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FAMOSOS e suas FRASES sobre a POESIA – editoria

Eis que temos aqui a Poesia,

a grande Poesia.

Que não oferece signos

nem linguagem específica, não respeita

sequer os limites do idioma. Ela flui, como um rio.

como o sangue nas artérias,

tão espontânea que nem se sabe como foi escrita.

E ao mesmo tempo tão elaborada -

feito uma flor na sua perfeição minuciosa,

um cristal que se arranca da terra

já dentro da geometria impecável

da sua lapidação.’

- Rachel de Queiroz, escritora brasileira

  • Ai as almas dos poetas

Não as entende ninguém;

São almas de violetas

Que são poetas também.’

- Florbela Espanca

  • “O poeta é como o príncipe das nuvens. As suas asas de gigante não o deixam caminhar’

- Charles Baudelaire

  • “O poema não é feito dessas letras que eu espeto como pregos, mas do branco que fica no papel’

- Paul Claudel

  • “À pergunta habitual: ‘Por que é que escreve?’. A resposta do poeta será sempre a mais curta: ‘Para viver melhor'”

- Saint-Jonh Perse

  • “O poeta faz-se vendo através de um longo, imenso e sensato desregramento de todos os sentidos”

- Arthur Rimbaud

  • “A poesia não voltará a ritmar a acção; ela passará a antecipar-se-lhe”

- Arthur Rimbaud

  • “A solidão da poesia e do sonho tira-nos da nossa desoladora solidão”

- Albert Béguin

- Fonte: “Poesia da Presença”

  • “Deus, que nos fizeste mortais, porque é que nos deste a sede de eternidade de que é feito o poeta?”

- Luis Cernuda

- Fonte: “As Ruínas”

  • “Todas as coisas têm o seu mistério, e a poesia é o mistério de todas as coisas”

- Federico Lorca

- Fonte: “Conversa Sobre o Teatro”

  • “E nunca o tormento acha um céu e nunca o desejo acha uma terra. É por isso que a poesia existe”

- Birger Sjoberg

- Fonte: “Pensamentos”

  • “A poesia não é nem pode ser lógica. A raiz da poesia assenta precisamente no absurdo”

- José Hidalgo

- Fonte: “Poema”

  • “Fazer poesia é confessar-se”

- Friedrich Klopstock

- Fonte: “Odes”

  • “Um poema é um mistério cuja chave deve ser procurada pelo leitor”

- Stéphane Mallarmé

  • “A poesia é ao mesmo tempo um esconderijo e um altifalante”

- Nadine Gordimer

- Fonte: “Poema”

  • “A poesia numa obra é o que faz aparecer o invisível”

- Nathalie Sarraute

  • “Para mim, o importante em poesia é a qualidade da eternidade que um poema poderá deixar em quem o lê sem a ideia de tempo”

- Juan Ramón Jiménez

  • “A poesia é o transbordamento espontâneo de sentimentos intensos: tem a sua origem na emoção recordada num estado de tranquilidade”

- William Wordsworth

- Fonte: “Lyrical Ballads”

  • “A poesia é um nexo entre dois mistérios: o do poeta e o do leitor”

- Dámaso Alonso

Decálogo do Bom Professor – por vicente martins

Apresento aos professores e futuros professores da educação escolar um decálogo contendo dez princípios para atividade docente de um bom professor do terceiro milênio, século marcado pela informação e pelo conhecimento tecnológico.
O professor do século XXI é aquele que, além da competência, habilidade interpessoal, equilíbrio emocional, tem consciência de que mais importante do que o desenvolvimento cognitivo é o desenvolvimento humano e que o respeito às diferenças está acima de toda a pedagogia.
A função do bom professor do século XXI não é apenas a de ensinar, mas de levar seus alunos ao reino da contemplação do saber.
Eis, então, os dez passos na direção de uma pedagogia do desenvolvimento humano:


1.º-Aprimorar o educando como pessoa humana

A nossa grande tarefa como professor ou educador não é a de instruir, mas a de educar o nosso aluno como pessoa humana, como pessoa que vai trabalhar no mundo tecnológico, mas povoado de sentimentos, dores, incertezas e inquietações humanas.
A escola não se pode limitar a educar pelo conhecimento destituído da compreensão do homem real, de carne e osso, de corpo e alma.
De nada adianta o conhecimento bem ministrado em sala de aula, se fora da escola o aluno se torna um homem brutalizado, desumano e patrocinador da barbárie.
Educamos pela vida como perspectiva de favorecer a felicidade e a paz entre os homens.

2.º-Preparar o educando para o exercício da cidadania

Uma dos pontos altos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) é o reconhecimento da importância do ensino e aprendizagem de valorez vinvulados à cidadania na educação escolar.
Para isso, assinala a LDB, uma “bíblia sagrada” do bom professor, que o fim último da educação é a formação da cidadania, incorpora nas finalidades da educação básica, princípios e valores fundamentais que dão um tratamento novo e transversal ao currículo escolar.
Anterior à promulgação da LDB, sabe-se que, tradicionalmente, afora o trabalho das escolas confessionais ou religiosas, os valores vinham sendo ensinados, em sala de aula, de forma implícita, sem aparecer na proposta pedagógica da escola, configurando o que denominamos de parte do currículo oculto da escola.
A partir da nova LDB, promulgada em particular com os Parâmetros Curriculares Nacionais, ficou explicitado para todas as instituições de ensino o reconhecimento da importância do ensino e a aprendizagem dos valores na educação escolar, e doutra sorte, o Conselho Nacional de Educação (CNE), ao estabelecer as diretrizes curriculares para a educação básica, deu um caráter normativo à inserção e integralização dos conteúdos da educação em valores nos currículos escolares.
A idéia de que a educação em valores permeia os dispositivos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional pode ser observada à primeira leitura do artigo 2º, que, ao definir a educação como dever da família e do Estado, afirma que a mesma é inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tendo por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.
Depreende-se da leitura do artigo 2º da LDB que a educação em valores dá sentido e é o fim da educação escolar já que, junto com aquisição de conhecimentos, competências e habilidades, faz-se necessário a formação de valores básicos para a vida e para a convivência, as bases para uma educação plena, que integra os cidadãos em uma sociedade plural e democrática.
No seu artigo 3º, a LDB elenca, entre os princípios de ensino, vinculados diretamente a educação em valores, a liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber (inciso II), pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas; (inciso III); IV – respeito à liberdade e apreço à tolerância (inciso IV) e gestão democrática do ensino público, na forma desta Lei e da legislação dos sistemas de ensino (inciso VIII).
O artigo 27 da LDB faz referência à educação em valores ao determina que os conteúdos curriculares da educação básica observarão, ainda, as seguintes diretrizes “a difusão de valores fundamentais ao interesse social, aos direitos e deveres dos cidadãos, de respeito ao bem comum e a ordem democrática” (inciso I).
A educação em valores deve ser trabalhada na educação infantil, ensino fundamental e no ensino médio, etapas, conforme a nova estruturação da Educação Básica, prevista na LDB.
No artigo 29, a LDB determina que a educação infantil, sendo a primeira etapa da educação básica, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade. É interessante assinala que a educação em valores se fundamental no respeito mútuo do desafio do professorado, do aluno e da família. Requer, pois, que as instituições de ensino utilizem o diálogo interativo, o envolvimento do professores, alunos e seus pais ou responsáveis.
No que se refere ao Ensino Fundamental, a LDB aponta a educação em valores como principal objetivo desta etapa da educação básica, a formação do cidadão, mediante aquisição de conhecimentos através do desenvolvimento da capacidade de aprender, tendo como estratégias básicas o pleno domínio da leitura, da escrita e do cálculo e de três competências relacionadas explicitamente com a educação em valores: a compreensão do ambiente natural e social, do sistema político, da tecnologia, das artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade (inciso II); o desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, tendo em vista a aquisição de conhecimentos e habilidades e a formação de atitudes e valores; (inciso III) e o fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedade humana e de tolerância recíproca em que se assenta a vida social (inciso IV).
Para o Ensino Médio, a LDB, no seu artigo 35, aponta além do desenvolvimento cognitivo, que se caracteriza pela a consolidação e o aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no ensino fundamental, possibilitando o prosseguimento de estudos (inciso I) e pela preparação básica do educando para o trabalho e a cidadania (inciso II) e explicitamente aponta o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico; e mais ainda a compreensão dos fundamentos científico-tecnológicos dos processos produtivos, relacionando a teoria com a prática, no ensino de cada disciplina (inciso IV).
A formação de valores vinculados à cidadania é a principal missão de uma escola verdadeiramente democrática e popular. A ética e a moral devem ser sistematicamente trabalhadas em sala para que o aluno, futuro cidadão, possa então, na vida em sociedade, saber conviver bem e em paz com o próximo.
Se de um lado, primordialmente, devemos ter como grande finalidade do nosso magistério o ministério de fazer o bem às pessoas, fazer o bem é preparar nosso educando para o exercício exemplar e pleno da cidadania.
Ser cidadão não começa quando os pais registram os seus filhos no cartório nem quando os filhos, aos 18 anos, tiram as suas carteira de identidade civil.
A cidadania começa na escola, desde os primeiros anos da educação infantil e estende-se à educação superior, nas universidades; começa com o fim do medo de perguntar, de inquirir o professor, de cogitar outras possibilidades do fazer, enfim, quando o aluno aprende a fazer-fazer, a construir espaço de sua utopia e criar um clima de paz e bem-estar social, político e econômico no meio social.

3.º – Construir uma escola democrática

A gestão democrática é a palavra de ordem na administração das escolas. Os educadores do no novo milênio devem ter na gestão democrática um princípio do qual não arredam pé nem abrem mão.
Quanto mais a escola é democrática, mais transparente é. Quanto mais a escola é democrática, menos erra, tem mais acerto e possibilidade de atender com eqüidade as demandas sociais.
Quanto mais exercitamos a gestão democrática nas escolas, mais os preparamos para a gestão da sociedade política e civil organizada. Aqui, pois, reside uma possibilidade concreta: chegar à universidade e concluir um curso de educação superior e estar preparado para tarefas de gestão no governo do Estado, nas prefeituras municipais e nos órgãos governamentais.
Quem exercita a democracia em pequenas unidades escolares, constrói um espaço próprio e competente para assumir responsabilidades maiores na estrutura do Estado. Portanto, quem chega à universidade não deve nunca descartar a possibilidade de inserção no meio político e poder exercitar a melhor política do mundo, a democracia.

4.º – Qualificar o educando para progredir no mundo do trabalho

Por mais que a escola qualifique os seus recursos humanos, por mais que adquira o melhor do mundo tecnológico, por mais que atualize suas ações pedagógicas, era sempre estará marcando passo frente às novas transformações cibernéticas, mas a escola, através dos seus professores, poderá qualificar o educando para aprender a progredir no mundo do trabalho, o que equivale a dizer oferecer instrumentos para dar respostas, não acabadas (porque a vida é um processo inacabado), às novas questões sociais, sem medo de perdas, sem medo de mudar, sem medo de se qualificar, sem medo do novo, principalmente o novo que vem nas novas ocupações e empregabilidade.

5.º – Fortalecer a solidariedade humana

É papel da escola favorecer a solidariedade, mas não a solidariedade de ocasião, que nasce de uma catástrofe, mas do laço recíproco e quotidiano e de amor entre as pessoas.
A solidariedade que cabe à escola ensinar é a solidariedade que não nasce apenas das perdas materiais, mas que chega como adesão às causas maiores da vida, principalmente às referentes à existência humana.
Enfim, é na solidariedade que a escola pode desenvolver, no aluno-cidadão, o sentido da sua adesão às causas do ser e apego à vida de todos os seres vivos, aos interesses da coletividade e às responsabilidades de uma sociedade a todo instante transformada e desafiada pela modernidade.

6.º – Fortalecer a tolerância recíproca

Um dos mais importantes princípios de quem ensina e trabalha com crianças, jovens e adultos é o da tolerância, sem o qual todo magistério perde o sentido de ministério, de adesão aos processos de formação do educando.
A tolerância começa na aceitação, sem reserva, das diferenças humanas, expressas na cor, no cheiro, no falar e no jeito de ser de cada educando.
Só a tolerância é capaz de fazer o educador admitir modos de pensar, de agir e de sentir que diferente dos de um indivíduo ou de grupos determinados, políticos ou religiosos.
O fortalecimento da tolerância recíproca só é possível quando, na escola, há respeito à liberdade e o apreço à tolerância, que são inspirados nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana.O educando, no processo de formação escolar, tem necessidade de amar e compreender. Da mesma forma, o professor, no exercício de seu magistério, tem necessidade de ser amado e ser compreendido.
Assim, a necessidade de amar do aluno e o desejo de ser amado do professor nunca andam separados, são a base de uma relação fraterna e recíproca entre professor e aluno.
Uma criança quanto mais sente que é amada, mais disciplinada estará para receber a ministração das aulas. Onde não há reciprocidade, isto é, o amor do aluno para com o professor e do professor para com seu aluno, não assimilação ativa, não há a razão de ser da educação escolar: o desenvolvimento do educando como pessoa humana.
A nova Lei de Diretrizes e Bases da da Educação Nacional (LDB), a Lei 9.394, promulgada em 1996, trouxe as bases do que venho denominando, nos meios acadêmicos, de Agapedia, a Pedagogia do Amor.
É a LDB que nos oferece os dois mais importantes princípios da Pedagogia do Amor: o respeito à liberdade e o apreço à tolerância, que são inspirados nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana. Ambos têm por fim último o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania ativa e sua qualificação para as novas ocupações no mundo do trabalho.
Na educação infantil, a Pedagogia do Amor torna possível o cumprimento do desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, na medida em que o processo didático complementa a ação da família e da comunidade.
No ensino fundamental, a Pedagogia do Amor se dá em dois momentos: no primeiro, no desenvolvimento da capacidade de aprendizagem do educando, tendo em vista a aquisição de conhecimentos e habilidades e a formação de atitudes e valores e, no segundo momento, no fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedade humana e de tolerância recíproca em que se assenta a vida social.
No ensino médio, a Pedagogia do Amor se manifesta na medida que nós, professores e futuros professores, aprimoramos o educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico.
Na educação superior, há lugar também para a Pedagogia do Amor. Ela se manifesta no momento em que os professores estimulam o conhecimento dos problemas do mundo presente, em particular, os nacionais e regionais. É a Agapedia que leva os alunos à prestação de serviços especializados à comunidade e estabelece com esta uma relação de reciprocidade.

7.º – Zelar pela aprendizagem dos alunos

Muitos de nós, professores, principalmente os do magistério da educação escolar, acreditam que o importante, em sala de aula, é o instruir bem, ou seja, ter domínio de conhecimento da matéria que ministra na aula.
No entanto, o domínio de conhecimento não deve estar dissociado da capacidade de ensinar, de fazer aprender. De que adianta ter conhecimento e não saber, de forma autônoma e crítica, aplicar as informações?
O conhecimento não se faz apenas com metalinguagem, com conceitos a, b ou c, mas sim, com didática, com pedagogia do desenvolvimento do ser humano, sua mediação fundamental.

 

O zelo pela aprendizagem passa pela recuperação daqueles que têm dificuldades em assimilar informações, seja por limitações pessoais ou sociais. Daí a necessidade de uma educação dialógica, marcada pela troca de idéias e opiniões, de uma conversa colaborativa em que não se cogita o insucesso do aluno.
Se o aluno fracassa, a escola também fracassou. A escola deve riscar do dicionário a palavra FRACASSO. Quando o aluno sofre com o insucesso, também fracassa o professor.
A ordem, pois, é fazer sempre progredir, dedicar mais do que as horas oficialmente destinadas ao trabalho e reconhecer que o nosso magistério é missão, às vezes árdua, mas prazerosa, às vezes sem recompensa financeira condigna que merecemos, mas que pouco a pouco vamos construindo a consciência na sociedade, principalmente a política, de que a educação, se não é panacéia, é o caminho mais seguro para reverter as situações mais inquietantes e vexatórias da vida social.
É preciso que a escola ensine aos educandos como se dão as coisas relativas ao conhecimento da linguagem, como se processa a informação lingüística. E isso serve não só para o ensino da língua materna como também para as demais disciplinas escolares.
Um cálculo como 34 x 76 tem muito a ensinar além do resultado. Há o processo (as etapas de uma operação matemática) que deve ser visto como algo mais significativo no ensino e, por que não dizer, mais significativo, também, no momento da avaliação formativa.
As crianças precisam aprender e apreender essas informações da linguagem, da leitura, da escrita e do cálculo, com clareza e de forma prazerosa, lúdica. Quem sabe, ensina.
Quem ensina, deve saber os conteúdos a serem repassados para o aluno. A escola precisa levar as crianças ao reino da contemplação do conhecimento. Vale o inverso: a escola deve levar o reino do saber às crianças.
Nas ruas, as crianças não aprenderão informações lingüísticas. Farão, claro, hipóteses, extraídas, quase sempre da fala espontânea. É nas escolas, com bons professores, que aprenderão que essas informações lhes darão habilidade para a leitura e para a vida fora da escola.
Nos lares, a tarefa de reforço do que se aprender na escola se constitui um complemento importante, desde que os pais se sintam parte do processo.
Aliás, a educação escolar, de qualidade, é um dever das instituições de ensino. Doutra, dever, também, compartilhado por familiares e co-responsabilidade dos que operam com os saberes sistemáticos, que envolve a sociedade

8.º- Colaborar na articulação da escola com a família

 

O professor do novo milênio deve ter em mente que o profissional de ensino não é mais pedestal, dono da verdade, representante de todos os saberes, capaz de dar respostas para tudo.
Articular-se com as famílias é a primeira missão dos docentes, inclusive para contornar situações desafiadoras em sala de aula.
Quanto mais conhecemos a família dos nossos alunos, mais os compreendemos e os amamos. Uma criança amada é disciplinada. Os pais, são, portanto, coadjuvantes do processo ensino-aprendizagem, sem os quais a educação que damos fica incompleta, não vai adiante, não educa.
A sala de aula não é sala-de-estar do nosso lar, mas nada impede que os pais possam ajudar nos desafios da pedagogia dos docentes nem inoportuno é que os professores se aproximem dos lares para conhecerem de perto a realidade dos alunos e possam, juntos, pais e professores, fazer a aliança de uma pedagogia de conhecimento mútuo, compartilhado e mais solidário.

