Arquivos Diários: 22 novembro, 2007

EU GOSTO DE APANHAR NA CARA – conto de luciel ribeiro.

Desde que eu era apenas uma adolescente, eu já sentia o prazer de levar um tapa bem dado na cara. Nada me dava mais prazer, do que desrespeitar meu padrasto, e sentir sua mão pesada em meu rosto. Não sei por que sou assim, gostar de apanhar, nenhuma mulher que conheço, gosta de apanhar, nem mesmo aceitam que gritem com elas. Eu amo violência doméstica, entre quatro paredes, gosto de chegar a sangrar. Passa longe de masoquismo, sou uma mulher doente por apanhar. Não gosto de apanhar de chicote ou tapas, gosto de levar socos na boca, no olho, de ser atirada na parede, de levar chutes. Me recordo da primeira agressão que sofri ao treze anos. Depois de chegar tarde da noite em casa, meu padrasto veio tirar satisfações. – Não lhe interessa seu velho – respondi sem olhar para as fuça dele. – É assim que você responde para seu pai – disse ele. Eu voltei e fui até em frente dele e respondi – Você nunca vai ser meu pai, velho!A esbofeteada em minha cara foi tão forte quanto instantâneo, cheguei a cair no chão. Ele virou as costas e voltou para o quarto de minha mãe. Fiquei caída no chão com a mão em meu rosto. Sentindo o sangue arder. Em vez de sentir dor, afirmo que sentir e prazer e passei a rir. Depois desta primeira agressão, outras aconteceram. Cada vez mais freqüente, quase todos os dias. Toda vez que estava na presença, a sós com meu padrasto, eu dava um jeito de deixá-lo furioso comigo.Quando ele assistia jogo, eu mudava de canal, ficava horas no banheiro, chamava ele de velho, ele odiava esse apelido. Ele tinha cabelos brancos, mas pintava-os de preto regulamente, para não dar nas vista que era um velho. E nada me dava mais alegria do que chama-lo de velho e logo em seguida receber uma boa esbofeteada na cara. Passados alguns anos, ele nem me dava tapas, mas sim murros. O ódio dele só aumentava na mesma proporção do meu prazer em apanhar.Quando não se enfurecia comigo, eu o incitava a me agredir.- O que aconteceu velho pintado, não vai me bater hoje, ou será que já não tem mais força pra isso – dizia a ele. As bordoadas vinham ferozes. Eu não vencia em comprar maquiagens para disfarçar os hematomas. E não me cansava de arranjar desculpas para minha mãe sobre os olhos roxos, boca inchada e coisas do tipo. Brigas na escola, boladas na cara na aula de educação física, quedas na calçada, e todas essas bobagens que as meninas arrumam para enganar a elas mesmas. Quanto estava na presença da minha mãe, e meu padrasto estava perto, nós dois éramos cúmplices das agressões. Ele não falava a minha mãe que eu o desrespeitava, e eu não falava que ele me batia.O Tempo passou, e meu padastro realmente ficou velho, e muito fraco, sofria de problemas cardíacos, até que um dia sofreu um enfarte.O último suspiro que ele deu, foi depois dele ter me batido como nunca havia me batido antes. Aquela noite foi a última. Ele começou a me esmurrar contra a parede, e quanto mais ele me dava socos, mais eu dava risadas e o chamava de velho fraco e desprezível. Minha boca sangrava, e sentia o meu olho inchando, de repente, ele ficou ofegante, não conseguia respirar, ajoelhou-se no chão e pedia me ajuda. Eu me sentei encostada na parede do meu quarto, e fiquei olhando o meu padrasto agonizando seus últimos momentos de vida. Não podia conter um sorriso em minha boca ensangüentada.
