Arquivos Mensais: outubro \31\UTC 2007

ODE A SÃO LUIS / maranhão/ poema de joão batista do lago

Ó tu, leito-mãe dos Tupinambás
Reina dos mares do Sul, sois vós
Vitoriosa, oh! amada Upaon-açu
Carregas nome e cetro de realeza
N’alma saber e virtude de Atenas
No peito o brasão de viva Natureza

Ó tu, São Luís – Ilha dos Amores!
Amada de francos, lusos e neerlandeses
Sois vós o encanto de Arúspice
Profeta da vossa eterna glória e pureza:
– Vosso destino é conservar em si toda beleza
serás deste teu Orfeu a eterna Eurídice

Ó tu, São Luís – Jamaica brasileira
Sou-vos grato pela vida inteira pois
Sabei-vos de muitos ser uma só pessoa
Jamais vos deixaste vencer. Sois guerreira!
Ainda que vos queira estuprar o monstro da modernice
Haverá sempre um filho teu que não fugirá a luta

Ó tu, São Luís – Cidade dos Azulejos
Perdoai o jugo da desgraçada sorte (e)
Tomai por exemplo o Cristo da hora da morte
Perdoai os filhos que vos sangra em realejos
Todos serão defenestrados, enfim, para que
Possamos amar-vos entre ruas e curvas de azulejos

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ESSÊNCIAS VERDES MASTURBADAS – poema de benny franklin

Frasco n° 1

Parábolas do mormaço hibernal;
Não mais que o algebrar de longes tráfegos
Crucifixando seivas fluidificadas de Allen Ginsberg
Que, engendradas a este quase-ereto-poema,
Atam-se a fiação da escrita
Para melhor divisar
As Essências Verdes Masturbadas.
Ai! Em pequenos frascos jaza a poesia…
Lágrimas Fêmeas despojadas
Ora desnudas, ora de olhares vagos,
Sobretudo quando estão acuadas
Em oito deprimidas leiras.
Sob viés pontiagudo
As verborragias Junguianas
Enchem sádicos bacios com ardidos remorsos,
Como as faces inominadas de nós
(Tristes sementes pêcas)
Que as trevas matariam
Num frouxo instante

A ÉTICA É A ESTÉTICA DO FUTURO – por celso lungaretti

Os personagens desumanizados de “Pilatos”, obra de Carlos Heitor Cony, lembram – até demais! – os arautos dessa nova direita emergente no Brasil, que faz do rancor e do retrocesso sua bandeira. O que parecia exagero literário virou triste realidade.
Quem colocou esta frase em circulação, atribuindo-a a Lênin, foi o genial cineasta Jean-Luc Godard, na década de 1960. Dado aos chistes e ao non sense, Godard pode ter sido ele próprio o autor. Pouco importa. O fato é que sintetiza bem a visão de mundo da juventude mais idealista do século passado. Em 1968 e nos anos seguintes, tivemos as primaveras de Paris e de Praga, o repúdio universal à intervenção dos EUA no Vietnã, a resistência às ditaduras em todos os quadrantes, movimentos os mais diversos em defesa da justiça social e dos direitos das minorias, bem como a revolução de costumes conhecida como contracultura. Ventos de mudança varreram o planeta. Foi um impulso generoso, solidário, irmanando os melhores seres humanos na busca de um futuro digno para a humanidade.Houve, portanto, um tempo em que muitos acreditaram piamente na iminência de uma sociedade na qual os relacionamentos entre os seres humanos, de tão éticos e gratificantes, iriam se tornar a realização da estética no cotidiano. Não precisaríamos mais da arte para sonhar acordados com uma beleza inexistente na vida real. O paraíso seria agora.Depois, claro, veio a reação. E as flores foram sendo, uma a uma, arrancadas. O capitalismo triunfante moldou o planeta à sua imagem e semelhança: competitividade, ganância, desigualdade, parasitismo, guerras inúteis, agressões insensatas ao meio ambiente, consumismo exacerbado, condenação de vastos contingentes humanos ao desemprego crônico e à miséria aviltante, degradação do pensamento, da arte e dos padrões morais.Carlos Heitor Cony, que busca afoitamente outros privilégios mas foi privilegiado com dotes de grande escritor, escreveu em 1974 um romance profético, Pilatos. Mostra como seria um mundo em que os homens não tivessem nenhuma motivação idealista, sentimento nobre ou limites morais. Todas as suas ações visariam apenas à satisfação de apetites e de necessidades primárias. Era um inferno mais assustador que o descrito nas religiões. E tinha tudo a ver com aquele Brasil dos yuppies enriquecidos pelo milagre econômico e das massas anestesiadas pelo tricampeonato de futebol.Os personagens desumanizados de Pilatos lembram – até demais! – os arautos dessa nova direita emergente no Brasil, que faz do rancor e do retrocesso sua bandeira. O que parecia exagero literário virou triste realidade. Há indivíduos que conspiram dia e noite para arrastar o Brasil a uma nova ditadura. Há indivíduos capazes de escrever entusiasticamente em defesa de filmes que fazem apologia da truculência e da tortura. Há indivíduos que se regozijam quando cidadãos exemplares são flagrados em situações equívocas, como se a grandeza do rabino Henry Sobel pudesse ser empanada pela cleptomania e a do padre Júlio Lancelotti, por distúrbios da sexualidade. Demonstram ódio homicida pelos rivais ideológicos, a ponto de se aproveitarem de suas debilidades humanas – quem não as tem? – para instigarem seu linchamento moral. Como Átila e Gengis Khan, só vêem os inimigos como obstáculos a serem suprimidos. Seus textos são um deserto de ideais. Não contêm nenhum sonho, nenhuma esperança, nada que sinalize um mundo melhor. Apenas a defesa encarniçada do status quo capitalista e o combate encarniçado aos que, bem ou mal, propõem alternativas. São contra governos, partidos e pessoas. Abominam a Declaração Universal dos Direitos Humanos. E não têm, sequer, a honestidade de seus congêneres da Espanha, adeptos de Franco, que assumiam abertamente os valores obscurantistas que professavam, ao urrarem “Abaixo a inteligência, viva a morte!”.

AINDA SOBRE MATSUO BASHÔ

enviado por léo meimes:
velho tanque
uma rã salta
barulho d’água

EM MANUTENÇÃO

deveríamos retirar o aviso, já que acabou o que estávamos fazendo, entretanto, alguém postou um comentário aqui. por respeito aos nossos leitores que fazem comentários, o que é muito bom, vamos deixar o “EM MANUTENÇÃO” como matéria. solicitamos, caso queira, que quem postou o comentário envie seu email para o PALAVRAS, TODAS PALAVRAS.

POEMA – de matsuo bashô

original em japonês:Furu ike ya
kawazu tobikomu
mizu no oto
tradução de jaques brand:
Há um velho tanque.
Nele um sapo salta.
Ouve-se o barulho disso.
tradução de estrela leminski:

chuá, chuá
coach, coach
tchibum!

CONSILÊNCIA – por janos biro

Resenha crítica do livro “Consilência” de Edward O. Wilson

Consilência é o termo usado por Edward O. Wilson para se referir a uma suposta unidade do conhecimento. Tal unidade do conhecimento, que é a conexão de todas as ciências, seria a única forma de continuar o progresso da ciência. Wilson é uma pessoa que acredita fielmente na ciência, e que não se considera reducionista. Sua proposta, segundo ele mesmo, não é reduzir as ciências a uma unidade comum, mas fazer uma síntese. Essa síntese partiria da matemática, passando pela física, química, biologia e finalmente chegando à sociologia e demais ciências humanas. Elas seriam como degraus numa escada, uma completando a outra, com novas disciplinas servindo de pontes. Não quer dizer que o cientista precisa saber tudo, mas que ele precisará saber como encaixar seu conhecimento dentro da síntese do conhecimento. A filosofia deverá se aproximar da ciência se quiser sobreviver à “nova ordem mundial” do conhecimento humano.O que Wilson faz é usar uma abordagem holista para justificar sua visão de mundo, uma visão onde a raiz de todo conhecimento é a matemática, e todas as ciências deveriam se submeter à análise lógica e objetiva. Ele faz isso com a desculpa de salvar a educação liberal e o meio-ambiente. Os problemas sociais e ecológicos têm ficado piores desde que começamos a ver o mundo como uma máquina, e o que Wilson propõe é uma nova alternativa para salvar a visão mecanicista, mostrando que a visão holista nem sempre vai de encontro ao paradigma cartesiano, mas ao contrário. Wilson é um defensor do iluminismo e do positivismo lógico. Para ele nunca deveríamos desistir de encontrar a estrutura lógica que explique todas as coisas do mundo. As fronteiras das disciplinas seriam por fim derrubadas, porque são convenções. Sem essas fronteiras, expandiríamos nosso conhecimento ao infinito. Mas essa união não pode ocorrer sem critério algum. Ou iremos usar um único padrão explicativo, cognitivo e epistemológico, ou iremos apenas aumentar canais de diálogo entre as disciplinas. É fácil concordar com a segunda opção, porém a idéia da interdisciplinaridade não depende do conceito de consilência, e se a proposta de Wilson é apenas essa então não há nada de surpreendente nela. Mas em alguns momentos Wilson parece comprometido com a primeira opção, com uma espécie de modelo definitivo para o conhecimento. Se levarmos em conta que a consilência não pode prever os resultados da cooperação entre as disciplinas, então a consilência é antes uma sugestão que uma teoria. Ela não pode dizer como as ciências irão se unir, pode apenas sugerir que a ciência pode avançar se essa cooperação ocorrer. Seria preciso um meta-conhecimento absoluto para saber como as disciplinas deveriam se encaixar. Mas não é qualquer síntese que Wilson está sugerindo, ele está tentando provar que encontrou a fórmula mágica para resolver o quebra-cabeça do conhecimento humano. Para Wilson o positivismo lógico só falhou porque não havia conhecimento do funcionamento do cérebro. O projeto teria sido bem sucedido se esses dados estivessem lá. Isso quer dizer, agora que temos esses dados, tudo que precisamos é fechar o vão: os genes criam o cérebro, que cria a consciência, que cria a cultura. É como se ele tivesse encontrado o elo-perdido que nos permite unir todas as coisas e seguir para uma nova era de razão e avanço científico. Empolgado com seu projeto, Wilson ignora alguns problemas filosóficos, superestima os resultados e subestima as dificuldades de tal pretensão. Wilson diz aceitar a potencialidade no lugar do determinismo, mas acredita que é possível prever regularidades com uma precisão cada vez maior, o que lhe dá esperança de um progresso científico rumo à inefabilidade. Ele nunca se pergunta se precisamos realmente disso, nem se questiona se não iremos repetir os erros do passado, criando ainda mais e piores problemas para tentar solucionar os atuais. Para ele, tudo que interessa é a síntese, ele não pensa nem por um momento nas implicações de um sistema de unificado do conhecimento. Wilson apresenta um holismo exagerado, unindo coisas que tem uma conexão muito tênue como se o poder de explicação delas continuasse significativo. É verdade que existem muitos problemas que podem ser resolvidos dessa forma, mas problemas simples podem se tornar complexos demais. A conexão entre biologia e sociologia, por exemplo, pode variar muito. Muitos detalhes de biologia que estão relacionados a assuntos da sociologia não precisam ser levados em consideração para se resolver um problema. Há uma a distinção entre a interação dos objetos de estudo e a interações das teorias. Uma coisa é subsumir a molécula aos átomos, e outra coisa é subsumir a química à física. Também não podemos esquecer que cada área, ainda que não tenha um objeto único, tem um ponto de vista único. Os conhecimentos de uma área, como a ecologia, podem ser usados economistas para justificar certa visão economicista. Enquanto a economia pode ser usada por ecólogos justificar o oposto. Não há como controlar isso. Há uma falsa aceitação da subjetividade. Wilson não aceita realmente a subjetividade nas ciências humanas. Ele só a aceita na medida em que ela possa ser explicada objetivamente. Ele aceita a consciência como uma questão científica apenas porque acredita que podemos descobrir seu funcionamento através da neurociência. Mas talvez a consciência não seja um mecanismo capaz de mapear a si mesmo. Quando tentamos fazer isso, inevitavelmente estaremos usando uma predefinição do que nós mesmos queremos descobrir. Wilson ignora esses problemas de circularidade, ele simplesmente considera que basta um pouco mais de avanço e vamos poder preencher todos os vãos. Isto faz da consilência, quando levada nesse sentido, nada mais que uma proposta metafísica ao estilo de Platão.

HOMOSSEXUALISMO – carta aberta a um fundamentalista.

E-mail enviado por um estudante de teologia de Boston para Laura Schlessinger, uma personalidade do rádio americano que distribui conselhos para pessoas que ligam para seu show.
Recentemente ela disse que a homossexualidade é uma abominação de acordo com Levíticos 18:22 e não pode ser perdoada em qualquer circunstância.
O texto abaixo é uma carta aberta para Dra. Laura, escrita por um cidadão americano.

