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LULA LÁ ou LULA CÁ por walmor marcellino

ME EXPLIQUEM

Antes da atual depressão capitalista eu já não entendia dos mistérios do Estado dominado e dirigido pelo capitalismo. Depois, com a turvação das diretrizes neoliberais do Brasil, juntamente com outros “nacionalismos” com “democratizações” na América Latina, acreditamos que haveria mudanças significativas no aparelho de Estado, que então passaria a agir pelo menos em busca de um equilíbrio entre as classes sociais produtoras: os produtores diretos seriam ressarcidos da “produtividade extraordinária da mais valia” e dos confiscos públicos que tributam as avenças do trabalho mais do que ao capital.

Vimos a crise e a exposição de fraudes especulativas nas finanças reais e virtuais. E, desde aí, o falecido Lord Keynes foi chamado para ostensivamente salvar o capitalismo especulativo com os recursos públicos de Estado (afinal, especular é sua condição essencial de crescimento!), a pretexto de que estariam salvando a nação e seu sistema produtivo e a própria vida das pessoas; e não só os míseros acionistas classe-média do sistema especulativo das bolsas e de outras instituições financeiras.

Que os 7, 8 ou 20 países capitalistas “desenvolvidos” às custas da espoliação do trabalho e da apropriação do Estado “de bem ou mal-estar social” queiram remir seus déficits, “quebras”, perdas e prejuízos tidos na aventura do roubo e do lucro não é motivo de surpresa. Mas que os governos social-democratas ou democrata-sociais subdesenvolvidos entreguem as classes sociais subalternas para que os Guido Mântega‑Henrique Meirelles e seus tecnocratas desfaçam os últimos laços econômico-políticos do resgate sociopolítico do povo brasileiro é muito mais que um abuso e uma afronta.

Além da retórica bravateira de governo no próprio ato de “salvaguardar” os meios e interesses financeiros e especulativos das casas de crédito e de afiançar aos exportadores e às empresas de obras públicas que o espetáculo vai continuar, o que ficou acordado com as classes trabalhadoras e o sistema da produção de alimentos para a mesa nacional? (As garantias sociais do trabalho e da produção?)

Assusta-me que a “causa nacional do governo Lula” tenha um Brasil do capital e não do trabalho e a “causa democrática do petismo lulista” preconize que as instituições servem ao capital, como o “capital serviria a todos nós”. E foi para isso que nos vem convocando a representação democrática dos interesses nacionais?.

Curitiba, 20/10/2008

 

COMO MELHORAR o ENSINO do PORTUGUÊS por vicente martins


 

No presente artigo, oferecemos uma proposta de quatro oficinas ou encontros pedagógicos para a melhoria do Ensino do Português na Escola, especialmente o Ensino Fundamental. Tomaremos como paradigma para ação pedagógica a contribuição da Lingüística, Psicolingüística e Psicologia Cognitiva. As sugestões a seguir podem ser aplicadas ao próprio ambiente de trabalho, isto é, na escola e em serviço, reunindo professores-formadores e professores em formação contínua ou continuada.

O primeiro passo dos docentes é considerar a proposta pedagógica da escola para o ensino Fundamental. Assim, pertinente é a realização de uma Oficina de Leitura, Análise e Reestruturação da Grade Curricular da Disciplina Língua Portuguesa no Ensino Fundamental. A oficina  pode ser denominada Como Desenvolver a Capacidade de Ensinar a Língua Portuguesa.

Caberá ao formador dos docentes tomar como parâmetro de estudo as diretrizes estabelecidas pelo MEC/CNE para o Ensino Fundamental, através de documentos específicos (PCN, Resolução, Portaria, por exemplo) sobre o assunto, reestruturando o currículo do Ensino Fundamental, para a discussão com os professores, em três dimensões: a) competências: comunicativa, lingüística e lectoescritora; b) Conteúdos: Fonologia, Ortografia, Morfologia e Sintaxe, com detalhes de assuntos ou tópicos de cada setor de estudo e c) Habilidades Cognitivas e Instrumentais a serem alcançadas no final de cada série. 

A partir das discussões com os professores, os formadores, em geral, observarão que muitos pontos do currículo ainda não são devidamente trabalhados pelos docentes, prática que nos sugere uma formação deficitária dos mesmos.

Os erros ortográficos, por exemplo, ainda são trabalhados, em sala de aula,  de forma tradicional, com punições e atitudes não pedagógicas, não levando o professor, em conta, a contribuição da Lingüística, Psicolingüística e Psicopedagogia na abordagem do ensino-aprendizagem da ortografia. Compreender mais sobre a memória, como as crianças memorizam as formas lingüísticas, é fundamental para um ensino eficaz em sala de aula.

Uma segunda oficina que proponho aqui pode ser denominada Como Desenvolver a Capacidade de Escrever Corretamente. Inicialmente, deve o professor-formador apresentar aos professores os principais teóricos sobre o ensino de Ortografia.

O professor-formador pode começar por oferecer aos docentes em formação, para um tratamento didático sobre a matéria, uma série de exercícios para que os mesmos, a partir das alterações ortográficas, verificadas nos textos escritos dos alunos, possam reverter a situação de disortografia e promover o domínio da língua  na sua variação culta.

Em geral, essa oficina ou encontro vai assinalar a necessidade de uma formação específica dos docentes para o trabalho com a ortografia a partir da produção textual, especialmente tomando a revisão como parte do processo da construção do texto.

Minha terceira idéia é a oficina foi denominada  Como Desenvolver a Capacidade de analisar e refletir sobre a Língua(Gramática). Nas discussões com os professores, percebemos que os mesmos têm a crença de que o domínio da língua culta passa pelo conhecimento gramatical e lingüístico. 

O enfoque do formador deve ser o  de que é responsabilidade da escola o ensino da gramática, o que não significa restrição ao ensino de normas gramaticais, mas uma atitude de mostrar aos alunos que a língua culta, especialmente a gramática normativa, referencia, em nossa sociedade letrada, uma classe social emergente e que é papel da escola pública, municipal ou estadual, oferecer aos educandos competências para aquisição e desenvolvimento da comunicação requerida para uma cidadania ativa.    De modo geral, os professores têm uma forte inclinação ao ensino normativo da língua portuguesa, especialmente as normas extraídas de textos referenciados pela literatura clássica, o que os levará, decerto, a orientá-los à tomada de decisão na escolha de novos paradigmas normativos de uso da língua previstos nos jornais e as revistas de grande circulação nacional e na mídia eletrônica, em especial, a Internet.

 

Por fim, a quarta e última oficina pode ser denominada Como Desenvolver a Capacidade de Leitura e de Produção de Textos(Leitura e Escrita). Esta Oficina mostrará, desde logo, a importância da compreensão leitora, isto é, a compreensão do texto lido, como uma das habilidades mais significativas no processo de formação escolar dos estudantes do Ensino Fundamental.

No tocante ao texto escrito, ao professor-formados caberá a oferta de uma metodologia processual, com base na abordagem cognitiva (Psicolingüística) para que os professores, em formação (e preferencialmente em serviço) trabalhem a produção textual em diferentes fases (planejamento, produção, seleção e organização de idéias, revisão, releitura do texto e edição final), de modo a não se limitar a avaliação do texto para verificação de aprendizagem (atribuição de nota), mas procurando dar um novo destino ou audiência aos mesmos: por exemplo, publicação dos textos dos alunos em jornais locais e na Internet.

 

 

 Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), de Sobral, Estado do Ceará. 

ERA UMA CASA MUITO ENGRAÇADA… por flávio calazans


Fui ao Urugay a convite apresentar minhas pesquisas de tecnologia de ponta  (Semiótica Subliminar e Midiologia subliminar) aplicadas ao Marketing Internacional no “Laboratório de Alta Tecnologia Uruguayo” (LATU), sendo recepcionado no aeroporto de Carrasco-Montevideo pelo senhor P., que trabalha em consultoria de Relações Públicas Internacional, com escritório em New York, um senhor volumoso ítalo-uruguayo que falava um português impecável e com sotaque brasileiro, que diz ter aprendido nas canções de Roberto Carlos, e que conhecia bem “as curvas da estrada de Santos”, onde veraneava quando morou no Brasil.

 

Aproveitei e passei uns dias em Punta del Este ;  uma península, um balneário de altíssimo luxo, com mansões de veraneio de esportistas, artistas, políticos, pecuaristas e latifundiários, hotéis de cinco estrelas com heliporto no teto e cassinos no térreo. Punta está na provincia de Maldonato e tem cerca de 6 mil habitantes, na baixa temporada as lojas estão fechadas , venta muito e faz uma temperatura de oito graus no sol de meio dia!!!.

 

Em Punta Ballena, Urugay, ao lado de Punta Del Este, localiza-se a famosa “CasaPueblo”  construída acompanhando o traçado das rochas do penhasco marítimo, um todo orgânico branco sem linhas retas, irregular e complexa, partes claustrofóbicas e partes ágorafóbicas, lembrando bastante o catalão Gaudi (Sagrada Família) e com “veias” em alto relevo pelas paredes conduzindo encanamento de água e fios elétricos, muito orgânica, biônica, sentí a mesma emoção que quando ví pela primeira vez a “Arquitetura Arquétipa” de Martin e Roger Dean-Inglaterra, anos 70 .

 

CASAPUEBLO começou como um excêntrico ateliêr do artista plástico Carlos Páez Vilaró …pintor, gravador, ceramista, muralista, escultor ,  cineasta, escritor, etc..um artista multimídia que chama casapueblo de “escultura para viver” e a concebeu como um tipo de instalação-intervenção no penhasco rochoso no qual foi crescendo espontaneamente por mais de 30 anos e continua sendo construída pelo forte Vilaró nascido em 1923 com 71 anos que passou por mim apressado e cheio de vigor com passos largos e estrondosos, semblante sério, mas de bem com a vida com seus olhos brilhantes de artista realizado .

 

O poeta brasileiro Vinícius de Moraes dizia que casapueblo era um labirinto grego , uma vez dentro não de sabe se está entrando ou saindo ; Vinícius compôs o hino de casapueblo:

 

Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada. Ninguém podia entrar nela, porque na casa não tinha chão. Ninguém podia dormir na rede, porque na casa não tinha parede. Ninguém podia fazer pipi, porque penico não tinha alí,… mas era feita com pororó, era a casa de Vilaró “

 

Depois, Vinícius adaptou a canção e lançou no Brasil..é um prazer descobrir aqui sua origem..

 

Horacio Guarany também o cita em uma canção: “Remontando un barrilete, que quiso llegar al cielo, Carlos Paez Vilaró, contruyó su CasaPueblo”

 

 

Cada personalidade que visitou CasaPueblo teve um quarto com banheiro  construído para sua estadia :  Robert de Niro, Omar Sharif, Brigite Bardot , Che Guevara, Carlos Menem, Tony Curtis, Ivo Pitangui, João Gulart, Toquinho e Vinícis,  Patrick (filho de Jonh Wayne) e Anthony (filho de Alain Delon)  etc..no que hoje é um hotel internacional com mais de cem quartos e sempre crescendo.

 

Em 1972 um dos filhos de Vilaró estava no avião que caiu no Chile, na cordilheira dos andes, quando por meses tiveram que comer carne humana, e Vilaró escreveu um livro sobre seu drama de pai, a foto do reencontro é a capa deste best-seller que virou um filme de hollywood-USA.

 

Visitando brasília em construção, Carlos Paez Vilaró escreveu um livro sobre ela e criou sua casapueblo sem linhas retas para ser mais humana, uma ANTI-BRASÍLIA urugaya !!! Concordo com ele..minha cidade ideal seria uma Cidade Fractal (vide, na Internet, em meu website http://www.calazans.png.br ).

 

Carlos foi membro fundador e incentivador do “Grupo 8 del Uruguay” , grupo de artistas plásticos com sponsoring (mecenato) de Rodolfo Mezzera cujo marketing de arte levou a produção uruguaya a todo mundo em exposições itinerantes como mostruário-vitrine para serem feitas encomendas pelos marchands locais, um excelente projeto de marketing cultural global a ser exemplo para nós, brasileiros.

 

Nos seus livros, a única queixa de Vilaró era contra “…la solapada tradición de obstaculizar la marcha a los que hacen cosas..”  isto lembrou-me muito do ambiente de trabalho em certas faculdades brasileiras, o que mostra a universalidade da conspiração dos medíocres, improdutivos e invejosos que amargam frustração e fracasso pessoal.

 

Em 1964, Carlos Paez Vilaró teve sala na VIII Bienal Internacional de Arte de São Paulo-Brasil com sua “PLAC-ART” um tipo de instalação com objetos, robots, luzes , cores e sons unificados como uma fusão de Pop e Op Art, e nesta bienal recebeu o prêmio pesquisa .

 

Nos anos 70 criou as caixas Stand-Art, expostas a convite no MASP.

 

Seu filme “Pulsation” de 1969 é considerado o precursor da linguagem de videoclipes (e de experimentos como “Koyanasquatch”), “Pulsation” foi  filmado por três anos no Pacífico Norte, com música de Astor Piazzola, pontuando imagem sonorizadas com o impacto do “Esperanto del silêncio” onde o espectador cria-projeta sentido, é cúmplice ao construir a história além das barreiras da linguagem..projeto interativo pioneiro, que lembra o Poema-Processo, a Instalação e a Web-Art.

 

A visita ao museu CasaPueblo foi o ponto alto da viagem, no meu entender, cinco dólares com direito ao vídeo-documentário sobre vida e obra de Carlos Paez Vilaró e andar pelos diversos pisos do museu a esquerda, enquanto o hotel fica à direita… na foto em meu website http://www.calazans.png.br , estou no restaurante, ainda comovido com a emoção de estar dentro da “escultura para morar”, a casa dos sonhos de Carlos Páez Vilaró ….

 

(Outro ponto interessante em Punta é uma Gargantuesca Manopla enterrada na areia da praia, uma escultura instigante de dedos com unhas insinuando provocantemente a existência do resto do corpo do gigante enterrado sob a areia, instigando e desafiando a imaginação a sentir como seria o resto soterrado.. esta Mão é uma das esculturas mais criativas que já toquei, e, para mim, um símbolo do sufocamento e memória perdida dos nossos indígenas, quer seja Incas no Perú, Mapuchos no Chile, Tupinambás-Tamoios no Brasil (Inspirando meu álbum em quadrinhos “A Hora da Horta” no website da Internet http://www.calazans.png.br )…ou das tentativas sempre enterradas de criar um bloco econômico no cone sul onde o Brasil compra Laticínios, Couro, Carne e Lã de países que produzem todos estes mesmos produtos e nunca comprariam uns dos outros…esta estátua é  uma “Obra Aberta” a interpretações, diria Umberto Eco).

 

PÁEZ VILARÓ, Carlos. Cuando se pone el sol. [Uruguay: Ediciones de Casapueblo, febrero de 1995], 313 páginas ilustradas coloridas. Contém Biografia. 

INSÉTICA poema de jairo pereira

 

 

 

os insetos caiam, crepitavam, luminesciam

e não eram vagalumes

os insetos como moedas atiradas ao chão

moedas brilhantes na noite grande

do meu virtual sertão

pegava as brasas da fogueira recém-acesa

q. acendia por acender

e comparava de brilho com os insetos

tudo luminescia em esplêndida

fotóptica resolução

pisava a terra fresca na noITE infinda

pisava insetos e folhas secas, gravetos

musgos sobre pedras

tudo luminescendo estrelas frias

moedas de ouro polido

pássaros asando espelhos partidos no fogaréu

um cavalo meu cavalo

saltando as achas incandescentes

estalos de taquara na mata densa

signos híbridos no meu signário

terços claros no meu terçário

ranídeos nos banhados

saltos engenheiros

lua estirada no perfil da estrada

serpentinas flamejantes nas encruzilhadas

insetos e moedas polidas de ônix brilho

no esplendor do dia.

MINHA BUSCA VÃ poema de vera lúcia kalaari/Portugal

 

 

Ao rouxinol que canta

Na noite que vai caindo

Marcado de triste dor,

Às nuvens que vão subindo

Em matizes d’esplendor,

Eu peço notícias de ti.

Ao vento que vai passando

À brisa que vem chegando,

Ao odor do mar e da flor,

Ao canto das praias varridas

Pelas ondas irritadas,

Eu peço notícias de ti.

Às gaivotas que vão deixando

Pelo ar, um risco branco,

Ao rumor leve dos buzios,

Às mil e uma coisas da terra,

Eu peço notícias de ti.

Aos homens que vêm chegando,

Aos barcos, às fontes, aos rios,

Às estrelas que vão brilhando

Em risos, em frio desdém,

Eu peço notícias de ti.

Ninguém mas dá!

Só a chuva sobre mim em pranto se cerra.

Há silêncio em toda a terra,

Silêncio seco e ruim

De ventos vergando ramos

Como se dentro de mim

O mesmo silêncio se vaze.

Não há notícias de ti!

E neste anseio cansado

Nesta pergunta tão vã

Apenas queria (vê lá)…

Ser nuvem, ser ave, ter asas,

Ter algo mais do que sonhos,

Do que cantos, do que versos,

P’ra que pudesse voar

E poder assim saber,

Algo de ti, meu amor.,

 

BORRA ASSINADA poema de lilian reinhardt


 

                         
   (líricas de um evangelho insano

 

                           No fundo da xícara 
             a borra do meu olhar. 
             Dos olhos borrados de pó, 
             de orvalho salgado, 
             no (dó)i do teclado que ouço 
             e não entendo…
             meu olhar geométrico 
             se perde na mancha abstrata,
            onde assino?!

 

HISTÓRIA DE UM HAMSTER por hamilton alves

 

 

                                               É muito difícil admitir que um escritor que vem de escrever uma importante obra (uma trilogia), envolvendo um personagem ganhador (único neste país) do prêmio Nobel de literatura, Lúcio Graumann, cujo terceiro livro se encontra ainda no prelo ou prestes a ser lançado, abale-se a contar uma historinha de um bichinho tão despretensioso (ia dizer insignificante) quão curioso como um ratinho sirio – um hamster.

                                               Pois a essa tarefa, quase absurda, podia-se dizer, lançou-se o escritor pernambucano, já laureado com alguns prêmios dentro e fora do país, Fernando Monteiro. Afora as ilustrações, algumas delas pouco condizentes com o texto e o tema, o livro alcança uma qualidade que o recomenda aos leitores, desejosos, certamente, de conhecer o que ocorre com um ratinho que, por fatal decorrência dos fados, vai dar na casa de uma família (a do escritor) em que todos não apenas se regozijam com o fato, mas o atribuem como dádiva da sorte, passando a ter pelo bichincho (que ganha o nome de batismo de Aparício José Dornelles de Carol, que vem a ser primogênita do escritor) todo o indispensável cuidado. E, daí por diante, passa a conviver no âmbito desse pequeno clã, seguindo-o nas horas em que tem direito à ocupação de todo o espaço, visitando os lugares mais imprevisíveis, até dentro de um sofá, por onde, certo dia, se introduz, causando pânico às pessoas, que têm que buscar meios cuidadosos de tirá-lo de tal apertura.

                                               Ao longo de 35 páginas, Fernando narra as peripécias vividas pelo ratinho, sua acomodação meio problemática ao reduzido espaço de uma gaiola e às horas destinadas ao lazer, quando então tinha que ser seguido atentamente para evitar que qualquer peraltice pudesse lhe causar conseqüências mais sérias.

                                               A vida de Aparício conta-se, em geral, em pouco mais de 4 anos. E isso é um fato doloroso, pois quisera que tivesse uma longa vida, tão importante passa a ser para esse pequeno núcleo familiar, que o acompanha, que o segue, que o admira e que – numa palavra – o ama. Mas, queira-se ou não, a sorte do Aparício está selada na contagem impiedosa de sua expectativa de vida.

                                               Enquanto isso não acontece, passa a ser o personagem central, a ocupação primordial de Fernando, da esposa, Cristina, de Carol, Cecília e Binsk, filhos. Todos estão concentradamente voltados sobre Aparício, acompanhando-o, quer esteja engaiolado, no que lhe parece um espaço pouco propício a sua índole peripatética, acostumado por natureza à liberdade e à busca de acomodações as mais insólitas, quer solto.

                                               À parte, porém, a travessia feita por Aparício no confinado apartamento onde passa a morar com essas pessoas, com as quais procura conviver em paz e na mais perfeita ordem, pois o ratinho tem sua disciplina própria, “O nome de um Hamster”, essa pequena jóia literária, produzida por Fernando Monteiro, é trabalhada com intenso e visível cuidado artesanal, como se o escritor pesasse cada palavra ou cada frase para conduzir a narrativa a bom termo. E o faz, ao fim e ao cabo, com perícia inigualável, dado o fato de tratar-se de um tema que oferece pouca ou reduzida possibilidade de desenvolvimento literário.

                                               Uma historinha dessas deveria alcançar todos os estudantes (ou todas as crianças de 8 a 80 anos) de ensino fundamental e médio, não só pela narrativa, em si mesma, original e exemplar, mas pela alta qualidade literária.                                                    

Tanta porcaria, nos dias atuais, é destinada à leitura na importante e decisiva fase de formação de educandos. Até porque a literatura infantil, depois de Monteiro Lobato (para falar-se em termos de Brasil), entrou em completo recesso. Não se publicou mais, neste país, uma obra da envergadura, da beleza ou mesmo até da excepcional importância literária de “Sítio do Pica Pau Amarelo”, que, como sabido, se projetou para além de nossas fronteiras.

