Arquivos Diários: 14 novembro, 2007

FIM – conto de léo meimes

Jânio senta outra vez em frente a sua TV, retira os chinelos, repousa os cotovelos nos braços da poltrona e se prepara para mais uma vez xingar a falta de programas decentes. Incita seu neto, sentado à sua frente brincando com carrinhos e bonecos, dizendo que temos a pior TV do mundo. Olha para a criança e vê que ela está absolutamente absorta em brincadeiras. Ri-se. Levanta vai até a cozinha alcança uma garrafa de vinho, cor de sangue, e silenciosamente a abre se serve e volta para a poltrona. A criança nem presta um olhar. Fica então o homem ali por alguns momentos, fitando a TV e se emaranha por pensamentos, incoerências, pensa malvadezas, vinganças, balbucia sem querer um xingamento, que faz a criança olhá-lo sem entender. Ri-se de novo. Havia há pouco feito oitenta anos, o velho, em uma festa que só ele não queria comemorar. Tinha se tornado uma daquelas pessoas amargas, que só prestou a atenção no que de ruim lhe infligiram. Fora antigamente um político, não no sentido exato da palavra, mas pertencia a movimentos, fazia passeatas e tinha uma grande vontade de lutar. Lutar… Hoje é apenas uma lembrança, que somente á ele importa. Fala muito do passado, sem que os outros lhe dêem atenção, aproveita qualquer brecha de assunto para entrar em histórias. Aos quase quarenta e poucos anos, quando finalmente conseguiu o que queria politicamente, resultado de várias e várias lutas, estagnou. Então o que ele plantou, antiga esperança, é a desgraça de hoje. Tentara a todo custo sim ser o dono de seu próprio destino e acabou estendendo esta posse ao dos outros. Lutou para que seu ponto de vista fosse compartilhado, que suas visões, (previsões!) fossem ouvidas. Mas e agora? Onde foi parar sua clarividência? Mal enxerga. Não tem mais voz. Para seu próprio desespero está ainda mais lúcido do que nunca, porém até quando? A família se reúne uma vez por mês para ver o vovô, seis netos, cinco filhas. Nenhum homem. Sua luta foi também a de pai. Com desesperos e bons momentos as criou, cinco. Talvez isso que lhe tenha dado um pouco de trabalho após o fim das lutas. Seus netos provavelmente serão de outro mundo, pois seu mundo deixou de existir e não existem brechas para um velho, idealista, um rastro, um espectro de um passado pagão. Um lugar no futuro? Nem no presente ele tem um lugar. Já não o deixam fazer nada. Se tornou uma criança a ser cuidada. Terminou a taça de vinho e não está satisfeito. Não, ele nunca está satisfeito as realidades lhe fogem ao toque cada vez que tenta alcançá-las e a única que conseguiu alcançar em toda uma vida, um sonho, um desejo, trouxe mais desejos e outras realidades a serem alcançadas além das decepções. Hoje em dia ele foge das realidades, tenta um refúgio na vida de aposentado. Na poltrona, na TV (que por irritá-lo ainda serve como uma diversão) na memória. Já percebeu que as realidades não são suas amigas, não são nem agradáveis, nem justas. Em seu lapso de reflexão, o velho chora. As lágrimas lhe caem em um lamentar silencioso e ansioso. O neto ainda absorto nem percebe e seu avô já havia levantado e saído da sala. Três batidas haviam quebrado o silêncio e por pouco não quebram também a porta da frente. O homem arrastando chinelas e balbuciando “já vais” e mais xingamentos, abre a porta, ainda secando os olhos do choro. Ao fitar tão negra forma, ele cai novamente em pranto. A priori da morte, volta as costas à criatura, adentra a casa e então, goza do vinho, do momento, do passado, recolhe lembranças, sentimentos, guarda em si tudo que da li precisa para sobreviver, pois a morte é um longo instante de reflexão. E se vai. A criança ao ver a mãe chegar e desesperada tentar acudir o velho diz na forma de uma indagação – “vovô?” – e deixa-se cair aos pés do homem, em um tropeço desajeitado. Pobre criança, como explicar que à tempos não há mais “vovô”?