Cara Dra. Laura

Obrigado por ter feito tanto para educar as pessoas no que diz respeito à Lei de Deus. Eu tenho aprendido muito com seu show, e tento compartilhar o conhecimento com tantas pessoas quantas posso.
Quando alguém tenta defender o homossexualismo, por exemplo, eu simplesmente o lembro que Levítico 18:22 claramente afirma que isso é uma abominação. Fim do debate.
Mas eu preciso de sua ajuda, entretanto, no que diz respeito a algumas leis específicas e como seguí-las:
a) Quando eu queimo um touro no altar como sacrifício, eu sei que isso cria um odor agradável para o Senhor (Levítico 1:9). O problema são os meus vizinhos. Eles reclamam que o odor não é agradável para eles. Devo matá-los por heresia?
b) Eu gostaria de vender minha filha como escrava, como é permitido em Êxodo 21:7. Na época atual, qual você acha que seria um preço justo por ela?
c) Eu sei que não é permitido ter contato com uma mulher enquanto ela está em seu período de impureza menstrual (Levítico 15:19-24). O problema é: como eu digo isso a ela ? Eu tenho tentado, mas a maioria das mulheres toma isso como ofensa.
d) Levíticos 25:44 afirma que eu posso possuir escravos, tanto homens quanto mulheres, se eles forem comprados de nações vizinhas. Um amigo meu diz que isso se aplica a mexicanos, mas não a canadenses. Você pode esclarecer isso?Por que eu não posso possuir canadenses?
e) Eu tenho um vizinho que insiste em trabalhar aos sábados. Êxodo 35:2 claramente afirma que ele deve ser morto. Eu sou moralmente obrigado a matá-lo eu mesmo?
f) Um amigo meu acha que mesmo que comer moluscos seja uma abominação (Levítico 11:10), é uma abominação menor que a homossexualidade.Eu não concordo. Você pode esclarecer esse ponto?
g) Levíticos 21:20 afirma que eu não posso me aproximar do altar de Deus se eu tiver algum defeito na visão. Eu admito que uso óculos para ler. A minha visão tem mesmo que ser 100%, ou pode-se dar um jeitinho?
h) A maioria dos meus amigos homens apara a barba, inclusive o cabelo das têmporas, mesmo que isso seja expressamente proibido em Levíticos 19:27. Como eles devem morrer?
i) Eu sei que tocar a pele de um porco morto me faz impuro (Levítico 11:6-8), mas eu posso jogar futebol americano se usar luvas? (as bolas de futebol americano são feitas com pele de porco)
j) Meu tio tem uma fazenda. Ele viola Levítico 19:19 plantando dois tipos diferentes de vegetais no mesmo campo. Sua esposa também viola Levítico 19:19, porque usa roupas feitas de dois tipos diferentes de tecido (algodão e poliester). Ele também tende a xingar e blasfemar muito. É realmente necessário que eu chame toda a cidade para apedrejá-los (Levítico 24:10-16)?
Nós não poderíamos simplesmente queimá-los em uma cerimônia privada, como deve ser feito com as pessoas que mantêm relações sexuais com seus sogros (Levítico 20:14)?
Eu sei que você estudou essas coisas a fundo, então estou confiante que possa ajudar.
Obrigado novamente por nos lembrar que a palavra de Deus é eterna e imutável.
Seu discípulo e fã ardoroso.

MANOEL de ANDRADE lança livro de poemas

No dia 15 de outubro o poeta Manoel de Andrade lançou na Livraria Curitiba/Shopping Estação o livro de poesia CANTARES editado por Editora Escrituras. O lançamento registrou um público que levou o jornalista João Alécio Mem, assessor de imprensa da livraria, a declarar: “…foi o melhor e mais concorrido lançamento de poesia dos últimos tempos na Livraria Curitiba.”
Cantares reúne poemas, todos frutos do venturoso reencontro de Manoel de Andrade com a poesia depois de trinta anos de abstinência literária. Apenas três deles — “Temporada de amigos”, “Marítimo” e “Um homem no cais” — foram escritos na década de 1960 e engavetados por não refletirem as prioridades políticas de sua poesia naquele “Tempo Sujo”.
Manoel de Andrade apresenta algumas janelas pelas quais ele vê o mundo: sua infância litorânea, a nostálgica ansiedade do marinheiro que não foi, o olhar crítico da indignação política, social e, sobretudo, a inquietude com a sobrevivência ambiental do planeta.
Com esses poemas, entrega a expressão mais bela e honesta da sua condição humana sem nada esperar em troca, a não ser a anônima emoção que alguém possa ter em sua leitura. E Manoel de Andrade diz a seu leitor, na apresentação da obra: “E, se este alguém fores tu…, é exatamente para ti que eu escrevo. E se tu fores capaz de abrir tuas velas e navegar comigo, de te indignar perante a injustiça ou de sentir, como eu, esse profundo respeito por tudo o que respira, valeu a pena buscar-te nos meus versos. É com essa única intenção que minha lírica paternidade envia, despojada e comovida, estes meus filhos ao mundo. Para que cumpram alguma missão de beleza, para a qual foram escritos”.

A seguir um poema do autor de CANTARES:

“POR QUE CANTAMOS”

Curitiba, maio de 2003
para Mario Benedetti(*)

Se tantas balas perdidas cruzam nosso espaço
e já são tantos os caídos nesta guerra…
Se há uma possível emboscada em cada esquina
e temos que caminhar num chão minado…

“você perguntará por que cantamos”

Se a violência sitia os nossos atos
e a corrupção gargalha da justiça…
Se respiramos esse ar abominável
impotentes diante do deboche…

“você perguntará por que cantamos”

Se o medo está tatuado em nossa agenda
e a perplexidade estampada em nosso olhar…
Se há um mantra entoado no silêncio
e as lágrimas repetem: até quando, até quando, até quando…

“você perguntará por que cantamos”

Cantamos porque uma lei maior sustenta a vida
e porque um olhar ampara os nossos passos.
Cantamos porque há uma partícula de luz no túnel da maldade
e porque nesse embate só o amor é invencível.

Cantamos porque é imprescindível dar as mãos
e recompor, em cada dia, a condição humana.
Cantamos porque a paz é uma bandeira solitária
a espera de um punho inumerável.

Cantamos porque o pânico não retardará a primavera
e porque em cada amanhecer as sombras batem em retirada.
Cantamos porque a luz se redesenha em cada aurora
e porque as estrelas e porque as rosas .

Cantamos porque nos riachos e lá na fonte as águas cantam
e porque toda essa dor desaguará um dia.
Cantamos porque no trigal o grão amadurece
e porque a seiva cumprirá o seu destino.

Cantamos porque os pássaros estão piando
e ninguém poderá silenciar seu canto.
Cantamos para saudar o Criador e a criatura
e porque alguém está parindo neste instante.

Pelo encanto de cantar e pela esperança nós cantamos
e porque a utopia persiste a despeito da descrença.
Cantamos porque nessa trincheira global, nessa ribalta,
nossa canção viverá para dizer por que cantamos.

Cantamos porque somos os trovadores desse impasse
e porque a poesia tem um pacto com a beleza.
E porque nesse verso ou nalgum lugar deste universo
o nosso sonho floresce deslumbrante.

(*) Escrevi estes versos motivado pelo belíssimo poema “POR QUE CANTAMOS” do poeta uruguaio MARIO BENEDETTI. Num tempo em que todos caminhamos sobre o “fio da navalha” me senti, como poeta, implicitamente convocado a também testemunhar por que cantamos.


Nesta foto feita na noite de autógrafos aparecem o autor com os amigos, da esquerda para a direita: o escritor José Zokner (Juca), o poeta e escritor Walmor Marcellino, o poeta JB Vidal, o poeta (anfitrião) Manoel de Andrade, o cartunista Solda, o escritor Ewaldo Schleder e o artista plástico João Osório Brzezinki.
Foto de Angélica.

DOROTHY PARKER furiosa

Sobre o Homem


Só exijo tres coisas de um homem: que ele seja bonito, insensível e burro.

CONVITE – banda laiki kompania / música grega. clique aqui veja e ouça

Uma típica banda grega criada no Brasil.
A Laiki Kompania foi criada em Curitiba/PR, em 2000. Em pouco tempo, além de instrumentos típicos (o buzuki), compassos compostos e escalas helênicas, o conjunto passou a possuir a riqueza da língua grega em seu repertório. Hoje a Laiki Kompania é formada por 8 componentes e interpreta músicas de todas as regiões da Grécia: da Macedônia à Creta, de Ípiros ao Mar Egeu.Componentes da Laiki Kompania:

Argyris Oikonomou – Vocais
Eliane Bastos – Vocais
Kostas Frantzezos – Buzuki
Guto Pereira – Buzuki, Guitarra e Violão
Nando C. Lemos – Percussão
Rubens Arnon – Baixo
Chico Maia – Violão e Teclado
Shirley Granato – Bateria

A banda se apresentará no Teatro SESC da Esquina na rua Visconde do Rio Branco, 969, Curitiba, dia 28/10. Informações: 41.3304.2222

VIVA O REI ! – poema de jb vidal/outono/2003

Viva o Rei! Vida longa ao Rei!

gritam todos como fosse o Rei a própria Vida,

gritam para si,
longa para si,
cuja trajetória é maior que si,

Vida longa ao Rei!

satisfeitos com seus trapos,
suas misérias,
suas dores,
seus crimes,

rastejam pela vida
como se a vivessem,
arrastam seus instintos como consciências,
louvam a tudo como dádivas do que não sabem,

Glória ao Rei!

glória a si,
glória à seus incestos!
glória à sua ação nociva!
glória à sua podridão!
ao seu viver de merda!

Viva o Rei!

ofídios é o que são! sem a beleza dos ofídios,
vermes! sem a nobre função dos vermes,
inúteis! ao desprezar o sofrimento do saber,
a dor da consciência,
idólatras! de sua própria nulidade!

Longa vida ao Rei! Glória ao Rei!

LEONARD COHEN – convite de f. koproski

No restaurante e bar SAL GROSSO, Largo da Ordem, 50, Curitiba, quinta-feira, 25 de outubro (daqui a pouco) a partir das 19:30, a editora 7 Letras estará lançando ATRÁS DAS LINHAS INIMIGAS DE MEU AMOR, a 1ª antologia brasileira de poemas de LEONARD COHEN, com organização, tradução e apresentação de Fernando Koproski sendo a edição bilíngue. Utilizando como fonte poemas selecionados de 8 livros do autor, o volume apresenta pela primeira vez em edição brasileira poemas representativos dos temas mais freqüentes da obra poética de Cohen, permitindo uma avaliação da surpreendente poesia deste autor que no Brasil é conhecido como músico e compositor.

Leonard Cohen nasceu em Montreal, Canadá, em 1934. Estreou na poesia com Let us compare mythologies em 1956, ao que se seguiram mais nove livros de poemas e dois romances, que até hoje instigam e influenciam diferentes gerações de leitores no mundo inteiro.
Cohen foi traduzido para mais de 20 idiomas, tais como o francês, italiano, alemão, polonês, espanhol, hebraico, chinês, sueco, dinamarquês, russo, holandês, norueguês, finlandês, tcheco, turco, croata, sérvio, romeno, esloveno, bósnio, islandês e o persa. Estreou como músico e compositor em 1967, com o álbum Songs of Leonard Cohen. Depois disso, já gravou outros dezesseis discos. Sua obra musical recebeu homenagens, tributos e regravações por parte de artistas rock e pop, tais como R.E.M., Pixies, Nick Cave and the bad seeds, Ian McCulloch, James, Lloyd Cole, John Cale, Sting, Elton John, U2, Jennifer Warnes, Judy Collins e Madeleine Peyroux.



Fernando Koproski nasceu em Curitiba, em 1973. É escritor, tradutor e letrista. Publicou 8 livros de poemas, entre os quais: Manual de ver nuvens (1999), O livro de sonhos (1999), Tudo que não sei sobre o amor (2003), Como tornar-se azul em Curitiba (2004) e Pétalas, pálpebras e pressas (2004). Foi co-editor e idealizador da Kafka – edições baratas.
Como tradutor, organizou e traduziu a Antologia Poética de Charles Bukowski Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém (7 Letras, 2005). Como letrista, tem parcerias musicais gravadas por Beijo AA Força, Alexandre França e Carlos Machado. É Bacharel em Letras Inglês e Mestre em Literatura de Língua Inglesa pela UFPR.

UM POEMA DE LEONARD COHEN:

Não há traidores entre as mulheres
A própria mãe não conta ao filho
que elas não nos querem bem

Ela não será domada com conversas
A ausência é a única arma
contra o supremo arsenal de seu corpo

Ela guarda um desprezo especial
para os escravos da beleza
Ela permite que eles a vejam morrer

Perdoem-me, companheiros,
Eu canto isso apenas para aqueles
que não se importam com quem ganha a guerra

