo o prazer e de toda a dor.

Desprendeu-se tua voz da minha memória,

teus escritos afastei dos meus olhos

e tua essência tirei do meu coração.

ONDE TÁ TU VIDAL? por cleto de assis

 

 

Palavras, Todas Palavras
congelou na Internet.
Se Vidal fosse budista
Estaria no Tibet.

Nem está mestre Vidal
(como budista não é)
lá pras bandas do Nepal.
Ou voltou para Bagé?

Ficou no meio da rota
no Desterro feito ilha
descalçou a sua bota
e abandonou a filha.

Sob chuva em abundância
por muitos dias e meses
tentou erguer nova estância
lá na Praia dos Ingleses.

Das Palavras o palrador
esqueceu completamente
nem abriu computador
pra mandar e-mail pra gente.

 

Sua filha eletrônica
tristinha e abandonada
nem poesia e nem crônica
publica mais a coitada.

Proponho aos caros amigos
e às amigas também
vivermos de comentários
enquanto Vidal não vem.

Um dia, tenho certeza
voltará o bom gaúcho
com farto vinho à mesa
e muita ostra no bucho.

Parece estar bem patente:
devido ao seu sibarismo
Vidal, momentaneamente,
condenou-se ao ostracismo…

Nós, aqui ao desamparo
sem saber fazer o quê
beberemos vinho amaro
E o Vidal, J.B…

Esperamos que essa féria
Nem forçada ou concedida
Não nos deixe na miséria
De ver Palavras perdida.

Volte, Vidal, à querência
da palavra e da poesia.
Ponha a mão na consciência
E deixe a ostracologia…

 

SALVE, SALVE!!! ESTAMOS VOLTANDO!! pela editoria

SALVE, SALVE !! 

 

estamos voltando depois de algum tempo envolvidos em uma reforma (grrrrrrrr) residencial em razão de mudança de “trincheira”.

 VOCÊS SÃO MARAVILHOSOS!!!! colaboradores e leitores !  pois que o último post foi em 08/12/08 há 90 dias atrás !! VOCÊS MANTIVERAM O SITE ATIVO!!! por todo esse tempo! quanto o site perdeu de leitores? NENHUM!!! a média que era de 1.300 acessos dia, após esse período longo, sem postagens, está em 1.200 (dia)!!!!

a que se deve tal força de sobrevivência?

sem dúvida alguma ao alto nível das matérias publicadas pela EQUIPE PALAVREIROS DA HORA – poesias – contos – artigos – crônicas – ensaios, que, quem não conhece pode vê-los na página GALERIA DOS PALAVREIROS, acima.

OS COLABORADORES, bem, esses, o que dizer? além de suas matérias de alta qualidade, publicadas, são os motores de divulgação deste espaço para uma rede de leitores, também, de altíssimo nível como se pode ver nos comentários, com exceção de alguns “desocupados mentais”.

 

obrigado. muito obrigado.

 

o site está voltando com toda vitalidade agregado, agora, pelo clima de grandes energias da “nova trincheira”!!

 

grande abraço a todos,

 

JB VIDAL

editor

 

praia-dos-ingleses-12                  foto aérea da “nova trincheira”

FELIZ ANIVERSÁRIO, PALAVREIROS DA HORA! por cleto de assis


 

Abri o blog: nem bolo nem vela. Ninguém reparou no registro do lado direito: “ INÍCIO DO SITE: 01/12/2007 atualizado diariamente”.  Aliás, bolo nos deu o J. B. Vidal, que colocou seus alforjes nas costas e foi-se para Floripa, sem uma digna festa de despedida. Não duvido nada se essa repentina migração tenha colaborado para mudar o clima catarinense: mistura de La Niña com minuano gaúcho e faíscas de espora arribando na praia …

A última comunicação que recebi de nosso blogueiro foi sobre a perda de sua agenda e o pedido para renovar meus endereços. Prá que? Se deles não se faz uso, de que servirão, chê? Onde estão minhas últimas contribuições não publicadas?

Mas, mesmo considerando que ele esteja “de mal de mim”, quero cumprimentá-lo por esta primeira primavera, pois ele merece. Sei que sua mudança para a ilha encantada (morro de inveja!) não mudará sua dedicação ao Palavras, já reconhecido como um valente contributo para a cultura brasílica.

E, para homenagear o blog nosso de todos os dias, envio a contribuição de um “poetinha” quase desconhecido, que, de vez em quando, campeia por estas plagas. Uma Pessoa chamada Fernando, também entre os prediletos de Vidal, outra pessoa que, igualmente, gosta de palavrar.

 

 

 

Minha pátria é a língua portuguesa

 

 

“Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As pa­lavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensua­lidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie – nem sequer mental ou de sonho –, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de ou­tros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal pá­gina de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Viei­ra, na sua fria perfeição de engenharia sintática, me faz tre­mer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.

Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteira­mente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esque­cer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tomando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as idéias, as imagens, trêmulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de idéia bruxuleia, malhado e confuso.

Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa seleta, o passo célebre de Vieira sobre o Rei Salomão. ‘Fabricou Salomão um palácio…’ E fui len­do, até ao fim, trêmulo, confuso; depois rompi em lágrimas felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das idéias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais – tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei; hoje, relembrando, ainda choro. Não é – não – a saudade da infância, de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfônica.

Não tenho sentimento nenhum político ou social. Te­nho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, – desde que não me inco­modassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal portu­guês, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em orto­grafia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a orto­grafia sem ípsilon, como o escarro direto que me enoja inde­pendentemente de quem o cuspisse.

Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-ro­mana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.”

 

Fernando Pessoa.

 

(Do Livro do Desassossego. Bernardo Soares*. Seleção e introdução de Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Editora Brasiliense, 1896)

NOTAS:

* Quando Pessoa redigiu a nota de BS, ainda se escrevia “orthographia” (como grafado na primeira versão do “Livro do Desassossego”, publicado pela Ática, em 1982, sob a organização de Jacinto do Prado Coelho), já que recente reforma ortográfica, por ele combatida, havia “modernizado” o vocábulo “orthographya”. C. de A.

 ** Semi-heterônimo de FP

 

AS PLATITUDES DE SARAMAGO crônica de hamilton alves

 

 

                                                O prêmio Nobel deve dar ao seu ganhador uma espécie de aura que o faz julgar-se acima do pensamento corrente e que pode perfeitamente arrogar-se o direito de ditar o último conceito sobre tudo, desde o tema mais complexo que se refere, por exemplo, à existência ou não de Deus, tema, aliás, que tem atravessado sem solução até os dias atuais, envolvendo coisas mais corriqueiras, como a política corrente nos países, a moda de vestir ou o destino do planeta ou teorias sobre o triunfo das ideologias ou seu rotundo fracasso.

                                                Foi assim que num dia desses o escritor José Saramago foi chamado a um auditório, cercado de jornalistas, quatro ou cinco, de críticos de literatura, e de não sei mais quem, para ser interpelado.

                                               Alguns assuntos foram feridos por ele, de preferência os que dizem respeito a Deus. Ele dá, a esse respeito, uma no prego, outra na ferradura, com dizer-se que nem sempre acerta (ou nunca acerta). Até hoje, que se saiba, ninguém descobriu se Deus existe ou não. De modo que se trata de assunto, de começo, inabordável, que nem mesmo um prêmio Nobel, por mais avisado, deveria arriscar sua opinião, sob pena de cobrir-se de ridículo, Mas Saramago, quando provocado, foi em frente e sapecou que não devia a cura de sua doença a Deus. Quem o salvou foram os médicos e os remédios que lhe foram ministrados.

                                               Quanto a ser comunista, por que sê-lo ou por que não sê-lo? Antes sê-lo. Mesmo depois da fragorosa derrota do comunismo no país que fez uma revolução histórica para adotá-lo, continua firme na idéia de que tudo pode se resolver com a formação de uma sociedade do tipo da preconizada por Marx.

                                               “Sou aquilo que se pode chamar de comunista hormonal”. Essa categoria de comuna não fora ainda catalogada. “Assim como tenho no corpo um hormônio que faz crescer a barba, há outro que me obriga a ser comunista”. De modo que se deduz que, para ser comunista, não precisa mais da razão; os hormônios é que lhe ditam a norma de pensar. No caso, de mal pensar, porque o comunismo obviamente não se sustenta mais; caiu de podre. Mas segue fiel a Marx (embora tenha rompido com Castro), afirmando que “Marx nunca teve tanta razão como agora”. Mas no fim, não se mostrou tão convencido das razões do filósofo alemão: “Vejamos se Marx tem ou não razão”.

                                               “A Bíblia é um livro (diz ele) que não se pode deixar nas mãos de um inocente, só tem maus conselhos, assassinatos, incestos…” Que Bíblia terá lido Saramago? Deve ser alguma que ninguém conhece. Ou ninguém leu.

                                                No fim, falando da literatura brasileira, diz alguma coisa curiosa: ”Há algum tempo os escritores brasileiros estavam presentes em Portugal, e em alguns casos podemos dizer que conhecíamos tão bem a literatura brasileira quanto a portuguesa. Graciliano Ramos, Jorge Amado, João Cabral, Manuel Bandeira, essa gente era lida com paixão (não citou, por estranho, nem Machado nem João Guimarães Rosa, justamente os maiores). Agora que eu saiba não há nenhum escritor brasileiro que seja lido com paixão em Portugal. Não temos obrigação de descobrir o que nem sabemos se existe”. Saramago, como se vê, entrou de sola na falta de escritores brasileiros ou em escritores brasileiros que não constituem mais a paixão do leitor português. Alguma coisa deve estar dando errado com o leitor do outro lado do Atlântico para desconhecer um dos maiores escritores da literatura universal, Guimarães Rosa, cuja obra deveria ter precedido à de Saramago com o Nobel, disparadamente.

                                               No fim da entrevista, uma pessoa, no recinto, ergueu-se nos calcanhares e saudou o escritor com essas palavras: “Em nome de todos os brasileiros, obrigado por existir”.

                                               Até que não lhe calharam de todo mal.

 

                                              

(Nov/08)                                                                                

OLIVENÇA: GRUPO DE AMIGOS DE OLIVENÇA CONVIDA

Viva o 1.º de Dezembro!

 Hoje, 1.º de Dezembro comemoram-se 368 anos da Restauração da Independência.
Logo em 5 de Dezembro de 1640, Olivença, assim que lhe chegaram notícias da revolta, repudiou o domínio filipino e fez jus à divisa que lhe fora outorgada pelos Reis de Portugal: NOBRE, LEAL E NOTÁVEL VILA DE OLIVENÇA!

Ocupada militarmente em 1801, desde então sob administração espanhola e forçadamente separada das demais terras portuguesas, Olivença constitui alerta eloquente para todos aqueles que querem um Portugal verdadeiramente livre e independente.

Lembrando a NOBRE, LEAL E NOTÁVEL VILA DE OLIVENÇA, e apelando à participação cívica de todos na defesa da sua portugalidade, o Grupo dos Amigos de Olivença participará como habitualmente nas comemorações públicas do Dia da Restauração.

Convidam-se todos os associados e apoiantes a integrarem a Comitiva do Grupo dos Amigos de Olivença que se concentrará, no dia 1.º de Dezembro, às 15:30 horas, frente à Casa do Alentejo, dali saindo para comparecer nas cerimónias oficiais que terão lugar às 16:00 horas, na Praça dos Restauradores, em Lisboa.

Para Lembrar e Reencontrar Olivença!

A PIZZA e a SALADA por alceu sperança


 

 

Foram 4,5 mil quilos de farinha, 90 quilos de sal, 1,8 mil quilos de queijo e 900 quilos de molho de tomate. Com esses ingredientes básicos, o Hipermercado Norwood, da cidade do mesmo nome, na África do Sul, fez a maior pizza do mundo, com um diâmetro de 37,4 metros, segundo atestou uma das edições do livro Guiness dos recordes mundiais.

Mas no Brasil de hoje está sendo preparada uma pizza ainda mais monumental. Teria o tipo quatro queijos (PT, PSDB, PFL, hoje DEM, e PMDB), com o predomínio de dois deles no segundo turno das eleições presidenciais de todos os tempos. Basicamente, essa monumental pizza aconteceria mediante o “coalho” dos queijos envolvidos: o PT assumindo de vez seu caráter social-democrata; a social-democracia do PSDB tirando a máscara e se assumindo como o partido definitivo dos ricos; o PFL atualizando seu arenismo rançoso para o neoliberalismo explícito e tentativa de ser cópia carbono apagada do “Democrata” estadunidense; o PMDB deixando de ser uma frente amorfa para cozinhar no miolo da pizza um programa tão ou mais social-democrata que os do PT e do PSDB, dois lados da mesma moeda ou farinha do mesmo saco, tal qual diria Brizola.

Que nos resta, cidadãos brasileiros, diante dessa faraônica pizza de eventuais quatro queijos de primeiro turno e dois queijos de segundo? Talvez reste responder com uma salada. Uma salada capaz de juntar na mesma travessa os partidos históricos da esquerda brasileira, originários do marxismo; os segmentos que foram iludidos pelo falso projeto popular do PT e estão fazendo a necessária autocrítica para entender finalmente que o movimento operário não começou na década de 80 no ABC paulista; um PDT descontaminado do vezo social-democrata, cuja cara atual no mundo é o neoliberalismo; um PPS que volte às origens; e as demais correntes progressistas brasileiras que desconfiarem da pizza e decidirem optar por uma salada saudável.

Uma iguaria do tipo Frente Ampla, com baixo teor de colesterol, para contrariar frontalmente o projeto neoliberal. Este sendo, a rigor, o trigo e o fermento da monstruosa pizza hoje em processo de montagem nas CPIs, no Congresso, no governo e solidamente apoiada por uma imprensa palaciana, como sempre disposta a usar o povo brasileiro como massa de manobra – coisa que tantas vezes já aconteceu no País.

Vide 1888 (os escravos não ficaram livres), 1889 (a República se tornou um novo Império), 1930 (o povo comemorou num dia e se frustrou no outro), 1937 (o povo tornado marionete), 1947 (democracia entre aspas), 1957/60 (presidente JK golpeado a todo instante), 1964 (Marcha com Deus pela Liberdade e com o diabo pela tortura), década de 90 (o estelionato majará-Real dos Fernandos) e primeira década do Terceiro Milênio (as ilusões de que basta votar para mudar o sistema e que CPIs resolvem alguma coisa).

Precisamos fazer no Brasil uma salada nacional nos componentes e global da rejeição ao neoliberalismo. E que o tempero da salada seja substancial e bem dosado, a começar pelo vinagre da apuração de todas as denúncias, sem qualquer conciliação, incluindo a investigação sobre as privatizações do governo FHC.

Que salpique a pimenta da punição a corruptos e corruptores. Que traga os tomates sem agrotóxicos de uma nova política econômica, oposta à valsa descompassada de hoje, com reformas a serviço das multinacionais. Que tenha o condimento do controle social sobre a gestão das empresas estatais e a robusta verdura da convocação de um plebiscito para indagar à população se ela concorda ou não com as reformas neoliberais impostas pelos governos dos dois Fernandos e do PT, aprovadas pelo Congresso Nacional. 

É preciso se opor, já no primeiro turno das eleições de 2010, à pizza que está agora em plena montagem entre o Palácio do Planalto e o Congresso. Aí será possível confrontar não apenas as duas forças preponderantes do neoliberalismo (PSDB e PT) mas também apresentar como alternativa a essa limitada culinária uma salada brasileira.

RUMOREJANDO (os acontecimentos de Santa Catarina, também, lamentando.)

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

A meia-luz

A coisa fica sem-sal.

Aí, não me seduz,

Passo a enxergar

Muito mal.

E além do aspecto

Físico, necessito

Do psíquico

Como vive a recomendar

Máster & Johnson,

Nada a ver com Bob Masterson,

Porque não sou circunspecto

Diante de um mulheraço,

Não me pega o embaraço

E sem vê-la como nasceu

Tendo a ficar

Um neuropsíquico,

Contrito,

Super aflito

Só pensando,

Matutando

Um antológico himeneu.

Constatação II

Deu na mídia: “Rainha Elizabeth II perdeu quase US$ 40 milhões com crise financeira”. Afora ser sintomático, taí uma notícia de transcendental importância para o futuro dos especuladores e da Humanidade também.

Constatação III (Dramas do cotidiano).

Lá pelos meados da década de 50, este assim chamado escriba morava no Alto São Francisco, não longe de uma espécie de pensão que era gerida pela D. Lota, de saudosa memória. Lá, viviam quatro colegas de turma, da faculdade, todos vindo do interior do Paraná, a saber: Pedro Bepler de Souza, Nelson Leal, Antenor Barnabé Neto e o José Haraldo Carneiro Lobo. Volta e meia eu passava por lá para conversar com os colegas e amigos. Certa vez convidei os quatro para irmos a segunda sessão de cinema, das 10 horas. Apenas o Haraldo aceitou e lá fomos ao cine Palácio. Já na fila começou a discussão quem pagava as entradas e eu alegava que eu deveria pagar, pois o convite havia partido da minha parte. O Haraldo contestava que uma coisa não tinha nada a ver com outra e depois de apartes, argumentação, retórica, etc., eu consegui convencer o Haraldo que eu pagaria. Chegando diante da bilheteria, puxei da carteira e não havia dinheiro nem suficiente para pagar uma entrada. O Haraldo é que acabou pagando.

Moral da dramática história: “Nada mais é difícil de suportar do que uma dívida moral, exceto uma dívida monetária. Mas uma combinação das duas é letal” (Ephraim Kishon, escritor israelense).