                                               Pois aí está o Aparício Dorneles – um simples hamster – trazido à cena literária por Fernando Monteiro, a merecer ocupar esse espaço vazio na literatura infanto-juvenil brasileira, tão necessitada de obras semelhantes, que sirvam como manual escolar obrigatório destinado à boa formação humanística de estudantes de grau médio.

                                               Longa vida e êxito ao Aparício na senda da literatura infanto-juvenil.            

LINGUAS ARRANCADAS por alceu sperança

 

Para que têm servido os governos dos ricos, das oligarquias, dos reis e imperadores? Além do luxo para os protagonistas, apenas à corrupção do Estado, à miserabilidade de multidões e a atos de extrema desumanidade. O capitalismo arrasta atrás de si milhões de cadáveres e humilhações aos que sobreviveram. No Brasil, apesar de continuar no poder, eles querem que até o “reizinho” entronizado no palácio governamental seja extraído de suas cheirosas e elegantes fileiras. Desagrada-lhes que haja um mero pequeno-burguês como presidente ou governador de Estado: eles querem é impedir a mínima possibilidade de que algum dia o povo realmente venha a controlar os mecanismos de geração e distribuição da riqueza.

É imensa a crônica de brutalidade da exploração escravista, feudal e capitalista. É horrível, mas vejamos algumas formas de “castigo” a quem não compactuava com os ricos de plantão no controle da sociedade, registrados apenas numa “sessão” de doutrinação religiosa (hoje dir-se-ia “evangélica”) ocorrida no Rio Grande do Norte em 1645:

O colono Baracho foi amarrado a uma árvore e, ainda vivo, teve a língua arrancada. Matias Moreira teve o coração arrancado por não concordar em abjurar a fé católica. Espatifaram, com o pau, a cabeça de uma criança, filha de Antônio Vilela. A filha de Francisco Dias teve o seu corpo partido em duas partes. A mulher de Manuel Rodrigues Moura, depois que o marido morreu, teve cortados os pés e as mãos. A vítima sobreviveu, ainda, três dias ao lado do marido morto. Uma moça, muito bonita, foi vendida e a moeda de troca foi um cão de raça.

Os romanos reservavam a cruz para os escravos e para os piores criminosos (Cristo foi uma de suas vítimas). Os gregos usavam metal incandescente, como aquele usado para marcar o gado. Também eram castigos entre os gregos o envenenamento, a morte a pauladas, o apedrejamento, o lançamento em precipício, o estrangulamento, a decapitação e o enterro em vida. Os pelourinhos, tão conhecidos no Brasil, eram usados para açoitamentos públicos.

Hoje as coisas não mudaram muito. Os ricos acumulam nas mãos de poucos as riquezas geradas coletivamente: seus bancos faturam horrores, financiam campanhas eleitorais, absorvem terras, transnacionalizam fábricas, empregos, genes. Estão na raiz da violência que corre solta por aí, que força-tarefa repressiva alguma vai resolver, porque seus fundamentos desumanos não estão resolvidos.

Tais fundamentos são a manutenção dos privilégios e interesses dos poucos ricos sobre a imensa maioria que sofre. E o grau da exclusão varia bem pouco no tempo, apenas se tecnifica. No interior do Paraná, há meio século, dizia-se aos posseiros (o MST da época): “Por que vocês arriscam a vida indo tomar a terra de um bacana paulista cheio de jagunços quando podem trabalhar como meeiros ou empregados deles?” Hoje, você se forma em Pedagogia, Direito, Jornalismo e Comércio Exterior, canudo na mão e nenhum emprego, e alguém lhe diz: “Seu vagabundo! Vai lá na avícola, vai trabalhar de pedreiro, pois a construção está bombando é só não trabalha quem não quer!”

Arrancar a língua, tirar o coração, vender a moça, esquartejar, torturar e humilhar, práticas antigas, foram evoluindo para alguns tipos de torturas e castigos igualmente horríveis no admirável mundo novo da modernidade: concentração da renda, aumento das desigualdades, cassetete da polícia e exposição na TV. Mas a plutocracia quer poder, mais poder, muito mais poder. Mais línguas extirpadas (direitos humanos afrontados), corações arrancados (empregos extintos) e gente, gente às pampas, humilhada e entregue à degradação. Não é estranho que estejam ainda a chorar as Marias e Clarices, agora as dos excluídos comuns.

 

RUMOREJANDO (Violência. Até quando!)

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

“A corrupção não é uma invenção brasileira, mas a impunidade é uma coisa muito nossa”. (Jô Soares). É que rico tem mérito; pobre, tem culpa (Juca). Elementar, caro leitor, digo Watson (Sir Arthur Conan Doyle).

Constatação II

Não se pode confundir perrengue, que quer dizer pusilanimidade, teimoso, birrento com merengue, muito embora quem come este, o estômago pode ficar aquele, mormente teimando em se sentir enfadado, glicêmico, enjoado e coisas desse jaez.

Constatação III

Não se pode confundir aludindo com iludindo, principalmente com a explicação de políticos, governantes e outros menos votados e/ou nomeados.

Constatação IV (De uma dúvida não necessariamente crucial).

Deu na mídia: “Segundo pesquisa realizada na Grã Bretanha, “um em cada quatro ingleses não lavam a mão depois que vão aos pés”. É a isso que se chama meter as mãos pelos pés?

Constatação V (Dúvida não crucial via pseudo-haicai).

Bach, em ritmo de rock pauleira

Só pode descambar

Em grossa asneira ?

ConstataçãoVI (Dúvida crucial, monárquica, via pseudo-haicai).

Entrou um plebeu

Na corte. Claro?

O rei nem bola deu.

Constatação VII (De um aproveitamento melhor do tempo).

Refiz um trato desfeito com ela:

Eu não assisto até meia-noite o futebol

Ela não fica até as 10 na novela.

Sem dúvida um trato de escol!

Constatação VIII (Quadrinha para ser recitada na Bolsa de Valores e/ou num motel).

A crise me pegou em cheio

Meu desempenho esmoreceu

Nas iniciativas eu titubeio

Lá se foi meu apogeu.

Constatação IX

A violência chegou a tal forma

Que é de se perguntar:

Será que virou norma

Ou nunca isso vai parar?

Constatação X

Valha-me seja lá quem for:

O Paraná na terceirona

Seria muito sofrimento e dor

Minha mente ficaria doidona

Só de pensar me dá frio e calor.

Constatação XI

Deu na mídia: “Uso excessivo de celular pode causar urticária dizem especialistas”. Data vênia, como dizem nossos juristas, mas Rumorejando acha que escutar o horário político pode dar também.

Constatação XII (Opinião não necessariamente abalizada. Porém, já que todo o mundo é técnico…)

A gente não está nada contente com o desempenho da seleção brasileira. E não dá para ser diferente. Mas os hermanos, nossos eternos rivais, também não estão. Os uruguaios, idem. Por outro lado (qual lado?), os paraguaios estão contentes com o desempenho do seu time que tá bem na frente com o primeiro lugar nessa fase eliminatória. Pediu demissão o técnico dos hermanos e pedem a cabeça do Dunga. Data vênia, como diriam nossos juristas, mas Rumorejando acha que não é uma questão de técnicos. É que o time paraguaio não está jogando com salto alto… Elementar.

Constatação XIII

Mesmo que alguns eleitores não votaram no atual prefeito de Curitiba, ainda assim ficaram contentes com o índice percentual de sua vitória que não ensejou um segundo turno…

Constatação XIV (Problemas da Terceira Idade).

Ela faltou comigo com o devido respeito:

Disse que eu estou ficando um velho caduco

Que eu não dou mais no coro no nosso leito

E que eu não sei mais descartar num truco.

Constatação XV (Dúvida crucial via pseudo-haicai).

A moça siliconada

Tá com tudo

Ou tava com nada?

Constatação XVI (Quadrinha apelativa com os sufixos de verbos ar e ir).

Se o meu Corinthians voltar

E o meu Paraná não cair

O futebol só terá a ganhar

E minha alegria irá advir.

Constatação XVII

Vendi minhas ações

Comprei euro

Aí minhas decepções

Fiquei esquizoneuro.

Constatação XVIII

Rico reaparece; pobre, assoma.

Constatação XIX

Rico é impetuoso; pobre, impiedoso.

Constatação XX

Rico é audacioso; pobre tem topete.

Constatação XXI (De uma dúvida crucial).

Fiquei assaz preocupado e aflito

Quando o juiz não apitou o pênalti

Será que ele engoliu o apito?

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

                                                  arte livre. ilustração do site.

SARAVÁ paranista – por solivan brugnara

 

Curitiba, urucum, nomedopaiespritosantoamén, teta de nega tem gosto de cravo, ai que quente que quente, saravá Paraná, preto quer vergamota, me veste de perfume, Yemanjá ave-marinha cheia de graça cheira jasmim, já Exu sangue de galinha, quero pinga nas tripas, cartas psicografadas de escritores mortos provam que a morte acaba com o talento de escrever, saudade de cagar em patente, sossegado ouvindo o zunido das varejeiras, traz um talo de funcho pra eu mascar, batuque Ba tu tu tu que que, Curitiba, Guarapuava, sopra nega, sopra que ventinho de mulher é bom, quente que quente, isto fede como vestiário depois do jogo, que sede, me traz um chimarrão, Paraná precisa de um pouco da preguiça preta da Bahia, rede é remédio pro coração, pinga com milome e amarga, com jabuticaba fica doce, bodegueiro 0v0 e saleiro, este incenso é pra Ganesha minha filha, pra Buda, não pra Preto Velho, pra Preto Velho é outro, coisa feia é lobisomem caçando pardal, gringo limpa unha com clipes,vácarpifazehortaarrancaguachumba, vai te faze bem, espanta as moscas nega, sou caboclo forte, como uva com melancia, manga com leite quente e não faz mal. Baticundum cum ariticum, nomedopaiespritosantoamén, vi briga de facão embrulhado no jornal, vi morto com seis tiros no samambaial, chá de macela, se o churrasco fazer mal, alga pinta mar de verde, bibelô do Paulo Leminski para pôr em cima da geladeira, já experimentou laranja com sal, já ouviu “picando fumo” da dupla caipira Almeida & Júnior. Kaigang, Guarani, rio Piquiri, cerveja com lambari, cuidado meu filho porque a soberba veste a pele da humildade, cuidado também com seu computador site de home pelado tem o vírus da AIDS, revista pornográfica comprada na rodoviária tem mais sabor, dor de estômago põe Olina na tua cachaça, use Fernando Pessoa para explicar a Santíssima Trindade. Tubaína com galeto, alcatra no espeto, batu que que, nega suada vem aqui quero sentir teu cheiro de mar de Guaratuba, psicografar quadro de Kandinsky é fácil quero ver um de Rembrandt e guabiroba é a polenta das frutas. Saravá, sarará, saravá, baixe no terreiro o espírito do piá afogado no Iguaçu, traga rosmeia, cravo, jasmim, chá de flor de cemitério seca três dias depois do dia de finados é bão pra asma, baraiodetruco e boxa, o céu esta azulgralha, pra tosse, ar da ilha do mel com limão. Saravá, sarava.com.br, preto velho é inteligente sabe escrever o nome do presidente Geisel na calculadora,                         , esculpir Jesus no nó de pinho, um caminhoneiro que morreu indo de Francisco Beltrão a Paranaguá precisa de flor de plástico na cruz posta no local do acidente, pro mau hálito masca folha de laranjeira, só língua morta cabe inteira num dicionário, saravá Paraná, sr. cinzeiro-cheio é mais viciado em ansiedade que em cigarro, renovar, renovar, junte ao panteão da umbanda as imagem de um Kaigang, do Barão do Serro Azul, de um paraguaio e um integrante do M.S.T, símbolos tão carregados de misticismo quanto rosário de avó, óleo de peixe boi-bumbá, a doce cana quando esmagada vira pinga marvada, faça um patuá de arruda, símbolo da tranqüilidade deveria ser onça alimentada não o cervo, cinamomo florido tem cheiro de mel de mirim, coisa triste é toque de sino, canto de galo e uivo de cão, você é como o sol, faz tudo sempre igual e um dia irá explodir, carro blindado e São Segurança rogai por nós, havia uma pepita no meio do caminho, no meu caminho uma pepita havia, minhas retinas estavam tão fatigadas que nem a via, era meia-noite quando apareceu uma visagem com cor de serração. Abacaxi, maracujá, abacaxi maracujá, forre o travesseiro com cidreira ou camomila, ipê florido é coisa muito bonita, padaria só vai bem se o dono benzer todo dia com um ramo ainda orvalhado, o melhor jeito de esconder falta do que dizer é atrás do hermetismo, já comeu uva com pão, sei encostar meu polegar no pulso e duvido que você faça igual, pasta de dente bom para desembaciar pára-brisas, nomedopaiespiritosantoamém.

 

 

Conversa jogada fora. Ou de como consultas a dicionários podem levar a coisa nenhuma. De palavreiro da hora. – por cleto de assis

 

Divagações suleiras (que podem ser entendidas como desnorteadas) 

 

Palavra: eu não gosto de palavrões. E palavrinhas, então? Aquelas de convite de comadre, que prometem apenas umas poucas e breves, mas que, no caminhar das horas, pode se transformar em palanfrório inconseqüente. Ou de conseqüências desembreadas, algumas vezes irremediáveis: de um simples disse-me-disse surge a fofoca, o mexerico, a bisbilhotice, o enredo, o fuxico, o babado, o tititi, o veneno, a neqüícia, as milongas, a cabala. Enfim, encrencas e tramóias. Que pena, donas Candinhas! Não vale a pena pegar na pena para apenar a vida alheia.  Pode até resultar em penas voando para todos os lados, se as palavras soltas forem mal interpretadas. Porque a eles(as), os(as) boateiros (as) da hora, não se pode infligir pena de talião, que não era um rei antigo, mas a aplicação de castigo correspondente ao crime cometido: talionem, tal a pena, qual a ofensa. Ou mais biblicamente – olho por olho, dente por dente. E atenção, lexicólogos: por sua desinência, talião é um palavrão?

Poematium, em latim, quer dizer poema curto, breve. E poemaço? Um poemão lavrado em papel almaço? Mas não adianta procurar no Aurélio. Ele não registra nem um nem outro. E quando se procura por almaço, a angústia é maior. O Aurélio diz que se trata de uma “Contr. de a lo maço, expr. que alude à maneira de fabricar este papel”  (by the way, Contr. é contração de contração. E by the way é a propósito, na língua-mãe; e Expr. é a contração de expressão, mas bem poderia ser expressão espremida ). Então, imaginamos papel fabricado a porrada, no maço. Este – segundo também o Aurélio que tenho aqui na ponta do mouse, quando não encontro o significado na ponta da língua – uma espécie de martelo de madeira. Pois bem: se se trata da maneira de fabricar aquele papel, utilizando um martelo, só pode ser papel amassado a maço. (Apesar do parentesco fonético, essas palavras não têm a mesma etimologia: amassar é derivado de massa, que vem do latim massa, por sua vez tomado do grego máza; o segundo é o marido da maça, aquele porrete com que os guerreiros antigos amassavam a cabeça de seus inimigos. Não confundir com os antropônimos Massa, do corredor de F1, e Mazza, do nosso Luiz Geraldo). Para aumentar a confusão, corri para os braços de outro etimólogo, que mandou-me esta: papel almaço (que continua contr. de a lo maço) é apenas um maço de papéis, isto é, um conjunto de folhas de papel, assim como um conjunto de coisas do mesmo gênero, como maço de cartas, maço de cigarros, maço de dinheiro (jamais dinheiro amassado!), que nasce no emprego figurado de maço, com sentido de coisas (ou cousas, como quer o purista Francisco da Silveira Bueno) “reunidas num só todo, premidas”. Vai daí, penso: a multidão é um maço de pessoas?

Para os mais jovens, esclareço. Papel almaço, no meu tempo de grupo escolar (que deveria ser um maço de escolas, onde se amassava a cabeça das crianças com réguas de madeira, não exatamente para medir-lhes a inteligência), era uma porção de folhas de papel, com ou sem pautas, aquelas linhas finas que serviam, antes do computador, para guiar o lápis ou as penas das canetas e evitar o desenho de linhas tortas, privilégio só concedido a Deus, que por elas continua escrevendo certo. Em formato um pouco diferente do A4, de folhas duplas. E não se vende folha por folha, mas ao maço. Com 16 folhas, se não estou equivocado.  Era utilizado para documentos, requerimentos e, em especial, em provas e trabalhos escolares. Havia-os também quadriculados, para trabalhos de matemática ou para modelo de ponto-em-cruz, reservado para as meninas, nas aulas de trabalhos manuais.

Mas minha curiosidade foi atrás do papel almaço e descobriu que ele ainda existe! Vendido em papelarias, até pela Internet. E tem professor que ainda exige que os trabalhos escolares sejam feitos no dito cujo. Para provar, ouso aqui transcrever um estupendo (não na acepção de admirável, maravilhoso, mas de espantoso, monstruoso) diálogo eletrônico recolhido na rede, provocado por um estudante (certamente não o que estuda, mas o que freqüenta a escola), aterrado diante da hercúlea tarefa encomendada por seu professor: entregá-la em papel almaço!

Veja com seus próprios olhos os esforços mentais de seus colegas para ajudá-lo diante de tamanho desafio existencial. Sem correções ortográficas, retirados somente alguns palavrões e a identidade dos proferintes. É uma conversinha danada de extensa e sem nexo, mas não é disto que estamos tratando? Atrás de cada marcador existe um esforçado colega à procura de uma solução genial. Vai lá:

·        “Digo, queria imprimir no papel almaço, como ajustar para imprimir nas linhas certinho e talz??? Sim, o professor é um dinossauro e só aceita em papel almaço. Ele falou que pode ser em qualquer lingua, com qualquer letra, com qualquer cor, mas tem que ser em papel almaço. Papel almaço é esse ó: http://img163.imageshack.us/img163/2896/dsc00972xv5.th.jpg (http://img163.imageshack.us/my.php?image=dsc00972xv5.jpg)
Não precisa ser feito a mão segundo ele, precisa que seja em papel almaço. É um trabalho da disciplina de Formação Econômica do Capitalismo, vai umas 9 paginas. Na mão = sem chance, escrevi metade disso em um ano!

·        tentativa e erro?

·        Desenha linha por linha e as margens no Paint, digita tudo o que precisar também no Paint e imprime

·        Saudades de maquina de escrever, era facinho ajustar pra sair certinho na linha…
No Word tem umas paradas de espaço entre as linhas, dá uma olhada lá.

·        vai dar um trabalho fdp, mas o lance é medir o papel, fazer um tipo de papel custom e ir alinhando. durante o processo você pode ir aproveitando para lembrar da mão do seu querido professor

·        se tem como imprimir em papel almacado? kra… se imperra no meio tu vai ter q ih rasgando ateh tirar todo da impressora…. nada pior do que imprimir trabalhos em papel almacado…

·        Não queria falar nada, mas acho que se ele pediu em papel almaço, é pq ele quer que vc faça À MÃO.

·        tbm acho…

·        Ajusta a margem do cabeçalho e seja feliz.

·        mede o espaço entre as linhas do almaço e dá o mesmo espaço no word..
deve funcionar, ou não..

·        se tem como imprimir em papel almacado? kra… se imperra no meio tu vai ter q ih rasgando ateh tirar todo da impressora…. nada pior do que imprimir trabalhos em papel almacado…

·        uhauhahu fala que faltou o rolazoio fala uaehaeuaehuae :( alias, o papel almaço cabe na impressora? acho que na minha só carta, ela nao é maior? a ultima vez que vi papel almaço tem uns 8 anos huauheuhaeuh

·         se ele pediu pra entregar em papel almaço, nao foi precisamente dentro das linhas do tal, imprime seu trabalho no a4 normal, vai na copiadora e pede pra “xerocar” no papel almaço, RÁ

·        PQP, mó gambiarra do c…….. aí é mais facil escrever na mão msm

·        se tem como imprimir em papel almacado? kra… se imperra no meio tu vai ter q ih rasgando ateh tirar todo da impressora…. nada pior do que imprimir trabalhos em papel almacado…

·        nossa ele pediu pra escrever com giz de cera tb?

·        Não queria falar nada, mas acho que se ele pediu em papel almaço, é pq ele quer que vc faça À MÃO.

·        Concordo

·        Acho que você vai tomar um belo de um ZERO se fizer isso.

·        E eu já tava achando q vc tava querendo burlar alguma comanda de restaurante… :(

·        Scaneia O Papel Amasso. Imprime A Figura Que Vc Scaneou Mais O Seu Texto Na Folha A4. Pronto

·        Almaço = A MAO!

·        Almaço = A MAO! prove!

·        uhUHAuhauhAUHauhauhaUH QUE DOEEEEEENTEEEEE vai imprimir em almaço! as chances dele querer q o trabalhos seja à mao são de 90%! obviamente ele já passou experiencia com textos copiados da net…então…

·        Era só o que faltava nego querendo imprimir em papel almaço, que é um papel feito pra se escrever a mão.

·        é só medir o tamanho do papel, as margens e o tamanho dos parágrafos diabos é qndo a impressora emperra ele. enfim kra, senta na cadeira e escreve…ou paga uma menina da sétima série pra escrever pra vc! :D 5 reais vale o serviço!!!

·        pega um papel desse tamanho em branco e imprime as linhas e margens junto.