VIVAH – conto de raymundo rolim / livro cesto de pedras

Viva São João, viva São Pedro, viva a Nossa Senhora dos Pilares, viva o sétimo dia do sétimo selo, viva a mercadoria que não veio, viva a presença hospitaleira da lagarta da abóbora, viva a possibilidade de qualquer coisa, viva a porcaria que de vez em quando se instala, viva a parceria feliz entre homem e máquina, viva a sabotagem em nome da alegria de uns para a tristeza de outros, viva a idade de setecentos anos de alguma coisa, viva o mar, viva o ar, viva a baleia chamada de assassina só porque precisa comer um pouco! Viva a onipresença dos poetas, o Sérgio Natureza compositor e seus parceiros e a própria realeza; viva o vovô, viva a vovó, viva o netinho com o dentinho novo, viva o índio Caramuru que nem índio era, viva o pezinho que anda pela primeira vez, viva as sandálias do pescador e Hemingway, viva Érico Veríssimo, Chico Buarque de Hollanda e Machado de Assis, viva a Nossa Senhora da Conceição, viva o pai da Nossa Senhora, a mãe e a avó; viva o monstro da Lagoa Negra, viva o whisky da Escócia, (e aquele lavrado a mão pra matar o guarda), viva o papa que sem ele não podemos comungar com Deus – Será ? Um sonoro viva aos que beijam a mão do papa e se fodem do mesmo jeito. Viva o futebol, o Congresso Nacional e a Aracy de Almeida. Viva o tranco e o barranco, viva a casa da Maria Joana, viva o besouro do deserto que se vira por si, viva o Pedro, o João e o Mané, o Garrincha; (e o meu amigo e goleiro Remonatto de Curitiba que numa só partida em início de carreira há muitos anos tomou sete gols do rei Pelé). Viva a falta de assunto, outro viva aos bilhões de assuntos que se descolam nas bibliotecas, viva a televisão, a fina educação, a bossa nova, vai um viva especial para o samba e Chiquinha Gonzaga, viva os cantores do rádio. Viva os Estados Unidos da América do Norte e o Sudão, viva a melancia, a melancolia, a jaca e a laranja, viva a precariedade de certas situações, viva o bar, a feira e a comoção até às lágrimas. Viva a tarde do dia que amanhece azul e pleno, viva a chuva maravilhosa e o sol, viva o solo, viva a lagartixa, viva o Brasil, viva o povo brasileiro, viva Santo Antão (que não se sabe pra que é que serve), viva o patrono dos escoteiros mirins, viva a calda de pêssegos em lata, viva a bobagem, viva a ciência e as filosofias, viva a roça e a piscina, o espetinho de gato, de rato e de batráquio, viva o Maracanã, viva Alvarenga e Ranchinho, viva o Blues, a música árabe e a erudita, viva Brahms, Carl Gustav Yung e Picasso, viva a Polícia Civil, a Guarda Costeira e um viva absolutamente natural para o Corpo de Bombeiros. Viva a felicidade pura e simples, um viva à vida, e outro viva à morte, viva o choro primeiro e último, viva os amigos, viva os inimigos, viva a camaçada de pau, viva a cambalhota do palhaço, viva a tromba do elefante, viva o jacaré do pantanal, viva o carnaval e o futebol, viva as mulheres, viva os homens , viva o Sultão de Bagdá, viva quem não sabe fazer nada, viva quem aprendeu fazer qualquer coisa nova. Viva a língua portuguesa do Brasil, viva o Barão do Rio Branco, viva a palhoça, viva o Baião e claro, a Bossa; viva Zé Pereira, viva o Frevo e o Maracatu, viva Guimarães Rosa e Hermann Hesse, viva Carlos Castañeda, viva Penélope, viva Luis Gonzaga, viva o som da Quena, viva o violão, viva o piano, viva Van Gogh, viva a estrela de Belém, viva os Reis Magos, viva o exército de homens e almas, viva! Viva a bicicleta, viva Santos Dumont, viva o abrigo anti-nuclear, viva o livro, viva a transparência do sábio, viva a falta de ignorância, viva o chiclete e a banana, viva a chance, viva a xota da Xuxa. Viva o meu amigo Condé, viva a minha amiga Jô que morreu de AIDS, e a minha amiga Bia de Luna que é poeta mimada, viva o meu querido amigo Leonardo Da Vinci, viva a padaria do português, o pão francês, viva o Macaco Simão, viva os Borboletas Azuis, viva a monarquia, viva a eletricidade, viva o campo magnético, viva a bolacha Maria, viva o pinto do nono, viva o vinho da nona, viva a Itália, viva a viola de dez cordas, viva a mulher pelada, viva a noiva, viva a Índia e o planeta lilás que circunda Andrômeda, viva a linha vermelha da razão, viva Reich, viva Debussy e Vivaldi, viva a Santa Maria a Pinta e a Niña, viva Cristóvam Colombo, o genovês (que parece que era catalão), viva a sabedoria dos Lamas, viva a lama, viva o pau duro, viva o pau mole, viva o computador, viva a luz, vivas à saúde e a possibilidade de se comer de tudo. Viva Einstein e a relatividade que não é pouca. (Tudo isso gritava o padre recém saído do seminário, que rouquenho e ao microfone, enfrentava a sua primeira quermesse, depois de ter entornado muito, muito, muito quentão). Alguns fiéis pareciam preocupados com a possibilidade d’ele ter enlouquecido … um pouco! Fazer o quê? A quermesse já havia chegado ao fim mesmo! E o padre havia ganhado um ursinho de pelúcia (nas argolas) e estava feliz. Era isso! Apenas isso. Só.

PRIVATIZAÇÕES – por walmor marcellino

Os adversários políticos e especialmente os inimigos da pátria assoalham que a privatização das rodovias bem como a privatização da Amazônia são apenas desoneração do Estado, que deve voltar-se para outros fins que não assegurar o que é público como se fosse um genérico e não um bem de capital. E genérico tem preço, ou seja, é remédio de baixo preço. Mas suponhamos que certas coisas não tenham remédio. Como, por exemplo, o neoliberalismo de esquerda corrigir o neoliberalismo de direita; como o próprio neoliberalismo de direita foi uma correção da social-democracia depois que se provou a inviabilidade de a KGB dirigir a máfia russa de Ieltsin e Gorbachov para desconstruir o Gulag. Cantemos: “E o mundo foi rodando nas patas do meu cavalo …” (Geraldo Vandré).
Sei que o tema é espinhoso como a coroa de Cristo; pois nada é de graça, a não ser num comunismo pandêmico; e o último comunista já terá sido enforcado nas tripas de um liberal, e ponto sepulcral.
Como disse o Temporão, pandemia só da dengue, do crime de colarinho sujo e da insolação trabalhista. Isso depois que “o centralismo democrático”, com ressaibos de stalinismo (disse o filósofo Tarso Genro), teria levado toda a direção do PT para o brejo, não fosse a cristianização do Delúbio Soares associada com a do Marcos Valério e de alguns estrategistas que assumiram o projeto meridiano de construir um PT hegemônico juntamente com o Roberto Jefferson e o Bispo Rodrigues. Cada coisa tem seu tempo, afirmou o governador Jacques Wagner secundando o sindicalista Ric Berzoini e qual.
Talvez as pessoas não compreendam que o governo tem dificuldades para trocar sua reforma agrária privada da Amazônia pela reforma agrária comunitária das terras de mau uso (como devastação, desmatação e plantação de eucalipto) ou de pouco uso; para trocar a privatização do uso das rodovias e ferrovias pela cooperativação administrativa das vias de transporte (que não são bem propriedade de Estado capitalista, mas, a ser diferente, pode cheirar a cooperativismo…); para trocar as bolsas privadas de estudo pelas bolsas públicas de estudo; para trocar o pagamento de serviços de saúde privada pela assistência pública de saúde. Pois o regime de trocas em uso começa com um parafuso de rosca sem fim.
Se tal acontecesse, o regime de trocas ou a economia de mercado iria desfigurar o governo nacional-popular que penosamente está sendo montado sem que os inimigos (e os amigos) percebam. Na verdade, vamos conseguindo “distrair” os grandes opositores que são os aplicadores em juros e emolumentos, os contratantes de obras e serviços públicos, os acionistas de banco e de bolsa e alguns patifes ilustres das instituições públicas superiores e os texugos. Principalmente estes.

LARGO ESQUERDO DA ORDEM – poema de marilda confortin

Das chagas da igreja, quebrando a ordem
se ouvem blasfêmias
quando as fêmeas de raças diversas
procuram a praça prá se cruzar.
Quando uma virgem
maria aparecida da vida
pronuncia o seu santo nome em vão.
Quando uma ave maria cheia de graça
passa na praça
e não pára para rezar.
Das ruínas, feminina
a cívica união das meninas
se reserva, se preserva
dos olhares de quem passa
quem cruza, quem caça, quem reza,
quem roga uma praga no calçadão.
Nossas boas senhoras do rosário
rogam por nós, pecadores solitários
caçadores de tesouros noturnos
bebedores, operários
do largo esquerdo da ordem.
Acendem velas para o cura da capela
pela não abolição da escravatura
dos pretos bonitos
da igreja dos mortos de são benedito.
A fibra de vidro dos ponteiros do relógio
conta com flores
quantas foram as horas
premeditadamente matadas
nas arcadas franciscanas
e denuncia o atraso no encontro marcado
na frente da crente presbiteriana
Água benta, água ardente
arte sacra, arte nata
boates, beatas
brotam no mesmo chão.
O largo é um misto
de santo e profano.
O Largo é isto,
espelho curitibano

TRASEIROS E CÉREBROS – por adilson luiz gonçalves

No filme “Os Sicilianos” (“Clan des Siciliens”, 1969) há uma cena em que o fantástico ator Jean Gabin chama a atenção de Alain Delon e, em tom entre o crítico e o irônico, dispara: “Você tem o cérebro abaixo da cintura!”…Obviamente, a tradução foi bastante amena, pois o texto original é bem mais “específico”.Será que essa é a condição da classe média, que não tira o “traseiro” da cadeira, para negociar juros e taxas menores com as instituições bancárias, e só discute e reclama em “mesas de bares”?Sinceramente, não sei o que é pior: essa “letargia” que o presidente Lula atribui à sociedade, ou a “idéia fixa” que tem conduzido a política econômica do país.Inerte a sociedade não é! Se fosse, com certeza, Lula não teria sido eleito! E o que a sociedade esperava com sua eleição? Mudanças, principalmente na política econômica!Infelizmente, o que se vê, no setor, está mais para continuísmo do que para evolução, permeado por cuidados que, longe de denotarem prudência, beiram à falta de curiosidade científica. É como se os responsáveis pela política econômica tivessem uma receita única – imutável – baseada no ditado: “Não se mexe em time que está ganhando!”. Não há dúvida que existe alguma verdade nele, mas a prática também demonstra que times que “estão ganhando” tendem ao colapso, por saturação, distração, obsolescência ou inércia. Por conta disso, estrategistas renomados alertam que é imprescindível aprimorar idéias e renovar de metas, constantemente, com o objetivo de alcançar novos patamares de desenvolvimento… Em vez disso, o que se vê é um repetitivo e sufocante apertar dos cintos de uma camisa-de-força. Cada nova ata do COPOM demonstra que seus integrantes têm medo. Só que medo, em excesso, tolhe o raciocínio e pode descambar em paranóia!O presidente minimiza a responsabilidade do governo e critica a sociedade “chorosa”. Exorta-a para que se encha de coragem e levante o “traseiro” – bastante dolorido, pela política tributária – para negociar com os bancos… Enquanto isso, o governo federal acena com uma provável “ajuda” financeira aos operadores de planos de saúde… Já a ministra Dilma Youssef afirma que o governo não pode intervir nos preços praticados pelas concessionárias de serviços públicos… Ué? A sociedade também pode negociar para diminuir as tarifas públicas?Talvez o governo diga que sim… Mas qual o limite entre a livre negociação e as garantias previstas nos contratos de privatização, consideradas como “cláusulas pétreas” pelas agências controladoras? E quem é esse “mercado” que estabelece a valor das tarifas?Quando a sociedade levantou o traseiro, nas eleições de 2002, resolveu “mexer em time que estava ganhando” na esperança de mudar um modelo que já estava se esgotando. Por prudência, creio, o atual governo optou por evitar mudanças abruptas. Só que já está na hora de sair da “banguela” e estabelecer novas metas. O mínimo que a sociedade cobra desse – e de todos os governos – é coerência! Em nome dessa condição o presidente Lula deve ponderar se faz sentido criticar as taxas de juros elevadas, praticadas pelo sistema bancário, e, ao mesmo tempo, manter e, até, ampliar uma das maiores cargas tributárias do mundo! A sociedade também pode levantar o traseiro para mudar isso, ou deve continuar a mantê-lo, exposto, na janela…? Supondo que a recomendação também seja a de reclamar: Qual a fronteira entre a recusa em pagar novas taxas ou reajustes de tarifas abusivos, e a desobediência civil?A inércia, o descaso e o medo têm efeitos negativos em todos os setores da sociedade! A inércia e o descaso atrofiam as funções cerebrais, o que coloca o cérebro “abaixo da cintura”. Já o medo – quando atinge o estágio de pavor – pode afetar o sistema digestório, principalmente os intestinos… Nessas circunstâncias é preciso ter muito cuidado, para evitar que o cérebro seja, definitivamente, perdido…Para afugentar esse risco é fundamental que o governo federal – que tem méritos e erros, como qualquer outro – demonstre que, também na condução da política econômica, a esperança vence o medo!

Filme: Os Sicilianos Título original: Clan des Siciliens País: França
Idioma: francês e inglês
Ano: 1969
Direção: Henri Verneuil
Roteiro: José Giovanni, baseado na obra de Auguste Le BretonGênero: Crime / Drama
Elenco: Jean Gabin, Alain Delon, Lino Ventura, Irina Demick, Amedeo Nazzari, Philippe Baronnet, Karen Blanguernon, Yves Brainville, entre outros.

