Arquivos Mensais: novembro \30\UTC 2007

A FARSA das FEMINISTAS por paula lameu



Desde que o mundo é mundo a “supremacia masculina” está estabelecida. A partir daí as mulheres tinham duas escolhas: aceitar a condição imposta ou lutar para mudar essa situação. O direito de votar e de trabalhar são duas de muitas conquistas, entretanto essas conquistas variam conforme a cultura, região, contexto histórico e religião da sociedade.

As mulheres brasileiras desfrutam de uma posição de prestígio em relação àquelas de países como a Arábia Saudita, Paquistão e China, sem contar com países africanos.

No Brasil, a mulher é valorizada por conciliar trabalho, filhos, marido e casa. Destacam-se nas empresas por possuírem a capacidade de enxergar diversos problemas, em determinada situação; possíveis soluções e as consequências que acarretariam cada decisão tomada.

O que significam realmente essas “conquistas” femininas? Todas as mulheres que lutaram, o fizeram contra que, ou quem? Com que objetivo?

As mulheres que lutavam por direitos iguais não queriam o reconhecimento da condição de mulher, mas o de se assemelhar ao homem.

Sabe aquela velha história “mulher no volante, perigo constante”, pois esse é o melhor exemplo a ser dado. Uma mulher só conseguiria dirigir direito se dirigisse como um homem, ou seja, nunca, uma mulher por si dirigirá direito, a menos que troque de posição social e passe a agir como homem.

A relação de diferenciação homem/mulher é explicada por Stuart Hall, em , afirmando que algo só pode ser estabelecido mediante a diferenciação pelo outro. A mulher só se reconhece como tal por indentificar o homem como diferente dela. Não existe um meio-termo, o que há é a troca de pólo, ou seja, a mulher para dirigir bem, muda para o pólo masculino, não há troca de condição de que a mulher é quem dirige bem.

Toda relação de diferenciação se dá pelo binarismo – dois pólos opostos – e é cercada por relações de poder, onde um pólo é dominante e o outro é dominado, um certo e o outro errado. O que exerce a função de dominante não abrirá mão de sua condição, assim a mulher sempre estará fadada a posição de má motorista. A luta das feministas sempre foram os direitos iguais para as mulheres que, na verdade é a tentativa de reconhecimento da ocupação da posição do pólo oposto, o masculino. Não houve nenhuma ruptura significativa em qualquer sociedade ou época.

As mulheres precisam refletir e determinar seu real objetivo se é mesmo parecer cada vez mais com os homens ou proporcionar alguma ruptura nos padrões da sociedade.

O clichê é válido como conclusão: “É assim que se faz um país mais justo”

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POEMA de otilia martel/ Porto/Portugal

Sonho-te
Que sonhando-me
Sonhas-me,
Em teus braços,
Mil beijos
Sussurrados
Sonho-te
E sonhando-me
Amo-te
No rasgar da pele
Buscando
carícias longas
Entregando-me

Sonho-te
No abraço incontido
Corpo entregue
Vencido
Em noites de vendaval

E esse perfume errante
– seiva quente –
dá vida dá alento
Mesmo que não passando
De ilusão,
Que se desfaz em nada,
Tal qual nuvem
Em tarde de Verão.

Sonho-te
Que sonhando-me
Sonhas-me…

Amando-te…  

POEMA de ANTONIN ARTAUD – 1896/1948*

“Quem sou eu?
De onde venho?
Sou Antonin Artaud
e basta que eu o diga
Como só eu o sei dizer
e imediatamente
hão de ver meu corpo
atual,
voar em pedaços
e se juntar
sob dez mil aspectos
diversos.
Um novo corpo
no qual nunca mais
poderão esquecer.
Eu, Antonin Artaud, sou meu filho,
meu pai,
minha mãe,
e eu mesmo.
Eu represento Antonin Artaud!
Estou sempre
morto.
Mas um vivo morto,
Um morto vivo.
Sou um morto

Sempre vivo.
A tragédia em cena já não me basta.
Quero transportá-la para minha vida.

Eu represento totalmente a minha vida.

Onde as pessoas procuram criar obras
de arte, eu pretendo mostrar o meu
espírito.
Não concebo uma obra de arte
dissociada da vida.

Este Artaud, mas, por falta do que fazer…

Eu, o senhor Antonin Artaud,
nascido em Marseille
no dia 4 de setembro de 1896,
eu sou Satã e eu sou Deus,
e pouco me importa a Virgem Maria.

 

 

 

POEMAS MAL_DITOS de julio almada*

 Um poeta em seu reino dos céus

Tem sempre esse inferno particular:

Se cortando na sutileza dos véus

Olha no olho do que há para revelar 

Vê claro o que claramente oculto

É o mais escondido dos tesouros.

logo o acusam de estar em surto

ao dançar com a alma dos touros. 

Chega de promessas do paraíso

repleto de prazeres artificiais.

Escrevo uma dor ácida e aviso:

sou o menos morto dos mortais! 

Vestido com a ousadia nua:

Como flor de lótus nos funerais.

Quero a tinta que a beleza sua

E deitar vivo, aonde a vida jaz. 

* do livro POEMAS MAL_DITOS.

PROGRAMA do JÔ investigado pelo MPF

caricatura-28.jpg O Programa do Jô, exibido depois do Jornal da Globo pela TV Globo, está sendo investigado pelo Ministério Público Federal (MPF) no Rio de Janeiro por suposta manifestação de preconceito. A informação foi divulgada pelo MPF nesta segunda-feira(26).O programa do dia 18 de junho deste ano exibiu uma entrevista com o escritor Rui Moraes e Castro sobre a mutilação genital a que são submetidas mulheres angolanas. Após a entrevista, a campanha “Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania” – projeto que visa melhorar a qualidade da programação da TV brasileira – recebeu inúmeras denúncias de organizações sociais feministas e ligadas a comunidades negras.As denúncias recebidas acusavam o entrevistado e o entrevistador de manifestação de preconceito racial, especialmente em forma de ironia. Durante o programa, o entrevistado buscou relacionar o penteado das mulheres negras de Angola com as suas vaginas. As denúncias também acusam o programa de fazer alusão à pedofilia.A procuradora dos direitos do cidadão do MPF do Rio de Janeiro, Márcia Morgado, é a responsável por averiguar se realmente houve desrespeito às comunidades negras. O caso está sendo investigado. Radioagência , Vinicius Mansur.

GIULIANI no RIO – por walmor marcellino

Sérgio Cabral sempre foi não-confesso entusiasta do puritano Rodolfo Giuliani (de origem mafiosa), ex-prefeito republicano de New York e hoje candidato à substituição do êmbolo George W. Bush. Alegam amigos (dele, Cabral) que ele foi convertido ao clã Giuliani ao jurar-se na defesa da Guanabara branca contra negros, mulatos, pardos e mestiços da periferia do Rio de Janeiro, geralmente elevados na orografia carioca às moradias com maior descortínio turístico e valorização imobiliária. Mas “Honni soit qui mal y pense”?Seus inimigos, entretanto, afirmam que cretinice e identificação ideológica não têm causa única e certa; assim, esse “patife ilustre” fez carreira no PMDB carioca como poderia ter escolhido outro partido semi-ideológico qualquer; se o importante era ocupar o vazio ético no Rio ante um perfeito Democrata (digo, do PFL), prefeito César Maia.Ninguém deu a notícia por falta de provas objetivas, porém coincidências tantas comprovam o fato: sabíamos que Rodolfo Giuliani, o famigerado nazista ex-prefeito de Nova York, tem idéias ultraneoliberais e assim seus simpatizantes na América Latina como na América latrina. Ficava evidente que se nossa “imprensa livremente democrática” tem em George W. Bush seu ícone republicano-liberal, por que não em Giuliani, que conseguiu prender, arrebentar e matar negros, “chicanos”, latinos e pobres, fazendo “justiça” com as próprias patas; ajudando a depurar a cidade de New Amsterdam e os Estados Unidos da americana cidadania de segunda classe, que hoje corresponde a dois terços da cidade e daquele grande país?A intelligentsia que cerca Sérgio Cabral (Jr.) recomendara-lhe o golpe de mestre: “importe a filosofia e as técnicas suasórias de Rodolfo Giuliani antes que o “bandleader” Rodrigo Maia o recomende e o “gauleiter” (pai) César Maia o faça. E mesmo o Lulinha Paz e Amor não terá objeções, uma vez que, sendo neoliberal de esquerda, reconhece na direita o direito à boa convida e sobrevivência vasta; e daí ficará tudo ao par.Passim essa unanimidade ideológica no combate à exclusão social por vias diretas foi um passo. A sociedade brasileira viu e  acostumou à “blitzkrieg” contra os sudetos, os combros e escombros das moradias em morros cariocas. Apenas passaporte carimbado por país desenvolvisto, comprovação de moradia regular no asfalto e renda superior a US$ 120,000.00 a/a. garante imunidade ante as SA (digo, grupo tático móvel) de Sérgio Cabral. Convenhamos, foi assim que Cabral descobriu o Brasil; na marra. E quem souber que conte outra.

O QUE É O SISTEMA? – por maurício gomes angelo.

Aviso aos navegantes (engraçado como esse termo soa apropriado): Este artigo não têm nenhuma pretensão de entrar para o hall das reflexões humanas mais complexas da história e nem de ser o guia político mais completo que se tem notícia, ele visa, de um jeito descontraído e palpável, tentar compreender melhor o que é o “sistema”, você sabe o que é o sistema?Quem está minimamente ligado com o mundo da leitura (seja a literatura propriamente dita, textos, contos, crônicas, artigos, jornais, revistas, sites…) ou mesmo quem tem pouca intimidade com ele sempre se depara com uma palavrinha enigmática: sistema. Não simplesmente sistema. Mas “o” sistema. O sistema é tratado como um deus, uma entidade soberana, onisciente, de imenso poder, uma entidade que rege a vida de toda a população mundial. Ás vezes, o sistema é tratado por um heterônimo: a máquina. São, no fundo, a mesma coisa. Pois bem, o sistema é alvo de toda investida que se julgue válida e reacionária. É o culpado por tudo. Não sabe a quem culpar? Culpe o sistema. Embora possa soar vago e incerto, você certamente será visto como alguém culto e consciente.Falar sobre o sistema se tornou algo tão natural e rotineiro que me parece que ninguém nunca pára pra pensar no que é realmente o sistema ou espera que todos deduzam e saibam o que ele é. Esquecem-se que nada é tão traiçoeiro quanto o óbvio. Para desvendar melhor esse “óbvio” resolvi pensar a respeito. A reflexão a seguir foi elaborada em forma de “faq” (frequently asked questions – perguntas feitas freqüentemente). Pensem e divirtam-se.O que é o sistema?Podemos responder essa indagação de várias maneiras. Poderíamos dizer que o sistema “é tudo que está á sua volta, tudo que foi criado ou que existe e que te mantenha inserido dentro dele”. O sistema é, em suma, o mundo em que você vive (ou pelo menos o mundo em que você acha que vive ou tenta viver). O sistema se manifesta sob diversas formas. Ele é o mundo regido pelas leis e regras (sejam físicas ou morais), é também produto direto das instituições governamentais.Mas ele não se resume a algo concreto, de fácil definição ou limitado. Ele pode ser o conjunto de conceitos éticos que seus pais lhe ensinaram durante sua vida e pode ser também a guerra. Ele pode ser o mendigo da esquina ou o sultão bilionário da África. O garoto tomando sorvete ou o pai se embebedando com whisky. O político de cara lavada da tv ou o militante de extrema esquerda. Englobando coisas as quais não podemos reivindicar a criação, o sistema é tudo que nos diz respeito. É a indústria, o governo, os meios de comunicação, as escolas, as universidades, os parques, a religião, a família, o individuo, a sociedade. É o prazer, o amor, o pecado, a dúvida, a retidão, o ódio, a indiferença. É o passado, o presente e o futuro. Tudo isto é o sistema. Ouso dizer – sob todas as implicações que isso traz – que ele é imortal.Quem criou o sistema?Nós. Eu, você, seu pai, sua mãe, Maquiavel, Lênin, Hitler, Darwin, Buda, Jesus…a partir do momento em que passamos a existir ou nos manifestar de forma racional e organizada na terra. Quem o criou fomos nós. Os seres humanos.O sistema é mau?Não. O sistema não é necessariamente mau. Como ele é ambíguo e se manifesta sobre mil formas diferentes, sua natureza não pode ser considerada essencialmente má. Ele não é um demônio superpoderoso sugador de almas humanas. Pelo menos não na maior parte do tempo.Então porque é feita tanta propaganda para que o sistema seja combatido?Simples meu caro. O sistema não é todas as suas definições explanadas acima manifestadas sob sua forma original, pura, inócua. Mas antes, são elas transmutadas, manipuladas, centralizadas e controladas na maior parte das vezes sob interesses maléficos. Ou então, é a inversão desses valores tratados de forma natural, maquiados para que pareçam aprazíveis, confortáveis e sedutores ao gênero humano. E logo se tome consciência disso, torna-se natural concentrar os esforços para que ele seja exposto e destruído.Hummmm…e como eu faço para destruir o sistema?Uma bela forma de combater o sistema é sendo poeta, escritor, pintor, jornalista…etc. Mas isso são substratos incertos e instáveis que estão em minha mente e não devem ser levados como regra. Se você não possui o talento ou aptidão para alguma das coisas acima, comece por sendo apenas você mesmo. O sistema odeia quem consegue ser ele mesmo. É o que ele mais teme. Seje sociável mas anti-social. Aberto mas individualizado. Generoso mas egoísta. Maleável mas cético. Compreende?Como eu me insiro no sistema e que implicações tem a sua destruição?Você não é algo à parte do sistema. Você está completamente inserido dentro dele. Você nasce nele, com efeito, você É o sistema. Mas um belo dia (se tudo conspirar para isso e você ajudar) como todo bom filho revoltado, você se rebela contra o sistema. Você renega a si mesmo, a sua origem, você não quer mais permanecer sob o jugo do papai. Você, na condição de “sisteminha”, de ramo da árvore, de elo na corrente, aponta o dedão para a cara do papai sistema e o rejeita. Faz juras de ódio eterno e se desprende prometendo se vingar. Toma consciência de todo o tempo que passou sendo enganado. Começa aí a sua vendetta. Seu primeiro ato será procurar “sisteminhas” revoltados iguais a você. Ser o sistema e estar fora dele é um profundo ato de duplipensamento. É o duplipensar em sua forma mais pura. Destruir o sistema – sob o aspecto totalitário e idealizado que a expressão carrega – não é possível. Podemos no máximo reunir e estabelecer contato com o maior número possível de “sisteminhas” revoltados e daí, minando sua força e campo de atuação, tentar criar um “outro mundo”, criar um outro sistema sadio, independente e crítico esforçando-nos para que a sua influência consiga “resgatar” outros “sisteminhas” ludibriados, fortalecendo-nos para encarar a guerra com “o” sistema.Isso não é combater utopia com distopia? Não é uma analogia da eterna guerra entre o bem e o mal?Nossa intenção, e quando digo nossa, refiro-me aos “sisteminhas revoltados” que a partir de agora serão chamados de “inmassa”. Pois bem, a intenção dos “inmassa” não é combater um mundo falso, podre e cheios de regras ditatórias com um outro mundo recheado de leis e regimentos duvidosos, não é criar duas frentes de batalha que guerreiem em segredo, não temos pretensão nenhuma de dizer o que é “bom” ou o que é “mau”. Mas antes, é quebrar parâmetros (e não estabelecer nenhum), destruir conceitos enraizados e levar o ser humano ao seu mais alto desabrochamento enquanto indivíduo. O resto, o florescer da cultura, do pensar, do senso crítico, virá naturalmente como conseqüência de sua independência em relação á máquina. Para todos os efeitos, e aos olhos dos tolos, não temos objetivo nenhum, partindo do principio de que nossa subsistência e desenvolvimento não depende dele.Como podem ver, o sistema, por trás de toda sua pseudo-imponência e de suas barreiras impenetráveis, é fraco, é pobre, quebra-se com facilidade, não resiste ao mero despertar de um único individuo. Pesa contra ele sua própria natureza, seu próprio instinto assassino. Quem sai, nunca mais quer voltar.Aos “inmassa” velhos de guerra e aos recém-convertidos, minhas saudações e meus cumprimentos, minhas boas vindas para se juntar nesta nossa luta silenciosa, dolorosa e mal reconhecida contra ele, o inimigo, o supremo mestre de tudo que nos antagoniza, o sistema!

EXÍLIO – poema de manoel de andrade*

Não conhecias esse reino
essa cidadela de detritos, pressentimentos e punhais
essa arquitetura vertical, opaca e silenciosa
essas casas que não falam
esse outono permanente
esse calendário de incertezas
esse abismo se adentrando pelo tempo
suas sombras soluçantes
seus indiferentes passageiros
e esta penumbra de tarântulas, teias e domínio.

Vinhas dos litorais do sul
de caminhos claros e águas transparentes.
Convivias com a linha do horizonte
e o encanto assobiava nos teus lábios.
Vinhas dos diálogos calorosos
de gestos francos e de sonoras vizinhanças.
Agora aqui estás…a suportar a inconsumada infância
teu cálice e tua sede
tua âncora enterrada nas areias da saudade.

Desterrado do teu mundo mais real
caminhas com cautela nesse mapa do espanto
avançarás, contudo…à revelia das perplexidades, avançarás…
na labareda dos teus gestos, avançarás…
avançarás e contudo avançarás sabendo que essa existência é o teu exílio.

Exilado pela violência diária e planetária

pela sorte desigual das criaturas
pelo desamparo que suplica em cada esquina.
Exilado pela audácia da maldade
pelas sombras que espreitam os teus passos.
Exilado pela desesperança dos povos oprimidos
pela agenda ensangüentada dos vencidos
e por saberes que há um homem-bomba programado pra explodir.
Exilado por uma mídia alienante
pelo varejo desse shopping global que é o mundo
Exilado pelos falsos criadores da “beleza”
por essa passarela de desfiles e aparências
exilado por esse hedonismo insinuante
e pelo estupro público da decência.
Exilado pelos trustes e a tirania da cultura
pelo marketing da irreverência e do deboche
e por essa satânica sonoridade.
Exilado pelos códigos da impunidade
pela fisiologia plural da corrupção
pela cínica retórica do poder
e pelo odor insuportável das nossas “eminências”.
Exilado numa Terra devastada
na agonia que bóia sobre as águas
e no martírio da seiva incendiada.
Exilado por que não tens escolha
por que um átomo de urânio poderá aniquilar-te
exilado porque todos somos responsáveis
exilados pela impotência ante a fome e a miséria do mundo.
Exilado como tantos outros anônimos exilados…
exilados como tu, no recinto sincero e inegociável da consciência.
Mas tu não viverás no minguante
porque teus olhos não conhecerão a mortalha
e porque a eternidade não é uma fantástica charneca.
Por que tu habitas o território indevassável da beleza
e a poesia é a tua fonte sonora e transparente
a tua voz de prelúdio e sinfonia.
Água e linfa é o teu canto
e é relva, é caule e é semente
é o teu lírio solitário, teu delírio
tua senha inviolável para o encanto
tua militância e o teu despojamento.
É o teu amor maior
porque é o teu peixe e o teu pão multiplicado
o teu abraço solidário de sobrevivente
teu incessante garimpar
uma alquimia é o teu cantar
panacéia, ambrosia, ‘a palavra essencial’
o teu mais doce idioma e o teu deslumbramento
teu porto, tua rua, tua praça principal.
É o teu sonho sempre vivo e navegante
um albatroz voando sobre o mar,
nas asas peregrinas da esperança,
ontem, hoje e sempre a navegar.

*poema do livro “Cantares” editado por Escrituras.

INSIGHT – poema de joão batista do lago

Trabalhe o homem sua loucura
Entregue à sua bravura do
Enternecer-se na violência candura
De miseráveis vidas.
Distantes da vida,
Sufocados pelo silencio do
Nada ser diante de si;
Encontro de eus sem o ser.
Ser que é nada,
Quando divaga sua loucura
Na ternura do seu ser!
Ser que de mim o é
Apenas violência candura da
Eterna magia de toda loucura!

INVENÇÃO DE S – conto de luis felipe leprevost

Como é S? Como você gostaria que fosse? Como eu acredito que ela deva ser? E como é que S gostaria de ser?

É daquelas que nas ruas e supermercados encara os homens? Não. Ou somente com discrição. Mantêm na maioria das vezes os olhos baixos. E tem um profundíssimo olhar de peixe de recônditas águas frias, de túneis de neblinas densas, de silêncio sentimental olvidado em si mesmo.

Porém os homens miram a todo momento a silhueta de S. No entanto, só aqueles que procuram mulheres não vulgares. S não é das que chacoalham as ancas às insinuações e assobios, galanteios e frases de efeito para popozudas de plantão. Ô lá em casa, se você quer saber, é um exemplo de tais frases, entusiasticamente utilizadas por pedreiros, entregadores de panfletos, taxistas e motoristas em geral.

Com S é diferente, ela se guarda, não com recato, senão porque há alguma vocação em S para a sabedoria. Invento eu suas vocações. Invento se é sábia ou não. Invento, sem pudores, uma S semelhante à musa que era tão cheia de pudor que vivia nua. Invento. Desenho S com tintas humanas. Não, é S quem me desenha.

Envio S para longe? Ou ela é que permanece em mim lá onde sou estanque, sangue coagulado?

S não é alta, se você quer saber. Deduzo que estudou balé clássico em remota época do colegial, dada sua postura retilínea.

S tem maçãs no rosto, não avermelhadas, em verdade, um tanto pálidas. O rosto é bem desenhado, boa geometria. O seu narizinho é quase implicante. Alguma semelhança com Dorothy Parker na flor ferida de sua beleza. É um nariz levemente arrebitado, pequenino. Narinas que lançam pouco ar para fora. Os lábios são menos que grossos, mais que finos, mais que asiáticos, menos que africanos.

E a voz de S? Turva, soprada, diria, nem grave nem aguda. É uma espécie de voz recém amanhecida.

