Arquivos Diários: 20 novembro, 2007

AÇUCENAS LUZIDIAS – poema de namibio ferreira/Angola*

Açucenas luzidias
zumbindo
encrespam os jardins de espuma.
É Novembro.
Isto era em novembro
quando capim de muitas esperanças
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-Quando vêm as açucenas ser a flor
branca de paz
luzindo Novembro de ano inteiro?
*no dia da consciência negra este espaço homenageia com um poema de um dos maiores poetas africanos.

BARCO de PAPEL – poema de manoel de andrade*

Quem sabe por tantos barcos
navegarem a minha infância
herdei essa enorme ânsia
por navios, terras e mares.

Nesse mar dos meus pesares
meu porto é uma ilha perdida
e assim naveguei na vida
passageiro do horizonte.

Hoje pergunto a mim mesmo
se não remei sempre a esmo
a bordo do meu batel…

com meu sonho de criança
navegando a esperança
num barquinho de papel.

*manoel de andrade é poeta e autor do livro “Cantares” com sucesso no lançamento.

?POR QUE NO TE CALLAS? – por joão batista do lago*

O QUE QUIS DIZER JUAN CARLOS COM: ¿POR QUE NO TE CALLAS?

Quando o Rei Juan Carlos, de Espanha, mandou que o Presidente Hugo Chavez, de Venezuela, calasse a boca, ele não estava necessariamente advertindo a pessoa do presidente venezuelano, tampouco a instituição presidencial do país de Chavez; também, de forma alguma, o rei espanhol estava ali defendendo a dignidade do Governo do qual é locupletário ou das instituições políticas nacionais; e muito menos, ainda, o povo espanhol.

Não. Absolutamente não. Juan Carlos, em verdade, estava ali desde sempre – defendendo o quinhão da Europa rica e, consequentemente, o “status quo” do imperialismo capitalista-econômico-financeiro, que se traduz no conceito de “Consenso de Washington”. Quem observou muito bem isso (aos meus olhos de maneira intuitiva, isto é, inconscientemente) foi o Presidente do Brasil, Lula, ao inferir que ele, o rei, é que seria o patinho feio da reunião dos países latino-americanos, em Chile.

O ¿por que no te callas?, não é, como o reducionismo da imprensa festiva latino-americana – e mundial –, sob o aparato das elites econômicas internacionais, detentoras de 90% da riqueza mundial, pretendeu fazer crer a “nosotros ciudadanos”. A frase, recheada de indignação cênica, contra o que chamaram de desrespeito ao povo espanhol, não passa de engodo, de jogo cênico dos senhores donos do mundo. Representa um “aviso” aos governos latino-americanos que não querem se enquadrar ao sistema do “deus mercado”, hoje cognominado de “Convergência Universal”, que é a versão light do consenso de Washington, que, definitivamente, fracassou, sobretudo depois da “quebra” do México.

O ¿por que no te callas? é, assim, o aviso do imperialismo capitalista-econômico-financeiro, albergado por esse novo conceito de “Convergência Universal”, menos exigente e que, ainda, permite esquecer que “Washington” sugere, mas jamais cumpre o receituário por ele próprio proposto.

Entretanto, nada disso foi mostrado ou discutido pela imprensa festiva latino-americana e mundial. Quatro razões estão na base dessa não-informação: 1) o interesse dos grupos econômico-financeiros que detêm o poder da Comunicação e das Comunicações; 2) a incompetência geral da rede de profissionais desses setores, esvaziados que foram de quaisquer compromissos com a verdade; 3) a pauta do medo a partir das desregulamentações propostas – e postas em práticas – pelos governos latino-americanos, em obediência aos ditames dos senhores donos do mundo; 4) A desqualificação do trabalho, e com este, do trabalhador ou operário, ou proletário.

A imprensa festiva, então, precisava dizer alguma coisa. Daí, sob o comando dos senhores donos do mundo, sob a batuta das oligarquias econômicas mundiais, sob o reinado de um rei proscrito pela América Latina e sob o poder dos oligarcas das Comunicações, resolveu partir para a demonização pura e simples do outro ator, que diga-se de passagem, não passa também de um ditador de meia-tigela: Hugo Chavez, mas que tem tido o mérito de enfrentar os imperadores e os imperalistas.
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* joão batista do lago é poeta, escritor, pesquisador, jornalista e pensador empiricista.

SINTOMAS DE TUA AUSÊNCIA – poema de altair de oliveira

Chove lá fora e é inverno no meu peito
A tua ausência desenha um mundo cinza
O teu contágio latente manifesta
Garimpo o teu perfume rarefeito…

Tudo em mim te cobra e te precisa.
Meu coração de válvula sangrenta
Me impregna na mente e me ordena:
“Te procurar feito louco entre as caras!”
Me põe na rua atropelando medos
Pra te encontrar no sul da madrugada
Nua de todo e qualquer que nos separe
Ardendo em febre e o amor preso entre os dedos.

