Arquivos Diários: 11 novembro, 2007

GLOBALIZAÇÃO – de jb vidal

por que deixar o mundo menor do que é?
para nos sentirmos maiores do que somos?
para despertar desejos?
para acentuar as diferenças?
para dividir um homem em dois?
para reciclar o desprezo?
para cuspir em outro continente?
para humilhar mais?
é tudo o que queres?
se entendes que podes tudo, então…

então construa uma estrada para as estrelas
que tenha mão de volta

então navegue o mar revolto sem velas
sem motores, nem remos

então sejas capaz de entender
um par de sapatos no telhado

então compreenda a mão estendida
para o nada

então enfie os dedos na merda
faça uma escultura e sorria

então ande de mãos dadas
com um psicótico

então sinta as tripas roncando
e imagine seja o teu monólogo

então me dê um pedaço da carne
d’uma criança morta da Etiópia

então sopre os ventos do sul
para o sul

então me dê um estilhaço de granada
de Jerusalém

então mije contra uma corrente marítima
até virar maremoto

então me dê a fome
de Serra Leoa

então morda a língua do mar
no rochedo

então me conte porque o Harlem
é o Harlem

então prove que os teus quinhentos gramas de salmão
são iguais aos meus quinhentos gramas de fome

então admita que o teu dominar
depende do meu sucumbir

então prove que minha alma
está limitada ao teu existir

se isto, então faça tudo,
se não, deixe os ventos soprarem

O POVO E O CONGRESSO NACIONAL – de fernando acácio

Diuturnamente acompanhamos as inúmeras reclamações com relação ao desempenho dos políticos, em todas as esferas de poder, contudo, o mais interessante, é que ninguém se atentou para o relevante detalhe que, tanto as Câmaras Municipais, quanto as Assembléias Legislativas Estaduais e o próprio Congresso Nacional, possuem, (pasmem!), nada mais, nada menos, do que a cara do povo brasileiro.Inúmeras pesquisas e até a mais recente efetuada pela agência de publicidade Ogilvy Brasil, mostram as inúmeras contradições de nosso povo, como por exemplo, a mais gritante, que diz respeito à participação da vida em comunidade, quando 95% se declaram inteiramente favoráveis, paradoxalmente, apenas 4% tem o trabalho social como sonho e projeto de vida, e ainda 78% concordam que o individualismo e o egoísmo cresceram muito nos últimos anos.Mas a coisa não para por ai, 60% da população condenam pequenas transgressões, como por exemplo, bater o cartão de ponto de um colega de trabalho, comprar produtos piratas ou falar ao celular no trânsito, paradoxalmente, 66% não se incomoda em comprar coisas no comércio informal ou pirata, assim, pode-se muito bem concluir que o cidadão brasileiro está pensando no seu progresso pessoal, que pode acontecer, na sua visão, independente do progresso da nação.Apenas esses dois pontos já servem para dar uma grande mostra no que a nossa sociedade vem se transformando. Justamente por isso, podemos encarar as inúmeras indignações contra os políticos como bravatas, pois ninguém toma uma ação, ao contrário do que acontece, e temos acompanhado, quando o assunto é o time do coração. Portanto, todos os cargos eletivos, refletem o pensamento da sociedade, e suas ações, nada mais são, do que o reflexo das ações da coletividade, em menor escala, porque é praticado individualmente. É correto também afirmar que o brasileiro não aprende com a sua própria história, e nem com seus intelectuais, em 1933, Gilberto Freyre já descrevia o brasileiro como um “equilibrista das contradições” em sua obra prima Casa Grande & Senzala.Mas para que serve tudo isso? Para indicar que são necessárias mudanças profundas na sociedade, mudanças estruturais, e preventivas, que produzam mudanças de comportamento, e não apenas mudanças pontuais, tomadas quando o problema já está em curso, e apenas se quer dar uma satisfação à sociedade “indignada”. Esse caminho de mudanças estruturais é muito mais longo, o que inviabilizaria os projetos políticos individuais; por isso, sempre relegado, sempre engavetado. E assim, o Brasil vai mostrando a sua cara, uma de dia e em público e outra a noite, no particular, o interessante, é que ninguém se atentou que, mais cedo, a conta é paga por todos.