S fuma? Fuma. Socialmente. E quando é acometida por stress, quando se sente pressionada ou acuada. É elegante o modo como fuma. Os lábios, a maneira como contornam o cilindro queimando. Não há nada de pornográfico em S fumando. Erótico, talvez. Sensual, sem dúvida, mas ainda assim respeitando as particularidades de sua timidez e da meiguice de suas características.

S executa ações de esmagar o toco no cinzeiro, de soltar para cima a nuvem de fumaça, como fossem acontecimentos displicentes quando intimamente foram estudados.

S abre vez ou outra a bolsa pequena e preta, sem alça e de coro, e tira de dentro um tablete de Halls Preto, e mastiga a bala como nalgum piquenique à belle époque.

S é aquela espécie de mulher que de uma hora para outra te crava os dentes na goela quando você menos esperar. Assim é que comprova sua mordedura saudável, com três ou seis obturações em dentes que um dia chegaram a doer bastante. E é agradável vê-la comer.

S tem têmporas adocicadas, bem delineadas pela parceria com a curva do cabelo negro, cortado algo próximo, porém mais moderno, do estilo Chanel, estrategicamente bagunçado.

Assim mantenho o pescoço de S revelado. As costas são lisas, mas com algumas pintas, menores e maiores, porém sem nenhuma mancha. Que magníficas costas, eretas, simétricas. Paralelas são suas omoplatas. À orla de sua cintura há carnes apalpáveis, conhecidas graciosamente por pneuzinhos.

E os seios? Túrgidos. Nem um pouco afobados dentro do soutienzinho. Talvez eu exagere em relação ao soutienzinho, afinal não são mínimas azeitonas os seios de S. Bolinhas de tênis, talvez, levemente derretidas em fogo brando, e açucarados, delicatessen. Aliás, não são seios, são peitos, peitinhos de medida e envergadura beirando a perfeição.

E o que mais? S não é radiosa, não obstante, o que há de opaco nela é, justo, o que provoca fascínio. Tem ossos leves, e uma pele sem excesso de colágeno. O Paraíso é uma fragrância. Sempre cheirosa é a minha S, com a lavanda que casa perfeitamente em seu suor nem tanto salgado.

S não é de usar vestimentas pesadas, de difícil despir. La Maja Desnuda, sempre veste jeans da marca Levi´s, com suas misturas de índigo e lycra. Blusinha de algodão, e casaquinho de lã por sobre o ombro em caso de sereno. E lá na extremidade inferior de seu corpo, envolvendo pezinhos que são folhas sem peso, S calça indefectíveis sapatilhas.

MIOPIA DE INFORMAÇÃO – de adilson luiz gonçalves

A miopia é um distúrbio bastante comum no ser humano. Não sou oftalmologista, mas, na qualidade de míope, desde os onze anos de idade, aprendi que existem, basicamente, duas formas de resolver esse problema: uso de lentes corretivas ou cirurgia. Quem não optar por uma das duas, dependendo do grau da anomalia, não conseguirá enxergar direito à distância, e precisará que alguém lhe diga o que vê. Se essa pessoa for bem-intencionada, auxiliará da melhor forma possível; mas se for de má índole…
As coisas são mais ou menos iguais quando se trata do ato de informar, qualquer que seja a mídia: a imagem que vemos ou a informação que recebemos pode ser absolutamente verídica, mas, se o contexto for omitido, poderá ser leviana ou intencionalmente tendenciosa. Explico:Vivi cerca de um ano na França, na década de 1980. Afora os jornais e revistas – que lia no consulado brasileiro -, e correspondências e telefonemas esporádicos, eu sempre aguardava alguma notícia ou imagem do Brasil, pelas emissoras de televisão locais. Só tive sucesso em cinco oportunidades:Primeira: Um jornalista francês entrevistou o magnífico ator Grande Otelo numa espelunca carioca, patética. O entrevistado estava visivelmente alterado e mal conseguia responder às perguntas. Qual era a intenção do entrevistador? Curiosamente, uma das mais cortejadas e controvertidas personalidades artísticas francesas da época: Serge Gainsbourg – mais conhecido como autor da música “Je t’aime” -, comparecia a todos os eventos públicos: embriagado, mal-vestido, falando palavrões e fumando um cigarro atrás do outro! Segunda: Numa reportagem sobre os “bóias-frias” dos canaviais brasileiros, as cenas de pobreza e trabalho árduo eram entrecortadas com imagens de um empresário desconhecido, elegantemente trajado, num suntuoso escritório de um edifício paulistano, exaltando a pujança do mercado de açúcar e álcool. Em compensação, o governo e a alta sociedade parisiense execraram o humorista “Coluche”, quando este implantou, com o apoio de outros artistas famosos, os “Restaurants du Coeur” (Restaurantes do Coração), destinados a oferecer calor e alimento aos sem-teto da capital francesa, que, descobriu-se, não eram poucos! Terceira: Um comediante francês veio ao Brasil, especialmente para cobrir o Carnaval. Deu ênfase exagerada à nudez das passistas! Alguém, aí, já ouviu falar do Carnaval de Nice? Que o “top-less” é praticado sem problema nas praias francesas? Já passeou em Pigalle? Quarta: Jorge Amado recebeu uma homenagem da Universidade de Aix-en- Provence. Sua obra era considerada como “retrato fiel” do Brasil! Por analogia: ele estava, para a França, como Carmem Miranda, para os EUA. Mas somos todos como os personagens de Amado ou usamos mangas bufantes e chapéus de frutas, como Carmem? Quinta: A Copa do Mundo de 1986.Todas eram, parcialmente verídicas, mas, qual poderia ser a imagem dos franceses sobre o Brasil a partir dessas informações? Qual o real objetivo dessa “miopia informativa”? Nós somos assim ou é assim que querem que sejamos vistos? A informação é um bem de valor inestimável! Deve, portanto, ser fornecida com idoneidade e responsabilidade, pois, um boato, uma meia-verdade, uma leviandade ou uma intriga pode desestabilizar governos e países, deixar mercados “nervosos”, além de provocar desemprego e morte. Será que polêmica e notoriedade pessoal valem esse preço! Além disso, depois do “estrago” feito é difícil voltar atrás. Na maioria dos casos, não há retratações formais, direitos de resposta ou indenizações pecuniárias que compensem os danos provocados! E não adiante culpar a “fonte”, pois é de responsabilidade de quem vai a ela verificar se é “potável”, ou melhor, “pautável”! Um antigo programa humorístico de rádio, num de seus quadros, representava uma emissora interiorana, que usava o seguinte bordão: “- Quando num tem notícia, nóis inventa!”. Para alguns maus jornalistas – e maus profissionais existem em todas as profissões! – isso é norma e meio de vida. Infelizmente, há quem lhes dê crédito, financiamento e cumplicidade; e não são apenas os tablóides sensacionalistas… Mas para quem acredita que a imprensa deve estar a serviço da democracia está claro e nítido que ela precisa ser como uma lente corretiva para a sociedade. Deve estar a serviço da verdade, pela verdade e para a verdade, sem tutelas ou patrulhamentos! Se não o fizer ela não passará de mais um elemento de manipulação, manutenção ou agravamento dessa “miopia”, a serviço, quase sempre, de interesses escusos! Viva a liberdade de expressão! Mas viva também a idoneidade, a responsabilidade e o compromisso com a verdade, de quem a exerce!

O SUBPENSAMENTO VIVO de marconi leal

O crítico literário é o único bípede autotrófico de óculos de que se tem notícia: alimenta-se do próprio ego. Seu habitat artificial são as mesas de discussão, as noites de autógrafo e outros ambientes inóspitos. Tem o corpo dividido em língua, tronco e membros.
*
Que nós temos ínfima importância nos planos divinos e possuímos a única missão de reproduzir, eu sei. O que me deixa indignado é que Deus faz tão pouco caso da nossa espécie que nem ao menos se digna a explicar por quê.
*
O único mérito da sociologia, a meu ver, foi ter impulsionado o comércio de boinas.
*
O diabo não é páreo para Deus. Trata-se de uma criatura ainda muito humanizada. Em termos de mal absoluto, aposto mais nos vilões de telenovela.
*
Deus está em tudo, é verdade. Mas confesso que gosto mais d’Ele quando vem em cápsulas de 20 mg de fluoxetina.
*
Não é que Deus não exista. Você é que jejuou pouco.
*
Sou agnóstico, com alguma — pouca — propensão à crença. Isso, se a televisão estiver desligada.
*
Não tenho aptidão ou habilidade para coisa alguma. Qualquer dia, em nome da sobrevivência, serei forçado a abraçar a carreira de artista plástico.
*
O mínimo que se espera numa relação é reciprocidade. Eu até acreditava em Deus. Mas que posso fazer se ele é ateu?

POEMA – de carolina correa*

(……………..)
Me dá um charuto
Let me smoke my life away
Olhe nos meus olhos
See the flame growing?

O que? Não tá bom?
Tôo bad, his is how i’m gonna live my life
Posso querer agora, amanhã desprezar
I just discovered my own world.

Romance, terror, comédia…
Why is it that I see it all with the same eyes
Mas as minhs diferentes reações é o que me altera?
It’s all imagination.

Te olho, te vejo, te sinto, te experimento
But are you really there?
Será que tirei os meu pés do chão por muito tempo?
Or is it reality that blinds me?

Não ouse duvidar de minhas inseguranças!
Got fire?
Inspire, expire, vai dar tudo na mesma merda
Just fuckin’ light my cigar please

É assim? Vira as costas e vai embora?
Hey! What the hell? Get yourself a drink…
Porque pensar?
Are you in a hurry to live your poor life…just waste it off faster?

Relax meu caro
Look at yourself in the mirror ‘till you get tired of your pathetic face
Pra que pressa?
Just listen o yourself, do what you like

Eu sei, eu sei. Ta todo mundo olhando né?
Hey! Some advice!
Pega uma bebida, cata uma mulher
And just hope the night never ends!

Agora, se você me dá licença,
My plane leaves in half na hour
É! Vou para Las Vegas!
Isn´t it that: What happens in Vegas, stays in Vegas?

Onde olhos não me incomodam
Where time is infinite, and day and night are party boys.
Tá afim? Aparece por lá
Oh! Pay the bill please, and put my cigar out….
Don’t even like ‘em.

*carolina correa, 17 anos, faz parte do grupo de novos autores do blog.

ARTESÃO das PALAVRAS – poema de cláudio ribeiro

Sou por essência um “ajuntador” de palavras
Nada mais do que ajuntar palavras aqui e ali
Substantivas, verbo, adjetivas.
Dou-lhes ritmo e as faço dançar no tempo
O pulsar da palavra é verbo
Mas viva e vital sua condição adjetiva
Embora a verdade seja substantiva
É no devanear que teço imagens
Filtro emoções e reconto a vida
Por teimosia ou sina
Vou guardando elementos vários:
Lua, flor, árvore, tristeza, água, alegria, mar, dor,

amor
E levado por força persistente
Sacudindo poeiras da subjetividade
Em seus elementos substanciais
Com permissão de tudo sem o certo ou errado
Construo pontes entre futuro, hoje e passado…
Vou pintando cores, ajustando tamanho
Harmonizando em versos
Minhas impressões, minhas intimidades
Cismar e rimar
Marcas do fogo humano que arde dentro de mim

PUNGA – poema de clara cuevas

Querem comprar meu silêncio
Com promessas baratas
Pessoas mesquinhas
Com problemas menores
Com cabeças menores
Com valores menores
Querem ganhar minha fala

Querem roubar minha vez
Sem técnica nem prática
Sem teoria, sem didática
Querem que eu suma
Querem que eu aprenda
A ser apenas mais uma

Querem que eu finja
Querem que eu faça
Calhordas! Mantidos
Por porcos bandidos
Por falsas gravatas
De seda barata
Por luxo, por sede
Papel de ouro verde

Querem que eu cale
Na falta de votos
Na escassa vitória
Dos fracassados natos
Querem que eu me acostume
Com o escárnio do mundo
Com a invalidez dos cegos
Que não querem ver

Quero que morram todos
Um por um!
Enforcados na própria gravata
Sufocados pela moeda cretina
Comidos pelas baratas e
Pelas próprias doutrinas
Quero que sejam banidos
Pela piedade divina
Mas antes disso repudiados
Pelas justiças da vida.

O TAO do TRIO – convite

FÚRIA

sobre o casamento



o fardo do casamento é tão pesado que precisa de dois para carregar – às vezes, três.



alexandre dumas

PODER IDEOLÓGICO e CONSCIÊNCIA POLÍTICA – de gercinaldo moura.

O poder não é algo que existe objetivamente, é fruto de uma relação de consciência. Neste meio existem aqueles que consolidam esta relação inconscientemente, chamados de “analfabetos políticos” e aqueles que pensam na mudança, os chamados “conscientes políticos”. Nenhum dos dois poderá mudar a sociedade com suas ações, mas o segundo poderá com sua consciência.

Um poder, seja ele de qualquer natureza ou exercício, se revela na expressão de um coletivo que atribui a um indivíduo a função de exercer um serviço para este povo. Este é o princípio que norteia a Constituição Federal com a expressão: “Todo poder emana do povo para em seu nome ser exercido”. Portanto esse povo é o seu patrão, que paga inclusive o seu salário por este serviço. Aí se insere a idéia de poder como relação e não como algo natural.Portanto, o poder não existe objetivamente, não pode ser encontrado em algum lugar ou como se fosse um objeto. Ele é fruto de uma relação ideológica entre os indivíduos de uma sociedade. O poder político, por exemplo, constituído através de um mandato, existe porque uma parte da sociedade o atribuiu a alguém. Mas não é o voto que foi escrito em uma cédula ou registrado em um computador que dará este poder ao político. O voto, através de uma eleição, é apenas uma simbologia que formaliza as organizações do sistema de estado convencionado pela sociedade. Se fosse ele (o voto) que de fato desse poder ao político, era suficiente rasgar as cédulas ou destruir o computador para interromper o poder. Todavia o poder existe, e agora como algo concreto, consolidado numa consciência que assumimos que atribuído empodera um político (ou qualquer outra situação de poder: militar, empresarial, etc.). Neste caso o presidente é presidente, como os demais políticos são políticos, porque nos (a sociedade) assumimos a consciência de que eles o são. Portanto é o nosso pensar, a nossa consciência que constitui o poder de alguém. Isto quer dizer que somos nós (a sociedade) que decidimos quem tem poder, portanto, decidimos quem vai ser político, até quando terá mandato político, inclusive quanto deverão ganhar. Portanto, decidimos a vida dos políticos. Os interesses da pequena parcela que domina a sociedade (os políticos) exigem imperiosamente que ignoremos este postulado e até cheguemos a pensar que o poder é algo natural, ou seja, quem tem poder tem, porque “já nasceu com a estrela na testa”. Isto garante a possibilidade de uma relação de injustiça e desigualdade, mas de forma harmônica, pois, por este pensamento, o poder trata-se de uma providencia divina ou conseqüência da própria natureza. Isto pode explicar a necessidade de se cultivar o “analfabetismo político” em nossa sociedade. Aquelas pessoas que não sabem que a garantia de escola, saúde e emprego não são gestos de boa vontade, são obrigação do governante e direito do povo. Assim como também não sabem que o preço da sua comida, a possibilidade de seu emprego e o valor do seu salário dependem das decisões dos políticos. Ainda mais: inverte-se no contexto social, por conseqüência deste “analfabetismo político”, o verdadeiro papel dos envolvidos nesse circulo político ideológico. O político que necessita do voto do eleitor não parece ser quem está pedindo e o eleitor que dá o voto ao político, não parece ser quem tem para dar. Esta é uma relação que precisa ser alimentada para ser mantida a lógica do poder ideológico. O maior castigo para estes que não se interessam por política é que serão governados por quem se interessa, como já previa Arnold Toynbee. De qualquer modo é preciso saber que quem decide a vida dos políticos somos nós mesmos, como somos nós que fazemos nossa História e que podemos construí-la de acordo com nossos interesses. Mas isso não pode ser entendido como resultado apenas do fato de termos votado em alguém. Até porque a História contemporânea nos mostra que mesmo tendo votado consciente muita pouca coisa ou quase nada mudou. Poderíamos então dizer que o eleitor consciente não é aquele que apenas vota, mas o que acompanha o mandato do candidato que se elegeu. Mas a partir daí iniciamos uma outra questão: Como acompanhar o trabalho dos políticos que votam secretamente aquelas decisões quando lhes são convenientes o segredo? Isso pode revelar que a distancia que separa o “analfabeto político” do “consciente político” não é necessariamente o efeito de sua atitude frente a um momento de decisão política, mas o efeito de uma consciência numa perspectiva Histórica, que poderá transformar a sociedade, que nem um nem outro conseguira alcançar fisicamente, mas as gerações de um futuro, que poderia ser nós, se a do passado tivesse assim pensado. Em verdade, todo o poder emana do povo, muito embora pouco dele em seu nome seja exercido. Contudo, podemos decidir nossa Historia, fazemos a nossa História, porque se a política decide nossa vida, nos decidimos à vida da política e consequentemente dos políticos

EU GOSTO DE APANHAR NA CARA – conto de luciel ribeiro.

Desde que eu era apenas uma adolescente, eu já sentia o prazer de levar um tapa bem dado na cara. Nada me dava mais prazer, do que desrespeitar meu padrasto, e sentir sua mão pesada em meu rosto. Não sei por que sou assim, gostar de apanhar, nenhuma mulher que conheço, gosta de apanhar, nem mesmo aceitam que gritem com elas. Eu amo violência doméstica, entre quatro paredes, gosto de chegar a sangrar. Passa longe de masoquismo, sou uma mulher doente por apanhar. Não gosto de apanhar de chicote ou tapas, gosto de levar socos na boca, no olho, de ser atirada na parede, de levar chutes. Me recordo da primeira agressão que sofri ao treze anos. Depois de chegar tarde da noite em casa, meu padrasto veio tirar satisfações. – Não lhe interessa seu velho – respondi sem olhar para as fuça dele. – É assim que você responde para seu pai – disse ele. Eu voltei e fui até em frente dele e respondi – Você nunca vai ser meu pai, velho!A esbofeteada em minha cara foi tão forte quanto instantâneo, cheguei a cair no chão. Ele virou as costas e voltou para o quarto de minha mãe. Fiquei caída no chão com a mão em meu rosto. Sentindo o sangue arder. Em vez de sentir dor, afirmo que sentir e prazer e passei a rir. Depois desta primeira agressão, outras aconteceram. Cada vez mais freqüente, quase todos os dias. Toda vez que estava na presença, a sós com meu padrasto, eu dava um jeito de deixá-lo furioso comigo.Quando ele assistia jogo, eu mudava de canal, ficava horas no banheiro, chamava ele de velho, ele odiava esse apelido. Ele tinha cabelos brancos, mas pintava-os de preto regulamente, para não dar nas vista que era um velho. E nada me dava mais alegria do que chama-lo de velho e logo em seguida receber uma boa esbofeteada na cara. Passados alguns anos, ele nem me dava tapas, mas sim murros. O ódio dele só aumentava na mesma proporção do meu prazer em apanhar.Quando não se enfurecia comigo, eu o incitava a me agredir.- O que aconteceu velho pintado, não vai me bater hoje, ou será que já não tem mais força pra isso – dizia a ele. As bordoadas vinham ferozes. Eu não vencia em comprar maquiagens para disfarçar os hematomas. E não me cansava de arranjar desculpas para minha mãe sobre os olhos roxos, boca inchada e coisas do tipo. Brigas na escola, boladas na cara na aula de educação física, quedas na calçada, e todas essas bobagens que as meninas arrumam para enganar a elas mesmas. Quanto estava na presença da minha mãe, e meu padrasto estava perto, nós dois éramos cúmplices das agressões. Ele não falava a minha mãe que eu o desrespeitava, e eu não falava que ele me batia.O Tempo passou, e meu padastro realmente ficou velho, e muito fraco, sofria de problemas cardíacos, até que um dia sofreu um enfarte.O último suspiro que ele deu, foi depois dele ter me batido como nunca havia me batido antes. Aquela noite foi a última. Ele começou a me esmurrar contra a parede, e quanto mais ele me dava socos, mais eu dava risadas e o chamava de velho fraco e desprezível. Minha boca sangrava, e sentia o meu olho inchando, de repente, ele ficou ofegante, não conseguia respirar, ajoelhou-se no chão e pedia me ajuda. Eu me sentei encostada na parede do meu quarto, e fiquei olhando o meu padrasto agonizando seus últimos momentos de vida. Não podia conter um sorriso em minha boca ensangüentada.
– Cadela, filha da puta – foram as últimas palavras daquele velho.
Hoje sou uma mulher casada, tenho dois filhos. Mesmo assim gosta de violência. De Apanhar na cara.Quando namorava Ricardo, ele era um homem amável e sensível. Sempre me dizia coisas bonitas e carinhosas. Mas faltava algo na relação. Faltava violência. Eu sentia falta de apanhar. De levar uns belos murros na cara. Para incitar violência em Ricardo, fiz o que deixa qualquer homem furioso.
Traição. Foi o que eu fiz.
Era terça-feira, Ricardo me ligou perguntando se eu gostaria de sair. Respondi que estava com dor de cabeça.
– Tudo bem então, quando você estiver melhor me liga – falou Ricardo, com aquela voz de anjo de sempre. Em seguida liguei para Josias, um cara que sempre foi afim de mim, e marquei um encontro em um bar. Encontro marcado, tratei de ligar para Solange, minha melhor amiga, e mandei ela ligar para Ricardo, falando que eu estava na bar com outro.No bar, tive que ficar enrolando o Josias até que Ricardo chegasse. Quando Ricardo entrou no bar, e me viu sentado na mesa com Josias, passei em cima da mesa, derrubando uma garrafa de cerveja e dei um beijo em Josias, e fiquei grudada nele por um bom tempo. Parei de beijar Josias e olhei para ver onde estava o Ricardo. Para minha surpresa, ele tinha sumido.
– Este foi o melhor beijo da minha – falou Josias.
– Eu vou embora – disse me levantando.Josias me agarrou pelo braço.
– Você não vai há lugar nenhum.
– Me solta Josias – gritei com ele. Mas não sei o que houve que Josias me agarrou e tentou me beijar outra vez.
– Você vai ter que dar mais um beijo, está pensando o que sua cachorra – gritou ele.Uma garrafa atingiu em cheio a cabeça de Josias. Era Ricardo. Josias colocou as mãos na cabeça e virou-se para ver quem o atingiu. Ricardo pegou uma cadeira e arrebentou no peito dele. Josias caiu no chão atordoado. Os olhos de Ricardo exalavam ódio e raiva. Quando olhou pra mim, senti até cala frios.
– Dor de cabeça sua vadia – disse ele vindo até mim.
– Qual o problema – respondi a ele.
Ricardo agarrou uma garrafa erguendo rapidamente.
– Agora você vai realmente ficar com dor de cabeça!Quebrar uma garrafa de vidro na cabeça, não foi lá a coisa mais prazerosa que já senti.A pessoa que vi depois do Ricardo quebrando minha cabeça, foi a de um médico, abrindo o meu olho.
– Ela está bem – disse o doutor para outra pessoa – até de tarde, ela já pode ir para casa.Eu estava em uma cama de hospital, em um quarto cinza. O médico saiu. Olhei em volta para ver quem mais estava ali. Era Ricardo, com um buquê de flores.
– Olá Silvana – disse aproximando-se de mim.
– Olá.- Trouxe isso pra você.Ele colocou o buquê em meus braços e depois sentou-se na cadeira.
– Agora sei que me ama! – disse a ele com a dor do meu coração.Depois que sai do hospital me casei com Ricardo. Em nossos momentos íntimos, não usamos garrafas de cerveja, e sim, chicote e algemas.