Constatação IV

A fusão dos bancos Itaú e Unibanco, ou de outros bancos, ou de outras empresas transforma a nova empresa fundida de modo tal que, fatalmente, os funcionários se sentem ameaçados de serem chamados pelo Departamento de Recursos (Des)Humanos, pois temem de ficarem fudid, digo fundidos.

Constatação V

Uma mixórdia

Foi seu discurso,

Com a língua enrolada,

Pra mulher

Quando chegou no doce lar

De madrugada,

Já quase de manhã.

Estive, até agora,

No clube Concórdia,

Esquecendo que era sócio

Do Thalia

E do Clube Curitibano.

“Vá embora”,

Ela bramia,

Num desabafo.

“Pensa que sou uma qualquer?”

Ledo engano!

Você só vive no ócio.

Você tá com bafo.

Diga o percurso

Que você fez pra aqui chegar”.

Ele ficou mais enrolado

Do que novelo de lã,

Que o gato costuma brincar

Quando a vovó se punha a tricotar.

Coitada!

Coitado!

Coitado?

Constatação VI

Costumeiramente,

Político só promete,

Ou só pro-mente

Descumprimentamente?

Constatação VII (De razões e proporções matemáticas).

O Bush, com sua administração desastrada, ajudou a eleger o Obama; O PSDB, ao trazer à tona aquela dinheirama toda, encontrada na casa do ex da Roseana Sarney, que estava em primeiro lugar nas pesquisas de opinião, ajudou a eleger o Lula. Daí pode-se inferir que o Bush está para o Obama, assim como o PSDB está para o Lula. Logo o presidente eleito da maior potência da Terra é igual ao Bush dividido pelo PSDB e multiplicado pelo Lula. Elementar, minha gente.

Constação VIII

E já que falamos no assunto, as recentes eleições para prefeito em nosso país mostraram, lamentavelmente, que, em certas regiões, ainda impera o coronelismo. Pena!

Constatação IX

Também deu na mídia: “Título mais perto do São Paulo”, diz matemático. Data vênia, como diria nossos juristas, mas Rumorejando acha que o matemático esqueceu que futebol, como dizem os grandes entendidos, os filósofos brasileiros, poderá ou poderia vir a ser uma caixinha de surpresas.

Constatação X

Quando o obcecado leu na mídia que uma pesquisa revelou que o curitibano é o que faz menos sexo no país, cuspiu para o lado, estufou o peito qual um galo quando se põe a cantar e disse: “Se tivessem me perguntado e a outros como eu nós teríamos ultrapassado a média nacional e os mineiros que foram os que melhor se classificaram”.

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

 

ENTRE GÊMEOS DESIGUAIS por sérgio medeiros

No dia 28 de novembro, o antropólogo Claude Lévi-Strauss completará 100 anos. Nascido em Bruxelas, de uma família de judeus alsacianos, Lévi-Strauss vive hoje em Paris, onde comemorará seu centenário, pois fez da França sua pátria. Autor de livros fundamentais, como Tristes Trópicos Mitológicas (quatro volumes), Lévi-Strauss é considerado o maior antropólogo vivo e um dos grandes intérpretes da cultura ameríndia, tendo vivido no Brasil, onde estudou a  cultura urbana e indígena do País, a partir de 1935. Para homenagear o célebre etnólogo decidi reler sua obra, ou, pelo menos, um de seus textos fundamentais, que resume suas grandes teses.

       Publicado na França em 1991, o livro Histoire de Lynx (História de Lince), do antropólogo Claude Lévi-Strauss, atrai inicialmente o leitor pelas páginas bem-humoradas, destacando-se o prefácio, onde o autor afirma que seus estudos sobre mitologia indígena se situam entre os contos de fadas e os romances policiais, gêneros considerados fáceis de ler. Por isso ele se surpreende quando reclamam da complexidade de suas análises, embora admita que os quatro volumes que compõem as Mitológicas, publicados entre 1964 e 1971, possam ser difíceis. O fato é que Lévi-Strauss inventou, como os críticos reconhecem, uma nova linguagem para resumir e comparar mitos, um estilo inconfundível que começou a ser forjado nos anos 1950 e cuja verve e frescor perduram na História de Lince, um livro que retoma os anteriores, porém apostando na concisão e na simplicidade da exposição. Pode-se dizer que, nesse livro, Lévi-Strauss reviu toda sua obra e fez uma defesa contundente do método que sempre empregou para analisar os mitos. Clifford Geertz chega a dizer, num estudo sobre a originalidade do discurso antropológico, que “Lévi-Strauss não quer que o leitor olhe através de seu texto: quer que olhe para o texto”, situando-o numa linhagem literária que incluiria nomes como Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud e em especial Proust. Quem freqüentar as páginas dessa obra-prima que é Tristes Trópicos, publicada em 1955, não ignorará sua assombrosa dimensão literária, digna de Mallarmé, caso esse poeta simbolista tivesse vivido na América do Sul, como já se afirmou.    

       Quando a Europa programava as comemorações dos 500 anos da descoberta da América, Lévi-Strauss lançou História de Lince e lembrou, em suas páginas, que houve invasão e destruição, não descoberta. O prefácio bem-humorado termina lamentando a destruição dos povos indígenas e de seus valores e anuncia um dos temas desse livro fascinante: o branco e o índio não seriam irmãos gêmeos? É possível sustentar essa hipótese?

       A “descoberta” do Novo Mundo não teria agitado muito a consciência européia. Ao espanto inicial, nada espetacular, sobreveio certa indiferença, quando a cegueira voluntária do Velho Mundo se sobrepôs à evidência de que a sua “humanidade plena” não representava o gênero humano, mas uma parte dele. Para o século XVI, a descoberta da América teria confirmado, muito mais do que revelado, a diversidade dos costumes, como se nada de absolutamente novo tivesse sido trazido à luz. Outra teria sido, contudo, a reação dos índios quando se depararam pela primeira vez com os europeus recém-chegados ao seu território. Essas duas atitudes opostas são discutidas pelo antropólogo Claude Lévi-Strauss em História de Lince, onde ele se debruça sobre o papel que os brancos exerceram no imaginário indígena, antes mesmo do efetivo desembarque dos europeus no Novo Mundo.     

       Para falar do nascimento dos gêmeos mitológicos, Lévi-Strauss resume as relações sexuais possíveis entre humanos e não-humanos, numa época em que as fronteiras ontológicas eram porosas e pululavam contatos inusitados no território ameríndio. Nesse sentido, além de conto de fadas e de romance policial, a análise estrutural pode incluir também a narrativa erótica, sempre atribulada e exuberante: certa jovem, por exemplo, que recusou todos os pretendentes, acabou levando uma vida solitária e se resignou finalmente a desposar uma raiz, com a qual teve um filho, que cresceu ao seu lado. À medida que, nesse livro, os diferentes mitos vão sendo apresentados, o leitor se depara com vegetais e animais sedutores e, sobretudo, já nas páginas iniciais, com o lince, um velho pouco atraente que se une a uma moça virgem. O casal vive feliz porque o lince é, na verdade, um rapaz belo e forte. Quem imagina que o príncipe encantado é tema exclusivo da literatura do Velho Mundo será surpreendido, na História de Lince, por uma galeria de heróis bem-apessoados, embora, inicialmente, todos se caracterizem pela má aparência e a idade avançada. Contudo, há sempre uma pele jovem sob a pele encarquilhada, e o feio oculta o belo. Das uniões sexuais entre esses heróis ambíguos (seres sobrenaturais) e moças cobiçadas pelos homens nascem os gêmeos ameríndios.

       Na América do Sul, à época da “descoberta”, os povos indígenas temiam em geral os gêmeos (estes podiam ser mortos ao vir ao mundo), embora eles também fossem venerados, como sucedia entre os incas. Os mitos ameríndios, contudo, parecem se comprazer em apresentar, em todos os rincões do Novo Mundo, nascimentos de gêmeos, filhos do mesmo pai ou de pais diferentes, seja porque a mãe se relacionou com dois homens ou com um homem e um animal. Segundo a tese de Lévi-Strauss, isso poderia ser explicado pelo fato de que o mundo e a sociedade estão estruturados sobre uma série de bipartições. As partes, porém, não são iguais, uma é sempre superior à outra. É o que acontece com os gêmeos míticos: eles são diferentes entre si, um agressivo, o outro pacífico; um forte, o outro fraco; um inteligente e hábil, o outro desajeitado e tonto etc. Tampouco os seios das mulheres são gêmeos idênticos, lembram os mitos: um é distinto do outro, pois o peito das índias é assimétrico.  

       Entre as mais importantes polaridades míticas, Lévi-Strauss destaca a bipartição em índios e brancos. Ele constata que os brancos, logo após sua chegada, foram facilmente incorporados à gênese ameríndia, como se o lugar deles nesse relato mítico já tivesse sido previsto antes da invasão do Novo Mundo. A criação dos índios, afirma Lévi-Strauss, tornava necessário que o demiurgo também criasse os não-índios. O deus civilizador Quetzalcoatl, por exemplo, anunciou que viriam pelo mar, de onde o sol nasce, seres semelhantes a ele mesmo, cuja aparência, conforme acreditavam os índios, era a de um homem grande, branco e de barba longa. Porém, o mesmo e o outro, idealmente gêmeos, sempre se revelaram desiguais nos mitos e na realidade. Esse desequilíbrio era ainda mais forte entre brancos e índios. Ou seja, os gêmeos não são de fato gêmeos, conclui Lévi-Strauss, tudo neles contradiz essa condição. O filho do Velho Mundo e o filho do Novo Mundo entraram inevitavelmente em conflito, o que os mitos já previam. O índios não puderam ficar indiferentes à chegada dos europeus, mas tampouco puderam reverter a seu favor a superioridade numérica. Há um pormenor inquietante nesse conto de horror e mistério, inserido em História de Lince: o incapacidade indígena de opor uma resistência eficaz ao europeu, mesmo quando 20.000 homens armados, por exemplo, se defrontaram, no Peru, com um número inexpressivo de espanhóis. Essa paralisia terá muitas explicações, inclusive a de que o intruso inicialmente foi visto, pelos incas e pelos astecas, e talvez por outros povos, como uma antiga divindade desaparecida, cujo retorno era esperado e anunciado.   

       É possível especular como seriam hoje as sociedades indígenas se o “reencontro”  entre os gêmeos tivesse ocorrido milhares de anos atrás. Depois de percorrer os Ensaios de Montaigne, um europeu imune à “cegueira voluntária” que acometeu os homens do século XVI, Lévi-Strauss lembra, numa nota de rodapé, que o filósofo lamentou que a conquista do Novo Mundo não tivesse se dado no tempo da Grécia ou de Roma, quando as armas respectivas seriam comparáveis e o contato não teria redundado no extermínio dos mais fracos. Esse belo mito, sonhado por Montaigne e recuperado por Lévi-Strauss, não foi ainda narrado por ninguém. Os gêmeos continuam desiguais, sobretudo nesta parte do mundo, como o demonstra a História de Lince.

 

 

 

 

 

 

Sérgio Medeiros traduziu o poema maia Popol Vuh (Iluminuras, 2007), com a colaboração do americanista Gordon Brotherston, e publicou, entre outros, três livros de poesia. Ensina literatura na UFSC. Participará de uma homenagem a Claude Lévi-Strauss no Centro Cultural Arquipélago de Florianópolis, no dia 22 de novembro, às 19 horas, quando lerá seu poema longo “O retrato totêmico de Claude Lévi-Strauss”.

 

CONTEÚDO DAS GRANDES OSTRAS poema de jairo pereira

CONTEÚDO DAS GRANDES

OSTRAS

 

 

dentro das grandes ostras

signos como pérolas embalados

em cálcio e sais

um signo dois signos três signos

não podem matar a vida

nas paredes das grandes ostras

imagens abertas em azuis

reflexos brancos nos cristais

nas mínimas superfícies lisas

seixos minúsculos sobrepostos

algas em fileiras como ciprestes

no núcleo das grandes ostras

gema e sal a mar aberto gema e significado

gema e significante gema e semas

semantemas crispados de sóis submersos.

 

 

O BRASIL DANTESCO por walmor marcellino

 

De vez em quando se fica inteligente; e então nos sacudimos num Deus acuda! O Brasil era um projeto-elite e naturalmente corrupto na medula patrimonialista. Cresceu e se tornou mais… oligarquicamente corrupto; fascistizou-se com a escória burocrático-militar e se tornou monopolisticamente corrupto; democratizou-se capitalisticamente e se manteve estamentariamente corrupto em todas as suas instituições; neoliberalizou-se e social-democratizou-se grandiosamente podre; petetizou-se e se tornou horizontalmente corrupto com a participação de uma nova classe aderindo luminosamente.

Não preciso dizer como estamos; todos sabem, porém costumam justificar suas preferências. E, ao enfatizarem sua ideologia como falsa representação da sociedade em que vivemos, preciso contradizê-los assumindo-me “reacionário” porque averso às habitudes de sujeição política. Para nossa fortuna, a sociedade do espetáculo vez por outra põe a nu a sociedade anônima que manobra a sociedade política.

Nunca se prestara atenção devida em Eugênio Gudin, Otávio Bulhões, Roberto Campos, Delfim Neto, Mário-Henrique Simonsen, Pérsio Arida, Paulo Malan, até que Antônio Palocci, Guido Mântega ofereceram seus préstimos à reorganização burocrática e moral dos negócios de caixa pública… Onde mais do que na chave do Erário está a idéia de cofre, isto é, de que política econômico-financeira estaremos cá a trataire?

Fortuna deles no poder de classe, fortuna nossa no entendimento dos fatos e das coisas que se passam: Paulo Malluf-Pitta, Teresa Grossi-Salvatore Cacciolla, Fernandão-Malan-Dantas-Barros-Lalau, José Dirceu-Marcos Valério, Renan Calheiros e… por aí vai nas “crises” e “episódios políticos”, porém em cada um deles há uma instituição pública, duas ou mais entrelaçadas. O rebote dos escâncaros se dá no sistema político de governo e nos titulares que os encarnam. Por isso, desde a canalha fascista-militarizada à redemocratização, desde José Sarney, Fernando Collor-Itamar Franco e Fernando-Henrique até os padrões Luiz Inácio Palocci Mirelles  Dirceu, as políticas e seus abusos nos vêm assustando; agora em ressalte porque “o PT fora nossa salvaguarda da República”.

Se alguém propõe homenagem a Darly porque se acabou a mitologia Chico Mendes; ao coronel Pantoja porque disciplinou os posseiros; ao fazendeiro Rayfran das Neves Sales porque extinguiu as denúncias exóticas de Doroty Stang; a Fernandinho Beira-Mar porque revelou o escabriado Sérgio Cabral; ao Ministério Público (RS) da Yeda Crucius porque expurgando o MST acaba com a reforma agrária, se estariamos “tão-só” a cuidar-se de pormenores. Afinal Daniel Dantas, Gilmar Mendes, Tasso Gereissati-Agripino Maia-Azeredo-e Luiz Inácio Genro-Jobim estão agora na berlinda. A República não são só “instituições”; são todos esses representativos de ultrafinanças, com as oportunidades do Banco Opportunity e com o Superávit Primário.

O sociólogo Francisco de Oliveira caracterizou magistralmente esse lance na área do jogo: a corrupção brasileira é entrosada, institucional porque estrutural; à direita e à esquerda. Saudações petistas.

Curitiba, 11/8/2008

VOLTAGENS poema de ewaldo schleder

 

 

 

o rastro aparente

do remoto passado

desfaz o caminho

quando volta

e traz nas mãos

um outro destino

 

no apagar das águas

faíscas elétricas 

 pedras nas pedras

alumbram o limbo

do tempo concreto

abissal e breve

 

no fusco das horas

corações se batem

a vida anoitece

eternidade a um passo

assimétrica geometria

 na sombra leve da tarde

ASCHENBACH por hamilton alves

Um dos maiores personagens da literatura universal, Gustav Aschenbach, que, numa tarde de primavera do ano de 19…, sai de sua residência, na rua do Príncipe Regente, em Munique (conta o início de “Morte em Veneza”), para um passeio solitário, vive a tragédia de sua vida, paixão e morte numa viagem que empreende a Veneza para repousar de sua tenaz lida de escritor.

Num exemplar dessa novela, que ganhei de um amigo num natal de 1984, – já a tinha lido de outro exemplar que trago comigo de muito tempo – contam-se exatamente 109 páginas, numa edição da “Nova Fronteira”.

Paulo Francis disse, em seu livro de pequenos registros, “O dicionário da Corte”, compilado e organizado por Daniel Piza, que essa pequena mas grandiosa obra, que Visconti levou ao cinema não de forma tão bem sucedida (Aschenbach vira músico em vez de escritor), é a melhor dentre todas produzidas por Thomas Mann.

Li “A montanha Mágica”, “Doutor Fausto” em parte, “Tonio Kroger” e um volume de contos do grande escritor e ainda li “O impostor Felix Krull”, parcialmente também. De todos achei que essa novela ocupa, na obra de Mann, um lugar de destaque, não apenas pelo trabalho literário em si, mas pelo tratamento dado a esse grande personagem, Gustav Aschenbach, que, buscando a paz e o descanso na exuberante cidade italiana, acaba, bem ao contrário, se envolvendo com o inferno de uma paixão avassaladora por um adolescente de beleza rara, Tádzio, que, em vários momentos, até a exaustão, persegue por toda a cidade ou fica fascinado quando de seu aparecimento no salão do hotel, junto com outros membros de uma família polonesa, guiados por uma governanta, de muita distinção.

