Arquivos Diários: 24 novembro, 2007

INVENÇÃO DE S – conto de luis felipe leprevost

Como é S? Como você gostaria que fosse? Como eu acredito que ela deva ser? E como é que S gostaria de ser?

É daquelas que nas ruas e supermercados encara os homens? Não. Ou somente com discrição. Mantêm na maioria das vezes os olhos baixos. E tem um profundíssimo olhar de peixe de recônditas águas frias, de túneis de neblinas densas, de silêncio sentimental olvidado em si mesmo.

Porém os homens miram a todo momento a silhueta de S. No entanto, só aqueles que procuram mulheres não vulgares. S não é das que chacoalham as ancas às insinuações e assobios, galanteios e frases de efeito para popozudas de plantão. Ô lá em casa, se você quer saber, é um exemplo de tais frases, entusiasticamente utilizadas por pedreiros, entregadores de panfletos, taxistas e motoristas em geral.

Com S é diferente, ela se guarda, não com recato, senão porque há alguma vocação em S para a sabedoria. Invento eu suas vocações. Invento se é sábia ou não. Invento, sem pudores, uma S semelhante à musa que era tão cheia de pudor que vivia nua. Invento. Desenho S com tintas humanas. Não, é S quem me desenha.

Envio S para longe? Ou ela é que permanece em mim lá onde sou estanque, sangue coagulado?

S não é alta, se você quer saber. Deduzo que estudou balé clássico em remota época do colegial, dada sua postura retilínea.

S tem maçãs no rosto, não avermelhadas, em verdade, um tanto pálidas. O rosto é bem desenhado, boa geometria. O seu narizinho é quase implicante. Alguma semelhança com Dorothy Parker na flor ferida de sua beleza. É um nariz levemente arrebitado, pequenino. Narinas que lançam pouco ar para fora. Os lábios são menos que grossos, mais que finos, mais que asiáticos, menos que africanos.

E a voz de S? Turva, soprada, diria, nem grave nem aguda. É uma espécie de voz recém amanhecida.

S fuma? Fuma. Socialmente. E quando é acometida por stress, quando se sente pressionada ou acuada. É elegante o modo como fuma. Os lábios, a maneira como contornam o cilindro queimando. Não há nada de pornográfico em S fumando. Erótico, talvez. Sensual, sem dúvida, mas ainda assim respeitando as particularidades de sua timidez e da meiguice de suas características.

S executa ações de esmagar o toco no cinzeiro, de soltar para cima a nuvem de fumaça, como fossem acontecimentos displicentes quando intimamente foram estudados.

S abre vez ou outra a bolsa pequena e preta, sem alça e de coro, e tira de dentro um tablete de Halls Preto, e mastiga a bala como nalgum piquenique à belle époque.

S é aquela espécie de mulher que de uma hora para outra te crava os dentes na goela quando você menos esperar. Assim é que comprova sua mordedura saudável, com três ou seis obturações em dentes que um dia chegaram a doer bastante. E é agradável vê-la comer.

S tem têmporas adocicadas, bem delineadas pela parceria com a curva do cabelo negro, cortado algo próximo, porém mais moderno, do estilo Chanel, estrategicamente bagunçado.

Assim mantenho o pescoço de S revelado. As costas são lisas, mas com algumas pintas, menores e maiores, porém sem nenhuma mancha. Que magníficas costas, eretas, simétricas. Paralelas são suas omoplatas. À orla de sua cintura há carnes apalpáveis, conhecidas graciosamente por pneuzinhos.

E os seios? Túrgidos. Nem um pouco afobados dentro do soutienzinho. Talvez eu exagere em relação ao soutienzinho, afinal não são mínimas azeitonas os seios de S. Bolinhas de tênis, talvez, levemente derretidas em fogo brando, e açucarados, delicatessen. Aliás, não são seios, são peitos, peitinhos de medida e envergadura beirando a perfeição.

E o que mais? S não é radiosa, não obstante, o que há de opaco nela é, justo, o que provoca fascínio. Tem ossos leves, e uma pele sem excesso de colágeno. O Paraíso é uma fragrância. Sempre cheirosa é a minha S, com a lavanda que casa perfeitamente em seu suor nem tanto salgado.

S não é de usar vestimentas pesadas, de difícil despir. La Maja Desnuda, sempre veste jeans da marca Levi´s, com suas misturas de índigo e lycra. Blusinha de algodão, e casaquinho de lã por sobre o ombro em caso de sereno. E lá na extremidade inferior de seu corpo, envolvendo pezinhos que são folhas sem peso, S calça indefectíveis sapatilhas.