DANÇANDO SOZINHO – de eric mantoani

Como a globalização ajuda a explicar o relacionamento, a diversão e o desinteresse da juventude.


Pra você ver… A globalização, e isso seria um paradoxo se não fosse característica inerente ao fenômeno, tem a peculiaridade de separar as pessoas e deixá-las apenas próximas de si mesmas, e a juventude vai lidando bem com isso, aprendendo a dançar sozinha. A juventude de outrora ainda não compreende – e nem se esforça para tanto – o porquê de tanto marasmo e suavemente sofre com a nostalgia dos tempos que transpiravam revolução, em que a música, a arte e todo o cotidiano eram batalhas e obras criativas, e tudo tudo inspirava uma reflexão.O jovem hoje é bombardeado por informações e não tem capacidade – e nem deveria – de escolher a melhor oferta e ler a melhor notícia, assim, não havendo um mal maior específico contra o qual lutar, não há uma unidade de pensamentos e ações, e age-se cada um por si, o que explica inclusive a superficialidade dos relacionamentos interpessoais na atualidade e a música eletrônica.Os relacionamentos afetivos agora se dão em forma de experiências, no caráter mais genuíno da palavra. São experiências quase didáticas – mas não necessariamente – porque agora aprendeu-se a pensar, e dar mais lugar à racionalidade. Relacionamentos duradouros cedem menos a racionalidade, e é muito bom que ainda existam, muito embora não se saiba o porquê. – É raro encontrar-se uma resposta, ao indagar ao casal por que um está com o outro, e é positivo não se pensar nisso, para evitar a fadiga.Aliás, aprendeu-se também a não pensar muito para evitar a fadiga, ou melhor, o estresse. Muita informação, muita informação. Isso estressa! E dançamos sozinhos porque ninguém tem as mesmas fontes.Nos negócios, a carência afetiva das pessoas é ainda mais evidente, prova disso é o sucesso da informalidade. Trabalhadores informais têm tido algum sucesso no mercado (e são 98% das microempresas no Brasil, conforme divulgou o IBGE na última semana) porque oferecem aos donos das empresas a quem prestam serviços – e não somente às próprias instituições – uma atenção pessoal, e o contato humano tem sido o segredo do sucesso dos informais, mais um reflexo da impessoalidade dos relacionamentos contemporâneos.Nos tempos em que a tônica era o debate, a discussão e sobretudo o pensamento e a luta coletiva, a música refletia em harmonia, melodia e letra o sentimento coletivo de afinco a uma idéia e a uma revolução, os shows eram em locais pequenos e pra poucas pessoas e os debates atravessavam horas e centenas de idéias, ao decorrer dos tragos. As danças tinham passos definidos e eram a dois.Já hoje, quando a revolução é a globalização e conseqüentemente o isolamento, quando as informações invadem as casas e bombardeiam as mentes através dos muitos e eficazes meios de comunicação, a música não precisa de letra, a melodia não precisa tocar o cérebro e sim relaxar o corpo, fazendo-o dançar descontrolada e desuniformemente, respeitando o individualismo de cada pessoa. Os shows agora são festas, justamente por serem locais de mera diversão e relaxamento, e atraem sempre milhares de pessoas, pois o excesso também é inerente à globalização, e reforçam o hábito de experimentação afetiva e sexual, de relacionamentos distantes, embora constantes, e da sistematização do afeto. As drogas modernas estimulam o corpo e oferecem mais prazer do que relações existenciais com os sentimentos.Uma juventude que em geral trabalha no horário comercial e estuda no horário que sobra, que precisa se reciclar como se fosse o lixo coletado que deve ser reaproveitado para continuar sendo usado e ter sua vida útil prolongada, precisa mesmo de válvulas de escape, e deve mesmo se engajar menos, afinal já tem todo seu empenho empregado na própria sobrevivência, pois já cresceu aprendendo a se safar por si, a ver o seu lado, e tudo converge ao individualismo existencial e ao escape coletivo da diversão – disfarçadamente sistematizado – para evitar os próprios males causados por esse cenário.

MENINO de COR – poema de josé sérgio costa*

Sou defensor de minha raça,
De minha cor, de minha cultura
De meu povo.
Se defendo meu ideais,
É por que cresci sendo chamado de menino de cor,
É por que não tenho mais medo
As ofensas, deixei pra trás
Junto com a recusa e o desrespeito por minha cor.
Se defendo minha cultura,
É por que, como menino de cor
Me tornei rapaz de cor
E hoje sou um homem de cor
É porque sigo de cabeça erguida cantando o ilê aiê.
Viva o negro trabalhador…
Que em seu canto sedutor
Ouve agora o meu cantar.
Se saio agora do anonimato
E sou reconhecido pelo meu nome
É por que conquistei o meu lugar
E enfim serei lembrado,
Mas sempre me orgulharei
De ter a minha cor.

* josé sérgio costa é poeta de Ubaitaba – BA

FIZ O QUE PUDE – poema de paulo matos*

Canastrão mexicano tentando a vida em Hollywood

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Há os que fazem da vida um presente
E os que prezam o que fazem da vida
Uns se dão de presente a guarida
Outros: sonhos. Vivem o presente

Nenhum dos dois tá errado
Basta tentar entender
Uns comem sonhos de creme
Outros: os sonhos lhes dão de comer

*paulo matos é poeta editado pelo grupo EPOPÉIA.

GLAUBER ROCHA e o cinema novo – editoria

Nome: Glauber Pedro de Andrade Rocha
“Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça” . Glauber revolucionou o cinema. Resumindo, mostrou ao mundo a sobrevivência do brasileiro, aquele que luta dia a dia para sobreviver. “Nosso cinema é novo porque o homem brasileiro é novo e a problemática do Brasil é nova e a nossa luz é nova e por isso nossos filmes nascem diferentes dos cinemas da Europa.” Glauber preocupou-se em retratar a vida do povo nordestino, o sertanejo. Mesclava a realidade com mitologia. “No Brasil, o Cinema Novo é uma questão de verdade e não de fotografismo. Para nós, a câmera é um olho sobre o mundo, o travelling é um instrumento de conhecimento, a montagem não é demagogia mas a pontuação do nosso ambicioso discurso sobre a realidade humana e social do Brasil!”O cinema novo lutava por uma causa. Por trás das câmeras, havia uma idéia. A fórmula do folhetim revolucionário, combinando cinema, política e mitologia popular. Dessa fórmula, nasceu muitos filmes, entre eles: Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969).Deus e o Diabo na Terra do Sol , explodiu como uma revelação. Glauber partiu da convulsão e violência da terra sertaneja para chegar à rebeldia pura. Beatos e cangaceiros são os nossos rebeldes primitivos, portadores de uma raiva revolucionária, emissários da cólera da Terra para além de Deus e do Diabo.Glauber usou o imaginário euclidiano de Os sertões, onde a violência, a ferocidade, a fome e a revolta transformam-se em duelo, dança e sobrevivência.Beatos, vaqueiros, matadores de aluguel tornam-se em agentes da Revolução. “Somente pela violência e pelo horror, o colonizador pode compreender a força da cultura que ele explora”. A violência é um desejo de transformação. “A mais nobre manifestação cultural da fome”.O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro , filme popular, comercial, político e ousado, consagra Glauber como melhor diretor em Cannes.Glauber tinha algo de sádico e histérico. “Para explodir, a revolução tem que ser precedida por um crime, um massacre”.O período de 1969 a 1976, ficou fora do Brasil. O que poderia significar o exílio quando “o país chamado Brasil está tão dentro da gente que é impossível sair”. Glauber deixou de vez o Brasil, em 1971, quando a repressão tornou-se insuportável.Foi preso em 65. Seu apartamento é desmontado e revirado pela polícia. Em 67, o filme Terra em Transe foi proibido em território nacional.Em 1970, as prisões e tortura fazem Glauber sair do país. No exílio, realizou seus filmes mais “impopulares” e poucos exibidos no Brasil.O Leão de Sete Cabeças e Cabeças Cortadas são filmes-colagem, com encenação de conceitos e slogans. Glauber define O Leão, como uma tentativa de “alcançar a síntese dos mitos históricos do Terceiro Mundo por meio do repertório nacional do drama popular .De 1971 a 1976, fez uma espécie de peregrinação pelos centros do comunismo e da esquerda internacional: o socialismo africano no Congo ( O Leão), Cuba (História do Brasil), Chile de Allende, Peru de Alvarado, Roma do PCI, Paris dos exilados e guerrilheiros brasileiros.”Estou nos desertos d’Oriente! Meu coração é grande demais! Viajando sem parar pelas rotas fantásticas de príncipes e ladrões e guerreiros: raptando princesas e negociando segredos ao sabor das fumaças e ao som dos tamborim.. Não tem volta! É a felicidade que dói de tão boa “.Casou-se em Cuba, com a jornalista Maria Tereza Sopeña. Tornou-se um militante de organizações clandestinas e produziu o filme História do Brasil. Foi expulso de Cuba, por desentendimentos políticos.Voltou ao Brasil em 1981, seriamente doente, “Não curto essa de ser mártir!”.Glauber Pedro de Andrade Rocha nasceu em Vitória da Conquista, Bahia. Em 14 de Março de 1938, morreu em 22 de agosto de 1982 no Rio de Janeiro.Sua marca no cinema brasileiro é incomparável. Glauber e seus filmes, dividem o mesmo tom: irreverência, ousadia e revolução.”O cinema é, antes de tudo, uma indústria, inclusive se é dirigido contra a indústria.”

A HISTÓRIA PERVERSA do BIQUÍNI – por frederico füllgraf *

Um ano depois do silêncio das armas da 2a. Guerra Mundial, Louis Reard, estilista francês, teve o que a infiltração anglicizante do nosso vernáculo chama de insight: lançaria uma peça de vestuário de encher os olhos com as prendas do corpo feminino: curvas, saliências, altiplanos e vales, preservando, s´il vous plais!, as fagueiras e vaporosas vergonhas venusinas. Discreto, passou madrugadas em vigília, desenhando maquetes de seu invento revolucionário, mas sentiu que lhe faltava um nome forte com apelo exótico. Eis que, em julho de 1946, faltando quatro dias para o lançamento da nova criação, explodem as bombas atômicas “Baker” e “Abel” no Atol de Bikini, centro do Pacífico Sul, e de bandeja os EUA oferecem a Reard o nome que rasgaria a boca do balão, do jeito que as bombas tinham rasgado ao meio o atol – oulalá, la mode du terreur!

Deparei-me com esta estória intrigante anos atrás, durante a pesquisa para o roteiro do telefilme Burning Sand, para o qual tinha entrevistado em Nova York, Antony Guarisco, marine norte-americano durante campanha do Pacífico, e que em 1987 liderava o movimento nacional dos Atomic Veterans. Desde a década dos anos 70 reclamavam reparações dos sucessivos governos em Washington. Reparações pela morte de aprox. 200 mil veteranos que participaram dos testes nucleares entre as décadas de 40 e 60, porque tinham sido enganados, traídos pelas autoridades, forçados a assinar “salvo-condutos”, cheques em branco isentando o Pentágono de “todas e quaisquer responsabilidades por eventuais danos à saúde”. A malícia infernal já estava subentendida na própria declaração, mas os boys assinaram; alguns por patriotismo, outros por ingenuidade, outros ainda por esdruxularias equivalentes. Quando conheci Guarisco, ele já se arrastava pelos corredores do hotel apoiado numa bengala, os ossos triturados pela doença terminal que matara a maioria de seus camaradas. Impossível esquecer sua frase dirigida para a câmera, com seu testemunho sobre a explosão da bomba Baker no atol de Bikini: “A sound of frying eggs was in the air and for minutes I could see my own bones trough the flesh of my hands.. – um som de ovos fritos crispava o ar e por minutos pude ver meus próprios ossos através da carne da minha mão …” A cena de terror fora vivida por Guarisco e seus companheiros numa praia de Bikini, sem proteção física alguma contra o “grande raio-X”, o eclipse da luz e das trevas. O objetivo da missão: “testar as condições de combate da tropa após um ataque nuclear soviético”… Ficção? História, das escalafriantes! Nunca mais vi Guarisco, há poucos anos liguei de Curitiba para sua esposa e soube que ele tinha morrido de leucemia…

O filme, com roteiro baseado em meu livro A bomba pacífica (Brasiliense, 1988) e financiamento inicial do Film Office Hamburg, há anos aguarda conclusão, porque a Guerra Fria deixava de ser fashion, as usinas nucleares e seus gêmeos siameses, as bombas também atômicas, caíram em desuso em escala global. Mas eis que o projeto é salvo pelo gongo da História, melhor: por sua versão Bonapartista, aquela, cuja repetição Marx tão espirituosamente chamou de farsa. É que o fogo fátuo da Guerra Fria se reacende e, atento às graves alterações climáticas e a desesperada busca por fontes geradoras de energia de baixo impacto ambiental, um poderoso lobby (l´escroquerie nucleaire, como diz um amigo gallo-romano) arma esperto revisionismo histórico dos perigos das instalações nucleares, agora vendidas ao distinto público como “as menos poluentes e mais seguras”. E fez a cabeça de Nosso Timoneiro. Este, como se sabe, entre mensalões e outras diatribes da nova classe de alpinistas sociais, aprovou a conclusão de Angra-3 e a construção de mais seis outras usinas nucleares. Dizem línguas afiadas que o Brasil precisa de assento no Conselho de Segurança da ONU, onde meras usinas nucleares rimam com bombas… , que o bolivarismo de Chávez estaria se armando até os dentes, y otras tonterías más… (bueno, está bien: que las hay, las hay!) Mas: o que interessa aqui, é que das seis usinas planejadas, duas ou três operarão no litoral do Nordeste – o que me devolve o insight de Louis Reard…

Nos anos 50 a relação macabra entre a fonte inspiradora e o trapinho homônimo – a bomba e o biquíni – repercutiu desfavoravelmente para Reard. Mais, non!, argumentando pela tangente, afirmou que havia emprestado o nome do sumário traje de banho ao atol, e não à bomba. A verdade é que ele tirou enorme vantagem dos testes com a arma terminal, cuja devastação parecia pescar no inconsciente coletivo fantasias associadas ao imperativo histórico de uma urgente devastação da moral vitoriana. Com a reprodução em algodão, de fac-símiles da cobertura de imprensa sobre os testes nucleares, Reard promoveu um marketing literalmente bombástico. Mas o inventor do biquíni necessitava de um trunfo adicional, pois outro francês, Jacques Heim, havia chegado às passarelas com uma criação semelhante – a do maiô partido em dois, assumidamente batizado de “L’atome”. Reard contra-atacou, promovendo seu biquíni como “o traje menor que o mundialmente menor dos trajes” e ganhou a guerra dos nomes e das torcidas, pois do seu lado estava a turma do “tii-ra!, tiiii-ra !”.

Contudo, garimpadas as segundas intenções nos anais e nas lixeiras da História, eis que uma insólita explicação econômica parece varrer todo o encanto, substituindo nossas fantasias por fatos. O pano de fundo histórico do biquíni, que aqui funciona como perfeito trocadilho, foi a falta de pano para a confecção de fundilhos. Em 1943, em plena 2a. Guerra Mundial, o governo norte-americano obrigou a indústria têxtil ao racionamento de matérias-primas, provocando a redução de 10 por cento de algodão na confecção de trajes de banho femininos. O resultado desta operação militar foi uma espécie de “ventre livre” patriótico para o corpo feminino e foi Reard quem lhe daria a forma no Velho Continente. Sua inovação mercadológica consistiu em reduzir o traje para 30 polegadas de malha, desmembradas em bustier top e um triângulo invertido down, conectados por um cordão. O biquíni de Reard era tão sumário para a moral da época em que nenhuma modelo parisiense ousou subir a passarela.

Nos EUA, certa “Liga pela Decência” pressionou os produtores de Hollywood para banir o biquíni das telas. Porta-vozes da cruzada vitoriana questionaram em público a reputação das moças convertidas à moda, afirmando que “o biquíni revela tudo no corpo de uma mulher, menos o nome da mãe dela “(sic!). Impávido, Reard manteve a classe e a ousadia a serviço do marketing, contratando Micheline Bernardini, em cuja cabeça e corpo o biquíni caiu como uma luva, pois atuava como dançarina de nus no Cassino de Paris: após uma sessão de fotos dela em poses reclinantes, a imprensa caiu de quatro, embasbacada, e a musa foi soterrada sob uma avalanche de 50 mil cartas de fãs ensandecida/os.

Mas la Bernardini não foi capaz de impor a capitulação aos vitorianos EUA. Desesperado (melhor: de olho grande no mercado yankee), Reard incorporou a carta do eremita do tarô e teve seu segundo insight: une femme fatal mal conhecida por “BB”. Deslocou para o campo de batalha suas estonteantes curvas, acentuadas pelo trapinho et voilá!, era o que faltava: o biquíni precisava de curvas para ser valorizado e la BB impôs a queda das últimas barricadas norte-americanas. Entrava em cena em Hollywood o vitorioso trapo que matava a cobra e escondia o… principal. Das passarelas para a tela e o vinil, foi um passo. O biquíni foi cantado em prosa e verso, imortalizado no rock de Brian Hyland, do final dos anos 50, “Itsy-Bitsy-Teenie-Weenie/Yellow-Polka-Dot Bikini”.

A empresa de Reard conseguiu manter-se no mercado até 1988. Uma versão sobre os motivos do fechamento da empresa insinua que Reard perdera a guerra pela miniaturização para o fio-dental brasileiro; aberração, vingança dos inventivos trópicos e golpe fatal nos planos do estilista.

Cinqüenta anos depois, é oportuno indagar se a vinculação proposital do maiô partido em dois com a arma de extermínio em massa, não abriga códigos de significados convergentes. O primeiro deles é a “onda Shumpeteriana”: em conjunturas de abertura democrática e crescimento econômico, a moda (e a libido!) abre-se também, liberando o corpo do “supérfluo” (no inconsciente coletivo pós-guerra, masculino, era enorme a demanda pela “abertura do pano” sobre o corpo feminino). O segundo é seu significante profundamente pós-moderno: a visão de Reard é a alegoria do êxtase ilimitado, cujo pêndulo sempre oscila entre Eros e Tanatos, entre o prazer e a morte – o signo marcante de toda a cultura iconográfica e moda, militarizadas e ferozmente midiatizadas neste início de 3º. Milênio.

Por fim, uma pitada de pimenta tupiniquim: as bombas atômicas norte-americanas lançadas sobre o paradisíaco atol de Polinésia – imortalizado nos quadros de Paul Gauguin – foram construídas, durante e depois da 2ª Guerra Mundial, com matéria-prima brasileira: milhões de toneladas de areia monazítica, contendo urânio e tório, das praias de Guarapari, no Espírito Santo, Mãe Ubá e outros costões do sul nordestino. Quem aguardar o filme, verá.

* frederico füllgraf é escritor, roteirista e diretor de cinema.

AÇUCENAS LUZIDIAS – poema de namibio ferreira/Angola*

Açucenas luzidias
zumbindo
encrespam os jardins de espuma.
É Novembro.
Isto era em novembro
quando capim de muitas esperanças
………………………………………………………………
-Quando vêm as açucenas ser a flor
branca de paz
luzindo Novembro de ano inteiro?
*no dia da consciência negra este espaço homenageia com um poema de um dos maiores poetas africanos.

BARCO de PAPEL – poema de manoel de andrade*

Quem sabe por tantos barcos
navegarem a minha infância
herdei essa enorme ânsia
por navios, terras e mares.

Nesse mar dos meus pesares
meu porto é uma ilha perdida
e assim naveguei na vida
passageiro do horizonte.

Hoje pergunto a mim mesmo
se não remei sempre a esmo
a bordo do meu batel…

com meu sonho de criança
navegando a esperança
num barquinho de papel.

*manoel de andrade é poeta e autor do livro “Cantares” com sucesso no lançamento.

?POR QUE NO TE CALLAS? – por joão batista do lago*

O QUE QUIS DIZER JUAN CARLOS COM: ¿POR QUE NO TE CALLAS?

Quando o Rei Juan Carlos, de Espanha, mandou que o Presidente Hugo Chavez, de Venezuela, calasse a boca, ele não estava necessariamente advertindo a pessoa do presidente venezuelano, tampouco a instituição presidencial do país de Chavez; também, de forma alguma, o rei espanhol estava ali defendendo a dignidade do Governo do qual é locupletário ou das instituições políticas nacionais; e muito menos, ainda, o povo espanhol.