·        nuss….. imprimir em almaço, olha o “servisso” eu acho q quando professores pedem um trabalho realizado em almaço eles querem dizer que é escrito à mão!!! Ele não eh capaz de pedir pra vc imprimir numa folha dessas…

·        Não precisa ser feito a mão segundo ele, precisa que seja em papel almaço.

·        duvido que o professor tenha dito isso…

·        Aposto como teu professor é velho, careca e rabugento

·        Aposto como teu professor é velho, careca e rabugento. E usa … (resto da frase impublicável, já que este blog é freqüentado por pessoas de todas as idades)

·        K….. larga de se burro pega e faz todo o desenho do papel almaco no computador…depois poe os texto por cima e imprimi.. vai da na mesma de tu imprimi direto no almaco…

·        Algo me diz que o burro é vc

·        enfim kra, senta na cadeira e escreve…ou paga uma menina da sétima série pra escrever pra vc! 5 reais vale o serviço!!! Trabalho escravo infantil DETECTED!

·        imprime td sublinhado e no final faz contorno nos 4 cantos e finish

·        Vc já viu papel almaço alguma vez na sua vida?

·        P…. larga de ser preguiçoso! vai dar mto mais trabalho alinhar essa m…. do q escrever 9 pag.

·        Só o tempo que você perdeu lendo esse post já tinha metade do trabalho pronto. Faz a mão logo.

·        Uma vez acabou meu a4 e precisava imprimir uma parada, efiei o almaço no impressora, a p…. enroscou tudo,”almaçou” e rasgou tudo :(huhaahuahauahuahua) Veio eu ri d+ com o “trocadilho” HAUAhAUhAUHAUAa

·        Não precisa ser feito a mão segundo ele, precisa que seja em papel almaço.

·        tem certeza que ele não fez cara de :rolleyes: quando tava dizendo isso?

·        pelo que eu vi ele apenas exigiu que fosse neste maldito papel mas não citou nada a respeito de ser bem encima da linha do papel, então taca pra imprimir e se sair desalinhado a culpa não foi sua e sim dele que não explicou direito.

·        não li nada mas… Compra papel almaço sem pauta e coloca “linha” no texto… Assim vai imprimir as linhas e o texto e o trabalho será entregue em papel almaço…

·        Pode procurar na papelaria que existe o papel almaço sem pauta!

·        imprime em papel normal e paga pra alguma menina escrever pra ti, menina tem letra melhor se depender fica melhor do que impresso , que no final sempre fica meio torto.”

Fim da citação, mas não do drama educacional brasileiro.

Tento esclarecer, diante de tanta barulheira eletrônica. Acredito que o papel almaço foi bolado para facilitar o trabalho dos encadernadores. Após acabados os manuscritos, era mais fácil reunir os vários cadernos e atá-los, dando-lhes formato de livro. Atados sem prévio preenchimento, tínhamos um livro de atas. Mas não se apressem no entendimento, meninas e meninos! Uma coisa é uma coisa e outra coisa é somente… outra coisa. Atar e ata provêm de raízes distintas e têm diferentes acepções. Ata é o registro de coisa feita, relato do que aconteceu em uma reunião, em um congresso; já atar é unir, cingir, reunir, acomodar coisas. Deu para entender que se trata de cousas diferentes? E paremos por aqui, porque me veio à cabeça a tal de colsa, uma pequena planta oleaginosa que está ocupando as cabeças dos doutores em biocombustíveis, como o nosso atual supremo mandatário. E uma colsa é outra cousa… Bem, deixemos pra lá. Mas só mais uma coisa: ainda se usa a expressão – coisa é cocô de cachorro?

E antes que você me diga, para aproveitar a piada e perder o amigo, que isto que aqui se escreve é uma coisa, ou seja, um verdadeiro cocô (para usar o eufemismo daquilo que muitos têm no côco e não é, propriamente, a “massa encefálica do cérebro”, conforme o grande etanólogo Lula), em verdade, em verdade lhe digo: de cocô em cocô se chega a reflexões privativas, muitas vezes produtoras de grandes descobertas filosóficas e até mesmo tecnológicas, se estivermos preocupados em melhorar o desempenho do vaso sanitário, onde não se cultivam flores.

É possível até que um monge medieval, meditando na latrina infecta de seu mosteiro, tenha criado a escatologia, doutrina sobre a consumação do tempo e da história e, ao mesmo tempo, por ter inspirado o ar daquele aposento, foi inspirado a escrever um tratado acerca dos excrementos, dando nova ocupação à ciência inventada. By the way (não é bonitinha esta expr. ing.?), você sabia que em alguns países hispânicos o nosso moderno penico é batizado de inodoro? Será que naquelas terras não existem banheiros de postos de gasolina? Mas podem chamá-los também de retrete (por estas paragens ficamos quase que somente com a sua acepção de concerto de banda em praça pública) ou de taza, que não é utilizada para se tomar líquidos, mas para devolvê-los.

E a retreta, hein? Além dos sons públicos e maviosos, abriga também ruídos privados, desafinados e impublicáveis. Mas tem sentido: afinal, origina-se no francês retraite, que vem do latim retractus, retirado, apartado, privado, afastado, metido para dentro. (Ops!, não seria para fora?)

Agora chega de palavreado. Se você chegou até aqui, não reclame: eu avisei lá no comecinho que era só conversa jogada fora. Té mais.

arte livre. ilustração do site.

KAMBÉ inaugura sua exposição em grande estilo: MEA CULPA

o artista visual CLAUDIO KAMBÉ abriu ontem, 15/10/08, com grande público a sua exposição MEA CULPA no Espaço Cultural BRDE em Curitiba. 

 

Kambé é reconhecido pela força reflexiva das suas obras focadas na condição humana. Desta vez, o questionamento é sobre o peso e o custo da inutilidade da tecnologia. Pura provocação que Kambé fez questão de firmar de próprio punho aos organizadores da exposição:

Mea Culpa. A mensagem pintada de minha reflexão me tornou um maldito pintor solitário. Com uma nova visão sobre a cegueira humana, a qual me obriga a registrar uma fase em que coloco em discussão o peso e o custo da inutilidade: a técnica avançada do concreto, do metal, do mineral etc. para a praga ou epidemia do consumismo desvairado com a linguagem ainda primitiva, porém científica que tem a realidade do absurdo. Quero, na minha obra, desvendar a política tecnológica das máquinas e o não desenvolvimento humano. No entanto, não vou tornar meu trabalho um sacrifício inútil, mas fazer do meu objetivo uma manifestação e uma preocupação estética ao registrar o absurdo da inutilidade, porém que tenha utilidade como arte.

Cláudio Kambé”

TRITURADOR DE CORAÇÕES

foto de joão urban.

 

da esq. para a dir. um amigo, o poeta manoel de andrade, o artista visual multimidia retta, o anfitrião KAMBÉ e sentado o também artista visual, pintor e escultor, áttila wenserski. foto de ro stavis.

 

RELAÇÕES PERIGOSAS

foto de ro stavis.

 

 

KAMBÉ e o poeta jb vidal. mais ao lado, atrás, marco macedo editor da “Folha de Santa Felicidade”. foto de ro stavis.

 

INCUBADORA HUMANA

foto de ro stavis.

mais fotos do evento na página SALA DE VISITAS/fotos

 

Exposição

16 de outubro a 14 de novembro

De segunda à sexta, das 12h30 às 18h30.

 

Espaço Cultural BRDE – Palacete dos Leões

Av. João Gualberto, 530   – Alto da Glória

Informações: 3219-8134

 

A GRANDE FESTA DA POESIA PARANAENSE !

 

A Iª SEMANA DA POESIA PARANAENSE promovida pelo Espaço Cultural ALBERTO MASSUDA durante os dias 23, 24 e 25 de setembro (2008) sem sombra de dúvida transformou-se em um marco histórico desta primeira década do século em Curitiba.

Com o objetivo de aproximar leitores e poetas o Espaço deu ênfase para a declamação e leitura dos poemas. O público atendeu o convite e prestigiou o acontecimento em todos os dias. Desde há muito não se via algo semelhante na cidade considerando-se o tema que é, das artes, o mais complexo, o mais exigente.

O ambiente agradável e preparado para o encontro colaborou sobremaneira para a descontração do público e  dos poetas  que se revezavam no palco. A qualidade técnica e de conteúdo dos trabalhos apresentados foram simplesmente grandiosos.

O conjunto de poetas apresentados por Laís Mann constituiu-se em um verdadeiro show de diversidade poética.

Sob a batuta dos poetas Manoel de Andrade e Hélio de Freitas encerrou-se o evento com o lançamento de oito livros de poesia, dos poetas participantes, na noite de 25/09, sendo os autores os poetas Jairo Pereira e Solivan Brugnara, do interior do Estado, e os poetas Adélia Maria Woellner, Lucrecia Welter, Bárbara Lia e Sergio Pitaki da capital, quando houve um clima de grande camaradagem entre os poetas e o público embalados por um excelente coquetel de encerramento da SEMANA.

Esperamos que se transforme em evento anual.

 

veja mais fotos na página SALA DE VISTAS/ fotos

alguns poetas que participaram da primeira noite: bárbara lia, marilda confortin, helio de freitas, lucrécia welter, nei garcez,  a apresentadora laís mann, daniel farias, maria da graça stinglin, josé carlos correia leite e manoel de andrade.

 

alguns poetas que participaram da segunda noite: marilda confortin, jb vidal, a estreante ana carolina cons bacilla, solivan brugnara, a apresentadora laís mann, manoel de andrade, sérgio pitaki, helio de freitas e jairo pereira.

HARRY WIESE e URDA ALICE KLUEGER lançam seus livros A SÉTIMA CAVERNA e SAMBAQUI respectivamente.

OFERTÓRIO/AUDIÇÃO poema de jb vidal

saibam que ouvi a ruptura do óvulo,

o turbilhão amniótico,

o borbotar das células,

o zingo dos neurônios em suas trajetórias,

o rasgar das carnes vaginais

e o som de vozes infernais,

 

 

ouvi, o estalar de ossos crescentes,

a corrente de líquidos entre carnes pulsantes,

ouvi a fricção da língua na busca do prazer,

a queda fatal do bolo ingerido,

ouvi o ruído das vísceras em seu curso final,

e o som dos vermes na hora do jantar,

 

 

ouvi,  promessas de amor e ódio,

gritos de prazer alucinantes,

acórdes dos céus e dos infernos,

ouvi passos distantes

na terra, nas nuvens, nas galáxias

e o som dos caldeirões magos estonteantes,

 

 

ofereço tudo sem alegria e sem dor

como obra do meu nascer,

à quem ouviu e queira mais 

talvez sons em duplicata,

mas ofereço como único ouvinte

sons de minh’alma entre lágrimas universais

DISTOPIA poema de manoel de andrade

  

                       para Mussa José Assis

 

 

 

 

 

Como será  o amanhã…!?

um itinerário sem destino?

um calendário de incertezas?

O que restará dessa anêmica biosfera…!?

do fluxo agonizante das nascentes…

das bandeiras hasteadas pela vida!?

Dia a dia e esse palco inquietante…!

esse escasso oxigênio,

essa delgada água,

esse termômetro assustador.

Ano a ano e a ampulheta  do  caos escorrendo lentamente  nossas  vidas…!

nessa paisagem devorada,

nesse carbono letal,

nesse mapa pontilhado pela morte. 

 

Como será o planeta do amanhã…!?

Um mar sem arquipélagos?

um oceano de migrantes?

uma praia de naufrágios?

Falo de uma temperatura cruel,

de paisagens derretidas,

de uma frota de icebergs navegando os sete mares.

 

Como será a terra do amanhã!?

um campo  calcinado?

uma lavoura sinistra?

Que sabor terão os frutos na próxima estação?

que surpresas nos escondem os segredos da ciência?

o que colheremos da alquimia da ganância?

Falo de patentes  criminosas, 

de sementes suicidas,

dessa dinastia de flores virulentas polinizando a vida

e desse bizarro contrabando germinando sobre a terra.

 

Como será  teu  amanhã!?   

um teclado de emoções?

um híbrido palpitar?

Com que apetite digitarás as tuas ânsias

degustando essa cultura cibernética?

digerido  pelos circuitos  virtuais,

pelo marketing neurológico das partículas,

por esse “chip” instalado no teu cérebro,

processando uma ordem dogmática: conecte, “navegue”, consuma…

Com que senha  abrirás teu coração?

haverá um ícone para a solidariedade?

um link  para a compaixão?

Qual a fronteira entre tu mesmo e a máquina?

quem são essas moléculas engenhosas?

esses átomos amestrados

a devassar teu íntimo recanto de criatura?

 

Como será nosso amanhã!?

Uma bússola sem norte?

um insulto à liberdade?

com que farol iluminaremos nosso rumo

acuados pela ousadia da violência

e sitiados pelo próprio livre-arbítrio?

Aqui e acolá as estreitas fronteiras do pânico…

esse semáforo que não abre…

esse alguém que te observa…

esse olhar engatilhado…

uma abordagem indigesta

e o cronômetro do pavor computando teu destino.

No roteiro dantesco da sobrevivência

reabres dia a dia tua agenda…,

é o teu cotidiano decomposto,

essa incerteza diária de chegar…

essas balas que assobiam no perímetro dos teus passos.

 

Como será nosso amanhã!?

Um mundo sem idioma?

um cântaro de fel?

Falo de um território  dominado por estranhas hierarquias,

por facções tatuadas com os signos da maldade,

pelos  mercenários do vício

enriquecidos  pelos lucros homicidas.

Falo de uma legião de vítimas,

de uma síndrome cruel e invencível,

de criaturas e sonhos em farrapos.

Falo dos “juízes” da vida e da morte,

de sentenças e chacinas,

de um comando sinistro e impassível.

Falo da cidadania encurralada pelas milícias do ódio

e de um mercado inexorável do extermínio.

 

Como será o amanhã!?

um shopping de entretenimentos?

uma oficina de vaidades?

um imenso bazar de grifes e mesmices?                

Quem sabe…,  uma alameda  “fashion”…

onde desfilam as esbeltas silhuetas da ilusão,

estampadas, dia a dia, nas páginas coloridas do glamour.  

Ou, talvez, um teatro de incautos “marionetes”…

encenando  a sensualidade e  o acinte

na  pública ribalta do hedonismo!

 

Como será o amanhã?

Um santuário virtual do “encanto”?

uma cidadela da luxúria?

Falo da explícita pedagogia do erotismo,

 seus ícones, seus balcões,

suas vitrines pontocom.

De suas telas insinuantes,

seu varejo literário,

e sua indigesta ditadura musical.

Falo da sodomia on-line,

de devassadas alcovas eletrônicas

e desse promíscuo ritual de fantasias.

 

E pergunto, perplexo, pela pátria do amanhã…

e falo das paisagens sedutoras do poder, 

desse cheiro putrefato que chega do planalto.

Falo de uma oficial  voracidade… 

dessa doméstica fauna de homens públicos,

…essa nossa biodiversidade insustentável.

Falo da ascensão vertiginosa da esperteza,

dessa inumerável galeria de “celebridades”,

trajadas com as fisiológicas legendas do poder.

Falo do escândalo nosso de cada dia,

da nação envergonhada por quadrilhas palacianas,

por dossiês sonegados e pelos crimes arquivados.

Falo dessa insultante presunção de inocência,

dessa triste balada da alma humana, 

dançando pela culpa absolvida

e gargalhando com escárnio da justiça.

 

O que sobrará enfim desse perene banquete…!?

para onde caminha essa infantil humanidade…

embriagada pelo licor das ilusões 

e indiferente à dor dos desgraçados?

Quem sabe reste um naco qualquer de fraternidade

para ser digerido com um gole de esperança…

um “cardápio” para os filhos da miséria,

uma migalha perene…

para saciar essa fome que janta, na calçada,  o nosso lixo remexido.

 

E eis porque falo de uma alarmante geografia de lágrimas,

de uma favela planetária

de uma legião mundial de parias.

Falo de criaturas açoitadas pela vida

de um mundo que  “não dorme e que não come”

que “não lê e não escreve”…

Como saciar tanta  sede de justiça?

como conter essa fome parindo seus herdeiros?

 

Ó Senhores…é tão triste ironizar a esperança

mas diante dessa insólita passarela

nós nos perguntamos: o que se espera dessa sórdida assembléia ???

Um projeto político para a solidariedade humana?

ou  emendas com  intenções inconfessáveis,

retórica ambiental e ongs humanitárias?

E o que se pode esperar  desse desfile de beldades…

novas “tendências” para a fraternidade

um  “estilo de vida” para os excluídos,

finos “tecidos” para cobrir o pudor dos maltrapilhos!!!???

Ou, talvez, “padrões” mais “chiques” de caridade,

 “estampas” coloridas para a compaixão,

melhores “ângulos” para fotografar a beneficência!!!???

 

Mas afinal quem ousa desfilar nessa excêntrica avenida!?

quem  são essas almas extraviadas,

essas tribos debochadas?

Quem comanda essas falanges

essa alcatéia  de homo sapiens,

de corruptos e deslumbrados,

de perversos e pervertidos?

Que poder é esse…

esse paradigma sombrio que invadiu nossa decência?

 

Que poder é esse?

potencial, subliminar, imprevisível…

É uma corporação, uma egrégora ???

Falo de um império global com seus invisíveis tentáculos,

seu discurso sedutor,

suas catilinárias e suas litanias,

suas metáforas globalizadas,

seus descarados silogismos e seus slogans mentirosos.

Quem  são eles???

nossos irmãos bastardos?

nossa herança cármica?

nosso “presente de grego” ?

Digo que é um sinistro “cavalo de Tróia”

há meio século parindo suas satânicas criaturas

invadindo  todos os caminhos

disputando os espaços da ilusão

conquistando todas as trincheiras

mascarando a liberdade

ironizando os códigos da verdade

silenciando a voz do coração.

São os negociantes do poder

os mercadores do sexo

as falanges do vício.

São os falsos profetas,

os tribunos celestes da intolerância

franqueados pela simonia

inaugurando um templo em cada esquina.

São os senhores do mundo e do impasse

manchados com as cores da discórdia.

São os fabricantes da bomba,

os que gargalham sobre o sangue dos caídos.

Seus nomes  se escrevem em todos os idiomas,

se escrevem  sob o signo de uma águia poderosa,

com os mortos e os órfãos das nações vencidas.

Se escrevem  com as siglas planetárias da ganância

e com os filhos planetários da miséria

 

Senhores…para onde caminhamos…?

em que galeria serão expostas nossas ‘artes’…?

o que revelarão amanhã nossos retratos de Dorian Gray”,

pincelados com as cores da cobiça e da luxúria.

Falo da alma humana adoecida por chagas milenares

e pergunto como surgirá nossa face no espelho do amanhã…

maquiada com as sombras do orgulho e do egoísmo

e tatuada com tantos desatinos.

Falo dessa estesia emasculada,

dessa irreverente cadência de vaidades.

Falo dessa máscara hilariante da “felicidade”,   

de criaturas tombadas do abismo da ilusão.

 

E diante de “triunfo de tantas nulidades”

Todos afinal nos perguntamos: como  descrever o enredo do futuro???

Será um show permanente de aparências

ou uma trincheira de gangues e facções?

Será uma ilha oficial da fantasia

ou o gueto planetário da miséria?

Será ainda um vale semeado de ambição

ou já um planeta inteiramente saqueado?

 

(Ah! esse mundo  sitiado…

essa convivência pari passu  com a maldade…

esse estresse à flor da pele…

esse desencanto, essa impotência…

esse presente sem sentido do amanhã…)

 

O que restará do estado de direito

das Bastilhas e dos muros derrubados

das bandeiras hasteadas sobre o sangue dos tiranos

o que restará do Sermão da Montanha e  das chagas do Calvário 

da revolução de outubro e do sonho de Ernesto

quem manterá acesa a memória luminosa dos heróis

quem defenderá a trincheira da decência

quem ousará dizer não

o que acontecerá com os últimos rebeldes

 

Senhores..eu vos peço perdão…

por esse lirismo sombrio,

pelos meus versos perplexos,

por esse indigesto cantar.

                                                                          

Senhor, nós te pedimos perdão…

por tantas balas perdidas,

por tantas pérolas aos porcos

e pelos dossiês da vergonha.

Perdão Senhor

pela pedofilia on-line

e pela inocência ultrajada.

Perdão pelas cartilhas da vaidade

e as dietas assassinas.

Nós te pedimos perdão

por esses ninhos queimando,

por essa relva secando,

por essa floresta no chão.

Perdão, Senhor, por esses cardumes boiando

pelos rios asfixiados

por essas águas morrendo

Perdão pelas  chaminés borbulhantes,

por essas folhas exaustas,

pela agonia do ozônio,

por essa Gaia ferida.

 

E contudo…senhores, é imprescindível sonhar…

juntar os cacos da utopia

e crer, incondicionalmente, num amanhã… 

É imprescindível sustentar a vida

para que os filhos da esperança possam respirar sua beleza.

Senhores… é também imprescindível indignar-se

não se acovardar ante a maldade,

porque é imprescindível virar o jogo 

saber que só o que é justo faz sentido

e empunhar com paixão essa bandeira.

É  sobretudo  imprescindível unir nossas mãos em prece,

falar  consigo mesmo e com as estrelas 

e acreditar…, que sobre esse vale de lágrimas,

um olhar compassivo nos ampara.

 

                            Curitiba, 12 de dezembro de 2006

 

Este poema consta do livro CANTARES, editado por Escrituras.                                                                     

A ESTRELA poema de vera lúcia kalaari / Portugal

 

 

Um dia

Uma estrela enorme

Misteriosa

Que cintilava nos céus,

Chegou-se a Jesus

E falou:

-Senhor, estou cansada de ser estrela!