9.º – Participar ativamente na proposta pedagógica da escola
A proposta pedagógica não deve ser exclusividade dos diretores da escola. Cabe também ao professor participar do processo de elaboração da proposta pedagógica da escola, até mesmo para definir de forma clara os grandes objetivos da escola para os seus educandos.
Um professor que não participa, se trumbica, se perde na solidão das suas aulas e não tem como se tornar participante de um processo maior, holístico e globalizado. O mundo globalizado para o professor começa por sentir parte ativa no terreno das decisões da escola, da sua organização administrativa e pedagógica.

10.º – Respeitar as diferenças

Se, de um lado, devemos levantar a bandeira da tolerância, como um dos princípios do ensino, o respeito às diferenças conjuga-se com esse princípio, de modo a favorecer a unidade na diversidade, a semelhança na dissemelhança. Decerto, o respeito às diferenças de linguagem, às variedades lingüísticas e culturais é a grande tarefa dos educadores do novo milênio.
O respeito às diferenças não tem sido uma prática no nosso quotidiano, mas, depois de cinco séculos de civilização tropical, descobrimos que a igualdade passa pelo respeito às diferenças ideológicas, às concepções plurais de vida, de pedagogia, às formas de agir e de ser feliz dos gêneros humanos.
O educador deve, pois, ter a preocupação de se reeducar de forma contínua, uma vez que, a nossa sociedade ainda traz no seu tecido social as teorias da homogeneidade para as realizações humanas, teoria que, depois de 500 anos, conseguiu apenas reforçar as desigualdades sociais.
A nossa missão, é dizer que podemos amar, viver e ser felizes com as diferenças, pois, nelas encontraremos as nossas semelhanças históricas e ancestrais: é, assim, a nossa forma de dizer ao mundo que as diferenças nunca diminuem, mas, somam valores e multiplicam os gestos de fraternidade e paz entre os homens.

Pela manhã, o bom religioso abre o livro sagrado e reflete sobre o bem e o mal. Por um feliz amanhã, o bom professor abre a LDB e aprende a conciliar o conhecimento e a humanidade.

 

Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), em Sobral, Estado do Ceará. Contatos: vicente.martins@uol.com.br

POEMAS MANUSCRITOS de JAIRO PEREIRA

JAIRO PEREIRA - SCAN0009

 

JAIRO PEREIRA - SCAN0011

 

JAIRO PEREIRA - SCAN0013

WILLIAN SHAKESPEARE e RUDI BODANESE em FOTOPOEMA

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PAULO LEMINSKI fala da ARTE de RETTA – editoria

 

 

a arte de retta: "cobra coral" - acrílico sobre tela.

a arte de retta: "cobra coral" - acrílico sobre tela.

 

“paraporque jesustificar a desobra dobra do retta, o mais curvo dos criadores do plantel local? ao falo ” não fique doente,ficção” passo a palavra. retta sempre foi pedra de escândalo. fonte de pânico. alteração. sub-supra-versão. acidente que aleija. acaso que enche o saco. a droga é que esse experimentador(não dá pra passar por cima bons mocinhos)tem um puta nível de competência na manipulação dos códigos. humor branco, amarelo. humor. vermelho. humor. azul. a coisa do retta se situa na terra cinzenta-de-ninguém. esses extremos guestalticos e cromáticos. essa fornocomunicação, que brinca de parecer tão facsimilar à primavista é uma introdustria, monstrução. sua imagem favorita : código devorando código. a fêmea do louva-deus come o macho depois da cópula, para refazer as forças. trocadilho entre dois ou mais códigos: traducadilho. arretação.cartoom.foto.filme.design.desenho. desígnio.lay out. lay in.enquanto menores cultivam o tema retta teima. o traço. a obra:tão difícil porque transparente transa aparente de entender.+ que conteúdo. toda significado. eros tanatos. no duro o seguinte: (como retta diz quando fala sério) vida e morte. vida e morte no trabalho deste gaúcho que (felizmente) se encontra entre nós.”

P.LEMINSKI

 

UM POEMA  de RETTA:

 

quando você se cala o silêncio fala
canta o galo zumbe a abelha
mia o gato pia o pinto ruge o leão

quando você se cala o silêncio fala
a baleia bufa o burro zurra
o bezerro berra o bode bala ladra o cão

quando você se cala o silêncio fala
grasna o ganso o rato guincha
o cavalo rincha bate meu coração

quando você se cala o silêncio fala
a cigarra estrila a hiena gargalha
o dedo estala e canto esta canção

 

 

retta, o multimidia . pinta e borda com os pés no chão.

retta, o multimidia . pinta e borda com os pés no chão.

O HOMEM LOUCO poema de otto nul

Num discurso meio longo

O homem louco referiu

Todos os seus projetos

Próximos e distantes;

 

No meio de tudo

Não atinei com sua fala

Nem com seus sonhos

Nem com nada;

 

A certa hora, olhou-me

E sentiu piedade de mim

Que nada compreendera

De sua catilinária;

 

Saiu espavorido porta-fora

Sob o vento

sob a inclemência

da chuva que despencava,

 

Na busca de alguém

Que o ouvisse

Que o acolhesse

Que o amasse.

 

        x x x

 

(maio/09 – Otto Nul)

A DOR QUE DÓI MAIS por martha medeiros

Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, dóem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.
Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Dóem essas saudades todas. 
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.

Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.

Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.

RONALD MAGALHÃES músico e compositor CONVIDA:

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CANSEI e CANSAMOS por juliano schiavo

Não faço parte daquela campanha do Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros, “Cansei”, surgida em 2007 e liderada pela Ordem dos Advogados do Brasil – seccional São Paulo. Também não me incluo na campanha do “Cansamos”, criada pela Central Única do Trabalhador e outras entidades sindicais.

 

Porém, numa rápida análise, vejo que “cansei” e que muitos de nós “cansamos”. Até mesmo estes dois movimentos cansaram de se cansar e, dois anos depois, se fecharam num ostracismo típico dos cansados. Seria um ataque coletivo da mosca tsé-tsé, aquela que transmite a doença do sono?

 

Vejo que ainda se discute, por exemplo, a obrigatoriedade do diploma de jornalismo. Já estou satisfeito com este assunto. Depois de ouvir por anos a fio que a educação é a força motriz de uma nação – quem não se cansou de ouvir que a educação é tudo? –, há ainda discussões sobre a exigência de um diploma para atuar como jornalista.

 

É um tremendo contra-senso: ao invés de se estimular o estudo, a pesquisa, o entender científico da comunicação, apagam-se as luzes. Típico de um país, com p minúsculo mesmo, que está cansado e repleto de pessoas que dizem “Cansei”. Eu sou um deles, inclusive. Cansado de entender algumas lógicas ilógicas e algumas posições tão estranhas, fico me perguntando: será que não entendi porque estou cansado?

 

O país do pijama

 

E ainda usam como argumento que o diploma de jornalismo é contra a liberdade de expressão, uma vez que impede que qualquer um possa escrever uma matéria jornalística. Confunde-se, assim, liberdade com profissionalismo.

 

Não é nada estranho ao se tratar de um país em que deputados constroem castelos; quadrilhas operam de dentro das prisões; lojas de luxo sonegam milhões; a violência contabiliza 50 vezes mais mortos que na Faixa de Gaza; mais de 40 mil pessoas perdem a vida anualmente em acidentes de trânsito e, tantas outras coisas estranhas, tão comuns aos que cansaram desse déjà vu.

 

Discutir a obrigatoriedade de um diploma só gera canseira, marasmo, embolação. Para que tentar empurrar o país para a frente? Não sei. Cansei de matutar. Mas nada mais me assusta, a não ser a nova reforma ortográfica – que me deixa cansado só de pensar que vou ter que rever meus conceitos na escrita.

 

Para não deixar este texto mais cansativo – eu sei, há milhares de artigos defendendo ou não a exigência do diploma de jornalista – termino-o por aqui. Cansei e acho que todos nós cansamos. Não interessa estimular a educação, não importa a capacitação profissional, pouco interessa saber que, por detrás de um texto jornalístico, há toda uma técnica que deve ser aprendida. Vivemos no país do pijama, por isso, a música de ninar deveria ser nosso hino. Fui… Descansar.

UM HOMEM NO CAIS poema de manoel de andrade

MANOEL DE ANDRADE - UM HOMEM NO CAISNo cais....Lisboa.preview

 

 

Que saldo trago da vida?!
da existência escassa e vadia que vivi?!
que emoções puderam transfigurar meu coração de marinheiro
e desviar meus passos do caminho do cais?!
eu, que tornei meu corpo ambulante
a vagar de porto em porto em busca de um navio!
em busca de um destino qualquer que flutuasse
e me levasse pra bem longe e sem destino,
fazendo de mim um homem sem pátria e sem ninguém!
Ah, minha vida…
imenso cais deserto!
e eu a perambular pelas cidades portuárias
em busca de um capitão!
minha vida sem sal e sem sol!
sempre à sombra dos grandes cascos,
aspirando as emanações das coisas marítimas,
derivando pela atmosfera buliçosa dos portos!
Contemplo a mim mesmo caminhando ao longo do pavimento sujo do cais!
a vadiar entre vagonetes de madeira, caixotes empilhados e fardos de 
                                                        /mercadorias
                                                                                                         /cadorias!
e depois, cansado e com os pés doídos
sentar-me na calçada dos armazéns 
para ver os estivadores e os guindastes em movimento
e os pesados lotes de carga que são engolidos pelas bocas dos porões.
Ah, convívio com os que ficaram à beira de todas as rotas!
e com os que vivem para partir ao largo e ao distante!
ah, criaturas das margens e criaturas dos horizontes!
gente com quem falei e com tantas profissões entrelaçadas!
gente de terra que entra e sai das docas, 
vigias, conferentes, administradores do porto,                                                      despachantes, funcionários das capitanias,
homens dos rebocadores, dragas, barcaças,
dos pesqueiros e das pequenas embarcações costeiras
oficiais de bordo, embarcadiços,
tripulantes de muitas nacionalidades que sobem e descem pelas escadas
                                                          /dos navios 
                                                                                                            /navios.
Ah, essa vida misteriosa dos homens do mar!
ah, marinheiros debruçados nas amuradas
a olhar com impaciência a lida dos trabalhadores do cais!
a que distância estás da tua pátria?!
há quanto tempo não beijas tua amada?!
Contemplo a mim mesmo no alto do tombadilho dos cargueiros atracados!
olhando os navios que chegam e os navios que saem;
os que ancoram além da barra e os que são vistos ao largo das baías;
os que vêm chegando com as manhãs de sol 
e aqueles que começam a manobrar à tardinha e logo depois, partem 
                                                          /iluminados
                                                                                                            /nados.
Ah, meu barco que nunca chega e que nunca parte!
enquanto te aguardo,  caminho pela areia colorida das praias
e pelo dorso dos planaltos!
e hoje,
depois de tanto andar
sem bússola
sem cansaço
e quase comovido com minha vida vagabunda
eu, com vinte e sete anos de idade,
conhecendo dezessete estados do meu país imenso
e mais três nações do continente americano
trago ainda meu sonho imaculado
e minhas retinas dilatadas para visões mais amplas e azuis.
De tantas cidades percorridas,
de tantos rios atravessados,
trago apenas
a nostalgia de terras que não vi
e a saudade do marinheiro que não fui!
Quantos anos vividos
ao lado e na distância do homem que me deixei num cais
sem barco e sem destino!
Ah, meu sonho!
minha vida naufragada.
Eu contemplo a mim mesmo
o rapaz que foi a pique numa tarde de novembro.
Tudo, ah, tudo em mim partiu pro mar!
e eu fiquei ausente
sempre algemado ao momento da partida
com um nó atravessado na garganta do meu sonho!
E agora
meu canto marítimo
chega ainda com a brisa dos oceanos
e na maré alta
banha meu sonho primeiro
e quem sabe, o derradeiro.
Nesse tempo de embarque
tudo esteve pronto e ainda está:
meu passaporte, meu diário em branco,
o violão e o poeta;
meu corpo sadio e forte para as tarefas de bordo
e a imaginação que escolheu as roupas de trabalho
e o traje para descer nos portos escalados:
camisa e sapatos brancos, o paletó azul-marinho
e a calça acinzentada;
a pele bronze, a barba bem crescida
e no peito tatuado qualquer nome de mulher
que eu diria ser o nome da mulher amada.
Vivendo deste sonho
eu fui partindo…
embarcava com os tripulantes
e estava no convés de tudo o que se fazia ao mar
e desaparecia na curva do horizonte.
eu também acenei para os que ficavam
eu acenei a mim mesmo.
Parti com os navios mercantes, vasos de guerra,
transatlânticos, escunas, veleiros…
fiz amigos e inimigos entre marinheiros,
aprendi a língua deles
trabalhei, ri, cantei, me embriaguei com eles.
desci em portos de países longínquos e misteriosos,
conheci outros continentes,
salguei meus olhos nas águas de todos os oceanos
e dos mares interiores,
senti meu coração seduzido pela beleza das baías e enseadas,
golfos e estreitos,
e tudo que eu vi…
ah, perdão!
tudo o que eu vi foi com a imaginação apenas!
eu nunca fui além do cais!
são estórias que ouvi de marinheiros!
de livros que li há muito tempo.
Mas ai de mim!
vivendo deste sonho
eu fui morrendo em tudo mais na minha vida.
e assim, o que de bom esteve ao meu alcance
e que poderia encher meu coração em terra firme
foi sempre provisório e desbotável.
O amor, o grande amor, não sei quem foi, não percebi…
os anos cresceram pesados e exigentes
e a única herança recebida
foi o imenso mar que se espraiou na minha infância.
Ah, meus dias foram outros!
e tudo o que de mim restou de belo,
está distante
está no mar
e nesta ânsia de cantar.
                       Curitiba, setembro – 1968
Este poema consta do livro “CANTARES” editado por ESCRITURAS

Que saldo trago da vida?!

da existência escassa e vadia que vivi?!

que emoções puderam transfigurar meu coração de marinheiro

e desviar meus passos do caminho do cais?!

eu, que tornei meu corpo ambulante

a vagar de porto em porto em busca de um navio!

em busca de um destino qualquer que flutuasse

e me levasse pra bem longe e sem destino,

fazendo de mim um homem sem pátria e sem ninguém!

 

Ah, minha vida…

imenso cais deserto!

e eu a perambular pelas cidades portuárias

em busca de um capitão!

minha vida sem sal e sem sol!

sempre à sombra dos grandes cascos,

aspirando as emanações das coisas marítimas,

derivando pela atmosfera buliçosa dos portos!

 

Contemplo a mim mesmo caminhando ao longo do pavimento sujo do cais!

a vadiar entre vagonetes de madeira, caixotes empilhados e fardos de mercadorias!

                                                                                                         

e depois, cansado e com os pés doídos

sentar-me na calçada dos armazéns 

para ver os estivadores e os guindastes em movimento

e os pesados lotes de carga que são engolidos pelas bocas dos porões.

 

Ah, convívio com os que ficaram à beira de todas as rotas!

e com os que vivem para partir ao largo e ao distante!

ah, criaturas das margens e criaturas dos horizontes!

gente com quem falei e com tantas profissões entrelaçadas!

gente de terra que entra e sai das docas, 

vigias, conferentes, administradores do porto,  despachantes,  funcionários das capitanias,

homens dos rebocadores, dragas, barcaças,

dos pesqueiros e das pequenas embarcações costeiras

oficiais de bordo, embarcadiços,

tripulantes de muitas nacionalidades que sobem e descem pelas escadas dos navios 

                                                                                                    

 

Ah, essa vida misteriosa dos homens do mar!

ah, marinheiros debruçados nas amuradas

a olhar com impaciência a lida dos trabalhadores do cais!

a que distância estás da tua pátria?!

há quanto tempo não beijas tua amada?!

 

Contemplo a mim mesmo no alto do tombadilho dos cargueiros atracados!

olhando os navios que chegam e os navios que saem;

os que ancoram além da barra e os que são vistos ao largo das baías;

os que vêm chegando com as manhãs de sol 

e aqueles que começam a manobrar à tardinha e logo depois, partem  iluminados

                                                                        

Ah, meu barco que nunca chega e que nunca parte!

enquanto te aguardo,  caminho pela areia colorida das praias

e pelo dorso dos planaltos!

e hoje,

depois de tanto andar

sem bússola

sem cansaço

e quase comovido com minha vida vagabunda

eu, com vinte e sete anos de idade,

conhecendo dezessete estados do meu país imenso

e mais três nações do continente americano

trago ainda meu sonho imaculado

e minhas retinas dilatadas para visões mais amplas e azuis.