Não. Absolutamente não. Juan Carlos, em verdade, estava ali desde sempre – defendendo o quinhão da Europa rica e, consequentemente, o “status quo” do imperialismo capitalista-econômico-financeiro, que se traduz no conceito de “Consenso de Washington”. Quem observou muito bem isso (aos meus olhos de maneira intuitiva, isto é, inconscientemente) foi o Presidente do Brasil, Lula, ao inferir que ele, o rei, é que seria o patinho feio da reunião dos países latino-americanos, em Chile.

O ¿por que no te callas?, não é, como o reducionismo da imprensa festiva latino-americana – e mundial –, sob o aparato das elites econômicas internacionais, detentoras de 90% da riqueza mundial, pretendeu fazer crer a “nosotros ciudadanos”. A frase, recheada de indignação cênica, contra o que chamaram de desrespeito ao povo espanhol, não passa de engodo, de jogo cênico dos senhores donos do mundo. Representa um “aviso” aos governos latino-americanos que não querem se enquadrar ao sistema do “deus mercado”, hoje cognominado de “Convergência Universal”, que é a versão light do consenso de Washington, que, definitivamente, fracassou, sobretudo depois da “quebra” do México.

O ¿por que no te callas? é, assim, o aviso do imperialismo capitalista-econômico-financeiro, albergado por esse novo conceito de “Convergência Universal”, menos exigente e que, ainda, permite esquecer que “Washington” sugere, mas jamais cumpre o receituário por ele próprio proposto.

Entretanto, nada disso foi mostrado ou discutido pela imprensa festiva latino-americana e mundial. Quatro razões estão na base dessa não-informação: 1) o interesse dos grupos econômico-financeiros que detêm o poder da Comunicação e das Comunicações; 2) a incompetência geral da rede de profissionais desses setores, esvaziados que foram de quaisquer compromissos com a verdade; 3) a pauta do medo a partir das desregulamentações propostas – e postas em práticas – pelos governos latino-americanos, em obediência aos ditames dos senhores donos do mundo; 4) A desqualificação do trabalho, e com este, do trabalhador ou operário, ou proletário.

A imprensa festiva, então, precisava dizer alguma coisa. Daí, sob o comando dos senhores donos do mundo, sob a batuta das oligarquias econômicas mundiais, sob o reinado de um rei proscrito pela América Latina e sob o poder dos oligarcas das Comunicações, resolveu partir para a demonização pura e simples do outro ator, que diga-se de passagem, não passa também de um ditador de meia-tigela: Hugo Chavez, mas que tem tido o mérito de enfrentar os imperadores e os imperalistas.
__________
* joão batista do lago é poeta, escritor, pesquisador, jornalista e pensador empiricista.

SINTOMAS DE TUA AUSÊNCIA – poema de altair de oliveira

Chove lá fora e é inverno no meu peito
A tua ausência desenha um mundo cinza
O teu contágio latente manifesta
Garimpo o teu perfume rarefeito…

Tudo em mim te cobra e te precisa.
Meu coração de válvula sangrenta
Me impregna na mente e me ordena:
“Te procurar feito louco entre as caras!”
Me põe na rua atropelando medos
Pra te encontrar no sul da madrugada
Nua de todo e qualquer que nos separe
Ardendo em febre e o amor preso entre os dedos.

A CÓLERA DE ZEUS – editoria.

Um relâmpago rasga o céu e atinge em cheio a casa de Licáon. Destruída pelas chamas, num instante ela transforma-se num monte de escombros fumegantes. É assim que, do alto do Olimpo, Zeus, o soberano dos deuses, aquele que lançou o raio, põe fim aos inúmeros crimes desse malfeitor, adepto dos sacrifícios humanos. Desse dia em diante, Licáon, metamorfoseado em lobo, ficará vagando e uivando até morrer.
No entanto, Zeus soube que os cinqüenta filhos de Licáon cometem atos tão terríveis quanto os do pai. Por isso, vestido como se fosse um pobre vagabundo, Zeus apresenta-se na casa deles. Apesar de toda a sua maldade, acolhem o deus disfarçado, pois seguem as regras da hospitalidade. Convidam-no a comer com eles. Trazem para a mesa uma panela enorme. Zeus cheira a comida, e seu coração se aperta de horror: entre os miúdos de carneiro e cabrito, reconhece pedaços de carne humana. São os restos do infeliz Nictimo, o qual seus irmãos não hesitaram em assassinar para comer. É demais! Revoltado com esse crime odioso, Zeus transforma todos os canibais em lobos e devolve a vida a Nictimo. De volta ao Olimpo, o rei dos deuses, desgostoso com a espécie humana, resolve afogá-la sob um dilúvio imenso, que vai engolir o mundo inteiro.
Enquanto prepara esse cataclismo, os homens, sem nem desconfiar do que os espera, dedicam-se a suas ocupações terrestres. Mas um deles, Deucalião, rei da cidade de Tia, visita seu pai, o titã Prometeu, que mora nas montanhas do Cáucaso. Prometeu, que ama os seres humanos (a quem outrora já deu um presente de valor inestimável, o conhecimento do fogo) e sabe o que Zeus está projetando, avisa seu filho. Assim que volta a sua cidade, Deucalião começa a derrubar grandes acácias, a serrá-las em tábuas e ajuntá-las em pranchas. Ao fim de muito trabalho, termina um grande navio, uma arca que parece ter caído no meio da terra seca. Deucalião e sua mulher, Pirra, instalam-se no barco e passam a morar ali.
Um dia, o vento sul começa a soprar com rara violência, acumulando no céu pesadas nuvens negras que escondem a luz do Sol. Milhares de relâmpagos rasgam as nuvens. No meio da assustadora e incessante barulhada dos trovões, a chuva começa a cair brutalmente. Gotas enormes salpicam a poeira dos caminhos e formam uma massa de água que se espalha sobre a Terra.
A água sobe tanto que destrói e engole as cidades do litoral e, depois, os vilarejos das planícies. Quando os céus se acalmam, o mundo inteiro é apenas um imenso mar. De longe em longe, avista-se o pico do que um dia foi uma montanha e agora não passa de uma ilhota. Apenas Deucalião e Pirra sobrevivem, flutuando em sua arca. Durante nove dias, ficam à deriva, na mais completa desolação. Pouco a pouco, as águas começam a recuar, e a arca chega a uma ilha que, na verdade, é o alto do monte Parnaso.
Deucalião e Pirra, hesitantes, pisam a terra, que não esperavam rever. Imediatamente, agradecem ao grande Zeus havê-los poupado e oferecem-lhe um sacrifício. Depois, perto de onde a arca encalhou, descobrem um templo cujo telhado está coberto de algas e conchas. É o santuário de Têmis, deusa da justiça.
Com toda a humildade, Deucalião e sua companheira suplicam aos deuses que reconstituam a espécie humana. Zeus emociona-se com o pedido e envia seu mensageiro, Hermes, para anunciar que concederá o que desejam. Então, surge Têmis, que ordena: – Cubram suas cabeças! Peguem os ossos de sua mãe e joguem-nos para trás! Muito surpresos, Deucalião e Pirra entreolham-se e perguntam ao outro: – Que a deusa quis dizer? Afinal, eles não têm a mesma mãe… E que ossos podem ser esses! De repente, uma idéia os ilumina: qual é a mãe de todos os homens? A Terra! Seus ossos são as pedras que a cobrem…
O casal sai recolhendo todos os pedregulhos que encontra. Depois cada um cobre sua cabeça e, por cima dos ombros, joga as pedrinha para trás. Assim que elas tocam o chão, transformam-se em seres humanos. As pedras jogadas por Deucalião viram homens. As lançadas por Pirra, mulheres. E os dois devolvem a vida à humanidade.
Seria o caso que se repetisse?

TU VOZ e POEMA – poemas de sara vanegas coveña/ Ecuador*

TU VOZ
tu voz ya es una con las roncas voces del océano
lejos muy lejos lo que fue tu agonía y tu placer
te vas. firme y voluptuosa y leve. ya otra
ya tú misma. ya solo deseo y agua
divina sombra:
ya olvido
Tua voz agora é una com as roucas vozes do oceano
distante…
tão distante do que foi tua angústia e o teu prazer.
Partes…indomável, deslumbrante e leve.
És outra agora… e és tu mesma
Agora, só desejo e água és tu
uma divina sombra:
agora, só esquecimento.
POEMAte hamacas a media tarde sobre me mirada amante
me sonríes
y hay un río de miel entre tus labios ávidos
convoco las campanas los tréboles los mares
y voy hacia ti cantando
pero la tarde hace un paréntesis maldito
y me lanza de bruces a la realidad:
este solo poema

descansas na tarde sobre meu olhar
amante
é meu o teu sorriso
e um rio de mel corre entre teus lábios ávidos
convoco os sinos, os trevos, os mares
e te busco cantando
porém a tarde faz uma pausa maldita
e me lança de bruços na realidade:
este único poema

*sara vanegas coveña é profa. universitária, embaixadora universal para a paz, membro da academia iberoamericana de poesia e da revista internacional “francachela” no Ecuador. tem diversos livros de poesia editados.
a tradução dos poemas, com aprovação da autora, foi feita pelo “palavreiro” poeta manoel de andrade autor de “Cantares.”

ENTREVISTA COM MÁRIO BENEDETTI – escritor uruguaio / por sanjuana martínez*

Mario Benedetti: “por respeto a los obreros, no pongo obreros en mis obras”

Mário Benedetti: “por respeito aos operários, não incluo operários em minhas obras”

Mario Benedetti ha escrito más de setenta libros que se han traducido a veintitrés idiomas. Su libro La Tregua tiene ciento treinta ediciones, ientras la tirada total de sus textos alcanza más de dos millones de ejemplares.

Mário Benedetti escreveu mais de setenta livros, traduzidos para vinte e três idiomas. Seu livro A Trégua tem cento e trinta edições, e a edição total de seus textos atinge mais de dois milhões de exemplares

A sus ochenta años, Mario Benedetti no se acostumbra a la celebridad. Está cansado de tantas entrevistas. Desde hace cuatro años intenta tomarse un año sabático pero no le dejan sus compromisos y asegura que a medida que pasa el tiempo piensa más en la muerte, aunque no la teme. Es sencillo, riguroso en sus opiniones, y nunca ha cambiado sus convicciones ideológicas: “los intelectuales de izquierda, seguimos siendo de izquierda”. El autor de Inventario y Poemas de la oficina, comentó en la entrevista que todo lo que sea una aportación para el amor es maravilloso. Andamios (Alfaguara) se ha reeditado ya trece veces. Se trata de una historia sobre los encuentros y desencuentros del “desexilio”, una palabra conocida a través de Mario Benedetti.

Com seus oitenta anos, Mário Benedetti não se acostuma com a celebridade. Está cansado de tantas entrevistas. Há quatro anos, tenta conseguir um ano de folga mas não consegue pelos seus compromissos e afirma que à medida em que passa o tempo, pensa mais na morte, embora não a tema. É simples, rigoroso em suas opiniões e nunca mudou suas convicções ideológicas: “os intelectuais de esquerda, continuamos sendo de esquerda”. O autor de Inventário e Poemas do escritório, comentou na entrevista que tudo o que for uma ontribuição para o amor é maravilha. Andaimes (Editora Alfaguara) foi reeditado treze vezes. Trata-se de uma história sobre os encontros e desencontros do “desexílio” , uma palavra conhecida através de Mário Benedetti.

MB – Es una novela de setenta y cinco capítulos, setenta y cinco andamios que son estructuras adicionales que se hacen cuando se está construyendo una casa. Después de doce años de dictadura, Uruguay ha entrado en la etapa de reconstrucción democrática, pero sin terminar, por lo tanto precisa andamios. Esta es la metáfora del título. Son los encuentros y desencuentros de un exiliado que vuelve a su país, un desexiliado, una palabra que yo inventé. Como pasa con cualquier exiliado, tiene encuentros felices, otros más desgraciados y desengaños. La vuelta al país siempre es un cocktail de sensaciones.

MB- É um romance de setenta e cinco capítulos, setenta e cinco andaimes que são estruturas adicionais que se fazem quando se está construindo uma casa. Depois de doze anos de ditadura, Uruguai entrou na etapa da reconstrução democrática, mas inconclusa, por isso precisa de andaimes. Esta é a metáfora do título. São os encontros e desencontros de um exilado que volta para seu país, um desexilado, uma palavra que eu inventei. Como acontece com qualquer exilado, tem encontros felizes, outros menos e desencantos. O retorno ao país sempre é um coquetel de emoções.

SM – ¿Usted regresó a Uruguay después de doce años, tiene algo que ver Javier Montes, el protagonista de su novela, con usted?
SM- Você retornou ao Uruguai após doze anos. Javier Montes, o personagem de seu romance, tem algo a ver com você?

MB – Los dos somos desexiliados. La ficha biográfica de Javier no tiene mucho que ver conmigo. No es una novela autobiográfica, sino con gajos comunes que no son sólo de Javier y míos sino de casi todos los que volvieron al país. Las sorpresas, los cambios del estilo de la gente, las huellas que dejó la dictadura. Es un poco lo que hemos visto todos, no todos reaccionamos igual.
MB – Ambos somos desexilados. A biografia de Javier não tem muito a ver comigo. Não é um romance autobiográfico, mas com traços comuns que não são apenas de Javier e meus, mas de quase todos os que voltaram ao país. As surpresas, as mudanças de estilo das pessoas, as marcas deixadas pela ditadura. É algo visto por todos, mas com diferentes reações.

SM – ¿Cómo vivió usted el desexilio?
SM – Como foi seu desexílio?

MB – Uruguay no es el mismo que yo dejé, tampoco es el país que yo imaginé que iba a encontrar. Yo estaba muy bien informado de todo lo que pasaba en el país, pero no era el mismo que yo imaginé. Yo viví mi exilio en cuatro países de habla hispana, me adapté bastante bien. Uno aprende, pero de los gobiernos no se aprende, pero sí de la gente. En el exilio se da un fenómeno de ósmosis, uno da todo lo que puede para agradecer al país que lo acoge, pero también ese país le da a uno cosas.
MB – Uruguai já não é o mesmo de quando eu o deixei, nem é o país que imaginei quando o encontrei. Estava muito bem informado de tudo o que acontecia no país, mas não era o mesmo que eu imaginava. Vivi meu exílio em quatro países de língua espanhola, me adaptei muito bem. É possível aprender com as pessoas mas não dos governos. No exílio ocorre um fenômeno de osmose; qualquer um dá tudo o que pode para agradecer ao país que o acolhe, mas também esse país oferece coisas.

SM – ¿Cómo ve ahora a Uruguay?
SM – Como enxerga agora o Uruguai?

MB – Los militares están allí, están muy atentos y vigilantes. No es una situación comparable a la de Chile, donde Pinochet, que es dictador, sigue comandando las fuerzas armadas. Ahora que volvió a salir el tema de los desaparecidos, salió una ley que se llamó “Ley de caducidad de la retención punitiva del Estado”, una larga metáfora para decir: Ley de amnistía a los torturadores. Había un artículo cuarto donde se decía que se investigara a fondo el problema de los desaparecidos para que sus familiares supieran dónde estaban y dónde los habían enterrado, pero fue el único artículo que no se ha cumplido. En Uruguay hay una democracia vigilada, por la aprobación de esto. Han enterrado gente y luego les han puesto arboles encima, pero casi todos los desaparecidos están enterrados en los cuarteles. En definitiva, Uruguay es un país con muchas heridas no cicatrizadas. La impunidad permanece.
MB – Os militares estão aí, estão bastante atentos e vigilantes. Não é uma situação comparável com o Chile, onde Pinochet, que é ditador, continua comandando as forças armadas. Agora que voltou o assunto dos desaparecidos, apareceu uma lei que se chamou “Lei de cancelamento da retenção punitiva do Estado”, uma grande metáfora para dizer: Lei de anistia para os torturadores. Há o artigo quarto que se refere à busca dos desaparecidos para que seus familiares soubessem onde estavam e onde foram enterrados, mas foi o único artigo que não foi cumprido. No Uruguai há uma democracia vigiada para a aprovação deste assunto. Foram enterradas pessoas e colocaram árvores nesses lugares, porém quase todos os desaparecidos estão enterrados nos quartéis. Enfim, Uruguai é um país com muitas feridas não cicatrizadas. A impunidade permanece.

SM – ¿Qué pasa con los intelectuales de izquierda después de los cambios del siglo XX?
SM – O que acontece com os intelectuais de esquerda depois das mudanças do século XX?

MB – Los intelectuales de izquierda siguen siendo de izquierda. El Partido Comunista de Uruguay se escindió en tres partidos después de la crisis de la Unión Soviética, pero los tres están integrados en el Frente Amplio. Uruguay nunca fue un país con intelectuales de derecha, ni Argentina. Es muy importante la independencia de los intelectuales y en Uruguay fueron contados con la mano los que colaboraron con la dictadura.
MB- Os intelectuais de esquerda continuam sendo de esquerda. O Partido Comunista do Uruguai se dividiu em três partidos depois da crise da União Soviética, mas os três estão integrados na Frente Ampla. Uruguai nunca foi um país com intelectuais de direita, nem Argentina. É muito importante a independência dos intelectuais no Uruguai e foram poucos casos os que colaboraram com a ditadura.

SM – Comentó que desde el estallido de la guerra en Chiapas no ha vuelto a México…
SM – Você comentou que desde o início do enfrentamento em Chiapas não mais tem viajado ao México…

MB – Pero he firmado cosas a favor del subcomandante Marcos. La historia de México se dividirá en antes de Chiapas y después de Chiapas. La guerrilla de Chiapas es una guerrilla extraordinaria. Es la única guerrilla que tiene posibilidades reales de provocar cambios.
MB – Mas tenho feito abaixo-assinados em favor do subcomandante Marcos. A história do México se dividirá em antes e depois de Chiapas. A guerrilha de Chiapas é uma guerrilha extraordinária. É a única guerrilha que tem possibilidades reais de provocar mudanças.

SM – ¿Sin armas?
SM – Sem armas?

MB – Efectivamente, esa es la solución. Se ha demostrado que con la lucha armada no se pueden arrancar cambios… el último caso es el de Tupac Amaru de Perú. En cambio, la guerrilla de Chiapas tiene la inteligencia de hacer un reclamo dentro de la ley, que es que se le aplique la Constitución a todos los mexicanos. El PRI no es indestructible, puede ser derribado, corre peligro su permanencia en el poder.
MB- Efetivamente, esta é a solução. Se demonstrou que com a luta armada não se podem produzir mudanças…o último caso foi o de Tupac Amaru no Peru. Por sua vez, a guerrilha de Chiapas tem a clareza de reivindicar dentro da lei, o que consta na Constituição do México. O PRI não é indestrutível, pode ser suplantado, sua permanência no poder está ameaçada.

SM – Desde La borra del café (1992) no escribía usted otra novela. ¿En qué género se siente más seguro?
SM – Desde O Pó de café (1992 – La borra Del café ) você não produziu outro romance. Em que gênero se sente mais seguro?

MB – Poesía y además hace años que no escribo cuentos. Para escribir una novela, se necesita un espacio libre. Un poema lo puedo escribir en un avión, o esperando al destino. Claro que a veces se hacen apuntes de un poema, es muy difícil que escribas la versión definitiva esperando al dentista. La novela es un mundo que uno inventa y tiene que meterse en ese mundo, porque no se pueden escribir diez páginas hoy y las próximas diez páginas en unos años. Por eso yo demoré tanto en escribir Andamios. Si a mí me dejaran tranquilo podría escribir más novelas, pero no me dejan, tengo muchos viajes, entrevistas y muchos compromisos. Hace como cuatro años que pretendo tomarme un año sabático y no puedo.
MB – Poesia e além do que faz anos que não escrevo contos. Para escrever um romance, necessita-se de espaço livre. Um poema posso escreve-lo no avião, ou esperando o destino. O romance é um mundo inventado e que obriga que se entre nesse mundo porque não se pode escrever dez páginas hoje e as próximas dez páginas daqui a alguns anos. Por isso demorei tanto em escrever Andaimes. Se me deixassem tranqüilo, poderia escrever mais romances, mas não me deixam, tenho muitas viagens, entrevistas e muitos compromissos. Faz quatro anos que tento tomar um ano de folga mas não posso.

SM – ¿Es verdad que cada vez se lee menos poesía?
SM- É verdade que se lê poesia cada vez menos?

MB – No creo, en mi caso, no. Cada vez vendo más libros de poesía. Tanto, que tengo setenta libros publicados y después de La tregua que tiene ciento treinta ediciones, el segundo libro mío con más ediciones es Inventario con cincuenta y ocho ediciones.
MB – Não acredito, no meu caso. Cada vez vendo mais livros de poesia. A prova disso é que tenho setenta livros publicados, e depois de A Trégua, que tem cento e trinta edições, o meu segundo livro com mais edições é Inventário, com cinqüenta e oito edições.

SM – ¿Es consciente de que muchos de sus poemas han sido el inicio de un romance?
SM- Tem consciência de que muitos de seus poemas provocaram o início de um namoro?