O episódio de sua fuga de Veneza mal sucedida, quando há o providencial extravio de sua mala, fazendo com que retorne pelo mesmo vapor ao Lido, lhe causa um grande alvoroço de ânimo por só constatar que ali voltaria a se encontrar com o objeto dessa paixão.

A deflagração da peste em Veneza é outro fato que o traz apreensivo em função não de si mesmo mas do jovem belo, Tádzio, por cuja vida começa a se preocupar.

A sua exaltação quando percebe, em certa tarde, que Tádzio tem consciência ou corresponde a essa desmedida paixão, entreolhando-se no cruzamento do hotel, é outro destaque de sua existência tormentosa nessa passagem por Veneza.

E, finalmente, sua morte na praia, sentado numa cadeira, lendo os jornais do dia, acometido do mal oriundo de manifestações da epidemia que se alastra claramente, revelando-se, sobretudo, em medidas preventivas de autoridades sanitárias.

Havia comido, adquiridos numa quitanda, os morangos fatídicos, nos quais se alojara o vírus da doença.

Mas antes que isso ocorresse, deparara-se com Tádzio, cuja silhueta se perdia aos seus olhos, no mar, numa grande distância.

Que paixão é essa, de origem homossexual, perguntam-se os críticos?

Há quem entenda que Aschenbach via em Tádzio a expressão máxima do belo, que jamais conseguiria traduzir na obra de arte. Seria ele, assim, um símbolo da beleza inexprimível. Seja como for, não se deslustra nem se compromete essa novela extraordinária, em que Thomas Mann alcançou uma grandeza literária poucas vezes conseguida.

“Morte em Veneza”, bem ao contrário do título, exulta de vida nessas poucas cem páginas.

SE NÃO ME ARMAR, ME PASSAM FOGO por alceu sperança

Por uma opção de cidadania, ando sempre armado. Esclareço ser para uso exclusivo de defesa. É absolutamente necessário, pois nossa comunidade precisa resistir ao ataque dos bandidos que pretendem invadir nosso território. Comprei armas, não vou negar. São ainda escassas para nossa defesa, mas, considerando as premências de dívidas pendentes, conta da farmácia e do supermercado, temos gasto um bocado em armas e munição.

Sim, porque aquele soldado PM com o revólver na cartucheira, o soldado do Exército a vigiar o Palácio do Planalto, o guarda municipal ao qual algum prefeito irresponsável deu o direito de portar uma arma estão ostentando armas que nossa comunidade comprou. Todas as armas militares, das polícias e das guardas, são nossas, pois pagamos a conta. Estão legal e constitucionalmente postas a serviço de nossa segurança e de nossas famílias de compulsivos/compulsórios pagadores de impostos. Na medida em que essas armas, todas minhas, para minha segurança, já foram pagas por mim, por que haveria de comprar mais uma arma para me defender/atacar?

Certa vez John Lennon viu em outdoor uma odiosa propaganda de revólver mostrando uma freira acariciando o instrumento de morte, anunciado como “uma arma quente”. Logo depois ele compunha uma de suas mais instigantes canções: “Happiness is a warm gun” (“Felicidade é uma arma quente”): “Quando tomo você em meus braços e sinto meu dedo em seu gatilho, eu sei que ninguém pode me fazer mal, porque a felicidade é uma arma quente”. A felicidade, de fato, deveria ser a grande arma que deveríamos empunhar. Não um símbolo de morte, mas de vida plena e produtiva. Entretanto, por ocasião do referendo sobre a venda de armas, bateram à nossa porta dois bandos de chatos querendo nos puxar para seu vão debate: proibir a venda de armas, Sim ou Não?

Incapazes de formular uma legislação adequada para o uso de armamentos, os do Sim acreditam ingenuamente que proibir armas, drogas ou o nazismo vai impedir energúmenos de atirar contra seus semelhantes, vender porcarias que realimentam a dependência química ou usar bastões de beisebol para espancar pobres e mulatos. Os outros, os do Não, deixam de agir para que o Estado cumpra seus deveres, preferindo se armar para resistir aos “bandidos”, julgando bestamente que podem ser mais competentes nesse particular que nosso Exército e polícias.

Os do Sim apostam na “paz” da proibição, os do Não pregam o “arme-se a si mesmo”, a locupletação armada. Um tolo debate, nenhuma nau levando a bom porto. O que deveria ir a referendo, plebiscito ou coisa que o valha é se queremos felicidade, que seria a plena satisfação dos direitos humanos, ou o neoliberalismo, que mantém e amplia a miséria em todos os lugares – todos, pois já vimos, pelas aragens didáticas de Miss Katrina, que os EUA, com armas compradas livremente na loja da esquina, não é a nação feliz e democrática que se acreditava ser. Ali todo mundo compra e tem arma, e no entanto ninguém se sente seguro e protegido.

Meu voto seria Não ao neoliberalismo, pois não quero que o nosso Estado fique desarmado diante dos ataques de rapina promovidos contra ele pelos ricos liberais e “social-democratas” deste País e do exterior. Mas meu voto principal é Sim aos direitos humanos: recuso-me a gastar mais dinheiro na compra de uma arma extra de uso pessoal, embora pretenda comprar muito mais armas para meu Exército e para minhas polícias defenderem minha comunidade.

Felicidade é uma arma quente. Ela – e não trabucos ou metrancas – é que deveria ser objeto de plebiscito ou referendo.

Alceu A. Sperança

Escritor


Rumorejando (Quem sofre de hipertensão ou pressão alta deverá evitar de abastecer gasolina proveniente do pré-sal, perguntando?) por jose zokner (juca)

FÁBULA CONFABULADA (INDIGNA DO GURU MILLÔR).

Numa determinada província chinesa vivia uma família, constituída pelo pai Pas Khu Nyak, a mãe, Yach Neh e o filho Shly Mah Zel. O casal vivia se digladiando porque ambos se achavam o dono da verdade, mais sabidos que o dicionário, doutores sabe-tudo e coisas desse jaez. O patriarca, repetindo o que havia lido na Internet, dizia: “Vou vender a Enciclopédia Britânica, o Dicionário, o Livro de Mao, já que minha mulher conhece e sabe tudo. Inclusive, o que se passa na casa dos parentes e vizinhos. Por sua vez, a mulher fazia troça do marido, dizendo que ele era o professor do professor de D’us. O filho assistia a tudo isso e ficava agastado porque ele se dava conta da sucessão de erros e grosserias que os pais cometiam e que eles, naturalmente, achavam que não. Alguns pouquíssimos exemplos do que os dois cometiam:

-Tocavam o equipamento de som a todo volume;

-Assistiam à televisão também aos domingos;

-Não sabiam jogar truco e tinham raiva de quem sabia;

-Elogiavam o governo;

-Sentavam à mesa sem lavar as mãos;

-Não tinham escova de dentes;

-Compravam, desmesuradamente, no cartão de crédito e a prestação, sem levar em conta os juros das financeiras;

-Faziam visitas sem avisar aos visitados que iriam chegar;

-Levavam álbum de 380 fotografias para mostrar aos visitados da última viagem turística que haviam feito;

-Contavam piadas, uma após a outra, durante horas seguidas;

-Bocejavam ruidosamente e/ou sem tapar a boca com a mão;

Shly Mah Zel, ao contrário dos seus pais, tinha um comportamento ilibado. Além disso, era, sem alarde, um excelente aluno, o que na China não é novidade, porquanto é um povo que também se destaca nos estudos e nas pesquisas, mas isso é outra história que, agora, absolutamente, não vem ao caso.

Shly Mah Zel tinha uma namorada e queria convidá-la para vir a sua casa, a fim de conhecer seus pais e vice-versa. No entanto, protelava com medo que eles iniciassem as intermináveis discussões inócuas, como era de seu malfadado costume. Além, é claro, do mau comportamento do casal.

Um dia, quando não havia mais jeito de protelar o convite, diante da insistência de seus pais, lá foi Shly Mah Zel, mais nervoso do que noiva de antigamente em noite de núpcias, com a sua namorada, cujo nome era Tze Bul Keh, para um jantar em sua casa. A mãe procurou, na sua – dela – ótica, se esmerar não aceitando sugestões já que a ela “ninguém precisava ensinar o que quer que fosse”.

Primeiro foi servido um prato de carne; depois a mãe serviu um prato de peixe. Para o prato de carne foi servido um vinho branco e para o peixe um vinho tinto doce. Todos, em copos de plástico, tirados da cristaleira onde estavam colocados os copos de cristal que Shly Mah Zel não entendeu porque não foram usados. A salada já veio temperada, ao invés de que cada um pudesse temperar a seu gosto, com vinagre, o que foi terrível, pois Tze Bul Keh tinha alergia a tal condimento.

Após um ruidoso arroto de Pas Khu Nyak, foi servida a sobremesa que se constituía de uma salada de frutas onde nadavam pedaços de cebola e as colherinhas de plástico tinham gosto de alho.

É claro que o jantar não terminou sem que o casal não iniciasse uma discussão acerba e azeda que culminou com os dois se retirando do ambiente e voltando para continuar a polêmica em altos brados o que deixou o filho assaz nervoso.

Passou-se algum tempo e os jovens casaram e, evidentemente, Shly Mah Zel e Tze Bul Keh se comportavam totalmente ao revés dos pais do jovem. Pelo que consta, bastante felizes e não se sabe se para sempre porque, como diz o poeta e escritor uruguaio Mário Benedetti, numa de suas antológicas poesias, “Hay tanto siempre que no llega nunca”, mas isso já é uma outra história.

Moral I: Na casa que não falta pão alguns gritam e acham que têm razão.

Moral II: Pelos erros dos outros, o homem sensato corrige os seus. (Oswaldo Cruz).

Moral III: Quem não sai aos seus, degenera (no bom sentido).

JOÃO BATISTA DO LAGO comenta em OFERTÓRIO/DOR poema de jb vidal

 

Comentário:joao-batista-do-lago-0081

 

O (A)PARTO DO POETA

Ofertório-dor é um desses escritos que só ocorrem de 10 mil em 10 mil anos. É um parto de dor apartado de si. É um parto de tanta dor, que dói na alma de qualquer vivente que dele venha tomar conhecimento… e lê-lo… e senti-lo… e deixar-se conduzir num parto apartado do ser que se pretende por alguma via encontrar o centro do divino.

Esta poesia de JB Vidal é um levante contra o ser e o não-ser.
Paradoxal inferição que me ocorre, pois, logo ele, que se pretende para além de si, grita seu inferno dantesco de forma tão pungente que se nos revela a oikós onde se “instalou nessa podridão”, ou seja, neste espaço
tempo de nossas existências, que na síntese é a presencialidade do ser no poeta que tenta se organizar no interno centro do divino do seu exílio caótico.

Já nesta primeira estrofe ele se nos oferece a dor após rasgar com
violência anti-humana o seu centro do divino, isto é, arromba com
violência o seu útero eterno sem pai e sem mãe e deblatera o mais
recôndito do seu inferno existencial, como se quisesse ampliar neste
nascer-se as vozes de Nietzsche e Kierkegaard.

Mas o mais genial desta poesia são as duas estrofes centrais, onde o
autor se nos revela todos os tecidos e fibras que fazem parte do
corpo-útero, espermas e óvulos, símbolos e sons, discursos e
proselitismo retórico, forma e conteúdo, deste poema que deixa de ser
fala para se transformar em linguagem, onde atinge, aí sim, o centro do
divino e se faz sujeito… e se constrói, aliás, se reconstrói num
lamento em sujeito-sujeito, uma espécie de deus ou lúcifer, que grita o
tempo inteiro para dizer: “eu existo; eu sou… e só eu sou”. De certa
maneira há aqui um kantianismo infantil, mas exuberante porque nos faz,
de fato, pensar. E pensar não é coisa de humano, mas de anti-humano ou
de antideus ou antidemônio. Permita-me, o poeta, repetir aqui esses
belíssimos versos:

soube então da dor de parir
e parido fui,
da dor da fome e fome senti
da dor do sangue e o sangue correu
em minha’alma gnóstica
a dor assumiu e sobreviveu

quero então oferecer
esta dor maior  que o corpo
mais que desprezo e humilhação
mais que guerras e exploração
mais que almas aleijadas
mais que humanos em farrapas degradação

Já o ofertório-dor propriamente dito, ou seja, a última estrofe, aos
meus olhos, é uma construção inconclusa. Mas penso que aí reside a
maldade-bondade da oferta deste poeta deus-demônio de si, que tem a
coragem de si rasgar e de si parir como o caos que faz e constrói
sujeitos do ser. Ei-la:

ofereço a dor do amor que amei
da partida sem adeus
da saudade sem sentir
da espera inquietante
do futuro irrelevante
da ânsia divina de morrer

MARILDA CONFORTIN comenta em OFERTÓRIO/DOR poema de jb vidal

 

Comentário:marilda-confortin-0021

 

Nessas horas, entendo quando você diz que ainda não estamos escrevendo o que realmente sentimos… não podemos deixar passar…quando tudo morre e só a dor sobrevive é preciso escrever sobre essa dor por mais dolorido que seja. É preciso escrever sobre o amor enquanto se está amando por mais tolo que parece ser.  É Vidal, é preciso escrever como realmente sentimos… quando eu crescer, quero ser como você.
Beijo e boa semana

 

leia AQUI a matéria a que o comentário se refere.

 

 

ZULEIKA DOS REIS comenta em OFERTÓRIO/DOR de jb vidal

 

COMENTÁRIO:copia-de-zuleika-dos-reis-foto-co-2-zuka-06-de-janeiro-de-2008

 

Tocante, tão profundamente tocante que não encontro palavra a dizer diante deste Ofertório-Dor.  Caríssimo Vidal:você desceu fundo demais pelas raízes do humano e subiu fundo demais às inferas dos sacro-ofícios .”Ofereço a dor da ânsia divina de morrer”, um dos mais belos versos que já li, verso de uma beleza e de um alcance indizíveis.

Zuleika.

 

leia AQUI a matéria a que o comentário se refere.

CLETO DE ASSIS comenta em CAMILLE, UMA MULHER E TANTO

Comentário:                        cleto-de-assis-foto-dele
Camille, uma mulher e tanto

Embora rejeitada, em sua época, como artista, simplesmente porque era mulher e apaixonou-se por um homem casado, Camille Claudel, deixou sua marca e sensibilidade em muitas obras eternas, inclusive em sua colaboração com o mestre Auguste Rodin. A Porta do Inferno, citada no post de  Flávio Calazans, recebeu um pouco de seu talento, sempre voltado para o rude escultor francês, assim como os Burgueses de Calais, que ainda passeiam, qual taciturnos fantasmas de bronze, pelo jardim do velho Hôtel Biron.
De certa maneira, Camille Claudel (ou Modemoiselle C., como a chamava, discretamente, seu amante Rodin) foi mais intensamente artista que seu mestre. Muitas de suas obras foram destruídas por ela mesma, no auge dos delírios paranóicos.  O que se pode ver, no Museu Rodin, são apenas 15 obras tardiamente reunidas por Rodin e colocadas, por sua orientação, em uma sala especial. Mas são inigualáveis.

Irmã de Paul Claudel – intelectual extremamente religioso, convertido ao catolicismo, mas que pouco ou nada fez para evitar sua internação em um manicômio por trinta anos, até sua morte – Camille foi, além de artista, uma mulher que não se curvou aos preconceitos da época.

O cinema fez sua homenagem a ela, em 1988, com um filme de Bruno Nuytten. Se Calazans não o viu ainda, com certeza também soluçará ao assisti-lo. Gérard Depardieu interpreta o escultor e a bela Isabelle Adjani se transforma maravilhosamente em Camille, além de co-produzir a obra. Um poema cinematográfico, que narra a vida, paixão e morte lenta dessa mulher extraordinária. Um dos mais belos filmes que já vi.

veja AQUI o texto a que o comentário se refere.

VITÓRIA DE OBAMA DIVIDE MOVIMENTO NEGRO NO BRASIL


A vitória de Barack Obama, nos Estados Unidos, tem provocado debates entre líderes do movimento negro no Brasil. O que se observa, no Dia da Consciência Negra, comemorado hoje com feriado em 358 municípios, é a existência de agudas divergências no meio deles. Dias atrás, num artigo divulgado pela internet, o advogado e jornalista Dojival Vieira, coordenador do Movimento Brasil Afirmativo, expôs essas diferenças ao escrever que quase tudo que Obama fez para chegar à Casa Branca soaria no Brasil como verdadeira heresia para a maioria dos líderes negros.

“O discurso pós-racial de Obama não faria o menor sucesso e não teria o menor ibope, pelo menos entre nossos auto-proclamados líderes, porque para a maioria deles a raça continua constituindo a razão de ser do movimento”, disse. “Alguns flertam com a idéia de um Brasil birracial, ou seja: nosso papel seria superar a supremacia branca para afirmar a supremacia negra.”

Também pela internet, em um grupo de discussão, o cientista social Carlos Alberto Medeiros, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), criticou os termos usados no artigo de Vieira. “Travamos uma luta ideológica, e nossos inimigos jogam pesado no campo da chamada opinião pública”, afirmou. “Temos uma diversidade de posições e opiniões que merecem ser apresentadas e discutidas. Mas é preciso ter responsabilidade no uso das palavras, para que uma crítica interna não seja transformada em instrumento dos dominadores para enfatizar nossas divisões.”