Quero ser gente, quero ser mundo,

Quero um destino diferente!

E Jesus, olhos cerúleos,

Respondeu-lhe:

-Louca ambiciosa!

Cega, que dás luz e nada vês!

Olha! Olha a realidade!

E medita! Medita profundamente!

 

 

E a estrela descontente,

Ficou-se a cintilar

Na noite de luar.

 

 

 

Caía neve na terra.

Pela estrada fóra

Um grupo de crianças

Seguia sempre a andar.

Fugiam da guerra e da fome.

Não tinham lar.

Andavam, sem direcção,

Em busca d’algum lugar

Onde houvesse paz.

Não tinham pão

Mas tinham fé.

E só a estrada,

Só a neve,

Em busca da direcção…

Paravam, inquietos,

Olhando o ar, depois,

Novamente a caminhar!

Rostinhos tristes,

Mortos de fome,

Andavam…andavam…

Sem achar nenhum lugar.

E ao frio intenso

Não há florinha que resista…

 

 

E na escuridão da noite fria

A estrela cintilante

Olhou…tremeu…

E chorou, silenciosa.

 

 

 

Devagar, cansada,

Passa uma mulher esfarrapada.

Vem de longe, com seu menino nos braços,

Seios mirrados, sem leite,

Olhos chorando mágoa

Por essa criança esfaimada

Que lh’irá morrer nos braços

Como uma ave implumada.

Mas não há porta que se abra

À miséria que vai passando.

 

 

E na noite fria,

A estrela cintilante

Olhou…tremeu…

E chorou silenciosa.

 

 

Nevoeiro.

A obscuridade do dia

Estendeu véus negros sobre o céu.

E a terra é um vulcão

De sangue e fogo.

Tudo de luto:

Árvores…nuvens…pássaros…

Já não havia vida, já não havia mundo!

Não havia ruas, não havia casas,

Não havia homens! Só morte! Morte!

E no silêncio quebrado da noite,

Gritos e choros, chamas, gemidos,

E lamentos de crianças,

Correndo…correndo…

Sobre mortos queimados.

E soldados avançando, recuando,

Lutando, matando, morrendo.

Não mais flores de primavera,

Sorrisos de crianças,

Larangeiras floridas.

Não mais amor de jovens,

Amor de pátria,

Gente fazendo o sinal da cruz,

Homens cavando a terra…

Não mais vozes de rios

Levando barcos, lenços brancos a acenar,

Contos de fadas contados ao brasido

Por avózinhos cansados.

Não mais saúde, alegria, sonhos e ilusões.

Só luto e morte, maldições e agonia.

 

 

 

E na noite fria,

A estrela brilhante

Olhou…tremeu…chorou…

E quedou-se a cintilar…

 

O corpo dilacerado de Isolina Canuti – por lélia almeida

Dacia Maraini, a famosa escritora e feminista italiana resolve contar a história de Isolina, uma moça pobre e desconhecida, uma italiana anônima. Entre elas, transcorre um período de tempo de quase um século. Um século que faz alguma diferença na vida das mulheres, não toda a diferença que se deseja, mas alguma, sim.

Este testemunho de algumas mulheres, que resgatam a história de vida de outras mulheres, é uma das tendências mais marcantes e singulares da literatura de autoria feminina no mundo inteiro. Onde parece haver um movimento contínuo que estabelece um diálogo ininterrupto entre mulheres de diferentes gerações, diferentes etnias ou mesmo de diferentes classes sociais. Exemplos desta tendência são textos como Se me deixam falar…, onde a antropóloga Moema Viezzer relata a história de Domitila Barrios de Chungara, a trabalhadora da minas de estanho da Bolívia; ou Hasta no verte Jesús Mío, onde , a partir do depoimento de Josefina Bórquez, Elena Poniatowska dá vida à personagem popularissima de Jesusa Palancares, uma soldadera da revolução mexicana; ou quando Elizabeth Burgos-Debray dá voz ao relato de Rigoberta Menchú, em Me llamo Rigoberta Menchú y así me nació la conciencia.

Se os textos citados acima podem nos dar uma idéia do que hoje se chama, dentro da literatura latino-americana, de literatura de testemunho, também é correto considerar que todos eles tratam da história das mulheres. E da história mais comum que perpassa biografias e transcende geografias, unindo as mulheres no reconhecimento de uma experiência comum: a da violência sobre o corpo feminino. Em todos estes textos podemos evidenciar de forma mais ou menos central uma violência ancestral, quase atávica sobre o corpo feminino. Toda sorte e toda espécie de violência: doméstica, social, sexual, psíquica, etc.

E quando Dacia Maraini, em 1992, resolve contar a história de Isolina, está também dando o seu testemunho, mesmo sem a presença da protagonista, e contar esta história é uma maneira de negar o silêncio, negar a morte, negar a violência.

O livro publicado na Itália em 1992, Isolina, é traduzido ao espanhol em 1998 pela Editora Lumen de Barcelona como Isolina, la mujer descuatizada, ainda sem tradução no Brasil.

No alvorecer do século XX, em 16 de fevereiro de 1900, os restos do corpo de uma moça pobre e anônima, Isolina Canuti, são encontrados boiando nas águas revoltas do rio Adigio, em Verona. Os restos, enrolados em sacos e pedaços de roupas vão aparecendo aos poucos rio abaixo: primeiro aparecem 13 kgs de Isolina, depois outros pedaços, um ano mais tarde a cabeça, de onde pende uma trança desarrumada. Os restos são encontrados por outras mulheres, lavadeiras que labutam numa manhã fria na beira do rio.

Ao resgatar os pedaços do corpo de Isolina Canuti, Dacia Maraini vai resgatando – não sem dificuldades – os pedaços de sua breve existência e de sua morte trágica e prematura. A história é quase trivial : os Canuti, o pai e os irmãos, decidem alugar um quarto na casa da família, para um tenente por quem a moça se encanta. Aquece suas noites na fria Verona e, desta troca precária, escondida, Isolina engravida. Este o seu pecado capital, sua culpa, pela qual ela deverá ser severamente punida. O Tenente providencia a realização do aborto para proteger sua honra militar, zelar pelo seu nome, afinal, a moça era pobre, desqualificada, e não servia para ele.

O procedimento cirúrgico é um desastre do começo ao fim, atrocidades são cometidas numa improvisada mesa de cozinha onde o sangue de Isolina brota como de um manancial e seca, o corpo banhado em seu próprio sangue, em sua própria morte.

E a solução é rápida e urgente, desfazer-se do corpo, deste corpo incômodo, imenso, que ocupa lugares, sentidos, espaços desmesurados. A solução é rápida e urgente: cortar o corpo de Isolina em pedaços, enrolar os pedaços em roupas e sacos, atirá-los ao rio, indo pelo Adigio, pelo Pó até o mar.

Os poderes públicos de Verona criam um muro de silêncio ao redor do fato, do caso, do processo, sem, no entanto, conseguir escondê-lo. A indestrutível confraria masculina cria uma teia de informações que invisibiliza a história, a história do Tenente, de Isolina Canuti e de sua morte. O Tenente, é claro, está protegido.

Quase 80 anos depois, Dacia Maraini volta a Verona e tenta juntar as partes de um corpo de mulher que foi destruído, esquartejado, negado, esquecido. Retoma as páginas dos processos e da imprensa, da lembrança de alguns, dos eloqüentes silêncios de outros.

A sentença condena a uns poucos meses o Tenente e esclarece que quanto à gravidez de Isolina, não há como provar que fosse dele. E o subtexto é o de sempre: ela, certamente, provocou toda esta situação. A vítima, uma vez mais, é a culpada.

O corpo de Isolina esquartejado, morto, assassinado, sem direito à vida, à sexualidade, ao amor, à maternidade, a uma morte decente, a uma existência digna.

Mas quando Dacia Maraini conta a história de Isolina Canuti, resgata a sua vida e dignifica a sua morte. Quando Dacia Maraini junta os pedaços do corpo da pobre e anônima moça italiana, organiza o relato e dá sentido à sua dramática existência.

E quando nós, homens e mulheres de boa vontade, denunciamos a violência contra o corpo, a vida, a alma de outras mulheres, estamos dizendo que o silêncio é a morte , que a morte é o esquecimento e que nós não queremos parar de lembrar.

E que nas nossas vozes, estas mulheres permanecem vivas.

 

UM ESTRANHO AMIGO por hamilton alves

 

 

 

                                   Na década de 50, conheci um sujeito alto, magro, de óculos, de uma expressão facial que muito se assemelhava à de um pensador ou filósofo, com o qual esporadicamente me encontrava numa praça, sem que ambos firmássemos compromisso para tal fim. Acontecia por mero acaso. Ele vinha de algum lugar, eu de outro (descobri muito depois de nossos encontros iniciais que trabalhava no escritório de uma empresa).

                                   Sentávamos num banco e ali enveredávamos sempre por assuntos que nada tinham a ver com os fatos correntes ou da hora. Preferentemente, abordávamos tema mais transcendental. Ou ligado ao mistério das coisas, do mundo e da vida.

                                   Isso estava acertado implicitamente entre nós, sem que também houvesse de nossa parte expressa intenção de abolir o corriqueiro ou os fatos políticos, por menos que despertassem a atenção geral.

                                   Descobri também que havia sido seminarista e que não seguira seus estudos. Escolhera a vida civil. Tinha muito mais bagagem intelectual do que eu, que não tinha ainda concluído o ginásio (andava pela terceira série). Mas lia, lia já os clássicos – e a esse tempo lia Roger Martin Du Gard, com seu conhecido livro “Os Thibault”, que interrompi no terceiro volume  (ou no segundo) por causa de uma quixotada de Jacques, um dos personagens, que se lançou como um kami-kase num campo inimigo na 1a. guerra mundial.

                                   Meu amigo não aprofundava as questões provavelmente com receio de que não o acompanhasse. Falava pouco, de forma reticente, como se também tivesse dificuldade de avançar sobre os temas aflorados.

                                   Súbito, silenciava ou emergia desse silêncio como se acabasse de visitar as profundezas de sua alma e se sentisse meio contrafeito com o mundo, com tudo que o cercava. Ou era pura impressão enganosa minha.

                                   Esses encontros se repetiram ao longo de um ou dois anos sempre da forma referida: vinha de uma rua, eu de outra e, inesperadamente, na mesma praça, nos descobríamos e ali seguíamos por nossas veredas desconhecidas, a procurar a razão ou o sentido das coisas.

                                   Era um sujeito sério, de pouco humor ou de raro riso, que me dava a impressão de estar sempre imerso em pensamentos profundos. E dos quais saía como de um transe, parecendo-me que, muitas vezes, nem desse pela minha presença.

                                   Tempos depois não nos vimos mais.

                                   Era, porém, um amigo, um estranho amigo, com quem ia me familiarizando, de que sequer soube o nome.

 

 

(fev/08)                                                 

NO QUE A COISA DÁ por alceu sperança

 


 

Quem desconhece a história corre o sério risco de repetir suas tragédias ou farsas, como já dizia Marx. Vamos a algumas reflexões.

Vargas, depois de sofrer furiosos ataques − “corrupção”, “mar de lama” etc − conseguiu impedir em 1954 que a direita voltasse a controlar (como sempre) o poder no Brasil. Mas isso lhe custou a vida e garantiu ao País apenas dez anos de uma democracia a meio-pau, fortemente abalada pelo golpismo.

Juscelino Kubitschek enfrentou imensas dificuldades para conseguir se eleger. Aliás, até para ser candidato foi difícil, pois era boicotado mesmo dentro de seu partido (PSD). E só conseguiu vencer a eleição porque no momento decisivo o PCB, percebendo que os golpistas identificaram em JK seu adversário principal, desequilibrou o pleito apoiando-o de forma conclusiva. Mesmo impedido de funcionar legalmente, o PCB denunciou as manobras golpistas que pretendiam ou evitar a eleição semidemocrática ou impor uma candidatura única da direita.

A campanha eleitoral de 1955 foi sistematicamente conturbada pelos golpistas, que conspiravam ativamente contra o direito do povo ao voto e ao resultado de seu exercício. Quando JK venceu a eleição, de turno único, veio a próxima agressão dos golpistas: tentar a todo custo evitar que o presidente eleito tomasse posse. Em nome da “crise política”, pregavam aberta e descaradamente que o presidente não devia assumir o mandato. Um dos elementos que bloqueou a ação golpista foi o Movimento Militar Constitucionalista, que defendia o cumprimento da lei. Lógico: se o povo elegeu, o eleito deve tomar posse e governar.

Nesse olho de furacão, JK assumiu, mas passou a ser atacado a todo instante pelos golpistas. A primeira acusação era simplesmente ridícula: JK não podia assumir porque teve apenas um terço dos votos. Na época, a legislação eleitoral permitia várias candidaturas e limitava a escolha ao turno único. O grande rancor dos golpistas contra JK, porém, desde a campanha eleitoral, antes da posse, logo após a posse e durante todos os seus anos de governo, foi sempre o apoio do PCB, que desequilibrou o pleito e garantiu a vitória. O PCB foi proibido de funcionar como partido, mas seus simpatizantes não podiam ter surrupiado o direito de escolher um lado (mesmo o lado pequeno-burguês de JK) e votar, como cidadãos.

JK, de fato, nem teria assumido se não prevalecesse a tradição legalista da parte sadia da elite nacional, até onde ela pode ser sadia. Nesse caso, ocorreu um paradoxo: o ministro da Guerra, general Henrique Teixeira Lott, golpeou o presidente em exercício, Carlos Luz, para garantir as condições necessárias à posse dos eleitos. Foi necessário, portanto, um “contragolpe preventivo” para garantir a posse. Depois vieram mais tentativas golpistas, rebeliões e um massacre de denúncias, algumas até procedentes, e calúnias quase diárias. Mas o presidente resistiu, negando-se a renunciar e se apoiando no povo para não ser deposto.

A duríssimas penas, enfrentando os golpistas a cada dia de seu mandato, JK conseguiu completá-lo. O rato que a montanha golpista pariu com suas denúncias e rebeliões diárias foi eleger um instável Jânio Quadros moralista/populista. Mas o povo também elegeu o progressista João Goulart para a vice-presidência. Quando Jânio golpeou a si mesmo com a renúncia, acreditando que os golpistas não permitiriam a posse do vice-presidente “esquerdista” e ele voltaria como ditador e “rei do Brasil”, o sentimento legalista da grande maioria do povo brasileiro assegurou a posse de Jango, que em seguida viria a sofrer dois golpes (um parlamentar, outro armado) até ser arrancado do poder.

Hoje não há mais “necessidade” de golpes. As eleições estão sob controle. Os neoliberais PT e PSDB, cada qual com seus satelitezinhos, vão encaminhando o Brasil à fórmula primeiro-mundista da alternância no poder entre republicanos e democratas, trabalhistas e conservadores, blancos e colorados.

Rumorejando (Com o desemprego motivado pela crise financeira se preocupando.) por josé zokner (juca)

 

Constatação I

Rico é jovial; pobre é insosso.

Constatação II (Dúvida crucial).

Os homens que se negam a parar pra perguntar, na estrada, a direção exata do seu destino – conforme sugestão, pedido, imploração insistência da cara-metade –, naturalmente, que se perdem. Neste trágico caso, eles estão na contramão da história ou da geografia? Quem souber a resposta, por favor, cartas através do blog (http://rimasprimas.com). Obrigado.

Constatação III

Rico é resoluto; pobre, hesitante.

Constatação IV

Deu na mídia:Cientistas descobrem 700 novas espécies da fauna na Antártida”. Sem data vênia, já dá pra ter certeza o que vai acontecer com elas…

Constatação V

Não se pode confundir borocoxô com broxo (u), muito embora, em condições normais de pressão e temperatura o cara que broxo (u) fica borocoxô. A recíproca não é necessariamente verdadeira. Afinal, existem “n” motivos outros para o cara ficar borocoxô, como por exemplo, quando leva um fora da gata, o seu time do coração perde ou é rebaixado para a segunda divisão, se dá conta que no país só ocorre pizzarias sem fim e outras “cositas” desses jaezes.

Constatação VI

Rico se atormenta por não ser mais rico; pobre, atormenta.

Constatação VII

E não se pode confundir restituído com destituído, até porque, até hoje, não se ouviu dizer que um governante foi destituído por não ter restituído os execráveis “empréstimos compulsórios” que acabam se transformando em imposto compulsório. A recíproca para esses casos não é necessariamente verdadeira. Basta ver o que ocorre com os técnicos de futebol que são destituídos sem que possam restituir a vitória dos times que vinham atuando. Dos presidentes dos clubes de futebol que não entendem nada do riscado, nem falar.

Constatação VIII

Antonio Carlos Gomes, César Guerra-Peixe, Alberto Nepomuceno, Heitor Villa-Lobos, Bento Mossurunga, os irmãos Norton e Henrique Morozowicz. Taí um time de musicistas brasileiros da pesada. Tenho humildemente dito!

Constatação IX (A base de chavões),

Rico não tem limite para gastar; pobre dá o passo maior do que a perna.

Constatação X (Teoria da Relatividade para principiantes).

É muito melhor entrar em férias do que entrar pelo cano, muito embora ocorram casos em que, nas férias, se possa entrar pelo cano como, por exemplo, pegar tempo ruim, muita gente no lugar escolhido, ter que levar a sogra e assim por diante. A recíproca é verdadeira. Você pode entrar pelo cano sem estar em férias, na malfadada eventualidade de não receber uma merecida promoção do teu chefe que optou em dá-la ao sobrinho, aquele vagabundo que nada faz a não ser perturbar o ambiente de trabalho.

Constatação XI

Rico mora em mansão; pobre, em covil*.

*Covil = “habitação rude, miserável; choça, casebre”. (Houaiss).

Constatação XII

Rico se reúne em turma; pobre, em bando.

Constatação XIII (Quadrinha inequivocamente didática).

Só jogar canastra,

Acolá no motel

O fogo não alastra

E que feio papel.

Constatação XIV (Quadrinha da curtição total).

Passar um blefe, um facão,

No científico jogo de truco,

Dá montanhas de satisfação

E deixa o outro meio maluco.

Constatação XV (Quadrinha reivindicatória).

Se no próximo carnaval

Eu não desfilar como destaque

Ficarei irremediavelmente tão mal

Que terei um baita ataque.

Constatação XVI (De uma dúvida crucial)

E já que estamos falando no assunto, o haicai, que os japoneses inventaram, é uma quadrinha de pé quebrado?

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

                        foto livre. ilustração do site.

 

A CASA DAS ANGÚSTIAS crônica de joão batista do lago

Sentei-me numa cafeteria da Rua XV, no centro de Curitiba, para tentar esquentar o corpo e a alma do frio de 9ºC. O vento que soprava de Sul a Norte, deixava a sensação que a temperatura estava, pelo menos, quatro graus abaixo. Foi exatamente o conjunto dessa atmosfera que me levou a pensar num café com licor de chocolate acompanhado por um bom e delicioso conhaque, evidentemente enuviado pela fumaça e pela fragrância dum cubano a lá brasileño, comprado no Mercado Municipal, horas antes. E assim procedi.

Depois de servido pela garçonette com rosto de lua e de olhares orientais, lábios finos e de palavras fractais, ocorreu-me investigar o local: um corredor labiríntico com as mesas pregadas à parede. Todas estavam literalmente ocupadas. Eram mesas paralélicas que forçavam, naturalmente, os seus ocupantes a se olharem – mesmo que não pretendessem fazê-lo! – ininterruptamente. Entre as mesas e o balcão de serviços o espaço para os transeuntes não ultrapassava mais ou menos 75cm de largura. Era, pois, impossível, assim, não haver leves esbarrões entre aqueles e aquelas que entravam ou saiam do ambiente. Apesar do furdunço e do vozerio (que em geral me irritam) tinha-se sempre a sensação de estar num local agradável. Toda aquela bagunça… aquele caos (pasmem!) era de uma ordenação e de uma ordenidade inimaginável. Impressionante mesmo! Na desordem dos pensamentos, das palavras, dos gestos, dos grunhidos, dos afagos, dos carinhos, dos beijos, dos olhares, do tilintar de copos e xícaras, de baforadas de cigarros e afins, de tosses, cusparadas e escarros, enfim, dos corpos, havia uma organicidade que me levaram a raciocinar sobre o ponderável e o imponderável de tudo aquilo.

Por alguma razão que, possivelmente saiba, mas não a queira declinar, ocorreu-me imaginar aquele ambiente como sendo a Casa das Angústias. Isso mesmo! Ali estávamos todos – todos mesmo –, inflexivelmente, desfilando angústias de existencialidades não compreendidas, não entendidas, não apreendidas, não assimiladas… E mais que isso: imprecavidamente jamais aceitas como campo do conhecimento humano. Senti naquele instante um desejo imenso de querer ser tudo e todos. Desejei absurdamente tê-las como minhas todas aquelas angústias. Queria-as para torná-las meu conhecimento, de tal forma, que percebi que já não mais me era em toda aquela intuição. Era-me cada um e cada qual. Era-me desde a sobriedade mais retocada da curitibana dissimulada ao imprudente bebum solitário, contudo rico proprietário de vários prédios espalhados naquela rua e em outros lugares da cidade. Era-me desde a moça bonita de olhos azuis da cor do mar que ali se prostrava para ganhar o pão de cada dia para sustentar seu filho e a família ao mais ilustre advogado, o bom ladrão das defesas indefensáveis, entretanto causas ganháveis nos porões e nos labirintos dos corredores da Justiça. Era-me o pastor e o padre que se embriagavam com os dízimos dos fiéis condenados ao fogo do inferno se, porventura, renegassem a santa esmola. Era-me o poeta que deambulava seus devaneios procurando a palavra mais completa ou o verso mais límpido para assim produzir a estética da poesia mais bela. Era-me a criança rica que se empanturrava de hambúrgueres ao menino de pé no chão que pedia uma esmola “pelo amor de Deus” e levava como resposta o “xô… xô… xô…” tocado pelo vigia da casa. Era-me o político e o economista; o professor e o esportista; o jornalista e o palhaço; o patrão e o mercado…

Infernos! Céus! Purgatórios!