MB – Todo lo que se haga a favor del amor, me parece fantástico. Me han pasado cosas curiosas. Por ejemplo, en Guadalajara donde estuve con Viglietti, el primer día del evento, se acercó una pareja joven, como de veinticinco años y venían con un tomo de Inventario y me dijeron que querían contarme que se conocieron y se casaron por ese libro, pero que ahora estaban divorciados y que sólo eran amigos y se habían reunido especialmente para irme a ver. El tercer día, en otro evento, aparecen de nuevo los dos con una edición más nueva de Inventario y para ponerme al corriente de la relación: “Mire, como el otro día estuvimos contándole que nos conocimos por Inventario queríamos decirle que por Inventarios hemos decidido volvernos a casar. Eso me parece muy lindo. También en Guadalajara me sucedió otra cosa, que no tiene que ver con cosas de amor, pero sí de amor a la vida. Después de un recital estabamos firmando autógrafos y libros y se acercó un muchacho joven y pensé que era para firmar pero no, me dijo: “yo no quiero que me firme el libro, yo le quiero contar una historia. Hace unos meses, estaba muy mal, me iba todo mal en lo económico y sentimental y decidí suicidarme y puse incluso la fecha: un martes. Pero el viernes, andaba por la calle y me encontré con un amigo que me dijo que por qué tenía esa cara, yo no le dije que me iba a suicidar, pero él me regaló Inventario y pensé qué iba hacer yo con esas poesías. Finalmente me puse a leer el libro y como resultado no me suicidé”. Esas son las dos cosas más lindas que me ha pasado en mi vida con relación a mi obra, las dos en Guadalajara, Jalisco.
MB – Tudo o que se faça em favor do amor me parece fantástico. Aconteceram comigo coisas curiosas. Por exemplo, em Guadalajara, onde estive com Viglietti, o primeiro dia do evento, se aproximou um jovem casal, em torno de uns 25 anos de idade e tinham um volume de Inventário e me disseram que queriam contar-me que se conheceram e se casaram por este livro, porém que agora estavam divorciados e que eram apenas amigos e se haviam reunido especialmente para ir me ver. O terceiro dia, em outro evento, aparecem de novo os dois com uma edição mais nova de Inventário e para deixar-me atualizado da relação: “Veja, como o outro dia estivemos contando que nos conhecemos por Inventário, queremos dizer-lhe que por Inventário decidimos voltar a casar. Isso me parece muito bonito. Também em Guadalajara me aconteceu outra coisa, que não tem a ver com coisas do amor, mas sim de amor à vida. Depois de um recital estávamos autografando livros e se aproximou um rapaz jovem e pensei que era para autografar, mas não, e me disse: “eu não quero que me dê um autógrafo, eu quero lhe contar uma história. Faz uns meses, estava muito mal, tudo ia mal comigo, com a situação financeira, sentimental e decidi suicidar-me e inclusive marquei uma data: uma terça-feira. Porém na sexta, andava pela rua e encontrei um amigo que me perguntou porque estava com aquela cara e eu não disse a ele que iria me suicidar, mas ele me presenteou com Inventário e pensei o que eu iria fazer com essas poesias. Finalmente, coloquei-me a ler o livro e como resultado não me suicidei”. Essas são as duas coisas mais bonitas que ocorreram em minha vida, em relação com minha obra, as duas em Guadalajara, Jalisco.
[Después de un silencio, añade:]También me han pasado cosas muy tristes, por ejemplo, en Buenos Aires. Después de regresar, me fui a firmar libros y llegó un matrimonio veterano con cinco o seis libros míos muy maltratados y yo les dije: ¡Cómo están estos libros…! Ellos me contestaron: “Sí señor, es que estuvieron ocho años enterrados en el jardín de casa”. Mis libros estuvieron prohibidos durante las dictaduras. Otra señora llegó con un libro lleno de anotaciones en los márgenes y le dije: Parece que este libro ha sido leído y ella me contestó: sí, es de mi hija, que está desaparecida”. En Argentina hubo treinta mil desaparecidos. En Uruguay murieron muchos en la tortura, pero casi todos desaparecieron en Argentina y forman parte de esa cifra, deben ser unos doscientos o más.
[Depois de um silêncio acrescenta]:
Também aconteceram comigo coisas muito tristes, por exemplo, em Buenos Aires. Depois de retornar, fui autografar livros e apareceu um casal de idade já, com cinco ou seis livros meus muito maltratados e eu lhes disse: Como estão estes livros…! e eles me responderam: “Sim, senhor, é que estiveram oito anos enterrados no jardim de minha casa”. Meus livros foram proibidos durante as ditaduras. Outra senhora chegou com um livro cheio de anotações nas margens e eu disse: Parece que este livro foi lido e ela me respondeu: sim, é de minha filha, que está desaparecida”. Na Argentina houve trinta mil desaparecidos. No Uruguai morreram muitos na tortura, porém quase todos desapareceram na Argentina e formam parte desta conta, devem ser mais de duzentos.

SM – Usted es uno de los escritores más cantados. Son muchos los intérpretes que le han puesto música a sus poemas…
SM- Você é um dos escritores mais musicados. São muitos os intérpretes que musicaram seus poemas…

MB – Son cuarenta. Me gusta trabajar mucho con los cantantes y los músicos, me gusta más cuando trabajamos juntos. Hay dos casos especiales: Alberto Favero, cuando estaba con Nacha Guevara y el otro Joan Manuel Serrat. Cuando somos amigos, las cosas salen mejor. Hay mucha gente que se acercó a mi poesía a través de la canción. Llegaron por la puerta de servicio, entraron a la obra literaria por la canción. En Guadalajara fue donde estrenamos por primera vez un recital a dos voces con Viglietti, fue allí donde hablando con él nos dimos cuenta que cada uno había escrito doce trabajos, él doce temas y yo doce poemas, sin ninguna premeditación. Y nos dijimos: hay que hacer algo. Así, por primera vez, mezclamos canciones con poemas.
MB- São quarenta. Gosto de trabalhar muito com cantores e músicos, e mais gosto quando trabalhamos juntos. Há dois casos especiais: Alberto Fávero, quando estava com Nacha Guevara e o outro Joan Manuel Serrat. Quando somos amigos, as coisas saem melhores. Tem muita gente que se aproximou de minha poesia através da canção. Vieram pela porta de serviço, entraram na obra literária pela canção. Em Guadalajara foi onde estreamos por primeira vez um recital a duas vozes, com Viglietti, foi aí onde falando em ele, nos demos conta que cada um tinha escrito doze trabalhos, ele doze temas e eu doze poemas, sem nenhuma intenção. E dissemos: devemos fazer alguma coisa. Assim, pela primeira vez, misturamos canções com poemas.

SM – Empezó a escribir desde su infancia en alemán y a los once años hizo su primera novela El trono y la vida, de capa y espada, tratando de imitar a Alejandro Dumas… ¿parece que siempre tuvo su vocación bien clara?
SM- Começou a escrever desde sua infância em alemão e aos doze anos fez seu primeiro romance, El Trono y la vida, com capa e espada, tratando de imitar a Alexandre Dumas… Parece que sempre teve sua vocação bem definida?

MB – Siempre supe que quería ser escritor. Lo único que me hubiera gustado ser es campeón de ping-pong, pero la literatura me arrastró por otro lado. Forma parte del carácter, la vocación, en mi familia no hay ningún escritor, yo abro la dinastía literaria.
MB- Sempre soube que queria ser escritor. O único que lamento é não ter sido campeão de ping-pong, mas a literatura me levou para outra direção. Forma parte do caráter, a vocação, em minha família não há nenhum escritor, eu inicio a dinastia literária.

SM – ¿Por qué siempre sus personajes son montevideanos de clase media?
SM – Por que sempre seus personagens são montevideanos de classe média?

MB – Es la clase que yo conozco. Muchas veces, los escritores de izquierda me han reprochado que nunca hay obreros en mis obras. Cuando he intentado poner un obrero, el obrero no habla como los obreros, me sale una cosa artificial. No he hecho una misión complaciente, la clase media es a la que yo pertenezco y conozco bien sus entretelones, sus virtudes y sus defectos, entonces me muevo con mucha más propiedad. Por respeto a los obreros, no pongo obreros en mis obras. Me es más fácil poner oligarcas, yo tengo una visión más crítica y más contacto, he trabajado en muchos diarios y he tenido contacto con los propietarios. A los cuatro años me fui a vivir a Montevideo y soy montevideano y cuando me fui al exilio seguí escribiendo sobre los montevideanos de clase media.
MB- É a classe que eu conheço. Muitas vezes, os escritores de esquerda me criticaram por não colocar operários em minhas obras. Quando tentei colocar a um operário, o operário não fala como os operários, sai uma coisa artificial. Não realizei uma obra complacente, a classe média é quem conheço e pertenço, suas entrelinhas, suas virtudes e defeitos, no interior da qual me sinto mais à vontade. Por respeito aos operários, não os coloco em minhas obras. Fica mais fácil incluir os oligarcas, eu tenho uma visão mais crítica e mais contato, trabalhei em muitos jornais e tive contato com os proprietários. Com quatro anos de idade fui viver em Montevidéu e quando parti para o exílio continuei escrevendo sobre os montevideanos de classe média.

SM – ¿A qué atribuye el éxito de su literatura, que es muy localista, pero que se ha traducido a veintitrés idiomas?
SM – A que atribui o êxito de sua literatura, que é muito local, porém foi traduzida para vinte e três línguas?

MB – Para reflejar el mundo hay que empezar por la comarca, los grandes escritores siempre han sido locales: Dostoievski, Joyce, Proust, Dante… han escrito sobre su mundo y su contorno.
MB – Para refletir o mundo deve-se começar pela comarca, os grandes escritores sempre foram locais: Dostoievski, Joyce, Proust, Dante… escreveram sobre seu mundo e seu contexto.

SM – ¿Cuál es su diagnóstico de la actual literatura latinoamericana?
SM – Qual é seu diagnóstico sobre a atual literatura latino-americana?

MB – Es muy distinta de acuerdo a cada país. En algunos han surgido movimientos importantes. En Chile hay narradores jóvenes de muy buen nivel. No conozco la literatura joven de México, conozco los escritores anteriores: José Emilio Pacheco, Sabines, … los lectores mexicanos siempre me han apoyado mucho. En Uruguay y Argentina han aparecido nombres buenos importantes. En el cono Sur no entró el realismo mágico, cuando se publicó alguna cosa influenciada por García Márquez, eran malas copias. Incluso a la chilena Isabel Allende se le acusó mucho de eso con su primera novela, La Casa de los Espíritus, yo creo que no es tanto, ella es más original de lo que dicen. Todos los escritores jóvenes tienen influencias, el que dice que no, descaradamente miente.
MB – É muito diferente, de acordo a cada país. Em alguns, surgiram movimentos importantes. No Chile há jovens escritores de muito bom nível. Não conheço a literatura jovem do México, conheço os escritores anteriores: José Emilio Pacheco, Sabines…, os leitores mexicanos sempre me apoiaram muito. No Uruguai e Argentina apareceram nomes muito importantes. No Cone Sul não entrou o realismo mágico, quando se publicou alguma coisa influenciada por García Márquez, eram cópias ruins. Inclusive a chilena Isabel Allende foi acusada muito disto em seu primeiro romance, A Casa dos Espíritos, eu não creio, ela é mais original do que dizem. Todos os escritores jovens têm influências, quem diz não mente descaradamente.

SM – En varios de sus poemas está de forma recurrente el tema de la muerte como en “Dónde estas muerte, mujercita”… ¿le preocupa esto?
SM – Em alguns de seus poemas aparece repetidamente o tema da morte como em “Onde estás morte, mulherzinha”… Isto o preocupa?

MB – A medida que uno avanza en edad, lógicamente se va acercando a la muerte, hay que irse acostumbrando a la idea de la muerte para que no te tome de sorpresa. Yo no le tengo miedo a la muerte, no creo en castigos ni infiernos ni en la recompensa del paraíso porque soy ateo.
MB – À medida em que se avança na idade, logicamente vai-se aproximando da morte, deve-se ir acostumando com a idéia da morte para que não te tome de surpresa. Eu não lhe tenho medo, não creio em castigos nem em infernos nem na recompensa do paraíso, porque sou ateu.

* tradução de gladys floriani – uruguaia, médica, residente em curitiba e diretora da “Casla” casa latino-americana.

(la muerte) – poema de ewaldo schleder

o coração dos mortos
bate outra vez
e o dos vivos
aperta

os vivos
visitam os mortos
porque morte é coisa certa

DEFINIÇÃO DE ANARQUIA – por errico malatesta (1907)

Anarquia é uma palavra grega que significa literalmente “sem governo”, isto é, o estado de um povo sem uma autoridade constituida. Antes que tal organização começasse a ser cogitada e desejada por toda uma classe de pensadores, ou se tonasse a meta de um movimento, que hoje é um dos fatores mais importantes do atual conflito social, a palavra “anarquia” foi usada universalmente para designar desordem e confusão. Ainda hoje, é adotada neste sentido pelos ignorantes e pelos adversários interessados em distorcer a verdade. Não vamos entrar em discussões filológicas, porque a questão é histórica e não filológica. A interpretação usual da palavra não exprime o verdadeiro significado etimológico, mas deriva dele. Tal interpretação se deve ao preconceito de que o governo é uma necessidade na organização da vida social. O homem, como todos os seres vivos, se adapta às condições em que vive e transmite , através de herança cultural, seus hábitos adquiridos. Portanto, por nascer e viver na escravidão, por ser descendente de escravos, quando começou a pensar, o homem acreditava que a escravidão era uma condição essencial à vida. A liberdade parecia impossível. Assim também o trabalhador foi forçado, por séculos, a depender da boa vontade do patrão para trabalhar, isto é, para obter pão. Acostumou-se a ter sua própria vida à disposição daqueles que possuíssem a terra e o capital. Passou a acreditar que seu senhor era aquele que lhe dava pão, e perguntava ingenuamente como viveria se não tivesse um patrão. Da mesma forma, um homem cujos membros foram atados desde o nascimento, mas que mesmo assim aprendeu a mancar, atribui a estas ataduras sua habilidade para se mover. Na verdade, elas diminuem e paralisam a energia muscular de seus membros. Se acrescentarmos ao efeito natural do hábito a educação dada pelo seu patrão, pelo padre, pelo professor, que ensinam que o patrão e o governo são necessários; se acrescentarmos o juiz e o policial para pressionar aqueles que pensam de outra forma, e tentam difundir suas opiniões, entenderemos como o preconceito da utilidade e da necessidade do patrão e do governo são estabelecidos. Suponho que um médico apresente uma teoria completa, com mil ilustrações inventadas, para persuadir o homem com membros atados, que se libertar suas pernas ou mesmo viver. O homem defenderia suas ataduras furiosamente e consideraria todos que tentassem tira-las inimigos. Portanto, se considerarmos que o governo é necessário e que sem o governo haveria desordem e confusão, é natural e lógico, que a anarquia, que significa ausência de governo, também signifique ausência de ordem. Existem fatos paralelos na história da palavra. Em épocas e países onde se considerava o governo de um homem (monarquia) necessário, a palavra “república” (governo de muitos) era usada exatamente como “anarquia”, implicando desordem e confusão. Traços deste significado ainda são encontrados na linguagem popular de quase todos os países. Quando esta opinião mudar, e o público estiver convencido de que o governo é desnecessário e extremamente prejudicial, a palavra “anarquia”, justamente por significar “sem governo” será o mesmo que dizer “ordem natural, harmonia de necessidades e interesses de todos, liberdade total com solidariedade total”. Portanto, estão errados aqueles que dizem que os anarquistas escolheram mal o nome, por ser este mal compreendido pelas massas e levar a uma falsa interpretação. O erro vem disto e não da palavra. A dificuldade que os anarquistas encontram para difundir suas idéias não depende do nome que deram a si mesmos. Depende do fato de que suas concepções se chocam com os preconceitos que as pessoas têm sobre as funções do governo, ou o “Estado” como é chamado.

PALAVRAS – poema de edilson del grossi e thadeu wojciechowski

misturando as letras do alfabeto
meu coração escreveu teu nome
num estranho dialeto

consoante as vogais
nossos encontros
consonontais

eu estava tritongo
perdido entre seus bilabiais

um sujeito com tantos predicados
dando mole pras figurinhas
difíceis de linguagem

NIETZSCHE, FOUCAULT e a HISTÓRIA – por viegas fernandes da costa.

A história da humanidade constitui-se como uma mancha formada por um líquido qualquer que se derrama por uma superfície plana: não tem direção, espalha-se sem sentido para todos os lados. No entanto, procura-se sempre a direção futura da nossa raça e as forças que a impulsionam, seu passado fundante e seu futuro redentor. O paraíso reconstruído é a promessa constanteEm seu artigo, “Nietzsche, a genealogia e a história” (In. MICROFÍSICA DO PODER), Michel Foucault faz uma breve análise dos conceitos genealógicos desenvolvidos por Friedrich Nietzsche no século XIX, e mostra que o Ocidente inventa a história, por ele chamada de ascética, para encontrar no passado o momento fundante de sua unidade, de sua identidade. Uma Europa necessitada de um povo coeso, envolvida no caldo das lutas nacionalistas, vai buscar, e não encontrando inventa, o elemento ordenador que trará tranqüilidade existencial aos seus povos. E é neste momento que emerge o ideal ascético do historiador que, como escreve Foucault, deveria “imitar a morte para entrar no reino dos mortos”; ideal ascético que vem acompanhado pelo discurso científico que dá à história a “objetividade” e o título de ciência que reconstrói a “verdade”. O historiador não fala e não sente, apenas percebe o ocorrido e o narra, “inocente”, presenteando a humanidade com suas raízes.Esta forma de historiar, tradicional, insere-se na mentalidade própria do momento em que emerge, que é marcado pela modernidade. O pensamento moderno é linear e teleológico: indica um princípio, um desenvolvimento, um fim último, um ponto de chegada, o ápice da realização humana. Tal pensamento, o da modernidade, permite a constituição de um saber histórico que trará um sentimento de segurança aos sujeitos humanos: conhecemos as nossas raízes, o solo em que pisamos, para onde vamos e o que queremos fazer; inventamos a tradição e nos agarramos a ela com todas as nossas forças. E este, então, o discurso da “história moderna”, e ao qual se opõe a genealogia, que identifica no acontecimento, na emergência do novo, a regra da dispersão, a heterogeneidade, permitida pelos conflitos existentes naquela realidade. A genealogia não é a história, mas faz uso dela para identificar o “acontecimento” e a dispersão de forças que se encontram presentes no momento da “emergência do acontecimento”. Mas assim como a genealogia faz uso da história, pode-se dizer que a história se apropria dos elementos genealógicos, inserindo-se em uma estrutura de pensamento diferente da moderna, em uma estrutura de pensamento que chamaremos de pós-moderna.Falar em pensamento pós-moderno, ou em pós-modernidade, é enveredar por uma temática cujos conceitos ainda não estão bem definidos, o que gera muitos conflitos e deturpações do termo. Como não é objetivo deste discutir a pós-modernidade propriamente dita, coloca-se apenas que o pensamento pós-moderno é aqui compreendido como aquele que se opõe à proposta da modernidade acima apresentada. Portanto, falar em “história pós-moderna” é falar de um saber histórico organizado, mas não fechado, que rompe com a proposta linear de história; um saber que passa a trabalhar com conceitos como os de descontinuidade, ruptura, subjetividade. É fazer uso do saber histórico não no sentido de compor grandes unidades nas quais os indivíduos possam se reconhecer, mas no sentido de encontrar a heterogeneidade, a luta entre as forças que surgem de todos os lados e que constituem novos acontecimentos. É questionar a tradição, a origem e o devir. E é neste sentido que Michel Foucault fala em “história efetiva”, apropriando-se ainda dos conceitos nietzscheanos, que é justamente aquela que trabalha a descontinuidade e a visão não totalizante, compreendendo que “as forças que se encontram em jogo na história não obedecem nem a uma destinação, nem a uma mecânica, mas ao acaso da luta”.É esta uma nova forma de olhar o objeto a ser estudado e historiografado, um olhar que procura a profundidade e não mais a continuidade nas “leis do devir.”

DO ARTISTA – poema de jairo pereira

o artista :eu indecifrável: no signo vida
dos dínamos interiores as idéias provindas
versáteis os meios ao alcance dos fins
vigorosos os lances as hastes do fazer
antropomísticas as tranças de luzes
febris os compostos recém-criados
vida no inanimado almas nos pós nas teias
na guirlanda sutil do pensimaginado
as mãos destras na argila compõem
heróis cavalos prédios paisagens aeronaves
construções velix do olhar semiótico
as mãos hábeis nos volumes tépidos
estruturas sobre estruturas no labor dos dedos
côncavas entrâncias cônicas formas
ásperas saliências.

FIM – conto de léo meimes

Jânio senta outra vez em frente a sua TV, retira os chinelos, repousa os cotovelos nos braços da poltrona e se prepara para mais uma vez xingar a falta de programas decentes. Incita seu neto, sentado à sua frente brincando com carrinhos e bonecos, dizendo que temos a pior TV do mundo. Olha para a criança e vê que ela está absolutamente absorta em brincadeiras. Ri-se. Levanta vai até a cozinha alcança uma garrafa de vinho, cor de sangue, e silenciosamente a abre se serve e volta para a poltrona. A criança nem presta um olhar. Fica então o homem ali por alguns momentos, fitando a TV e se emaranha por pensamentos, incoerências, pensa malvadezas, vinganças, balbucia sem querer um xingamento, que faz a criança olhá-lo sem entender. Ri-se de novo. Havia há pouco feito oitenta anos, o velho, em uma festa que só ele não queria comemorar. Tinha se tornado uma daquelas pessoas amargas, que só prestou a atenção no que de ruim lhe infligiram. Fora antigamente um político, não no sentido exato da palavra, mas pertencia a movimentos, fazia passeatas e tinha uma grande vontade de lutar. Lutar… Hoje é apenas uma lembrança, que somente á ele importa. Fala muito do passado, sem que os outros lhe dêem atenção, aproveita qualquer brecha de assunto para entrar em histórias. Aos quase quarenta e poucos anos, quando finalmente conseguiu o que queria politicamente, resultado de várias e várias lutas, estagnou. Então o que ele plantou, antiga esperança, é a desgraça de hoje. Tentara a todo custo sim ser o dono de seu próprio destino e acabou estendendo esta posse ao dos outros. Lutou para que seu ponto de vista fosse compartilhado, que suas visões, (previsões!) fossem ouvidas. Mas e agora? Onde foi parar sua clarividência? Mal enxerga. Não tem mais voz. Para seu próprio desespero está ainda mais lúcido do que nunca, porém até quando? A família se reúne uma vez por mês para ver o vovô, seis netos, cinco filhas. Nenhum homem. Sua luta foi também a de pai. Com desesperos e bons momentos as criou, cinco. Talvez isso que lhe tenha dado um pouco de trabalho após o fim das lutas. Seus netos provavelmente serão de outro mundo, pois seu mundo deixou de existir e não existem brechas para um velho, idealista, um rastro, um espectro de um passado pagão. Um lugar no futuro? Nem no presente ele tem um lugar. Já não o deixam fazer nada. Se tornou uma criança a ser cuidada. Terminou a taça de vinho e não está satisfeito. Não, ele nunca está satisfeito as realidades lhe fogem ao toque cada vez que tenta alcançá-las e a única que conseguiu alcançar em toda uma vida, um sonho, um desejo, trouxe mais desejos e outras realidades a serem alcançadas além das decepções. Hoje em dia ele foge das realidades, tenta um refúgio na vida de aposentado. Na poltrona, na TV (que por irritá-lo ainda serve como uma diversão) na memória. Já percebeu que as realidades não são suas amigas, não são nem agradáveis, nem justas. Em seu lapso de reflexão, o velho chora. As lágrimas lhe caem em um lamentar silencioso e ansioso. O neto ainda absorto nem percebe e seu avô já havia levantado e saído da sala. Três batidas haviam quebrado o silêncio e por pouco não quebram também a porta da frente. O homem arrastando chinelas e balbuciando “já vais” e mais xingamentos, abre a porta, ainda secando os olhos do choro. Ao fitar tão negra forma, ele cai novamente em pranto. A priori da morte, volta as costas à criatura, adentra a casa e então, goza do vinho, do momento, do passado, recolhe lembranças, sentimentos, guarda em si tudo que da li precisa para sobreviver, pois a morte é um longo instante de reflexão. E se vai. A criança ao ver a mãe chegar e desesperada tentar acudir o velho diz na forma de uma indagação – “vovô?” – e deixa-se cair aos pés do homem, em um tropeço desajeitado. Pobre criança, como explicar que à tempos não há mais “vovô”?

