Arquivos Diários: 15 novembro, 2007

NIETZSCHE, FOUCAULT e a HISTÓRIA – por viegas fernandes da costa.

A história da humanidade constitui-se como uma mancha formada por um líquido qualquer que se derrama por uma superfície plana: não tem direção, espalha-se sem sentido para todos os lados. No entanto, procura-se sempre a direção futura da nossa raça e as forças que a impulsionam, seu passado fundante e seu futuro redentor. O paraíso reconstruído é a promessa constanteEm seu artigo, “Nietzsche, a genealogia e a história” (In. MICROFÍSICA DO PODER), Michel Foucault faz uma breve análise dos conceitos genealógicos desenvolvidos por Friedrich Nietzsche no século XIX, e mostra que o Ocidente inventa a história, por ele chamada de ascética, para encontrar no passado o momento fundante de sua unidade, de sua identidade. Uma Europa necessitada de um povo coeso, envolvida no caldo das lutas nacionalistas, vai buscar, e não encontrando inventa, o elemento ordenador que trará tranqüilidade existencial aos seus povos. E é neste momento que emerge o ideal ascético do historiador que, como escreve Foucault, deveria “imitar a morte para entrar no reino dos mortos”; ideal ascético que vem acompanhado pelo discurso científico que dá à história a “objetividade” e o título de ciência que reconstrói a “verdade”. O historiador não fala e não sente, apenas percebe o ocorrido e o narra, “inocente”, presenteando a humanidade com suas raízes.Esta forma de historiar, tradicional, insere-se na mentalidade própria do momento em que emerge, que é marcado pela modernidade. O pensamento moderno é linear e teleológico: indica um princípio, um desenvolvimento, um fim último, um ponto de chegada, o ápice da realização humana. Tal pensamento, o da modernidade, permite a constituição de um saber histórico que trará um sentimento de segurança aos sujeitos humanos: conhecemos as nossas raízes, o solo em que pisamos, para onde vamos e o que queremos fazer; inventamos a tradição e nos agarramos a ela com todas as nossas forças. E este, então, o discurso da “história moderna”, e ao qual se opõe a genealogia, que identifica no acontecimento, na emergência do novo, a regra da dispersão, a heterogeneidade, permitida pelos conflitos existentes naquela realidade. A genealogia não é a história, mas faz uso dela para identificar o “acontecimento” e a dispersão de forças que se encontram presentes no momento da “emergência do acontecimento”. Mas assim como a genealogia faz uso da história, pode-se dizer que a história se apropria dos elementos genealógicos, inserindo-se em uma estrutura de pensamento diferente da moderna, em uma estrutura de pensamento que chamaremos de pós-moderna.Falar em pensamento pós-moderno, ou em pós-modernidade, é enveredar por uma temática cujos conceitos ainda não estão bem definidos, o que gera muitos conflitos e deturpações do termo. Como não é objetivo deste discutir a pós-modernidade propriamente dita, coloca-se apenas que o pensamento pós-moderno é aqui compreendido como aquele que se opõe à proposta da modernidade acima apresentada. Portanto, falar em “história pós-moderna” é falar de um saber histórico organizado, mas não fechado, que rompe com a proposta linear de história; um saber que passa a trabalhar com conceitos como os de descontinuidade, ruptura, subjetividade. É fazer uso do saber histórico não no sentido de compor grandes unidades nas quais os indivíduos possam se reconhecer, mas no sentido de encontrar a heterogeneidade, a luta entre as forças que surgem de todos os lados e que constituem novos acontecimentos. É questionar a tradição, a origem e o devir. E é neste sentido que Michel Foucault fala em “história efetiva”, apropriando-se ainda dos conceitos nietzscheanos, que é justamente aquela que trabalha a descontinuidade e a visão não totalizante, compreendendo que “as forças que se encontram em jogo na história não obedecem nem a uma destinação, nem a uma mecânica, mas ao acaso da luta”.É esta uma nova forma de olhar o objeto a ser estudado e historiografado, um olhar que procura a profundidade e não mais a continuidade nas “leis do devir.”

DO ARTISTA – poema de jairo pereira

o artista :eu indecifrável: no signo vida
dos dínamos interiores as idéias provindas
versáteis os meios ao alcance dos fins
vigorosos os lances as hastes do fazer
antropomísticas as tranças de luzes
febris os compostos recém-criados
vida no inanimado almas nos pós nas teias
na guirlanda sutil do pensimaginado
as mãos destras na argila compõem
heróis cavalos prédios paisagens aeronaves
construções velix do olhar semiótico
as mãos hábeis nos volumes tépidos
estruturas sobre estruturas no labor dos dedos
côncavas entrâncias cônicas formas
ásperas saliências.