Para o antropólogo Kabengelê Munanga, professor da Universidade de São Paulo (USP), Obama, ao apresentar e discutir temas centrais da sociedade, provou que tinha melhores condições que o concorrente para dirigir o país e pôs abaixo o mito da supremacia racial branca. “Num país onde 12% da população é negra, seria um desastre utilizar a bandeira racial. Mas também não funciona nem no Brasil, onde a população negra é bem maior. Tanto lá como aqui é preciso discutir a sociedade como um todo, sem negar a questão da racismo.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

 

A GRIPE, A FEBRE E A POESIA poema de joão batista do lago

 

 

 

 

 

Desgraça pouco é besteira!

Reza a lenda popular brasileira.

Foi assim que fiquei paciente

Duma cama fria e lacônica

Doía tudo. Até a alma, minha gente.

 

A danada da gripe foi de lascar

Era dor de tudo que é jeito

Remédio tomei pra dela escapar

Qual nada! Nenhum fez efeito

Fiquei na cama com febre a me danar

 

O Maneco inda me telefonou

Tentou de todo jeito me reanimar

Mas o corpo já de tanto véio

Num respondia, seu moço

Queria mesmo era cama pra se aninhar

 

Depois ligou o Vidal oferecendo carona

Também isso não me fez fugir da cama

Tentou me incentivar dizendo que seria bacana

Participar desta primeira semana

Sarau de poesia na noite curitibana

 

Em seguida me disse a Marilda

Num e-mail quebrado no meio do dia:

- “Poeta, deixa de frescura sem demora;

hoje no Massudas é noite de poesia…

cachaça com limão e vamo simbora.”

 

Mas a filha-da-puta da gripe

Não veio sozinha, não!

Trouxe a tiracolo a danada da febre

Não bastasse isso, me deu por companhia

O cof-cof… cof-cof… nesta noite de poesia

 

Êta, gripezinha sem-vergonha… safada

Adoeceu minha poesia a danada

Agora ta indo imbora a marvada

Sacaneou comigo a semana inteira

De repente quer ir embora toda faceira

 

Não! Num vai ficar barato não

Vou mostrar pra essa filha-de-bordel

Que não se brinca com poeta. Não!

“Vai pra eternidade nas asas dum cordel.”

- Dirá o poeta numa cachaça com limão e mel

 

E pra terminar toda essa cantoria

Faço aqui meu agradecimento

Ao professor e poeta Hélio pelo lamento

Que manifestou de me ver fora do evento

Vai daqui todo o meu reconhecimento

 

Chega assim, ao fim, esse poema-cordel

Feito por um poeta rabugento

Que ta ruminando feito touro velho

Toda raiva da gripe, da febre e da tosse

Que durante dois dias me tomaram por posse

 

Antes de por fim a esta cantoria

Quero aqui muito me desculpar

Num outro evento dessa natureza

Quando se engrandece a poesia

Lá estarei, custe o que custar, com certeza. 

O HOMEM-LÂMPADA poema de jairo pereira

 

 

anoiteceu homem-lâmpada abaulado e tenso adormeceu no clarão solar da própria luz

mariposas aos pés da cama

um bilhete : suicídio das trevas:

sonhou em luz luminar lâmpto transforescente

 pregou orações pra dentro ornado de sóis contra-favor lúmino & resolvido

amanheceu pensante em claros distendidos cresceu reflexos idéias vertigens no tempo no vento e não apagou mais.

NOVO QUADRO POLITICO NA AMÉRICA CENTRAL por frida modak

 

 

 

Duas reuniões ilustram que o subcontinente deve decidir entre manter os EUA como referência ou integrar um processo de alinhamento com o Sul.

Duas reuniões ilustram que o subcontinente deve decidir entre manter os EUA como referência ou integrar um processo de alinhamento com o Sul


 


 

A crise econômica estadunidense, transmitida ao resto do mundo, está gerando mudanças importantes na América Latina. Não nos basta apenas observar, mas atuar para que desemboquem no que convém à região. Duas reuniões recentes ilustram essa mudança.

 

Uma delas foi a Décima Reunião de Chefes de Estado e de Governo do Mecanismo de Diálogo e Concerto de Tuxtla, que acabou em 28 de junho em Villahermosa, México. Nela se reafirmaram os objetivos do Plano Puebla Panamá, que mudou de nome e foi rebatizado de Projeto Mesoamérica. Participaram os presidentes e Chefes de governo dos países membros: Belice, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua e Panamá, assim como República Dominicana em sua qualidade de Estado Associado do Sistema de Integração Centro-americana (SICA) e o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe.

 

O documento final do encontro deu especial importância ao combate da delinqüência organizada e a adesão à Iniciativa Mérida financiada pelos Estados Unidos (projeto em parceria com o México para o combate do narcotráfico). Houve 9 referências a este tema entre os 60 pontos da declaração final.

 

O outro encontro foi a Quinta Reunião Extraordinária de Petrocaribe, efetuada em 13 de julho em Maracaibo, Venezuela. Participaram os presidentes e Chefes de governo de Antígua e Barbuda, Bahamas, Belice, Cuba, Dominica, Granada, Guayana, Haiti, Honduras, Jamaica, Nicarágua, República Dominicana, São Cristóvão e Nevis, Santa Lucia, São Vicente e as Granadinas, Suriname e Venezuela. Costa Rica assistiu como observadora. Nesta ocasião se estabeleceram os novos termos em que a Venezuela proporcionará petróleo aos membros do Petrocaribe. Enquanto o barril estiver custando mais de 100 dólares, esses países terão um desconto e pagarão 40% após 90 dias do recebimento. O resto será quitado em 25 anos. Se o preço superar os 200 dólares, pagarão 30% em 90 dias e o resto a um prazo maior. Até agora se pagava 50% a 90 dias e o resto em 25 anos, com dois anos de graça e juros de um por cento.

 

 

Novas presenças

O contraste entre ambas reuniões tem dado origem a interessantes análises. Até o início dos anos 90, as áreas de influência ou presença dos maiores países da América Latina estava bastante clara. México exercia uma liderança na América Central, mas tinha escassa presença no Caribe, excetuando o alto nível de suas relações com Cuba. Por sua vez, a Venezuela tinha presença, mais que influência, no Caribe e na América Central, de onde se aproximou mais quando integrou o Grupo de Contadora. O Brasil, por sua vez, esteve sob um regime ditatorial até o final dos anos 80, assim como os países do Cone Sul.

 

Restabelecida a democracia na América Central e do Sul, o quadro se modificou. Analistas falam do deslocamento do México da América Central e a presença da Venezuela e do Brasil nessa área, como também no Caribe e na América do Sul. Ainda que se tente apresentar aos presidentes Lula e Chávez como antagonistas, os acontecimentos se encarregam de mostrar suas coincidências.

 

Sobre a América Central, cabe recordar que, em 2005, participaram da criação da Petrocaribe só países do Caribe. Os projetos diziam respeito tanto a preços preferenciais do petróleo, como também à construção e remodelação de refinarias. Os países centro-americanos receberam, então, do governo do México a oferta de instalação de novos postos de gasolina da Pemex (estatal mexicana), de modernização das velhas refinarias que já não funcionavam e cotas rebaixadas de petróleo. Esta foi a origem da controvérsia entre os presidentes Hugo Chávez e Vicente Fox, pela forma que este último se referiu ao projeto venezuelano.

 

Passados os anos, a oferta mexicana não se concretizou. Comenta-se no meio diplomático que o atual presidente Felipe Calderón disse ao colega guatemalteco Oscar Berger que seu país não estava em condições de vender-lhe a quantidade de petróleo oferecida pelo seu antecessor. As refinarias tampouco se remodelaram nem se instalaram postos de gasolina. A alta dos preços do petróleo custou às nações centro-americanas centenas de milhões de dólares e, finalmente, apesar das pressões estadunidenses, Honduras e Guatemala ingressaram à Petrocaribe e, com isso, a um projeto de desenvolvimento regional que contempla também investimentos e geração de empregos.

 

Um novo perfil

Neste contexto e em meio à crise econômica que já se admite como tal, a América Latina enfrenta uma nova realidade. Nossos recursos sempre têm sido cobiçados. Até há alguns anos os Estados Unidos se proclamavam detentores de direitos que ninguém lhes havia concedido. Consideravam a região sua área de influência. Mas, nos anos 70, passaram a enfrentar problemas econômicos e, para evitá-los, abriu a região para outro tipo de colaboração com a Europa Ocidental. Hoje os europeus disputam a hegemonia e ambos enfrentam o desafio russo-asiático.

 

Resulta, então, que a América Latina está diante de dois caminhos: seguir como os que mantêm os Estados Unidos como potência em um mundo que já não será unipolar ou integrar um novo alinhamento do Sul. Enquanto se definem os futuros centros de poder, vamos ser objeto de inumeráveis pressões. A Amazônia e a Antártica escondem enormes recursos e já os países chamados desenvolvidos estão formulando reivindicações sobre esses territórios. Se os Estados Unidos não conseguem o acesso à Amazônia através da Colômbia, América Central e o Caribe são outra via. A Grã-Bretanha quer a Antártica e as jazidas petrolíferas descobertas pelo Brasil são uma tentação, assim como as do Golfo do México.

 

Este novo perfil do subcontinente não tem sido demostrando adequadamente. Mas Brasil e Venezuela o têm claro. Os brasileiros vão guardar seu petróleo com submarinos nucleares e estão comprando novos aviões. A Venezuela já faz tempo que mudou seus provedores de armamento, seu presidente acaba de estar na Rússia e busca uma aliança estratégica ante a crise. A iniciativa de Lula da União das Nações Sul-americanas (Unasul) criou um Conselho de Segurança cuja importância é óbvia, tanto como a necessidade de abandonar esquemas que já colapsaram. Está se desenhando um novo mapa geopolítico e nos cabe decidir se seremos sujeito ou objeto.

 

Frida Modak é jornalista, foi secretária de imprensa do presidente Salvador Allende. Artigo publicado originariamente na Alai

 

nada menos soy que una puta / poema de francisco cenamor / España


                               para la asociación hetaira

 

y me miras

y veo en tus ojos un aliento que extrañaba

tocas mi piel y regreso de nuevo a mi tierra

aunque sé que estoy muy lejos

 

qué dulce que alguien como tú

me haya atado a esta tierra hostil

acabo de llegar

tú me dices que todo irá bien

no me conoces y tu susurro en  mi oído

me suena conocido

 

qué dulce eres mi amor pero perdona

no tengo derecho a decirte eso

el tiempo se te está por terminar

¿quieres que te dé un masaje?

será un placer

 

no no tengas cuidado

yo estoy bien aquí

adiós adiós pero espera

te has dejado olvidado

este trozo de esperanza

vaya ya te has ido

sé que no te volveré a ver nunca

PARAÍSO poema de sara vanegas / Ecuador

 

 

la arena que cubre tu cuerpo magro

te muestra oasis inefables

y atrapa tu lucidez

la arena que vomitas camino al antiguo edén

la que acribilla tu mirada y tu memoria

y te conduce duna tras duna

al otro lado del mar

la arena que sepulta tu corazón ardiente

y te ofrece al fin en un instante imposible

azul e inalcanzable el paraíso

 

y cierra piadosamente tus ojos

 

HOMO SAPIENS poema de manoel de andrade

 

 

 Primo do primata, irmão ou primogênito

por tantas linhas que essa história abarca

nessa ilustre família do passado

diga-nos: afinal quem foi teu patriarca???

                            

Sobrevivente de todos os caminhos

de Neanderthal às passarelas do terror

grego ou troiano, cruzado ou sarraceno

judeu e palestino no ódio e no amor.

                            

Ei-lo chegado dos arraiais do tempo

sem pêlos, ereto e bem trajado

ostentando as etiquetas do progresso 

e o seu orgulho de homem civilizado.

                            

Ei-lo no terceiro passo do milênio

herdeiro da filosofia e da ciência

depositário infiel da lei e da razão

o senhor da guerra e da violência.

                            

Ei-lo no palco da comédia humana

protagonista do escândalo e da inocência    

resignado a gargalhar, chorar, fingir

na incomunicável pantomima da existência.

                            

Ei-lo manequim do orgulho e do egoísmo

trajando sua incômoda  religiosidade

encurralado pela vida e para a morte

tateando tragicamente a eternidade.

 

Ei-lo garimpando as jazidas da ilusão

escravo  do ouro, do poder e da aparência

condenado ao remorso, à dor e à solidão

no tribunal implacável da consciência.  

                            

Ei-lo a dançar no carnaval do mundo

nesse  eterno festim, grotesco e sensual

triste figura de pierrô e colombina

pobre bacante dessa orgia universal.

                                

Ei-lo desvendando os caminhos siderais

ainda que na Terra viva a esmo

imantado aos seus instintos bestiais

incapaz de abrir uma rota pra si mesmo.

                             

Ei-lo arrebatando impaciente o seu bocado  

no gesto cego, primitivo e infantil

disputando a qualquer preço o seu brinquedo

qual uma criança em seu íntimo perfil.

                             

Ei-lo  mafioso, sedutor e corrompido 

traficando em um varejo alucinante

de colarinho branco ou encardido

parceiro inconfessável de um mundo degradante.

                             

Ei-lo a cuspir no prato que comeu

e desse banquete só migalhas restarão

as águas mortas, florestas abatidas

um planeta devastado àqueles que virão.

                             

Promotor da fome e da miséria

com sua elite global e rapinante

vai saqueando a vida dia-a-dia

impassível ante um grito agonizante.

                             

Mas apesar de tudo é o  herói que sonha

pra buscar na utopia a sua glória 

arauto da liberdade, da paz e da justiça

sacrificado nas trincheiras da história.

 

Missionário do amor, da arte e do progresso 

anônimo  na humildade e na grandeza

indiferente aos holofotes do “sucesso”

mora na luz da fraternidade e da beleza. 

                             

Ei-lo enfim  a se arrastar no chão da vida

com a alma manchada por tantos desatinos

milenar caminheiro  da esperança

solitário e sem rumo diante do destino.

                             

Perplexo frente a tantos holocaustos  

ensurdecido ante os canhões da guerra 

fita as estrelas e suspira fundo

sonhando um dia com a paz na Terra.

 

                                 Curitiba, março de 2004

 

 

Este poema consta do livro “CANTARES”, publicado por Escrituras.

SATURAÇÃO NA CAPACIDADE DE EXPANSÃO CAPITALISTA por walmor marcellino

 

“Amigos 25 anos” tem capeado informações e artigos instrutivos, ou meramente ilustrativos quando não ultrapassam meras constatações, às vezes sem uma perspectiva crítica; quer dizer sem tocar o cerne das contradições ou desvelar o antagonismo. Um destes é o de Limites do Crescimento (comentados por Enrique Leff). Questões como a substituição dos insumos correntes e, em conseqüência, dos seus processos produtivos; enfrentam contradita do poder econômico-político nas sociedades e no mundo (com especial destaque para o forte complexo industrial-militar que se mostrou endógeno às estruturas políticas engendradas pelo “capitalismo de vanguarda” nas sociedades imperialistas). Outra relevância é que a saturação produtiva é horizontal e vertical, em reciprocidades, dependentes de tecnologias mutantes e vórticas que não admitem a ilusão de “voltar ao pequeno” (Il Piccolo è bello), não bastasse o poder inalterável de empuxo do próprio capitalismo.

Assim, se não está no horizonte do possível um “consenso” de auto-controle capitalista-imperialista e a extinção, sponte sua, do próprio sistema capitalista de produção, o que se apresenta nesse enigma, de predação da natureza‑saturação do meio humano ambiental, como racionalidade e sua razão política?

István Mészáros em “Produção Destrutiva e Estado Capitalista”, uma parte de seu “Para Além do Capital” (não apenas “Além do Capitalismo”), coloca e debate a transformação da “Destruição Produtiva”, que formou o capitalismo com a transformação de bens naturais para o uso humano, em “Produção Destrutiva” como processo-limite nesse processo de transformação de insumos. O cientista marxista húngaro nos impõe uma análise sistêmica do capitalismo contemporâneo a partir da sua dinâmica concreta de expansão e poder na sociedade contemporânea. Não creio que possa aqui suscitar os temas do antagonismo capitalista com as forças sociais postas na produção, senão remeter os interessados para o estudo de sua magistral obra, que resgata as idéias e o espírito de Karl Marx e adverte contra as simplificações políticas que administram a sobrevida desse sistema de opressão, exploração e destruição que vai sendo mantido por um sistema mundial “jurídico-político” de forças e fomentado pela positividade da estultice “politicamente correta” de dominação das mentes.

Quanto aos caminhos da superação dialética dessa crise incontornável do sistema capitalista, além do forum social mundial de práticas e idéias políticas e da resistência a todas as formas de opressão, exploração e destruição, cada qual encontre sua comunidade organizada e se descubra no processo político com um agir comunicativo, aglutinante.