CONVITE/ufpr – env. por vera stokler

ANDRÉ GIDE furioso

Sobre a filosofia


Quando um filósofo completa uma resposta, ninguém mais se lembra qual foi a pergunta.

BURRICE ENTRONIZADA – por walmor marcellino

FICHA DE AVALIAÇÃO

Ao receber uma proposta chamada de “Os Invisíveis I”, o Programa de Apoio e Incentivo a Cultura designou Marli A., Artur C. F. e Osmar C. para analisarem e avaliarem o projeto com pedido de parceria.
Era uma proposta cultural insólita e, talvez por isso, fora do entendimento do programa de apoio oficial; para um programa inteligente e, talvez por isso, além da inteligência cultural do PAIC; e, contendo ações criativas, talvez por isso, muito acima da percepção da idéia de cultura do PAIC.
Seja qual for a razão, tornada pública a proposta de “Os Invisíveis I”, é a função, a pretensão e a capacidade ‑ não das três pessoas que arbitraram e se expuseram nessa “avaliação de qualidade” (?), “do conhecimento” (?) do proponente, da “adequação de orçamento” (?), da “abrangência” (?) do projeto e da “contrapartida social” ‑ do próprio Programa de Apoio e Incentivo a Cultura que está em causa. É a cabeça do prefeito de Curitiba que está sendo julgada, pelo sentido desse mecenato público; e que condições (e ou condicionamentos ético-políticos) têm essa entidade e seus burocratas estéticos para analisar e avalizar ações de cultura?
Quando tomei conhecimento desse projeto “Os Invisíveis I”, entusiasmei-me com o sentido, o alcance e a forma de demonstração de vida inteligente e crítica em Curitiba, e no Paraná. ‑ que especialmente vegeta na área cultural e suas manifestações culturais passeiam da indigência à pobreza, desmerecendo seus habitantes.
Claro que se deve fazer justiça a intelectuais e artistas criativos, não dedicados apenas ao “job” publicitário (ponto de fuga da “criatividade”) ou ao discurso acadêmico e/ou de propaganda política oficial; e sim à ruptura da mesmice produtiva e da miséria criativa.
Todavia, secretariado de cultura, acionaria cultural e incentivo a cultura são deferidos no Estado e na Capital a lheguelhés e lhogolhós, que devem decidir num bingo de mecenatos o que é cultura, sua função e quais os meios econômico-sociais disponíveis. Pura zoologia política para fazer as contas.
Vejo, pelos exercícios da burocracia cultural de Estado e Município, que a idéia de cultura e arte está nos pés do governador do Estado e no cóccix do Prefeito

JOÃO UBALDO RIBEIRO

“Se não entendo tudo, devo ficar contente com o que entendo. E entendo que vejo estas árvores e que tenho direito a minha língua e que posso olhar nos olhos dos estranhos e dizer: não me desculpe por não gostar do que você gosta; não me olhe de cima para baixo; não me envergonhe de minha fala; não diga que minha fala é melhor do que a sua; não diga que eu sou bonito, porque sua mulher nunca ia ter casado comigo; não seja bom comigo, não me faça favor; seja homem, filho da puta, e reconheça que não deve comer o que eu não como, em vez de me falar concordâncias e me passar a mão pela cabeça; assim poderei matar você melhor, como você me mata há tantos anos.”

(Vila Real)

DEPRAVADA, VAGABUNDA, SABONETE…- por rosa de janeiro*

Era assim que ela sempre foi classificada. Velhas e jovens senhoras não poupavam palavras e nem tempo para o assunto preferido quando ela passava._ Aquela menina..não sei não…_ Que menina que nada! É uma arrombada! Dá para o primeiro que vê.Mas na cabeça dela as coisas eram bem diferentes… Era uma jovem mulher, que descobriu que poderia descobrir-se muito mais, e que o sexo não se resumia em abrir as pernas e que o tesão era algo muito além do que ela sentia quando o primeiro namorado pegou em seus seios nus. Descobriu que teria muito mais prazer ao escolher um homem do que ser escolhida e que em quatro paredes deve-se fazer o que é bom para os dois e não só para o homem.Percebeu que percebia o mundo de uma maneira quase que totalmente diferente de todas as outras garotas e mulheres “vividas”. Pagou pra ver, e caro, mas nunca se arrependeu. Antes errar do que viver no erro de não ter experimentado o que o coração e o corpo pedira.Dentre muitas coisas que fazia quando dava vontade estava à raiva de ter que fazer as coisas escondido, de ter que mentir sobre o que queria, sobre o que sentir. Se era uma mulher que apreciava a beleza de um corpo másculo, de um beijo ardente, de um toque ousado ou um simples olhar provocante em meio a multidão por que viver em prol da “moral e dos bons costumes” dos puritanos hipócritas de plantão?Ela nunca gostou de ter colegas boazinhas demais. Até tinha, mas não tinha muita paciência com os seus olhares distorcidos quando ela contava algo de sua intimidade. Também não queria vagabunda que se vendiam nem quem dava por modinha, apenas queria uma amiga que também quisesse achar respostas para suas dúvidas.Até entendia as demais, mas sentia que era diferente. Nada anormal, não para ela. Mas para os outros.Não sabia controlar a vontade que tinha de se descobrir. Apreciava a beleza masculina e repudiava seu comportamento característico. Essas informações entravam em conflito e ela se tornava mais fria, tendo em mente apenas a suas segundas intenções com os desprotegidos homens que cruzavam o seu caminho, mas deixava esses pensamentos de lado quando sentia que mais uma conquista se aproximava para colocar no seu caderninho de telefones.Sim, como na música ela tinha um. Sabia direitinho a página onde encontrar o que queria para aquela noite para aquele momento. Tinha o Moreninho com cara de galã da Malhação e beijo doce, o loiro bombado com a pegada forte, o modelo bisexual que depois daquele rala gostoso ainda sabia bater um bom papo sobre os homens como uma amiga, o roqueiro cabeludo com cara de mal que ela só queria dar uns beijos e conversar. Ela tinha tudo o que queria dos homens, e ao contrário do que todos estejam pensando, todos eles sabiam como ela era, todos gostavam das coisas assim, era uma troca de momentos e na pior das hipóteses quando não se apaixonavam por ela viravam seus amigos.Ao contrário do que pensam ela era discreta, beijava quem quisesse e onde quisesse, mas sexo explicito não fazia parte da sua rotina, não era assim que ela queria se impor à sociedade. Na verdade ela não queria nada com a sociedade, queria apenas viver bem. Então como os outros sabiam “tanto” da sua vida sexual? Fora uns poucos seres desagradáveis que ela teve um relacionamento realmente ninguém sabia de nada, pois é, as pessoas inventavam. Pior que dessa vez acertaram, pois realmente casar virgem não era a sua cara nem para um desconhecido, mas isso mais uma vez confirmava o que ela sempre dizia sobre viver em função do excesso de preocupação com a “moral” sendo que essa mesma pode cair a qualquer momento pela boca do povo.Voltando ao seu íntimo, lá estava ela pensativa. Vivia várias vidas ao mesmo tempo. Sua personalidade independente só baixava a guarda quando se tratava de não magoar os pais, mesmo que lhe viesse à garganta uma vontade imensa de gritar com eles e dizer que seus desejos sexuais nada interfeririam na verdadeira moral que ela tinha, ou seja, na boa pessoa, amiga, honesta e batalhadora que era. Mas, fazer o que né, a idade de ambos e as condições da sociedade não permitia que achasse uma maneira de mostrar quem realmente era por completo à seus pais.Pensava no absurdo que o mundo era. Se fosse lésbica teria esse mesmo problema com a rejeição da sociedade e família, mas esse não era o caso, pelo contrário, apenas queria ter o mesmo direito que os homens usufruem e os fazem ser mais livres. Apenas queria ser uma mulher por completo.
Bom, coloquei esse texto de minha autoria apenas para saber mais um pouco como vocês abordam os assuntos. É importante pra mim.
Dêem a sua opinião sobre “Ela” por favor.

* quem não quiser postar em “comentários” pode enviar para o email dos palavreiros da hora que enviaremos a sua contribuição para rosa.

Entrevista com Rita Levi Montalcini – premio nobel de medicina

Entrevista com a Dra. Rita Levi, que tem 96 anos e recebeu o Premio Nobel de Medicina há 19 anos, quando tinha 77.! Rita Levi Montalcini, nasceu em Turín, Itália em 1909 e obteve o titulo de Medicina na especialidade de Neurocirurgia.
Por causa de sua ascendência judia se viu obrigada a deixar a Itália um pouco antes do começo da II Guerra Mundial. Emigrou para os Estados Unidos onde trabalhou no Laboratório Victor Hambueger do Instituto de Zoologia da Universidade de Washington de Saint Louis.
Seus trabalhos junto com Stanley Cohen, serviram para descobrir que as células solo começam a se reproduzir quando recebem a ordem para isso, ordem que é transmitida por umas substâncias chamadas fatores do crescimento.
Obteve o Premio Nobel de Fisiologia na Medicina no ano 1986, que compartilhou com Stanley Cohen.

ENTREVISTA CONCEDIDA EM 22/12/2005:

Como vai celebrar seus 100 anos?
-Ah, não sei se viverei até lá, e, além disso, não gosto de celebrações. No que eu estou interessada e gosto é do que faço cada dia.!
E o que você faz?
-Trabalho para dar uma bolsa de estudos para as meninas africanas para que estudem e prosperem … elas e seus paises. E continuo investigando, continuo pensando.
Não vai se aposentar?
-Jamais! Aposentar-se é destruir cérebros! Muita gente se aposenta e se abandona… E isso mata seu cérebro. E adoece.
E como está seu cérebro?
-Igual quando tinha 20 anos! Não noto diferença em ilusões nem em capacidade. Amanhã vôo para um congresso médico.
Mas terá algum limite genético ?
– Não. Meu cérebro vai ter um século…., mas não conhece a senilidade.. O corpo se enruga, não posso evitar, mas não o cérebro!
Como você faz isso?
– Possuímos grande plasticidade neural: ainda quando morrem neurônios, os que restam se reorganizam para manter as mesmas funções, mas para isso é conveniente estimulá-los!
-Ajude-me a fazê-lo.
-Mantenha seu cérebro com ilusões, ativo, faz ele trabalhar e ele nunca se degenera.
E viverei mais anos?
-Viverá melhor os anos que vive, é isso o interessante. A chave é manter curiosidades, empenho, ter paixões….
A sua foi a investigação cientifica…
-Sim e segue sendo.
Descobriu como crescem e se renovam as células do sistema nervoso…
-Sim, em 1942: dei o nome de Nerve Growth Factor (NGF, fator do crescimento nervoso), e durante quase meio século houve dúvidas, até que foi reconhecida sua validade e em 1986, me deram o premio por isso.
Como foi que uma garota italiana dos anos vinte converteu-se em neurocientista?
-Desde menina tive o empenho de estudar. Meu pai queria me casar bem, que fosse uma boa esposa, boa mãe… E eu não quis. Fui firme e confessei que queria estudar.
Seu pai ficou magoado?
-Sim, mas eu não tive uma infância feliz: sentia-me feia, tonta e pouca coisa… Meus irmãos maiores eram muito brilhantes e eu me sentia tão inferior…
Vejo que isso foi um estimulo
– Meu estimulo foi também o exemplo do médico Albert Schweitzer, que estava em África para ajudar com a lepra. Desejava ajudar aos que sofrem, isso era meu grande sonho…!
E você tem feito…, com sua ciência.
– E, hoje, ajudando as meninas da África para que estudem. Lutamos contra a enfermidade, a opressão da mulher nos paises islâmicos por exemplo, além de outras coisas…!
A religião freia o desenvolvimento cognitivo?
-A religião marginaliza muitas vezes a mulher perante o homem, afastando-a do desenvolvimento cognitivo, mas algumas religiões estão tentando corrigir essa posição.
Existem diferencias entre os cérebros do homem e da mulher?
– Só nas funções cerebrais relacionadas com as emoções, vinculadas ao sistema endócrino. Mas quanto às funções cognitivas, não tem diferença alguma.
Por que ainda existem poucas cientistas?
– Não é assim! Muitos descobrimentos científicos atribuídos a homens, realmente foram feitos por suas irmãs, esposas e filhas.
É verdade?
– A inteligência feminina não era admitida e era deixada na sombra. Hoje, felizmente, tem mais mulheres que homens na investigação cientifica: as herdeiras de Hipatia!
A sábia Alexandrina do século IV…
– Já não vamos acabar assassinadas nas ruas pelos monges cristãos misóginos, como ela. Claro, o mundo tem melhorado algo…
Ninguém tem tentado assassinar a você…
– Durante o fascismo, Mussolini quis imitar o Hitler na perseguição dos judeus…, e tive que me ocultar por um tempo. Mas não deixei de investigar: tinha meu laboratório em meu quarto…E descobri a apoptose, que é a morte programada das células!
Por que tem uma alta porcentagem de judeus entre cientistas e intelectuais?
– A exclusão estimula entre os judeus os trabalhos intelectivos e intelectuais: podem proibir tudo, mas não que pensem! E é verdade que tem muitos judeus entre os prêmios Nobel…
Como você se explica a loucura nazista?
– Hitler e Mussolini souberam como falar ao povo, onde sempre prevalece o cérebro emocional por cima do neocortical, o intelectual. Conduziram emoções, não razões!
Isto está acontecendo agora?
– Porque você acha que em muitas escolas nos Estados Unidos é ensinado o creacionismo e não o evolucionismo?
A ideologia é emoção, é sem razão?
– A razão é filha da imperfeição. Nos invertebrados tudo está programado: são perfeitos. Nós não e, ao sermos imperfeitos, temos recorrido a razão, aos valores éticos: discernir entre o bem e o mal é o mais alto grau da evolução darwiniana!
Você nunca se casou ou teve filhos?
– Não. Entrei no campo do sistema nervoso e fiquei tão fascinada pela sua beleza que decidi dedicar todo meu tempo, minha vida!
Lograremos um dia curar o Alzheimer, o Parkinson, a demência senil?
– Curar… O que vamos lograr será frear, atrasar, minimizar todas essas enfermidades.
Qual é hoje seu grande sonho?
– Que um dia logremos utilizar ao máximo a capacidade cognitiva de nossos cérebros.
Quando deixou de sentir-se feia?
– Ainda estou consciente de minhas limitações!
Que tem sido o melhor da sua vida?
-Ajudar aos demais.
O que você faria hoje se tivesse 20 anos?
-Mas eu estou fazendo!!!!

* env. por Berenice Teodorovicz

GLOBALIZAÇÃO – de jb vidal

por que deixar o mundo menor do que é?
para nos sentirmos maiores do que somos?
para despertar desejos?
para acentuar as diferenças?
para dividir um homem em dois?
para reciclar o desprezo?
para cuspir em outro continente?
para humilhar mais?
é tudo o que queres?
se entendes que podes tudo, então…

então construa uma estrada para as estrelas
que tenha mão de volta

então navegue o mar revolto sem velas
sem motores, nem remos

então sejas capaz de entender
um par de sapatos no telhado

então compreenda a mão estendida
para o nada

então enfie os dedos na merda
faça uma escultura e sorria

então ande de mãos dadas
com um psicótico

então sinta as tripas roncando
e imagine seja o teu monólogo

então me dê um pedaço da carne
d’uma criança morta da Etiópia

então sopre os ventos do sul
para o sul

então me dê um estilhaço de granada
de Jerusalém

então mije contra uma corrente marítima
até virar maremoto

então me dê a fome
de Serra Leoa

então morda a língua do mar
no rochedo

então me conte porque o Harlem
é o Harlem

então prove que os teus quinhentos gramas de salmão
são iguais aos meus quinhentos gramas de fome

então admita que o teu dominar
depende do meu sucumbir

então prove que minha alma
está limitada ao teu existir

se isto, então faça tudo,
se não, deixe os ventos soprarem

O POVO E O CONGRESSO NACIONAL – de fernando acácio

Diuturnamente acompanhamos as inúmeras reclamações com relação ao desempenho dos políticos, em todas as esferas de poder, contudo, o mais interessante, é que ninguém se atentou para o relevante detalhe que, tanto as Câmaras Municipais, quanto as Assembléias Legislativas Estaduais e o próprio Congresso Nacional, possuem, (pasmem!), nada mais, nada menos, do que a cara do povo brasileiro.Inúmeras pesquisas e até a mais recente efetuada pela agência de publicidade Ogilvy Brasil, mostram as inúmeras contradições de nosso povo, como por exemplo, a mais gritante, que diz respeito à participação da vida em comunidade, quando 95% se declaram inteiramente favoráveis, paradoxalmente, apenas 4% tem o trabalho social como sonho e projeto de vida, e ainda 78% concordam que o individualismo e o egoísmo cresceram muito nos últimos anos.Mas a coisa não para por ai, 60% da população condenam pequenas transgressões, como por exemplo, bater o cartão de ponto de um colega de trabalho, comprar produtos piratas ou falar ao celular no trânsito, paradoxalmente, 66% não se incomoda em comprar coisas no comércio informal ou pirata, assim, pode-se muito bem concluir que o cidadão brasileiro está pensando no seu progresso pessoal, que pode acontecer, na sua visão, independente do progresso da nação.Apenas esses dois pontos já servem para dar uma grande mostra no que a nossa sociedade vem se transformando. Justamente por isso, podemos encarar as inúmeras indignações contra os políticos como bravatas, pois ninguém toma uma ação, ao contrário do que acontece, e temos acompanhado, quando o assunto é o time do coração. Portanto, todos os cargos eletivos, refletem o pensamento da sociedade, e suas ações, nada mais são, do que o reflexo das ações da coletividade, em menor escala, porque é praticado individualmente. É correto também afirmar que o brasileiro não aprende com a sua própria história, e nem com seus intelectuais, em 1933, Gilberto Freyre já descrevia o brasileiro como um “equilibrista das contradições” em sua obra prima Casa Grande & Senzala.Mas para que serve tudo isso? Para indicar que são necessárias mudanças profundas na sociedade, mudanças estruturais, e preventivas, que produzam mudanças de comportamento, e não apenas mudanças pontuais, tomadas quando o problema já está em curso, e apenas se quer dar uma satisfação à sociedade “indignada”. Esse caminho de mudanças estruturais é muito mais longo, o que inviabilizaria os projetos políticos individuais; por isso, sempre relegado, sempre engavetado. E assim, o Brasil vai mostrando a sua cara, uma de dia e em público e outra a noite, no particular, o interessante, é que ninguém se atentou que, mais cedo, a conta é paga por todos.

O MALA – conto de josé alexandre saraiva*

Meu primeiro mala era de lascar o saco. Tão logo eu descia as escadas da faculdade, nos intervalos, ia deparando suas alças à espreita de vítimas. Quis o diabo que eu fosse uma delas. O cara, sujeitinho de poucas letras, falava sem respirar, misturando assuntos sem qualquer nexo e sem conceder qualquer chance para a interlocução. Com sorriso largo e vulgar, atraía colegas desatentos para tagarelar sozinho, rir sozinho de seu sarapatel temático, alongando-se em narrativas enfadonhas, sonolentas. Para impressionar, puxava brocardos em latim de duvidosa procedência. Nesses infelizes momentos, quando não lograva desvencilhar-me do pentelho, com a paciência alcançando o pico da tolerância, e dando-me conta de que os cigarros, um atrás do outro, já não continham a diplomacia que carrego do berço, valia-me de algum lampejo de sua respiração para vingar-me sutilmente do porra-louca. Certa feita, num milagroso intervalo de sua fala, preguei-lhe esta: “Muito bem. Noto que você vive numa verdadeira obsolescência cultural”. E o mentecapto de pronto respondeu, agradecido: “Vindo do proeminente colega tão impactante ‘elogio’, não encontro palavras para agradecer sua bondade, que atribuo à nossa amizade. Aliás a bondade humana é pérola preciosa, encontradiça em seres que aos poucos vão desaparecendo da face da terra. Por falar no planeta terra, o que acha o nobre acadêmico sobre esse terrível buraco na camada de ozônio? Discordo da tese do Vidal. Para mim, o iminente desastre contra nossa civilização não tem outro culpado senão o próprio homem. Somos responsáveis, sim, por todos os males que nos afetam. Veja a tragédia que assola os rios. Chegamos ao ponto de matar os rios! Não poupamos sequer o mico-leão. Você sabia que a população do mico-leão não chega a três centenas? Somos ou não somos os culpados? É verdade que a ciência do Direito vê a culpa de uma forma diferente do meu ponto de vista, principalmente quando não há dolo, mas, no caso em debate, não restam quaisquer resquícios de dúvidas no sentido de que somos autores em pessoa de todos os males que grassam na face da terra. O prezado poeta concorda ou não concorda com a minha posição sobre o dolo e sobre a culpa? Antes de sua resposta, considere que toda a antítese no fundo é uma tese nova, a ser resolvida pela dialética. Como diz o Serginho, a maiêutica socrática, se por um lado ganha novos adeptos, por outro, sempre enfrentou calorosos combates. Mas esses doutos combatentes, conforme tese de mestrado defendida por minha esposa e em cuja classe já me incluía antes mesmo de nascer, com a mais pura convicção, etc., etc., etc., etc., etc., etc., etc., etc., etc., etc., etc., quá-quá-rá-quá-quá, quá-quá-rá-quá-quá, quá-quá-rá-quá-quá, quá-quá-rá-quá-quá, quá-quá-quá, quá-quá-quá, quá-quá, etc., etc., etc., etc., etc., etc, et, pô, pô, pô, etc…”
Uma noite, após a aula, violenta tempestade de granizo, seguida de intenso temporal, obrigou-me a buscar desesperadamente refúgio em antigo quiosque de cafezinho da Boca Maldita, no centro de Curitiba. Completamente encharcado, adentro o ambiente notando que na rua não havia viva alma. Idem no quiosque. Enquanto limpava os óculos embaçados, eis que o meu carrasco, igualmente fugindo da chuva – que durou exatos quarenta minutos -, invade o local discursando solenemente para mim sobre o desequilíbrio social na época dos faraós. O pior: meus cigarros ficaram ensopados e o brimo do quiosque já tinha se mandado, trancando com cadeado um armário onde guardava o lenitivo para minha aflição.