– Cadela, filha da puta – foram as últimas palavras daquele velho.
Hoje sou uma mulher casada, tenho dois filhos. Mesmo assim gosta de violência. De Apanhar na cara.Quando namorava Ricardo, ele era um homem amável e sensível. Sempre me dizia coisas bonitas e carinhosas. Mas faltava algo na relação. Faltava violência. Eu sentia falta de apanhar. De levar uns belos murros na cara. Para incitar violência em Ricardo, fiz o que deixa qualquer homem furioso.
Traição. Foi o que eu fiz.
Era terça-feira, Ricardo me ligou perguntando se eu gostaria de sair. Respondi que estava com dor de cabeça.
– Tudo bem então, quando você estiver melhor me liga – falou Ricardo, com aquela voz de anjo de sempre. Em seguida liguei para Josias, um cara que sempre foi afim de mim, e marquei um encontro em um bar. Encontro marcado, tratei de ligar para Solange, minha melhor amiga, e mandei ela ligar para Ricardo, falando que eu estava na bar com outro.No bar, tive que ficar enrolando o Josias até que Ricardo chegasse. Quando Ricardo entrou no bar, e me viu sentado na mesa com Josias, passei em cima da mesa, derrubando uma garrafa de cerveja e dei um beijo em Josias, e fiquei grudada nele por um bom tempo. Parei de beijar Josias e olhei para ver onde estava o Ricardo. Para minha surpresa, ele tinha sumido.
– Este foi o melhor beijo da minha – falou Josias.
– Eu vou embora – disse me levantando.Josias me agarrou pelo braço.
– Você não vai há lugar nenhum.
– Me solta Josias – gritei com ele. Mas não sei o que houve que Josias me agarrou e tentou me beijar outra vez.
– Você vai ter que dar mais um beijo, está pensando o que sua cachorra – gritou ele.Uma garrafa atingiu em cheio a cabeça de Josias. Era Ricardo. Josias colocou as mãos na cabeça e virou-se para ver quem o atingiu. Ricardo pegou uma cadeira e arrebentou no peito dele. Josias caiu no chão atordoado. Os olhos de Ricardo exalavam ódio e raiva. Quando olhou pra mim, senti até cala frios.
– Dor de cabeça sua vadia – disse ele vindo até mim.
– Qual o problema – respondi a ele.
Ricardo agarrou uma garrafa erguendo rapidamente.
– Agora você vai realmente ficar com dor de cabeça!Quebrar uma garrafa de vidro na cabeça, não foi lá a coisa mais prazerosa que já senti.A pessoa que vi depois do Ricardo quebrando minha cabeça, foi a de um médico, abrindo o meu olho.
– Ela está bem – disse o doutor para outra pessoa – até de tarde, ela já pode ir para casa.Eu estava em uma cama de hospital, em um quarto cinza. O médico saiu. Olhei em volta para ver quem mais estava ali. Era Ricardo, com um buquê de flores.
– Olá Silvana – disse aproximando-se de mim.
– Olá.- Trouxe isso pra você.Ele colocou o buquê em meus braços e depois sentou-se na cadeira.
– Agora sei que me ama! – disse a ele com a dor do meu coração.Depois que sai do hospital me casei com Ricardo. Em nossos momentos íntimos, não usamos garrafas de cerveja, e sim, chicote e algemas.