VIÚVA DE PAULO FREIRE ESCREVE CARTA DE REPÚDIO À REVISTA VEJA

Atualizado em 12 de setembro de 2008 às 10:46 | Publicado em 12 de setembro
de 2008 às 10:38
por CONCEIÇÃO LEMES
Na edição de 20 de agosto a revista Veja publicou a reportagem O que estão
ensinando a ele? De autoria de Monica Weinberg e Camila Pereira, ela foi
baseada em pesquisa sobre qualidade do ensino no Brasil. Lá pelas tantas há
o seguinte trecho:

“Muitos professores brasileiros se encantam com personagens que em classe
mereceriam um tratamento mais crítico, como o guerrilheiro argentino Che
Guevara, que na pesquisa aparece com 86% de citações positivas, 14% de
neutras e zero, nenhum ponto negativo. Ou idolatram personagens arcanos sem
contribuição efetiva à civilização ocidental, como o educador Paulo Freire,
autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização.
Entre os professores ouvidos na pesquisa, Freire goleia o físico teórico
alemão Albert Einstein, talvez o maior gênio da história da humanidade.
Paulo Freire 29 x 6 Einstein. Só isso já seria evidência suficiente de que
se está diante de uma distorção gigantesca das prioridades educacionais dos
senhores docentes, de uma deformação no espaço-tempo tão poderosa, que
talvez ajude a explicar o fato de eles viverem no passado”.

Curiosamente, entre os especialistas consultados está o filósofo Roberto
Romano, professor da Unicamp. Ele é o autor de um artigo publicado na Folha,
em 1990, cujo título é Ceausescu no Ibirapuera. Sem citar o Paulo Freire,
ele fala do Paulo Freire. É uma tática de agredir sem assumir. Na época
Paulo, era secretário de Educação da prefeita Luiza Erundina.

Diante disso a viúva de Paulo Freire, Nita, escreveu a seguinte carta de
repúdio:

“Como educadora, historiadora, ex-professora da PUC e da Cátedra Paulo
Freire e viúva do maior educador brasileiro PAULO FREIRE — e um dos maiores
de toda a história da humanidade –, quero registrar minha mais profunda
indignação e repúdio ao tipo de jornalismo, que, a cada semana a revista
VEJA oferece às pessoas ingênuas ou mal intencionadas de nosso país. Não a
leio por princípio, mas ouço comentários sobre sua postura danosa através do
jornalismo crítico.  Não proclama sua opção em favor dos poderosos e
endinheirados da direita, mas , camufladamente, age em nome do reacionarismo
desta.

Esta vem sendo a constante desta revista desde longa data: enodoar pessoas
as quais todos nós brasileiros deveríamos nos orgulhar. Paulo, que dedicou
seus 75 anos de vida lutando por um Brasil melhor, mais bonito e mais justo,
não é o único alvo deles. Nem esta é a primeira vez que o atacam. Quando da
morte de meu marido, em 1997, o obituário da revista em questão não lamentou
a sua morte, como fizeram todos os outros órgãos da imprensa escrita, falada
e televisiva do mundo, apenas reproduziu parte de críticas anteriores a ele
feitas.

A matéria publicada no n. 2074, de 20/08/08, conta, lamentavelmente com o
apoio do filósofo Roberto Romano que escreve sobre ética, certamente em
favor da ética do mercado, contra a ética da vida criada por Paulo. Esta não
é, aliás, sua primeira investida sobre alguém que é conhecido no mundo por
sua conduta ética verdadeiramente humanista.

Inadmissivelmente, a matéria é elaborada por duas mulheres, que, certamente
para se sentirem e serem parceiras do “filósofo” e aceitas pelos neoliberais
desvirtuam o papel do feminino na sociedade brasileira atual. Com linguagem
grosseira, rasteira e irresponsável, elas se filiam à mesma linha de opção
política do primeiro, falam em favor da ética do mercado, que tem como
premissa miserabilizar os mais pobres e os mais fracos do mundo, embora para
desgosto deles, estamos conseguindo, no Brasil, superar esse sonho macabro
reacionário.

Superação realizada não só pela política federal de extinção da pobreza, mas
, sobretudo pelo trabalho de meu marido – na qual esta política de
distribuição da renda se baseou – que demonstrou ao mundo que todos e todas
somos sujeitos da história e não apenas objeto dela. Nas 12 páginas, nas
quais proliferam um civismo às avessas e a má apreensão da realidade, os
participantes e as autoras da matéria dão continuidade às práticas
autoritárias, fascistas, retrógradas da cata às bruxas dos anos 50 e da
ótica de subversão encontrada em todo ato humanista no nefasto período da
Ditadura Militar.

Para satisfazer parte da elite inescrupulosa e de uma classe média
brasileira medíocre que tem a Veja como seu “Norte” e “Bíblia”, esta matéria
revela quase tão somente temerem as idéias de um homem humilde, que conheceu
a fome dos nordestinos, e que na sua altivez e dignidade restaurou a
esperança no Brasil. Apavorada com o que Paulo plantou, com sacrifício e
inteligência, a Veja quer torná-lo insignificante e os e as que a fazem
vendendo a sua força de trabalho, pensam que podem a qualquer custo,
eliminar do espaço escolar o que há de mais importante na educação das
crianças, jovens e adultos: o pensar e a formação da cidadania de todas as
pessoas de nosso país, independentemente de sua classe social, etnia,
gênero, idade ou religião.

Querendo diminuí-lo e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja nos dá o
direito de concluir que os pais, alunos e educadores escutaram a voz de
Paulo, a validando e praticando. Portanto, a sociedade brasileira está no
caminho certo para a construção da autêntica democracia. Querendo diminuí-lo
e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja nos dá o direito de proclamar
que Paulo Freire Vive!

São Paulo, 11 de setembro de 2008
Ana Maria Araújo Freire”.

HISTÓRIAS DO BRAGA – crônica de hamilton alves

 

 

 

 

 

                                   Não tive a menor convivência com Rubem Braga. Nem sequer cheguei a conhecê-lo, como não cheguei a ter contato com outros mestres da literatura brasileira (especialmente cronistas). Conheci e troquei algumas palavras com Fernando Sabino, Otto Lara Resende, mas não com Paulo Mendes Campos (uma das minhas frustrações irreparáveis pela admiração que sempre tive por Paulo). Mas não com Antonio Maria, que conheci numa fila desorganizada do cinema Metro, em Copacabana. Maria estava a pouca distância de mim. Quando a porta do cinema se abriu, foi aquele rolo compressor, nem permitindo que andássemos com nossas próprias pernas. Só via, no meio das pessoas, erguer-se a cabeça do Maria. Uma velhinha, que me pediu para protegê-la, igualmente foi levada por essa avalanche, sem que nada pudesse fazer por ela.

                                   Por que então intitulo esta crônica de ”Histórias do Braga”? É o seguinte: quando chegou a uma redação de jornal de São Paulo se propôs a escrever crônicas ou se identificou como cronista.

                                   Suponho que, naquela altura dos acontecimentos, a crônica ainda era um gênero pouco cultivado no jornalismo brasileiro ou aparecia pouco em nossa imprensa. Daí que o Braga se candidatasse a ser apenas cronista de jornal pareceria um disparate ou uma coisa inteiramente fora de propósito.

                                   O diretor do jornal (assim se conta) lhe teria dito que havia vaga para redator de fatos gerais (faits divers, como se diz em linguagem jornalística). O Braga bateu pé com todo seu conhecido e propalado orgulho de cronista. Ergueu-se da cadeira e proclamou aos ventos que passavam em volta:

                                   - Só escrevo crônicas!

                                   O diretor (ou seja lá quem tenha sido que o entrevistou nessa ocasião) deve ter achado muito curioso que se apresentasse à redação um jornalista que se propunha a só escrever crônicas e nada mais.

                                   Foi então (conta a história, que pode se resumir ao mito envolvendo o Sabíá da crônica) que o diretor do jornal acatou sua decisão e, a partir de então, lhe reservou uma coluna no jornal para compô-la, que passou a ser semanal, depoisa a diária.

                                   É óbvio que, quando uma pessoa busca um emprego, seja do que for e precisa dele para sobreviver, sua margem de exigência, em geral, cai a zero. Ou não se impõe com tanta determinação.

                                   Braga, por isso, nessa ocasião, poderia ser mais, digamos, contemporizador. Ficaria com a função de redator. Aos poucos, conquistaria o espaço de cronista. Mas no caso dele (conta a lenda, se lenda) impôs de saída sua condição de forma categórica:

                                   - Só escrevo crônicas.

                                   Se o diretor ou quem fizesse suas vezes tivesse, por acaso, o repelido por tal exigência, que pudesse lhe parecer meio estranha, teria perdido de acolher o cronista excepcional que era o Braga, que, na ocasião, encontrava-se na melhor fase de produção do gênero que o consagrou.

                                   Os que o conheceram de perto dizem que era uma de suas marcas – o orgulho. Nunca, em tempo algum ou em nenhuma circunstância, voltou atrás de uma decisão tomada, ainda que lhe custasse caro.

                                    Braga elevou o gênero crônica a um patamar que só havia sido conhecido nos tempos de Machado de Assis. Passou à história das letras deste país escrevendo esporadicamente uma lauda e meia sobre tema qualquer.

                                    Foi tudo que fez na vida..    

 

(Nov/o8)

Rumorejando (Dias melhores, ou, pelo menos, menos piores, aguardando). / por josé zokner (juca)

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I (Emprestando o termo “pila” dos gaúchos).

O dolar oscila,

Sobe e desce.

Mesmo assim,

É tudo igual

E não é um pranto:

O meu real

Desaparece,

Como por encanto,

Ele vive no fim

Sem sobrar um pila,

Sem um tostão furado.

Coitado!

De mim…

Constatação II

Quem nunca leu, pelo menos os livros, Jorge, um brasileiro, de Oswaldo França Júnior e O coronel e o lobisomem, de José Cândido de Carvalho não entende nada de nada. Tenho, sem patriotada, dito.

Constatação III

Exemplo de Exercício de Poder é quando uma pessoa física ou jurídica te adverte, te chama a atenção, várias vezes, que a reunião terá que ser im-pre-te-ri-vel-men-te numa determinada hora e te atende com uma hora de atraso. Outros exemplos são: “Eu quero porque quero é tá acabado”, de pais para com os filhos e da mulher para com o marido e, dificilmente, deste para com aquela…

Constatação IV

Posto

Que a gente

Tem que pagar imposto,

Tributo,

Imposto como obrigação,

Tão somente

E não vê atitude

Pra uma solução

Pra Saúde

E a Educação

A gente fica put, digo resoluto

A tomar

Uma posição

De não votar

Na próxima eleição.

Constatação V

Carcomido pelo ciúme

De ver a vizinha

Com mais um carro,

Todo incrementado,

Ficou que era só azedume

Pôs-se a falar

Abobrinha,

E, para piorar:

A sogra vá tirar

Um sarro:

Que ele só tinha uma bicicleta

E que de tanto pedalar

Poderia se tornar

Um baita atleta.

Coitado!

Constatação VI

Não se pode confundir simbiose, que o dicionário Houaiss dá como “interação entre duas espécies que vivem juntas” com sinistrose, que o mesmo dicionário define comotendência a alardear a iminência de colapsos e perigos terríveis, individuais ou sociais, a vaticinar desastres, ruínas, grandes perdas materiais, catástrofes em empreendimentos, planos econômicos, projetos políticos”, muito embora se as duas espécies que vivem juntas serem humanas tipo genro ou nora com sogra, fatalmente, deverá descambar para a realização efetiva da sinistrose. A recíproca até pode ser verdadeira. Basta ver o que está ocorrendo no mundo com a derrocada da especulação financeira que nada tem a ver com o trabalho produtivo que efetivamente gera riqueza.

Constatação VII

Deu na mídia: “A revista ‘Forbes’ aponta Elvis como artista morto mais rico de 2008”. Taí uma notícia de transcendental importância para as pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza e, também, para o futuro da Humanidade…

Constatação VIII

Aguarde breve: O “pibe”, como é chamado carinhosamente Maradona pelos hermanos, sendo desmistificado como a maioria dos técnicos em todo o mundo. As exceções como o Felipão e outros são apenas, e não mais que apenas, exceções. Tenho profeticamente dito.

Constatação IX

Lugar-comum é a casa da gente? E quem não tem casa como é que fica? Sem-teto- comum?

Constatação X

A violência que grassa em nosso país gerou a ampliação do termo ‘liquidação’ que anteriormente só se referia às vendas para renovação dos estoques das lojas?

Constatação XI

Semiótica quer dizer que o sujeito só vê as coisas pela metade?

Constatação XII

Para quem acredita em inferno, purgatório e paraíso, acompanhar um enterro de uma pessoa é levá-lo para a sua penúltima morada?

Constatação XIII (Quadrinha para ser recitada no dia das eleições).

Sou um democrata

Meu voto é obrigatório

Meu candidato é psicopata

E vive num consultório.

Constatação XIV (Saudosismo).

Já no fim do jogo entre o Gama e o Paraná, nos descontos, a bola bate na trave do Paraná e, na seqüência, um corner e um pênalti a favor do Paraná que é convertido em gol e o Paraná vence por 2 a 1. Os gols do Paraná foram feitos por zagueiros. No meio da euforia e do “ufa!” dos paranistas, ouviu-se um comentário com ar tristonho e nostálgico de um torcedor: “Já não se fazem atacantes como Izaldo, Casnock e Afinho, do meu velho Ferroviário”.

E- mail: josezokner@rimasprimas.com.br

 

Livros encalhados, crime de lesa-cabeça / por alceu sperança

 

 

 

Por vezes aparece alguém estranhando o grande sucesso da vasta produção de software da Índia. Essa estranheza revela o desconhecimento da realidade daquele pais, que luta para superar seu passado de submissão ao imperialismo travando uma luta tremenda contra a ignorância, através de uma revolução silenciosa: os indianos são, hoje, o povo que mais lê livros no planeta, dedicando 10,7 horas por semana à leitura.

No Brasil, no entanto, mesmo entre os que se julgam alfabetizados, 75% dos nossos compatriotas não sabem ler direito, segundo atestou uma pesquisa do Ibope. Sabe o bê-a-bá, ou seja, aprendeu a juntar uma letra com a outra e a assinar o nome. Já pode votar e se endividar no banco? Então, ótimo! Não precisa mais nada. Esse cidadão do bê-a-bá está longe de entender efetivamente o que lê e sequer sabe, pois não pode ler direito que ler enriquece e por isso continua pobre.

O governo brasileiro até que se mexeu um pouco, ao velho estilo três M (malandro, midiático e medíocre), anunciando o Plano do Livro e Leitura, a criação do Conselho Nacional do Livro e Leitura e a regulamentação da Lei do Livro. Mas a ação oficial, como bem sabemos, é quase nada. Escreveu, não leu, nem os autores leram. Se você confiar cegamente em seus governantes, sem pressioná-los, colherá a mesma frustração de todos aqueles que elegem deputados e esperam que eles arranquem fogo dos céus. É desastroso acreditar, ingenuamente, que estamos dando um cheque em branco para um sujeito apenas por conta de um voto clicado numa urna.

Promover a leitura como elemento essencial à revolução brasileira deve ser uma tarefa de todos nós, de cada escola, cada igreja, cada associação, cada brasileiro que se julga construtor da cidadania e de um país melhor.

Um país que piorou nos últimos dez anos e ficou bem mais burro nos governos tucano-liberal e petista-peemedebista, a julgar por uma pesquisa promovida pelo Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, sugerida pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES): entre 1995 e 2003, o número de livros vendidos no país caiu mais de 40%. Isso apresentou um fenômeno: uma vasta “escala de estoque”, linguagem técnica para o que nos chamamos de encalhe. Neste momento há encalhados, longe do acesso dos sem-livros, algo ao redor de 50 milhões de volumes. E são livros bons, pois as editoras decidiram as tiragens de acordo com seu potencial de consumo.

A mesma pesquisa mostrou que o PIB cresceu 16%, no período indicado, mas o mercado editorial brasileiro encolheu: o número de títulos caiu 13%, o de exemplares editados teve queda de 10% e as vendas, como vimos, despencou mais de 40%. Causas? O povo já não lia, e a partir de 1998 a renda da classe média foi achatada. A dos funcionários públicos em particular vem caindo desde 1994. Se quem não lia continua não lendo e quem comprava livros não compra mais, se o livro, que deveria até ser gratuito, é caro demais em relação à renda do povo, há pouco mais a dizer sobre o emburrecimento geral deste país.

O livro no Brasil chega a custar três vezes mais do que na França. Enquanto os alemães produzem cerca de seis livros por habitante, os editores brasileiros só publicam dois (e mesmo assim temos aquele monumental encalhe). Nosso livro, aliás, é quase três vezes mais caro do que o francês e o japonês. Como o livro brasileiro é caro em relação ao poder aquisitivo do povo, o governo compra livros e os doa aos estudantes (nosso governo é hoje o terceiro maior comprador de livros do mundo). Na China, mesmo sendo o livro muito caro em relação à renda do povo, o governo distribui livros à mancheia, como queria nosso Castro Alves. Chinês só não lê se não quiser. Quase tão pródigo é o governo dos EUA, que compra quatro vezes mais livros para estudantes do que o brasileiro.

Para completar, não será demais repetir a sábia advertência de José Bento Monteiro Lobato (1882–1948): “Um país se faz com homens e livros”. Livros aos homens, portanto

CRÓNICA DO NOSSO DESCONTENTAMENTO – por vera lúcia kalaari / Portugal

 

 

 

 

 

                Estou farta! Na realidade, estou mesmo farta! Eu e milhões de portugueses.

A actuação do Governo é, indubitavelmente, marcada por amargas realidades das reduções orçamentais e, principalmente, reviravoltas políticas.