LUCY VOLTOU

A biblioteca de Shishmaref – conto de frederico füllgraf

Manhã gélida de inverno precoce em início de maio, o sol abduzido em plena curva ascendente, e apagada a metade dos seus raios. Recortados contra o céu de chumbo pendurado opressivamente sobre a praia tropical, alguns coqueiros confundiam-se com o negativo de uma dentadura falhada. Encalhado na arrebentação, o que lembraria um monólito, de gelo cinza-fosco, dissolvia-se ao toque das ondas mansas, alcançando a praia como escultura inacabada. Na base do objeto insólito jazia um pingüim morto, com a expressão do terror congelada em suas pupilas azuis de gelatina murcha. Sua cabeça descansava sobre uma tábua de madeira profundamente fincada no gelo sujo. Deste, saltava papelão encharcado, o resto da capa de um caderno, lavada pela maré salgada. A cada porção de gelo cavada à mão, mais papel. Agora, livros. Vários. A única tábua e os livros insinuavam restos de um sistema, talvez uma estante, arrancada à força de sua posição. Uma página esgarçada de um livro sem capa relatava a fuga de Bernard Marx para a reserva dos “selvagens” – Huxley? Mais ao fundo da tábua, um mapa rasgado nas dobras, com uma geografia desbotada, inútil. E uma lata enferrujada de tabaco Half & Half. No meio do escolho, escondia-se uma foto em preto e branco, corrugada: um grupo de caçadores? Estavam a bordo de uma canoa e empunhavam lanças muito compridas, de três metros aproximadamente. O resto da cena, o alvo da caça, desafiou minha imaginação, pois faltava; a foto estava rasgada ao meio.
Naquele 18 de março, estava rabiscado numa das primeiras páginas do caderno, algo estranho, inquietante acontecera. O gelo desaparecera, deixando à vista a água do mar. Ninguém recordava um fenômeno assim insólito. Normalmente o gelo costumava despedir-se somente n´…[palavra impronunciável, mas traduzida ao Inglês como…] “a lua do sétimo mês, quando os pássaros cuidam de seus recém-nascidos”. De repente, gritos. Alguns velhos e mulheres lembraram-se: mais de dez caçadores tinham avançado sobre o mar, deslocando-se sobre o gelo. Um helicóptero decolara à procura dos homens. O desfecho hilariante: até o momento de seu resgate, os extraviados não sabiam que estavam flutuando sobre uma enorme plataforma de gelo descolada da ilha, rodopiando mar adentro. “Você não pode afirmar que está se movendo, quando o mundo inteiro ao seu redor está à deriva”, um dos sobreviventes comentara ao autor do diário.
Desnorteio. Em 1912 o Endurance de Sir Ernest Shackleton encalha no Mar de Weddel, faz água e começa a adernar. Com toda a tripulação e carga já a salvos, Frank Hurley, o australiano que fotografava e filmava a expedição, lembra-se, petrificado de frio e angústia, das dezenas de chapas fotográficas e latas de negativo em 35mm esquecidas a bordo. Desobedece a ordem de esquecê-las de vez, mas regressa das entranhas do barco, quando a proa, empinada contra o céu noturno, já mirava a Ursa Maior e metade de seu casco já estava engolfada. A câmera registra o desastre até os últimos momentos do Endurance. Apesar de mudas, pelas emendas das imagens de 1912 ainda vazam os uivos e mugidos pavorosos da madeira, triturada pelos dentes afiados do gelo. Resignados, à noite os náufragos armam suas barracas e atam seus barcos de salvamento às estacas fincadas sobre o gelo, que acreditam profundo. Só ao amanhecer percebem que seu mundo é um imenso território à deriva, flutuando no mar, rumo ao desconhecido. Os diários não o confirmam, mas é verdade que choraram sobre seus trenós inúteis, depois de terem devorado seus quarenta cães de tração. Antes deles, Robert Falcon Scott e seus companheiros abateram uma manada de cavalos no pólo. Mas essa é outra estória, a da deriva da sensatez.
Encharcadas, as folhas do diário apócrifo dissolviam-se entre os dedos. Na tentativa de secá-las ao vento, várias delas se perderam, rasgando ou esvoaçando de volta ao mar encrespado. Apesar de interrompido por borrões e brancos, o que restava do relato encaixava-se fragmentaria-mente, dando sentido ao registro. Um nativo chamado Akuvaak, que também era conhecido por Oliver Leavitt, amanhecera na barra, sobressaltado. Pregados nos movimentos do mar, seus olhos marejados de vento afiado acompanhavam a arrastada deriva de uma vasta bancada de gelo sobre a superfície alisada do oceano. Advertira que aquele era gelo fino demais, caso se aproximasse, em menos de cinco minutos teriam que dar o fora dali. Correram por suas vidas. Cerca de um quilômetro da orla, mão trêmula, esbaforido, o autor registrara: “Aproximando-se lentamente, a barreira vinda do mar chocou-se contra a costa da ilha, também de gelo, e a terrível colisão pareceu um terremoto, formando montanhas. Não é tudo o que vi, pois ajoelhei, as mãos entrelaçadas para uma prece, porque pensei que era o fim do mundo”. Na continuação, uma frase mencionava uma casa (tombada? desmoronada?) mas estava borrada.
Procurei distrair-me com o que fora um volume de um livro, tornado tijolo macilento, pegajoso, com frases embaralhadas, palavras com banguelas de letras, deslizando pelas bordas, caindo no mar: “E isso não se deve a nada que possa ser ouvido, ou visto, ou tocado, mas sua causa é algo puramente imaginário. O lugar não é bom para a imaginação e não aporta sonhos tranqüilizadores durante a noite” – advertência tenebrosa como os cenários do entrevado Lovecraft, cuja sombra tingiu as raízes dos coqueiros: tentáculos negros e calosos de polvos aflitos, penetrando e agarrando-se ao que restava da terra. Dentes sem gengiva, mundo descarnado, tentando se equilibrar sobre o precipício líquido. Senti-me tolo, ridículo, tive vontade de rir, e ri com medo, ao lembrar-me da ilha do desterro do mago Próspero. Para ele caía como uma luva a frase de Müller: “Onde as paisagens são belas, espreita a traição”. E esta insólita biblioteca marinha parecia dialogar com as razões do meu retorno à praia, território fantasmal. Poucos meses atrás, as generosas e sinuosas ancas do corpo nu de M. lagarteavam ao sol por aqui, esparramadas como duna entre as dunas, sulcadas por um delta de Vênus arbustivo, com fendas escurecidas e úmidas, perfumadas de maresia, nas quais me lambuzei. Depois, como é sabido, o mar invadiu a geografia. Bebeu areia, feriu a paisagem das terras baixas de Bangladesh ao Delta do Nilo, vomitou sobre os cartões postais de Kiribati, Vanuatu, Lohachara, Suparibhanga e Ghoramara – paisagens agora em branco no mapa de Mercator.
Duas horas foi o tempo que a brisa encharcada de névoa pútrida, sulfurosa, levou para secar algumas folhas isoladas de uma espécie de diário de campo. Pareciam anotações etnográficas, com referências a um lugar, “onde as coisas tinham sido feitas do mesmo modo, antigo, sem perturbações, desde tempos imemoriais”. Por um instante duvidei que o lugar era deste mundo, tropical, mas não teimei em decifrar o mapa com sua geografia lavada, porque essa disposição de textos não era acidental: sua intenção era irônica. Algo universal, contudo, certo personagem central da narrativa, um tal de Angatqaq, xamã. Sua percepção do universo dizia da vida como cenário de permanente confronto entre forças sobre-humanas
e os mortais (Nota algo frívola do narrador: ”se eu tivesse sido condenado a viver nestas paragens nada hospitaleiras, esquecidas por Deus, também teria inventado a minha teoria da conspiração”).
Retomando a seriedade respeitosa, o autor do diário recordava madrugadas mágicas, cujo silêncio era entrecortado pela cadência de tambores do xamã. No diário jura tê-lo visto conversar com uma beluga, que respondera assobiando das profundezas do oceano, maravilhando o povo reunido. E a apavorante dança do urso branco ? – um espetáculo de transmutação! Os enormes dentes afiados como estiletes e as garras que durante o ritual nasciam respectivamente da boca e das unhas do feiticeiro, aterrorizava os presentes, fazendo-os debandar. Algo vingado, o narrador anotara na margem de uma folha, que o “terror” infundado pelo bruxo era intencional. Conhecedor da rapinante alma humana, suas incorporações, espécie de “ética do sobrenatural”, visavam delimitar rigorosamente o número de animais abatidos, assegurando o equilíbrio. Mandingueiro, advertira para o perigo da perda da alma e da “intrusão de um objeto estranho”, que em seu caminho cruzara com almas vagabundas, que saltavam do corpo de um infeliz e saíam a passear…; o povo reunido em silêncio na praça, ficara aparvalhado. Em apuros, consegui rabiscar no verso do papel laminado do maço de cigarros, a lindíssima imagem usada pelo bruxo para ilustrar seu conceito de memória: “caixa de ferramentas para a coleta de tesouros”… Acendi o último cigarro e olhei em torno. Sentia-me devastado, uma caricatura de personagem da Tempestade, desterrado em paisagem de traição, ali abandonado pelo anjo maluco Ariel…
Ao final da tarde, as últimas folhas do diário não estavam completamente secas, mas manuseáveis. Consegui entender que em 1890 teriam desembarcado alguns homens desconhecidos na costa; carregando cruzes. Eram brancos, sorriram muito e distribuíram folhetos com desenhos. Reuniram o povo na praça, onde mandaram afastar as carrancas dos animais abatidos e adorados, e em seu lugar ergueram uma mesa de pernas altas, que chamaram de altar. Um dos folhetos causara espanto e seduzira o povo, que foi logo ter com o xamã e dizer-lhe que Assembly of God era um nome muito mais bonito para a gargi, a praça das assembléias. E então coisas estranhas começaram a ocorrer. Primeiro, o feiticeiro fora impedido de invocar o espírito dos animais: agora, em seu lugar um sacerdote branco imprecava a um deus ausente e pedia bênçãos para uma caça farta. Depois, o espanto geral: na segunda vez em que foram distribuídos, os nativos se negaram a comer aqueles biscoitinhos, chatos e semi-transparentes como escama de peixe, que o presbítero lhes colocava sobre a língua: então os homens brancos comiam o seu próprio deus ??
E um enorme número de animais foi abatido; não pelos nativos, claro!, mas pelos caçadores que tinham ocupado as últimas fileiras da capela improvisada; todos com o mesmo livro de orações sobre os joelhos. Cavalgavam enormes barcos a motor, armados com uma máquina lançadora de flechas. Como previra o xamã, a caça começara a escassear – a intrusão?, pergunta o narrador, perplexo. Abandonado, o feiticeiro intuíra o fim de seus tempos e retirara-se para uma enseada distante. Convertida a maioria dos nativos, caíram as ultimas árvores, os animais foram abatidos no período sagrado da resguarda e os aparelhos de TV ensinaram a comer alimentos de preparo rápido, embalados em papel, plástico e vidro, que logo encheram o supermercado e o consultório do médico; ambos instalados ao lado da nova igreja – acrescenta o diário, limitando-se ao factual com fina ironia. Seu autor arriscou apenas um breve comentário sobre a tragédia, uma autocrítica imbecil de seu próprio letargo: “Nunca imaginei que isto pudesse acontecer comigo – em que mundo, diabos!, vivi nestes anos todos ?”.
Da enseada divisei a ruína do farol, já parcialmente engolfado pelo mar e apesar de associação descabeçada, o cenário evocava Hypatia, filha de Téon, o último guardião da Biblioteca. Remota referência, já fora de ordem: além de mulher, rodeada por machos e cristãos, filósofa pagã, astrônoma guardiã de fogos e livros antigos. Imaginei-a caminhando em manhã ensolarada sobre os paralelepípedos dispostos em forma do universo, tomando o rumo da Biblioteca; muito bela, os pensamentos acossados por uma equação celeste. E, de repente, vindos do nada, saltam sobre ela quatro, cinco monges encapuzados, sacam de suas adagas e esfaqueiam-na até a morte. Depois os assassinos de Cirilo arrastam-na até a catacumba de uma capela, babam de desejo sobre seu corpo ainda quente, cortam-no em pedaços e lançam-no às chamas – seqüestrada, brutalmente desviada de sua trilha, antes mesmo que pudesse advertir no céu, cujo mapa decifrava melhor que uma quiromante a palma da mão, a enorme onda negra e gelada, que engolfaria M., sentada na ponta daquela rocha; jamais antes alcançada por um pingo d’água. Engraçados são os labirintos da mente, as associações insólitas: a astrônoma, o mágico e o feiticeiro – “bibliotecários” em extinção. Mas esta triangulação entre personagens aparentemente tão desvinculados no tempo e no espaço era uma zombeteira com sabor da bílis negra. No vaivém do pingüim morto na arrebentação, boiavam folhas de papel esgarçado de um certo “Protocolo de Intenções”, como os últimos vestígios da Biblioteca

AMBROSE BIERCE furioso

Sobre a Paz


Em assuntos internacionais, um período de trapaça entre dois períodos de guerra.

CENA IV – poema de walmor marcellino

Se a morte fosse só uma coisa verdadeira
por que ela mataria as pessoas
além dos bichos
e das flores depois de seu devido tempo
e das folhas no outono estival?

Então qual a razão por que elas estariam
vivas?… para depois morrerem
no abandono de todas as coisas animadas
e engrandecidas pela beleza
que lhes emprestamos?

As pessoas morrem como se tivessem
sido reais, concretas como uma árvore,
como um rio de águas claras
e fervilhantes.No assemelhado descanso
de uma parcela de vento
em seu mormaço.

Morremos como uma coisa
em que o mundo apenas dá sinais,
se marca, se divisa, se relaciona
diversamente…
Apenas como ele se faz

PRÊMIO Ignóbil – pela editoria

De médico, cientista e de louco, cada um tem um pouco. Realmente isto é uma verdade. O IgNobel é uma paródia do prêmio Nobel e é oferecido anualmente aos autores de pesquisas curiosas e inusitadas. E bota inusitado nas basbaquices que aparecem, e no fundo até parecem sérias, ou aos autores por vezes acreditam que realmente são. Segundo os organizadores o premio destaca as idéias que em principio geram risadas, mas que posteriormente fazem pensar. Então tá.
Veja as idéias nas suas categorias:

Paz: Forças Armadas dos EUA, por pesquisar bomba que provocaria comportamento homossexual entre tropas inimigas; ninguém do Pentágono foi buscar o prêmio.

Medicina: Brian Witcombe e Dan Meyer, britânicos, por estudo sobre os efeitos colaterais da prática de engolir espadas.

Biologia: Dra. Johanna van Bronswijk, da Universidade de Eindhoven, na Holanda, por um censo de todos os fungos, insetos e bactérias que habitam nossas camas.

Economia: Kuo Cheng Hsieh, de Taiwan, por patentear mecanismo para prender assaltantes de bancos jogando uma rede sobre eles.

Aviação: Equipe da Universidade de Quilmes, na Argentina, por descobrir que Viagra pode ajudar um hamster a se recuperar dos sintomas do jetlag.