DANÇANDO SOZINHO – de eric mantoani

Como a globalização ajuda a explicar o relacionamento, a diversão e o desinteresse da juventude.


Pra você ver… A globalização, e isso seria um paradoxo se não fosse característica inerente ao fenômeno, tem a peculiaridade de separar as pessoas e deixá-las apenas próximas de si mesmas, e a juventude vai lidando bem com isso, aprendendo a dançar sozinha. A juventude de outrora ainda não compreende – e nem se esforça para tanto – o porquê de tanto marasmo e suavemente sofre com a nostalgia dos tempos que transpiravam revolução, em que a música, a arte e todo o cotidiano eram batalhas e obras criativas, e tudo tudo inspirava uma reflexão.O jovem hoje é bombardeado por informações e não tem capacidade – e nem deveria – de escolher a melhor oferta e ler a melhor notícia, assim, não havendo um mal maior específico contra o qual lutar, não há uma unidade de pensamentos e ações, e age-se cada um por si, o que explica inclusive a superficialidade dos relacionamentos interpessoais na atualidade e a música eletrônica.Os relacionamentos afetivos agora se dão em forma de experiências, no caráter mais genuíno da palavra. São experiências quase didáticas – mas não necessariamente – porque agora aprendeu-se a pensar, e dar mais lugar à racionalidade. Relacionamentos duradouros cedem menos a racionalidade, e é muito bom que ainda existam, muito embora não se saiba o porquê. – É raro encontrar-se uma resposta, ao indagar ao casal por que um está com o outro, e é positivo não se pensar nisso, para evitar a fadiga.Aliás, aprendeu-se também a não pensar muito para evitar a fadiga, ou melhor, o estresse. Muita informação, muita informação. Isso estressa! E dançamos sozinhos porque ninguém tem as mesmas fontes.Nos negócios, a carência afetiva das pessoas é ainda mais evidente, prova disso é o sucesso da informalidade. Trabalhadores informais têm tido algum sucesso no mercado (e são 98% das microempresas no Brasil, conforme divulgou o IBGE na última semana) porque oferecem aos donos das empresas a quem prestam serviços – e não somente às próprias instituições – uma atenção pessoal, e o contato humano tem sido o segredo do sucesso dos informais, mais um reflexo da impessoalidade dos relacionamentos contemporâneos.Nos tempos em que a tônica era o debate, a discussão e sobretudo o pensamento e a luta coletiva, a música refletia em harmonia, melodia e letra o sentimento coletivo de afinco a uma idéia e a uma revolução, os shows eram em locais pequenos e pra poucas pessoas e os debates atravessavam horas e centenas de idéias, ao decorrer dos tragos. As danças tinham passos definidos e eram a dois.Já hoje, quando a revolução é a globalização e conseqüentemente o isolamento, quando as informações invadem as casas e bombardeiam as mentes através dos muitos e eficazes meios de comunicação, a música não precisa de letra, a melodia não precisa tocar o cérebro e sim relaxar o corpo, fazendo-o dançar descontrolada e desuniformemente, respeitando o individualismo de cada pessoa. Os shows agora são festas, justamente por serem locais de mera diversão e relaxamento, e atraem sempre milhares de pessoas, pois o excesso também é inerente à globalização, e reforçam o hábito de experimentação afetiva e sexual, de relacionamentos distantes, embora constantes, e da sistematização do afeto. As drogas modernas estimulam o corpo e oferecem mais prazer do que relações existenciais com os sentimentos.Uma juventude que em geral trabalha no horário comercial e estuda no horário que sobra, que precisa se reciclar como se fosse o lixo coletado que deve ser reaproveitado para continuar sendo usado e ter sua vida útil prolongada, precisa mesmo de válvulas de escape, e deve mesmo se engajar menos, afinal já tem todo seu empenho empregado na própria sobrevivência, pois já cresceu aprendendo a se safar por si, a ver o seu lado, e tudo converge ao individualismo existencial e ao escape coletivo da diversão – disfarçadamente sistematizado – para evitar os próprios males causados por esse cenário.

MENINO de COR – poema de josé sérgio costa*

Sou defensor de minha raça,
De minha cor, de minha cultura
De meu povo.
Se defendo meu ideais,
É por que cresci sendo chamado de menino de cor,
É por que não tenho mais medo
As ofensas, deixei pra trás
Junto com a recusa e o desrespeito por minha cor.
Se defendo minha cultura,
É por que, como menino de cor
Me tornei rapaz de cor
E hoje sou um homem de cor
É porque sigo de cabeça erguida cantando o ilê aiê.
Viva o negro trabalhador…
Que em seu canto sedutor
Ouve agora o meu cantar.
Se saio agora do anonimato
E sou reconhecido pelo meu nome
É por que conquistei o meu lugar
E enfim serei lembrado,
Mas sempre me orgulharei
De ter a minha cor.

* josé sérgio costa é poeta de Ubaitaba – BA

FIZ O QUE PUDE – poema de paulo matos*

Canastrão mexicano tentando a vida em Hollywood

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Há os que fazem da vida um presente
E os que prezam o que fazem da vida
Uns se dão de presente a guarida
Outros: sonhos. Vivem o presente

Nenhum dos dois tá errado
Basta tentar entender
Uns comem sonhos de creme
Outros: os sonhos lhes dão de comer

*paulo matos é poeta editado pelo grupo EPOPÉIA.

