Arquivos Diários: 3 novembro, 2007

RETALHOS – poema de josé fernando nandé

Não se lembra quando, mas
A certa altura da vida começou a tecer uma mortalha com antigos trapos
Panos sobrepostos, costurados com pontos minúsculos
Engraçado, a mortalha, ano a ano,

Ficava menor;
O envelhecer lhe encolhia o corpo
Para que pano maior?

Eis, pois, que dia inadiável daria uso para os retalhos juntados
Eis, pois, que esse dia lhe traria todos os silêncios da terra

Os trapos juntados teriam então sua serventia
Cobririam o corpo miúdo; olhos outros ficariam livre de examinarem
Com atenção demasiada tão triste e feia figura

A mortalha livraria seu rosto dos terrões arremessados pelo coveiro
A mortalha seria sua única e verdadeira obra

Não se lembra quando, mas
A vida pareceu-lhe que era aquilo mesmo
Juntar retalhos e costurar mortalhas para esconder-se dos vivos
Para aninhar-se, com muito jeito, em silêncio, no colo da terra.

A NOVA CRÍTICA LITERÁRIA BRASILEIRA – por silas corrêa leite*

A Nova Crítica Literária Brasileira, às vezes nem é nova (pelos ranços e vitupérios arcaicos), nem é crítica (pelo exercício bocó da dialética imediatista do esculacho janota e boçal) às vezes sequer é literária, quer pelos devaneios de pseudos-jecas pops ou por algumas mesmices de trivialidades engodadas por certos cacarecos de organdi, ou, ainda, pode ser apenas e só isso: brasileirinha. E ainda, sorry, casca grossa e sem seca. Uns têm nome, outros inventam poses, há os que, rançosos, desqualificam uma estréia sazonal, e ainda há os que, por inveja (boa ou má), injetam venenos por causa de frustrações adquiridas, já quem não têm um merecido sucesso e permanecem neomalditos, independentes daqueles clubes de esquinas, de clubes de egos, de testes de sofás e até periféricas oficinas que mais rotulam e vendem peixe de fim de feira do que enobrecem o filão tão propenso a tolos de ouro e vice-versos.
A Nova Crítica Literária Brasileira, coitada, tem patetas de ocasião, cariocas postiços, gaúchos saradinhos, paulistas alocados e mais algumas mineirices de intelectualidades masturbatórias e, pajelanças Leminskianas. E ainda existem outros. Caetanear, por quê não?. A crítica literária brasileira apanha de relho alhures e fica paradoxal: gosta de dar vexame, chuleia citações, agasalha pandarecos e, no final, alardeia uma saideira para todos, até porque ninguém é de ferro, e, depois da tempestade vem a leptospirose.
A Nova Crítica Literária Brasileira cheira a sabão de cinzas. Mas os cueiros estão cheios. Pensa que pensa. Acha é o que não é. Ora, nossa crítica babaquara é bananeira que já deu goiaba, mas, ainda assim, no tear do imaginário impúbere, troça, troca, erra e faz-se singer em roca errada. Saravá, Caio Prado.
A Nova Crítica Literária Brasileira só tem um eventual (e ordinário) verniz novo, laca laica, pois todos beberam – como nosotros – em mágoas paradas; salutar seria se fosse pelo menos serena, crível, polida, e tivesse algum mimo no trato com as ordenanças do chamado rigor formol. Mas nem isso. E para ser um puta roqueiro, cara pálida, tem que se ouvir Pixinguinha primeiro.
A Nossa Crítica Literária Brasileira – perdão, leitores – cheira sovaco vencido de sauro-rex (espécie em extinção), é polêmica pela própria natureza; navalha afiada no enfoque pseudoerudito, bodoque de citações, mas depois dá bom-dia a cavalo, sobe no pau de sebo e, baba baby, atravessa canteiros & e cardumes. Pior, literalmente pisa na bola, magôa. Tudo isso, não com estilo, mas com “estalo”. Só que, sendo polenta fria/ardida, vende, ventila, aparece, faz limonada sem limões, de tão azeda; quase curtida em antro próprio.
A Nova Crítica Literária Brasileira quer ser o que não é. E quando é, aqui e ali, vá lá, vale quanto pesa. Entra na técnica, no estilo, no criar propriamente dito, não viça tecendo loas ao inusitado, ou comparando lesmas com resmas, mormente porque, o crítico não tem que gostar da obra analisada, mas gostar, claro – óbvio ululante – de ser Crítico. Simplesmente isso. Ou não tem nada a Ler. Nem a SER.
A Nova Crítica Literária Brasileira adora espaço novo, adora autor novo, adora alguém vencedor. Fermenta entre avencas. Dá o drible da vaca no texto em si, e cai na gandaia de acionar uma metralhadora cheia de lágrimas (ou purpurinas mal resolvidas), atirando em tudo quanto é alvo, piorando quanto acerta mitos, totens, raízes, pilares. Paraná? Rio Grande do Sul? Santa Catarina? Sai de baixo! Desse eixo ninguém pode ser bom, que altera ânimos, atiça bezerros desmamados de éticas e com/Vivências. Cá entre nós, companheiro, se cada vez que alguém faz sucesso, ocasional ou só mesmo por acidente de percurso de destino, o circo pegar fogo, vai ser um desmanche artístico-cultural total. Coisa que as sensatas tradições gaúchas não fazem. Valoram bem e tudo. Faz sentido. Ainda bem.
A Nova Crítica Literária Brasileira, principalmente aquela bem pamonha que se nutre da mídia (e do open doping da mídia) no saturado eixo Rio-São Paulo, ignora os brasis varonis gerais. Aliás, em terra de Paulo Coelho, todo mundo que cai no palco iluminado da sorte (de ser bancado por uma grande editora), é, de presto, rotulado de mané, merece ser crucifixado no alvo-mira dos pedantes pra consumo. Aleluia, Monteiro Lobato.
A Nova Crítica Literária Brasileira – que quer ser o Provão do Amém – não existe, é conversa fiada para gerente editorial dormir, chove no molhado, arde no ego, glosa no freudiano, bebe em becos e feudos, destila veneno e depois, no trivial, pançuda e demodê, espera as vaias, os aplausos, os coiós atrelados, os arigós com grife. Para não dizerem que não falei de flores, a luta continua. Todo autor neomaldito adora encontrar uma Dalila para cortar os cabelos da sonhadora iniciativa peluda e sensacionalista. O resto é mágoa de fugitivos de pagos e estâncias. Eu, por mim, prefiro continuar neomaldito e morrer assim, do que me servir do pote de vísceras de egos doentios. Nem todo crítico que lê luz é cobrador da ligação. Há os isentos. Raros e curtidos. Em terra de cego, quem tem olho pensa que é dono da bengala. FUI.