Química: Mayu Yamamoto, do Japão, que criou um método para extrair fragrância e sabor de baunilha de esterco animal.

Lingüística: Equipe espanhola que mostrou que ratos não diferenciam uma pessoa falando japonês de trás para frente de alguém falando holandês de trás para frente.

Os Organizadores.

GERÚNDIO DEMITIDO ?????- pela editoria

Decreto nº. 28.314, de 28 de setembro de 2007

Demite o gerúndio do Distrito Federal, e dá outras providencias.

O governador do Distrito Federal, no uso das atribuições que lhe confere o artigo 100, incisos VII e XXVI, da Lei Orgânica do Distrito Federal, DECRETA:

Art. 1º – Fica demitido o Gerúndio de todos os órgãos do Governo do Distrito Federal.

Art. 2º – Fica proibido a partir desta data o uso do gerúndio para desculpas de INEFICIENCIA.

Art. 3º – Este decreto entra em vigor na data de sua publicação.

Art. 4º – Revogam-se as disposições em contrário.

Brasília, 28 de setembro de 2.007
119º da República e 48º de Brasília

JOSÉ ROBERTO ARRUDA

VÍCIO – poema de marília kubota

pensamentos em curto-circuito
ir ao mesmo ponto
temer a saída
do instante seguintequero te prender
quero me perder
no labirintosou o mal
o maldito
sou o destróier
o delitoquero eternidade
não quero parar
de vencer o mito

boa noite, papai do céu – poema de edson de vulcanis e thadeu wojciechowski

lua cheia
o vazio não cabe mais em mim
sinto a terra que me enleia
dentro dessa cova

nos últimos minutos
a morte em vida tem sido assim

PÃO E CIRCO (do Sol) – de ewaldo schleder

Dizer que o povo come o pão que o diabo amassou e que o circo pegou fogo seria simplismo, fora a imprecisão de memória e lugar. Entretanto, há um aval histórico na “política do pão e circo”. Séculos atrás, o circo era o Coliseu romano. Hoje é o Circo do Sol (o canadense Cirque dü Soleil). Depois de tantos anos, o processo civilizatório mudou o perfil, o caráter do espetáculo e também o seu espírito – ma non troppo. Em Roma, a falta de trabalho no campo despachava os campesinos para a cidade, como sempre, alhures. Multidões buscavam sobreviver ao caos; não encontravam serviço digno, mas escravidão (velha conhecida, mais e menos violenta). Nada de novo? No Brasil, o Circo do Sol, depois da estréia em Curitiba, se apresenta em outras capitais, até março de 2008. Os ingressos custam de 130 a 400 reais (sem câmbio negro). Padrão euro, dólar americano, canadense.
No entanto, sim, vale a pena assistir. Pela alta qualidade do que se apresenta, a extraordinária estrutura, logística e tanto mais. Mas, antes de saber se vale mesmo a pena, convém consultar a carteira de dinheiro e a lista de prioridades. Sem esquecer que os shows, a princípio, se restringem a clientes especiais de um certo banco, que banca a publicidade da grande cena. É claro que se trata de um produto cultural para muitíssimos poucos. Para estes, a cultura. Amplificada pelo circo moderno. Pós-miséria, diria aquele bandido filósofo, sob holofotes, entre um presídio e outro. De resto, ninguém mandou ser pobre, ora bolas.
No circo romano, ao sabor do imperador da vez, os homens sentenciados – plebeus, escravos – disputavam o centro da arena com tigres e leões, não adestrados e ainda por cima famintos. No Circo do Sol, nada de espezinhar animais. Sinal claro de avanço: nos costumes e no respeito à natureza. O novo circo traz uma integração de gêneros – cênicos, musicais – que absorvem culturas de rua de mais de 40 nacionalidades, as que formam o elenco. Notam-se elementos do teatro mambembe, da antológica magia circence (malabares, trapézio, palhaços, bobos da corte), da ópera, do balé, de danças e ritmos exóticos. Um resumo do romântico namoro do artista popular com o seu respeitável público.
Enquanto isso, em Roma, Caio Otávio dividia a sociedade em ordens senatorial e eqüestre, incluindo estratégias de controle e arrebanhamento social. Nas filas do pão, o assunto dominante era o show no Coliseu às 5 da tarde. Em comum, tanto o circo antigo como o moderno prezam o frescor dos números apresentados, a realidade flagrante, tudo ao vivo, a beleza do espetáculo cheio, exaustivamente ensaiado – o circo romano se garantia pela repetição do roteiro: feras a devorar homens, levando a massa ao delírio, ao gozo sádico.
Alegría é o nome do atual espetáculo do Soleil. O hispânico acento agudo no ‘i’ é uma regra ortográfica do Cirquish – dialeto próprio, imaginário, criado pela companhia canadense. Outras semelhanças entre as duas lonas seriam a universalidade do entendimento e o trânsito de conceitos estéticos consagrados ou (re)inventados, comuns ao gosto de todos os viventes. Em linguagem mundana, portanto: pani et circensis, onde houvesse povo; alegría, onde houver público com poder aquisitivo. No mais, secos e molhados à vontade: nas televisões (a realidade pautada?), sabadões e domingões da vida. Lá onde passa o circo dos horrores – nada a ver com o maior espetáculo da Terra, o Circo do Sol!, todavia patético, como o Coliseu romano.

ABDUÇÃO REAL – poema de jairo pereira

três e tanto da madrugada: jairo o abduzido
como por encanto a S 10 levita e muda de via
sou pego pela polícia rodoviária em pista dupla
:era só de vir e fui: uma noite bebendo e fumando
o Macedo o Dino o Osso e os metaleiros
naquele bar de garagem em Curitiba
pura vertigem a viagem transetílica
um pai de família aquelas horas
zonzo com visitantes das estrelas
oh meu deus q. brincadeira!
da radiação recebida na grande esteira fria
um ser afônico por cinco dias e mais trinta
de gengivite posicrônica como disse-me o dentista.

PAPEL DO JORNALISMO CULTURAL – de marcelo de castro

As páginas de cultura dos jornais, de circulação local, regional ou nacional, trazem na grande maioria das vezes, matérias, reportagens ou artigos voltados para uma cultura que segrega parcela da população. Ora, se um faminto não tem acesso à comida, quiçá ao teatro, ao cinema, aos grandes eventos! Se não tem acesso ao “bê-a-bá”, quiçá às obras euclidianas, machadianas ou quaisquer outras obras de grande vulto!

Cultura para nós, chamados “letrados”, pode ser tudo isso citado acima. E, nos deliciamos com tais objetos. Porém, cultura também é saber “juntar as letrinhas”. Soletrar. Contar até dez. Pintar com giz-de-cera.

Porque os jornais não separam um pequeno espaço, na seção de cultura, para tentar estimular essa cultura primária? Essa resposta é fácil: pobre não compra jornal. O espaço do jornal é caro. Ou qualquer outra desculpa que atinja o vil metal. Pobre não compra jornal, mas o abastado compra. E, estimulando esse abastado a fazer algo pela cultura primária, pode surtir algum efeito, mesmo que pequeno. Onde está o caráter social do jornalismo? Ficou nos primórdios? O espaço é caro? Não precisa abdicar. Conquiste parceiros nessa idéia! As empresas têm seus projetos sociais e o espaço do jornal pode ser aproveitado por elas. Até incentivo fiscal existe para facilitar essa troca.

O que não é admissível é a desfaçatez, o mascaramento, o apartheid cultural que é promovido pelos impressos diários, semanais ou mensais.

Os espaços destinados à cultura tornaram-se uma grande agenda, onde até se paga para que matérias sejam publicadas. A revisão desse papel do jornalismo cultural deveria ocorrer de imediato, para que os meios de comunicação possam ajudar tirar o atraso que se encontra a educação brasileira.

Os Transgenicos e a pena de morte – de valdir izidoro silveira

A pena de morte já está instalada no Brasil. Ela foi decretada pelo Presidente Lula quando referendou a Lei de Bioinssegurança que aprovou o plantio de transgenicos no Brasil e também quando deu super poderes a CTNbio. Por que dessa minha afirmação? Porque os transgenicos estão matando pelo mundo afora!
A microfauna do solo está sendo destruída; microfauna essa responsável pelas transformações que se processam no solo, tornando-o o ente vivo. O glifosato está destruindo as minhocas, os colembolos e outros seres que atuam no solo. Agora mais recentemente estamos assistindo, indignados, a mortandade e sumiço das abelhas, responsáveis pela polinização.

É ou não é uma pena de morte que está sendo decretada para sumiço da humanidade, para destruição do planeta; pena de morte essa decretada por um Congresso Nacional, cuja maioria corrupta (vide caso Renan Calheiros) e irresponsável está a serviço das multinacionais.

Será que essa gente sem caráter só pensa em dinheiro? Será que essa gente que vive batendo no peito que é religiosa não pensa no futuro dos seus netos e dos que virão após nós? Haja hipocrisia!

-ISMO / poema de léo meimes

Falas muito do passado
Mas tens futuro?
Ó senhor de todo destino.

Seu passado
Iluminado
Terá força
Sobre o que vem?

Não enxergarás
Não terás voz
Com tudo isso
Manterá a lucidez?

E sua clarividência
Onde foi parar?

Aquela vontade de
Ser notado, criar
E recriar.

Lutar!

Falas muito do passado
Mas terá você
(Rastro, Espectro
De um passado pagão)
Lugar no futuro?

CAFÉ DA MANHÃ – poema de alexandre frança

Como a traça esmagada no papel manteiga
Como quem come letras serifadas no café.
O crocante é pétreo gozo de anis.
A aridez, bicho da seda.
Tecendo bocas de bocejos
Organizo a infantaria pária:
Caem, uma a uma,
as cartas do cárcere inventado (desenho de crianças com câncer na parede de ketchup)

um brinde, dizem as últimas pulgas da platéia,
a dose quimioterápica ao feliz cliente do Mc’Donalds
sai pela saliva do guarda: “visita só amanhã”.

Talvez não escrevendo nada
morresse esmagado pela pincelada desastrosa do artista.
A mancha vermelha ressecada
Seria trocada por uma senhora mancha
De leite longa vida.

TE PEGO LÁ FORA – de adilson luiz gonçalves

Que o Congresso Nacional foi transformado num circo, disso ninguém tem dúvida; mas, parece que nossos congressistas e senadores resolveram ir fundo, também, na área de dramaturgia: Agora, tem gente ameaçando dar surra no primeiro mandatário do país, ao vivo e em cores!Antes, a coisa era um pouco mais “light”, com nossos “representantes” limitando-se a expressões, como: “Vossa Excelência é um desqualificado!”; e insinuações sobre o exercício de meretrício por alguns opositores. Hoje, os ameaçam, explicitamente, as “vias de fato”!Será que a TV Câmara e a TV Senado resolveram entrar com tudo na disputa pela audiência, enfrentando as emissoras de canal aberto e a cabo? Parece que sim, pois, além das “novelas” – as CPIs -, também estão programando lutas de “vale-tudo”! Ou será de “tele-catch”? A dúvida existe, pois, no “vale-tudo”, a coisa é “séria”, enquanto que no “tele-catch” há um pouco de encenação, com golpes combinados e torcedores “típicos”, como a velhinha de guarda-chuva, etc… O que ambos têm em comum é que não vale golpe baixo! Mesmo quando o juiz, comicamente, fecha os olhos para as “maldades” cênicas do vilão, e permite que ele vença, os injustamente derrotados e, até, alguns “torcedores” selecionados entram no ringue para dar uma “surra” neles, para o delírio da assistência. Lembram de Ted Boy Marino, Fantômas, Tigre Paraguaio & Cia?Pois é… Só que representar o povo não é nada disso! Ou, pelo menos, não deveria ser. Embora a truculência, física e verbal, não seja novidade no meio político, ela nunca foi símbolo de maturidade ou integridade de seus praticantes. O “coronelismo” do campo, com seus jagunços e matadores de aluguel, e políticos folclóricos, com suas capas pretas e “lurdinhas”, nunca foram exemplos para a democracia. Brandir “toalha molhada”, tampouco. Dizer que tem “aquilo roxo” pode ter importância para quem tem interesse ou tara por aberrações anatômicas, mas, não é atestado de dignidade e ética para o exercício de mandatos eletivos. Usar de espaços públicos para chamar opositores “para a briga” também não é o que se espera de nossos homens públicos.A denúncia de que alguns políticos de oposição estariam sendo monitorados por órgãos de inteligência governamental, é grave! Mas, isso não os deveria surpreender, já que quem se propõe a representar o povo deve, por princípio, não ter nada a esconder. Já a afirmação de que estariam recebendo ameaças – extensivas a parentes – é gravíssima, e inaceitável! O curioso é que a solidariedade vem, também, de quem têm ligações com personalidades que quase foram cassadas, por motivos análogos… Não importa! As denúncias são sérias devem ser apuradas com rigor absoluto! Mas, entre o desconfiar e o provar há um percurso, que inclui a necessidade de denunciar, para salvaguardar a integridade física e moral do ameaçado; e a prudência, para aguardar as diligências cabíveis. O estado de direito, característica da civilização moderna, estipula que o assunto seja tratado no âmbito jurídico, e não por autotutela! Ameaçar fazer justiça com as próprias mãos, dar demonstrações verbais de “macheza” e afins podem agregar componentes dramáticos, mas não têm, nem podem ter, peso significativo em regimes democráticos. Os antigos eram mais discretos: marcavam duelos, com padrinhos e tudo… Só que, fosse na base da força física, ou da habilidade com florete ou pistola, o vencedor não era, necessariamente, quem tinha razão. Quase sempre, nenhum tinha! E mesmo quem vencia, só demonstrava, com isso, capacidade física ou habilidade com armas. O mesmo vale, em muitos casos, para as palavras…Agora, se a “lógica” for privilegiar a truculência física, então, em vez de votações em dois turnos, teremos lutas, com dois assaltos. O eleitor terá que escolher entre lutadores de: boxe, caratê, kung-fu, tae-kwon-dô, sumô, luta greco-romana, jiu-jitsu… “Ultimate fight!”: Para abreviar a tramitação, as lideranças poderão escolher seus “campeões”, para um torneio estilo medieval… Quem ficar de pé, no final, aprova ou veta a lei! Se o vencedor for da oposição, o presidente ainda terá o direito de desafiá-lo, numa última tentativa de aprovar sua proposta… Bem, nesse caso precisaríamos ter um presidente peso-pesado, em plena forma física… Algo parecido com o atual Governador da Califórnia: Arnold Schwarzenegger! Mas, mesmo ele teve que se desculpar por ter chamado alguns de seus opositores de “maricas”, por não terem aprovado uma lei proposta por seu governo.Falando sério: Oposição e situação sempre irão existir em regimes democráticos, pois a alternância de poder implica em disputa de poder! O que se espera de nossos políticos é coragem e valentia, sim; mas, para mudar o que existe de errado nesse país, e não para defender a si próprios e aos seus, ameaçando surrar seus pretensos antagonistas.Esse tipo de exemplo, aliás, é perigoso, pois, talvez, faça os eleitores crerem que é possível melhorar o desempenho de nossos homens públicos com o mesmo tipo de artifício.Se a moda pega…

POEMA de lúcia jimenez – env. por walmor marcellino

Eu calo e minha voz
se for mortificada
onde se escuta o silêncio
com a respiração embargada.
A neblina cobriu o céu
na translucidez madrugada;
anda pela rua o léu
de cabeça desembaraçada;
a cortina sustém minha passada
trôpega, triste, avançada..
Estou pra depois, desesperada.