- Não os tenho. Infelizmente não os tenho para aplacar o desejo incontido do meu corpo que necessita dessas angústias carregadas de liminaridades angustiadas e sedentas de vivencidades, de angusticidades necessárias e indispensáveis para a compreendidade da infinita sabedoria de ser. Quão pequeno eu sou!

Tomo o último gole do café. Inspiro a última tragada do brasileño. Impregno-me de toda fragrância. E me vou pra casa como humano… Nada mais que humano!

 

A CRISE NO BRASIL por walmor marcellino

TÃO GRAVE

 

Confrangido pelas verdades, atormentado pelas incúrias, acometido de culpas, faço um pedido de anistia temporária: não mais perturbarei aqui o discernimento político dos “vigilantes socialistas” e de seu contrapeso, o redivivo “Clube da Lanterna” (“O preço da liberdade é a eterna vigilância!”‑ UDN). Porém antes de ir para um merecido ostracismo, vou re-expor algumas debilidades ‑ pouco entendo de política, sou malformado em filosofia e em ciências sociais; disponho de poucas informações histórico-políticas; sofro de inadimplência sensualista, estética e erótica, às vésperas dos 80 anos. Claro, também, que não estou de cabeça baixa ante os inquisidores.

Enquanto o tribunal revolucionário marxiano avalia este pedido, solicito que todos os comunistas, socialistas, democrata-populares e afins se mobilizem, reúnam e discutam a crise econômico-político brasileira dentro da crise sistêmica do capitalismo globalizado, da qual se foi conhecendo sucessivamente uma penhora imobiliária, um déficit  financeiro, um vazio de investimentos produtivos, uma algaravia das bolsas especulativas de valores, uma “quebradeira” de especuladores e credores fraudulentos, mas com a extensão dos danos a toda a população mundial. Para cujo placebo sanitário, a sociedade emergente nos oferece o suicídio (das classes trabalhadoras e dos ingênuos “investidores”), sem a devida correção das relações entre a estrutura produtiva e as condições de vida dos produtores frente ao manipanço “Mercado” e seus gângsteres neoliberais; muitos acoplados ao complexo industrial-militar (EUA) onde se acumulam déficits gigantescos (a serem pagos pelos povos invadidos pela “democratização” militar).

Acredito que o Lula da Silva (não seja o da Selva) não faça do seu “Novo-Proer” e das ensanchas aos exportadores, a par de seu PAC com privatizações, o centro das respostas brasileiras à crise mundial. Ignorante da ciência econômica mas premido pelas responsabilidades sociais, atrevo-me a dizer que, na contracorrente da crise, devemos assegurar produção, sistema de trabalho com maior produção e distribuição de riquezas e consumo social. Se as reformas sociais ‑ como a agrária, urbana, educacional, sanitária, de previdência social, segurança pública e tecnológica, juntamente com a reforma política ‑ não receberem maior cuidado político e dedicação do que o “sistema financeiro e agrário-exportador” merecemos ir aos infernos: naufragar sob as investidas financeiras, as “salvaguardas nos preços” de gêneros e dos serviços sociais e com as transferências de custos e abusos para as classes trabalhadoras. E teremos então “vencido as procelas” com os comandantes no castelo de proa (ou Proer?) e a tripulação miserável comendo biscoitos bolorentos e grãos fermentados.

De assim, pleiteio que os republicanos não se submetam aos publicanos, que os democratas-populares rejeitem demagogos e populistas, que os socialistas recusem a liberal-democracia e que os comunistas lavem os pés com água quente e sal. Contudo mandem um recado ao Luiz Inácio Lula da Silva: Não é hora de discurso; é hora enfim de reformas.

Curitiba, 9/10/2008

 

UM GRITO ENORME QUE NINGUÉM OUVE por zuleika dos reis


 

 

tarde cinzenta fria dia qualquer anônimo nos calendários sem sombra de dúvida oito de agosto de mil novecentos e noventa e um dezessete horas pontuais trinta minutos nos livros de história final do século vinte primeiro ano da última década os apocalípticos insistindo oito anos para o fim do mundo outros assegurando primórdios da era de aquário enquanto Rubem procura certamente neste instante le mot juste que se encaixe na estrutura de seu texto que não se enquadra em nenhum gênero literário que todos os gêneros literários já morreram e Rubem já faz parte do futuro e quem sabe lá nesse futuro após o fim de tudo as coisas todas degeneradas assim todas misturadas voltem  em NOVAS HIERARQUIAS e Rubem o cientista não mais precise dizer que tudo o que realmente importa é o futuro da espécie mas o tempo não existe nessa tarde cinzenta e fria tão cinzenta e fria assim fria e cinzenta com uma dor de cabeça infinita e tudo o mais de chumbo e quando você l’autre Daniel Aleph aqui sempre comigo e em todo lugar me dizendo que voltou a existir o tempo dos relógios não consigo acreditar NÃO POSSO essa certeza que não posso tritura-me nos cacos da janela embaçada da chuva lá fora fininhas agulhas no sangue saindo pelos poros e eu tenho que ir para o trabalho os alunos esperando para que eu lhes ensine corretos cada passo como se deve escrever um texto bem comportado e todos coordenadora pedagógica diretora inspetor supervisora os pais o sistema todos muito felizes e no fim do ano vão todos aprovados assim felizes para a próxima série mas não saio enquanto você aqui por mim adentro vai me extraindo de suas veias desmisturando do seu o meu sangue gota a gota logo enxurrada separando da sua boca o meu hálito do seu rosto desfazendo traço a traço os traços do meu rosto em seu espelho desfeitas linhas a escorrer do meu espelho e gritamos enorme  grito que ninguém ouve mas estremece os alicerces dos edifícios mas ninguém percebe nos escritórios que tudo desabando e na avenida paulista alguém chuta uma pedra mas os dedos há muito adormecidos e uma palavra pretérita de amor me olha do fundo do quarto com os olhos distantes balança a cabeça numa negativa se levanta da cadeira sai para o corredor sem olhar para os quadros abre a porta de saída  sai para a rua enquanto ouço ouço ouço em algum lugar de mim ouço ouço ouço ouço o último poema do último poeta da TERRA o poema encrencado na mesma palavra no antigo disco de vinil a mesma palavra repetida repetida repetida a palavra a última do último poeta da TERRA  e o último poema não anda não anda não anda como o trânsito agora às seis da tarde na marginal de pinheiros nesse crepúsculo de chuva enquanto sonho impossivelmente você caminhando em direção a algum orelhão para que ninguém possa saber nem ouvir as palavras que você nunca nem agora nem nunca vai me dizer mas  nem mesmo você pode se impedir de pensar se eu nessa hora já saí de casa para dar minhas aulas e se vale a pena atravessar os CINCO CONTINENTES  de si mesmo para em não sabemos que língua me dizer alô e eu me lembro de repente que Ofélia acabou de morrer e Álvaro de Campos deve estar muito preocupado já que agora tudo vai ter que recomeçar para que Fernando Pessoa seja convencido de novo de que não vale a pena escrever novas cartas de amor que todas são mesmo ridículas mas o problema é que todo mundo do lado de lá também já sabe quem foi Ofélia que acabou de chegar sem corpo físico como dizem que se chega neste lugar que chamam de eternidade e lá e aqui já não há quem não tenha lido as tais cartas ridículas e Fernando Pessoa que não sabe mais onde esconder todas as suas caras se fecha na nuvem mais próxima para que mesmo oculto não fique longe demais dessa Ofélia que acabou de chegar se oculta o tempo necessário para que todos os habitantes desse outro TEMPO-LUGAR se distraiam com novas celebridades que estejam a chegar enquanto nós do lado de cá estamos cada vez mais próximos mais próximos mais próximos do século vinte e um se é que ele chega porque Nostradamus afirmou que tudo só vai até mil novecentos e noventa e nove por isso deve haver gente que vai começar a se suicidar desde já e o que era crepúsculo agora já é essa noite da janela não consigo ver a emergir nenhuma estrela mas você quem sabe em algum lugar ainda de si mesmo me espere ainda com aquela mesma estrela no bolso a estrela impaciente dentro do seu bolso mas sabendo que não adianta nada estar assim impaciente e se transforma na bola de gude com que você brincava quando era criança e você que não telefona toma um café expresso pensando em tudo o que poderia ter sido se o mundo fosse outro se a história do mundo estivesse noutro tempo se eu fosse outra se os outros fossem outros e não houvesse tantos e tantos outros e outras fileiras multidões entre você e eu nesta noite em todas as noites e em todas as manhãs e tardes e sábados feriados e domingos e talvez alguns séculos ou pensa coisas muito diferentes que eu penso esteja você pensando os pensamentos que eu jamais poderei ouvir por dentro da sua cabeça e vão crescendo crescendo crescendo na sua cabeça e na minha cabeça até que a bola de gude que é também uma estrela se aconchega mais e mais e mais entre as dobras do seu casaco de veludo e dorme

 

MENSAGEM DO TINHOSO conto de tonicato miranda


O ônibus saiu da Rodoviária às oito horas em ponto. Durante vinte e dois minutos ficou a olhar a paisagem, como num filme de Godard, onde tudo se vê e em nada se fixa. O dia caminhava feio. Tudo cinza abaixo e acima da garoa fina e da névoa intensa que ora mostrava o topo da morraria próxima, ora descortinava os montes mais altos no horizonte. Dia feio e frio. Dia em que perro não sai de cima do jornal na soleira da porta, gato não desenrola do rabo e do canto do sofá, pernilongo não voa, besouro não zumbe. Dia pra beber chimarrão e chupar muita xícara com café fumegante.

Cansado da leitura da paisagem e das viagens mentais abriu a mochila, sacou o livro, retomando a leitura da noite anterior. Grande Sertão e Veredas. Estava ele ainda pela página 45, apesar de 13 dias de leitura, quando o telefone disparou. Disparou e parou antes que pudesse atendê-lo. Voltou à leitura e mais uma vez o telefone esganiçou no seu bolso. Tentou ler a mensagem, mas nada havia. Quem ligou não concluiu a primeira frase – “E ai mano…”. Com o olho novamente na paisagem ficou mirando o rendilhado das lavouras de arroz alagadas e algumas que ensaiavam brotar as plantas para fora da água, mas que se mantinham cinzas pela ausência de luz. Estava assim, viajando na viagem, quando o telefone apitou com grunhido doido, insistente. Acelerou o gesto para tentar interromper o barulho incômodo para ele e para os outros passageiros.

Desta vez a mensagem chegou inteira:

_ E ai mano desejo boa sorte pro wil que vá pra ganhar eu estou em uma reunião por isso não estou ai pastor Gelson

Intrigado e chateado com aquela interrupção da sua leitura e da viagem do olhar no interior da paisagem resolveu respondê-la, mesmo não sabendo quem, onde, ganhar o quê, Wil, Gelson, sorte, ganhar, perder, pastor…

Passou os próximos trinta minutos construindo no celular a mensagem-resposta para aquelas palavras vindas do hiperespaço celulante da telefonia mundial. Por estar lendo Guimarães foi influenciado na construção do texto. Foi difícil apertar com precisão aquelas teclas tão pequenas com seu dedo gordo. Mas foi em frente…

_ Pastor Gelson, acho que nos desigualamos. Não sou seu mano. No momento estou no sertão de Santa Catarina, que apesar de santa, se hoje viesse pousar aqui, tinha de vir armada, com bala nos dentes, porque a gente daqui é tanto ruim, como um outro ruim dia um. Mas venha. Venha com sua carantonha. Se não prestar, outra cara a ela nois empresta. Causo ela fique muito furada, disminuimos as balas. Não tenha receio, o medo da morte só bate no bobo do corpo, não no interno das coragens. Pois venha.

Enviou a mensagem e, satisfeito com a missão cumprida, retornou ao livro se misturando com Riobaldo, Diadorim, a jagunçada, o tinhoso, a piriquitada e as veredas mineiras de histórias, estórias além de muitas sabedorias “Olhe: Deus come escondido, e o diabo sai por toda parte lambendo o prato…


Curitiba, 15/Setembro/2008.

METAMORFOSE por marilda confortin

 

Era uma vez, um bicho estranho que parecia uma lagarta, sonhava ser borboleta, queria ser um humano forte
como uma rocha e acabou descobrindo que era tudo isso.

 

No tempo que achava que era uma lagarta, vivia se arrastando, comia plantinhas rasteiras porque não enxergava as folhas nas copas das árvores, tinha medo de espelhos porque não se reconhecia neles e vivia procurando um lugarzinho seguro para construir seu casulo e criar seus filhotinhos conforme as regras da sociedade do seu pequeno mundo.

Encontrou um robusto arbusto que lhe estendeu a mão. Teceu seu casulo, acomodou-se lá dentro e sentiu-se muito feliz e confortável por muito tempo. Chegou a esquecer os outros sonhos.

Um dia ao acordar, percebeu que o galho havia quebrado, a casa havia caído e os cupins haviam devorado tudo ao seu redor.  Sentiu muito medo e chorou. Mas chorou por um tempo bem menor do que o tamanho do seu medo e sua dor. Olhou para trás e viu que o caminho do passado tinha crescido e já era muito maior que o caminho do futuro. Ficou pensando numa maneira de chegar rapidamente ao fim daquela estrada. Pensou em meter uma bala na boca, mas só tinha drops hortelã e já estava enjoada desse sabor refrescante.

Lembrou-se de que um dia quis ser borboleta e pensou que, se voasse, poderia vencer a distância com mais rapidez e recuperar o tempo perdido.

Parou de chorar, subiu nos escombros da própria crisálida, desamassou as asas, pulou de cabeça na nova vida e sobrevoou o pequeno quintal. Como era bom voar!

Mas, logo percebeu que suas asas rotas pelo desuso, já não eram tão saudáveis e nem tão fortes. As flores do jardim que durante muitos anos ela admirava debruçada sobre o peitoril da janela de seu casulo, já alimentavam outros bichos tão vorazes quanto ela. Havia pouco néctar e muitos predadores. Conheceu uns insetos interessantes que lhe contaram sobre outros mundos além daquele muro. Encorajaram-na a voar para mais distante.  

Subiu no mais alto galho e voou para longe. Conheceu a fúria dos ventos, a imensidão do espaço, a diversidade dos sons, o perigo do fogo e viu que o céu não era azul. Deu-se conta de quão efêmera e frágil era a vida de uma borboleta. Será que era mesmo preciso ter asas para voar para fora de si? O que pensava ser liberdade, na era apenas uma ingênua ilusão de borboleta? Porque ela não se sentia tão leve como devia se sentir uma borboleta?

Deu-se conta então que, de tanto lutar para ser livre, seus pensamentos haviam endurecido ela se transformara numa rocha.

Sentiu-se estranhamente aliviada com essa nova metamorfose. Pedras não precisavam respirar, nem comer, nem voar, nem reproduzir, nem pensar, nem se explicar, nem defender-se de predadores. Pedras não precisavam ser leves, nem jovens, nem preciosas, nem bonitas. Pedras são silenciosas e sábias. Guardam segredos e conhecimento dos tempos. Não necessitam das necessidades humanas.

Rolou para um rio que passava distraído em sua frente e viveu um longo tempo de pedra, contemplando o nascer e o morrer dos dias e tudo o que nasce e morre dentro dos dias sem que ninguém perceba. Ouvia histórias de águas passadas, deixava o tempo lapidar seu corpo, sua mente e, sem resistir deixava-se levar pela correnteza.  Adormecia ouvindo canções de ninar das cachoeiras.  Sentia-se livre e leve como nunca.

Numa manhã clara de inverno, uma imagem refletida nas águas acordou-a. Parecia familiar. Forçou os olhos quase cegos para enxergar melhor. Qual não foi seu espanto, ao reconhecer seu próprio rosto estampado naquelas águas.

Ela era então, uma velha mulher. Estava no jardim de uma casa de repouso para idosos. Inclinou-se um pouco mais para ver sua imagem. Foi quando a cadeira de rodas que a manteve inerte por muitos anos moveu-se e ela caiu dentro do lago do asilo.

Fechou os olhos e inspirou profunda e calmamente sua imagem. Afogou-se.

Tudo acabou bem, afinal.

A mulher cumpriu seu ciclo.

Enfim, em paz para sempre. 

Alfabetização, letramento e alguns problemas – por leonardo meimes


 

 

Na década de 80, começaram a ser elaborados os PPPs (Projeto Político Pedagógico) que incluíam as novas concepções de linguagem e de aquisição do sistema com base nas teorias lingüísticas que estavam em evidência. A partir desta época a escola já teve mais de vinte anos para compreender e aplicar essas novas teorias, porém o que se vê é que, tanto os professores quanto as escolas, não conseguem fazer uma prática pedagógica de ensino de língua e leitura eficaz.

O interacionismo e o letramento são duas teorias que vieram ao encontro da necessidade de um entendimento mais compreensivo da língua e ambos são respaldados pelos estudos iniciados há muito tempo pelos cientistas da linguagem (os lingüistas). O interacionismo tem como princípio o fato da linguagem ser fruto de uma interação, através das três práticas discursivas (a escrita, a fala, a leitura), portanto o texto deve ser o principal objeto de estudo da disciplina de língua portuguesa. A compreensão insuficiente trazida pelas abordagens anteriores, de língua como código ou de língua como representação do pensamento, criou problemas que hoje são evidentes na formação de nossos alunos. Percebemos que o conhecimento só do código, dos meios pelos quais a língua se organiza e concretiza (das gramáticas), é insuficiente para que um falante faça um uso efetivo das três  práticas. O que se vê nas gerações que foram alfabetizadas priorizando a estrutura da língua, com exercícios de análise gramatical descontextualizados é uma grande porcentagem de pessoas que sabem ler e escrever, mas não tem o domínio necessário destes meios (os chamados analfabetos funcionais). Essas pessoas conhecem o código, o decoraram, mas não conseguem usá-lo para uma interação social efetiva. A partir disso, pode-se perceber que no aprendizado da língua existem duas faces, como a professora doutora em educação Magda Becker Soares define, que são inseparáveis e necessárias.

A primeira face, a de aprendizado do código (da estrutura da língua), é aquela em que o falante aprende a passar a linguagem de sua forma fonológica (fala) para a ortográfica (escrita). Este processo, chamado de alfabetização, é hoje visto de forma diferente, o aluno não aprende mais repetindo e decorando as informações, como na escola tradicional, o trabalho deve ser conduzido de forma que o aprendiz seja estimulado a agir e pensar sobre a língua. Sendo essa uma ação pedagógica muito mais voltada para a proposta atual dos PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) e diretrizes, que prevêem uma ação de uso-reflexão-uso sobre a língua. O aluno vê como a língua é usada, ou percebe na fala, tem a oportunidade de criar hipóteses sobre a organização dela escrevendo e após isso reflete e reorganiza o que produziu. Agindo e interagindo dessa forma com a língua o aluno terá um aprendizado mais duradouro do sistema em questão. Seus “erros” nesta visão são considerados etapas de entendimento do sistema, em que ele está supondo soluções para a transcrição da fala. É também importante ver que nesta etapa o aluno já tem conhecimento sobre o sistema pela fala, portanto o que está aprendendo não é algo novo é apenas uma nova forma de representação do que ele já conhece. Ativar esse conhecimento prévio pode ser o gancho procurado para fazer a relação entre a linguagem oral e escrita, aumentando a compreensão do aluno e do professar sobre elas.

A segunda face, citada por Magda (SOARES, M. B. Aprender a escrever, ensinar a escrever.) é a de aprendizado das formas textuais e da produção de textos. No entendimento interacionista da língua, o texto, seja ele oral ou escrito, é visto como uma enunciação e isso muda profundamente a prática da produção de textos. Até hoje se vê aulas de redação em que o aluno é impelido a escrever sobre temas que não são de seu interesse, usa formas textuais comuns, produções controladas e pouco diversas. Este tipo de atividade com o texto não estimula a produção do aluno e o afasta do texto. As produções devem ser espontâneas, permitindo que os alunos escolham temas ou escrevam sobre o que é de seu interesse, porém a maior mudança ocorre no motivo e preparação para a produção.        Na prática tradicional de produção textual, as “redações escolares” são produzidas para serem lidas pelo professor e corrigidas apenas gramaticalmente de forma resolutiva. Ao contrário, se o professor devolver os textos para que os alunos possam reescrevê-los e ajudá-los a melhorar a adequação do texto aos padrões requeridos pelo contexto, a produção textual é mais efetiva. Para que isso aconteça, a própria proposta de produção deve ser diferenciada e explicativa. O aluno deve saber porque, como, para quem e quando o texto está sendo produzido, sendo assim capaz de adequar sua produção ao leitor (quem), ao gênero (como), à formalidade, momento histórico e outros fatores que influenciam na produção. Para estimular essa produção o professor deve propor uma situação real de produção e publicação, seja na escola, na Internet ou outro meio, a produção dos alunos têm de ser real em seu sentido de interação. A partir disso, na correção dos textos o professor deve se preocupar com a adequação dos textos ao proposto, o “erro” de novo não existe e passa a ser uma falta de adequação a proposta escrita ou ao gênero e situação. Ainda, para que o aluno tenha uma produção de textos adequada é necessária a leitura, o conhecimento dos gêneros, discussão e produção textual tanto pelo aluno quanto pelo professor. Somente em contato com textos diversos de revistas, jornais é que o aprendiz conseguirá ultrapassar a “barreira” de alfabetizado e entrará no mundo dos letrados, podendo agora agir socialmente com o sistema aprendido e estudado. Essa segunda face foi chamada de letramento por Mary Kato em 1985 (Kato, M.A. O Aprendizado da Leitura).