 

De tantas cidades percorridas,

de tantos rios atravessados,

trago apenas

a nostalgia de terras que não vi

e a saudade do marinheiro que não fui!

Quantos anos vividos

ao lado e na distância do homem que me deixei num cais

sem barco e sem destino!

Ah, meu sonho!

minha vida naufragada.

Eu contemplo a mim mesmo

o rapaz que foi a pique numa tarde de novembro.

 

Tudo, ah, tudo em mim partiu pro mar!

e eu fiquei ausente

sempre algemado ao momento da partida

com um nó atravessado na garganta do meu sonho!

 

E agora

meu canto marítimo

chega ainda com a brisa dos oceanos

e na maré alta

banha meu sonho primeiro

e quem sabe, o derradeiro.

 

Nesse tempo de embarque

tudo esteve pronto e ainda está:

meu passaporte, meu diário em branco,

o violão e o poeta;

meu corpo sadio e forte para as tarefas de bordo

e a imaginação que escolheu as roupas de trabalho

e o traje para descer nos portos escalados:

camisa e sapatos brancos, o paletó azul-marinho

e a calça acinzentada;

a pele bronze, a barba bem crescida

e no peito tatuado qualquer nome de mulher

que eu diria ser o nome da mulher amada.

 

Vivendo deste sonho

eu fui partindo…

embarcava com os tripulantes

e estava no convés de tudo o que se fazia ao mar

e desaparecia na curva do horizonte.

eu também acenei para os que ficavam

eu acenei a mim mesmo.

Parti com os navios mercantes, vasos de guerra,

transatlânticos, escunas, veleiros…

fiz amigos e inimigos entre marinheiros,

aprendi a língua deles

trabalhei, ri, cantei, me embriaguei com eles.

desci em portos de países longínquos e misteriosos,

conheci outros continentes,

salguei meus olhos nas águas de todos os oceanos

e dos mares interiores,

senti meu coração seduzido pela beleza das baías e enseadas,

golfos e estreitos,

e tudo que eu vi…

ah, perdão!

tudo o que eu vi foi com a imaginação apenas!

eu nunca fui além do cais!

são estórias que ouvi de marinheiros!

de livros que li há muito tempo.

 

Mas ai de mim!

vivendo deste sonho

eu fui morrendo em tudo mais na minha vida.

e assim, o que de bom esteve ao meu alcance

e que poderia encher meu coração em terra firme

foi sempre provisório e desbotável.

O amor, o grande amor, não sei quem foi, não percebi…

os anos cresceram pesados e exigentes

e a única herança recebida

foi o imenso mar que se espraiou na minha infância.

 

Ah, meus dias foram outros!

e tudo o que de mim restou de belo,

está distante

está no mar

e nesta ânsia de cantar.

 

                       Curitiba, setembro – 1968

 

Este poema consta do livro “CANTARES” editado por ESCRITURAS.

AULA poema de zuleika dos reis

         Naquela tarde

         a aula foi diferente

         não porque a professora

         sentou-se na última carteira

         da fileira ao lado da janela.

 

         O aluno da sétima série

         fez a chamada     

         e anunciou o tema do dia:

         O SENTIDO DA VIDA.

 

         A classe dividiu-se

         nos subgrupos de sempre

         em discussões profundas

         contundentes.

 

         O grupo da professora

         brilhou na exposição dos painéis

         brilhou tanto que o trabalho

         mereceu conceito A.

 

         Quanto às notas individuais

         a professora

         resignou-se a um D

         por falta de participação.

INÓSPITO poema de joanna andrade

 

O que compõe o quarto quase vazio 
sao pedaços de furniture
Uma lampada sem dimmer
Uma cama box –primavera
Uma colcha quilt amarela
E uma personagem deep purple.
Ambilingua venenosa 
Entre bars 
Buscando suas presas .
O que compõe o quarto quase vazio
Sao pensamentos de uma corte surrogated
Sem judgment 
Sem representative
Inóspitos
Meu lado WOLF with a room.
O que compõe o quarto quase vazio 
sao pedaços de furniture
Uma lampada sem dimmer
Uma cama box –primavera
Uma colcha quilt amarela
E uma personagem deep purple.
Ambilingua venenosa 
Entre bars 
Buscando suas presas .
O que compõe o quarto quase vazio
Sao pensamentos de uma corte surrogated
Sem judgment 
Sem representative
Inóspitos
Meu lado WOLF in a room.

PARAÍSO poema de sara vanegas/Ecuador

 

 

la arena que cubre tu cuerpo magro

te muestra oasis inefables

y atrapa tu lucidez

la arena que vomitas camino al antiguo edén

la que acribilla tu mirada y tu memoria

y te conduce duna tras duna

al otro lado del mar

la arena que sepulta tu corazón ardiente

y te ofrece al fin en un instante imposible

azul e inalcanzable el paraíso

 

y cierra piadosamente tus ojos

O BEIJO pela jorn. niara de oliveira

 

 

foto de alfred eisenstaedt.

foto de alfred eisenstaedt.

 

A fotografia intitulada “O Beijo” foi tirada na Times Square, no dia 14 de agosto de 1945, por Alfred Eisenstaedt. Nesse dia, os americanos saíram às ruas para comemorar o fim da Segunda Guerra Mundial. “No Dia da Vitória, eu vi um marinheiro que vinha agarrando todas as moças que encontrava. Eu saí correndo junto a ele com minha Leica, olhando para trás por cima de meu ombro. Então, de repente, vi alguma coisa branca sendo agarrada. Girei em torno e cliquei o momento em que o marinheiro beijava a enfermeira”, declarou Alfred Eisenstaedt.

A enfermeira foi identificada como Edith Shain. Em 1980, com 62 anos, ela enviou uma carta ao Eisenstaedt, dizendo: “Nunca assumi publicamente porque podia colocar-me numa posição pouco digna. Mas agora os tempos mudaram”, escreveu Edith.

A revista Life tentou identificar o marinheiro, mas não foi possível, já que se apresentaram 11 candidatos e todos poderiam estar falando a verdade, pois naquele dia vários marinheiros festejaram beijando garotas que encontravam pela frente. Recentemente um teste de biometria realizado por Lois Gibson, especialista forense que desvendou mais de cem crimes, revelou que o homem da foto é Glenn McDuffie. Glenn, que tinha medo de morrer antes de ter sua identidade confirmada, conta que esperava o metrô quando ouviu a notícia do fim da guerra: “Fiquei tão feliz que saí para a rua, quando vi a enfermeira, corri para ela e beijei-a”, declarou. Eles não trocaram palavra. Existe outra foto, do mesmo beijo, feita pelo fotógrafo Victor Jorgensen, de ângulo diferente, e identificada pelo mesmo título.

O FOTÓGRAFO
Alfred Eisenstaedt, natural da Prússia e naturalizado norte-americano, sobreviveu a um ataque na Primeira Guerra que lhe afetou as pernas. Foi freelancer da Associated Press, registrou em 1933 o encontro de Hitler e Mussolini na Itália, participou da formação inicial da revista americana Life, registrou os efeitos da bomba atômica no Japão e fotografou personalidades como Winston Churchill, Marlene Dietrich, Ernest Hemingway, JFK e Sophia Loren. Faleceu em Nova Iorque em 1995, aos 96 anos.

A EMPRESA IGREJA por josé dagostim

Homologo os vence(dores), mas as dores reprimidas acordarão os vencidos…

 

O capitalismo e sua criatividade. Impressiona como alguns empresários se utilizam da arte de dominar usando da religião e até mesmo dos textos bíblicos como forma de propaganda. Mas isto no mundo do capital não é novidade, todas as armas são válidas, inclusive as falaciosas analogias. O que realmente inquieta é a fachada ética que permeia está categoria de empresários, usam e abusam do discurso piedoso, mas no âmago um espiral arenoso sombreia o espectro. Será que ainda estão presos no deserto atormentados por demônios?…

 

Assédio moral, demissões arbitrárias, intimidações e acidentes de trabalho correm soltos. Uma pequena caminhada pela trilha dos tribunais trabalhistas bastaria para destronar a realeza empresarial. As mídias empresariais, com suas colunas sociais estampam o disfarce, cenário de um teatro marcado por vítimas de uma sociedade ilusória.

 

A verborragia religiosa utilizada é a manigância do ego para manter “adormecida” a sombra da anomalia. Duvido que estas corporaturas durmam bem, desconfio de seus assessores espirituais e dos cientistas do comportamento, pois são co-réus de atos bárbaros da “nova civilização” empreendedora.

 

O progresso caminha no mesmo estilo das instituições religiosas, principalmente quando o pragmatismo religioso fundamentou a primeira pedra e distendeu nas sombras o coração. Uma trilha de isenções facilita a vida tributária do templo, enquanto isso, os trabalhadores, a qualquer custo, são impelidos a doarem o corpo e a alma ao progresso empresarial.

EL SUEÑO AMERICANO, SIESTA O PESADILLA por eduardo gonzalez viaña/Espanha

Lo llamaban el sueño americano. En medio de la crisis, tiene otros nombres. Unos dicen que  sólo se trata de una siesta. Otros creen que es una pesadilla y que será permanente.

 

A través de los tiempos,  ese sueño ha sido la creencia de que en Estados Unidos todo es posible para quien se atreva a soñar y a trabajar con empeño.

 

Creer que la riqueza y la felicidad son inagotables es la primera característica del sueño americano, y acaso la más peligrosa.

 

En los años recientes, esa suposición hizo que los estadounidenses se endeudaran por encima de sus niveles de riesgo y que los bancos reventaran la burbuja de la especulación. Los resultados son conocidos por todos.

 

Es importante, eso sí entender, que no sólo los bancos se propusieron hacer que la gente se empeñara hasta la camisa sino que la propia gente estaba loca por empeñarla.

 

Pagar con la chequera, y no con la tarjeta, era condenarse a no ser considerado sujeto de crédito. Tratar de cancelar cuanto antes la hipoteca era visto por algunos como una actividad idiota, si no sospechosa y, presumiblemente, “antiamericana” 

 

Empujados por el sentimiento de seguridad inagotable y por la creencia en el pleno empleo, los más han ignorado en este país el ahorro. La gente compraba a plazos sin averiguar cuál era el interés efectivo sino más bien el número de plazos, que las más de las veces excedía los meses y años de su propia vida.

 

Ahora, se comprueba que la superabundancia nunca existió, y que sólo se estaba pagando a plazos el desastre. El mito, sin embargo, se expresaba en gigantescos vehículos militares para algún solitario pretencioso, colosales dispendios de energía para una familia mínima, la compra cada cierto tiempo de una laptop, un teléfono móvil o un i-pod diferente, el consumo de raciones de comida para gigantes y la fábrica de niños obesos. En Londres, Madrid o Roma, todavía la gente seca su ropa al calor del sol. En los Estados Unidos, el apartamento más económico se vende o se arrienda equipado con cocina, dishwasher, refrigeradora, microondas, cable, lavadora y secadora.

 

Lo terrible es que todo ese dispendio llegó acompañado por el olvido absoluto de los valores que hicieron el sueño americano de los pioneros, la renuncia a  la filosofía de los fundadores de la libertad y el desprecio cínico por las creencias de las parejas que conducían un buey, una carreta y cuatro chiquillos hacia el Lejano Oeste. La tierra de la ingenuidad, de la integridad y de la ética no lo fue más. Esos bienes fueron suplidos por la avidez, el egoísmo, el capitalismo feroz, el insaciable hedonismo y la ignorancia más insoportable.

 

En un país, donde todo está en venta, hasta la cultura fue “marqueteada”. En las universidades se inventaron los créditos para objetivar el conocimiento, parcelarlo y venderlo en las raciones absolutamente necesarias para entrar cuanto antes al carnicero mercado del trabajo. Los jóvenes que llegan a la universidad suelen ignorar cuándo se independizó este país y qué potencias pelearon en la Segunda Guerra Mundial, y continúan sin saberlo al salir si no les son imprescindibles algunos créditos de historia.

 

La bandera de libertad empuñada en los combates del Pacífico o en las playas de Normandía fue abandonada en todas las guerras posteriores. Ese principio constitucional sólo sirve ahora para defender con ardor frenético a los que venden armas y para canonizar como buenos americanos a quienes las compran y salen el fin de semana a mutilar venados. Sirve también para olvidar a los paranoicos que compran miras telescópicas y apuntan con cuidado a sus futuros blancos en la escuela de la esquina.

 

Una información de la Pfizer dice que las compras de Lipitor se han reducido muy significativamente en los Estados Unidos. Si consideramos que abandonar el reductor de colesterol puede tener consecuencias fatales, eso significa que hemos tocado fondo.

 

Por fortuna, en las últimas elecciones no se ha producido solamente una alternancia de administradores. El nuevo gobierno proclama que un cambio radical es imprescindible, y a pocos meses de iniciar su trabajo, tanto el presidente Obama como una mayoría abrumadora de la población proclaman que el único camino a tomar es el camino de vuelta a los principios que sustentaron  siempre el sueño americano.

 

Quienes defendemos a los inmigrantes creemos que el cambio pasa por darles legalidad. Eso no es tan sólo rentable para el fisco e indispensable para el exhausto Seguro Social, sino que las comunidades hispanas serán un ejemplo de los principios que aquí se olvidaron cuando se convirtió la familia en una sociedad mercantil.

El cambio pasa por la gratuidad de la educación, la generalización de los servicios de salud y la extirpación de la miseria.  .

Para que el sueño americano no sea ya una pesadilla, hay que gobernar desde la política y la filosofía, y no desde la economía. Hay que denunciar la deificación del capital, un becerro de oro ante el cual se ha vuelto a los sacrificios humanos. Hay que mundializar la utopía dentro de un proyecto global. Hay que recuperar la dimensión ética de la aventura humana. Hay que dejar de leer los índices del mercado y volver a las páginas del viejo Aristóteles, quien sostenía que no tiene sentido ningún invento humano ni acto alguno de gobierno, si no viene ligado al objetivo imprescindible del bien común. Y todo eso significa que habrá que volver a soñar.

POEMÁTICA – poema de josé luiz gaspar

Ao inventor do quadrado de quatro pontas

José Luiz Gaspar

Xamãs tupiniquins alvoroçados

‑ cada qual com seu fado ‑

vão denotando como que se faz

‑ um pouco na frente, outro atrás ‑

espetar pelo ramos as rosas

‑ galhofando-as nas glosas ‑

de raspar seu lápis na lousa

‑ para extrair enfim outra coisa.

 

Apenas um som não faz sentido

seu sentido é que procura o som.

como criança brinca de bandido

enquanto o ególatra tasca seu tom.

 

Todas palavras gozam à ideofrenia

arritimando-se pelos batecuns,

sempre desiguais como um +um.

O coração despulsa nessa sangria

ensandecido numa feroz dislalia

em que coaxaria refaz sua cultura.

Aí, a bilurribina exsuda acumputura;

a pele triscada, um calor à mente

e no verbo um som intermitente:

Batecum! Batecum, mais um.

MILLÔR por hamilton alves

Quem sou eu para meter o pau em Millôr Fernandes ou lhe negar  talento para fazer humor, embora ultimamente deva-se reconhecer que anda meio por baixo, o que bem revela sua página na revista “Veja”, que segue dentro de um ritmo mais ou menos chato. Mas ele tem espírito de humor. Há poucas e boas dele. Uma vez inaugurou uma página inteira do Estadão. O que é que, afinal, se julgava que o homem fosse? Algum super-homem? Evidentemente que, por mais talento que lhe sobre, uma página de jornal é um peso demasiado grande. Mas foi numa dessas páginas que disse uma coisa genial: “andar de taxi é o melhor manual de sociologia aloprada existente”. Por isso, lhe passei um recado de cumprimentos. Em resposta, agradeceu-me com um desenho exatamente de um taxi com um motorista e um passageiro vistos no banco da frente.

                                   Millôr, não sei por que cargas d,água, não acerta com entrevistas. Talvez seja por causa dos maus entrevistadores, que lhe fazem perguntas imbecis e ele responde.

                                   Numa das últimas (para a revista “Bravo!”) proferiu essa lantejoula:

                                   “Machado de Assis não me diz nada”.

                                   A mesma coisa diz de Joyce. Claro, Ulisses é uma pedreira para qualquer um. Só quem gostou do livro e adquiriu uma primeira edição foi Anthony Burguess, que elogia essa obra num livro que denominou “Homem Comum Enfim”, que contém exatamente as iniciais do principal personagem de Finnegans Wake, ou Humphrey Chimpden Earwicker. O titulo original é Here Comes Everybody.

                                   Millôr pelo menos tem a ousadia de confessar a própria burrice, diferente de outros tantos, considerados geniais como ele, e que a escondem. Ou a escamoteiam.

                                   Escritor, segundo ele, é o Veríssimo (não menciona se é o pai ou  o filho), considerando-o consagrado. Nada contra. Nem a favor. Muito pelo contrário.

