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AUTORRETRATO de joão batista do lago / são luis.ma

Como se me parece

Cansativa

Esta caminhada solitariamente

Só com o sol na cabeça

Varando estradas pelas madrugadas

.

Como se me parecem longas

Estradas de precipícios

Entre montanhas de espíritos

Que uivam como lobos de florestas

Encarnadas nas almas dos humanos

.

Como se me parece

Eu

Tristonhos e acabrunhados

Entre sarjetas viscerais

Que promulgam o advento da passagem

.

Como se me parecem

Tudo e todos

Diante do altar dos condenados

À espera da santa hóstia

Que nos conduzirão aos infernos

.

Como se me pareceram

Pedro e Madalena

Diante do sagrado

Prostrados à cruz

O beijo do escárnio final

CLAMOR de joão batista do lago / são luis.ma

( Dedicado ao poeta russo  Maiakóvski)

.

Estranhamente acordo pensando Maiakóvsky!

Coisa estranha!

Ou talvez nem tão estranha assim!

Sinto-o dentro da minha carne

Como alma prenhe de versos inacabados…

Por onde andas, ó grande irmão?

Por que te fostes me deixando tão só?

Sinto tua presença nos meus versos

Eles são tão angustiados quanto os teus:

“Levantei-me como um atleta,
levei-o como um acrobata,
como se levam os candidatos ao comício,
como nas aldeias se toca a rebate
nos dias de incêndio.
Clamava:
“Aqui está, aqui! Tomai-o!”
Quando este corpanzil se punha a uivar,
as donas
disparando
pelo pó, pelo barro ou pela neve,
como um foguete fugiam de mim.
– “Para nós, algo um tanto menor,
algo assim como um tango…”
Não posso levá-lo
e carrego meu fardo.
Quero arremessá-lo fora
e sei, não o farei.
Os arcos de minhas costelas não resistem.
Sob a pressão
range a caixa torácica.”

Eis-me, aqui, personagem da tua poética

Carregando o meu velho fardo:

Agonia que não me transcende

Que não me permite arremessá-lo

Para além da minha caixa torácica

A pressão de me viver é tanta e quanta

Tanto e quanto é o desejo de me arremessar

No vazio da eternidade profana

Onde poderíamos fazer um poema universal

Próprio do mundo imaterial, mas sem os valores espirituais das seitas

Garbo, assim, ó grande irmão

Nas fileiras de homens sem hoste. Sem coração.

De homens condenados a inanição

De gentes que rangem entre costelas

A falta do emprego que lhe garanta o pão

(- “Para nós, algo um tanto menor,
algo assim como um tango…”)

EU e os GREGOS por joão batista do lago / são luis.ma

A senhora pergunta, sob o meu ponto de vista “(caso a vida continuasse após a morte do corpo)”, que destino eu daria:

1) Ao Sócrates Histórico?;
2) Ao Sócrates de Xenofonte?;
3) Ao Sócrates de Platão?;
4) Ao Sócrates de Aristóteles?

“- Não lhes daria nenhum destino.”

Mas esta resposta é por demais simplória, e não abarca, ou seja, não contempla a excelsa sabedoria introjetada em vosso argumento (segundo minha visão). No seu parêntesis estão contidos já três temas fenomênicos fundamentais JOÃO BATISTA 002para a história do pensamento, para a filosofia e para a história da formação do humano, assim como das espécies: Vida, Morte e Corpo.

“EU”, não acredito na morte, do que quer que seja. Mas, ao inferir este brocardo, ocorre-me um fluir paradoxal, isto é, sou, pelo senso comum, assim como pelo senso intelectual, dos quais sou construído, condicionado a pensar no contrário da “Morte”, ou seja, na “Vida”. E, ao pensar na Vida, ocorre-me um novo paradoxo: o Corpo. Eis, aqui, um “João Poeta” totalmente agrilhoado. Preso ao “MEU” desconhecimento, à “MINHA” não-sabedoria.
Mas, como sou anti-humano, por demais anti-humano, e penso, anti-humano “despertado” e “desperto”; inquietado com a “MINHA” ignorância, e ansioso para alcançar a “MINHA” Sabedoria, não canso em buscar aprender, e apreender, sobre essas questões metafísicas, uma razão racional tendo como laboratório de análise, estudo e pesquisa o meu próprio “EU”. E, em razão disso, questiono-me, desde que me considerei desperto, respostas para fenômenos como esses que a senhora se me remete.