O trabalho com as duas faces do ensino de língua é necessário para que o aluno aprenda a transitar pelos sistemas de texto e seja mais do que um alfabetizado. Segundo Magda Soares (SOARES, M. B. O que é Letramento.) “Já não basta aprender a ler e a escrever, é necessário mais que isso para ir além da alfabetização”. Quando o trabalho prioriza uma das partes o aprendiz sente a falta da outra, pois assim como existem alfabetizados que não sabem ler e escrever adequadamente, também existem os letrados que não são alfabetizados, pessoas que não conhecem o código. Para tanto é necessário que os professores e alfabetizadores tenham conhecimento dessas teorias, saibam passá-las para a prática de uma forma efetiva e tenham o apoio da escola. Os projetos pedagógicos já consideram a abordagem interacionista, mas não conseguem fugir da prática tradicional porque os professores também não conseguem.

Quem hoje leciona português tem, muitas vezes, uma falha na formação, na qual não foram contempladas as teorias lingüísticas e interacionistas, muito menos o letramento. Apesar da maioria dos cursos de letras já trabalharem com as teorias lingüísticas, os cursos de pedagogia e magistério, que formam os alfabetizadores, ainda não as consideram. Como resultado, nossos educadores estão desatualizados e os que têm conhecimento teórico encontram dificuldades em transpor para a prática o que é visto nos livros. Muitos se sentem confusos sobre como trabalhar com o texto e com a gramática em uso de uma forma única e outros não sabem como fugir da alfabetização usando as “cartilhas”. As escolas ainda não têm, em sua maioria, bibliotecas adequadas e os materiais didáticos priorizam um ensino de gramática descontextualizado, faltando o contanto necessário com o texto para que professores e alunos mudem essa prática

Enfim existem muitas barreiras a serem transpostas e derrubadas no caminho de um ensino de língua mais eficaz. A formação de professores e alfabetizadores deve ser melhorada e continuada, as escolas devem atentar-se ao que seus professores tem feito nas salas de aula e devem assegurar aos alunos o acesso aos textos necessários ao seu aprendizado. Uma prática boa do letramento e da alfabetização pode nos presentear ao longo prazo com jovens e adultos que serão leitores e escritores ativos e eficazes, retirando nosso país da lista dos países menos letrados do mundo.

DANÇA PARA UMA ALEGRIA MÍNIMA poema de altair de oliveira

 

 

Lembro do modo que a morte me convida

pra fazer vida consigo no pós-morte.

Penso comigo no medo que consigo

quando me vejo esquecido pela sorte

fico menor que o menor ser dividido

meio sem porto, sem norte, sem abrigo…

 

Sempre que sumo, espero e me procuro

sei que comigo amigo uns inimigos…

Sinto que a fome me come parasita

e cedo à sede em segredo, comovido.

Quero que o belo futuro me visite

e me permita o instante enfestecido:

desenharei alegria em surdos gritos

desdenharei os  demais dias vividos!

 

Altair de Oliveira – In: O Embebedário Diverso

PEQUENO CONTO ENCONTRADO NA NOITE DA MEMÓRIA por cleto de assis

 

                                        para Ângela, a garimpeirinha de luz

 

 

A menina brincava, distraída, em meio a três pessoas adultas. Duas visitas e sua mãe, triste, enxaquecosa. Braços cruzados, pernas encolhidas sobre a poltrona. Quase a pedir silêncio aos circunstantes, apesar dos assuntos interessantes que se alternavam nas conversas.

A menina continuava brincando, já não tão distraída. Não obstante seus quatro ou cinco anos, parecia ouvir o que os mais velhos diziam, de quando em quando delicadas referências ao estado de saúde da dona da casa. A senhora permanecia escondida da luz, como ocorre com os assaltados por tais cefaléias, quase sempre acompanhadas por fotofobia.

A menina parou de brincar e olhou sua mãe. De repente, ergueu-se do chão onde se distraía com seus brinquedos, foi até a pequena mesa e pegou um dos copos vazios, com suas mãozinhas frágeis. Dirigiu-se à janela entreaberta e estendeu o copo para fora. Em um átimo, os adultos imaginaram que ela iria jogar o objeto de vidro pela janela.  Mas a mãozinha permaneceu parada, segurando firmemente o copo.

Alguém partiu em socorro:

– O que você está fazendo?

A resposta veio imediata, simples como seu gesto inofensivo:

– Estou pegando um pouco de sol para jogar em minha mãe…

RESCALDO ELEITORAL por walmor marcellino

Eleições Municipais

As principais cidades-sede microrregionais (Curitiba, Londrina, Maringá, Cascavel, Foz do Iguaçu, Ponta Grossa, Umuarama, Cruzeiro do Oeste, Araucária, Guarapuava, Paranavaí, Toledo, Cornélio Procópio, Paranaguá, São José dos Pinhais, Arapongas, União da Vitória…) têm o colégio eleitoral decisivo para as eleições majoritárias. O desempeno partidário nas eleições de 2008 aponta, no aspecto geral, as forças de apoio e sustentação dos possíveis candidatos ao Senado Federal e ao governo do Estado.

Assim, pelo que se viu, Curitiba e sua Região Metropolitana, Londrina, Maringá, Cascavel e suas microrregiões, se não criaram uma impossibilidade eleitoral para todo o PMDB, mostraram revés acachapante e de difícil retorno no nível de sua liderança estadual. Ainda mais que o descozimento da nova aliança nacional PT-PMDB chegou aqui à fragmentação total sob a batuta do requionismo confrontado ao andreísmo-bernardismo. Então, todos os cálculos que se basearem na relação partido + lideranças (e “autoridade-emblemática”) deverão colher os estilhaços político-ideológicos e verificar da possibilidade de reajuntá-los e até de ampliar sua base sociopolítica.

Muita verdade é que a derrota não foi do Requião e do Lula (por seus sátrapas regionais) e sim da caótica linha político-eleitoral dos partidos aliados a Lula e dos comissionados do governo Roberto-Eduardo-Maurício de Mello e Silva; e essa linha política é conseqüência de um “esquerdismo” reivindicativo, oportunista e a-ético encantado com o alcance ao poder, de que “as patrulhas necroideólogas” são a fanfarra eleitoral na internet e na Boca Maldita de Curitiba.

De minha parte, não me dou por compensado nem satisfeito, apesar do que possam assoalhar os “políticos velhos de guerra”. Todavia temos de reconhecer as desídias, vacilações e oportunismos dos “socialistas” de carteirinha e o tédio pequeno-burguês (não grande!) e o comodismo (como meu caso?) dos “teóricos sem classe nem base social”.

Apesar dessas faltas e mazelas, sempre me dispus a estudar, analisar, discutir, debater e avaliar as relações sociais de classe em relação ao poder dos estamentos políticos e suas formas de dominação. Sei que essas questões são abominadas pela idiotia dos carteiraços ideológicos com que se justificam os caciques partidários. Ainda assim, a luta continua (mais para expurgar o carreirismo e o oportunismo nas esquerdas do que demonizar nossos adversários de idéias e programas).

Curitiba, 6/10/2008

O MAR: ENTE CRIÔNICO poema de jairo pereira

 

 

um mar presidir o encontro dos espírithos

o mar levantado em azul frente aos corpos-micros

o mar com seus palimpsestos papiros

tábuas inscrições céleres nas águas

o mar com sua vastíssima erudição

o mar versado em miles de artes disciplinas

o mar autoritário artífice de pródigas criações

o mar com sua língua superafiada

em consturas intransigentes

o mar uma língua-ciência maior

q. o mundo azul do mar

o mar levantado em azulmar sob azul cerúleo

o mar hipertrançado de destinos

o mar como uma colcha transfulgente

no espaço térreo

cosmogônica composição animovente

o mar Senhor dos signos-búzios

atirados à praia

o mar criônico-ente na escuridão estelar.

 

CARLA TEODOROVICZ expõe no MAC a partir de 08/10/08

A CRÔNICA É … por hamilton alves

 

 

 

 

 

                                   Num fim de semana desses recebi a visita de um amigo. Também ele escritor. Também ele poeta.Também ele um aficionado da arte.

                                   A certa altura, disse-me:

                                   - Olha, cara, se não fossem a literatura e a música, o que restaria para mim neste mundo.

                                   Estive a pique de lhe dar uma resposta. Diria mais ou menos o seguinte:

                                   - O que seria de mim se dependesse da literatura e da música?

                                   Com essa antítese queria lhe explicar que o homem não deve depender de nada para garantir sua paz ou sua acomodação neste planeta.

                                   Mas não cheguei a externar tal pensamento.

                                   Deixei que viajasse na maionese, ou seja, que fizesse depender sua ligação com o mundo da literatura e da música.

                                   Logo depois, tentei expressar o que pensava de outro modo.

                                   - Para mim, a melhor música é o silêncio. Não há sinfonia que o supere.

                                   Ergueu-me os olhos grandes como os de um índio (no que me parecia que era um pouco) e revelou-se meio admirado do que acabara de dizer. Ou intimamente poderia não concordar comigo.

                                   Música, para ele, era música tal como tradicionalmente se concebe. Essa história de silêncio ser também música não batia muito bem com sua visão das coisas, certamente.

                                   Mantínhamos, em nossa conversa, canais abertos de comunicação, de modo tal a nos permitir conceitos de todo o tipo. Ou fórmulas das mais variadas a respeito de todas as coisas.

                                   Mesmo porque não há outra atitude mais correta a ser adotada com respeito a um visitante.

                                   Faz parte da cortesia que lhe é devida.

                                   Mas ele mostrava-se suficientemente apto em seus comentários para criar um conflito insanável de qualquer natureza.

                                   Até que chegou, em dado momento, num ponto crucial, quando quis definir o que era crônica.

                                   Lançou no ar a frase:

                                   “A crônica é…”, mas não a concluiu.

                                   Percebi que esbarrava na definição, que é, em si mesma, indefinível.

                                   Olhei um pássaro num galho de uma árvore, muito próximo de onde estava. E ao pássaro quase lancei a pergunta:

                                   - O que é a crônica?

                                   O pássaro o saberia?

                                   Poderia achar a definição na qual o meu amigo se mostrava  bloqueado?

                                   Mas o pássaro, nem bem ousara lhe propor tal indagação, voou para outras bandas.

                                   O meu amigo continuava a tartamudear, indeciso:

                                   - A crônica é…

                                   Quem é que, na verdade, saberá dizer o que a crônica é?                              

 

(set/08)

                                              

                                   

CISNE E FÊNIX, uma boa hora para recomeçar – por alceu sperança

Cisne e fênix

 

 

 

Quando fazíamos a campanha das Diretas Já, em plena ditadura, repetidamente adverti aos nossos companheiros, pertencentes então a um arco de forças muito vasto − hoje estamos todos separados por divergências profundíssimas − que não deveríamos conquistar a democracia só para mudar a forma de escolha dos ocupantes de palácios oficiais. O essencial seria, prioritariamente, que a população organizada pudesse forçar a gente dos palácios a agir em favor das maiorias.

Depois das eleições diretas e da derrocada da ditadura, que fez o favor de se suicidar, tudo o que conseguimos foi uma Constituição que se costuma qualificar de “híbrida”, misto de parlamentarismo com presidencialismo. Na verdade, ela é esquizofrênica: uma colcha de retalhos de concepções que ora convergem, ora se chocam. Temos, assim, palácios que metem o bedelho uns nos outros. Gente de partido que se mete na administração, de forma arrogante e autoritária, quando deveria politizar a população, fazer militância e ter democracia interna, que no tocante à gestão pública propriamente dita deveria privilegiar os quadros técnicos. De resto, dissemina-se entre governantes, do Planalto à planície municipal, o mesmo vezo imperial, que seria possível traduzir por uma tremenda cara-de-pau no emprego de compadres, parentes e sócios nos malsinados “cargos de confiança”, tráfico de influência, contratos fraudados etc.

A desmoralização do PT, no entanto, é a mesma das demais agremiações social-democratas que vêm governando o país desde Sarney, passando por Itamar e FHC: tudo se resolve em palácio e a população é apenas massa de modelar manipulada pelos publicitários tipo Duda Mendonça e Marcos Valério. Desde o “ame-o ou deixe-o” somos a República da Propaganda, saudosa do DIP de Vargas. A social-democracia no Brasil se revela por uma adesão fatal ao neoliberalismo, tendo como alternativa algo igualmente ruim − o populismo.

O PT, mesmo um partido pequeno-burguês desde sua origem, inclusive estimulado pelo general Golbery do Couto e Silva, ainda tem a chance de ao menos finar gloriosamente, reorientando suas prioridades, para que mais tarde, talvez bem logo, possa renascer, como a Fênix. Não uma Fênix que renasce por bênção divina, compulsória e garantida, mas que possa renascer por conta do bem que terá feito mesmo às portas do canto de cisne.

O PCB, em seus quase 90 anos de existência, foi caluniado e reprimido. Teve direções nacionais inteiras na cadeia, militantes submetidos à tortura, como aqui no Paraná, e assassinados pelos mastins da opressão. Até esse PPS que aí está tentou liquidá-lo, de forma fratricida. Mas o PCB sempre ressurgiu, levantando as bandeiras da democracia, da liberdade e da participação popular. Recentemente, o partido dirigiu à Nação para sugerir ao presidente Lula e ao PT que reconstruam sua história a partir de algumas providências elementares:

1) Destituir imediatamente a equipe econômica (Meirelles etc), derrubar os juros absurdos e a prática dos draconianos superávites primários, suspensão dos pagamentos da dívida externa e reestruturação da dívida interna; 2) Formar um governo de ampla coalizão progressista, com a governabilidade assentada na mobilização popular e não em políticos oportunistas e de mau caráter; 3) Reforma agrária imediata, com pagamento de indenizações com títulos da dívida agrária; 4) Política emergencial de empregos, com criação de frentes de trabalho e realização de obras de infra-estrutura, saneamento e habitação; 5) Reforma política centrada em mecanismos de democracia direta; e 6) Amplo controle social sobre todos os órgãos governamentais e as empresas estatais.

Um dia será preciso haver um legítimo poder popular neste País, mesmo que ainda não socialista, como desejamos. Esta seria uma boa hora para começar.


Rumorejando (Com a decepção dos Três Poderes continuando).

Fábula Confabulada (Indigna do Millôr).

 

Havia uma vez nas cercanias de Shaoshan, não longe de Changsha e de Chonqing, entre Guiyang e Chengdu por um caminho que vai em direção ao rio Yang-Tsé, contornando Leshan um chinês de nome Shway Neh Ray. O sonho dele era visitar um país, do outro lado do mundo, chamado Brasil. A passagem custava muito caro o que fazia com que ele protelasse a cada novo ano a realização do seu sonho. Quando começou a abertura da economia chinesa, Shway Neh Ray iniciou uma criação de porcos, usando métodos desenvolvidos por técnicos chineses, inclusive com tratamentos dos ditos com acupuntura e ervas. A mulher de Shway, Shte Keh Wen, colaborava no orçamento familiar, dedicando-se a costuras, principalmente na reforma, ampliação e redução de vestidos em função de necessidade e/ou do grau das vaidades de cada freguesa. O negócio começou a prosperar e a realização do sonho começou a se aproximar da factibilidade, como Shte Keh Wen gostava de se expressar, usando palavras mais ou menos sofisticadas. Aí, ela, que passara todo o tempo economizando tostão por tostão, quer dizer li por li sugeriu que ambos passassem por Paris, a fim de ela também realizar o seu – dela – sonho. A criação de porcos ficaria a cargo do filho do casal, Peh Tcha Tek, que já tinha idade pra dar conta de tais tipos de tarefas. E assim foi. Em Paris, visitaram o que os turistas costumam visitar: Museus, Monumentos, Jardins, como o de Luxemburgo, Torre Eifel, Notre Dame, Palais Royal, Sacre Coeur e passearam de barco pelo rio Sena; comeram queijos e tomaram vinhos. Enfim, procuraram ver o máximo e o que o dinheiro permitia. Finalmente embarcaram para o Brasil. Outro grande sonho. Shway Neh Ray havia comprado, ainda na China, entrada para assistirem o desfile de carnaval no Rio de Janeiro e chegaram bem no dia do desfile das escolas de samba. E, claro, outras visitas turísticas. A companhia de turismo, lançando mão de seguranças, cuidava deles e de outros turistas de outros países. O casal não entendia exatamente por quais razões, o que ninguém se preocupou em explicar a presença dos tais seguranças, por achar arriscado criar medo e atrapalhar a vinda de outros turistas, estragando o seu negócio. Mas isto já é outra história que, nesse momento absolutamente não vem ao caso. Quando retornaram para sua casa ameaçaram amigos, parentes e vizinhos para verem as fotos que haviam tirado nos dois países que, coitados, educadamente, acederam ao convite. Cada um do casal anfitrião dissertou suas impressões com relação aos países visitados. Ele alegou, entre outras considerações, que não havia gostado de Paris porque havia muito cachorro e gato, fazendo o que faziam nas calçadas e que aquilo não era exatamente o que ele gostaria de ver; Por outro lado (qual lado?), ela não havia gostado do Brasil porque parecia que todas as mulheres só se preocupavam em chamar a atenção para seus respectivos peitos e bundas. E que não era aquilo que ela queria ver. As opiniões dos convivas se dividiram o que redundou numa polêmica que se arrastou pela madrugada adentro, mas isso também já é outra história, o que, analogamente à anterior, obviamente, não vem para o caso no presente momento. Quem ficou interessadíssimo no Brasil foi Peh Tcha Tek, o filho adolescente do casal.

Moral I: O pior cego é aquele que não vê o que não quer e só quer ver o que quer.

Moral II: Quando se discorre sobre um assunto há que se despertar o interesse nas pessoas, seja ele qual for.

Moral III: Peito e bunda feminina não são só de interesse de determinado país, chamado Brasil. É de interesse geral.

 

 

FILA DO BANCO por deborah o’lins de barros

Fila do banco

 

Há uns anos eu estava numa fila de banco e vi uma cena triste. Triste e meio revoltante também. É preciso lembrar que há alguns anos se pagava contas na “boca do caixa”, com atendentes, e não no caixa eletrônico. A fila, então, estava enorme e justamente esse fato quer possibilitou a ocorrência dessa cena.

Eu era a última das mais de dez pessoas que aguardavam o atendimento, que era lento, pois só havia dois caixas disponíveis. Mais gente chegava quando uma moça parou no meio do salão, parecendo buscar coragem de dentro de si. Respirou fundo, tirou um papel da bolsa e começou a chorar.

“Gente, boa tarde”, disse entre soluços tristes, “eu tenho AIDS”. A moça estava simplesmente desesperada. O tal papel em sua mão era uma receita de um remédio que com certeza não teria como comprar. E ela mostrava a receita a todos da fila, dizendo quanto custava e quanto faltava para chegar aquele valor. Conforme um ou outro ajudava, ela agradecia sinceramente e proclamava um valor menor que lhe faltava.

Essa angustiante contagem regressiva continuou até chegar a uma quantia pequena, algo como dois reais. E eu, sem nenhum tostão furado no bolso além do que tinha para pagar a minha conta, assisti àquela cena, muda, torcendo pela moça. Foi quando o segurança do banco chegou e disse à moça que ela não poderia fazer aquilo. Mas ela não estava fazendo nada de mais! Não estava roubando, não estava obrigando ninguém. E não estava mentindo, pois mostrava a receita médica e um documento de identidade. Mas não poderia pedir esmola na fila do caixa de um banco.

O que me irritou foi que, por que o segurança não chegou antes? Por que deixá-la ter um pouco de esperança? Ninguém reclamou ou praguejou; os que podiam ajudar, ajudaram. O segurança parece que só chegou para lembrá-la de que estava se humilhando em público.

Alguém intercedeu pela moça. Uma pessoa completou o que estava faltando para o segurança não enxotá-la e a moça, feliz por ter tido coragem de se humilhar, agradeceu muitas vezes e saiu. O segurança, obsoleto, voltou ao serviço. A vida voltou ao normal como se nada tivesse acontecido. E eu nunca mais esqueci aquela moça. Continuo sem grana, mas ainda torço por ela. Para que continue tendo força para lutar para viver.