*o autor é membro da Academia de Letras José de Alencar e do Centro de Letras do Paraná.

POEMA – de carolina correa*

(……)

Sala vazia.
Futuras conquistas a ocupam por inteira.
Cada canto
Vidas passadas,
Elas somente,
Desfrutam de suas historias,
Gostos e desgostos,
Conquistas e perdas.
4 paredes,
Viajantes constantes
No tempo,
No espaço.

Chaves na mão.
A porta leva ao desconhecido.
Mãos que agora a possuem,
Visam glórias,
E glórias somente.

Concreto,
Moldado conforme gostos e vontades,
Acolhendo futuros heróis da história imediata.
Pura alma.
Pura verdade.
Minha alma.
Minha verdade.
O herói.
Eu.
Eu sou o herói
Dessa história imediata.

* carolina correa (17 anos) é estreante e faz parte do grupo de novos autores do blog.

NA CASA de BUSCH – o artista plástico fernando botero – pela editoria

O artista plástico colombiano Fernando Botero afirmou em Washington que suas 79 obras sobre as torturas sofridas por prisioneiros iraquianos em Abu Ghraib foram concebidas para dar vazão à “raiva” que sentiu diante de uma conduta “inaceitável” do Governo dos Estados Unidos.Botero, de 78 anos, está na capital americana para a abertura, nesta terça-feira 6 de novembro, da exposição que o Museu de Arte da American University montou com seus quadros sobre as atrocidades cometidas no centro de detenção de Abu Ghraib. As imagens, disse, provocaram nele muita “raiva”.Numa entrevista coletiva concedida ontem, Botero disse que pintou as telas em 2005, “para serem vistas” especialmente pelo público que revela consciência política.Porém, o colombiano frisou que prefere não tratar de temas assim, já que, segundo disse, o artista “deve se manter fiel aos ideais da estética”.”Você tem que ser fiel à pintura antes de qualquer outra coisa”, declarou Botero, que também é escultor.O artista plástico enfatizou várias vezes que sua mostra é apolítica. Além disso, declarou que, com os quadros sobre Abu Ghraib, só queria aliviar a raiva que sentiu após ler a respeito das torturas cometidas pelos soldados americanos.”Só fui um artista tentando modelar meus sentimentos numa tela.Não fui um profeta, mas um artista que tentava liberar essa raiva”, acrescentou.Uma vez concluída a série de pinturas, “a raiva desapareceu, porque eu já tinha dito o que precisava dizer”, afirmou.De modo geral, as obras mostram a perspectiva das vítimas, muitas delas nuas, de mãos amarradas, encapuzadas, empilhadas numa pirâmide humana ou aterrorizadas pela presença de um cachorro ameaçador.Um dos quadros mostra um homem vendado e vestindo um sutiã e calcinha vermelhos.A figura do torturador está ausente na maioria das obras, salvo em quadros como o “Abu Ghraib 43”, dividido em três painéis.Pressionado pelos jornalistas sobre a arte como instrumento político, já que uma vez Botero disse que a arte poderia ser um ato de denúncia, o artista disse que “tudo vai se corrigir em 12, 14 meses”.O colombiano se referiu às eleições presidenciais que acontecerão nos Estados Unidos em novembro de 2008, das quais o atual presidente americano, o republicano George W. Bush, não poderá participar.Botero também disse que, com a série sobre Abu Ghraib, não foi “a primeira vez” que se preocupou com algo que sentia que deveria expressar. Ele lembrou que já criou dezenas de obras denunciando os abusos da guerrilha colombiana contra os direitos humanos.Perguntado sobre se os Estados Unidos devem fechar as prisões clandestinas ou o centro de detenções de Guantánamo, o artista plástico foi evasivo. “Não quero me meter em temas para os quais não tenho preparo nem sobre os quais sou uma autoridade, porque não tenho o conhecimento de todos os fatos por trás”, respondeu.Para Botero, a função do artista é só “fazer arte”, e há uma grande diferença entre “a política ativa e real, que é a que movimenta as coisas, e a opinião política pessoal”.”Propor soluções ou sugerir punições não é meu ofício. Ou seja, não me interessa nem tenho conhecimento de todos os dados necessários para dar emitir um juízo sobre as coisas. Só expresso minha raiva frente a algo que é evidente”, afirmou.A mostra de Botero é uma de três que fazem parte da exposição “Arte de Confronto”, na qual o Museu de Arte da American University reúne obras de protesto social e político dentro e fora dos Estados Unidos.A exposição, que já passou por Nova York e pela Califórnia, chega a Washington diretamente de Milão, e permanecerá na capital americana até 31 de dezembro, quando seguirá para o México.

Maria Peña, Waschington, 6 de nov/07 EFE

Soneto à maneira do décimo-sétimo século – de jaques brand

Dê-me tua mão, Amiga, e ao meu lado

venha dos campos ver as verdes lindes

– ainda mais lindas se por elas vindes

e mais ainda se vindes ao meu lado.

Ouçamos da floresta que os margeia

a brisa perpassar o chão florido

e num transporte breve o leve Ar ido

nos leve em seu alento ao léu, à Aléia.

Das sendas derivadas, e à deriva,

à Suma alcemos juntos, às alturas

de um Saber bom que eu sei, musa lasciva.

Enquanto achas levo à labareda

e achas leve em teus quadris meu gesto,

as Artes eu direi, de Amor, que enleva.

As Artes eu direi, de Amor, que enreda.

Sorria! Você está sendo controlado? – por francisco augusto cruz de araújo

Quem nunca se imaginou num daqueles filmes de ficção ou programas de televisão onde existem câmeras e microfones por todos os lados? Receio de ser ouvido na rápida conversa com o amigo dentro do elevador, ser visto cometendo alguma infração ou com comportamentos que contrariem a moral social? Há vinte anos, imaginávamos que essa realidade só seria possível nos filmes, novelas e livros. Mas hoje, somos submetidos a um intenso sistema de vigilância e controle e nem mesmo sabemos quem nos vigia. Tal obsessão é muito clara no filme “Invasão de Privacidade”, onde vemos que esse “olhar de poder” faz parte do nosso cotidiano, embora, não signifique sempre segurança para nós.George Orwell, escritor britânico, escreveu a obra 1984, prevendo o projeto de uma sociedade controlada por sistemas inteligentes. O Estado, chamado popularmente de Grande Irmão (Big Brother), regia o comportamento social por meio da manipulação de informações e da coação por teletelas, microfones escondidos em todos os ambientes (fossem públicos ou privados) e pela Polícia do Pensamento. Na história, as pessoas eram proibidas de pensar, falar demais, escrever e até mesmo amar sem que o Grande Irmão mediasse tais atos. Notem o avanço. Um sistema capaz de saber o pensamento do sujeito. Em 1984, Orwell questiona até que ponto permitimos o controle e a transformação da nossa realidade por um Estado totalitário disfarçado de democracia, no qual as pessoas adaptam seus costumes ao intenso Controle Social do Grande Irmão. A eterna busca por vigilância e controle social sempre foram marcas características de um Estado. Há uma frase do pensador americano Thomas Jefferson (1743-1826), que diz: “o preço da liberdade é a eterna vigilância”. Pensando essa idéia, Giddens, sociólogo inglês, reflete que por necessitar de controle da situação, o Estado teve que desenvolver certas condições de vigilância que fossem capazes de garantir a concentração administrativa que tanto caracteriza os estados modernos. Vigiar é então, um meio de se estabelecer a ordem social. Vigiar deixou de ser um papel só do Estado e se tornou também preocupação ao cidadão comum. Não é tão difícil se obter câmeras e microfones que podem facilmente ser escondidos, enfeites de casa com câmeras embutidas e aparelhos de grampos telefônicos para escuta com utilidades diversas a uma simples família. Casos de violência e abusos a crianças, idoso e corrupção são facilmente desbaratados com a ajuda de sistemas de vigilância secreta. Mais intrigante ainda, é pensar que mesmo com intensa vigilância, a sociedade sempre encontrou maneiras de passar despercebida aos olhos que tanto nos acompanham. Um caso recente e muito interessante é o que vem ocorrendo com os políticos brasileiros, que se dizem as maiores vítimas da vigilância do Estado. O Guardião da PF – sistema em que se fazem as interceptações telefônicas dos crimes à nação, como corrupção, lavagem de dinheiro, tráfico de drogas, dentre outros, tem se mostrado muito atuante no que diz respeito à “vigilância oculta e silenciosa”. As tecnologias evoluem de forma dinâmica e constante, correspondendo às necessidades das pessoas, e dentre elas, também estão os interesses criminosos e privados de alguns políticos brasileiros. Enquanto no passado cada político possuía cerca de dois ou três telefones celulares, sem contar as linhas fixas do seu gabinete, hoje eles abriram mão das linhas telefônicas e aderiram às novas tecnologias que ainda não podem ser controladas. MSN, SMS, Skype (VoIP), FAX, E-mails criptografados e muita liberdade. Vigiar e controlar seriam então a melhor maneira de prevenir problemas sociais como o crime organizado, narcotráfico e exploração sexual? Ou a privacidade do sujeito não deveria ser violada justificada pelos princípios democráticos de liberdade? Não podemos até o momento responder seguramente tantos questionamentos, mas algo já é possível de se avaliar. A sociedade de modo geral está entregue a certo modelo de vigilância, seja nos locais públicos e privados, tendo que enfrentar o olhar discreto e frio das câmeras e desta forma constrói certo código de conduta diante delas. Em contrapartida, nossos políticos se preocupam em encontrar as falhas no sistema, o local onde há o descontrole, onde não sejam captados ou percebidos. No futuro conheceremos melhor os danos e os benefícios causados à nossa democracia. Enquanto isso devemos nos acostumar com a velha expressão: “Sorria, você está sendo filmado”.

 

                                                        de tulio correa.

MODELO – poema de joão batista do lago

Vocês vêem ali aquela mulher?
Ah, como era bela e formosa!
Jovem, aquela mulher,
Despertava paixões,
Encantava poetas.
Uma luxúria, aquela mulher.

Uma celebridade, aquela mulher.
Vocês vêem ali aquela mulher?
Ah, como era bela e formosa!
Jovem, aquela mulher,
Agora, desperta pena e dó
Não tem mais passarelas
Não encontra mais poetas tagarelas

NÃO mais, never more, nunca más…

CIRURGIA de LIPOASPIRAÇÃO? composição de herbert vianna

Pelo amor de Deus, eu não quero usar nada nem ninguém, nem falar do que não sei,
nem procurar culpados, nem acusar ou apontar pessoas,
mas ninguém está percebendo que toda essa busca insana pela estética ideal é muito menos lipo-as e muito mais piração?
Uma coisa é saúde outra é obsessão.
O mundo pirou, enlouqueceu.
Hoje, Deus é a auto-imagem. Religião é dieta.
Fé, só na estética. Ritual é malhação.
Amor é cafona, sinceridade é careta, pudor é ridículo,sentimento é bobagem.
Gordura é pecado mortal. Ruga é contravenção.
Roubar pode, envelhecer não. Estria é caso de polícia. Celulite é falta de educação.
Filho da puta bem sucedido é exemplo de sucesso.
A máxima moderna é uma só: pagando bem, que mal tem?
A sociedade consumidora, a que tem dinheiro, a que produz,
não pensa em mais nada além da imagem, imagem, imagem.
Imagem, estética, medidas, beleza. Nada mais importa.
Não importam os sentimentos, não importa a cultura, a sabedoria, o relacionamento, a amizade, a ajuda, nada mais importa.
Não importa o outro, o coletivo.
Jovens não tem mais fé, nem idealismo, nem posição política.
Adultos perdem o senso em busca da juventude fabricada.
Ok, eu também quero me sentir bem, quero caber nas roupas, quero ficar legal, quero caminhar correr, viver muito, ter uma aparência legal mas…
Uma sociedade de adolescentes anoréxicas e bulímicas, de jovens lipoaspirados, turbinados aos vinte anos não é natural. Não é, não pode ser.
Que as pessoas discutam o assunto. Que alguém acorde. Que o mundo mude. Que eu me acalme. Que o amor sobreviva.
‘ Cuide bem do seu amor, seja ele quem for ‘

Todas as lições de um Mestre – por susan sontag*

De sua casa, em Nova York, onde se recuperava de um acidente automobilístico, a falecida escritora e ensaísta norte-americana Susan Sontag não queria ficar ausente dos debates, da inquietação. Sua admiração e seu respeito por Jorge Luís Borges se traduzem neste texto espirituoso, escrito em homenagem ao já então finado escritor argentino sob forma de carta. Desde 2004 Sontag faz companhia a Borges na “Biblioteca Total Celeste”.

12 de junho de 1996

Querido Borges:
Dado que sempre contemplaram sua literatura sob o signo da eternidade, não parece demasiado estranho enviar-lhe uma carta (Borges, faz dez anos). Se alguma vez algum contemporâneo pareceu destinado à imortalidade literária, este era o senhor. O senhor era em grande medida o produto de seu tempo, de sua cultura e, no entanto, sabia como transcender seu tempo, sua cultura, de uma forma que resulta bastante mágica. Isto tinha algo a ver com a abertura e a generosidade, próprias de sua atenção. Era o menos egocêntrico, o mais transparente dos escritores… e também o mais artístico. Também tinha algo a ver com uma pureza natural de espírito. Ainda que tenha vivido entre nós durante um tempo bastante prolongado, aperfeiçoou as práticas do fastio e da indiferença, que também o converteram num viajante-especialista mental em outras eras. Tinha um sentido do tempo diferente dos demais. As idéias comuns de passado, presente e futuro pareciam banais sob seu olhar. O senhor gostava de dizer que cada momento do tempo contém o passado e o futuro, citando (se bem me lembro) o poeta Browning, que escreveu algo assim como “o presente é o instante no qual o futuro se derruba no passado”. Isso, sem dúvida, era expressão de sua modéstia: seu contentamento em encontrar suas idéias nas idéias de outros escritores.
Essa modéstia se inseria na segurança de sua presença. O senhor era um descobridor de novas alegrias. Um pessimismo tão profundo, tão sereno como o seu, não necessitava da indignação. Melhor fosse inventivo… e o senhor era, sobretudo, inventivo. A serenidade e a transcendência do ser que o senhor encontrou, são para mim exemplares. O senhor demonstrou de que maneira a infelicidade não precisa ser uma necessidade, ainda que a perspicácia e o esclarecimento não nos livrem do terror de tudo isso. Em algum momento o senhor disse que um escritor – acrescentando delicadamente: todas as pessoas – deve pensar que qualquer coisa que lhe suceda, será um recurso. (Estava falando da sua própria cegueira).
O senhor foi um grande recurso para outros escritores. Em 1982 – quer dizer, quatro anos antes de morrer (Borges, faz dez anos!) – eu disse numa entrevista: “Hoje não existe nenhum outro escritor vivente que importe mais a outros escritores que Borges. Muitos diriam que é o maior escritor vivente… São muito poucos escritores de hoje que dele não aprenderam ou o não o imitaram”. E isso continua sendo assim. Ainda continuamos aprendendo com o senhor. Ainda continuamos a imitá-lo. O senhor ofereceu às pessoas novas maneiras de imaginar, ao mesmo tempo que reiterava, aqui e acolá, nossa dívida com o passado, sobretudo com a literatura. O senhor disse que devemos à literatura praticamente tudo o que somos e o que fomos. Se os livros desaparecerem, desaparecerão a história e também os seres humanos. Estou convencida de que tem razão. Os livros não são apenas a soma arbitrária de nossos sonhos e de nossa memória. Também nos fornecem o modelo da autotranscendência. Alguns pensam que a leitura é somente uma forma de escapismo: um escape do cotidiano “real” a um mundo imaginário, o mundo dos livros. Os livros são muito mais do que isso.
Lamento ter de dizer-lhe que a sorte do livro jamais esteve tão ameaçada por semelhante decadência. São cada vez mais os que alardeiam o grande projeto contemporâneo da destruição das condições que tornam a leitura capaz de repudiar o livro e seus efeitos. Imagine-se aconchegado na cama ou sentado num canto tranqüilo de uma biblioteca, folheando lentamente às páginas de um livro à luz de uma lâmpada, e à queima-roupa lhe dizem que daqui para a frente é nos “livros-tela” que deverá descarregar qualquer “texto” a pedido, e que poderá mudar sua aparência, formular perguntas, “interagir” com esse texto. Quando os livros se convertam em “textos”, com os que “interagiremos” segundo os critérios de utilidade, a palavra escrita se terá convertido simplesmente em mais um aspecto de nossas realidades televisivas, regidas pela publicidade. Este é o glorioso futuro que se está criando – e que nos prometem – como algo mais “democrático”. Obviamente o senhor e eu sabemos que isso não significa nada menos que a morte da introspecção… e do livro.
Esses tempos sequer exigem uma grande conflagração. Os bárbaros não têm que queimar os livros. O tigre está na biblioteca. Querido Borges, entenda, por favor, que não me dá prazer queixar-me. Mas: a quem melhor poderiam estar dirigidas estas queixas sobre o destino dos livros – da leitura em si – senão ao senhor? (Borges, faz dez anos!) Tudo o que quero dizer é que sentimos sua falta. Sinto saudades do senhor. O senhor continua fazendo a diferença. Estamos ingressando em uma era estranha, o século XXI. Porá à prova a alma de maneiras inusitadas. Contudo, lhe prometo: entre nós alguns não abandonarão a Grande Biblioteca. E o senhor seguirá sendo nosso exemplo e nosso herói.

*tradução do espanhol de frederico füllgraff

LAWRENCE DURRELL furioso

Sobre a tela “Mona Lisa”


Ela tem o sorriso de uma mulher que acabou de jantar o marido.

SONETO – de nelson padrella

Onde estão as fêmeas que cercavam
o tempo em que de jovem me vestia?
Das tábuas de tal cerca só os vãos
restaram. Quiçá uma ou outra tia

Gorda, envelhecida, desdentada
ainda busque trepar por sobre o muro
candidatando-se ao cargo de amada
que eu, a essas alturas, não aturo.

Pois o tempo passou. E cá fiquei
assim jovem, assustado com a velhice
em que subitamente me flagrei.

Onde estão Wilma, Célia, onde Alice?
Exatamente ali onde as deixei:
– No Campo Santo, onde ninguém as pice

O EXALAR da CORRUPÇÃO – por bru anchieta*

Em seus ateliês diabólico-políticos, corruptos alinhavam sua “roupa de roubalheira”.
Com linhas daltônicas, ludibriam as nossas retinas já tão fatigadas.Discursos demagógicos e irreais, defesas patéticas, desculpas descartáveis, com o pseudo-discurso de estarem fortalecendo a nossa democracia.Podemos falar em direito do povo quando o cenário traduz um tráfico perene de favores, entre os nossos governantes, favorecendo somente a eles e a uma casta reduzida? Falar em revigoramento da democracia em tempos que ela é alvejada indiscriminadamente não seria um enorme paradoxo? Como podemos advogar a tese que os nossos direitos são assegurados e salvaguardados por um país que exala corrupção? Os questionamentos são em demasia.
Entretanto, as respostas andam cada vez mais longe de nossas vistas. Um país que o imperativo da bandalheira rege nossos passos torna-se difícil pensarmos em democracia e a celeuma é ainda maior no que tange as respostas para as nossas angústias.Esperamos que um dia eles fiquem desnudos perante a verdade e percebam ademais a face sofrida da nossa gente, gente humilde e pobre que, na maioria das vezes, não tem o leite e o pão de seus garantidos.

Espero sinceramente que eles herdem os escombros da babilônia brasileira e que em algum de seus jantares agradáveis bebam o cálice da dor, a mesma que vitima milhões de brasileiros pobres que esperam ansiosamente por uma melhora em suas vidas…

*o autor é estudante de comunicação da UFMA

RETALHOS – poema de josé fernando nandé

Não se lembra quando, mas
A certa altura da vida começou a tecer uma mortalha com antigos trapos
Panos sobrepostos, costurados com pontos minúsculos
Engraçado, a mortalha, ano a ano,

Ficava menor;
O envelhecer lhe encolhia o corpo
Para que pano maior?

Eis, pois, que dia inadiável daria uso para os retalhos juntados
Eis, pois, que esse dia lhe traria todos os silêncios da terra

Os trapos juntados teriam então sua serventia
Cobririam o corpo miúdo; olhos outros ficariam livre de examinarem
Com atenção demasiada tão triste e feia figura

A mortalha livraria seu rosto dos terrões arremessados pelo coveiro
A mortalha seria sua única e verdadeira obra

Não se lembra quando, mas
A vida pareceu-lhe que era aquilo mesmo
Juntar retalhos e costurar mortalhas para esconder-se dos vivos
Para aninhar-se, com muito jeito, em silêncio, no colo da terra.