                                   Gênio, mesmo nacional, tem dessas incongruências desculpáveis. Afinal de contas, ninguém é perfeito. Não gosta de Machado de Assis, mas Veríssimo  coloca no pedestal. A pergunta é: o que Millôr leu de Machado para chegar a essa conclusão? Leu, ao menos, os contos “Missa do Galo”, “A igreja do diabo” ou “Teoria do Medalhão”? Só para citar três dos melhores. Não se fala de “Don Casmurro” ou de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, que tem um capítulo – Delírio – que Eça de Queiroz declarou que sabia de cor.

                                   Redimiu-se, em parte, dessas naturais mancadas, destacando o fato de ter lido Proust em português, francês, inglês e espanhol. Méritos para ele. Há quem não o leu em língua alguma.  Para que também exagerar de lê-lo em quatro idiomas?

                                   Ele aborda um tema sério: o aumento vertiginoso do número de escritores e, principalmente, de poetas, a partir do momento em que se inventou o computador. O que tem pintado de blog e blogueiros na internet é incontável. Todo o dia aparece um poeta novo, supondo-se de cara um gênio. “Toda senhora de 50 anos, que não sabe mais o que fazer, vira poeta” – diz Millôr. Mas revela uma limitação própria de quem não é muito familiarizado com o assunto. Pelo que se deduz, só considera poeta quem sabe armar uns versos com rima e metro. Fora daí não há poema que possa ser considerado como tal.

                                   Lembro-me que certa vez Paulo Francis disse de Millôr que, se fosse americano ou inglês, estaria consagrado mundialmente. Mesmo que fosse apenas na arte de fazer humor.            

                                   Bem, nisso, na verdade, ele está entre os melhores, quem sabe, do mundo.

 

CASLA – CASA LATINO-AMERICANA (Curitiba) CONVIDA:

primo CASLA

SOCIOLOGIA NA SALA DE AULA por walmor marcellino

Quando se tentou explicar e justificar o estudo do pensamento organizado e das ciências sociais nas escolas de segundo grau, na verdade se estava falando da enorme lacuna política na vida estudantil, como um vestibular à efetiva cidadania. Do uso precário da língua, do escasso domínio das ciências, dessa algaravia comunicativa de informações imprecisas, inúteis, e desde tempos em obsolescência pelo menos em seus métodos de investigação e modos aplicativos, todos estamos conscientes, embora desconhecendo-lhes a cura. A escola preencherá a experiência do social na construção de realidades; oferecerá um cidadão pronto para uso e consumo? Ou precisaremos de uma verdadeira reforma da educação que não serão apenas melhorias ou adições curriculares enganosas?

E essas adições e especulações sob novas expectativas de maturar os jovens numa sociedade que não se deixa decifrar sequer pelos políticos que dominam as instituições públicas? Se ninguém é contra a substituição de parte do currículo por sociologia e filosofia, quais serão essas outras matérias descartáveis; ou quase tudo não convence ser prioridade no sistema educacional, que necessita ser afrontado e radicalmente mudado?

Se é verdade que nem a sociologia nem a filosofia estão no centro das carências estudantis e servem apenas como adição para “formar atitude racional” e método de pensamento e trabalho — além da necessária ampliação daquelas informações positivas que não encontram no agente social a persistência e a flexibilidade para uma ação proveitosa –; se é verdade que não são suficientes “para a ocasião e a reflexão”; de que política como prática e entendimento social, de que efetiva cidadania enquanto ação objetiva e reflexão racional e lógica estaremos falando?

Política e cidadania serão o começo de qualquer ação ou uma finalidade na busca de aperfeiçoamento dos indivíduos? A dialética nos ensina que nesse entrecruzamento de princípios e fins não estamos discernindo a gênese e o sentido de um problema em causa. Estaremos a divagar.

O homem pensa para viver — quer dizer que no geral o pensamento é uma resposta orgânica a um estímulo. Porém essa forma unilateral dá uma primeira resposta a devaneios e paranóias, à alienação que nos constringe à mitologia e aos deuses para obter resposta ao não-saber, ao duvidar da justiça na sociedade, à angústia do existir. E serão esses os temas-objeto dos estudos ou os silogismos da lógica formal seguidos dos grandes e imorredouros enigmas da história? e a tipificação das sociedades em seus modos de produção, organização social e cultura preencherá nossa ignorância? Estou, de qualquer maneira, pensando em voltar para a escola.

COMO QUALQUER VORAZ BESTA por alceu sperança

Ao assumir o papel de xerife do mundo e dar a errônea impressão de que isso dá certo, os EUA doutrinaram as pessoas a ter medo do outro, do diferente, do moreninho do terceiro Mundo. O Estado policial tem sido um instrumento de dominação da ideologia. Basicamente, ele cria o crime e o estimula, na medida em que concentra as riquezas em poucas mãos e produz uma revolta que é sufocada pela violência do Estado. Nesse caso, o Estado policial é um Estado da direita, que no seu rancor ao povo defende os muros e o extermínio dos pobres em massa.

Como o crime é criado? Pode-se ver com clareza através da realidade evidenciada nas grandes e médias cidades brasileiras. O povo é oprimido pela falta de emprego, a precariedade da situação laboral, a ameaça de perder a vaga, a insegurança da atividade informal – e o namoro desta com a contravenção e o crime. Ao mesmo tempo, ilude-se com programas sociais cujo alcance limita-se ao nome bonitinho, do tipo “Minha Casa, Minha Vida”: se a vida dependesse de ter casa, 30 milhões de pessoas que vivem no que não é seu estariam mortos.

Com isso, temos uma classe média empurrada para a proletarização e com medo até da sombra, espoliada pelos ricos e agredida pelos miseráveis, engrossando o coro dos fascistóides que querem mais polícia descendo o pau no lombo dos pobres e protegendo os ricos que, ao fim e ao cabo, são os causadores dos dramas tanto dos miseráveis quanto das classes médias.

Felizes com a situação armada, os ricos usam sua mídia para demonizar e criminalizar os movimentos sociais, como MST, que é o maior movimento popular organizado no Brasil e agora descobriu a pólvora: que a ação precisa ter um caráter continental, pois o Brasil não terá futuro dependendo eternamente dos EUA e da Europa: só a unidade latino-americana criará um polo de força no hemisfério Sul, pois hoje tudo aqui é pautado pela vontade e pelas regras do hemisfério Norte. Chegou a hora de Bolívar!

Há um novo tipo de escravidão, que é deixar os preços das coisas altíssimos, em comparação com salários arrochados. É monstruosidade o que se faz com o transporte coletivo: a tarifa é estratosférica, sobrecarregando principalmente as donas de casa com atividade apenas no lar, os trabalhadores informais e os desempregados. Exigir de um pai que pague meia passagem para um filho ir à escola aprender a trabalhar para sustentar uma Nação é uma atitude vergonhosa.

Os impostos elevados sobrecarregam ainda mais os preços para os setores mais pobres, e nada haveria contra impostos se eles servissem para resolver os problemas da população e não para pagar os juros de uma dívida trilionária imoral.

Que o dinheiro dos impostos é mal empregado se nota pela estrutura de saúde em frangalhos e a educação fragilizada. Piora tudo a insegurança pública decorrente de um conjunto de mazelas criadas e sustentadas pelos ricos, propositalmente, no afã de acumular em poucas, pouquíssimas mãos, a riqueza gerada por todos os que trabalham.

Isso dá numa síntese: o caos urbano, que endoidece, adoece, agride, polui e mata. Criam-se artificialmente o medo e a violência, retomando aquela velha agenda hidrófoba da questão social ser caso de polícia. Falta prestar um pouco de atenção ao conselho de Locke: “Abandonando a razão, que é a regra dada entre homem e homem, e usando a força, à maneira das bestas, ele se torna sujeito a ser destruído por aquele contra quem ele usa força, como qualquer voraz besta selvagem que é perigosa à sua pessoa”. Resumindo, violência gera violência.

FERNANDO PESSOA I

sou o intervalo entre o que sou e o que não sou

Fernando Pessoa - por Biratan.

Fernando Pessoa - por Biratan.

entre o que sonho e o que a vida fez de mim,

a média abstrata e carnal entre coisas que não são nada, sendo

eu nada também.

 

O CICLISTA – de nelson padrella

 

Um campo de batalha o corpo do menino. Os desejos mais secretos ali se alojavam. A menina escondia, ávida, o seio alvo. No passeio de bicicleta, as coxas fortes, pedalando ao seu lado. Os mais secretos desejos.
          Na sombra de um descanso onde nunca permitida a audácia de um gesto, ela sorria dentes bons impondo distância. Ele sofria loucuras por ela, por todas as meninas, mulheres, criaturas. Ninguém completava o carinho que seu peito pedia. Na retomada do passeio, tristeza na tarde: roubada a menina, seguiria ele virgem e desesperado. Em seu campo de batalha.
          Mais possível que uma mulher madura, dessas ricas, que sustentam garoto bonito. Ele procurava nos vernissages, encarava, másculo, o olho das fêmeas cansadas. Impunha-se nos encontros, festinhas, oportunidades. Reinava um reboliço no rebanho, mas ele não sabia como dirigir a manada, separar uma de todas, possuí-la com tesão e esperança.
          O corpo adolescente clamava por carinho, grutas onde repousar a lança do guerreiro. As meninas passavam ao largo, escondendo na blusa fofa os rijos seios. As mulheres agarravam-se aos seus maridos como às suas jóias. Restava o medo das descobertas.
          Para a bicicleta se atirava, como quem se suicida. Pedalava até sentir doerem todos os músculos, até queimar o pulmão, virem lágrimas aos olhos. A bicicleta, seu cavalo; ele, o cavaleiro sem amada, o cruzado virgem, o não-amado.
 
          Eu sei que vou morrer um pouco quando chegar perto da tua casa, um nervosismo tolo se exibindo e eu não sabendo esconder o sorriso, vontade de fazer tanta coisa e não fazendo. Vou chegar com o rosto afogueado, as mãos não podendo segurar os dedos, tudo muito difícil, que engraçado! E você vai me receber com essa simplicidade que é bem como você é, o riso bom, aberto como as tardes de maio, a maneira sincera de falar comigo, e eu – pobre idiota – me sentindo sei lá! Noiva temerosa, tímida freirinha, logo eu, imagina! Eu sei que vou morrer quando você falar olá-como-vai, me oferecer a mão num gesto amigo, tão sem maldade, e eu pervertendo tudo, diabinhos loucos pulando num canto da cabeça. Talvez você não perceba o nervosismo e me convide a entrar, ver fotografias, essas coisas, talvez você me convide para morrer um pouco. Sei que vou morrer bastante quando acompanhar você pelo interior da casa. Vou namorar cada parede, folhinha com paisagens de vacas, troféus de atletismo, coisinhas miúdas de você, reflexo no espelho, gaiola, passarinho. Sei que vou morrer demais diante da tua cama, tudo posto como se fosse acontecer alguma coisa, a donzela imolada pelo efebo feroz, o sangue tão puro, ó deusas pagãs! Você abrirá a caixinha amarela, irá dispondo os retratos sobre a cama, você com dez anos, onze, doze… Meu mergulho dentro do teu passado, vampira sorvendo as melhores datas, noivados, festinhas, casamentos, mamãe com criança nos braços, eis que esta é vovó. Vou morrer, estou morrendo, mas isso é ótimo quando se tem você, ou pensa que se tem, que no fundo tudo são artes, você nem sabe das coisas, me recebe no portão, me permite entrar, não vê que te devoro com tudo que tenho de devoradora, te entrego descarnado para que te recomponhas, e eu volte outro dia e recomece tudo.
          No outro dia, quando estávamos no Parque Barigui, andando de bicicleta, bem que me ofereci toda, os seios empinados, mas você nem ligou. Viajava em competições e troféus, que você só gosta mesmo é de bicicleta, se gastar em cima da magrela, fazer sexo com ela, e eu – burra – me apaixonando por um atleta!  Na sombra daquela árvore tive a audácia de dizer tudo num sorriso, até deixei aberto um botão da blusa, você olhava para outro lado, caçando passarinho. Ainda mostrei um sinal na minha coxa, de uma batida que levei, e você examinou aquela marca com olho de médico, ou de veterinário, porque eu sou mesmo uma vaca para gostar de um animal como você.
     
Um campo de batalha o corpo do menino. Os desejos mais secretos ali se alojavam. A menina escondia, ávida, o seio alvo. No passeio de bicicleta, as coxas fortes, pedalando ao seu lado. Os mais secretos desejos.
          Na sombra de um descanso onde nunca permitida a audácia de um gesto, ela sorria dentes bons impondo distância. Ele sofria loucuras por ela, por todas as meninas, mulheres, criaturas. Ninguém completava o carinho que seu peito pedia. Na retomada do passeio, tristeza na tarde: roubada a menina, seguiria ele virgem e desesperado. Em seu campo de batalha.
          Mais possível que uma mulher madura, dessas ricas, que sustentam garoto bonito. Ele procurava nos vernissages, encarava, másculo, o olho das fêmeas cansadas. Impunha-se nos encontros, festinhas, oportunidades. Reinava um reboliço no rebanho, mas ele não sabia como dirigir a manada, separar uma de todas, possuí-la com tesão e esperança.
          O corpo adolescente clamava por carinho, grutas onde repousar a lança do guerreiro. As meninas passavam ao largo, escondendo na blusa fofa os rijos seios. As mulheres agarravam-se aos seus maridos como às suas jóias. Restava o medo das descobertas.
          Para a bicicleta se atirava, como quem se suicida. Pedalava até sentir doerem todos os músculos, até queimar o pulmão, virem lágrimas aos olhos. A bicicleta, seu cavalo; ele, o cavaleiro sem amada, o cruzado virgem, o não-amado.
 
          Eu sei que vou morrer um pouco quando chegar perto da tua casa, um nervosismo tolo se exibindo e eu não sabendo esconder o sorriso, vontade de fazer tanta coisa e não fazendo. Vou chegar com o rosto afogueado, as mãos não podendo segurar os dedos, tudo muito difícil, que engraçado! E você vai me receber com essa simplicidade que é bem como você é, o riso bom, aberto como as tardes de maio, a maneira sincera de falar comigo, e eu – pobre idiota – me sentindo sei lá! Noiva temerosa, tímida freirinha, logo eu, imagina! Eu sei que vou morrer quando você falar olá-como-vai, me oferecer a mão num gesto amigo, tão sem maldade, e eu pervertendo tudo, diabinhos loucos pulando num canto da cabeça. Talvez você não perceba o nervosismo e me convide a entrar, ver fotografias, essas coisas, talvez você me convide para morrer um pouco. Sei que vou morrer bastante quando acompanhar você pelo interior da casa. Vou namorar cada parede, folhinha com paisagens de vacas, troféus de atletismo, coisinhas miúdas de você, reflexo no espelho, gaiola, passarinho. Sei que vou morrer demais diante da tua cama, tudo posto como se fosse acontecer alguma coisa, a donzela imolada pelo efebo feroz, o sangue tão puro, ó deusas pagãs! Você abrirá a caixinha amarela, irá dispondo os retratos sobre a cama, você com dez anos, onze, doze… Meu mergulho dentro do teu passado, vampira sorvendo as melhores datas, noivados, festinhas, casamentos, mamãe com criança nos braços, eis que esta é vovó. Vou morrer, estou morrendo, mas isso é ótimo quando se tem você, ou pensa que se tem, que no fundo tudo são artes, você nem sabe das coisas, me recebe no portão, me permite entrar, não vê que te devoro com tudo que tenho de devoradora, te entrego descarnado para que te recomponhas, e eu volte outro dia e recomece tudo.
          No outro dia, quando estávamos no Parque Barigui, andando de bicicleta, bem que me ofereci toda, os seios empinados, mas você nem ligou. Viajava em competições e troféus, que você só gosta mesmo é de bicicleta, se gastar em cima da magrela, fazer sexo com ela, e eu – burra – me apaixonando por um atleta!  Na sombra daquela árvore tive a audácia de dizer tudo num sorriso, até deixei aberto um botão da blusa, você olhava para outro lado, caçando passarinho. Ainda mostrei um sinal na minha coxa, de uma batida que levei, e você examinou aquela marca com olho de médico, ou de veterinário, porque eu sou mesmo uma vaca para gostar de um animal como você.
     

UM PÉ DE POEMA/NO JARDIM DE SOFIA (zocha) – poema de lilian reinhardt

Vou plantar  um  pé de poema
já esterquei a cova
fiz desova com minha pena
 já arregacei os baldes da manga
fiz descarrego das veias
assim planto esse pé de poema no canteiro do agora
crivo nos cravos dos olhos meus
Bordarei sem palavras esses teus umbigos
adejarei  borboletas
além da  barriga desta  aldeia
Já reguei das bilhas 
borrifei as  calhas com  água benta
nas asas do verso o ácido da placenta
 a terra te bebe o córrego 
fio d’água escorre eternidade!

SUOR poema de jorge barbosa filho

 

eu fiquei com teu nome

no meu corpo

e com todas as coisas

que você me dizia!

sejam elas minhas feridas,

as minhas tintas,

e as tuas juntas.

 

articulei um quadro

com tamanha engenharia,

por onde escorria um gato

no canto do teu olho,

uma lágrima miava

e eu não sabia.

 

a arquitetura da tua fome

é a mesma da minha.

o tamanho que nós somos

num olhar, não caberia,

na galeria de um sorriso

depois de tanta poesia.

 

pois é, fizemos picassos

sem nenhuma perspectiva.

melhor estarmos aqui

e trabalharmos o amor!

e sermos, sem formas

um imenso kambé.

