Arquivos Diários: 1 novembro, 2007

JOGO de BOTÕES – por ewaldo schleder

Sabe-se que a invenção – ou descoberta? – da roda foi um dos maiores avanços da humanidade. A partir dela, a roda, tudo rolou melhor e mais rápido. Na cidade, no campo, nas montanhas; até nas águas e no ar – desde que o trem baixe e o avião pouse. E a coisa andou pelos séculos: para cima, para baixo, para os lados; para noroeste, sudeste; para o bem, para o mal. Rolamos e ralamos.

De importância igual ou ainda maior foi a anterior descoberta – seria invenção? – do fogo. A resposta que repergunto: atritar uma pedra na outra até faiscar e explodir se define como descoberta, invenção ou achado? O mais gratificante é que o homem há 8 mil anos pira com a tocha nas mãos. Uma chama nas trevas pode ser a luz no fim do túnel: uma idéia, um apelo à concentração (iogue), ao grito primal, ao ritual, ao luau, ao uivo, ao coito.

Mais modernamente, o irrequieto espírito humano brinda o mundo com as criações – invenção ou descoberta? – da pólvora, do papel e da imprensa. Surgem as primeiras bombas. Nos campos da guerra e da notícia. Perde o homem, com a ilusão de imitar o big-bang. E ganha, por outro lado, com a propagação do conhecimento. Desse experimentalismo físico-químico sobrevém o progresso científico: hidráulico, mecânico, elétrico, eletrônico, cibernético, quântico, ótico. “Nada de novo debaixo do sol”. Perguntas a Salomão.

De tudo, entretanto, o que ninguém até hoje reconhece os devidos méritos é num certo objeto, singelo, revolucionário, imprescindível. Refiro-me ao botão – sem maiores borbotões. Sim, o mísero e injustiçado botão. Monumental e minimalista. Exemplo palpável, tátil, digital, da estética e da ética. Da estética, por ser bonito ou feio, belo ou horrível, exótico, ingênuo, engraçado, ridículo, extravagante, discreto, grande, médio, pequeno; botão de rosa, botões da blusa. Sobre essa suposta estética, está aí o genial artista, mago, Hélio Leites para confirmar. E de Ética, também, pois esbarra em conceitos fundamentais de moralidade e poder. Como o insuspeito botão soviético, ícone do pavor da Guerra Fria. Como o botão de desligar, que o saudoso humorista carioca Sérgio Porto dizia ser a melhor coisa que a televisão nos oferece. Ah! E “os jogos de botões sobre as calçadas”, na canção de Ataulfo Alves (e Claudionor Cruz?).

São inúmeros os botões a nos solicitar toda atenção e cuidado, dia e noite, a nos exigir dedos ágeis e certeiros. No trabalho e em casa: no chão, na parede, no teto, na mesa, na cama, nos eletrodomésticos, nos eletrônicos. Na rua: em campainhas, nos veículos, na hora de votar, de voltar, de entrar no banco, de pagar a conta. O que seria de nós sem o botão? E os botões de roupa, então! Não há limite: roupa íntima (de meados do século 20 para trás), esportiva, social, de gala – fecho “éclair” e genéricos não valem, nem elásticos. Um simples botão, abotoado ou desabotoado, acionado ou em espera, fora de hora ou de lugar é capaz de mudar os rumos da história, ou menos: de uma festa, de uma reunião, de um encontro, de uma conversa – formal, informal ou em…off.

NEOMALTHUSIANISMO – por valdir izidoro silveira*

O espírito de Malthus ronda pelas plagas do campo brasileiro. Agora, os arautos do biocombustível, do etanol, que são os mesmos dos slogans “Crescer o bolo para depois dividir”, “Plante que o João garante” e outras enganações, estão de volta. Recentemente um artigo assinado pelo ex-ministro do planejamento da ditadura Antonio Delfim Netto , o “lagartão da soja”, alcunha que os gaúchos lhe concederam pelo Confisco da Soja, onde o ministro decidiu impor, sobre o preço da soja exportada, uma tarifa aduaneira de 30%. O artigo “Malthusianismo” publicado do Boletim da FAEP, onde questiona os “Movimentos sociais com objetivos ecológicos” que se opõem a avalanche do milho e da cana para a produção de biocombustíveis.
De nada adiantou o exministro mudar de partido porque ele continua no mesmo lado; do lado das elites, do lado das multinacionais. Ele só acertou num diagnóstico, aliás nos plagiou, quando reconhece que “a agricultura é o único setor da ec onomia onde milhões de produtores, individualistas e desorganizados, enfrentam uma estrutura oligopolista de compra, o que significa que transferem potencialmente para os consumidores todos os seus ganhos de produtividade”.
Outra afirmação equivocada de Delfim Netto é de que “os ganhos de produtividade do setor agrícola são resultado do desenvolvimento da (…), dos transgenicos (…)”. Os eventos transgenicos atuais, principalmente a soja RR não são mais produtivos pelo simples fato de se lhes colocarem a “vantagem” da resistência ao herbicida glifosato da Monsanto; mesmo porque os ganhos de produtividade são uma característica conferida à soja ou outra cultura pelo melhoramento genético convencional. Mentem quando dizem que os transgenicos são mais produtivos!
É ótimo, para nós, quando o ex todo poderoso ministro da agricultura , da economia e do planejamento da ditadura admite e reconhece, coisa que não o fazia antes, que os agricultores “enfrentam uma estrutura oligopolista de compra”, no caso as multinacionais Monsanto, Syngenta, Cargill, Bayer, etc., que vendem insumos dolarizados, na alta, para os agricultores e compram os cereais em reais na baixo, ou desvalorizados. Qual o mote dessa gente: acabar com a fome; o velho discurso esfarrapado neomalthusianista de que precisamos de mais alimentos porque a população cresce geométricamente. É… infelizmente, os neomalthusianistas estão vivos!

(*) Engenheiro agrônomo, Mestre em Tecnologia de Alimentos.