A CÓLERA DE ZEUS – editoria.

Um relâmpago rasga o céu e atinge em cheio a casa de Licáon. Destruída pelas chamas, num instante ela transforma-se num monte de escombros fumegantes. É assim que, do alto do Olimpo, Zeus, o soberano dos deuses, aquele que lançou o raio, põe fim aos inúmeros crimes desse malfeitor, adepto dos sacrifícios humanos. Desse dia em diante, Licáon, metamorfoseado em lobo, ficará vagando e uivando até morrer.
No entanto, Zeus soube que os cinqüenta filhos de Licáon cometem atos tão terríveis quanto os do pai. Por isso, vestido como se fosse um pobre vagabundo, Zeus apresenta-se na casa deles. Apesar de toda a sua maldade, acolhem o deus disfarçado, pois seguem as regras da hospitalidade. Convidam-no a comer com eles. Trazem para a mesa uma panela enorme. Zeus cheira a comida, e seu coração se aperta de horror: entre os miúdos de carneiro e cabrito, reconhece pedaços de carne humana. São os restos do infeliz Nictimo, o qual seus irmãos não hesitaram em assassinar para comer. É demais! Revoltado com esse crime odioso, Zeus transforma todos os canibais em lobos e devolve a vida a Nictimo. De volta ao Olimpo, o rei dos deuses, desgostoso com a espécie humana, resolve afogá-la sob um dilúvio imenso, que vai engolir o mundo inteiro.
Enquanto prepara esse cataclismo, os homens, sem nem desconfiar do que os espera, dedicam-se a suas ocupações terrestres. Mas um deles, Deucalião, rei da cidade de Tia, visita seu pai, o titã Prometeu, que mora nas montanhas do Cáucaso. Prometeu, que ama os seres humanos (a quem outrora já deu um presente de valor inestimável, o conhecimento do fogo) e sabe o que Zeus está projetando, avisa seu filho. Assim que volta a sua cidade, Deucalião começa a derrubar grandes acácias, a serrá-las em tábuas e ajuntá-las em pranchas. Ao fim de muito trabalho, termina um grande navio, uma arca que parece ter caído no meio da terra seca. Deucalião e sua mulher, Pirra, instalam-se no barco e passam a morar ali.
Um dia, o vento sul começa a soprar com rara violência, acumulando no céu pesadas nuvens negras que escondem a luz do Sol. Milhares de relâmpagos rasgam as nuvens. No meio da assustadora e incessante barulhada dos trovões, a chuva começa a cair brutalmente. Gotas enormes salpicam a poeira dos caminhos e formam uma massa de água que se espalha sobre a Terra.
A água sobe tanto que destrói e engole as cidades do litoral e, depois, os vilarejos das planícies. Quando os céus se acalmam, o mundo inteiro é apenas um imenso mar. De longe em longe, avista-se o pico do que um dia foi uma montanha e agora não passa de uma ilhota. Apenas Deucalião e Pirra sobrevivem, flutuando em sua arca. Durante nove dias, ficam à deriva, na mais completa desolação. Pouco a pouco, as águas começam a recuar, e a arca chega a uma ilha que, na verdade, é o alto do monte Parnaso.
Deucalião e Pirra, hesitantes, pisam a terra, que não esperavam rever. Imediatamente, agradecem ao grande Zeus havê-los poupado e oferecem-lhe um sacrifício. Depois, perto de onde a arca encalhou, descobrem um templo cujo telhado está coberto de algas e conchas. É o santuário de Têmis, deusa da justiça.
Com toda a humildade, Deucalião e sua companheira suplicam aos deuses que reconstituam a espécie humana. Zeus emociona-se com o pedido e envia seu mensageiro, Hermes, para anunciar que concederá o que desejam. Então, surge Têmis, que ordena: – Cubram suas cabeças! Peguem os ossos de sua mãe e joguem-nos para trás! Muito surpresos, Deucalião e Pirra entreolham-se e perguntam ao outro: – Que a deusa quis dizer? Afinal, eles não têm a mesma mãe… E que ossos podem ser esses! De repente, uma idéia os ilumina: qual é a mãe de todos os homens? A Terra! Seus ossos são as pedras que a cobrem…
O casal sai recolhendo todos os pedregulhos que encontra. Depois cada um cobre sua cabeça e, por cima dos ombros, joga as pedrinha para trás. Assim que elas tocam o chão, transformam-se em seres humanos. As pedras jogadas por Deucalião viram homens. As lançadas por Pirra, mulheres. E os dois devolvem a vida à humanidade.
Seria o caso que se repetisse?