*O autor é poeta , educador e jornalista

HUMOR e ÓDIO – env. por ym

O Globo (Brasília):

Câmara se queixa do “Casseta & Planeta.”

“Pressionada por deputados, a Procuradoria da Câmara vai reclamar junto à Rede Globo pelas alusões feitas no programa “Casseta & Planeta” exibido terça-feira passada. Os parlamentares reclamaram especialmente do quadro em que foram chamados de “deputados de programa “.
Nele, uma prostituta fica indignada quando lhe perguntam se ela é deputada?O quadro em que são vacinados contra a ” febre afurtosa” também provocou constrangimento. Na noite de quarta-feira, um grupo de deputados esteve na Procuradoria da Câmara para assistir à fita do programa.Segundo o procurador Ricardo Izar (PMDB-SP), duas parlamentares choraram.
Izar se encontrará segunda-feira com representantes da emissora, para tentar um acordo, antes de recorrer à Justiça. O presidente da Câmara também se disse indignado:- O programa passou dos limites.Eles têm talento suficiente para fazer graça sem desqualificar a instituição, que garante a liberdade para que façam graça. O diretor da Central Globo de Comunicação, Luís Erlanger, disse que a rede só se pronuncia sobre ações judiciais, depois de serem efetivadas.
Os humoristas do Casseta & Planeta não quiseram falar sobre o assunto, dizendo não querer “dar importância à concorrência“.