 

é que as coisas bacanas  

você apontou…eu, as tuas 

na ponta dos dedos

nascem berrugas.

somos estrelas ou

somos pinturas?

 

o nome, é que se é

e se pretende constante

nos poros, na boca e na fé,

você é em mim inteira…

por isso eu não tive coragem

de tomar banho.

 

pra que me lavar reticente

se quero fazer as coisas durar?

sentir o teu cheiro,

saber que você está por perto,

e isto me alivia

sempre! sempre!

 

 

 

 

saber que você existe

é uma dádiva!

ainda não acredito!

sonho comigo e tigo,

sem nenhuma tática.

é deus o que sinto 

num corpo de fumaça.

 

quando fecho os olhos,

cheiro você em mim,

todos os incêndios

no teu colo implorando

como um bombeiro:

me faça feliz.

 

por todo fogo e suor

quero dividir,

multiplicar o que possamos

e somar o infinito

sem diminuir meu ser, teu ser…

e ficarmos juntos por inteiros. 

 

assim como estrelas

e a arte de um pulsar,    
o universo espalha

a alegria no olhar da gente.

que tudo dure, então

num beijo, pra sempre!

 

 

Jorge Barbosa Filho

 

DIA ASSINALADO poema de otto nul


Na folhinha do calendário

Com destaque

Ficou marcado o dia

Para sempre

De como tudo aconteceu

Porque aconteceu

Como decorreu

E todos os detalhes

O tempo rolará sobre esse dia

E nem eu nem tu

Dentro de alguns anos

Nos lembraremos mais

De como tudo aconteceu

Porque aconteceu

Como decorreu

E todos os detalhes

A folhinha do calendário

Ficará, no entanto,

Suspensa no tempo

Celebrando o fato

x x x

(abril/09 – Otto Nul)

A CAPELA SISTINA – editoria

CAPELA SISTINA - O JUÍZO FINAL

 

 

                     CAPELA SISTINA.

Se existem lugares em que a arte se aproxima de Deus, um deles é a Capela Sistina. Esta dependência do Palácio do Vaticano, em Roma, atinge o absoluto graças aos magníficos afrescos pintados por Michelangelo, Perugino, Ghirlandaio e Botticelli, entre outros artistas do Renascimento.

 

Temas do Antigo e do Novo Testamento são o ponto de partida das imagens imortais da Capela. Seu nome é uma homenagem ao Papa Sisto IV, que ordenou a sua construção em 1475. Os trabalhos se prolongaram até 1483 e, atualmente, a Capela é usada para as reuniões do Colégio dos Cardeais destinadas a eleger os novos Papas e também para cerimônias da Semana Santa

O projeto da Capela Sistina, segundo o arquiteto e teórico italiano Giorgio Vasari, foi de Baccio Ponteli; porém, nas notas de pagamento, figura o nome do florentino Giovannini de Dolci. Polêmica à parte, o importante é que externamente o edifício parece uma fortaleza, deixando evidente que a função da Capela seria apenas a de uso interno dos moradores do Palácio do Vaticano, principalmente do Papa.

Ao que tudo indica, as dimensões parecem ter sido inspiradas nas do templo de Salomão, descrito na Bíblia, e o teto abobadado era originariamente desprovido de qualquer adorno pictórico. Ainda sob o papado de Sisto IV, começaram as decorações das paredes. Pedro Perugino, Cosimo Roselli, Sandro Botticelli, Domenico Ghirlandaio, professor de Michelangelo, e Luca Signorelli pintaram quadros da vida de Moisés e de Jesus Cristo, além de uma série de Papas entre as janelas, seis no alto de cada parede lateral.

Entretanto, em maio de 1508, o Papa Júlio II, sobrinho de Sisto IV, encomendou a Michelangelo o afresco que hoje decora o teto da Capela. O artista florentino aceitou o desafio pleno de dúvidas, pois considerava-se mais um escultor do que pintor, preferindo os blocos de mármore de Carrara aos pincéis.

A obra foi terminada em outubro de 1512, sendo o resultado de um processo muito doloroso. No plano físico, a posição incômoda em que o artista tinha que pintar, sobre andaimes, todo retorcido e com gotas de tinta prejudicando-lhe a visão, causava cansaço. Além disso, segundo alguns historiadores e críticos de arte, Michelangelo sofria veladas ameaças de que seria substituído pelo jovem pintor Rafael, então em ascensão, se o seu trabalho não agradasse ou não correspondesse aos desejos do Papa.

Mas o resultado foi magnífico, superando qualquer expectativa. Michelangelo representou, seguindo uma ordenação teológica, desde a Criação do Universo até a Embriaguez de Noé, incluindo mais sete episódios do Gênesis, além de sete profetas, cinco sibilas, que teriam anunciado a vinda de Cristo, e quatro cenas nos cantos representando façanhas de heróis do povo de Israel: Davi vencendo Golias, Judite matando Holofernes, Ester denunciando as perseguições de Amã aos judeus e o episódio em que, picados por serpentes venenosas, aqueles que tivessem fé poderiam se curar olhando para uma serpente de bronze, colocada no alto de um poste por Moisés.

TETO DA CAPELA SISITINA

                      Teto da Capela Sistina.

ANTONIO GRAMSCI por sandra vaz de lima

Pelas mãos de Gramsci é recuperado um outro Marx (e não sem tensões como, por exemplo, na permanência do uso das altamente questionáveis dicotomias de “infra-estrutura/superestrutura” e “classe em si/classe para si”), que não é aquele claramente influenciado pelo evolucionismo

ANTONIO GRAMSCI

ANTONIO GRAMSCI

 cientificista do século XIX; é trazido de novo à vida o Marx que viu e defendeu a razão da liberdade perante a força da necessidade, o Marx que edificou uma teoria da sociedade humana baseado em três pilares fundamentais, a saber, as noções de totalidade, contradição e historicidade. 
Entretanto, Gramsci não apenas recuperou o “Marx da liberdade da ação política e cultural”, diferentemente daqueles que preferiram mergulhar na herança do “Marx da necessidade da determinação econômica”, como, além disso, superou dialeticamente o autor de O capital, ampliando, na formulação de conceitos novos, o entendimento das três noções que embasam a dialética materialista e direcionando-as no sentido de uma “história ético-política” [3]. 
O conceito de hegemonia em Gramsci nasce como corolário da nova significação por ele dada à realidade estatal. Ao definir o Estado como uma instituição formada por dois “grandes planos superestruturais” (a “sociedade civil”, onde se constrói o “consenso”, e a “sociedade política”, onde se exerce a “coerção”), ele constatou que o poder estatal não mais se legitimava puramente através da “dominação”, mas também por meio da “hegemonia” – o Estado transformara-se em “hegemonia revestida de coerção” [22]. 
O marxismo, para Gramsci, reivindica a história ético-política, o momento da hegemonia, como algo essencial, que constitui condição sine qua non da sua concepção de Estado. Este fato está fecundamente enraizado, por sua vez, na percepção historicamente localizada de que as chamadas superestruturas, as ideologias “são uma realidade objetiva e operante”, “são fatos históricos reais”, e não “pura aparência”, que se desenvolvem intimamente relacionadas, sob um nexo de reciprocidade vital, com as ditas estruturas, dando vida a um “bloco histórico”. A distinção entre conteúdo (forças materiais) e forma (ideologias) seria apenas de caráter didático, pois, de acordo com Marx, “os homens tomam conhecimento dos conflitos de estrutura no terreno das ideologias”. 
O pensamento gramsciano sintetiza um estudo sobre as configurações históricas do Estado Capitalista Contemporâneo, remete a um amplo dialogo com os dilemas que emergem neste final de século.

 

ILUSTRAÇÃO DO SITE. FOTO LIVRE.

SPIELBERG e o futuro da revista impressa – por bruno rodrigues

Se os jornais diários de papel só fazem balançar na corda bamba, as revistas parecem estar se saindo bem; aliás, as revistas já se reinventam com dignidade há dez anos. A explosão do conteúdo na web, por exemplo, ao oferecer textos mais enxutos e um visual de maior impacto, serviu mais com estímulo à adaptação aos novos tempos do que uma visão do apocalipse. Do estilo de linguagem à programação visual, não houve publicação semanal, quinzenal ou mensal que não tivesse mimetizado a mídia digital – na maioria das vezes, com sucesso. Folhear uma revista de 1999 e compará-la com uma de 2009 faz uma imensa diferença.

 

E as revistas continuam se reinventando. Veja só as surpresas que duas das principais publicações desta década nos apresentam em suas edições mais recentes, prenúncio de que ainda há muito por vir:

 

. Steven Spielberg, editor da ‘Empire’
Colocar a tarefa de editar uma revista nas mãos de um diretor de cinema é uma daquelas ideias que nos fazem perguntar ‘por que alguém não pensou nisso antes?’. E se o diretor em questão é Steven Spielberg; a publicação, a inglesa ‘Empire'; e a edição, a comemorativa de vinte anos da revista, a ideia beira a genialidade. Spielberg pôs o dedo em tudo: da pauta às entrevistas, dos textos às fotos, da diagramação à capa. Algum problema nisso? Nenhum para os leitores, que estão fazendo os exemplares sumirem das bancas e das livrarias. Para os jornalistas é que vale uma pergunta: é fácil assim editar uma revista, sem nunca ter lidado com jornalismo, ou o trabalho de edição de um filme – tarefa a que Spielberg está habituado há mais de trinta anos – é semelhante ao de uma publicação impressa?

 

. J. J. Abrams, editor da ‘Wired’
Para quem não conhece, Abrams é visto como o novo Spielberg – ele é o criador de ‘Lost’ e da revitalização da série ‘Jornada nas Estrelas ‘ (aquela de Spock & cia.) para o cinema, e mais que isso não é preciso dizer. Abrams pegou a ‘Wired’, principal revista sobre tecnologia do mundo, e a virou do avesso. Criou uma temática subliminar para a edição – ‘mistério’, que ele conhece bastante, vide ‘Lost’ – e transformou a revista em uma questão a ser resolvida, em que o leitor precisa coletar pistas aqui e ali para checar à resolução sabe-se lá do quê. Afinal, é J.J. Abrams! O que sobra disso? Uma pergunta que insiste em martelar na minha cabeça: é preciso contar com um criador de séries para tornar uma revista mais interessante? Sei não, tudo me parece muito estranho…

 

E você, o que acha desta nova ‘tendência’? Se já há gritaria por conta de economistas que escrevem colunas para jornais, o que dizer de revistas editadas por diretores de cinema?

O POETA e COMPOSITOR JORGE BARBOSA FILHO CONVIDA

SALVE JORGE!! os PALAVREIROS DA HORA desejam muita saúde e zilhões de alegrias para você meu mano! é lamentável, para mim, não poder estar aí para abraça-lo e encontrar toda essa turma linha de frente! das bandas aos poetas passando pelo grande maestro WALTEL BRANCO! feliz festa!

jb vidal seu mano de sempre.


psycho1

UM OLHAR NO ESPELHO poema de leonardo meimes

Não suporto um olhar no espelho.

Me aterroriza a expressão

Plácida e ao mesmo tempo mórbida

Que me acomete

 

Como mantenho esta face angelical

Sendo que, pouca fama

Têm minhas ações mais perversas,

Minha intro-perversidade?

Sois vil, vil, vil!

 

Refletindo agora percebo

O quanto sou vil.

Percebo a malícia perene,

A cadência intrigante

De meus pensamentos mais

ridículos

 

Brincas com sentimentos?

Brincas com as dificuldades?

Brincas com a ignorância?

SIM, sim, sim

 

Quase me quebro no espelho

Por não querer beijá-lo.

Eis uma aversão a mim mesmo

Aversão mais perigosa

 

Abre-se a notória realidade

Cai em meu colo como um fado

Não aquele que soa lindo e triste

E sim o que pronuncia o oráculo

Que sela o destino

E termina em fatalidade.

POEMA para DALÍ – de bárbara carvalho

BÁRBARA CARVALHO - dali1parte

BÁRBARA CARVALHO - dali2parte

ORAÇÃO AO OUTRO poema de joão batista do lago

Vejo-te, Outro,

amor da minha conduta.

Tudo o mais, além de ti,

é ilusório;

Representação falsa dos românticos,

Naturalistas dum tempo de sonhos.

 

Vejo-te, Outro,

símbolo máximo da razão.

Tudo o mais, além de ti,

é desprezível;

Devaneios de encantos de seres diacrônicos,

Vidas que se arrastam sem o deus-mercado.

 

Vejo-te, Outro,

mercadoria do meu consumo.

Se nele não te encontras:

não és nada…

Vê-se, pois, não tens a alma dum cifrão.

 

Vejo-te, Outro,

com minha visão de lucro.

Se nela não te sonho:

nada vales…

És mercadoria podre – espírito sem capital!

Gerson Camata protesta contra cartilha que ensina usuário a drogar-se.

NO SENADO BRASILEIRO:

 

O SR. GERSON CAMATA (PMDB – ES. Para uma comunicação inadiável. Sem revisão do orador.) – Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, antes de entrar no objetivo da minha fala, queria solidarizar-me, primeiro, com o Senador Alvaro Dias, depois com o Prefeito de Vitória, João Carlos Coser, do PT, excelente Prefeito, que luta pelo metrô de Vitória, coitado! Vem aqui, conversa com o Presidente, com a Ministra Dilma, vai à Comissão de Orçamentos e não consegue. Se ele fosse Prefeito de Santiago do Chile, já teria pego uns 500 milhões do BNDES, para fazer o metrô de Santiago do Chile. E, com o nosso querido colega Geraldo Mesquita, que, dia e noite, vejo aqui brigando pelas emendas, para os Prefeitos do Acre. E não liberam. Um milhão e pouco, dois milhões, mas quatro bilhões para os prefeitos de Angola, Moçambique, República Dominicana não faltam.
Sr. Presidente, no sábado, peguei o jornal O Globo – às vezes lemos uma notícia e não acreditamos naquilo que estamos lendo –: li uma vez, duas, tomei um cafezinho, bebi um copo d’água, li de novo, para ver se aquilo era verdade, e era. Hoje li de novo.
O Ministério da Saúde editou uma cartilha, e não acredito que aquilo foi pago com dinheiro público. Estou falando aqui, porque estou requerendo ao Ministério exemplares da cartilha e ao Tribunal de Contas se é lícito usar dinheiro do contribuinte, para fazer uma cartilha como essa.
A cartilha é dirigida aos viciados em craque, cocaína e êxtase. Mas, em lugar de dizer que aquilo faz mal, para não se usar, não, estimula, porque o título já é assim: “O álcool e outras drogas não afetam seus direitos”. Quer dizer, o álcool e outras drogas… tudo igual, tudo igual. E aí diz o seguinte a cartilha: Maconha. Se você é usuário de maconha, é bom andar com um vidrinho de colírio, porque ela costuma deixar o olho meio vermelho; para tirar o bafo, beba bastante água ou, senão, uma vodca. 

É! A Cartilha do Ministério da Saúde! Mas tem mais: se você é usuário de cocaína, não use nota de dinheiro para cheirar cocaína, use um canudinho, que é mais higiênico, desses que têm nos bares. E não manipule a cocaína com a sua mão, que pode estar com algum micróbio, com alguma bactéria.
É, o Ministério da Saúde! Não diz, em nenhum momento: não use cocaína, ela faz mal, ela vicia. A cocaína financia os crimes, financia as armas que matam os inocentes nos morros do Rio, de Vitória, do Brasil, de Porto Alegre! Em nenhum momento, ela diz isso.

Mas, aí há o crack: ah! se você é usuário do crack, você tem de beber muita água após consumir o crack, bastante água mesmo, e também se alimentar bem antes e depois do crack. Ensina como se faz.
E depois tem o êxtase: beber bastante bebida isotônica se você vai consumir êxtase; antes e depois.

Disseram lá no Ministério que isso é a maneira de evitar um dano maior. A maneira de evitar um dano maior é combater o traficante, colocar o traficante na cadeia, prender a cocaína que roda, tomar as armas dos traficantes, colocar na cadeia esse monte de gente que está destruindo a juventude brasileira. Essa é a maneira.
Agora, fazer uma Cartilha ensinando como se usa! O Ministério da Saúde! Eu não acredito!
Quero que o Tribunal de Contas informe se é lícito usar dinheiro do contribuinte, dinheiro público, sagrado, para ensinar as pessoas a usarem cocaína, crack, êxtase, essas coisas que estão acabando com o Brasil.
Erramos aqui quando consideramos que o viciado não pode ser preso, porque está carregando para o consumo próprio. Mas é o viciado que financia as armas, financia os crimes, financia as mortes. 
Tanto que está tramitando um projeto de lei, de minha autoria, na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, no sentido de que sempre que um drogado matar alguém ou roubar alguém, quem vendeu a cocaína, se for localizado, também vai para a cadeia junto com ele. Porque se, por exemplo, eu entrego uma arma para alguém assassinar uma pessoa e eu sou co-autor, se eu vendo a droga para alguém matar outro eu sou co-autor também. Então tem que prender o traficante, toda hora, todo momento, e persegui-lo.
Pelo Regimento eu não posso, mas eu gostaria de ouvi-lo.
O Sr. Geraldo Mesquita Júnior (PMDB – AC) – Só para contribuir com o seu pronunciamento, Senador Gerson. Eu admitiria uma cartilha dessa se ela fosse dirigida a toda a população brasileira, orientando-a a perceber os sintomas daqueles que usam entorpecentes, para identificar e levá-lo a algum local onde ele possa ser tratado etc. Mas o senhor leu três vezes e não acreditou. Eu teria lido vinte vezes e continuaria não acreditando nessa cartilha.
O SR. GERSON CAMATA (PMDB – ES) – Pois é, eu tive que ler de novo, hoje cedo, e agora estou pedindo para mandar uns exemplares aqui para o Senado e, junto, vou entrar com um requerimento. Quero que haja uma análise por parte do Tribunal de Contas se é lícito, com dinheiro público, publicar-se uma cartilha dessa, ensinando as pessoas a consumirem drogas pesadas. E o pior, dando a entender que não é problema, não; pode consumir, desde que você beba bastante isotônico; pode encher a cara de maconha, desde que você ponha colírio no olho; pode chupar cocaína à vontade, desde que não use nota de dinheiro para isso, tem que ser canudinho. Eu não estou entendendo mais as coisas que estão acontecendo. Perdoem-nos, mas o Tribunal de Contas vai ter que explicar ao povo brasileiro se isso é lícito, se isso é correto, se isso é direito, se isso é moral, o que é isso.
Muito obrigado.

