FIM – conto de léo meimes

Jânio senta outra vez em frente a sua TV, retira os chinelos, repousa os cotovelos nos braços da poltrona e se prepara para mais uma vez xingar a falta de programas decentes. Incita seu neto, sentado à sua frente brincando com carrinhos e bonecos, dizendo que temos a pior TV do mundo. Olha para a criança e vê que ela está absolutamente absorta em brincadeiras. Ri-se. Levanta vai até a cozinha alcança uma garrafa de vinho, cor de sangue, e silenciosamente a abre se serve e volta para a poltrona. A criança nem presta um olhar. Fica então o homem ali por alguns momentos, fitando a TV e se emaranha por pensamentos, incoerências, pensa malvadezas, vinganças, balbucia sem querer um xingamento, que faz a criança olhá-lo sem entender. Ri-se de novo. Havia há pouco feito oitenta anos, o velho, em uma festa que só ele não queria comemorar. Tinha se tornado uma daquelas pessoas amargas, que só prestou a atenção no que de ruim lhe infligiram. Fora antigamente um político, não no sentido exato da palavra, mas pertencia a movimentos, fazia passeatas e tinha uma grande vontade de lutar. Lutar… Hoje é apenas uma lembrança, que somente á ele importa. Fala muito do passado, sem que os outros lhe dêem atenção, aproveita qualquer brecha de assunto para entrar em histórias. Aos quase quarenta e poucos anos, quando finalmente conseguiu o que queria politicamente, resultado de várias e várias lutas, estagnou. Então o que ele plantou, antiga esperança, é a desgraça de hoje. Tentara a todo custo sim ser o dono de seu próprio destino e acabou estendendo esta posse ao dos outros. Lutou para que seu ponto de vista fosse compartilhado, que suas visões, (previsões!) fossem ouvidas. Mas e agora? Onde foi parar sua clarividência? Mal enxerga. Não tem mais voz. Para seu próprio desespero está ainda mais lúcido do que nunca, porém até quando? A família se reúne uma vez por mês para ver o vovô, seis netos, cinco filhas. Nenhum homem. Sua luta foi também a de pai. Com desesperos e bons momentos as criou, cinco. Talvez isso que lhe tenha dado um pouco de trabalho após o fim das lutas. Seus netos provavelmente serão de outro mundo, pois seu mundo deixou de existir e não existem brechas para um velho, idealista, um rastro, um espectro de um passado pagão. Um lugar no futuro? Nem no presente ele tem um lugar. Já não o deixam fazer nada. Se tornou uma criança a ser cuidada. Terminou a taça de vinho e não está satisfeito. Não, ele nunca está satisfeito as realidades lhe fogem ao toque cada vez que tenta alcançá-las e a única que conseguiu alcançar em toda uma vida, um sonho, um desejo, trouxe mais desejos e outras realidades a serem alcançadas além das decepções. Hoje em dia ele foge das realidades, tenta um refúgio na vida de aposentado. Na poltrona, na TV (que por irritá-lo ainda serve como uma diversão) na memória. Já percebeu que as realidades não são suas amigas, não são nem agradáveis, nem justas. Em seu lapso de reflexão, o velho chora. As lágrimas lhe caem em um lamentar silencioso e ansioso. O neto ainda absorto nem percebe e seu avô já havia levantado e saído da sala. Três batidas haviam quebrado o silêncio e por pouco não quebram também a porta da frente. O homem arrastando chinelas e balbuciando “já vais” e mais xingamentos, abre a porta, ainda secando os olhos do choro. Ao fitar tão negra forma, ele cai novamente em pranto. A priori da morte, volta as costas à criatura, adentra a casa e então, goza do vinho, do momento, do passado, recolhe lembranças, sentimentos, guarda em si tudo que da li precisa para sobreviver, pois a morte é um longo instante de reflexão. E se vai. A criança ao ver a mãe chegar e desesperada tentar acudir o velho diz na forma de uma indagação – “vovô?” – e deixa-se cair aos pés do homem, em um tropeço desajeitado. Pobre criança, como explicar que à tempos não há mais “vovô”?

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