MIOPIA DE INFORMAÇÃO – de adilson luiz gonçalves

A miopia é um distúrbio bastante comum no ser humano. Não sou oftalmologista, mas, na qualidade de míope, desde os onze anos de idade, aprendi que existem, basicamente, duas formas de resolver esse problema: uso de lentes corretivas ou cirurgia. Quem não optar por uma das duas, dependendo do grau da anomalia, não conseguirá enxergar direito à distância, e precisará que alguém lhe diga o que vê. Se essa pessoa for bem-intencionada, auxiliará da melhor forma possível; mas se for de má índole…
As coisas são mais ou menos iguais quando se trata do ato de informar, qualquer que seja a mídia: a imagem que vemos ou a informação que recebemos pode ser absolutamente verídica, mas, se o contexto for omitido, poderá ser leviana ou intencionalmente tendenciosa. Explico:Vivi cerca de um ano na França, na década de 1980. Afora os jornais e revistas – que lia no consulado brasileiro -, e correspondências e telefonemas esporádicos, eu sempre aguardava alguma notícia ou imagem do Brasil, pelas emissoras de televisão locais. Só tive sucesso em cinco oportunidades:Primeira: Um jornalista francês entrevistou o magnífico ator Grande Otelo numa espelunca carioca, patética. O entrevistado estava visivelmente alterado e mal conseguia responder às perguntas. Qual era a intenção do entrevistador? Curiosamente, uma das mais cortejadas e controvertidas personalidades artísticas francesas da época: Serge Gainsbourg – mais conhecido como autor da música “Je t’aime” -, comparecia a todos os eventos públicos: embriagado, mal-vestido, falando palavrões e fumando um cigarro atrás do outro! Segunda: Numa reportagem sobre os “bóias-frias” dos canaviais brasileiros, as cenas de pobreza e trabalho árduo eram entrecortadas com imagens de um empresário desconhecido, elegantemente trajado, num suntuoso escritório de um edifício paulistano, exaltando a pujança do mercado de açúcar e álcool. Em compensação, o governo e a alta sociedade parisiense execraram o humorista “Coluche”, quando este implantou, com o apoio de outros artistas famosos, os “Restaurants du Coeur” (Restaurantes do Coração), destinados a oferecer calor e alimento aos sem-teto da capital francesa, que, descobriu-se, não eram poucos! Terceira: Um comediante francês veio ao Brasil, especialmente para cobrir o Carnaval. Deu ênfase exagerada à nudez das passistas! Alguém, aí, já ouviu falar do Carnaval de Nice? Que o “top-less” é praticado sem problema nas praias francesas? Já passeou em Pigalle? Quarta: Jorge Amado recebeu uma homenagem da Universidade de Aix-en- Provence. Sua obra era considerada como “retrato fiel” do Brasil! Por analogia: ele estava, para a França, como Carmem Miranda, para os EUA. Mas somos todos como os personagens de Amado ou usamos mangas bufantes e chapéus de frutas, como Carmem? Quinta: A Copa do Mundo de 1986.Todas eram, parcialmente verídicas, mas, qual poderia ser a imagem dos franceses sobre o Brasil a partir dessas informações? Qual o real objetivo dessa “miopia informativa”? Nós somos assim ou é assim que querem que sejamos vistos? A informação é um bem de valor inestimável! Deve, portanto, ser fornecida com idoneidade e responsabilidade, pois, um boato, uma meia-verdade, uma leviandade ou uma intriga pode desestabilizar governos e países, deixar mercados “nervosos”, além de provocar desemprego e morte. Será que polêmica e notoriedade pessoal valem esse preço! Além disso, depois do “estrago” feito é difícil voltar atrás. Na maioria dos casos, não há retratações formais, direitos de resposta ou indenizações pecuniárias que compensem os danos provocados! E não adiante culpar a “fonte”, pois é de responsabilidade de quem vai a ela verificar se é “potável”, ou melhor, “pautável”! Um antigo programa humorístico de rádio, num de seus quadros, representava uma emissora interiorana, que usava o seguinte bordão: “- Quando num tem notícia, nóis inventa!”. Para alguns maus jornalistas – e maus profissionais existem em todas as profissões! – isso é norma e meio de vida. Infelizmente, há quem lhes dê crédito, financiamento e cumplicidade; e não são apenas os tablóides sensacionalistas… Mas para quem acredita que a imprensa deve estar a serviço da democracia está claro e nítido que ela precisa ser como uma lente corretiva para a sociedade. Deve estar a serviço da verdade, pela verdade e para a verdade, sem tutelas ou patrulhamentos! Se não o fizer ela não passará de mais um elemento de manipulação, manutenção ou agravamento dessa “miopia”, a serviço, quase sempre, de interesses escusos! Viva a liberdade de expressão! Mas viva também a idoneidade, a responsabilidade e o compromisso com a verdade, de quem a exerce!

O SUBPENSAMENTO VIVO de marconi leal

O crítico literário é o único bípede autotrófico de óculos de que se tem notícia: alimenta-se do próprio ego. Seu habitat artificial são as mesas de discussão, as noites de autógrafo e outros ambientes inóspitos. Tem o corpo dividido em língua, tronco e membros.
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Que nós temos ínfima importância nos planos divinos e possuímos a única missão de reproduzir, eu sei. O que me deixa indignado é que Deus faz tão pouco caso da nossa espécie que nem ao menos se digna a explicar por quê.
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O único mérito da sociologia, a meu ver, foi ter impulsionado o comércio de boinas.
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O diabo não é páreo para Deus. Trata-se de uma criatura ainda muito humanizada. Em termos de mal absoluto, aposto mais nos vilões de telenovela.
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Deus está em tudo, é verdade. Mas confesso que gosto mais d’Ele quando vem em cápsulas de 20 mg de fluoxetina.
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Não é que Deus não exista. Você é que jejuou pouco.
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Sou agnóstico, com alguma — pouca — propensão à crença. Isso, se a televisão estiver desligada.
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Não tenho aptidão ou habilidade para coisa alguma. Qualquer dia, em nome da sobrevivência, serei forçado a abraçar a carreira de artista plástico.
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O mínimo que se espera numa relação é reciprocidade. Eu até acreditava em Deus. Mas que posso fazer se ele é ateu?