NA DITADURA, UM INSTANTE – por philomena gebran

 

Rio de Janeiro 13 de dezembro de 1968. Festa de alguns amigos; grupo pequeno. Mas em época de ditadura qualquer reunião é uma festa. Ou como queriam os militares à época uma reunião subversiva.Os amigos sempre se reuniam para espantar os males daqueles tempos; e porque não se divertir um pouco. Que ninguém é de ferro.Na ocasião comemorávamos aniversário de um amigo.A festa corria solta. Muita música, muita alegria. Parabéns pra você, etc. Também à época dançava-se muito para não dançar nas mãos da repressão. E depois quem dançar os males espanta! Nos intervalos ,o sempre papo político, pois estávamos todos com os boatos que corriam soltos. Mas pensávamos eram apenas boatos e conjeturávamos hipóteses, nada mais. Tinha sido um ano complicado. Assassinato do Estudante  Edson Luiz  no restaurante do Calabouço, gerou inflamados protestos e discursos relâmpagos. Protestos sucediam-se. A gloriosa passeata dos Cem Mil da Avenida Rio Branco, foi um dos mais importantes. Merecíamos uma certa descontração. Enfim era uma festa e procurávamos afastar os maus pensamentos. Nosso pequeno grupo composto de intelectuais, jornalistas, artistas; todos da resistência da esquerda pacífica. Entre os presentes, a filha do lendário sociólogo e historiador, já perseguido pelo golpe de 64. “Dito comunista”, Josué de Castro autor  de uma obra de referencia e definitiva para a História do Brasil  “Geopolítica da Fome”. E fazia o maior sucesso entre todos nós. A festa rolava; a certa altura lembramos que iria ser transmitido, pela televisão, o pronunciamento do presidente da república, Gal. Costa e Silva. Paramos tudo.Sentamos no chão  e de olhos na televisão, o pronunciamento caiu entre não e  como uma bomba no meio da sala. escurecendo tudo. Acabando com a música. Calando toda nossa alegria.Embargando nossa voz. Emudecendo tudo. Perplexos não queríamos acreditar no que ouvíamos:
“O presidente Costa e Silva impetra neste 13 de dezembro de 1968 o Ato Institucional número 5″ que lhe outorga plenos poderes”; E seguia a voz do locutor; a partir dessa data, ficam proibidas reuniões políticas; passeatas; pronunciamentos contra o regime, etc., etc.., ética.. saímos para nossas casas mudos e cabisbaixos, cada um carregando o peso daquela bomba. Nos dias seguintes a Imprensa foi divulgando as conseqüências do sinistro Ato que autorizava o presidente, em caráter excepcional o “recesso do Parlamento” – analogia para seu fechamento; cassar mandatos parlamentares; suspender por dez anos todos os direitos políticos de qualquer cidadão; decretar o confisco de bens de quem o governo bem entendesse; e golpe fatal: suspender a garantia do habeas corpus.
Nos terríveis dias que se seguiram as noticias iam caindo entre nós de conta gotas e mergulhando o país na mais terrível repressão de todos os tempos. Prisões e mais prisões se sucediam, desaparecimentos de pessoas conhecidas. A resistência armada organizou-se e a clandestinidade tomou conta do país, ou  pelo menos de parte dele.
Com o tempo ficamos sabendo o que nossas hipóteses de confirmavam. Os Militares não agiram sozinhos. Contaram com o apoio de segmentos de grande parte da sociedade civil; dos empresários; dos americanos; da OAB e seu presidente da época. Um dos signatários do A. I. 5 foi o hoje deputado, quase petista, Delfim Neto e depois por muito tempo ministro dos vários governos da ditadura.Restava um foco de resistência onde de vez em quando nos reuníamos a ABI, sempre contra a ditadura e sempre nos apoiando.
Há muito a contar; mas vou ficando por aqui , pois não poderia deixar passar em branco essas lembranças dos quarenta anos do A.I. 5. Nada a comemorar. Tudo a lamentar.
Rio de Janeiro 13 de dezembro de 1968. Festa de alguns amigos; grupo pequeno. Mas em época de ditadura qualquer reunião é uma festa. Ou como queriam os militares à época uma reunião subversiva.Os amigos sempre se reuniam para espantar os males daqueles tempos; e porque não se divertir um pouco. Que ninguém é de ferro.Na ocasião comemorávamos aniversário de um amigo.A festa corria solta. Muita música, muita alegria. Parabéns pra você, etc. Também à época dançava-se muito para não dançar nas mãos da repressão. E depois quem dançar os males espanta! Nos intervalos ,o sempre papo político, pois estávamos todos com os boatos que corriam soltos. Mas pensávamos eram apenas boatos e conjeturávamos hipóteses, nada mais. Tinha sido um ano complicado. Assassinato do Estudante  Edson Luiz  no restaurante do Calabouço, gerou inflamados protestos e discursos relâmpagos. Protestos sucediam-se. A gloriosa passeata dos Cem Mil da Avenida Rio Branco, foi um dos mais importantes. Merecíamos uma certa descontração. Enfim era uma festa e procurávamos afastar os maus pensamentos. Nosso pequeno grupo composto de intelectuais, jornalistas, artistas; todos da resistência da esquerda pacífica. Entre os presentes, a filha do lendário sociólogo e historiador, já perseguido pelo golpe de 64. “Dito comunista”, Josué de Castro autor  de uma obra de referencia e definitiva para a História do Brasil  “Geopolítica da Fome”. E fazia o maior sucesso entre todos nós. A festa rolava; a certa altura lembramos que iria ser transmitido, pela televisão, o pronunciamento do presidente da república, Gal. Costa e Silva. Paramos tudo.Sentamos no chão  e de olhos na televisão, o pronunciamento caiu entre não e  como uma bomba no meio da sala. escurecendo tudo. Acabando com a música. Calando toda nossa alegria.Embargando nossa voz. Emudecendo tudo. Perplexos não queríamos acreditar no que ouvíamos:
“O presidente Costa e Silva impetra neste 13 de dezembro de 1968 o Ato Institucional número 5″ que lhe outorga plenos poderes”; E seguia a voz do locutor; a partir dessa data, ficam proibidas reuniões políticas; passeatas; pronunciamentos contra o regime, etc., etc.., ética.. saímos para nossas casas mudos e cabisbaixos, cada um carregando o peso daquela bomba. Nos dias seguintes a Imprensa foi divulgando as conseqüências do sinistro Ato que autorizava o presidente, em caráter excepcional o “recesso do Parlamento” – analogia para seu fechamento; cassar mandatos parlamentares; suspender por dez anos todos os direitos políticos de qualquer cidadão; decretar o confisco de bens de quem o governo bem entendesse; e golpe fatal: suspender a garantia do habeas corpus.
Nos terríveis dias que se seguiram as noticias iam caindo entre nós de conta gotas e mergulhando o país na mais terrível repressão de todos os tempos. Prisões e mais prisões se sucediam, desaparecimentos de pessoas conhecidas. A resistência armada organizou-se e a clandestinidade tomou conta do país, ou  pelo menos de parte dele.
Com o tempo ficamos sabendo o que nossas hipóteses de confirmavam. Os Militares não agiram sozinhos. Contaram com o apoio de segmentos de grande parte da sociedade civil; dos empresários; dos americanos; da OAB e seu presidente da época. Um dos signatários do A. I. 5 foi o hoje deputado, quase petista, Delfim Neto e depois por muito tempo ministro dos vários governos da ditadura.Restava um foco de resistência onde de vez em quando nos reuníamos a ABI, sempre contra a ditadura e sempre nos apoiando.
Há muito a contar; mas vou ficando por aqui , pois não poderia deixar passar em branco essas lembranças dos quarenta anos do A.I. 5. Nada a comemorar. Tudo a lamentar.
(2008).
MEMORIAL DA LIBERDADE - PHILÔ E OUTROS 2009 293
PHILOMENA GEBRAN e amigos no encontro para o MEMORIAL DA LIBERDADE (em Curitiba) décadas depois do fato narrado. ilustração do site. foto livre.

BALDE DE SIRI GAÚCHO NÃO PRECISA DE TAMPA por paulo tiaraju

Se é um lugar tão desejado por todos e tão bom, porque as pessoas bebem tanto quando estão na praia? Ora, bebemos para nos livrar da camisa de força riograndense que tanto orgulho nos dá. Bebe-se para ser livre outra vez, bebe-se para dizer tudo o que vem na cabeça, para rir, para brincar. E sem trago não dá? Pois é, sem trago não dá. Todo mundo continua careta, respeitavelmente adequados e comportados, como são na cidade.

Gaúcho não está acostumado a ficar sem roupa uns na frente dos outros. Carioca está tão acostumado que inventou o Fio Dental para reduzir o Biquini, aquela peça que esconde tudo. Esta é a imensa diferença entre quem vive na praia e quem vai à praia uma vez por ano. Quem vai à praia uma vez por ano tem sede de fazer loucuras, quer descontar um ano inteiro de rotinas engessadas. E vamos que vamos, ninguém segura mais a demanda reprimida. E aí, meu camarada, sai de baixo que a chapa vai esquentar, tirem as crianças de perto.

Rola de tudo. São 15 dias tomando caipirinha adoidado, comendo churrasco adoidado, conversando com as mesmas pessoas de sempre (adoidado), lendo jornal na areia adoidado, cortando a grama do jardim adoidado, dormindo depois do almoço, assistindo TV de noite adoidada, ou se jogando de cabeça num emocionante jogo de cartas. Que tal?

Gaúcho quando vai para praia, continua sendo um gaúcho cercado de gaúchos por todos os lados. Balde de siri gaúcho não precisa de tampa, a patrulha comportamental vai junto. O desinfeliz que ralou o ano todo não vai se espraiar como se fosse lógico, dançar e gargalhar como se fosse livre, adulto, com a agenda zerada e de férias. Os amigos vão estranhar, a família não vai entender, os clientes, ou os pacientes, estão por toda parte, onde é que já se viu?

Se numa roda surgem as lembranças das loucuras que faziam na Praia do Rosa há 20 anos ou 30 anos, aí a emoção toma conta de todos. Saudades do luau na areia, roda de viola, do frisson, da azaração (palavra da época), quando e se amanhecia nos barzinhos.

Não sei qual é a sua praia, mas a minha é a mesma que vivo em Porto Alegre o ano todo. Quero dizer que em boa parte do tempo tento flertar com a alegria, dou duro, mas também sei ficar à deriva, ao sabor das emoções aleatórias. E nunca descarto a hipótese de que o inesperado me faça uma surpresa. Me ocorreu agora que os cemitérios estão lotados de gente comportada; gente que em vida nunca fez o que gostaria. Esqueleto frustrado sabe que the game is over, deu pra bola, que triste destino. Mas ali também tem muita gente que viveu pra valer. Acho que entre eles ainda tem alguns que dão uma escapada de vez em quando. Nunca falta uma terreira para baixar, tomar uma marafa, fumar um charuto e dançar ao som do batuque puxado no capricho. Sei não, tem gente que não se entrega nunca. Eta nóis.

 

Paulo Tiaraju é publicitário e atualmente é diretor de Criação contratado da agência Match Point.

SALVADOR DALÍ e seus pensares – editoria

Olé! porque os críticos da velha arte moderna — vindos das Europas mais ou menos centrais, e portanto de parte nenhuma — se ocupam em cozinhar lentamente no cassoulet cartesiano seus equívocos mais saborosamente rabelaisianos e seus erros de situação mais truculentamente cornelianos de cozinha especulativa.SALVADOR DALI - 2841165895_d454c29615
Os cornudos1 ideológicos menos magníficos — excetuados os cornudos stalinistas — são em número de dois:

Primeiro: o velho cornudo dadaísta de cabeleira esbranquiçada que recebe um diploma de honra ou uma medalha de ouro por ter querido assassinar a pintura.
Segundo: o cornudo quase congênito, crítico ditirâmbico da velha arte moderna, que se auto-recorneia desde o início pelo corneamento dadaísta. Desde que o crítico ditirâmbico se casou com a velha pintura moderna, esta última não cessou de enganá-lo. Posso citar pelo menos quatro exemplos desse corneamento:

1) Ele foi enganado pela feiúra.
2) Ele foi enganado pelo moderno.
3) Ele foi enganado pela técnica.
4) Ele foi enganado pelo abstrato.

A introdução da feiúra na arte moderna começou com a adolescente ingenuidade romântica de Arthur Rimbaud, quando disse: ” A beleza sentou-se em meus joelhos e estou fatigado dela”. Foi por essas palavras cifradas que os críticos ditirâmbicos — exageradamente negativistas, e odiando o classicismo como todo rato de esgoto que se respeita — descobriram as agitações biológicas da feiúra e seus inconfessáveis atrativos. Começaram por se maravilhar com uma nova beleza , que diziam “não-convencional”, e ao lado da qual a beleza clássica tornava-se de repente sinônimo de frivolidade.
Todos os equívocos eram possíveis, inclusive o dos objetos selvagens, feios como os pecados mortais (que eles são, em realidade). Para ficarem em uníssono com os críticos ditirâmbicos, os pintores passaram a fazer o feio. Quando mais o faziam, mais eram modernos. Picasso, que tem medo de tudo, fabricava o feio por medo de Bouguereau2.
Mas ele, diferentemente dos outros, fabricava o feio de propósito, corneando assim os críticos ditirâmbicos que pretendiam reencontrar a verdadeira beleza. Como Picasso é um anarquista, ele haveria de dar a puntilla3 depois de ter apunhalado Bouguereau pela metade, e de um golpe acabar com a arte moderna, fazendo só ele, num dia, mais feiúra que todos os outros reunidos em vários anos.
Pois o grande Pablo, juntamente com o angélico Rafarel, o divino Marquês de Sade e eu — o rinocerontesco Salvador Dalí —, têm a mesma idéia do que pode representar um ser arcangelicamente belo. Aliás, essa idéia em nada difere da que possui por instinto qualquer multidão de rua — herdeira da civilização greco-romana — quando se volta petrificada de admiração, à passagem de um corpo — chamemos as coisas por seu nome —, de um corpo pitagórico.

 

1. Em francês, cocus. O termo deriva de coucou, o cuco, cuja fêmea tem o hábito de pôr seus ovos no ninho de outras aves. (N.T.)
2. Adolphe-William Bouguerau (1825 — 1905), diz o Larousse du XXe Siècle. Coberto de diplomas e medalhas de ouro, é tido como um general do estilo pompier, um general desacreditado mas que ainda causa medo. Um dia Picasso fazia um de seus amigos admirar sua última obra, uma colagem de pedaços de jornal; como esse amigo permacesses calado, o mestre, não podendo mais se conter, encontrou a palavra decisiva: “Talvez não seja sublime, mas em todo caso não é um Bouguereau.
3. A estocada final que o toureiro, “na ponta dos pés”, aplica ao touro. Depos da dança, é à tauromaquia que Dalí recorre para suas imagens. Trata-se realmente de um espanhol (N.T.)

 

O trecho acima, como vocês podem ver pleno de um espírito sarcástico e provocador, é de Libelo contra a Arte Moderna, de Salvador Dali. Ao longo do tempo, apesar de sua importância para o movimento surrealista e da sua ampla gama de interesses, que o fizeram transitar por cinema, escultura, pintura e até pelos desenhos animados de Walt Disney, foi colando-se a Dalí a reputação de grande marqueteiro de si mesmo. É uma imagem que não deixa de voltar à mente na leitura deste provocador panfleto no qual apresenta as diatribes que os senhores vêem aí, ataca indiscriminadamente Rimbaud, a crítica, a arte moderna de feiúra disseminada, as vanguardas, o abstracionismo, Cézanne, Miró, ao mesmo tempo que faz o elogio de um retratista profundamente acadêmico como o francês Ingres, para ele “o último pintor a saber pintar”.

 

Dentre os artistas de seu tempo, Dalí só poupa o próprio Dalí, considerado por Dalí, ele próprio,  o “salvador da pintura”, em um exemplo claro da completa ausência de modéstia do artista. Opiniões fortes de um artista ainda provocador. Não deixam de ainda falarem aos espíritos inquietos de todo mundo.