Para justificar a minha não-crença na Morte, tomo, por empréstimo, o pensamento de Arthur Schopenhauer (1788-1860), pensamento que também foi emprestado por Friedrich Nietzsche (1844-1900): tudo que sabemos do mundo é puro fenômeno, ou seja, aparência, ilusão, fantasia; qualquer objeto de conhecimento é sempre condicionado ou, melhor, “DETERMINADO”, pelos esquemas radicados na mente do sujeito cognoscitivo: o espaço, o tempo, a relação de causa e efeito…; Isso significa que é sempre e essencialmente uma construção mental, uma representação…; Todas as nossas convicções são subjetivas, pois, não existe objetividade, nem mesmo no campo científico, e o mundo inteiro no seu conjunto, mesmo que nos pareça estável, real e independente de nós, é somente uma totalidade de representações mentais pessoais.

(*****)

Portanto, minha prezadíssima filósofa, penso que a Morte, assim como a Vida, são representações mentais. Assim sendo, “EU”, não tenho como “destinar” nenhum dos “Sócrates” para “destino” quaisquer. O “destino” não passa de representação individual da mente do humano. Mas é interessante perceber-se, no interior da sua questão, a existência desse fenômeno: o corpo.

Qual daqueles “Sócrates” (inclusive o de Alighieri, como refere a senhora) tem um Corpo? E o que é Corpo? E na possibilidade da existência de um Corpo, de que matéria são compostos esses corpos? Como e de que forma se pode ter consciência sobre a existência de Corpo naqueles “Sócrates”? Qual matéria constitui o corpo do “Sócrates de (…)”, que “com certeza perambularia por toda a eternidade através do planeta, conhecendo povos e épocas diferentes?”

(*****)

E agora invertamos os papéis: e se a esta nossa existência, deste aqui e agora, chamássemos Morte, e depois do desaparecimento do corpo a concebêssemos como Vida? Porventura não continuariam sendo apenas representações fenomênicas, isto é, representação mental individual de cada humano?

(*****)

E quanto ao corpo, vejamos o que diz Schopenhauer: que cada um é capaz de conhecer apenas “UM” objeto, somente “UM” no universo inteiro, em toda a sua objetivação e realidade efetiva. Esse objeto é o “NOSSO” corpo. Porventura não é a única “coisa” fenomênica que realmente percebemos, ou seja, que não percebemos por meio dos sentidos?
Ser; Ser-si; Sentir-se um corpo vivente é, para “NÓS”, o único conhecimento númeno possível, isto é, verdadeiro, essencial, objetivo, não fenomênico.

(*****)

Contudo, além de todas essas razões que apontei aqui e agora, lógico, partindo do pensamento de Schopenhauer, no qual acredito e, portanto, tomo-o como a “MINHA” verdade fenomênica, há, ainda, em sua questão, um fenômeno que subjaz, que está envolto por uma obscuridade apolínea, mas que a contesto dentro de uma concepção dionisíaca: a existência da “alma” que perambula.

(*****)

Se, porventura, “EU” destinasse para algum lugar, quaisquer daqueles “Sócrates” [inclusive o Sócrates de Alighieri, assim como o Sócrates de (...)], “EU” estaria pressupondo a existência de um outro ser ou de uma outra entidade: a alma, o que, por inferência lógica, com base numa tipologia de intuicionismo ou, quando muito, estabelecida a partir de uma teoria empirista da metempsicose, teria uma forma, ou seja, acabaria, de alguma maneira, prefigurando a existência de um corpo que “com certeza perambularia por toda a eternidade através do planeta, conhecendo povos e épocas diferentes”, como acredita a filósofa (…).

(*****)

Permita-me, filósofa (…), discordar do vosso aforismo filosófico, mas se porventura entendi errado o vosso pensamento, conceda-me, por gentileza, o dom da vossa correção. De minha parte não acredito na existência de uma alma que vaga mundo afora “conhecendo povos e épocas diferentes”, transmigrando de um corpo para outro após a morte, para novamente se instalar num novo “parto”, ou pairando em algum limbo, que “soi-disant” em humanos adormecidos pela estética do apolíneo. Isto, entretanto, não significa dizer que “EU” esteja com a verdade ou que tenha razão sobre este fenômeno. E, com certeza, provavelmente não estou com a verdade ou com a razão sobre este fenômeno. A verdade e a razão também não passam de representações mentais da mente pessoal.