PAULO AUTRAN morre aos 85 anos

A ARTE está de L U T O.

POEMA da INVEJA ( da série RATOS) de nelson padrella

Não se pode roubar a luz do pirilampo
que cada vagalume tem a sua
Que iria um rato fazer com o brilho de outrem
se não iluminar o próprio rabo?

Assim como vitórias são de vencedores
não se pode beber da glória alheia
Se não és capaz de brilhar entre os que ascendem
contenta-te com teu triste destino.

Pois o segredo da vida se resume
em tirar alegria do que é simples
Infeliz de quem, por pura inveja,
sendo rato, sofre em não brilhar qual pirilampo.

MARK TWAIN furioso

SOBRE O JORNALISMO


Primeiro apure os fatos. Depois pode distorcê-los à vontade.

MAU HUMOR – por lula vieira / são paulo

Não me lembro direito, mas li numa revista, acho que na Carta Capital, um artigo levantando a hipótese de que todo o cara que tem mania de fazer aspas com os dedinhos quando faz uma ironia é um chato. Num outro artigo alguém escreveu que achava que jamais tinha conhecido um restaurante de boa comida com garçons vestidos de coletinho vermelho. Joaquim Ferreira dos Santos, em ‘O Globo’ de domingo, fala do seu profundo preconceito com quem usa ‘agregar valor’. Eu posso jurar que toda mulher que anda permanentemente com uma garrafinha de água e fica mamando de segundo em segundo é uma chata. São preconceitos, eu sei. Mas cada vez mais a vida está confirmando estas conclusões. Um outro amigo meu jura que um dos maiores indícios de babaquice é usar o paletó nos ombros, sem os braços nas mangas. Por incrível que pareça, não consegui desmentir. Pode ser coincidência, mas até agora todo cara que eu me lembro de ter visto usando o paletó colocado sobre os ombros é muito babaca. Já que estamos nessa onda, me responda uma coisa: você conhece algum natureba radical que tenha conversa agradável? O sujeito ou sujeita que adora uma granola, só come coisas orgânicas, faz cara de nojo à simples menção da palavra ‘carne’, fica falando o tempo todo em vida saudável é seu ideal como companhia numa madrugada? Sei lá, não sei. Não consigo me lembrar de ninguém assim que tenha me despertado muita paixão. Eu ando detestando certos vícios de linguagem, do tipo ‘chegar junto’, ‘superar limites’, essas bobagens que lembram papo de concorrente a big brother. Mais uma vez, repito: acho puro preconceito, idiossincrasia, mas essa rotulagem imediata é uma mania que a gente vai adquirindo pela vida e que pode explicar algumas antipatias gratuitas. Tem gente que a gente não gosta logo de saída, sem saber direito por quê. Vai ver que transmite algum sintoma de chatice. Tom de voz de operador de telemarketing lendo o script na tela do computador e repetindo a cada cinco palavras a expressão ‘senhoooorrr’ me irrita profundamente. Se algum dia eu matar alguém, existe imensa possibilidade de ser um flanelinha. Não posso ver um deles que o sangue sobe à cabeça. Deus que me perdoe, me livre e me guarde, mas tenho raiva menor do assaltante do que do cara que fica na frente do meu carro fazendo gestos desesperados tentando me ajudar em alguma manobra, como se tivesse comprado a rua e tivesse todo o direito de me cobrar pela vaga. Sei que estou ficando velho e ranzinza, mas o que se há de fazer? Não suporto especialista em motivação de pessoal que obrigue as pessoas a pagarem o mico de ficar segurando na mão do vizinho, com os olhos fechados e tentando receber ‘energia positiva’. Aliás, tenho convicção de que empresa que paga bons salários e tem uma boa e honesta política de pessoal não precisa contratar palestras de motivação para seus empregados. Eles se motivam com a grana no fim do mês e com a satisfação de trabalhar numa boa empresa. Que me perdoem todos os palestrantes que estão ficando ricos percorrendo o país, mas eu acho que esse negócio de trocar fluidos me lembra putaria. E para terminar: existe qualquer esperança de encontrar vida inteligente numa criatura que se despede mandando ‘um beijo no coração’?

ESTICANDO A CORDA

A revista VEJA publicou uma matéria na sua edição do dia 03/07 com relação aos 40 anos da morte do revolucionário Che Guevara atacando a figura histórica com raiva. Populares manifestaram-se queimando e pisoteando exemplares da revista na Boca Maldita em Curitiba.
foto do jorn. gustavo henrique vidal

SENTIR PRIMEIRO – poema de mário quintana

Sentir primeiro, pensar depois
Perdoar primeiro, julgar depois

Amar primeiro, educar depois
Esquecer primeiro, aprender depois

Libertar primeiro, ensinar depois
Alimentar primeiro, cantar depois

Possuir primeiro, contemplar depois
Agir primeiro, julgar depois

Navegar primeiro, aportar depois
Viver primeiro, morrer depois

UMA PHILOSOPHIA ATIRADA NO FORMIGUEIRO – poema de jairo pereira

minha philosophia no formigueiro
o pouco q. concebe é partilhado entre os presentes
formigas de ofícios raros constroem no subsolo
estruturas sobre estruturas
minimundos num canteiro
tenho sentenças prontas pra entregar
poentes na ponta da língua
palavras formigas asadas na multidão dos signos
rastejos de insetos truscos
compostos de verbos novos códigos em se fazendo
tenho ideos de idéias e ideologias
pensamentos no pensamento
relâmpagos de ditos no transespaçotempo
tenho sóis guardados pra noites grandes
solares solaríssimas minhas investidas nos fatos
tranceiras as lides do pensar nas vias dos entreatos.

CURITIBA proíbe CIRCO COM ANIMAIS – pela editoria

Aprovada pela Câmara Municipal de Curitiba a lei

proposta pelo vereador Jair César PROIBINDO circos que trabalhem com animais de se apresentarem no município. Indo, agora, para a sanção do prefeito.

O PALAVRAS, TODAS PALAVRAS estava apoiando a iniciativa juntamente com seus amigos e vamos continuar até que tal providência seja adotada pelo governo do Estado do Paraná ou pelo Governo Federal. Não é mais possível que nos dias que correm ainda seja uma “diversão” assistir as apresentações de animais que para chegarem até o palco foram caçados no seu habitat ou criados para essa finalidade, passando diariamente por sessões de tortura para que possam aprender as “gracinhas” pelas quais todos deverão rir. Sugerimos que todos os leitores, que aprovam a inicitiva, mandem emails para os deputados estaduais, federais e senadores cobrando uma atitude mais ética quanto à questão.

Assembléia Legislativa do Paraná
Câmara Federal
Senado Federal

O SUJEITO ÁPORO – de joão batista do lago

Cava dentro em mim
O inseto amargurado
Solitário em sua dor
Cava… cava… e cava
Cava silenciosamente
Desesperadamente só
Cava sem lamento (e)
Tudo que encontra: pó

Só ele vê as crateras
Onde reside o pus (do)
Ser: verme em vulcãoHumano: danado cão
Pois mesmo escavado
Não se dá por vencido
Assim convencido
Gera-se deus-inseto

Metamorfoseia-se:
Orquídico em Fênix
Surgente das cinzas
Vê-se sujeito presente
– Inseto agora ausente –
Voltado das cavernas
Pretende ser gente (e)
Plantar orquídea agente.

GÊNESE de um vitral – de joão osório

O artista plástico João Osório Brzezinski, um dos nomes consagrados da arte paranaense, está no Beto Batata, alto da quinze (Curitiba), com seu mais recente trabalho GÊNESE de UM VITRAL (2,28 X 2,28) e mais 18 estudos para a finalização da obra. o vitral foi encomendado por Robert Amorim, proprietário do restaurante, e ficará permanentemente no local. Até o dia 30/10 estará exposto juntamente com o estudo.

CAIO FERNANDO DE ABREU

“Em luta, meu ser se parte em dois. Um que foge, outro que aceita. O que aceita diz: não. Eu não quero pensar no que virá: quero pensar no que é. Agora. No que está sendo. Pensar no que ainda não veio é fugir, buscar apoio em coisas externas a mim, de cuja consistência não posso duvidar porque não a conheço. Pensar no que está sendo, ou antes, não, não pensar, mas enfrentar e penetrar no que está sendo é coragem. Pensar é ainda fuga: aprender subjetivamente a realidade de maneira a não assustar. Entrar nela significa viver.”

8 de outubro A MORTE DE CHE GUEVARA

Ainda na adolescência, o general Harry Villegas largou a vida de lavrador no interior de Cuba para pegar em armas contra o governo de Fulgencio Batista. Ele acabou sob o comando de Ernesto Che Guevara.

Villegas chegou a chefe da segurança pessoal do comandante Guevara, o acompanhou à África quando Che tentou criar um núcleo guerrilheiro no Congo e foi um dos únicos cubanos a sobreviver à ofensiva do exército boliviano.
Hoje em dia, 40 anos depois da traumática experiência, Villegas concedeu a entrevista abaixo ao correspondente da BBC em Havana, Fernando Ravsberg.BBC – General, com que idade o senhor conheceu Che Guevara?

Harry Villegas – Convivi com ele desde os 15 ou 14 anos.BBC – Como Che Guevara o influenciou pessoalmente?

Villegas – Pelo lado pessoal, ele me deixou o exemplo de lutar, de que sempre se pode mais, o exemplo de que quando se luta com amor, com paixão, quando se mergulha em uma obra, uma causa, sempre se pode chegar à vitória.

BBC – Uma das coisas que Che mais destacou foi a construção de um novo homem. Quase 50 anos depois da vitória da revolução, conseguiu-se criá-lo?

Villegas – Bem, acho que quando Che se foi, fez uma avaliação de como andava a revolução cubana e, em seus últimos escritos, que fez durante a sua viagem pela África e pela Ásia – na carta a Quijano – deixa bem claro que o processo revolucionário de Cuba naquele momento era irreversível.

Depois, nós tivemos problemas: desapareceu o campo socialista, o boicote foi reforçado, nos vimos obrigados a fazer concessões de caráter econômico, como aceitar o dólar, um conjunto de coisas que voltaram a dificultar alcançar este homem com o qual Che sonhara e do qual era protótipo. Não podemos dizer que o temos hoje, seguimos lutando para construí-lo.

BBC – Na América Latina tem havido mudança nos governos. Atualmente, muitos países são governados pela esquerda, que chegou ao poder por meio de eleições. Isso quer dizer que o caminho escolhido por Che estava equivocado?

Villegas – Bem, agora mesmo te expliquei que para Che a guerra de guerrilhas era a última alternativa para tomar o poder, que sempre que houvesse outro caminho, no qual não fosse necessário usar a violência – que sempre representa morte, destruição, sacrifício -, seria o mais correto.
Mas como não havia outra alternativa, ele escolheu este caminho.

BBC – Como se sentiria Che nesta América Latina com tantos governos de esquerda?

Villegas – Acho que se sentiria muito bem, feliz, acho que realmente há uma alternativa para poder construir um mundo diferente, um mundo melhor.

BBC – E na Cuba atual, como se sentiria Che?

Villegas – Estou pensando em como cresceram as desigualdades sociais em nosso país, pensando no que disse Fidel sobre o risco da corrupção, que também cresceu.
Há um debate político, por exemplo, em todo o país, nas fábricas, no bairros…

BBC – Que faria Che atualmente?

Villegas – Acho que Che estaria ao lado de Fidel, lutando ali ombro a ombro, quebrando a cabeça para conseguir recuperar todas estas coisas que se foram perdendo, entende?
Mas acho que o mais importante é a tomada de consciência em todo o nosso povo, que a está tomando abertamente, de que está em nossas mãos poder construir e manter essa sociedade e garantir o socialismo.
Esse é o objetivo fundamental, sem ter medo de ver as nossas deficiências. Foi isso que fomos convocados a fazer pelo segundo secretário do partido.
Além disso, a única forma de resolver as deficiências e os problemas é tomando consciência de que eles existem, e acho que Che realmente compreenderia que atualmente, o único caminho que temos é discutir, analisar, com toda a nossa juventude, todo o nosso povo, qual foi a obra da revolução, a que aspira a revolução.