A NOVA CRÍTICA LITERÁRIA BRASILEIRA – por silas corrêa leite*

A Nova Crítica Literária Brasileira, às vezes nem é nova (pelos ranços e vitupérios arcaicos), nem é crítica (pelo exercício bocó da dialética imediatista do esculacho janota e boçal) às vezes sequer é literária, quer pelos devaneios de pseudos-jecas pops ou por algumas mesmices de trivialidades engodadas por certos cacarecos de organdi, ou, ainda, pode ser apenas e só isso: brasileirinha. E ainda, sorry, casca grossa e sem seca. Uns têm nome, outros inventam poses, há os que, rançosos, desqualificam uma estréia sazonal, e ainda há os que, por inveja (boa ou má), injetam venenos por causa de frustrações adquiridas, já quem não têm um merecido sucesso e permanecem neomalditos, independentes daqueles clubes de esquinas, de clubes de egos, de testes de sofás e até periféricas oficinas que mais rotulam e vendem peixe de fim de feira do que enobrecem o filão tão propenso a tolos de ouro e vice-versos.
A Nova Crítica Literária Brasileira, coitada, tem patetas de ocasião, cariocas postiços, gaúchos saradinhos, paulistas alocados e mais algumas mineirices de intelectualidades masturbatórias e, pajelanças Leminskianas. E ainda existem outros. Caetanear, por quê não?. A crítica literária brasileira apanha de relho alhures e fica paradoxal: gosta de dar vexame, chuleia citações, agasalha pandarecos e, no final, alardeia uma saideira para todos, até porque ninguém é de ferro, e, depois da tempestade vem a leptospirose.
A Nova Crítica Literária Brasileira cheira a sabão de cinzas. Mas os cueiros estão cheios. Pensa que pensa. Acha é o que não é. Ora, nossa crítica babaquara é bananeira que já deu goiaba, mas, ainda assim, no tear do imaginário impúbere, troça, troca, erra e faz-se singer em roca errada. Saravá, Caio Prado.
A Nova Crítica Literária Brasileira só tem um eventual (e ordinário) verniz novo, laca laica, pois todos beberam – como nosotros – em mágoas paradas; salutar seria se fosse pelo menos serena, crível, polida, e tivesse algum mimo no trato com as ordenanças do chamado rigor formol. Mas nem isso. E para ser um puta roqueiro, cara pálida, tem que se ouvir Pixinguinha primeiro.
A Nossa Crítica Literária Brasileira – perdão, leitores – cheira sovaco vencido de sauro-rex (espécie em extinção), é polêmica pela própria natureza; navalha afiada no enfoque pseudoerudito, bodoque de citações, mas depois dá bom-dia a cavalo, sobe no pau de sebo e, baba baby, atravessa canteiros & e cardumes. Pior, literalmente pisa na bola, magôa. Tudo isso, não com estilo, mas com “estalo”. Só que, sendo polenta fria/ardida, vende, ventila, aparece, faz limonada sem limões, de tão azeda; quase curtida em antro próprio.
A Nova Crítica Literária Brasileira quer ser o que não é. E quando é, aqui e ali, vá lá, vale quanto pesa. Entra na técnica, no estilo, no criar propriamente dito, não viça tecendo loas ao inusitado, ou comparando lesmas com resmas, mormente porque, o crítico não tem que gostar da obra analisada, mas gostar, claro – óbvio ululante – de ser Crítico. Simplesmente isso. Ou não tem nada a Ler. Nem a SER.
A Nova Crítica Literária Brasileira adora espaço novo, adora autor novo, adora alguém vencedor. Fermenta entre avencas. Dá o drible da vaca no texto em si, e cai na gandaia de acionar uma metralhadora cheia de lágrimas (ou purpurinas mal resolvidas), atirando em tudo quanto é alvo, piorando quanto acerta mitos, totens, raízes, pilares. Paraná? Rio Grande do Sul? Santa Catarina? Sai de baixo! Desse eixo ninguém pode ser bom, que altera ânimos, atiça bezerros desmamados de éticas e com/Vivências. Cá entre nós, companheiro, se cada vez que alguém faz sucesso, ocasional ou só mesmo por acidente de percurso de destino, o circo pegar fogo, vai ser um desmanche artístico-cultural total. Coisa que as sensatas tradições gaúchas não fazem. Valoram bem e tudo. Faz sentido. Ainda bem.
A Nova Crítica Literária Brasileira, principalmente aquela bem pamonha que se nutre da mídia (e do open doping da mídia) no saturado eixo Rio-São Paulo, ignora os brasis varonis gerais. Aliás, em terra de Paulo Coelho, todo mundo que cai no palco iluminado da sorte (de ser bancado por uma grande editora), é, de presto, rotulado de mané, merece ser crucifixado no alvo-mira dos pedantes pra consumo. Aleluia, Monteiro Lobato.
A Nova Crítica Literária Brasileira – que quer ser o Provão do Amém – não existe, é conversa fiada para gerente editorial dormir, chove no molhado, arde no ego, glosa no freudiano, bebe em becos e feudos, destila veneno e depois, no trivial, pançuda e demodê, espera as vaias, os aplausos, os coiós atrelados, os arigós com grife. Para não dizerem que não falei de flores, a luta continua. Todo autor neomaldito adora encontrar uma Dalila para cortar os cabelos da sonhadora iniciativa peluda e sensacionalista. O resto é mágoa de fugitivos de pagos e estâncias. Eu, por mim, prefiro continuar neomaldito e morrer assim, do que me servir do pote de vísceras de egos doentios. Nem todo crítico que lê luz é cobrador da ligação. Há os isentos. Raros e curtidos. Em terra de cego, quem tem olho pensa que é dono da bengala. FUI.

*O autor é poeta , educador e jornalista

HUMOR e ÓDIO – env. por ym

O Globo (Brasília):

Câmara se queixa do “Casseta & Planeta.”

“Pressionada por deputados, a Procuradoria da Câmara vai reclamar junto à Rede Globo pelas alusões feitas no programa “Casseta & Planeta” exibido terça-feira passada. Os parlamentares reclamaram especialmente do quadro em que foram chamados de “deputados de programa “.
Nele, uma prostituta fica indignada quando lhe perguntam se ela é deputada?O quadro em que são vacinados contra a ” febre afurtosa” também provocou constrangimento. Na noite de quarta-feira, um grupo de deputados esteve na Procuradoria da Câmara para assistir à fita do programa.Segundo o procurador Ricardo Izar (PMDB-SP), duas parlamentares choraram.
Izar se encontrará segunda-feira com representantes da emissora, para tentar um acordo, antes de recorrer à Justiça. O presidente da Câmara também se disse indignado:- O programa passou dos limites.Eles têm talento suficiente para fazer graça sem desqualificar a instituição, que garante a liberdade para que façam graça. O diretor da Central Globo de Comunicação, Luís Erlanger, disse que a rede só se pronuncia sobre ações judiciais, depois de serem efetivadas.
Os humoristas do Casseta & Planeta não quiseram falar sobre o assunto, dizendo não querer “dar importância à concorrência“.

NOTA DE ESCLARECIMENTO

“Foi com surpresa que nós, integrantes do Grupo CASSETA & PLANETA, tomamos conhecimento, através da imprensa, da intenção do presidente da Câmara dos Deputados de nos processar por causa de uma piada veiculada em nosso programa de televisão. Em vista disso, gostaríamos de esclarecer alguns pontos: 1. Em nenhum momento tivemos a intenção de ofender as prostitutas . O objetivo da piada era somente de comparar duas categorias profissionais que aceitam dinheiro para mudar de posição.2. Não vemos nenhum problema em ceder um espaço para o direito de Resposta dos deputados. Pelo contrário, consideramos o quadro muito adequado e condizente com a linha do programa. 3. Caso se decidam pelo direito de resposta, informamos que nossas gravações ocorrem às segundas-feiras, o que obrigará os deputados a ” interromper seu descanso.”

Equipe do Casseta & Planeta

WABI SABI e a Arte da Imperfeição – env. por silmara robbi

Não sei quanto a você, mas eu ando definitivamente exausta de correr atrás da perfeição.
No outro dia me peguei medindo as toalhas de banho dobradas para que elas formassem impecáveis pilhas no meu armário. Uma amiga me diz que arruma os vidros de tempero por ordem alfabética!? E o pediatra solta um comentário bem-humorado sobre mães que se sentem pessoalmente insultadas quando seus filhos ficam gripados. Como se gripe fosse uma espécie de tinta que manchasse a perfeição dos seus pimpolhos.
Nosso índice de tolerância aos “defeitos de fabricação” do universo anda mesmo muito baixo. E isso nos torna a espécie mais reclamona do universo, provavelmente a única, mas é que tenho algumas dúvidas se bois e vacas interiormente não reclamam daquelas moscas sempre em volta dos seus rabos…
Passamos um bocado de tempo tentando caber nas molduras que inventamos para nós. Isso quando escapamos de tentar vestir à força as expectativas que OUTROS criaram para NÓS.
Senão, me digam por que seres humanos razoáveis investiriam tanto tempo, dinheiro e energia para tentar recuperar a imagem que tinham aos 18 anos?
Por estas e por outras tantas foi que quando terminei de ler aquele livrinho senti que tinha recebido uma revelação divina! É só um livreto, mas, ao contrário, desses livros bonitinhos que a gente compra como se fosse um cartão para dizer “Feliz Aniversário” ou “Como eu gosto de você”, não é tão fácil assim de ler. Muito menos de pôr em prática os conselhos da autora.
Em português acabou chamando “A arte de viver bem com as imperfeições”. Uma pena, eu penso. O título em inglês é “The Art of Imperfection” ou “A Arte da Imperfeição”. Assim, simplesmente. Teria sido melhor. Porque é disto que Véronique Vienne fala no seu pequeno livro: das formas de perceber a beleza que se esconde nas frestas do mundo perfeito que tentamos, sempre em vão, construir para nós.
Você conhece aquela história de que os tapetes persas sempre têm um pequeno erro, um minúsculo defeito, apenas para lembrar a quem olha de que só Deus é perfeito?
Pois é, a Arte da Imperfeição começa quando a gente reconhece e aceita nossa tola condição humana. Véronique Vienne dividiu seu manual em dez capítulos de títulos muito sugestivos: a arte de cometer erros, a arte de ser tímido, a arte de se parecer consigo mesmo, a arte de não ter nada para vestir, a arte de não ter razão, a arte de ser desorganizado, a arte de ter gosto, não bom-gosto, a arte de não saber o que fazer, a arte de ser tolo, a arte de não ser nem rico nem famoso. E encerra o livro com 10 boas razões para ser uma pessoa comum.
“A história está cheia de criaturas incompetentes que foram muitíssimo amadas, desajeitados com personalidades cativantes e gente boba que encanta a todos com seu jeito despretensioso”.
O segredo? Aceitar nossas falhas com a mesma graça e humildade com que aceitamos nossas melhores qualidades”, ela diz. E propõe: “Perdoe a si mesmo. (…) Você não precisa ser perfeito para ser um ser humano bem-sucedido. De fato, com mais freqüência do que imaginamos, o desejo de acertar impede as coisas de melhorarem e a necessidade de estar no controle aumenta a desordem e o caos”.
A Arte da Imperfeição, no entanto, não se limita ao reconhecimento das imperfeições humanas. Também tem a ver com nosso jeito de olhar para as coisas mais banais, mais corriqueiras e enxergá-las com outros e mais benevolentes olhos.
Leonard Koren, um designer americano, publicou alguns livros tentando revelar para o nosso jeito ocidental as delicadezas do olhar “wabi sabi”. “Wabi sabi” é a expressão que os japoneses inventaram para definir a beleza que mora nas coisas imperfeitas e incompletas. O termo é quase que intraduzível. Na verdade, wabi sabi é um jeito de “ver” as coisas através de uma ótica de simplicidade, naturalidade e aceitação da realidade. Contam que o conceito surgiu por volta do século 15.
Um jovem chamado Sen no Rikyu (1522-1591) queria aprender os complicados rituais da Cerimônia do Chá. E foi procurar o grande mestre Takeno Joo. Para testar o rapaz, o mestre mandou que ele varresse o jardim. Rikyu lançou-se ao trabalho feliz. Limpou o jardim até que não restasse nem uma folhinha fora do lugar. Ao terminar, examinou cuidadosamente o que tinha feito: o jardim perfeito, impecável, cada centímetro de areia imaculadamente varrido, cada pedra no lugar, todas as plantas caprichadamente ajeitadas. E então, antes de apresentar o resultado ao mestre Rikyu chacoalhou o tronco de uma cerejeira e fez caírem algumas flores que se espalharam displicentes pelo chão.
Mestre Joo, impressionado, admitiu o jovem no seu mosteiro. Rikyu virou um grande Mestre do Chá e desde então é reverenciado como aquele que entendeu a essência do conceito de wabi-sabi: a arte da imperfeição.
O que a historinha de Rikyu tem para nos ensinar é que estes mestres japoneses, com sua sofisticadíssima cultura inspirada nos ensinamentos do taoísmo e do zen budismo, conseguiram perceber que a ação humana sobre o mundo deve ser tão delicada que não impeça a verdadeira natureza das coisas de se revelar. E a natureza das coisas é percorrer seu ciclo de nascimento, deslumbramento e morte; efêmeras e frágeis. Eles enxergaram a beleza e a elegância que existe em tudo que é tocado pelo carinho do tempo. Um velho bule de chá, musgo cobrindo as pedras do caminho, a toalha amarelada da avó, a cadeira de madeira branqueada de chuva que espreguiça no jardim, uma única rosa solta no vaso, a maçaneta da porta nublada das mãos que deixou entrar e sair.
“Wabi sabi” é olhar para o mundo com uma certa melancolia de que sabe que a vida é passageira e, por isso mesmo, bela. Para os olhos artistas de Leonard Koren “wabi sabi” é inseparável da sabedoria budista que ensina:
“Todas as coisas são impermanentes
Todas as coisas são imperfeitas
Todas as coisas são incompletas”
Daí que olhar para elas de um modo “wabi sabi” é ver: A beleza que existe naquilo que tem as marcas do tempo (a velha cadeira de balanço com sua pintura já gasta tomando o solzinho que entra pela janela é wabi sabi). A beleza do que é humilde e simples (em vez de sofisticado e cheio de ornamentos inúteis). A beleza de tudo que não é convencional (quer algo mais wabi sabi do que servir à luz de velas e em toalhas de renda um simples hamburguer?). A beleza dos materiais que ainda guardam em si a natureza (wabi sabi é definitivamente papel, algodão, velhos e nobres tecidos, nada de plástico). A beleza da mudança das estações (que tal
experimentar descobrir os primeiros verdes fresquinhos e brilhantes que anunciam a primavera?)
A Arte da Imperfeição é ver a vida com a tranquilidade de quem sabe que a busca da perfeição exaure nossas forças e corrói nossas pequenas alegrias. Porque, como disse Thomas Moore, “a perfeição pertence a um mundo imaginário”. No nosso mundo de verdade, aqui e agora, que tal abrir os olhos para o estilo “wabi sabi”?
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DOIS POEMAS – de jairo pereira

O thoroughbred (01)

O thoroughbred castanho
em sua prisão velocíssima
entre frascos de medicamentos
e escalas de trato
vê o verde extenso lá fora
um verde de capins maduros
o thoroubhbred
salta no futuro seu salto ergoluz
mede distâncias em galopes noturnos
e resplandesce manhãs afobadas
dali de seu cárcere obrigatório
estima ganhar espaços abertos
no sem-tempo
filhos potrancos em escaramuças
éguas alazãs campeando vadias
os dias longos
o thoroughbred ultraloz
calcula milhas de liberdade
no relincho repetido
de seus dias superiguais.




O thoroughbred (02)

O thoroughbred relincha
testamentos novos
sina de ser sozinho
em cubículo/cárcere
arenáticas incursões
naquelas pistas
o real: um público de só-passar
usufruir do seu talento
a visão: sonha o contrito
os verdes densos iniguais
em espaços longínquos
onde só se chega corrido
galopes de horizontes livres
trotes de passar pontes
relinchos
de assustar pássaros nos ninhos
o thoroughbred
dorme na sua cela exígua
sobre serragem pinho/araucária
& sopra nathurezas novas
pelas ventas.

JOGO de BOTÕES – por ewaldo schleder

Sabe-se que a invenção – ou descoberta? – da roda foi um dos maiores avanços da humanidade. A partir dela, a roda, tudo rolou melhor e mais rápido. Na cidade, no campo, nas montanhas; até nas águas e no ar – desde que o trem baixe e o avião pouse. E a coisa andou pelos séculos: para cima, para baixo, para os lados; para noroeste, sudeste; para o bem, para o mal. Rolamos e ralamos.

De importância igual ou ainda maior foi a anterior descoberta – seria invenção? – do fogo. A resposta que repergunto: atritar uma pedra na outra até faiscar e explodir se define como descoberta, invenção ou achado? O mais gratificante é que o homem há 8 mil anos pira com a tocha nas mãos. Uma chama nas trevas pode ser a luz no fim do túnel: uma idéia, um apelo à concentração (iogue), ao grito primal, ao ritual, ao luau, ao uivo, ao coito.

Mais modernamente, o irrequieto espírito humano brinda o mundo com as criações – invenção ou descoberta? – da pólvora, do papel e da imprensa. Surgem as primeiras bombas. Nos campos da guerra e da notícia. Perde o homem, com a ilusão de imitar o big-bang. E ganha, por outro lado, com a propagação do conhecimento. Desse experimentalismo físico-químico sobrevém o progresso científico: hidráulico, mecânico, elétrico, eletrônico, cibernético, quântico, ótico. “Nada de novo debaixo do sol”. Perguntas a Salomão.

De tudo, entretanto, o que ninguém até hoje reconhece os devidos méritos é num certo objeto, singelo, revolucionário, imprescindível. Refiro-me ao botão – sem maiores borbotões. Sim, o mísero e injustiçado botão. Monumental e minimalista. Exemplo palpável, tátil, digital, da estética e da ética. Da estética, por ser bonito ou feio, belo ou horrível, exótico, ingênuo, engraçado, ridículo, extravagante, discreto, grande, médio, pequeno; botão de rosa, botões da blusa. Sobre essa suposta estética, está aí o genial artista, mago, Hélio Leites para confirmar. E de Ética, também, pois esbarra em conceitos fundamentais de moralidade e poder. Como o insuspeito botão soviético, ícone do pavor da Guerra Fria. Como o botão de desligar, que o saudoso humorista carioca Sérgio Porto dizia ser a melhor coisa que a televisão nos oferece. Ah! E “os jogos de botões sobre as calçadas”, na canção de Ataulfo Alves (e Claudionor Cruz?).

São inúmeros os botões a nos solicitar toda atenção e cuidado, dia e noite, a nos exigir dedos ágeis e certeiros. No trabalho e em casa: no chão, na parede, no teto, na mesa, na cama, nos eletrodomésticos, nos eletrônicos. Na rua: em campainhas, nos veículos, na hora de votar, de voltar, de entrar no banco, de pagar a conta. O que seria de nós sem o botão? E os botões de roupa, então! Não há limite: roupa íntima (de meados do século 20 para trás), esportiva, social, de gala – fecho “éclair” e genéricos não valem, nem elásticos. Um simples botão, abotoado ou desabotoado, acionado ou em espera, fora de hora ou de lugar é capaz de mudar os rumos da história, ou menos: de uma festa, de uma reunião, de um encontro, de uma conversa – formal, informal ou em…off.

NEOMALTHUSIANISMO – por valdir izidoro silveira*

O espírito de Malthus ronda pelas plagas do campo brasileiro. Agora, os arautos do biocombustível, do etanol, que são os mesmos dos slogans “Crescer o bolo para depois dividir”, “Plante que o João garante” e outras enganações, estão de volta. Recentemente um artigo assinado pelo ex-ministro do planejamento da ditadura Antonio Delfim Netto , o “lagartão da soja”, alcunha que os gaúchos lhe concederam pelo Confisco da Soja, onde o ministro decidiu impor, sobre o preço da soja exportada, uma tarifa aduaneira de 30%. O artigo “Malthusianismo” publicado do Boletim da FAEP, onde questiona os “Movimentos sociais com objetivos ecológicos” que se opõem a avalanche do milho e da cana para a produção de biocombustíveis.
De nada adiantou o exministro mudar de partido porque ele continua no mesmo lado; do lado das elites, do lado das multinacionais. Ele só acertou num diagnóstico, aliás nos plagiou, quando reconhece que “a agricultura é o único setor da ec onomia onde milhões de produtores, individualistas e desorganizados, enfrentam uma estrutura oligopolista de compra, o que significa que transferem potencialmente para os consumidores todos os seus ganhos de produtividade”.
Outra afirmação equivocada de Delfim Netto é de que “os ganhos de produtividade do setor agrícola são resultado do desenvolvimento da (…), dos transgenicos (…)”. Os eventos transgenicos atuais, principalmente a soja RR não são mais produtivos pelo simples fato de se lhes colocarem a “vantagem” da resistência ao herbicida glifosato da Monsanto; mesmo porque os ganhos de produtividade são uma característica conferida à soja ou outra cultura pelo melhoramento genético convencional. Mentem quando dizem que os transgenicos são mais produtivos!
É ótimo, para nós, quando o ex todo poderoso ministro da agricultura , da economia e do planejamento da ditadura admite e reconhece, coisa que não o fazia antes, que os agricultores “enfrentam uma estrutura oligopolista de compra”, no caso as multinacionais Monsanto, Syngenta, Cargill, Bayer, etc., que vendem insumos dolarizados, na alta, para os agricultores e compram os cereais em reais na baixo, ou desvalorizados. Qual o mote dessa gente: acabar com a fome; o velho discurso esfarrapado neomalthusianista de que precisamos de mais alimentos porque a população cresce geométricamente. É… infelizmente, os neomalthusianistas estão vivos!

(*) Engenheiro agrônomo, Mestre em Tecnologia de Alimentos.