 

               A situação tornou-se de tal maneira grave, que já nem há lugar para promessas, essas mesmas promessas que, durante anos, manteve o eleitorado na expectativa.  Entretanto aconteceu

uma proverbial e  oportuna crise mundial, que justifica tudo. Não se lembram, isso não, que

durante estes anos, o grupo de homens que diariamente enchiam as bancadas da Assembleia,

tudo processavam sem pressas. Raramente começavam a horas, porque se perdiam pelos corresdores em conversas amorfas. Nada de ideias crepitantes. Nada  que pudesse perturbar o  espírito rotineiro dos debates.

 

               Desde a orla das praias douradas algarvias, às paisagens agrestes de Trás-os-Montes, nada era esquecido ali. Falavam nos problemas, encetavam discussões, planeavam soluções, mas tudo calmamente, amadorrados na sonolenta luz do Hemiciclo, esquecidos do País moribundo que agonizava lá fora. Mas é aqui, sobretudo aqui, nas bancadas imensas, no ambiente majestoso dos lustres das paredes magnificamente decoradas, que eles sentem ressuscitar a sua força de poder, a força que lhes dá para pensar que é nas suas mãos que está o destino deste Povo e desta Nação.

Por isso, essa vontade férrea de sobreviver nesses cargos que os faz barafustar uns com os outros, não para encontrarem soluções mas unicamente para se evidenciarem: cada um para parecer melhor,

mais entendido, mais dedicado. No fundo, a tentarem transmitir uma ideia que seria escandoloso

exprimirem mas que está patente em todas as expressões:”-Olhem aí, vocês que que me escutam.

Eu sou o melhor”!É essa vontade de sobreviver ali, que os faz discutir, barafustar, discordar, concordar, falando em tudo que não interessa, enquanto lá fora, o Povo estiola e morre. Porque é

só aqui, na majestosa imunidade de S.Bento, que eles se encontram a si próprios. E a fumaça dos charutos que fumam, uns após outros, nos gabinetes luxuosos, formam uma neblina tão densa por cima das suas cabeças, que as suas vistas dificilmente vislumbram horizontes mais longínquos.

 

             Porque antigamente, as fortunas passavam de geração para geração (ou não) dependentes

da capacidade de trabalho e gestão dos herdeiros. Hoje, as fortunas herdam-se através de tachos. Porque só com “tachos” se  alicerçam e aumentam. Tudo o que  estiver fora deste circulo (ora agora governas tu e enriqueces tu, ora agora governo eu e enriqueço eu) é para “inglês ver”.

 

      

            Hoje, a palavra de ordem para o Povo é: “apertem o cinto!”. É como se estivessemos

embarcados num avião , seguindo as instruções mecanicamente dadas por uma hospedeira afável,

enquanto duma fonte ausente se acendem os incómodos letreiros “só desapertar quando as luzes

se apagarem”. Não temos outro remédio senão seguir essas instruções, mas depois de meia hora, todos estão fartos de estarem incomodamente amarrados ao banco, e esperam ansiosos, pela liberdade. Imagine-se se fossem obrigados a permanecerem apertados pelo cinto toda a viagem!

Mas é isso o que acontece connosco! Até ao fim , a viajarmos de cinto apertado! Dá para acreditar?

Mas é claro que para aqueles que viajam em classe VIP, o percurso é muito mais cómodo! E quem são a maioria desses passageiros, quem são? Os nossos políticos , seus tachos/herdeiros e seus seguidores (principalmente aqueles que os mantêm no poder porque dá sempre geito ter um ministro

ou alguém que deve o seu cargo à nossa  comparticipação nos custos da sua campanha.

        

             Admiram-se então que os tentáculos da criminalidade se tenham espalhado, ramificado,

penetrado na nossa sociedade? Garantir agora que o seu controlo é possível, é absurdo. Porque a situação caótica em que caíu o País, torna inconciliável qualquer objectivo de paz e segurança.

Porque em vez dessa melhoria tão amplamente prometida, a verdade é que a situação chegou à ruptura. A inflacção e os impostos  paralisaram a actividade. O fluxo cambial dos emigrantes

está praticamente, parado. A fome e o desemprego assolam a nação. Já nem promessas há para oferecer! E o pior, é que existe uma fadiga depressiva que se apoderou do Povo. Representa hoje

a característica uniforme da sociedade, um sentimento radical e trágico que aumenta assustadoramente, como uma vaga que nenhum obstáculo pode deter. Pior que uma ameaça de morte, é a condenação por uma asfixia lenta que atrofia  a mente e o espírito.

 

            Foi nisto que os consecutivos e amorfos Governos  tornaram Portugal: Um País em derrocada, uma pequena nação mutilada, migalha caída  na mesa do mundo  que vive agora as

horas mais difíceis da sua história.

 

 

            Mas eles, lá continuam! Jornalistas transformados em Ministros da Defesa, passando de

contadores de histórias a  especialistas na arte de bem comprar equipamento bélico, de submarinos a aviões, acessores a Ministros da Agricultura sem nunca terem plantado mais do que um pé de salsa

nalgum vaso do seu apartamento, ou das Pescas, sem mais nada conhecerem de peixe do que aquele

que lhes apresentam num prato bem servido do “Tavares Rico” .

 

 

            Tudo  e todos se concentram aqui. Eles e os outros. Porque Lisboa é o exemplo acabado de tudo o que de mau e de bom uma cidade é capaz de produzir. Nos seus bairros superlotados, nos transportes , nos bares, nas esplanadas, milhares de indivíduos  de todas as nacionalidades assentam

aí arraiais para chorarem as suas mágoas. Fascinante nuns lados, imunda noutros é a cidade de

contrastes imprevisíveis de promessas, de esperanças e de desilusões. À porta dos hospitais, dezenas

de doentes morrem diariamente por falta de cuidados, enquanto equipamentos médicos sofisticados

quedam paralisados por falta de pessoal. Os bancos regurgitam de clientes. Mas, na sua maioria,

os seus haveres nem sequer chegam para pagar os juros dos seus empréstimos. Milhares de jovens

saiem das universidades e morrem de inacção à espera dum emprego, enquanto outros milhares

aguardam vaga nessas mesmas universidades, para virem engrossar o número de desempregados.

Restaurantes, esplanadas,bares, clubes nocturnos, enchem-se diariamente com milhares de habitantes de todas as camadas sociais. Mas milhares deles dependem da caridade social. É a cidade

do pré-apocalipse, onde dezenas de prédios ruem e outros são devastados pelas chamas. Que melhor

“habitat” dos nossos “Anjos” do pré-apocalipse?

 

 

              Vou terminar. Afinal, é humano ter que desabafar. Deixaram esticar de tal forma a corda,

que a crise mundial, veio mesmo a calhar! É tão fácil governar assim… E mais fácil ainda é governar uma Nação de parvónios como nós , que fizemos o favor de vos transportar  aí para cima, para S.Bento! Santa ignorância!

 

 

 

DESPEITO poema de solivan brugnara

                                    

 

 

  Chega

   de lamber  livros sujos e insossos

 nas bibliotecas municipais.                  Não bebo mais leite empoeirado

                                                                         de tetas velhas.  

             Quis meu lugar                   

          mas livrarias e medalha, medalha, medalha como Mutley.

    Agora vou jogar para o primeiro cão que aparecer

                        o osso de  Homero

 que comprei de um camelô de relíquias.         Eu e as pombas estamos

 cagando para as estátuas das praças.         Quero cuspir  na cara de um

            auto- retrato de Rembrant.

              E fazer salada

                       de ciprestes impressionistas roubados.         Sair                                      

                             Com um bando selvagem,

                    e matar a flechadas o touro de bronze da Wall Street.

                               Repartir em postas, assar

                             e comer com vinho barato

                          em um beco sujo.               

Não agüento mais  ver nos museus, a cara centenária, mumificada do novo em sua tumba.    Hora de procurar por outra coisa menos rançosa. 

                            Vou colocar       

                          um dedo de uma estátua grega

        dentro de lata de salsinhas.      E com o dinheiro da indenização

                                              tomar cerveja,transar e assistir  Pica-pau

      nas tarde quentes.    E quando estiver entediado

                       dobrar origamis e aviõezinhos com folhas  retiradas  da Divina Comédia

                                  e jogar pela janela do apartamento.

                         Impedirei que alimentem as obras de Botero   

                           Até elas virarem El Grego.

   Não cederei meu lugar neste metro lotado.      Nem que entre

                          uma Virgem Maria renascentista como o menino.  

                                                  Paguei pelo ticket.

                  E num dia de bebedeira, por fogo inquisitorial em uma livraria de shopping                  e gritar para os comparsas:

       Exagerem na gasolina  que os livros são aguados.      Há, sentar bebendo vodka e                  

              sentir o cheiro  bom de livros de bruxas e magos queimando,queimando,

                                        deliciosamente queimando.

 

POEMAS de sara vanegas \ Ecuador

mar: un cuchillo de sal me atraviesa el pecho y las palabras

 

————–

 

las voces llegan a borbotones. como el oleaje a las naves sumergidas de la catedral eterna. voces que ascienden al coro y las cúpulas. como alas o lluvia mansa

tras los vitrales encendidos: peces arrodillados y tu sonrisa

dormida

 

—————-

 

alguien dibuja en la arena el recuerdo de un nombre

y se arroja a la mar

 

—————

 

alguien me dice que es la luz azulada de la luna. y yo vuelvo a confundirla con un río submarino. nunca conoceré el origen del agua. me pregunto si el mar devorará sus propias lunas …

 

—————

 

la luna y sus manantiales. el mar henchido de campanas. aquí: castillos de espuma y sal. para tus ojos solos

 

 

 

—————

 

la tristeza del mar: borrachera de espejos. el planeta entero abierto. la luna: un carámbano sobre su piel huraña. sollozo imposible desde las profundidades. y esa música de agua y noche. de vidas ignoradas y multiplicadas muertes.

 

las palabras: inútiles huesecillos de pez en la inmensidad del oleaje

 

————

 

y te he esperado sin rastro

y sin prisa

sobre los puentes y las cúpulas azuladas del verano

a través de los túneles interminables de la noche

en todos los andenes

lejos del mar y sus sirenas

te he esperado en esta ciudad

y en todas las ciudades

mientras la sombra crece sobre mis manos y el viento

es un mensaje ronco sin ventanas

te he esperado de cara contra las vitrinas

en el eco intermitente del teléfono

en los cuadros del Prado

y en las calles

pero más te esperé en las paredes repetidas del Cristal

y puedes creerme:

solo asomó tu silueta tras una de ellas

en el momento exacto en que yo partía

 

 ————-

 

 

 

el cortejo de lunas es ya un recuerdo en tus ojos

náufragos

la noche nos juntará en lo más hondo:

como un aullido

 

————-

 

 

el fantasma de tu voz

aún me llama

hoy

 

por un nombre ya olvidado

 

————–

 

muerde mis labios la noche áspera y terrible

mis labios manchan tu nombre

 

————

 

 

se balancea el velamen aturdido de tus ojos

sobre mi mar oculto

ángeles gaviotas destejen tu corona

                                   soledad y espuma

 

el cielo es la campana de plata que guarda

                                                                       nuestros sueños mientras se alejan las barcas

 

y el mar desaparece

BORRA ASSINADA poema de lilian reinhardt


 

                         
   (líricas de um evangelho insano

                           No fundo da xícara 
             a borra do meu olhar. 
             Dos olhos borrados de pó, 
             de orvalho salgado, 
             no (dó)i do teclado que ouço 
             e não entendo…
             meu olhar geométrico 
             se perde na mancha abstrata,
            onde assino?!
 

 

ALEX GREY, A ARTE SACRA DO SÉCULO XXI – por flávio calazans


 

 

 

 

“and so we go away from Alex`s  vision a  little better than we were a minute before ”

 Ken Wilber, prefácio do livro teórico de Grey “The mission of art” p.xiv.

 

Visitando uma livraria mística num recôndido mercado de flores de uma antiga e perversa cidade, o idoso livreiro sem mais aquela intuiu que eu tinha interesse em simbologias (Semiótica da Arte) e indicou-me o setor de arte esotérica, lá reconheci em um lindo livro colorido imagens que já me fascinaram antes, vislumbradas sem créditos de autoria em diversas revistas de círculos de estudiosos das antigas tradições simbólicas.

 

O livro era ESPELHOS SAGRADOS, de Alex Grey.

 

Grey impressiona pela técnica das transparências com as quais dá verdadeiras aulas de anatomia humana, ilustra pessoas de ambos os sexos meditando, ou no ato sexual, e sempre demonstra uma impressionante maturidade mística ao apresentar suas intuições com clareza, mesclando com admirável precisão simbologias sagradas indianas, chinesas, astrológicas, alquímicas, cristãs, judaico-cabalistas e outras, sobrepondo em detalhados corpos humanos desde a  Otz Chain (árvore da vida –cabala e os escribas talmúdicos sofer concentrando-se na caligrafia sacra da Tora para atingir a intenção concentrada- kavanot, similar ao sho dô dos kanjis desmanchados chineses taoistas e zen nipônicos e a caligrafia sufi muçulmana de frases do Corão) com chacras (yôga da Índia) aos meridianos (acumpuntura chinesa) e fotografias Kirlian, harmoniosamente combinadas com Tantra (maithuna, coito sagrado indiano), xaman -pajelança e arabescos sufi árabes, escritas frases sagradas de orações em sânscrito, chinês, hebraico, latim, e diversas línguas sagradas antigas, combinando-se até com atuais dados científicos de DNA, física de partículas, campos, quanta, supercordas, etc..

 

A CATEDRAL de Grey, sua “Capela Sistina” é um projeto também on line em seus websites na Internet, existindo virtualmente como WEB ART, um trabalho de intensa religiosidade que introduz o fruidor em inevitável contato com o divino, até o nível de consciência que consiga suportar, em graus ascendentes de uma espiritualidade linda.

 

São os ESPELHOS SAGRADOS, alta arte sacra ecumênica, inserida em uma ética e estética da religiosidade tolerante e aberta a diversidade, apresentada com layers-transparências-palimpsestos tipicamente da sensibilidade do Século XXI; Grey mostra individualmente homem e mulher, brancos (caucasianos), negros (africanos) e asiáticos (mongolóides) simbolizando as raças humanas, o fruidor escolhe o sexo e raça, a seguir Grey nos mostra na série o corpo sem pele, e o conceito de raça começa a desvanescer-se…e vamos em um exercício de dissecação que é uma aula detalhada de anatomia onde nos vemos gente a um espelho analítico de tamanho natural onde reflete-se nosso sistema circulatório, sistema linfático, esqueleto, órgãos, músculos,cartilagens, etc.

 

O fruidor é desafiado  ir e voltar no corpo humano percebendo a relatividade de ser branco ou negro, homem ou mulher, des-identificando-se com o corpo físico (como no tibetano Bardo Thodol) convidando a mais pura meditação zen, tao, sufi, Buda…

 

E na escolha do corpo feminino, somos surpreendidos com a gravidez, a beleza da gestação alterando formas da bacia e ampliando o ventre, com a transparência do feto e embrião crescendo, comovente e tocante, uma experiência transcendental é olhar estas peças maravilhosas, um privilégio!

 

A arte a serviço da elevação ao divino, Grey nos leva além de preconceitos, mesquinharias e identificações ilusórias (MAYA), chegando ao campo infravermelho térmico do calor emanado do corpo, um campo energético que todos sentimos ao abraçar a amada em um dia frio; e daí Grey vai nos alçando a vôos maiores, mostrando o padrão vibratório das glândulas-chacras-sefirots gerando campos mais sutis como registrados nas fotografias kirlian, atingindo o eu espiritual, o self junguiano, composto de sutis campos quânticos de pura energia (matéria é energia), passando pelas representações do divino em diversas culturas até a imagem não antropomórfica de um sol ou bola de luz que vivenciamos nas mais altas projeções –viagens astrais fora do corpo físico, no espaço sem onde e no tempo do agora perpétuo, o gerúndio quântico, o presente permanente dos alquimistas, o giro sufi, o êxtase da iluminação, satori, samadhi…

 

O que São Franciso de Assis mostra em sua oração mais conhecida- “fazei de mim um instrumento de vossa paz”, o amém das orações onde “seja feita a Vossa vontade”…onde todos somos emanações do UM, filhos do mesmo pai-origem, irmãos… irmão Sol, Irmã Lua, irmã pedra, irmão jumento…

 

Outras obras, quadros a óleo como BEIJANDO que mostra em transparência um casal unido pelo beijo com o símbolo grego apeíron, infinito, o oito deitado, unindo-os pelo timo no peito e pela pineal na cabeça, outra imagem comovente que faz lágrimas de comoção saírem dos olhos, nos tocando com cores e luzes como O BEIJO de Rodin faz no tridimensional com volumes e sombras do casal congelado na ansiosa fração de segundo antes do toque dos lábios no primeiro beijo…

 

Outra obra mais comovente ainda é COPULANDO, que retrata um casal em intercurso sexual, entrelaçados em fios dourados flamejantes de apeirons sobrepostos, com corpos em transparências anatômicas, gerando um campo sexual que atrai os olhares cósmicos das forças de vida e morte, da continuidade da vida, da futura alma que deseja encarnar a sansara-ciclo kármico,  e no centro dos dois uma transparente e quase imperceptível mandálica Shri yantra do Tantra, símbolo da interpenetração dos opostos.

 

Outra imagem comovente de consciência ecológica é GAIA, onde a vida natural e o mundo industrial poluente-suicida são mostrado com o símbolo da grande árvore, Ygdrasil, um painel de complexidade indescritível, para ser admirado por horas fazendo o ego dilur-se e perder-se dentro dele, aliás, toda obra de Grey é assim meditativa.