GLAUBER ROCHA e o cinema novo – editoria

Nome: Glauber Pedro de Andrade Rocha
“Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça” . Glauber revolucionou o cinema. Resumindo, mostrou ao mundo a sobrevivência do brasileiro, aquele que luta dia a dia para sobreviver. “Nosso cinema é novo porque o homem brasileiro é novo e a problemática do Brasil é nova e a nossa luz é nova e por isso nossos filmes nascem diferentes dos cinemas da Europa.” Glauber preocupou-se em retratar a vida do povo nordestino, o sertanejo. Mesclava a realidade com mitologia. “No Brasil, o Cinema Novo é uma questão de verdade e não de fotografismo. Para nós, a câmera é um olho sobre o mundo, o travelling é um instrumento de conhecimento, a montagem não é demagogia mas a pontuação do nosso ambicioso discurso sobre a realidade humana e social do Brasil!”O cinema novo lutava por uma causa. Por trás das câmeras, havia uma idéia. A fórmula do folhetim revolucionário, combinando cinema, política e mitologia popular. Dessa fórmula, nasceu muitos filmes, entre eles: Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969).Deus e o Diabo na Terra do Sol , explodiu como uma revelação. Glauber partiu da convulsão e violência da terra sertaneja para chegar à rebeldia pura. Beatos e cangaceiros são os nossos rebeldes primitivos, portadores de uma raiva revolucionária, emissários da cólera da Terra para além de Deus e do Diabo.Glauber usou o imaginário euclidiano de Os sertões, onde a violência, a ferocidade, a fome e a revolta transformam-se em duelo, dança e sobrevivência.Beatos, vaqueiros, matadores de aluguel tornam-se em agentes da Revolução. “Somente pela violência e pelo horror, o colonizador pode compreender a força da cultura que ele explora”. A violência é um desejo de transformação. “A mais nobre manifestação cultural da fome”.O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro , filme popular, comercial, político e ousado, consagra Glauber como melhor diretor em Cannes.Glauber tinha algo de sádico e histérico. “Para explodir, a revolução tem que ser precedida por um crime, um massacre”.O período de 1969 a 1976, ficou fora do Brasil. O que poderia significar o exílio quando “o país chamado Brasil está tão dentro da gente que é impossível sair”. Glauber deixou de vez o Brasil, em 1971, quando a repressão tornou-se insuportável.Foi preso em 65. Seu apartamento é desmontado e revirado pela polícia. Em 67, o filme Terra em Transe foi proibido em território nacional.Em 1970, as prisões e tortura fazem Glauber sair do país. No exílio, realizou seus filmes mais “impopulares” e poucos exibidos no Brasil.O Leão de Sete Cabeças e Cabeças Cortadas são filmes-colagem, com encenação de conceitos e slogans. Glauber define O Leão, como uma tentativa de “alcançar a síntese dos mitos históricos do Terceiro Mundo por meio do repertório nacional do drama popular .De 1971 a 1976, fez uma espécie de peregrinação pelos centros do comunismo e da esquerda internacional: o socialismo africano no Congo ( O Leão), Cuba (História do Brasil), Chile de Allende, Peru de Alvarado, Roma do PCI, Paris dos exilados e guerrilheiros brasileiros.”Estou nos desertos d’Oriente! Meu coração é grande demais! Viajando sem parar pelas rotas fantásticas de príncipes e ladrões e guerreiros: raptando princesas e negociando segredos ao sabor das fumaças e ao som dos tamborim.. Não tem volta! É a felicidade que dói de tão boa “.Casou-se em Cuba, com a jornalista Maria Tereza Sopeña. Tornou-se um militante de organizações clandestinas e produziu o filme História do Brasil. Foi expulso de Cuba, por desentendimentos políticos.Voltou ao Brasil em 1981, seriamente doente, “Não curto essa de ser mártir!”.Glauber Pedro de Andrade Rocha nasceu em Vitória da Conquista, Bahia. Em 14 de Março de 1938, morreu em 22 de agosto de 1982 no Rio de Janeiro.Sua marca no cinema brasileiro é incomparável. Glauber e seus filmes, dividem o mesmo tom: irreverência, ousadia e revolução.”O cinema é, antes de tudo, uma indústria, inclusive se é dirigido contra a indústria.”

A HISTÓRIA PERVERSA do BIQUÍNI – por frederico füllgraf *

Um ano depois do silêncio das armas da 2a. Guerra Mundial, Louis Reard, estilista francês, teve o que a infiltração anglicizante do nosso vernáculo chama de insight: lançaria uma peça de vestuário de encher os olhos com as prendas do corpo feminino: curvas, saliências, altiplanos e vales, preservando, s´il vous plais!, as fagueiras e vaporosas vergonhas venusinas. Discreto, passou madrugadas em vigília, desenhando maquetes de seu invento revolucionário, mas sentiu que lhe faltava um nome forte com apelo exótico. Eis que, em julho de 1946, faltando quatro dias para o lançamento da nova criação, explodem as bombas atômicas “Baker” e “Abel” no Atol de Bikini, centro do Pacífico Sul, e de bandeja os EUA oferecem a Reard o nome que rasgaria a boca do balão, do jeito que as bombas tinham rasgado ao meio o atol – oulalá, la mode du terreur!