(*****)

Por sua vez, Dante Alighieri, que não faz parte da história e do pensamento da Filosofia, a não ser sob o aspecto literário, nos remete para o “limbo”, um espaço metafísico ou um provável lugar onde “almas que não puderam escolher a Cristo”, pelo batismo, continuam a experienciar suas vidas após a morte. Devo admitir que esta é um das mais belas criações da literatura universal, e que se junta à “Odisséia” e à “Ilíada”, de Homero, assim como ao “Erga”, de Hesíodo. Não é a-toa que ‘o’ “Dante” da “Divina Comédia” encontra-se no Limbo com ‘o’ “Homero” da mesma obra dantesca, construída em três partes: Inferno, Purgatório e Paraíso.

Não seria isso tudo, pois, a representação mental fenomênica de Alighieri? E o que são o Inferno, o Purgatório e o Paraíso se não representações mentais fenomênicas? Podemos assinalar que Alighieri, nesta obra, em que pese toda a sua beleza, a sua plasticidade, a sua estética enfim, é um “ser adormecido”? Porventura a sua obra não foi criada para “(contentar em parte a igreja)”, conforme assinalou a senhora ao criar o tópico em debate?

(*****)

Veja, cara filósofa, o quanto de importância, beleza e profundidade têm o vosso questionamento. E o que se disse até aqui não é sequer um grão de areia nessa imensidão de conhecimento e sabedoria. Talvez não seja nada mesmo! Quem sabe!? Mas o fato é que estamos todos – todos mesmo – imbricados nessa avalancha monolítica do desconhecimento da origem das espécies, assim como do universo, apesar das teorias científicas modernas que nos alentam de conhecimentos racionais e científicos… E ainda sequer falamos de quaisquer dos “Sócrates”: o Histórico, o de Xenofonte, o de Platão e o de Aristóteles.

(*****)

Penso que o maior problema do debate sobre Sócrates reside, fundamentalmente, na dissonância discursiva dos principais discípulos, sobretudo quando falamos do “Sócrates” de Platão ou do “Sócrates” de Xenofonte, ou de ambos simultaneamente. E pior ainda, quando associamos a esses dois o Sócrates Histórico.

(***)

Mas para que possamos falar em (e de) Sócrates é indispensável que lembremos de um autor “maldito”, mas que me é caro e atraente, mesmo que dele discorde em muitas coisas: Friedrich Nietzsche. Sem este autor, quer gostemos ou não do seu pensamento, é quase que impossível, nos dias de hoje, estudarmos a socrática. Senão vejamos: foi a partir do instante em que N. desligara-se do Cristianismo, a partir do instante em que proclamara o advento do super-homem, que Sócrates teve de dar contas do ilimitado poder que desde o início da Idade Moderna exercera, como protótipo da “anima naturaliter christiana”. Somente para se ter como alocução sobre o poder de Sócrates, na Idade Média, veja-se o que o grande humanista da época da Reforma, Erasmo de Roterdam, sentia a respeito do helenista, chegando, inclusive, a incluí-lo entre os seus santos. E orava: “Sancte Socrates, ora pro nobis!”.

Isso, de certa maneira, atravessou os séculos, até que, na tendência anti-socrática de N. renascia, sob nova forma, o velho ódio do humanismo erasmiano contra o humanismo conceptual dos escolásticos. Para N., não era Aristóteles o “Príncipe” da Escolástica, mas o próprio Sócrates era “a autêntica personificação daquela petrificação intelectualista da filosofia escolástica, que durante meio milênio manietava o espírito europeu e cujos últimos rebentos o discípulo de Schopenhauer julgava descortinar nos sistemas teologizantes do chamado idealismo alemão” (Werner Jaeger) [Já na primeira obra de N., Die Geburt der Tragödie aus dem Geist der Musik, manifesta-se o ódio contra Sócrates, convertido pelo autor pura e simplesmente em símbolo de toda a “razão e ciência”. Nesta obra, N. tomava uma decisão interior entre o espírito racional da socrática e a concepção trágica do mundo dos Gregos. Esta mesma formulação do problema só se poderá compreender se o situarmos nos estudos sobre o helenismo que preenchem toda a vida de Nietzsche. Cf. E. SRANGER].

(*****)

Minha Mestra, permita-me fazer, por enquanto, um corte a este meu comentário, que, agora percebo, já se alongou, mas que está distante de sua conclusão.