SÓLO LA BELLEZA SALVA poema de francisco cenamor/ Espanha


 

“¡subiremos a dios

por lo bello del mundo!”

ernestina de champourcin

 

sólo la belleza salva

sólo la belleza llena mis manos de esperanza

sólo cada nalga cada pecho

sabe curvarse en mi mano y sanarme

 

sólo cada piel estalla en mi tacto

sólo cada areola es capaz de un acceso místico

sólo un dedo en una boca

 

sólo una visión desde el otro lado

donde el volcán la vulva y el brillo

el brillo excitado

 

¡ah! me evaporo

sólo la belleza salva

y mis manos sobre tu espalda

O CERRADO QUE NÃO MAIS SE VÊ poema de tonicato miranda


                                                                                                                 para Guilherme Vaz

 

 

escuta aqui, almofadinha

não se engane a cidade já foi campo

ele agreste quase não mais se vê

já houve tempo, já houve vento

terra causticante, sol a pino, sede de ceder

rodamoinho com nome de lacerdinha

Brasília cercada de cerrado tinha

 

o cerrado tinha jacupemba, andorinha tinha

pequi pra toda parte, fruta no pé e no chão

árvores retorcidas, mais de um milhão

cobra couro de arte, buriti nos brejos, tinha

muitos corguinhos de água limpinha

moça se banhando na cacimba

a gente olhando lá de cima, como tinha

 

lobo guará, ema, seriema, tatu bola tinha

gavião, coruja, sucuri, lebres saltadoras

veado campeiro, formigas de fogo e as voadoras

araticum, ameixa brava, belas plantinhas, tinha

casa de barro plantada no morro alto

cavalo sem cilha e um pouco de asfalto

tudo isto quase não tem, já teve, tinha

 

bando de papagaios no rumo dos guabiruvus

peixes coloridos no remanso de rio pequeno

bem-te-vi te vi tão grande, te vi tão pequeno

bem-te-vi, mal te vi, já todo te senti, você tinha

tantas informações, cadê os sanhaços

será gato do mato comeu-os manhãzinha

cortaram os paus e tocos, mataram a matinha

 

cerrado, muita velha curandeira tinha

ervas-remédio, ervas de cheiro, ervas sozinhas

alguns índios caçavam aqui, céus sobreviventes

malocas perdidas nos cantos das vertentes

muito cristal de rocha e esmeralda tinha

e um pôr-do-sol colorindo nos fins de tarde

prostrado, velho caboclo, saudades da Ritinha

 

o cerrado tinha

seriemas, emas, cobras

assovio na mata tinha

fruta azeda, fruta doce

camaleão na pedra

jacaré no brejo tinha

susto do pacu

tinha pio de nhambu

lagartas nas folhas

lagartas no chão

asfaltos distantes tinha

cachorros no mato

carros no céu

carros sobre a cobra

brilho do sol na latinha

morros sorrisos

montanhas de veludo

e uma montanha

que só eu tinha

 


Brasília, 28/Julho/2008    

UM PAÍS QUE CAI DE BUNDA E CHORA por james pizarro

 Sou tomado de profunda melancolia ao contemplar o desempenho do Brasil nas Olimpíadas… E constatar nossa colocação no quadro de medalhas… Comparar nosso país com os países que estão à nossa frente. Fico triste ao ver que na nossa seleção olímpica de futebol existem jogadores que ganham milhões e milhões de dólares, enquanto representantes do nosso judô choram e são humilhados por não ter dinheiro para pagar o exame de faixa preta. Fico irado ao ver o Galvão Bueno, nas transmissões da Globo, enaltecer delirantemente ‘o gênio mágico’ do ‘fenômeno’ Phelps, nadador norte-americano…e não falar no mesmo tom do nosso nadador Cielo, este sim, um fenômeno. Fenômeno porque treinou seis horas por dia nos três últimos anos, numa cidade do interior dos EUA, sustentado pelos próprios pais e pela generosidade de alguns amigos, pois não recebe um auxílio oficial.. Fico depressivo ao contemplar na TV nossas minguadas medalhas de bronze. E fico pensando que, de cada mega-sena e outras loterias oficiais, o governo paga apenas 30 % do arrecado ao ganhador e propaga que os outros 70 % são destinados a isso ou aquilo, sem que a gente possa fiscalizar com nitidez essa aplicação. Estou por completar 66 anos. E desde pequenino tem sido assim. Lembro do Ademar Ferreira da Silva, nosso bicampeão olímpico do salto tríplice que foi competir tuberculoso! E jamais me sairá da mente o olhar de estupor de Diego Hipólito caindo de bunda no chão no final da sua apresentação, quando por infelicidade e questão de dois segundos deixou de subir ao pódio. E de suas lágrimas pedindo desculpas, quando ele não tem culpa de nada. Das lágrimas de outros atletas brasileiros dizendo que não deu. Pedindo desculpas aos familiares e ao povo. Meus Deus ! Será que vou morrer vendo um povo que só chora e pede desculpas? Será que vou morrer num país que se estatela de bunda no chão, enquanto os políticos roubam descadaradamente e as CPIs não dão em nada ? Será que vou morrer num país que se contenta com o assistencialismo e o paternalismo oficiais, um povo que vende seu voto por bolsa-família e por receber um botijão de gás de esmola por mês? Até quando, meu Deus!?

O FIM DA ARTE como meio de conhecimento – por almandrade


 

Não temos a capacidade de destilar em palavras as experiências visuais que fazem o belo repousar naquilo que é apreendido pelo olhar. Uma obra de arte é tudo que ela contém: forma, textura, cor, linhas, conceitos, relações, etc. É aquilo que se vê, e o que se diz não corresponde exatamente ao que se vê. Não representa nada como imagem de outra coisa. E para ler um trabalho de arte é necessário se partir de um modelo (referências, informações…). Existem códigos a priori (aqueles utilizados pelo artista) e códigos a posteriori (aqueles utilizados pelo espectador).

A virtude da arte é afirmar um conhecimento, propondo instrumentos que seduzem a inteligência. A invenção de uma linguagem é o resultado de um exercício paciente de contemplar outras linguagens. Como todo discurso é resultado de outros discursos. Exige-se um método. A arte é o que está além dos limites de tudo o que se considera cultura; não pode se restringir a um exótico experimento ou aparência da superfície de um trabalho, que fica para trás, como uma coisa vazia, no primeiro confronto com o olhar que pensa.

A arte, entendida, como meio de conhecimento, hoje em dia, vem cedendo lugar a uma experiência ligada ao lazer e a diversão, que envolve outros profissionais como responsáveis pela sua legitimação: o curador, o empresário patrocinador e organizador de eventos, marchands, profissionais de publicidade, administradores culturais e captadores de recursos. Com as leis de incentivo a cultura e a presença marcante da iniciativa privada, paradoxalmente, levou a arte a um limite, o fim da obra, do trabalho ligado a um saber. E o artista, nem artesão e nem intelectual, sem dominar qualquer conhecimento, está cada vez mais sujeito ao poder do outro. As grandes mostras são grandes empreendimentos para atender à indústria do entretenimento, (mais empresarial e menos cultural), que movimentam uma quantidade significativa de recursos e envolve um número assustador de atravessadores.

As contradições modernidade / tradição, contemporâneo / moderno, neste início de século, cede lugar a uma outra contradição: artistas que pertencem ao metier e artistas estranhos ao metier, inventados por empresários da cultura, cujos trabalhos se prestam para ilustrar uma tese ou teoria imaginária de um suposto intelectual da arte e garantir o retorno do que foi investido pelo patrocinador e pelo comerciante de arte. Uma mercadoria fácil de investir, sem risco de perda, basta uma boa campanha publicitária. O artista pode ser substituído por um ou por outro, a obra é o menos importante. Aliás, é o que a indústria do marketing tem feito com as mostras dos grandes mestres como: Rodin, Manet, etc., pouco importa as obras desses artistas e sim o nome e o patrocinador. A publicidade leva consumidores/espectadores como quem leva a um shopping center. A quantidade de público garante o sucesso. O público é como o turista apressado, carente de lazer cultural que visita os centros históricos com o mesmo apetite de quem entra numa lanchonete para uma alimentação rápida.

Na “sociedade do espetáculo”, regida pela ética do mercado, o artista sem curador, sem marchand, sem patrocinador, é simplesmente ignorado pelas instituições culturais, raramente é recebido pelo burocrata que dirige a instituição. Seus projetos são deixados de lado. Também pudera, essas instituições, sem recursos próprios, tem suas programações determinadas pelos patrocinadores. Numa sociedade dominada pelo império do marketing, a realidade e a verdade são mensagens veiculadas pela publicidade que disputa um público cada vez maior e menos exigente. A vida é vivida na especulação da mídia, na pressa da informação. E neste meio, a arte é uma diversão que se realiza em torno de um escândalo convencional, deixando de lado a possibilidade do pensamento.

O fantasma do “novo”, que norteou a modernidade foi deslocado para o artista que está começando, pelo menos novo em idade, o artista/atleta, a caça de novos talentos e de experiências de outros campos sociais. Totens religiosos, a casa do louco, a rebeldia do adolescente… Tudo é arte, sem exigir de quem faz o conhecimento necessário. Todo curador quer revelar um jovem talento, como se a arte dispensasse a experiência. Um “novo”, sinônimo de jovem ou de uma outra coisa que desviada para o meio de arte, funciona como uma coisa “nova”. Um novo sempre igual, a arte é que não interessa. Praticamente trinta anos depois do aparecimento da chamada arte contemporânea no Brasil, recalcada nos anos 70 pelas próprias instituições culturais, um outro contemporâneo surgido nos anos 90 passou a fazer parte cotidiano dos salões, bienais, do mercado de arte, das grandes mostras oficiais e de iniciativa privada. Uma contemporaneidade sintomática.

Estamos vivendo um momento em que qualquer experiência cultural: religiosa, sociológica, psicológica, etc. é incorporada ao campo da arte pelo reconhecimento de um outro profissional que detém algum poder sobre a cultura, (tudo que não se sabe direito o que é, é arte contemporânea). Como tudo de “novo” na arte já foi feito, o inconsciente moderno presente na arte contemporânea implora um “novo” e nesta busca insaciável do “novo”, experiências de outros campos culturais são inseridos no meio de arte como uma novidade. Deixando a arte de ser um saber específico para ser um divertimento ou um acessório cultural. Neste contexto, o regional, o exótico produzido fora dos grandes centros entra na história da arte contemporânea. Nos anos 80, foi o retorno da pintura, o reencontro do artista com a emoção e o prazer de pintar. Um prazer e uma emoção solicitados pelo mercado em reação a um suposto hermetismo das linguagens conceituais que marcaram a década de 70. Acabou fazendo da arte contemporânea, um fazer subjetivo, um acessório psicológico ou sociológico. Troca-se de suporte nos anos 90 com o predomínio da tridimensionalidade: escultura, objeto, instalação, performance, etc., mas a arte não retomou a razão.

Na barbárie da informação e da globalização, estamos assistindo ao descrédito das instituições culturais e da dissolução dos critérios de reconhecimento de um trabalho de arte. Tudo é tão apressado que acaba no dia seguinte, os artistas vão sendo substituídos com o passar da moda, ficam os empresários culturais e sua equipe. Uma corrida exacerbada atrás de uma “novidade”, que não há tempo para se construir uma linguagem. O chamado “novo” é a experimentação descartável que não chega a construir uma linguagem elaborada, mesmo assim, é festejado por uma crítica que tem como critério de julgamento interesses pessoais e institucionais. A arte pode ser qualquer coisa, mas não são todos os fenômenos ditos culturais, principalmente os que são gerados à sombra de uma ausência de conhecimento.

 

 

o autor é artista plástico, poeta e arquiteto.

 

MULHERES QUE FAZEM HISTÓRIAS EM QUADRINHOS por flávio calazans


 

MARJANE SATRAPI : Quadrinhos do Islã.

 


 

Marjane SATRAPI é uma mulher que cresceu no IRAN e desafiando uma rígida e rigorosa moral ousou desenhar um álbun de Histórias em Quadrinhos auto-biográfico retratando sua infância crescendo no meio de uma revolução religiosa islâmica e uma guerra com o Iraque : PERSEPOLIS (editora Jonathan Cape, 153 páginas).

 

Com um estilo simplificado, esquemático e elegante em sua economia de traços quase minimalista, com um aspecto geral que faz lembrar xilogravura,  Satrapi provoca desde o título, PERSEPOLIS era o nome da antiga capital do Iran antes da revolução fundamentalista islâmica.

 

A obra teve inesperado sucesso, Best Seller  traduzida em Inglês, Francês, Alemão, Holandês, Italiano, Espanhol e Português.

 

A HQ é narrada de forma inteligente do ponto de vista de uma menininha que faz perguntas que adultos nunca ousariam fazer, sobre os crimes do Xá, a violência da revolução religiosa islâmica, e sobre os bombardeios do país islâmico vizinho Iraque…ironizando sutilmente, sub-reptíciamente a propaganda e os modismos, onde ela era ensinada que Deus (Alá) escolheu o Xá para reinar, depois que o mesmo Deus expulsa o Xá e fundamenta as decisões de Aiatolás interpretando o Corão de modo Xiita, inclusive com as alunas tendo de rasgar a foto do Xá de seus livros.

 

Em suas fantasias de menina, ela se imagina uma profeta ou escolhida (como Fátima, filha de Maomé)  Satrapi imagina-se falando com Deus (Alá) na cama antes de dormir; já mais crescida, durante a revolução fundamentalista imagina-se como um Che Guevara numa Jihad (Guerra Santa, um tipo de Cruzada) e conhece amigo da família que sai da prisão e descreve as torturas nas solas dos pés famosas no mundo árabe. ..na rua, ela e as amigas brincavam de interrogatório e torturas com naturalidade, enquanto eram obrigadas a usar véu na escola e depois nas ruas…e inocentemente amarrando os véus para brincar de pular-corda.

 

A mãe fechando as cortinas para os vizinhos não delatarem que jogavam cartas, jogos com baralhos eram proibidos..até a mãe desmaiando quando despede-se da filha no aeroporto de Teeran, filha enviada para estudar e  refugiar-se na França para preservá-la da brutalidade contra as mulheres desta interpretação radical do Corão.

 

Fragmentos de memórias episódicos são retratados e aos poucos vão formando um quadro do ambiente do Iran naquele período, um tipo de retrato histórico, um diário ou livro de memórias desenhado pela óptica feminina atenta a mínimos detalhes que dão o sabor realístico ao conjunto da obra.

 

Um exemplo de Quadrinho produzido por mulheres que torna-se BEST SELLER internacional como a Argentina Maitena, talvez indícios de uma tendência de mercado como resistência à visão machista norte-americana de uma Globalização como sinônimo não-declarado de AMERICANIZAÇÃO.

 

Em entrevista à TIME de 2 de junho de 2003, Satrapi dispara uma declaração ousada e corajosa:

 

“O que eu gostaria seria de ver os USA dizendo: -Não damos bola pra vocês, nós somos o Leão da selva, e nós estamos devorando vocês por que nós somos mais poderosos- isto seria legal, mas toda esta falação sobre bondade e libertação e –nós amamos vocês- me dá enjôo!”

 

Este é o tom de seus álbuns, cujo terceiro volume está saindo este ano.

 

Vale a pena conhecer esta nova voz que não se retrai ou intimida e denuncia a hipocrisia deste Século XXI, onde discursos infantilóides sobre “Eixo do Mal”, “Libertar o Povo da Ditadura” e sucessivas guerras agressivas no Afeganistão e Iraque sob falsos pretextos e mentiras só mostram a verdadeira face do Leão que Satrapi desnuda…arrogante no topo da cadeia alimentar e nos olhando como meros aperitivos…

 

Um IMPÉRIO pior que foi o Romano… Césares como Calígula  e Nero não tinham um arsenal atômico que pode destruir TODO O PLANETA, confortavelmente, há muitos entre nós que gostam de fingir esquecer deste fato…em meus pesadelos vejo um novo NERO eleito tocando guitarra elétrica enquanto incendeia Roma, digo, O MUNDO, e depois nem precisará culpar os cristãos (ou Bin Laden) pois não sobrará nada nem ninguém para quem dar satisfações… 

 

Um Leão predador que está aí rondando e nos farejando, e que muitos preferem continuar a fingir que não vêem enquanto não vier de bocarra escancarada na direção do nosso quintal amazônico cheio de biodiversidade e patentes farmacêuticas e de nossa valiosa bacia hidrográfica.

 

Pois quando, conforme previsto pela ONU, em 2025 não houver mais água suficiente que dê conta para abastecer as mega-cidades do primeiro mundo-que continuam crescendo como tumores de câncer… a sede de Petróleo que hoje motiva o Leão será substituída por uma muito mais urgente sede de água...e nós, “BRAZIL”, somos o país com maior volume de água potável disponível para ser saqueado, digo, “LIBERTADO”.

 

Benjamin Franklin, um intelectual, foi contra a escolha da ÁGUIA como símbolo dos USA, seu argumento foi de que era um animal DE RAPINA, traiçoeiro e cruel…este animal é o arquétipo subliminar que está presente desde  as moedas do dinheiro até o selo do presidente, incutindo no inconsciente de gerações de filhos do Leão o modelo de comportamento da ave de rapina traiçoeira…e todos os que defenderem seus respectivos países ao invés de PATRIOTAS recebem do Leão o estigma de ANTI-AMERICANOS.

 

Bem vindas as patriotas e vozes da resistência (como os MAQUIS franceses contra a invasão Nazista) de corajosas cidadãs do mundo como Marjane SATRAPI.

 

A IMPLOSÃO DA MENTIRA ou o EPISÓDIO do RIOCENTRO poema de affonso romano de sant’anna

 

Mentiram-me. Mentiram-me ontem 
e hoje mentem novamente. Mentem 
de corpo e alma, completamente. 
E mentem de maneira tão pungente 
que acho que mentem sinceramente. 

Mentem, sobretudo, impune/mente. 
Não mentem tristes. Alegremente 
mentem. Mentem tão nacional/mente 
que acham que mentindo história afora 
vão enganar a morte eterna/mente. 

Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases 
falam. E desfilam de tal modo nuas 
que mesmo um cego pode ver 
a verdade em trapos pelas ruas. 

Sei que a verdade é difícil 
e para alguns é cara e escura. 
Mas não se chega à verdade 
pela mentira, nem à democracia 
pela ditadura. 

 

 

Publicado no livro Política e paixão (1984). 

In: SANT’ANNA, Affonso Romano de. A poesia possível. Rio de Janeiro: Rocco, 198 


MENDIGO poema de vera lúcia kalaari – Angola/Portugal

 

 

Um dia , a miséria

Esfarrapada, amargurada,

Veio bater-me à porta.

Vinha de longe

Em trajes de mendigo.

Nos seus trapos,

No seu alforge,

No seu bordão,

Trazia o traço da fome

E da desdita.

Veio de manso,

Humildemente,

Como um cão escorraçado

Pedir-me esmola.

Não lhe dei nada…

Nesse dia,

Um desses dias pesados,

Atarefados,

Não tinha mãos.

Estava tão ocupada…

Mais tarde, senti vergonha

Daqueles olhos cansados,

Atormentados.

Um dia,

Esta porta que se fechou

À miséria faminta,

Fechar-se-á também para mim.

Já sem vestes de senhora,

Sem trabalhos nem canseiras,

Não estarei enfadada, preocupada.

Terei também o meu bordão

E o meu traje de miséria.

Procurarei esse mendigo

E iremos então os dois

Por todas as ruas,

Batendo em cada porta,

Com o sol ardente a aquecer-nos

Pedindo que cada um

Nos abra o seu coração.

 

 

SENSAÇÃO DE IMPOTÊNCIA poema de ana carolina cons bacilla

 

 

Sabe aquela sensação

“Quero escrever mas não sei o que”?

“Quero desenhar porém não sei pintar”?

 

Sensação presa no peito,

Que quer sair e gritar,

Quero explodir sem machucar.

 

Sentimento de impotência,

Palavras e traços sem decência,

Coisas que sinto só na ausência.

 

Sinto que junto sou lixo,

Sozinha sou bicho,

Intuição de que algo vai dar errado.

 

POEMAS de sara vanegas/ Ecuador

mar: un cuchillo de sal me atraviesa el pecho y las palabras

 

————–

 

las voces llegan a borbotones. como el oleaje a las naves sumergidas de la catedral eterna. voces que ascienden al coro y las cúpulas. como alas o lluvia mansa

tras los vitrales encendidos: peces arrodillados y tu sonrisa

dormida

 

—————-

 

alguien dibuja en la arena el recuerdo de un nombre

y se arroja a la mar

 

—————

 

alguien me dice que es la luz azulada de la luna. y yo vuelvo a confundirla con un río submarino. nunca conoceré el origen del agua. me pregunto si el mar devorará sus propias lunas …

 

—————

 

la luna y sus manantiales. el mar henchido de campanas. aquí: castillos de espuma y sal. para tus ojos solos

O SAPO por hamilton alves

 

 

 

 

                                   Amanheci em cima de uma Vitória Régia. Num laguinho de nada, que nem fazia supor que ali haveria de brotar essa belíssima planta aquática, que dá uma flor tão bonita

                                   - Ó, que é que houve?! – perguntei-me, assustado, no primeiro momento em que me vi transformado num sapo.

                                   Logo percebi que, nessa condição de batráquio, tinha que me virar. Ou me adaptar à nova situação.

                                   Ocorreu-me logo – como não poderia deixar de ser – o problema com Gregor Samsa, que todo mundo conhece: em determinada manhã, vê-se metaformoseado num repugnante inseto. A trabalheira que lhe deu, coitado, para se ajustar à nova realidade foi incrível. Como reconhecê-lo como tal?

                                   Se a metamorfose em sapo tivesse acontecido em casa, entre os meus entes queridos, seria pior. Alguém haveria de querer saber que diabo era esse sapo? Ou de onde veio? Como admitir que um sapo, súbito, surgisse no quarto de dormir? Até que as coisas se explicassem (ou nunca se explicariam) levaria certamente um bom tempo e a todo tipo de indagação.