BBC em Havana entrevista com Fernando Ravsberg

OSCAR WILDE furioso

A coerência é o ultimo refúgio dos sem imaginação.

Arroz, Feijão & Philosophia de jairo pereira – pela editoria

Informamos aos leitores que o artigo ARROZ, FEIJÃO & PHILOSOPHIA do escritor e poeta Jairo Pereira está completo, na página, com a publicação abaixo. As partes 1(um), 2(dois) e 3(três) são encontradas no mês de SETEMBRO e a parte 4(quatro) e Final neste mês de outubro nas “matérias publicadas”.

Arroz, Feijão & Philosophia – final – por jairo pereira

Fihnal

A voz de Hegel, soando baixinho entre as árvores. A voz sisuda, autoritária, que ante todo o metafisismo, alerta sobre o não afastamento demasiado do filósofo da nathureza, onde encontram-se os objetos mais importantes da filosofia. Não adianta procurar lá longe o que está aqui tão perto de ti filósofo. O problema é você, a nathureza (objetos) e o conhecimento que se tira dali, das coisas mortas, das coisas vivas, das coisas que causam, das coisas que implicam, das coisas que serenam, do tempo, da história e do vento. Filósofo é mesmo conceituador. Mania de verbo ser, o é pra tudo quanto é coisa. Poesia é produto fenomênico do pensamento. Poesia é… O tempo é cíclico. A história é repetitiva. Tudo é e deve ser para o filósofo impetuoso, aquele que arrisca tudo no saber, como os suicidas no morrer. Sofro delírios de silogismos no de vezenquando, o que revela em mim índole conceituadora, coisa de filósofo, além do que recebo estrelas no sótão depois da meia-noite, não namoro, perco botões das camisas à toa, metafisico (do recém-criado verbo metafisicar) sob as tempestades, peripatético, com conta estourada no banco. De quebra, ainda sou fanático por linguagem. Outra afecção má do espírito, já convulso de filosofia. Imaginar na hora do lanche, a composição de obras futuras, almejadas, tais como: A razão absolutória dos males do espírito ou Da atração da inteligência pelo mórbido. Boa parte da vida entregue às conjeturas, o quem sou? de onde venho? para onde vou? por quê? pra quem? como? Sempre um fio invisível enredando teu corpo, teu espírito de filósofo na hermética teia da aranha absoluta. Enredando. Desafiando. Que é pra se perquirir. Que é pra se engendrar pelo cognocer elevado. Que é pra repercutir verdades transfinitas. Que é pra subverter o real e o certo. Que é pra… Arroz, feijão e filosofia, é de se pôr na mesa todo dia. Filosofia a louca preciosa. A insubordinada que atenta contra as profissões contemporâneas, eis que convida ao ócio criativo e resgata a reflexão questionadora. Filosofia a desordeira. A santa. A obstinada. A traiçoeira, que mata de mentirinha a vida, antes da vida nascer. A que das perguntas faz respostas e das respostas, faz propriamente filosofia.

Antes que me caia uma tartaruga na cabeça, derrubada por alguma águia distraída. Antes que me caia um balde de tinta de cima da escada de frente à loja. Antes de tudo, que o filósofo que é filósofo se perca e se reencontre na vida e no pensamento, a fim de haurir do nada que é tudo uma razão feliz, de muito amor e elocubração para a vida presente e futura.

iAiRo pEreIrA

Autor de O Antilugar da Poesia, O Abduzido
e outros.
E-mail: jairopereiraadv@hotmail.com

MAIAKOVSKI, para refletir… – env. por eduardo ratton


Poeta russo “suicidado” após a revolução de Lênin… escreveu, ainda no início do século XX :

Na primeira noite, eles se aproximam e colhem uma flor de nosso jardim. E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão.
E não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles, entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.

Depois de Maiakovski…

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Bertold Brecht (1898-1956)

Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.
Como não sou judeu, não me incomodei.
No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista.
Como não sou comunista, não me incomodei .
No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico.
Como não sou católico, não me incomodei.
No quarto dia, vieram e me levaram; já não havia mais ninguém para reclamar…

Martin Niemöller, 1933 – símbolo da resistência aos nazistas.

Primeiro eles roubaram nos sinais, mas não fui eu a vítima,
Depois incendiaram os ônibus, mas eu não estava neles;
Depois fecharam ruas, onde não moro;
Fecharam então o portão da favela, que não habito;
Em seguida arrastaram até a morte uma criança, que não era meu filho…
Cláudio Humberto, em 09 FEV 2007

O que os outros disseram, foi depois de ler Maiakovski.
Incrível é que, após mais de cem anos, ainda nos encontremos tão desamparados, inertes, e submetidos aos caprichos da ruína moral dos poderes governantes, que vampirizam o erário, aniquilam as instituições, e deixam aos cidadãos os ossos roídos e o direito ao silêncio : porque a palavra, há muito se tornou inútil…
– até quando?…

VULTO SOLITÁRIO – poema de vera stockler

És como o ente da noite
que na mistura de neblina e lua
sorves as paixões frias da rua
És como areia pronto
para ser levado por sopro alheio
ou pela insanidade ensimesmada de teus devaneios
És como nuvens brancas ídas
que se mesclaram a céus vermelhos
no entardecer da vida
És como água de fonte se esvaindo pura
roçando pedras soltas
escorregando livre sob pontes nuas
És vulto solitário que se extasia
na silenciosa madrugada fadada
a não ser noite…a não ser dia…

ao nascer…noite
ao morrer … dia.

PARA REFLETIR pela editoria

“Em qualquer país em que o talento e a virtude

não produzam progresso, o dinheiro será a

divindade nacional.”

Denis Diderot

AS PEDRAS DA LOUCA – de ewaldo schleder

As pedras da louca não estão mais lá. Umas viraram pó, outras estão no meio do caminho.

As pedras da louca foram atiradas na vidraça do vizinho e nos telhados de vidro da colega que a louca não gosta.

As pedras da louca são preciosas, nenhum dinheiro compra. A louca rasgaria o dinheiro. A louca quer os elásticos que amarram o dinheiro. Muitos elásticos, rápido, para a louca voltar pra casa.

A louca quer de volta todas as pedras – chega de desordem. Ela quer todas as pedras reunidas para ela saber qual é a primeira, qual é a última. A primeira, para atirar no rei: bem na grimpa do rei. A última, para guardar em casa, muitíssimo bem guardada, aonde só ela sabe.

Nada vai adiantar querer da louca alguma pedra. Ele dirá que não tem nenhuma. Ou nada dirá. Nada dirá.

As pedras da louca querem voltar a ser pedras brilhantes. Para ladrilhar a rua, em que a dona é a louca. Aquela rua onde o amor da louca vai passar. Vai passar – cada paralelepípedo vai anunciar. E não queira você saber qual, a rua da louca. Ninguém nunca saberá. Que se danem os poetas, que se danem as águas: é pau, é pedra, é o fim do caminho: de janeiro a janeiro corre o rio Tietê.

Não haverá mais sopa de pedra. A louca vai recolher todas, uma por uma. Até aquela do tamanho do mundo, diz a louca. E se alguém quiser bater na louca, pegar na louca, exigir dela uma pedra, ela dirá: – tá bão… tá bão, minha pedra é o mundo, leve pra casa então…e vê se me deixa em paz.

Das pedras da louca, não adianta, só a louca sabe. As pedras da louca não estão mais na parede, nem no chão, nem no céu. Elas estão escondidas. Onde? Só a louca sabe. Ou só os loucos que ela quer – para ela são os anjos. As pedras da louca estão no mundo. E os maiores loucos estão fora do hospício. Talvez eu, talvez você. É o mundo. “Leve pra casa então”.

AURÉLIO BUARQUE DE HOLANDA – O MESTRE

Alheio ao mundo, atento à palavra.

O homem que organizou a nossa língua era uma pessoa desorganizada. Esta, entre outras características, é realçada pela amiga alagoana Tania de Maya Pedrosa, 73, que sempre hospedava Aurélio Buarque de Holanda e família nas visitas a Alagoas. “Aurélio era desarrumador, desatento, derrubava as coisas. Trancava as portas e não abria direito”, recorda ela, com carinho.
“Todos nós achávamos graça naquele sábio que teve a Marina para orientá-lo. Ele era lindo, bem vestido e tudo mais, mas devido à esposa. Se você o largasse sozinho, ele não ia acertar nada.
Era alheio a tudo e até se perdia no Rio de Janeiro.
Nos banquetes, todo mundo ficava em suspense quando tinha cristal, vendo a hora dele derrubar [risos].
Aurélio só era atento à palavra. Na hora do trabalho, parecia que ele ia para outro planeta”.

jorn. Fernando Coelho/Gazeta de Alagoas.

O MESTRE

O Mestre em foto rara de 1929.

QUE REVOLUÇÃO BICHO! – de adriel diniz

Eu que já me sentia um solitário entre os jovens por discutir política, agora chego a duvidar que exista, tão estranha e melindrosa é a situação. Aos que sonhavam com a social democracia, que tinham na estrela o expoente e a esperança, resta agora a incerteza. Aos que sempre trataram com desdém o partido de doutores e operários, ainda sobra desdém para cobrar a malograda estada do PT no Governo.

As trapalhadas da cúpula petista geraram um sentimento de total descrença. Acreditar em quem? Na direita carcomida e cínica que agora inquire com a empáfia dos puros de coração e bolso? Acreditar nos operários que juram inocência e não usam mais os velhos macacões de zuarte? Acreditar nas bestas apocalípticas que pregam a anarquia total e um golpe do povo?

Nem mesmo em mim acredito agora. Talvez mais, talvez menos, tenha sentido esse golpe. Sem chão que possa conter os passos, caminhamos, quem sabe, para uma total falta em quem e no que acreditar. O coice da verdade foi tamanho que sobraram estrelas demais para uma só bandeira.

Aos amigos, conhecidos e coisa tal a quem sempre chateei com a política, não devo desculpas. Vivemos em tempo que não se deve nada a quem nunca quis cobrar. Não me sinto gratificado com a derrocada oficial da moral na política, tampouco derrotado também. Sinto apenas a aquela sensação incômoda de que ainda há mais verdades para contar, mesmo que ninguém queira acreditar.

Passear pela verdadeira face do poder talvez seja menos agradável do que uma viagem pelos intestinos de um porco. Como Napoleão e os outros, estão todos de pé, uns ainda usam broches do partido, outros correm a apagar as velhas verdades escritas em tempos de revolução. Orwell bem que nos alertou.

env. por jocelei braga

F. SCOTT FITZGERALD furioso

O beijo



O beijo nasceu quando o primeiro réptil macho lambeu a primeira réptil fêmea, significando com isso, de maneira sutil e elogiosa, que ela era tão suculenta quanto o pequeno inseto que ele jantara na véspera.


f. scott fitzgerald

POEMA FEMININO – env. por l.d.calixto

Que mulher nunca teve
Um sutiã meio furado,
Um primo meio tarado,
Ou um amigo meio viado?
Que mulher nunca tomou um fora de querer sumir,
Um porre de cair
Ou um lexotan para dormir?
Que mulher nunca sonhou
Com a sogra morta, estendida,
Em ser muito feliz na vida
Ou com uma lipo na barriga?
Que mulher nunca pensou:
Em dar fim numa panela,
Jogar os filhos pela janela
Ou que a culpa era toda dela?
Que mulher nunca penou
Para ter a perna depilada,
Para aturar uma empregada
Ou para trabalhar menstruada?
Que mulher nunca comeu
Uma caixa de Bis, por ansiedade,
Uma alface, no almoço, por vaidade
Ou, um canalha por saudade?
Que mulher nunca apertou
O pé no sapato para caber,
A barriga para emagrecer
Ou um ursinho para não enlouquecer?
Que mulher nunca jurou
Que não estava ao telefone,
Que não pensa em silicone
Que ‘dele’ não lembra nem o nome?
Só as mulheres para entenderem o significado deste poema!
Estamos em uma época em que:
‘Homem dando sopa,é apenas um homem distribuindo alimento aos pobres.’
“Pior do que nunca achar o homem certo é viver pra sempre com o homem errado.
”Mais vale um cara feio com você do que dois lindos se beijando.
”Se todo homem é igual, porque a gente escolhe tanto???’
‘Príncipe encantado que nada…
Bom mesmo é o lobo-mau!!
Que te ouve melhor…
Que te vê melhor…
E ainda te come!!!