JOÃO BATISTA DO LAGO jornalista e poeta, COMENTA em “FLORES ROUBADAS DO JARDIM ALHEIO” de ivo barroso / são luis.ma

COMENTÁRIO:

Belíssimo texto.

Belíssima denúncia.

Corajosa reflexão.

Permito-me, neste comentário, reproduzir o seguinte trecho:JOÃO BATISTA 002

“Essa prática inescrupulosa da apropriação de traduções alheias – pela cópia deslavada ou enganosa maquiagem – parece estar se ampliando junto a editores de livros em série ou coleções ditas populares. Há muitos títulos de obras clássicas que circulam por aí que, se examinados com cuidado, revelariam – como um triste palimpsesto – o nome apagado e explorado do tradutor original.”

E por que o reproduzi?(!)

Exatamente para embasar e solidificar este meu comentário que não faz crítica ao tradutor em si, pois este, é filho bizarro da subcultura que se vem propagando sob o patrocínio da pós-modernidade ou de uma modernidade tardia.

Minha crítica tem endereço certo: a indústria cultural brasileira (e de resto mundial) que se fundamenta em livreiros que não têm quaisquer compromissos com a “Paidéia”; essa indústria cultural, responsável por um sem-número de títulos imbecis (este não é o caso das Flores do Mal) é quem, de fato, deveria ser condenada e denunciada veementemente – como o fazem aqui o site e o autor do texto – pois, para além do plágio tosco e inculto, produzem uma tipologia de circularismo da circularidade presente de livros e textos de autores consagrados, sobretudo daqueles com mais de 100 anos, para evitar pagar os direitos autorais.

É devido a essa produção daninha – inescrupulosa mesmo! -, dessa tipologia de indústria cultural, desses fornos de subcultura – produto do capital capitalista -, que não vemos nascer novos grandes escritores que vivem condenados ao esquecimento e, possivelmente, suas obras jamais serão conhecidas do grande público.

Paralelamente, o Poder Público, ou seja, o Estado (no caso brasileiro: o Estado Brasileiro) não se tem revelado competente para o estabelecimento de uma política cultural que vislumbre o aparecimento ou a “produção” de uma indústria cultural capaz de revelar os novos atores da literatura nacional ou das belas artes brasileiras.

…E assim ficamos – todos, todos mesmos! – refém de uma produção literária ou de uma indústria cultural incapaz, ineficiente, imbecil, decursiva da idiotia idolatrada pelos senhores donos do capital da subcultura nacional.

Tenham todos um bom dia.

Bem sejam.

.

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DIALÉTICA da SARJETA de joão batista do lago / são luis.ma

As palavras estão nas sarjetas

Escorrem fazendo pequenas ondas

Olas que se confundem em si mesmas

Num breve instante onde o tempo

Disseca o vilipêndio dos discursos

Eivados do niilismo de todas as gentes

.

Quantas elucubrações prestadas

Na divina ceia dos que calam (e)

Não se assemelham na fala

Que veem das poses dos discípulos

Instalados nos púlpitos dos poderosos

Bem-aventurados do verbo-nada

.

Há que se juntar cada palavra

Arrastada pela lama que corre nas veias das cidades

Já transformadas em antros de sacerdotes podres

Que uivam versículos num latido frenético dos mercados

Onde um só deus assassina santos e demônios

Para consumi-los como hóstia do deus-mercado

SENTADO À SALA DOS SUICÍDIOS de joão batista do lago / são luis.ma

Sentado à sala dos suicídios

Revi-os todos. Um por um.

De nenhum deles quero renascer!

Sentado sobre minhas tumbas

Assisto o desfile das carcaças

Condenadas à morte

.

Outrora, quando me era folião

Entrudo dos carnavais da vida

Sentia o gosto do mel

Agora, da corte do meu patíbulo

Vejo a sangria de cada ferida

Cantando loas, aos condenados, em vida

.

Já não me aquece o desespero de tê-la

Como dantes se fizera precoce:

Modelo que não sabia morrê-la…

Hoje desfilo todos os meus suicídios

Gerados na sacristia das minhas angústias (e)

Aplaudo com carinho todos os meus dissídios

.

Deem-me férias, pois, todos os deuses

Sacripantas que açulam pretendidos e puritanos e damagogos

Deixem-me suicidado diante de vossos cadafalsos

Aliterem-me como a miudeza dos pingos das chuvas

Como o eco de todas as dores do mundo…

Mas deixem-me sentado à sala dos suicídios

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