 

Como  Wilber explica no prefácio de SACRED MIRRORS, após a tecnologia da fotografia (que Flusser explica) libertar os artistas do mero retratismo (mimesis aristotélica);  Paul Cézanne derruba a perspectiva renascentista, o que vem permitir outros impressionistas  como Matisse, pontilhistas como Seurat e expressionistas libertaram nossa sensibilidade para perceber as cores (chegando a Kandinsky com seu espiritual na arte Abstrata, para quem a verdadeira arte envolve o refinamento da alma, do espírito), os Cubistas nos trouxeram uma nova compreensão da forma, e Grey nos brinda com sua visão pessoal do espiritual em um outro nível, além do olho físico e corporal, além da mente culturalmente cultivada, para o transcendente, indo além  do corpo e da natureza como pré-verbal, pré-conceitual, pré-mental, chegando a nos fazer vislumbrar o transverbal, trans-egóico, transindividual, o espírito que é universal, além de formas e idéias, o DIVINO..

 

Assim, a ARTE primeiro envolve o desenvolvimento e crescimento do próprio artista no fazer sua arte-obra em processo (quando o tempo e espaço desaparecem no transe do fazer artístico, e o artista inexiste, o ego morre e se esquece de si, de comer e dormir possuído pelo “sobrenatural” envolvimento da obra-paixão), e em segundo lugar a arte compartilha o desenvolvimento espiritual do artista transpirada em sua obra para evocar intuições místicas similares no observador- fruidor, colaborando com a expansão de nossa consciência por meio da sensibilidade estética ao sagrado.

 

Desde 1973 Grey fazia PERFORMANCES muito interativas, e INSTALAÇÕES , todas obras sempre muito rituais; filho de um artista gráfico, criado convivendo com artes, realizou ousadias como METRO PRIVADO e a peregrinação ao pólo magnético no extremo norte do planeta, tudo registrado em fotografias como toda performance documentada; muitas explorando a perspectiva da morte como consciência da não-permanência, do efêmero e transitório de tudo, do desapego.

 

De 1975 a 1980 Grey realizou dissecações no necrotério de uma escola de medicina, aprofundando seus conhecimentos de anatomia e de ilustração científica de obras de medicina e anatonia (vivenciando o NIGREDO o PUTREFATIO alquímico, a obra em negro),  uma das obras deste período foi derramar chumbo no ouvido interno do cadáver fresco de uma mulher recém falecida, tirando um molde em chumbo dos espirais do labirinto dela…esta obra ocasionou um pesadelo iniciático em Grey.

 

Sonhos xamânicos como os descritos por Castañeda em livros como ERVA DO DIABO e CAMINHO DE IXTLAN acometeram Grey, em um dos pesadelos Grey viu-se em um tribunal, julgado por um juiz cego e um júri furioso e indignado, acusado de profanar o seu cadáver indefeso por aquela mesma mulher cujo corpo Grey tinha dissecado dias antes no necrotério (em seus estudos práticos de anatomia humana) e derramado chumbo derretido no ouvido dela …  e Grey conta que explicou a ela que retalhou seu corpo e derramou o chumbo em nome da arte…por fim  o juiz e júri o alertam para fazer obras positivas e deixar os mortos repousarem em paz, este sonho teria despertado-o para a obra SACRED MIRRORS (Espelhos Sagrados) realizada com devoção durante dez anos, de 1979 a 1989, até a animação pó computador em 1999, o website já no Século XXI e o projeto de construção física da Capela que hoje é virtual ou exibida em exposições.

 

Além de performances, instalações, esculturas, pinturas e arquitetura (a pirâmide dos espelhos sagrados, em animação computadorizada, video-arte de 1999), a obra de Grey existe em livros, posters, camisetas, ilustrações em livros e revistas, e na internet em seus websites disponibilizadas, demonstrando que, como o ideal do homem renascentista de Florença  (Leonardo da Vince e Michelangelo),  Alex Grey é um artista multimídia no conceito do Século XXI, desconhecer sua obra no mínimo é estar fora do que há de mais contemporâneo na arte.

 

 

Bibliografia.

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GREY, Alex. The mission of art. Boston: Shambala. 1998.   ISBN I-57062-396-1.

 

GREY, Alex. Transfiguration  . Rohester:Inner Traditions. 2001. ISBN 089281-851-4.

 

GREY, Alex. Sacred Mirrors, the visionary  art of Alex Grey. Rohester:Inner Traditions, 1990.  ISBN 0 89281-314-8.

 

www.alexgrey.com

 


 

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APCA por zuleika dos reis


 

 

 

                   Começou no ônibus, numa segunda-feira, a partir da conversa entre dois sujeitos sentados no banco lateral ao meu. Ouvia-lhes as vozes, sem prestar atenção às palavras, nesse estado meio sonambúlico em que alguns ficam quando estão sós, mas acordei subitamente com a decodificação da tal sigla e do endereço: Rua Independência, 520. Ouvira mesmo o que ouvira, de dois sujeitos comuns, às 9 da noite, assim, sem código ou senha? Em casa descobri que há, só na Capital e adjacências, dez ruas Independência, quatro da Independência, uma travessa e ainda três praças com o mesmo nome. Depois de muita procura lá estava, na lista de endereços da Zona Sul: APCA, Rua Independência, 520. Informaram-me que os encontros acontecem todos os sábados, às 16 horas. Nenhuma solicitação de qualquer dado pessoal.

                   Sábado, quatro da tarde. Atravesso a sala e entro no auditório onde já estão, pelo menos, umas sessenta pessoas. O coordenador chama-se Carlos, nos dá as boas-vindas, explica-nos os objetivos de tais reuniões e que seus princípios são os mesmos que norteiam o trabalho dos irmãos da A.A. Lê-se, no quadro negro, ao fundo: Posso viver minha vida somente um dia de cada vez, lembrando-me de que não tenho domínio sobre a vida de ninguém, a não ser sobre a minha própria. Carlos esclarece, antes de encerrar sua fala, que no primeiro sábado de cada mês, as reuniões são divididas em duas partes: a inicial, para depoimento dos ingressantes; a segunda, após breve intervalo, para realização de palestra sobre tema de interesse geral e, finalizando o encontro, atividade de integração dos novatos entre si e com os membros veteranos.

                   O primeiro depoimento nos vem de um senhor baixo e atarracado, calvo e corado, jeito de português dono de armazém. Logo me dou conta do clichê.

                   “Sou líder de um grupo dos sem-terra e minha companheira, que pertence à liderança das mulheres, acabou de receber um convite para posar nua na Playboy. O cachê é alto, quase tão bom quanto ela e com o dinheiro dá pra gente comprar uma bela casa aqui na Zona Sul, quem sabe até na Vila Mariana. Só que alguns dos companheiros não aceitam, alegam que o Sistema sempre agiu assim para neutralizar a ação revolucionária. Embora constituam minoria, tais companheiros têm ainda certo poder de influência. Retruquei que isso não passa de discurso ideológico da década de cinqüenta o qual, já desde muito antes do fim do Socialismo, não funciona mais. Não adianta, eles não arredam pé, dizem que se cedermos a esse jogo seremos considerados traidores e expulsos do Movimento. Não somos traidores, compreendem? Só é a nossa chance real de termos um teto e todo mundo sabe que a Sorte não bate na mesma porta duas vezes.”

                   Cala-se e nos encara, esperando uma reação qualquer. Não vem nenhuma, e então cede lugar ao próximo, homem jovem de bela aparência, mas com uma corcunda respeitável.

                   “Fico pensando num leque de soluções, por enquanto fechado: colocar carpete na sala, tradicional ou de madeira, recusar-me a sair de casa sob qualquer pretexto, ficar trancado no escritório, todos os dias, até alta madrugada, sumir cada fim de semana, ou separar-me da mulher. Minha mulher é, sem comparação, a coisa mais linda que jamais Deus pôs sobre a face da Terra e ao natural, senhores. O problema é que ela quer sair todas as noites e muito bem vestida, não importa para onde. Sempre concordo, apesar de exausto. Meu drama é que, entre o banho e o derradeiro retoque no cabelo, passam-se várias horas. Enquanto espero, vou contando os tacos do assoalho na sala de jantar. Não superei ainda a marca dos 2734, porque a sala é grande e com muitos empecilhos como a mesa, as cadeiras, os vasos… sobretudo os próprios tacos, por se revezarem nas posições horizontal e vertical, tudo isso dificultando, de modo extraordinário, a contagem que recomeço do zero na noite seguinte.”

                   Tive vontade de sugeri-lhe a Odisséia, à guisa de catarse, mas faltou-me coragem.

                   Linda mesmo é a jovem que neste momento se dispõe a falar. Olhos cor-de-outono – sei lá por que me ocorre esta imagem – mini-saia, meias pretas, batom e unhas vermelhas.

                   “Meu problema, com uma única exceção aos oito anos, é com os presentes. Não, não com vocês, sou bastante sociável. Já se detiveram alguma vez sobre os papéis com que se embrulham os presentes? O brilho, a magia, a sedução que oferecem? É sempre uma dupla agonia: por um lado, o olhar ansioso das pessoas, na expectativa da minha reação e por outro, o conhecimento de que nada, absolutamente nada que esteja dentro pode ser comparado àquela beleza primeira. E há comemorações demais, aniversário, Natal, Ano Novo, Páscoa, amigos secretos. À medida que cada festa se aproxima aumenta-me a angústia, e logo vem chegando a hora de outra.”

                   Que belas meias pretas!

                   A pessoa agora diante dos olhos é a antítese perfeita da anterior. Senhora de meia idade, ancas e seios fartos, ar de boa dona de casa e ainda melhor cozinheira. Diz, apenas: “Minha ampulheta está com defeito.”

                   Sob a estranheza geral, Carlos solicita-lhe que continue. Ela conclui com um peremptório não.

                   O que me ocorre imediatamente, e creio que a todos os demais, é que tal metáfora (só pode se tratar de metáfora, a não ser que “ampulheta” se reporte àquele pequeno ícone que aparece no computador e, nesse caso, basta chamar um técnico) se relacione a algum problema de natureza hormonal, a disfunções de menopausa, período sempre difícil na vida da mulher. Mas, e se a palavra em questão se refira a algo mais complexo, que ultrapasse a esfera individual? O tom solene com que foi pronunciada a frase e a própria palavra “ampulheta”, confere alguma legitimidade a esta terceira hipótese.

                   O próximo depoimento vem de um senhor sorridente de uns setenta e cinco anos, de terno, colete cinza, chapéu… a portar a elegância clássica dos que passeavam no centro de São Paulo quando a cidade ainda era a terra da garoa, dos saraus e de Mário de Andrade. Logo às primeiras palavras, percebe-se que é um dos membros veteranos.

                   “Estou aqui para lhes dizer que, afinal, conheço bem cada uma das páginas da minha vida, a qual me parece inteiramente satisfatória, uma vez superadas todas as antigas dúvidas. Venho para me despedir e para me colocar inteiro à disposição dos senhores.Terei imenso prazer em recebê-los no meu coquetel amanhã.” Cita o local e o horário, volta a sentar-se, cercado pelos aplausos e pelos tapinhas nas costas.

                   Atordoado por agudo e um tanto injustificável sentimento de decepção, penso: Também aqui? Como é possível?

                   Uma nova depoente já nos fita, por cima de seus óculos.

                   “Tenho trinta e cinco anos, sou funcionária do Estado e do Município. Não me lembro de qualquer página anterior nem me preocupam as vindouras. Minha função mais importante é ler o Diário Oficial, ainda que atenda também à portaria, ao telefone. Trabalho doze horas por dia, com duas de intervalo para o almoço, incluindo o tempo para me locomover entre ambas as repartições. Faço plantão um sábado por mês. Estou tranqüila, porque não há incompatibilidade entre os cargos que ocupo, afinal é preciso viver sempre dentro da Lei. Qualquer dúvida quanto a nomeações, demissões, promoções, cursos de reciclagem, qualidade total, decretos do Prefeito e do Governador, aposentadorias, inquéritos administrativos, é comigo mesma. Todos dizem que tenho excelente caligrafia. Por sinal, devo tirar um abono amanhã, para ir ao oculista.”

                    Uma pena que Gogol já tenha escrito a tua história, com o elemento fantástico que, para teu mal, talvez jamais chegues a experimentar.

                   Este parece um cientista-mirim. Doze anos, no máximo, e também usa óculos.

                   “Não estou aqui por minha causa, mas por causa do meu pai. Para facilitar-me as pesquisas, solicitei-lhe a compra de um computador. Ele assim o fez e tudo ia bem até que me pediu umas aulas para, segundo suas próprias palavras, “aposentar a velha máquina de escrever”. Sou filho temporão, meu pai tem sessenta e nove, é professor aposentado há muitos anos e, de uns meses para cá, começou a escrever crônicas. Já lhe dou aulas há uma semana e o velho ainda apresenta dificuldades para movimentar o mouse, quanto mais para digitar e salvar textos no Word. Descobriu que não tem controle motor e está com um terrível complexo de inferioridade. Quero muito ajudar meu pai, senhores, mas confesso que não sei bem o que fazer.”

                   Já este outro deve ser vendedor, talvez pela maleta, quem sabe pela precisão dos gestos e do olhar, que parece dirigir-se a todos e a cada um ao mesmo tempo. Também pode ser político.

                   “Há uma coisa que não consigo compreender e que me incomoda diariamente nas livrarias aonde vou por necessidade de ofício. Por que o formato dos livros continua retangular, desde o tempo de Gutenberg? Por que não pode haver livros redondos? Na literatura infantil até que venho observando algumas tentativas de inovação, mas na literatura para adultos… E agora, com bibliotecas inteiras à disposição via Internet, meu sonho parece de vez impossível, porque as telas dos computadores são tão quadradas – permitam-me o desvio conceitual – tão quadradas quanto a tela da TV. Num mundo onde todas as rodas são redondas, por que tudo se torna cada vez mais quadrado, a começar pelos livros?”

                   Ninguém arrisca resposta para sua inalienável questão.

                   Carlos intervém:

                    - Alguém gostaria de fazer o último depoimento de hoje, antes do intervalo para o café?

                   O rapaz alto e magro, cabelos negros e desgrenhados, fica em silêncio nos olhando… nos olhando…

                   “Eu já fui poeta…” e abarca toda a sala com expressão do mais absoluto desamparo.

 

 

 

                   Tento me aproximar da garota cujos presentes não podem ser abertos, é impossível. Vários sujeitos esparsos têm a mesma idéia e chegam primeiro. Ocorre-me que, há dez anos, jamais teria perdido uma corrida dessas. Agora cinco metros e com barreiras… Sem outra alternativa, ponho-me a percorrer a multiplicidade de cabeças, à procura, talvez, dos indivíduos do ônibus. Não os vejo, sua função deve ter sido apenas a de passar a deixa. Quem sabe, foram ao cinema. Só me resta circular pela sala e ouvir as conversas.

                   “… viajou uma semana sem deixar nada na geladeira… nem imagine comigo nas férias passadas… minha namorada tem doze anos e aparelho nos dentes… o tempo parou às seis da tarde durante oito dias… me deixou plantado no meio de uma frase durante um mês… ainda não sei o que fui fazer em Paris… será que esses encontros vão ajudar mesmo… esperar… esperar… esperar… nenhuma brisa… nada… ninguém… a terra é de todos… esse é papo do sem-terra… e se ficarem sabendo… claro que já sabem… deve haver vários aqui… aquele de paletó marrom parece um deles… as últimas estatísticas… filial em Nova Iorque… não gosto do modo como venho falando… ele ainda não percebeu… o meu anda meio cismado… já chegamos à nona página… ainda não sei a cor dos meus olhos… reparou Roberto, tudo parece coisa do mesmo autor, com alguma leitura mas iniciante, sem dúvida. Artur, se surgissem de novo um Quincas Berro D’Água, um Augusto Matraga, um Rosendo Juárez, uma Bola de Sebo… você concorda que prefeririam permanecer para sempre onde estão?”

                   Atraído por estas frases completas em tal contexto, custo a lhes compreender o significado, assim como a natureza dos indivíduos que as acabam de pronunciar. Assombra-me minha lentidão. Como se puderam fundir tão rápido os dois mundos dentro de mim? A colocação desse Roberto… Se eu estivesse inserido em uma estrutura perfeita, de linguagem sem fraquezas nem balbucios, toda plena de si mesma e contendo cada um dos meus pensamentos, atos, fatos, ainda que terríveis, até mesmo mortais e assim, completo, me tornasse para sempre conhecido, sem a necessidade de qualquer gesto autônomo, desde a primeira página até a última, preferiria abdicar de tal paraíso por destino ignoto? Agora, se eu fosse apenas um esboço… o papel abortado, no saco de lixo, faria a tentativa de existir pelo meu próprio esforço, no mundo exterior dos homens, até a vala onde todos as coisas e seres formam o mesmo húmus.

                   Acordo para o vazio ao redor. Todos já voltaram para o auditório.

                   Certa vez, há mais de vinte anos, publiquei um livro de contos. Depois, foram infinitas noites sem dormir, porque era um livro ruim, demasiado ruim. A partir daí, nunca mais ousei mostrar qualquer palavra a ninguém, apesar dos textos se acumulando nas gavetas.

                   Acabo de sair da Associação de Personagens de Contos Anônimos. Saio, felizmente ileso, na verdade menos do que desejava. Ocorre-me, por acréscimo, que ainda venha responder a processo pela apropriação indébita de uma sigla, o título deste conto (?) fato do qual acabo de me dar conta. A gargalhada pelo trocadilho idiota espanta as pessoas na calçada. Será que há algo mais importante no mundo do que diverti-las por um momento?