CONVITE/ufpr – env. por vera stokler

ANDRÉ GIDE furioso

Sobre a filosofia


Quando um filósofo completa uma resposta, ninguém mais se lembra qual foi a pergunta.

BURRICE ENTRONIZADA – por walmor marcellino

FICHA DE AVALIAÇÃO

Ao receber uma proposta chamada de “Os Invisíveis I”, o Programa de Apoio e Incentivo a Cultura designou Marli A., Artur C. F. e Osmar C. para analisarem e avaliarem o projeto com pedido de parceria.
Era uma proposta cultural insólita e, talvez por isso, fora do entendimento do programa de apoio oficial; para um programa inteligente e, talvez por isso, além da inteligência cultural do PAIC; e, contendo ações criativas, talvez por isso, muito acima da percepção da idéia de cultura do PAIC.
Seja qual for a razão, tornada pública a proposta de “Os Invisíveis I”, é a função, a pretensão e a capacidade ‑ não das três pessoas que arbitraram e se expuseram nessa “avaliação de qualidade” (?), “do conhecimento” (?) do proponente, da “adequação de orçamento” (?), da “abrangência” (?) do projeto e da “contrapartida social” ‑ do próprio Programa de Apoio e Incentivo a Cultura que está em causa. É a cabeça do prefeito de Curitiba que está sendo julgada, pelo sentido desse mecenato público; e que condições (e ou condicionamentos ético-políticos) têm essa entidade e seus burocratas estéticos para analisar e avalizar ações de cultura?
Quando tomei conhecimento desse projeto “Os Invisíveis I”, entusiasmei-me com o sentido, o alcance e a forma de demonstração de vida inteligente e crítica em Curitiba, e no Paraná. ‑ que especialmente vegeta na área cultural e suas manifestações culturais passeiam da indigência à pobreza, desmerecendo seus habitantes.
Claro que se deve fazer justiça a intelectuais e artistas criativos, não dedicados apenas ao “job” publicitário (ponto de fuga da “criatividade”) ou ao discurso acadêmico e/ou de propaganda política oficial; e sim à ruptura da mesmice produtiva e da miséria criativa.
Todavia, secretariado de cultura, acionaria cultural e incentivo a cultura são deferidos no Estado e na Capital a lheguelhés e lhogolhós, que devem decidir num bingo de mecenatos o que é cultura, sua função e quais os meios econômico-sociais disponíveis. Pura zoologia política para fazer as contas.
Vejo, pelos exercícios da burocracia cultural de Estado e Município, que a idéia de cultura e arte está nos pés do governador do Estado e no cóccix do Prefeito

JOÃO UBALDO RIBEIRO

“Se não entendo tudo, devo ficar contente com o que entendo. E entendo que vejo estas árvores e que tenho direito a minha língua e que posso olhar nos olhos dos estranhos e dizer: não me desculpe por não gostar do que você gosta; não me olhe de cima para baixo; não me envergonhe de minha fala; não diga que minha fala é melhor do que a sua; não diga que eu sou bonito, porque sua mulher nunca ia ter casado comigo; não seja bom comigo, não me faça favor; seja homem, filho da puta, e reconheça que não deve comer o que eu não como, em vez de me falar concordâncias e me passar a mão pela cabeça; assim poderei matar você melhor, como você me mata há tantos anos.”

(Vila Real)