NOTA DE ESCLARECIMENTO

“Foi com surpresa que nós, integrantes do Grupo CASSETA & PLANETA, tomamos conhecimento, através da imprensa, da intenção do presidente da Câmara dos Deputados de nos processar por causa de uma piada veiculada em nosso programa de televisão. Em vista disso, gostaríamos de esclarecer alguns pontos: 1. Em nenhum momento tivemos a intenção de ofender as prostitutas . O objetivo da piada era somente de comparar duas categorias profissionais que aceitam dinheiro para mudar de posição.2. Não vemos nenhum problema em ceder um espaço para o direito de Resposta dos deputados. Pelo contrário, consideramos o quadro muito adequado e condizente com a linha do programa. 3. Caso se decidam pelo direito de resposta, informamos que nossas gravações ocorrem às segundas-feiras, o que obrigará os deputados a ” interromper seu descanso.”

Equipe do Casseta & Planeta

WABI SABI e a Arte da Imperfeição – env. por silmara robbi

Não sei quanto a você, mas eu ando definitivamente exausta de correr atrás da perfeição.
No outro dia me peguei medindo as toalhas de banho dobradas para que elas formassem impecáveis pilhas no meu armário. Uma amiga me diz que arruma os vidros de tempero por ordem alfabética!? E o pediatra solta um comentário bem-humorado sobre mães que se sentem pessoalmente insultadas quando seus filhos ficam gripados. Como se gripe fosse uma espécie de tinta que manchasse a perfeição dos seus pimpolhos.
Nosso índice de tolerância aos “defeitos de fabricação” do universo anda mesmo muito baixo. E isso nos torna a espécie mais reclamona do universo, provavelmente a única, mas é que tenho algumas dúvidas se bois e vacas interiormente não reclamam daquelas moscas sempre em volta dos seus rabos…
Passamos um bocado de tempo tentando caber nas molduras que inventamos para nós. Isso quando escapamos de tentar vestir à força as expectativas que OUTROS criaram para NÓS.
Senão, me digam por que seres humanos razoáveis investiriam tanto tempo, dinheiro e energia para tentar recuperar a imagem que tinham aos 18 anos?
Por estas e por outras tantas foi que quando terminei de ler aquele livrinho senti que tinha recebido uma revelação divina! É só um livreto, mas, ao contrário, desses livros bonitinhos que a gente compra como se fosse um cartão para dizer “Feliz Aniversário” ou “Como eu gosto de você”, não é tão fácil assim de ler. Muito menos de pôr em prática os conselhos da autora.
Em português acabou chamando “A arte de viver bem com as imperfeições”. Uma pena, eu penso. O título em inglês é “The Art of Imperfection” ou “A Arte da Imperfeição”. Assim, simplesmente. Teria sido melhor. Porque é disto que Véronique Vienne fala no seu pequeno livro: das formas de perceber a beleza que se esconde nas frestas do mundo perfeito que tentamos, sempre em vão, construir para nós.
Você conhece aquela história de que os tapetes persas sempre têm um pequeno erro, um minúsculo defeito, apenas para lembrar a quem olha de que só Deus é perfeito?
Pois é, a Arte da Imperfeição começa quando a gente reconhece e aceita nossa tola condição humana. Véronique Vienne dividiu seu manual em dez capítulos de títulos muito sugestivos: a arte de cometer erros, a arte de ser tímido, a arte de se parecer consigo mesmo, a arte de não ter nada para vestir, a arte de não ter razão, a arte de ser desorganizado, a arte de ter gosto, não bom-gosto, a arte de não saber o que fazer, a arte de ser tolo, a arte de não ser nem rico nem famoso. E encerra o livro com 10 boas razões para ser uma pessoa comum.
“A história está cheia de criaturas incompetentes que foram muitíssimo amadas, desajeitados com personalidades cativantes e gente boba que encanta a todos com seu jeito despretensioso”.
O segredo? Aceitar nossas falhas com a mesma graça e humildade com que aceitamos nossas melhores qualidades”, ela diz. E propõe: “Perdoe a si mesmo. (…) Você não precisa ser perfeito para ser um ser humano bem-sucedido. De fato, com mais freqüência do que imaginamos, o desejo de acertar impede as coisas de melhorarem e a necessidade de estar no controle aumenta a desordem e o caos”.