 

 

 

 

                   Olhos cor-de-outono, mini-saia, meias pretas, batom e unhas vermelhas. O acaso fez com que a reencontrasse alguns meses depois, já nem me lembrava mais daquele conto. Laura é muito mais do que um esboço, é a criatura que pretendo manter a meu lado e, para isso, só lhe dou presentes ao natural, exatamente como se mostram nas vitrines das lojas, nas prateleiras das livrarias, nas bombonières, onde quer que estejam, límpidos, lúcidos e nus de qualquer invólucro. Afinal, apenas eu conheço o único modo de torná-la feliz.

A FRAUDE NA EDUCAÇÃO por walmor marcellino

 

 

DÉFICIT EDUCACIONAL

Enquanto a prefeitura de Curitiba e o governo do Estado apostam políticas eleitorais sobre a eficácia de seu sistema de ensino e a eficiência de sua preparação pedagógica, a tragédia da educação continua à vista. Anísio Teixeira e Paulo Freire ficariam horrorizados com as pedagogias usadas em seu nome.

Em primeiro lugar, agrupamentos de 10 até o máximo de 30 crianças e adolescentes é o recomendado para uma sala de aula, para que o processo de ensino seja eficiente, supondo que o(a) professor(a) seja efetivamente habilitado(a) (e comprometido(a)) com sua escolha e adesão profissionais. E isso seria apenas o começo de uma solução educacional. (Nas escolas particulares e nas classes ricas, o critério seria nada menos do que o preço.)

Todavia, nem as políticas públicas nem os sistemas de ensino e formação (educação) conseguem equacionar esse número “funcional” de estudantes numa sala de aula; porém assim mesmo reconhecem que o coletivo de alunos numa sala deve ser proporcional a suas condições culturais, psicológicas e de capacidade de atenção-concentração (vale dizer, quanto mais pobre e “desassistido” ou sem recursos culturais e estabilidade emocional, maior atenção e menor deve ser o grupo discente para obter mais atenção pedagógica. E isso nega essa massificação de que “há escolas para todos”!). Mas eles não “conseguem equacionar” essa questão elementar, porque preferem a propaganda de que a UNESCO lhes reconhece o esforço (não a solução, mesmo porque as políticas da UNESCO são políticas de “boa-vontade” e estímulos).

Assim, secretários e assessores comissionados no geral não passam de pelegos oportunistas que, a serviço das autoridades que os nomearam, mentem para a população sobre a educação que lhe é oferecida e fingem preocupação com o sistema educacional, com as condições técnicas de ensino e com a preparação e eficiência dos professores e da sua burocracia política, pretendendo assim justificar essa sua formidável propaganda enganosa.

 

UM OLHAR NO ESPELHO poema de leonardo meimes

 

Não suporto um olhar no espelho.

Me aterroriza a expressão

Plácida e ao mesmo tempo mórbida

Que me acomete

 

Como mantenho esta face angelical

Sendo que, pouca fama

Têm minhas ações mais perversas,

Minha intro-perversidade?

Sois vil, vil, vil!

 

Refletindo agora percebo

O quanto sou vil.

Percebo a malícia perene,

A cadência intrigante

De meus pensamentos mais

ridículos

 

Brincas com sentimentos?

Brincas com as dificuldades?

Brincas com a ignorância?

SIM, sim, sim

 

Quase me quebro no espelho

Por não querer beijá-lo.

Eis uma aversão a mim mesmo

Aversão mais perigosa

 

Abre-se a notória realidade

Cai em meu colo como um fado

Não aquele que soa lindo e triste

E sim o que pronuncia o oráculo

Que sela o destino

E termina em fatalidade.

BOCETA e EDUCAÇÃO por joão batista do lago


 

 

 

Pois é… Taí uma solução para a “solução” da Educação!

Claro, os moralistas de primeira hora… de primeira ordem; as beatas e os “ministros”; padres e pastores; igrejas e botecos da fé dita cristã; poetas e escritores da ética almofadada; senhoras e moçoilas moralistas da sociedade desvirginada; pais e irmãos, motores do sexo capital ou do capitalismo sexual – vão se indignar com a moça que está oferendo a boceta – a nossa xana ou xoxota querida – por 1 milhão de dólares.

 

Natalie Dylan, pseudônimo utilizado pela última virgem – possivelmente! – do século XXI, tem 22 aninhos. E este fato tem uma importância fundamental, melhor dizendo, tem dois enunciados [entre outros] “históricos”: 1) ajuda a construir o discurso do feminismo no sentido de que a mulher é dona total e absoluta do seu corpo e pode dele fazer o que se lha dê na telha; 2) ajuda a desconstruir o discurso religioso e político de tez moralista, que pretende o corpo da mulher como propriedade – seja de igrejas, seja de estados nacionais.

 

Mas, como sou um curioso inveterado, penso cá com meu botões! E bem ou mal chego a uma inferição hipotética: esse “objeto de desejo”, a boceta, seria o significado mais forte do Capitalismo… De uma tipologia de “capitalismo selvagem”, segundo conceito de alguns estudiosos… Ao mesmo tempo fico imaginando: como seria uma campanha publicitária para “vender” esse produto, fonte de desejo de [alguns!] homens e mulheres? Não lhes tirarei a primazia e o privilégio da criação. Eu, cá, tenho já as minhas imagens! Inclusive o slogan do discurso da campanha…

 

Mas, outra coisa está zunindo no meu ouvido: será que no Brasil encontraríamos esse produto? Digo, uma jovem de 22 anos virgem?! Será! Tenho cá minhas dúvidas! Mas consideremos que exista: como reagiria a tal campanha um país que tem para além de 70% de católicos? Como reagiria um país, com mais de 80% de população cristã? Qual seria o enunciado discursivo para implementar uma campanha publicitária que visasse vender uma “xana” virgem? Onde estaria a concentração dessas “xoxotas”, nas jovens negras ou nas jovens brancas? Qual o mercado potencial? Qual o mercado real? Enfim… Quem mais “comeria” essas bocetas: homens ou mulheres? Aqui também não lhes privarei da primazia e do privilégio de suas respostas.

 

Bem, para terminar esta prosa informo a quem mais interesse houver sobre este produto que a notícia foi divulgada ontem pela Agência Reuters, desde Los Angeles, Estados Unidos da América.

AZUL NOTURNO poema de bárbara lia

O anjo louco do casario deserto.
Era invisível feito música.
De noite subia na árvore.
De dia descia ao poço.

A voz – imã de luz.
O perfume – avenca suave.
A sombra – azul noturno.
O olhar de mar – salgado.

Anjo sem céu.
Anjo da terra.
Enlouquecido
de som e luz.

PATRICK – por hamilton alves

- Moço, quer comprar uma toalhinha? – aproximou-se de mim, que saía de um supermercado, um garoto simpático de mais ou menos onze anos.

                                   - Toalhinha?! Peraí, vou ver se encontro uns trocados…

                                   - Tenho que levar alguma coisa de comer para casa…

                                   - Você não tem pai? Não tem mãe?

                                   - Não.

                                   - O que é feito deles?

                                   - Morreram…

                                    - De que?

                                   - O pai era pintor e caiu de um telhado. A mãe de operação de uma hérnia.                     

                                   - Quem cuida de você?

                                   - Minha avó.

                                   - Você tem irmãos?

                                   - Tenho mais cinco; seis comigo. Cinco meninos e uma menina.

                                   - Você é o mais velho?

                                   - Sim.

                                   - Você estuda?

                                   - Sim.

                                   - Onde você mora com sua avó?

                                   - Em Palhoça. Todos os dias vimos para cá para tentar conseguir dinheiro.

                                   - Como é que vêm.

                                   - De ônibus.

                                   - Vocês pagam o ônibus ou vêm de carona?

                                   - Às vezes, o cobrador nos deixa sem pagar, às vezes não.

                                    - E, quando é o caso de pagar, como fazem?                       

                                   - A gente dá um jeito.

                                   - Que jeito?

                                   - Vem-se a pé?

                                   - A pé?! Numa distância dessas?!

                                   - Nossa casa é perto de São José, não é muito longe.

                                   - Se fosse o caso de querer ficar com você ou levá-lo para a minha casa para lhe cuidar, toparia?          

                                   - Tenho minha avó, gosto muito dela, não quero ficar sem minha avó.

                                   - Tudo bem.

                                   - O senhor não vai levar a toalhinha?

                                   - Não, tente vendê-la à outra pessoa. (Já lhe tinha dado uma boa grana).

                                   - Obrigado.

                                   Seu nome é Patrick, um garoto de onze anos aproximadamente, que já conhece tanta adversidade: sem pais, com cinco irmãos, lutando de forma brutal para sobreviver.

                                   Quantos Patrick vivem em condições semelhantes sem que nos demos conta?

                                   Sumiu rapidamente de meus olhos, sem muita esperança de conseguir mais alguns trocados para levar comida para casa. Até aquela altura, disse-me que não tinha comido nada. Era perto de três horas da tarde.

                                   Que destino estará reservado para Patrick e seus cinco irmãos?

                                   

Riu, mas agora rui a plutocracia – por alceu sperança


 

Costumamos pensar que o Brasil está caído num “mar de lama” e o restante do mundo vive no bem-bom do crime punido e da prosperidade. Mas a incompetência do governo norte-americano para dar uma pronta resposta ao drama de seus excluídos, como se viu no episódio do furacão Katrina, já havia mostrado algo mais além do jardim.

Os espantosos exemplos de gastos fantásticos em guerras e conflitos são coisas corruptas. A vitória do narcotráfico é coisa corrupta. A facilidade para formar de quadrilhas para assaltar o erário é coisa corrupta. Isso acontece agora mesmo em todo o mundo e nem sempre chega ao conhecimento da nossa população mais humilde. Esta, na sua santa ingenuidade, acredita aquele vereador parlapatão e aquele prefeito atrapalhado pela parentada o máximo em matéria de crime contra a humanidade. A raiz de tudo isso é, na verdade, o capitalismo, mãe prolífica das crises e da corrupção.

Vejamos o caso recente da Ucrânia para tecer algumas confrontações com a “lama” brasileira. A querida Ucrânia, que nos deu tantas e tão prezadas famílias, bases para o atual desenvolvimento do Paraná, também não merecia isso. Se no Brasil, digamos, formou-se um governo de “trabalhadores” (esse negócio de “trabalhismo” dar zebra é coisa velha, nem surpreende mais), na Ucrânia se formou um governo de ricos. No país eslavo, os Daniel Dantas e os Marcos Valério da vida não se limitaram a financiar campanhas, mas assumiram eles mesmos o governo e ministérios.

No Brasil foi organizada uma estrutura de poder de pobres trapalhões como Delúbio e Silvinho, financiada por esquemas milionários para servir às suas ambições de poder. Já na Ucrânia os ricos dispensaram os títeres e eles mesmos foram mamar direto nas mirradas tetas do erário. Nos dois casos, as denúncias de corrupção se evidenciaram meras conseqüências das facilidades com que corruptores e corruptos agem. No Brasil, foi pago o tal “mensalão” (na verdade apenas uma variação do conhecido caixa 2 de campanha eleitoral) para garantir o apoio dos políticos à sustentação de uma ruinosa política econômica, fundada no desumano neoliberalismo. Na Ucrânia, os ricos pagaram a eleição e assumiram diretamente as rédeas do governo, sem precisar de intermediários.

O “Correio” da Ucrânia foi a estrutura alfandegária. Vários funcionários do governo dos ricos apareceram envolvidos em “operações corruptas” apuradas pela polícia. Começava a ruir naquele momento o governo da primeira ministra Yulia Tymoshenko, a “heroína da Revolução Laranja”, operação milionária que levou ao poder o presidente Viktor Yuschenko. A “Revolução Laranja” foi vendida como a redenção definitiva da Ucrânia: agora estava escorraçada do poder a “raça” dos pobres, com sua mania de querer um governo para o conjunto da sociedade.

Acreditava-se que a falastrona e bilionária primeira ministra não roubaria e não deixaria roubar, como se diz por aqui, e deu no que deu. Como uma espécie de Jânio Quadros de saias, Dona Bilionária foi demitida depois de sete meses de governo em meio ao fragoroso desmonte de um esquema de corrupção engendrado por funcionários de alto coturno do “revolucionário” governo “laranja” ucraniano.

Por falar em laranja, vamos agora abrir espaço para uma receita de culinária. Não tema: não é a volta da censura.

Ponha na mesma panela democracia, liberdade de imprensa e uma pitada de vergonha na cara. Aí achará, apurando o caldo, aquele homem público que facilitou o enriquecimento de empresas prestadoras de serviço ao Estado. Ao ser posto em pratos limpos, adicione o molho: a investigação de quem colaborou com a ponta corrompida e a ponta corruptora, ou seja, os ingredientes responsáveis por decisões, pareceres, juízos e iniciativas de leis, atos ou contratos administrativos que favoreceram esses interesses. Aí é só servir ao xilindró.

O importante é que, seja rico ou seja pobre, o corrupto receba o fuzilamento que bem merece − moral, é claro. Não ouso pensar em nada mais “radical”, como aquilo que habitualmente se faz com os pobres-diabos ladrões de galinha.

 

 

Alceu A. Sperança – escritor

RUMOREJANDO (Mudança da maior potência do planeta. Esperando) por josé zokner (juca)

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I (Conto mobiliário, curto, pseudo-infantil).

Ela comeu com sofreguidão uva de mesa no colo do namorado, este sentado numa cadeira. Aí ela terminou de comer na cama e eles, depois da comilança, viveram felizes para sempre…

Constatação II

Não se pode confundir pulha com pilha, muito embora quem é pulha sempre pilha os cofres públicos, privados e outros menos cotados. A recíproca não é necessariamente verdadeira, até porque os eleitores brasileiros ficam uma pilha de nervos em ver o número de pulhas que vicejam por aí…

Constatação III

E como poetava o convencido, nosso velho conhecido:

“Ser cobiçado

Ser desejado

Pelas mulheres,

Aqui em Curitiba

Ou seja, lá onde for,

Não precisou ser

Meu desiderato.

Portanto,

Por favor,

De pitibiriba,

Neres.

Pelo menos,

Por enquanto…

Sempre foi de somenos

Importância tal.

Eu nunca fiquei

Estupefato

Com esse ato

Cortejador,

Também

Não prestei

Muita atenção

E deixei,

Simplesmente,

A elas, mais de cem,

A decisão,

A postura opcional

E tudo acontecer

De modo natural,

Essencialmente

Como sempre normal

Tão-somente”.

Constatação IV

Rico tem impressora a laser; pobre, papel carbono; quando muda o salário mínimo, mimeógrafo a álcool.

Constatação V

Uma das obviedades e vade-mécum de quem quer tirar proveito em tudo: “O negócio é sempre ser amigo do rei que esteja, naquele momento, reinando”.

Constatação VI

Pra quem está pensando em investir pra tocar seu próprio negócio Rumorejando, face os tempos novos, sugere os seguintes ramos com o mercado em franca expansão: coletes a prova de bala, alarmes para carros e casas, grades de proteção, cerca elétrica, firmas de segurança de outras firmas de segurança e assim por diante. De nada!

Constatação VII

Não se pode confundir carreata com careta, até porque, dependendo quais eleitores estiverem participando da carreata e a gente for do outro candidato a gente não vai deixar de fazer uma careta, caramunha, carantonha, esgar, momice, trejeito. Tudo de desprezo. A recíproca não é verdadeira, porque pode ser uma carreata que mereça da nossa parte um simples muxoxo.

Constatação VIII

Rico é empírico; pobre, nunca leu um livro na vida.

Constatação IX

Deu na mídia: “Homem preso no Egito por propor troca de esposas na internet

A polícia ordenou a detenção durante quatro dias do funcionário, acusado de apologia da libertinagem”. Data vênia, como diriam nossos juristas, mas pelo jeito a polícia egipcia ainda não ouviu falar em swing…

Constatação X (Teoria da Relatividada para principiantes corinthianos).

É muito melhor estar entre os quatro primeiros na segundona do que entre os quatrro últimos na primeirona.

Constatação XI (Teoria da relatividade para principiantes paranistas).

É muito melhor estar entre os quatro primeiros da terceirona (Valha-me, meu time), do que entre os quatro últimos da segundona.

Constatação XII (De uma dúvida crucial).

Será que a linha do Equador, com esse aquecimento global, ficou desalinhada? Quem souber a resposta, por favor, enviar correspondência para o e-mail desse assim chamado escriba ou através do blog http://rimasprimas.blogspot.com

Constatação XIII

O que se vê,

Hoje em dia,

Na TV

Homem chorando

Não tá escrito por aí

Tampouco no gibi.

Antes não se via.

Estão desmistificando,

O dito do Martinho

Que homem não chora

Quando a mulher

Vai embora.

Ninguém quer ficar sozinho

Nem um minuto sequer.

Constatação XIV (De conselhos úteis).

Se você é vegetariano, ou adepto da comida macrobiótica, não faça proselitismo disso, pois todo proselitista é um chato. Quando não, um cricri. De nada!

Constatação XV

Tá na hora de eliminar a reversão à esquerda, em Curitiba. E para não haver excesso de velocidade nas ruas de sentido único, lombada e lambada de multa aos mais apressados. E já que estamos falando de assuntos de nossa cidade, quem deveria controlar os decibéis, já que parece que ninguém controla.? Quem souber a resposta, etc., etc.

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