SE me quiseres conhecer – poema de noémia de souza / Moçambique

Se me quiseres conhecer,
Estuda com olhos de bem ver
Esse pedaço de pau preto 
Que um desconhecido irmão maconde
De mãos inspiradas
Talhou e trabalhou em terras distantes lá do norte.

Ah! Essa sou eu:
órbitas vazias no desespero de possuir a vida
boca rasgada em ferida de angustia,
mãos enorme, espalmadas,
erguendo-se em jeito de quem implora e ameaça,
corpo tatuado feridas visíveis e invisíveis
pelos duros chicotes da escravatura…
torturada e magnífica
altiva e mística,
africa da cabeça aos pés,
– Ah, essa sou eu!

Se quiseres compreender-me
Vem debruçar-te sobre a minha alma de africa,
Nos gemidos dos negros no cais
Nos batuques frenéticos do muchopes
Na rebeldia dos machanganas
Na estranha melodia se evolando
Duma canção nativa noite dentro

E nada mais me perguntes,
Se é que me queres conhecer…
Que não sou mais que um búzio de carne
Onde a revolta de africa congelou
Seu grito inchado de esperança.

In notícias, 07.03.1958, página “Moçambique 58”

AMOR ANIMAL - GIRAFAS 54886

MÁRIO BENEDETTI MORRE e URUGUAI SE CALA – pela editoria

os PALAVREIROS DA HORA e o site PALAVRAS, TODAS PALAVRAS lamentam a morte do escritor e poeta uruguaio MÁRIO BENEDETTI ocorrida ontem (17/05/09)   . em 20/03/08 MÁRIO  BENEDETTIo site publicou o poema PORQUE CANTAMOS de autoria do grande poeta. escritor engajado nas lutas populares de seu povo, foi em suas escrituras um defensor ferrenho do amor e da solidariedade. vejamos a repercussão desta grande perda para a literatura mundial:

Escritora Mercedes Vigil lamenta perda de Mario Benedetti

Montevidéu, 17 mai (EFE) – A escritora uruguaia Mercedes Vigil disse hoje em Montevidéu que a morte do poeta Mario Benedetti representa a perda de “uma pluma reveladora e valente” e deixa “um vazio irrecuperável”.

Em declarações à Agência Efe, Mercedes elogiou a obra “monstruosa e monumental” que deixa o autor uruguaio, falecido hoje em sua casa de Montevidéu aos 88 anos de idade.

“As musas nunca o abandonaram”, acrescentou Mercedes, destacando que o escritor desenvolveu “todos os gêneros e estilos através de uma inspiração fantástica”.


“Não se pode esquecer que os poetas vivem do coração e para ele essa perda foi terrível, não pôde superá-la”, disse a escritora, que considerou que graças à qualidade e à quantidade de sua obra “Benedetti não vai morrer nunca”.

 

 

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MONTEVIDÉU -17 de maio- O governo uruguaio decretou luto nacional pela morte do poeta Mario Benedetti, que faleceu neste domingo, em sua casa em Montevidéu, aos 88 anos. Seu velório foi iniciado na manhã de hoje no Palácio Legislativo, sede do Congresso do país. O enterro será realizado nesta terça-feira, no Cemitério Central da capital uruguaia.

Para o funeral, espera-se o comparecimento do presidente Tabaré Vázquez e de figuras do mundo da cultura e política local.

Autor de uma obra com mais de 80 títulos, entre poesia, contos, novelas, ensaios e peças teatrais, Benedetti foi reconhecido ao longo de sua trajetória por diversas distinções, como o Prêmio Internacional Menéndez Pelayo, em 2005, o Prêmio Iberoamericano José Martí, em 2001, e o Prêmio Rainha Sofia de Poesia Iberoamericana, em 1999.

Sua última publicação, o poemário “Testigo de uno mismo”, foi lançado em agosto do ano passado sem sua presença, pois Benedetti já apresentava um delicado estado de saúde. Atualmente, ele trabalhava em uma nova obra, intitulada provisoriamente de “Biografía para encontrarme”.

A morte de Benedetti foi sentida por diversas personalidades da cultura local e internacional. “Bendito sejam os homens e as mulheres honestos e generosos como ele”, disse Eduardo Galeano, autor de “As veias abertas da América Latina”, ao tomar conhecimento do falecimento.

Ao lado de Galeano, Juan Carlos Onetti e Idea Vilariño, Benedetti se tornou um dos mais MÁRIO BENEDETTI - benedettiimportantes nomes da literatura uruguaia do século XX.

Para o secretário de Cultura de Montevidéu, Mauricio Rosencof, sua morte representa “uma perda para a literatura latino-americana”. Benedetti foi “um ser humano absolutamente excepcional e um amigo querido”, afirmou Rosencof, que foi companheiro de militância de esquerda do escritor uruguaio.

O secretário de Cultura argentino José Nun, por sua parte, afirmou que Benedetti “era um grande escritor, multifacetário, e um defensor incansável dos direitos humanos e das causas nobres”.

“Sentimos um vazio tão grande com sua partida, mas ainda que estou certo de que [Benedetti] ficará para sempre entre nós”, completou.

Segundo afirmou Raúl, irmão do autor de “La Tregua” (1960) e “Gracias por el fuego” (1965), a morte do autor uruguaio não era esperada. Embora ele estivesse com a saúde debilitada, “aparentemente estava melhorando, estava consciente, respondia quando lhe faziam perguntas”.

 

As informações são da ANSA.

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um poema de mário benedetti:

VIAJO

 

Viajo como los nómades

pero con una diferencia

carezco totalmente de vocación viajera

 

sé que el mundo es esplêndio

y brutal

 

viajo como las naves migratorias

pero con una diferencia

nunca puedo arrancarme

del invierno

 

sé que el mundo es benévolo

y feroz

 

viajo como las dóciles cometas

pero con una diferencia

nunca llego a encontrarme

con el cielo

 

sé que el mundo es eterno

y agoniza

O Rei e “o Cara” por sérgio costa ramos

No começo, bem que Lúcifer tentou estragar os dois espetáculos que a Ilha providenciou para rivalizar com os seus poentes sanguíneos, emoldurados pela Serra do Mar.

O fim de semana – cujo palco assistiria o 9º Congresso do Conselho Mundial de Viagem e Turismo e o indizível show do Rei Roberto Carlos, comemorando os 30 anos do Grupo RBS em Santa Catarina – nasceu entre as nuvens carrancudas de uma tempestuosa quinta-feira: uma lestada se instalou sobre a Ilha – com o seu “carnegão” sombrio e a velha promessa:

– Tempo de lestada, mar de rebojo, três dias de luto e nojo…

Como anjo decaído e magnífico “espírito de porco”, Lúcifer começou a sua grande conspiração. Já imaginaram um congresso de turismo numa ilha paradisíaca, sem um único momento de sol? Pior: três dias de chuva incessante, “regador” que transformaria o WTTC numa sinistra reunião de sapos e pererecas?

Lúcifer não pensou só neste prejuízo: o Rei Roberto Carlos, ainda jovem aos 68 anos, poderia pegar uma erisipela ou um reumatismo se o vento sul soprasse ali nas esquinas da Via Expressa Sul, onde se instalara um palco “Hi-Tech” para 80 mil pessoas encantadas com aquele “momento lindo”.

Como o Senhor não se rende aos seus anjos demitidos, a justiça divina restabeleceu a ordem natural das coisas e da natureza: um sol das Ilhas Gregas se dependurou no firmamento e a alta pressão atmosférica “ariou” a panela da abóbada celestial, deixando-a limpinha e brilhante. O pessoal do WTTC pode, afinal, ser apresentado à verdadeira Ilha, aquela que foi modelada com extremo capricho no último dia da “Criação”, antes que o Todo-Poderoso descansasse.

O tocante Roberto Carlos in Concert – com dupla celebração, o meio século de sua carreira e os 30 

O REI na Ilha.

O REI na Ilha.

anos do Grupo RBS na terra de Anita Garibaldi – foi o maior sucesso de um show ao ar livre em Santa Catarina: intensas emoções, vividas em detalhes cintilantes.

Foi tamanho o calor humano, que o vento sul de Cruz e Sousa – “a gemente sentinela, que a tudo desgrenha e gela” – concedeu uma trégua providencial. Milagre. De repente, a noite estrelada do 16 de maio de 2009 se transformou num aquecido útero de mãe: o céu firme, a temperatura em torno dos 18ºC, sem vento. No entorno do palco, enquanto o Rei Roberto relembrava “As Jovens Tardes de Domingo”, instalou-se uma espécie de sauna emocional: a água que não caiu com a suspensa lestada, boiou nos olhos da plateia e de seu Rei.

O fim de semana, graças ao “Cara”, foi tão azul que o Avaí voltou invicto do Maracanã. E a retina de cada membro do WTTC recebeu o “download” de uma paisagem inesquecível.

O que nos autoriza dizer: se, com tanta beleza e tantas emoções para dar, a Ilha acabar excluída da Copa do Mundo de 2014, pior para a Copa…

 

DC. – ilustração do site.

VINHA AO TEU ENCONTRO prosa poética de vera lúcia kalaari / Portugal

VERA LÚCIA KALAARI - VIANHA AO TEU ENCONTRO

 

 

Vinha vindo ao longo da vida e vinha ao teu encontro.

Por isso é que a vida sempre me pareceu bela e generosa.

Mas quando às vezes, sopravam os ventos adversos, havia qualquer coisa que, em meio da tormenta, falava ao meu coração. Era como a luz de um farol rasgando o nevoeiro, a noite, o temporal.

Vinha ao teu encontro.

Eras tu que eu sentia, como um encanto obscuro, uma fascinação misteriosa, além do horizonte.

E era a tua sombra que, às vezes, me fazia parar um pouco, junto do homem que passava.

E porque era a tua sombra fugaz apenas que me detivera, junto do homem que passava, logo o deixava passar.

E seguia a minha estrada, em busca do teu amor: o outro era apenas um caminho para o teu amor.

Vinha ao teu encontro… Como se seguisse na rota duma estrela, como se fosse no rumo do sol. Vinha ao teu encontro na certeza de encontrar-te, porque eras a promessa do meu destino. Sabia que existias e vinha vindo ao teu encontro, embora ignorasse se eras uma flor ou uma fonte, um raio de luar, uma nota de música, uma paisagem, um silêncio, um sonho.

Sabia que existias e vinha ao teu encontro, ao longo da vida. Assim, agora que te encontrei, tenho a certeza de que sempre estiveste em minha vida, de que sempre caminhámos juntos, pois vivias dentro do meu sonho. Agora tenho a certeza que vinha 

vindo ao longo da vida, caminhando ao teu encontro, como se seguisse na rota duma estrela – iluminada por sua luz distante.

ESQUECER AO CONTAR AS GOTAS poema de joanna andrade

Momentos que sufocam,

dor no peito, sem cura, o unico remédio é esquecer à conta gotas.

 

Cada  gota  é como chumbo,

 tão pesada é a dor.

 

Novo método contra cena  amortecida,

 sensação, sem paladar e insonsa.

 

O coração ao chão desenhado,

 para nunca ser esquecido ao ser pisado.

 

A  sola do sapato trilha a fama da vida,

 vermelho carmim ululante.

 

Rastros cirurgicos perseguem a sombra das sombras,

criando as cicatrizes históricas.

 

As lágrimas alvejam o caminho,

acionam todos os fantasmas para a super ação.

 

São esses os momentos que sufocam,

quando a chuva lava as almas deixando-as novinhas em folha.

 

Os momentos que sufocam o velho coração,

povoam as aortas com o sódio caustificante dos pensamentos residuais.

 

……… dor no peito, sem cura, o unico remédio é esquecer ao contar as gotas.

CARTA PARA ZULEIKA de sérgio oliveira

Cara Musgo
Espero que esteja tudo azul ( e musgo ou pedra ).
Pois é,aqui te encontro depois de tanto tempo.Pedra continua levando as ondas que insistem em bater sempre fortes.Fortes como ele ( Pedra ) parênteses para que os incautos não venham a confundir nada.Continuas macia Musgo? Com tua voz suave que confunde a Medusa?
Continuamos musgo e pedra,mas em lados diferentes da praia.Em comum apenas a agua que quebra e o sol forte que as vezes nos abrasa.Musgo-sereia pedra-sentinela que continuam a espera sem saber do que. Ou será que apenas Pedra espera ? Diga musgo, ainda esperas ? Ainda sonhas com meus campos floridos? As vezes ainda os vejo em sonhos pálidos,em elaborações laboriosas num lampejo de fechar e abrir os olhos  sem nada daquilo enxergar.
Quanto a sermos velhos, ” quem será mais velho ? meu musgo ou tua pedra ?” Somos todos velhos agora.Ou melhor sempre o fomos,so não sabiamos.
Sorria musgo,que verei teu brilho do meu lado da praia e acenarei como faço agora com esta carta.
Desculpe me pelos questionamentos mas os terei enquanto vivo.
mande uma palavra no vento que ele entrega sempre,enquanto isso vou fazer o que sei fazer de melhor,esperar em meu cansaço.
um longo abraço que esta carta carece de rimas
 
P(ha)edra

“VIAS PARALELAS”, MARCO DA LITERATURA CATARINENSE por hamilton alves

(editado pela Academia Catarinense de Letras, o novo livro de Silveira de Souza é um repertório de seus bons poemas, traduções e memórias)

 

                                                                       (Hamilton Alves)

 

 

                                               Há pouco, Silveira de Souza me mandou um recado eletrônico me pedindo a opinião sobre seu novo livro, ”Vias Paralelas”, sobre o qual (dito por ele) alimentava algumas dúvidas.

                                               Disse-lhe de saída que um escritor de sua marca e experiência não precisaria auscultar a opinião de ninguém para saber da validade sobre o que produziu ou escreveu.

                                               Li o livro, que contém nas primeiras páginas um punhado de vinte e cinco poemas de sua lavra, alguns dos quais considero verdadeiras jóias da poesia brasileira, podendo rivalizar, em qualidade, com os melhores poetas que hoje pululam por aí, destacando-se principalmente o poema “Psique no bar do mercado”, sobre o qual já tinha me manifestado numa resenha que publiquei não faz muito em jornal. Referi-me a uma dúzia dentre os vinte e cinco, que me parecem de alto teor poético.

                                               O livro, de 158 páginas, termina com traduções de alguns poetas consagrados mundialmente, como Emily Dickson, com “Há um certo desvio da luz”, e outro de  Goethe, “Achado”, destacando-se dois outros, de Gottfried Benn, “Cocaína”, e Dante Gabriel Rossetti, “Luz Súbita”; a meus ver, esses dois últimos inferiores, em peso poético, aos dois primeiros. À guisa de amostragem do bom  nível da poesia de Silveira, segue um desses poemas a que me refiro como possuidores de alta voltagem poética:

 

                                               O médico e o monstro

 

                                               “   O eu-um caminha por alamedas

                                                    e ruas bem comportadas. Dele

                                                    os vizinhos e amigos, bzz, bzz,

                                                    comentam as ações previsíveis,

                                                    sérias, profissionais.

 

                                                    Eis que em certas noites do ano

                                                    ou do mês ou da semana, por vezes

                                                    emerge um eu-dois, freudiano, sor-

                                                    rateiro inquilino. Ah, a bebida! Ah,

                                                    as   mulheres e a música

                                                    das boates suburbanas! Ah,

                                                    o cheiro e o sabor de corpos jovens

                                                    em dormitórios e motéis!

 

                                                    Então não esconde o eu-dois

                                                    certa tristeza ao acordar 

                                                    nesse ano, mês ou semana. E

                                                    das janelas ver o nascer das manhãs

                                                     na cidade enevoada.

                                                     LÁ (na bruma, na bruma)

                                                     inflexível, monstro em seu papel,

                                                     o eu-um o espera”.

                                                                                                                                                                                

                                               Além de seus próprios poemas e desses outros poetas traduzidos, Silveira faz a tradução de um conto de muito boa feitura de Nathaniel Hawthorne, com o título “Wakefield”, de “O Corvo – Filosofia da Composição”, de Edgar Allan Poe, e, ainda, de “Aforismas”, de Kafka. Brinda-nos também com alguns artigos memorialísticos, em que se reporta a vários temas que tiveram destaque em sua passagem pelo jornalismo, especialmente no desaparecido e inesquecível “Diário da Tarde”, quando o dirigia Tito Carvalho, um dos grandes nomes à época do jornalismo brasileiro, reportando-se ainda a sua vida profissional fora das letras.

                                               Trata-se de uma obra bem realizada, como no recado aludido lhe ressaltei. Não vai nesse comentário qualquer propósito de bajulação fácil. É a realidade dos fatos que se recolhe à leitura de “Vias Paralelas”.  Ainda tive oportunidade de lhe dizer que, a meu ver, a parte que mais se destaca é a inicial, que contém seus vinte e cinco poemas. Nem o poema de Goethe nem o de Emily Dickson, formulado com a categoria de sempre, nem os dois outros fazem a menor sombra aos poemas excelentes de Silveira, com destaque, como dito já, para “Psique…”.

                                               O livro tem o prefácio de Lauro Junkes, vazado em seis páginas, que reflete bem a qualidade do livro e do autor.