A Arte da Imperfeição, no entanto, não se limita ao reconhecimento das imperfeições humanas. Também tem a ver com nosso jeito de olhar para as coisas mais banais, mais corriqueiras e enxergá-las com outros e mais benevolentes olhos.
Leonard Koren, um designer americano, publicou alguns livros tentando revelar para o nosso jeito ocidental as delicadezas do olhar “wabi sabi”. “Wabi sabi” é a expressão que os japoneses inventaram para definir a beleza que mora nas coisas imperfeitas e incompletas. O termo é quase que intraduzível. Na verdade, wabi sabi é um jeito de “ver” as coisas através de uma ótica de simplicidade, naturalidade e aceitação da realidade. Contam que o conceito surgiu por volta do século 15.
Um jovem chamado Sen no Rikyu (1522-1591) queria aprender os complicados rituais da Cerimônia do Chá. E foi procurar o grande mestre Takeno Joo. Para testar o rapaz, o mestre mandou que ele varresse o jardim. Rikyu lançou-se ao trabalho feliz. Limpou o jardim até que não restasse nem uma folhinha fora do lugar. Ao terminar, examinou cuidadosamente o que tinha feito: o jardim perfeito, impecável, cada centímetro de areia imaculadamente varrido, cada pedra no lugar, todas as plantas caprichadamente ajeitadas. E então, antes de apresentar o resultado ao mestre Rikyu chacoalhou o tronco de uma cerejeira e fez caírem algumas flores que se espalharam displicentes pelo chão.
Mestre Joo, impressionado, admitiu o jovem no seu mosteiro. Rikyu virou um grande Mestre do Chá e desde então é reverenciado como aquele que entendeu a essência do conceito de wabi-sabi: a arte da imperfeição.
O que a historinha de Rikyu tem para nos ensinar é que estes mestres japoneses, com sua sofisticadíssima cultura inspirada nos ensinamentos do taoísmo e do zen budismo, conseguiram perceber que a ação humana sobre o mundo deve ser tão delicada que não impeça a verdadeira natureza das coisas de se revelar. E a natureza das coisas é percorrer seu ciclo de nascimento, deslumbramento e morte; efêmeras e frágeis. Eles enxergaram a beleza e a elegância que existe em tudo que é tocado pelo carinho do tempo. Um velho bule de chá, musgo cobrindo as pedras do caminho, a toalha amarelada da avó, a cadeira de madeira branqueada de chuva que espreguiça no jardim, uma única rosa solta no vaso, a maçaneta da porta nublada das mãos que deixou entrar e sair.
“Wabi sabi” é olhar para o mundo com uma certa melancolia de que sabe que a vida é passageira e, por isso mesmo, bela. Para os olhos artistas de Leonard Koren “wabi sabi” é inseparável da sabedoria budista que ensina:
“Todas as coisas são impermanentes
Todas as coisas são imperfeitas
Todas as coisas são incompletas”
Daí que olhar para elas de um modo “wabi sabi” é ver: A beleza que existe naquilo que tem as marcas do tempo (a velha cadeira de balanço com sua pintura já gasta tomando o solzinho que entra pela janela é wabi sabi). A beleza do que é humilde e simples (em vez de sofisticado e cheio de ornamentos inúteis). A beleza de tudo que não é convencional (quer algo mais wabi sabi do que servir à luz de velas e em toalhas de renda um simples hamburguer?). A beleza dos materiais que ainda guardam em si a natureza (wabi sabi é definitivamente papel, algodão, velhos e nobres tecidos, nada de plástico). A beleza da mudança das estações (que tal
experimentar descobrir os primeiros verdes fresquinhos e brilhantes que anunciam a primavera?)
A Arte da Imperfeição é ver a vida com a tranquilidade de quem sabe que a busca da perfeição exaure nossas forças e corrói nossas pequenas alegrias. Porque, como disse Thomas Moore, “a perfeição pertence a um mundo imaginário”. No nosso mundo de verdade, aqui e agora, que tal abrir os olhos para o estilo “wabi sabi”?
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