                                   Em tal situação ou me defrontando com tais pessoas, que sempre me foram tão íntimas, que explicação lhes dar. Não haveria nenhuma, de certo. Era aguentar as pontas transformado, sem saber como nem porque, em sapo.

                                   Mas em cima de uma folha enorme de Vitória Régia não haveria provavelmente ninguém que me aborrecesse. Poderia viver tranquilamente minha nova condição de sapo.

                                   Era de manhã, fazia sol. A primeira dificuldade era saber se me lançava na água. Ou se ficaria empoleirado em cima da folha. Os sapos, como sabido, são seres anfíbios. Tanto fazia mergulhar na água como alcançar a estrada paralela ao laguinho que daria no mesmo. De qualquer modo, não correria risco algum.

                                   Mas o que, no fundo, pretendia era saber se essa mudança duraria por muito tempo.

                                   Não me senti confortado na condição de sapo.

                                   Se, por acaso, encontrasse uma sapa e ela quisesse me paquerar, como lhe explicaria o problema?

                                    - Olhe, o negócio é o seguinte: não sou o sapo que você pensa. Foi uma casualidade… Essas coisas acontecem…

                                   A sapa riria na minha cara? Ou o que faria?

                                   A situação, como se pode ver, não era nada cômoda.

                                   Não tinha a menor experiência de ser sapo. 

                                   Tinha ouvido (ou lido), em “Alice no país das maravilhas”, a transformação de seres humanos em bichos. Tratava-se de um mundo de faz de conta. Meu caso era real.

                                   Resolvi pular n,água.

                                   Nadei até a outra margem.

                                   Notei que um gavião voava por perto.

                                   - E se ele resolver me dar um bote? – ponderei, preocupado.

                                   O pânico tomou-me conta.

                                   O gavião tinha ido embora, não me preocupava mais.

                                   Quando me aprumei em cima de uma pedra, um garoto me apontou um estilingue.         

                                   - Agora estou frito.

                                   Acordei-me, de repente. Suava em bicas.

                                   Fui ao lavatório, ainda meio zonzo. Olhei-me ao espelho. Consultei minha cara. O pesadelo tinha passado, felizmente.                                        

                                  

 

(set/08)

Alternam, mas a corrupção é a regra – por alceu sperança

 


“A burguesia fede”, cantava Cazuza.

De fato: a corrupção é inerente ao sistema capitalista. Onde há capitalismo (e só há capitalismo), ela prevalece. Uma força tão respeitável e vitoriosa como o lucro ou o sistema financeiro. O implacável filósofo Olavo de Carvalho, por mais que ele próprio pareça detestável a muitos, foi mais além e acertou na veia: “O Estado, no Brasil, é um instrumento da corrupção. Não só da corrupção, mas também da violência”. Quem o contestará? Sobre esse capitalismo gerador de corrupção, já dizia o também filósofo e psicanalista Félix Guattari: “O que há de monstruoso no sistema capitalista é que ele parece não poder criar motivações à atividade do trabalho dos indivíduos a não ser que ele crie um pólo de miséria absoluta, de fome, e um pólo de riqueza inacessível”.

Portanto, é ilusão acreditar que se irá “limpar” o Brasil trocando o governo social-democrata de Lula pelos fracassados que o antecederam, pois os governos anteriores no mínimo acobertaram a corrupção, sem combatê-la como deveriam. As privatizações foram um dos maiores espetáculos de corrupção − e de ditadura na prática − de toda a história do Brasil.

Um dos sinais claros desse acobertamento foi aumentar fortemente a dívida externa/interna, como fizeram os governos anteriores (ditaduras, Sarney, Collor, FHC) sem a promoção de uma necessária auditoria para verificar o que é realmente dívida contraída para promover o desenvolvimento e o que foi fruto da corrupção e enriqueceu indevidamente malandros locais e estrangeiros.

O pecado do governo Lula, nesse particular, não é aumentar tanto a dívida externa, mas pagá-la sem essa auditoria, à custa de um superávite primário imposto à nação sem nenhuma discussão. Pior, internalizou a dívida externa, pagando juros ainda mais cavalares que os externos, em baixa. É, portanto, mais um governo social-democrata, arauto do neoliberalismo. Fingindo ainda mais que o governo anterior, mas seguindo o mesmo caminho ao qual o povo brasileiro já está cansado de dizer “não”, voltando a dizê-lo, aliás, ao eleger Lula.

Mas Lula não manda no Brasil. Quem manda são as formas de representação política da burguesia brasileira, que passam por entidades representativas de classe – Fiesp, Febraban, Firjan, CNI etc – e pelos partidos políticos, esses mesmos que fizeram tanta publicidade com a grana “arranjada” por Marcos Valério e agora o cospem fora. Alguns setores da burguesia nem precisam de entidades associativas, influindo na política pelos seus próprios instrumentos, como é o caso das grandes empresas de mídia, “federações” de prisioneiros, traficantes, contrabandistas etc.

As diversas frações da burguesia constituem partidos políticos, com cortes regionais e classistas muito nítidos. Os casos do PFL/DEM e do PSDB são os mais representativos deste segmento. O primeiro tem origem oligárquica, representando ainda hoje os herdeiros do coronelismo, ou seja, os setores tradicionais modernizados, como os grupos econômicos que sobrevivem de rendas do Estado: empreiteiras etc.

O PSDB é o grande partido do capital financeiro e da burguesia industrial ascendente, concentrada em São Paulo e seus associados nos estados periféricos. Cabe ao PMDB as representações regionais mais fortes, não contempladas pelo PFL/DEM e pelo PSDB. As demais siglas – PPB, PTB, PL etc −, servem para acomodação de grupos setoriais e regionais e cooptações para o bloco de poder, como se observa hoje na composição da base de apoio ao governo Lula (ou a qualquer outro que venha em seguida).

A burguesia tem procurado constituir reservas para a representação política dominante. Algumas legendas partidárias fazem este papel: é para alternar o poder entre ela e ela mesma. A preocupação primordial da burguesia brasileira é a sua sobrevivência enquanto classe na inserção da economia brasileira no mercado mundial, sem dar a mínima para os trabalhadores. Por isso, não se engane: grande parte de toda essa grita indignada contra a corrupção visa apenas a fazer com que ela troque de mãos. É a “democrática” alternância no poder.

 

arte livre. ilust. do site.

RUMOREJANDO (As promessas dos candidatos se repetindo novamente, constatando). – por josé zokner (juca)

Constatação I

Quando o obcecado convencido leu na mídia, no dia de Natal de 2007: “Nem só quem recebe ajuda se beneficia. A solidariedade também torna a vida de quem doa melhor e mais saudável”, agregou, de imediato, a frase ao seu repertório de eventuais cantadas, ainda que sempre apregoasse, a quem quisesse ouvir, que quem recebia as cantadas era sempre ele.

Constatação II

Rico tem expectativa; pobre, ansiedade.

Constatação III

Rico ordena; pobre, convida.

Constatação IV

Rico é adepto do erotismo; pobre, da pornografia.

Constatação V

Rico é convidado; pobre, coagido.

Constatação VI (De uma dúvida crucial).

Língua de trapo fica puída?

Constatação VII (De outra dúvida, mas não necessariamente crucial).

É a fada que, quando se sente enfadada, vai escutar um fado?

Constatação VIII

A acromegalia é, segundo o dicionário Houaiss, é “doença crônica provocada por uma disfunção da glândula pituitária e que se caracteriza pelo crescimento anormal das extremidades do corpo (mãos, pés, rosto)”. Será que certos governantes, deputados e senadores têm esse problema nos pés e nas mãos, já que costumam meter os pés pelas mãos, mormente quando metem as mãos crescidas no jarro?

Constatação IX

Beto da Querência (de Querência do Norte, Noroeste do Paraná) cantor e compositor. Guardem este nome porque, sem dúvida vai estourar, com sucesso, o lançamento do seu primeiro CD. Não esqueçam: Beto da Querência.

Constatação X

Rico borrifa as flores; pobre espirra em cima dos outros.

Constatação XI (De venais, nem falar).

Quem é esquisito acha que outros é que são; quem é imbecil acha que os outros é que são; quem é político faz o que faz porque sim e tá acabado. O que não impede que sejam esquisitos e imbecis.

Constatação XII

Em certos países, o roubo, em função do tipo, quantidade, número de eventos e valores, já virou profissão em vários níveis…

Constatação XIII

Quando o ouriço chegou tarde em casa a ouriça ficou toda ouriçada e gritou: “Você é um espinho no meu pobre e desvalido coração.

Constatação XIV

Rico, nas suas convicções, é dogmático; pobre tem que ser pragmático.

Constatação XV

Não se pode confundir draga, que em algumas regiões do Brasil quer dizer arma de fogo, revólver comdroga, muito embora exista uma relação biunívoca entre as duas palavras, tendo em vista o uso, cada vez mais arraigado em nosso país, da primeira para obter a segunda… A recíproca é como é e tá acabado. Tenho democrática e simpaticamente dito.

Constatação XVI (E como poetava outro obcecado eternamente no seproc (nada a ver com o obcecado da “Constatação I”):

“Cada vez que eu vejo ou antevejo

Uma mulher gostosamente tremenda,

Pela atenção do marido esquecida

Fico imaginando dar-lhe um beijo,

Como se fosse uma dívida vencida

E, inclusive, como uma vincenda”.

Constatação XVII (Patriotismo ufanista utópico).

Naquele mastro acolá

A bandeira

Do meu time,

O Paraná,

Tremula com languidez,

Mostrando sua altivez,

Sempre faceira,

Sempre altaneira,

Numa liderança

Assaz sublime.

Pendão da esperança

Como a brasileira

Constatação XVIII

Não se pode confundir alusão com alazão, que o Houaiss define como “que ou o que tem o pêlo cor de canela, com uma tonalidade simultaneamente castanha e avermelhada (diz-se de cavalo)”, até porque se um jogador de futebol entra no adversário com violência e a torcida grita que ele é um cavalo, não se trata de uma alusão a cor do jogador, do uniforme, mas sim da maneira como o tal jogador deu a entrada. No entanto, cavalo, cachorro e outros mamíferos são mais gente do que muita gente. O xingamento, portanto, não se justifica com tal epíteto. Basta escutar os noticiários…

Constatação XIX (Eufemística).

Quando ela se sentiu

Escorçada,

Espoliada,

Despojada

Enxovalhada

Na mesma hora partiu,

Deixando então o companheiro

De tantos anos grande parceiro

Com cara de quem, fatalmente,

Iria ficar

Com vontade de sentar

E totalmente

Atoleimado,

Tão-somente.

Coitado!

Constatação XX

Quem nunca escutou a milonga dos nossos hermanos argentinos – rivalidades futebolísticas a parte –, chamada Taquito Militar, não sabe o que está perdendo. Tenho mercosulamente dito.

Constatação XXI

Rico engole caviar; pobre, sapo.

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

 

foto livre. ilust. do site. jesus cristo super-star.

 

 

 

CAIMÃO AMAZÔNICA por joão batista do lago

 

Eu, que nem tive a primazia de te conhecer

Eu, que muitas vezes te acusei de tolo… idiota mesmo

Eu, que cheguei a duvidar dos teus ideais

Eu, que lamentei e chorei teu corpo crivado de balas:

“Morrer, sim, mas crivado de balas, destroçado pelas baionetas, se não, não.” – dissestes um dia num verso quebrado duma poesia…

 

 

Eu, agora sei: tinhas razão!

 

 

De fato é preferível morrer crivado de balas, que morrer nesse rio caudaloso de corrupção;

Lentamente ver-me sendo afogado pela sanha maldita da miserável dominação

Que pouco a pouco, dia após dia, vai-me roubando águas e florestas;

Vai-me construindo exilado dentro do pouco verde que me resta: Amazônia!

Amazônia cantada e decantada pelos senhores donos do mundo

A nos plantar como grileiros no nosso próprio chão…

 

 

Agora eu sei, meu caro Chê,

Tinhas de fato toda razão!

Quem me dera agora – ainda que crivado de balas -

Tomar tua mão de menino

E transformar a Amazônia numa nova Caimão…

Quem me dera, hermano Chê!

 

 

Se tua coragem tivesse

Nossos hermanos índios não seriam soldados rasos da dominação

Por certo teriam consciência

Por certo saberiam da brasileira nação

Não se venderiam como encantados

Para morrerem, no futuro (todos!), enganados

 

 

Eu agora sei, hermano Chê, tinhas de fato razão!

COMO DESENVOLVER A CAPACIDADE DE APRENDER por vicente martins

 


No seu plano de curso, além

de conteúdos, é fundamental

refletir sobre o conceito da

aprendizagem. 

 

 

 

Como desenvolver a capacidade de aprender

São três os fatores que influem no desenvolvimento da capacidade de aprender. Primeiramente, a atitude de querer aprender. É preciso que a escola desenvolva, no aluno, o aprendizado dos verbos querer e aprender, de modo a motivar para conjugá-los assim: eu quero aprender. Tal comportamento exigirá do aluno, de logo, uma série de atitudes como interesse, motivação, atenção, compreensão, participação e expectativa de aprender a conhecer, a fazer, a conviver e a ser pessoa.

O segundo fator diz respeito às competências e habilidades, no que poderíamos chamar, simplesmente, de desenvolvimento de aptidões cognitivas e procedimentais. Quem aprende a ser competente, desenvolve um interesse especial de aprender. No entanto, só desenvolvemos a capacidade de aprender quando aprendemos a pensar. Só pensamos bem quando aprendemos métodos e técnicas de estudo. É este fator que garante, pois, a capacidade de auto-aprendizagem do aluno.

O terceiro fator refere-se à aprendizagem de conhecimentos ou conteúdos. Para tanto, a construção de um currículo escolar, com disciplinas atualizadas e bem planificadas, é fundamental para que o aluno desenvolva sua compreensão do ambiente natural e social, do sistema político, da tecnologia, das artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade, conforme o que determina o artigo 32 da LDB.

Ensinar a aprender

Um pergunta, agora, advém: saber ensinar é tão importante quanto saber aprender? Responderei assim: há um ditado, no meio escolar, que diz que quem sabe, ensina. Muitos sabem conhecimentos, mas poucos ensinam a aprender. Ensinar a aprender é ensinar estratégias de aprendizagem. Na escola tradicional, o P, maiúsculo, significa professor-representante do Conhecimento; o C, maiúsculo, significa Conhecimento acumulado historicamente na memória social e na memória do professor e o a, minúsculo, significa o aluno, que, a rigor, para o professor, e para a própria escola, é tábula rasa, isto é, conhece pouco ou não sabe de nada. Isto não é verdade. Saber ensinar é oferecer condições para que o discípulo supere, inclusive, o mestre. Numa palavra: ensinar é fazer aprender a aprender, de modo que o modelo pedagógico desenvolva os processos de pensamento para construir o conhecimento, que não é exclusividade de quem ensina ou aprende.

É papel dos professores levar o aluno a aprender para conhecer, o que pode ser traduzido por aprender a aprender, em que o aluno é capaz de exercitar a atenção, a memória e o pensamento autônomo.

Lacunas na formação do docente

As maiores dificuldades dos docentes residem nas deficiências próprias do processo de formação acadêmica. Nas universidades brasileiras, os cursos de formação de professores (as chamadas licenciaturas) se concentram muito nos conteúdos que vêm de ciências duras, mas se descuidam das competências e habilidades que deve ter o futuro professor, em particular, o domínio de estratégias que permitam se comportar docentes eficientes, autônomos e estratégicos.

Os docentes enfrentam dificuldades de ensinar a aprender, isto é, desconhecem, muitas vezes, como os alunos podem aprender e quais os processos que devem realizar para que seus alunos adquiram, desenvolvam e processem as informações ensinadas e apreendidas em sala de aula. Nesse sentido, o trabalho com conceitos como aprendizagem, memória sensorial, memória de curto prazo, memória de longo prazo, estratégias cognitivas, quando não bem assimilados, no processo de formação dos docentes, serão convertidos em dores de cabeça constantes, em que o docente ensina, mas não tem a garantia de que está, realmente, ensinando a aprender. A noção de memória é central para quem ensinar a aprender.

As maiores dificuldades dos alunos residem no aprendizado de estratégias de aprendizagem. A leitura, a escrita e a matemática são meios ou estratégias para o desenvolvimento da capacidade de aprender. Entre as três, certamente, a leitura, especialmente a compreensão leitora, tem o seu lugar de destaque.

Ler para aprender é fundamental para qualquer componente pedagógico do currículo escolar. Através dessa habilidade, a leitura envolve a atividade de ler para compreender, exigindo que o aluno, por seu turno, aprenda a concentrar-se na seleção de informação relevante no texto, utilizando, para tanto, estratégias de aprendizagem e avaliação de eficácia.

Aprender, pois, a selecionar informação, é uma tarefa de quem ensina e desafio para a escola e a família que são instituições ainda muito conservadoras. Nisso, por um lado, não há demérito mas às vezes também não há mérito. No Brasil, muitas escolas utilizam procedimentos do século XVI, do período jesuítico como a cópia e o ditado. Nada contra os dois procedimentos, mas que tenham uma fundamentação pedagógica e que valorizem a escrita criativa do aluno, ou terão pouca repercussão no seu aprendizado.

Muitas escolas, por pressões familiares, não discutem temas como sexualidade, especialmente a vertente homossexual. Sexualidade é tabu no meio familiar e no meio escolar mesmo numa sociedade que enfrenta uma síndrome grave como a AIDS. A escola ensina, como paradigma da língua padrão, regras gramaticais com exemplário de citações do século XIX, e não aceita a variação lingüística de origem popular, que traz marcas do padrão oral e não escrito. E assim por diante. São exemplos de que a escola é realmente conservadora.

A visão das pedagogias

Isso acontece também com as pedagogias. Tivemos a pedagogia tradicional, a escolanovista, piagetiana, Vigostky e já falamos em uma pedagógica pós-construtivista com base em teoria de Gardner. Umas cuidam plenamente de um aspecto do aprendizado como o conhecimento, mas se descuidam completamente da capacidade cognitiva e metacognitiva, interesses e necessidades dos alunos.

Na história educacional, no Brasil, os dados mostram que quanto mais teoria educacional mirabolante, menos conhecemos o processo ensino-aprendizagem e mais tendemos, também, a reforçar um distanciamento professor-aluno, porque as pedagogias tendem a reduzir ações e espaços de um lado ou do outro. Ora o professor é sujeito do processo pedagógico ora o aluno é o sujeito aprendente. O desafio, para todos nós, é o equilíbrio que vem da conjugação dos pilares do processo de ensino-aprendizagem: mediação, avaliação e qualidade educacional.

Seja como for, o importante é que os docentes tenham conhecimento dessas pedagogias e possam criar modelos alternativos para que haja a possibilidade de o aluno aprender a aprender, ou seja, ser capaz de descobrir e aprender por ele mesmo, ou, em colaboração com outros, os procedimentos, conhecimentos e atitudes que atendam às novas exigências da sociedade do conhecimento.

O envolvimento da família

A Constituição Federal, no seu artigo 205, e a LDB, no seu artigo 2, preceituam que a educação é dever da família e do Estado. Em diferentes momentos, a família é convocada, pelo poder público, a participar do processo de formação escolar: no primeiro instante, matriculando, obrigatoriamente, seu filho, em idade escolar, no ensino fundamental.

No segundo instante, zelando pela freqüência à escola e num terceiro momento se articulando com a escola, de modo a assegurar meios para a recuperação dos alunos de menor rendimento e zelando, com os docentes, pela aprendizagem dos alunos.

O papel da família, no desenvolvimento da capacidade de aprender, é tarefa, pois, de natureza legal ou jurídica, implicando em articular-se com a escola e seus docentes, velando, de forma permanente, pela qualidade de ensino.

O papel, pois, da família é de zelar, a exemplo dos docentes, pela aprendizagem. Isto significa acompanhar de perto a elaboração da proposta pedagógica da escola, não abrindo mão de prover meios para a recuperação dos alunos de menor rendimento ou em atraso escolar bem como assegurar meios de acesso aos níveis mais elevados de ensino segundo a capacidade de cada um.

Professor: mediador do aqui, agora

As mídias convencionais ou eletrônicas apontam para uma revolução pós-industrial, centrada no conhecimento. Estamos na chamada sociedade do conhecimento em que um aprendente dedicado à pesquisa pode, em pouco tempo, superar os conhecimentos acumulados do mestre. E tudo isso é bom para quem ensina e para quem aprende.

O conhecimento é possível de ser democraticamente capturado ou adquirido por todos: todos estão em condições de aprendizagem. Claro, a figura do professor não desaparece, exceto o modelo tradicional do tipo sabe-tudo, mas passa a exercer um papel de mediador ou instrutor ou mesmo um facilitador na aquisição e desenvolvimento de aprendizagem.

A tarefa do mediador deve ser, então, a de buscar, orientar, diante das diversas fontes disponíveis, especialmente as eletrônicas, os melhores sites, indicando links que realmente trazem a informação segura.

Infelizmente, por uma série de fatores de ordem socioeconômica, muitos docentes não acessam a Internet e, o mais grave, já sofrem conseqüência dessa limitação, levando, para sala de aula, informações desatualizadas e desnecessárias para os alunos, especialmente em disciplinas como História, Biologia, Geografia e Língua Portuguesa.

 

Palestrante. Professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), em Sobral, Estado do Ceará.

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