Deparei-me com esta estória intrigante anos atrás, durante a pesquisa para o roteiro do telefilme Burning Sand, para o qual tinha entrevistado em Nova York, Antony Guarisco, marine norte-americano durante campanha do Pacífico, e que em 1987 liderava o movimento nacional dos Atomic Veterans. Desde a década dos anos 70 reclamavam reparações dos sucessivos governos em Washington. Reparações pela morte de aprox. 200 mil veteranos que participaram dos testes nucleares entre as décadas de 40 e 60, porque tinham sido enganados, traídos pelas autoridades, forçados a assinar “salvo-condutos”, cheques em branco isentando o Pentágono de “todas e quaisquer responsabilidades por eventuais danos à saúde”. A malícia infernal já estava subentendida na própria declaração, mas os boys assinaram; alguns por patriotismo, outros por ingenuidade, outros ainda por esdruxularias equivalentes. Quando conheci Guarisco, ele já se arrastava pelos corredores do hotel apoiado numa bengala, os ossos triturados pela doença terminal que matara a maioria de seus camaradas. Impossível esquecer sua frase dirigida para a câmera, com seu testemunho sobre a explosão da bomba Baker no atol de Bikini: “A sound of frying eggs was in the air and for minutes I could see my own bones trough the flesh of my hands.. – um som de ovos fritos crispava o ar e por minutos pude ver meus próprios ossos através da carne da minha mão …” A cena de terror fora vivida por Guarisco e seus companheiros numa praia de Bikini, sem proteção física alguma contra o “grande raio-X”, o eclipse da luz e das trevas. O objetivo da missão: “testar as condições de combate da tropa após um ataque nuclear soviético”… Ficção? História, das escalafriantes! Nunca mais vi Guarisco, há poucos anos liguei de Curitiba para sua esposa e soube que ele tinha morrido de leucemia…

O filme, com roteiro baseado em meu livro A bomba pacífica (Brasiliense, 1988) e financiamento inicial do Film Office Hamburg, há anos aguarda conclusão, porque a Guerra Fria deixava de ser fashion, as usinas nucleares e seus gêmeos siameses, as bombas também atômicas, caíram em desuso em escala global. Mas eis que o projeto é salvo pelo gongo da História, melhor: por sua versão Bonapartista, aquela, cuja repetição Marx tão espirituosamente chamou de farsa. É que o fogo fátuo da Guerra Fria se reacende e, atento às graves alterações climáticas e a desesperada busca por fontes geradoras de energia de baixo impacto ambiental, um poderoso lobby (l´escroquerie nucleaire, como diz um amigo gallo-romano) arma esperto revisionismo histórico dos perigos das instalações nucleares, agora vendidas ao distinto público como “as menos poluentes e mais seguras”. E fez a cabeça de Nosso Timoneiro. Este, como se sabe, entre mensalões e outras diatribes da nova classe de alpinistas sociais, aprovou a conclusão de Angra-3 e a construção de mais seis outras usinas nucleares. Dizem línguas afiadas que o Brasil precisa de assento no Conselho de Segurança da ONU, onde meras usinas nucleares rimam com bombas… , que o bolivarismo de Chávez estaria se armando até os dentes, y otras tonterías más… (bueno, está bien: que las hay, las hay!) Mas: o que interessa aqui, é que das seis usinas planejadas, duas ou três operarão no litoral do Nordeste – o que me devolve o insight de Louis Reard…

Nos anos 50 a relação macabra entre a fonte inspiradora e o trapinho homônimo – a bomba e o biquíni – repercutiu desfavoravelmente para Reard. Mais, non!, argumentando pela tangente, afirmou que havia emprestado o nome do sumário traje de banho ao atol, e não à bomba. A verdade é que ele tirou enorme vantagem dos testes com a arma terminal, cuja devastação parecia pescar no inconsciente coletivo fantasias associadas ao imperativo histórico de uma urgente devastação da moral vitoriana. Com a reprodução em algodão, de fac-símiles da cobertura de imprensa sobre os testes nucleares, Reard promoveu um marketing literalmente bombástico. Mas o inventor do biquíni necessitava de um trunfo adicional, pois outro francês, Jacques Heim, havia chegado às passarelas com uma criação semelhante – a do maiô partido em dois, assumidamente batizado de “L’atome”. Reard contra-atacou, promovendo seu biquíni como “o traje menor que o mundialmente menor dos trajes” e ganhou a guerra dos nomes e das torcidas, pois do seu lado estava a turma do “tii-ra!, tiiii-ra !”.