                                               Como depois disse ao Silveira, afora os poemas, em torno de uma dúzia (mencionei todos os que gostei e, mais tarde, acrescentei mais um ou dois ao rol dos que têm mais teor poético), se não valesse por isso ou pelas excelentes traduções do trabalho dos autores referidos, do alemão e do inglês, (aliás, diga-se de passagem, Silveira é um excelente tradutor nesses dois idiomas), o levantamento da memória de fatos culturais ou simplesmente de registro pessoal de certos eventos, vividos por ele em tantas circunstâncias, seria já, sem dúvida, um documento de real valor  quanto à referência a figuras que marcaram essa época, notadamente na imprensa ilhoa.

                                               Por tudo isso, “Vias Paralelas” é uma obra bem-vinda que, enriquecendo a fortuna literária já considerável de seu autor, um dos nossos escritores mais renomados, por outro lado, dá uma contribuição importante à literatura catarinense.

                                                   

                                              
(abril/09)                                                             x x x

 

 

AOS BENDITOS por alceu sperança

“E ainda assim há os insatisfeitos”, dizia o ex-secretário municipal da Saúde de Cascavel, Nadir Wille, ao prestar contas de suas atividades em um ato promovido na Câmara municipal, achando que estava fazendo grande coisa pela saúde popular. Benditos insatisfeitos! Sem eles o mundo não evoluiria. E a saúde, que não anda nada bem em lugar nenhum, estaria muito pior.

John Stuart Mill (1806–1873) nos socorre, bendito seja: “É incontestável que todos os melhoramentos nas questões humanas são obra apenas de caracteres insatisfeitos”. O grande professor angolano Manuel Cruz Malpique, autor de Introdução Sentimental às Bibliotecas, chutava as canelas dos conformistas sustentando a idéia de que a civilização, todinha ela, é obra dos insatisfeitos: “Todas as grandes transformações sociais e materiais de que a História nos dá conta as devemos à rebeldia de alguns loucos contra os homens de bom-senso”.

Talvez não fosse preciso chamar outros testemunhos geniais para reforçar a idéia de que a insatisfação é um dos motores principais de qualquer desenvolvimento, mas não resisto a apelar para um depoimento conclusivo: Walter Savage Landor (1775–1864), o bendito autor britânico de Conversações Imaginárias, sentenciava que “os insatisfeitos são os únicos benfeitores da humanidade”.

Benditos os estudantes, que são, dentre os insatisfeitos, os que mais têm chances de vencer e transformar seu mundo. São eles que hoje, em todo o Brasil, puxam o movimento admirável que exige o passe-livre no lotação. O ônibus é a grande resposta para o caos do trânsito, com ruas entulhadas de veículos poluentes, conduzidos por gente estressada a um passo do assassinato ou do suicídio, como se viu no caso tenebroso do deputado Carli Filho.

É inconcebível, um crime contra a cidadania, que a tarifa esteja tão alta – ao redor de um dólar, contra alguns poucos centavos em Cuba e muitos outros países. É também inconcebível que justamente o direito de ir e vir, o deslocamento no espaço urbano, seja uma prova cabal da imensa desigualdade que existe neste País. Uma revelação clara de que estamos muito longe da democracia. Votar é só um grão de areia no universo da democracia, ao contrário do que julgam os banqueiros e outros riquinhos em geral, para os quais democracia é um curral inerme e abobalhado que os elege.

É antidemocrático e injusto alguém deixar de poluir a cidade com um automóvel e ao embarcar num lotação tenha que pagar não só a sua passagem, mas também a dos isentos. Os malandros que instituíram a isenção pensaram algo assim: “Vou fazer moral com deficientes, velhinhos e algumas categorias especiais de meus eleitores. O trouxa do usuário que continue pagando ou faça como aqueles que migraram para o transporte individual!”

O Movimento Passe-Livre faz manifestações por todo o País, encantando todos aqueles que sabem estar na bendita juventude e nos estudantes a energia que nos falta para obter uma conquista essencial na atualidade: que as melhorias nos serviços públicos sejam fruto da vontade das pessoas e não das trucagens dos técnicos oficiais e dos políticos boquirrotos. É preciso exigir a participação da sociedade na gestão da coisa pública.

A rigor, não há de fato democracia real neste País. Em pleno 2006, duas décadas depois que a ditadura fez o favor de se suicidar, estudantes de Florianópolis que pediam o passe-livre foram espancados por um bando paramilitar. Quando a polícia chegou, deu cobertura aos bandidos agressores e prendeu os estudantes, exigindo que o fotógrafo Cláudio Silva, do jornal Diário Catarinense, destruísse as imagens das agressões. Como se recusou, também foi preso.

Eu estou insatisfeito, sim. Exijo imediatamente a bendita bolsa-democracia!

CAOS poema de joão batista do lago

(dedicado ao poeta J.B. Vidal)


entre a tensão de mudanças e de origens
cobra-se a mudança da origem.
como mudar o caos da virgem?
nela não há céu, tampouco inferno;
não há terra, tampouco mar!
Ela é simplesmente caos:
abismo nebuloso que me faz vagar
como força misteriosa
moldada entre vazios diásporos.
e assim, filho do caos da virgem
vou-me originando em cada verbo
sem pressentir que em cada verso
pretendo transgredir a virgem
num poema feito de versos noviços
pensando rasgar o abismo
da virgem em palavra que me pariu poeta
poeta sem terra, nem céu!
poeta sem inferno, nem mar!

[...]

poeta do caos!

PARÁBOLAS E OXÍMOROS por walmor marcellino

MUITAS DISCREPÂNCIAS

O mesmo processo de aculturação por dependência econômica, cultural e ideológica se reflete como desculturação por perda da faculdade própria da política. A escola histórico-cultural (Herskovits, 1952) mostrava que não se trataria apenas de um “empréstimo dos modos de vida e seus fatores materiais” e sim de trocas, nem sempre perceptíveis por suas características essenciais. Todavia medidas fixamente sociométricas nunca puderam ser suficientemente usadas na mensuração do objeto de desejo ou das nuances dessas trocas, que mais nos parecem miméticas; e, ademais, elas não se dão apenas no alargamento das relações nacionais e de grupos sociais definidos, pois afetam a todos, porém especialmente às culturas subordinadas ou dominadas; havendo também maior ou menor interesse material e estético, ou para algum evidente proveito social.

Entretanto, o próprio dinamismo social provoca os indivíduos e os estimula a assimilação de práticas de imediata vantagem, que se vão acomodando como fossem aquisições aculturadas. Assim, não é de estranhar que a política seja um proveito e uma satisfação, além de ser um ideário mítico.

Esopo, Fedro e depois Iriarte como Samaniego percorreram o filão das fábulas. Os modernos, no entanto, lembram apenas La Fontaine por fazer com donaire a metagogia do agrado preceitual em suas evidências. Mas todos sabemos quão exemplares podem ser esses feitos que se entranham em nosso cotidiano de classe.

A sua vez, Jules de Levère afirmou que a fisiognomonia esforçou-se em ser uma caracteriologia, isto é, pela aparência, logo suposição, e nelas pela fábula, procurava discernir as condutas e suas motivações. Porém acabou por enredar-se na própria aparência das pessoas e dos bichos dos quais extraíam alguns traços. De qualquer modo, os preceitos morais, as parábolas, as fábulas e os oxímoros sintetizam contradições, conflitos de interesses e preâmbulos éticos, impondo-se na forma de pequenos enigmas à moralidade e à cidadania. Essas foram as conclusões de Norman Malaídes (Essays of Fortunes), que emprestamos para salvaguardar nossa inteligência sem decair nas imprecações.

ECOS DA BIBLIOTECA por jorge lescano

No fluxo de eventos que denominamos História, muitas foram as peripécias acontecidas em torno dA Biblioteca (do grego Byblos: casca de árvore sobre a qual se escrevia e Oykos: casa) e não poucos os textos a ela dedicados.

            A mais conhecida é, sem dúvidas, o célebre incêndio da igualmente célebre Biblioteca de Alexandria. Fundada por Ptolomeu I no interior do Museion, ou Palácio das Musas, albergava todas as obras da literatura grega, catalogadas por excelentes bibliotecários, entre os quais exerciam o famoso poeta Calímaco e o cronista bizantino Jota Perucho. Esta Biblioteca possuia um acervo de 700.000 rolos (rotoli).

            Meus fascículos da História Universal da Crítica informam que o incêndio foi provocado por hostes romanas quando da conquista da cidade. O que não esclarecem é o motivo.

            Eis aqui, de modo suscinto, a resenha do infausto caso, colhida por mão anônima em Os Sete Livros das Cinzas e do Vento, obra desconhecida deste articulista.

 

“Um soldado de J.C. (I) – abreviava os nomes, dava por pressupostos alguns detalhes, como se estivesse farto de repeti-los – teve uma troca de impropérios com um colega de armas por causa de um tira-me-lá-essa-palha filológica (um tópico de somenos, dir-se-ia). A questão foi preterida de comum acordo, até a chegada das tropas à famigerada cidade de Alexandria, onde os contendores pretendiam dirimir o atrito consultando os textos consagrados pela Tradição. Assim que penetraram no âmbito da polis, enveredaram céleres rumo ao local supracitado. Afoitos (não os culpo por isso), escalaram degraus de mármore entre colunas polidas não mais de tempo que de sapiência. Com passos incertos perambularam por claustros e corredores penumbrosos. Atravessaram ante-salas de tetos altíssimos e abobadados e se surpreenderam em recâmaras desertas e hexagonais. Sufocaram em cubículos tórridos e escuros. Extraviaram-se em galerias úmidas e frias, vagamente iluminadas por clarabóias elípticas e inalcançáveis. Nesse universo piranesiano e simétrico, em mais de uma ocasião  lhes pareceu  que retornavam ao ponto de partida. Torceram à destra e sinistra com tal assiduidade que não mais estavam aptos a repetir a divisa de Phillips Morris: Vini, Vidi, Vici, sequer onde se encontravam o norte ou o sul, no caso destes não terem sumido do mapa. Finalmente teriam encontrado,  na posição de Flor de Loto, o rosto voltado para um

 

previsível canto escuro, Aquele que procuravam, sem lhe conhecer a identidade. Jota, o bibliotecário do burgo, seria, se dermos crédito ao depoimento posterior de Vallet, que dizia que Mabillon dissera que Adso disse, um cidadão provecto, de voz acatarrada, e cuja pele apresentaria um aspecto apergaminhado (charta pergamen), em todo semelhante às folhas  de um volume de alfarrabista (a História Oficial não costuma fornecer pormenores. O depoimento precedente está resumido num opúsculo sobre uma imagineria cinemática de sucesso assinado por um tal Ueco, ou Vico), sua dicção era defeituosa, como já vos informei, pois o idoso, além de banguela era  estrangeiro (II). Apesar desta afirmação, arriscamos inferir, sem, contudo, cometer a temeridade de expor nossas mãos ao lume, que o colóquio deu-se em grego, pois este era o Hyngrêyz de antigamente. O que nunca conheceremos são os termos utilizados no mesmo. É fato que o ancião comunicou aos ilustres visitantes a realidade que qualificou de melancólica. A famosa Biblioteca, por um decreto das autoridades competentes – generoso, segundo uns, demagógico, na concepção de outros, imprevidente na opinião dos mais -, non era più, come un tempo, il privato possesso della casa regnante, ma una instituzione pubblica della provincia romana, segundo o cronista Luciano Canfora. Como é fácil coligir, oh, romanos!, os livros – se o termo não for prematuro – os livros emprestados, digo!, disse Jota franzindo o cenho -, nunca voltaram ao redil (III). O ponderado funcionário municipal pede desculpas e me penitencio, motu próprio, subtraindo-me à luz do sol (Febo), o que lhe afetou a visão, diga-se de passagem, e fez com que no início confundisse os legionários com o truculento Yu Tsun e um deplorável escocês vendedor de biblias, se não com acólitos do atroz doutor Goebbels. Ambos soldados, solidários na frustração e no repúdio à desonestidade dos pretensos leitores, entreolharam-se de esguelha. Como em outras ocasiões durante a campanha, decidiram aplicar, ipso facto, para evitar a reincidência previsível no crime inumerável (Não eram 700 mil volumes? Caluda!, bradou Jota fechando o sobrolho.) de criar um novo acervo, uma cláusula do Direito Romano muito em voga. Sem espaventos, os lingüistas, prontamente auxiliados pelos lictores, fizeram acúmulo de feixes (fascios) de pápyros (IV) e outros materiais combustíveis. Com eles circundaram o prédio. Após terem friccionado numa pedra (cálculo) a extremidade fosforosa de um engenhoso invento sueco,” (V).      

 

 (I) Trata-se de Jota César, Imperador até tu, Brutus?!, não do xará Jota Cristo, cuja Vida, Paixão e Morte, ainda deveriam esperar 47 anos, a contar do incêndio, para começar a ser escrita. Aliás, seus adeptos não deixaram por menos  e no ano 39 depois dEle, repetiram o feito carbonizando a Biblioteca de Serapion, vizinha da de Alexandria e assim denominada por estar adstrita ao Templo de Serapis, e que na ocasião contava  com aproximadamente 45 mil volumes. Apenas para lembrar mais uma façanha dos cristãos (não falaremos dos sacerdotes espanhóis, que pelo fogo livraram a humanidade dos diabólicos códices mexicanos, como já fizera um século antes Tlacaélel, o Asteca, para impor Huitzilopotchli como deus tutelar): no ano de 1204, os cruzados saquearam Constantinopla e depredaram sua Biblioteca, fundada por Constantino em 330 A.D. Desta ninguém sabe ao certo o número de volumes que continha. Os registros também entraram na Dança do Fogo, e ninguém  teve vontade, nem oportunidade, de contá-los em meio à fumaça e a costumeira desordem promovida pela chusma em tais efemérides. Diz-se que restaram sete livros, chamados das Cinzas e do Vento. Estes teriam se multiplicado, dando origem  a uma nova Biblioteca, hoje localizada em Kopan, na trevosa cidade de São Paulo – 700 mil volumes, 7 Livros das Cinzas e do Vento, Jota Cristo, Kopan, sede dos maias, São Paulo, hum, isto está me cheirando a gato por Coelho, que a Crítica Internacional me perdõe! (Nota do Compilador).

 

 (II) Assim que o Ghost-Wraiting terminar de redigi-la, esta editora lançará no Mercado Mundial a  versão integral de The Genuine Story of de Inominables Georgie. Não percam esta Big Promotion & concorra a uma Pink Bike! (Folder of de Gerent of Marketings  R  ).

 

    (III) Explica-se esta expressão se nos lembrarmos de que na Idade  Média havia primorosas encadernações em pele de cabra manufaturada (a pele, não a cabra). Ao mesmo tempo, este dado técnico dá a certeza de que o presente texto é bastante porterior ao fato que narra (Nota do Restaurador).

 

     (IV) Palavra grega de significado ignoto. Planta da família das ciperáceas, bastante rara atualmente,  com cujo caule os antigos egípcios fabricavam o papiro (Nota do Tradutor).

 

    (V) Aqui se interrompe o manuscrito. As conjecturas que a seu respeito  possa suscitar, fogem a nossa alçada. Sem embargo, vale a pena citar a opinião de um especialista: “Se é certo que o incêndio do Templo de Artemis conferiu imortalidade ao nome de Eróstrato, não é menos verdadeiro que o gesto deste bravo militar romano fez a fama da Biblioteca de Alexandria, que, pelo visto, de Biblioteca conservava apenas o nome (1). Também nos permite supor que os volumes teriam iniciado uma circulação não oficial, por assim dizer, cujo périplo poderia não ter se escoado ainda. Ao que nos consta, o mercenário permanece anônimo. Explica-se: segundo a praxe castrense, nos atos heroicos é o Chefão quem leva os loiros”. J.L. (Nota do Editor).

 

(1) As reforma com Design Pôs-Modern que ganhou faz pouco tempo, é uma jogada de   Marketing. Na Disneyworld por exemplo os fiorde da Norway estão em loco. Na França porém,  idem com o Asterix conquanto no Egito é as pirâmide ibidem, se bem que já está muito detonado, e os camêlo de uma corcunda infelizmente. A Alexantur não podia ficar de fora do Mercado Cult. A Holding está de Parabêns pelo New Look Light do Shopping de reciclâvel e as franquia (Mais dica no Durismos Book (2).  Recado do Estagiário).

 

(2) Durismo’s Book (CD-ROM, 3D, interativo) é uma bromoção bioneira da BaulufTur, cruzeiro Virtual destinado à bobulação de Cingapura e seus debendentes. Nossos adversários não ousam  admitir que a construção de Viadutos é a solução definitiva bara o broblema da habitação e do homossexualismo masculino, bor assim dizer, enfatizou o Bublic Relation do Titular, hoje aqui – Resumo de um Bress-Release do Bromotor do Candidato a Sultão dos Jardins de Calcutá (Gardens, bara os íntimos). (3)      

 

(3) “Livro”, “comunicado”, “escriba”, “porta-voz”, “testa-de-ferro” , “eminência parda”, são archaismes indesejáveis num script light. Hier, porém, localizam a textuality in your time. (Note of de Ombusdman of Hamburglish).

 

FOTOPOEMA de sören kierkegaard e rudi bodanese

RUDI poema&foto17

BURROUGHS poema de joanna andrade

Você é imbatível!

Foge do ponto.

Ingredientes Variados, Comum, Medidas Erradas.

Un mise-en-scène!

Type -A -behavior personality!

Lo Specchio retrovisore di angolo cieco!

Meu lado “Burroughs”.

 

 

JA/2009

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