SABOR DA FRUTA (a primeira trepada de um guri) – de jb vidal

aquelas coxas roliças apertando uma calcinha, que eu não sabia distinguir se bege ou branca-suja, chamaram minha atenção ao olhar para a bergamoteira onde ela havia subido a fim de apanhar algumas frutas (em outras regiões do Brasil são conhecidas por tangerina, mexerica, mimosa e sei lá mais o quê); eu estava sentado no chão comendo uma delas, gostosíssima, agridoce; o vento soprava  leve, apesar de ser inverno o minuano (vento pampeano), chegaria daí a alguns dias; o chão em que eu sentava pertencia à Estância do Cinamomo, ou o que dela restou, propriedade do meu avô Alcides e da minha avó Emília, com os quais eu morava desde os dois anos de idade, situada em Parada Quebracho, um vilarejo, no município de Bagé, Rio Grande do Sul.
ali fui alfabetizado pelo avô, tendo como primeiro livro o jornal Correio do Sul, editado na cidade; foi minha única leitura, diária, por muito tempo. o texto jornalístico, curto e revelador, relacionando fatos às pessoas, dava-me a conhecer um outro mundo, diferente daquele em que vivia. fascinava-me.

provavelmente resida, aí, o fato de querer sempre saber mais sobre mim próprio e o ser humano, enquanto escuridão cerebrina  e suas conseqüências.

por ter convivido desde os primeiros anos de vida com vacas, terneiros, bois, cachorros, touros e cavalos aprendi a gostar da lida do campo; com quatro anos já executava pequenas tarefas referentes ao dia-dia de uma estância.

chega! vamos voltar à calcinha da Nenéca.

pois é, esse era o nome da menina de doze anos que vestia a tal calcinha de cor indefinida.

durante o primeiro olhar senti algo indescritível baixei a cabeça, vergonha talvez, tornei a olhar no segundo seguinte, não sabia porquê, mas com interesse redobrado; tinha claro que ali estava escondido o lugar por onde as meninas mijavam e segundo conversas dos peões, que ouvia no galpão – naquela época, não existia TV nem programa infantil – a gente poderia fazer algumas coisas desde que a dona do “mijador” permitisse; isto, somado à minha observação da natureza, era toda a informação que tinha, sobre sexo, aos dez anos de idade.

associando essas conversas com o que via, fui sendo tomado por uma sensação de perigo alternada com alegria e o pau ficou duro; pau? pauzinho.

ela continuava alegre, assobiando, encima da árvore, colhendo os frutos e jogando para que eu os pegasse.
– pega aí Joãozinho! com a maioria deles caindo no chão porque meus olhos não saíam daquela bunda; ela havia colocado a perna direita em outro galho, para melhorar o apoio, e agora, podia ver o fundilho da calcinha enfiado no “mijador”.

o coração disparou. senti medo.

Nenéca, cabelos pretos, longos, até a cintura, coxuda para sua idade, era filha de um tuco (operário de estrada de ferro) amigo de meu avô e a mãe dela fazia alguns serviços de cunho doméstico para minha vó.

porque moravam a cerca de dois quilômetros da estância, e o percurso era feito a pé, deixavam a menina com meus avós para irem buscá-la três ou quatro dias depois, quando haveriam outros serviços para sua mãe.

no meu quarto havia três camas de solteiro e Nenéca dormia em uma delas, quando lá ficava. recordo que ela levava para mim, anos antes, a mamadeira noturna quando já estava deitado. daí a convivência.

nunca esqueci o momento em que nossos olhares se cruzaram, durou milésimos de segundo, mas pareceu uma eternidade, sorriu e entendi, que lá de cima, ela sabia para o que eu estava olhando, tive certeza de que gostava; fez uma bolsa com a saia do vestido de chita, colocando ali, algumas frutas, e desceu; depositou-as no chão, sentou-se à minha frente, cruzou as pernas puxando o vestido até o meio das coxas e descascou uma bergamota. meus olhos tentavam ir além da calcinha enfiada no “mijador” que separava alguma coisa “parecida com pedaços de carne”; um calor intenso tomou conta do meu corpo.

sentia o rosto queimar. a cabeça rodava.

a brisa leve, trazia consigo o perfume dos caules recém agredidos pelo colher das frutas. é impossível descrever o que sentia no ambiente em que me encontrava, a pastagem imensa, o pomar das mais variadas frutas, os animais pastando, o céu límpido e azul, tudo formava uma harmonia indelével.

por mero impulso, me coloquei de joelhos à sua frente, esmagando algumas frutas. curvei-me e passei as mãos em suas pernas até alcançar o “mijador”.
o coração parecia um potro xucro querendo saltar do peito. descruzou as pernas deixando-as abertas ao mesmo tempo em que deitava na grama; eu continuava passando os dedos por cima da calcinha, molhada, “tá mijando!” pensei, até que comecei a tirá-la, ela ajudou levantando a bunda e a peça foi parar abaixo dos joelhos; sentindo no corpo ondas de calor e frio deitei-me sobre suas pernas, entre-abertas, e comecei a lamber o “mijador”. “engraçado, mas não posso parar” prestava atenção no sabor, ficava olhando aquelas carnes que saiam para fora do corpo, queria espiar o “mijador”. assim, enquanto lambia, veio à lembrança de que “os cachorros lambiam o mijador das cadelas, que o touro lambia a vaca e depois mugia cavocando o chão com uma das patas dianteiras, que os cavalos garanhões faziam as mesmas coisas que os touros e relinchavam” passei então, a arranhar a grama e gritar; lambia, arranhava e gritava, lambia, arranhava e gritava!

ela pegou-me pelos ombros e me pôs de lado, desabotoou a bombacha que, também, foi parar nos joelhos; cuecas? só fui usá-las depois de adulto, por recomendação do tintureiro.
voltou a deitar-se me puxando para cima. não sabia o que fazer.
– pega ele e bota, disse. entendi quem era ele; com a mão esquerda procurei, pelo tato, o lugar onde devia enfiá-lo “os touros e os garanhões, também enfiavam nas vacas e nas éguas”, pensei.

encontrei.
era o céu! quente e molhado.
meu corpo estremeceu todo arrepiado. sentia vontade de rir e chorar.

não sei quanto tempo ficamos assim, naquele põe e tira instintivo, às vezes saía fora e eu procurava o céu com avidez; de repente, “algo aconteceu”, senti meu pau latejando e doendo, parei de arranhar a grama, pois os dedos sangravam. já não gritava. garganta seca e sem voz. ela começou a gemer “será que está doendo?” indaguei-me, sem parar. a cabeça continuava a rodar. alguma coisa acontecia, lá embaixo, com o meu pau e o “mijador”. repentinamente, o ar da respiração ofegante entrou pelo meu ouvido esquerdo como se fosse uma língua de fogo e tudo cessou.

não entendi nada “eu não quero parar! porque parou tudo?…” aí, a exaustão.

o maxilar doía, embaixo da língua ardia, os dedos inchados, sangravam. sentei. levei a mão até o pau molhado. cheirei e lambi. cheiro e gosto do “mijador”. bom. muito bom. fiquei em pé e continuei a me examinar.
as pernas tremiam. olhei para Nenéca como indagando porque me encontrava naquele estado. olhou-me, sorriu e puxando a calcinha disse:
– vamos? juntou as bergamotas do chão fazendo um cesto com a saia do vestido.

andamos sem palavras.

não ria, mas minha alma dava gargalhadas e cambalhotas de alegria, uma alegria imensa, havia descoberto algo fantástico, e, “agora era como um touro, um garanhão, lambia, arranhava, gritava e enfiava o pau no mijador da Nenéca”.

eu era outro e o mundo mudara.

Arroz, Feijão & Philosophia – parte quatro – jairo pereira

Parte quhatro

Afluir, entre as antinomias: identidade e contradição, ser x não-ser, causa e efeito, sujeito x objeto, transcendência e imanência, presença x não-presença, essência e aparência, etc. Segundo: filósofo é de trazer claro no espírito sua visão do mundo e da nathureza como um todo, eis que como sujeito é objeto no social e como objeto é também sujeito que conhece e como pensador, é capaz de interferir na natura das relações, fixando em ato seu pensar das coisas, que não pode ficar meramente no plano do pensamento pelo pensamento, mas traduzir-se em ação, interferência transformadora. Pensar é revolucionar. O pensamento sim, aplicado em ato, um fazer sobre todas as coisas, subverte o real. Filósofo é de ter também finalidade. A mínima possível, por exemplo: mudar o mundo. Filósofo que é filósofo sabe disso. Mudar o mundo é fácil e deve ser feito no todo dia, no almoço com a família. No sofá, quando todos dormem, depois da meia-noite. Nesse horário é melhor, porque pessoas, ah pessoas, essas sempre vão querer evitá-lo nas suas longas preleções. Outra coisa: nunca participar de ideologias coletivas. Ter falsa consciência da realidade, em deliberando sozinho sobre o assento do vaso sanitário. Filósofo é de estar na rua, informadão. Transar com a semiótica. Antropologia. Arte. Poesia. Estar com canais de comunicação abertos. Holístico. Filósofo é de ser fogo. Filósofo é de ser gelo. Tudo deve saber. Com tudo deve interagir. E com nada ao mesmo tempo, retornando à origem, ao instinto primário de contemplação das estrelas. O ímpeto selvagem é que deve levar o filósofo em sua caminhada rumo a alguma coisa que pode ser a revelação da cósmica razão do existir. O conhecimento é um reflexo da nathureza no ser.

FRAGMENTOS – poema de bia de luna

I

Meus pés
refletem
a mais púrpura
poça d’água.

Meu olhar se arrepende
de baixar.

II

Há uma goteira
no meu jardim.

Eu, a gota.

III

Apareceu-me pálida.
Certa. Frontal.
E não precisou mais nada para Narciso
aparecer e deflagrar o chamalote do laço.
Quieta.

Quieto o azul do passo dos sapatos sem lama.
Uma vez depois de muitas chorou no preto do quarto. Medrosa. Pueril nos poros.

E as encantadas mãos percorriam do corpo o piano sem enigmas ou simulacros.
Plena no tanto faz tudo bem tudo mal na existência do mais ou menos.
Apareceu-me pétala.

A NOVA GEOPOLÍTICA do PLANETA, será? pela editoria

Algum “visionário”, com muito tempo disponível, idealizou e “organizou” este mapa geo-político baseado na novela THIRD EMPIRE do escritor russo Mikhail Yuryev.

Onde:Federação Americana: azul, líder: USA; Federação da Índia: branco, líder: Índia; Ferderação Asiática: marron, líder: China; Federação Islâmica: verde, líder: Irã; Federação Russa: vermelho, líder: Rússia.

RESPEITO / 06 de julho de 2007 / de tadeu sarmento

FIM DA SEMANA DA GAVETA DE INÉDITOS

“A carne é triste, sim, e eu li todos os livros” Mallarmé.
“… descobri que nada mais tem importância” Mário Bortolotto.
“Por mais que se ande, o caminho leva sempre para trás” Marly de Oliveira.
“Prossiga na sua insignificância, indigência, ociosidade e auto-aniquilamento” José Agrippino de Paula.

E aqui terminamos a “Semana da gaveta de inéditos”, de luto pela morte do genial José Agrippino de Paula, gigante intencionalmente esquecido pela nossa nacional mediocridade, assim como Samuel Rawet, Rosário Fusco, Campos de Carvalho, e tantos outros. O que fica? A impressão da inutilidade da palavra diante da monstruosidade de forças que não conseguimos compreender… Pensar está cada vez mais sem encanto.

env. por j. castro

INESPERADO – poema de batista de pilar

O político subiu ao palanque
fez discurso ao público fantasma
gestos-palavras
sílabas de sentimentos humanos
.

O povo aplaudiu eufórico
a mensagem transmitida
mil saudações e confetes
no momento das palavras esculpidas.
O tempo passou
o orador parou
ficou na margem esquecida.
o candidato perdeu
para a política da vida.

REQUIÃO e o poeta BATISTA DE PILAR pela editoria

O governador Roberto Requião abriu a reunião desta terça-feira (11) da Escola de Governo apresentando e elogiando o trabalho do poeta paranaense Batista de Pilar. “Não poderia deixar de fazer uma referencia a um fato que muito me impressionou nesse fim de semana. Estava eu tomando um café no centro de Curitiba e me apareceu um cidadão simples, um homem do povo, e me pediu licença para dar-me um exemplar de seu livro ‘Nona Cartada’, editado por ele próprio. Trata-se de Batista de Pilar, um poeta popular de qualidade excepcional”, explicou o governador.
“O que estou fazendo aqui, na verdade é um comercial do Batista de Pilar”, disse Requião, após ler trechos de “Inesperado”, um dos poemas do autor. batista-de-pilar-foto.gif“São belos hai kais, de uma visão filosófica profunda”, elogiou. O governador também leu trechos do prefácio do livro, escrito por Marise Manoel, assessora de gabinete da Secretaria da Educação. “Vamos procurar Batista de Pilar. Quem sabe numa terça-feira dessas não o trazemos aqui para conversar conosco”, sugeriu.

fonte: agência do estado

RITA HAYWORTH furiosa



Todos os homens que já tive foram para a cama com Gilda e acordaram comigo.

BUSH PORNÔ – colagem de Jonathan Yeo

Várias imagens pornográficas compõem o rosto do presidente dos Estados Unidos George W. Bush, em uma polêmica colagem de um artista britânico.
A idéia de criar esta peculiar versão do chefe da Casa Branca veio depois que os serviços do artista como fotógrafo foram dispensados.
Jonathan Yeo mostra a partir desta semana na galeria Lazarides, em plena Soho londrina, sua controvertida obra que parece totalmente casta.
Mas, se uma pessoa fixar sua atenção, descobre que os pedaços que representam as feições do presidente são imagens sexuais explícitas, entre elas, algumas de felação.
A própria galeria explica em comunicado que Yeo recebeu uma encomenda para fazer um retrato do presidente, sem dúvida com um tom mais “governista”.
O pedido, segundo o jornal “The Sun”, veio da Biblioteca Bush, que lembrará o legado do presidente americano após seu mandato, mas a idéia não foi para frente. Yeo decidiu continuar com o trabalho, embora com outra idéia em mente.
Para isso, selecionou fragmentos de imagens pornográficas de mais de uma centena de publicações e as uniu para compor o rosto de Bush.
“Fiz isso por diversão, não para ofender, mas estou satisfeito com o resultado”, disse o artista ao apresentar esta semana sua obra.
O retrato de Yeo, que curiosamente é filho de um deputado conservador britânico, Tim Yeo, causou mal-estar nas fileiras republicanas americanas.
Um porta-voz do partido, citado pelo “The Sun”, prevê que o retrato causará indignação nos Estados Unidos.
“Algumas pessoas acharão divertido, mas pessoalmente acho que é uma montagem barata”, considera.
“Por que alguém ia querer fazer uma imagem de nosso presidente a partir de material pornográfico?”, se pergunta outro porta-voz republicano.
fonte folha-online