Contudo, garimpadas as segundas intenções nos anais e nas lixeiras da História, eis que uma insólita explicação econômica parece varrer todo o encanto, substituindo nossas fantasias por fatos. O pano de fundo histórico do biquíni, que aqui funciona como perfeito trocadilho, foi a falta de pano para a confecção de fundilhos. Em 1943, em plena 2a. Guerra Mundial, o governo norte-americano obrigou a indústria têxtil ao racionamento de matérias-primas, provocando a redução de 10 por cento de algodão na confecção de trajes de banho femininos. O resultado desta operação militar foi uma espécie de “ventre livre” patriótico para o corpo feminino e foi Reard quem lhe daria a forma no Velho Continente. Sua inovação mercadológica consistiu em reduzir o traje para 30 polegadas de malha, desmembradas em bustier top e um triângulo invertido down, conectados por um cordão. O biquíni de Reard era tão sumário para a moral da época em que nenhuma modelo parisiense ousou subir a passarela.

Nos EUA, certa “Liga pela Decência” pressionou os produtores de Hollywood para banir o biquíni das telas. Porta-vozes da cruzada vitoriana questionaram em público a reputação das moças convertidas à moda, afirmando que “o biquíni revela tudo no corpo de uma mulher, menos o nome da mãe dela “(sic!). Impávido, Reard manteve a classe e a ousadia a serviço do marketing, contratando Micheline Bernardini, em cuja cabeça e corpo o biquíni caiu como uma luva, pois atuava como dançarina de nus no Cassino de Paris: após uma sessão de fotos dela em poses reclinantes, a imprensa caiu de quatro, embasbacada, e a musa foi soterrada sob uma avalanche de 50 mil cartas de fãs ensandecida/os.

Mas la Bernardini não foi capaz de impor a capitulação aos vitorianos EUA. Desesperado (melhor: de olho grande no mercado yankee), Reard incorporou a carta do eremita do tarô e teve seu segundo insight: une femme fatal mal conhecida por “BB”. Deslocou para o campo de batalha suas estonteantes curvas, acentuadas pelo trapinho et voilá!, era o que faltava: o biquíni precisava de curvas para ser valorizado e la BB impôs a queda das últimas barricadas norte-americanas. Entrava em cena em Hollywood o vitorioso trapo que matava a cobra e escondia o… principal. Das passarelas para a tela e o vinil, foi um passo. O biquíni foi cantado em prosa e verso, imortalizado no rock de Brian Hyland, do final dos anos 50, “Itsy-Bitsy-Teenie-Weenie/Yellow-Polka-Dot Bikini”.

A empresa de Reard conseguiu manter-se no mercado até 1988. Uma versão sobre os motivos do fechamento da empresa insinua que Reard perdera a guerra pela miniaturização para o fio-dental brasileiro; aberração, vingança dos inventivos trópicos e golpe fatal nos planos do estilista.

Cinqüenta anos depois, é oportuno indagar se a vinculação proposital do maiô partido em dois com a arma de extermínio em massa, não abriga códigos de significados convergentes. O primeiro deles é a “onda Shumpeteriana”: em conjunturas de abertura democrática e crescimento econômico, a moda (e a libido!) abre-se também, liberando o corpo do “supérfluo” (no inconsciente coletivo pós-guerra, masculino, era enorme a demanda pela “abertura do pano” sobre o corpo feminino). O segundo é seu significante profundamente pós-moderno: a visão de Reard é a alegoria do êxtase ilimitado, cujo pêndulo sempre oscila entre Eros e Tanatos, entre o prazer e a morte – o signo marcante de toda a cultura iconográfica e moda, militarizadas e ferozmente midiatizadas neste início de 3º. Milênio.

Por fim, uma pitada de pimenta tupiniquim: as bombas atômicas norte-americanas lançadas sobre o paradisíaco atol de Polinésia – imortalizado nos quadros de Paul Gauguin – foram construídas, durante e depois da 2ª Guerra Mundial, com matéria-prima brasileira: milhões de toneladas de areia monazítica, contendo urânio e tório, das praias de Guarapari, no Espírito Santo, Mãe Ubá e outros costões do sul nordestino. Quem aguardar o filme, verá.

* frederico füllgraf é escritor, roteirista e diretor de cinema.