DEPRAVADA, VAGABUNDA, SABONETE…- por rosa de janeiro*

Era assim que ela sempre foi classificada. Velhas e jovens senhoras não poupavam palavras e nem tempo para o assunto preferido quando ela passava._ Aquela menina..não sei não…_ Que menina que nada! É uma arrombada! Dá para o primeiro que vê.Mas na cabeça dela as coisas eram bem diferentes… Era uma jovem mulher, que descobriu que poderia descobrir-se muito mais, e que o sexo não se resumia em abrir as pernas e que o tesão era algo muito além do que ela sentia quando o primeiro namorado pegou em seus seios nus. Descobriu que teria muito mais prazer ao escolher um homem do que ser escolhida e que em quatro paredes deve-se fazer o que é bom para os dois e não só para o homem.Percebeu que percebia o mundo de uma maneira quase que totalmente diferente de todas as outras garotas e mulheres “vividas”. Pagou pra ver, e caro, mas nunca se arrependeu. Antes errar do que viver no erro de não ter experimentado o que o coração e o corpo pedira.Dentre muitas coisas que fazia quando dava vontade estava à raiva de ter que fazer as coisas escondido, de ter que mentir sobre o que queria, sobre o que sentir. Se era uma mulher que apreciava a beleza de um corpo másculo, de um beijo ardente, de um toque ousado ou um simples olhar provocante em meio a multidão por que viver em prol da “moral e dos bons costumes” dos puritanos hipócritas de plantão?Ela nunca gostou de ter colegas boazinhas demais. Até tinha, mas não tinha muita paciência com os seus olhares distorcidos quando ela contava algo de sua intimidade. Também não queria vagabunda que se vendiam nem quem dava por modinha, apenas queria uma amiga que também quisesse achar respostas para suas dúvidas.Até entendia as demais, mas sentia que era diferente. Nada anormal, não para ela. Mas para os outros.Não sabia controlar a vontade que tinha de se descobrir. Apreciava a beleza masculina e repudiava seu comportamento característico. Essas informações entravam em conflito e ela se tornava mais fria, tendo em mente apenas a suas segundas intenções com os desprotegidos homens que cruzavam o seu caminho, mas deixava esses pensamentos de lado quando sentia que mais uma conquista se aproximava para colocar no seu caderninho de telefones.Sim, como na música ela tinha um. Sabia direitinho a página onde encontrar o que queria para aquela noite para aquele momento. Tinha o Moreninho com cara de galã da Malhação e beijo doce, o loiro bombado com a pegada forte, o modelo bisexual que depois daquele rala gostoso ainda sabia bater um bom papo sobre os homens como uma amiga, o roqueiro cabeludo com cara de mal que ela só queria dar uns beijos e conversar. Ela tinha tudo o que queria dos homens, e ao contrário do que todos estejam pensando, todos eles sabiam como ela era, todos gostavam das coisas assim, era uma troca de momentos e na pior das hipóteses quando não se apaixonavam por ela viravam seus amigos.Ao contrário do que pensam ela era discreta, beijava quem quisesse e onde quisesse, mas sexo explicito não fazia parte da sua rotina, não era assim que ela queria se impor à sociedade. Na verdade ela não queria nada com a sociedade, queria apenas viver bem. Então como os outros sabiam “tanto” da sua vida sexual? Fora uns poucos seres desagradáveis que ela teve um relacionamento realmente ninguém sabia de nada, pois é, as pessoas inventavam. Pior que dessa vez acertaram, pois realmente casar virgem não era a sua cara nem para um desconhecido, mas isso mais uma vez confirmava o que ela sempre dizia sobre viver em função do excesso de preocupação com a “moral” sendo que essa mesma pode cair a qualquer momento pela boca do povo.Voltando ao seu íntimo, lá estava ela pensativa. Vivia várias vidas ao mesmo tempo. Sua personalidade independente só baixava a guarda quando se tratava de não magoar os pais, mesmo que lhe viesse à garganta uma vontade imensa de gritar com eles e dizer que seus desejos sexuais nada interfeririam na verdadeira moral que ela tinha, ou seja, na boa pessoa, amiga, honesta e batalhadora que era. Mas, fazer o que né, a idade de ambos e as condições da sociedade não permitia que achasse uma maneira de mostrar quem realmente era por completo à seus pais.Pensava no absurdo que o mundo era. Se fosse lésbica teria esse mesmo problema com a rejeição da sociedade e família, mas esse não era o caso, pelo contrário, apenas queria ter o mesmo direito que os homens usufruem e os fazem ser mais livres. Apenas queria ser uma mulher por completo.
Bom, coloquei esse texto de minha autoria apenas para saber mais um pouco como vocês abordam os assuntos. É importante pra mim.
Dêem a sua opinião sobre “Ela” por favor.

* quem não quiser postar em “comentários” pode enviar para o email dos palavreiros da hora que enviaremos a sua contribuição para rosa.